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III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO

Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009

AUTO-ORGANIZAÇÃO E PROCESSOS EDITORIAIS NA WIKIPEDIA:
UMA ANÁLISE À LUZ DE MICHEL DEBRUN 1

Carlos Frederico de B. D'ANDRÉA (UFMG/UFV)2

Resumo
Este artigo visa aproximar o conceito de auto-organização de sistemas complexos com as rotinas
colaborativas de produção editorial da Wikipédia. Iniciamos com uma breve revisão da noção de
“auto-organização”, sua relação com conceitos afins, como emergência e complexidade, e o uso
recente do termo para caracterizar a dinâmica das redes sociais online. Em seguida, é apresentada a
abordagem conceitual proposta pelo filósofo Michel Debrun. A partir de suas ideias, problematizamos
o projeto editorial da Wikipédia e sua evolução nos últimos anos, ressaltando os desafios da
enciclopédia colaborativa na construção de um modelo que concilie a produção aberta de textos e e o
controle dos processos internos de edição.

Palavras-chave: Auto-organização; Edição; Wikipédia

A expressão “auto-organização” é um dos conceitos mais utilizados para se caracterizar
atualmente a dinâmica descentralizada de produção e publicação de conteúdos na internet.
Quase sempre, no entanto, nota-se uma ausência de rigor no uso da expressão, o que pode
levar a interpretações e apropriações simplistas e mesmo equivocadas.

Neste artigo procuramos apresentar a noção de auto-organização na perspectiva do filósofo
Michel Debrun, responsável, nos anos 1990, pela coordenação de estudos interdisciplinares
baseados neste conceito junto ao Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência
(CLE) da Unicamp. Sem ater-se aos modelos e exemplos ligados às ciências duras, o autor
procura caracterizar um sistema auto-organizado e, em seguida, propõe uma distinção de dois
modelos: Auto-Organização Primária, caracterizada pela ausência de um sujeito central e de
um objetivo comum estabelecido a priori, e Auto-Organização Secundária, em que forças e
sujeitos passam a exercer “um papel hegemônico, mas não dominante” (1996a, p.12) sobre as
interações estabelecidas no sistema.

Por enfatizar o caráter processual dos sistemas complexos, o conceito de auto-organização
nos parece especialmente importante na compreensão da dinâmica da rede de produção

1
Trabalho apresentado ao Grupo de Discussão “Projetos e processos na web colaborativa”, no III Encontro
Nacional sobre Hipertexto, Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009.
2
Doutorando em Estudos Linguísticos pela Fale/UFMG e professor do Departamento de Comunicação Social da
Universidade Federal de Viçosa (UFV). E-mail: carlosdand@gmail.com

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editorial da Wikipedia, marcada pela participação de colaboradores voluntários com
diferentes graus de instrução e variados níveis de engajamento. O caráter aberto e, a princípio,
descentralizado da “enciclopédia que todos podem editar” contrasta-se com a rígida rotina de
produção textual e a divisão bem marcada de funções entre os profissionais com diferentes
especialidades – em maior ou menor grau, este é o caso das publicações tradicionais de
caráter enciclopédico ou mesmo jornalístico (D'ANDRÉA e RIBEIRO, 2009).

Ao longo deste artigo, procuramos conciliar os parâmetros descritos por Debrun com
descrições e considerações sobre a evolução da Wikipedia3, de sua fundação, em 2001, ao
momento atual. Por ser um esforço inicial4, não serão apresentados dados ou mesmo
exemplos detalhados da suposta dinâmica auto-organizada da Wikipedia. Iniciamos
apresentando brevemente a origem do conceito de auto-organização, sua relação com termos
afins e seu uso na caracterização das redes sociais on-line.

