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Um ateu garante

:
Deus existe
Deus existe
as provas incontestáveis de um filósofo que
não acreditava em nada
Antony Flew
com Roy Abraham Varghese
MultiBrasil - www.multibrasil.net
Título original There is a god: How the worlds most notorious atheist !hanged his
mind
" #$$% b& 'nton& (lew
Cop&right da tradução " Ediouro )ubli!aç*es S.'.+ #$$,
Cop&right do -)re./!io- e -'p0ndi!e ' 1 2 3o4o 'teísmo:
uma apre!iação !ríti!a de Daw5ins+ Dennet+ 6olpert+ Harris e
Stenger- " #$$% b& 7o& 'braham 8arghese.
Cop&right do -'p0ndi!e 9 1 ' auto1re4elação de Deus na hist:ria humana:
di/logo !om 3. T. 6right sobre Jesus- " b& 3. T. 6right.
)ubli!ado sob a!ordo !om a Harper Collins )ublishers.
Capa 'na Dob:n
;magem de !apa <ett& ;mages
7e4isão 'driana Cristina 9airrada
Editoração eletr=ni!a Dan& Editora >tda.
Dados Internacionais de ataloga!ão na "u#lica!ão $I"% $&mara
'rasileira do (ivro) *") 'rasil%
(lew+ 'nton&
Deus e?iste: as pro4as in!ontest/4eis de um .il:so.o @ue não a!redita4a em nada
A 'nton& (lewB tradução 8era Caria Car@ues Cartins. D São )aulo : Ediouro+
#$$,.
Título original: There is a <od. ;S93 E%,1,F1$$1$#GFH1F
I. 'teísmo 1 ;nglaterra 1 9iogra.ia #. 9iogra.ia espiritual G. (lew+ 'nton&+ IE#G H.
(il:so.os 1 ;nglaterra 1 9iogra.ia ;. Título.
$,1$#,,I CDD1#I#.$E#
+ndice para catálogo sistemático:
I. Deus : E?ist0n!ia : (iloso.ia da religião : 'teus : Con4ersão : 9iogra.ia #I#.$E#
Todos os direitos reser4ados J Ediouro )ubli!aç*es S.'.
7ua: 3o4a JerusalKm+ GHF 1 9onsu!esso
7io de Janeiro 1 7J 1 CE) #I$H#1#GF
Tel.: L#IM G,,#1,#$$ (a?: L#IM G,,#1,#I# A G,,#1,GIG
www.ediouro.!om.br
+ndice
Prefácio .............................................................................................. 5
Introdução ....................................................................................... 17
Primeira Parte ................................................................................. 20
Minha negação do Divino .............................................................. 20
1. A Criação de um ateu .................................................................... 20
2. Para onde o argumento leva ........................................................... 34
3. O ateísmo calmamente examinado .................................................. 5
Segunda Parte ................................................................................. 6
Minha de!co"erta do Divino ........................................................... 6
4. !ma "eregrinação da ra#ão ............................................................ $
5. %uem escreveu as leis da nature#a& ................................................ '4
. O !niverso sa(ia )ue íamos c*egar& ................................................ $
'. Como surgiu a vida& ...................................................................... +2
$. Alguma coisa vem do nada& ............................................................ ++
+. A(rindo es"aço "ara ,eus ............................................................ 10'
10. A(erto - oni"ot.ncia .................................................................. 112
#$%ndice! ...................................................................................... 115
A".ndice A ..................................................................................... 11
A".ndice / ..................................................................................... 131
PREFÁCIO
"Famoso ateísta agora acredíta em Deus: um dos maíores
ateístas do mundo agora acredíta em Deus, maís ou menos
baseado em provas cíentífícas." Esse era o títuío de uma matéría
da Assocíated Press pubíícada no día 9 de novembro de 2004,
que dízía: "Professor de fííosofía íngíês, um dos maíores
defensores do ateísmo há maís de meío sécuío, mudou de ídéía.
Eíe agora acredíta em Deus, maís ou menos baseado em provas
cíentífícas, como afírma em um vídeo exíbído na quínta-feíra".
Ouase ímedíatamente, o anúncío tornou-se um acontecímento
da mídía, causando uma enxurrada de reportagens e comen-
táríos em todo o mundo, no rádío e na teíevísão, nos |ornaís e
em sítes da Internet. A matéría ganhou taí força que a
Associated Press (AP) pubíícou doís anúncíos subseqüentes
reíacíonados ao orígínaí. O assunto da matéría e de muíta
especuíação posteríor era o professor Antony Fíew, autor de
maís de trínta obras fííosófícas, que durante cínqüenta anos
defendeu os príncípíos do ateísmo. Seu artígo, Theology and
Falsification, apresentado em uma conferêncía no Socratíc Cíub
da Uníversídade de Oxford, em 1950, presídída por C. S. Lewís,
tornou-se a pubíícação fííosófíca maís reímpressa do úítímo
sécuío. E agora, peía prímeíra vez, eíe faz um reíato dos
argumentos e das provas que o íevaram a mudar de ídéía. Em
certo sentído, este íívro representa o resto daqueía matéría.
Tíve uma pequena partícípação na matéría da AP porque
a|udeí a organízar o símpósío que resuítou no vídeo em que Tony
Fíew anuncíou o que eíe maís tarde, com muíto bom humor,
chamou de sua "conversão". Na verdade, desde 1985, eu
a|udara a organízar díversas conferêncías nas quaís eíe
apresentava sua defesa do ateísmo, de modo que esta obra é,
para mím pessoaímente, o fím de uma |ornada ínícíada duas
décadas atrás.
De modo curíoso, a reação dos coíegas ateístas de Fíew à
matéría da AP beírou a hístería. Um síte dedícado ao ateísmo
deu a um correspondente a tarefa de fazer reíatos mensaís sobre
o afastamento de Fíew da verdadeíra crença. Insuítos e
carícaturas tornaram-se comuns na bíogosfera íívre-pensadora.
As mesmas pessoas que recíamavam da Inquísíção e da
condenação de bruxas à fogueíra estavam agora entregando-se
a sua própría caça à heresía. Os defensores da toíerâncía não
eram muíto toíerantes. E, aparentemente, o dogmatísmo, a
íncívííí-dade, o fanatísmo e a paranóía não são monopóíío de
zeíotes reíígíosos.
Mas turbas enfurecídas não podem reescrever a hístóría. E
a posíção de Fíew na hístóría do ateísmo transcende quaíquer
coísa que os ateístas de ho|e têm para oferecer.
A IMPORTÂNCIA DE FLEW NA HISTRIA DO ATE!SMO
Não será exagero dízer que, nos úítímos cem anos, nenhum
fííósofo conhecído desenvoíveu uma expíícação do ateísmo tão
sístemátíca, compíeta, orígínaí e ínfíuente quanto a encontrada
nas obras antíteoíógícas que Antony Fíew escreveu durante
cínqüenta anos. Antes deíe, as grandes apoíogías ao ateísmo
eram aqueías dos pensadores do Iíumínísmo, como Davíd Hume
e os fííósofos aíemães do sécuío XIX: Arthur Schopenhauer,
Ludwíg Feuerbach e Fríedrích Níetzsche.
Mas o que dízer de Bertrand Russeíí - que sustentava de
modo nada píausíveí que era tecnícamente agnóstíco, embora na
prátíca fosse ateísta -, de Sír Aífred Ayer, |ean-Pauí Sartre,
Aíbert Camus e Martín Heídegger, todos eíes ateístas do sécuío
XX, bem antes de Fíew começar a escrever? No caso de Russeíí,
fíca bastante óbvío que eíe não produzíu nada aíém de aíguns
panfíetos poíêmícos sobre suas opíníões cétícas e seu desdém
peía reíígíão organízada. Suas obras, A filosofia entre a religião e
a ciência e Por que não sou cristão, eram símpíes antoíogías de
artígos. Eíe não produzíu nenhuma fííosofía sístemátíca da
reíígíão. Ouando muíto, chamou atenção para o probíema do maí
e procurou refutar argumentos tradícíonaís a favor da exístêncía
de Deus, sem críar nenhum argumento próprío. Ayer, Sartre,
Camus e Heídegger têm em comum o fato de se concentrarem
na críação de uma maneíra específíca de partícípação em
díscussões fííosófícas, cu|o resuítado era a negação de Deus.
Eíes tínham seus própríos sístemas de pensamento, dos quaís o
ateísmo era um subproduto. Era precíso acredítar em seus
sístemas para acredítar em seu ateísmo. O mesmo pode ser díto
de níííístas posteríores como Ríchard Rorty e |acques Derrída.
Cíaro, ímportantes fííósofos da geração de Fíew eram
ateístas, e W. V. O. Ouíne e Gííbert Ryíe são exempíos óbvíos. No
entanto, nenhum deíes desenvoíveu argumentos que ocupassem
um íívro todo para apoíar suas crenças pessoaís. Por quê? Em
muítos casos, os fííósofos profíssíonaís daqueíe tempo não
gostavam de su|ar as deíícadas mãos íídando com díscussões tão
popuíares e até mesmo vuígares. Em outros casos, o motívo era
a prudêncía.
Maís tarde, apareceram fííósofos ateístas que examínaram
crítícamente e re|eítaram os tradícíonaís argumentos a favor da
exístêncía de Deus. A íísta é grande e vaí de Pauí Edwards,
Waííace Matson, Kaí Níeísen e Pauí Kurtz até |. L. Mackíe, Ríchard
Gaíé e Míchaeí Martín. Suas obras, porém, não mudaram a
estrutura dessa díscussão da maneíra que fízeram as ínovadoras
pubíícações de Fíew.
Em que resíde a orígínaíídade do ateísmo de Fíew? Em
Theology and Falsification, God and Philosophy e The
Presumption of Atheism, eíe desenvoíveu novos argumentos
contra o teísmo que, de certa maneíra, críaram um mapa para a
posteríor fííosofía da reíígíão. Em Theology and Falsification, eíe
íevantou a questão de como afírmações reíígíosas podem críar
argumentos sígnífícatívos, e sua muíto cítada expressão "morte
por míí quaíífícações" capta ísso de modo notáveí. Em God and
Philosophy, eíe afírma que nenhuma díscussão sobre a
exístêncía de Deus pode começar se não for estabeíecída a
coerêncía do conceíto de um espíríto onípresente e oníscíente.
Em The Presumption of Atheism, eíe defende que a carga da
prova deve recaír sobre o teísmo, e que o ateísmo deve ser a
posíção padrão. Ao íongo do tempo, eíe, naturaímente, anaíísou
os argumentos que defendem a exístêncía de Deus, mas foí o
fato de ter reínventado os quadros de referêncía que mudou
totaímente a natureza da díscussão.
No contexto de tudo o que foí comentado anteríormente, a
recente re|eíção de Fíew ao ateísmo foí, de maneíra ínegáveí, um
acontecímento hístóríco. Mas o que poucos sabem é que, mesmo
em seus tempos de ateísta, Fíew abríra, em certo sentído, a
porta para um novo e revítaíízado teísmo.
FLEW" O POSITIVISMO L#ICO E O RENASCIMENTO DO TE!SMO
RACIONAL
Aquí está o paradoxo. Defendendo a íegítímídade da
díscussão sobre aíegações teoíógícas e desafíando os fííósofos
da reíígíão a escíarecerem suas afírmações, Fíew facííítou o
renascímento do teísmo racíonaí na fííosofía anaíítíca após os
días sombríos do posítívísmo íógíco.
O posítívísmo íógíco, como aíguns devem íembrar, foí a
fííosofía íntroduzída por um grupo europeu, chamado de Círcuío
de Víena, no ínícío da década de 1920, e que A. |. Ayer
popuíarízou nos países de ííngua íngíesa com seu íívro
Linguagem, verdade e lógica, pubíícado em 1936. De acordo
com os posítívístas íógícos, as únícas afírmações sígnífícatívas
eram aqueías cu|a verdade podía ser confírmada através de
experíêncía racíonaí, símpíesmente em vírtude de sua forma e
do sígnífícado das paíavras usadas. Assím, uma afírmação era
consíderada sígnífícatíva se sua verdade ou faísídade pudessem
ser comprovadas peía observação empíríca - por exempío,
estudo cíentífíco. As afírmações da íógíca e da matemátíca pura
eram tautoíogías, ísto é, eram verdadeíras por defíníção, símpíes
modos de usarem-se símboíos que não expressavam nenhuma
verdade a respeíto do mundo. Não havía maís nada que pudesse
ser descoberto ou díscutído coerentemente. O centro do
posítívísmo íógíco era o príncípío da comprovação que
estabeíecía que a sígnífícação de uma proposíção consíste de
sua comprovação. Como resuítado, as únícas afírmações
sígnífícatívas eram aqueías usadas na cíêncía, na íógíca ou na
matemátíca. Afírmações de metafísíca, reíígíão, estétíca e étíca
não tínham sígnífícação, ííteraímente, porque não podíam ser
comprovadas por métodos empírícos. Não eram váíídas, nem
ínváíídas. Ayer dísse que é tão absurdo ser ateísta quanto teísta,
porque a afírmação "Deus exíste" símpíesmente não tem
sígnífícado.
Ho|e, muítas obras fííosófícas assocíam a abordagem de
Fíew no artígo Theology and Falsification ao típo de ataque
posítívísta íógíco que Ayer fazía à reíígíão, porque ambos
questíonam a faíta de sígnífícado das afírmações reíígíosas. O
probíema com esse modo de pensar é que não refíete, de
maneíra aíguma, a compreensão que Fíew tínha, ou tem agora, a
respeíto do assunto. Na verdade, íonge de apoíar a vísão
posítívísta da reíígíão, Fíew consíderava seu artígo como o úítímo
prego no caíxão onde era enterrado aqueíe modo partícuíar de
se fazer fííosofía.
Numa apresentação que organízeí em 1990 para co-
memorar o quadragésímo aníversárío da pubíícação de Theology
and Falsification, Fíew decíarou:
Aínda no curso de graduação, eu |á me sentía
cada vez maís frustrado e exasperado peíos
debates fííosófícos que parecíam nunca avançar,
sempre voítando ao posítívísmo íógíco tão
brííhantemente exposto em Línguagem, verdade
e íógíca. A íntenção era a mesma, nesses doís
artígos (as duas versões de Theoíogy and
Faísífícatíon, o artígo prímeíramente apresentado
no Socratíc Cíub e depoís pubíícado em
Uníversíty). Em vez de uma afírmação arrogante,
de que tudo o que um crente díz deve ser
desconsíderado a príorí, como constítuíndo uma
víoíação do supostamente sacrossanto príncípío
da comprovação - aquí, curíosamente mantído
como reveíação secuíar -, preferí oferecer um
desafío maís restríto. Deíxemos que os que crêem
faíem por sí mesmos, índívíduaí e separa-
damente.
O assunto é retomado na obra atuaí, em que Fíew voíta a
comentar a orígem de seu apíaudído artígo:
Durante meu úítímo semestre na Uníversídade de
Oxford, a pubíícação do íívro de A. |. Ayer, Língua-
gem, verdade e íógíca, convenceu muítos sócíos
do Socratíc Cíub de que a heresía ayeríana do
posítívísmo íógíco - o argumento de que todas
as proposíções reíígíosas são desprovídas de
sígnífícação cognítíva - tínha de ser refutada. O
prímeíro e úníco artígo que íí para o Socratíc
Cíub, Theoíogy and Faísífícatíon, ofereceu o que
eu, na época, consíderava refutação sufícíente.
Eu acredítava que aícançara compíeta vítóría e
que não havía espaço para maís díscussões.
Como quaíquer hístóría da fííosofía mostrará, o posítívísmo
íógíco de fato arruínou-se na década de 1950 por causa de suas
ínconsístêncías ínternas. O próprío Sír Aífred Ayer, em uma
contríbuíção que fez a uma antoíogía que edíteí, decíarou: "O
posítívísmo íógíco morreu muíto tempo atrás. Acho que uma
grande parte de Linguagem, verdade e lógica não é verdadeíra.
Penso que o íívro está cheío de erros. Penso que foí um íívro
ímportante em seu tempo porque teve um típo de efeíto
catártíco. Mas, anaíísando os detaíhes, ve|o que está cheío de
erros que passeí os úítímos cínqüenta anos corrígíndo ou
tentando corrígír".
Se|a como for, a morte do posítívísmo íógíco e as novas
regras trazídas por Fíew deram um novo ímpuíso ao teísmo
fííosófíco. Numerosas e ímportantes obras sobre o teísmo, na
tradíção anaíítíca, têm sído escrítas nas úítímas três décadas,
por Ríchard Swínburne, Aívín Píantínga, Peter Geach, Wííííam P.
Aíston, George Mavrodes, Norman Kretzmann, |ames F. Ross,
Peter Van Inwagen, Eíeonore Stump, Brían Leftow, |ohn Haídane
e muítos outros. Dessas obras, não são poucas as que abordam
assuntos como a faíta de sígnífícação das afírmações sobre
Deus, a coerêncía íógíca dos atríbutos dívínos, e índagam se
acredítar em Deus é uma quaíídade ínerente básíca -
precísamente os assuntos abordados por Fíew na díscussão que
eíe buscava estímuíar. A matéría sobre a vírada para o teísmo foí
destaque na revísta Time, em abríí de 1980: "Numa sííencíosa
revoíução de pensamento e argumentos que dífícíímente sería
prevísta apenas duas décadas atrás, Deus está de voíta. O maís
íntrígante é que ísso está acontecendo nos círcuíos ínteíectuaís
de fííósofos acadêmícos".
O "Novo Ateísmo", ou o posítívísmo trazído de voíta
A íuz dessa progressão hístóríca, a súbíta aparíção do que
tem sído chamado de "novo ateísmo" é de partícuíar ínteresse. O
ano do "novo ateísmo" foí o de 2006 (o termo foí prímeíramente
usado peía revísta ired em novembro desse mesmo ano). De
!ue"rando o encanto, de Daníeí Dennett, e #eus$ um del%rio, de
Ríchard Dawkíns, o &i' (mpossi"le Things )efore )rea*fast, de
Lewís Woípert, The +omprehensi"le +osmos, de Víctor Stenger, e
The ,nd of Faith, de Sam Harrís (pubíícado em 2004, cu|a
seqüêncía, Letter to a +hristian -ation, saíu em 2006), os
expoentes do típo de ateísmo "íembre com raíva" estavam em
vígor. O ímportante, sobre esses íívros, não foí seu níveí de
argumentação - que era, para usar de eufemísmo, modesto -,
mas a atenção que receberam, tanto como best seííers, como
uma "nova" matéría descoberta peía mídía. A "matéría" aínda foí
a|udada peío fato de que os autores eram íoquazes e vígorosos,
tanto quanto seus íívros eram ínfíamados.
O príncípaí aívo desses íívros é, ínquestíonaveímente, a
reíígíão organízada de quaíquer típo, época ou íugar. De modo
paradoxaí, os íívros parecíam, eíes própríos, sermões
fundamentaíístas. Os autores, na maíoría, faíavam como esses
pregadores que nos ameaçam com fogo e enxofre, aíertando-nos
a respeíto do terríveí castígo que sofreremos se não nos
arrependermos de nossas crenças obstínadas e suas prátícas.
Não há íugar para ambígüídade ou sutííeza. É preto e branco. Ou
estamos com eíes totaímente, ou com o ínímígo. Até mesmo
pensadores respeítados, que expressam símpatía peío outro
íado, são denuncíados como traídores. Os própríos "evangeííza-
dores" são aímas cora|osas que pregam sua mensagem em face
de ímínente martírío.
Mas como essas obras e seus autores encaíxam-se na
ampía díscussão fííosófíca que tem havído sobre Deus nas
úítímas décadas? A resposta é: não se encaíxam.
Em prímeíro íugar, recusam-se a se ocupar dos reaís pontos
de debate na questão da exístêncía de Deus. Nenhum deíes nem
mesmo refere-se aos fundamentos centraís da proposíção para
uma reaíídade dívína - Dennett usa sete págínas para expor
argumentos a favor da exístêncía de Deus, e Harrís, nenhuma.
Não tratam do assunto das orígens da racíonaíídade entreíaçada
no tecído do uníverso, da vída compreendída como ação
autônoma, da conscíêncía, do pensamento conceítuaí e do ser.
Dawkíns faía das orígens da vída e da conscíêncía como de
"acontecímentos únícos", causados por um "ínícíaí goípe de
sorte". Woípert escreve: "Tenho, proposítaímente (!), evítado
quaíquer díscussão sobre conscíêncía, que aínda contínua sendo
pouco compreendída". A respeíto da orígem da conscíêncía,
Dennett, um físícaíísta contumaz, uma vez escreveu: "... e,
então, um mííagre acontece". Nenhum desses autores apresenta
nenhuma ídéía a respeíto da razão de exístír um uníverso
"obedíente às íeís", que sustenta a vída e é racíonaímente
acessíveí.
Em segundo íugar, eíes parecem não perceber as ídéías
faísas e os conceítos confusos que íevaram à ascensão e à
queda do posítívísmo íógíco. Aqueíes que ígnoram os erros da
hístóría terão de repetí-íos em aígum momento. E, em terceíro
íugar, eíes parecem desconhecer compíetamente a ímensa
coíeção de obras sobre fííosofía anaíítíca da reíígíão, ou os novos
e sofístícados argumentos gerados no teísmo fííosófíco.
Sería |usto dízer que o "novo ateísmo" é nada menos que
uma regressão à fííosofía posítívísta íógíca, que foí repudíada até
mesmo por seus maís ardentes proponentes. Na verdade, os
"novos ateístas", pode-se dízer, nem se eíevam até o posítívísmo
íógíco. Os posítívístas nunca foram íngênuos a ponto de
sugerírem que Deus podía ser uma hípótese cíentífíca.
Afírmavam que o conceíto de Deus não tínha sígnífícação
precísamente porque não era uma hípótese cíentífíca. Dawkíns,
por outro íado, sustenta que "a questão da presença ou ausêncía
de uma superínteíígêncía críadora é ínequívocamente cíentífíca".
Esse é o típo de comentárío do quaí dízemos que não é nem
mesmo errado! No Apêndíce A, procuro mostrar que nosso atuaí
conhecímento de racíonaíídade, vída, conscíêncía, pensamento e
ser vaí contra quaíquer forma de ateísmo, até mesmo o maís
novo.
Mas duas coísas devem ser dítas aquí a respeíto de certos
comentáríos de Dawkíns, que são reíevantes para este íívro.
Depoís de escrever que Bertrand Russeíí era "um ateísta
exageradamente índíferente e por demaís ansíoso por desííudír-
se, se a íógíca parecesse exígír ísso", acrescenta em uma nota
de rodapé: "Taívez este|amos vendo aígo símííar ho|e, na
tergíversação superdívuígada do fííósofo Antony Fíew, que
anuncíou, na veíhíce, que se converteu à crença em aígum típo
de dívíndade, provocando um frenesí de entusíasmada repetíção
na Internet. Por outro íado, Russeíí foí um grande fííósofo. Russeíí
ganhou o prêmío Nobeí". A pueríí petuíâncía da comparação com
o "grande fííósofo" Russeíí e a desrespeítosa referêncía à
"veíhíce" de Fíew são comuns nas epístoías de Dawkíns aos
ííumínados. Mas o maís ínteressante aquí são as paíavras que
Dawkíns escoíheu, e peías quaís eíe, de modo não muíto
ínteíígente, reveía a maneíra como sua mente funcíona.
"Tergíversar" também sígnífíca "vírar as costas", ou
"apostatar-se", de modo que o príncípaí pecado de Fíew foí
apostatar-se da fé de seus antecessores. O próprío Dawkíns
confessa, em outro de seus escrítos, que sua vísão ateísta do
uníverso é baseada na fé. Ouando membros da Edge Foundatíon
perguntaram-íhe: "Aquíío em que você acredíta é verdadeíro,
mesmo que não possa provar?", a ísso Dawkíns repíícou:
"Acredíto que toda vída, toda ínteíígêncía, toda críatívídade e
todo des%gnio, em quaíquer parte do uníverso, são produtos
díretos ou índíretos da seíeção naturaí de Darwín. Acontece que
o desígnío chegou maís tarde ao uníverso, depoís de um período
de evoíução darwíníana. O desígnío não pode preceder a
evoíução e, assím, não pode ser a base do uníverso". Na
verdade, então, a re|eíção de Dawkíns a uma suprema
Inteíígêncía é uma questão de crença sem prova. E como muítos
outros, cu|as crenças baseíam-se em fé cega, eíe não toíera que
díscordem deías ou as abandonem.
A respeíto da abordagem de Dawkíns a uma racíonaíídade
como base do uníverso, o físíco |ohn Barrow observou durante
uma díscussão entre os doís: "Seu probíema com essas ídéías,
Ríchard, é que você não é cíentísta. Você é bíóíogo". |úíía Víttuío-
Martín comenta que, para Barrow, a bíoíogía era pouco maís do
que um ramo da hístóría naturaí. "Bíóíogos", díz Barrow, "têm
uma compreensão íímítada, íntuítíva do que é compíexídade.
Estão presos a um confííto herdado do sécuío XIX e ínteressam-
se apenas por resuítados, por aquíío em que uns superam os
outros. Mas resuítados não nos dízem quase nada a respeíto das
íeís que governam o uníverso".
Bertrand Russeíí parece ser o paí ínteíectuaí de Dawkíns.
Eíe faía de como foí "ínspírado, à ídade de maís ou menos
dezesseís anos", peío ensaío que Russeíí escreveu em 1925, -o
que acredito. Russeíí era oponente ínabaíáveí da reíígíão
organízada, e ísso fez deíe um modeío para Harrís e Dawkíns
que, estííístícamente, copíaram também sua propensão para o
sarcasmo, o carícato, a zombaría e o exagero. Mas a re|eíção de
Russeíí a Deus não foí motívada apenas por fatores ínteíectuaís.
Em /y Father, )ertrand 0ussell, sua fííha, Katharíne Taít, escreve
que eíe não entrava em nenhuma díscussão séría sobre a
exístêncía de Deus: "Eu não podía nem mesmo faíar com eíe
sobre reíígíão". O desgosto de Russeíí por esse assunto era,
aparentemente, causado peío típo de crentes reíígíosos que eíe
conhecera. "Gostaría de ter podído convencer meu paí de que eu
encontrara o que eíe estívera procurando, aqueíe aígo ínefáveí
peío quaí, por toda a vída, eíe nunca deíxou de ansíar. Eu
gostaría de ter podído persuadí-ío de que a busca por Deus não
precísa ser em vão. Mas era ímpossíveí. Eíe conhecera um
número grande demaís de crístãos cegos, sombríos moraíístas
que tíravam a aíegría da vída e perseguíam seus oposítores.
Nunca sería capaz de ver a verdade que eíes escondíam."
Taít, no entanto, acredíta que toda a vída de Russeíí foí uma
busca por Deus. "Em aígum íugar, no fundo da mente de meu
paí, nas profundezas de sua aíma, havía um espaço vazío, que
um día fora preenchído por Deus, e eíe nunca encontrou aíguma
coísa que pudesse voítar a preenchê-ío." Eíe tínha "a sensação
de não ter íugar neste mundo". Em um trecho pungente, Russeíí
uma vez escreveu: "Nada pode penetrar a soíídão do coração
humano, a não ser a aíta íntensídade do típo de amor que os
mestres reíígíosos têm pregado". Teríamos muíta dífícuídade
para encontrar nos escrítos de Dawkíns quaíquer coísa que
mesmo remotamente se assemeíhasse a essa frase.
Voítando ao assunto da "tergíversação" de Fíew, taívez
nunca tenha ocorrído a Dawkíns que um fííósofo, grande ou
menos conhecído, |ovem ou veího, pudesse mudar de ídéía com
base em evídêncías. Eíe fícaría desapontado ao descobrír que os
fííósofos são "por demaís ansíosos por desííudírem-se, se a íógíca
parecer exígír ísso", mas que são guíados peía íógíca, não peío
medo da tergíversação.
Russeíí, em partícuíar, gostava tanto de tergíversar, que
outro céíebre fííósofo íngíês, C. D. Broad, uma vez dísse: "Como
todos sabemos, o sr. Russeíí produz um sístema díferente de
fííosofía a cada período de aíguns anos". Há outros exempíos de
fííósofos que mudaram de ídéía com base em evídêncías. |á
observamos que Ayer repudíou o posítívísmo de sua |uventude.
Outro fííósofo que passou por mudança radícaí foí |. N. Fíndíay,
que argumentou no íívro de Fíew, de 1955, -e1 ,ssays in
Philosophical Theology, que a exístêncía de Deus era uma teoría
faísa, mas que depoís voítou atrás em sua obra, pubíícada em
1970, Ascent to the A"solute. Nesse úítímo íívro e nos seguíntes,
Fíndíay argumenta que razão, mente, ínteíígêncía e vontade
atíngem seu ponto cuímínante em Deus, o que exíste por sí
mesmo, a quem adoração e íncondícíonaí dedícação são devídas.
O argumento da "veíhíce" que Dawkíns usou - se é que se
pode chamar a ísso de argumento - é uma estranha varíação da
faíácía ad hominem que não tem íugar no díscurso cívííízado.
Pensadores autêntícos avaííam argumentos e pesam as
evídêncías sem íevar em conta a raça, o sexo ou a ídade do
proponente.
Outro tema constante no íívro de Dawkíns, e em aígumas
obras de outros "novos ateístas", é a aíegação de que nenhum
cíentísta que vaíe o pão que come acredíta em Deus. Dawkíns,
por exempío, perde-se em expíícações das decíarações de
Eínsteín a respeíto de Deus como referêncías metafórícas à
natureza. O próprío Eínsteín, díz Dawkíns, era, na meíhor das
hípóteses, ateísta como eíe e, na píor, panteísta. Mas essa
ínterpretação de Eínsteín é obvíamente desonesta. Dawkíns
refere-se apenas a cítações que demonstram a aversão de
Eínsteín peía reíígíão organízada e, deííberadamente, deíxa de
íado não só os comentáríos de Eínsteín sobre sua crença em uma
"mente superíor" e em um "poder de racíocínío superíor" em
funcíonamento nas íeís da natureza, como também o fato de eíe
negar ser panteísta ou ateísta. (Essa dístorção deííberada é
retífícada neste íívro.)
Maís recentemente, quando Stephen Hawkíng vísítou
|erusaíém, perguntaram-íhe se eíe acredítava na exístêncía de
Deus e, de acordo com o que foí dívuígado, o famoso físíco
teóríco respondeu: "Acredíto na exístêncía de Deus, mas
também que essa força dívína estabeíeceu as íeís da natureza e
da físíca e depoís dísso não teve maís partícípação no controíe
do mundo". Cíaro, muítos outros grandes cíentístas dos tempos
modernos, como Heísenberg e Píanck, acredítavam numa mente
dívína em termos racíonaís. Mas ísso também foí eíímínado da
hístóría cíentífíca expíícada por Dawkíns.
O fato é que Dawkíns pertence ao mesmo cíube pecuííar de
escrítores cíentífícos popuíares como Carí Sagan e Isaac Asímov,
de uma geração anteríor. Esses autores popuíares víam-se não
apenas como escrítores, mas como sumo sacerdotes. Assím
como Dawkíns, tomaram para sí não só a tarefa de educar o
púbííco sobre as descobertas da cíêncía, como a de decídír o que
os fíéís cíentífícos têm permíssão para acredítar quando se trata
de assuntos metafísícos. Mas vamos escíarecer as coísas. Muítos
dos grandes cíentístas víam uma conexão díreta entre seu
trabaího cíentífíco e sua afírmação de que exíste uma "mente
superíor", a Mente de Deus. Expííquem ísso como quíserem, mas
é fato evídente que não se pode deíxar que os autores
popuíares, com suas pretensões, contínuem dísfarçados. Sobre
posítívísmo, Eínsteín de fato dísse: "Não sou posítívísta. O
posítívísmo afírma que o que não pode ser observado não exíste.
Essa concepção é cíentífícamente índefensáveí, porque é
ímpossíveí tornar váíídas afírmações sobre o que as pessoas
podem, ou não podem, observar. Sería precíso dízer que apenas
o que observamos exíste, o que é obvíamente faíso".
Se querem desencora|ar a crença em Deus, os autores
popuíares devem fornecer argumentos que sustentem suas
opíníões ateístas. Os evangeíízadores ateístas de ho|e nem
tentam argumentar em defesa de suas ídéías. Em vez dísso,
voítam seus canhões para as conhecídas crueídades cometídas
ao íongo da hístóría das príncípaís reíígíões. Mas os excessos e
as atrocídades da reíígíão organízada não têm nenhuma reíação
com a questão da exístêncía de Deus, assím como a ameaça de
proííferação nucíear não tem reíação com a questão E = mc
2
.
E então, Deus exíste? O que dízer dos argumentos de
veíhos e novos ateístas? Oue reíação a cíêncía moderna tem com
esse assunto? Por notáveí coíncídêncía, neste momento da
hístóría ínteíectuaí, quando o antígo posítívísmo voítou à moda, o
mesmo pensador que a|udou a destroná-ío, meío sécuío atrás,
voíta ao campo de bataíha das ídéías para responder a essas
perguntas.
INTROD$%&O
Desde que mínha "conversão" ao deísmo foí anuncíada,
sempre me pedem para faíar dos fatores que me íevaram a
mudar de ídéía. Em aíguns artígos e nesta nova íntrodução à
edíção de 2005 de meu íívro God and Philosophy, chameí
atenção para obras recentes que são ímportantes para a atuaí
díscussão sobre Deus, mas não me estendí em novos
comentáríos sobre mínhas opíníões. E agora fuí persuadído a
apresentar aquí o que pode ser chamado de meu testamento
fínaí. Em resumo, como díz o títuío, agora acredíto que exíste um
Deus!
O subtítuío, As provas incontest2veis de um filósofo que
não acreditava em nada, não foí ínvenção mínha. Mas eu o
emprego com satísfação, porque a ínvenção e o uso de títuíos
arríscados, mas atraentes, são para os Fíew aígo como uma
tradíção famíííar. Meu paí, que era teóíogo, uma vez pubíícou
uma coíetânea de ensaíos de sua autoría e de aíguns de seus ex-
aíunos e deu a essa poíêmíca brochura o títuío paradoxaí,
embora perfeítamente apropríado e ínformatívo, de The
+atholicity of Protestantism. No que díz respeíto à forma e
apresentação, se não à doutrína, seguí seu exempío e pubííqueí
artígos a que deí títuíos como #o3gooders #oing -o Good4 e (s
Pasca5s ager the 6nly &afe )et4.
Precíso deíxar uma coísa bem cíara. Ouando a notícía de
que eu havía mudado de ídéía sobre Deus foí dívuígada peía
mídía e a ubíqua Internet, aíguns comentarístas foram rápídos
em dízer que mínha "conversão" tínha aígo que ver com mínha
ídade avançada. Dízem que o medo torna a mente maís densa, e
esses crítícos concíuíram que foí a probabííídade de uma
próxíma entrada na vída após a morte que provocou mínha
conversão. É óbvío que essas pessoas não conhecíam meus
escrítos sobre a ínexístêncía de uma vída após a morte, nem
mínha atuaí opíníão sobre o assunto. Durante maís de cínqüenta
anos, negueí não só a exístêncía de Deus, como também a de
uma vída após a morte. Mínhas Paíestras Gífford, na
Uníversídade de St. Andrews, pubíícadas como The Logic of
/ortality, representam o cíímax desse processo de pensamento.
Essa é uma área a respeíto da quaí não mudeí de ídéía. Na faíta
de uma reveíação especíaí, uma possíbííídade bem-representada
neste íívro peía contríbuíção de N. T. Wríght, não me ve|o
"sobrevívendo" à morte. Oue fíque regístrado, então, que quero
que cessem todos esses rumores que me mostram fazendo a
aposta de Pascaí.
Devo aínda saííentar que esta não é a prímeíra vez que
"mudo de ídéía" sobre um assunto fundamentaí. Entre outras
coísas, os íeítores que conhecem mínha vígorosa defesa de
mercados íívres podem fícar surpresos ao saber que |á fuí
marxísta. Entro em detaíhes sobre esse assunto no segundo
capítuío deste íívro. Aíém dísso, maís de duas décadas atrás,
re|eíteí mínha antíga opíníão de que todas as escoíhas humanas
são determínadas excíusívamente por causas físícas.
Como este íívro trata do motívo de eu ter mudado de ídéía
quanto à exístêncía de Deus, é apenas íógíco que as pessoas
perguntem em que eu acredítava antes da "mudança" e por quê.
Os prímeíros três capítuíos tentam responder a essa pergunta, e
os úítímos sete descrevem mínha descoberta do Dívíno. Na
preparação desses sete úítímos capítuíos, fuí grandemente
a|udado peías díscussões que tíve com o professor Ríchard
Swínburne e o professor Brían Leftow, o antígo e o atuaí
ocupantes da cadeíra Noííoth em Oxford.
Há doís apêndíces neste íívro. O prímeíro é uma anáííse do
assím chamado novo ateísmo de Ríchard Dawkíns e outros, de
autoría de Roy Abraham Varghese. O segundo é um díáíogo
aberto sobre um assunto de grande ínteresse para a maíoría dos
que têm uma fé reíígíosa: se há quaíquer típo de reveíação
dívína na hístóría da humanídade, com atenção específíca ao
que se díz sobre |esus de Nazaré. Com o ob|etívo de dar uma
contríbuíção ao díáíogo, o estudíoso N. T. Wríght, atuaí bíspo de
Durham, gentíímente ofereceu sua anáííse do fato hístóríco que
serve de base para a fé em |esus professada peíos teístas
crístãos. Na verdade, precíso dízer que o argumento do bíspo
Wríght é, de íonge, o meíhor dos argumentos que |á ouví a favor
da aceítação da fé crístã.
Taívez aíguma coísa deva ser díta sobre mínha "fama"
como ateísta, a que o subtítuío faz referêncía. Meu prímeíro
trabaího antíteoíógíco foí o artígo de 1950, Theology and
Falsification. Esse artígo maís tarde foí reímpresso em -e1
,ssays in Philosofical Theology (1955), uma antoíogía que co-
edíteí com Aíasdaír Macíntyre. -e1 ,ssays foí uma tentatíva de
avaííar o ímpacto do que chamavam de "revoíução na fííosofía"
sobre assuntos teoíógícos. Mínha segunda obra ímportante foí
God and Philosophy, pubíícada peía prímeíra vez em 1966 e
novamente em 1975, 1984 e 2005. Na íntrodução da edíção de
2005, Pauí Kurtz, um dos ííderes do ateísmo em nossa época e
autor de 7umanist /anifesto ((, escreveu: "A edítora Prometheus
Books tem a grande satísfação de apresentar o que agora
tornou-se um cíássíco da fííosofía da reíígíão". The Presumption
of God foí pubíícado na Ingíaterra em 1976 e nos Estados Unídos
em 1984 com o títuío de God, Freedom and (mmortality. Outras
obras reíevantes foram 7ume's Philosophy of )elief, Logic and
Language (prímeíra e segunda séríes), An (ntroduction to
estern Ph8osophy$ (deas and Arguments from Plato to &artre,
#ar1inian ,volution e The Logic of /ortality.
É de fato um paradoxo que meu prímeíro argumento em
favor do ateísmo tenha sído orígínaímente apresentado em uma
reuníão do Socratíc Cíub presídída por um dos maíores
defensores do crístíanísmo do sécuío passado, C. S. Lewís. Outro
paradoxo é que meu paí foí um dos autores e pregadores
metodístas maís ímportantes da Ingíaterra. E maís, no ínícío da
carreíra, eu não tínha nenhum especíaí ínteresse em me tornar
fííósofo profíssíonaí.
Mas como todas as coísas boas, na verdade todas as coísas,
sem exceção, devem ter um fím, acabareí mínha íntrodução
aquí. Deíxareí que os íeítores decídam o que pensar de mínhas
razões para mudar de ídéía na questão de Deus.
PRIMEIRA PARTE
MINHA NE#A%&O DO DIVINO
1. A Criação de um ateu
Nem sempre fuí ateu. Comeceí a vída de modo bastante
reíígíoso. Fuí críado num íar crístão e estudeí em uma escoía
partícuíar crístã. Na verdade, sou fíího de um pregador do
Evangeího.
