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A INTERPRETAÇÃO HERMENÊUTICA EM PAUL RICOEUR: UMA POSSÍVEL CONTRIBUIÇÃO PARA A EDUCAÇÃO

Hermeneutic interpretation in Ricoeur: a possible contribution to education
Programa de Pós-Graduação em Educação Universidade Metodista de Piracicaba – (UNIMEP) SP lzosilva@unimep.br RESUMO O artigo objetiva discutir a relevância da interpretação hermenêutica na obra de Paul Ricoeur. O autor chama a atenção para a interpretação de textos, para o papel da hermenêutica como um guia metodológico na leitura e escrita de obras e textos – teóricos ou poéticos. Uma interpretação hermenêutica requer uma atitude metodológica e uma atitude ontológica, cujo pressuposto é a filosofia reflexiva. Ricoeur destaca a relevância da dialética da compreensão e da dialética na explicação da interpretação. Também merecem especial atenção elementos como a palavra, o mito, a poesia, o símbolo, o signo, porque são expressões da linguagem humana, a qual não se isenta de materiais advindos das ideologias e das utopias do campo sociocultural e político, cujas esferas da compreensão e da explicação têm funções de integração, legitimação e dissimulação, que podem conduzir a equívocos, mas também revelar manipulações ou desejos de liberdade do coletivo. Palavras-chave EDUCAÇÃo, HERMENÊUTICA, INTERPRETAÇÃo, IMAGINÁRIo, FIloSoFIA. ABSTraCT The aim of this paper is to discuss the relevance of the hermeneutic interpretation in Paul Ricoeur’s work. The author draws attention to the interpretation of texts and the role of hermeneutics as a methodological guide in the reading and writing of works and texts – whether theoretical or poetic. The hermeneutic interpretation requires a methodological and an ontological attitude, whose prerequisite is the reflexive philosophy. Ricoeur emphasizes the relevance of the dialectics of understanding and the dialectics of explanation, drawing special attention to elements such as the word, the myth, the poetry, the symbol, and the sign as expressions of the human language, which is not exempt from ideological and utopian materials from the socio-cultural and political fields, whose spheres of understanding and explanation function as integration, legitimization, and dissimulation, which can lead to mistakes, but also reveal manipulations or desires of freedom from the collective. Keywords EDUCATIoN, HERMENEUTICS, INTERPRETATIoN, IMAGINATIoN, PHIloSoPHY.

LUZIA BATISTA DE OlIVEIRA SIlVA

COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. 2 • p. 19-36 • jul.-dez. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X

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dado que alguns aspectos dos discursos e ações se impregnam das expressões do imaginário. toda obra tem caráter simbólico. Na abordagem do método hermenêutico. seja um discurso (uma linguagem) ou uma palavra. Por isso. no sentido heideggeriano de “articulação ‘significante’ da estrutura compreensível do ser-no-mundo” (RICOEUR. por isso. grifos do autor). no sentido positivo e no sentido negativo. iMaGiNÁriO SOCiaL E EDUCaÇÃO Para Paul Ricoeur (1989). 19-36 • jul. É também um método que busca a compreensão de uma obra. Discute-se.INTrODUÇÃO O presente artigo é uma reflexão a respeito do método de interpretação hermenêutica na obra de Paul Ricoeur. parece fundamental para a compreensão de leituras que primem por convergências de olhares. a hermenêutica é uma fonte metodológica para a compreensão de obras teóricas ou poéticas. por isso. Configura-se como um instrumento e um guia para a compreensão de discursos filosóficos. configura-se como um laço mimético que se caracteriza como uma articulação daquilo que chamamos compreensão. p. 117. O discurso. A hermenêutica. da ideologia e da utopia. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . INTErPrETaÇÃO HErMENÊUTiCa. quando grupos e classes atuam na esfera social manifestando ambiguidades do imaginário social. e necessita da mediação simbólica do mito. ao codificá-lo ou decodificá-lo. mediante a função da ideologia. mediante a função da utopia. por isso também nos parece relevante para a leitura de obras da área da pedagogia. o papel da interpretação nas expressões da ideologia e da utopia. teórica ou poética. Por isso. O imaginário criador é. compreensão ou elaboração de obras na esfera da educação. nesse contexto. seja na produção. para Paul Ricoeur. como instrumento de compreensão do discurso ou da ação. o imaginário pode expressar os sonhos e os anseios destes mesmos grupos sociais. suas maiores expressões. da poesia ou do símbolo. p. é fundamental considerar a influência do imaginário social nas ações sociais. um organizador de obras mediante as funções sociais da ideologia e da utopia. pedagógicos e nas ações e construções racionais ou poéticas. é um guia metodológico. políticos. o imaginário pode garantir representação política dos grupos sociais. 2 • p. como aqueles aspectos fundamentais nas manifestações e nas ações sociais. um guia de orientação de leitura e escrita de textos e obras. uma interpretação hermenêutica.-dez. por aproximações teóricas e práticas e também requeiram apontar divergências e contradições de saberes e conhecimentos na esfera da educação. 1988b) é uma sequência de frases. nos moldes de Ricoeur. também para Ricoeur (1989. A hermenêutica. e. Por isso. busca20 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. Objetiva discutir sua relevância na esfera da filosofia e a possibilidade de contribuição também para a educação. 100. 1989. é feito de frases e é maior do que uma frase.

