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LITERATURA EM FOUCAULT: LUGARES DA ANÁLISE DO DISCURSO

CLEUDEMAR ALVES FERNANDES*

RESUMO No estudo que ora apresentamos, procederemos a um percurso pelas reflexões de Michel Foucault em torno de linguagem e espaço na literatura e articularemos esses conceitos com a noção de sentido colocada pela Análise do Discurso preconizada por Michel Pêcheux. PALAVRAS-CHAVE: Discurso, literatura, Foucault, sentido, memória.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Entre as imagens cerradas nos seus limites e a forma em movimento do poema aconteceu passar a flecha do discurso. Alfredo Bosi

As reflexões que ora apresentamos integram um estudo mais amplo, apenas iniciado, cujo objetivo principal é o de refletir sobre as especificidades da Análise do Discurso para o texto literário. Considerando as peculiaridades da produção literária, os aspectos lingüísticos, estilísticos, formais enfim, implicam efeitos de sentido peculiares a essa produção e, ainda, a literatura dialoga com uma exterioridade perpassada pela história, que constitui memória discursiva em diferentes produções e implica efeitos de sentido decorrentes da inscrição dos sujeitos e dos discursos em diferentes lugares sócio-histórico-ideológicos.
* Professor da Universidade Federal de Uberlândia. E-mail: cleudemar@uol.com.br

O caráter de incompletude dos sentidos e sua compreensão como efeitos de sentido. cuja produção se inscreve na história. para iniciar nossas reflexões.O texto literário sob o olhar da Análise do Discurso pode ser pensado sob vários caminhos. faremos mais um recorte. de uma proposição etc. . existem sempre aberturas por onde é possível o movimento da contradição. 190) a noção de sentidos: O sentido de uma palavra..1 Feitos esses apontamentos. visando sua articulação com a noção de sentidos. Este conceito será retomado e problematizado em nossas considerações finais. não existe “em si mesmo” [. Porém. focalizaremos as reflexões de Michel Foucault em torno de linguagem e espaço na literatura e articularemos esses conceitos com a noção de efeitos de sentido. acrescenta-se: “os sentidos nunca se dão em definitivo. ao contrário. mas conforme discutido na Análise do Discurso. 50 FERNANDES. de uma expressão. Cleudemar Alves.. diante da amplitude e complexidade da obra de Foucault e ainda de sua articulação na Análise do Discurso (GREGOLIN. 2000. passando também pela noção de memória discursiva. nos limitaremos a um percurso pelos conceitos de Michel Foucault acerca do literário.. a essa formulação. expressões e proposições são produzidas. 61). do desdobramento e da polêmica” (GREGOLIN. dada a amplitude dessa temática. 2004). Especificamente. ou melhor.. são aspectos importantes para refletirmos sobre as noções de linguagem e espaço apresentadas por Foucault em suas reflexões em torno da literatura. lugar teórico instituído como nosso espaço de enunciação. Nosso olhar para essas questões emerge de nossa inscrição na Análise do Discurso conforme preconizada por Michel Pêcheux. entre essas possibilidades assinaladas e tantas outras. é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sóciohistórico no qual as palavras. A propósito dessa circunscrição. efeitos de sentido. p.] mas. p. LITERATURA EM FOUCAULT:.. relembremos com Pêcheux (1997.