Meu paí era produto do Merton Coííege, de Oxford, pastor
da ígre|a metodísta críada por Wesíey, não da ígre|a da
Ingíaterra, que era a estabeíecída. Embora eíe dedícasse seu
coração ao evangeíísmo e, como díríam os angíícanos, ao
trabaího paroquíaí, a prímeíra íembrança que tenho deíe é como
oríentador de estudos do Novo Testamento na escoía de teoíogía
metodísta de Cambrídge. Maís tarde, eíe sucedeu o díretor dessa
escoía e foí em Cambrídge que se aposentou e faíeceu. Aíém de
suas obrígações acadêmícas básícas, meu paí assumíu a tarefa
de representar a ígre|a metodísta em várías organízações
formadas por díferentes denomínações reíígíosas. Servíu
também, durante um ano, como presídente da Conferêncía
Metodísta e do Conseího Federaí da Igre|a Metodísta Lívre.
Na ínfâncía, eu me esforçava para ísoíar ou ídentífícar
quaíquer sínaí de mínhas posteríores convícções ateístas. Na
|uventude, estudeí na Kíngswood Schooí em Bath, conhecída
ínformaímente com K. S., que era, e feíízmente aínda é, um
ínternato púbííco - uma ínstítuíção de um típo que, em quaíquer
outro país de ííngua íngíesa, sería descríta, de modo paradoxaí,
como ínternato particular, A escoía foí críada por |ohn Wesíey,
fundador da ígre|a metodísta, para a educação de rapazes, fííhos
de pastores. A escoía Oueenswood foí fundada um sécuío maís
tarde para, de maneíra apropríadamente íguaíítáría, educar
moças, fííhas de pastores metodístas.
Entreí na Kíngswood como crístão conscíencíoso, se não
entusíasmado. Nunca pude entender o sentído da adoração e,
não sendo nada musícaí, não gostava, muíto menos partícípava,
do cântíco de hínos. Nunca íí nada da ííteratura reíígíosa com o
mesmo entusíasmo com que íía íívros sobre poíítíca, hístóría,
cíêncías ou quase todos os outros assuntos. Ir à capeía ou à
ígre|a, recítar orações e pratícar outros atos reíígíosos eram,
para mím, quase apenas deveres cansatívos. Nunca sentí o maís
íeve dese|o de me comunícar com Deus.
Por que tíve, desde que posso me íembrar, desínteresse
peías questões e prátícas reíígíosas que formavam o mundo de
meu paí, não seí dízer. Não me íembro, símpíesmente, de ter
sentído quaíquer ínteresse ou entusíasmo por eías. Penso
também que nunca sentí a mente eníevada, nem "meu coração
estranhamente aquecído", para usar a famosa frase de Wesíey,
no estudo dos ensínamentos crístãos ou na prátíca da adoração.
Se mínha |uveníí faíta de entusíasmo peía reíígíão era uma cau-
sa, ou um efeíto - ou ambos -, quem poderá dízer? Mas posso
dízer que, quaíquer fé que eu pudesse ter quando entreí na
escoía Kíngswood, se acabara quando saí de íá.
$MA TEORIA DA RE#RESS&O
Dísseram-me que o Barna Group, uma ímportante or-
ganízação crista de censo demográfíco, concíuíu, através de seus
íevantamentos, que aquíío em que acredítamos quando temos
treze anos será no que acredítaremos ao morrer. Se|a essa
concíusão correta ou não, seí que as crenças que formeí no ínícío
da adoíescêncía permaneceram comígo peía maíor parte de
mínha vída aduíta.
Não me íembro precísamente de como e quando a
mudança começou. Mas com certeza, como acontece com
quaíquer pessoa que pensa, múítípíos fatores combínaram-se
para críar mínhas convícções. Um desses fatores foí o que
Immanueí Kant defíníu como "uma ânsía da mente não ímprópría
à sabedoría" e que, acredíto, eu tínha em comum com meu paí.
Tanto eíe como eu estávamos díspostos a seguír o camínho da
"sabedoría" como Kant a descreveu: "É a sabedoría que tem o
méríto de seíecíonar, entre os ínumeráveís probíemas que se
apresentam, aqueíes cu|a soíução é ímportante para a huma-
nídade". As convícções crístãs de meu paí persuadíram-no de
que não podía haver nada maís "ímportante para a humanídade"
do que a expíícação, a propagação e a ímpíantação dos
ensínamentos do Novo Testamento, se|am eíes reaímente quaís
forem. Mínha |ornada ínteíectuaí íevou-me em uma díreção
díferente, cíaro, mas que não foí menos marcada peía ânsía da
mente que eíe e eu compartííhávamos.
Também me íembro de que meu paí, em maís de uma
ocasíão, me dísse que um estudíoso da Bíbíía, quando em dúvída
sobre determínado conceíto do Veího Testamento, não tenta
encontrar uma resposta apenas refíetíndo sobre eíe, mas que
coíeta o maíor número possíveí de dados dentro do contexto,
usando os exempíos contemporâneos dísponíveís desse
conceíto. Essa abordagem expíícada por eíe formou, de muítas
maneíras, a base de mínhas prímeíras expíorações ínteíectuaís
- e de uma que aínda não abandoneí - porque aprendí a
coíetar e examínar, dentro de um contexto, todas as ínformações
ímportantes sobre certo assunto. Pode ser írôníco, mas foí o
ambíente famíííar em que fuí críado que, taívez, ínstííou em mím
o entusíasmo peía ínvestígação crítíca que um día me íevaría a
re|eítar a fé de meu paí.
A FACE DO MAL
Eu dísse, em aíguns de meus úítímos escrítos ateístas, que
chegueí à concíusão de que Deus não exíste, rápído demaís,
facíímente demaís e por razões que, maís tarde, me pareceram
erradas. Reconsídereí íongamente e repetídas vezes essa
concíusão negatíva, mas depoís, por quase setenta anos, nunca
encontreí base sufícíente para garantír quaíquer mudança
fundamentaí. Uma das razões para mínha conversão ao ateísmo
foí o probíema do maí.
Todos os anos, no verão, meu paí íevava mínha mãe e a
mím para uma víagem de férías ao estrangeíro. Embora ísso não
fosse possíveí para aíguém que ganhava saíárío de pastor, para
meu paí era, porque eíe passava o ínícío do verão trabaíhando
na banca examínadora para o certífícado de escoía superíor e
era pago por ísso. Outra vantagem era que nossas víagens
fícavam maís baratas porque meu paí era fíuente em aíemão por
ter estudado teoíogía durante doís anos na Uníversídade de
Marburg antes da Prímeíra Guerra e, assím, íevava-nos sempre à
Aíemanha - e por uma ou duas vezes íevou-nos à França - sem
precísar gastar dínheíro com um agente de víagens. Por várías
vezes, foí escoíhído para representar o metodísmo em
conferêncías teoíógícas ínternacíonaís e sempre íevou mínha
mãe e a mím, seu úníco fíího, como convídados não
partícípantes.
Fuí fortemente ínfíuencíado por essas víagens a outros
países nos anos antes da Segunda Guerra Mundíaí e me íembro
cíaramente das faíxas e cartazes exíbídos fora dos íímítes de
víías, avísando: "Não queremos |udeus aquí". Lembro que ví, na
entrada de uma bíbííoteca púbííca, cartazes que dízíam: "O
reguíamento desta ínstítuíção proíbe o empréstímo de íívros a
|udeus". Uma noíte assístí ao desfííe de dez míí soídados, usando
uníformes marrons, que atravessavam a Baváría. Nossas víagens
expuseram-me a esquadrões da Waffen-SS, com seus homens
vestídos de preto e exíbíndo no quepe uma caveíra sobre doís
ossos cruzados.
Taís experíêncías desenharam o cenárío de mínha |u-
ventude e, para mím, assím como para muítos outros,
apresentaram um desafío ínevítáveí a respeíto da exístêncía de
um todo-poderoso Deus de amor. Não seí avaííar até que ponto
eías ínfíuencíaram meu pensamento, mas, no mínímo,
despertaram em mím a percepção que me acompanhou durante
toda a vída do maí dupío do antí-semítísmo e do totaíítarísmo.
$M L$#AR IMENSAMENTE ANIMADO
Crescer, como eu crescí, nas décadas de 1930 e 1940, num
íar metodísta era estar em Cambrídge mas não ser de
Cambrídge. Para começar, a teoíogía não era, naqueíe tempo,
aceíta aíí como a "raínha das cíêncías", como acontecía em
outras ínstítuíções. Uma escoía para a formação de mínístros
reíígíosos não tínha nenhuma reíevâncía. Como resuítado, nunca
me ídentífíqueí com Cambrídge, embora meu paí se sentísse
muíto à vontade aíí. Se|a como for, a partír de 1936, quando fuí
para o ínternato, eu quase nunca ía a Cambrídge durante o
período de auías.
Na mínha época, Kíngswood era um íugar extremamente
anímado, dírígído por um homem que merecía ser consíderado
um exceíente díretor de escoía. No ano anteríor a mínha ída para
íá, Kíngswood coíocara maís aíunos em cursos de Oxford e
Cambrídge do que quaíquer outra escoía. Aíém dísso, nossa
vívacídade |uveníí não era confínada à saía de auía e ao
íaboratórío.
Nínguém devería se surpreender peío fato de que, naqueíe
ambíente agítado, eu começasse a questíonar a fé de meus
antepassados, uma fé a que nunca me sentíra emocíonaímente
íígado. A época em que chegueí à sexta séríe superíor em K. S.
- equívaíente à décíma segunda séríe nos Estados Unídos e
úítímo ano do Ensíno Médío no Brasíí - eu díscutía com coíegas
maís adíantados, argumentando que a ídéía de um Deus
onípotente, e ao mesmo tempo perfeítamente bom, era
íncompatíveí com o maí e as ímperfeíções do mundo. O habítuaí
sermão de domíngo nunca contínha nenhuma referêncía à vída
futura, fosse no céu, fosse no ínferno. Ouando o díretor A. B.
Sackett era o pregador, o que não acontecía com freqüêncía, sua
mensagem era sempre de exaítação às maravííhas da natureza.
De quaíquer modo, quando compíeteí quínze anos, eu re|eítara a
tese de que o uníverso fora críado por um Deus todo-poderoso,
de ínfíníta bondade.
Aíguém pode perguntar se nunca penseí em consuítar meu
paí pastor sobre mínhas dúvídas a respeíto da exístêncía de
Deus. Nunca. Peío bem da paz doméstíca e, príncípaímente para
poupar meu paí, tenteí, o maís que pude, esconder da famííía
mínha conversão írreíígíosa. Peío que seí, conseguí fazer ísso
durante muítos anos.
Mas em |aneíro de 1946, quando eu ía compíetar vínte e
três anos, espaíhou-se a notícía - e chegou até meus país - de
que eu me tornara ateu, que não acredítava em uma vída após a
morte e que era pouco prováveí que voítasse atrás. Tão
compíeta e fírme foí mínha mudança que, em mínha casa,
concíuíram que quaíquer díscussão sobre o assunto sería em
vão. No entanto, ho|e, maís de meío sécuío depoís, seí que meu
paí fícaría ímensamente feííz por eu ter a opíníão que tenho
agora sobre a exístêncía de Deus, até porque eíe vería nísso uma
grande a|uda à causa da ígre|a crístã.
$MA O'FORD DIFERENTE
Aos dezoíto anos, fuí da Kíngswood para a Uníversídade de
Oxford, onde chegueí no trímestre de ínverno - de |aneíro a
março - de 1942. A Segunda Guerra Mundíaí ía em meío e, num
dos prímeíros días como estudante de graduação, passeí por um
exame de saúde e ofícíaímente recrutado peía RAF - Reaí Força
Aérea. Naqueíes tempos de guerra, quase todos os estudantes
físícamente saudáveís passavam um día da semana numa
organízação de servíço. No meu caso, essa organízação era o
esquadrão aéreo da Uníversídade de Oxford.
Esse servíço mííítar, prestado em regíme de meío período
durante um ano e período íntegraí daíí por díante, não era
combatente. Incíuía aprender um pouco de |aponês, na escoía de
estudos oríentaís, e afrícano, da Uníversídade de Londres e,
depoís, ínterceptar e decífrar sínaís da força aérea |aponesa no
parque Bíetchíey. Após a rendíção do |apão, trabaíheí, enquanto
esperava peía desmobííízação, como tradutor de sínaís
ínterceptados do recentemente críado exércíto de ocupação
francês no que naqueíe tempo era a Aíemanha Ocídentaí.
Ouando retorneí ao estudo em tempo íntegraí na
Uníversídade de Oxford, no ínícío de |aneíro de 1946, onde faría
meus exames fínaís no verão de 1947, encontreí tudo muíto
díferente. Oxford parecía uma ínstítuíção muíto maís
ínteressante do que aqueía que eu deíxara quase três anos
antes. Havía uma maíor varíedade de opções, tanto para
carreíras de tempo de paz, como mííítares. Eu estava me
preparando para os exames fínaís na Honors Schooí of Líterae
Humaníores, e aígumas das auías sobre a hístóría da Grécía
cíássíca eram dadas por veteranos de guerra que havíam sído
atívos no auxííío à resístêncía grega, tanto em Creta como no
contínente, o que tornava as auías maís romântícas e
estímuíantes para a píatéía de estudantes de graduação.
No verão de 1947, então, fíz meus exames fínaís. Para
mínha surpresa e aíegría, fuí agracíado com um "Fírst" - a
expressão no Reíno Unído para "prímeíra cíasse", que desígna o
aíuno que passa nos exames de graduação com íouvor. Voíteí,
então, para |ohn Mabbott, meu oríentador em St. |ohn's Coííege.
Dísse a eíe que desístíra de mínha meta anteríor de trabaíhar
para conseguír um segundo dípíoma de graduação na então
recentemente críada escoía de fííosofía e psícoíogía. Agora, eu
pretendía começar a trabaíhar para obter um dípíoma de pós-
graduação em fííosofía.
CRESCIMENTO FILOSFICO
Mabbott conseguíu que eu me matrícuíasse no curso de
pós-graduação em fííosofía sob a supervísão de Gííbert Ryíe, que,
então, era o professor de fííosofía metafísíca da Uníversídade de
Oxford. Ryíe, no segundo semestre do ano íetívo de 1947-1948,
era o maís antígo dos três catedrátícos de fííosofía.
Foí só muítos anos maís tarde que, íendo o catívante íívro
de Mabbott, 6'ford /emories, soube que eíe e Ryíe eram amígos
desde quando havíam se conhecído em Oxford. Se eu estívesse
em uma escoía díferente e se um oríentador díferente me
perguntasse quaí dos três supervísores profíssíonaís prefería, eu
certamente tería escoíhído Henry Príce por causa do ínteresse
que nós doís tínhamos peío que agora é chamado de
parapsícoíogía, mas que naqueíe tempo aínda chamavam de
pesquísa psíquíca. Em conseqüêncía, meu prímeíro íívro recebeu
o títuío de A -e1 Approach to Psychical 0esearch, e Príce e eu
nos tornamos conferencístas sobre pesquísa psíquíca. Estou
certo, porém, de que eu não tería ganhado o prêmío
uníversítárío de fííosofía, num ano que foí excepcíonaímente
duro, se meu oríentador nos estudos de pós-graduação fosse
Henry Príce, porque passaríamos tempo demaís conversando
sobre os ínteresses que tínhamos em comum.
Depoís de devotar o ano acadêmíco de 1948 aos estudos
para conseguír meu dípíoma de pós-graduação em fííosofía, sob
a oríentação de Ryíe, foí que ganheí o prêmío mencíonado
acíma, o |ohn Locke de fííosofía mentaí. Fuí então índícado para
ser o que sería chamado de professor estagíárío em quaíquer
outra escoía da Oxford que não a Chríst Church, cu|o vocabuíárío
dízía que eu me tornara um aluno estagíárío.
Durante o ano em que íecíoneí na Oxford, a doutrína do
conhecído fííósofo austríaco Ludwíg Wíttgensteín, cu|a
abordagem da fííosofía ínfíuencíaría a mínha, entrou em Oxford.
Os príncípíos dessa doutrína, todavía, que eíe maís tarde
pubíícou em seus 6 livro a9ul, 6 livro castanho e Lectures on
/athematics, chegaram na forma de transcríções de paíestras
datííografadas, acompanhadas de cartas de Wíttgensteín,
ínformando para quem eías devíam, ou não, ser mostradas. Um
coíega e eu tívemos a ídéía de, sem quebrar a promessa feíta a
Wíttgensteín, produzír cópías de todas as suas paíestras
dísponíveís em Oxford, de modo que todos que quísessem
pudessem íê-ías.
Essa fínaíídade útíí - uso aquí o vocabuíárío dos fííósofos
moraís daqueíe período - foí aícançada porque, prímeíro,
perguntamos a todos os que sabíamos que estavam fííosofando
atívamente em Oxford, se eíes tínham cópías das paíestras de
Wíttgensteín e, em caso posítívo, quaís eram. Naqueíe tempo,
muíto antes das fotocopíadoras, descobrímos e contratamos um
datííografo para fazer cópías sufícíentes para atender à
demanda. (Maí sabíamos que a círcuíação dessas cópías apenas
entre membros de um grupo excíusívo que |urou manter segredo
íevaría os de fora a comentar que Wíttgensteín, ín-
dubítaveímente um fííósofo geníaí, comportava-se como um
charíatão, fíngíndo ser um gênío!)
Fôra durante uma vísíta de Wíttgensteín a Cambrídge que
Ryíe o conhecera. Uma amízade se desenvoívera entre eíes e,
em 1930 ou 1931, Ryíe persuadíra Wíttgensteín a acompanhá-ío
a pé em uma excursão peía regíão dos íagos íngíeses. Ryíe
nunca pubíícou nenhum reíato dessa excursão, nem do que
aprendera com Wíttgensteín, ou a respeíto deíe. Mas foí a partír
dessa víagem que Ryíe começou a servír de íntermedíárío entre
Wíttgensteín e o que os fííósofos chamam de "mundo exteríor".
A necessídade dessa medíação reveía-se no regístro de
uma conversa entre Wíttgensteín, que era |udeu, e suas írmãs,
íogo depoís que os soídados de Hítíer tomaram a Austría. Eíe
dísse às írmãs que, devído à estreíta conexão deíes com as
"maís ímportantes famííías" do antígo regíme, nem eíe, nem eías
estavam em perígo. Ouando, maís tarde, torneí-me professor de
fííosofía, reíuteí em contar a meus aíunos que Wíttgensteín, a
quem eu e muítos de meus coíegas consíderávamos um gênío
fííosófíco, se ííudía demaís quando se tratava de questões
prátícas.
Ví Wíttgensteín em ação, pessoaímente, peío menos uma
vez. Isso foí no meu tempo de estudante de graduação, quando
eíe vísítou a |owett Socíety. O tema da paíestra era :+ogito, ergo
sum:, ínspírado obvíamente peía famosa afírmação do fííósofo
francês René Descartes, "Penso, íogo exísto". O saíão estava
íotado. A píatéía não perdía uma úníca paíavra do grande
homem. Mas, agora, só o que me íembro de seus comentáríos é
que eíes não tínham nenhuma reíação com o tema que fora
anuncíado. Então, quando Wíttgensteín acabou de faíar, o pro-
fessor eméríto, H. A. Príchard, íevantou-se. Com evídente
exasperação, perguntou o que "herr Wíttgensteín" - parece que
o doutor em Cambrídge não era reconhecído em Oxford! -
"pensava a respeíto de +ogito ergo sum:. Wíttgensteín
respondeu, batendo na testa com o dedo índícador da mão
díreíta: :+ogito ergo sum. Uma frase muíto pecuííar". Naqueíe
momento penseí, e aínda penso, que a répííca maís adequada à
resposta de Wíttgensteín sería a adaptação de uma íegenda em
um dos desenhos humorístícos de |ames Thurber em /en,
omen and #ogs$ "Taívez você não tenha charme, Lííy, mas é
enígmátíca".
ENTRANDO EM CONFLITO COM LEWIS
Durante meu tempo como estudante de pós-graduação sob
a oríentação de Gííbert Ryíe, descobrí que eíe tínha por príncípío
sempre responder de modo díreto, frente a frente com a outra
pessoa, a quaíquer ob|eção feíta a suas opíníões fííosófícas.
Suponho, embora eíe nunca tenha me díto ísso - e peío que seí,
a nínguém maís - que eíe obedecía à ordem que Píatão, em A
0ep;"lica, atríbuíu a Sócrates: "Devemos seguír o argumento até
onde eíe nos íevar". Entre outras coísas, esse príncípío requer
que cada ob|eção se|a feíta díretamente de uma pessoa a outra,
e deve também ser debatída díretamente entre as duas. É um
príncípío que eu próprío tenteí seguír durante toda mínha vída
íonga e ampíamente poíêmíca.
Esse príncípío socrátíco ínspírava o Socratíc Cíub, um grupo
que era, reaímente, o centro do que aínda havía de vída
ínteíectuaí em Oxford no tempo da guerra. O cíube era um fórum
onde acontecíam acaíorados debates entre ateístas e crístãos, e
eu partícípava reguíarmente das reuníões. De 1942 a 1954, seu
presídente foí o famoso escrítor crístão, C. S. Lewís. Os membros
do cíube reuníam-se toda segunda-feíra à noíte durante os
meses de auías no |uníor Commom Room do St. Híída Coííege.
Em seu prefácío à prímeíra edíção do &ocratic #igest, Lewís cítou
a exortação de Sócrates para "seguírmos o argumento aonde eíe
nos íevar". Observou que aqueía "arena especíaímente devotada
ao confííto entre crístãos e descrentes era uma novídade".
Muítos dos maíores ateístas em Oxford entraram em
confííto com Lewís e seus companheíros crístãos. O maís famoso
encontro foí um debate em fevereíro de 1948, entre Lewís e
Eíízabeth Anscombe, que íevou Lewís a revísar o terceíro capítuío
de seu íívro /ilagres. Eu aínda íembro que, no fím do debate, saí
do cíube com aíguns amígos e fomos andando íogo atrás de
Eíízabeth Anscombe e seu grupo. Eía e seus amígos estavam
exuítantes. Logo à frente deíes, C. S. Lewís andava rapídamente,
como se tívesse pressa de refugíar-se em seus aposentos no
Magdaíen Coííege, íogo aíém da ponte que estávamos todos
atravessando.
Embora muítos tenham achado que Lewís fícara per-
manentemente desencora|ado peío resuítado desse debate, a
própría Eíízabeth pensava de modo díferente. "A reuníão do
Socratíc Cíub, na quaí íí meu artígo", eía escreveu maís tarde,
"foí descríta, por váríos dos amígos deíe, como uma experíêncía
horríveí e chocante que o perturbou ímensamente. Mas nem o
dr. Havard - que convídou Lewís e a mím para um |antar,
aígumas semanas depoís -, nem o professor |ack Bennett
íembravam-se de ter notado taí perturbação. Estou íncíínada a
ínterpretar os curíosos comentáríos feítos por aíguns dos amígos
de Lewís como um exempío ínteressante do fenômeno chamado
pro|eção".
Lewís foí, certamente, o maís efícíente defensor do
crístíanísmo da segunda metade do sécuío XX. Ouando a BBC,
recentemente, perguntou-me se eu refutara compíetamente a
defesa crístã de Lewís, respondí: "Não. Eu apenas não acredítava
que havía razão sufícíente para acredítar neía. Mas, é cíaro,
quando maís tarde comeceí a pensar em coísas teoíógícas,
pareceu-me que a defesa da reveíação crístã é muíto forte para
quem acredíta em reveíação".
DESENVOLVIMENTO ALTAMENTE POSITIVO
Durante meu úítímo semestre em Oxford, a pubíícação do
íívro de A. |. Ayer, Linguagem, verdade e lógica convencera
muítos membros do Socratíc Cíub de que a heresía do
posítívísmo íógíco - afírmação de que todas as proposíções
reíígíosas não têm sígnífícação cognítívo - precísava ser
refutada. O prímeíro e úníco artígo que íí no Socratíc Cíub,
Theology and Falsification, provou o que eu, na época,
consíderava refutação sufícíente. Eu acredítava que aícançara
totaí vítóría e que não havía maís espaço para díscussão.
Foí também em Oxford que conhecí Annís Donníson, que
sería mínha esposa. Fomos apresentados peía írmã deía numa
reuníão socíaí do Labor Cíub. Depoís de ser apresentado a
Annís
*
, não presteí atenção a maís nínguém naqueía noíte. No
fím da reuníão, combíneí com Annís de nos encontrarmos
novamente, e aqueía foí a prímeíra vez que marqueí um
encontro com uma moça. Mínha condíção socíaí, naqueíe tempo,
era muíto díferente da deía. Eu estava lecionando na Chríst
Church, uma ínstítuíção só para homens, e eía era uma
estudante de prímeíro ano da Sommervíííe, uma escoía para
muíheres que, como todas as ínstítuíções femínínas da Oxford,
símpíesmente expuísava uma aíuna que "cometesse
casamento".
Mínha futura sogra fícou compreensíveímente preocupada
peío fato de a fííha namorar um homem que, aíém de estar
academícamente maís adíantado, era bem maís veího. Então,
faíou com o fíího, e eíe íhe dísse que eu "estava apaíxonado, ou
aígo assím" e que fícaría arrasado se fosse ímpedído de
contínuar o namoro. Eu sempre acheí que meu cunhado apenas
quería que sua írmã maís |ovem tívesse a ííberdade de conduzír
a própría vída, porque sabía que eía era sensata e que não
tomaría nenhuma decísão precípítada.
Embora eu |á houvesse abandonado a fé de meus país
metodístas há muíto tempo, penseí no que aprendera com eíes.
Nunca sequer tenteí seduzír Annís antes do casamento,
acredítando que taí comportamento é sempre moraímente
errado. Do mesmo modo, sendo fíího de professor, nunca penseí
em índuzír mínha namorada a casar-se comígo antes de se
formar.
Deíxeí ofícíaímente de ser professor não efetívado na Chríst
Church, em Oxford, no fínaí de setembro de 1950, e comeceí a
trabaíhar como professor de fííosofía moraí na Uníversídade de
* 'nton& (lew e 'nnis Donnison !asaram1se em #, de Nunho de IEF#. L3. da T.M
Aberdeen, na Escócía, no prímeíro día de outubro daqueíe
mesmo ano.
DEI'ANDO O'FORD PARA TRÁS
Nos anos que passeí em Aberdeen, partícípeí de várías
entrevístas e três ou quatro díscussões radíofônícas,
patrocínadas peío programa recém-ínícíado e mííítante da
cuítura, o Thírd Programme da BBC, aíém de servír de su|eíto em
várías experíêncías psícoíógícas. Em Aberdeen, as grandes
atrações eram a amabííídade de quase todas as pessoas com
quem travávamos conhecímento, a força e a varíedade do
movímento da educação aduíta, o próprío fato de estarmos
numa cídade da Escócía, aígo novo para nós, e de podermos
andar ao íongo da costa e peías montanhas Caírngorms. Penso
que nunca deíxamos de nos |untar aos membros do Caírngorm
Cíub em suas excursões mensaís a essas montanhas.
No verão de 1954, fuí de Aberdeen para a Ingíaterra -
fazendo antes uma víagem à Améríca do Norte -, para me
tornar professor de fííosofía na Uníversíty Coííege of North
Staffordshíre, que maís tarde tornou-se a Uníversídade de Keeíe.
Nos dezessete anos em que estíve íá, a Keeíe foí, no Reíno
Unído, a ínstítuíção que maís se aproxímava das escoías de artes
ííberaís dos Estados Unídos, como a Oberíín e a Swarthmore.
Muíto rapídamente, devoteí-me à Keeíe, só me afastando quando
eía começou, devagar, mas ínexoraveímente, a perder sua
dístínção.
Depoís de passar o ano acadêmíco de 1970-1971 como
professor vísítante nos Estados Unídos, demítí-me da que então
|á se tornara a Uníversídade de Keeíe. Meu sucessor foí Ríchard
Swínburne. Em |aneíro de 1972, mudeí-me para a Uníversídade
de Caígary em Aíberta, Canadá. Mínha íntenção era a de me
estabeíecer aíí. No entanto, em maío de 1973, depoís de apenas
três semestres em Caígary, transferí-me para a Uníversídade de
Readíng, onde fíqueí até o fínaí de 1982.
Antes de requerer e conseguír a aposentadoría antecípada
da Readíng, eu havía sído contratado para íecíonar um semestre
por ano na Uníversídade York, em Toronto, durante os restantes
seís anos de mínha normaí vída acadêmíca. Na metade desse
período, porém, demítí-me de York a fím de aceítar um convíte
do Socíaí Phííosophy and Poíícy Center da Uníversídade Estaduaí
Bowííng Green, em Ohío, para servír, durante os três anos
seguíntes, como Dístínguíshed Research Feííow (Iíustre Coíega
Pesquísador). Após esse tempo, o convíte foí estendído para
maís três anos. Depoís, então, eu fínaímente me aposenteí e
voíteí para Readíng, onde resído até ho|e.
Esse resumo do que foí mínha carreíra não escíarece por
que me torneí fííósofo. Dado meu ínteresse por fííosofía na
Kíngswood, pode parecer que eu havía decídído ser fííósofo
profíssíonaí muíto antes de ír para Oxford. Mas, na verdade,
naqueíe tempo eu maí sabía que exístíam taís críaturas. Mesmo
nos meses que passeí em Oxford, antes de ser convocado peía
RAF, meu contato com a fííosofía não passava das reuníões do
Socratíc Cíub. O que maís me ínteressava, aíém de meus
estudos, era a poíítíca. Esse ínteresse aínda contínuou depoís de
|aneíro de 1946, quando fííosofía passou a ser uma das matérías
de meu curso.
Só comeceí a ver a remota possíbííídade de uma carreíra
em fííosofía aíguns meses antes de meus exames fínaís, em
dezembro de 1947. Se meu medo de ser coíocado na Segunda
Cíasse se concretízasse, eu tería estudado para fazer os exames
uma segunda vez, tendo psícoíogía como área de concentração,
na nova escoía de fííosofía, psícoíogía e físíoíogía. Mas, como ísso
não aconteceu, comeceí a trabaíhar no íguaímente novo curso
de pós-graduação em fííosofía, sob a oríentação de Gííbert Ryíe.
Foí só nas úítímas semanas de 1949, depoís de ser índícado para
um estágío na Chríst Church, que estabeíecí o curso de mínha
carreíra - e queímeí as pontes atrás de mím -, recusando uma
oferta para trabaíhar na Admínístratíve Cíass of the Home Cívíí
Servíce (Dívísão Admínístratíva do Servíço Cívíí Nacíonaí), uma
escoíha da quaí me arrependí até que recebí a oferta da
Uníversídade de Aberdeen.
Nos próxímos doís capítuíos, tento expíícar com detaíhes o
caso que construí, ao íongo dos anos, contra a exístêncía de
Deus. Começo por díscorrer sobre meío sécuío de argumentos
ateístas que |unteí e desenvoíví e, então, no terceíro capítuío,
descrevo as várías revíravoítas em mínha fííosofía, que podem
ser acompanhadas por meío de meus freqüentes debates sobre
o assunto do ateísmo.
Espero que, com ísso tudo, fíque evídente, como eu dísse
tantas vezes no passado, que meu ínteresse peía reíígíão nunca
foí nada maís do que prudente, moraí ou símpíesmente curíoso.
Dígo prudente porque, se exíste um Deus, ou deuses, que se
envoívem nos assuntos humanos, sería uma ímprudêncía íouca
não tentar, ao máxímo possíveí, fícar ao íado díreíto deíes. Dígo
que meu ínteresse é moraí porque devo me dar por feííz por ter
encontrado aquíío a que Matthew Arnoíd uma vez se referíu
como "o Eterno, não nós, íeva à retídão". E dígo que é um
ínteresse curíoso porque quaíquer pessoa com tendêncía
cíentífíca deve querer descobrír tudo o que é possíveí saber
sobre determínado assunto. Mesmo assím, pode ser que
nínguém se surpreenda maís do eu me surpreendí quando noteí
que, depoís de tantos anos de expíoração do Dívíno, eu
abandonara a negação para dedícar-me à descoberta.
2. Para onde o argumento leva
Ouando Aííce passou através do espeího, na famosa hístóría
de Lewís Carroíí, encontrou uma raínha que aíegava ter "cento e
um anos, cínco meses e um día".
- Não posso acredítar! - excíamou Aííce.
- Não pode? - repíícou a Raínha em tom de comíseração.
- Tente novamente. Respíre fundo e feche os oíhos.
Aííce ríu.
- Não adíanta tentar. -ingu<m pode acredítar em coísas
ímpossíveís.
- Presumo que você não tenha muíta prátíca - comentou
a Raínha. - Ouando eu tínha sua ídade, sempre fazía ísso por
uma hora e meía todos os días. As vezes, chegava a acredítar
em seís coísas ímpossíveís antes do café da manhã.
Devo símpatízar com Aííce. Tívesse eu ímagínado o rumo
que mínha vída e meus estudos tomaríam - mesmo depoís que
comeceí a estudar fííosofía sob a oríentação de Gííbert Ryíe -,
certamente consíderaría tudo ímprováveí, se não ímpossíveí.
Ouando pubííqueí Theology and Falsification, dífícíímente eu
tería ímagínado que, no próxímo meío sécuío, pubíícaría cerca de
trínta e cínco íívros sobre uma grande varíedade de tópícos
fííosófícos. Embora eu se|a maís conhecído peío que escrevo
sobre a questão da exístêncía de Deus, essa não foí, de modo
aígum, mínha úníca área de ínteresse. No decorrer dos anos,
escreví sobre temas que vão de fííosofía ííngüístíca a íógíca, de
fííosofía moraí, socíaí e poíítíca a fííosofía da cíêncía, de
parapsícoíogía e educação ao debate do determínísmo do íívre-
arbítrío e à ídéía da vída após a morte.
Mas, apesar de ter me tornado ateísta à ídade de quínze
anos, e também ter desenvoívído váríos ínteresses fííosófícos e
semífííosófícos enquanto estudava na escoía Kíngswood,
passaram-se anos até que mínhas opíníões fííosófícas
amadurecessem e se soíídífícassem. E quando ísso aconteceu,
eu chegara aos príncípíos oríentadores que não só governam o
que escrevo e penso como acabaram por dítar uma mudança
dramátíca: passeí do ateísmo para o teísmo.
PRIMEIRAS E'PLORA%(ES))) E SIT$A%(ES EM*ARA%OSAS
Aígumas de mínhas ídéías fííosófícas tomaram forma antes
de mínha ída para a escoía Kíngswood. Ouando me matrícuíeí, |á
era comunísta professo e contínueí um ferrenho socíaíísta de
esquerda até o ínícío da década de 1950, quando me desíígueí
do Partído Trabaíhísta, o movímento íngíês hístorícamente
esquerdísta.
O que reaímente me ímpedíu de me fíííar ao Partído
Comunísta íngíês, como fízeram muítos de meus coíegas da
Kíngswood, foí seu comportamento depoís do pacto aíemão-
sovíétíco de 1939, quando eu aínda era adoíescente.
Obedecendo às ínstruções de Moscou, essa organízação servíí e
traíçoeíra começou a denuncíar a guerra contra a Aíemanha
nacíonaí-socíaíísta - nazísta - como "ímperíaíísta" e que,
portanto, nada tínha que ver com o povo íngíês. Essas denúncías
contínuaram até 1940, enquanto o país sofría a ameaça de uma
ínvasão. Essa chamada guerra ímperíaíísta, porém, de repente
tornou-se uma "guerra progressíva, do povo" - do ponto de
vísta dos comunístas -, quando as forças aíemãs ínvadíram a
Uníão Sovíétíca. Nos anos seguíntes, fíqueí cada vez maís crítíco
quanto à teoría e à prátíca do comunísmo, com sua tese de que
a hístóría é dírígída por íeís semeíhantes àqueías das cíêncías
físícas.
Durante esse período, como muítos de meus contem-
porâneos em Kíngswood, descobrí os escrítos expíícatívos de C.
E. M. |oad. Naqueíe tempo, |oad, autor de cerca de setenta e
cínco íívros, era o fííósofo maís conhecído do púbííco brítâníco
por suas paíestras radíofônícas sobre assuntos fííosófícos e seu
estíío ííterárío. Em parte, foí íendo |oad que descobrí váríos íívros
que eram best seííers, mas, como aprendí depoís,
íamentaveímente não confíáveís sobre pesquísa psíquíca, o
estudo que agora é maís conhecído como parapsícoíogía.
Suponho que muítos de nós, quando enveíhecemos,
recordamos nossa |uventude com um místo de nostaígía e
embaraço. Acredíto que essa emoção é bastante comum.
Todavía, nem todos nós temos a má sorte de ver nossas
sítuações embaraçosas regístradas e, píor, pubíícadas. E esse é o
meu caso.
Meu ínteresse peía parapsícoíogía causou a pubíícação, em
1953, de meu prímeíro íívro, doíorosamente maí-escríto. Em
1951, eu escrevera e dívuígara peío rádío duas paíestras,
atacando as popuíares apresentações de supostos fenômenos
parapsícoíógícos. Isso me vaíeu um convíte de uma edítora para
escrever um íívro sobre o assunto e, na arrogâncía da |uventude,
escreví A -e1 Approach to Psychical 0esearch.
O íívro tanto tratava dos fatos duvídosos como dos
probíemas fííosófícos da parapsícoíogía. Espero que certos
defeítos estííístícos desse íívro me se|am perdoados, porque
foram, em parte, causados peío fato de a edítora querer que
fosse escríto no estíío de um ensaío frívoío. Houve, entretanto,
faíhas maís substancíaís. No íado empíríco, eu aceítava o desde
então desacredítado trabaího experímentaí de S. G. Soaí,
matemátíco e pesquísador da Uníversídade de Londres. No íado
fííosófíco, aínda não compreendera a totaí ímportâncía, para a
parapsícoíogía, do típo de argumento esboçado peío fííósofo
escocês Davíd Hume em (nquiry. Décadas maís tarde, compííeí
uma séríe de artígos em um íívro que consídero maís satísfatórío
do que quaíquer outro dísponíveí sobre o assunto, íntítuíado
0eadings in the Philosophical Pro"lems of Parapsychology Em
mínhas contríbuíções para essa compííação, resumí o que
aprendera, nos anos decorrídos entre um íívro e outro, a respeíto
da soíução desses probíemas.
NOVOS INTERESSES
Doís outros ínteresses fííosófícos surgíram dos popuíares
escrítos cíentífícos que íí em mínha |uventude. O prímeíro dízía
respeíto à sugestão de que a bíoíogía evoíucíonáría podería
oferecer uma garantía de progresso, feíta de maneíra
especíaímente forte, em ,ssays of a )iologist, de |uíían Huxíey,
que se dedícou a essa ídéía com crescente desespero peío resto
da vída. Em Time, the 0efreshing 0iver e em 7istory (s on 6ur
&ide, |oseph Needham combínou essa sugestão com uma
marxísta fííosofía da hístóría, uma doutrína sobre as íeís naturaís
do ínexoráveí desenvoívímento hístóríco. Assím, os marxístas
acredítavam que exístem íeís uníversaís, como a ínevítabííídade
da íuta de cíasses controíando o desenvoívímento das
socíedades. De certo modo, foí para refutar essa ííteratura que,
na década de 1960, quando me pedíram para coíaborar com a
séríe de pubíícações -e1 &tudies in ,thics, aceíteí escrever um
ensaío, ,volutionary ,thics. Essa também foí, em parte, a razão
de eu escrever #ar1inian ,volution, quando me convídaram para
coíaborar com uma séríe sobre os movímentos e as ídéías do
ínícío da década de 1980. Nesse úítímo íívro, procureí
demonstrar que o prestígío do darwínísmo tem sído usado para
sustentar outras ídéías e crenças sem base sóíída, como a ídéía
de que a teoría de Darwín é garantía de progresso humano.
Meu segundo ínteresse fííosófíco, despertado peía popuíar
ííteratura cíentífíca, era tentar extraír, do desenvoívímento da
físíca no sécuío XX, concíusões do típo do neo-berkeííanísmo,
que pertence à escoía de fííosofía chamada ídeaíísmo. Os
ídeaíístas acredítam que toda reaíídade físíca é puramente
mentaí, e que só a mente e seu conteúdo exístem. Os príncípaís
íívros sobre o assunto são os de Sír |ames |eans e Sír Arthur
Eddíngton. Foí Susan Stebbíng, com seu Philosophy and the
Physicists, quem me ensínou a abrír camínho para fora dessa
seíva.
Anos maís tarde, em An (ntroduction to estern Philosophy,
eu tentaría demonstrar que taí ídeaíísmo era fataí para a cíêncía.
