PAREDES DUPLAS. CONCEPÇÃO E CRITÉRIOS DE ESTANQUIDADE1 Fernando M. A.

Henriques Doutor em Engenharia Civil, Agregado Universidade Nova de Lisboa – DEC fh@fct.unl.pt

1 - Introdução A utilização de dois panos de alvenaria na execução de paredes exteriores de edifícios corresponde a uma tecnologia com algumas décadas de aplicação. Com efeito, são pouco numerosas hoje em dia as situações em que aqueles elementos construtivos são realizados com soluções diferentes da correntemente designada parede dupla. A experiência recolhida ao longo do tempo mostra, contudo, que são relativamente frequentes os casos de insucesso na execução desta tecnologia, traduzidos na ocorrência de infiltrações de água da chuva, numa primeira fase, e na proliferação de bolores em zonas humedecidas, quer por influência directa da presença da água, quer em consequência de condensações superficiais decorrentes do acréscimo de condutibilidade térmica provocada pelo aumento do teor de água dos materiais. Com efeito, a ocorrência prolongada de humedecimentos superficiais propicia condições adequadas ao desenvolvimento dos bolores, cujos esporos se encontram dispersos no ar em todos os locais. Daí que as deficiências de estanquidade de uma parede possam provocar, por acção directa, a ocorrência de patologias deste tipo (devendo, contudo, ser realçado o seu carácter sazonal e intermitente, já que apenas se verificarão em concomitância com períodos de chuva). Paralelamente, é sabido que o acréscimo do teor de água dos materiais provoca um aumento da respectiva condutibilidade térmica, fenómeno que é facilmente compreensível tendo em conta que os valores de condutibilidade térmica da água e do ar são, respectivamente, λág = 0,597 W/m.EC e λar = 0,026 W/m.EC, o que significa que a condução de calor num poro de um material com um determinado volume preenchido por água é cerca de 23 vezes superior àquela que resultaria se o volume estivesse cheio com ar. Em consequência, a maior condutibilidade térmica dos materiais humedecidos (designadamente no interior da parede) propicia uma temperatura superficial interior mais baixa e, por essa via, um risco acrescido de ocorrência de condensações superficiais com os consequentes fenómenos de desenvolvimento de bolores que lhes estão associados. As infiltrações de água da chuva em paredes duplas indiciam desde logo deficiências de estanquidade resultantes de uma incorrecta concepção na fase de projecto ou de problemas na sua execução. Uma análise por amostragem das paredes duplas em Portugal mostra que o conceito que lhes está subjacente é mal compreendido na praxis corrente, assumindo simplificações que inviabilizam o seu comportamento adequado ou, mais concretamente, introduzindo factores de aleatoriedade inaceitáveis numa óptica de qualidade. De facto e como se
Comunicação ao Congresso Nacional da Construção, Lisboa, Instituto Superior Técnico, 17 a 19 de Dezembro de 2001.