As ações que suscitam o imaginário social estão embasadas nos paradigmas da ação e dos discursos. Pode-se compreender o sentido de toda ação. especialmente. sendo necessário refazer a operação discursiva do texto. que possibilita tecer as implicações heurísticas e revelar a força da imaginação criadora nas ficções (Aristóteles) como resultado do esforço de se “reescrever” a realidade. que começa quando o indivíduo se pergunta como fazer para seguir uma história ou. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 21 . como uma refiguração da ação do texto e da interpretação. as intrigas do texto. Essa situação requer. por exemplo. perceber o rumo que uma obra toma quando prima por clareza e rigor ou quando contempla apenas sua singularidade. o imaginário funciona como ligação profunda e anímica do sujeito com seu inconsciente – considerado na psicanálise como o lugar de resíduos de energias.-dez. e é justamente esse laço mimético que se configura. 19-36 • jul. a noção de inconsciente é fundamental nessa perspectiva. o imaginário é abordado sob a luz da teoria geral do imaginário social. que possibilitam. seguir o caráter configurativo da obra. de acordo com as ações dos indivíduos. como fator de abertura para o mundo no mundo da ação. Contudo. tanto nas construções imaginárias. Na obra de Ricoeur (1989). a hermenêutica caracteriza-se como um instrumento valioso. ou seja. assim como ajuda o imaginário criador a manter o sentido objetivo de uma escrita. visto que. mas também de forças propulsoras para a manutenção e organização da vida. O inconsciente e o imaginário. na perspectiva hermenêutica. 2 • p. Nesse contexto. compreender a educação sob a via das mediações simbólicas. como na filosofia. É possível. são relevantes para a compreensão da problemática de um texto. Por isso. Mas é fundamental lembrar que é também no inconsciente que os desvios e distorções são construídos. Mas o que COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. seguir uma história é seguir uma forma bem elaborada de compreensão. em qualquer obra. do sujeito e de sua subjetividade – subjetividade entendida. tais como a ideologia e a utopia. é do inconsciente que brotam as expressões maiores do imaginário social. classes e sociedade. 1989). Esse laço permite revelar também o leitor e/ou intérprete de um texto. procura evidenciar nele as implicações. compreende-se um texto quando há revelação das estruturas profundas. aqui. há um laço mimético ou implicações profundas estabelecidas entre a palavra e a ação. Quando alguém recorre à explicação de um texto.-se compreender e perceber gênero e estilo. uma construção específica a fim de compreender uma história. São essas referências que levam à compreensão e apreensão do sentido. das relações e da autonomia. melhor. Assim. Diz-se que é no inconsciente que brotam as energias fundamentais para a sobrevivência e para as mais variadas formas e expressões criadoras. segundo o autor. no texto. é fundamental mostrar que. por exemplo. mas. Assim. porque seguir uma história não é – como a maioria gosta de acreditar – seguir o episódio. na educação ou na ciência. apreender o acontecimento e o sentido por ele apresentados. para Ricoeur. grupos. paradigmas capazes de aflorar possibilidades ontológicas. dado que revelam o mundo do texto. visto que funciona como instrumento de análise e compreensão de obras (RICOEUR. isto é. porque toda ação exige uma objetividade. o que fazer para ver uma ação ou o ser dessa ação se manifestar. Neste sentido. que se caracterizam como os momentos objetivos de uma obra.

é também um modelo pertinente de interpretação. mito e poesia. ainda assim. para Ricoeur. aquilo que se quer idealizar ou realizar – o ideal e o real das ações. 2 • p. revelando que as estruturas do ser ou de sua existência são veiculadas e articuladas pela cultura. colocar em funcionamento a consciência reflexiva. deve-se observar que ela é mais que uma interpretação de culturas. É preciso. como função. que se configuram nos textos. É também função da linguagem evidenciar que. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . esclarecer a construção da própria obra. coloca em evidência uma região específica da cultura que pede por um duplo sentido. ordena e explica. por apontar a cultura como o cerne da linguagem. a mediação simbólica não se reduz à consciência reflexiva. 19-36 • jul. 1989). lembrar que o uso da linguagem segue um modelo padrão para qualquer escrita. pode revelar. como é o caso da psicologia. mas também ocultar experiências dolorosas ou reprimidas. que se sobressai pela manifestação da linguagem. Certamente por isso. Os signos engendram-se pelas temáticas da cultura. Quanto à psicanálise. revelar e também criar realidades. a linguagem tem como função descrever. Os signos funcionam como mediadores da linguagem porque criam formas de manifestar o desejo e a fala. exprimir vivências. uma linguagem. Ela permite falar de mundos diversificados. às vezes. Nesse contexto.-dez. da qual os indivíduos participam. região em que não se podem eliminar as ambiguidades. os conteúdos 22 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. ou seja. imaginário. que tem. afirmar experiências. Portanto. ao serem contados. os sentidos múltiplos e a manifestação do inconsciente nas motivações sociais. a linguagem e o real são mediados por símbolos. ou seja. que são anteriores ao ato mesmo da compreensão. da ação humana e dos conflitos sociais. mediada pelos signos e compreendida na perspectiva do inconsciente e do imaginário. ao considerar os elementos dos desejos e dos sonhos. Sendo assim. uma vez que desejos ou sonhos. documentos e monumentos (RICOEUR. mas também ocultar. Uma consciência reflexiva possibilitará uma reflexão filosófica. há mediação simbólica da ação. Como em toda cultura. a qual acaba por revelar a reflexão sobre o ser. visto que ambos são mediados pelos signos e se configuram pela função referencial da intriga ou laço mimético entre a fábula e a imitação. há simetria. interesses e anseios de indivíduos. a linguagem pode revelar e também dissimular por meio de uma “linguagem distorcida”. transformar visões de mundo. difíceis de serem contadas. ao elaborar um trabalho. mas também assimetria entre o real histórico e o irreal de ficção.significa seguir o caráter configurativo de uma obra? Significa que é relevante procurar compreender o papel da linguagem na obra. Isso significa que. Por isso. abrem possibilidades para a construção de um contexto coerente de signos a serem interpretados. porém. pode-se colocá-lo em evidência e divisar o símbolo. por isso são fundamentais as disciplinas que estudam a linguagem. porque expande essa mesma consciência. delimita. a linguagem é fundamental para a compreensão das áreas de estudo da filosofia. não ignorando que tal reflexão nutrir-se-á dos símbolos como suas categorias contraditórias. Entretanto. Entretanto. Compreender o ser é compreender suas relações com essas mediações. cuja função é fazer pensar. grupos e classes sociais. pode revelar ações. uma linguagem mediada por signos pode evidenciar a polissemia dos símbolos.