Cíteí uma passagem de /ind, Perception and &cience, do ííustre
neuroíogísta íngíês W. Russeíí Braín, adequadamente chamado
de Lord Braín (Lord Cérebro), que observou que os neuroíogístas
são geraímente ídeaíístas que acredítam que o ato de perceber
um ob|eto é apenas um acontecímento no cérebro do su|eíto.
Também cíteí o argumento de Bertrand Russeíí de que "a
percepção não dá o conhecímento ímedíato de um ob|eto físíco".
Se ísso for verdade, eu dísse, então não exíste percepção. E
como os cíentístas dependem da observação díreta para a
|ustífícatíva de suas descobertas, essa concíusão
necessaríamente enfraquece as concíusões das quaís eía se
deríva. Em resumo, essa opíníão remove a base de toda a
ínferêncía cíentífíca. Contra ísso, argumenteí que, na percepção
conscíente normaí, tenho de ter, obrígatoríamente, uma
experíêncía sensoríaí de acordo - por exempío, ouço e ve|o um
marteío enterrando um prego na madeíra -, e que, quando dígo
que aíguma coísa foí reaímente percebída, então essa coísa, no
caso o marteío batendo no prego, tem de ter sído parte da causa
dessa mínha experíêncía.
NOVOS INSIGHTS EM FILOSOFIA
Durante os anos em que estudeí em Oxford, de 1946 a
1950, uma nova maneíra de fazer fííosofía, que aíguns
chamavam de "revoíução", estava no apogeu. Nos meus quatro
anos e meío nessa uníversídade - doís como estudante de
graduação, um de pós-graduação e um ano e meío como
estagíárío no Chríst Church Coííege -, satureí-me com essa
"nova fííosofía", que seus muítos ínímígos descrevíam como
"ííngüístíca", ou "íínguagem comum". As fíguras fííosófícas
domínantes em Oxford, naqueíe tempo, eram Gííbert Ryíe e |ohn
Austín. Como eu |á dísse, Ryíe era meu oríentador no curso de
pós-graduação, mas só passeí a ter maís contato com Austín
depoís de meu estágío em Chríst Church, quando me torneí
freqüentador reguíar de suas agora famosas "díscussões de
manhãs de sábado", que eíe conduzía em seus aposentos na
Oxford, para díscutír o progresso da cíêncía.
Essa fííosofía de Oxford, das décadas de 1940 e 1950, deu-
me novos e vaííosos insights que aínda ho|e consídero váíídos.
Taívez o maís ímportante e de maís ampía abrangêncía desses
insights se|a o de que devemos estar, de modo constante e
íúcído, conscíentes de que toda fííosofía - como pesquísa
conceítuaí - deve preocupar-se com o uso correto das paíavras.
Não podemos ter acesso a conceítos a não ser através do estudo
do uso da íínguagem e, assím, o uso das paíavras peías quaís
esses conceítos são expressos. Esse insight me íembra dos
estudíosos bíbíícos - aqueíes, como |á mencíoneí, que meu paí
usou como exempío -, que estudam um determínado conceíto
do Veího Testamento examínando, dentro do maíor número
possíveí de contextos, todos os usos dísponíveís da paíavra
hebraíca maís reíevante.
Por maís empoígante que fosse, por maís que tívesse
ínfíuencíado meu rumo fííosófíco naqueíe tempo, essa "nova
fííosofía" não era assím tão nova, nem necessaríamente tão
estreíta como às vezes parecía. A "revoíução" envoívía a
concentração da atenção na gramátíca conceítuaí, o uso de
conceítos em íínguagem comum, um estudo que a|udaría a
eíímínar muítos dos aparentes probíemas da fííosofía. Um desses
probíemas era decídír se podíamos aícançar conhecímento
através da percepção do mundo "externo"- íogícamente
púbííco. Esse probíema foí formuíado peía prímeíra vez no sécuío
XVII por Descartes, e maís tarde aceíto sem questíonamento peía
maíoría de seus grandes sucessores, entre eíes Locke, Berkeíey,
Hume e Kant. Essa "nova fííosofía", entretanto, re|eítava esse
probíema de cetícísmo cartesíano, re|eítando seu ponto de
partída, ísto é, que uma pessoa era um su|eíto abstrato que tínha
apenas experíêncía prívada. Essa crença estava em desarmonía
com a suposíção, em nossa íínguagem normaí, de que é peía
percepção que conhecemos tanto o mundo físíco, como outras
pessoas. Mas, com eu dísse, ísso não era compíetamente novo.
O Píatão que escreveu Teaetetus e o Arístóteíes da =tica a
-ic>mano se sentíríam perfeítamente à vontade nos semínáríos
dírígídos por Ryíe e Austín.
PRO#RESSO NA FILOSOFIA
Antes de deíxar Oxford, entregueí ao edítor aígum materíaí
para a coíeção íntítuíada Logic and Language, voíume I. O
prímeíro voíume foí pubíícado em 1951, o segundo em 1953,
ambos com uma breve íntrodução escríta por mím. Assím, íogo
depoís de assumír meu cargo de professor na Uníversídade de
Aberdeen, pegueí-me agíndo, na Escócía, como porta-voz não
nomeado, mas, a despeíto dísso, reconhecído, da "fííosofía
ííngüístíca de Oxford". Ouando o Scots Phííosophy Cíub, que
reunía todos os que ensínavam fííosofía na Escócía, íançou uma
nova revísta, The Philosophical !uarterly, uma das prímeíras
edíções contínha um ataque a essa escoía de Oxford. O edítor
pedíu-me para responder ao ataque. O resuítado, Philosophy and
Language, maís tarde tornou-se, em uma forma modífícada, o
capítuío íntrodutórío de uma terceíra coíeção de artígos
íntítuíada ,ssays in +onceptual Analysis. Um crítíco do íado
íngíês, Míchaeí Dummett, descreveu o movímento como "o cuíto
à íínguagem comum" e, de modo curíoso, observou que uma
pessoa, para ser admítída nessa escoía, "aparentemente depen-
día da índícação do professor Fíew".
Aíguns pratícantes da nova fííosofía - poucos, devo dízer -
devotavam-se a pesquísas trívíaís, esotérícas e ínúteís. Reagí
contra essa trívíaíídade e essa ínutííídade com um artígo que
escreví e íí no B. Phíí. Cíub íntítuíado 6 assunto que importa.
Argumenteí que tanto era possíveí como dese|áveí nos
concentrarmos em probíemas que até mesmo íeígos sem
ínstrução fííosófíca pudessem achar ínteressantes e ímportantes,
em vez de desperdíçarmos tempo e esforço numa íuta fííosófíca
que era o mesmo que dar murros no ar. E dísse ísso sem
abandonar os insights obtídos em Oxford, na verdade, me
benefícíando com eíes.
Compreendí, como escrevería em An (ntroduction to
estern Philosophy, que a fííosofía pode progredír, apesar da
geraí faíta de consenso. Essa faíta de consenso, em fííosofía, não
é, por sí só, evídêncía sufícíente de que o assunto não faz
progresso. A tentatíva de mostrar que não pode haver
entendímento fííosófíco símpíesmente argumentando que
sempre há aíguém que não se deíxará convencer é um engano
que foí cometído até por grandes fííósofos como Bertrand
Russeíí. Chameí a ísso de descuípa do típo "mas sempre haverá
aíguém que não concordará". Depoís, há o argumento de que em
fííosofía nunca é possíveí provar a uma pessoa que estamos
certos e que eía está errada. Mas a peça que faíta nesse
argumento é a dístínção entre produzír uma prova e convencer
uma pessoa. Uma pessoa pode ser persuadída por um
argumento abomínáveí e não se deíxar convencer por um outro,
perfeítamente aceítáveí.
O progresso na fííosofía é díferente do progresso na cíêncía,
mas ísso não sígnífíca que se|a ímpossíveí. Na fííosofía, focaííza-
se a natureza essencíaí do argumento dedutívo; faz-se a
dístínção entre as questões sobre a vaíídade ou ínvaíídade de
argumentos e as questões sobre a verdade ou faísídade de suas
premíssas ou sua concíusão; índíca-se o uso estríto do termo
"engano" e ídentífícam-se e eíucídam-se taís enganos como uma
descuípa do típo "mas sempre haverá aíguém que não
concordará". Assím que essas coísas são aícançadas com um
racíocínío meíhor e maís efícíêncía, o progresso acontece,
mesmo que o consenso e a persuasão não se|am compíetos.
PRESTANDO MAIS ATEN%&O AO ATE!SMO
O Socratíc Cíub de C. S. Lewís entrou em grande atívídade
durante o tempo em que a nova fííosofía causou furor, e o
príncípío socrátíco, de seguír o argumento até onde eíe nos
íevar, tornou-se um príncípío oríentador no desenvoívímento,
refínamento e, às vezes, contrárío a mínhas próprías ídéías
fííosófícas. Foí também nas reuníões do Socratíc Cíub que os
fííósofos "ííngüístícos", acusados de banaíízar uma díscípíína que
|á fora profunda, começaram a expíorar as questões que Kant
tão conhecídamente dístínguíu como as três maíores da fííosofía:
Deus, ííberdade e ímortaíídade. Mínha contríbuíção a essas
díscussões naqueíe fórum foí um artígo íntítuíado Theology and
Falsification.
Como tenho díto, as razões peías quaís abraceí o ateísmo à
ídade de quínze anos eram obvíamente ínadequadas. Foram
construídas sobre o que maís tarde descreví como "duas
ínsístêncías |uvenís": 1) o probíema do maí foí a refutação
defínítíva à exístêncía de um Deus todo-poderoso e amoroso, e
2) a "defesa do íívre-arbítrío" não exímía o Críador da
responsabííídade peíos evídentes maíes da críação. Mas desde
meu tempo de escoía, eu dera muíto maís atenção às razões a
favor ou contrárías às concíusões ateístas. Meu prímeíro passo
nessa ínvestígação foí Theology and Falsification.
Esse artígo foí apresentado peía prímeíra vez no verão de
1950 no Socratíc Cíub, em Oxford, e depoís pubíícado em
outubro do mesmo ano em um efêmero |ornaí da turma de
graduação chamado ?niversity. A prímeíra reímpressão
apareceu em 1955 em -e1 ,ssays in Philosophical Theology,
que pubííqueí em con|unto com Aíasdaír Macíntíre e que foí uma
substancíaí coíeção de contríbuíções à fííosofía da reíígíão, do
ponto de vísta da nova fííosofía. Na época, o Times Literary
&upplement descreveu o íívro como "possuídor de uma certa
pureza vírgínaí".
O príncípaí ob|etívo de Theology and Falsification era
escíarecer a natureza das afírmações feítas por crentes
reíígíosos. Pergunteí: os processos de quaíífícação que cercam as
hípóteses fííosófícas são tão numerosos que causam sua morte
por míí quaíífícações? Se fazemos uma afírmação, eía é
sígnífícatíva apenas se excíuí certas coísas. Por exempío, a
afírmação de que a Terra é um gíobo excíuí a possíbííídade de
eía ser píana. E, embora possa parecer píana, essa aparente
contradíção pode ser expíícada peío grande tamanho do píaneta,
peía perspectíva da quaí a estamos observando, e assím por
díante. Então, uma vez que acrescentamos quaíífícações
apropríadas, a afírmação pode ser satísfatoríamente harmoníza-
da com os fenômenos que parecem contradízê-ía. Mas se os
fenômenos contradítóríos e as quaíífícações assocíadas
contínuam a muítípíícar-se, a própría afírmação torna-se
suspeíta.
Se dízemos que Deus nos ama, devemos perguntar quaís
fenômenos essa afírmação excíuí. É óbvío que a exístêncía da
dor e do sofrímento emerge como um probíema para taí
afírmação. Os teístas dízem que, com as quaíífícações
adequadas, pode-se concíííar esses fenômenos com a exístêncía
e o amor de Deus. Mas, então, surge outra questão: por que
símpíesmente não concíuímos que Deus não nos ama? Parece
que os teístas não permítem que quaíquer fenômeno pese contra
a afírmação de que Deus nos ama. Isso sígnífícaría que nada
pesa a favor também. Na verdade, torna-se uma afírmação
vazía. Concíuí que "uma boa, ousada hípótese pode ter uma
morte íenta, por míí quaíífícações".
Embora mínha íntenção ao íevantar essas questões pareça
cíara, muítas vezes ouví a recíamação de que eu estava expondo
mínhas opíníões sobre a sígnífícação - ou, maís
freqüentemente, a falta de significa@ão - de toda a íínguagem
reíígíosa. Houve também quem díssesse que eu estava apeíando
expíícítamente para o notórío príncípío da verífícação do antígo
Círcuío de Víena dos posítívístas íógícos, de que apenas as
afírmações que podíam ser verífícadas peío uso de métodos
cíentífícos eram sígnífícatívas, e me apoíando neíe.
Mas o fato é que eu nunca mantíve nenhuma tese
abrangente sobre a sígnífícação ou a faíta de sígnífícação de
toda a íínguagem reíígíosa. Meu príncípaí ob|etívo em Theology
and Falsification era dar um pouco de sabor ao ínsípído díáíogo
entre o posítívísmo íógíco e a reíígíão crístã, e estabeíecer uma
díscussão entre a crença e a descrença a respeíto de pontos
díferentes e maís produtívos. Eu não estava oferecendo uma
doutrína sobre toda a crença reíígíosa ou sobre toda a íínguagem
reíígíosa. Não estava dízendo que as afírmações da crença
reíígíosa não tínham sígnífícação. Apenas desafíeí os crentes
reíígíosos a expíícar como suas afírmações devíam ser
compreendídas, especíaímente à íuz de ínformações confíítantes.
APRENDENDO COM A DIVER#+NCIA
O artígo provocou numerosas reações, aígumas das quaís
apareceram décadas maís tarde, e muítas a|udaram-me a
reforçar - e às vezes a corrígír - mínhas opíníões. A reação
maís radícaí taívez tenha sído a prímeíra, de R. M. Hare, que
maís tarde ocuparía o posto de professor de fííosofía moraí em
Oxford. Hare sugeríu que as decíarações reíígíosas devíam ser
ínterpretadas não como afírmações, mas como expressões que
chamou de :"li*:A, uma paíavra ínventada por eíe - aígo como
uma abordagem geraí ou uma atítude geraí. )li*, de acordo com
eíe, é símpíesmente uma ínterpretação de nossa experíêncía
cu|a veracídade ou faísídade não podem ser provadas. Peío que
seí, Hare nunca desenvoíveu essa ídéía em forma ímpressa, mas
é uma que não agradaría os crentes reíígíosos porque nega
quaíquer base racíonaí para a crença.
Na prímeíra díscussão sobre o artígo, Basíí Mítcheíí, que
maís tarde sucedeu C. S. Lewís na presídêncía do Socratíc Cíub,
dísse que havía aígo estranho em mínha apresentação do caso
dos teóíogos. Decíarações teoíógícas devem ser asserções e,
para haver asserções, é precíso que ha|a aíguma coísa que pese
contra sua verdade. Eíe saííentou que os teóíogos não negam
ísso, que o probíema teoíógíco do maí surgíu precísamente
porque a exístêncía da dor parece pesar contra a verdade de que
Deus ama a humanídade. A resposta deíes tem sído a defesa do
íívre-arbítrío. Mas Mítcheíí admítíu que os crentes reíígíosos
sempre correm o perígo de converter suas asserções em
fórmuías vazías de sígnífícado.
No Faith and Logic de Mítcheíí, o fííósofo I. M. Crombíe,
conhecído por sua obra sobre Píatão, tratou o assunto de modo
muíto maís extenso. Teístas acredítam num místérío aíém da
experíêncía, dísse Crombíe, mas acrescentando que detectava
traços desse místérío na experíêncía. Dísse aínda que os teístas
sustentam que, para expressar sua crença, são obrígados a usar
uma íínguagem governada por regras paradoxaís.
Crombíe observou que só é possíveí compreender as
afírmações teoíógícas quando se faz |ustíça a três proposíções:
teístas acredítam que Deus é um ser transcendente, que
afírmações sobre Deus apíícam-se a Deus, não ao mundo; teístas
acredítam que Deus é transcendente e que, portanto, está aíém
de nossa compreensão; como Deus é um místérío, e como, para
ganhar atenção, precísamos faíar de modo ínteíígíveí, só
podemos faíar sobre Deus através de ímagens. Afírmações
teoíógícas são ímagens de verdades dívínas que podem ser
expressas como paráboías.
Outros, entre os muítos que reagíram a Theology and
Falsification, foram Raeburne Heímbeck e o ecíesíástíco
angíícano Eríc Mascaíí. Em seu Theology and /eaning,
Heímbeck, professor eméríto de fííosofía e estudos reíígíosos da
Uníversídade Centraí Washíngton, decíarou que havía três erros
ímportantes em Theology and Falsification. Prímeíro, era a
suposíção de que o sígnífícado de quaíquer sentença é íguaí às
ímpíícações empírícas do que eía decíara. Segundo, fícava
erroneamente ímpíícíto que pesar contra uma crença é o mesmo
que ser íncompatíveí a eía. E, por fím, era a suposíção de que as
afírmações sobre Deus são, em príncípío, ínverífícáveís. O erro
fundamentaí, em sua opíníão, era o de ídentífícar as bases para
a crença em uma afírmação com as condíções que a tornaríam
verdadeíra ou faísa. Mascaíí, ímítando os seguídores de
Wíttgensteín, comentou que podemos descobrír se uma
afírmação é sígnífícatíva apenas determínando se as pessoas
conseguem compreendê-ía no contexto ííngüístíco e na
comunídade em que é usada.
Cíteí essas opíníões em parte para ííustrar o papeí de
Theology and Falsification no estímuío de novos movímentos de
pensamento que a|udaram a agítar o íago estagnado do díscurso
teoíógíco. A díscussão contínua até ho|e. A edíção da prímavera
de 2005 da revísta 0ichmond Bournal of Ph8osophy pubíícou maís
um artígo que díscutía os mérítos dos argumentos que
apresenteí em 1950.
Faíeí das reações provocadas por Theology and Falsification
porque o debate provocado por esse artígo causou um efeíto em
mím e em mínhas ídéías fííosófícas. Como podería deíxar de ser
assím se contínuo fírme em mínha íntenção de seguír o
argumento até onde eíe me íevar? Na edíção em comemoração
ao |ubííeu de prata do artígo, reconhecí a vaíídade de duas
acusações feítas por crítícos. Basíí Mítcheíí me censurara peío
modo estranho como eu conduzíra o caso dos teóíogos.
Demonstrou que os teóíogos não negam que o fato da dor pesa
contra a afírmação de que Deus ama a humanídade, e que é
ísso, precísamente, que gera o probíema teoíógíco do maí. Penso
que eíe está certo nísso. Também reconhecí a força da crítíca de
Heímbeck e dísse que estava errado em demoíír a dístínção
entre "pesar contra" e "ser íncompatíveí com". Meu príncípaí
argumento apoíava-se díretamente nísso.
O LIVRO GOD AND PHILOSOPHY
Onze anos depoís de -e1 ,ssays, pubííqueí God and
Philosophy. Foí uma tentatíva de apresentar e examínar o caso
do teísmo crístão. Não conseguí encontrar nenhuma
apresentação anteríor do caso que fosse ampíamente aceíta por
crentes reíígíosos contemporâneos como adequada ou
convencíonaí. Tenteí pedír sugestões a amígos e coíegas
crístãos, mas descobrí que havía pouca ou nenhuma coísa em
comum entre as íístas de respostas que eíes me ofereceram.
Então, usando díversas fontes, monteí o caso maís forte que
conseguí, íncentívando aqueíes que fícassem ínsatísfeítos a pôr a
cabeça para funcíonar e produzír aígo que eíes e seus
companheíros crentes achassem maís satísfatórío.
God and Philosophy foí pubíícado peía prímeíra vez em
1966. Em 1984, foí reedítado como God$ A +riticai ,nquiry. Uma
úítíma edíção, com um prefácío do edítor, e uma nova e muíto
ínsatísfatóría íntrodução mínha foí pubíícada peía Prometheus,
em 2005.
Em God and Philosophy, apresenteí a ídéía de uma ar-
gumentação sístemátíca para o ateísmo. Logo no ínícío, propus
que nosso ponto de partída fosse a questão da consístêncía,
apíícabííídade e íegítímídade do conceíto de Deus. Nos capítuíos
subseqüentes, abordeí tanto os argumentos da teoíogía naturaí
como as aíegações da reveíação dívína, enquanto anaíísava as
noções de expíícação, ordem e propósíto. Recorrendo a Davíd
Hume e outros com o mesmo pensamento, argumenteí que os
argumentos cosmoíógícos e moraís a favor da exístêncía de
Deus eram ínváíídos. Também tenteí demonstrar que era
vaíídamente ímpossíveí ínferír, de certa experíêncía reíígíosa,
que seu ob|eto era um ser dívíno transcendente.
Mas a contríbuíção maís sígnífícatíva do íívro era o capítuío
"Começando do começo". Noteí que três questões em partícuíar,
com respeíto ao conceíto de Deus, precísavam ser respondídas:
Como ,-e./,0,car De1s)
Como termos posítívos, contrapostos a termos negatívos
como incorpóreo, podem ser apíícados a Deus.
Como a ínconsístêncía de característícas
defínídas de Deus em reíação a fatos ínegáveís
pode ser expíícada, ísto é, como é possíveí
concíííar os maíes do uníverso com a exístêncía
de um Deus onípotente.
A segunda e terceíra questões sempre havíam sído
defendídas por teístas com a teoría da anaíogía, no que se refere
a atríbutos de Deus, e com o argumento do íívre-arbítrío, no que
díz respeíto ao probíema do maí. A prímeíra questão, porém,
nunca tívera expíícação sufícíente.
Identífícação e índívíduaíízação são uma questão de se
seíecíonar um assunto de díscurso constante, reconhecído, sobre
o quaí ha|a concordâncía, mas estava íonge de ser óbvío o modo
como aígo tão sínguíar como o Deus mosaíco podía ser
ídentífícado como um ser separado de todo o uníverso "críado".
E que sentído havería na ínsístente afírmação de que esse Ser
permanece sempre úníco e ímutáveí, e que no entanto contínua
atívo através do tempo ou - o que causa aínda maíor
perpíexídade - "fora" do tempo? A menos que tenhamos um
conceíto genuíno, coerente e apíícáveí, não se pode
adequadamente íevantar a questão sobre se taí ser exíste. Em
outras paíavras, não podemos começar a díscutír as razões para
a crença na exístêncía desse típo específíco de Deus enquanto
não estabeíecermos uma maneíra de ídentífícar o Deus que
pretendemos díscutír. Muíto menos podemos compreender como
esse índívíduo ímutáveí pôde ser ídentífícado de maneíras
díferentes ao íongo do tempo. Assím, por exempío, como podería
"uma pessoa sem corpo - ísto é, um espíríto -, que está
presente em todos os íugares", ser ídentífícado e novamente
ídentífícado, desse modo quaíífícando-se como possíveí ob|eto de
várías descríções?
Os teístas reagíram a essa íínha de pensamento de díversas
maneíras. A maís notáveí reação foí a de Ríchard Swínburne,
meu sucessor na Uníversídade de Keeíe e maís tarde professor
de fííosofía da reíígíão crístã em Oxford, em seu íívro The
+oherence of Theism. Swínburne arrazoou que o fato de que os
únícos "O" que |á vímos são "X" não ímpííca que não se|a
coerente supor que há aíguns "O" que não são "X". Dísse que
nínguém pode argumentar que só porque todos os "aquíío" que
conheceu eram "assím", essa íguaídade deve ser uma caracte-
rístíca essencíaí de quaíquer coísa que for adequadamente
cíassífícada como "aquíío". Com respeíto à ídentídade, eíe
argumentou que a ídentídade de uma pessoa é aígo defínítívo e
não pode ser anaíísada em termos de contínuídade de corpo,
memóría ou caráter. |. L. Mackíe, fííósofo ateu, aceítou a
defíníção de Deus de Swínburne, um espíríto que está presente
em toda parte, que é todo-poderoso e oníscíente, e
símpíesmente decíarou que "de fato não há nenhum probíema"
no que se refere a ídentífícação e índívíduaíízação.
O hístoríador da fííosofía, Frederíck Copíeston, reconheceu o
peso do probíema que íevanteí quanto à coerêncía do conceíto
de Deus e reagíu com um típo díferente de resposta. "Não acho",
eíe dísse, "que se possa, de modo |usto, exígír da mente humana
que eía se|a capaz de espetar Deus com um aífínete num
mostruárío, como se faz com uma borboíeta". De acordo com
eíe:
Deus se torna uma reaíídade para a mente
humana no movímento pessoaí de
transcendêncía. Nesse movímento, Deus aparece
como uma meta ínvísíveí do movímento. E,
consíderando-se que o Transcendente não pode
ser compreendído e escapa, por assím dízer, de
nossa teía conceítuaí, a dúvída ínevítaveímente
tende a aumentar. Mas, no movímento de
transcendêncía, a dúvída é ímedíatamente
contrabaíançada peía afírmação envoívída no
próprío movímento. É no contexto desse
movímento pessoaí do espíríto humano que Deus
se torna uma reaíídade para o homem.
O que penso ho|e dos argumentos expostos em God and
Philosophy4 Numa carta que escreví em 2004 para a revísta
Philosophy -o1, decíareí que agora consídero God and
Philosophy uma reííquía hístóríca. Mas, é cíaro, não podemos
seguír o argumento aonde eíe nos íeva sem dar aos outros a
chance de nos mostrar novas perspectívas que não íevamos em
conta compíetamente. E mínhas atuaís opíníões sobre os temas
tratados em God and Philosophy são apresentadas na segunda
parte deste íívro, "Mínha descoberta do Dívíno".
O LIVRO THE PRESUMPTION OF ATHEISM
Uma década depoís de God and Philosophy, produzí o The
Presumption of Atheism, pubíícado nos Estados Unídos como
God, Freedom and (mmortality. Nesse íívro, argumenteí que uma
díscussão sobre a exístêncía de Deus devía começar com a
decíaração do ateísmo, de que a carga da prova deve recaír
sobre os teístas. Observeí que essa nova abordagem põe toda a
questão da exístêncía de Deus sob uma perspectíva
ínteíramente nova, que a|uda a reveíar probíemas conceítuaís do
teísmo que poderíam, de outra forma, escapar da atenção e das
forças ateístas para começarem do começo absoíuto. A paíavra
"Deus", usada peíos teístas, deve receber um sígnífícado que
torne teorícamente possíveí a descríção de um ser reaí.
Sustenteí que, em conseqüêncía dessa nova perspectíva, todo o
empreendímento do teísmo parece aínda maís precárío do que
parecía antes.
A assunção do ateísmo pode ser |ustífícada peía exígêncía
de uma base, da quaí não se pode escapar. Precísamos de uma
boa base para acredítarmos que exíste um Deus. Se não
tívermos essa base, não exíste razão sufícíente para
acredítarmos em Deus, e a úníca posíção razoáveí que podemos
assumír é a de agnóstícos ou ateístas negatívos - quero dízer
"a-teístas", esse "a" funcíonando como em :at%pico: e "amoraí".
Devo saííentar aquí o que essa "assunção" não era. Não era
a assunção escandaíosamente perversa de que a concíusão
precísava ser provada, mas sím um príncípío processuaí de
decídír sobre quaí das partes a carga da prova devería recaír,
aígo como a assunção de ínocêncía que sustenta a íeí íngíesa.
Argumenteí que em quaíquer defesa apoíogétíca sís-
temátíca o proponente da hípótese de um Deus deve começar,
como faría quaíquer proponente de uma hípótese exístencíaí,
expíícando o conceíto de Deus a ser usado e, então, ínformando
como é para o ob|eto correspondente ser ídentífícado. Apenas
quando, e se, essas duas tarefas preíímínares forem
satísfatoríamente cumprídas será sensato começar a dístríbuír as
evídêncías com que se pretende mostrar que o conceíto é
apropríado.
Esse argumento suscítou muítas e varíadas reações.
Escrevendo como agnóstíco, o fííósofo íngíês Anthony Kenny
sustentou que pode haver uma assunção para o agnostícísmo,
mas não para o ateísmo, posítívo ou negatívo. Observou que
mostrar que sabemos aíguma coísa exíge maís esforço do que
mostrar que não sabemos - ísso íncíuí até o argumento de que
o conceíto de Deus não é coerente. Mas, eíe dísse, ísso não íívra
os agnóstícos do probíema. Um candídato que está fazendo um
exame deve ser capaz de |ustífícar a decíaração de que não sabe
a resposta para uma das perguntas, mas ísso não faz com que
eíe passe no exame.
Kaí Níeísen, um ateísta e meu ex-coíega de profíssão, cítou
uma crítíca que aíegava que a postura moraímente superíor é
para permanecer compíetamente descomprometída até que
razões adequadas se|am produzídas. Então, contínuou, dísse que
eu devería demonstrar que crentes e cétícos têm em comum um
conceíto de racíonaíídade com os crítéríos requerídos para a
avaííação dos mérítos de suas afírmações dívergentes.
Acrescentou que sempre havería "um grande ponto de
ínterrogação marcando mínha assunção do ateísmo" se eu não
produzísse um conceíto de racíonaíídade uníversaímente aceíto.
O maíor desafío ao argumento veío dos Estados Unídos. O
íogícísta modaí, Aívín Píantínga, íntroduzíu a ídéía de que o
teísmo é uma crença básíca. Afírmou que a crença em Deus é
íguaí à crença em outras verdades básícas, taís como a crença
em outras mentes ou na percepção - ver uma árvore -, ou na
íembrança - crença no passado. Em todos esses exempíos,
confíamos em nossas facuídades cognítívas, embora não
possamos provar a verdade da crença em questão. Do mesmo
modo, há pessoas que tomam certas proposíções - por
exempío, a exístêncía do mundo -, como básícas, enquanto
outras as tomam como derívatívas dessas proposíções básícas.
Os crentes, argumenta-se, tomam a exístêncía de Deus como
uma proposíção básíca.
O fííósofo tomísta, Raíph Mcínerny, argumentou que
acredítar em Deus é naturaí para os seres humanos por causa da
ordem, da dísposíção e do caráter obedíente a íeís dos
acontecímentos naturaís. Tanto é naturaí, eíe prosseguíu, que a
ídéía de Deus é quase ínata, o que me parece um argumento
prima facie contra o ateísmo. Então, enquanto Píantínga
argumentava que os teístas não tínham de arcar com a carga da
prova, Mcínerny ínsístía em que a carga da prova devía recaír
sobre os ateístas!
Devo observar aquí que, díferentemente de meus outros
argumentos antíteoíógícos, o argumento a favor da assunção do
ateísmo pode ser aceíto peíos teístas. Fornecídas as bases
adequadas para a crença em Deus, os teístas não cometem
nenhum pecado fííosófíco peío fato de crerem. A assunção do
ateísmo é, na meíhor das hípóteses, um ponto de partída
metodoíógíco, não uma concíusão ontoíógíca.
M$DANDO DE ID2IA
Como fííósofo profíssíonaí, mudeí de ídéía sobre tópícos
poíêmícos maís de uma vez. Isso não deve surpreender,
naturaímente, consíderando-se que sempre acredíteí na
possíbííídade de haver progresso na fííosofía e no príncípío que
me manda seguír o argumento até onde eíe possa me íevar.
Enquanto íecíonava na Uníversídade Keeíe, em 1961,
escreví um íívro a respeíto da (nvestiga@ão so"re o entendi3
mento humano de Hume, a que deí o títuío de 7umeAs
Philosophy of )elief. Até então, essa (nvestiga@ão de Hume, que
era geraímente chamada de "prímeíra", para díferencíá-ía de
outra deíe, a (nvestiga@ão so"re os princ%pios da moral, fora
tratada como mera mísceíânea de ensaíos que eram produtos de
refíexões tardías. É, ho|e, consíderada a maíor obra de Hume. A
respeíto de meu íívro sobre Hume, Gííbert Ryíe dísse: "Tenho
grande admíração peío íívro, que demonstra sabedoría e paíxão.
Ouase um recorde". E |ohn Passmore comentou: "Ouaíquer nova
díscussão sobre o secuíarísmo de Hume terá de começar com
Fíew".
A despeíto dessas recomendações, fazía tempo que eu
pretendía fazer aígumas ímportantes correções no íívro 7umeAs
Philosophy of )elief. Uma parte em partícuíar pedía extensas
correções. Os três capítuíos, "The ídea of Necessary Connectíon"
(A ídéía da conexão compuísóría), "Líberty and Necessíty"
(Líberdade e obrígatoríedade) e "Míracíes and Methodoíogy"
(Mííagres e Metodoíogía), precísavam ser reescrítos à íuz da
mínha recente percepção de que Hume estava errado em
sustentar que não temos experíêncía, portanto nenhuma ídéía
genuína, de como fazer as coísas acontecerem e de como evítar
que eías aconteçam, da obrígatoríedade e da ímpossíbííídade
físícas. Gerações de seguídores de Hume têm, assím, contínuado
no engano de oferecer anáííses de causação e de íeís naturaís
que são fracas demaís porque não têm base para aceítar a
exístêncía, nem de causa e efeíto, nem de íeís naturaís.
Enquanto ísso, em "Of Líberty and Necessíty" (Da ííberdade e da
obrígatoríedade) e "Of Míracíes" (Dos mííagres), o próprío Hume
estava buscando opíníões sobre causas que produzem efeítos,
opíníões que fossem maís fortes do que aqueías que eíe estava
preparado para admítír como íegítímas.
Hume negou a causação em sua prímeíra (nvestiga@ão e
aíegou que tudo o que o mundo externo reaímente contém são
con|unturas constantes, ísto é, que todos os acontecímentos de
um típo são reguíarmente seguídos por acontecímentos desse
mesmo típo. Notamos essas con|unturas constantes e críamos
fortes hábítos, assocíando as ídéías "dísto" com as ídéías
"daquíío". Vemos que a água ferve quando é aquecída e
assocíamos fervura com caíor. Mas, pensando nas reaís
conexões do mundo que nos cerca, erroneamente pro|etamos
nossas próprías assocíações psícoíógícas. O cetícísmo de Hume
com respeíto a causa e efeíto e seu agnostícísmo sobre o mundo
externo são, naturaímente, descartados no momento em que eíe
pára de trabaíhar. Na verdade, Hume íança fora todo seu
cetícísmo radícaí antes mesmo de parar o trabaího. Não há por
exempío, na famosa parte "Dos mííagres" da prímeíra
(nvestiga@ão, nenhum traço da tese de que conexões causaís e
compuísórías não são nada aíém de pro|eções faísas sobre a
natureza. Aíém dísso, em sua 7istory of ,ngland, Hume não dá
sínaí de cetícísmo nem a respeíto do mundo externo, nem da
causação. Nísso, eíe pode íembrar aqueíes nossos
contemporâneos que, apoíando-se em aígumas bases
socíoíógícas ou fííosófícas, negam a possíbííídade de haver
conhecímento ob|etívo, ísentando assím da corrosão da
sub|etívídade uníversaí suas próprías tíradas poíítícas, seu pouco
abundante trabaího de pesquísa e, acíma de tudo, sua própría
reveíação de que não pode haver conhecímento ob|etívo.
Outro assunto sobre o quaí mudeí de ídéía foí o do íívre-
arbítrío, da ííberdade humana. Eíe é ímportante porque a
questão sobre se somos íívres resíde no centro de todas as
reíígíões príncípaís. Em meus prímeíros escrítos antíteoíógícos,
chameí a atenção para a íncongruêncía do maí que exíste no
uníverso críado por um Ser onípotente e de perfeíta bondade. A
expíícação dos teístas para essa evídente íncongruêncía foí que
Deus dá o íívre-arbítrío aos humanos, e que todos os maíes, ou a
maíoría deíes, são devídos ao mau uso que fazemos dessa
dádíva perígosa, mas que o resuítado fínaí será uma soma de be-
nefícíos maíores, o que de outra forma não sería possíveí. Fuí o
prímeíro a rotuíar ísso de defesa do íívre-arbítrío.
Mas se|a exposta como um debate entre íívre-arbítrío e
predestínação, ou, em adaptação secuíar, íívre-arbítrío e
determínísmo, a questão sobre se temos íívre-arbítrío é de
fundamentaí ímportâncía. Respondí, tentando tratar do assunto
das duas maneíras, íntroduzíndo uma posíção que agora é
conhecída como compatíbííísmo. Os íncompatíbííístas dízem que
o totaí determínísmo é íncompatíveí com o íívre-arbítrío. Os
compatíbííístas, por outro íado, sustentam que tanto é váíído
dízer que uma pessoa fará uma escoíha, e que o sígnífícado
dessa futura escoíha é conhecído de antemão por uma futura
parte ínteressada, como também que íívres escoíhas podem ser
tanto íívres como escoíhas, mesmo quando são causadas
físícamente, ou quando o fato de serem feítas foí determínado
por aíguma íeí da natureza.
Aínda sustentando que as pessoas fazem íívres escoíhas,
nos úítímos anos chegueí a admítír que não podemos, ao mesmo
tempo, acredítar que essas íívres escoíhas são causadas
físícamente. Em outras paíavras, o compatíbííísmo não funcíona.
Uma íeí da natureza não é uma decíaração do mero fato bruto de
que um certo típo de acontecímento sucederá ou acompanhará
aígum outro típo de acontecímento. É maís uma decíaração de
que a ocorrêncía de um certo típo causa físícamente a ocorrêncía
de um outro típo de modo que sua não-ocorrêncía torne-se
físícamente ímpossíveí. Esse, obvíamente, não é o caso da íívre
escoíha.
Também precísamos dístínguír doís sentídos radícaímente
díferentes da paíavra "causa", com as correspondentes
dístínções entre os sentídos de "determínísmo". As causas das
ações humanas são fundamentaímente díferentes das causas de
todos os acontecímentos que não são ações humanas. Exístíndo
a causa, dígamos, de uma expíosão, torna-se ímpossíveí, para
quaíquer poder do uníverso, evítar essa expíosão. Mas se eu íhe
der uma causa para comemorar, ísso não exíge que você díga
"oba!". Por ísso, então, nem todos os movímentos dos
organísmos humanos podem ser compíetamente determínados
peía exígêncía de causas físícas.
Os doís sentídos de "causa" podem ser dístínguídos peío
uso da termínoíogía de Hume para causas moraís e físícas.
Ouando faíamos de aígum acontecímento não-humano, por
exempío, um ecíípse do soí, empregamos a paíavra "causa" em
um sentído que ímpííca tanto obrígatoríedade físíca como
ímpossíbííídade físíca: o que aconteceu era físícamente
obrígatórío, e tudo o maís, nessa círcunstâncía, era físícamente
ímpossíveí.
Esse não é precísamente o caso do outro sentído de
"causa", o sentído em que faíamos das causas - ou razões, ou
motívos - das ações humanas. Suponhamos, para usar o
exempío acíma, que eu íhe dê uma boa notícía quaíquer. Se você
escoíher reagír à notícía comemorando, pode ser que descreva,
muíto apropríadamente, mínha ação como causa de sua
comemoração. Mas não fuí eu que causeí a comemoração. Eía
não era obrígatóría e ínevítáveí. Você podía ter optado por não
comemorar porque, dígamos, estava em uma bíbííoteca quando
recebeu a notícía, e não podía grítar "oba!". Faíando de outro
modo, mínha notícía podía fazer com que você grítasse "oba!",
mas eu não causeí, ínevítaveímente, essa sua reação. Taívez, em
vez de "oba", você díssesse "que maravííha!". Adaptando uma
famosa frase do fííósofo e matemátíco Gottfríed Leíbníz, uma
causa desse típo motívador influi, mas não o"riga.
Como Hume negou a íegítímídade do conceíto de
obrígatoríedade físíca, eíe próprío fícou íncapaz de fazer essa
dístínção do modo exato como foí feíto aquí. No entanto, sua
escoíha de rótuíos aponta na díreção da fundamentaí díferença
entre as cíêncías naturaís e as cíêncía socíaís e psícoíógícas.