1

Ao ser assumido que uma parte da parede pode ser humedecida interiormente. o que se consegue mediante a aplicação de estribos com pendentes orientadas no sentido do pano exterior. Assim sendo. Concepção e critérios de estanquidade 2 . Apenas nestas condições se pode considerar uma parede como dupla. As eventuais águas que se infiltrem no pano exterior escorrerão através do seu paramento interior e depositar-se-ão na base da caixa de ar. Torna-se. É por essa razão que se torna imperiosa a execução de uma caleira na base da caixa de ar. Henriques . aquilo que é correntemente designado como Aparede dupla@ dificilmente se enquadra no conceito genérico que é aplicado com sucesso em vários países europeus. em especial naqueles cujo clima em termos de pluviosidade em sentido lato ou de pluviosidade incidente em superfícies verticais é claramente mais severo do que o nosso. torna-se óbvio o interesse em assegurar condições de secagem minimamente eficazes. tal não obsta à frequente ocorrência de erros de concepção ou de execução. a execução parcial daquela tecnologia tem como consequência tornar imprevisível o comportamento futuro das alvenarias executadas. Tal como referido anteriormente. uma Aparede dupla@ é aquela que é executada com dois panos de alvenaria. dos quais se comentam os mais paradigmáticos. Ora.Noção de parede dupla Em termos correntes. para além dos que decorram das necessidades de travamento. O princípio de funcionamento das paredes duplas tem tanto de simples como de eficaz: é assumido que. para recolha de todas as águas de infiltração. No limite. o que se consegue facilmente através de um simples sistema de drenagem. Antes de mais deve ser referida a questão da espessura da caixa de ar. no limite. a água da chuva possa penetrar no pano exterior e escorrer através do seu paramento interior. sendo inaceitável que essa água possa entrar em contacto com o pano interior. encontrando caminho preferencial para o interior da construção se nada for feito para o evitar. A.verá adiante. Por questões de clareza de exposição e de respeito terminológico. independentemente de quaisquer outras considerações. uma caleira na base com pendentes orientadas para as drenagens que conduzam as águas para o exterior e um conjunto de orifícios na zona superior do pano exterior que assegurem condições de secagem da caixa de ar através da circulação do ar por efeitos da convecção. estas soluções deveriam ser designadas como de Aduplo pano@ por forma a evitar qualquer confusão com as verdadeiras paredes duplas. por forma a evitar eventuais problemas decorrentes do acréscimo de condutibilidade térmica dos materiais húmidos. Tal implica antes de mais o afastamento físico entre os dois panos como condição indispensável à introdução da quebra de continuidade que assegure a manutenção do pano interior seco. dispondo dos mecanismos necessários à recolha e condução para o exterior de eventuais águas de infiltração e à secagem dos elementos interiores humedecidos. qualquer caixa de ar cuja espessura Fernando M. Entende-se por parede dupla aquela que é constituída por dois panos de alvenaria fisicamente afastados e adequadamente travados entre si. então. 2 . introduzindo portanto o factor aleatório atrás referido. Ainda que o conceito seja bem entendido. Mas não basta esse procedimento.Paredes duplas. clara a necessidade de existência de disposições construtivas que conduzam as águas da caleira para o exterior. uma parede dupla deve possuir uma caixa de ar sem quaisquer pontos de ligação entre os panos. todos os cuidados mencionados devem ser equacionados em simultâneo com a necessidade de assegurar um travamento eficaz dos dois panos entre si e destes com os elementos estruturais envolventes.

surgem sempre algumas desconfianças quanto às condições da sua exequibilidade em obra e ainda quanto aos acréscimos de custo daí decorrentes. nem a caleira. De pouco vale ter uma caleira se ela se estiver obstruída por quaisquer objectos ou não tiver pendente para as zonas de drenagem e. justificando claramente o esforço de uma execução correcta. assume um carácter essencial na optimização das tecnologias deste tipo. em especial. Quando se refere uma ventilação deste tipo está-se sempre a considerar uma situação de ventilação muito fraca.Execução de paredes duplas Mesmos nos casos em que uma parede dupla se encontre correctamente definida e pormenorizada no projecto. em especial se for tido em