talvez.] de certo modo. 2006 51 . Inapreensão e indefinição: sentidos que se colocam. 2. Se o que afirmamos é uma interrogação acerca do próprio ser da Sereia. os sentidos ressurgem como efeito do que provoca a busca. Embalados pelo canto da Sereia. Foucault (2000a.LITERATURA: LINGUAGEM E ESPAÇOS COMO EFEITOS DE SENTIDO Na análise que Foucault (2001a. um indefinido e também inapreensível objeto. plena sedução. 49-62. “seu fascínio não nasce do canto atual. um oco onde ela deveria se situar e. Ainda com Foucault (2001a. o vazio feliz da escuta. 70) atribui a Blanchot a possibilidade de qualquer discurso sobre literatura SIGNÓTICA ESPECIAL.. o canto da Sereia é apresentado como “forma inapreensível e proibida da voz sedutora”. n. por exemplo. aponta a noção de gênero do discurso como possibilidade de seu estudo e afirma que há vários discursos no lugar de uma literatura única. Diante dessa figura evocada. como um intervalo entre o ponto de partida e o inexistente ponto de chegada. 234) faz da Odisséia. 139) inicia hipotetizando a literatura como o mesmo que o ato de escrever. p. um oco aberto na literatura. 234). o que ele se propõe a ser? A indefinição dessa pergunta seria. p. Foucault (2001b. calorosos embates e pontuaram muitas divergências em torno da tentativa de conceituar literatura enquanto arte e de arrolar as características definidoras de um texto literário. aos ouvidos de quem ouve seu canto. do convite à pausa”. o seu próprio ser. na busca de alcançá-lo. mas do que ele se propõe a ser”. da atenção. é pensada por Foucault (2001b) a partir da retomada da repetida indagação: “o que é literatura?” Vários estudiosos voltados para esse objeto têm empreendido. p. ao discutir a dificuldade de conceituar esse objeto. o canto da Sereia. Lemos esse oco como sentidos imprecisos. p. interrogamos: afinal. a literatura. é uma promessa de estado de êxtase. ou empreenderam. de Homero. provavelmente. p. mas imediatamente apresenta uma dificuldade paradoxal: “a questão é [.. recolher todo o seu ser”. Todorov (1980). que se produzem como efeito do que possibilita o ser da literatura. a Sereia. Então. e antes da evocação dessa imagem. Como nada mais “senão o puro apelo. em suas problematizações.

Diante dessa interrogação. uma brancura essencial onde nasce a questão “O que é literatura?” (FOUCAULT. o que sulca toda linguagem escrita e deixa em qualquer texto a marca vazia de uma ranhura”. Cleudemar Alves. pôde-se olhar para o passado e atribuir a obras clássicas a denominação literatura. espaço compreendido como um não-lugar. LITERATURA EM FOUCAULT:. indagamos com Foucault: o que é o ser da literatura? Também com Foucault respondemos: o que é construído como tal. Entretanto. mas por uma exterioridade a esse ato e a essa produção.. resulta de um dado saber. consiste em efeitos de sentido. reafirma “a literatura como um fenômeno eminentemente moderno” no sentido de a “linguagem literária manifestar fundamentalmente o poder de falar sobre a linguagem”. esse terceiro ponto.. oco. a palavra “literatura” é datada do século XIX.por ter sido ele quem primeiramente mostrou a conexão entre diferentes obras. e seu estudo deveria se dar pelo viés do discurso: “o discurso não é um. Machado (2000. 21) reitera que nas línguas européias. sentidos nebulosos 52 FERNANDES. a indagação suscitada continua suspensa no ar.. nem o fato de uma obra ser fabricada com linguagem. “a literatura é o que constitui o fora de qualquer obra. A literatura é afirmada como um espaço vazio onde as obras literárias se alojam. a literatura é uma construção recente.] exterior [. p. assim. 2001b. Todorov (1980. no sentido atual.. . a literatura é um terceiro ponto [. ou de uma produção de conhecimento. a obra e a literatura. não no ato de escritura de seu autor. Para esse pensador. Como espaço exterior. p.. Diante disso. seu nascimento é datado do século XIX. e esse espaço vazio que as acolhe constitui a literatura. 142). 110). Somente a partir de então. Mas é a relação entre esses três elementos. que vislumbramos apenas como efeito de sentido marcado por opacidade.. os indefiníveis efeitos de sentido decorrentes dessa relação que será tematizada. mas múltiplo tanto nas suas funções quanto nas suas formas”. encontramos em Foucault (2001b) três distinções iniciais: a linguagem.] que desenha um espaço vazio. p. uma interligação entre todas as obras. “A literatura não é o fato de uma linguagem transformar-se em obra. a partir de reflexões encontradas na obra de Michel Foucault.