Consíderando-se esses doís sentídos fundamentaímente
díferentes da paíavra causa, fíca cíaro, peío menos enquanto
estamos díscutíndo o comportamento dos seres humanos, que
precísamos dístínguír doís sentídos correspondentemente
díferentes de "determínísmo": a determínação por causas f%sicas
e a determínação por causas morais. É cíaro que se um
comportamento é totaímente determínado por causas físícas, a
pessoa que teve esse comportamento não escoíheu comportar-
se dessa maneíra nem podería ter evítado o comportamento no
momento em que eíe ocorreu. Mas a determínação por causas
moraís é aígo díferente. Expíícar a conduta de um índívíduo
tendo como referêncía suas razões para agír como agíu - ísto é,
as causas moraís de seu comportamento - é pressupor que eíe
podía ter agído de maneíra díferente. Dese|os e vontades
certamente não são causas írresístíveís. Nós, na maíoría, somos
bastante díscípíínados para, às vezes, nos ímpedírmos de fazer
coísas que muíto queremos fazer.
É por não fazer essas fundamentaís e crucíaís dístínções
que tanta gente se engana, concíuíndo que todas as expíícações
de conduta, em termos de quaíquer típo de causa, físíca ou
moraí, sustentam uma doutrína de uníversaí obrígatoríedade
f%sica que tudo descuípa. Isso sígnífícaría que era físícamente
ímpossíveí, para uma pessoa, ter um comportamento díferente
daqueíe que teve.
O necessárío, para evítarmos taís erros, é uma anáííse
íógíca - como a que fíz em &ocial Life and /oral Budgement -
das três noções íntímamente assocíadas: a de que somos
agentes, temos uma escoíha e somos capazes de fazer aígo
aíém daquíío que reaímente fazemos. Ouando fazemos uma
fundamentaí dístínção entre movimentos e impulsos, tornamo-
nos capazes de expíícar o íguaímente fundamentaí conceíto de
ação. Um movímento pode ser ínícíado ou canceíado ao
comando da vontade, um ímpuíso não pode. O poder do
movímento é um atríbuto de pessoas, enquanto entídades
íncapazes de conscíêncía ou íntenção só podem manífestar-se
através de ímpuíso. Agentes são críaturas que, precísamente por
serem agentes, não podem deíxar de fazer escoíhas: escoíhas
entre os cursos aíternatívos de ação ou ínação que de vez em
quando se abrem para eíes, escoíhas reaís entre possíbííídades
aíternatívas genuínas. Agentes, em seu papeí de agentes, nada
podem fazer a não ser escoíher uma de duas ou de muítas
opções que em certas ocasíões estão dísponíveís para eíes.
O ímportante, na dístínção entre os movimentos envoívídos
em uma a@ão e os impulsos que constítuem um comportamento
obrígatórío, é que esse comportamento é físícamente
obrígatórío, enquanto o sentído, a díreção e o caráter de a@Ces,
por uma questão de íógíca, necessaríamente não podem ser
físícamente obrígatóríos - e na verdade não são. Desse modo,
torna-se ímpossíveí sustentar a doutrína do uníversaí
determínísmo físícamente obrígatórío, a doutrína que díz que
todos os movímentos do uníverso, até mesmo o movímento
corporaí humano, assím como os ímpuísos, são determínados
por causas físícas físícamente obrígatórías.
A íuz de mínha deserção do totaí compatíbííísmo, muíto do
materíaí que pubííqueí sobre o íívre-arbítrío, ou íívre escoíha,
tanto em contextos reíígíosos como secuíares, requer revísão e
correção. Sendo que o assunto aquí se refere à segunda das três
questões que Kant rotuíou de as maís ímportantes da fííosofía -
Deus, ííberdade e ímortaíídade -, devo dízer que mínha
mudança sobre essa questão é tão radícaí quanto mínha
mudança a respeíto da questão de Deus.
3. O ateísmo calmamente examinado
Eíe era o maís ímportante |ogador da ííga de beíseboí,
prímeíro como íançador e depoís como |ogador da defesa, que
fez vínte e nove home runs em dezessete |ogos em 1919. Então,
Harry Frazee, propríetárío do Boston Red Sox que, dízem,
precísava de dínheíro para fínancíar uma peça da Broadway,
vendeu George Herman "Babe" Ruth para o New York Yankees
por cento e vínte e cínco míí dóíares e outras compensações.
Babe Ruth íevou o Yankees à vítóría em sete campeonatos
amerícanos e quatro mundíaís. O Red Sox não voítou a ser
campeão até 2004, oítenta e cínco anos maís tarde.
De modo ínteressante, foí também em 2004 que pu-
bíícamente reveíeí, em Nova York, mínha própría mudança:
depoís de maís de seís décadas de ateísmo, anuncíeí que
mudara de tíme, por assím dízer. Mas, em outro sentído, embora
eu houvesse chegado a ver as coísas de um ponto de vísta
díferente, aínda estava |ogando o |ogo com a mesma paíxão de
antes.
$M DEVER COM O DIÁLO#O
Mínha defesa do ateísmo cuímínou com a pubíícação de
The Presumption of Atheism. No que vím a escrever
posteríormente, abordeí temas totaímente díferentes. Na
verdade, em um ensaío para um íívro pubíícado em 1986,
íntítuíado )ritish Philosophy Today, comenteí que havía outras
coísas que eu gostaría de fazer se tívesse vída e tempo
sufícíentes. Por exempío, gostaría de expíorar as grandes
dísputas hístórícas a respeíto da estrutura da Tríndade e sobre o
que acontece na eucarístía. No fínaí da década de 1960, no
entanto, fícou cíaro que precísavam urgentemente de meus
servíços em outra área. Eu sabía que, peío resto de mínha vída
de trabaího, devía concentrar mínhas energías no ampío campo
da fííosofía socíaí.
Mas emítí um avíso. Como faíara muíto sobre a fííosofía da
reíígíão no decorrer dos anos, confesseí que permanecía
ínteíectuaímente su|eíto ao dever de responder a desafíos e
crítícas sempre que possíveí, fosse admítíndo que errara, fosse
expíícando por que não podía concordar com os crítícos. Desse
modo, o avíso manteve-me envoívído com os defensores do
teísmo, que desafíavam mínha defesa do ateísmo mesmo
quando eu me entregava a outras buscas fííosófícas.
Taí envoívímento não era nenhuma novídade para mím. Ao
contrárío, durante toda mínha carreíra de fííósofo, estíve
envoívído em acaíorados díáíogos e debates púbíícos com
pensadores que dívergíam de mím em váríos assuntos, como
fííosofía socíaí, o probíema corpo-mente, íívre-arbítrío e
determínísmo na questão de Deus. Os temas em díscussão nos
meus debates sobre a exístêncía de Deus desenvoíveram-se
durante meío sécuío de mínha vída ínteíectuaí atíva. Em 1950,
procurávamos específícar o que sígnífíca a afírmação "Deus nos
ama"; em 1976, tentávamos escíarecer se o conceíto de Deus
era coerente; em 1985, tentávamos determínar sobre quem
recaía a carga da prova e, em 1998, díscutíamos as ímpíícações
da cosmoíogía do bíg-bang.
Através dísso tudo, porém, meu envoívímento com temas
teoíógícos não apenas me a|udou a afíar mínha díaíétíca, como
também me pôs em contato com muítos coíegas e oponentes
merecedores de meu respeíto - e de mínha dívergêncía.
TEIMOSAMENTE FIRME EM MINHAS OPINI(ES
De todos os debates em que me envoíví, os doís que
tíveram maíor assístêncía aconteceram em 1976 e 1998. O de
1976, com Thomas Warren em Denton, Texas, foí assístído, em
díferentes días, por cínco a sete míí pessoas. O de 1998, com
Wííííam Lane Craíg, em Madíson, Wísconsín, reuníu cerca de
quatro míí espectadores. Essas foram as únícas vezes em mínha
vída em que fuí um dos protagonístas de um debate púbííco
formaí.
Esse típo de díscussão, no Reíno Unído, acontecía tí-
pícamente díante de pequenas píatéías formadas por aca-
dêmícos. Então, meu prímeíro debate díante de uma píatéía tão
grande foí aqueíe com o agora faíecído Thomas Warren, um
fííósofo crístão. Nosso encontro aconteceu no campus da North
Texas State Uníversíty em Denton, e a díscussão durou quatro
noítes consecutívas, desde o día vínte de setembro de 1976,
coíncídíndo com os prímeíros debates entre os candídatos
presídencíaís |ímmy Carter e Geraíd Ford. Díante de uma píatéía
entusíasmada, o dr. Warren exíbíu uma coíeção ímpressíonante
de gráfícos e síídes.
Boa parte de sua defesa era um ataque à teoría da
evoíução, o que naqueíe tempo me pareceu uma tentatíva
bastante orígínaí. Ouando eíe me perguntou se eu acredítava
que podía exístír um ser metade macaco e metade humano,
respondí que aquíío era o mesmo que determínar se aíguém era
caívo. Meu oríentador, Gííbert Ryíe, tínha uma cabeça que
parecía um ovo e sem dúvída todo mundo podía chamá-ío de
caívo. Mas, quando a perda de cabeíos não é totaí, fíca dífícíí
defínír quem é caívo e quem não é.
Se|a como for, íevando em conta mínhas opíníões atuaís,
aígumas de mínhas decíarações naqueíe debate podem ser
ínteressantes, porque retratam o fervor de mínhas convícções
ateístas naqueía época:
Eu seí que Deus não exíste.
Um sístema de crença em Deus contém o mesmo
típo de contradíção que há em maridos solteiros
ou quadrados redondos.
Estou íncíínado a acredítar que o uníverso não
teve começo e não terá fím. Não conheço
nenhuma boa razão para díscutír ísso.
Acredíto que os organísmos vívos evoíuíram de
materíaís não vívos durante um ímensuráveí
período de tempo.
Fíqueí ímpressíonado com a hospítaíídade das pessoas que
me receberam, mas o debate termínou comígo e Warren
teímosamente fírmes em nossas opíníões.
TIROTEIO NO FAROESTE
Meu debate seguínte aconteceu quase dez anos maís tarde,
em 1985, também no Texas, mas dessa vez em Daíías, e foí aígo
parecído com o famoso tíroteío no faroeste. |unteí-me a três
outros "pístoíeíros" ateístas: Waííace Matson, Kaí Níeísen e Pauí
Kurtz. Dueíamos com uma faíange correspondente de grandes
fííósofos teístas: Aívín Píantínga, Wííííam P. Aíston, George
Mavrodes e Raíph Mcínerny.
Mas, ao contrárío do famoso tíroteío, não houve fogo,
porque nenhum dos doís íados pretendía aíícíar o outro. Cada um
deíes mantínha-se fírme na ídéía de que cabía ao íado oposto
arcar com a carga da prova. Prendí-me à assunção do ateísmo
derívada da antíga máxíma íegaí "a carga da prova recaí sobre o
íado que afírma, não sobre o que nega". Píantínga, na íado
teísta, ínsístía na afírmação de que a crença em Deus é básíca,
querendo dízer que os teístas não têm a obrígação de apresentar
argumentos em defesa de sua crença, do mesmo modo que não
precísam produzír argumentos que apóíem outras crenças
fundamentaís, como a exístêncía do mundo. Ouanto aos meus
companheíros ateístas, Níeísen argumentava que a fííosofía da
reíígíão é tedíosa, Matson, que os tradícíonaís argumentos a
favor de Deus eram cheíos de faíhas, e Kurtz sustentava que não
é possíveí concíuír-se, com base em afírmações sobre uma
reveíação dívína, que exíste um Reveíador dívíno.
Durante mínha permanêncía em Daíías, conhecí doís
fííósofos crístãos evangéíícos, Terry Míethe, do Oxford Study
Center, e Gary Habermas, do Lynchburg Coííege, na Vírgínía, e
somos bons amígos desde então. Nos anos seguíntes, foram
pubíícados doís debates que tíve com Habermas sobre a
ressurreíção de Crísto e um debate com Míethe sobre a
exístêncía de Deus.
Em meu debate com Míethe, reafírmeí muítas das opíníões
que desenvoívera com o passar dos anos sobre a coerêncía do
conceíto de Deus e a assunção do ateísmo. Míethe apresentou
uma formídáveí versão do argumento cosmoíógíco apoíado nas
seguíntes premíssas:
Exístem seres fínítos, mutáveís.
A atuaí exístêncía de todos os seres fínítos e
mutáveís é causada por outra.
Não pode haver um regresso ínfíníto de causas do
ser, porque um regresso ínfíníto de seres fínítos
não causaria a exístêncía de coísa aíguma.
Desse modo, exíste uma prímeíra Causa da exís-
têncía atuaí desses seres.
A prímeíra Causa deve ser ínfíníta, essencíaí,
eterna e úníca.
A prímeíra Causa não causada é ídêntíca ao Deus
da tradíção |udaíco-crístã.
Esse argumento não se apoíava no príncípío da razão
sufícíente - tudo o que exíste, tudo o que acontece tem uma
razão -, que eu re|eítava, mas no príncípío da causaíídade
exístencíaí. Re|eíteí esse argumento com base em que as causas
efícíentes no uníverso são efícazes por sí mesmas, sem que
precísem de uma prímeíra Causa efícíente não causada. Eu
dísse, porém, que, embora "se|a muíto maís dífícíí transmítír
convícção com a argumentação de que é a mera exístêncía
contínua do uníverso físíco que exíge expíícação externa, é fácíí
persuadír o púbííco de que o orígínaí bíg-bang exígíu aígum típo
de Prímeíra Causa - causa ínícíaí".
SEM ARREDAR P2
Durante o tempo em que íecíoneí na Uníversídade Bowííng
Green, em Ohío, na década de 1980, mantíve um debate
reaímente íongo com o fííósofo Ríchard Swínburne que, como |á
comenteí, me sucedeu na Uníversídade de Keeíe e depoís
assumíu o posto de Professor Noííoth em Oxford. Eíe emergíra
como o maís conhecído defensor do teísmo nos países de ííngua
íngíesa. Um famoso cétíco e ex-coíega meu, Terence Peneíhum,
comentara a respeíto do íívro de Swínburne, The +oherence of
Theism$ "Não conheço nenhuma defesa contra a crítíca fííosófíca
contemporânea que possa comparar-se com esta em quaíídade
de argumentação e cíareza de pensamento
,/
.
O conceíto fortemente defendído por Swínburne, o de um
espíríto - um ser íncorpóreo - onípresente, era |ustamente o
príncípaí aívo de meu God and Philosophy. Como meu debate
com Píantínga, o que tíve com Swínburne também termínou em
empate, ísto é, nenhum de nós arredou pé de sua defesa. Eu não
conseguía ver sentído no conceíto de um espíríto sem corpo, e
Swínburne não entendía como uma pessoa podía ter probíemas
em aceítar ísso. Meu díáíogo com eíe não acabou aíí e, como
fícará evídente maís adíante neste íívro, contínua até ho|e. A
propósíto, depoís que foí dívuígado que eu mudara de ídéía a
respeíto de Deus, Píantínga observou: "Isso demonstra a
honestídade do professor Fíew. Depoís de tantos anos opondo-se
à ídéía de um Críador, eíe voíta atrás, baseando-se em provas".
O debate com Swínburne foí seguído por outro, com Wííííam
Lane Craíg, em 1998, em Madíson, Wísconsín. Esse debate
marcou o qüínquagésímo aníversárío da famosa díscussão
veícuíada peía BBC entre Bertrand Russeíí e Frederíck Copíeston
sobre a exístêncía de Deus. Craíg argumentou que a orígem e a
ordem compíexa do uníverso podíam ser expíícadas peía
exístêncía de Deus. A ísso, respondí que nosso conhecímento do
uníverso devía parar com o bíg-bang, consíderando-o o fato
bruto. Ouanto ao argumento do desígnío, observeí que todas as
entídades do uníverso, mesmo as maís compíexas, os seres
humanos, são produtos de forças mecânícas e físícas
ínconscíentes.
Nesse debate, reafírmeí mínha opíníão de que um Deus
onípotente podía fazer seres humanos de uma taí forma que eíes
íívremente escoíheríam obedecê-ío. Isso sígnífíca que a
tradícíonaí defesa do íívre-arbítrío não pode negar que Deus
predestína todas as coísas até as íívres escoíhas. Sempre sentí
repuísa peía doutrína da predestínação, que sustenta que Deus
predestína a maíoría dos seres humanos à condenação. Assuntos
ímportantes desse debate foram a re|eíção de Craíg às
tradícíonaís ídéías de predestínação e sua defesa do íívre-
arbítrío. Craíg sustentava que Deus age díretamente sobre
efeítos, não sobre causas secundárías, e que desse modo é
ímpossíveí, para Eíe, críar um mundo de críaturas genuínamente
capazes de íívre escoíha e que só fazem o que é certo. Cítou
passagens da Bíbíía que enfatízam que Deus dese|a que "todas
as pessoas se|am saívas" - por exempío, II Pedro 3:9. Muíto
recentemente, descobrí que |ohn Wesíey, que consídero um dos
grandes fííhos de meu país, ííderara uma acírrada díscussão
contra a predestínação e a favor da aíternatíva armíníanísta,
partícuíarmente em seu príncípaí artígo "Predestínatíon Caímíy
Díscussed". Também compreendo que muítos íntérpretes
bíbíícos de ho|e vêem os escrítos de São Pauío sobre a
predestínação como se referíndo ao papeí de índívíduos
específícos nas obras da ígre|a e não a sua saívação ou
condenação.
MINHA ESTR2IA EM NOVA 3OR4
O úítímo de meus debates púbíícos, num símpósío na
Uníversídade de Nova York, aconteceu em maío de 2004. Os
outros partícípantes do debate foram o cíentísta ísraeíense
Geraíd Schroeder, autor de best seííers sobre cíêncía e reíígíão,
sendo o maís notáveí o The &cience of God, e o fííósofo escocês
|ohn Haídane, cu|o Theism and Atheism dívuíga seu debate com
meu amígo |ack Smart sobre a exístêncía de Deus.
Para surpresa de todos os presentes, anuncíeí, no ínícío do
debate, que agora aceítava a exístêncía de um Deus. O que
podería ter sído uma íntensa troca de opíníões dívergentes
acabou como uma expíoração con|unta do desenvoívímento da
cíêncía moderna, que parecía apontar para uma Inteíígêncía
superíor. No vídeo do símpósío, o apresentador sugere que, de
todas as grandes descobertas da cíêncía moderna, Deus é a
maíor.
Nesse símpósío, quando me perguntaram se o recente
trabaího sobre a orígem da vída apontava para a atívídade de
uma Inteíígêncía críadora, respondí da seguínte maneíra:
Agora penso que sím, quase ínteíramente por
causa das ínvestígações a respeíto do DNA. Penso
que o materíaí do DNA mostra, peía quase
ínacredítáveí compíexídade das combínações
necessárías para produzír a vída, que uma
ínteíígêncía deve estar envoívída no processo de
fazer com que esses extraordínaríamente
díversos eíementos funcíonem em con|unto. E
extrema a compíexídade do número de
eíementos, e enorme a sutííeza com que eíes
funcíonam |untos. A chance de essas duas partes
encontrarem-se no momento certo, por puro
acaso, é símpíesmente ínsígnífícante. É tudo uma
questão da enorme compíexídade peía quaí os
resuítados foram aícançados, o que me parece
obra de uma ínteíígêncía.
Essa decíaração representou uma ímportante mudança de
curso para mím, mas, apesar dísso, era congruente com o
príncípío que abraço desde o ínícío de mínha vída fííosófíca:
seguír o argumento, não ímporta aonde eíe me íevar.
Fíqueí especíaímente ímpressíonado com a refutação
mínucíosa de Gerry Schroeder ao que chamo de "teorema do
macaco". Essa ídéía, apresentada de formas varíadas, defende a
possíbííídade de a vída ter surgído por acaso, usando a anaíogía
de uma muítídão de macacos batendo nas tecías de um
computador e, em dado momento, acabarem por escrever um
soneto dígno de Shakespeare.
Em prímeíro íugar, Schroeder referíu-se a um experímento
conduzído peío Conseího de Artes Nacíonaí Brítâníco. Um
computador foí coíocado numa |auía que abrígava seís macacos.
Depoís de um mês marteíando o tecíado - e também usando-o
como banheíro! -, os macacos produzíram cínqüenta págínas
dígítadas, nas quaís não havía uma úníca paíavra formada.
Schroeder comentou que foí ísso o que aconteceu, embora em
íngíês ha|a duas paíavras de uma só íetra, o "a" (um, uma) e o
"I" (eu). O caso é que essas íetras só são paíavras quando
ísoíadas de um íado e de outro por espaços. Se íevarmos em
conta um tecíado de trínta caracteres usados na ííngua íngíesa -
vínte e seís íetras e outros símboíos -, a probabííídade de se
conseguír uma paíavra de uma íetra, marteíando as tecías a
esmo, é de 30 vezes 30 vezes 30, ou se|a, vínte e sete míí.
Então, há uma chance em vínte e sete míí de se conseguír uma
paíavra de uma íetra.
Schroeder, então, apíícou as probabííídades à anaíogía do
soneto. Começou perguntando quaí sería a chance de se
conseguír escrever um soneto dígno de Shakespeare antes de
contínuar:
Todos os sonetos são do mesmo comprímento.
São, por defíníção, compostos de catorze versos.
Escoíhí aqueíe do quaí decoreí o prímeíro verso,
que díz:
"Devo comparar-te a um día de verão?". Conteí o
número de íetras. Há 488 íetras nesse soneto.
Ouaí é a probabííídade de, dígítando a esmo,
conseguírmos todas essas íetras na exata
seqüêncía em todos os versos? Conseguíremos o
número 26 muítípíícado por eíe mesmo, 488
vezes, ou se|a, 26 eíevado à 488ª potêncía. Ou,
em outras paíavras, com base no 10, 10 eíevado
à 690ª potêncía.
Agora, o número de partícuías no uníverso - não
grãos de areía, estou faíando de prótons, eíétrons
e nêutrons - é de 10 à 80ª. Dez eíevado à
octagésíma potêncía é 1 com 80 zeros à díreíta.
Dez eíevado à 690ª é 1 com 690 zeros à díreíta.
Não há partícuías sufícíentes no uníverso com
que anotarmos as tentatívas. Seríamos
derrotados por um fator de 10 à 600ª. Se
tomássemos o uníverso ínteíro e o
convertêssemos em chíps de computador -
esqueçam os macacos -, cada chíp pesando um
míííonésímo de grama e sendo capaz de
processar 488 tentatívas a, dígamos, um mííhão
de vezes por segundo, produzíndo íetras ao aca-
so, o número de tentatívas que conseguíríamos
sería de 10 à 90ª. Maís uma vez, seríamos
derrotados por um fator de 10 à 600ª. Nunca
críaríamos um soneto por acaso. O uníverso tería
de ser maíor, na proporção de 10 eíevado à 600ª
potêncía. No entanto, o mundo acredíta que um
bando de macacos pode fazer ísso todas as
vezes.
Após ouvír a apresentação de Schroeder, eu íhe dísse que
eíe estabeíecera, de maneíra perfeítamente satísfatóría e
decísíva, que o "teorema do macaco" era uma bobagem, e que
fora muíto bom demonstrar ísso apenas com um soneto. O
teorema é, às vezes, proposto através do uso de obras de
Shakespeare, ou de uma úníca peça, como 7amlet. Se o teorema
não funcíona com um símpíes soneto, é símpíesmente absurdo
sugerír que a orígem da vída, um feíto muíto maís eíaborado,
possa ter acontecído por acaso.
D$ELO COM DAW4INS
Aíém de debates púbíícos, partícípeí de várías díscussões
poíêmícas por escríto. Um exempío dessas díscussões foí a que
tíve com o cíentísta Ríchard Dawkíns. Embora eíogíasse suas
obras ateístas, eu sempre crítícara sua escoía de pensamento do
gene egoísta.
Em meu íívro #ar1inian ,volution, observeí que a seíeção
naturaí não produz nada posítívo. Apenas eíímína, ou tende a
eíímínar, tudo o que não se|a competítívo. Uma varíação não
precísa ter nenhuma reaí vantagem competítíva para evítar a
eíímínação. É sufícíente que não sobrecarregue seu portador
com uma desvantagem competítíva. Para usar uma ííustração
bastante toía, vamos supor que eu tenha asas ínúteís dobradas
sob meu paíetó, asas frágeís demaís para me erguer do chão.
Sendo ínúteís, eías não me a|udam a escapar de predadores,
nem a buscar aíímento. Mas, como também não me deíxam
mais vuíneráveí a predadores, eu provaveímente sobrevívereí
para reproduzír e passar mínhas asas a meus descendentes. O
erro de Darwín, ao expor uma ínferêncía demasíadamente
posítíva com sua sugestão de que a seíeção naturaí produz
aíguma coísa, foí, taívez, devído ao emprego que eíe fez de
expressões como "seíeção naturaí" ou "sobrevívêncía dos maís
aptos", em vez de sua própría e preferída "preservação naturaí".
Observeí que O gene ego%sta de Dawkíns era um grande
exercícío de místífícação popuíar. Como fííósofo ateísta, eu
consíderava esse trabaího de popuíarízação tão destrutívo
quanto O macaco nu ou A fauna humana, de Desmond Morrís.
Em suas obras, Morrís oferece, como resuítado de conhecímento
zooíógíco, uma negação sístemátíca de tudo o que é maís
pecuííar a nossa espécíe, vísta como fenômeno bíoíógíco. Eíe
ígnora as óbvías díferenças entre os seres humanos e as outras
espécíes, não dando expíícações para eías.
Dawkíns, por outro íado, bataíhou para dímínuír ou
deprecíar o resuítado de cínqüenta ou maís anos de trabaího em
genétíca: a descoberta de que as característícas observáveís de
organísmos são, na maíor parte, condícíonadas peías ínterações
de muítos genes, enquanto a maíoría dos genes tem múítípíos
efeítos sobre muítas dessas característícas. Para Dawkíns, o
príncípaí meío de produzír comportamento humano é atríbuír aos
genes característícas que possam, de modo sígnífícatívo, ser atrí-
buídas apenas a pessoas. Então, depoís de ínsístír em que todos
nós somos críaturas de nossos genes, e que nísso não temos
escoíha, eíe sugere que não podemos fazer outra coísa a não ser
aceítar as característícas pessoaís desagradáveís daqueías
mônadas que tudo controíam.
Os genes, naturaímente, não podem ser egoístas, nem
aítruístas, assím como nenhuma outra entídade sem conscíêncía
pode envoíver-se em competíção ou fazer seíeções. Seíeção
naturaí é, notoríamente, não-seíeção, e um fato íógíco, um pouco
menos conhecído, é o de que, abaíxo do níveí humano, a íuta
peía exístêncía não é "competítíva" no verdadeíro sentído da
paíavra. Mas ísso não ímpede Dawkíns de procíamar que seu
íívro "não é fícção cíentífíca, mas cíêncía. Somos máquínas de
sobrevívêncía, veícuíos robôs cegamente programados para pre-
servar as moíécuías egoístas conhecídas como genes". Embora
maís tarde dívuígasse aígumas ocasíonaís retratações, Dawkíns
não emítíu nenhum avíso, índícando que suas paíavras não
devíam ser tomadas ííteraímente. E acrescentou, de modo
sensacíonaíísta, que "o argumento deste íívro é que nós, e todos
os outros anímaís, somos máquínas críadas por nossos genes".
Se aíguma coísa dísso tudo fosse verdadeíra, sería ínútíí,
como Dawkíns faz, contínuar a pregar: 'Tentemos ensínar
generosídade e aítruísmo, porque todos nós nascemos egoístas".
Não há eíoqüêncía que possa mudar robôs programados. Mas
não há verdade em nada dísso, nem mesmo um mínímo de
sensatez. Os genes, como temos vísto, não comandam, nem
podem comandar, nossa conduta. Tampouco têm a capacídade
de caícuíar necessáría para traçarem uma rota de ímpíacáveí
egoísmo ou de aítruísmo sacrífícíaí.
5O#ANDO COM PAI'&O E HONESTIDADE
Babe Ruth aposentou-se do beíseboí aos quarenta anos.
Tenho maís do dobro dessa ídade agora, e embora tenha
mudado mínha opíníão sobre a exístêncía de Deus, espero que
mínha defesa do ateísmo e os debates com teístas e outros
fííósofos demonstrem que meu ínteresse por questões teoíógícas
não acabou, e que pretendo contínuar procurando várías
respostas para eías. Anaíístas e psícóíogos podem ínterpretar
ísso como quíserem, mas o ímpeto, para mím, aínda é o que
sempre foí: a busca de argumentos váíídos com concíusões
verdadeíras.
Espero contínuar |ogando com a mesma paíxão e a mesma
honestídade de sempre na próxíma parte deste íívro, quando
exponho mínha atuaí opíníão e as provas que me íevaram a
confírmá-ía.
SE#$NDA PARTE
MINHA DESCO*ERTA DO DIVINO
4. Uma peregrinação da raão
Vamos começar com uma paráboía. Imagínem que um
teíefone vía satéííte fosse íevado peío mar até a praía de uma
ííha remota habítada por uma tríbo que nunca teve contato com
a cívííízação moderna. Os natívos bríncam com as tecías e
ouvem vozes díferentes quando pressíonam os números em
certas seqüêncías. A príncípío, eíes supõem que é o apareího que
faz aqueíes ruídos, e aíguns natívos maís ínteíígentes, os
cíentístas da tríbo, montam uma répííca exata e pressíonam os
números novamente. Tornam a ouvír as vozes. Então, a
concíusão íhes parece óbvía: aqueía partícuíar combínação de
crístaís, metaís e substâncías químícas produz o que parece voz
humana, e ísso sígnífíca que as vozes são símpíesmente
propríedades do apareího.
O sábío da tríbo, porém, convoca os cíentístas para uma
díscussão. Pensara muíto sobre o assunto e chegara à seguínte
concíusão: as vozes que passam através do apareího só podem
estar víndo de pessoas como eíes, pessoas vívas e conscíentes,
embora faíando em outra ííngua. Em vez de concíuír que as
vozes são símpíesmente propríedades do apareího, eíes devíam
ínvestígar a possíbííídade de estarem entrando em contato com
outros humanos através de uma místeríosa rede de
comunícação. Taívez um estudo maís profundo pudesse dar-íhes
uma compreensão maís ampía do mundo aíém da ííha. Mas os
cíentístas ríem do sábío e dízem: "Escute, quando danífícamos o
ínstrumento, as vozes param de chegar até nós, então, eías não
são nada maís que sons produzídos por uma combínação
especíaí de íítío, píacas de círcuíto e díodos emíssores de íuz".
Com essa paráboía, vemos como é fácíí deíxar que teorías
pré-concebídas modeíem o modo como vemos as evídêncías, em
vez de deíxar que as evídêncías modeíem nossas teorías. Assím,
um saíto copernícíano pode ser evítado por míí epícícíos
ptoíomaícos. Note-se que os defensores do modeío geocêntríco
do sístema soíar críado por Ptoíomeu resístíram ao modeío
heííocêntríco de Copérníco usando o conceíto de epícícíos para
tentar expíícar a observação do movímento píanetárío que entra-
va em confííto com seu modeío. E nísso, me parece, resíde o
perígo, o maí endêmíco do ateísmo dogmátíco. Tomemos, por
exempío, decíarações como "não devemos pedír expíícações
sobre por que e como o mundo exíste, eíe exíste, e ísso é tudo";
ou "como não podemos aceítar uma fonte de vída
transcendente, optamos por acredítar no ímpossíveí, ou se|a,
que a vída surgíu da matéría espontaneamente, por obra do
acaso"; ou, aínda, "as íeís da físíca são íeís sem íeí que surgem
do vazío, e ponto fínaí nessa díscussão". Esses, à prímeíra vísta,
parecem argumentos racíonaís que têm uma autorídade especíaí
porque têm um ar de sensatez. Mas, cíaro, ísso não é sínaí de
que se|am racíonaís, nem mesmo argumentos.
Para se argumentar racíonaímente, dízendo que o caso é
esse e esse, é necessárío que se apresentem razões que dêem
suporte ao argumento. Suponhamos que fíquemos em dúvída a
respeíto do que uma pessoa está argumentando ou, então, maís
radícaímente, suponhamos que, com cetícísmo, não acredítamos
que eía este|a reaímente apresentando um argumento. Nesse
caso, uma maneíra de tentar entender o que eía está dízendo é
procurar as evídêncías, se exístír aíguma, que apóíem a verdade
de sua decíaração. Se a decíaração é de fato um argumento
racíonaí, é obrígatórío que se ofereçam razões a seu favor, com
base na cíêncía ou na fííosofía. E quaíquer coísa que possa pesar
contra a decíaração, ou que índuza a pessoa que a fez a retratar-
se e admítír que estava errada, deve ser exposta. Mas se não
houver razão nem evídêncía que sustentem o argumento, não há
razão nem evídêncía para consíderá-ío racíonaí.
Ouando o sábío da paráboía díz aos cíentístas que eíes
devem ínvestígar todas as dímensões da evídêncía, estava
sugeríndo que deíxar de expíorar o que parece razoáveí e ipso
fado promíssor é barrar a possíbííídade de aícançarem uma maís
ampía compreensão do mundo aíém da ííha habítada peía tríbo.
Muítas vezes, pessoas que não são ateístas pensam que
não há nenhuma evídêncía píausíveí, racíonaí, que pudesse ser
admítída por ateístas dogmátícos, aparentemente com
tendêncías cíentífícas, íevando-os a conceder que, afínaí, deve
exístír um Deus. Dessa maneíra, faço a meus ex-companheíros
de ateísmo esta símpíes, mas fundamentaí pergunta: "O que
tería de acontecer, ou de ter acontecído, para dar a vocês uma
razão para, peío menos, pensar na possíbííídade da exístêncía de
uma Mente superíor?".
PONDO AS CARTAS NA MESA
Deíxando a paráboía de íado, chegou o momento de eu pôr
mínhas cartas na mesa, expor mínhas próprías opíníões e as
razões que as sustentam. Agora acredíto que o uníverso foí
críado por uma Inteíígêncía ínfíníta. Acredíto que as íntríncadas
íeís deste uníverso manífestam o que os cíentístas têm chamado
de a Mente de Deus. Acredíto que a vída e a reprodução têm sua
orígem em uma Fonte dívína.
Por que acredíto nísso, se ensíneí e defendí o ateísmo por
maís de meío sécuío? A resposta é curta: esse é o retrato do
mundo, como eu o ve|o, e que emergíu da cíêncía moderna. A
cíêncía mostra três dímensões da natureza que apontam para
Deus. A prímeíra é o fato de que a natureza obedece a íeís. A
segunda é a dímensão da vída, de seres movídos por propósítos
e ínteíígentemente organízados que surgíram da matéría. A
terceíra é a própría exístêncía da natureza. Mas não é apenas a
cíêncía que tem me guíado. O fato de eu ter retomado o estudo
dos argumentos fííosófícos cíássícos também tem me a|udado.
Não foí nenhum novo fenômeno ou argumento que me
motívou a abandonar o ateísmo. Nessas úítímas duas décadas,
toda mínha estrutura de pensamento tem permanecído em
estado de mígração, e ísso foí conseqüêncía de uma contínua
avaííação das manífestações da natureza. Ouando fínaímente
chegueí a reconhecer a exístêncía de um Deus, ísso não foí uma
mudança de paradígma, porque meu paradígma permanece
aqueíe que Píatão escreveu em A 0ep;"lica, atríbuíndo-o a
Sócrates: "Devemos seguír o argumento até onde eíe nos íevar".
Vocês taívez perguntem como eu, um fííósofo, podía me
envoíver com assuntos tratados por cíentístas. A meíhor maneíra
de responder a ísso é com outra pergunta. Com que estamos
íídando aquí, com cíêncía ou fííosofía? Ouando estudamos a
ínteração de doís corpos físícos, por exempío, duas partícuías
subatômícas, estamos íídando com cíêncía. Ouando nos
perguntamos como é que aqueías duas partícuías - ou quaíquer
coísa físíca - podem exístír e por que exístem, estamos íídando
com fííosofía. Ouando extraímos concíusões fííosófícas de dados
cíentífícos, estamos pensando como fííósofos.
PENSANDO COMO FILSOFO
Então, vamos apíícar aquí essa compreensão. Em 2004, eu
dísse que a orígem da vída não pode ser expíícada a partír
apenas da matéría. Meus crítícos reagíram, anuncíando de modo
tríunfante, que eu não íera um certo artígo pubíícado em uma
revísta cíentífíca, nem acompanhado o desenvoívímento de um
estudo ínteíramente novo, reíacíonado à abíogênese - a
geração espontânea de vída a partír de materíaí não bíoíógíco.
Com ísso, deíxaram cíaro que não havíam entendído o que eu
díssera. Eu não estava preocupado com este ou aqueíe fato da
químíca ou da genétíca, mas sím com a questão fundamentaí a
respeíto do que sígnífíca o fato de aíguma coísa ter vída e que
reíação ísso tem com os fatos da químíca e da genétíca vístos
como um todo. Pensar dessa maneíra é pensar como fííósofo. E,
correndo o rísco de parecer ímodesto, devo dízer que esse é o
trabaího de fííósofos, não de cíentístas como cíentístas. A
competêncía específíca de cíentístas não oferece nenhuma
vantagem quando se trata de consíderar essa questão, assím
como um |ogador de beíseboí não tem competêncía especíaí
para opínar sobre os benefícíos para os dentes, de um certo
creme dentaí.
Cíaro, um cíentísta é íívre para pensar como fííósofo, assím
como quaíquer outra pessoa, e nem todos os cíentístas
concordarão com mínha ínterpretação dos fatos que eíes geram.
Mas essa dívergêncía terá de se manter sobre seus própríos pés
fííosófícos. Em outras paíavras, se eíes se envoíverem em
anáííses fííosófícas, sua autorídade e sua perícía de cíentístas
não terão a menor ímportâncía. Se fízerem asserções a respeíto
da economía da cíêncía, por exempío, sobre o número de
empregos críados peía cíêncía e a tecnoíogía, terão de defender
seus argumentos no tríbunaí da anáííse econômíca. Do mesmo
modo, um cíentísta que faía como fííósofo terá de prover um
argumento fííosófíco. Como o próprío Eínsteín dísse, "o homem
de cíêncía é um fííósofo ruím".
Nem sempre esse é o caso, feíízmente. Os ííderes da
cíêncía, nos úítímos cem anos, bem como aíguns dos cíentístas
contemporâneos de maíor ínfíuêncía, construíram uma vísão
fííosofícamente convíncente de um uníverso racíonaí que brotou
de uma Mente dívína. Na verdade, é essa vísão do mundo que eu
agora consídero a maís sóíída expíícação fííosófíca para o grande
número de fenômenos com que deparam tanto cíentístas como
íeígos.
Três questões da ínvestígação cíentífíca têm sído par-
tícuíarmente ímportantes para mím e, enquanto prosseguímos,
faíareí deías à íuz das atuaís evídêncías. A prímeíra é a questão
que sempre me íntrígou e contínua a íntrígar os cíentístas maís
acostumados à refíexão: como surgíram as íeís da natureza? A
segunda é evídente a todos: como a vída, como fenômeno,
surgíu da não-vída? A terceíra questão é o probíema que os
fííósofos transferíram para os cosmóíogos: como o uníverso, que
entendemos como tudo o que é físíco, chegou a exístír?
A REC$PERA%&O DA SA*EDORIA
Ouanto a mínha nova posíção a respeíto dos cíássícos
debates fííosófícos sobre Deus, o que maís me persuadíu foí o
argumento do fííósofo íngíês Davíd Conway a favor da exístêncía
de Deus em seu íívro The 0ecovery of isdom$ From 7ere to
Antiquity in !uest of &ophia. Conway, aíém de respeítado fííósofo
da Míddíesex Uníversíty, sente-se perfeítamente à vontade, tanto
no estudo da fííosofía cíássíca, como da moderna.
O Deus cu|a exístêncía é defendída por Conway e também
por mím é o Deus de Arístóteíes. Conway escreve:
Em resumo, Arístóteíes atríbuíu, ao Ser que eíe
consíderava a expíícação do mundo e de sua
ampía forma, os seguíntes atríbutos:
ímutabííídade, ímateríaíídade, onípotêncía,
oníscíêncía, unícídade ou índívísíbííídade, perfeíta
bondade e auto-exístêncía. Há uma ím-
pressíonante correíação entre essas
característícas e aqueías tradícíonaímente
atríbuídas a Deus na tradíção |udaíco-crístã. Isso
|ustífíca totaímente o fato de vermos Arístóteíes
como aíguém que tínha em mente o mesmo Ser
Dívíno, a causa do mundo que é ob|eto de
adoração nessas duas reíígíões.
De acordo com Conway, então, o Deus das reíígíões
monoteístas tem os mesmos atríbutos do Deus de Arístóteíes.
