HISTORIA

DA
SOCIEDADE EM PORTUGAL
110
SEOULO X:""l\.T
PO&
  I
POP't'J,AÇÃO -ASPECTO DO PAIZ
E DO SEU ESTAI>O SOCIAJ.-l'l<:SOS E .MEUII>AS_..:.._IIOEU.A.-
08 IIA\'ERES INDIVIDUAES

LISBOA
1903
I
j
.

ADVERTENCIA
O presente volume contém a primeira secçlo de uma
Hl8toria Social de Portugal no seculo xv, em que tra-
balhamos.
No organismo da sociedade, como elle se achava
constituído durante este seculo, o ultimo da idade m&.
dia, opera1·am-sc, logo nos principias do subsequente,
radica.es alterações, as qua.es se não podem entender
sem o conhecimento do estado anterior: o exame d'este
é, portanto, uma introducçiio indispensavel á historia
da idade moderna. Era sobre o seculo XVI que tencio-
navamos escrever: a necessidade obrigou-nos a re-
montar ao precedente.
Na sequencia da narrativa occorret·á mençlo de um
ou outro facto, que não se documenta por ter de ser
-desenvolvido em outra secção, onde será devidamente
auctorizado. Nenhum, porém, asseveramos, sem haver
previamente colligido as provas da sua exactidão.
Ap6s esta, que é destinada a apresentar um conspecto
generico da sociedade, e, juntamente, certos factos
funda.mentaes da su.a vida economica., o objecto de
cada secção será uma condição social distincta: mas,
naturalmente, são todas mais ou menos interdepen-
dentes.
6 Advertencia
Os manuscriptos allegados pertencem todos, salvo
alguma excepção declarada, ao Arcldvo Nacional da
Torre do Tombo. Quando casualmente succeda que a
respectiva referencia se não encontre precisamente
no folio citado, achar-se-ha no teor do ultimo docu-
mento, ou divisão do documento com sua particular
epigraphe, apontados por esse folio. A razão é que,
antes de começarmos a escrever, tivemos de compen-
diar centenas de documentos, e nem sempre julgá-
mos necessario, ou seria mesmo possivel n'este caso,
e quando elles são curtos, o estremar a parte que, do
seu conteúdo, cabe a cada um dos folios, em que são
escriptos.
SECÇÃO I
,_.
r
SECÇÃO I
CAPITULO I
O numero e movimento da população
O computo da população do paiz é o primeiro en-
cargo do escriptor da historia social. A população
mede a força e a riqueza das nações.
Para esta averiguação, as manifestações da vida
social ou economíca, que se não traduzem em algaris-
mos, são muito fallaciosas. No proprio seculo xv não
encontramos, porém, nenhum facto expressado em nu-
meros, do qual possamos deduzir com segurança uma
estimativa, quão pouco plausível, da população. A
distribuição por concelhos dos quatro mil e oitocenios
bésteiros do conto de todo o reino
1
, vigente pelos fins
do primeiro quartel do seculo xv no reinado de
D. Joio I, de que alguns escript01·es se teem servido,
não nos fol'Dece nenhuma condição de acerto. Os bés-
teiros do conto constituíam apenas em cada concelho
um contingente, ge1·almente determinado pelo costume
e muito arbitrario, da força armada do paiz; e não
possuímos nenhum dado, que nos habilite a determi-
t OrtlCRaçõu Aj'OMiftfU, li v. 1
7
tit. Lx1x, § 30.
10 Pop1tlfufio
nar a proporção entre esse contingente e o resto dos
habitantes.
Antes de apontarmos o fundamento do computo,
que adoptamos, começaremos por assentar, que a
grande escassez da população nos fins do seculo XIV
transpar·ece dos documentos e das narrativas.
Conta-nos Fernão Lopes
1
que, em 1884, durante a
guerra com Castella, em uma sortida que fizeram os
moradm·es do Porto contra os castelhanos, armaram-
se todos, ''em tanto que, do maior até ao mais pequeno,
não ficou nenhum que se não armasse para sair fóra »;
e assim, com alguns fidalgos e escudeiros estranhos,
''eram por todos, com os da cidade, até setecentos
homens». D'este facto se p6de bem inferir quanto
havia de ser diminuta a população de. cidade do Porto.
N'esse mesmo anno, segundo elle tambem refere t, um
poderoso fidalgo de Braga mandou deitar pregão por
esta cidade, que todos os moradores se juntassem logo
no claustro da Sé, tanto ecclesiasticos como leigos,
para fazerem homenagem ao rei de Castella, sob pena
de degredo e de confisco de todos os bens. Claramente
devia ser muito exígua uma população de vizinhos,
que, sob tão graves penas, se devia congregar toda no
claustro da cathedral.
Em 1436, no conselho reunido por el-rei D. I>uarte
para deliberar sobre a expedição conta·a Tanger, dizia
o infante D. Pedro, ((mas posto caso que passasseis e
1 Cllronir.a de D. João I, parte 1, c. 120.
2 Ibid., parte 1, (', 69. Cf. Chror1ica dP. D. Fernarulo, c. 88.
r-·
População 11
tomnsseis Tanger, Alcacer, Arzilln, queria, Senhor,
saber o que lhes farieis, porque povoá-las com J•eino.
tAo despovoado e tão minguado de gente, como este
nosso, é impossiveh
1
• Sem dar ás palavras do mesmo
chronista maior ambito do que elle lhes queria cingir,
é de notar, que elle não nos offerece a ideia de grande
povoado, quando, referindo-se a uma deliberação im-
portante, que muito apaixonava os espiritos da cidade
de J.Jisboa em 1439, nos falia ceda mór parte d'esta ci-
dade junta na camara>>
1