e. sempre sedução. a literatura é o seu próprio ser.que apontam para o ser da literatura. e evoca também a linguagem que rompe o próprio espaço da linguagem – e a repetição “contínua da biblioteca”. O espaço próprio da linguagem é distribuído por essas grandes categorias: a transgressão e a morte. n. circulação e ressignficação de discursos que tiveram. a idéia de que a literatura é linguagem é abandonada. diferentes lugares na história). mas como não sabido inalcançado. como palavras que conduzem “a uma perpétua ausência”. 49-62. Então. (Temos. sempre envolvimento. 52) “querer fazer algo como uma obra. Esse ser. pela reaparição. falar para a ‘glória’ era avançar em direção e contra essa morte que afirma a linguagem”. 2. dessa feita. 144). 2001b. Para a morte. A transgressão – que evoca a interdição da própria literatura e de literatos (a exemplo de Sade) e a ruptura com a realidade. algumas caracterizações acerca do literário são pontuadas. dada sua indefinição. Abre-se. como provocação de efeitos de sentido também indefinidos. p. p. se faz presente como uma exterioridade a si mesmo. Foucault evoca a figura de Orfeu (morto pelas bacantes). Novamente o canto da Sereia como um convite a um estado de êxtase jamais alcançado. a implicação do conceito de memória discursiva. portanto. falar para que os outros falem dela ao infinito. espaço dos livros cuja existência se repete “infinitamente no céu de todos os livros possíveis” (FOUCAULT. Semelhante ao canto da Sereia. Édipo (pela relação com sua mãe) é referido. e têm. um espaço (vazio?) no interior da linguagem. p. A linguagem procura construir uma imagem de si visando à superação da morte. uma distância. A SIGNÓTICA ESPECIAL. Segundo Foucault (2001b. 2006 53 . é efeito do que não é. Mas a literatura é apresentada como irrupção da linguagem na “página em branco”. e possibilitam outras tematizações. o interdito e a biblioteca. para a transgressão. efeito de um trabalho de linguagem que não se define. Nas análises que Foucault faz de literatos. porta-se como se fosse um espelho diante de outro espelho: uma reduplicação infinita que se perde ao alcance dos olhos nus. A morte é colocada ao lado da transgressão com a qual forma duas grandes categorias da literatura contemporânea. assim.

mas que decorrem de espaços de enunciação múltiplos. 147) afirma: “não há ser da literatura. simulacro – apontam para a linguagem e seu duplo. e até mesmo como pesadelo que o assusta e o ameaça. A literatura é linguagem ao infinito. e. O infinito da linguagem também se multiplica infinitamente. transgressão. ainda.linguagem. como uma infinita materialização de sentidos provocadores de sentidos que. uma vez que ela ultrapassa os sujeitos e também os situam nela. pelos efeitos de sentido que não cessam de reduplicarem-se. talvez por possibilitar-lhe uma unidade entre conteúdo e projeto estético. E Foucault (2001b. efeitos de sentido inapreensíveis. compreendida como realidade e desejo. repetitiva. p.. a partir da noção de escritura. reduplicada”. Foucault (2000c) afirma que Barthes. mas há sempre uma distância entre a linguagem e a literatura. Literatura é uma linguagem “transgredida. A escrita faz da obra a literatura. tem lugar na biblioteca. um espaço exterior. e a partir desse lugar. a linguagem aponta para seu duplo. Foucault (2001c) afirma a escritura como forma de viver – “escrever para não morrer”. eternamente viva pela reduplicação ao infinito. dada a historicidade. vozes dos sujeitos em seus passos. Imbricamento do homem e sua complexidade. não se repetem. encontra-se distante do real. tentou fazer “uma nova possibilidade de história da literatura”.. Referindo-se a Blanchot. LITERATURA EM FOUCAULT:. Cleudemar Alves. repetição. a linguagem estendida ao infinito em reduplicação. Forma e enunciação. a própria crítica literária seria uma linguagem segunda que se acrescentaria a essa múltipla linguagem primeira que é a literatura. . A imortalização pela escrita 54 FERNANDES. a literatura é um elemento peculiar entre todas as produções culturais e tem suas “próprias leis de condicionamento e transformação”. há simplesmente um simulacro que é todo o ser da literatura”. Encarregada de mostrar o que é literatura. Nesse ínterim. infinitamente multiplicada em seu duplo e em sua reduplicação. mas presente em tantas realidades. Se literatura é linguagem ao infinito. a possibilidade de se desdobrar e repetir como imagem frente ao espelho. As figuras então apresentadas como caracterizações da literatura – interdição. na qual consideraria sua especificidade. morte. mortal. Sentidos compreendidos como efeitos de sentido do que não se define. como sono tranqüilo e sonho. como sugere Foucault.