Na fenomenologia há um tempo reflexivo ou tempo subjetivo – tempo da alma. para reforçar o senso comum. isso permite formar uma rede. uma ação vivida. Esses mestres da suspeita são. 1990.não racionais. porque é pela palavra. 1988b). como a problematizada pela teoria crítica da sociedade). mostraram que toda reflexão ou interpretação revela e também dissimula. expressões do imaginário social (RICOEUR. à filosofia estudar se é possível inserir esses símbolos para tensioná-los mediante os conteúdos racionais. tempos. Ricoeur (1989. Freud e Nietzsche –. isto é. dado que há coerência entre fenomenologia e linguagem. para Ricoeur (1989. alienada de suas próprias falhas. no entanto. Os mestres da suspeita – Marx. encontra seu maior obstáculo na consciência ingênua. Assim. 1989). 1999) pontua que as ações estão para além do sentido doravante empregado pelas ciências descritivas ou as descritivas naturais. Compete. contar histórias e preservar memórias. pode-se considerar que o tempo reflexivo é o tempo do sujeito. que se pode evocar o passado. então. a fim de animar o pensamento racional para uma reflexão. tal como no mundo platônico ou na fenomenologia de Husserl reside na própria coisa. 19-36 • jul. e a construção ou conquista de autonomia.-dez. Na relação entre fenomenologia e linguagem. reapropriar o sentido que a coisa convoca para ir além de uma leitura ingênua ou supostamente neutra da realidade. então. cooperando. Será. segundo o autor. especialmente porque ela precisa ser reapropriada. no sentido kantiano. linguagem. um amálgama compreensivo. por vezes. discurso da ação. A construção dessa consciência reflexiva será fundamental. e o tempo cosmológico é o tempo do mundo. COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. que insere o homem no mundo da palavra e no mundo da ação. uma visão complementar. destruidores. Nesse contexto. A palavra tanto pode anunciar como pode resgatar um gesto vivido. Refletir é. inconscientemente. aquele conhecimento distorcido. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 23 . mas também aqueles que advogam uma interpretação capaz de corrigir essa consciência falsa. de acordo com Ricoeur. posto que os indivíduos participam da cultura também pela leitura e escrita de um texto – pela interpretação. Na esfera da educação. portanto. e também pela palavra poética. A dificuldade em compreender uma linguagem escrita ou o caráter transcendental da linguagem – o sentido das Erlebnis (vivências) – reside na própria objetividade dos enunciados ou proposições (expressões). 1989). na linguística. haja vista não possuir aquilo que ela é. cultura e suas manifestações são vias que devem desembocar na hermenêutica ou na teoria geral da interpretação – que se afigura como instrumento metodológico. 2 • p. porque esconde uma consciência falsa. é fundamental considerar a noção de tempo. pela palavra também se projetam anseios por meio da ideologia e da utopia. fragmentado e equivocado da realidade. fundamental duvidar da própria consciência. que se complementam e formam aquilo que se pode denominar tempo do ser no mundo-do-texto (RICOEUR. diz-se que há um tempo cosmológico ou tempo objetivo – tempo do mundo. o trabalho de emancipação dos indivíduos (a saída da minoridade. e é justamente isso que permite o funcionamento de ambas sem esgotar nem excluir nenhuma de suas funções. tal como a psicologia. signos mediadores. O mundo anunciado e recriado pede para ser compreendido. que articula aquilo que é designado como compreensão. ao contrário.

uma análise hermenêutica requer uma atitude metodológica (um método) e uma atitude ontológica (uma verdade). como em M. deixando simplesmente de existir. por isso. possibilita ao investigador ter uma visão de construção do conhecimento metodológico. quando houver melhor compreensão de si mesmo perante o que se constrói como seu. Mas. a consciência reflexiva é o guia. 1989. apreendê-las e reorganizá-las num processo de reconstrução textual? Como remetê-las para uma lição pedagógica capaz de alcançar o homem dentro e fora das instituições escolares. apud RICOEUR. Por isso. 19-36 • jul. Neste sentido. Deve-se. preocupa-se com aquilo que uma obra pode oferecer para a compreensão do humano ou do mundo que o cerca. a filosofia de Ricoeur parece-nos pertinente. como perceber no texto. mostrar que é possível uma obra projetar-se para além de um mundo habitado. posto que uma obra deve apontar tanto a força como a fraqueza da vontade humana. p. aquela em que alguns elementos são diluídos. uma compreensão de obras e organização da vida humana para além dos textos. igualmente. fundamental ir de uma via a outra. 2 • p. Nesse sentido. ou seja. aquela que deve ser banhada pela fenomenologia e pela tradição hermenêutica. interpreta para compreender o homem contemporâneo ou a educação contemporânea. remetendo o sentido reflexivo ao ato de compreender e compreender-se numa obra – interpretar. dado que não se restringe apenas a uma opção ou um procedimento metodológico. é uma “metodologia das ciências históricas do espírito” (HEIDEGGER. E. As ciências históricas são as ciências do homem. sendo. por isso. ontológico e epistemológico da obra em questão. atingir conhecimento profundo sobre o ser humano. aquilo que remete o indivíduo para o sentido do texto. entre o compreendido e o reelaborado no mundo do texto. em muitas situações. sendo fundamental considerar os termos mediadores em cada obra. Nesse caso. quiçá.epistemológico. bem como o perante. na qual. latente. o manifesto ou óbvio. como afirmam a antropologia e a epistemologia. O pressuposto hermenêutico de Ricoeur é a filosofia reflexiva. numa sociedade hoje alcunhada de “modernidade líquida” (BAUMAN. Na educação. considerar que na filosofia de Nietzsche destrói-se qualquer possibilidade de a consciência ingênua. será necessária uma interpretação com ênfase na distanciação do texto. ou consciência falsa. ontológico e pedagógico. pode revelar o sentido oculto. Além disso. queremos dizer que tal estudo filosófico também está voltado para a compreensão da educação por se remeter. suas referências? Como preservá-las. 97). criar um texto “pessoal” somente será possível quando houver ampliação da consciência.-dez. mas que. 24 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. dado que o autor se preocupa com o fator humano e com o ser humano. 2001). quando houver superação da consciência falsa. ao eixo emancipatório do sujeito. A hermenêutica em Ricoeur. alcançar. fundamentalmente. a função hermenêutica do texto é capturar e apreender o sentido da obra para reconstruí-la numa dinâmica interna. Heidegger. o mundo projetado ou idealizado pelo autor. ou seja. no sentido de Freud. seu viver e o construir conhecimento na esfera do pedagógico? De acordo com Ricoeur (1989). seu fazer. Nesse sentido. desconstruir é. fatos e “cacos” da história. preocupa-se com aquilo que existe no texto e aquilo que o texto convoca. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . visando manter a distância entre o vivido e o contado (viver e contar). o primeiro passo na direção de uma interpretação. sendo necessário recorrer a fragmentos. considerando-se o caráter histórico.