Auto-organização: da origem às redes sociais na internet

O uso da noção de auto-organização em diferentes áreas do conhecimento, e em especial na
análise de fenômenos das ciências exatas e biológicas, torna árdua a tarefa de caracterizá-la
por completo. Johnson (2003, p.14) aponta que “algumas das maiores mentes dos últimos
séculos – Adam Smith, Friedrich Engels, Charles Darwin, Alan Turing – deram sua
contribuição para a desconhecida ciência da auto-organização”, que só na segunda metade do
século XX começou a ser reconhecida como um campo de estudos.

A auto-organização pode ser considerada uma característica potencial dos sistemas
complexos, cujo comportamento é, por definição, fundamentalmente caracterizado pelas
interações travadas entre os elementos (LARSEN-FREEMAN e CAMERON, 2008). Para os
autores, em um sistema complexo uma mudança é auto-organizada quando “são as
propriedades dinâmicas do sistema que o conduz ao acontecimento, e não alguma força
externa organizadora” (p.58).
3
O projeto Wikipedia é atualmente desenvolvido em mais de 250 línguas e dialetos, que têm autonomia para
produzir versões próprias de verbetes sobre o mesmo tema. Neste artigo, não nos referimos especificamente a
nenhum versão da Wikipedia, mas, em geral, as análises são baseadas em relatos e observações da versão em
inglês da enciclopédia wiki – por isso, adotamos o termo “Wikipedia” (sem acentos).
4
A análise esboçada neste artigo é parte de uma nova etapa da pesquisa de doutorado (Processos editoriais
colaborativos na Wikipédia em português: um estudo sobre a edição de “Biografias de Pessoas Vivas”) em
andamento no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da FALE/UFMG, sob orientação da
professora Carla Viana Coscarelli.

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A origem do termo “auto-organização” é atribuída a Ross Ashby, que, em 1947, publicou o
artigo “Principles of the Self-Organizing Dynamic System”. Ashby, um neurocientista e
matemático inglês, é um dos pioneiros dos estudos da cibernética, assim como Heinz Von
Foerster, que foi responsável, em 1962, pela organização da coletânea “Principles of Self-
Organization”. Recuero (2009, p.88) aponta a principal diferença entre do conceito de auto-
organização concebido pelos estudiosos da segunda cibernética do desenvolvido
posteriormente: “para os mais antigos, como Ashby, a mudança não implicaria,
necessariamente, em aprendizagem e evolução, enquanto que, para os modelos posteriores, há
criação de novas estruturas, novas formas de comportamento”.

Esta segunda perspectiva associa diretamente a auto-organização com a emergência de novos
padrões - emergência é definida por Larsen-Freeman e Cameron (2008) como “o
aparecimento, em um sistema complexo, de um novo estado em um nível de organização
maior que o anterior”. Segundo Johnson (2003, p.14), os sistemas emergentes são aqueles que
“resolvem problemas com auxílio de massas de elementos relativamente simplórios, em vez
de contar com um única ´divisão executiva` inteligente”. Muitos, mas não todos os processos
auto-organizados culminam na emergência de um novo padrão. No mesmo sentido, a
emergência não depende, mas geralmente está associada a relações auto-organizadas. Assim,
entendemos a emergência é uma das consequências possíveis de um processo auto-
organizado.

No ambiente da internet e, em especial nos sites da web 2.05, tem sido comum a utilização da
expressão auto-organização para caracterizar processos de produção e publicação de conteúdo
que não têm uma autoridade mediadora constituída a priori, o que dá mais liberdade e
autonomia para interações entre os envolvidos. Segundo Recuero (2005, p.11), “o próprio
aparecimento de redes sociais na Internet pode ser considerado um comportamento emergente
e auto-organizado”.