p. atualmente. a obra apresenta uma psique [. O espaço da linguagem. Trata-se da possibilidade de a linguagem... A linguagem ao infinito implica pensar o espaço. Talvez. n. “a estrutura de espelho é dada aqui explicitamente: em seu próprio centro.manteria sua existência e sua continuidade na face da terra. como uma imagem jogada ao espelho. seja essa a forma da existência de Deus e sua permanência. na atualidade. conforme desenhado. ao serem retomados. tendo feito o homem a sua imagem e semelhança. um espaço infinito” (FOUCAULT. Efeitos de vida e de morte. e pela palavra. a linguagem busca romper o limite da morte. ou do oco que lhes preenche. de um conhecimento. no limite da morte. a linguagem faz nascer sua própria imagem. refletir-se. Como afirma Foucault (2001c. pela biblioteca. 2006 55 . ou melhor: nela. compreendida como obra de linguagem. A escrita. Se a atualidade é a época do simultâneo. na busca e/ou espera de alcançar em si o ser da literatura. 51). em seu poder. define-se. A linguagem revela também palavras que matam. 49-62. para se viver. nesse sentido. renascer e fazer morrer. manteria a morte afastada e de que esse espaço infinito reside fora da obra. De qualquer forma. como mostra Machado (2001). Se no início era apenas verbo e o verbo se transformou em vida. O “limite da morte abre diante da linguagem. Isto se deve a certo exercício do saber. podem ser tomados como efeitos de sentido decorrentes da opacidade em que os sujeitos. p. se com um sopro Deus fez o homem. lugar onde os livros. o homem promove a morte de Deus em função do próprio nascimento. Essa imagem infinitamente reduplicada corrobora a tese de que a linguagem. se inscrevem.] na qual ela reaparece como em miniatura e precedendo a si mesma”. constroem-se rastros de identidades perdidas. infinitamente reproduzida em um jogo de espelhos sem limite. o exterior. 2. nele a História (sempre plural). p. avançaria sempre suscitando a reduplicação do espelho. na idade contemporânea. Para Foucault. na literatura. 48). sempre contestado pelos descendentes de Adão e Eva. ou fazem morrer. promovem uma efervescência de sentidos em um jogo de memória marcado por entrecruzamento de diferentes discursos. da SIGNÓTICA ESPECIAL. ela o coloca e o encontra fora de si. 2001c.

estejamos falando da crítica. enquanto escola. 411). espaço. ao mesmo tempo. em um indefinido jogo de entrecruzamento de discursos e de efeitos de sentido. são escavados e (re)nascidos como poetas que permanecerão vivos. como espaços em diferentes bibliotecas. uma denegação do marginal que também. é uma multiplicidade de lugares e de subjetividade (tomada como prática de subjetivação) e também de indefiníveis efeitos de sentido. em todo devir. p. Não nos referimos às obras literárias. Pensamos a literatura em sua exterioridade. Quando dessacralizada. 56 FERNANDES. linguagens que sacralizam épocas ou escolas. que se transformam e implicam diferentes efeitos de sentido. é duplicada e reduplicada. precisamos refletir sobre os espaços. estantes de bibliotecas. ainda assim. O que se denomina tempo. O cânone e o marginal coexistem e convivem e renascem em inúmeros outros jazigos construídos especialmente para eles. para diferentes unidades.. todos os literatos estão a falar. de teorias literárias.justaposição. mas que também escreveram. como linguagens que apontam para a dispersão e. Talvez.. permanece como referência. exterior de si. A literatura como espaço exterior. porque escreveu. e. LITERATURA EM FOUCAULT:. não estamos falando sobre um objeto literário. presente em todo jamais dito. na contestação encontra-se a abertura para o então outro movimento. e história na linguagem literária parece ser uma constante reconfiguração do cânone que está por vir. A linguagem estendida ao infinito é sempre retirada do jazigo. dessacralizadas pela sacralização de épocas posteriores no mesmo movimento que as sacralizou. a cantar. mas. Nos jazigos. . e a ele retorna para suas reduplicações ao infinito. fora de si. Cleudemar Alves. ao mesmo tempo. Todo poeta morto permanece vivo. exterior a si. como atesta Foucault (2001d). e muitos que morreram ainda não poetas. está por vir. como um já dito. 2001d. contestada. mas não são justamente elas que impõem e exigem a presença de dadas obras como condição do devir literário? “Certos conflitos ideológicos que animam as polêmicas de hoje em dia se desencadeiam entre os piedosos descendentes do tempo e os habitantes encarniçados do espaço” (FOUCAULT.

