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O REGIME JURÍDICO DOS NOTÁRIOS E REGISTRADORES E AS CONTROVÉRSIAS QUANTO À APOSENTADORIA

*Maysa Cortez Cortez

INTRODUÇÃO O presente artigo visa à apresentar, de forma sucinta, o regime jurídico da atividade notarial e registral sob o ponto de vista da relação entre os prestadores de serviço – titulares dos ofícios extrajudiciais – e o Estado. Neste sentido, abordaremos a previsão constitucional para o exercício desta função, o enquadramento dos profissionais desde ofício dentro do organograma da Administração Pública e as implicações disso no que diz respeito à aposentadoria dos tabeliães e oficiais de registro.

1. A DELEGAÇÃO E O REGIME JURÍDICO DA ATIVIDADE As atividades notarial e registral, antes da Constituição de 1988, eram organizadas e mantidas pelo Poder Judiciário de cada estado, e aqueles que atuavam nos serviços cartorários eram consideradas servidores públicos, uma vez que eram devidamente remunerados pelos próprios cofres públicos.

A Constituição de 1988, por sua vez, com o objetivo de enxugar a máquina estatal no que diz respeito à prestação destes serviços, determinou, para o exercício da atividade cartorária extrajudicial, o regime da delegação mediante concurso de provas e títulos. Ficou estabelecido, portanto, que esta atividade seria exercida em caráter privado e personalíssimo, conforme dispõe o art. 236 da Magna Carta:
Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder Público § 1º - Lei regulará as atividades, disciplinará a responsabilidade civil e criminal dos notários, dos oficiais de registro e de seus prepostos, e definirá a fiscalização de seus atos pelo Poder Judiciário.

sem perderem sua qualidade de particulares – portanto. Lei dos Notários e Registradores.Lei federal estabelecerá normas gerais para fixação de emolumentos relativos aos atos praticados pelos serviços notariais e de registro. pessoas alheias à intimidade do aparelho estatal (com exceção única dos recrutados para serviço militar) –.] concessionários e permissionários de serviços públicos. § 3º . etc.] que praticam.§ 2º . a atividade dos titulares de serventias cartorárias ganhou contorto mais definido. as disposições acerca da prestação dos serviços e da contratação de prepostos... certos atos de força jurídica oficial [. os Servidores Públicos (estatais ou empregados de pessoas jurídicas de Direito Privado prestadoras de serviço público) e os Particulares em Colaboração com a Administração Pública: Esta terceira categoria de agentes é composta por sujeitos que. como é o caso dos notários [. alguns juristas classificam-nos como possuidores de um regime jurídico hibrido.O ingresso na atividade notarial e de registro depende de concurso público de provas e títulos.2008..] (MELLO. p.. não se exauriram por completo as dúvidas quanto a alguns aspectos da relação entre o tabelião ou oficial registrador e a Administração Pública. bem como os delegados de função ou de ofício público. Com o advento da Lei 8935/94. Ficaram estabelecidos a natureza da atividade e os critérios de ingresso. nem são remunerados pelos cofres públicos. com reconhecimento do Poder Público. não se permitindo que qualquer serventia fique vaga. exercem função pública [. os deveres e responsabilidades dos delegatários. sem abertura de concurso de provimento ou de remoção. Entretanto.. compreendendo notários e registradores como pertencentes ao conceito genérico de Agente Público. O doutrinador administrativista Celso Antônio Bandeira de Mello classifica a categoria Agente Público como gênero. através de suas Corregedorias-Gerais.. ou seja.248 e 249) Tomando por base esse entendimento. mas ingressam na atividade através de concurso público e sujeitam-se a provimentos e fiscalizações correicionais pelos Tribunais de Justiça. quais os titulares de serventias da Justiça não oficializadas. . do qual são espécies os Agentes Políticos. uma vez que não ocupam cargo público. por mais de seis meses.