conta as consequências potenciais da sua incorrecta execução. o que não é o caso. Em termos nacionais [3. nos casos das alvenarias correntes. Mas a questão é um pouco mais complexa. Percebe-se então que uma caixa de ar com 1 cm de espessura pode ser suficiente. e ainda que a cota dos tubos de drenagem seja coincidente com a cota mínima da caleira por forma a evitar fenómenos de retenção de água. sobretudo se estas não existirem ou estiverem mal executadas. cujas repercussões na resistência térmica da caixa de ar e. Concepção e critérios de estanquidade 3 . um na base da parede . se for possível garantir a inexistência de zonas de contacto entre os dois panos. consequentemente. Daí que se possa afirmar que a espessura mínima da caixa de ar deve ser tal que permita garantir a inexistência de zonas de continuidade não desejadas. A solução correcta deverá Fernando M. em particular por desperdícios de argamassa. já que o condicionamento não é a espessura mínima para que o princípio seja válido.situação em que os orifícios deverão assegurar simultaneamente a drenagem da caleira e outro na zona superior. mas antes pelo facto de se temer que essa ventilação venha diminuir o comportamento térmico da parede. Ainda que o seu custo de execução fosse significativamente mais elevado. não por que a sua necessidade seja questionada. A questão das caleiras e das drenagens é também fonte de potenciais problemas (nas poucas circunstâncias em que são executadas). na da globalidade da parede são negligenciáveis. mas antes aquela que permita garantir que o espaço de ar fica completamente desimpedido. se torna difícil de assegurar tendo em conta os eventuais desperdícios e excessos de argamassa de assentamento dos elementos que as constituam. Com efeito torna-se necessário assegurar que no processo de execução da parede. A definição correcta no projecto das características genéricas e.seja superior à dimensão das gotas de água que possam escorrer através do paramento interior do pano exterior será adequada. o que. A. dos vários pormenores construtivos das paredes duplas. Uma dúvida muito frequente diz respeito à correcta localização do pano de alvenaria mais espesso (no caso em que os dois panos tenham espessuras diferentes). ou os que decorreriam da utilização alternativa de outras soluções construtivas com desempenho equivalente em termos de estanquidade e durabilidade seriam bastante maiores.Paredes duplas. 3 . como se procurará demonstrar adiante. os encargos com as intervenções de correcção na eventualidade de ocorrência de anomalias. Henriques . nem as drenagens sejam obstruídas por quaisquer materiais. Tratam-se de objecções injustificadas. É muitas vezes fonte de dúvidas a execução da ventilação da caixa de ar. 4] é considerado que este objectivo é atingido com aberturas cuja área seja inferior a 10 cm5 por metro linear em cada um dos dois níveis considerados.

menor será a tendência para fendilhar. Deve notar-se que em condição alguma é admissível a utilização de panos de alvenaria de tijolo com espessura inferior a 11 cm. no caso de paredes duplas com isolante na zona da caixa de ar. à introdução entre o topo da alvenaria e a estrutura de um tubo flexível perdido que defina o limite da junta a preencher (vd. Fernando M. fig.1 . 5) Execução da caleira na caixa de ar. por forma a evitar que eventuais desperdícios de argamassa estabeleçam pontos de contacto com o pano exterior. os tubos devem prolongar-se claramente para o exterior. maior será a resistência aos esforços resultantes de eventuais deformações da estrutura envolvente e. 4) Execução da primeira fiada do pano interior. Tendo em conta que a execução correcta de uma parede dupla é mais difícil no caso de não utilização de isolantes térmicos interiores (anexos à caixa de ar) do que na situação contrária e ainda porque as técnicas podem ser ligeiramente diferentes. consequentemente. Henriques . desde o simples cuidado especial. trata-se de um dos pontos de execução mais sensível quando se pretende evitar a queda de desperdícios de argamassa para a caixa de ar. 3. possibilitando o enchimento da junta sem quaisquer preocupações (vd. colocação dos elementos da 10 fiada em falta. Concepção e critérios de estanquidade 4 . nos termos dos artigos 281 e 251 do RGEU [4]. estes troços devem ter altura coincidente com o espaçamento vertical entre estribos. com um desperdício de papel (para evitar a sua posterior obstrução). 