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A IDENTIDADE LUTERANA FRENTE AO CALVINISMO

Paulo W. Buss

Observação preliminar. No convite que recebi do Presidente da IELB, o tema da
minha palestra está formulado da seguinte maneira: “A Identidade Luterana Frente a Outras
Teologias (calvinismo e arminianismo)” Optei por me dedicar mais à comparação das
posições luterana e calvinista, não porque a posição arminiana não seja importante ou não
ofereça risco à identidade luterana, mas apenas por consideração ao tempo disponível.
Para começar, cito duas avaliações diametralmente opostas entre si com relação ao
calvinismo.
Um dos principais nomes do calvinismo no final do século 19 e início do século 20 foi
o teólogo e filósofo holandês Abraham Kuyper. Para ele, o calvinismo representa o suprasumo da teologia e do pensamento cristão. Afirma ele que “o Calvinismo reivindica
incorporar a idéia cristã mais pura e acurada do que poderia fazer o Romanismo e o
Luteranismo.” (Kuyper, 2004, 26). Mais adiante, ele alega: “Lutero nunca desenvolveu seu
pensamento fundamental. E o Protestantismo, tomado em um sentido geral, sem qualquer
diferenciação a mais, ou é uma concepção puramente negativa sem conteúdo, ou é um
nome semelhante ao camaleão que os negadores do Deus-Homem gostam de adotar como
seu escudo. Somente sobre o Calvinismo pode ser dito que consistente e logicamente levou
até o fim as linhas da Reforma, estabeleceu não apenas Igrejas mas também Estados,
colocou sua marca sobre a vida social e pública e assim, no sentido pleno da palavra, criou
para toda a vida do homem um mundo de pensamento inteiramente próprio dele.” (Kuyper,
2004, 199).
A segunda avaliação do calvinismo vem de um homem chamado Stuart Wood. Num
site na internet, ele afirma ter sido pastor reformado por seis anos e que ele chegou “à fé
cristã ortodoxa” quando leu as obras de Lutero. Ele acrescenta que, em quinze anos, ele leu
os 55 volumes das obras de Lutero em inglês. (http://kimriddlebarger.squarespace.com/thelatest-post/2009/2/4/on-the-differences-between-lutheranism-and-calvinism-audio-f.html,
23/03/09). Wood escreveu um artigo que pode ser encontrado na internet com o título
Tirando a máscara do calvinismo (taking the mask off calvinism). Neste artigo, ele se
refere ao espírito anti-cristão e às falsas religiões existentes nos tempos finais e acrescenta:
“Uma dessas religiões que rejeita e destrói o Evangelho é o calvinismo. Neste
escrito, estou falando daquele calvinismo que nega a expiação universal de Cristo.
Por essa razão, Satanás o suscitou e o estabeleceu em suas muitas formas. Seus
erros são sutis, refletindo o profundo ardil e grande poder de nosso antigo inimigo
maligno. As Escrituras descrevem a serpente como “mais sagaz que todos os
animais selváticos” (Gn 3.1). O perigo mortal do calvinismo é que ele se parece tanto
com o cristianismo verdadeiro. Ele é uma falsificação que facilmente pode se passar
por legítimo. De fato, eu nunca teria sabido ou mesmo suspeitado da natureza
venenosa dessa mentira diabólica se não fosse pelos escritos de Martinho Lutero
que me ensinaram a fé e me libertaram do seu terrível laço. Você vê, o calvinismo é
realmente uma religião falsa apesar de sua aparência de defensor da verdade
bíblica. É uma religião derivada da razão humana depravada e não aquela religião

verdadeira que pertence à palavra de Deus e á fé como de uma criança”. (Stuart
Wood, Taking the mask off Calvinism1.
http://arlomax.googlepages.com/takingthemaskoffcalvinism%3Athedangerofhum, p. 2, 23/03/2009)

Ambos os autores reconhecem que existe uma diferença entre luteranismo e
calvinismo. Mas, como eu disse antes, são duas posições diametralmente opostas entre si.
Qual delas é correta e verdadeira? Ou existe uma terceira alternativa?
Na era ecumênica em que vivemos, cobra-se, muitas vezes, uma postura que evite o
confronto a todo custo. Até o simples mencionar de diferenças existentes é visto com
desagrado pela opinião dominante. Mas, como nos lembra o padre e sociólogo americano
Andrew Greeley, deixar de falar do que é diferente não elimina a diferença que de fato
existe. Até mesmo ardorosos defensores do ecumenismo defendem a idéia de que só se
pode esperar um diálogo frutífero entre pessoas ou grupos com opiniões diferentes quando
se põe as cartas na mesa, ou seja, quando não se esconde as posições divergentes.
Hermann Sasse2 adverte: “O Espírito Santo, o Espírito da verdade, nunca está
presente onde são contadas mentiras. Realmente, há mais unidade de igreja onde cristãos
de diferentes confissões estabelecem de forma honrada que eles não tem a mesma
compreensão do evangelho do que onde o doloroso fato da divisão confessional é
escondido atrás de uma mentira piedosa” (Sasse, 1997, 9).
Nosso objetivo é identificar as diferenças para, por um lado, reafirmar nossa
identidade, advertir sobre o perigo de, até imperceptivelmente, assimilarmos doutrinas anti1

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Todas as traduções incluídas neste texto são do próprio autor.

Hermann Otto Erich Sasse (1895-1976) recebeu uma educação teológica liberal em Berlim. Só mais
tarde, o estudo da teologia de Lutero, das Confissões Luteranas e da ortodoxia luterana o conduziu a
uma compreensão correta da Escritura Sagrada. Foi pastor em Berlim por treze anos. Em 1933, foi
chamado para ser professor de História da Igreja e Dogmática na Universidade de Erlangen. Se opôs
ao nazismo e ao unionismo que não distinguia entre a teologia luterana e reformada e se tornou um
ardoroso defensor do luteranismo confessional. Após a 2º Guerra Mundial, percebendo que lhe era
impossível permanecer como membro da igreja alemã que promovia o unionismo, aceitou, em 1949,
um chamado da Igreja Luterana da Austrália para ser professor no Seminário de Adelaide. Lá
permaneceu até sua aposentadoria em 1965. Sasse participou ativamente do movimento ecumênico
tanto no movimento Fé e Ordem como também no trabalho da Convenção Luterana Mundial que,
posteriormente, veio a ser a Federação Luterana Mundial. Sempre defendeu a lealdade às
Confissões luteranas e repudiou um ecumenismo que procura a unidade às custas da verdade.
Sasse foi um escritor prolífico e de seus muitos escritos, pelo menos, os seguintes foram traduzidos
para o português: “Igrejas confessionais no movimento ecumênico com referência especial à
Federação Luterana Mundial”, Igreja Luterana, 30, nº 1 e 2 (1969); Isto é o Meu corpo: A luta de
Lutero em defesa da presença real no sacramento do altar. Porto Alegre: Concórdia, 1970; e Aqui
nos firmamos: Natureza e caráter da fé luterana. Trad.Leandro Daniel Hübner. Canoas: Editora da
ULBRA, 2008. Nesta última obra, ele delineia claramente a incompatibilidade entre a teologia
luterana e a reformada. Ao citarmos Sasse repetidamente nesta palestra, o fazemos consciente de
que o contexto em que nos encontramos é diferente do contexto em que Sasse viveu e escreveu.
Não obstante, o perigo do unionismo e a tentação de sacrificar a verdade da palavra de Deus com o
objetivo de conquistar uma paz externa entre denominações com teologias diversas continua tão
presente hoje como no passado. Da mesma forma, permanece a necessidade ecumênica de
testemunhar ao mundo a verdade do evangelho autêntico de Cristo em oposição a um “ecumenismo
festivo”.

de que tipo. não é isso o que interessa? Não é o suficiente? Satis est? Ou estarão em jogo aqui artigos fundamentais. exegeses diversas e que. Pessoas que se encontram neste nível. Mais adiante. o inspirador de uma ideologia. Esse é o nível de um certo tipo de “ecumenismo interdenominacional”. declaram haver “cristãos anônimos” em todas as religiões ou até fora delas. Aceita-se como irmãs igrejas que tem hermenêuticas diferentes. alicerces da fé? Antes de mais nada. precisamos situar as diferenças entre luteranismo e calvinismo de maneira genérica dentro do grande contexto religioso em geral. Todos os que declaram crer em Cristo são considerados irmãos na fé. O primeiro nível é o do “Religioso Genérico”.9). para outros. pecadores manifestos”. ao lado dos piedosos. . Será que a diferença entre luteranos e calvinistas começa neste nível? 3.VIII diz que. Será que a diferença entre luteranos e calvinistas começa neste nível? 4. também. iremos tratar de diferenças em relação a doutrinas específicas.escriturísticas e. portanto. contentam-se em afirmar: “O importante é pertencer a uma religião seja ela qual for. O terceiro nível é o dos “que crêem em Cristo”. Este é o nível dos que. O quarto nível é o dos “que confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador”. No contexto religioso geral. se encontram na igreja “falsos cristãos e hipócritas. isso equivale a considerá-lo um grande mestre da ética. (Tt 1. O segundo problema é determinar o que é “crer em Cristo”. Para muitos. art. consciente ou inconscientemente. grau e tamanho de diferenças estamos falando? Se todos cremos em Cristo para a salvação. Mas. É preciso distinguir entre a fides qua (a fé que crê—oculta no coração) e a fides quae (a doutrina que se crê). como um salvador. A Confissãode Augsburgo (CA).” “Deus é um só”. defendem o macroecumenismo e os universalistas que. O primeiro problema que esse nível coloca é como saber quem de fato crê em Cristo. Será que a diferença entre luteranos e calvinistas começa neste nível? 2. “Todas as religiões são boas porque todas defendem e promovem o bem e condenam o mal”. chegam a conclusões divergentes sobre doutrinas e práticas da fé. Nesse nível se afirma: “Todos os que se declaram cristãos e aceitam a Bíblia como um livro sagrado são cristãos e irmãos na fé”. para conclamarmos a todos a serem fiéis ao que a Escritura exige de nós quando preconiza que o pastor deve ter “poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem”. O segundo nível é do “Cristão Genérico”. inclusive. Este é o nível mais genérico de identificação da fé. para outros ainda. deparamos com vários níveis de identificação da fé religiosa. 1.