Já os defensores da segunda corrente. que teve como relator o Min. como a necessidade de concurso público de provas e títulos para ingresso e do concurso de remoção. tema que já foi objeto de diversas discussões jurisprudenciais em vários tribunais do país. enquanto particulares em colaboração com a Administração Pública devidamente remunerados pelos usuários do serviços. pois a própria lei trazia exigências típicas do regime de servidor. ainda que prestadores de serviço público. eram remunerados à conta da própria receita pública. ao entenderem que a delegação da atividade. 40. os titulares de serventias extrajudiciais estão alheios à norma retro mencionada e devem ser regidos pelo sistema geral de previdência. estão abrangidos pela aposentadoria compulsória aos 70 anos de idade. e não de servidores remunerados pelos cofres públicos. por se tratarem os notários e registradores de agentes públicos. O grande marco do primeiro posicionamento. entabulada no art. por não perderem sua condição de particulares. Defendia ainda que. a favor da aposentadoria compulsória.2. . além dos notários e registradores também serem titulares de cargos criados por lei. § 1º. e sobre a qual recaiu a maioria dos votos no Plenário do STF. para seu exercício em caráter privado. sujeitos a permanente fiscalização do Estado. pelo contrário. Por estas razões. em número certo e com designação própria. II da CF/88. e esta majoritária.236. foi a decisão proferida sobre o Recurso Extraordinário nº 178. entendeu o STF ser perfeitamente aplicável a previsão da aposentadoria compulsória aos 70 anos para os titulares de cartório. A APOSENTADORIA DOS NOTÁRIOS E REGISTRADORES Uma das conseqüências desse regime jurídico “híbrido” foi a imprecisão gerada acerca da aposentadoria desses delegatários. O acórdão defendia que a disposição do artigo 236 da Constituição não deveria ser interpretada no sentido de excluir os notários e registradores da condição de servidores públicos. e outra que entende que. As discussões giram em torno de duas correntes principais: uma que entende que. partindo do entendimento que os emolumentos teriam natureza de taxa e eram devidamente fixados em lei. coloca tabeliães e registradores numa condição de “agentes especiais”. Octávio Gallotti. apontam para uma compreensão diversa sobre os dispositivos legais.

CONCLUSÃO Diante do exposto. buscar enquadrar estes delegatários na condição de servidores públicos por mera semelhança quanto a alguns quesitos.. desconsiderando. Ficamos. dos Estados. embora as atividades notarial e registral tenham se originado dentro da seara do serviço público – estrito senso – e que. incluídas suas autarquias e fundações. estipulando o caráter privado para o seu exercício. não restaram mais dúvidas quanto à impossibilidade de interpretação extensiva da expressão “servidor público” para abranger a categoria dos tabeliães e oficiais de registro. por sua vez.”. E o entendimento do STF passou a ser pela inaplicabilidade da aposentadoria compulsória a estes profissionais. do Distrito Federal e dos Municípios. O STF. 40 da CF/88 trazida pela EC 20/98. e a Lei 8935/95. tomando por base a nova redação do art. a aposentadoria cabível a estes profissionais seria apenas a facultativa. com o entendimento de que os delegatários não perdem sua condição de particulares. a própria razão de ser do serviço seja eminentemente pública. . todas as peculiaridades que a própria natureza do serviço apresenta. Seria forçoso. no art. portanto. mudou seu entendimento a partir da ADI 2. devidamente elencada como hipótese de extinção da delegação. é possível concluir que. a Constituição Federal previu um regime diferenciado para os executores destas funções. que tornou restrita a aplicação da norma da aposentadoria compulsória “aos servidores titulares de cargos efetivos da União. Com isso. tratou de regulamentar o regime jurídico a que estariam submetidos esses notários e registradores.602. por outro lado. portanto. por sua vez.Neste sentido. ainda que na condição de colaboradores da Administração Pública. 39 da Lei 8935/94..

Rafael D’Ávila Barros “A atividade notarial e de registro e o princípio do concurso público. Juliana de Oliveira Xavier “Aposentadoria Compulsória para Notários e Registradores. 2008.br/revista/texto/11394/aposentadoria-do-notario-e-registrador-aluz-da-jurisprudencia-do-stf#ixzz2MKxp1SN1> Acesso em 10 mar. . Disponível em: <http://jus.asp> Acesso em 10 mar.br/artigos/artigo_juliana. 2013. Conceito Editorial. 1.” Disponível em: <http://www.REFERÊNCIAS ARIOSI.com.” Disponível em: <http://jus.“A aposentadoria do notário e registrador à luz da jurisprudência”. “O Serviço Notarial e Registral como Serviço Público.br/revista/texto/11210/a-atividade-notarial-e-de-registro-e-oprincipio-do-concurso-publico#ixzz2N4GGPW6L> Acesso em 10 mar. 2013 RIBEIRO.iape. PEREIRA. GALDINO. 2013.com. Curso de Direito Administrativo. Maria das Graças Cabral.2008. Mariângela F.com. BANDEIRA DE MELLO. Direito Imobiiário em Debate vol. Malheiros.