As redes sociais, dentro ou fora da internet, têm como uma de suas questões centrais os
padrões de interação entre os sujeitos envolvidos. Neste sentido, Meira e Meira (sem data,
p.04), apontam três características “especialmente importantes para a reflexão acerca da
5
São duas as características fundamentais da web 2.0, ou web colaborativa: o uso da WWW como plataforma
tecnológica e a potencial participação direta dos usuários na elaboração e edição do conteúdo disponível no site.
Para O'Reilly (2005) , o criador do termo, “a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os
efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligência
coletiva"

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emergência e manutenção de redes sociais”: a colaboração, a mudança (isto é, seu caráter
evolutivo) e a auto-organização. Esta terceira característica pode ser observada quando, a
partir de um nível mínimo de colaboração entre os participantes, “o conjunto de interações
possíveis e seus efeitos no sistema não obedecem a causas centrais, sendo, ao invés disso,
distribuídos ao longo da rede”.

Especificamente no caso da Wikipedia, destacamos que a rede de produção de textos em
construção no site não está sujeita a uma autoridade central, responsável por distribuir tarefas
e/ou estabelecer prazos para redação ou edição dos artigos. Ainda que o site conte com um
rígido conjunto de regras e uma crescente estrutura hierárquica, a atuação editorial de cada
editor continua sendo uma combinação de seus interesses e especialidades com o atual
momento de evolução do sistema, que é constantemente modificado pelas contribuições de
outros editores. A conciliação das atuações individuais com a noção fundamental de “bem
comum” que rege a Wikipedia faz deste site, no nosso entender, um sistema privilegiado para
se estudar as relações entre produção editorial e auto-organização.

Auto-organização segundo Michel Debrun

Há auto-organização cada vez que, a partir de um encontro entre elementos realmente (e não
analiticamente) distintos, desenvolve-se uma interação sem supervisor (ou sem supervisor
onipotente) – interação essa que leva eventualmente à constituição de uma "forma" ou à
reestruturação, por "complexificação", de uma forma já existente (DEBRUN, 1996a, p.13)

Francês radicado no Brasil nos anos 1950, o filósofo e professor titular da UNICAMP Michel
Maurice Debrun foi o responsável, nos 1990, pela fundação e condução do Centro de Estudos
de Lógica, Epistemologia e História da Ciência daquela universidade. No CLE, Debrun
liderou um grupo de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento com o objetivo de
desenvolver e aplicar uma teoria interdisciplinar da auto-organização. Em uma das
publicações organizadas com artigos produzidos no CLE, Debrun publicou dois artigos (“A
Idéia de Auto-Organização” e “A Dinâmica da Auto-Organização Primária”) em que explica,
de forma conceitual, o que é e como funciona um sistema auto-organizado.

Para o autor, uma das características principais desses sistemas é a ausência de uma instância
ou um momento do processo que determine decisivamente seu desenrolar. Cada etapa é
condicionada, mas não direcionada pelo movimento anterior, o que enfatiza o caráter
processual dos sistemas auto-organizados. Nas palavras do autor,

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há auto-organização cada vez que o advento ou a reestruturação de uma forma, ao longo de um
processo, se deve principalmente ao próprio processo – às características nele intrínsecas -, e só
em grau menor às suas condições de partida, ao intercâmbio com o ambiente ou à presença
eventual de uma instância supervisora. (1996a, p.4)

Para Debrun (1996a), “o motor principal da auto-organização reside na própria interação
entre elementos 'realmente distintos' (e soltos)" (p.9, grifo dele). Se durante o desenrolar do
processo uma das forças envolvidas mostra-se impositiva ou determinante no rumo das
interações, o processo deve ser caracterizado como uma hetero-organização.

Neste sentido, o início do processo, também chamado de as "condições das condições de
partida”, não pode direcionar seu desenrolar, mas deve sim fornecer “uma orientação ou um
impulso numa certa direção” (1996a, p.6). Esta direção proposta pode ser seguida, desviada
ou mesmo negada pelas partes condutoras. O que determina uma formação auto-organizada é
a “maneira como a proposta foi absorvida, aplicada, redefinida, diluída etc., no decorrer das
interações subsequentes” (1996a, p.9).