Também neste nível restam perguntas a serem feitas.” (Schaeffer. Jesus diz: “Em vão me adoram ensinando doutrinas que são preceitos de homens. bíblico. em seu livro A morte da razão. Mas não se lhe empresta sentido racional. isto sim. lamenta o abuso a que o nome de Jesus está exposto ao ser usado como mero símbolo sem conteúdo definido. ele afirma que na religiosidade popular latino-americana existem tantos cristos quantas virgens diferentes. a palavra está sendo empregada para ensinar exatamente o oposto daquilo que Jesus ensinou. E tal paz e concórdia nem teriam estabilidade. 1974. El otro Cristo español. pela sua morte vicária. no subtítulo ‘Jesus. Declara a Confissão de Augsburgo: “Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. Rodolfo Blank. espiritismo ou da Bíblia. a bandeira indefinida’. Diz ele: “Cheguei ao ponto em que. digo-o com tristeza. através do qual se possa testá-lo e. recorre à expressão “Cristo-paganismo” para se referir à mistura de cerimônias e crenças pagãs précolombianas com as doutrinas católico-romanas na América Latina.semi-pelagianismo. Outra questão fundamental é: Como Jesus nos salva? Há uma diferença enorme se a resposta vem do pelagianismo. 1983. Apresenta 7 tipos (idéias) diferentes de Cristo . O quinto nível é o da unidade na confissão da fé. amigos e inimigos.” (CA. nos livra dos pecados e da condenação eterna. Muito menos ainda propendemos a enfeitar e encobrir falsificação da doutrina pura e erros manifestos e condenados. receio mais este vocábulo do que quase qualquer outro no mundo atual. 31). aquela unidade que preserva incólume a honra de Deus. porque.9) O Jesus Salvador proposto na Escritura é aquele que. dessa forma. Ela afirma na Declaração Sólida (DS): "Todos. claramente podem depreender de nossa explanação que não é propósito nosso ceder algo da eterna e imutável verdade de Deus (nem está em nosso poder fazê-lo) por amor da paz. A unidade pela qual nutrimos cordial desejo e amor e que anelamos promover. 89. porquanto adversam a verdade e visam a suprimi-la. nada renuncia da . 1996. Juan Mackay. Quem é Jesus Cristo? [Cf. Quem é Jesus Cristo no Brasil. (Blank. p. ASTE. 90)]. ouvindo a palavra ‘Jesus’—que para mim se reveste de tanto significado por causa da Pessoa do Jesus histórico e Sua obra—fico a escutar cuidadosamente. da tranquilidade e da unidade temporais. 77). de nossa parte. Teologia y Misión en América Latina. estando. é. O termo é usado hoje em dia como um emblema sem conteúdo a que se convida nossa geração a seguir. sinceramente dispostos a empenhar tudo o que estiver em nós para fazê-la avançar. Baseando-se em Dussel. Será que a diferença entre luteranos e calvinistas começa neste nível? 5. Francis Schaeffer. sinergismo. A Fórmula de Concórdia (FC) se propôs a reafirmar e explicitar o conteúdo da CA.” (Mt 15. socinianismo. VII. Livro de Concórdia. propõe um Cristo vivo diferente do Cristo morto da religiosidade popular.

cerimônias litúrgicas e o abandono de velas. os luteranos são parte da igreja evangélica na medida em que eles estão a caminho em direção à integralização da Reforma. Hermann Sasse lembra que. DS. Mas. talares. os luteranos são acusados de. 1983. “para os reformados. 1987. príncipes alemães atraídos pelo calvinismo sentiram-se autorizados a forçar a população luterana de seus territórios a aderirem à fé reformada. . Em outra obra. Lewis Spitz explica como esse nome passou a designar especialmente os seguidores de Calvino: “Em uma reunião com o rei Carlos IX em 1561 os calvinistas reivindicaram o nome “reformado” para sua própria igreja. (Sasse. conduz os pobres pecadores ao verdadeiro e genuíno arrependimento. 48). As igrejas reformadas ou calvinistas tem sua origem na reforma suiça de Zwínglio (1484-1531) e Calvino (1509-1564). o nome “reformado” se referia a todos os que haviam deixado a igreja Católica Romana na época da Reforma. Pela adoção deste nome desejavam indicar que seu método de reformar a igreja era mais completo que o de Lutero. pois ensinou de forma diversa depois disso.” (Spitz. Consideravam suas doutrinas distintivas. e destarte os justifica e lhes dá a eterna salvação pelo mérito de Cristo somente" (FC. erige-os pela fé. o culpado de perpetuar a divisão de boa parte da cristandade foi Lutero.divina verdade do santo evangelho. Mas. redigido por Lutero. p. 20)3. Este é acusado de ter sido leviano ao assinar o documento final do encontro. 1982. Sasse diz que. 1997. da ênfase unilateral na fé em detrimento da obediência. Ele é que teria sido obstinado e inflexível. de que os luteranos ainda ficaram com um pé no catolicismo e que eles precisam de uma mãozinha dos reformados para completarem a reforma. entre outras coisas” (Sasse. Confissões de fé Reformadas 3 Sasse está sendo citado aqui a partir da versão inglesa de sua obra simplesmente porque era esse o texto que o autor tinha à mão ao elaborar a palestra. repetirem a atitude de Lutero. XI 95. baseados nessa idéia. 678). 47) Um episódio emblemático do relacionamento entre luteranos e reformados aconteceu no Colóquio de Marburgo de 1529 quando Lutero se recusou a estender a mão fraternal a Zwínglio. seguidamente. Livro de Concórdia. avigora-os na nova obediência. por exemplo. vestes litúrgicas e coisas semelhantes. Inicialmente. é importante verificar a origem histórica da divisão. ajudar os luteranos os luteranos a se livrar da doutrina da Presença Real na Ceia. Será que a diferença entre luteranos e calvinistas começa neste nível? ASPECTOS HISTÓRICOS: A ORIGEM DO CALVINISMO E DO ARMINIANISMO Antes de falarmos de diferenças doutrinárias. 96. Depois disso. como complementos indispensáveis às reformas de Lutero. É tarefa dos reformados ajudar os luteranos nesse aspecto. Os reformados (baseados no princípio Ecclesia semper reformanda) “avançaram” e aguardam que os luteranos “retardatários”. segundo os reformados. os luteranos tem dificuldades para se desvencilhar do sacramentalismo medieval. para muitos. os alcancem e se juntem a eles. coisa nenhuma concede ao mínimo erro. bem como a abolição de certos ritos.

p. (Pelikan. Livro de Concórdia.1549 – Consensus Tigurinus (Consenso de Zurique: entre Genebra e Zurique referente à doutrina dos Sacramentos) . 2003. que apresenta esta lista. A Confissão Belga de 1561. Os Trinta e Nove Artigos de Fé da Igreja da Inglaterra de 1571. 636. Outros documentos importantes que apresentam a fé reformada são as seguintes: .1541 – Catechismus ecclesiae Genevensis . por sua vez. . A [Segunda] Confissão Boêmia de 1575. não há uniformidade confessional entre os reformados. as diferentes igrejas reformadas podem ser consideradas primas de primeiro grau mas não irmãs gêmeas. 468-9). Jaroslav Pelikan. Obra dogmática. com maior ou menor autoridade e que surgiram em diferentes países e culturas. 1ª edição em francês. É claro que também há diversidade confessional entre os .1536 – Institutio Christianae Religionis (As Institututas de Calvino). A Primeira Confissão Helvética de 1536. O Catecismo de Heidelberg de 1563. A [Primeira] Confissão dos Escoceses de 1560. Por isso. por ordem cronológica: A [Primeira] Confissão Boêmia de 1535. 2ª edição em 1539. 2003. (Pelikan.1551 – Consensus Genevensis (Defesa da predestinação absoluta) . Os reformados. acrescenta que apenas algumas poucas afirmações. As principais confissões reformadas são as seguintes. adquiriram uma posição transnacional ou mesmo internacional. A [Segunda] Confissão dos Escoceses de 1581. A Segunda Confissão Helvética de 1566.1581 – Admonitio Neostadiensis (“obra fundamental da crítica reformada à cristologia da FC”. Pergunte a um luterano instruído quais são as Confissões de sua igreja e ele vai se referir aos documentos contidos no Livro de Concórdia. 468). como os Cânones do Sínodo de Dort (1619). não estranhe se os reformados que você conhece não são exatamente como os descritos nesta palestra. 1540. Os Artigos Irlandeses de Religião de 1615. nota 656) É preciso relembrar.O conceito “confessionalidade” tem um significado diferente para luteranos e reformados. tem muitas confissões de fé. 1983. Em consequência disso.

nenhum deles realmente desfruta desse perdão de pecados exceto o crente . . . todavia. . 2005. 4. de modo que obteve para todos eles [. crerão em seu Filho Jesus. essa destituição deve ser mais particularmente determinada com base na Escritura. mas é necessário que ele seja nascido de novo de Deus em Cristo . As idéias do calvinismo extremado teriam sua origem em Agostinho e. não pode pensar. “Essa graça de Deus é o começo. Uns são mais outros menos confessionais. a continuação e o cumprimento de todo o bem.” 3. . . nem da energia de seu livre-arbítrio [. são conhecidos em inglês pelo acróstico TULIP (em português. . . . . 2. pleno poder para [. 2005.” E acrescenta: “Mas no que tange ao modo da operação dessa graça. entre os reformados houve maior diversidade desde o início e. 2005. Os cinco pontos armininianos podem ser assim resumidos: (Geisler. sem a graça antecedente ou assistente. querer ou fazer qualquer coisa que seja verdadeiramente boa (tal como a fé salvadora eminentemente é). Os famosos cinco pontos dos Cânones de Dort. . desejar ou fazer o bem . nos tempos modernos.]mas. .luteranos. 63). por intermédio da graça do Espírito Santo. em Teodoro Beza. só havia confissões de fé locais. (Geisler. [. .” 5. 63). 2005. Cristo “morreu por todos os homens e em favor de cada um. 1618-1619.118) .] ganhar a vitória. Deus elege com base em seu “propósito eterno e imutável” somente “os que.] a redenção e o perdão dos pecados. . referentes à doutrina da salvação.] têm. . ela não é irresistível . . . mesmo a esse grau. . seguidor de Calvino que formulou uma confissão calvinista no Sínodo de Dort. Mas. antes de podermos ensiná-lo com plena persuasão mental. desse modo. .] de se tornar destituídos da graça.] pode de si mesmo e por si mesmo pensar. O armininianismo toma seu nome de Jacó Armínio. “Os que são incorporados a Cristo por uma fé verdadeira [. . e que o próprio homem regenerado. um teólogo reformado holandês que expressou sua oposição à idéia da predestinação absoluta no livro Remonstrance (Protesto) em 1610. TELIP): Total depravação Eleição incondicional Limitação da expiação Irresistibilidade da graça Perseverança dos santos Estes cinco pontos foram elaborados em resposta ao Protesto Arminiano de 1610. . se são capazes [. inicialmente. (Geisler. Norman Geisler faz uma distinção entre o calvinismo extremado e o calvinismo moderado. (Geisler.” Ele também deseja “deixar o incorrigível e incrédulo em pecado e debaixo de ira”. despertadora e cooperadora. Para ele “Calvinista extremado é alguém que é mais calvinista que João Calvino”.118) 1. “O ser humano não possui graça salvadora de si mesmo.