2) As aberturas dos tubos de drenagem na zona da caixa de ar devem ser tapadas com uma rolha ou. deixando reentrâncias na argamassa das juntas nas zonas em que se preveja a posterior aplicação de estribos de travamento. 7) Execução do pano interior da alvenaria por troços horizontais. 2). Podem ser usadas várias soluções. apresentam-se de seguida os procedimentos correntes para a construção dessas paredes nos dois casos referidos. passando pela solução mais eficaz de fixar previamente na zona inferior do elemento estrutural um perfil que funcione como batente do topo da alvenaria. 1). maiores serão os benefícios em termos do aproveitamento da sua inércia térmica como factor de atenuação das variações higrotérmicas no ambiente interior. 8) Remate do pano interior com o elemento estrutural superior. mais frequentemente. sendo possíveis todas as variantes que respeitem os princípios enunciados: 1) Execução da base de assentamento da primeira fiada do pano exterior. tendo o cuidado de deixar inseridos tubos de drenagem (em geral de material plástico) convenientemente espaçados e situados a uma cota tal que permita a posterior execução da caleira da caixa de ar. 6) Colocação sobre a caleira (depois de seca) de uma protecção provisória constituída em geral por sacos de papel (por exemplo sacos de cimento) ou por plásticos.Paredes duplas. quanto maior for a espessura do pano interior. 9) Remoção das protecções que foram colocadas na caleira e (muito importante) das tampas dos tubos de drenagem. 3).Paredes duplas sem isolante térmico interior A sequência de operações deve ser a seguinte. muito para além do nível que o revestimento exterior venha a ter.ser avaliada caso a caso. fig. tendo o cuidado de deixar abertas as zonas situadas em frente dos tubos de drenagem. tendo em conta os dois seguintes pressupostos condicionantes: quanto maior for a espessura do pano exterior. de forma a que seja possível rasar os paramentos virados para a caixa de ar do troço efectuado. em geral através da realização de uma meia-cana em argamassa (com pendentes para as zonas dos tubos) revestida com uma emulsão betuminosa (vd. fig. A. 3) Execução do pano exterior de alvenaria.

A. 2) Execução das duas primeiras fiadas do pano interior. sendo preferível aquelas que disponham de um sistema de encaixe nas juntas horizontais e verticais. em geral através da realização de uma meia-cana em argamassa (com pendentes para as zonas dos tubos) revestida com uma emulsão betuminosa. as operações a realizar serão as seguintes: 1) Execução das tarefas a) b) e c) referidas em 3. note-se que neste caso o isolante funciona também como cofragem impedindo que os desperdícios de argamassa caiam para o interior da caixa de ar (torna-se.10) Só após terem sido aplicados os revestimentos de parede exterior (e antes de desmontar o andaime) é que o comprimento dos tubos de drenagem deve ser acertado por corte. 2 Fig. Fig. Henriques .Paredes duplas com isolante térmico interior Considera-se na presente situação que são utilizados isolantes térmicos em placas autoportantes. os desperdícios devem ser trabalhados de modo a que os planos das suas faces convirjam no sentido do pano exterior (para evitar migrações de água).1. através da utilização de estribos ou outras peças adequadas que os fabricantes dos isolantes usualmente dispõem. 3) Execução da caleira na caixa de ar. no segundo.2 . soluções alternativas podem ser facilmente concebidas. 6) Execução das fiadas do pano interior até ao nível imediatamente superior ao da altura das placas de isolante. 1 Fig. quer desperdícios de materiais sem porosidade aberta tais como poliestireno extrudido: no primeiro caso. Concepção e critérios de estanquidade 5 . 3 3. 5) Apoio das placas de isolante na zona da caleira preparada para esse fim e respectivo travamento contra o pano exterior. de forma a que se destaque 1 a 2 cm da superfície acabada (este procedimento visa garantir que as extremidades dos tubos não ficam obstruídas pelas argamassas de reboco nem pelas pinturas). quer utilizando arame galvanizado. a caleira deve ser executada de tal forma que propicie apoio às placas de isolante na zona anexa ao pano interior (vd. deve haver o cuidado de prever uma forma que propicie uma zona de pingo (por exemplo simulando a letra grega γ) e evitar pontas que possam furar o isolante. 4). Fernando M. fig. 4) Remoção das tampas dos tubos de drenagem (muito importante). Assim.Paredes duplas.