não há diálogo entre o leitor e o autor. engendrada na relação com a interpretação dos textos. Nesse processo. finalmente.-dez. as funções convencionais de uma análise estrutural da obra.. para quem ele diz algo (a quem se destina?). 61). COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. 1989. porque. menos ainda. elucidar e mostrar os códigos e as mediações subjacentes ao trabalho de estrutura feito pelo leitor-intérprete. pois diz o autor: “quanto mais o ser se compreende melhor ele se explica” (Ibid. a função da narrativa é preservar a “amplitude. o que vincula/liga esses momentos não são as funções delegadas ao campo da explicação. compreender um texto é encontrar um sentido que possa ser indicado pelo próprio texto. p. Entretanto. Uma interpretação tem como tarefa apontar a questão do sentido. um trabalho de estruturar e explicar um texto. Portanto. visto que. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 25 . Assim. hermeneuticamente. em si mesmo. no processo de interpretar. a saber: o mundo do leitor e o mundo do autor. interpretação. como sendo as funções do racionalismo. a função hermenêutica coloca em evidência o problema da interpretação. uma teoria das operações da compreensão. a função hermenêutica de uma obra não é explorar o diálogo entre leitor e autor/escritor. que caminho percorre Ricoeur? O caminho da dialética da compreensão e da dialética da explicação. p. a diversidade e a irredutibilidade dos usos da linguagem” (RICOEUR. mediações de signos. cabe ao intérprete valer-se do jogo heurístico para “produzir um discurso unívoco com as palavras polissêmicas” (Ibid. ou as funções do irracionalismo aplicadas à obra. 2 • p. Então. articulam-se. os desvios e as projeções das ideologias e das utopias. Para interpretar uma obra. 19-36 • jul. Dessa forma. que exige uma reflexão sobre a própria interpretação.. seguir o que o texto diz (o quê?). para o autor.Assim. bem como erros e acertos históricos e os estímulos para buscar sentido nas ações humanas. nem vice-versa. o explicar e o sentido do texto. porque também o campo hermenêutico é um campo dos símbolos e de signos mediadores. no sentido hermenêutico. Partindo do pressuposto da interpretação. desvios de interpretações. o método hermenêutico propõe um movimento integrador ou movimento dialético entre a interpretação e a ação. a base de um trabalho de interpretação. ou seja. o compreender. é compreensão a capacidade de alguém retomar. Então. tampouco são as funções da subjetividade e as funções da objetividade do autor e do leitor na obra. A interpretação funciona como um processo ou jogo na determinação dos valores presentes na obra. a função mediadora dos signos desempenha papel fundamental na justificação objetiva e na retificação subjetiva de autor e leitor. 24). o sentido polissêmico e o contexto que as organiza no social. Assim. escritor. resulta na hermenêutica ou filosofia reflexiva. a construção da linguagem. procedendo por meio de uma operação para clarificar. Por isso. seguir o movimento desse sentido para as referências. que começa com a quebra da linguagem por meio da polissemia das palavras. Mas a compreensão é também mediação de um ato de interpretação. visando. p. A função hermenêutica é desocultar dois mundos. sob a via da tradição fenomenológica e hermenêutica que considera que. com atenção voltada para as palavras e seus muitos sentidos. 84). é necessário aproximar-se dela e de si mesmo. que requer uma justificação mediante as categorias do texto. o qual aponta crises. compreensão e pertença designam o trabalho de explicitação hermenêutica. à ideia-diretriz que efetua o discurso como texto.

nações. dado que. essa unidade funcional – a nosso ver – é fundamental. dadas suas múltiplas possibilidades de interpretação. o que não é um equívoco. Na interpretação ou na construção de um texto. o conhecimento histórico está na base da dimensão científica. juntam-se duas vias culturais: a via gramatical. mas.Neste trabalho de interpretação hermenêutica. existe uma unidade funcional. mudanças. “peripécias” para driblar as circunstâncias. a tradição histórica é mediação para um texto. em Dilthey. abarca as dimensões hermenêutica e psicológica. que. p. 26 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. tradições culturais etc. trabalha-se para compreender problemas e conflitos numa escola e não se questiona sobre a biografia do lugar. “nós” – amarrações. muitas vezes. considerando que em toda situação há ambiguidades.-dez. Assim. mas. ambas as vias – histórica e psicológica – têm como função evidenciar que a tarefa hermenêutica Consiste em ‘estabelecer teoricamente. muitas vezes. Certamente. não se colhem/ recolhem histórias de vida e narrativas dos indivíduos que estão na escola. o meio desenvolve as ações contadas na história. Esta última valoriza a dimensão da subjetividade da fala. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . para Dilthey. consideram-nas.. em todos eles. é fundamental. dado que concilia as dimensões hermenêutica e histórica. base de toda a certeza em história’. como bem nos ensinaram os mestres da suspeita: que é preciso duvidar sempre da consciência ingênua. para Ricoeur. tais como: biografia. p. 57). a camada objetivada da compreensão. dar voz aos indivíduos desses espaços. os incidentes. e quando se colhem. Será necessário. assim. A hermenêutica constitui. no desenvolvimento das culturas e legados culturais. interpretar é decifrar o sentido oculto. aponta alterações do destino na história. pois. o funcionamento anterior aos problemas do presente. um problema. 19-36 • jul. o tempo. atenção será dada para o fator cultural. seja pela fala. o desfecho do curso da ação. 92). apreendê-lo e torná-lo manifesto. classes. O começo inaugura uma história. em Schleiermacher. filmes. é preciso compreender como único problema: a ficção. também. e a via histórica. 1989. a história e o tempo. permitindo uma conquista de autonomia do sentido da intenção do autor para o leitor (RICOEUR. Mas para compreender a experiência temporal. autobiografia. toda obra tem um princípio narrativo que abarca três dimensões: começo. uma vez que se pretende ajudar a compreender uma situação. cabe tanto ao autor como ao leitor construir e preservar os diversos gêneros literários. a validade universal da interpretação. 2 • p. narrativas de ficção – drama. sob suspeita. Por isso. discurso ou pela construção/reconstrução de um texto. Nesse sentido. nas funções sociais e nas instâncias do coletivo (grupos. novela. portanto. o fim é o momento que traz a inferência ou conclusão. a história da comunidade. falar também das relações intersubjetivas mediatizadas nas diversas instituições. 1989. graças às estruturas essenciais do texto. sua história como grupo. que. pintura etc. um conflito criado e alimentado na/pela escola. posto que. romance ou ainda. o nome e a identidade da escola. Na educação. contra a intromissão constante do arbitrário romântico e do subjetivismo cético […]. (RICOEUR.) alimentadas pelas ralações com a tradição histórica. abarca as dimensões técnica e psicológica (objetiva e negativa). meio e fim.