ele próprio afirma: “Denominamos predestinação o conselho eterno de Deus pelo qual Ele determinou o que desejava fazer com cada ser humano. 1982. a graça deve ser recebida para ser eficaz. uma condição para o . 246). 2005. mas ordenou uns para a vida eterna e os demais para a condenação eterna. Isto é. acrescenta-se mais uma família teológica ao Protestantismo que já estava dividido em luteranismo. 151). a graça justificadora de Deus trabalha cooperativamente.” (Apud.De forma mais abreviada. mas há uma condição para que ela seja recebida—a fé. apud Geisler. 223). 2. 2005. apud Costa.” (João Calvino. . e. a partir daí. 5. 151). 276). dizemos que foi predestinado para a vida ou para a morte. Cristo morreu por toda humanidade e não só pelos eleitos. O homem coopera em sua conversão pelo livre arbítrio. “receber a Cristo . 2005. Para ele. o restante dos homens. 3. O calvinismo “extremado” tem. As Institutas. Embora existam algumas diferenças importantes entre os dois. A Confissão de Fé de Westminster (1648) declara: “Assim como Deus destinou os eleitos para a glória . para louvor de sua gloriosa justiça. 4. “elas não negam as similaridades” (Geisler. os calvinistas moderados e os arminianos moderados “representam a grande maioria da cristandade” (Geisler. anabatismo e calvinismo. 2005. Embora autores como Geisler façam um enorme esforço para desvincular Calvino dessa posição radical. conforme a finalidade para a qual o homem foi criado. Afirma Geisler: “A graça de Deus opera sinergicamente com o livre-arbítrio. . Para Geisler. A fé é précondição para se receber o dom da salvação” (Geisler. O calvinismo moderado procura estabelecer um meio termo entre o calvinismo extremado e o arminianismo. 2006. envolve um ato livre da vontade” (67). III. no centro de sua doutrina da salvação. III. não operativamente. Spitz. Em outras palavras. Geisler compara a posição do calvinismo extremado e moderado com relação aos cinco pontos calvinistas da seguinte forma: Os cinco pontos Calvinismo extremado Calvinismo moderado Depravação total Intensiva (destrutiva) Extensiva (corruptora) Eleição incodicional (sic) Nenhuma condição para Deus ou para o homem Nenhuma condição para Deus. O homem pode cair da graça divina. a afirmação da dupla predestinação e a limitação da redenção que mantém que Cristo morreu só pelos eleitos. 2006. Geisler é muito enfático nesse ponto. O ponto de maior concordância parece ser o sinergismo. O homem pode resistir à graça divina. foi Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus pecados” (art. . Assim. Deus na eternidade predestinou à vida eterna aqueles que previu que permaneceriam firmes na fé até seu fim. 59) O arminianismo foi condenado no Sínodo de Dort e. os cinco pontos arminianos são assim resumidos: “1. “existe algo que todos podem e devem fazer” (73). Não há quaisquer condições para que a graça seja dada. . 8. Porque Ele não criou todos em igual condição. para receber a salvação.

2005. Na teologia luterana é o pecado que separou o homem de Deus. uma das primeiras coisas que lhe deve vir à mente é a soberania divina. Esse controle absoluto de todas as coisas é chamado soberania de Deus” (Geisler. Karl Barth fala de Deus como o “totalmente outro”. glória de Deus. conhece todas as coisas e pode todas as coisas está também no controle de todas as coisas. W. LUTERANISMO E CALVINISMO: COMPARAÇÃO DE ALGUMAS DOUTRINAS 1. David Scaer chama atenção para o fato de que o princípio . está além de todas as coisas.” (Geisler. Tozer apud. 134) Summa summarum. sustenta todas as coisas. Norman Geisler explica como eles o entendem: “Quando alguém que está completamente familiarizado com a Bíblia reflete a respeito de Deus. há um abismo imenso entre a grandiosidade do Deus criador e de sua pequena criatura humana. O conceito da transcendência de Deus já ressaltado por Calvino.homem (fé) Expiação limitada Limitada na extensão (somente para os eleitos) Limitada no resultado (mas para todas as pessoas) Graça irresistível Em sentido coercitivo (contra Em sentido persuasivo (de a vontade do homem) acordo com a vontade do homem Perseverança dos santos Nenhum dos eleitos morrerá em pecado Nenhum eleito será perdido (memso (sic) que morra em pecado) (Geisler. Como eles definem a soberania de Deus? Ainda segundo Geisler: “Um Deus que existe antes de todas as coisas.2005. 2005. continua presente nos teólogos calvinistas mais recentes. 2005. os “moderados” e os arminianos com o sinergismo. 11).DEUS “O que nos vem à mente quando pensamos a respeito de Deus é a coisa mais importante a respeito de nós mesmos” (A. recebem grande destaque no calvinismo. Geisler. 2005. o abismo existe desde a criação. para a teologia reformada. tanto os calvinistas extremados. Calvinistas fazem questão de afirmar que sua teologia é teocêntrica. 11). mas há uma condição para que ela seja recebida—a fé” (Geisler. quanto os moderados e os arminianos dão uma resposta racional à questão proposta pela crux theologorum: Por que alguns se salvam e outros não? Os calvinistas extremados respondem com a dupla predestinação. 15). assim como a doutrina da justificação é o eixo central da teologia luterana. transcendência de Deus. Os termos soberania de Deus. Para Calvino. O conceito da soberania divina torna-se um eixo central na teologia calvinista. 276). Mesmo os calvinistas “moderados” não escapam do “aliquid in homine” ao afirmarem: “Não há quaisquer condições para que a graça seja dada.

se levarem suas premissas até o fim de forma lógica e honesta. 1989. o abismo entre Deus e o homem é superado apenas de forma incompleta na encarnação e de forma alguma nos sacramentos. como entendida por muitos calvinistas. Para promover a “glória de Deus”. Esse ódio é de negação ou de privação. Aí toda a Escritura me mostrou uma face completamente diferente.filosófico finitum non est capax infiniti empregado na Cristologia calvinista acaba por trazer uma enorme dificuldade para a totalidade de sua teologia. Comecei a entender que o sentido é o seguinte: Através do evangelho é revelada a justiça de Deus.13 diz que Deus odeia os não eleitos. Lutero também afirma que o conceito de Deus é fundamental para a vida do crente e da igreja. etc). 158). blue laws. Norman Geisler argumenta que os calvinistas extremados. ele ficara intrigado e perturbado com o texto de Rm 1. interna do Espírito Santo no coração do homem serve de ponte que conecta o abismo entre Deus e o homem”. mas ele teimava em continuar refletindo sobre o texto. 17: “a justiça de Deus se revela no evangelho”. porque nega a eleição. em outros escritos. Em seu comentário sobre Gênesis. ‘sabedoria de Deus’—pela qual ele . 158). Pois. 28). e entrei pelos portões abertos do próprio paraíso.” Este conceito de Deus impedia que Lutero entendesse o conceito bíblico “justiça de Deus”. a operação imediata. “Aí Deus teve pena de mim. 264). ao contrário. Ele mesmo explica: “Como se não bastasse que os míseros pecadores. e ameaçá-los com sua justiça e sua ira também através do evangelho?” Seu conceito falso sobre a justiça de Deus o deixava furioso e confuso. Aí passei a compreender a justiça de Deus como sendo uma justiça pela qual o justo vive através da dádiva de Deus. mas tem um conteúdo positivo. Deixemos o próprio Lutero falar sobre como ele se sentia em relação a esse deus: “Eu não amava o Deus justo. Scaer conclui: “Na teologia reformada. porque Deus deseja que alguns não possuam a vida eterna (Ames apud Geisler. através da qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé. Dia e noite eu andava meditativo. como está escrito: ‘O justo vive por fé’. A idéia de Deus que lhe foi passada pelos seus mestres e superiores no mosteiro era a de um Deus soberano e justo que exige obediência e justiça total do homem. eu o odiava.” (Apud. como está escrito: o justo vive por fé’. ele afirma: “Antes de tudo. E aquilo que é menos que supremamente bom não é digno de adoração. Fui passando em revista a Escritura na medida em que a conhecia de memória. Então uma verdadeira reforma e estabelecimento de igrejas pode ser instituída sobre esta base. visto que adorar é atribuir dignidade ao objeto adorado” (Geisler. 2000. caso Serveto. a passiva. 2005. Lutero experimentou em sua própria vida como uma imagem falsa de Deus pode ser terrível e até conduzir ao desespero. precisamos ter a verdadeira doutrina de Deus. Wenthe. Geisler comenta: “Um Deus que ama parcialmente é menos que um Deus supremamente bom. 2005. estivessem oprimidos por toda sorte de infelicidade através da lei do decálogo—deveria Deus ainda amontoar aflição sobre aflição através do evangelho. perdidos para toda a eternidade por causa do pecado original. e também em outras palavras encontrei as coisas de forma análoga: ‘Obra de Deus’ significa a obra que Deus opera em nós. também. da fé. Especialmente. isto é. ‘virtude de Deus’—pela qual ele nos faz poderosos. que pune os pecadores. ou seja. pode facilmente conduzir à doutrina da dupla predestinação. até que por fim observei a relação entre as palavras: ‘A justiça de Deus é nele [no evangelho] revelada. Geisler cita o “calvinista extremado” William Ames: “Romanos 9. calvinistas muitas vezes foram bastante agressivos e pouco tolerantes para com os que não concordam com eles. lei seca nos Estados Unidos. Do crente se exigia que cumprisse a vontade desse deus e que o amasse de forma total e irrestrita. nesse caso. Então me senti como que renascido. (Ex: Anticatolicismo militante. Podemos ver isso em sua explicação do 1º mandamento e do Credo Cristão nos catecismos e. (Scaer. A noção da soberania de Deus. concluirão que Deus não é todo-amoroso porque ele ama somente os eleitos.