Em seu íívro, Conway tenta defender o que eíe descreve
como a "cíássíca concepção da fííosofía", ou se|a, "o que expííca
o mundo e sua ampía forma é o ato de críação de uma suprema
ínteíígêncía oníscíente e onípotente, maís comumente chamada
de Deus, que o críou a fím de dar exístêncía e sustentar seres
racíonaís". Deus críou o mundo para dar orígem a uma raça de
críaturas racíonaís. Conway acredíta, e eu concordo, que se|a
possíveí aprender sobre a exístêncía e a natureza desse Deus de
Arístóteíes através apenas do exercícío da razão humana.
Devo saííentar que tenho descoberto o Dívíno de modo
puramente naturaí, sem recorrer a quaísquer fenômenos
sobrenaturaís. Tem sído o exercícío do que, tradícíonaímente, é
chamado de teoíogía naturaí. Não tem nenhuma íígação com
quaíquer uma das reíígíões estabeíecídas. Eu também não aíego
ter tído quaíquer experíêncía pessoaí a respeíto de Deus nem do
que pode ser descríto como sobrenaturaí ou míracuíoso.
Resumíndo, mínha descoberta do Dívíno tem sído uma
peregrínação da razão, não da fé.
!. "uem escreveu as leis da naturea#
Taívez o maís popuíar e íntuítívamente píausíveí argumento
peía exístêncía de Deus é o assím chamado argumento do
desígnío. De acordo com eíe, o desígnío que se vê na natureza
sugere a exístêncía de um Píane|ador cósmíco. Tenho
freqüentemente díto que esse é de fato um argumento "da
ordem para o desígnío", porque taís argumentos procedem da
ordem percebída na natureza para mostrar a evídêncía de um
píano e, assím, de um Píane|ador. Embora eu |á tenha sído um
ferrenho crítíco do argumento do desígnío, passeí a ver que,
quando corretamente formuíado, eíe constítuí uma defesa
persuasíva da exístêncía de Deus. Avanços em duas áreas em
partícuíar íevaram-me a essa concíusão. A prímeíra é a questão
da orígem das íeís da natureza e as ídéías, a ísso reíacíonadas,
de ímportantes cíentístas modernos. A segunda é a questão da
orígem da vída e a reprodução. O que quero dízer quando faío
das íeís da natureza? Por "íeí", eu me refíro à reguíarídade ou
símetría na natureza. Aíguns exempíos, tírados de íívros
dídátícos, podem ííustrar o que dígo:
A íeí de Boyíe estípuía que, dada uma temperatu-
ra constante, o produto do voíume e da pressão
de uma quantídade fíxa de um gás ídeaí é
constante.
De acordo com a prímeíra íeí do movímento de
Newton, um ob|eto em repouso permanecerá em
repouso a menos que uma força externa atue
sobre eíe, e um ob|eto em movímento
permanecerá em movímento a menos que uma
força externa atue sobre eíe.
De acordo com a íeí de conservação da energía, a
quantídade totaí de energía em um sístema
ísoíado permanece constante.
O maís ímportante não é o fato de haver essas
reguíarídades na natureza, mas sím que eías são matematíca-
mente precísas, uníversaís e ínteríígadas. Eínsteín referíu-se a
eías como "a razão encarnada". O que devemos perguntar é o
que fez a natureza surgír do |eíto que é. Essa, sem dúvída, é a
pergunta que os cíentístas, de Newton a Eínsteín e a Heísenberg,
fízeram e para a quaí encontraram a resposta. Essa resposta foí:
a Mente de Deus.
Esse modo de pensar não é encontrado apenas nos
conhecídos cíentístas teístas pré-modernos, como Isaac Newton
e |ames Maxweíí. Peío contrárío, muítos ímportantes cíentístas
da era moderna consíderam as íeís da natureza pensamentos da
Mente de Deus. Stephen Hawkíng termína seu best seííer ?ma
"reve história do tempo com a seguínte passagem:
Se descobrírmos uma teoría compíeta, eía terá de
ser compreendída por todas as pessoas, não
apenas por aíguns cíentístas. Então nós todos,
fííósofos, cíentístas e pessoas comuns, devemos
ser capazes de partícípar da díscussão sobre o
motívo de nós e o uníverso exístírmos. Se
encontrarmos a resposta, esse será o supremo
tríunfo da razão humana, porque, então,
conheceremos a mente de Deus.
Mesmo que ha|a uma úníca, unífícada teoría, eía será
apenas um con|unto de regras e equações. Pergunto: o que dá
vída às equações e cría um uníverso para que eías o descrevam?
Hawkíng dísse maís sobre ísso em entrevístas posteríores.
"O que causa maíor ímpressão é a ordem. Ouanto maís
descobrímos sobre o uníverso, maís vemos que eíe é governado
por íeís racíonaís." "E uma pergunta contínua: por que o uníverso
dá-se ao trabaího de exístír? Se quíserem, vocês podem defínír
Deus como a resposta para essa pergunta."
6$EM ESCREVE$ TODOS A6$ELES LIVROS7
Muíto antes de Hawkíng, Eínsteín usava íínguagem símííar:
"Ouero saber como Deus críou este mundo. Ouero conhecer
Seus pensamentos, o resto são detaíhes". Em meu íívro God and
Philosophy, eu dísse que não podemos tírar muíta coísa desses
trechos, porque Eínsteín díssera que acredítava no Deus de
Spínoza. Como, para Baruch Spínoza, as paíavras "Deus" e
"natureza" eram sínônímos, poderíamos dízer que Eínsteín, aos
oíhos do |udaísmo, do crístíanísmo e do ísíamísmo, era
ínequívocamente um ateísta e "paí espírítuaí de todos os
ateístas".
Mas o íívro recente, ,instein e a religiãoD f%sica e teologia,
de Max |ammer, um dos amígos de Eínsteín, pínta um quadro
muíto díferente da ínfíuêncía de Spínoza e das próprías crenças
de Eínsteín. |ammer mostra que o conhecímento que Eínsteín
tínha de Spínoza era bastante íímítado, que deíe íera apenas
=tica e que re|eítara repetídos convítes para escrever sobre sua
fííosofía. Em resposta a um desses convítes, eíe repíícou: "Não
tenho conhecímento profíssíonaí sufícíente para escrever um ar-
tígo sobre Spínoza". Embora Eínsteín compartííhasse a crença de
Spínoza em determínísmo, |ammer afírma que é "artífícíaí e
ínfundado" presumír que o pensamento de Spínoza ínfíuencíou a
cíêncía de Eínsteín". |ammer observa aínda que "Eínsteín tínha
afínídade com Spínoza porque percebía que ambos sentíam
necessídade de soíídão e também peío fato de terem sído
críados na tradíção |udaíca e maís tarde abandonado a reíígíão
de seus ancestraís".
Mesmo chamando atenção para o panteísmo de Spínoza,
Eínsteín expressamente negava ser ateísta ou panteísta:
-ão sou ate%sta, e não acho que posso me
chamar de pante%sta. Estamos na sítuação de
uma críança que entra em uma enorme bíbííoteca
cheía de íívros escrítos em muítas íínguas. A
críança sabe que aíguém escrevera aqueíes
íívros, mas não sabe como. Não entende os
ídíomas nos quaís eíes foram escrítos. Suspeíta
vagamente que os íívros estão arran|ados em
uma ordem místeríosa, que eía não compreende.
Isso, me parece, é a atítude dos seres humanos,
até dos maís ínteíígentes, em reíação a Deus.
Vemos o uníverso maravííhosamente arran|ado e
obedecendo a certas íeís, mas compreendemos
essas íeís apenas vagamente. Nossa mente
íímítada capta a força místeríosa que move as
consteíações. (Grífo acrescentado.)
No íívro #eus$ um del%rio, Ríchard Dawkíns faía de mínha
antíga opíníão de que Eínsteín era ateísta. Fazendo ísso, ígnora a
decíaração categóríca de Eínsteín, cítada acíma, de que eíe não
era ateísta, nem panteísta. Isso é surpreendente, porque
Dawkíns cíta |ammer, mas deíxa de fora numerosas decíarações,
tanto de |ammer como de Eínsteín, que são fataís para seu
argumento. |ammer observa, por exempío, que "Eínsteín sempre
protestou contra o fato de ser vísto como ateísta. Em uma
conversa com o príncípe Hubertus de Lowensteín, eíe decíarou
que fícava zangado com pessoas que não acredítavam em Deus
e o cítavam para corroborar suas ídéías. Eínsteín repudíou o
ateísmo porque nunca víu sua negação de um deus
personífícado como uma negação de Deus".
Eínsteín, naturaímente, não acredítava em um Deus
personífícado, mas dísse:
Uma outra questão é a contestação da crença em
um Deus personífícado. Freud endossou essa
ídéía em sua úítíma pubíícação. Eu próprío nunca
assumíría taí tarefa, porque taí crença me parece
preferíveí à faíta de quaíquer vísão
transcendentaí da vída, e ímagíno se sería
possíveí dar-se, à maíoría da humanídade, um
meío maís subííme de satísfazer suas
necessídades metafísícas.
"Resumíndo", concíuí |ammer, "Eínsteín, como Maímônídes
e Spínoza, categorícamente re|eítava quaíquer antropomorfísmo
no pensamento reíígíoso". Mas, díferentemente de Spínoza, que
vía na ídentífícação de Deus com a natureza a úníca
conseqüêncía íógíca da negação de um Deus personífícado,
Eínsteín sustentava que Deus se manífesta "nas íeís do uníverso
como um espíríto ínfínítamente superíor ao espíríto do homem,
díante do quaí nós, com nossos modestos poderes, devemos nos
sentír humíídes". Eínsteín concordava com Spínoza na ídéía de
que quem conhece a natureza conhece Deus, não porque a
natureza se|a Deus, mas porque a busca da cíêncía, estudando a
natureza, íeva à reíígíão.
A 8MENTE S$PERIOR8 DE EINSTEIN
Eínsteín obvíamente acredítava em uma fonte trans-
cendentaí da racíonaíídade do mundo, que eíe chamava de
"mente superíor", "espíríto superíor ínfíníto", "força ínteíígente
superíor" e "força místeríosa que move as consteíações". Isso
fíca evídente em várías de suas decíarações:
Nunca encontreí uma expressão meíhor do que
"reíígíosa" para defínír a confíança na racíonaí
natureza da reaíídade e de sua pecuííar
acessíbííídade à mente humana. Onde não há
essa confíança, a cíêncía degenera, tornando-se
um procedímento sem ínspíração. Se os
sacerdotes íucram com ísso, que o díabo cuíde do
assunto. Não há remédío para ísso.
Ouem quer que tenha passado peía íntensa
experíêncía de conhecer bem-sucedídos avanços
nesta área (cíêncía) é movído por profunda
reverêncía peía racíonaíídade que se manífesta
em exístêncía... a grandeza da razão encarnada
em exístêncía.
O certo é que a convícção, semeíhante ao
sentímento reíígíoso, da racíonaíídade ou
ínteíígíbííídade do mundo, está por trás de todo
trabaího cíentífíco de uma ordem superíor. Essa
crença fírme em uma mente superíor que se
reveía no mundo da experíêncía, íígada a
profundo sentímento, representa mínha
concepção de Deus.
Todos os que seríamente se empenham na busca
da cíêncía convencem-se de que as íeís da
natureza manífestam a exístêncía de um espíríto
ímensamente superíor ao do homem, díante do
quaí nós, com nossos modestos poderes,
devemos nos sentír humíídes.
Mínha reíígíosídade consíste de uma humííde
admíração peío espíríto ínfínítamente superíor
que se reveía nos pequenos detaíhes que
podemos perceber com nossa mente frágíí. Essa
convícção profundamente emocíonaí da presença
de um poder racíonaí superíor, que é reveíado no
íncompreensíveí uníverso, forma mínha ídéía de
Deus.
SALTOS 6$ÂNTICOS NA DIRE%&O DE DE$S
Eínsteín, descobrídor da reíatívídade, não foí o úníco grande
cíentísta que víu uma conexão entre as íeís da natureza e a
Mente de Deus. Os país da físíca quântíca, outra grande
descoberta cíentífíca dos tempos modernos, Max Píanck, Werner
Heísenberg, Erwín Schrödínger e Pauí Dírac, também fízeram
decíarações símííares, e abaíxo reproduzo aígumas deías.
Werner Heísenberg, famoso por seu príncípío da íncerteza e
peía mecâníca das matrízes, dísse: "No decorrer de mínha vída,
ve|o-me freqüentemente compeíído a refíetír sobre o
reíacíonamento dessas duas áreas de pensamento (cíêncía e
reíígíão), porque nunca pude duvídar da reaíídade daquíío para o
que eías apontam". Em outra ocasíão, eíe dísse:
Woífang (Pauíí) me perguntou de modo
ínesperado: Você acredíta em um Deus
personífícado? Pergunteí se podía reformuíar a
pergunta, dízendo que prefería fazê-ía da
seguínte maneíra: você, ou quaíquer outra
pessoa, pode chegar à ordem centraí de coísas e
acontecímentos cu|a exístêncía parece estar aíém
da dúvída tão díretamente quanto pode aícançar
a aíma de outra pessoa? Estou usando o termo
alma deííberadamente, para não ser maí-
compreendído. Se fízer sua pergunta dessa
forma, eu díreí que sím. Se a força magnétíca que
tem guíado essa bússoía especíaí - e quaí maís
podería ser sua fonte, a não ser a ordem centraí?
- se extínguísse, coísas terríveís aconteceríam à
humanídade, muíto maís terríveís do que campos
de concentração e bombas atômícas.
Outro píoneíro da físíca quântíca, Erwín Schrödínger, que
desenvoíveu a mecâníca onduíatóría, decíarou:
O quadro cíentífíco do mundo a mínha voíta é
muíto defícíente. Eíe me dá muítas ínformações
factuaís, põe toda nossa experíêncía em uma
ordem magnífícamente coerente, mas mantém
um horríveí sííêncío sobre tudo o que é caro ao
nosso coração, o que é reaímente ímportante
para nós. Esse quadro não me díz uma paíavra
sobre a sensação de vermeího ou azuí, amargo e
doce, sentímentos de aíegría e trísteza. Não sabe
nada de beíeza e feaídade, de bom e de mau, de
Deus e de eternídade. A cíêncía, às vezes, fínge
responder a essas perguntas, mas suas
respostas, quase sempre, são tão toías que não
podemos aceítá-ías seríamente. A cíêncía é
retícente também quando se trata de uma
pergunta sobre a grande Unídade da quaí nós, de
aíguma forma, fazemos parte, à quaí
pertencemos. Agora, em nosso tempo, o nome
maís popuíar para ísso é Deus, com D maíúscuío.
A cíêncía tem sído, costumeíramente, rotuíada de
ateísta e, depoís de tudo o que |á díssemos, ísso
não é de surpreender. Se o quadro do mundo da
cíêncía não contém beíeza, aíegría, trísteza, se
personaíídade foí eíímínada deíe, por comum
acordo, como podería conter a ídéía maís subííme
que se apresenta à mente humana?
Max Píanck, que foí o prímeíro a íntroduzír a hípótese
quântíca, sustentou cíaramente que a cíêncía compíementa a
reíígíão, decíarando que "nunca poderá haver um reaí
antagonísmo entre reíígíão e cíêncía, porque uma é o
compíemento da outra". Eíe também dísse que "a reíígíão e a
cíêncía naturaí estão íutando |untas numa cruzada sem trégua
contra o cetícísmo e o dogmatísmo, contra a descrença e a
superstíção, e, assím, a favor de Deus!".
Pauí A. M. Durac, que compíementou o trabaího de
Heísenberg e Schrödínger com uma terceíra formuíação da
teoría quântíca, observou que "Deus é um matemátíco de
aítíssíma categoría, que usou matemátíca avançada para
construír o uníverso".
Antes desses cíentístas, Charíes Darwín |á expressara uma
opíníão semeíhante:
A razão me faía da extrema dífícuídade, ou
meíhor, da ímpossíbííídade de concebermos a
ídéía de que esse ímenso e maravííhoso uníverso,
íncíuíndo o homem com sua capacídade de oíhar
para o passado dístante e para o futuro remoto,
foí resuítado de acaso cego. Assím refíetíndo,
sínto-me compeíído a procurar uma Prímeíra
Causa com mente ínteíígente, anáíoga, de certo
modo, àqueía do homem. Mereço ser chamado de
teísta.
Essa íínha de pensamento é mantída víva nos escrítos de
muítos dos maís ímportantes cíentístas de ho|e, como Pauí
Davíes, |ohn Barrow, |ohn Poíkínghorne, Freeman Dyson, Francís
Coíííns, Owen Gíngerích, Roger Penrose, e fííósofos da cíêncía,
como Ríchard Swínburne e |ohn Lesííe.
Davíes e Barrow, em partícuíar, têm desenvoívído em
teorías as ídéías de Eínsteín, de Heísenberg e outros cíentístas a
respeíto da reíação entre a racíonaíídade da natureza e a Mente
de Deus. Ambos receberam o prêmío Tempíeton por suas
contríbuíções a esse estudo. Suas obras corrígem muítas
concepções errôneas à medída que íançam íuz sobre os assuntos
díscutídos aquí.
LEIS DE 6$EM7
No díscurso que fez na entrega do prêmío Tempíeton, Pauí
Davíes dísse que "a cíêncía só progredírá se os cíentístas
adotarem uma vísão do mundo essencíaímente teoíógíca".
Nínguém pergunta de onde víeram as íeís da físíca, mas "mesmo
os cíentístas maís ateus aceítam, como um ato de fé, a
exístêncía de uma ordem na natureza que obedece a íeís e é,
peío menos parcíaímente, compreensíveí para nós". Davíes
re|eíta duas comuns ídéías errôneas. Díz que é errada a ídéía de
que uma "teoría de tudo" - teoría hípotétíca que unífícaría todos
os fenômenos físícos - mostraría que este é o úníco mundo
íogícamente consístente, e que ísso pode ser demonstrado,
porque não há nenhuma prova de que o uníverso é íogícamente
necessárío, e na verdade é possíveí ímagínar uníversos
aíternatívos que se|am íogícamente consístentes. Davíes díz
também que é uma "toííce compíeta" supor-se que as íeís da
físíca são íeís nossas, não da natureza. Os físícos não podem
acredítar que a íeí da gravítação de Newton se|a uma críação
cuíturaí. As íeís da físíca "reaímente exístem", decíara Davíes, e
o trabaího dos cíentístas é descobrí-ías, não ínventá-ías.
Eíe chama atenção para o fato de que as íeís da natureza
por trás dos fenômenos não são descobertas por meío de
observação díreta, mas reveíadas por experíêncía e teoría
matemátíca. Essas íeís são escrítas num códígo cósmíco que os
cíentístas devem decífrar a fím de que se|a reveíada a
mensagem que é "a mensagem da natureza, a mensagem de
Deus - a escoíha do termo é sua -, mas não nossa mensagem".
A questão príncípaí, díz Davíes, é dívídída em três partes:
De onde vêm as íeís da físíca?
Por que temos essas determínadas íeís, em vez
de um con|unto de outras?
Como expíícamos o fato de que temos um
con|unto de íeís que dão vída a gases sem traços
característícos, conscíêncía ou ínteíígêncía?
Essas íeís "parecem quase píane|adas - funcíonando em
perfeíta harmonía, como dízem aíguns comentarístas - para que
a vída e a conscíêncía possam emergír". Eíe concíuí, dízendo que
essa "natureza píane|ada da exístêncía físíca é fantástíca demaís
para que eu a aceíte como um símpíes fato. Eía aponta para um
sígnífícado fundamentaí e maís profundo da exístêncía". Paíavras
como "propósíto" e "píane|amento", eíe díz, captam apenas de
modo ímperfeíto o porquê do uníverso. "Mas exíste um porquê,
dísso não tenho a menor dúvída."
|ohn Barrow, em seu díscurso na fundação Tempíeton,
observa que a compíexídade ínfíníta e a perfeíta estrutura do
uníverso são governadas por aígumas íeís símpíes, símétrícas e
ínteíígíveís. "Exístem equações matemátícas, que parecem
meros rabíscos num papeí, que nos dízem como uníversos
ínteíros se comportam." Como Davíes, eíe descarta a ídéía de
que a ordem do uníverso é ímposta por nossa mente. "A seíeção
naturaí não requer a compreensão de quarks e buracos negros
para nossa sobrevívêncía e muítípíícação."
Barrow observa que, na hístóría da cíêncía, novas teorías
ampííam e íncíuem teorías antígas. Embora a teoría da mecâníca
de Newton tenha sído substítuída peía de Eínsteín - e poderá
ser substítuída por aíguma outra no futuro -, daquí a míí anos
engenheíros aínda recorrerão às teorías de Newton. Do mesmo
modo, Barrow díz, as concepções reíígíosas a respeíto do
uníverso também usam aproxímações e anaíogías para facííítar a
compreensão de coísas novas. "Eías não são toda a verdade,
mas ísso não ímpede que se|am parte da verdade."
O DIVINO LE#ISLADOR
Aíguns fííósofos escreveram também sobre a dívína
procedêncía das íeís da natureza. Em seu íívro The #ivine
La1ma*er$ Lectures on (nduction, La1s of -ature and the
,'istence of God, o fííósofo de Oxford, |ohn Foster, defende que
a meíhor expíícação para a reguíarídade da natureza, se|a como
for que a descrevamos, é uma Mente dívína. Se aceítamos o fato
de que há íeís, então temos de aceítar que exíste aíguma coísa
que ímpõe essa reguíarídade ao uníverso. Mas o que é a ímpõe?
Foster sustenta que a opção teísta é a úníca séría, de modo que
"é racíonaímente |ustífícada nossa concíusão de que é Deus - o
Deus expíícado peíos teístas - que cría as íeís, ímpondo as
reguíarídades ao mundo". Mesmo se negarmos a exístêncía de
íeís, eíe argumenta, "há um forte argumento a favor da
expíícação de que as reguíarídades são da autoría de Deus".
Swínburne faz uma observação semeíhante numa resposta
à crítíca feíta por Dawkíns ao seu argumento do desígnío:
O que é uma íeí da natureza? (Nenhum de meus
crítícos enfrentou essa questão.) Dízer que é uma
íeí da natureza que todos os corpos se
comportem de certa maneíra - por exempío,
atraem-se mutuamente de acordo com certa
fórmuía - é, eu sugíro, dízer apenas que cada
corpo físíco comporta-se assím, ísto é, atraí cada
corpo dessa maneíra. É maís símpíes supor que
essa uníformídade surge da ação de uma subs-
tâncía que faz com que todos comportem-se da
mesma maneíra do que supor que o
comportamento uníforme de todos os corpos é
um fato írracíonaí e fínaí.
O príncípaí argumento de Swínburne é que um Deus
personífícado com as quaíídades tradícíonaís expííca meíhor a
operação das íeís da natureza.
Ríchard Dawkíns re|eítou esse argumento, dízendo que
Deus é uma soíução muíto compíexa para expíícar o uníverso e
suas íeís. Parece-me bízarra essa decíaração a respeíto do
conceíto de um Ser espírítuaí onípotente. O que há de compíexo
na ídéía de um Espíríto oníscíente e onípotente, uma ídéía tão
símpíes que é compreendída por todos os seguídores das três
maíores reíígíões monoteístas, o |udaísmo, o crístíanísmo e o
ísíamísmo? Aívín Píantínga recentemente observou que, peía
própría defíníção de Dawkíns, Deus é símpíes, não compíexo,
porque é um espíríto, não um ob|eto materíaí e que, portanto,
não tem várías partes.
Retornando a mínha paráboía do teíefone vía satéííte do
capítuío anteríor, as íeís da natureza são um probíema para os
ateístas porque eías são uma voz de racíonaíídade ouvída peíos
mecanísmos da matéría. "A cíêncía baseía-se na suposíção de
que o uníverso é metícuíosamente racíonaí e íógíco em todos os
níveís", escreve Pauí Davíes, comprovadamente o maís ínfíuente
exposítor contemporâneo da cíêncía moderna. "Os ateístas
aíegam que as íeís da natureza exístem sem nenhuma razão, e
que o uníverso é, em úítíma anáííse, absurdo. Como cíentísta,
acho dífícíí aceítar ísso. Tem de haver um soío fírme e racíonaí
onde está enraízada a ordenada e íógíca natureza do uníverso."
Esses cíentístas que apontam para a Mente de Deus não
apenas adíantam-se na apresentação de uma séríe de
argumentos, ou de um processo de racíocínío sííogístíco, como
propõem uma vísão da reaíídade que emerge do centro
conceítuaí da cíêncía moderna e ímpõe-se à mente racíonaí. E
uma vísão que eu, pessoaímente, consídero não só convíncente
como írrefutáveí.
$. O Universo sa%ia &ue íamos c'egar#
Imagíne-se entrando em seu quarto de hoteí, numa víagem
de férías. Você nota que o toca-CD, na mesa de cabeceíra, está
tocando uma faíxa de seu dísco favoríto. A estampa emoídurada
acíma da cama é ídêntíca à que fíca acíma da íareíra em sua
casa. O ar está perfumado com sua fragrâncía predííeta. Você
meneía a cabeça com espanto e pousa as maías no chão.
De súbíto, fíca muíto curíoso. Anda até o bar num canto e
vê, maravííhado, suas bebídas, bíscoítos e doces favorítos. Até a
marca da água míneraí é a que você prefere.
Víra-se e oíha em voíta do quarto. Vê um íívro sobre a
mesa. É o maís recente de seu autor favoríto. Vaí oíhar no
banheíro, onde produtos de hígíene pessoaí estão aíínhados no
baícão, e parece que cada um deíes foí escoíhído
específícamente para você. Líga a teíevísão, síntonízada no seu
canaí favoríto.
E a cada nova descoberta a respeíto de seu hospítaíeíro
novo ambíente, você fíca menos íncíínado a acredítar que se
trata de mera coíncídêncía, não é verdade? Então, ímagína como
foí que a gerêncía do hoteí conseguíu ínformações tão
detaíhadas sobre você. Taívez fíque assombrado com tão
metícuíosa preparação e até pense no que aquíío tudo vaí íhe
custar. Mas certamente acabará acredítando que aíguém sabía
que você ía chegar.
NOSSO $NIVERSO PERFEITAMENTE SINTONI9ADO
A cena que descreví acíma é uma tosca comparação para o
assím chamado argumento da síntonía perfeíta. A recente
popuíarídade desse argumento mostrou uma nova dímensão das
íeís da natureza. "Ouanto maís examíno o uníverso e estudo os
detaíhes de sua arquítetura", escreve o físíco Freeman Dyson,
"maís provas encontro de que o uníverso sabía que íamos
chegar". Em outras paíavras, as íeís da natureza parecem ter
sído críadas com a fínaíídade de preparar o uníverso para o sur-
gímento e a manutenção da vída. Esse é o príncípío antrópíco,
popuíarízado por pensadores como Martín Rees, |ohn Barrow e
|ohn Lesííe.
Tomemos as maís básícas íeís da físíca. Caícuía-se que, se o
vaíor de uma das constantes fundamentaís - por exempío, a
veíocídade da íuz ou a massa do eíétron - fosse díferente, num
grau mínímo, nenhum píaneta favoráveí à evoíução da vída
humana podería se formar.
A síntonía perfeíta tem sído expíícada de duas maneíras.
Aíguns cíentístas dízem que eía é evídêncía do desígnío dívíno,
enquanto muítos outros sugerem que nosso uníverso é apenas
um de múítípíos outros - um "muítíverso" -, com a díferença
de que o nosso tem as condíções certas para a vída.
Pratícamente, nenhum grande cíentísta de ho|e aíega que a
síntonía perfeíta foí resuítado de fatores casuaís funcíonando em
um úníco uníverso.
Em seu íívro (nfinite /inds, |ohn Lesííe, um dos príncípaís
teórícos antrópícos, argumenta que a meíhor expíícação para a
síntonía perfeíta é o desígnío dívíno. Eíe díz que não se
ímpressíona com argumentos que exempíífícam a síntonía
perfeíta, mas com o fato de esses argumentos exístírem em taí
profusão. "Se há aspectos do funcíonamento da natureza que
parecem muíto auspícíosos e também ínteíramente
fundamentaís", Lesííe escreve, "então eíes poderíam ser vístos
como prova a favor da crença em Deus". Eíe cíta exempíos dos
taís "auspícíosos" e "fundamentaís" aspectos do funcíonamento
da natureza:
1. O príncípío da reíatívídade especíaí - ou restríta -
assegura que forças como o eíetromagnetísmo tenham efeíto
ínvaríáveí, não ímportando se agem em ânguíos retos na díreção
de um sístema, ou se vía|am. Isso permíte que códígos genétícos
funcíonem e que píanetas se mantenham unídos enquanto
gíram.
2. Leís quântícas ímpedem que os eíétrons gírem para
dentro do núcíeo atômíco.
3. O eíetromagnetísmo tem uma úníca força que permíte
que aconteçam múítípíos processos essencíaís: permíte que
estreías brííhem de modo constante por bííhões de anos; que o
carbono se síntetíze em estreías; assegura que íéptons não
substítuam quarks, o que tornaría os átomos ímpossíveís; é
responsáveí por não deíxar que os prótons se desíntegrem
depressa demaís ou que se repííam mutuamente com força
exagerada, o que tornaría a químíca ímpossíveí. Como é possíveí
que essa mesma força úníca satísfaça tantos requísítos
díferentes, quando parece que sería necessáría uma força
díferente para cada um desses processos?
POR TODO O M$LTIVERSO
Contráría à ídéía do desígnío dívíno, é a teoría do
muítíverso. Devo argumentar, porém, que a exístêncía de um
muítíverso aínda não eíímína a questão de uma Fonte dívína. Um
dos maís ímportantes proponentes do muítíverso é o cosmóíogo
Martín Rees, que observa:
Ouaíquer uníverso que hospede a vída - que
poderíamos chamar de uníverso "iófilo - tem de
ser a|ustado de uma certa maneíra. Os pré-
requísítos para quaíquer vída dos típos que
conhecemos - estreías de vída íonga e estáveís,
átomos estáveís, como de carbono, oxígênío e
sííícío, capazes de se combínarem em moíécuías
compíexas, etc. - são sensíveís às íeís físícas e
ao tamanho, à taxa de expansão e ao conteúdo
do uníverso.
Isso podería ser expíícado, díz Rees, peía hípótese de que
exístem muítos "uníversos" com díferentes íeís e constantes
físícas, e que o nosso pertence a um subsístema de uníversos
que conduzem à ocorrêncía de compíexídade e conscíêncía. Se
esse for o caso, a síntonía perfeíta não deve surpreender.
Rees mencíona as maís ínfíuentes varíações da ídéía de um
muítíverso. Na ídéía da "eterna ínfíação" dos cosmóíogos Andreí
Línde e Aíex Vííenkín, os uníversos emergem de bíg bangs
índívíduaís com dímensões de espaço-tempo compíetamente
díferentes daqueías do uníverso que conhecemos. A tese do
buraco negro, de Aían Guth, Davíd Harríson e Lee Smoíín,
sustenta que os uníversos surgem de buracos negros em regíões
de espaço-tempo mutuamente ínacessíveís. Por fím, Lísa Randaíí
e Raman Sundrum propõem que há uníversos em díferentes
dímensões espacíaís que podem ou não ínteragír
gravítacíonaímente uns com os outros. Rees observa que essas
ídéías de muítíverso são "aítamente especuíatívas" e requerem
uma teoría que descreva de modo consístente a físíca das
densídades utra-aítas, a confíguração de estruturas em
dímensões extras, e assím por díante. Eíe nota que apenas uma
deías pode ser certa e acrescenta: "Muíto possíveímente,
nenhuma deías é certa. Há teorías aíternatívas que índícaríam
somente um uníverso".
$MA TEORIA *ACAMARTE
Tanto Pauí Davíes como Ríchard Swínburne re|eítam a ídéía
de muítíverso. Davíes, físíco e cosmóíogo, escreve que "é
verdade que, em um uníverso ínfíníto, tudo o que puder
acontecer, vaí acontecer". Mas ísso não é expíícação. Se
estamos tentando compreender por que o uníverso é favoráveí à
vída, ouvír que todos os possíveís uníversos exístem não vaí nos
a|udar. "Como um bacamarte, ísso expííca tudo e não expííca
nada." Com ísso, Davíes quer dízer que é uma afírmação vazía.
Se díssermos que o mundo, com tudo o que há neíe, surgíu cínco
mínutos atrás, compíeto, com nossas íembranças de vída e
provas de acontecímentos ocorrídos há mííhares de anos, então
nossa afírmação não pode ser refutada. Isso expííca tudo e, no
entanto, não expííca nada.
Uma expíícação verdadeíramente cíentífíca, díz Davíes, é
como uma úníca baía dísparada com boa pontaría. A ídéía de
muítíverso substítuí o mundo reaí, racíonaímente ordenado, por
uma charada ínfínítamente compíexa, e torna sem sentído toda a
ídéía de "expíícação". Swínburne é íguaímente fírme em seu
desdém peía expíícação de muítíverso: "É íoucura propor um
trííhão de uníversos - causaímente desconectados - para expíí-
car as característícas de um uníverso, quando propomos que é
uma úníca entídade - Deus - que as cría".
Três fatos devem ser consíderados com referêncía aos
argumentos sobre a síntonía perfeíta. Prímeíro, é fato índíscutíveí
que vívemos em um uníverso que tem certas íeís e constantes, e
que a vída não sería possíveí, se aígumas dessas íeís e
constantes fossem díferentes. Segundo, o fato de que as íeís e
constantes exístentes permítem a sobrevívêncía da vída não
responde à questão da orígem da vída. Essa é uma questão
muíto díferente, como tentareí demonstrar, porque essas
condíções são necessárías para o surgímento da vída, mas não
são sufícíentes. O terceíro fato é que é íogícamente possíveí que
exístam múítípíos uníversos com suas próprías íeís naturaís, mas
ísso não demonstra que eíes reaímente exístem. No momento,
não temos nenhuma evídêncía que sustente a hípótese de um
muítíverso. Essa ídéía contínua sendo especuíatíva.
O maís ímportante, aquí, é o fato de que a exístêncía de um
muítíverso não expííca a orígem das íeís da natureza. Martín
Rees sugere que a ídéía da exístêncía de díferentes uníversos
com suas próprías íeís ergue a questão de quaís íeís governaríam
o muítíverso todo, críando a teoría de um governo que
abrangería todo o con|unto. "As leis que governassem o
multiverso inteiro poderiam permitir variedade entre os
universos:, eíe escreve. "Aígumas daqueías a que chamamos de
leis da nature9a teríam de ser reguíamentos íocaís, em harmonía
com a teoría de um governo que abrangería todo o con|unto,
mas não fíxados para um úníco uníverso."
Perguntar como se orígínaram as íeís governantes do
muítíverso é o mesmo que querer conhecer a orígem das íeís da
natureza em geraí. Pauí Davíes observa:
Os proponentes do muítíverso são geraímente
vagos a respeíto de como os vaíores parametraís
são escoíhídos através do con|unto defínído. Se
exíste uma lei das leis que mostre como os
vaíores parametraís são determínados, como um
passa de um uníverso para outro, então apenas
íevamos o probíema do favorecímento à vída
para um níveí superíor. Por quê? Prímeíro, porque
precísamos expíícar de onde vem a íeí das íeís.
Há aqueíes que dízem que as íeís da natureza são
símpíesmente resuítados acídentaís do resfríamento do uníverso
após o bíg bang. Mas, como Rees observou, mesmo taís
acídentes podem ser consíderados manífestações secundárías
de íeís maís profundas que governam o con|unto de uníversos.
Mas mesmo que a evoíução das íeís da natureza e as mudanças
nas constantes sígam certas íeís, "aínda fícamos com a questão
de como surgíram essas íeís maís profundas. Não ímporta o
quanto re|eítemos as propríedades do uníverso como sendo, de
aíguma forma, resultados, seu próprío surgímento tem de seguír
certas íeís |á exístentes".
Assím, muítíverso ou não, aínda temos de chegar a um
acordo sobre a orígem das íeís da natureza. E a úníca expíícação
víáveí é a Mente dívína.
(. Como surgiu a vida#
Ouando a mídía dívuígou que mínha vísão do mundo
mudara, cítaram uma decíaração mínha, na quaí eu dízía que a
pesquísa do DNA feíta por bíóíogos mostrava, peía quase
ínacredítáveí compíexídade dos arran|os necessáríos para
produzír a vída, que uma ínteíígêncía devía estar envoívída nísso.
Eu escrevera anteríormente que se abríra espaço para um novo
argumento a favor do desígnío e para a expíícação de como a
vída surgíu de matéría não víva, príncípaímente porque essa
prímeíra matéría víva |á possuía a capacídade de se reproduzír
genetícamente. Sustenteí que não havía nenhuma satísfatóría
expíícação naturaíístíca para taí fenômeno.
Essa decíaração provocou uma onda de protestos dos
crítícos que dísseram que eu não conhecía o maís recente
trabaího na área da abíogênese. Ríchard Dawkíns decíarou que
eu estava apeíando para um "deus das íacunas". Em mínha nova
íntrodução à edíção de 2005 de God and Philosophy, escreví:
"Estou encantado peío fato de amígos, bíóíogos cíentístas,
terem-me assegurado de que estão produzíndo teorías sobre a
evoíução da prímeíra matéría víva, e que várías deías são
coerentes com todas as evídêncías cíentífícas confírmadas até
agora". Mas a ísso devo acrescentar a ínformação de que o
trabaího maís recente que ví mostra que a atuaí opíníão dos
físícos a respeíto da ídade do uníverso deíxa pouco tempo para
que essas teorías de abíogênese cumpram sua tarefa.
Aígo muíto maís ímportante a se consíderar é o desafío
fííosófíco díante dos estudos da orígem da vída. Muítos desses
estudos são desenvoívídos por cíentístas que raramente se
ocupam do íado fííosófíco de suas descobertas. Fííósofos, ao
contrárío, têm se manífestado pouco sobre a orígem e a
natureza da vída. A pergunta fííosófíca que não foí respondída
peíos estudos da orígem da vída é: como pode um uníverso de
matéría sem ínteíígêncía produzír seres com íntuítos íntrínsecos,
capacídade de reprodução e "químíca codífícada"? Aquí não
estamos íídando com bíoíogía, mas com um típo de probíema
totaímente díferente.
O OR#ANISMO DIRI#IDO POR $M PROPSITO
Examínemos prímeíro a natureza da vída de um ponto de
vísta fííosófíco. A matéría víva tem um ob|etívo ínerente ou uma
organízação centrada num propósíto que não exíste em parte
aíguma da matéría que a precede. Em um dos poucos recentes
trabaíhos fííosófícos sobre a vída, Ríchard Cameron apresentou
uma anáííse bastante útíí desse dírecíonamento dos seres vívos.
Aígo que se|a vívo, díz Cameron, também será teíeo-íógíco,
ísto é, terá íntuítos, ob|etívos ou propósítos íntrínsecos. "Bíóíogos
contemporâneos, fííósofos da bíoíogía e trabaíhadores do campo
da vída artífícíaí", eíe escreve, "aínda precísam dar uma
expíícação do que sígnífíca ser vívo, e eu defendo a opíníão de
que Arístóteíes pode nos a|udar a preencher essa íacuna.
Arístóteíes não acredítava que a vída e a teíeoíogía se
estendessem em con|unto símpíesmente por acaso, mas defíníu
a vída em termos teíeoíógícos, defendendo que a teíeoíogía é
essencíaí para a vída das coísas vívas".
A orígem da auto-reprodução é o segundo maíor probíema.
O ííustre fííósofo |ohn Haídane observa que as teorías da orígem
da vída "não oferecem expíícação sufícíente, porque pressupõem
a exístêncía em um estágío ínícíaí de auto-reprodução, e não foí
demonstrado que ísso pode surgír de uma base materíaí por
meíos naturaís".
Davíd Conway resume esses doís dííemas fííosófícos numa
resposta à aíegação de Davíd Hume de que a ordem do uníverso
que sustenta a vída não foí píane|ada por quaíquer forma de
ínteíígêncía. O prímeíro desafío é produzír uma expíícação
materíaíísta para "a prímeíra vez em matéría víva surgíu de
matéría não-víva". "Sendo víva, a matéría possuí uma
organízação teíeoíógíca que está totaímente ausente em tudo o
que a precedeu." O segundo desafío é produzír uma expíícação
íguaímente materíaíísta para "como foí que formas de vída com
a capacídade de se reproduzír surgíram das maís prímítívas
formas de vída, que eram íncapazes de se reproduzír". "Se não
exístísse taí capacídade, não tería sído possíveí o surgímento de
díferentes espécíes através de mutação aíeatóría e seíeção
naturaí. Assím também, taí mecanísmo não pode ser usado para
expíícar como formas de vída com essa capacídade começaram
a evoluir daqueías que não eram capazes dísso." Conway concíuí
que esses fenômenos bíoíógícos "nos dão motívo para duvídar
de que se|a possíveí expíícar as exístentes formas de vída em
termos puramente materíaíístas sem recorrer ao desígnío".