A interpretação é COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. os meios para alcançar certos fins. 19-36 • jul. principalmente. como uma dimensão das ações da vida social ou política. Compreender. promover a ligação das ações humanas nas obras. do fazer. Por isso. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 27 . Assim. fundamentalmente. Nesse contexto. o conto popular. A explicação pode também funcionar como uma visão preliminar. tarefa do espectador da tradição cultural. A interpretação hermenêutica busca evidenciar que uma obra não deve ser interpretada somente no plano psicológico – como valorização de uma vida pessoal – mas. é possível quando os fatores envolvidos no processo educacional formam. só é possível. integradora de grupos e pessoas. p. 1989. diz o autor. o leitor/intérprete. a teia ou rede de intrigas. o que requer uma interpretação como reconstrução e busca de significação. explicando-se em relação à obra e emitindo a compreensão que tem dela pela reconstrução. pode compreender a dimensão da obra de um autor. para compreender uma obra. porque só quem compreendeu uma obra. a dimensão de sua própria compreensão dessa obra. aquilo que procuramos seguir. antecipadora. Então será capaz de explicá-la. Nesse contexto. 1988b). precisa primeiro saber que “compreender é compreender-se em face do texto e receber dele as condições de um si diferente do eu que brota do texto” (RICOEUR. pois quando o assunto é educação. Um acontecimento é aquilo que contribui para a progressão de uma história. “a correlação entre explicação e compreensão. dado que as ações individuais e a história pessoal estão inscritas na história do grupo. 42-43). é a componente que revela que alguém fala alguma coisa sobre algo e fala para um interlocutor. Explicar ou interpretar (Auslegung) uma obra é evidenciar o quê dessa obra. Esse papel mediador da intriga aparece quando revela o desejado ou o indesejado. na verdade. juntos. uma rede de intrigas alcança a dimensão humana do saber. sejam as narrativas de ficção. 1989. mediante obras de educação e cultura. quem se distanciou dela o suficiente. compreender é também compreender a intenção do autor numa obra. Uma intriga é o conjunto de combinações dos acontecimentos transformados em história e funciona como mediação entre os acontecimentos e a história. da comunidade. a epopeia ou o romance moderno. 212). pela reconstrução. p. constitui o círculo hermenêutico” (RICOEUR. do dizer. compreender e explicar uma obra de cultura. Assim. o sentido que se abre como possibilidade de apreensão. então. em toda narrativa há uma mediação simbólica da ação. pois uma obra escrita está aberta a todo aquele que sabe ler e quer dela participar (RICOEUR. 1989. mediadora e mediada. 2 • p. Essa teia ou rede deve se ancorar nas manifestações dos signos. Cabe. porque estará.-dez. compreender e explicar são atividades complementares para o autor. mas. finalmente. as práticas simbólicas na área do pedagógico. uma obra que tem caráter pedagógico será compreendida quando tiver alcançado aqueles para quem ela se destina. as iniciativas que foram tomadas. do poder e do viver em sociedade. e vice-versa. quando essa obra alcançar o público a que se destina. da classe ou sociedade. à função hermenêutica revelar que um discurso ou texto contêm ações.Para Ricoeur (1989). que pode ser um acontecimento ou uma intriga. pois. então. mas seu papel fundamental é possibilitar um trabalho de conjunto.

Estes. mundo do texto. o momento em que se pode revelar a contribuição do autor. isto é. é a esfera da mente. 2 • p. Pode ser o caso dos que vivem e respiram uma atmosfera escolar. retirar dele apenas as referências. apropriação e distanciação são condições de compreensão de qualquer obra. então. como a distanciação se faz pela escrita da obra. 1989. a função humanizadora. sem perder de vista a função de mediação do sentido. pois compreender é se compreender como leitor (intérprete. p. sem. do psiquismo. a esfera da explicação representa a esfera dos objetos.. é uma questão problemática. o que significa “apropriação pela distância. mas complementares. seguir as etapas de explicação e compreensão. 201). proceder de maneira egoísta na reconstrução ou construção de outro texto. a arte de compreender os “sinais” culturais pela articulação do explicar e do compreender. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . inscrita nas obras de cultura pela compreensão da linguagem articulada na obra. para.o momento da explicitação da compreensão da obra. A objetivação se compreende pelas referências de um texto. 123). Observa Ricoeur que explicação e interpretação são dois momentos diferentes. Portanto. exegeta de texto). e a esfera da compreensão é aquela que procura entender o lugar das ciências do espírito. Compreender a escrita da obra é compreender a linguagem mediadora do texto entre um si e o outro – autor e leitor – para atingir a objetividade da obra. projetos sociais etc. na verdade. 19-36 • jul. contagiados e também tocados pela necessidade de ajudar a superar conflitos e falhas que ocorrem na escola. são duas esferas da realidade que procuram responder à questão da interpretação. por exemplo. É função do leitor dar um mundo ao texto. a interpretação é. A questão da objetivação requer apropriação e distanciação na elaboração de obras ou textos. 123). dado que “a explicação é o caminho obrigatório da compreensão” (Ibid. de “ser-no-mundo” como em Heidegger. o que permite que a obra seja ela mesma. A objetivação se faz pela estrutura da obra. de um texto (do discurso fixado pela escrita). se apropriar de “uma proposta de mundo” (RICOEUR. complexa. da matematização científica e da lógica indutiva. porque o mundo do texto cria o mundo real. no entanto. 118). muitas vezes. objetivação e apropriação. na dialética do explicar e compreender. visto que nem sempre o indivíduo percebe ou garante uma apropriação devida e real e nem sempre garante um mínimo de distanciamento em relação ao autor ou ao tema tratado. p. do movimento psíquico e seu dinamismo. 1989. que podem ser as manifestações da cultura. Será necessário descontextualizar o texto para reconstruí-lo ou recontextualizá-lo. Na esfera da pedagogia/educação. e a imaginação reconstrói a realidade (RICOEUR. p. de forma objetivada ou imaginária. portanto. retomar e inferir. A distanciação é fundamental para o fenômeno da escrita porque é condição de toda e qualquer interpretação. 1989.-dez. compreensão à distância” (RICOEUR. se esquecem de que a consciência reflexiva somente será um guia seguro na leitura e 28 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. O mundo do texto é uma categoria central na obra e tem como função hermenêutica revelar a “estrutura da obra”. assim como em qualquer outra área do conhecimento humano. Na interpretação é fundamental encadear. Mas o explicar e compreender também convoca as categorias de distanciação. revelar “uma proposta de mundo”. tem papel complementar entre a objetivação e a interpretação. uma categoria do texto. Por isso. p.

Nesse contexto.-dez. ainda. para o autor. Será fundamental garantir a distanciação em trabalhos de pesquisa/investigação a fim de permitir que o pesquisador/leitor possa identificar ou chegar mais próximo do objeto de sua investigação. funciona como um método na apreensão e assimilação predicativa. porque em se tratando de imaginário.). e o que o texto diz à imaginação. na leitura hermenêutica de um texto. “jogo” (Gadamer) e “metamorfose” (Ricoeur) – expressões do fenômeno chamado imaginação. uma poética da existência responde à prática do discurso”. (1989. no campo do imaginário. a imaginação atua como dinamismo do agir humano e auxilia a memória nos fenômenos da lembrança. 218). para Ricoeur (1989. Mas a apreensão de possibilidades novas é um ato precedente ao decidir e escolher alguma coisa. (RICOEUR. é fundamental mostrar a importância da dimensão imaginária na construção e compreensão de uma obra. porque funciona como auxiliar nos fenômenos de ressonância. no seio da realidade. Nas funções projetivas. Para Ricoeur (ibid. sem contar as alterações e aberrações entre obra e mundo. políticas. curiosidade. 223) “não há ação sem imaginação”. sem tornar inócua a consciência reflexiva. Quando a distanciação da imaginação responde à distanciação que a ‘coisa’ do texto cava. o ser do mundo – o eu. Nesse settido. pode-se dizer. 219-220. valores novos. 19-36 • jul. em Kant. Para Ricoeur (ibid. Dessa forma. novos modos de estar no mundo. se forma em mim o ser novo”. a imaginação reestrutura os campos semânticos porque ajuda na busca de sentido com a imagem e a linguagem. são projeções figurativas de libertação. dizer. funciona como um método de esquematização na representação do conceito. cuja “imaginação é esta dimensão da subjetividade que responde ao texto como Poema. p. p. humanas ou pedagógicas sem o uso da imaginação. Ricoeur aponta o papel do imaginário criador na teoria geral do imaginário social.. em primeiro lugar.compreensão desses espaços ou do mundo que os cerca se a apropriação e a distanciação estiverem alinhadas na captura do problema em questão. é. para a imaginação que o texto fala. grifos meus). a validade e a fecundidade da imaginação dão-se em sua ligação com a linguagem. Sabe-se que a imaginação produtora. pois a imaginação criadora tem um papel ou função no discurso e na ação. possibilitando que perdurem na consciência. A imaginação. 138 [grifo do autor]). que está na base da conceituação. 1989. num estado de não-compromisso em relação ao mundo da percepção ou da ação… estado de não-compromisso que ensaiamos ideias novas. este pode expressar-se de modo positivo ou negativo. 2 • p. a teoria geral do imaginário social admite “variações imaginativas” (Husserl). p. Assim. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 29 . pode-se inferir que não há ações filosóficas. pois “é na imaginação que. permite ver e dizer o nosso ser e os outros seres. Quanto ao papel da imaginação nas ações humanas. p. culturais. É papel da imagiCOMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. a princípio. Isso requer maior vigilância por parte do leitor/intérprete. o outro e o mundo como entidades ontológicas no movimento real e poético da vida. É exatamente aquilo que todos entendemos por isso: um jogo livre com possibilidades. porque o ver imagens. segundo Ricoeur.