pela exegese. seu nome. da própria Escritura. pode-se dizer que Lutero é mais Cristocêntrico do que Teocêntrico. em Carambeí. PR. o próprio Jeová. 120). da Cristologia e da Santa Ceia”. estão a doutrina da predestinação. transcendência e justiça de Deus. afirma (II: 3. 4 É importante salientar que a presente pesquisa não incluiu um estudo sobre a posição doutrinária específica das Igrejas Evangélicas Reformadas do Brasil (IERs). . no dia 17 de abril de 1993. 30-31) Portanto. e. critica a posição luterana de que o centro da revelação é o Evangelho ou a doutrina da justificação do pecador mediante a fé. ‘salvação de Deus’. 2002. ‘glória de Deus’” (Lutero. (Boehme. o conceito de Lutero tem como foco central a misericórdia e graça de Deus em Cristo. sua aliança com os homens. com certeza.2): “Jesus Redentor. 2002. Calvino. Mas. a fé é um dom de Deus que recebe a justiça de Cristo. além de outras. Este conteúdo fundamental. Alguns dizem que essa identificação se originou com Heinrich Bullinger e sua noção do pacto bilateral. glória. da satisfação vicária de Cristo. 18). Há doutrinas que precisam de diálogo e aprofundamento bíblico e confessional. 19ª). 6. que se o conceito calvinista de Deus se concentra na soberania. Hino Castelo Forte (165. portanto. e a obediência da fé. pois. Neste sentido. 1984. Para a teologia luterana. 1987. em outras afirmaçoes ele põe tanta ênfase na fé como obediência que alguns concluem que ele ensina que fé é obediência. (Boehme.nos torna sábios.outros afirmam que a noção já está presente em Calvino. Em conclusão: Crêem os reformados o mesmo que nós luteranos sobre quem e como é Deus? Não sabemos. 4): “3. a imagem de Deus. Mas. seu senhorio.” (Apud Sasse.5 para identificar fé como obediência. FÉ Hermann Sasse mostra como a falta de uma correta distinção entre lei e evangelho no calvinismo conduz também a uma compreensão errônea sobre a fé.9). se esforçou para afirmar claramente que os crentes são salvos pela eleição divina e a obra justificadora de Cristo. Ele é a verdade: ele desoculta Deus (Jo 14. entre as quais. por um lado. 130133). Um Documento Protocolo aprovado pelos representantes oficiais das IERs e da IELB. da Palavra de Deus e da ressurreição. a plenitude da revelação é prejudicada pelo luteranos ao isolar a Lei do Evangelho. Ele considera isso uma ênfase exagerada e acrescenta que o conteúdo da revelação “é fundamentalmente e acima de tudo o próprio Deus. (Cf. Calvino parte de Rm 1. mas também possibilitou que ele passasse a ler toda a Escritura com um novo enfoque. da SS. 4. não apenas o transferiu de uma situação de desespero para uma situação de alegria imensa. do pecado e suas conseqüências. concreto. sua personalidade. Calvino e Reformados posteriores tem uma predileção pela noção de “obediência da fé”. Ele enfatizou a predestinação. a obediência e a aliança e assim plantou as sementes que promoveram a identificação de fé com obediência em calvinistas posteriores.pois outro Deus não há). são diferentes. da justificação pela graça. que se apropria da obediência de Cristo e . a partir disso. Porque a fé que crê (fides qua) está oculta no coração. em sua dogmática. ensinam e confessam os reformados o mesmo que nós luteranos sobre esta doutrina? O enfoque e as ênfases. A mesma coisa vale para ‘força de Deus’. Karl Barth. 1987. que Lutero extraiu. Mas.4 2. Este enfoque não se concentrava mais num Deus exigente mas no Deus que graciosamente concede as suas dádivas que são recebidas pela fé. (Sasse. Jesus Cristo é a revelação de Deus. rende obediência a Deus. Percebe-se. As doutrinas fundamentais primárias em que há grande unanimidade são as doutrinas a respeito da fé salvadora. Trindade.

cumprindo a lei. Por isso. Isso conduz ao sistema puritano de vida. O resultado disso. LEI E EVANGELHO Para Lutero. contém uma mistura de Lei e Evangelho. a identificação de fé e obediência está vinculada à idéia das duas alianças de Deus com os homens: a aliança das obras dada a Adão e Eva e a aliança da graça em Cristo. 129) Transformar a fé em obediência. é fazer do evangelho uma nova lei. no calvinismo em geral. continua Sasse. A Lei destrói. embora a igreja precisa pregar a lei –em função do evangelho—a única coisa essencial à sua natureza como a igreja de Cristo é que ela é o lugar. Ela exige fé para a obtenção da salvação. Deus exigia obediência perfeita e recompensava esta obediência. Por isso. Deus. 2002. Para os calvinistas. Lei e Evangelho são ambos parte da obra própria de Cristo. Mas. ensinam que a pregação da lei é a obra “estranha” e a pregação do evangelho a obra “própria” de Cristo. A diferença está no fato de que os reformados acreditam que tanto a lei quanto o evangelho fazem parte da obra própria de Cristo. por outro lado. 1979. portanto são funções essenciais da igreja. a igreja prega o Evangelho. o terceiro uso da Lei predomina. após a queda. (Boehme. estabeleceu uma aliança de graça com o homem. Wenthe.” (Asendorf. Em consequência. foi acrescentada a ela. os calvinistas não conseguem distinguir Lei e Evangelho. Os luteranos o consideram o conteúdo completo do Evangelho. 3. conduz à morte e revela o pecado. 19). os homens não mais podiam ser justificados de acordo com a aliança das obras. Elas são como dois trilhos de trem que se encontram lado a lado e parecem ir na mesma direção.. por exemplo. [Cf. porém. A função da Lei é secundária e auxiliar em relação ao Evangelho. JUSTIFICAÇÃO E SANTIFICAÇÃO Embora à primeira vista se possa ter a impressão de que luteranos e reformados ensinam a mesma coisa sobre a justificação—p. em dogmáticos reformados posteriores.Boehme esclarece que. as diferenças doutrinárias neste tópico só se tornam claras quando se vê suas consequências sobre outras doutrinas. seu caráter forense—vários autores . Os luteranos. Por isso. e Cristo se torna um novo Moisés. até que mais tarde se descobre que elas vão para direções totalmente diferentes. 1987. 21a). (Sasse. 1987. em que se ouve as boas novas do perdão dos pecados por causa de Cristo. Boehme. (Sasse. então. 137. e. o único lugar do mundo. A partir daí. Lá.2) 4. À primeira vista. Ambos concordam que o principal artigo da fé cristã é o perdão dos pecados. nos dois Testamentos. 263-4] Hermann Sasse afirma que tanto luteranos quanto reformados querem distinguir Lei e Evangelho e também indicar a relação que existe entre os dois. 2002. Quando a lei toma o lugar do evangelho e a justificação deixa de ser a doutrina central do cristianismo. A condição da aliança é a mesma no Antigo e no Novo Testamento. Ou seja. o Evangelho se torna uma nova Lei. enquanto que os reformados o consideram o conteúdo principal do Evangelho. a igreja é transformada de uma congregação de crentes numa congregação de crentes e obedientes. surgiu um “novo tipo de fanatismo sob o título do que Karl Barth e seus discípulos chamavam o ‘governo real de Cristo’ em lugar da distinção dos dois reinos de Lutero. esta aliança não substituiu a aliança das obras. ex. a obrigação da obediência permanece enquanto o homem é criatura de Deus. Asendorf cita como exemplo o que aconteceu na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial. a aliança da graça. Em Calvino. Na aliança das obras. Mas. é uma tendência ao legalismo. estas diferenças na visão da relação de lei e evangelho podem parecer insignificantes. Ulrich Asendorf—um destacado teólogo luterano da Alemanha—salienta que Lutero ensina o uso predominante da Lei como espelho.

” (Ap. e só ela abre a porta para a Bíblia inteira. . “é quase impossível manter a justificação no centro da atenção uma vez que um ato passado não permanece sendo a maior necessidade do crente.” (Brinsmead. que ocorre uma única vez na vida e que é seguido pela santificação: Justificação Final Santificação Nesse modelo. diz Sasse.Brinsmead procurou visualizar a diferença entre luteranos. Somos salvos por causa da morte e ressurreição de Cristo. ela não consegue assegurar para ela um lugar central no seu sistema teológico completo. IV. o ponto de partida e o centro de toda a teologia é a justificação. e o papa. 145) Para Lutero e o luteranismo confessional. não é mais a justificação que mostra só ela “o correto conhecimento de Cristo. “Desse artigo a gente não se pode afastar ou fazer alguma concessão. diz Brinsmead. a santificação com a justificação. I. ou seja. 2ª Parte. ainda que se desmoronem céu e terra ou qualquer outra coisa. 1. reformados e arminianos sobre a justificação elaborando três diagramas. as correntes teológicas reformada e arminiana sempre tiveram maior dificuldade para manter a centralidade da justificação do que a corrente luterana.cada um à sua maneira que a justificação não ocupa o mesmo lugar nas duas tradições teológicas e que a justificação e santificação foram distinguidas de maneira diferente nessas tradições. o evangelho da graça de Deus em Cristo. . o diabo e o mundo. 87. 5).concluiram. o diabo e tudo ficarão com a vitória e a razão contra nós” (Artigos de Esmalcalde. Em caso contrário. Robert D. 1912. 1979. Enquanto a lei estiver no mesmo patamar do evangelho. Mesmo que a igreja reformada queira aderir firmemente à doutrina da justificação do pecador por causa de Cristo. Cf. A justificação se torna como um posto de combustível pelo qual se passa apenas uma vez. a obediência com a fé. 2. em Müller. a justificação é considerada um ato estático. . tudo está perdido. 10) . o arrependimento com a absolvição. Sasse 1987. Posição Reformada (Calvinista): No sistema reformado. Para ele. Razão por que devemos estar bem certos disso e não duvidar. pela fé. Sobre esse artigo fundamenta-se tudo o que ensinamos e vivemos contra o papa. sem mérito nosso.

11): Início da Vida Cristã Final da Vida Cristã Justificação ~~~~~~~~~~~~~~ > Santificação . A justificação final no dia do juízo tende a repousar sobre a santificação. 10-11): Justificação Final no Dia do Julgamento Justificação para Pecados do Passado Santificação 3. 1979. que muitas vezes aparece como sendo um estágio superior no processo soteriológico. a justificação é fortemente subordinada à santificação” (Brinsmead. Posição Luterana: “Em contraste com essas duas posições.2. Isso é seguido por santificação. Lutero e as Confissões Luteranas consideram a justificação como uma necessidade presente e contínua do crente. que é sempre um pecador a seus próprios olhos porém está sempre agarrando o veredito justificador de Deus pela fé na justiça de Cristo” (Brinsmead. Nisso. 1979. Posição Arminiana: “O esquema arminiano tende a reduzir a justificação a uma provisão apenas por pecados do passado.

não se entende por que Lutero declara que o artigo da graça justificadora é um artigo difícil. pois ele parece tão fácil para muitos. Isto é difícil—tão difícil que nenhum espírito sectário. para se entender uma determinada passagem é necessário encontrar sua ligação com Cristo. pregação. AE) a justificação é o artigo stantis et cadentis ecclesiae do qual nada se pode ceder “ainda que se desmoronem céu e terra ou qualquer outra coisa”. • Entende todas as doutrinas cristãs. 1899. A razão para a revelação e para a escrita da Bíblia é mostrar Jesus Cristo como nosso Salvador. Walther comenta: “Muitas vezes. a linha que representa a santificação. Este é o objetivo e este é o conteúdo de todo o AT e de todo o NT.” (Walther. na explicação do Salmo 117. Em 1530. 1979. Karl Barth. escola dominical. . Lutero censura aqueles que supõe que o ensino da salvação pela graça sem as obras da lei é tarefa fácil e simples. (Dádiva de Deus→meios da graça→fé). é sua atividade prática por excelência). . por exemplo. Para muitos. A Justificação é o eixo central com o qual todos os demais artigos de fé e toda prática cristã deve estar em conexão assim como os raios de uma roda estão ligados ao eixo. de todo ensino. . portanto. por exemplo. mas que esta apareça como componente necessário das mesmas. não se compreende Lutero. Lutero quer que todas as demais doutrinas sejam tiradas do fundo da doutrina da justificação. Lutero aqui fala de toda a arte e maneira de tratar a obra de Cristo de tal forma que não apenas todas os demais ensinos sejam influenciados pela doutrina da justificação. Mas. (Ver. . o que não flui dali é para ele uma vergonhosa negação de Cristo. Para Lutero e as Confissões Luteranas (CA e Ap 4. diz ele. talvez não seja muito difícil pregar um bom sermão sobre a justificação. pela graça de Deus. e o horizontal entre o cristão e seu próximo). ela sempre é nossa Mestre e nós seus alunos. Todas recebem seu significado a partir do centro: a Justificação. no modelo luterano. etc. o personagem principal de toda Bíblia (e.10-11)5 Católicos Romanos e reformados concordam que o artigo da justificação é um artigo muito importante. (Apud Walther. Para Lutero. Mas eles não concordam que ele seja O artigo mais importante e central de toda teologia cristã. • Entende todo o culto cristão. • Entende toda a vida cristã. Inserimos uma linha ondulada para indicar que a santificação não é estável na vida cristã. Mas. (Veja. ninguém que não tenha o Espírito Santo o consegue jamais fazer. Por isso. sua exposição sobre as duas espécies de justiça onde ele descreve o relacionamento vertical entre Deus e o cristão. mas apresenta altos e baixos à medida em que se desenrola a luta entre o novo e o velho homem (ou o espírito e a carne) no cristão. que nunca se aprende completamente. 5 No gráfico de Brinsmead. do Gênesis ao Apocalipse. 14-15). Católicos Romanos: Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação). Esta é uma arte.(Brinsmead. Cuidar para que isto aconteça é o trabalho principal do pastor. é uma linha reta. Dogmática: luteranos exageram. 74). este artigo determina a maneira como ele: • Lê e entende toda a Bíblia. 1899.