Esta “autonomia” não significa, no entanto, que o ponto de partida de um sistema auto-
organizado seja necessariamente uma reunião “causal”, ou mesmo aleatória de elementos sem
um objetivo comum. Para Debrun, é possível que a auto-organização aconteça a partir de
“decisões de indivíduos, de grupos, de entidades”, que representam um "dispositivo
organizacional". Nesta circunstância, o planejamento é um princípio possível na constituição
da auto-organização. A existência de um “projeto cooperativista (ou em torno da decisão de
elaborar um tal projeto)”, no entanto, não seria suficiente para garantir a auto-organização.

Para que o processo se desenrole dentro das condições colocadas pelo autor, é preciso que os
elementos, ou as partes envolvidas comportem-se dentro de alguns parâmetros básicos. Por
exemplo, deve haver uma independência na dinâmica de atuação de cada parte, o que impede
que qualquer uma delas seja decisivamente determinada pela ação de outra. Esta
independência, no entanto, não pode significar isolamento, uma vez que é no “‘carimbo’ da
interação” (1996a, p.09) que o sistema se desenvolve, ou seja, a partir de negociações
constantes travadas entre as partes.

Outro fator que influencia decisivamente é o “grau de distinção” entre os elementos. Quanto
maior a diferença entre eles, e maior o número de elementos distintos, maior a liberdade para

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se associarem e, consequência, gerarem um sistema efetivamente auto-organizado (1996a,
p.15). Neste sentido, Debrun fala da necessidade de "partes semi-distintas", o que indica um
distanciamento entre eles sem culminar numa ruptura. Não há necessidade, ou muitas vezes
sequer a possibilidade, de todas as partes interagirem entre si. Uma parte “sabe” da existência
das outras e pode substituí-la se for necessário (o que requer que as partes tenham um mínimo
de redundância). Referindo-se às idéias de Merleau-Ponty, Debrun chama de "interioridade",
ou "acavalamento" essa situação intermediária de interação, que está entre uma “exterioridade
radical” e a “fusão” de elementos.

Para que um processo seja criativo, isto é, seja constantemente alimentado por novidades, é
preciso que, no encontro, os elementos “não prolonguem exageradamente sua influência
dentro do presente”. Esta “regra” revela uma das características mais importantes dos
processos auto-organizados: um desprendimento em relação às interações passadas. Para
Debrun (1996b, p.36), “em particular no que tange à auto-organização no nível humano, o
sentido das origens, e do passado de modo geral, é constantemente redefinido em função do
presente e dos projetos”.

Wikipedia e auto-organização

O conceito de edição aberta e colaborativa da Wikipedia surgiu de uma ruptura com o
modelo clássico de produção editorial de enciclopédias, baseado na autoridade dos
colaboradores e numa rígida sequencia de etapas de produção. A partir das potencialidades da
ferramenta wiki, a “enciclopédia que todos podem editar” começou, no ano de 2001, com
uma iniciativa paralela ao projeto Nupedia, que tentava construir um modelo que combinava
a valorização do “pedigree” acadêmico com o furor dos voluntários da internet. A
contragosto dos especialistas, a Wikipedia rapidamente atraiu e envolveu mais voluntários
para colaborar, e em meses suplantou o modelo hierarquizado da Nupedia (LIH, 2009;
D'ANDRÉA, 2009a).

O interesse em produzir uma enciclopédia gratuita, livre e de produção aberta foram algumas
das "condições das condições de partida” que orientaram os wikipedistas e mentores do
projeto nos seus primeiros momentos. Um "dispositivo organizacional" compartilhado pelos
envolvidos traduz-se num interesse comum de, em última instância, produzir “a maior
enciclopédia da história da humanidade” (WIKIMEDIA, 2008).

