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Parte II Memória constitucional portuguesa Capítulo I Algumas noções prévias de história constitucional portuguesa História Constitucional Portuguesa: um caminho

não linear Descontinuidades (verifica-se uma descontinuidade constitucional quando uma nova ordem constitucional implica uma rutura com a ordem constitucional anterior). Descontinuidade formal Considera-se que a descontinuidade é formal quando uma nova Constituição adquire efetividade e validade num determinado espaço jurídico sem que para tal se tenham observado os preceitos reguladores de alteração ou revisão da Constituição vigente. Por outras palavras, quando a nova Constituição é feita e aprovada segundo os esquemas regulativos da velha constituição, existe continuidade formal; quando o novo texto constitucional postergou os preceitos do velho texto quanto ao procedimento de alteração, verifica-se uma descontinuidade formal. Descontinuidade material Verifica-se uma descontinuidade material quando o novo poder constituinte vem destruir o título do anterior, ou os poderes políticos constitucionalmente conformadores. Continuidades As descontinuidades constitucionais coexistem com algumas memórias e tradições do constitucionalismo que, juntamente com determinados institutos jurídicos, constituem fatores de continuidade. Pode-se salientar a existência de três patrimónios culturais constitucionais na história do constitucionalismo português: -Catálogo de direitos e liberdades; -Fiscalização judicial difusa nos atos normativos; -Existência de autarquias locais. Descontinuidades no Constitucionalismo Português Descontinuidade formal…………………………………………………………………….Descontinuidade Material Constituição de 1822…………………………………………Poder constituinte democrático das Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes de 1821 Carta Constitucional de 1826…………………………………………………….Poder constituinte monárquico Constituição de 1838………………………………………………………………..Poder constituinte democrático Constituição de 1911…………………………………………….Poder constituinte democrático republicano Constituição de 1933………………………………………………Poder constituinte autoritário-plebiscitário Constituição de 1976 ....................................... Poder constituinte democrático representativo

»O monarca possui típicos poderes de um chefe de Estado. Esta proposta de Constituição era reconduzível ao modelo das constituições outorgadas. e outros tinham um caráter negativo. 1826. -Existência de direitos de cariz económico. dirigindo-se essencialmente ao antigo regime. -Direitos e deveres dos portugueses. por um grupo de cidadãos. V. como o direito à liberdade. b) No domínio da organização do poder -Princípio democrático da soberania nacional. pois a “soberania reside essencialmente na Nação”. I. Estrutura da Constituição de 1822 (conteúdo fundamental) a) No domínio dos direitos fundamentais -Maior importância dada às garantias no confronto com as liberdades. -Princípio da separação de poderes. O que se pretendeu foi instaurar uma monarquia constitucional. Influências constitucionais -Constitucionalismo francês (constituições de 1791 e 1795). -Princípio da igualdade jurídica e do respeito pelos direitos pessoais. nomeadamente a Constituição outorgada por Napoleão ao Grão-Ducado de Varsóvia. O Constitucionalismo Vintista: a Constituição de 1822 A primeira constituição foi marcada pela revolução de 1820. IV. 1838 Os antecedentes próximos do constitucionalismo moderno: a “Súplica Constitucional” (1808) O movimento constitucional português iniciou-se com a “súplica” de Constituição dirigida a Junot em 1808. . Génese do texto constitucional: as Cortes Extraordinárias Constituintes III. A Constituição de 1822 consagrou um catálogo de direitos e deveres individuais dos cidadãos portugueses. Procedimento constituinte: a Constituição de 1822 foi elaborada e aprovada pelas Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa.Capítulo II O Constitucionalismo Monárquico: as constituições de 1822.Miguel. Vigências do texto de 1822 -Primeira vigência (1822-1823) . de tal maneira independentes “que um não poderá arrogar a si as atribuições do outro”: »O poder legislativo cabe às Cortes concebidas como uma assembleia legislativa unicameral. dado que a soberania só “pode ser exercida pelos seus representantes legalmente eleitos”. João VI a Portugal. Não se pretendia derrubar a monarquia mas sim o regresso de D. -Constitucionalismo espanhol (a constituição de Cádis de 1812).fim imposto pelo movimento de contra-revolução Vilafrancada. II. Alguns destes últimos tinham um caráter positivo. -Princípio da representativo. chefiado por D. Tratou-se de um procedimento constituinte representativo ou indireto. »O poder executivo foi confiado ao monarca. separando duas categorias de direitos que Déclaration de 1789 juntava: os direitos da Nação e os direitos individuais. Tratou-se de um ato revolucionário inserido na vaga das revoluções liberais.