não atingindo o pano interior.Pontos singulares Foram analisadas anteriormente as formas de execução de paredes duplas em superfície corrente. através da fixação por colagem ou aparafusamento de um perfil plástico ou metálico (não oxidável) em forma de L. Fig. 10) Após terem sido aplicados os revestimentos de parede exterior (e antes de desmontar o andaime) procede-se ao acerto do comprimento dos tubos de drenagem. 8) Execução das fiadas do pano interior até ao nível imediatamente superior ao da altura das placas de isolante. No entanto. Concepção e critérios de estanquidade 6 . 4 3. deve notar-se que na zona superior as placas podem ter que ser cortadas por forma a preencherem totalmente a altura remanescente da parede. com este processo. a água que migre pela zona inferior da viga ou da laje pingará para a caleira. em particular aqueles que resultam das ligações com as zonas inferiores de elementos de construção horizontais. as águas de infiltração podem atingir os panos interiores por migração através daqueles elementos horizontais. Henriques . 7) Colocação de nova fiada de placas de isolante. A. fundamental assegurar que as placas estão convenientemente travadas em relação ao pano exterior. consistindo apenas num rasgo contínuo a todo o comprimento das peças (a água fica assim impossibilitada de atingir a junta de ligação entre a parede e o parapeito. por forma a que se destaquem 1 a 2 cm da superfície acabada. 9) Repetição dos dois procedimentos anteriores até se atingir a totalidade da altura da parede. ocorrem inevitavelmente pontos singulares que merecem alguma atenção. apoiadas nas inferiores e travadas como se referiu. os riscos poderão ser drasticamente reduzidos mediante a execução das seguintes técnicas: S ligação das paredes com vigas ou lajes superiores: criação de uma zona de pingo na superfície inferior da viga ou laje.portanto. Em ambos os casos. Independentemente de um tratamento adequado das juntas exteriores de ligação entre as paredes e esses elementos (que poderá ser feito através da utilização de mastiques). localizada na metade exterior da caixa de ar.3 . a qual constitui uma zona particularmente sensível). S ligação com parapeitos: estas peças deverão possuir uma pingadeira na sua zona inferior. Fernando M.Paredes duplas. Tal é o caso das zonas de ligação das paredes com as vigas ou lajes superiores e com os parapeitos de janelas.

sendo usualmente recomendadas argamassas bastardas com traços volumétricos de cimento. Concepção e critérios de estanquidade 7 . o que significa que se na camada de base se usar 1:1:6 na de acabamento se deve optar por 1:2:9. Só assim se podem ter garantias de que a fissuração das várias camadas (que se verifica quase sempre.4 . Inversamente. com maior ou menor desenvolvimento) ocorre de forma desencontrada. uma composição 1:3:12 é mais fraca do que a 1:2:9 na medida em que naquele caso o cimento representa 25% do total de ligante. enquanto que se naquela for seleccionado o 1:2:9 nesta se deve usar 1:3:12. melhorando as características de impermeabilidade da parede. Preconizam-se para este fim argamassas bastardas com traços volumétricos de cimento. um reboco adequado deverá ter três camadas distintas. essa camada deve ter a maior aderência possível e uma quantidade de água bastante elevada. Note-se que nos traços referidos o teor de ligante é sempre constante (1:3). a superfície desta camada deve constituir uma zona irregular e eventualmente descontínua. sobretudo. Daí a razão de se utilizarem argamassas bastardas com aqueles dois ligantes. de forma a que se verifique o princípio de composições progressivamente mais fracas do interior para o exterior. enquanto neste essa percentagem é de 33%. S 30 camada: designa-se por camada de acabamento. verificando-se apenas variações nas percentagens relativas entre os dois ligantes utilizados. com formulações e finalidades diversas [5]. cal aérea e areia 1:1:6 ou 1:2:9. A. Em primeiro lugar. Deve ser executada com uma argamassa com boa aderência mas baixa tendência para fendilhação. S 20 camada: designa-se por camada de base e tem como objectivos contribuir para a estanquidade global e garantir planeza.Paredes duplas. tendo por objectivos contribuir para a estanquidade global e constituir a superfície final do reboco. As areias empregues deverão ser preferencialmente areias naturais lavadas (por exemplo areia de rio).3. note-se que a inevitável grande fissuração que esta argamassa irá sofrer é irrelevante. Esses objectivos são conseguidos utilizando uma argamassa de cimento e areia (traço volumétrico 1:3) com água em excesso. muito embora persista um razoável desconhecimento quanto