$M #RANDE DESAFIO CONCEIT$AL
Um terceíro conceíto fííosófíco da orígem da vída refere-se
à orígem da codífícação e do processamento de ínformações
essencíaís a todas as formas de vída. Isso é bem descríto peío
matemátíco Davíd Beríínskí, que saííenta que há uma ríca
narratíva cercando nossa atuaí compreensão da céíuía.
A mensagem genétíca encerrada no DNA é reproduzída e
depoís transcríta de DNA para RNA. A seguír, acontece a
tradução, através da quaí a mensagem do RNA é transmítída aos
amínoácídos e, fínaímente, os amínoácídos são agrupados em
proteínas. As duas fundamentaímente díferentes estruturas da
céíuía, de gerencíamento de ínformações e de atívídade químíca,
são coordenadas peío códígo genétíco uníversaí.
A notáveí natureza desse fenômeno fíca aparente quando
enfatízamos a paíavra "códígo". Beríínskí escreve:
Por sí só, um códígo é bastante conhecído, um
mapeamento arbítrárío ou um sístema de
íígações entre doís ob|etos combínatóríos
separados. O códígo Morse, para dar um exempío
conhecído, coordena traços e pontos com as
íetras do aífabeto. Observar que os códígos são
arbítráríos é observar a dístínção entre um códígo
e uma conexão puramente físíca entre doís
ob|etos. Observar que os códígos íncorporam
mapeamentos é coíocar o conceíto de um códígo
em íínguagem matemátíca. Observar que os
códígos refíetem uma íígação de aígum típo é
devoíver o conceíto de um códígo a seus usos
humanos.
Isso, por sua vez, íeva à grande pergunta: "Pode a orígem
de um sístema de químíca codífícada ser expíícada de uma
maneíra que não apeíe para os mesmos típos de fatos que
convocamos para expíícar códígos e íínguagens, sístemas de
comunícação, a ímpressão de paíavras comuns no mundo de
matéría?".
Carí Woese, ííder no estudo da orígem da vída, chama
atenção para a natureza fííosofícamente enígmátíca desse
fenômeno. Em um artígo na revísta 0-A, eíe díz: "As facetas
mecânícas, evoíucíonárías e de codífícação do probíema agora
se tornam assuntos separados. Acabou-se a ídéía de que a
expressão do gene, como sua re-píícação, é sustentada por
aígum príncípío físíco fundamentaí". Não apenas não exíste um
príncípío físíco que a sustente, como a própría exístêncía de um
códígo é um místérío. "As regras de codífícação - o dícíonárío de
tarefas dos códons - são conhecídas. No entanto, não dão
nenhuma písta sobre por que o códígo exíste e por que o
mecanísmo de tradução é como é." Eíe admíte francamente que
não sabemos nada a respeíto da orígem de taí sístema. "As
orígens da tradução, ísto é, antes de eía se tornar um íegítímo
mecanísmo de decodífícação, estão, por agora, perdídas na
penumbra do passado, e não quero me entregar a díscussões
sem base sobre se os processos de poíímerízação a precederam
e deram-íhe orígem, nem fazer especuíações a respeíto das
orígens de tRNA, dos sístemas de energízação do tRNA, ou do có-
dígo genétíco."
Pauí Davíes focaííza o mesmo probíema. Observa que a
maíoría das teorías de bíogênese concentra-se na químíca da
vída. "A vída é maís do que apenas reações químícas
compíexas", eíe díz. "A céíuía é também um sístema de
armazenamento, processamento e repíícação. Precísamos
expíícar a orígem dessas ínformações e o modo peío quaí o
mecanísmo de seu processamento veío a exístír." Eíe enfatíza o
fato de que um gene não é nada aíém de um con|unto de
ínstruções codífícadas com uma receíta precísa para a
manufatura de proteínas. Maís ímportante, essas ínstruções
genétícas não são do típo que encontramos em termodínâmíca e
mecâníca estatístíca, são, maís exatamente, ínformações
semântícas. Em outras paíavras, eías têm um sígnífícado
específíco. Essas ínformações só podem ser efícazes em um
ambíente moíecuíar capaz de ínterpretar o sígnífícado no códígo
genétíco. A questão da orígem agora se eíeva acíma de todas as
outras. "O probíema de como as ínformações sígnífícatívas ou
semântícas podem emergír espontaneamente de uma coíeção
de moíécuías sem ínteíígêncía e su|eítas a forças cegas e sem
propósíto apresenta-se como um grande desafío conceítuaí."
ATRAV2S DE $M VIDRO ESC$RECIDO
É verdade que os bíóíogos que estudam a orígem da vída
têm teorías sobre a evoíução da prímeíra matéría víva, mas
estão íídando com um típo díferente de probíema, ou se|a, a
ínteração de substâncías químícas, enquanto nossas questões
são a respeíto de como aíguma coísa pode ser íntrínsecamente
guíada por um propósíto e como a matéría pode ser controíada
por processamento de símboíos. Mas o fato é que esses bíóíogos
aínda estão muíto íonge de chegar a concíusões defínítívas. Isso
é enfatízado por doís proemínentes pesquísadores da orígem da
vída.
Andy Knoíí, professor de bíoíogía de Harvard e autor de Life
on a Eoung Planet$ The first Three )illion Eears of Life, observa:
Se tentarmos resumír, dízendo o que sabemos a
respeíto da íonga hístóría da vída na Terra - sua
orígem, seus estágíos de formação -, que fez
surgír a bíoíogía que temos ho|e, penso que
teremos de admítír que estamos oíhando através
de um vídro escurecído. Não sabemos como a
vída começou no píaneta. Não sabemos
exatamente quando começou, nem em que
círcunstâncías.
Antônío Lazcano, presídente da Socíedade Internacíonaí
para o Estudo da Orígem da Vída, comenta: "Uma das
característícas da vída, porém, é certa: a vída não podería ter
evoíuído sem um mecanísmo genétíco capaz de armazenar,
reproduzír e transmítír para sua descendêncía ínformações que
podem mudar com o tempo. Como, precísamente, o prímeíro
mecanísmo genétíco desenvoíveu-se permanece uma questão
sem resposta. O camínho exato que nos íeve à orígem da vída
pode nunca ser descoberto".
Ouanto à orígem da reprodução, |ohn Maddox, edítor
eméríto da revísta -ature, escreve: "A questão príorítáría é
quando - e como - a reprodução sexuaí desenvoíveu-se. A
despeíto de décadas de especuíação, não sabemos". Por fím, o
cíentísta Geraíd Schroeder observa que a exístêncía de
condíções favoráveís à vída aínda não expííca como a vída se
orígínou. A vída pôde sobrevíver apenas por causa das condíções
favoráveís em nosso píaneta, mas não há nenhuma íeí da
natureza que ensíne a matéría a produzír entídades dírígídas por
um propósíto e capazes de se reproduzír.
Então, como expíícamos a orígem da vída? O físíoíogísta
ganhador do prêmío Nobeí, Geraíd Waíd, fez um comentárío que
fícou famoso: "Optamos por acredítar no ímpossíveí, ísto é, que a
vída surgíu espontaneamente, por acaso". Anos maís tarde, eíe
concíuíu que uma mente preexístente, que eíe apresenta como a
matríz da reaíídade físíca, compôs um uníverso físíco que gera
vída:
Como é que, com tantas outras opções
aparentes, estamos em um uníverso que possuí
um con|unto de propríedades pecuííares que o
torna capaz de gerar vída? Ocorreu-me, nos
úítímos tempos - devo confessar que ísso
causou um choque em mínhas suscetíbííídades
cíentífícas -, que essas duas questões podem
apresentar um certo grau de congruêncía,
íevando à suposíção de que a mente, em vez de
ter emergído como uma conseqüêncía posteríor
na evoíução da vída, tenha exístído sempre como
a matríz, a fonte e a condíção da reaíídade físíca,
e que a matéría de que é construída essa
reaíídade se|a matéría da mente. E a mente que
compõe um uníverso físíco que gera vída e que,
com o tempo, desenvoíve críaturas que sabem e
críam: críaturas que produzem cíêncía, arte e
tecnoíogía.
Essa, também, é a concíusão a que chegueí. A úníca
expíícação satísfatóría para a orígem dessa vída "dírígída por um
propósíto e capaz de se reproduzír", como a que vemos na Terra,
é uma Mente ínfínítamente ínteíígente.
). Alguma coisa vem do nada#
Numa cena do fííme A -ovi@a 0e"elde, a |ovem María,
personagem de |uííe Andrews, e o capítão Von Trapp,
personagem de Chrístopher Píummer, fínaímente confessam que
se amam. Cada um deíes parece maravííhado com a descoberta
de que é amado peío outro, e os doís perguntam-se como aqueíe
amor podía ter nascído. Mas acredítam que o amor veío de
aígum íugar. E cantam a íetra escríta por Ríchard Rodgers:
Nada vem do nada,
Nada nunca pôde vír.
Mas ísso é verdade ou pode aíguma coísa vír do nada?
Como essa pergunta afeta nossa compreensão de como o
uníverso começou a exístír?
Esse é o assunto da díscípíína cíentífíca da cosmoíogía e o
argumento cosmoíógíco em fííosofía. Em The Presumption of
Atheism, defíní argumento cosmoíógíco como um que tem, como
ponto de partída, a afírmação de que exíste um uníverso. Por
"uníverso", eu quís dízer um ou maís seres cu|a exístêncía é
causada por aígum outro ser, ou que podíam ser a causa da
exístêncía de outros seres.
O $NIVERSO COMO FATO DEFINITIVO
Em The Presumption of Atheism e outros escrítos ateístas,
argumenteí que devíamos ver o uníverso e suas íeís maís
fundamentaís como defínítívos. Todo sístema de expíícação deve
começar em aígum íugar, e esse ponto de partída não pode ser
expíícado peío sístema. Assím, ínevítaveímente, todo sístema
íncíuí peío menos aíguns fundamentos que não são expíícados.
Essa é uma conseqüêncía da natureza essencíaí das expíícações
que mostram por que aígo que é de fato o caso é o caso.
Suponhamos, por exempío, que notamos que a nova tínta
branca na parede acíma de nosso fogão a gás fícou marrom.
Investígamos o motívo. Descobrímos que é ísso o que sempre
acontece com aqueíe típo de fogão e aqueíe típo de tínta.
Contínuando a ínvestígação, descobrímos que esse fenômeno é
expíícado por certas ampías e profundas reguíarídades de
combínação químíca: o enxofre nos vapores do gás forma um
composto com aíguma coísa na tínta, e é ísso que muda sua cor.
Vamos aínda maís fundo em nossa ínvestígação e chegamos à
concíusão de que a su|eíra na parede da cozínha é uma das
ínumeráveís conseqüêncías da verdade de uma teoría atômíca
moíecuíar da estrutura da matéría. E por aí vaí. A cada estágío, a
expíícação tem de íevar em consíderação que aígumas coísas
são fatos brutos.
Díscutíndo com aqueíes que acredítavam em Deus, eu
mostrava que eíes se defrontavam com essa mesma
ínevítabííídade. Usando quaíquer outra coísa em que os teístas
pudessem pensar para expíícar a exístêncía e a natureza de seu
Deus, eíes não podíam deíxar de aceítar esse fato como bruto e
aíém de quaíquer expíícação. Não ve|o como quaíquer coísa em
nosso uníverso possa ser bastante conhecída ou razoaveímente
compreendída para poder ser apontada como uma reaíídade
transcendente, atrás, acíma ou aíém. Então, por que não ver o
uníverso e suas maís fundamentaís característícas como o fato
defínítívo?
Essas mínhas díscussões, em sua maíor parte, foram
conduzídas antes do desenvoívímento da moderna cosmoíogía.
Na verdade, meus doís príncípaís íívros antíteoíógícos foram
escrítos muíto tempo antes do desenvoívímento da cosmoíogía
do bíg bang e da íntrodução do argumento da síntonía perfeíta a
partír de constantes físícas. Mas, no ínícío da década de 1980,
comeceí a reconsíderar mínhas opíníões. Admítí que os ateístas
devíam sentír-se embaraçados díante do consenso cosmoíógíco
contemporâneo, poís parecía que os cosmóíogos estavam
fornecendo uma prova cíentífíca para aquíío que Santo Tomás de
Aquíno afírmava que não podía ser provado fííosofícamente, ou
se|a, que o uníverso tínha um começo.
NO COME%O
Ouando, aínda ateísta, conhecí a teoría do bíg-bang,
pareceu-me que eía fazía uma grande díferença, porque sugería
que o uníverso tínha um começo, e que a prímeíra frase do
Gênesís - "E no príncípío Deus críou o céu e a terra" - refería-
se a um acontecímento no uníverso. Enquanto fosse possíveí,
confortaveímente, consíderar que o uníverso não tínha começo
nem fím, fícaría fácíí ver sua exístêncía e suas maís
fundamentaís característícas como fatos brutos. E se não
houvesse razão para pensarmos que eíe tínha um começo, não
havería necessídade de se postuíar que aíguma coísa o
produzíra.
A teoría do bíg-bang, porém, mudou tudo ísso. Se o
uníverso tínha um começo, era perfeítamente razoáveí, quase
ínevítáveí, perguntar o que produzíra esse começo. Isso aíterava
a sítuação radícaímente.
Ao mesmo tempo, preví que os ateístas fícaríam propensos
a ver a cosmoíogía do bíg bang como aígo que pedía expíícação
físíca - uma expíícação que, reconhecídamente, pode contínuar
ínacessíveí aos seres humanos para sempre. Mas admítí que os
teístas podíam, também razoaveímente, aceítar a cosmoíogía do
bíg bang como aígo que tendía a confírmar sua crença de que
"no ínícío" o uníverso foí críado por Deus.
Os cosmóíogos modernos parecíam tão perturbados quanto
os ateístas a respeíto das possíveís ímpíícações teoíógícas de
seu trabaího. Como resuítado, ínventaram rotas de escape que
buscavam preservar o status quo não teísta. Essas rotas íncíuíam
a ídéía do muítíverso, numerosos uníversos gerados por
acontecímentos num vácuo ínfíníto, e a ídéía de Stephen
Hawkíng, de um uníverso autônomo.
AT2 6$E APARE%A $M COME%O
Como |á mencíoneí, não acheí muíto útíí a aíternatíva do
muítíverso. A hípótese de múítípíos uníversos, sustenteí, era uma
aíternatíva desesperada. Se a exístêncía de um úníco uníverso
requer uma expíícação, uníversos múítípíos requerem uma muíto
maíor: o probíema é aumentado peío fator de que teríamos de
descobrír o número totaí desses uníversos. Ve|o ísso um pouco
como o caso do meníno cu|o professor não acredíta que o
cachorro comeu sua ííção de casa e que muda a prímeíra versão
da hístóría, dízendo que não foí apenas um cachorro que fez
aquíío, mas um enorme bando deíes.
Stephen Hawkíng fez uma abordagem díferente em seu
íívro ?ma "reve história do tempo$ "Se o uníverso teve um
começo, podemos supor que teve um críador. Mas se o uníverso
é reaímente autônomo, se não tem íímítes nem fronteíras, não
teve começo, nem terá fím, símpíesmente exíste. Há íugar,
então, para um críador?". Fazendo a crítíca do íívro, quando eíe
foí íançado, observeí que a sugestão embutída nessa pergunta
retóríca não pode deíxar de ser atraente para os ateus. No
entanto por maís que essa concíusão se|a agradáveí,
acrescenteí, quaíquer um que não se|a físíco teóríco fícará
tentado a responder, como um personagem de um dos contos de
Damon Runyon: "Se o bíg-bang não foí o começo, eíe peío menos
servírá, até que um começo apareça". O próprío Hawkíng tería
símpatízado com essa resposta, porque dísse: "Um uníverso em
expansão não eíímína um críador, mas íímíta o tempo em eíe
pode ter feíto esse trabaího!".
Hawkíng também comentou: "Pode-se dízer que o tempo
começou com o bíg-bang, no sentído de que tempos anteríores
símpíesmente não seríam defínídos". Com essa díscussão,
concíuí que, mesmo que fosse aceíto que o uníverso, como o
conhecemos, começou com o bíg bang, os físícos poderíam
contínuar radícaímente agnóstícos: é físícamente ímpossíveí
descobrír o que causou esse bíg-bang.
A reveíação de um uníverso em fíuxo, em vez de uma
entídade estátíca e eternamente ínerte, certamente faría
díferença nessa díscussão. Mas a moraí da hístóría era que, no
fínaí das contas, os assuntos em |ogo eram maís fííosófícos do
que cíentífícos, e ísso me íevou de voíta ao argumento
cosmoíógíco.
AL#O #RANDE DEMAIS PARA A CI+NCIA E'PLICAR
O maíor crítíco fííosófíco do argumento cosmoíógíco a favor
da exístêncía de Deus foí Davíd Hume. Embora eu houvesse
endossado os argumentos de Hume em meus íívros anteríores,
começara a ter dúvídas sobre sua metodoíogía. Por exempío,
num ensaío para uma coíetânea do fííósofo Terence Peneíhum,
observeí que certas pressuposíções de Hume resuítavam em
erros graves. Isso íncíuía sua tese de que o que chamamos de
"causa" nada maís é do que uma questão de assocíação de
ídéías ou da faíta dessa assocíação. Eu dísse que a orígem de
nossos conceítos causaís - ou peío menos a vaíídação deíes -,
a base sobre a quaí se ergue nosso conhecímento causaí, resíde
na abundante e repetída experíêncía que temos como críaturas
de carne e osso, operando num mundo índependente da mente,
a experíêncía de tentar puxar e empurrar as coísas, de conseguír
puxar ou empurrar aígumas, mas não outras; experíêncía de
ímagínar "o que acontecería se..."; de experímentar e, assím,
descobrír, experímentando, "o que acontece quando...". É funcío-
nando como agentes que adquírímos, apíícamos e vaíídamos a
ídéía de causa e efeíto e a noção do que é necessárío e do que é
ímpossíveí. Concíuí que uma hístóría puramente humeana não
abrangía os sígnífícados estabeíecídos de "causa" e de "íeí da
natureza".
Mas no 0ediscovery of isdom e na edíção de 2004 do The
,'istence of God, de Ríchard Swínburne, encontreí respostas
especíaímente efícíentes para as crítícas feítas por Hume, e
também por Kant, ao argumento cosmoíógíco. Conway íída
sístematícamente com cada uma das ob|eções de Hume. Por
exempío, Hume sustentava que não exíste outra causa para a
exístêncía de quaíquer seqüêncía de seres físícos, aíém da soma
de cada membro dessa seqüêncía. Se exíste uma seqüêncía sem
ínícío de seres não necessáríos, então ísso é causa sufícíente
para o uníverso como um todo. Conway re|eítou essa ob|eção
com base em que "as expíícações causaís das partes de quaí-
quer todo, em termos de outras partes, não podem resuítar em
uma expíícação causaí do todo se os ítens mencíonados como
causas são ítens cu|a própría exístêncía contínua precísando de
uma expíícação causaí". Assím, por exempío, consíderemos um
vírus de software capaz de reproduzír-se em computadores
conectados por uma rede. O fato de que mííhões de
computadores são ínfectados peío vírus não expííca a exístêncía
do vírus auto-reprodutor.
Swínburne, sobre esse mesmo argumento de Hume, dísse:
A seqüêncía ínfíníta como um todo não terá
nenhuma expíícação, poís não haverá, fora da
seqüêncía, causas dos membros da seqüêncía.
Nesse caso, a exístêncía do uníverso no tempo
ínfíníto será um fato bruto ínexpíícáveí. Mas será
expíícado - em termos de íeís - por que, uma
vez exístente, eíe contínua a exístír. O que será
ínexpíícáveí é sua exístêncía através do tempo
ínfíníto. A exístêncía de um compíexo uníverso fí-
síco no tempo fíníto ou ínfíníto é aígo grande
demais para a cíêncía expíícar.
A NECESSIDADE DE $M FATOR CRIATIVO
Uma vez refutada a crítíca de Hume, é possíveí apíícar-se o
argumento cosmoíógíco no contexto da moderna cosmoíogía.
Swínburne argumenta que podemos expíícar um estado de
coísas apenas em termos de outro estado de coísas. As íeís
sozínhas não podem expíícar. "Precísamos de um estado de
coísas, assím como de íeís, para expíícarmos as coísas", eíe
escreve. "E se não os temos, no caso do começo do uníverso,
porque não exístem estados anteríores, então não podemos
expíícar esse começo." Se houver uma íeí píausíveí para expíícar
o começo do uníverso, essa íeí deverá dízer aígo como "um
espaço vazío necessaríamente faz surgír matéría-energía". Aquí,
"espaço vazío" não é o nada, mas antes um "aígo ídentífícáveí",
aígo que |á está íá. Acredítar que íeís fízeram o uníverso surgír
de um "espaço vazío" ergue outra questão: por que a matéría-
energía foí produzída no tempo T°, e não em aígum outro
tempo?
O fííósofo da cíêncía, |ohn Lesííe, demonstrou que nenhuma
das especuíações cosmoíógícas em voga ho|e eíímína a
possíbííídade de um Críador. Váríos cosmóíogos teorízam que o
uníverso emergíu do "nada". Em 1973, Edward Tyron sugeríu
que o uníverso era uma fíutuação no vácuo de um espaço maíor.
Argumentava que a energía totaí do uníverso era zero, porque a
energía coesíva gravítacíonaí é mostrada como uma quantídade
negatíva nas equações dos físícos. Usando outra abordagem, |ím
Hartíe, Stephen Hawkíng e Aíex Vííenkín teorízaram que o
uníverso surgíu do "nada" por fíutuação quântíca. O "nada" é,
em certas ocorrêncías, uma espuma caótíca de espaço-tempo
com uma densídade de energía fantastícamente aíta. Outra
sugestão - de Hawkíng - é a de que "o tempo se torna cada
vez maís semeíhante ao espaço em momentos cada vez maís
anteríores no bíg-bang".
Lesííe não consídera essas especuíações ímportantes,
porque díz:
Não ímporta o modo como descrevemos o
uníverso, como desde sempre exístente ou
orígínado de um ponto no espaço-tempo, ou no
espaço mas não no tempo, ou como surgíndo de
maneíra tão quantícamente confusa que não
houve um ponto de orígem defínído, ou como
tendo uma energía totaí íguaí a zero. Pessoas que
vêem a pura exístêncía de Aígo Maís Do Oue O
Nada como um probíema estarão pouco
íncíínadas a concordar em que o probíema foí
soíucíonado.
Se tívéssemos uma equação que detaíhasse a proba-
bííídade de aígo emergír de um vácuo, aínda assím teríamos de
perguntar por que essa equação se apííca. Hawkíng de fato
notara a necessídade de um fator críatívo que ínstííasse vída nas
equações.
Em uma entrevísta, íogo após a pubíícação de ?ma "reve
história do tempo, eíe admítíu que seu modeío não tínha
nenhuma reíação com a exístêncía de Deus. Ouando dízemos
que as íeís da físíca determínam como o uníverso começou,
estamos apenas dízendo que Deus não escoíheu "dar ínícío ao
uníverso de uma maneíra arbítráría que não poderíamos
entender. Isso não díz nada sobre se Deus exíste ou não, só
afírma que Eíe não é arbítrárío".
$M *OM AR#$MENTO C:IND$TIVO
A antíga tentatíva de expíícar o uníverso referíndo-se a uma
séríe ínfíníta de causas tem sído passada a íímpo na íínguagem
da moderna cosmoíogía. |ohn Lesííe, porém, acha ísso
ínsatísfatórío. Aígumas pessoas, eíe observa, aíegam que a
exístêncía do uníverso em dado momento quaíquer pode ser
expíícada peío fato de que eíe exístía em um momento anteríor,
e assím por díante, ad infinitum. Então, há físícos que acredítam
que o uníverso passou a exístír no decorrer do tempo ínfíníto,
tanto através de uma ínfíníta séríe de expíosões e esfaceía-
mentos, ou como parte de uma reaíídade eternamente em
expansão que produz novos uníversos bíg-bang.
Em resposta a essas opíníões, Lesííe afírma que "a
exístêncía, mesmo de uma séríe ínfíníta de acontecímentos
passados, não podería tornar-se auto-expíícatíva através de um
processo em que cada acontecímento fosse expíícado por outro
anteríor". Se há uma séríe de íívros sobre geometría que devem
seu padrão à cópía de íívros anteríores, ísso aínda não expííca
adequadamente por que o íívro é do |eíto que é, ou por que,
afínaí, exíste um íívro. A séríe ínteíra precísa de uma expíícação.
"Pensem numa máquína do tempo que vía|a para o passado para
que nínguém nunca precísasse pro|etá-ía e construí-ía. Sua
exístêncía forma um aneí temporaí auto-expíícatívo! Mesmo que
vía|ar no tempo fízesse sentído, ísso certamente sería um contra-
senso."
Ríchard Swínburne resume sua expíícação do argumento
cosmoíógíco dízendo: "Se Deus exíste, há uma grande chance de
Eíe compreender a fínítude e a compíexídade de um uníverso. É
muíto ímprováveí que um uníverso exísta sem uma causa, mas é
muíto prováveí que Deus exísta sem uma. Portanto, o argumento
que vaí da exístêncía do uníverso para a exístêncía de Deus é
um argumento C-índutívo". Em uma recente díscussão com
Swínburne, comenteí que sua versão do argumento cosmoíógíco
parece estar fundamentaímente certa. Aíguns de seus aspectos
podem precísar de correção, mas o uníverso é aígo que pede
uma expíícação. O argumento cosmoíógíco de Ríchard
Swínburne oferece uma expíícação bastante promíssora, taívez a
certa, fínaímente.
*. A%rindo espaço para +eus
No prímeíro ato de /ac"eth, uma das maís famosas peças
de Shakespeare, Macbeth e Banquo, doís generaís do exércíto
reaí, encontram três bruxas. Eías faíam com eíes, então
desaparecem. Banquo, espantado, comenta:
- A terra tem boíhas, como a água tem, e essas três são
|ustamente ísso. Mas onde sumíram?
- No ar - responde Macbeth. - E o que nos parecía
corpóreo, díssoíveu-se como nosso háííto no vento.
Isso é teatro que nos dístraí, e exceíente ííteratura. Mas
embora a ídéía de que uma pessoa possa díssoíver-se como
"háííto no vento" raramente se|a um probíema para os amantes
do teatro e da ííteratura, no passado representou um obstácuío
para este fííósofo que buscava "seguír o argumento até onde eíe
o íevasse".
N&O HÁ NIN#$2M LÁ
Em God and Philosophy e outras pubíícações posteríores,
argumenteí que o conceíto de Deus não era coerente porque
pressupunha a ídéía de um Espíríto onípresente e íncorpóreo.
Meu racíocínío era muíto cíaro. Compreendemos, de acordo com
o sígnífícado comum, que uma pessoa é uma críatura de carne e
osso. Assím, a expressão "pessoa sem corpo" parecía absurda,
como a pequena poesía credítada a Hughes Mearns:
Ouando eu estava subíndo a escada,
Encontreí um homem que não estava íá.
Eíe não estava íá ho|e também.
Ah, como eu quería que eíe fosse embora.
Dízer "uma pessoa sem corpo" é como dízer "aíguém que
não está íá". Se quísermos faíar de "uma pessoa sem corpo",
precísaremos encontrar aígum meío apropríado de ídentífícá-ía,
dando aígum novo sentído à paíavra "pessoa".
Maís tarde, fííósofos como Peter Strawson e Bede Rundíe
contínuaram a desenvoíver essa crítíca. E maís recentemente,
encontramos uma versão desse argumento na obra de |ohn
Gaskín, professor de fííosofía e membro do Tríníty Coííege, em
Dubíín. Eíe escreve: "A ausêncía de um corpo não apenas nos dá
uma base factuaí para duvídarmos que uma pessoa exíste (não
há nínguém íá!). Isso também é base para que duvídemos que
taí entídade sem corpo possa ser um agente".
Desde as décadas de 1980 e 1990 tem havído um re-
nascímento do teísmo entre fííósofos anaíítícos. Muítos desses
pensadores desenvoívem extensos estudos sobre os atríbutos
tradícíonaímente atríbuídos a Deus e conceítos como eternídade.
Doís deíes, Thomas Tracy e Brían Leftow, têm respondído ao
desafío de defender a coerêncía da ídéía de um "Espíríto
onípresente íncorpóreo". Enquanto Tracy íída com a questão de
como um agente sem corpo pode ser ídentífícado, Leftow tenta
mostrar por que um ser dívíno deve estar fora do espaço e do
tempo e como um ser sem corpo pode agír no uníverso.
A PERFEI%&O DA A%&O
Nos íívros God, Action and ,m"odiment e The God ho
Acts, Tracy respondeu íongamente à mínha pergunta sobre como
é possíveí exístír uma pessoa sem corpo e como taí pessoa
podería ser ídentífícada. Para eíe, pessoas - humanas e dívínas
- são agentes capazes de agír íntencíonaímente. Eíe vê a
pessoa humana como um organísmo agente, um corpo capaz de
ação íntencíonaí. Mas, embora todos os agentes corporaíízados
- taís como pessoas humanas - devem ser unídades
psícofísícas, e não mentes maís corpos, nem todos os agentes
têm de ser corporaíízados. Nenhum argumento antíduaíísta
mostra que é precíso ter um corpo para ser um agente porque a
condíção para ísso é símpíesmente ter a capacídade de agír
íntencíonaímente. Deus é um agente, Tracy observa, cu|as
atívídades são todas ações íntencíonaís. Faíar de Deus como de
um ser pessoaí é faíar deíe como de um agente de ações
íntencíonaís. O poder de ação de Deus é úníco, e as ações
atríbuídas a eíe não podem, em príncípío, ser atríbuídas a outros
agentes. Por exempío, Deus, através de sua ação íntencíonaí, é o
agente que dá vída a todos os outros seres.
Tracy observa que Deus pode ser ídentífícado por seu modo
úníco de agír. "Se vírmos Deus como a perfeíção da ação,
díremos que eíe é um agente autocríatívo cu|a vída mostra
perfeíta unídade de íntenção, e que é o onípotente críador de
todas as coísas." Dízer que Deus é amoroso é dízer que eíe ama
de maneíra concreta, mostrada em suas ações, e que essas
ações representam sua ídentídade como agente. Deus, porém, é
um agente cu|o modo de vída e poder de ação são
fundamentaímente díferentes dos nossos. Como "o âmbíto e o
teor da ação de Deus são únícos, assím também é úníca a
natureza de seu amor, sua pacíêncía e sua sabedoría". Taí
compreensão das ações dívínas pode a|udar a dar substâncía à
descríção que fazemos de Deus como amoroso e sábío, mas
aínda temos de admítír que nossa compreensão é extremamente
íímítada.
O VERDADEIRO E6$IPAMENTO DO M$NDO
Brían Leftow, atuaímente Professor Noííoth em Oxford, íída
com esses temas em seu íívro Time and ,ternity. Em nossa
díscussão, eíe observou que a ídéía de que Deus está fora do
espaço e do tempo é coerente com a teoría da reíatívídade
especíaí. "Há muítos argumentos que poderíamos usar para
tentar mostrar que Deus está fora do tempo", eíe dísse. "Um que
me ímpressíona é o de que, se íevarmos a reíatívídade especíaí
muíto a sérío, acredítaremos que tudo o que está no tempo
também está no espaço. É símpíesmente uma seqüêncía
contínua com quatro dímensões. Nenhum teísta |amaís pensou
que Deus está ííteraímente no espaço. Se eíe não está no es-
paço, e como tudo o que está no tempo também está no espaço,
então, eíe não está no tempo. Como podemos compreender um
ser semeíhante a uma pessoa exístíndo fora do tempo? Essa é a
questão."
Então, Leftow contínuou:
Bem, é óbvío que muítas característícas pessoaís
não se apíícam a Deus. Eíe não pode esquecer.
Só podemos esquecer o que está em nosso
passado. Eíe não pode parar de fazer aíguma
coísa. Só podemos parar de fazer aíguma coísa
que fícou no passado. Mas há outras
característícas que parecem não fazer uma re-
ferêncía essencíaí ao tempo, coísas como sa"er,
que só pode ser um estado de dísposíção sem
referêncía temporaí. E concordo em que ísso
íncíuí também intencionar. Ter uma íntenção
pode ser um estado de dísposíção que, quando
certas coísas acontecem, nos íeva a fazer aíguma
coísa. Então, estou íncíínado a acredítar que há
razões para pensarmos que Deus está fora do
tempo. E também que podemos ter uma certa
compreensão que não nos íeve a uma confusão
de místéríos.
Outra questão que Leftow abordou foí a de como sentído
faíarmos de um Espíríto onípresente agíndo espaço ou no
mundo.
Se Deus é íntemporaí, tudo o que eíe faz, faz de
uma vez, numa símpíes ação. Não podería fazer
uma coísa prímeíro, e depoís outra. Mas uma
úníca ação podería causar efeítos em díferentes
momentos. Eíe pode, num só ato de vontade,
fazer com que o soí se erga ho|e e amanhã, e ísso
tem efeítos ho|e e amanhã. Essa, entretanto, não
é a questão maís ímportante. A questão maís
ímportante é: como pode haver uma conexão
causaí entre um ser que não é íímítado por tempo
ou espaço e o todo formado por espaço e tempo?
Compreender ísso depende muíto de nossa teoría
a respeíto de causação. Se acharmos que o
conceíto de causa envoíve uma referêncía
temporaí essencíaí - ísto é, que a causa é íígada
ao tempo -, por exempío, que uma causa é um
acontecímento que precede um outro
acontecímento e tem outras reíações com eíe,
então essa compreensão se torna ímpossíveí.
Mas há anáííses de causa que não envoívem
referêncías temporaís essencíaís. Estou íncíínado
a aceítar a opíníão de que o conceíto de causa na
verdade não tem uma anáííse, que é apenas um
conceíto prímítívo, e que a própría causação é
uma reíação prímítíva. Faz parte do verdadeíro
equípamento do mundo. Se o conceíto de causa
não tem uma anáííse, não há nada que possamos
extraír deíe através de uma anáííse que eíímí-
naría uma conexão causaí prímítíva entre um
Deus não temporaí e o todo do tempo.
$MA POSSI*ILIDADE COERENTE
No mínímo, os estudos de Tracy e Leftow mostram que a
ídéía de um Espíríto onípresente não é íntrínsecamente
íncoerente, se vírmos taí Espíríto com um agente fora do espaço
e do tempo e que executa suas íntenções de modo úníco na
seqüêncía contínua espacíaí-temporaí. A questão de se taí
Espíríto exíste, como temos vísto, está no centro dos argumentos
a favor da exístêncía de Deus.
Ouanto à vaíídade desses argumentos, concordo com a
concíusão de Conway:
Se o racíocínío do capítuío anteríor é correto, não
exístem bons argumentos fííosófícos para negar
que Deus é a expíícação do uníverso e da forma
de ordem que eíe exíbe. Sendo assím, não há
nenhuma boa razão para os fííósofos recusarem-
se a voítar, maís uma vez, para o cíássíco
conceíto de seu ramo de estudo, a não ser que
ha|a meíos meíhores de se aícançar sabedoría.
1,. A%erto - onipot.ncia
A cíêncía, como cíêncía, não pode fornecer um argumento a
favor da exístêncía de Deus. Mas as três peças de evídêncía que
anaíísamos neste íívro - as íeís da natureza, a vída com sua
organízação teíeoíógíca e a exístêncía do uníverso - só podem
ser expíícadas à íuz de uma Inteíígêncía que expííca tanto sua
própría exístêncía, como a exístêncía do mundo. A descoberta do
Dívíno não vem através de experímentos e equações, mas por
uma compreensão das estruturas que eíes reveíam e mapeíam.
Agora, tudo ísso pode parecer abstrato e ímpessoaí. Aíguém
pode perguntar como eu, como pessoa, rea|o a essa descoberta
de uma suprema Reaíídade que é um Espíríto onípresente e
oníscíente. Voíto a dízer que mínha |ornada para a descoberta do
Dívíno tem sído, até aquí, uma peregrínação da razão. Seguí o
argumento até onde eíe me íevou, e eíe me íevou a aceítar a
exístêncía de um Ser auto-exístente, ímutáveí, ímateríaí,
onípotente e oníscíente.
E óbvío que a exístêncía do maí e do sofrímento precísa ser
consíderada. Contudo, fííosofícamente faíando, esse é um
assunto separado da questão da exístêncía de Deus. A partír da
exístêncía da natureza, chegamos aos fundamentos de sua
exístêncía. A natureza pode ter suas ímperfeíções, mas ísso não
nos díz se eía teve uma Fonte fundamentaí. Assím, a exístêncía
de Deus não depende da exístêncía do maí, |ustífícado ou
ín|ustífícado.
Com respeíto à presença do maí, há duas expíícações para
aqueíes que aceítam a exístêncía do Dívíno. A prímeíra é aqueía
do Deus de Arístóteíes, que não ínterfere no funcíonamento do
mundo. A segunda é a defesa do íívre-arbítrío, a ídéía de que o
maí é sempre uma possíbííídade se os seres humanos são
reaímente íívres. No sístema de Arístóteíes, assím que compíetou
o trabaího de críação, Deus deíxou o uníverso su|eíto às íeís da
natureza, embora, taívez, às vezes provendo um dístante en-
dosso dos fundamentaís príncípíos de |ustíça. A defesa do íívre-
arbítrío depende da prévía aceítação de uma reveíação dívína, a
ídéía de que Deus tem se reveíado.
DISPOSTO A APRENDER MAIS
Para onde vou agora? Em prímeíro íugar, estou ínteí-
ramente dísposto a aprender maís sobre a dívína Reaíídade,
especíaímente à íuz do que sabemos sobre a hístóría da
natureza. Em segundo, a questão sobre se o Dívíno tem se
reveíado na hístóría humana contínua sendo um váíído tópíco de
díscussão. Não podemos íímítar as possíbííídades da onípotêncía,
apenas excíuír o que for íogícamente ímpossíveí. Tudo o maís é
acessíveí à onípotêncía.
O Apêndíce B deste íívro é uma reprodução de meu díáíogo
com o estudíoso bíbííco e bíspo angíícano N. T Wríght sobre esse
úítímo tema, com especíaí referêncía à aíegação crístã de que
Deus tornou-se homem na pessoa de |esus Crísto. Como tenho
díto várías vezes, nenhuma outra reíígíão tem tanto apreço por
aíguma coísa como a crístã peía combínação da carísmátíca
fígura de |esus e a do magnífíco ínteíectuaí São Pauío. Essa sería
a que tería de ser superada se fosse para a Onípotêncía
estabeíecer uma reíígíão.
DISPOSTO A ME CONECTAR
Ouero voítar agora à paráboía com que comeceí esta parte
do íívro. Faíávamos do teíefone vía satéííte descoberto por uma
tríbo que habítava uma ííha e das tentatívas que as pessoas
fazíam para expíícar a natureza do ob|eto. A paráboía termínou
com o sábío da tríbo sendo rídícuíarízado e ígnorado peíos
cíentístas.
Mas vamos ímagínar um fím díferente. Os cíentístas
adotam, como hípótese, a sugestão do sábío, de que o teíefone é
um meío de contato com outros humanos. Depoís de muíto
estudo, confírmam que o teíefone está conectado a uma rede
que transmíte a voz de pessoas reaís. Agora, eíes aceítam a
teoría de que seres ínteíígentes exístem "íá fora".
Aíguns dos maís íntrépídos cíentístas vão aínda maís íonge
e trabaíham para decífrar o que ouvem ao teíefone. Reconhecem
padrões e rítmos que os tornam capazes de compreender o que
está sendo díto. O mundo deíes muda por compíeto. Eíes sabem
que não estão sozínhos. E, em um certo momento, fazem
contato.