Na segunda metade do seculo xv são incontestaveis
os indicios do augmento da população. cc Ha dois
annos -diz Aft'onso V na carta regia de 10 de julho
de 1454
3
- foi-nos representado pelo povo de Lisboa,
que, em consequencia do grande numero de atafonas
e de açacaes (aguadeiros) que havia n'esta cidade, os
servidores, os mantimentos, e as cavalgaduras, esta-
vam em grande carestia: por isso prohibimos essas
moendas. Agora, porém, attendendo á falta de bom pão
e tambem aos muitos navios e gentes estrangeiras, que
t Ruy de Pina, Clmmica. de ]). Dual'te, c. 19.
2 CAronica de D. Ã.ff0fl80 V, c. 86.
3 .E.tretnadura, liv. vu, fl. 298.- Estes livros da Estremadura, Alem-
Douro, Beira, Odiana,   Extras, etc., pertencem á volumosa col-
lecçio de diplomas que el-rei D. Manuel mandou transcrever e authen-
ticiU' com a rubrica do guarda-mór da Torre do Tombo. Os diplomas,
e alo oa maia numerosos, qu..c ahi se encontram dos aeculoa xv e xvr
aito, pela sua origem e data, documentos biatoricoa que fazem fé. Para
oa aecaloa anteriores, sobretudo o xn e xrn, tem de ae tomar em conta o
pouco saber paleographico doa copistu. Essa collecçio encerra grande
abandancia de documentos, doa qaaca não existe hoje nenhuma outra
noticia.
12 População
sobrevêm á dieta cidade, revogamos a defesa». Este
· mesmo rei retornou, em 14 72, ao arcebispo e cabido
de Braga, não muito a contento d'elles, a jurisdicção
temporal da cidade, de que seu avô fizera o extremo
por se apoderar, e recobrou as casas e logeas de Lis-
boa, que tinham sido o preço da cedencia, simples-
mente porque o rendimento d'estas havia augmentado •.
Foi elle tambem quem retirou á primeira ordem dos
bésteiros dos concelhcs, os aquantiados em cavallo, o
privilegio de não pagarem jugadas, porque assim se
perdia para o fisco a mór parte d'ellas '; signal de que
avultára o numero dos proprietarios afazendados em
todo o reino.
Nas côrtes de Coimbra de 14 72, quer dizer, no anno
seguinte ao da conquista de Arzilla e Tanger, e quando
as ilhas da Madeira e dos Açores progrediam em arro-
teio e cultivo, e, portanto, em numero de emigrantes,
queixavam-se os concelhos do 1·eino do grande retar-
damento dos processos nas casas do Civel e da Sup-
plicação pela multiplicidade das demandas, devida ao
    da população
3
: e propunham um an-
gniento das mesas de juizes.
Em um orçamento das despesas do Estado para o
anno de 1478, elaborado, segundo julgamos provavel,
pelas côrtes de Montem6r-o-Novo celebradas no anno
anterior, se presuppõe como facto indnbitavel o au-
t Vide o capitulo seguinte.
2 Ordmaçües Mamteliflal, liv. n, tit. xvr, § 16.
J «Pelos feitos serem muitos, a deus louvores pela jemte creceer em
vosos Regno&». C6rtes, maço 2.•, n.• 14, fi. 75.
·-·
Populat;tio
gmento de receita t•esultante do <<c.rescimeuto do
reino» •.
Em relação ás provincias do Minho e de Trás-os-
Montes, possuimos uma prova semelhante do seu incre-
mento. Depois da conquista de Ceuta, os moradores
d'essas duas provincias pagavam, por convenção entre
o rei e os concelhos, uma capitação de dez reaes, pelo
que ficayam isentos de servirem n'aquella possessão
1