Vigências da Carta Constitucional: -Primeiro Período (1826-1828) -Segundo Período (1834-1836) -Terceiro Período (1842-1910) O constitucionalismo setembrista: a Constituição de 1838 a 1834 verifica-se a tomada do poder por D. »O poder legislativo é atribuído às Cortes. -Influência das teses de Benjamin Constant. sendo ele atribuído ao monarca. -Princípio representativo. equilíbrio e harmonia dos demais poderes políticos”. composta pela Câmara dos Deputados e Câmara dos Pares. D. filho de D. O constitucionalismo cartista: a Carta Constitucional de 1826 Após revolução de 1823 (Vilafrancada). No entanto. D. liberdades e garantias. João VI elaborou a tal carta. Tratou-se de um procedimento constituinte monárquico. II. João VI prometeu adotar uma via mais realista e mais moderada. -Princípio da separação dos poderes: »Introdução de um novo poder – o poder moderador. na sequência da revolução de Setembro. Trata-se de uma assembleia legislativa bicameral. Pedro. Procedimento constituinte: foi elaborada e assinada pelo monarca (D. b) No domínio da organização do poder político -Princípio monárquico – o monarca é o titular e detentor por excelência do poder soberano. -Princípio censitário. -Consagração de direitos e garantias de natureza estamentária. Verifica-se o aparecimento de Ministros de Estado. Tratase de um poder neutro ao qual caberá velar “incessantemente (…) sobre a manutenção da independência.Miguel. que depois a outorgou e doou à Nação. -Direitos sociais e culturais. Sendo assim. -Carta Constitucional francesa de 1814.-Segunda vigência (1836-1838) – início do Decreto de 10 de Setembro de 1836. »O poder executivo é atribuído ao monarca. que exercem o poder executivo em nome do Rei. III. Estrutura da Carta Constitucional (conteúdo fundamental) a) No domínio dos direitos fundamentais -Alguns direitos vintistas ao lado com novos direitos. -se um período de guerra civil entre liberais e absolutistas. D. istas. João VI morreu. Influências constitucionais: -Constituição brasileira de 1824. I. Com a vitória dos liberais volta a vigorar a Carta Constitucional. com a vitória da oposição democrática é reposta em vigor a Constituição de 1822. -Reconhecimento de «Direitos Civis e Políticos dos Cidadãos Portugueses». IV. . prometendo ao seu povo a elaboração de uma Carta Constitucional. -A (limitada) influência da Constituição de 1822. Pedro IV).

-Novos direitos e liberdades (ex: direito de resistência contra ordens violadoras das garantias individuais). Influências constitucionais -As Constituições suiça e brasileira de 1891. -Princípio representativo – os principais representantes são o monarca e o parlamento (o corpo legislativo). Existe a Câmara dos Deputados e a Câmara dos Senadores. III. em 1842. que aceitou e jurou. -Constituições brasileira e espanhola de 1837. IV. no entanto. que exerce através dos seus Ministros e Secretários de Estado. -Princípio da separação dos poderes: »O poder legislativo é exercido pelas Cortes. continuava a manter-se o sufrágio censitário. II. II. A Constituição de 1911 foi elaborada e aprovada por uma assembleia constituinte eleita pelo povo – Assembleia Nacional Constituinte. Estrutura da Constituição de 1838 (conteúdo fundamental) a) No domínio dos direitos fundamentais -Destaque aos direitos e liberdades na Constituição. Esta não se limitou apenas a elaborar o texto constitucional mas também o aprovou. -O constitucionalismo francês. Depois de discutida e votada nas Cortes. »O poder executivo é atribuído ao monarca (Chefe do Poder Executivo). -Maior equilíbrio entre as liberdades e garantias. Influências constitucionais: -Constituição de 1822. -Constituição belga de 1831. Procedimento constituinte A Constituição de 1838 foi elaborada por uma assembleia constituinte eleita pelo povo – as Cortes Extraordinárias e Constituintes. a) Estrutura da Constituição de 1911 (conteúdo fundamental) No domínio dos direitos fundamentais . Vigência A vigência da Constituição de 1838 terminou com o Golpe de Estado de Costa Cabral.Maria II. Sendo que foi um procedimento constituinte representativo ou indireto. Procedimento constituinte Procedimento constituinte representativo ou indireto.I. -Carta Constitucional de 1826. ambas eram recrutadas através de uma eleição por sufrágio direto. -Carta Constitucional francesa de 1830. ela foi submetida à aprovação da Rainha D. -As Constituições portuguesas anteriores. sendo assim uma assembleia constituinte soberana. b) No domínio da organização do poder político -Princípio da soberania nacional. O constitucionalismo republicano A implantação da República ocorreu na sequência da Revolução de 5 de Outubro de 1910 I. III. Este repôs em vigor a Carta Constitucional que se manteve até 5 de Outubro de 1910.