Acerca da noção de espaço e de tempo na obra de Michel Foucault. Trata-se de um efeito de memória. embaraçado. ou então é um espaço obscuro. está sempre buscando construí-la. cujos efeitos revelam a incompletude dos sujeitos na busca da completude. mas recorreremos especificamente ao artigo intitulado “Outros espaços” (FOUCAULT. o de nossas paixões possuem neles mesmos qualidades que são como intrínsecas. Martins (2002) observa que há.. a construção de conjuntos e de linearidade. encontramos referências ao espaço como “utopias e heterotopias”. 49-62. p. Contrapõe-se a essa construção a ebulição constante de linguagens e estilos apontados como pertencentes a produções de épocas muito anteriores. integrantes de um primeiro conjunto. Na teoria literária. pela classificação de obras. 2001d) SIGNÓTICA ESPECIAL. exterioridade às representações (nunca coincidentes) que os homens fazem. 1981). Interessa-nos com Foucault (2001d. pois até mesmo o homem. ao mesmo tempo. a literatura pode ser o canto da Sereia: êxtase sempre buscado e jamais encontrado. etéreo. de suas realidades. n. é construído por esses efeitos. 2.. enquanto representação de vida real. transparente. Como uma interioridade ao exterior. é um espaço leve. o de nossos devaneios. o espaço de nossa percepção primeira.A noção de espaço não se refere a lugares onde acontece a vida real dos homens.] um espaço que talvez seja também povoado de fantasma. ou pensam fazer. jamais pensado existir. 2006 57 . por vezes. encontrá-la. promove o apagamento de relações de vizinhança (são tentativas de homogeneizar os discursos). de uma história marcada por dispersão e descontinuidade. nessa obra. O espaço implica efeitos de sentido e. que rompem a poeira de seus jazigos e tornam-se uma presença em um dito como novo. pelos efeitos de sentido. de discursos retomados em outros lugares e. pedregoso. em face das condições de produção. transformados. Em As palavras e as coisas (FOUCAULT. um posicionamento singular. 412413) uma não-linearidade dos espaços: ter constituído um espaço infinito. e infinitamente aberto [. p. O espaço é exterioridade a tudo isso.

por exemplo). um lugar que os mistura. 97). b) os funcionamentos das heterotopias são diferentes para cada uma e sofrem mudanças na história. LITERATURA EM FOUCAULT:. “São lugares que estão fora de todos os lugares”. espaços essencialmente irreais. pois é um lugar sem 58 FERNANDES. Segundo Martins (2002. há vários espaços e/ou posicionamentos (o jardim. pelo qual somos atraídos para fora de nós mesmos. Foucault afirma: a) toda cultura no mundo constitui heterotopia. o social e o da família. o espelho é uma utopia. de nossa história. . Foucault atesta a sacralização dos diferentes espaços que comandam nossa vida. p. Foucault atesta que não vivemos em espaços homogêneos. Referese a espaços que se opõem: “o público e o privado. d) as heterotopias se ligam a recortes do tempo. p. Isto posto. Cleudemar Alves. nos quais os posicionamentos reais estão representados e invertidos. No texto supracitado. no qual decorre precisamente a erosão de nossa vida. que se referem a lugares reais. O espaço é pensado como o que nos é oferecido sob a forma de relações de posicionamentos e. lugares de representações culturais. Foucault apresenta dois grandes grupos de espaço que. as “heterotopias”. pelos seus posicionamentos.. entre esses dois grandes espaços. O lugar existe realmente e nele há a representação de posicionamentos culturais. elege os espaços de fora como objetos para reflexão. Há. daí a noção de “heterocronia”. 414). ao abri-lo para o infinito. o do lazer e o do trabalho” etc. considerando que os homens rompem com o tempo tradicional. delineados pela instituição sociedade. apesar de Galileu ter promovido uma dessacralização do espaço. c) em um mesmo lugar. Esses lugares são utopias realizadas. o cultural e o útil. de nosso tempo. “museus e bibliotecas são heterotopias nas quais o tempo não cessa de acumular e de se empilhar até o cume de si mesmo”. Acerca das heterotopias. que possibilitam as fábulas. A partir de análises literárias. estão ligados a todos os outros.. As “utopias”: posicionamentos sem lugar real.para a compreensão dessas noções em face de sua relação ou presença no literário. esse espaço que nos corrói e nos sulca é também em si mesmo um espaço heterogêneo” (2001d. Assim afirma: “o espaço no qual vivemos. Seria o espelho: “afinal.