da nova vida em Cristo. . . 1954. mas também o dom do Espírito Santo. La doctrina acerca de la fe: En la Confesión de Augsburgo y documentos ecuménicos. 7 Para uma análise crítica do documento “Justificação Hoje” que resultou do debate em Helsinki. mas exclusivamente da redenção por meio de Cristo. isso significa a um só tempo tirar a Cristo e anulá-lo quando se o prega justamente com a maior exaltação. 2005). que tivesse morrido por pecadores que não abandonam os pecados depois do perdão dos mesmos e levam nova vida. (Watson. . avarento. Por exemplo. na Conferência de Helsinki da Federação Luterana Mundial. Pois Cristo não nos conquistou apenas a graça. “Da liberdade Cristã”. Mas a consequência eles evitam como o diabo: que deveriam falar às pessoas a respeito do terceiro artigo. fornicador. também dos 6 A obra de Watson foi traduzida para o português (Deixa Deus ser Deus. 1979.” (Lutero.. confira: Nestor Beck. outros. . São excelentes pregadores de Páscoa mas escandalosos pregadores de Pentecostes. houve grande dificuldade para definir o que significa a justificação hoje em dia7. Falando da situação atual nos Estados Unidos. Paulo Flor. Nos capítulos 10 e 11 desta obra. Há maior ênfase na santificação. Mas dizem: Escuta! mesmo que sejas adúltero. fornicador. em 1963. evitando de todos os modos expressões como: Escuta! tu queres ser cristão e. etc. Beck examina outros documentos ecumênicos das décadas de 1970 e 1980 e conclui que todos são deficientes em sua definição de fé e justificação. . cap. pois nada pregam a respeito da santificação e vivificação do Espírito Santo. . para que não tenhamos somente perdão dos pecados. és bem-aventurado. Boehme afirma que prevalece uma mistura de lei e evangelho e que. O próprio Watson rebate essa afirmação. mas também superação dos pecados. . 382-383). ensina uma clara distinção entre nossa relação com Deus e a vida eterna (Justificação) e a nossa relação com o próximo e nossa vida neste mundo (Santificação). incluindo luteranos. Ele cita um autor não-luterano que reconhece que entre os evangelicais “não é justificação do ímpio . em geral.. 171)6. a justificação pode ter sido um assunto de extrema importância no século 16 mas hoje ela não tem mais a mesma importância. malicioso. A referência acima é do original inglês apenas porque era essa a versão que o autor tinha à mão ao elaborar o presente texto. não significa isso admitir a premissa e negar a conclusão? Sim. vingativo. pois Cristo cumpriu tudo. grande porca. Trad. continuar sendo adúltero. usurário. O resultado disso se mostra em pesquisas que indicam que a maioria dos cristãos americanos. Confunde-se justificação com regeneração e ignora-se a necessidade do arrependimento. muitos tem dificuldades com o ensino da santificação. avarento ou outro pecador qualquer. desde que creias. na verdade. Querido. . e pregar sempre de forma consoladora a respeito da graça e do perdão dos pecados em Cristo. 10). ao mesmo tempo. Lutero. Canoas: Editora da ULBRA. Textos em que ele explica esta distinção: “Sobre as duas espécies de Justiça”. invejoso. continuam tendo grande dificuldade com a doutrina da justificação pela fé. da rmissão dos pecados e o que mais se pode dizer a respeito do artigo da redenção. Pois acham que não se deve assustar as pessoas nem entristecê-las. Se. Pois semelhante Cristo é nada e não existe em parte alguma. Para muitos estudiosos.” (Donald Bloesch apud Boehme. E tudo é sim e não num mesmo assunto. soberbo. 1992. Não precisas temer a lei. Lutero escreve sobre os antinomistas: “Fazem pregações maravilhosas e (como não o posso imaginar de outra forma) com toda sinceridade a respeito da graça de Cristo. 2005. . da santificação. (Brinsmead. 9. 2002. etc.. Canoas: Editora da ULBRA. Em Dos Concílios e da Igreja. mas a santificação do justo que recebe mais atenção. 21a). por um lado. há uma falta de ênfase no ensino da justificação.Philip Watson cita John Wesley dizendo que Lutero “acertou em cheio” na doutrina da justificação pela fé somente mas foi completamente ignorante e confuso na doutrina da santificação.

de Seu puro beneplácito.7% dos luteranos disseram que “só os que creem em Jesus como seu Salvador podem ir para o céu. por sua vez. 1989. Ep VII. nota 9). que. Há. 1989. ao contrário.9: “porquanto. se alguém ao julgamento de Deus quisesse opor Cristo. quanto o céu da terra” (Apud. nota 532. os luteranos insistem na verdadeira comunhão entre as duas naturezas. é necessário que de nós diste tanto. que é a causa primeira.” (Boehme. DS 8. remontamos à ordenança de Deus. XVII. porém. porém. assim também ele está inteiramente fora e separado dela. (Veja: FC. 57). cantar. Os luteranos afirmam que.” Os reformados. aceitaram a união da natureza humana de Cristo com a pessoa do Logos. 610. não pensamos nem ensinamos que a natureza divina em Cristo sofreu. A Fórmula de Concórdia condena a posição de Calvino expressa no Consensus Tigurinus: “Que o corpo de Cristo está encerrado de tal maneira no céu. 21) 5. por este bendito e consolador artigo sempre se deveria estar alegre na verdadeira fé. após sua encarnação está na sua natureza humana. toda a plenitude da divindade. quando se trata do mérito de Cristo.luteranos (54%). afirma o extra calvinisticum: Assim como o Filho de Deus. Uma verdadeira comunhão das naturezas é negada explicitamente em vários documentos reformados. 2002. a confissão reformada Admonitio Neostadiensis. . A Segunda Confissão Helvética declara: “Portanto. 1983. homem e irmão. acredita que uma pessoa boa pode merecer um lugar no céu. O Consensus Tigurinus declara em relação ao corpo de Cristo que “por ser finito e estar encerrado no céu como seu lugar. ainda está no mundo. por exemplo. louvar e agradecer a Deus Pai por essa misericórdia inefável. CRISTOLOGIA Luteranos e reformados reacenderam as controvérsias cristológicas dos primeiros cinco ou seis séculos da era cristã. a da Santa Ceia. com efeito.” (Calvino. sem desavença e sem dúvidas. ao fazer com que seu Filho amado se tornasse igual a nós. . 26. o enfadonho Satanás provoca tal aborrecimento por meio de . Livro de Concórdia. 1. . singelamente e de Si. porquanto não se achará no homem dignidade que possa ter mérito para com Deus. 32). p. A questão da comunhão das duas naturezas é da mais alta importância na doutrina cristã porque a validade da obra salvadora de Cristo pressupõe a união pessoal e porque esta doutrina se reflete na definião de outras doutrinas como. p. devido à união pessoal. e assim em todo lugar (Apud Scaer. não se estatui nEle [próprio] resida o pincípio [desse mérito]. cf. Lutero escreve em Dos Concílios e da Igreja. mas negaram a comunhão verdadeira das duas naturezas entre si. para que nos adquirisse a salvação. habita corporalmente. devido a essa mesma união. Numa outra pesquisa. não haverá lugar para mérito. 1539. A base para essa negação é o axioma racional: “Finitum non est capax infiniti”. 14 em Livro de Concórdia. 294). nele. Calvino chega ao ponto de afirmar: “Admito. [O] estatuiu [Deus por] Mediador. Nessa linha de raciocínio. Agora. de 1581. Ao negar tal comunhão. que de modo nenhum pode estar presente ao mesmo tempo em muitos ou em todos os lugares da terra onde sua santa ceia é celebrada” (FC. Logo. nota 656). vol. p. 636. a pessoa de Cristo sofreu e que. Scaer. Um texto bíblico chave citado nessa argumentação é Cl 2. sobre a união das duas naturezas em Cristo: “Ó Senhor Deus. Ambos concordam que Jesus Cristo é o Deus-Homem no qual em uma só pessoa estão unidas as naturezas divina e humana. a natureza humana de Cristo se encontra em todo o lugar onde a pessoa de Cristo se encontra. No artigo 8 da Fórmula de Concórdia. II. segundo sua natureza humana. sérias divergências entre os dois grupos sobre modo da união das duas naturezas e sobre a maneira em que atuam para a nossa salvação. 1985. apenas 56. ou que Cristo. p. porquanto .