A ideologia. não há legitimação totalmente transparente. a sociedade. A ideologia tem quatro etapas: primeira etapa . mais do que uma concepção que põem diante de si” (IBID. saiba se representar. quarta etapa – a ideologia é algo “em que os homens habitam e pensam. Mas quando há lugar para a imaginação trabalhar. É na força da imaginação que se podem encontrar as motivações para fazer ou executar um projeto ou uma tarefa – ela é o “eu posso”. terceira etapa – toda ideologia é simplificadora e esquemática porque procura dar uma visão de conjunto de si como uma visão de mundo. as ações para superar questões difíceis e problemáticas são mais fáceis de resolver e. 305). depositar projeções. Função que merece. Também a imaginação contribui para embelezar.. depositar projeções. atenção especial. traduz a competência para alguém fazer algo. do sentimento de pertença ao lugar e grupo.-dez. p. Pode-se dizer que a imaginação criadora em Ricoeur. para engodos e até violência. independentemente da etapa. para o próprio pensamento especulativo. Pode-se afirmar. 305). então. para Ricoeur. é possível verificar o papel positivo da ideologia nas mediações da cultura. um “ato fundamental de um grupo que se representa ideologicamente. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . instaurar o novo. materialismo…” (RICOEUR. é por meio dela que se pode comparar. esta etapa tem uma função operatória e não temática. p. desejos e exigências éticas.a partir de Max Weber. diz o autor. como da política 30 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. sonhos e anseios. criar e trazer novas aberturas. a ideologia aparece como uma ação social ou uma relação social. segunda etapa – teoria da motivação pessoal. senão por assimilação a este nível de discurso: espiritualismo. 19-36 • jul. Talvez não haja ismos. 2 • p. (traduz a crença na justiça instituída). empresas etc. e cada uma dessas expressões tem dimensões e ambiguidades que caracterizam suas funções sociais. sendo necessário que esse grupo social saiba construir uma imagem de si próprio. segundo o autor. que na esfera da educação. Mas. quando não há espaço para a imaginação. Em Max Weber. tanto da educação.nação projetar o sujeito para um mundo novo. é. quando o comportamento de alguém é significante e orientado pelo outro (o grupo a que está filiado). o imaginário criador expressa-se pela ideologia e pela utopia. A imaginação é também importante nas motivações e no poder-fazer de uma ação. Toda ideologia “é por excelência o reino dos ismos: liberalismo. 307). Para Ricoeur (1989). verificar motivos. por conseguinte. no imaginário social.. alcançar resultados positivos. isto é. necessidades tão heterogêneas e diversas “como as regras profissionais. é político na sua essência” (IBID. Esse tipo de ideologia funciona no grupo social como aquilo que justifica e projeta certa imagem nas instituições. contribui-se para construções deformantes. Cabe à imaginação a tarefa de organizar as motivações. que funciona como uma clareira luminosa. de modo antagônico e também complementar. permite aos indivíduos uma melhor visão do “eu posso”. aberto. 1989. p. medir. porque é ela que fornece o meio. p. os costumes sociais ou os valores fortemente pessoais” (Ibid.. Ideologia e utopia são duas formas de manifestação do imaginário social ou coletivo. socialismo. 227). sentir-se parte de um projeto em construção para melhoramento dos que estão dentro e dos estão de fora. assim como a imaginação produtora kantiana.

Assim. 379) como valorização da identidade da sociedade. pode ser criar uma imagem que ganhe força e dinamismo no grupo. que uma consciência falsa pode estar presente tanto na construção das ideologias. requer uma noção de legitimação e de dissimulação. ainda segundo o autor. mais geralmente. no contexto social. quero dizer. p. Ricoeur não nega que o que. se mantém de pé. a ideologia e a utopia são trabalhadas de maneira positiva. 2 • p. compete à educação trabalhar para ajudar a consciência reflexiva a lidar e superar a consciência ingênua a fim de combater os excessos sem perder a própria referência social nem o sonho de libertação do grupo. a função de integração.ou da filosofia etc. Tomando como exemplo. a necessidade de se pensar no imaginário a respeito de sua dupla polaridade: negativa e positiva – construtiva e destrutiva. quando têm direito a voz e visibilidade. p. p. ainda. Mas dever-se-á considerar que a ideologia é. quando se estabelecem as ações dos indivíduos nesses espaços levando em consideração a imagem que o grupo tem de si mesmo e a imagem que esse grupo busca atingir de si mesmo. A saída. geralmente. (IBID. Deve-se salientar. porque todo sistema de autoridade necessita de um reconhecimento de legitimidade. também. As distorções atribuídas a esse grupo. o que faz com que o grupo reaja a fim de não aceitar aquilo que o nega e aniquila. mais uma vez. a nossa posição de classe e. somando-se a essa dificuldade para enxergar um papel positivo no imaginário e nas expressões do imaginário. porque é justamente por meio dela que se conhece a “estrutura simbólica da memória social” (RICOEUR.-dez. 1989. a esfera da educação. dificultando ver e reconhecer a função social positiva do imaginário coletivo. como na construção das utopias em qualquer dos grupos considerados para estudo. Nesse caso. fica em evidência é o lado patológico – negativo ou destrutivo do imaginário social. Por isso. é possível identificar a imagem que o grupo tem de si mesmo e também a imagem estereotipada/rotulada desse grupo pela sociedade. podem camuflar uma história de preconceito e subjugação social. com a ideologia e a utopia surge. a qual o grupo tenta esconder/ negar. 1989. no espaço escolar. para o autor. 370). quando se trabalha de maneira horizontal. a nossa forma de pertença às diversas comunidades de que participamos” (RICOEUR. uma obra ou um autor. E é justamente na função de dissimulação e na função de legitimação que surge a função mais profunda da ideologia. p. Na esfera da educação. a fim de não ferir nem descartar alguém. 1989. quando os indivíduos são vistos e ouvidos. “um processo de distanciação e dissimulação pelas quais nos escondemos de nós mesmos. E. A primeira dificuldade que se pode encontrar nessas funções é quando se veem tais polos apenas como funções negativas. adquire uma consistência e uma permanência. aliando-se a isso. ainda. quando a ideologia de um grupo está cristalizada. O COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. 379). por exemplo. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 31 . nesse caso. 19-36 • jul. o problema conceitual da descrição e da compreensão desses fenômenos. competindo ao pesquisador/leitor investigar e suspeitar antes de se posicionar para compreender uma história. graças à imagem estável e durável que ele se dá de si mesmo” (RICOEUR. qualquer definição do conceito de ideologia.. 373-74). o momento em que “todo o grupo se mantém. ainda que não seja considerada válida pela realidade social.