às soluções e. É usual utilizar aqueles três traços de uma forma contínua. nenhuma das camadas deve ser aplicada sem que a anterior esteja bem endurecida e tenha tido o tempo necessário para desenvolver a fissuração que lhe esteja associada. Henriques . devendo ser limitado ao máximo o uso de areias com componentes argilosas (por exemplo areia amarela). cal aérea e areia 1:2:9 ou 1:3:12. Assim. É esta a razão fundamental para execução das camadas referidas. por ordem sucessiva de aplicação. Fernando M. Como é compreensível.Revestimentos exteriores As paredes duplas executadas com elementos descontínuos correntes são vulgarmente acabadas com rebocos de ligantes minerais. Essas camadas são. verticalidade e aderência em relação à camada subsequente. tendo em conta os objectivos a que se destina. aos fundamentos que justificam e orientam a sua execução. Em termos gerais. É sabido que quanto maior for a dosagem de cimento de uma argamassa melhor será a sua aderência e maior o risco de fendilhação. para tal. Logo. O sistema assim constituído obedece a alguns pressupostos relevantes que é conveniente lembrar. nas argamassas de cal aérea (não confundir com cal hidráulica) a aderência e a tendência para fendilhar são baixas. as seguintes: S 10 camada: designa-se vulgarmente por crespido e tem como dupla função aumentar as condições de aderência das restantes camadas à parede e diminuir a absorção de água do suporte. a probabilidade de ocorrência de fissuração no mesmo local em camadas subjacentes diminui drasticamente.

) S S S S Embora com menor frequência são também vulgares as situações em que as placas de isolante são colocadas na caixa de ar sem qualquer fixação. função da durabilidade média desses revestimentos. drenagens. A parede dupla veio permitir aligeirar e diminuir a espessura desses elementos. Concepção e critérios de estanquidade 8 .Paredes duplas.) podem ser compensadas pela maior estanquidade dos revestimentos exteriores apenas poderá ser aceitável numa óptica de curto prazo. apoiando-se em ambos os panos.Anomalias mais frequentes Em complemento ao que se referiu anteriormente. cumprindo simultaneamente requisitos de economia e de durabilidade. a forma de garantir estanquidade às paredes decorria do acréscimo da sua espessura. bastante elevada. torna-se conveniente proceder à sistematização das anomalias. uma estanquidade consideravelmente superior. quando bem executada. em condições correntes. portanto. associado a uma diminuição de custos. o acréscimo de custo daí decorrente é negligenciável. pois. com um acréscimo potencial de qualidade. Henriques . no pressuposto de que as intensidades normais de chuva incidente não seriam suficientes para propiciar um atravessamento total desses elementos até aos paramentos interiores. de executar alvenarias com grandes quantidades de material e. Anteriormente à generalização dessa tecnologia. Na mesma óptica da análise de custos. apresentando-as de uma forma destacada: inexistência de caixa de ar (ou caixa de ar com espessura inexequível) ausência de caleira de recolha das água na caixa de ar ausência de drenagens que conduzam as águas para o exterior (ou drenagens obstruídas) existência de desperdícios de argamassa ou estribos com pendente incorrecta criando ligações entre os dois panos S inexistência de pingadeiras nas zonas inferiores dos elementos horizontais com projecção para o exterior (parapeitos. o que aumentava os custos e dificultava a concepção das estruturas reticuladas de betão armado. garantindo. Tratava-se. os quais se baseiam em soluções e materiais de durabilidade em geral mais reduzida do que aquelas que constituem a solução padrão descrita anteriormente.Fundamentos da utilização de paredes duplas A utilização da tecnologia de parede dupla é tradicional no nosso País desde há décadas. etc. As razões da generalização verificada prendem-se. pesos próprios elevados. Acresce ainda que a durabilidade da solução é. varandas. A. Conforme se torna patente pela análise das formas de execução correcta de paredes duplas. 5 . deve Fernando M. consequentemente. A sua generalização decorreu da necessidade de garantir condições de impermeabilidade aceitáveis para as paredes de edifícios. A eficiência e simplicidade desta tecnologia desaconselham ou tornam redundantes a introdução de alterações baseadas na eventual maior eficiência de novos revestimentos de parede de grande estanquidade. constituindo pontes para a passagem de água para o interior. muito embora com os erros e condicionantes referidos anteriormente.4 . etc. Daí que a alegação de que certas simplificações na sua execução (por exemplo inexistência de caleira.

