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l O GLOBO

Sociedade

Terça-feira 15 .4 .2014

Brasileiros não se desligam e superam até americanos em conectividade por celular e tablets
ANDRÉ MACHADO
ARQUIVO PESSOAL REPRODUÇÃO DO FACEBOOK

Só pensam naquilo
_

INTERNET MÓVEL

amachado@oglobo.com.br
Uma pesquisa da consultoria PwC (antiga PriceWaterHouseCoopers) em quatro dos países mais conectados do mundo demonstrou que o internauta brasileiro é um dos mais ativos quando se trata de acessar serviços e aplicativos por meio de celulares, smartphones e tablets. Uma das razões, segundo analistas, é que no país a inclusão digital avança muito mais por meio dos dispositivos móveis, especialmente celulares e smartphones, do que PCs, que, aos poucos, vão sendo deixados de lado. A pesquisa ouviu quatro mil pessoas no Brasil, na China, no Reino Unido e nos Estados Unidos, divididos mais ou menos igualmente, e demonstrou que os usuários de smartphones e tablets no país são os mais engajados. A maioria aqui usa o sistema Android (59% no smartphone e 51% no tablet), com o iOS, da Apple, em segundo (24% no smartphone e 35% no tablet). O país tem o índice mais alto de todos em acesso a redes sociais, como o Facebook (95% entram pelo menos uma vez por semana), e em redes profissionais como o LinkedIn (77%, uma vez por semana), contra 40% nos EUA. Enquanto 59% dos brasileiros costumam comprar coisas on-line, só 32% dos americanos o fazem. Mais: 68% dos brasileiros baixam ou fazem stream de séries de TV, e 73% baixam ou fazem stream de filmes, contra, respectivamente, 25% e 21% entre os americanos. DOIS IPHONES ‘PARA GARANTIR’ Entre os usuários “mobile” brasileiros, 93% veem vídeos em seus dispositivos móveis, enquanto 90% jogam games; 87% checam notícias, previsão do tempo e esportes no aparelho, ao passo que 80% se valem do GPS embutido para se situarem geograficamente. Compra de ingressos, reserva de hotéis e aquisição de serviços de viagens pelo celular (45%, 40% e 38%, respectivamente) são também ações bem mais frequentes aqui do que entre os americanos, cuja taxa varia de 5% a 10% nos mesmos itens. Entre os brasileiros entrevistados, 61% eram homens, e 39%, mulheres. — Tudo on-line no Brasil é três a quatro vezes maior em pontos percentuais que nos outros países: fazer reservas em hotéis e restaurantes, comprar filmes e ingressos para shows... O celular é, hoje, mais do que nunca parte integral da vida dos brasileiros, que estão bem ligados nele. Há uma grande oportunidade de negócios aí — afirma Deborah Bothun, diretora da Divisão de Entretenimento, Mídia e Comunicação da PwC nos Estados Unidos. A executiva do aplicativo de entrega de comida iFood Thaís Machado de Albuquerque é um exemplo de usuária hiperconectada. Tem dois iPhones, para não ficar fora da internet um segundo sequer. — Quando a bateria de um acaba, uso o outro. Ando com o carregador o tempo todo, e também tenho um carregador portátil extra para quando não achar uma tomada — diz Thaís, que,

Selfies e compras. Thaís faz tudo em seus dois smartphones

Uso religioso. Jorge Monteiro leva até a Bíblia em seu aparelho

além de trabalhar no iFood, usa pesadamente o aplicativo. — Vivo entre Rio e Espírito Santo, trabalhando na expansão do software, por isso não tenho tempo para cozinhar, então peço comida em casa direto. Além de ficar on-line no app o dia inteiro, monitorando fornecedores, ela não desgruda de redes sociais como LinkedIn e Instagram. — Entre as reuniões, passo pelas minhas páginas e posto selfies para me distrair um pouco (seu Facebook tem muitos autorretratos). Também uso o celular para fazer compras no supermercado, outras compras pessoais e pagamentos bancários — descreve Thaís. — De manhã, ele é a primeira coisa que vejo, pois também é meu despertador. O empresário carioca Jorge Monteiro, diretor da companhia de serviços de mobilidade Superfones, tem um uso até religioso para o aparelho. — Além de manter meus e-mails e contatos dentro do meu aparelho (um Moto X), levo nele minha Bíblia, com a qual acompanho os cultos da igreja que frequento. Fico com ela aberta e com o bloco de anotações, também dentro do aparelho, a postos para escrever observações — conta Jorge. — O smartphone também serve para monitorar meu desempenho no triatlo, que pratico, por meio de um aplicativo. Uso ainda aplicativos de táxi, faço check-in em voos e pago contas usando a câmera como leitora de códigos de barras. Finalmente, nas viagens, o celular é hoje o grande companheiro quando você está sozinho a trabalho. TUDO POR UM GALAXY S Para o antropólogo Michel Alcoforado, especializado em consumo e diretor da consultoria carioca Consumoteca, o alto engajamento nos dispositivos móveis descrito pelo estudo sinaliza que os brasileiros, em vez de esperar pela tão propalada inclusão digital, trataram de correr atrás e se incluir “na marra” no mundo conectado. — Os celulares e smartphones tornaram essa conexão mais fácil. O que ocorre no Brasil é que, diferentemente do que se passa nos EUA, o uso de aplicativos e serviços móveis é bem mais disseminado por todas as classes sociais e faixas etárias — explica Michel. — Cada uma os usa a seu próprio modo, mas todo mundo está antenado e quer saber das últimas novidades, seja do lançamento de um novo iPhone ou daquele joguinho que está bombando. A utilização do celular é tão intensa que todo mundo quer ter um aplicativo móvel, desde as marcas mais fortes até o salão de beleza da esquina. Segundo recente levantamento da Consumoteca, as classes menos abastadas economizam o que podem para comprar smartphones, que utilizam com conexão internet pré-paga. — O filho da minha empregada chegou a pensar em usar a indenização de um emprego como assistente de pedreiro para trocar seu Galaxy SIII por um S4 — conta Alcoforado. l