no sentido fundamental. 32 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. E será tarefa do imaginário social revelar também o polo positivo da utopia e da ideologia. este corresponde às possibilidades históricas. pois “a função de integração prolonga-se na função de legitimação e esta na função de dissimulação” (RICOEUR. A utopia. É desta forma que eu estou. a ideologia preserva e conserva a realidade […] A utopia […] é a expressão de todas as potencialidades de um grupo que se encontram recalcadas pela ordem existente (RICOEUR. Funciona por meio das categorias da ação. se compreende e compreende o outro. os quais as definem e dificultam compreender seus papéis positivos e suas projeções de “mundos melhores”. 381-383). portanto.-dez. ligado a todos os outros” (RICOEUR. mas Os indivíduos. congregam aspectos patológicos. também. de uma forma de organizar a vida política.jogo de força e tensão. revelando a dimensão humana por meio do laço fraternal. 19-36 • jul. 1989. historicamente. O imaginário social funciona por meio da imaginação como um laço ou elo que liga os seres humanos uns aos outros. a história das utopias mostra-nos que nenhum domínio da vida em sociedade é poupado pela utopia: ela é o sonho de um outro mundo da existência familiar. 1989. os meus antecessores e os meus sucessos podem dizer ‘eu’. pelo princípio transcendental: eu e o outro. É quando ideologia de grupo e ideologia da sociedade podem conduzir ao diálogo e à reflexão. que são as categorias do tempo – nas quais o sujeito compreende. ela tem um papel fundamental como reveladora do imaginário social. Se analisada apenas pelo lado negativo. do mesmo modo que as entidades coletivas (grupos. as funções do imaginário. tomada no seu sentido fundamental […]. o que permite ver. de uma outra forma de viver a vida religiosa. A imaginação atua dessa forma. p. são expressões maiores ou práticas imaginativas – a utopia e a ideologia – com características antagônicas e complementares. 2 • p. e às analogias do campo histórico. em geral. outros homens no contexto social. 379). 228). p. 1989. separadamente. a ideologia é compreendida apenas como uma mentira social. segundo figuras de não-coincidência que são precisamente as do imaginário social. meu semelhante. ela é expressão fundamental do imaginário social. Por isso. p. estão. como mediação no campo individual e coletivo. pois a degeneração da ideologia não devia fazer-nos perder de vista o papel essencialmente positivo. mas se analisada também pelo lado positivo. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . desde a transmissão até o transcender e o interromper entre as gerações que o recepcionaram. não se deve pensar. assim como a utopia. ligados à realidade social de um modo diferente do da participação sem distância. Se a ideologia revela desde a função mais superficial até a função mais profunda. (RICOEUR. p. 1989. classes. […]. de uma outra forma de se apropriar das coisas e de consumir os bens. como uma ilusão de certo estatuto social. os meus contemporâneos. 226-28). para o autor. é o complemento necessário da ideologia.). no campo do imaginário social. Tem função importante no conhecimento histórico. eu como eu… “Como eu. semelhantes. construtivo e benéfico da ideologia. potencializa ambos os lados. em princípio e desde sempre. pois. nações etc. Certamente por isso.

aparece como algo depreciativo. a ideologia é subversão do imaginário social e a utopia é integração do imaginário social. procedem da distância que não deixa de se cavar entre a prática real e as interpretações através das quais o grupo toma consciência da sua existência e da sua prática. mesmo aquelas consideradas inadequadas. os polos ideologia e utopia podem ser pensados conjuntamente. que o que somos – O que é o homem? (RICOEUR. Mas ambas são reveladoras de problemas sociais. o que a utopia põe em questão em cada comportamento da vida social que acabamos de evocar. 382). 1989. estereotipia e ritualização. uma Simplificação. 19-36 • jul. 2 • p. ser a condição da produção das mensagens sociais. de modo diferente. enfim. Ambas. 229). Mas essa separação não ajuda e não tem nenhuma lógica. no contexto social. e cabe à ideologia a função de subversão social. poder político. Pontua o autor que toda utopia – joga o seu destino exatamente no mesmo plano em que se exerce o poder. a força de um elo temporal que reforça. poder econômico e social. juntas. Entretanto. Ideologia e utopia cruzam-se no imaginário social porque “tudo se passa como se este imaginário assentasse na tensão entre uma função de integração e uma função de subversão” (RICOEUR. por exemplo. pois. 1989. A ideologia pode revelar o trabalho patológico do imaginário por meio do elo social entre as classes. no sentido negativo. p. repetidora e reforçadora do elo social. ocultar. Mas ambas se caracterizam. a ideologia é conservadora. os autores utópicos querem o estatuto de paternidade. O que poderia ser algo simples. é. (RICOEUR. também. p. e no caso da utopia. ocultar uma relação social. a ideologia tem função integradora e a utopia. no sentido positivo. Utopia e ideologia são complementares em virtude de suas COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. de modo crítico e criador. no caso da ideologia. esquematização. será camuflar. a função de integração social. o imaginário social. enquanto que o da utopia será o de sublimar. está no eixo ideologia para utopia. mas o seu contrário. porém. porque cada uma tem uma função específica. ideologia e utopia são expressões ou características irredutíveis da imaginação como possibilidade de atingirmos. porque nesse caso o papel da ideologia. considerando-se a inversão.-dez. a forma de exercer poder: poder familiar e doméstico. cabe. Assim. no polo positivo. 1989. repete e faz perpetuar o elo nas mais diferentes situações e motivações sociais.Ideologia e utopia. Portanto. mas o sentido negativo. Ao contrário. (RICOEUR. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 33 . Uma certa não-transparência dos nossos códigos culturais parece. à utopia. os autores acabam criando uma espécie de ideologia da fuga. mais agravante ou distorcido. no imaginário social. são encaradas. função subversiva. p. os autores dos discursos ideológicos fogem da paternidade. como expressões do imaginário social patológico – no sentido negativo – caracterizam. de fato. Camuflar. p. nos discursos. enquanto que a utopia é a excentricidade do ser. Na inversão. 384). 1989. poder cultural e religioso. mas sublimar não aparece como depreciativo. 233). como tentativas de mostrar o elo entre homens e grupos e.