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O “projeto cooperativista” da Wikipedia funcionou inicialmente com sistema de produção
horizontalizado, uma vez que não haviam lideranças constituídas e, principalmente, cargos
burocráticos com vantagens técnicas sobre a gestão da ferramenta. O rápido crescimento do
site nos primeiros anos foi fruto da condução descentralizada de diferentes frentes de trabalho
formadas, ainda que informalmente, por editores independentes e com alto “grau de
distinção” entre si, haja vista abertura a colaboradores de qualquer nível de formação, posição
política, idade etc, o que potencializa a diversidade de visões esperadas dos interagentes de
um sistema auto-organizado.

A independência entre os elementos, no entanto, não culminou em uma ruptura entre eles,
uma vez que objetivos comuns conduzem as atividades dos editores. A busca pelo consenso6,
ainda que provisório e essencialmente negociado, é um dos parâmetros básicos para o
funcionamento da Wikipedia, uma vez que todos os envolvidos devem trabalhar em um texto
único sobre cada assunto. Na versão em francês da enciclopédia wiki, dá-se o nome de “efeito
piranha” às sequencias de edições catalizadas pela ação de um editor, o que releva como uma
ação desencadeia outras de forma auto-organizada (ou até emergente), à semelhança de um
bando de piranhas atacando uma presa (LIH: 2009, p.83). Nesse contexto, a edição
permanente do texto configura, por si só, um espaço de interações entre os agentes ("partes
semi-distintas") envolvidos. A importância da negociação para o desenvolvimento do sistema
fica marcada ainda nos espaços propícios para trocas interpessoais, como as páginas de
discussão vinculadas a cada artigo ou as páginas pessoais dos editores.

O aumento da popularidade da Wikipedia atraiu mais editores para o projeto, e também
alavancou um grande número de conflitos ocasionados, entre outros fatores, por uma maior
dificuldade em se atingir o consenso em torno de temas pouco polêmicos ou em função de um
crescente número de vandalismos. A elaboração de regras internas e eleição para cargos
administrativos foram algumas das reações implementadas pela comunidade de editores mais
engajados como reação a esse contexto. Com a evolução do sistema auto-organizado, “uma
ruptura em relação às interações passadas”, isto é, a renovação constante da função e atuação

6
Segundo a versão em português, “a base das decisões na Wikipédia é o consenso”, que é visto como um
“produto natural do processo de edição”, uma vez que a permanência de uma informação ao longo do tempo
significa concordância com seu conteúdo. As orientações indicam ainda que o consenso “não é imutável” e “não
significa que todos concordem com o resultado”, o que enfatiza o caráter processual de qualquer decisão ou
redação no site. Disponível em Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Consenso> Acesso em 11
jun. 2009.

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de cada interagente, foi perdendo espaço para um modelo meritocrático que valoriza o
histórico de participações dos editores, evidenciando um dos desafios do sistema auto-
organizado da Wikipedia na tentativa de equilibrar autonomia e controle dos processos
editoriais.

Auto-Organização Primária e Secundária

Ao aprofundar as reflexões sobre os sistemas auto-organizados, Michel Debrun propõe uma
distinção de dois modelos: a Auto-Organização Primária e a Auto-Organização Secundária.
Embora um não seja consequência do outro, a argumentação de Debrun dá a entender que a
secundária em geral advém da primária, mas que esta não é uma condição fundadora de um
sistema auto-organizado.

Na Auto-Organização Primária, há “uma multiplicidade de sujeitos em competição –
‘selvagem’ ou regrada, seja ela econômica, política, desportiva etc. – ou colaborando em
torno da implantação ou da busca de um projeto” (DEBRUN, 1996a, p.18). As interações
entre os elementos “realmente distintos” podem “levar a um ajuste organizacional” (1996b,
p.26), mas definitivamente não dependem dele para se iniciar ou desenvolver-se.