fora da carne. 1979. em alguns aspectos. Mas. 3). não o de Genebra. Segundo ele. o ensino reformado de que. esse catecismo deve ser entendido como um documento do calvinismo alemão. que na santa ceia nada senão pão e vinho estão presentes e são recebidos oralmente” (FC. b) seu ensino sobre a lei é semelhante à concepção luterana . assim como ele prometeu?” E. o sangue de Deus. para ele.1964. porém. Sasse. como um prato leve e vazio. lembrados da advertência da Fórmula de Concórdia ao distinguir entre sacramentários crassos e sutis e afirmar que estes são “os mais prejudiciais de todos” porque ocultando-se por detrás de palavras especiosas. Sua natureza divina existe fora da humanidade assumida na encarnação. Ursinus era luterano. 374-375). Quando. estamos perdidos. 1979. Somos. Calvino e o Catecismo de Heidelberg ensinam uma cristologia espiritualizada. Mas. Mais adiante. Segundo ele. os calvinistas não conseguem formular o que a encarnação significa. . 152). se desvia das tradições calvinistas comuns e. as questões 47 e 48 do Catecismo de Heidelberg são um “desastre teológico”. mas. Em conclusão: Crêem os reformados o mesmo que nós luteranos sobre a pessoa de Jesus Cristo? Não sabemos. 3).. Ep VII. existe dentro da natureza humana de acordo com a união pessoal. a morte de Deus e “Deus morreu” pesam no prato da balança. infelizmente. fazendo peso. c) a dupla predestinação não é mencionada” (Ibid. Cristo conosco até à consumação do século. assim como o Logos se encarnou no homem. segundo ele mesmo explica. Mas.pessoas arrogantes. mas. caímos no abismo com o nosso prato. que Deus e homem estão unidos em uma pessoa. o sofrimento de Deus. a resposta à pergunta 47 deveria ser um simples ‘sim’. Ele. 1987. não poderia estar sentado no prato a não ser que se tornasse homem igual a nós. A questão 48 afirma que de acordo com sua natureza divina Cristo está presente em todo lugar. graça e Espírito.). ele pode também subir novamente e saltar do prato. (Asendorf. Hermann Sasse explica como a diferença sobre a encarnação se manifestou no assim chamado Extra-Calvinisticum. a ponto de nos impedir e estragar o amor e bendita alegria. ele se apressa em esclarecer que sua crítica a essas questões não significa. este baixa e nós subimos. Deus não pode morrer. ele não está agora na terra. isso é “uma perfeita contradição”. “retêm a mesma crassa opinião anterior. aqui. de acordo com sua divindade.). majestade. para que se possa dizer: Deus morreu. vaidosas e incorrigíveis. assim também ele permaneceu. o catecismo responde: “Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus: de acordo com sua natureza humana. Porque a fé que crê (fides qua) está oculta no coração.” (Apud. poderia promover sutilmente a tendência para o unionismo entre luteranos e reformados” (Ibid. Asendorf adverte que o “Catecismo de Heidelberg oferece riscos aos luteranos na medida em que. estudou em Wittenberg e foi o primeiro dos discípulos de Melanchthon a se converter do luteranismo para o calvinismo. Sasse faz referência ao ensino dessa doutrina no Catecismo de Heidelberg8 que pergunta na questão 47: “Não está. porém. Pois nós cristãos temos que estar cientes do seguinte: quando Deus não está na balança. ensinam e confessam os reformados o mesmo que nós luteranos sobre a pessoa de Jesus 8 O Catecismo de Heidelberg foi escrito por Zacarias Ursinus (1534-1583). oferecer suporte à idéia da Presença Real na Santa Ceia. Para o teólogo reformado Karl Barth. 1992. porém. O que quero dizer é isto: onde não se afirma que Deus morreu por nós. a saber. . (Asendorf. como ressalta Asendorf (1979. “afirmar a posição luterana contra a qual elas [as questões 47 e 48] são dirigidas” (Barth. 3-5). é com razão que se diz:morte de Deus quando morre o homem que se tornou uma só coisa ou uma só pessoa com Deus. ao mesmo tempo. O que Barth quer evitar com isso é. Por isso. por isso. . não obstante. a morte de Deus.” (Lutero. Para Asendorf. ele não está ausente de nós em tempo algum. Pois em sua natureza. 1). No entanto. agora. ele o fez a sua maneira e por isso no Catecismo de Heidelberg estão ausentes algumas das características do calvinismo: “a) o pacto não é mencionado. 77). mas somente um homem. Para Ulrich Asendorf. então.

não se prende à exterioridade. mas não esgota o sentido pleno da fé. mas. Esta teologia nominalista do pacto estava intimamente ligada com a idéia da predestinação. (Boehme. Fé é o canal pelo qual o homem recebe a graça e justiça de Cristo. Zwínglio. 2006. Se a violamos. nós lhe prometemos obediência. na obediência e predestinação encontra suas raízes na teologia nominalista medieval promovida por Guilherme de Occam. Calvino chama os sacramentos de ordenanças. Boehme entende que a ênfase no pacto. Dos nominalistas. III. se havia restado alguma dúvida. também: “O homem crente. apud Costa. Ep. não é uma teologia bilateral mas unilateral. isso às vezes é compreendido assim: “Se você cumpre sua parte no acordo. 254). Calvino e para o calvinismo posterior. 20a). ao ver o sacramento. OS SACRAMENTOS Boehme argumenta que para Calvino. Gabriel Biel e outros. então. 2002. 10. 2002. 2006. com responsabilidades e obrigações de ambas as partes do contrato. A teologia luterana é uma teologia do testamento. 20b). ele vai nos punir” (Boehme. a primeira confissão de fé reformada a apresentar um artigo separado sobre o pacto. a afirmação de Barth deve tê-la eliminado. e não uma teologia do pacto. As confissões luteranas repudiam esta visão de eleição condicionada à partipação humana. “a natureza bilateral do pacto de graça se torna evidente à medida em que seu caráter condicional é enfatizado”. mas que também há em nós uma causa da eleição de Deus. Estes nominalistas afirmavam uma aliança bilateral. Em outras palavras. não como meios que conferem (ou dão) a salvação. 2002. “Obediência é parte da fé. alega Boehme. A teologia reformada se refere aos meios da graça apenas como sinais que apontam para a salvação. Deus justifica sem a ajuda do homem. Deus vai cumprir a sua. com santa consideração. 24. A Fórmula de Concórdia condena como falsa a doutrina que ensina “que não é apenas a misericórdia de Deus e o santíssimo mérito de Cristo. XI. 20a). As Institutas. em nossa obediência. Deus respondia ao comportamento previsto do homem. entre outras coisas. Nela. que começa com Lutero. confirmá-la e certificá-la mais fortemente em nosso interesse. 18b. eleva-se para contemplar os altos . A obra da eleição de Deus é uma “resposta secundária à iniciativa humana”. A Confissão de Westminster é. Esta teologia testamental. Por isso. Nessa. ele vai nos abençoar. Se os seres humanos faziam o melhor que está neles.Cristo? Esta questão já deve ter ficado claro nas citações acima. Se essa interpretação estiver correta. esta teologia do pacto teria fluido para Erasmo. (Boehme. 20). nota 16). 2002. de acordo com Boehme. Calvino diz o seguinte. 6. em virtude da qual Deus nos elegeu para a vida eterna” (FC. os nominalistas enfatizavam mais a justiça de Deus do que sua misericórdia. Se cumprirmos a vontade de Deus. pois o Senhor vê que temos necessidade disto pela ignorância com que julgamos as coisas e pela fraqueza da nossa carne” (João Calvino. os Sacramentos são pactos ou contratos: Deus nos concede sua misericórdia. sobre o sacramento: “Ele é acrescentado à Palavra como um apêndice ordenado para simbolizá-la. 2002.” (Boehme. o que coloca ênfase em nosso fazer. E. Deus os recompesaria com sua graça. mas sim. Esta teologia testamental foi central na descoberta de Lutero do evangelho da graça justificadora de Deus recebida pela fé sem as obras da lei. não deixa de ser uma grande ironia que os reformados—que acusam os luteranos de não terem conseguido se desvencilhar completamente do catolicismo medieval—derivem um de seus conceitos centrais justamente do nominalismo medieval. (Boehme. No dizer de Boehme. 20b). Os calvinistas normalmente dizem que as condições são fé e arrependimento (ou obediência).

ainda mais importante. (Walther. por exemplo. O batismo é o sinal da nova aliança. Assim como o próprio Cristo chamou seus discípulos para segui-lo. 1979. 5). A Escritura ensina. no sentido estrito. Ulrich Asendorf comenta que Lutero menciona. 69). No Batismo. isto é. Comentando esta resposta.” (Asendorf. F. ele quer nos assegurar que somos tão verdadeiramente lavados de nossos pecados espiritualmente como nossos corpos são lavados com água” (Apud. em primeiro lugar no santo batismo e também por meio da absolvição pronunciada pelo pastor ou por um outro cristão. por que o Espírito Santo chama o batismo de água de renascimento e lavar de pecados?” E responde: “Deus não fala dessa maneira sem uma forte razão. a ponte. assim nossos pecados são removidos pelo sangue e Espírito de Cristo. 2006. apud Costa. o caminho. Mas elas erram no ensino sobre os meios da graça da parte de Deus (Gebenmittel). sobre a fé. Elas confessam que Jesus foi morto na cruz para nos salvar. 1983. não vê nenhuma eficáciia no batismo. 101). 10. há um ‘realismo sacramental’. 35-42). perdoa meus pecados’. mas ele não faz nada. Karl Barth diz. diz Asendorf que nele “não se encontra uma única linha sobre a necessidade do batismo. a Santíssima Trindade batiza. Lutero. 1979. Deus promete vir a mim e pronunciar. no batismo nos é dado um símbolo visível dela”. Elas falam do tesouro. instrumento da graça assim como os há no luteranismo” (Asendorf. Elas dizem que preciso ter o Espírito mas não querem me deixar ter acesso a ele (pelos meios da graça). a eficácia do batismo.” (Livro de Concórdia. 375). 1964. . As Pastorais (Tt 3. o ministro é apenas o instrumento” (Asendorf. pelo selo e sinal divino. e então ficar esperando que um anjo venha do céu para me dizer: ‘Teus pecados estão perdoados’. ele não ‘faz’ nada. Barth. não devo me sentar num canto e dizer: ‘Meu Deus. Walther afirma que a maioria das igrejas protestantes ensina corretamente que o homem é salvo somente pela graça. 2006. Mas o Espírito Santo faz algo através do batismo!” (Barth. e dá a salvação eterna a quantos crêem. . 101). nos tiram a chave e a ponte que dá acesso ao tesouro.mistérios ali ocultos conforme a harmonia existente entre a figura carnal e a realidade espiritual” (João Calvino. W. conforme rezam as palavras e promessas de Deus. entre outras coisas: “O batismo não pode se tornar um sujeito. . Pois. Diz Calvino: “É o Espírito de Deus quem nos regenera e nos transforma em novas criaturas. Isto acontece. pergunta pelas dádivas e benefícios do batismo e responde: “Opera a remissão dos pecados. O Catecismo de Heidelberg pergunta na questão 73: “Então. 5) A teologia reformada. . Quem regenera é o Espírito Santo. ou seja. . que sua graça é invisível e oculta. porém. ela distingue entre batismo exterior e batismo interior. mas não nos deixam chegar até ele. apud Costa. mas negam aquilo pelo qual nós o recebemos. Aqui. o meio. diz ele. por outro lado. O batismo é o símbolo visível da graça invisível. “O perdão dos pecados realmente acontece quando a água. Ele não apenas nos ensina pelo batismo que assim como a sujeira do corpo é tirada pela água.5). isto é. Walther ilustra a diferença entre o ensino reformado e luterano com relação ao ensino sobre a absolvição. As Institutas. no Catecismo Menor. Erram também no ensino sobre o meio instrumental da parte do homem (Nehmemittel). não de nós. Tudo é feito pelo Espírito Santo. em primeiro lugar. (João Calvino. por causa de Cristo e não pelas obras da lei. sobre a palavra e os sacramentos. visto. a palavra de Deus e a fé são unidas. 2006. C. como disseram os pais. ele próprio. assim ele o faz conosco por meio do batismo. diz Walther. 1979. 5). Para o calvinismo não há. mas. III. Com relação ao Catecismo de Heidelberg. 1899. “O primeiro passo da vida cristã vem de Deus. 254). não ensina este caráter objetivo do meio da graça. 1964. a absolvição dos meus pecados. que se desejo receber o perdão dos pecados. Por isso. livra da morte e do diabo. . A tradição calvinista .