-Catálogo dos direitos fundamentais: garante-se a «inviolabilidade de direitos concernentes à liberdade. VII. -Consagração da liberdade de religião e culto. Trata-se de um parlamento bicameral. -Princípio da soberania nacional. -Direitos sociais. »Em relação ao Ministério. designado de Congresso. e ao P. Descentralização administrativa (ex: proibição da ingerência do poder executivo na vida dos corpos administrativos). sendo ele nomeado pelo P. -Princípio representativo. -Consagração de direitos fundamentais fora da constituição formal. ambos eleitos diretamente.importante meio de defesa da liberdade dos cidadãos. A fiscalização judicial da constitucionalidade das leis Verifica-se a fiscalização pelos tribunais da constitucionalidade das leis. -Instabilidade governamental . à segurança individual e à propriedade». -Princípio da separação dos poderes: »O poder legislativo é atribuído ao parlamento. -Garantia de «habeas corpus» . -Laicização do ensino. -Instituto do controlo judicial da constitucionalidade das leis. V.R. -Igualdade de culto.  A Constituição de 1911 é uma constituição liberal sob o ponto de vista da constituição económica. »O Congresso é composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. República laica: -Separação do Estado e da Igreja.R nem sequer era concedido o poder de dissolução das câmaras) e regime parlamentar de assembleia (porque o Congresso era o único órgão que podia condicionar decisivamente as diretivas políticas da república democrática). VI. sendo ele eleito pelo Congresso. ou seja. entre os Ministros existe um que ocupa o cargo de Presidente do Ministério. b) No domínio da organização do poder político -Princípio republicano. O presidente da República tem um papel bastante apagado. o poder legislativo ordinário só podia elaborar leis nos limites de constituição e só estas podiam ser aplicadas pelo poder judicial. As características dominantes do regime republicano e as deformações político-institucionais -Parlamentarismo absoluto: existência de um parlamentarismo absoluto. -Liberdade de culto. »O poder executivo é partilhado pelo presidente da República e pelos Ministros. -Consagração da proibição da pena de morte. Parlamentarismo monístico e regime parlamentar de assembleia Parlamentarismo monístico (dado que ao Parlamento é conferido um amplo poder de controlo político sobre o governo. o Parlamento é «dono» vida política. dominando por completo o poder executivo. ou seja. IV. económicos e sociais. -Manutenção da legislação referente à extinção das ordens religiosas.

as autarquias locais e a Igreja. Estrutura e princípios da Constituição de 1933 (conteúdo fundamental) a) No domínio dos direitos fundamentais -O exercício de alguns dos direitos mais importantes estava condicionado à existência de uma lei especial que os regulasse. -Reconhecimento de vários direitos sociais (ex: proteção da família). por vezes ocasionais e efémeras. O constitucionalismo corporativo Com a Constituição de 1933 institucionalizava-se em Portugal um regime políticoconstitucional autoritário. instituise a Câmara Corporativa. Foi criado um Conselho Nacional. nada contra a Nação” IV. III. Para tal. . ao qual caberia apreciar projetos de constituição que fossem apresentados. foi submetido a um consulta popular (plesbicito a nível nacional). tendo posteriormente entrado em vigor a nova constituição. A realidade das forças coletivas: O movimento operário. -O «apagamento» do R. a maioria dos portugueses aceitou o tal projeto. mas também pela competição e indisciplina partidária que obrigava a coligações. A ideologia constitucional do Estado Novo a) A ideia hierárquico-corporativa do Estado A constituição política não podia nem devia romper o tecido orgânico da constituição social. independente do órgão legislativo. c) A ideia supra-individualista de Nação -Ocorreu uma simbiose do pensamento tradicionalista com a ideologia fascista.P O multipartidarismo competitivo e desorganizado. limitado à formulação de leis das bases gerais dos regimes jurídicos e à ratificação dos decretos-leis do governo. b) A ideia de Estado forte O Estado forte traduzia-se num executivo forte. os organismos corporativos.A instabilidade governamental era provocada não só pela maneira fácil como se punha em jogo a responsabilidade política do executivo. traduzindose num legislativo não partidariamente dividido. Neste sentido. o sindicalismo e a ideologia socialista começaram a ganhar estrutura ideológica e organizativa mais definida. Pelo contrário. I. II. com o que se colocava os cidadãos na dependência da boa vontade do legislador ordinário. o Estado Português é proclamado como uma república corporativa. -A experiência fascista italiana. Procedimento constituinte Procedimento constituinte direto. devia reconhecer os grupos intermediários entre o indivíduo e o Estado. como a família. -Surgimento do corporativismo do Integralismo Lusitano (nação entendida como sociedade civil composta de várias unidades orgânicas) -“Tudo pela Nação. Sendo o projeto de constituição de Oliveira Salazar apreciado. baseada na interferência de todos os elementos estruturais da Nação na vida administrativa e na feitura das leis. Influências constitucionais: -Constituição de Weimar.

-Princípio corporativo:  A Câmara Corporativa é “composta por representantes das autarquias locais e dos interesses sociais”. sendo a sua competência drasticamente diminuída pela atribuição ao Governo de competência legislativa normal. sendo considerada como um órgão auxiliar. b) No domínio da organização do poder político -Princípio da soberania nacional. órgão colegial composto pelo Presidente do Conselho e os seus Ministros. .  O Conselho de Estado era de natureza consultiva. É o único órgão diretamente eleito. -Princípio da separação dos poderes:  O poder legislativo é confiado à Assembleia Nacional. partido oficial – União Nacional).  O poder executivo é atribuído ao Governo.-A criação de associações políticas dependia da autorização administrativa (existência de um partido único. -Princípio republicano.