sendo que a utilização de uma solução de parede dupla corrente se traduzirá numa redundância. A forma deficiente como são executadas em muitos casos leva a que o número de insucessos verificado seja bastante superior ao que seria expectável. mesmo em épocas de crescente desenvolvimento de novas soluções tecnológicas. Paris. 5 VEIGA. LNEC. 2001 (30 edição). Daí que se torne importante relançar esta tecnologia. as quais não implicam acréscimos de custo relevantes. Bibliografia 1 GROUPE DE COORDINATION DES TEXTES TECHNIQUES . portanto. Lisboa. é. 1994. septembre 1997. Lisboa.Regulamento geral das edificações urbanas (Decreto-Lei n1 38. FARIA. in ACurso de especialização sobre revestimentos de paredes@. F. Esta estrutura. Torna-se. e dada a incapacidade dessas alvenarias suportarem as cargas inerentes à fixação mecânica ou por gatos dos revestimentos exteriores de pedra.Recomendações técnicas de habitação social (Despacho 41/MES/85 de 5 de Fevereiro). 3 /P/ . A. Nessas situações.ser referida a desnecessidade de execução de paredes duplas (no contexto referido) nos casos em que se opte pela execução de um revestimento descontínuo exterior desligado do suporte. o revestimento de pedra actuará como pára-chuva. fixada mecanicamente à estrutura de betão armado ao nível de cada piso. 1990. Assim. 2 HENRIQUES. Lisboa. já que o resultado final poderá ser considerado uma Aparede tripla@. .Conclusões A utilização de paredes duplas é desde há muito uma solução tradicional em Portugal. 6 VEIGA. 1990. R.A. Fernando M.Revestimentos de pedra natural. a solução adequada consiste na aplicação de uma estrutura independente sobre a qual seja fixado o revestimento [6]. . através da re-proposição das suas formas de execução adequadas. durabilidade e custo reduzido constituem vantagens apreciáveis que têm propiciado a continuação generalizada do seu uso.. Lisboa. 6 . 1997. assegurando um funcionamento global equivalente ao da parede dupla corrente. Porto Editora. LNEC. já que para um mesmo dispêndio se obtêm resultados qualitativos inegavelmente superiores. LNEC. Dessa forma torna-se possível optimizar os recursos utilizados. Agradecimentos Os quatro pormenores construtivos que se incluem no presente texto foram executados pelo Arq.Paredes duplas. 4 /P/ .Revestimentos de ligantes minerais e mistos com base em cimento. As suas eficiência. .Règles Th-K77 . Imprensa Nacional . com o isolante colocado no espaço de ar definido pelo estrutura metálica exterior. claro que nestas condições bastará a execução de uma parede simples interior. Vasco Moreira Rato. P. in ACurso de especialização sobre revestimentos de paredes@. Lisboa. em geral metálica.Humidade em paredes. R. cal e resina sintética. CSTB. como deveria ser o caso dos revestimentos em pedra aplicados em edifícios com estrutura de betão armado e alvenarias de preenchimento correntes. por sua vez.382 de 7 de Agosto de 1951 e alterações subsequentes). Concepção e critérios de estanquidade 9 . Henriques .Règles de calcul des caractéristiques thermiques utiles des parois de construction.Casa da Moeda.