Ao ressaltar a ausência de um sujeito central e da orientação por uma “tendência imanente
prévia”, Debrun (1996b) afirma que a dinâmica da Auto-Organização Primária, “no ponto de
partida, não tem finalidade” enquanto grupo. “Eventuais finalidades”, explica o autor, “se
situam a nível dos elementos”, que afinal são humanos com desejos e projetos próprios e, na
dinâmica auto-organizada, são forças que se cruzam (p.29). Portanto, nem mesmo um
objetivo comum os elementos precisam ter. Para Debrun (1996b, p.29), “o processo de auto-
organização não desempenha sempre funções”, isto é, às vezes “não serve para nada”, pelo
menos a princípio.

Neste sentido, o resultado parcial, ou mesmo parte dele, não pode ser reconhecido como obra
de um sujeito, pois, neste caso, o processo e suas interações superam os sujeitos envolvidos.
Nas palavras de Debrun (1996a, p.18), “houve sujeitos na auto-organização, mas não o
Sujeito da auto-organização” (grifos dele). O autor propõe a seguinte caracterização da Auto-
Organização Primária:

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Há auto-organização primária quando a interação seguida de eventual integração se
realiza entre elementos totalmente distintos (ou havendo, pelo menos, predominância de
tais elementos), num processo sem sujeito nem elemento central nem finalidade
imanente – as possíveis finalidades situando-se a nível dos elementos. (1996a, p.13)

A Auto-Organização Secundária é, como o próprio nome já indica, uma fase mais adiantada
do processo, quando um sistema já está constituído – trata-se da “auto-complexificação de um
organismo instituído”. Neste momento, coloca Debrun, é comum a emergência de uma "‘face-
sujeito’ que, frente a um desafio externo ou interno, ‘decide’, orienta, impulsiona e controla a
auto-transformação do organismo rumo a um nível de complexidade superior" (1996a, p.11).

Para que permaneça sendo uma atividade auto-organizada, é preciso que o peso dessa face-
sujeito seja relativizada, e que se mantenha a relevância da participação dos demais elementos
e, sobretudo, a interação entre eles. As “faces-sujeitos” que atuam como “partes diretoras”
devem exercer “um papel hegemônico, mas não dominante” (1996a, p.12). Assim, para façam
valer sua força, devem negociar, ou mesmo solicitar sua autoridade com as demais partes, e
não simplesmente impô-la, ou exercê-la.

Outra característica que aproxima um processo da Auto-Organização Secundária é seu avanço
na fase de endogenização, o que significa que há um aumento na distância entre o universo de
“dentro” e o de “fora”, tornando-se o processo menos aberto às variáveis externas e “cada vez
mais responsável pelo seu próprio desenrolar” (1996b, p.35). Segundo Debrun, são três as
condições para endogenização. Primeiro, “o processo não deve ter um centro absoluto”, capaz
de subjugar o funcionamento das partes. No entanto, deve ter construído, ainda ao longo do
processo de Auto-Organização Primária, um atrator, responsável por “tornar cada vez mais
provável a evolução do processo numa certa direção” (segunda condição). Ao longo do
tempo, o atrator tende a imobilizar o processo de interações, o que pode ser freado ou mesmo
anulado “pelas provocações externas, que reabrem o acesso ao mundo” (p.37). Trata-se,
portanto, de um jogo de tensões entre o fechamento do sistema em si mesmo, guiado por um
atrator, e a abertura ao acaso do ambiente externo. A terceira condição é a “presença de uma
memória ‘efetiva’” na constituição do atrator, o que garante um diálogo constante com as
interações anteriores, porém sem se deixar condicionar por elas. Nas palavras de Debrun, “o
passado se mantém diferente do presente e, todavia, ligado diretamente a ele” (p.38). Para
Debrun, há Auto-Organização Secundária quando,

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num processo de aprendizagem (corporal, intelectual ou existencial), a interação se desenvolve
entre as partes ("mentais" e/ou "corporais") de um organismo – a distinção entre partes sendo
então "semi-real" –, sob a direção hegemônica mas não dominante da "face-sujeito" desse
organismo. (1996a, p.13)

Auto-organização torna-se negativa quando diminui significativamente a disputa entre os
elementos em torno de um propósito comum, o que esvazia o sentido original das interações
entre eles. Nas palavras de Debrun (1996b, p.39), a auto-organização negativa baseia-se na
“competição de múltiplos atores em torno de alvos idênticos (...) mas não comuns” e “na
impotência em que se encontram esses atores de agir uns sobre os outros, de definir um
vencedor e um vencido”.