ULTRACONECTADOS
Algumas operações em que brasileiros foram líderes entre os países pesquisados. Os dados se referem exclusivamente ao uso de tablets e smartphones. BRASIL Acesso a redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter etc.) Acesso a sítes de vídeos, como o YouTube Descarga ou streaming de filmes Reserva em restaurantes Check in em voos Compra de ingressos para shows e eventos esportivos Compra e venda de ações Transação bancária Jogo on-line Uso de aplicativo de GPS
FONTE: PwC

China

Reino Unido

EUA

95% 93% 73% 48% 40% 45% 36% 77% 90% 80%

88% 80% 71% 37% 21% 22% 35% 67% 86% 65%

79% 56% 17% 15% 10% 7% 7% 67% 66% 63%

87% 79% 21% 13% 12% 5% 5% 67% 77% 73%

Dobra o número de vítimas de vazamentos de ‘sexting’ no país
ONG lista 101 pessoas que tiveram fotos e vídeos de sexo ou nudez compartilhados
MARINA COHEN marina.cohen@oglobo.com.br

Cresceu em mais de 100% em um ano o número de pessoas que tiveram a intimidade exposta na web com o vazamento de fotos de nudez ou vídeos de conteúdo erótico, práticas conhecidas como sexting, uma fusão de sexo com o termo em inglês para mensagem de texto. Dados divulgados ontem pela ONG SaferNet Brasil mostram que, em 2013, 101 casos foram atendidos pelo Helpline Brasil,

serviço gratuito de orientação psicológica sobre riscos na rede para crianças, adolescentes, pais e educadores. Em 2012 foram 48 ocorrências. E a tendência é de alta. Somente nos primeiros dois meses de 2014, 21 casos concretos foram atendidos. No mesmo período de 2013 haviam sido três. — Alguns casos do ano passado, inclusive com desfechos trágicos, tornaram esse problema mais visível — explica a psicóloga Juliana Cunha, coordenadora do canal de ajuda da SaferNet Brasil. Foram histórias como a da estudante piauiense Júlia Rebeca, de 17 anos, que, envergonhada ao ver circular na web um vídeo em que fazia sexo com duas pessoas, suicidou-se em novembro do ano passado. Já na

última semana, uma estudante paulistana de 19 anos teve fotos suas fazendo sexo com jogadores de rúgbi da Universidade Mackenzie espalhadas. — A motivação vem do próprio momento de descoberta da sexualidade. Mas o que, antes, acontecia no playground do prédio ou em algum local reservado, agora acontece em um espaço público — diz Juliana. A SaferNet encaminha os casos mais graves à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público (MP). Há diversas leis que criminalizam a divulgação de fotos, vídeos e outros materiais com teor sexual sem o consentimento de quem aparece nele. Os casos de sexting envolvendo adolescentes, por exemplo, são enquadrados como pornografia

DIVULGAÇÃO

Tragédia. Júlia, que se matou em 2013

infantojuvenil no Artigo 240 da Lei Federal 11.829, que diz que “produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente” gera pena de reclusão de quatro a oito anos e multa. Já o Marco Civil da Internet, que aguarda aprovação no Senado para virar lei, prevê no seu artigo 22 que o provedor de internet poderá ser responsabilizado pela divulgação de imagens, vídeos ou outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado sem autorização de seus participantes. Isso significa que qualquer cidadão que encontrar na web uma imagem sua divulgada sem autorização po-

de notificar o site ou o aplicativo onde a foto está hospedada pedindo a remoção imediata. Se o provedor não atender à demanda, pode se tornar corresponsável pelos danos. Hoje, é preciso que o usuário recorra à Justiça para que o conteúdo seja retirado do ar. — Toda pessoa que for vítima de crimes no ambiente virtual deve imediatamente comunicar os fatos à Delegacia de Polícia mais próxima, levando, se possível, um impresso da tela do site, com o endereço, para evitar a impunidade dos autores — explica o delegado Alessandro Thiers Pinho Alonso, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) do Rio de Janeiro. l

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