Nas cOrtes de Ev01·a de 1490 affirmavam elles que
estie tributo ascendêra de trezentos a quinhentos mil
reaes, em virtude do accrescimo da população
3

Na provincia da Estremadura depara-se-nos uma
indicação do mesmo importe. No principio do seculo xv
Santarem era, como diz Fernão Lopes, «uma das
grandes villas, que ha no reino de Portugal, e mais
abastada de todos os mantimentos»'· Nos tres annos de
1451 a 1453 as jugadas do almoxarifado d'essa villa,
que incidiam sobre uma parte das ferteis campinas
das Lezirias, cultivadas desde tempos remotos, mon-
tavam annualmente, por arrendamento, a cento e ses-
senta e cinco toneis de vinho e quatrocentos moios de
trigo
5
• Vinte e oito annos depois, tomando por base a
I aNam comtamdo na receita o crecimcnto do Regno, que ja. ora se
da•. Gaveta 2.•, maço 9, n.• 16.
: CôrtP.a de Evora de 147ó, C ô r t ~ s   o•aço 2, n.• x•v, fl. 182. Cf. Goes,
Chronica do Principe D. Joii.o, c. 17
1
e Joio Pedro Ribeiro, Rejlexüu hi•-
toricas, parte 1
1
n.• 16.
J aQuawto maP.s que este rcmditnento soya de aecr trezemtoa mil
reaaea e agora he quinhemtoa mil pella multiplicaçam das gemteao.
Côrtes, maço S.•, n.• 5, fl. 12.
4 Cltronico. de D. Jo/Jo I, parte r, c. 67.
5 Estremadura, liv. vm, fi. 152.
14 População
somma total do seu rendimento nos dois annos de 1480
e 1481, produziam ellas, em média por anno, oitocen-
tos e trinta e oito moios de trigo, setenta e quatro
· toneis de vinho, e seiscentos e sessenta e cinco mil
setecentos e quatro reaes em dinheiro
1
• Posterior-
mente, em nove annos, de 1493 a 14H9 e de 1603 a
1504, as jugadas do mesmo almoxa.rifado importaram
annualmente em seiscentos e seRsenta e quatro moios
de trigo, sessenta e oito toneis de vinho, e duzentos c
vinte e tres mil setecentos e sessenta e seis reaes, re-
sultantes da venda de cereaes'. Avaliando-se um moi o
de trigo em mil e oitocentos reaes
3
, foi, n'este ultimo
periodo, o rendimento total do imposto n'este genet·o
de setecentos e oitenta e oito moios. Como resultado
final, em cincoenta annos, a cultura dos cereaes tinha
quasi duplicado, e a cultura da vinha diminuído por
mais de metade.
Os vinhos de Sautarem não gozavam de boa no-
meada
4
• Eram de seu natural inclinados a azedar:
S. Frei Gil era ahi o advogado contra esta molestia ;; .
Os proprios agl'icultores indirectamente nos deixaram
d'isso testemunho. Nas côrtes de 1481 o povo de San-
1   liv. lU, fl. 130.
2 Estremadura, liv. 18, fl. 195.
3 Vide adeante o v.
Em 1522 diz Gil Vicente:
Os de Obidos e
Dêem-ll1es de tanta pancada
C'omo de maus vinhos têem.
(Li v. v, Das obras varias: Prantos de Maria Parda).
Sousa, llixtoria de S. 1Jomi11gos, Iiv. n, c. 86.
\ I
Populaçllo lõ
tarem carpia-se, em capitulos especiaes, do procedi-
mento dos rendeiros das jugadas. rrodos 08 que lavram
vinho n'este termo -diziam elles- pagam jugada,
mas os rendeiros recusam receber o vinho á bica do
lagar, e ob1igam a encubá-lo; vêm por elle, quando
querem, e fazem-no pagará maior valia em dinheiro,
ainda que o achem mau, ou vinagre, de modo que,
por um almude, levam o valor de tres: assim não
querem os lavradores plantat· mais vinhas, e deixam
perder as existentes•. Não é, pois, de estranhar que di-
minuisse em Santarem esta cultura, á medida que no
paiz se arroteavam outros terrenos que lhe eram mais
propicios. O vinho superabtmdava em Portugal, e era
um artigo de exportação ; não assim os cereaes, que
apenas bastavam ao necessario: a substituição d'esta
lavoira á vinicultura denota um augmento de procura
e de consumidores de pão. Santurem, ao mesmo tempo
que apontaya a diminuição da cultura vinicola, teste-
munhava, nos referidos capitulos, a prosperidade da
sua producção cerealifera, por isso que se denominava
a si propria como uma uviJla que é a frol do pão des-
tes reinos».
Apontaremos algumas   desnltorias, que de
per si s6 nenhum prestimo teriam, mas que são de
molde a auctorizar os tesremunhos genericos, qut
temos relatado.
Na regencia do infante D. Pedro, e no reinado de
Affonso V, o Estado augmentava a cultura das suas
l {:UJJÍtuloB de Nafll.arem, CllaJiceUaria de JJ. João II, liv. m, fl. 8.
Vide os Docummlos illUBtratit·oB, no fim d'eate volume.
16 População
propriedades pelo arroteamento de maninhos e seca-
mento de brejos
1