muitas vezes. relevante compreender as ações sociais. de maneira negativa. aqui destacados. se complementar. assim como se apropriar de suas referências com distanciação. signos. A ideologia possibilita à comunidade histórica um viés narrativo da vida social e grupal. as implicações históricas. possibilitando uma visão do conhecimento construído ou que será construído. dado que pedem atenção e cuidado por parte do leitor/ intérprete. mito e poesia são elementos que revelam o mundo do texto. autores e temas. metodológicos. sem ser egoísta depois de recriar ou criar um outro texto. bem como as interferências advindas do imaginário criador – ideologias e utopias de grupos e classes sociais. é o elemento de contestação e de não aceitação de uma condição imposta de fora.-dez. filosófica ou política. ou simplesmente. CONSiDEraÇÕES FiNaiS A questão da interpretação hermenêutica ou da filosofia reflexiva na obra de Paul Ricoeur pareceu-nos relevante para discutir a leitura e a escrita de textos. apropriar-se de suas referências. seja nas obras teóricas ou nas obras poéticas. 2 • p. Nesse contexto. A linguagem e o real mediados por símbolos. objetivação. no resgate da escola. nesse caso. portanto.trocas. A utopia também pode revelar os sonhos positivos. descontextualizar um texto é fundamental para recriá-lo. as referências encontradas no texto. como pode revelar os delírios de um grupo que não consegue enxergar a realidade social também como uma barreira. Por isso. nas imagens e nos discursos que potencializam (elementos que podem ajudar a forjar uma autoimagem positiva a fim de contestar a imagem negativa que lhe foi atribuída. porque as imagens ideológicas preenchem o vazio das projeções utópicas. São. quase intransponível. sendo fundamental considerar. A utopia tem a função de projetar-nos e de fazer-nos contestar. são fundamentais ao se tentar compreender uma obra. nesta produção. é considerar os muitos elementos. portanto. de maneira sábia e aberta. 34 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. Ricoeur coloca em destaque as intrigas ou conjunto de combinações e acontecimentos transformados em história no texto. as interferências da própria esfera pedagógica. sendo. na interpretação de textos. Deve-se considerar que os signos são mediadores da linguagem porque criam formas de manifestar o desejo e a fala – o ideal e o real das ações e se engendram mediante as temáticas embasadas nos valores culturais. psicológicas. os desejos de bem-estar e emancipação de um grupo. interpretar e construir ou reconstruir outro texto. os recursos hermenêuticos. aparecerão as tensões que estão presentes e configuradas nas falas. Fundamental. se contradizer. o grupo tenta esconder de si mesmo e dos outros aquela imagem que não lhe parece positiva e que revela a verdade que ele tenta esconder. nas ações humanas e nos conflitos sociais. é fundamental considerar que. a qual conta com preciosas contribuições de diversas áreas. o mundo do autor e o mundo do leitor. nas ações. na esfera pedagógica. muitas vezes interdisciplinares. convergentes ou divergentes. mundos que se cruzam. também. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X . A ideologia. sociológicas e de linguagem. filosóficas. por outro grupo maior – a sociedade. que podem se entrelaçar. discursos e obras na esfera pedagógica. 19-36 • jul. Esses elementos. ontológicos e epistemológicos.

contamos uma história. Do texto à acção: ensaios de hermenêutica II. 2000. s/d. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X 35 . Trad. _____. _____. 1988a. Paris: Seuil. W. L’Ideologia et L’Utopie. São Paulo: Paulus. 2 • p. Campinas: Papirus. A metáfora viva. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. P. 2000. Soi-Meme Comme Um Autre. Modernidade líquida. compreender e explicar são atividades complementares também na esfera pedagógica. criamos. será fundamental seguir o caráter configurativo de uma obra para compreender o papel da linguagem na obra. os acontecimentos narrados ou os discursos elaborados a partir da reflexão. O que é um autor? Lisboa: Passagens. Nesse contexto. cujo alcance somente será garantido quando o sentido da obra alcançar aquele para quem escrevemos. 1988b. discursamos. São Paulo: Vozes. In_____. 3v. Lisboa: Edições 70.O autor destaca também o papel da compreensão e da explicação na interpretação hermenêutica. 1965. Tempo e narrativa Campinas: Papirus. N. Outramente. BENJAMIN. 1998. _____. CESAR. FOUCAULT. REFErÊNCiaS ABBAGNANO. 2005. 1989. valores e manifestação de desejos podem marcar a dimensão de uma obra. 2008. Lisboa: Edições 70. _____. por isso. Ensaios filosóficos. 1996. _____. Interpretação e ideologias. Paris: Seuil. _____. O conflito das interpretações. Rio de Janeiro: Zahar. De L’interpretation: essai sur Freud. O mal: um desafio à filosofia e à teologia. Paris: Seuil. Dicionário de filosofia. Porto: Rés-Editora. 19-36 • jul. 2001. 1978. discentes e aqueles que integram o corpo da escola. _____. M. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. _____. Por isso. O discurso da ação. São Paulo: Brasiliense. 1990. 1994. Rio de Janeiro: Imago. Z. na qual ações. (Org. 2002. _____. COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n.-dez. ed. a fim de esclarecer a própria obra criada. Rio de Janeiro: Francisco Alves. deve-se considerar que uma obra que tem caráter pedagógico alcança outros pesquisadores. São Paulo: Loyola. São Paulo: Martins Fontes. 1999. Sergio Paulo Rouanet. 4. a dimensão da compreensão do pesquisador e a dimensão do aluno ou leitor quando entram em contato e analisam uma obra. BAUMAN. M. C. RICOEUR. Magia e técnica. narramos um acontecimento. _____. _____. docentes. O narrador.).

2 • p.SP Doutora em Educação pela FE-USP Submetido em 26/5/2011 Aprovado em 17/4/2012 36 COMUNIcAÇÕES • Piracicaba • Ano 18 • n. 2011 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X .Dados da Autora LUZIA BATISTA DE OlIVEIRA SIlVA Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC. 19-36 • jul.-dez.