Esta tendência pode culminar na ausência de pressão das partes umas sobre as outras ou da
pressão do supervisor, ou ainda na adoção de comportamentos idênticos, culminando num
estado de relaxamento das interações que indica o término do processo de auto-organização.
Debrun (1996b, p.46) explica de forma quase filosófica este estágio final da auto-organização:
“é que o futuro projetado por certa expectativa se configurou de repente, para todos ou para a
maioria, como inevitável e desejável, ou irresistível apesar de indesejável”.

Wikipedia e a Auto-Organização Secundária

A partir da diferenciação proposta por Debrun, parece-nos inadequado dizer a Wikipedia
surgiu a partir das condições da Auto-Organização Primária. Desde o ponto de partida, o
editores envolvidos e os que se agregaram a eles tinham uma finalidade comum, ainda que as
condições consideradas mais adequadas para estivessem sendo construídas. O sistema que
gerou um dos sites mais populares da internet definitivamente não é fruto de uma reunião
causal de indivíduos ou esforços aleatórios.

Algumas características da Auto-Organização Secundária parecem-nos adequadas para
caracterizar os processos da Wikipedia. A instituição de uma ou mais "faces-sujeito”,
responsáveis por orientar e controlar o desenvolvimento de um sistema, parece coincidir com
a crescente hierarquização adotada na gestão da Wikipedia, principalmente após episódios
marcantes de vandalismo (COEN, 2009) e disputas acirradas entre usuários. A instituição de
cargos com prerrogativas técnicas, como a função de administrador, foi baseada em critérios
meritocráticos (podem se candidatar os editores mais engajados). Espera-se dessas “faces-

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sujeito” dotadas de poderes adicionais a postura de mediador de conflitos, ou negociador, o
que reforça a função prevista teoricamente por Debrun.

O peso dos histórico de participações na Wikipedia para a eleição dos cargos e na votação de
questões importantes acentua a ênfase do projeto na valorização de seus processos internos de
produção. Neste sentido, outra característica da Auto-Organização Secundária, a endonização
manifesta-se na Wikipedia através um visível fortalecimento interno da comunidade de
usuários, que quase sempre limitam as interações entre si (e destinadas ao andamento do
projeto) aos espaços da própria enciclopédia wiki, o que revela uma limitada interlocução
com ambientes externos da internet. Um sintoma dessa endogenia é a baixíssima presença de
editores da Wikipedia ou mesmo de debates relativos ao projeto em outros ambientes online
que dão suporte a redes sociais, como blogs e microblogs.

De forma complementar, acreditamos que o conjunto de regras internas que rege a Wikipedia,
principalmente as políticas votadas pelas comunidade de editores, pode ser considerado um
“atrator” que direciona o rumo da evolução do sistema. Outro atrator é a execução do modelo
de gestão hierarquizado e meritocrático adotado pelo site. O empoderamento excessivo destes
atratores pode, retomando Debrun, “imobilizar o processo de interações”, impedindo o
sistema de se modificar e evoluir. Nesse contexto, é possível inclusive pensarmos o papel
cumprido pelos vandalismos e outras formas de “provocações externas”, que, ao inserirem
elementos estranhos aos previstos pelos atratores, obrigam o sistema a se rearranjar e
“reabrem o acesso ao mundo”.

Considerações finais: rumo ao uma auto-organização negativa?