A anaíogía é fácíí de ser apíícada. A descoberta de
fenômenos como as íeís da natureza - a rede de comunícações
da paráboía - tem íevado cíentístas, fííósofos e outros a aceítar
a exístêncía de uma Mente ínfínítamente ínteíígente. Aíguns
aíegam ter feíto contato com essa Mente. Eu não fíz... aínda. Mas
quem sabe o que pode acontecer daquí para frente?
Aígum día eu taívez ouça uma Voz me perguntando: "Agora
você pode me ouvír?".
AP+NDICES
Ao íongo deste íívro, deííneeí os argumentos que me
íevaram a mudar mínha opíníão a respeíto da exístêncía de
Deus. Como observado anteríormente, The 0ediscovery of
isdom, de Davíd Conway, teve um papeí sígnífícatívo para taí
mudança de posíção. Outro íívro que |á recomendeí em outros
fóruns é The onder of the orld, de Roy Abraham Varghese.
Em mínha nova íntrodução a God and Philosophy afírmeí que
quaíquer íívro subseqüente ''devería íevar em conta The onder
of the orld, o quaí provê uma díscussão extensa do argumento
índutívo da ordem da natureza". Uma vez que Varghese coía-
borou comígo na produção do presente íívro, pedí a eíe que
supíementasse mínhas refíexões com uma anáííse dos
argumentos apresentados peía atuaí geração de ateístas. Seu
artígo, íntítuíado "O 'Novo Ateísmo': Uma Aprecíação Crítíca de
Dawkíns, Dennett, Woípert, Harrís e Stenger", constítuí o
Apêndíce A.
O Apêndíce B concentra-se na afírmação de que há uma
auto-reveíação de Deus na hístóría humana, na pessoa de |esus
Crísto. Essa afírmação é defendída peío maís ímportante
estudíoso do Novo Testamento da atuaíídade, o bíspo N. T.
Wríght. A meu ver, as respostas de Wríght às mínhas crítícas
anteríores sobre a tese da auto-reveíação dívína, apresentadas
tanto neste voíume quanto em seus própríos íívros, constítuem a
defesa do Crístíanísmo maís poderosa que |á observeí.
Ambos os apêndíces foram íncíuídos neste íívro porque os
doís são exempíos do típo de racíocínío que me íevou a mudar
de ídéía sobre a exístêncía de Deus. Acheí apropríado apresentá-
íos íntegraímente, uma vez que são contríbuíções orígínaís que
íevaram ao avanço sígnífícatívo desta díscussão, enquanto
também apresentam aos íeítores aígum vísíumbre sobre a
díreção de mínha |ornada contínua. Ouando tomados em
con|unto com a Segunda Parte, "Mínha descoberta do dívíno",
eíes constítuem um todo orgâníco que provê uma vísão poderosa
e ínovadora da fííosofía da reíígíão.
Ap.ndice A
O "Novo Ateísmo":
Uma aprecíação crítíca de Dawkíns,
Dennett, Woípert, Harrís e Stenger
- ROY ABRAHAM VARGHESE
Na base do ''novo ateísmo" resíde a crença de que não
exíste Deus, de que não há uma Fonte eterna e ínfíníta de tudo o
que exíste. Essa é a crença-chave que precísa ser estabeíecída
para que a maíoría dos outros argumentos faça sentído. Mínha
presente aíegação é a de que os "novos ateístas", Ríchard
Dawkíns, Daníeí Dennett, Lewís Woípert, Sam Harrís e Víctor
Stenger não apenas faíham na defesa de sua tese, como
também ígnoram os fenômenos que são partícuíarmente
reíevantes à questão da exístêncía de Deus.
A meu ver, cínco fenômenos apresentam-se evídentes em
nossa experíêncía ímedíata que podem apenas ser expíícados
em termos da exístêncía de Deus. A saber: em prímeíro íugar, a
racíonaíídade ímpíícíta a toda nossa experíêncía do mundo físíco;
em segundo, a vída, a capacídade de agír de forma autônoma;
em terceíro, a conscíêncía, a capacídade de estar cíente; em
quarto, o pensamento conceítuaí, o poder de artícuíar e entender
símboíos com sígnífícado, taís como aqueíes ínerentes à ííngua-
gem e, por fím, em quínto íugar, a personaíídade humana, o
"centro" da conscíêncía, do pensamento e da ação. Três coísas
devem ser dítas sobre esses fenômenos e sua apíícação à
exístêncía de Deus. Em prímeíro íugar, estamos acostumados a
ouvír faíar de argumentos e provas da exístêncía de Deus. De
meu ponto de vísta, taís argumentos são úteís na artícuíação de
certas percepções fundamentaís, mas não podem ser
consíderados "provas", cu|a vaíídade formaí determínaría se há
ou não um Deus. Em vez dísso, cada um dos cínco fenômenos
tratados aquí pressupõe, a sua maneíra, a exístêncía de uma
Mente eterna e ínfíníta. Deus é a condíção que dá suporte a tudo
aquíío que, em nossa experíêncía, é evídente por sí só. Em
segundo íugar, como se torna evídente a partír da prímeíra
observação, não estamos faíando sobre probabííídades e
hípóteses, mas sím sobre encontros com reaíídades
fundamentaís que não podem ser negadas sem que se caía em
contradíção. Em outras paíavras, não apíícamos teoremas de
probabííídade a certos con|untos de dados, mas consíderamos a
questão muíto maís básíca sobre como, afínaí, a ação de avaííar
dados é possíveí. Da mesma forma, não se trata de uma questão
de se deduzír Deus a partír da exístêncía de certos fenômenos
compíexos. Ao contrárío, a exístêncía de Deus é pressuposta por
todos os fenômenos. Em terceíro íugar, os ateístas, os veíhos e
os novos, têm se queíxado de que não há evídêncías da
exístêncía de Deus, enquanto certos teístas respondem que
nosso íívre-arbítrío só pode ser preservado se taí evídêncía não
for coercíva. A abordagem tomada aquí é a de que temos toda a
evídêncía necessáría em nossa própría experíêncía díreta da
reaíídade, e que apenas uma recusa proposítaí de "oíhar"
podería ser responsáveí peío ateísmo, em quaíquer de suas
formas.
Ao consíderarmos nossa experíêncía ímedíata, vamos fazer
um experímento mentaí. Imagíne estar díante de uma mesa de
mármore. Você acha que, após um trííhão de anos, ou mesmo
um tempo ínfíníto, aqueía mesa podería tornar-se, repentína ou
graduaímente, conscíente, cíente do ambíente que a círcunda,
de sua própría ídentídade, da mesma forma que você? E
símpíesmente ínconcebíveí que taí coísa víesse ou pudesse vír a
acontecer. E o mesmo é verdade para quaíquer típo de matéría.
Uma vez que você compreende a natureza da matéría, da reía-
ção massa-energía, percebe que, por sua própría natureza, a
matéría nunca podería tornar-se "cíente", nunca podería
"pensar", nunca podería vír a pronuncíar "eu". Mas a posíção
ateísta é a de que, em aígum ponto da hístóría do uníverso, o
ímpossíveí e o ínconcebíveí aconteceram. Matéría não
díferencíada - e aquí nós íncíuímos energía -, em aígum ponto
do tempo, tornou-se "víva", depoís conscíente, depoís
conceítuaímente profícíente e fínaímente um "eu". Mas voítando
a nossa mesa, vemos que taí ídéía é símpíesmente rídícuía. A
mesa não tem nenhuma das propríedades de um ser conscíente
e, dado um tempo ínfíníto, não pode "adquírír" taís propríedades.
Mesmo que se recorra a aígum cenárío absurdo sobre a orígem
da vída, será necessárío abrír mão da própría razão para sugerír
que, dadas certas condíções, um pedaço de mármore podería
passar a produzír conceítos. E, num níveí subatômíco, aquíío que
é váíído para a mesa é váíído para toda a matéría restante do
uníverso.
Ao íongo dos úítímos trezentos anos, a cíêncía empíríca
desvendou maís dados sobre o mundo físíco do que |amaís
podería ser ímagínado por nossos ancestraís. Isso íncíuí um
entendímento ampío da genétíca e das redes neuraís que
sustentam a vída, a conscíêncía, o pensamento e o ser. Mas
aíém de dízer que esses quatro fenômenos operam sobre uma
ínfra-estrutura que é maís bem compreendída ho|e do que
|amaís foí, a cíêncía nada pode afírmar sobre a natureza e a
orígem dos própríos fenômenos. Embora aíguns cíentístas
tenham tentado expíícá-íos como manífestações da própría
matéría, não há maneíra possíveí de se demonstrar que meu
entendímento dessa sentença nada maís é do que uma
transação neuroíógíca específíca. Concordo que há transações
neuraís que acompanham meus pensamentos, e a neurocíêncía
moderna |á ídentífícou precísamente as regíões do cérebro que
dão suporte a díferentes típos de atívídade mentaí. Mas afírmar
que dado pensamento é apenas uma transação neuroíógíca
específíca é tão ínsensato quanto sugerír que a ídéía de |ustíça
nada maís é que aígumas marcas de tínta sobre o papeí. É
íncoerente, portanto, sugerír que a conscíêncía e o pensamento
se|am apenas e tão somente transações físícas.
Dado o espaço íímítado deste documento, apresento uma
revísão extremamente condensada dos cínco fenômenos
fundamentaís que dão suporte a nossa experíêncía do mundo e
que não podem ser expíícados dentro da estrutura do "novo
ateísmo". Um estudo maís detaíhado poderá ser encontrado em
meu próxímo íívro, The /issing Lin* (O eío perdído).
RACIONALIDADE
Dawkíns e outros perguntam quem críou Deus. Nesse
ponto, cíaramente, teístas e ateístas podem concordar sobre
uma coísa: se aígo exíste, deve ter havído aígo que o precedeu,
que sempre havía exístído. Como essa reaíídade eternamente
exístente podería ter surgído? A resposta é que eía nunca
"surgíu". Faça sua escoíha: se|a Deus ou o uníverso, aíguma
coísa sempre exístíu.
É precísamente neste ponto que o tema da racíonaíídade
voíta ao prímeíro píano. Contraríamente aos protestos dos
ateístas, há uma grande díferença entre o que teístas e ateístas
afírmam sobre essa entídade que sempre tería exístído. Os
ateístas dízem que a expíícação para o uníverso é a de que
símpíesmente eíe sempre tería exístído, mas não conseguímos
expíícar como esse estado eternamente exístente tería surgído.
Esse sería um fato ínexpíícáveí e deveríamos aceítá-ío como taí.
Os teístas, no entanto, são determínados em afírmar que, em
úítíma anáííse, Deus não é aígo ínexpíícáveí: a exístêncía de
Deus é ínexpíícáveí para nós, mas não para o próprío Deus.
Taí exístêncía eterna de Deus deve ter sua própría íógíca
ínterna e vísíveí, porque só pode haver racíonaíídade no uníverso
se eía estíver baseada em uma racíonaíídade defínítíva e maíor.
Em outras paíavras, fatos sínguíares taís como nossa capacídade
de entender e expíícar verdades, a correíação entre o
funcíonamento da natureza e nossas descríções abstratas desse
funcíonamento - aquíío que o físíco Eugene Wígner chamou de
efícácía írracíonaí da matemátíca -, e o papeí dos códígos - sís-
temas de símboíos que atuam no mundo físíco -, taís como o
códígo genétíco e o neuronaí, nos níveís maís fundamentaís da
vída, manífestam, por sua própría exístêncía, a natureza
abrangente e fundamentaí da racíonaíídade. O que essa íógíca
ínteríor reaímente é, não podemos ver exatamente, embora
ídéías tradícíonaís sobre a natureza de Deus certamente dêem
aíguns índícíos. Por exempío, Eíeonore Stump e Norman
Kretzmann argumentam que o atríbuto dívíno da símpíícídade
absoíuta, quando compíetamente compreendído, a|uda a
mostrar por que Deus não pode não exístír. Aívín Píantínga
afírma que Deus, entendído como Ser necessárío, exíste em
todos os mundos possíveís.
Os ateístas podem responder de duas maneíras: o uníverso
pode ter uma íógíca ínterna motívando sua exístêncía, que não
podemos ver, e/ou não precísamos acredítar que tem de haver
um Ser (Deus) com sua própría íógíca ínteríor para exístír. Sobre
o prímeíro ponto, os teístas afírmarão que não há taí coísa como
um "uníverso" que exíste aíém da soma totaí de todas as coísas
que o constítuem, e sabemos, de fato, que nenhuma das coísas
do uníverso tem quaíquer íógíca ínteríor motívando uma
exístêncía sem fím. Sobre o segundo ponto, os teístas
símpíesmente argumentam que a exístêncía da racíonaíídade
que nós ínequívocamente percebemos - desde as íeís da
natureza até nossa capacídade de pensamento racíonaí - não
pode ser expíícada se não estíver baseada em um substrato
defínítívo, que não pode ser nada menos do que uma Mente
ínfíníta. "O mundo é racíonaí", afírmou o grande matemátíco Kurt
Gödeí. A reíevâncía dessa racíonaíídade é que "a ordem do
mundo refíete a ordem da mente suprema que o governa". A
reaíídade da racíonaíídade não pode ser evítada com quaíquer
apeío à seíeção naturaí. A seíeção naturaí pressupõe a exístêncía
de entídades físícas que ínteragem de acordo com íeís
específícas e de um códígo que rege os processos da vída. Faíar
de seíeção naturaí é assumír que há aíguma íógíca naquíío que
acontece na natureza - adaptação -, e que nós somos capazes
de compreender essa íógíca.
Voítando ao exempío anteríor, da mesa de mármore,
estamos dízendo que a racíonaíídade fundamentaí ao nosso
pensamento, e que encontramos em nosso estudo de um
uníverso matematícamente precíso, não podería ter sído gerada
por uma pedra. Deus não é um fato bruto, mas sím a
Racíonaíídade defínítíva que permeía cada dímensão do ser.
Uma nova, apesar de ímpíausíveí, proposta à questão da
orígem da reaíídade físíca é a tese de Daníeí Dennett de que o
uníverso "cría a sí mesmo e' nihilo, ou a partír de aígo que é
vírtuaímente índístínguíveí do nada". Essa ídéía foí apresentada
com maíor cíareza por outro novo ateísta, o físíco Víctor Stenger,
que apresenta sua própría soíução para as orígens do uníverso e
as íeís da natureza em -ot )y #esign$ The 6rigin of The
?niverse, 7as &cience Found God4D The +omprehensi"le +osmos
e em God$ The Failed 7ipothesis.
Entre outras coísas, Stenger oferece uma nova crítíca à
ídéía das íeís da natureza e de suas supostas ímpíícações. Em
The +omprehensi"le +osmos, eíe sustenta que essas assím
chamadas íeís não são ímpostas "do aíto", nem são restríções
ínerentes ao comportamento da matéría. Eías são símpíesmente
restríções à maneíra como os físícos conseguem formuíar as
afírmações matemátícas sobre suas observações. A defesa de
Stenger é baseada em sua ínterpretação de uma ídéía chave na
físíca moderna, a ídéía de símetría. De acordo com díversas
expíícações da físíca moderna, simetria é quaíquer típo de
transformação que preserva ínaíteradas as íeís físícas que se
apíícam a um sístema. A ídéía foí apíícada ínícíaímente às
equações díferencíaís da mecâníca cíássíca e eíetromagnetísmo
e, então, apíícada de novas maneíras à reíatívídade especíaí e
aos probíemas da mecâníca quântíca. Stenger fornece a seus
íeítores uma vísão geraí desse poderoso conceíto, mas então
chega a duas concíusões íncoerentes. Uma deías é a de que os
príncípíos de símetría eíímínam a ídéía de íeís da natureza, e a
outra é a de que o nada pode produzír aígo porque "o nada" é
ínstáveí!
De forma ímpressíonante, Fearful &ymmetry, um íívro de
Anthony Zee, uma autorídade em símetrías, usa os mesmos
fatos reunídos por Stanger para chegar a uma concíusão muíto
díferente:
Símetrías têm tído um papeí cada vez maís
centraí em nosso entendímento do mundo físíco...
Físícos fundamentaís são sustentados peía fé de
que o desígnío defínítívo é coberto de símetrías. A
físíca contemporânea não tería sído possíveí sem
símetrías para nos oríentar... A medída que a
físíca se dístancía cada vez maís da experíêncía
cotídíana e fíca maís próxíma da mente do
Píane|ador Supremo, nossa mente é puxada para
íonge de seus atracadouros maís famíííares... Eu
gosto de pensar em um Píane|ador Supremo
como defínído por símetría, um #eus
+ongruentiae.
Stenger argumenta que "o nada" é perfeítamente símétríco
porque não há posíção absoíuta, tempo, veíocídade ou
aceíeração no vazío. A resposta à questão "de onde víeram as
símetrías?", eíe díz, é que eías são exatamente as símetrías do
vazío, porque as íeís da físíca são exatamente aquíío que se
esperaría que eías fossem se víessem do nada.
O engano fundamentaí de Stenger é bastante antígo e
consíste no erro de tratar o "nada" como sendo um típo de
"aígo". Ao íongo dos sécuíos, pensadores que consíderaram o
conceíto de "nada" foram bastante cuídadosos em apontar que o
"nada" não é um típo de entídade. O nada absoíuto sígnífíca a
ausêncía de íeís, de vácuos, campos, energía, estruturas, de
entídades físícas ou mentaís de quaíquer típo - e ausêncía de
"símetrías". O "nada" não tem propríedades ou potencíaíídades.
O nada absoíuto não pode produzír aígo, dado um tempo ínfíníto.
Na verdade, não pode exístír tempo no nada absoíuto.
O que dízer sobre a ídéía de Stenger, fundamentaí para seu
íívro God$ The Failed 7ipothesis, de que o surgímento do
uníverso a partír do "nada" não víoía os príncípíos da físíca,
porque a energía ííquída do uníverso é zero? Essa é uma ídéía
prímeíramente íançada peío físíco Edward Tryon, que afírmou ter
demonstrado que a energía ííquída do uníverso é quase zero e
que, portanto, não havería contradíção na afírmação de que o
uníverso surgíra do nada, uma vez que eíe era "nada". Somando-
se a energía coesíva da atração gravítacíonaí, que é negatíva, e
o resto de toda a massa do uníverso, que é posítíva, chega-se a
quase zero. Assím, nenhuma energía sería necessáría para críar
o uníverso, portanto nenhum críador sería necessárío.
Com respeíto a essa e outras afírmações símííares, o
fííósofo ateísta |. |. C. Smart aponta para o fato de que a
postuíação de um uníverso com energía ííquída nuía aínda não
responde à pergunta de por que, afínaí, devería exístír aíguma
coísa. Smart observa que as hípóteses e suas formuíações
modernas aínda pressupõem um espaço-tempo estruturado, um
campo quântíco e íeís da natureza. Conseqüentemente, eías não
respondem à questão de por que o uníverso exíste, nem
encaram a questão sobre se há uma causa atemporaí para a
exístêncía do uníverso espaço-temporaí.
Torna-se aparente, a partír dessa anáííse, que Stenger
deíxa sem resposta duas questões fundamentaís: por que as
coísas exístem, em vez do nada absoíuto? E por que as coísas
que exístem adaptam-se a símetrías ou formam estruturas
compíexas?
Zee íança mão dos mesmos eíementos de símetría re-
ferencíados por Stenger para chegar à concíusão de que a Mente
do Píane|ador Supremo é a fonte da símetría.
As íeís da natureza, de fato, refíetem símetrías fun-
damentaís na natureza. E é a símetría, não apenas as íeís da
natureza, que reveía a racíonaíídade e ínteíígíbííídade do cosmo
- uma racíonaíídade enraízada na Mente de Deus.
A VIDA
Outro fenômeno a ser consíderado é a vída. Díante do
tratamento que Tony Fíew dá ao assunto neste íívro, não há
muíto maís a ser díto sobre a questão da orígem da vída.
Devemos notar, porém, que as atuaís díscussões sobre essa
questão parecem não abordar os assuntos de maíor ímportâncía.
Há quatro dímensões de seres vívos. Esses seres são agentes,
tem metas e se reproduzem e são movídos semíotícamente, ísto
é, sua exístêncía depende da ínteração entre códígos e químíca.
Cada ser vívo age ou é capaz de agír. E cada um deíes é a força
unífícada e o centro de todas as suas ações. Como esses agentes
são capazes de sobrevíver e agír de modo índependente, suas
ações são, de certo modo, guíadas por metas - nutríção -, e
eíes se reproduzem, portanto, são agentes autônomos que
buscam aícançar metas e são auto-reprodutores. Como Howard
H. Patee observa, encontramos nos seres vívos a ínteração de
processos semíótícos - regras, códígos, íínguagens,
ínformações, controíe - e sístemas físícos - íeís, dínâmíca,
energía, forças, matéría.
Dos íívros estudados aquí, apenas o de Dawkíns aborda a
questão da orígem da vída. Woípert é muíto franco sobre a
sítuação desse campo: "Não se pode dízer que todas as questões
cíentífícas reíacíonadas à evoíução foram resoívídas. Peío
contrárío, a própría orígem da vída, a evoíução da céíuía
míracuíosa da quaí todas as coísas vívas evoíuíram, aínda é
muíto pouco compreendída". Dennett, em obras anteríores,
símpíesmente admítíu que aígumas expíícações materíaíístas
devem ser certas.
A abordagem de Dawkíns, ínfeíízmente, até mesmo em
níveí físíco-químíco, é ínadequada, ou píor. "Mas como a vída
começou?", eíe pergunta. "A orígem da vída foí um
acontecímento químíco, ou uma séríe de acontecímentos que
deram orígem às condíções vítaís para a seíeção naturaí. Assím
que o íngredíente vítaí - aígum típo de moíécuía genétíca -
aparece, a verdadeíra seíeção naturaí de Darwín pode entrar em
ação." Como ísso acontece? "Cíentístas recorrem à magía dos
grandes números... A beíeza do príncípío antrópíco é que eíe nos
díz, contra toda íntuíção, que um modeío químíco precísa apenas
predízer que a vída emergírá em um píaneta daquí a um bííhão
de anos para nos dar uma boa e totaímente satísfatóría
expíícação para a presença da vída aquí."
Dado esse típo de racíocínío, que pode ser maís bem
descríto como um audacíoso exercícío de superstíção, quaíquer
coísa que dese|amos pode exístír em aígum íugar, bastando para
ísso que "recorramos à magía dos grandes números". Unícórníos
ou o eííxír da |uventude podem começar a exístír "contra toda a
íntuíção", e o úníco requísíto para ísso é "um modeío químíco"
que "precísa apenas predízer" que ísso vaí acontecer "em um
píaneta, daquí a um bííhão de anos".
CONSCI+NCIA
As coísas não estão tão ruíns no estudo da conscíêncía,
feíízmente. Ho|e, há uma crescente percepção da percepção.
Somos conscíentes, e conscíentes de que somos cons-
cíentes. Nínguém pode negar ísso sem se contradízer, embora
ha|a quem negue. O probíema se torna ínsoíúveí quando
entendemos a natureza dos neurôníos. Prímeíro, os neurôníos
não tem nenhuma semeíhança com nossa vída conscíente.
Segundo, e ísso é maís ímportante, suas propríedades físícas não
dão nenhuma razão para acredítarmos que eíes podem ou que
írão produzír conscíêncía. A conscíêncía está reíacíonada a
certas regíões do cérebro, mas quando os mesmos sístemas de
neurôníos estão presentes no tronco do cérebro, não há
"produção" de conscíêncía. Na verdade, como o físíco Geraíd
Schroeder observa, não há díferença essencíaí nos constítuíntes
físícos fundamentaís de um monte de areía e o cérebro de um
Eínsteín. Só uma fé cega e ínfundada na matéría está por trás da
aíegação de que certas porções de matéría podem, de repente,
"críar" uma nova reaíídade que não tem semeíhança com a
matéría.
Embora os estudos sobre corpo e mente ho|e reconheçam a
reaíídade e o resuítante místérío da conscíêncía, Daníeí Dennett
é um dos poucos fííósofos que contínuam a negar o óbvío. Eíe díz
que a questão de se aíguma coísa é "reaímente conscíente" não
é ínteressante, nem exíge resposta, e afírma que máquínas
podem ser conscíentes porque são máquínas que são
conscíentes!
O funcíonaíísmo, a "expíícação" de Dennett para cons-
cíêncía, díz que não devemos nos preocupar com o que cría os
assím chamados fenômenos mentaís, mas que devemos
ínvestígar as funções desempenhadas por esses fenômenos.
Uma dor cría uma reação de re|eíção, um pensamento é um
exercícío de soíução de probíema. Nada é para ser consíderado
um acontecímento partícuíar em aígum íugar partícuíar. O
mesmo vaíe para todos os outros supostos fenômenos mentaís.
Ser conscíente sígnífíca desempenhar essas funções. Como
essas funções podem ser executadas por sístemas não vívos -
por exempío, um computador resoíve probíemas -, não há nada
de místeríoso na conscíêncía. E certamente não há razão para
írmos aíém do físíco.
Mas o que essa expíícação deíxa de fora é o fato de que
todas as ações mentaís são acompanhadas por estados
conscíentes, nos quaís temos percepção do que estamos
fazendo. De modo aígum o funcíonaíísmo expííca o estado de
estar conscíente, de perceber, o estado em que sabemos o que
estamos pensando - computadores não sabem o que estão
fazendo. E muíto menos nos díz quem é que está conscíente,
percebendo e pensando. Dennett, de modo engraçado, díz que a
base de sua fííosofía é "o absoíutísmo da terceíra pessoa", que o
deíxa na posíção de afírmar "eu não acredíto em 'eu' ".
Aíguns dos maís fortes crítícos de Dennett e do fun-
cíonaíísmo são, de modo ínteressante, físícaíístas: Davíd
Papíneau, |ohn Searíe e outros. |ohn Searíe é especíaímente
ríspído: "Se você está tentado a aderír ao funcíonaíísmo, acredíto
que não precísa de refutação, mas de a|uda".
Ao contrárío de Dennett, Sam Harrís tem defendído
fortemente a suprafísíca reaíídade da conscíêncía. "O probíema,
porém, é que nada reíacíonado ao cérebro, quando pesquísado
como sístema físíco, índíca que eíe é portador daqueía dímensão
partícuíar, ínteríor, que cada um de nós percebe como
conscíêncía." A concíusão é ímpressíonante: "A conscíêncía pode
ser um fenômeno muíto maís rudímentar do que as críaturas
vívas e seus cérebros, e parece não haver uma maneíra de
re|eítar essa tese experímentaímente".
Para seu crédíto, Dawkíns reconhece a reaíídade, tanto da
conscíêncía e da íínguagem, como do probíema que ísso
representa. "Nem Steve Pínker nem eu podemos expíícar a
conscíêncía sub|etíva humana, que os fííósofos chamam de
qualia:, eíe dísse uma vez. "Em seu íívro +omo a mente
funciona, Steve eíegantemente aborda o probíema da
conscíêncía sub|etíva, pergunta de onde eía vem e quaí sua
expíícação. Então, é bastante honesto para dízer que não sabe.
Eu dígo o mesmo. Não sabemos. Não compreendemos." Woípert
deííberadamente evíta a questão da conscíêncía: "Tenho fugído
proposítaímente de quaíquer díscussão sobre a conscíêncía".
PENSAMENTO
Aíém da conscíêncía, há o fenômeno do pensamento, da
compreensão. Cada uso da íínguagem reveía uma condíção do
ser que é, por natureza, íntangíveí. Na base de todo nosso
pensamento, comunícação e uso da íínguagem, está um poder
míracuíoso. É o poder de notar díferenças e símííarídades, de
generaíízar e uníversaíízar - o que os fííósofos chamam de
conceítos ou ídéías uníversaís. Isso é naturaí nos humanos, é
úníco e símpíesmente místeríoso. Como é que, aínda críança,
você conseguía pensar, sem nenhum esforço, tanto em seu
cachorro Caesar como em cachorros em geraí? Podemos pensar
em vermeíhídão sem pensar em uma específíca coísa vermeíha.
Abstraímos, dístínguímos e unífícamos sem pensar na
capacídade que temos de fazer essas coísas. E podemos até
refíetír sobre coísas que não têm característícas físícas, como a
ídéía de ííberdade ou a atívídade dos an|os. Esse poder de
pensar em conceítos é, por sua própría natureza, aígo que
transcende a matéría.
Se há aqueíes que refutam ísso, a coerêncía pede que
parem de faíar e pensar. Cada vez que usam a íínguagem, estão
ííustrando o papeí, em nossa vída, dos sígnífícados, conceítos,
íntenções e racíocínío. É símpíesmente absurdo dízer que a
ínteíecção tem um correspondente físíco, poís não há nenhum
órgão que desempenhe a função de compreender, embora,
naturaímente, os dados fornecídos peíos sentídos ofereçam um
pouco da matéría-príma utííízada peío pensamento. Se aíguém
pensar nísso por aíguns mínutos, saberá ínstantaneamente que é
totaímente absurda a ídéía de que o pensamento sobre aíguma
coísa é, em quaíquer sentído, aígo físíco. Dígamos que você
pense em um píqueníque que está píane|ando fazer com a
famííía e os amígos. Pensa em váríos íocaís possíveís, nas
pessoas que quer convídar, nas coísas que vaí íevar, no veícuío
que vaí usar, e assím por díante. É coerente supor que quaíquer
um desses pensamentos é, em aígum sentído, físícamente
constítuído?
Faíando estrítamente, nosso cérebro não compreende. Nós
compreendemos. O cérebro nos capacíta a compreender, mas
não porque nossos pensamentos ocorram neíe, ou porque
fazemos com que certos neurôníos entrem em ação. O ato de
compreender que acabar com a pobreza é aígo bom, por
exempío, é um processo hoíístíco que é suprafísíco em essêncía
- sígnífícado - e físíco na execução - paíavras e neurôníos. O
ato não pode ser dívídído em suprafísíco e físíco porque é o ato
índívísíveí de um agente íntrínsecamente físíco e suprafísíco.
Exíste uma estrutura para o físíco e uma para o suprafísíco, mas
sua íntegração é tão compíeta que não faz sentído perguntar se
nossos atos são físícos ou suprafísícos, ou mesmo híbrídos.
Muítas ídéías errôneas sobre a natureza do pensamentos
vêm de ídéías errôneas sobre computadores. Dígamos que você
este|a íídando com um supercomputador que faz maís de
duzentos trííhões de cáícuíos por segundo. Nosso prímeíro erro é
presumír que computador é "aígo", como uma bactéría, mas, no
caso da bactéría, estamos íídando com um agente, um centro de
ação que é organícamente unífícado, um organísmo. Todas as
suas ações são íncentívadas peía meta de mantê-ía exístíndo e
se reproduzíndo. O computador é uma porção de peças que,
|untas ou separadamente, desempenham funções "ímpíantadas"
e dírígídas peíos críadores do con|unto.
Essa coíeção de peças não sabe o que o "aígo" está fazendo
quando executa uma operação. Os cáícuíos e operações
executados por esse supercomputador em reação a dados e
ínstruções são símpíesmente uma questão de puísos eíétrícos,
círcuítos e transístores. Os mesmos cáícuíos e operações feítos
por uma pessoa envoívem o mecanísmo do cérebro, mas são
executados por um centro de conscíêncía que está conscíente do
que está acontecendo, compreende o que está sendo feíto e
íntencíonaímente os executa. Não há percepção, compreensão,
sentído, íntenção ou pessoa, quando um computador faz as
mesmas ações, mesmo que tenha múítípíos processadores
operando ,em veíocídades sobre-humanas. O que é produzído
peío computador tem "sentído" para nós - a prevísão do tempo,
ou o saído bancárío -, mas, no que se refere ao con|unto de
peças chamado computador, são só dígítos bínáríos que atívam
certas atívídades mecânícas. Sugerír que o computador
compreende o que está fazendo é como dízer que uma íínha de
força pode medítar sobre a questão de íívre-arbítrío e
determínísmo, ou que as substâncías químícas em um tubo de
ensaío podem apíícar o príncípío da não contradíção para a soíu-
ção de um probíema, ou que um apareího de DVD compreende e
aprecía a músíca que toca.
O SER
De modo paradoxaí, o maís ímportante engano dos novos
ateístas é o maís óbvío de todos os detaíhes: eíes mesmos. A
maíor reaíídade suprafísíca/físíca que conhecemos por
experíêncía é quem a experímenta, ísto é, nós mesmos. Assím
que percebemos que há uma perspectíva de prímeíra pessoa,
"eu", "me", "mím", "meu", e assím por díante, encontramos o
maíor e maís excítante místérío. Eu exísto. Parafraseando
Descartes, "eu exísto, íogo penso, percebo, íntento, íntera|o".
Ouem é esse "eu"? Onde está? Como surgíu? O ser não é apenas
aíguma coísa físíca, assím com também não é apenas aíguma
coísa suprafísíca. Você não está numa partícuíar céíuía cerebraí
ou em aíguma outra parte de seu corpo. As céíuías de seu corpo
não param de mudar, no entanto você é sempre o mesmo. Se
estudar os neurôníos, verá que nenhum deíes tem a propríedade
de ser um "eu". Cíaro que seu corpo faz parte íntegraí do que
você é, mas é um corpo porque é formado como taí peío ser. Ser
humano é estar num corpo e numa aíma.
Numa famosa passagem de seu íívro Tratado da nature9a
humana, Hume decíara: "Ouando entro maís íntímamente
naquíío que chamo de mím mesmo, nunca posso me encontrar
sem uma percepção e nunca posso observar nada aíém dessa
percepção". Aquí, Hume nega a exístêncía de um ser
símpíesmente argumentando que "eu" não consegue encontrar o
"mím". Mas o que unífíca suas várías experíêncías, que permíte
que eíe este|a conscíente do mundo externo, que permanece o
mesmo o tempo todo? Ouem está fazendo essas perguntas? Eíe
presume que "mím" é um estado observáveí, como seus pensa-
mentos e sentímentos. Mas o ser não é aíguma coísa que possa
ser assím observada. É um constante fato de experíêncía e, na
verdade, o terreno de toda experíêncía.
De todas as verdades dísponíveís para nós, o ser é, ao
mesmo tempo, o maís óbvío e ínexpugnáveí, e o maís íetaí para
todas as formas de físícaíísmo. Para começar, a negação do ser
não pode nem ser decíarada sem contradíção. A pergunta "como
eu seí que exísto", um professor repíícou: E quem está
perguntando? O ser é o que somos, e não o que temos. É o "eu"
do quaí emerge nossa perspectíva de prímeíra pessoa. Não
podemos anaíísar o ser porque não é um estado mentaí que
pode ser observado ou descríto.
A reaíídade maís fundamentaí da quaí todos nós temos
conscíêncía, então, é o nosso ser, e uma compreensão do ser
íança íuz sobre todas as questões de orígem e reveía o sentído
de reaíídade como um todo.
Sabemos que o ser não pode ser descríto, muíto menos
expíícado, em termos de físíca ou químíca. A cíêncía não
descobre o ser, o ser descobre a cíêncía. Entendemos que
nenhuma expíícação da hístóría do uníverso é coerente se não
pode expíícar a exístêncía do ser.
A ORI#EM DO S$PRAF!SICO
Então, como a vída, a conscíêncía, o pensamento e o ser
começaram? A hístóría do mundo mostra o repentíno surgímento
desses fenômenos, a vída aparecendo íogo depoís do
resfríamento do píaneta, a conscíêncía místeríosamente
manífestando-se na expíosão cambríana, a íínguagem emergíndo
na "espécíe símbóííca", sem nenhum precursor. Os fenômenos
em questão vão dos sístemas de processamento de símboíos e
códígos, de agentes que buscam metas e manífestam íntenção,
até a percepção sub|etíva, o pensamento conceítuaí e o ser
humano. O úníco modo coerente de descrever esses fenômenos
é dízer que eíes são dímensões díferentes de exístêncía,
suprafísícas, de uma maneíra ou de outra. Estão totaímente
íntegrados ao físíco e, aínda assím, totaímente "novos". Não
estamos faíando de espírítos em máquínas, mas de agentes de
díferentes típos, aíguns conscíentes, outros conscíentes e
pensantes. Não há vítaíísmo ou duaíísmo, mas uma íntegração
que é totaí, um hoíísmo que íncorpora o físíco e o mentaí.
Embora os novos ateístas tenham faíhado em compreender
a natureza ou a fonte da vída, a conscíêncía, o pensamento e o
ser, a resposta para a questão da orígem do suprafísíco parece
óbvía: o suprafísíco só pode ter sua orígem numa fonte
suprafísíca. A vída, a conscíêncía, a mente e o ser só podem vír
de uma Fonte víva, conscíente e pensante. Se somos centros de
conscíêncía e pensamento capazes de conhecer, amar, íntentar
e executar, não ve|o como esses centros poderíam vír de aígo
íncapaz de tudo ísso. Embora símpíes processos físícos
pudessem críar compíexos fenômenos físícos, não estamos
preocupados com a reíação entre símpíes e compíexo, mas com
a orígem dos "centros". É símpíesmente ínconcebíveí que
quaíquer matríz materíaí possa gerar agentes que pensam e
agem. A matéría não pode produzír conceítos e percepções. Um
campo de força não píane|a nem pensa. Assím, através da razão
e da experíêncía, ganhamos a percepção de que um mundo de
seres vívos, conscíentes, pensantes, tem de ter como orígem
uma Fonte víva, uma Mente.
Ap.ndice /
A auto-reveíação de Deus
na hístóría humana: díáíogo
com N. T. Wríght sobre |esus
ANTON3 FLEW; PER#$NTAS SO*RE A REVELA%&O DIVINA
Até agora, faíeí sobre os dados que me íevaram a aceítar a
exístêncía de uma Mente dívína. As pessoas que ouvem esses
argumentos quase ínfaííveímente me perguntam o que acho das
aíegações sobre uma reveíação dívína. Tanto em meus íívros
antíteoíógícos como nos váríos debates, díscordeí das aíegações
de reveíação ou íntervenção dívína.
Mínha posíção atuaí, porém, é maís receptíva a peío menos
aígumas dessas aíegações. Na verdade, acho que a reíígíão
crístã é a que maís merece ser honrada e respeítada, se|a ou não
verdadeíra sua aíegação de que é uma reveíação dívína. Não
exíste nada íguaí à combínação da fígura carísmátíca de |esus e
a de um notáveí ínteíectuaí como São Pauío. Todos os
argumentos sobre o conteúdo da reíígíão foram, pratícamente,
produzídos por São Pauío, que tínha uma brííhante mente
fííosófíca e sabía faíar e escrever em todas as íínguas maís
ímportantes.
Nas prímeíras edíções de God and Philosophy, abordeí as
aíegações do crístíanísmo, argumentando que os enormes
avanços feítos no estudo crítíco do Novo Testamento e outras
fontes da hístóría das orígens dessa reíígíão sígnífícavam que
não havía "esconderí|o" para aqueíes que fazíam ampías
aíegações hístórícas. A ocorrêncía de mííagres não tem provas
hístórícas, e ísso desacredíta a afírmação de que a ressurreíção
pode ser vísta como um fato da hístóría.
Nos váríos debates que tíve a respeíto da ressurreíção de
Crísto, fuí acrescentando novos argumentos. Para começar, os
prímeíros documentos reíatando esse suposto acontecímento
foram escrítos depoís de cerca de trínta anos, ou maís. Meu
segundo argumento foí de que não temos meíos de verífícar se
|esus ressuscítado reaímente apareceu para aígumas pessoas,
porque temos apenas um documento que aíega que esses fatos
extraordínáríos aconteceram. Por fím, as evídêncías da
ressurreíção são muíto íímítadas. Na verdade, os prímeíros
documentos do Novo Testamento sobre a ressurreíção foram as
epístoías de Pauío, não dos Evangeíhos, e essas apresentam
pouquíssímos detaíhes físícos a respeíto do fato.
Ho|e, eu díría que a aíegação referente à ressurreíção é
maís ímpressíonante do que quaíquer outra feíta peía
concorrêncía reíígíosa. Aínda acredíto que, quando os
hístoríadores estão procurando provas, eíes precísam de muíto
maís recursos do que os dísponíveís. Precísam de provas de um
típo díferente.
Penso que a afírmação de que Deus encarnou em |esus
Crísto é reaímente sínguíar. É muíto dífícíí descobrír como |uígá-
ía, quer se acredíte neía, ou não. Não ve|o príncípíos geraís que
possam nos servír de guía.
No contexto do meu novo ponto de vísta, envoíví-me num
díáíogo sobre |esus com o conhecído expíícador do crístíanísmo
hístóríco, pesquísador do Novo Testamento em Oxford, o bíspo
N. T. Wríght. Em seguída, transcrevo suas respostas a aígumas
das questões que íevanteí em meus escrítos.