No proprio termo de Santarem, a povoa do Cartaxo
que pretendia isentar-se da jurisd.icção d'essa villa,
allegava, em 1458, ao rei em favor do seu requeri-
mento, que não havendo ali, no tempo de D. Joio I,
mais de seis fogos, agora se numeravam mais de no-
venta!.
Fernão Lourenço Ribeiro, cavalleiro e escrivão da
camara de D. João II, representava em 1484 a este
monarcha, que era possuidor no reguengo das Chantas,
em termo de Santarem, de um valle maninho, a que
chamam o valle de Cabreiros, bem como de outras
tenas bravias, que elle pretendia arrotear em lavouras
de cereaes e azeite: e, em razão do dispendioso d'este
emprehendimento, pedia que do trig·o não fosse obri-
gado a pagar mais que um por nove alqueires, e do
azeite o u ~ n t o   em abono citava o precedente de outros
que, em caso igual, haviam alcançado de el-rei D. Af-
fonso V este beneficio
3
• O requerimento foi deferido.
Não resta, pois, duvida de que ·no concelho de Santa-
rem progrediam a agricultura e consequente povoa-
mento. A população não tem outro limite senão o da
subsistencia: progresso de lavoura e progresso de po-
pulação são termos identicos.
É de presumir que a melhoiia se estendesse a toda
I Bulias de 17 de junho de 1452, em Rebello da Silva, Quadro ele-
mentar da8 relaçilu dijJlomatictu, tomo x.
2 Eltremadura, liv. x, fi. 232.
3 E.mmadura, liv. xm
1
fl. 198.
I '
População 17
a província da Est1·emadura. Assim positivamente o
affirma o concelho de Torres Novas em relação ao seu
proprio alfoz. Raras vezes os povos, nas suas relações
com o governo, blasonam da sua crescente prosperi-
dade; são pelo commum pt·opensos a lamentações,
excepto quando as conveniencias lhes aconselham o
contrario. Em 1498 os capítulos em cOrtes do muni-
cípio de Torres Novas declaram que a '\erra se tem
continuamente povoado, de sorte que se extinguiram
os porcos bravos e os veados nas matas da serra de
Aire e de Boquilobo; e, porque n'essas matas ha
muita madeira necessaria para os lagares de azeite,
que continuamente se constroem, pedem o descouta-
mento dellas ; o que lhes foi concedido '·
Quando se pesquisam na historia indícios do desen-
volvimento do paiz, são-nos elles subministrados com
mais seguro testemunho pelo alargamento de locali-
dades insignificantes, desprovidas de incentivos de re-
sidencia, do que pelo engrandecimento de cidades e
villas, que oft'erecem maiores commodidades de vivenda,
de ganho e de prazer. Assim pelo que succedia com
os logares do Alemtejo, que vamos mencionar, se
p6de com verosimilhança fazer conceito da expansão
dos outros n'essa região.
Nos fins do seculo XIV a Vidigueira era um logar
de cento e cincoenta vizinhos
1
: um seculo depois, pelo
censo de 1527, de que nos temos de occupar, o nu-
I E.tremadura, liv. x, ft. 288.
z Fernlo Lopes, Chronica de D. Jollo I, parte u, c. 188.
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I
18 População
mero destes tinha-se elevado a trezentos e vinte e sete,
mais do dobro.
El-rei D. Fernando separou o logar de M.ontargil do
termo de Santarem, erigiu-o em villa, e o doou a Ruy
Pereira, alcaide do castello de Santarem
1
• Havia ahi,
pois, uma povoação. Mas veiu a desapparecet·, prova-
velmente pela devastação da guel'l"a com Castella, por-
quanto, em ·1449, por carta de 8 de novembro, Af-
fonso V privilegiou trinta homens que viessem para
ali morar, attendendo a que o sitio está em monte
ermo, afastado de habitação, e é logar caminhe.iro. Em
1487 tinha-se ali de novo formado um município, visto
que essa carta é confirmada. por D. João II ao <<con-
celho e homens bons, de Monta.rgil ! •
Arronches, não longe da t•aia, tinha provavelmente
padecido pela mesma razão. Para promover o au-
gmento de habitadores, foi a villa tornada em couto
de homisiados. Nas côrtes de 14 72 os povos recla-
mavam que cessasse ahi este privilegio de asylo para
os criminosos, já desnecessario, porque a villa estava
sufficientemente povoada
3