Lutero. para os calvinistas. A partir disso.” (Asendorf. a mesma postura adotada por esse catecismo em relação ao batismo. 1979. 6). sob o pão e o vinho. dado a nós cristãos para comer e beber. se o espiritualismo predomina no calvinismo. neste caso. “Nada é dito sobre a presença real do corpo e sangue do Senhor neste Sacramento. e céu e terra” (Asendorf. afirma de forma breve e direta: “É o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. 1979. Mas. Não há interesse nos elementos em si. diz que. mas ninguém sabe o que realmente acontece”. Também nas questões 78 e 79 do Catecismo de Heidelberg é dito que o pão e vinho não são o corpo e sangue de Cristo. 5). Masius. 1868. ao contrário. então. sentencia Asendorf. A questão 75 do Catecismo de Heidelberg revela. 1989. o Espírito age numa relação paralela mas não vinculada. os sacramentos não tem nenhum significado real. não relacionada que mencionamos acima. diretamente sobre o coração.” (2 Co 10. Na Santa Ceia.5. Em resumo. “No Catecismo de Heidelberg pode haver o rastro da graça. 6).Assim. é: como o Espírito Santo age? Ele age pelos meios ou age fora dos meios da graça? De acordo com Ulrich Asendorf.” (Asendorf. Masius afirma que os reformados não aceitam a Presença Real por motivos racionais. De acordo com o Catecismo de Heidelberg. 1868. porém. 135-136).” (Livro de Concórdia. selo e marca mas o ‘É’ luterano está ausente. Diz Asendorf: “Aqui é o mesmo cum – tum. com relação à Santa Ceia. 1979. a presença de Cristo é espiritual e o Espírito Santo age para que pela fé os crentes se unam espiritualmente ao corpo de Cristo que está no céu. parece que tudo depende do efeito. o que importa é sua função de sinais. nota 16). ação paralela. mas apenas suas marcas” (Asendorf. conclui: “Calvino e Lutero estão tão distantes um do outro como fogo e água.há duas ações paralelas e não-relacionadas expressas nas palavras cum e tum. quando se trata dos mistérios de Deus. 1979. 28. devemos levar “cativo todo pensamento à obediência de Cristo. o lugar do Espírito Santo nos sacramentos? Asendorf responde: Os calvinistas gostam de dizer que os luteranos com sua compreensão da presença real do Senhor em ambos os sacramentos estão se referindo ao que o calvinismo designa com o Espírito Santo. para os reformados. “Assim como a pessoa ouve a palavra de Deus. 1983. Por que o Catecismo de Heidelberg lida com os sacramentos se eles de fato não são necessários para a salvação? A resposta pode ser dada facilmente pelas tradições bíblicas. 7. e é batizada com água. Há uma contradição no pensamento calvinista. e recebe pão e vinho.” (Apud Scaer. 1979. As questões falam de sinais visíveis. [cf Catecismo de Heidelberg . Mas esta interpretação não está correta. A Escritura. Se isso é verdade. qual é. O Espírito Santo está realmente fazendo para os calvinistas o que os luteranos atribuem aos sacramentos. (Masius. 5). É apenas um costume quando a frase ‘o corpo de Cristo’ é usado. mas só são regeneradas pela ação do Espírito Santo quando chegam à idade da razão e ouvem a palavra. 5). 378). questão 69] A pergunta que se impõe. isto é. instituído pelo próprio Cristo. (Asendorf. ELEIÇÃO E CONVERSÃO . (Asendorf. não há corpo nem sangue. 1979. E ele continua dizendo que o espírito cético de Erasmo tem continuidade no calvinismo em geral e que esse espírito contrasta com a teologia assertativa da Lutero. crianças recebem o batismo exterior e o sinal. 5). 172).

Por mais que se diga que a santificação é ação do Espírito. Os reformados têm criticado esta “doutrina” considerandoa. para a conversão continuada. 68). Terceiro. O cristão luterano aponta para seu batismo na infância como prova de sua eleição. numa entrevista à Rádio Band FM. não se deve querer empregar os meios de governo de um domínio no outro. 2005. 8. Muitas delas levam os cristãos a colocar fé e obediência no mesmo patamar. Estes dois reinos ou governos não estão separados mas devem ser claramente distinguidos. analisa 13 traduções diferentes nas áreas dos Sacramentos e da Escatologia. lava a praia e leva todo lixo embora. Traduções Bíblicas com tendência Reformada Diz Boehme: “Algumas traduções modernas da Bíblia tem uma tendência nitidamente Reformada. Por isso. lixo e detritos no fim da tarde. a maré sobe. 2007. Os reformados. e o reino da mão direita por meio do Evangelho e da graça. capazes de sermos auto-críticos numa maneira não permitida pelo conceito calvinista dos eleitos. Na visão luterana.. Uma ilustração: Rubem Alves. Michael R Totten. Robert Benne percebe três vantagens principais na posição luterana: “Primeiro. transmitida no dia 22/03/2009. portanto. a certeza da eleição está nos meios da graça objetivos. OS DOIS “REINOS” OU GOVERNOS DE DEUS Para Lutero. ele busca esta certeza não na justificação mas na santificação. Esta frase aponta para a visão luterana. Pois ele sabe que é simul iustus et peccator e precisa se arrepender e retornar ao seu batismo diariamente. 22b). uma vez que a função da igreja é de pregar lei e evangelho. 68). ela leva a sério o fato de que a igreja e a autoridade civil são meios pelos quais Deus lida com o pecado. Nesse ponto. 2005. Outro aspecto dessa visão é que o crente reformado deve poder apontar para uma conversão específica. a repórter completou: “pronta para novas pegadas. . da entrevista.” (Boehme. o batismo ocupa (ou deveria ocupar) um lugar tão proeminente no ensino. Ele conclui .”. pregação e vida diária do cristão luterano. comparou o perdão ao esquecimento de Deus. a praia está novamente limpa. ela permite que os cristãos discordem entre si no domínio temporal sobre problemas concretos enquanto permanecem unidos na fé” (Apud Kilcrease. em artigo no Concordia Theological Quarterly de Forth Wayne. (Cary. Ele também não vai apontar para uma conversão específica mas. têm transformado o evangelho em lei. muito mais. coberta de areia fina e lisa. ao não fazerem a distinção entre os dois reinos. Tanto a coerção do do estado e a livre oferta da graça são meios necessários para tratar com uma criação em revolta. o crente olha para os resultados dessa ação em si mesmo. coloca roupa limpa e novo no filho e diz: “Você agora está limpo. cuidado para não se sujar mais. Deus não nos perdoa como uma mãe que. Usou a ilustração duma praia cheia de pegadas. 2002. Segundo. De manhã. ela produz um cristianismo onde somos ao mesmo tempo santos e pecadores e. .” E ele acrescenta: “A maneira como a Bíblia é traduzida pode afetar a maneira como o leitor encara o cristianismo—como uma religião de obras ou de graça—se a fé é receptora da graça de Deus ou obediência a Deus. como a base para o surgimento do nazismo ( Kilcrease. Durante à noite. ou seja. Deus governa o mundo todo e o faz de duas maneiras. inclusive.Na visão calvinista.” O menino vai para a festa e obedientemente fica sentado num canto para não se sujar enquanto seus amigos se divertem correndo e brincando. 266-268).. o crente acaba buscando uma certeza interior de sua eleição. Portanto. antes de uma festa. Ele governa o reino da mão esquerda por meio da lei e do governo secular.

” (Rm 16. Chase. num artigo publicado na revista dos Seminários luteranos de St. O próprio Jesus responde: “Em vão me adoram ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15. E. Mas. 153). o apóstolo Paulo adverte: “Rogovos. mas agora não é mais.9) e “Nem todo o que me diz: Senhor. etc. Já vimos que os reformados consideram os luteranos como ‘semi-evangélicos’ que precisam de uma mãozinha para se tornarem totalmente reformados. arminiano extremado ou toma uma posição intermediária”. 18). A NIV traduz o termo teréo 24 vezes (de 31 possibilidades: onde o termo está ligado à palavra de Deus. Senhor! Entrará no reino dos céus” (Mt 7. Eles seguiram 9 Uma sugestão para os pastores é que confiram as traduções antes da leitura dos textos no culto. “os reformados não pertencem mais à igreja do Evangelho puro. Pior do que isso é o fato de que doutrina falsa pode nos afastar da verdade que Deus revelou e nos privar da vida eterna.que a teologia reformada e neo-evangelical. Os dois verbos aparecem. por isso. por sua vez. Muitas vezes se diz: “Que diferença faz se há divergências sobre quem é Jesus e como ele nos salva se no fim das contas todos creem em Jesus com Salvador?” O calvinista Norman Geisler coloca como título dum capítulo de um de seus livros precisamente esta questão: “Que diferença isso faz?” Ele está se referindo à pergunta que seus leitores farão sobre que diferença faz na prática “se alguém é calvinista extremado. As convicções afetam a conduta e. irmãos. à lei. as idéias tem conseqüências. . mas nunca como “obedecer”. deixou marcas profundas sobre várias versões. ensinam e confessam os reformados o mesmo que nós luteranos sobre estas doutrinas? Espero que a resposta a esta questão tenha ficado clara a essa altura da exposição. O autor percebe a influência de posições teológicas legalistas por trás da opção privilegiada pelo termo “obedecer” nessas traduções. 2005. . nosso Senhor . 30 vezes. a doutrina falsa pode levar a ações falsas. quando o trem chegar! Quem acredita no gelo quando o lago está congelado pode afundar se o gelo é fino! Do mesmo modo. A pessoa que crê que a cancela em frenta à linha férrea está emperrada será morta. especialmente as assim chamadas paráfrases. em 10 possibilidades é traduzido cinco vezes como “obedecer” e cinco vezes como “guardar”. porque o que ele creu ser H2O era H2SO4 (ácido sulfúrico)”” (Geisler. com o sentido de “guardar”. Não é necessário usar sempre a mesma tradução. ou aos ensinos de Jesus) como “obedecer”. a resposta a essa pergunta é que isso faz uma enorme diferença sobre o que cremos. aos mandamentos. assim como más idéias levam a conseqüências más. Geisler certamente tem razão quando afirma que doutrina falsa pode levar a ações falsas. porque esses tais não servem a Cristo.9 DIVISÃO E BUSCA DE UNIDADE Perguntamos novamente: Crêem os reformados o mesmo que nós luteranos sobre as doutrinas que analisamos? Só posso responder: Não sei. em desacordo com a doutrina que aprendestes. Catarines e Edmonton do Canadá. É bom repetir o refrão: “Fulano era um bom menino.21). “preservar no coração” “proteger”. e phulasso.17. Boas idéias conduzem a boas conseqüências. E ele prossegue respondendo: “Francamente. . Para os luteranos. que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos. Convém privilegiar aquela que na leitura em questão reproduz mais fielmente o texto original. Vivemos numa era pragmática e funcionalista. informa que o verbo teréo aparece 74 vezes no NT e phulasso. de fato. afastai-vos deles. numa série de léxicos por ele consultados. bem como em escritos da antiguidade. Eugene C.