contudo. p. A título de ilustração. constituírem linearidade espacial e temporal. Contudo. “É a partir do espelho que me descubro ausente no lugar em que estou. são SIGNÓTICA ESPECIAL. 2001d. Em Foucault. integram práticas discursivas. 49-62. 2. de olhares para o que não se vê. enquanto linguagens que provocam efeitos de sentido indefinidos. eu me vejo lá onde não estou. houvesse lugar neste momento. sem. ou palavras. de tempos diferentes que se aproximam. ele é real. a literatura implica efeitos de sentido decorrentes de uma exterioridade plural. porque eu me vejo lá longe” (FOUCAULT. Na literatura. de efeitos de sentido por nós visualizada transcende aquele conceito de Michel Pêcheux. esses lugares não lugar. Mas essa utopia do espelho é também uma heterotopia na medida em que o espelho existe de verdade. em um espaço irreal que se abre virtualmente atrás da superfície. apresentado como sentidos produzidos por enunciados. os livros falam. PALAVRAS FINAIS Feito esse percurso de leitura por conceitos foucaultianos. entre interlocutores. e também a heterocronia. podem ser pensados sempre em ruptura e continuidade. Na biblioteca. se atravessam e se distanciam. que tem lugares nos livros e fora deles. poderíamos recorrer às construções dos cânones e também da literatura marginal. n. Tais construções são posteriores à produção em si.lugar. ou melhor. p. esses espaços exteriores. existentes apenas como efeitos de uma busca. continuarem saindo e se (re)duplicando infinitamente. pensando a heterotopia. não o nega. sempre buscada e jamais alcançada. No espelho. eu estou lá longe. descontínua e dispersa. e de uma história também plural. 415). São efeitos de sentido localizados na opacidade de uma exterioridade movente. e voltam às estantes para delas. Trata-se de efeitos de sentido decorrentes de lugares e linguagem multiforme. lá onde não estou”. São efeitos de uma exterioridade que integram a subjetividade. a noção de sentidos. 2006 59 . em decorrência de suas inscrições ideológicas.

Espera do que nunca será alcançado.. ouçamos. e tudo o que pode ser compreendido como o exterior aparece em reflexões futuras. em momentos em que Foucault não se volta para o literário. que implica a espera e a busca do que não será alcançado. LITERATURA EM FOUCAULT:. considerada como prática de subjetivação. . da noção de efeitos de sentido. e o sendo constitui sedução. Isto. revela incompletude do sujeito na busca da completude. elementos integrantes. a busca. imputa a espera. porque o ser da literatura. Cleudemar Alves. o pensamento. é exterioridade de uma linguagem em linha tortuosa estendida ao infinito. aos olhos de quem lê. nesse ínterim. a linguagem e seu duplo. O ser da literatura em sua indefinição – espaço exterior e linguagem ao infinito – provoca efeitos de sentido nos sujeitos constituindo-lhes a espera.decorrentes de uma exterioridade.. as reflexões de Foucault acerca da indefinição do ser da literatura. como efeitos de sentido de uma exterioridade atuantes na constituição dos sujeitos. com Foucault. também seria promessa de estado de êxtase. Acerca do “exterior”. Ces concepts seront discutés 60 FERNANDES. retoma-se a problemática da subjetividade. o exterior no interior. LITTÉRATURE EN FOUCAULT: LIEUX DE L’ANALYSE DU DISCOURS RÉSUMÉ Cette étude poursuivra un parcours à travers les réflexions de Michel Foucault autour du langage et de l’espace dans la littérature. já apontado por Authier-Revuz (2004) como de natureza psicanalítica. de natureza sociocoletiva. Esse caráter de incompletude. Além dessa exterioridade historicamente construída e que constrói subjetividade. como integrante de uma interioridade. ao evocar o canto da Sereia. para o qual. se até mesmo a espera – pleno desejo – é também duplicada e reduplicada. Por ora. Revel (2005) observa que o espaço. o canto da Sereia. resultam de efeitos de uma exterioridade à literatura. Assim. possibilitanos trazer para a noção de efeito de sentido o caráter de incompletude do sujeito. coloca em pauta a noção de desejo.

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