Os desafios enfrentados atualmente pela Wikipedia parecem próximos dos apontados por
Debrun para os sistemas de Auto-Organização Secundária. O abuso no exercício do poder
pelos editores com cargos administrativos e um desdobramento excessivo das regras que
orientam o projeto têm sido frenquentemente apontados como ameaças à manutenção do
modelo aberto e descentralizado que inspirou o projeto, especialmente na versão em
português (SPYER, 2009; HUBNER, 2007; entre outros). Ao mesmo tempo, é uma tendência
a implementação de novas rotinas editoriais, como as "Revisões assinaladas", que prevêm a
aprovação de uma contribuição por algum usuário mais experiente antes de ser publicada
(D'ANDRÉA, 2009b)

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O equilíbrio da endogenização com uma abertura efetiva ao ambiente exterior, principalmente
através da incorporação de novos editores engajados, é outro ponto crítico do projeto.
Levantamento de Chi (2009) indicou a baixa taxa de renovação dos editores como uma das
causas da queda no aumento do número de artigos produzidos, o que indica uma dificuldade
de renovação do projeto, rompendo uma dinâmica esperada de um sistema auto-organizado.
Os editores mais ativos (no caso, com mais de 1000 edições por mês) compõem o único grupo
cujo volume de colaborações tem crescido de forma ininterrupta ao longo dos últimos anos
(enquanto, desde o início de 2007, os demais grupos diminuíram suas edições), segundo
pesquisa de Chi (2009), O autor identificou ainda que, quanto menor o número da média de
edições de um usuário, maior a chance de sua contribuição ser revertida. Em outras palavras,
uma edição feita por um usuário mais experiente tem muito mais chance de permanecer no
site. A conclusão dos autores é que “há uma crescente resistência da comunidade da
Wikipedia a novos conteúdos”.

Outra causa da diminuição da troca com o ambiente externo é uma concentração excessiva
nas interações internas ao sistema. Levantamento realizado por KITTUR et al (2007)
descobriu na versão em inglês da Wikipedia um significativo aumento no volume de trabalho
indireto (não diretamente relacionado à edição de artigos, como discussões e esforços de
coordenação do trabalho), em detrimento da atividade-fim do projeto, o que, acreditamos,
sinaliza uma endogenização excessiva do sistema.

Acreditamos que a desvalorização da participação dos novatos resulta num baixo crescimento
de número de novos editores engajados, o que culmina no fortalecimento da comunidade
virtual já estabelecida e, consequente, na endogenização das relações entre os interagentes.
Estes são indícios de um auto-organização negativa, conforme proposto por Debrun. Por outro
lado, ainda que as relações estejam restritas aos mesmos atores, não há indícios de
“relaxamento das interações”, principalmente entre os mais engajados. São frequentes as
relações de cooperação e conflito entre estes na busca pelo consenso em tornos dos artigos.
Conforme Lih (2009, p.131), “a Wikipedia encoraja o confronto e a batalha como um aspecto
necessário para alcançar a verdade”. Nesse contexto, compartilhamos da questão levantada
por Johnson (2007, p.12) a cerca da própria Wikipedia: “o que resta saber é se, como
resultado dos conflitos interacionais, a intencionalidade coletiva e a ação compartilhada se

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III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO
Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009

mostrarão robustas o suficiente para gerar uma situação futura de comportamento de grupo
auto-organizado que garanta a continuidade do projeto colaborativo”.

Neste artigo procuramos relacionar o conceito de auto-organização, a partir das ideias de
Debrun (1996a e 1996b), com a evolução dos processos editorias da Wikipedia,
especialmente em sua versão em inglês. Este ponto de partida nos permitirá, nas pesquisas
seguintes, relacionar o autor com outros teóricos da área, em especial os que relacionam
sistemas complexos e linguística aplicada, e desenvolver uma metodologia de pesquisa que
nos permita verificar empiricamente a projetada dinâmica auto-organizada das edições nos
artigos da Wikipedia.

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