ele desabafa: “Que pensamento terrível é. 49). 138. tais como a Presença Real na Santa Ceia. Embora não considere esta explicação “adequada”. referindo-se ao unionismo. Ele publicou as 95 teses de Lutero e acrescentou 95 novas teses. No século XIX. Todos sabemos como ele terminou e muitos até hoje culpam Lutero por recusar a mão fraterna à Zwínglio. tese 77: “Dizer que o tempo removeu a parede de separação entre luteranos e reformados. (Sasse. 139). houve muitas tentativas de reconciliação entre luteranos e reformados. o fato de que coisas que não são verdadeiras são ensinadas na igreja. o luteranismo é reformado em paganismo. afirma que se poderia reunir uma substancial biblioteca de tratados com propostas de união eclesiástica. não se chegou à união pretendida? Mcneill culpa as igrejas luteranas pela “persistente rejeição” de “projetos de união propostos pelos reformados. mente não só para homens mas também para Deus na oração. no seu livro União e Confissão. por interferência nazista. 1-2) Mais adiante. no sermão e na teologia. o rei Frederico Guilherme III decretou a famosa (ou mal-afamada) União Prussiana. (Mcneill. Uma das vozes corajosas que se levantaram contra o nazismo e o unionismo foi Hermann Sasse.” E. reconhecimento mútuo. ela chega à sua “maturidade doutrinária” e se torna uma mentira dogmática. escritos nos séculos dezessete e dezoito. após muitas tentativas frustradas de reconciliação e união. diz ele. 65-69). O protesto mais efetivo contra essa união partiu de Claus Harms. na confissão. Sasse. não é falar corretamente. McNeill admite que ela não pode ser descartada como “insincera”. 1964. 1954. A tese 3 afirma: “Com a idéia de uma reforma continuada. Desde a época da Reforma. McNeill. e intercomunhão. que foi criado e ordenado na igreja da União Prussiana e que só chegou a conhecer a igreja luterana ao participar de um programa de intercâmbio nos Estados Unidos. então. Por que. Esta mentira. John T. 1954.” Tese 64: “Os cristãos deveriam ser ensinados que eles tem o direito de não permitir ensino não-cristão e não-luterano no púlpito e nem nos livros usados na igreja e na escola. apareceu uma lista de 150 títulos tratando de discussões sobre a união entre luteranos e reformados. foi criada a Deutsche Evangelische Kirche (DEK). Em 1723. A questão é: quem se desviou da fé de sua igreja. em 1817. Quase todos esses escritos haviam sido publicados nos três anos anteriores. A primeira tentativa de alcançar unidade entre luteranos e reformados foi o Colóquio de Marburgo. o pastor dizia: “Jesus disse isto é o meu corpo. Eles abriram mão de verdades bíblicas imprescindíveis. No século XX. . parcialmente. após um tempo suficiente. Esta mentira tem uma propensão a se tornar uma mentira edificante e. 138). 1954. Jesus disse isto é o meu sangue]. 1997. (Mcneill.uma direção que os afastou da Reforma. 1997. e o cristianismo é reformada para fora deste mundo. 137).” Ele cita Hermann Sasse que declara que os luteranos não agiram movidos por outros princípios mas firmaram sua posição apenas em base doutrinária. Nessa época chegavam ao auge as tentativas de trazer os luteranos a uma “união” com os reformados. sob o disfarce da verdade eterna confiada a . escreve. [Exemplo da nova liturgia para as comunidades unidas: Na distribuição da Santa Ceia. na Santa Ceia. como ela é agora entendida e supostamente encorajada. perderam o conhecimento fundamental da distinção correta entre Lei e Evangelho” (Sasse. Eles turvaram e. na Alemanha. sobre o terrível pecado da “mentira piedosa”. (Mcneill. Essa união foi efetivada em 1830. realmente. os luteranos ou os reformados? Ou ambos?” (Meyer. .

47). e se recusarão a dar ouvidos à verdade. porém. (Klug. nenhum bolshevismo pode causar tanto estrago e destruição como a mentira piedosa. com esta pregação ninguém se salva. 372). 1997. O antinomista tende a excluir a pregação e o ensino da lei totalmente. 1997. 3). num sermão do dia da Ascensão. Falsa doutrina é idolatria pois inventa e cria um deus diferente daquele que se revelou em Cristo e na Escritura Sagrada. discute as opções existentes.44)” (Sasse. se o pregador insistir em pregar a fé em Cristo. Disso somos lembrados por Lutero em sua explicação da 1ª petição do Pai Nosso: “Santificado seja o teu nome”. Lutero. Se você pregar só lei as consciências ficam aterrorizadas e as pessoas se tornam idólatras buscando segurança e paz em cultos falsos e obras da lei. Ela diz “assim diz o Senhor” quando Deus não o disse. querido Pai do céu. então tudo precisaria ser eliminado!” (Sasse. Pois se a ignorância é o que decide o que a igreja deve ou não deve ensinar. . . . que ensina e vive de modo diverso do que ensina a Palavra de Deus. receberão a oferta do Evangelho. a mentira na igreja. 1997. (Sasse. é bem possível que muitos se acomodem e não se preocupam com seus pecados ou em levar uma vida cristã. e nós. Lutero diz que o nome de Deus se torna santo entre nós “Quando a palavra de Deus é ensinada genuína e puramente. Isso acontece quando os mesmos direitos são concedidos na igreja àqueles que confessam e àqueles que negam a Trindade e as duas naturezas de Cristo e onde a pregação da Reforma tem o mesmo direito que a proclamação de uma religião iluminista sem dogma. Nenhum ateísmo. em 1534. em conformidade com ela. profana o nome de Deus entre nós. O legalista mistura lei e evangelho e transforma o evangelho em lei. para muitos ‘essa conversa de confessionalismo não passa de conservadorismo’ e assim por diante. Falsa doutrina torna Deus em mentiroso. ao concluir uma palestra sobre um tema doutrinário (ou até mesmo antes de começá-la) a gente é capaz de sentir ou ouvir a voz do desânimo dizendo: “De que adianta? Quem liga?” Possivelmente. guarda-nos disso. Nesta mentira se torna evidente o poder de alguém a quem o próprio Cristo chama de mentiroso e o pai da mentira (Jo 8. porque ninguém é salvo pelas próprias obras mas somente pela fé na obra vicária de Cristo. 2000. Eles não dançavam com música alegre e não choravam com canções tristes (Lc 731-34). O que fazer numa situação dessas? Muitos pregadores optam por “despejar mais lei”. A isso só se pode replicar: Se isso é assim. crerão na promessa de Deus e serão salvos. como filhos de Deus. também vivemos uma vida santa. CONCLUSÃO Às vezes. para isso nos ajuda. alguns pelo menos prestarão atenção. É muito importante. Ele elimina a necessidade do arrependimento e torna os pecadores seguros em sua vida pecaminosa. Ou seja. então eles precisam aprendê-lo novamente. hoje em dia não entendem mais a diferença entre “luterano” e “reformado”. ó Pai celeste!” (Livro de Concórdia. diz Lutero. 1983. Por isso. 3). a lei não assusta e o Evangelho não alegra. 113-116). e mesmo os teólogos. Jesus mesmo se refere a tal situação dizendo que esta atitude de indiferença já era própria dos homens daquela geração dos seus dias terrenos. Mas. Mas. diz Lutero.” (2 Tm 4.3. Esta mentira se torna uma mentira institucional quando uma igreja legaliza as outras mentiras e as torna impossíveis de remover. Sasse argumenta que “é impossível e deveria ser indigno dos teólogos alemães que eles justifiquem a união dizendo que as congregações. 4). não confundir ‘não ser legalista’ com ser antinomista. Acredito que muitos de vocês devem ter experimentado algo parecido na preparação e apresentação de algum sermão. Também lembramos as palavras do apóstolo Paulo: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina . Ensinar falsa doutrina é blasfemar contra o nome de Deus.ela. Aquele. ao mesmo tempo.

Guthrie. BRINSMEAD.typepad. Ulrich. Não temos a doutrina pura por direito adquirido. mal entendida e mal usada. É uma afirmação. Scaer and Robert D. The Heidelberg Catechism for Today. a palavra de Deus se originou no meio vós ou veio ela exclusivamente para vós outros?” (1 Co 14. 1979. e até devemos. Fort Wayne. bem intencionada. já bastante difundida em nosso meio. nº 4. Richmond: John Knox Press. temos uma dívida com o mundo e com as demais denominações. [Texto impresso: em Asendorf. “Lutherans in Crisis over Justification by Faith”. acolher na Santa Ceia a qualquer um que venha. Mas. Shirley C. Não tem nada a ver com ‘liberar geral’ ou com a fuga da responsabilidade do ministro como despenseiro dos mistérios de Deus. Ulrich. pp. nº6 (November 1979). Edited by David P. Armand J. Trad.<http://cyberbrethren. sola fide e sola Scriptura. pode se tornar uma rampa pela qual se escorre para o antinomismo. 1-7. igualmente. 1929. Se fomos agraciados com a doutrina verdadeira. Com isso. Grand Rapids: Eerdmans. “Justification by Grace through Faith: Do Wittenberg and Geneva see eye to eye?” Logia 11. Precisamos ser e permanecer humildes alunos da doutrina da verdade. Henry. A melhor opção sempre é: buscar orientação na Palavra de Deus para procurar evitar o erro. tomar cuidado com a maneira como se interpreta a recomendação tantas vezes ouvida: ‘Se for errar. é melhor errar para o lado do evangelho’. "Luther's Small Catechism and the Heidelberg Catechism. Robert D. . 17-27. Poder usufruir desta doutrina é graça de Deus. Precisamos compartilhar o precioso tesouro da sola gratia. Às vezes se coloca a falsa antítese: É melhor ter a doutrina do amor do que ter amor à doutrina. 2. É preciso.rtf >(15/04/2009). precisamos lembrar que ela não é nossa.Aqui se inclui a idéia. BEETS. The Reformed Confessions Explained. Esquece-se que a Ceia de Cristo é puro evangelho destinado a pecadores arrependidos.” Respondemos: É melhor ter amor à doutrina do amor e fazer o que está ao nosso alcance para proclamá-la e preservá-la para as gerações futuras. se ele está arrependido ou não. 6-30.36). de que podemos. Karl. também estou dizendo que só por termos o nome de ‘luteranos’ não somos automaticamente donos da verdade. 2002. Indiana: Concordia Theological Seminary Press. Verdict: A Journal of Theology.] BARTH." in Luther's Catechisms--450 Years. O apóstolo Paulo pergunta também a nós: “Porventura. sem dúvida nenhuma. “Luther´s Small Catechism and the Heidelberg Catechism—The Continuing Struggle: The Catechism’s Role as a Confessional Document in Lutheranism”. Precisamos testemunhar a todos a centralidade da justificação pela fé. BOEHME. Esta é apenas uma das maneiras em que o antinomismo se infiltrou também entre nós. Bibliografia ASENDORF. Evangelho é a boa nova da graça de Deus em Cristo. 1964. sem perguntar pela sua situação espiritual.com/cyberbrethren/files/AsendorfCatechism. Preus.

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