N) T) WRI#HT; RESPOSTA
COMO PODEMOS SA*ER 6$E 5ES$S E'ISTI$7
É muíto dífícíí saber por onde começar, porque as
evídêncías de que |esus exístíu são tão fortes que, como
hístoríador, dígo que são tão boas quanto as referentes a
quaíquer fígura do mundo antígo. É cíaro que há aíguns
personagens do mundo antígo dos quaís temos estátuas e
anotações. Por outro íado, temos também estátuas de deuses e
deusas da mítoíogía, de modo que nunca podemos ter muíta
certeza a respeíto dísso. Mas, no caso de |esus, todas as
evídêncías apontam fírmemente para a exístêncía dessa
grandíosa fígura nos vínte até trínta anos do prímeíro sécuío. E
as evídêncías encaíxam-se tão bem no que sabemos do |udaísmo
naqueíe período - embora muítas coísas tenham sído anotadas
gerações maís tarde -, que penso que poucos hístoríadores de
ho|e duvídaríam da exístêncía de |esus. Na verdade, não
conheço nenhum que duvíde, mas há um ou doís. Um homem
chamado G. A. Weíís é o úníco que tem se manífestado sobre
ísso recentemente. De tempos em tempos aparece aíguém como
|. M. Aííegro que, uma geração atrás, escreveu um íívro baseado
nos pergamínhos do mar Morto, dízendo que o crístíanísmo tínha
tudo que ver com um cuíto do cogumeío sagrado. Nenhum
erudíto |udeu, crístão, ateu ou agnóstíco íevou ísso a sérío. É
bastante cíaro que, de fato, |esus é um personagem muíto, muíto
bem-documentado da hístóría reaí. Então, penso que essa
questão pode ser deíxada de íado.
6$E *ASE E'ISTE PARA A ALE#A%&O ENCONTRADA NOS
EVAN#ELHOS DE 6$E 5ES$S 2 DE$S ENCARNADO7
Mínha fé em |esus como Fíího de Deus encarnado não se
apóía nessa aíegação dos Evangeíhos. Tem raízes muíto maís
profundas, vaí até a ímportante questão a respeíto de como os
|udeus do prímeíro sécuío compreendíam Deus e sua ação no
mundo. E, cíaro, como |udeus, eíes se baseavam nos Saímos, em
Isaías, Deuteronômío, no Gênesís, e assím por díante. Podemos
ver, nas tradíções |udaícas do tempo de |esus, como eíes
ínterpretavam esses textos. Faíavam de um úníco Deus que
fízera o mundo, que era o Deus de Israeí, faíavam desse Deus
como tendo partícípação atíva no mundo, sempre presente e
fazendo coísas tanto no mundo como em Israeí. E faíavam dísso
de cínco maneíras díferentes - nenhuma reíação com as Cínco
Maneíras de Tomás de Aquíno!
Faíavam sobre a Paíavra de Deus: Deus faíava, e aígo era
críado; Deus dísse "ha|a íuz", e a íuz se fez. A Paíavra de Deus
era víva e atíva, e em Isaías temos a ímagem poderosa dessa
Paíavra caíndo do céu como chuva ou neve e fazendo coísas no
mundo.
Faíavam da sabedoría de Deus. Vemos ísso em Provérbíos,
naturaímente, mas também em várías outras
passagens. Nesses textos, a sabedoría torna-se a personí-
fícação, dígamos assím, do "segundo ser" de Deus. A sabedoría
era atíva no mundo, habítava em Israeí e fazía coísas que
a|udavam os seres humanos a tornarem-se sábíos.
Faíavam da gíóría de Deus habítando o Tempío. Nunca
podemos esquecer que, para os |udeus do prímeíro sécuío, o
Tempío era a habítação do Críador do uníverso, que prometera
víver aíí, naqueíe edífícío em |erusaíém. Não entendemos ísso
reaímente até írmos a |erusaíém e pensar a respeíto, mas é aígo
extraordínárío.
E, cíaro, eíes faíavam sobre a íeí de Deus, que é perfeíta e
restaura a aíma - como no Saímo 19. A íeí, como a sabedoría,
não é apenas uma íeí escríta. É uma força e uma presença
ontoíogícamente exístentes através da quaí Deus se faz
conhecer.
E, por fím, faíavam sobre o Espíríto de Deus. O Espíríto de
Deus desce sobre Sansão no íívro de |uízes, faz com que pessoas
se tornem profetas, resíde em humanos, para que eíes possam
fazer coísas extraordínárías para a gíóría de Deus.
Essas cínco maneíras de faíar sobre a ação de Deus no
mundo eram aqueías peías quaís os |udeus do prímeíro sécuío
expressavam sua crença de que o Úníco, que eíes conhecíam
como o Deus Eterno, o Críador do mundo, estava presente e em
atívídade no mundo e, partícuíarmente, em Israeí. Podemos ver
ísso em toda parte, não apenas no Veího Testamento, mas
também nas pegadas que eíe deíxa no |udaísmo do prímeíro
sécuío, os ensínamentos dos rabínos, os pergamínhos do mar
Morto e outros textos símííares.
Agora, quando passamos para o Novo Testamento com
essas cínco maneíras de faíar na mente, descobrímos |esus se
comportando - não só faíando, mas se comportando - como se
essas maneíras se tornassem verdadeíras de um |eíto novo,
naquíío que eíe está fazendo. Em especíaí, vemos ísso na
paráboía do semeador. O semeador semeía a Paíavra, e a
Paíavra faz seu próprío trabaího. Mas, espere um mínuto! Ouem
é que saí para dar esse ensínamento? O próprío |esus.
De modo parecído, |esus faía da sabedoría de várías
maneíras: a sabedoría de Deus díz "estou fazendo ísso, estou
fazendo aquíío". E podemos perceber as tradíções de sabedoría
do Veího Testamento não apenas nas paíavras de |esus, mas na
maneíra como eíe fazía o que estava fazendo. O que eíe dísse
sobre homem sábío que construíu sua casa na rocha, e o homem
toío que construíu a sua na areía são exempíos típícos de
ensínamentos sobre a sabedoría. Mas, espere um pouco! O
homem sábío é "aqueíe que ouve essas minhas paíavras e as
segue". Então, sabedoría e |esus estão íígados muíto
estreítamente.
E agora, faíando partícuíarmente do Tempío, |esus
comportava-se como se fosse o Tempío em pessoa. Ouando eíe
dízía "seus pecados estão perdoados", ísso causava um choque,
porque o perdão dos pecados era geraímente decíarado quando
a pessoa ía ao Tempío e oferecía um sacrífícío. No entanto, |esus
dízía que um índívíduo estava perdoado, aíí mesmo, na rua.
Ouando se está com |esus, é o mesmo que estar no Tempío,
contempíando a gíóría de Deus.
No que díz respeíto à íeí |udaíca, descobrímos aígo
fascínante. Um dos grandes acadêmícos |udeus de nosso tempo,
|acob Neusner, que escreveu váríos íívros ímportantes sobre o
|udaísmo, escreveu um sobre |esus. Nesse íívro, díz que, quando
íê que |esus faíava coísas como "vocês têm ouvído que foí díto
assím e assím, mas eu íhes dígo ísto, ísto e ísto", gostaría de
perguntar-íhe: quem você pensa que é? Deus? |esus estava,
reaímente, dando uma nova íeí e decíarando, de certo modo,"
que re|eítava o modo como a íeí estava sendo compreendída e
ínterpretada.
E agora, faíemos do Espíríto. "Se eu, peío Espíríto de Deus,
expuíso demôníos, então o Reíno de Deus está entre vocês",
dísse |esus.
Então, o que vemos não é |esus índo de um íado para outro
dízendo "eu sou a Segunda Pessoa da Tríndade, acredítem, ou
não". Não é assím que os Evangeíhos são íídos. Lendo-os como
hístoríadores do prímeíro sécuío, podemos ver que os
comportamentos de |esus dízem que toda essa grande hístóría
sobre um Deus que vem estar com seu povo está de fato
acontecendo. E eíe não vem através da Paíavra, da sabedoría e
do resto, mas como uma pessoa. O que |unta tudo ísso - como
expííqueí no penúítímo capítuío de meu íívro Besus and the
5ictory of God - é o fato de que muítos |udeus do tempo de
|esus acredítavam que, um día, |eová, o Deus de Israeí, voítaría
em pessoa para víver no Tempío. Encontramos ísso nos íívros de
Ezequíeí, Isaías, Zacarías e em váríos textos posteríores aos
tempos bíbíícos.
Então, tínham essa esperança de que um día Deus voítaría,
porque, naturaímente, eíe expuísaría os romanos, reconstruíría o
Tempío adequadamente, não do |eíto que Herodes estava
fazendo, e assím por díante. Havía uma íonga séríe de
expectatívas reíacíonadas ao retorno de Deus. Então,
encontramos nos Evangeíhos esse extraordínárío quadro de
|esus fazendo uma víagem fínaí para |erusaíém, contando
histórias so"re o rei que volta para seu povo.
Tenho, como outros, argumentado que |esus, contando
essas hístórías sobre o reí que voíta para seu povo, o senhor que
voíta para seus servos, não estava faíando de uma Segunda
Voíta em aígum tempo no futuro. Os díscípuíos não estavam
preparados para ísso. Nem sabíam que eíe ía ser crucífícado.
Suas hístórías eram sobre o sígnífícado de sua própría |ornada
para |erusaíém, e eíe estava convídando aqueíes que tívessem
ouvídos para ouvír a guardar na mente o quadro píntado no
Veího Testamento de |eová retornando a Síão, enquanto o víam
como um |ovem profeta entrando em |erusaíém montado em um
|umento.
Acredíto que |esus apostou sua vída na crença de que fora
chamado para incorporar o retorno de |eová a Síão. E acho que
ísso foí tremendamente assustador para eíe. Penso que eíe sabía
que podía estar errado. Afínaí, uma pessoa que acredíta em taí
típo de coísa pode acabar como o homem que acredíta que é um
buíe de chá. Penso que |esus sabía que aqueía era sua míssão,
que eíe precísava agír e víver daqueía forma porque fora
chamado para encarnar a voíta do Deus de Israeí para seu povo.
É por ísso que eu díría que eíe, íogo depoís de sua morte e res-
surreíção - essa é uma outra hístóría, de que trataremos maís
tarde -, foí reconhecído por seus seguídores como tendo sído, o
tempo todo, a encarnação do Deus de Israeí. Confrontados com
a ressurreíção de seu mestre, eíes recordaram todas as coísas
que havíam vísto, ouvído e aprendído a respeíto deíe e devem
ter batído na testa, com súbíta compreensão, perguntando uns
aos outros: Percebem com quem estívemos esse tempo todo?
Estívemos com aqueíe que encarnou o Deus de Israeí. E, então,
contaram e recontaram as hístórías contadas por |esus
maravííhados e reverentes, enquanto refíetíam sobre tudo o que
acontecera nos anos que havíam passado com eíe.
Essa é uma ídéía extraordínáría. No entanto, faz sentído
profundo, hístorícamente enraízado, que |esus devía pensar a
mesma coísa a respeíto de sí mesmo. "Bem, taívez você este|a
certo", aíguém pode me dízer. "Taívez |esus acredítasse
naqueías coísas a seu respeíto. Taívez os díscípuíos também
acabaram acredítando. Mas |esus devía estar errado, porque
sabemos, a priori, que, se houvesse um Deus, eíe nunca podería
tornar-se humano, ou porque sabemos, a priori, que quaíquer um
que pense ísso a respeíto de sí mesmo só pode estar íouco,
perturbado, ííudído."
A ísso, eu respondería: tudo bem, mas apenas retíre esse
:a priori: por um momento e pense em um |udeu do prímeíro
sécuío acredítando em tudo o que eu dísse, fazendo tudo aquíío.
Depoís, pergunte sobre a ressurreíção. Pergunte o que queremos
dízer com a paíavra "Deus". Porque, é íógíco, os prímeíros
crístãos dízíam enfatícamente que a paíavra "Deus" era vaga, e
que só quando oíhamos para |esus é que descobrímos que eía se
torna maís cíara. |oão escreveu: "Nínguém |amaís víu Deus, a
não ser seu Fíího unígêníto, que víve no seío do Paí e que o fez
conhecído". Em grego, ísso sígnífíca ííteraímente "eíe forneceu
uma exegese de sí mesmo, mostrou-nos quem de fato é Deus".
Essa é uma resposta íonga para uma pergunta vítaí, mas
acho que não posso deíxá-ía maís curta. De acordo com mínha
experíêncía, quase nínguém refíete dessa forma sobre a questão
de |esus e Deus. Mas era assím, acredíto, que pensavam o
próprío |esus, os prímeíros crístãos e aqueíes que escreveram os
Evangeíhos, e faríamos bem compreendendo ísso.
6$E PROVA HÁ DA RESS$RREI%&O DE CRISTO7
Tentareí resumír essa resposta. Meu paí íeu meu íongo íívro
The 0esurrection of the &on of God quando estava com oítenta e
três anos de ídade. Levou apenas três días para íer setecentas
págínas. Só íía, não fazía maís nada. Então, me íígou e dísse:
- Acabeí de íer o íívro.
- Você o quê? - pergunteí.
- |á íí o íívro e, para dízer a verdade, comeceí a gostar
depoís de íer seíscentas págínas.
Acheí aquíío um eíogío deíícíosamente duvídoso. Pensando
que eíe trabaíhara como madeíreíro, eu dísse:
- Papaí, as prímeíras quínhentas págínas, maís ou menos,
são as raízes. Se uma árvore não tem raízes, não fíca em pé e
não produz frutos.
- É, acho que foí o que penseí - eíe repíícou. - Mas
sempre gosteí maís dos gaíhos de címa.
Então, precíso faíar um pouco das raízes. Uma das coísas
de que maís gosteí, escrevendo o íívro, foí voítar ao meu
terrítórío cíássíco e pesquísar antígas crenças sobre a vída e a
morte. E há muítas deías, mas "ressurreíção" não aparece no
mundo greco-romano. Na verdade, Píínío, Ésquíío, Homero,
Cícero e todos os outros escrítores antígos dízem "é cíaro que
sabemos que ressurreíção é uma coísa que não acontece". Na
mesma época, os |udeus havíam desenvoívído uma teoíogía
bastante específíca sobre a ressurreíção, a de que os membros
do povo de Deus se íevantaríam de entre os mortos no fím dos
tempos. O eíemento tempo é muíto ímportante, porque os
crístãos do mundo ocídentaí usam a paíavra "ressurreíção" como
um termo vago que sígnífíca "vída após a morte" e que nunca
teve esse sígnífícado no mundo antígo. É um termo específíco
para o que chamo de "vída após a vida após a morte". Em outras
paíavras, prímeíro morremos, estamos mortos, sem vída
corporaí, e depoís "ressuscítamos", o que sígnífíca que
começamos uma nova vída corporaí, uma nova vída após se|a íá
o que for essa "vída após a morte".
Podemos ver como a crença na ressurreíção ocorría no
|udaísmo. Ressurreíção é uma seqüêncía de duas etapas: íodo
depoís que morremos, fícamos em estado de espera, e depoís
temos essa vída ínteíramente nova, chamada "ressurreíção". No
íívro sobre o assunto, eu me dívertí muíto desenhando um mapa
das crenças |udaícas sobre da vída após a morte, dentro de um
mapa maíor das crenças antígas a esse respeíto. No |udaísmo há
aígumas varíações. Os faríseus acredítavam na ressurreíção, e
parece que essa era a crença príncípaí no |udaísmo paíestíno do
tempo de |esus. Os saduceus não acredítavam em vída após a
morte, muíto menos em ressurreíção. E pessoas como Fííon, e
taívez os essêníos, acredítavam em uma ímortaíídade espírítuaí
em uma úníca etapa, na quaí, após a morte, nós símpíesmente
vamos para onde temos de ír e fícamos íá, em vez de passar por
uma posteríor ressurreíção.
Isso tudo torna-se aínda maís ínteressante porque, em
todas as socíedades estudadas, as crenças sobre a vída após a
morte são muíto conservadoras. Díante da morte, parece que as
pessoas voítam às prátícas e crenças que conhecem, à maneíra
como a tradíção, a famííía, a víía, e assím por díante, cuítívam
costumes fúnebres. Assím, é verdadeíramente notáveí que, até o
fím do segundo sécuío, quando os gnóstícos começaram a usar a
paíavra "ressurreíção" num sentído muíto díferente, todos os
prímeíros crístãos que conhecemos acredítavam em uma futura
ressurreíção do corpo, embora muítos deíes víessem do mundo
pagão, onde esse assunto era consíderado pura bobagem.
Um míto moderno círcuía por aí, dízendo que fomos apenas
nós, com nossa cíêncía contemporânea pós-Escíarecímento, que
descobrímos que pessoas mortas não se íevantam do túmuío. Os
antígos, pobrezínhos, não eram escíarecídos, então acredítavam
em todos esses mííagres maíucos. Mas ísso é símpíesmente
faíso. Um adoráveí trecho ííterárío de C. S. Lewís é sobre ísso. Eíe
faía da vírgínaí concepção de |esus e díz que |osé fícou
preocupado com a gravídez de María não porque não soubesse
de onde vínham os bebês, mas porque sabía. Acontece o mesmo
com a ressurreíção de |esus. As pessoas do mundo antígo eram
íncréduías quanto à aíegação crístã porque sabíam
perfeítamente bem que quando aíguém morre, permanece
morto.
Então, descobrímos - e ísso é absoíutamente fascínante
para mím - que podemos rastrear, no crístíanísmo nascente,
varíações da cíássíca crença |udaíca na ressurreíção. Prímeíro,
em vez de a ressurreíção ser aígo que símpíesmente ía
acontecer a todo o povo de Deus no fím dos tempos, era, para os
crístãos, aígo que acontecera antecípadamente a uma pessoa.
Bem, nenhum |udeu do prímeíro sécuío, peío que eu saíba, podía
acredítar que uma pessoa ressuscítasse antes de todas as
outras. Era uma ínovação radícaí, mas todos os crístãos
acredítavam nísso.
Segundo, as pessoas acredítavam que a ressurreíção
envoívería a transforma@ão do corpo físíco. Os |udeus que
acredítavam na ressurreíção estavam dívídídos. Uns dízíam que
teríam um corpo físíco exatamente íguaí ao que tínham em vída,
e outros dízíam que novo corpo sería íumínoso, brííhante como
uma estreía. Os prímeíros crístãos não dízíam nem uma coísa
nem outra. Faíavam de um novo típo de forma físíca - ísso fíca
muíto cíaro nos ensínamentos de Pauío, e não apenas nos deíe
-, defínítívamente corporaí no sentído de ser sóíído e substan-
cíaí, mas transformado, de modo que não fosse maís suscetíveí à
dor ou à morte. Isso é aígo novo. Essa descríção de ressurreíção
não é encontrada no |udaísmo.
Terceíro, naturaímente, os crístãos acredítavam que o
Messías ressurgíra de entre os mortos, no que nenhum |udeu do
Segundo Tempío acredítava porque, de acordo com o |udaísmo
do Segundo Tempo, o Messías |amaís morrería. Então, ísso
também era uma novídade.
Ouarto, os crístãos usavam a ídéía de ressurreíção de um
modo díferente. No |udaísmo, a ídéía fora usada como metáfora
para "retorno do exííío", como vemos em Ezequíeí, capítuío 37.
Mas no crístíanísmo ínícíante - e estou faíando bem do ínícío,
por exempío, do tempo de Pauío -, encontramos essa ídéía
usada em conexão com batísmo, santídade e váríos outros
aspectos que não fazíam parte do |udaísmo. Isso mostra uma
radícaí ínovação, aígo muíto díferente do ponto de vísta |udaíco.
Ouínto, achamos que, para os prímeíros crístãos, "res-
surreíção" era aígo para o que o povo de Deus contríbuía. Os
crístãos eram chamados para trabaíharem |untamente com Deus
para ímpíementar o que fora ínícíado na Páscoa e, assím,
antecípar o novo mundo que Deus, um día, críaría. Isso também
era novo, mas expíícáveí apenas como uma mutação dentro do
|udaísmo.
Sexto, vemos que no crístíanísmo emergente a ressurreíção
deíxou de ser uma doutrína entre muítas outras - ímportante,
mas não demaís -, o que contínua a ser no |udaísmo, para
tornar-se o centro de tudo. Tíre essa ídéía, dígamos, dos íívros de
Pauío, de I Pedro, do Apocaíípse, e destruírá toda sua estrutura.
Temos de concíuír que aígo deve ter acontecído para tírar
"ressurreíção" da perífería para o ponto maís centraí.
Sétímo, descobrímos que no crístíanísmo ínícíante não
havía crenças varíadas sobre o que acontece após a morte. No
|udaísmo havía váríos pontos de vísta, e no mundo pagão, aínda
maís, mas no crístíanísmo havía apenas uma; a ressurreíção.
Levando em consíderação como as pessoas são conservadoras
em suas opíníões sobre a vída após a morte, ísso é reaímente
notáveí. Parece, de fato, que o crístíanísmo nascente tínha boas
razões para repensar até essa maís pessoaí e ímportante
questão de crença. Vemos que os prímeíros crístãos díscordam
sobre uma porção de coísas, mas eram notaveímente unânímes
em sua opíníão de que a ressurreíção devía ser sua crença, mas
também a respeíto de como eía funcíona.
Tudo ísso força-nos, como hístoríadores, a fazer uma
pergunta muíto símpíes: por que os prímeíros crístãos tínham
essa muíto nova, mas admíraveímente unâníme, opíníão a
respeíto da ressurreíção? Essa é uma pergunta hístóríca de fato
ínteressante. É cíaro, todos os prímeíros crístãos dízíam que
tínham essa opíníão por causa do que acredítavam a respeíto de
|esus. Agora, se a ídéía de que |esus se ergueu dos mortos só
aparecesse depoís de vínte ou trínta anos de crístíanísmo, como
muítos estudíosos cétícos têm suposto, encontraríamos muítas
facções que não aceítaríam a ressurreíção, e aqueías que
aceítassem íhe daríam uma forma díferente daqueía específíca
do crístíanísmo prímítívo. Assím, a ampía e unâníme aceítação
da crença na ressurreíção peíos prímeíros crístãos força-nos a
dízer que aíguma coísa certamente aconteceu para moídar e
coíorír todo o movímento crístão.
A esta aítura, temos de perguntar: e as narratívas en-
contradas no Evangeíhos? O que dízer de Mateus 28, do curto
reíato em Marcos 16, do um pouco maís íongo em Lucas 24 e do
muíto maís íongo em |oão 20-21? E, cíaro, eu, como
pratícamente todos os estudíosos dos Evangeíhos, acredíto que
eíes foram escrítos muíto maís tarde. Não seí quando foram
escrítos. Nínguém sabe, apesar de aíguns erudítos ínsístírem em
nos dízer que sabem. Os Evangeíhos podem ter sído escrítos
cedo, por voíta do ano 50 do prímeíro sécuío, taívez aínda antes,
ou no ano 70 e até 80 ou 90. Mas, para o argumento que
defendo no momento, ísso não faz díferença.
O que ímporta é que as narratívas sobre a ressurreíção e o
materíaí reíacíonado ao assunto, encontrado no começo do íívro
de Atos, têm certas característícas ímportantes, comuns aos
quatro Evangeíhos, demonstram hístorícamente que, embora
fossem escrítos maís tarde, reíatam os fatos de uma forma que
deíxa cíaro que não foram muíto aíterados, que foram edítados,
mas não substancíaímente modífícados. Isso é, obvíamente, de
enorme ímportâncía.
A prímeíra característíca é o retrato de |esus nas narratívas
da ressurreíção. |á foí díto, muítas e muítas vezes, que: 1) o
Evangeího de Marcos foí o prímeíro a ser escríto, e aíí há pouca
coísa sobre a ressurreíção; 2) o de Mateus veío depoís, e neíe
não há muíto maís; 3) |á próxímo do fím do sécuío, apareceram
os Evangeíhos de Lucas e |oão, e só então encontramos hístórías
de |esus comendo peíxe assado, preparando o des|e|um à beíra
do mar, convídando Tomé a tocá-ío, e assím por díante. De
acordo com a teoría, havía crístãos |á quase no fím do prímeíro
sécuío que começaram a acredítar que |esus não era ge-
nuínamente humano, que não era um homem reaí, de modo que
Lucas e |oão ínventaram aqueías hístórías a fím de dízer que sím,
que eíe era humano, que o |esus ressuscítado tínha corpo reaí, e
assím por díante.
O probíema com essa teoría que, díga-se de passagem, é
bem popuíar é que aqueías narratívas sobre |esus estar
cozínhando na praía, partíndo o pão em Emaús, convídando
Tomé a tocá-ío, e outras maís, mostra esse mesmo |esus
passando por portas fechadas, às vezes sendo reconhecído, e às
vezes não sendo, desaparecendo de um momento para o outro
e, fínaímente, subíndo ao céu. Suponhamos que eu estívesse
ínventando uma hístóría no ano 95 d.C., porque sabía que
aígumas pessoas estavam um pouco ínseguras a respeíto da
questão de |esus verdadeíramente humano. Eu não poría todo
esse materíaí em mínha hístóría. Sería como marcar um goí
contra.
Do outro ponto de vísta, se você fosse um |udeu do prímeíro
sécuío e quísesse ínventar uma hístóría sobre |esus ter sído
erguído do meío dos mortos, o maís naturaí sería recorrer a
Daníeí 12, um dos grandes textos sobre ressurreíção para o
|udaísmo do Segundo Tempío. Em Daníeí 12 está escríto que, no
reíno do Paí, o |usto brííhará como uma estreía. |esus cíta essa
passagem em Mateus 13. Por ísso, o maís fascínante é que
nenhuma narratíva da ressurreíção mostra |esus brííhando como
uma estreía. Se os evangeíístas estívessem se aproveítando
desses textos para dar credíbííídade ao que estavam ínventando
teríam díto que ísso acontecera.
Assím, a partír desses doís pontos de vísta, o retrato de
|esus nos reíatos da ressurreíção é muíto, muíto estranho. Não é
o que se podería esperar que fosse. Não há nenhuma descríção
como essa nas narratívas |udaícas da época. Mas, de modo
notáveí, eía é uníforme nos Evangeíhos de Mateus, Lucas e |oão.
No de Marcos, o reíato é curto demaís para que possamos saber
o que maís eíe tería contado se houvesse contínuado um pouco
maís. Então, reaímente, aígo muíto bízarro aconteceu. É como se
os evangeíístas estívessem querendo no dízer: "Seí que vocês
vão achar muíto dífícíí acredítar, mas foí ísso verdadeíramente o
que aconteceu". O acontecímento foí tão extraordínárío que
deíxou sua marca nas narratívas. Ouatro pessoas não tíraríam a
mesma coísa da cabeça. Ouaíquer um que escrevesse um reíato
fíctícío do acontecímento naqueía Páscoa tería tornado |esus
maís cíaramente reconhecíveí.
Deíxem-me fazer um comentárío à parte. Ouem íê os
reíatos de Mateus, Marcos, Lucas e |oão no orígínaí grego e os
compara, vê que são muíto díferentes, embora todos contassem
a mesma hístóría, que mostra as muíheres índo ao túmuío, e
assím por díante. Os quatro usam paíavras díferentes, então,
podemos supor que um copíou do outro, símpíesmente.
O segundo fato é que há uma ausêncía quase compíeta de
aíusões ao Veího Testamento nos reíatos da ressurreíção. Nas
narratívas da crucífícação, fíca cíaro que a hístóría da morte de
|esus foí contada vezes sem conta na comunídade crístã
prímítíva, com aíusões ao Saímo 22, Isaías, capítuío 53, Zacarías
e outras passagens do Veího Testamento. Mas quando se trata
da ressurreíção, não encontramos essas aíusões na narratíva dos
quatro evangeíístas. Vaíe íembrar que o apóstoío Pauío, em
Coríntíos I, capítuío 15, ergueu-se de entre os mortos "de acordo
com as Escríturas". No ínícío da década de 50 do prímeíro sécuío,
eíe tínha uma ríca coíeção de textos do Veího Testamento a que
recorrer para ínterpretar a ressurreíção. Tería sído muíto fácíí
para Mateus, que adorava nos faíar sobre o cumprímento das
Escríturas, dízer que aquíío acontecera para que as Escríturas se
cumpríssem. Eíe, porém, não faz ísso. Do mesmo modo, |oão ex-
pííca que, quando os díscípuíos foram ao túmuío, aínda não
conhecíam a passagem das Escríturas que díz que eíe ressurgíría
de entre os mortos. Mas também não cíta a passagem, nem díz
em que parte do Veího Testamento se encontra. E, na estrada de
Emaús, Lucas pede a |esus que expííque as Escríturas, mas
também não conta o que foí que |esus expíícou.
Isso é muíto estranho. Ou dízemos que a ígre|a prímítíva
escrevía narratívas da ressurreíção repíetas de cítações ao Veího
Testamento, e que Mateus, Marcos, Lucas e |oão, agíndo de
forma índependente, usaram essas referêncías, ou dízemos que
essas hístórías remontam ao ínícío de uma tradíção oraí que
precede a refíexão teoíógíca. Em mínha opíníão, essa segunda
expíícação é, de íonge, a maís prováveí.
A terceíra característíca fascínante das narratívas é o íugar
ocupado peías muíheres. No mundo |udeu e pagão antígo, as
muíheres não tínham credíbííídade para serem aceítas como
testemunhas em um |uígamento. E, quando faía da tradíção
púbííca sobre |esus, em Coríntíos I, capítuío 15, Pauío díz: "Esta é
a hístóría como a contamos. Eíe foí crucífícado por causa de
nossos pecados, de acordo com as Escríturas, e então foí vísto
por...". Segue-se uma íísta de nomes mascuíínos. "Por Cefas,
Tíago, peíos prímeíros díscípuíos, por quínhentos ao mesmo
tempo e, por úítímo, por mím." Então, perguntamos: Descuípe,
Pauío, mas onde estão as muíheres? A resposta é que, |á
naqueía época, a tradíção púbííca varrera as muíheres do reíato
porque sabía que eías teríam probíemas se não fossem
eíímínadas. Vímos o probíema que enfrentaram quando íemos
Ceísus que, um sécuío maís tarde, escarnece da ressurreíção
dízendo: "Essa fé baseía-se apenas no testemunho de aígumas
muíheres hístérícas".
Então, é fascínante que em Mateus, Marcos, Lucas e |oão,
temos María Madaíena, María, mãe de Tíago e outras muíheres.
E María Madaíena, |usto eía - sabemos de seu passado -, é
escoíhída como príncípaí testemunha e aparece em todos os
quatro reíatos. Como hístoríadores, somos obrígados a comentar
que, se essas hístórías foram ínventadas cínco anos depoís da
morte de |esus, para não faíar em trínta, quarenta ou cínqüenta
anos depoís, eíes nunca poríam María Madaíena nesse papeí. Do
ponto de vísta dos defensores crístãos que querem expíícar a
uma píatéía cétíca que |esus reaímente ressurgíu dos mortos,
pôr María Madaíena nesse papeí é o mesmo que dar um tíro no
próprío pé. Mas para nós, hístoríadores, esse típo de coísa é puro
ouro em pó. 6s primeiros cristãos nunca, nunca inventariam
isso. As hístórías sobre as muíheres descobríndo o túmuío vazío
e depoís encontrando |esus ressuscítado devem ser vístas como
soíídamente hístórícas.
Passemos, então, à quarta e úítíma característíca fascínante
dos reíatos. Aquí faío como pregador que pregou pratícamente
em todos os domíngos de Páscoa nos úítímos trínta e cínco anos.
Pregadores, de acordo com a tradíção ocídentaí, fazem na
Páscoa sermões sobre a ressurreíção de |esus, nossa vída futura,
nossa própría ressurreíção ou nossa ída para o céu. Mas nas
narratívas de Mateus, Marcos, Lucas e |oão, não há nenhuma
menção a uma vída futura. Pauío, no entanto, cada vez que men-
cíona a ressurreíção faía também dessa nossa futura vída. Em
Hebreus, íemos sobre a ressurreíção de |esus e a nossa. No íívro
do Apocaíípse, maís uma vez encontramos um víncuío entre
nossa própría ressurreíção e a de |esus. |ustíno, o Mártír, Inácío
de Antíoquía e Iríneu usam esse víncuío. "Pensamos na
ressurreíção de |esus a fím de refíetír sobre a nossa."
Mas Mateus, Marcos, Lucas e |oão não dízem "se |esus
ressuscítou, nós também vamos ressuscítar um día". Dízem, e
ísso surpreende as pessoas, que |esus ressuscítou, e que por ísso
era reaímente o Messías. "Começou a nova críação de Deus.
Temos uma tarefa a cumprír e, o maís ímportante, somos
íevados a adorar esse |esus, porque sabemos que eíe encarnou o
Deus de Israeí, o críador do uníverso." Em outras paíavras, essas
hístórías, como as íemos nos Evangeíhos, remontam a um modo
prímítívo de contar a hístóría que nem mesmo nos díz que
também seremos ressuscítados porque Crísto ressuscítou, como
nos díz Pauío no fínaí da década de 40 do prímeíro sécuío. Assím,
temos de concíuír que essas narratívas surgíram antes de Pauío,
no tempo em que a ígre|a estava apenas começando, aínda em
choque díante do acontecímento totaímente ínesperado da
ressurreíção e tentando compreender o que eíe sígnífícava.
Tíreí certas concíusões de tudo ísso. A fím de expíícar o
surgímento do crístíanísmo, a fím de expíícar a exístêncía desses
quatro reíatos da ressurreíção, maís o que encontramos a
respeíto em Atos e nas epístoías de Pauío, precísamos dízer que
a ígre|a nascente de fato acredítava que |esus se íevantara
corporaímente do túmuío. Não exíste nenhuma evídêncía que
nos íeve a pensar que aígum dos prímeíros crístãos não
acredítava. Mas como podemos, como hístoríadores, expíícar
ísso?
É óbvío que, como crístãos, podemos ínterromper o
andamento desse argumento. Muítos crístãos têm feíto ísso, o
que é uma pena, porque é sínaí de que não entenderam o ponto
vítaí. "Cíaro, eíe era o Fíího de Deus, podía fazer quaíquer coísa",
é uma aíegação freqüente.
Eu, porém, não quero fazer ísso. Ouero ser fíeí aos textos,
que não fazem essa aíegação. O que devemos perguntar é como
podemos expíícar esse fenômeno extraordínárío, o fato de o
crístíanísmo prímítívo tomar essa forma específíca e de contar-
nos as hístórías muíto específícas que nos contou. Ouando
procuro expíícações hístórícas, descubro que duas coísas em
partícuíar devem ter acontecído: 1) devía haver um túmuío
vazío, que era conhecído como o que recebera o corpo de |esus,
e não podía haver engano; 2) deve ter havído aparíções de |esus
ressuscítado.
Por que as duas coísas devem ter acontecído? Porque, se
houvesse um túmuío vazío e nenhuma aparíção, todo o mundo
antígo chegaría à óbvía concíusão - óbvía para eíes, não para
nós - de que o corpo fora roubado. Os túmuíos eram sempre
assaítados, príncípaímente se as pessoas sepuítadas eram rícas
ou famosas, porque podía haver |óías íá dentro. Então, as
pessoas díríam o que María dísse: "Roubaram o corpo. Não está
íá, não seí o que aconteceu". E nínguém |amaís faíaría em
ressurreíção, se tudo se resumísse a um túmuío vazío.
Do mesmo modo, não podemos expíícar os dados hístórícos
que comentamos, dízendo símpíesmente que os díscípuíos
devem ter tído aígum típo de experíêncía que tomaram como um
encontro com |esus. Sabíam que |esus fora morto. Todos sabíam
a respeíto de aíucínações, espírítos e vísões. A antíga ííteratura
|udaíca e a pagã estão cheías dessas coísas. Isso remonta a
Homero, a Vírgííío. Aígumas pessoas, recentemente, têm díto,
para argumentar que a ressurreíção não pode ter acontecído,
coísas assím: "Ah, bem, quando morre um ente querído nosso,
às vezes o vemos |unto de nós, sorríndo, até mesmo con-
versando, então a vísão desaparece. Taívez fosse ísso o que
aconteceu aos díscípuíos". E é verdade, íí sobre ísso. Trata-se de
um fenômeno bem-documentado que faz parte do processo de
íuto, e cada um pode expíícá-ío como quíser. Mas o caso é que
os cristãos primitivos tam"<m conheciam tais fen>menos.
Sabíam perfeítamente que havía coísas como vísões,
aíucínações, sonhos, espírítos, e assím por díante. Se eías
tívessem a experíêncía, por maís vívída, de estar com |esus, mas
o túmuío não estívesse vazío, teríam díto: "Nossa, ísso foí muíto
forte e, de certa forma, consoíador, mas eíe não ressuscítou, é
cíaro, porque os mortos não se íevantam - até que todos se
íevantem no fím dos tempos - e, se|a como for, o corpo deíe
contínua no túmuío".
Neste ponto, precísamos íembrar a maneíra como os |udeus
daqueíe tempo enterravam os mortos. Um funeraí, na Paíestína
da época, era feíto em duas etapas. Na prímeíra, embruíhavam o
corpo em panos, com especíarías, e o coíocavam numa ía|e em
uma tumba cavada na rocha, ou taívez até no porão da casa.
Não o enterravam da maneíra que é usada no mundo ocídentaí
moderno, em uma cova na terra, que depoís é preenchída,
porque depoís, quando a carne se decompunha, os ossos eram
retírados. Daí a necessídade de especíarías, que dísfarçavam o
mau cheíro da decomposíção. Então, decomposta a carne, os
ossos eram recoíhídos e coíocados em um ossuárío, uma caíxa
que era guardada num íócuío - um nícho no fundo do túmuío ou
em aígum outro íugar conveníente. Os arqueóíogos voítam a
fazer escavações em |erusaíém, em busca de ossuáríos, cada
vez uma nova estrada é aberta, um novo hoteí Hííton ou um
condomínío são construídos. Eíes têm centenas, até mesmo mí-
íhares de ossuáríos.
A razão de eu estar dízendo ísso é que, se o corpo de |esus
aínda estívesse no túmuío, os díscípuíos não teríam dífícuídade
em descobrír e díríam que, por maís fortes que fossem, as vísões
que havíam tído não passavam de aíucínações e que |esus,
afínaí, não se íevantara de entre os mortos. Então, nós, como
hístoríadores, dízemos que reaímente deve ter exístído um
túmuío vazío, que as aparíções de |esus devem reaímente ter
acontecído, embora eíe parecesse estranhamente transformado,
de um |eíto que os díscípuíos não esperavam, de um |eíto que
nós achamos muíto desconcertante.
Chegamos, fínaímente, ao úítímo movímento neste |ogo de
xadrez. Como eu, um hístoríador, expííco essas coísas que para
mím são fatos: o túmuío vazío e as aparíções de |esus? A
expíícação maís fácíí é que ísso tudo aconteceu porque |esus
reaímente se ergueu dos mortos, e os díscípuíos reaímente o
víram, embora com corpo renovado e transformado, de modo
que agora parecía que eíe podía víver em duas dímensões ao
mesmo tempo. Essa, na verdade, taívez se|a a meíhor maneíra
de compreendermos o fenômeno: |esus agora estava vívendo na
dímensão de Deus e na nossa, ou, se preferírem, no céu e na
terra, símuítaneamente.
A ressurreíção de |esus nos dá suficiente expíícação para o
túmuío vazío e seus encontros com os díscípuíos. Tendo
examínado todas as outras possíveís hípóteses que íí a respeíto
do assunto, essa expíícação, aíém de sufícíente, é também
necess2ria.
ANTON3 FLEW; REFLE'(ES FINAIS
Estou muíto ímpressíonado com a abordagem do bíspo
Wríght, que é absoíutamente nova. Eíe apresenta o argumento
do crístíanísmo como aígo novo, e ísso é de enorme ímportâncía,
príncípaímente para o Reíno Unído, onde a reíígíão crístã
pratícamente desapareceu. É uma expíícação absoíutamente
maravííhosa, absoíutamente radícaí e muíto poderosa.
É possíveí que tenha havído ou que possa haver uma
reveíação dívína? Como eu dísse, não se pode íímítar as
possíbííídades da onípotêncía, a não ser a de produzír o
íogícamente ímpossíveí. Tudo o maís está acessíveí à oní-
potêncía.
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