No Algarve Lagos, em 1490, fintava-se para trazer
agua doce á terra
4
, para edificar uma   acabar
os paços do concelho, e para outros melhoramentos:
cavalleiros, vassa.llos, e todos os privilegiados tinham
t João Pedro Ribeiro, Memorias para a das confirmaçües,
doe. 17.
2 Odiana, liv. u, ft. 258.
3 Citadas Côrtu, fl. 77.
• Esta obra foi terminada por el-rei D. MI\Doel: Goes, Chronica de
D. Manoel, parte n·
1
c. 8õ.
População 19
annuido a contl'Íbuil· com a sua quota
1
• Lagos evidenM
temente crescia em riqueza, e é de suppor que tambem
em população.
Um facto que, no seculo xv, dava motivo a justos
queixumes, lança um raio de luz sobre os progressos
da população em Portugal. Nos mais remotos tempos
da monarcbia havia ella de ser extremamente rara.
Nos logares acastellados, e todos de alguma importanM
cia o eram, a população christã, primitivamente, residia
toda dentJ.·o dos muros da alcaçova. No seculo xm já
ella irrompêra para fóra desse recinto, ao qual, para
proteger· a area extrajacente, se ajuntava em algumas
dessas terras uma nova cêrca; esta por seu turno era
ultrapassada pelos moradores. O governo procurava
reter os habitantes no perimetro das muralhas, porque
assim lhe convinha para o mais facil exercício da sua
auctoridade, sobretudo na percepção dos impostos.
Mas debalde. Para aquelle fim concediam-se-lhes pri-
vilegios especiaes. D. Affonso III desob1igava os mo-
radores da almedina de Coimbra do serviço militar,
e da anúduva, ou trabalhos de fortificação : já San-
cho I tinha outorgado igual privilegio aos vizinhos
da alcaçova de Lisboa
1
• Estas vantagens eram inef-
:ficazes. Em 1375 D. Fernando, o qual foi um dili-
gente reparador dos castellos, e fundador de novos
ambitos de muralhas, não só em Lisboa, como em
outras terras
3
, conferia aos moradores de Coimbra,
t Oha11Cellaria de D. João II, liv. x, fi. 114. Vide 01 Documento. iUu-
trati'008.
2 Herculano, Historia de PMtrlflal, tomo JV
1
liv. nu, parte m.
J Fernilo Lopes,   de D. Fernando, c. 88.

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I.
20 População
que habitassem adentro da cérca, a valiosa preroga-
tiva de nilo pagarem nenhuns impostos de sisa
1
• Nas
côrtes, que o infante D. Pedro reuniu em Torres Ve-
dras em 1441, os procuradores de Lamego affirmavam
que antigamente a mór povoaçilo era dentro dos mu-
ros da cidade, e por ser ahi má a servidão, diziam elles,
fôra a gente gradualmente deslocando-se para o arra-
balde, de feiçlo que, havendo ali outrora até duzentos
moradores dos melhores e mais ricos, agora não ha
mais de trinta. Pediam elles que, para o effeito dare·
povoação, os habitantes do bairro interior fossem isen-
tos do encargo de bésteiros do conto: o que lhes foi
deferido'. O moYimento de transvasio era irresistivel,
com quanto o governo continuasse a envidar todo o
empenho para o cohibir. A parte de Leiria, incluída
na velha cê1·ca, dizia a carta regia de 20 de março de
1518, vae-se despovoando, e até a muralha está já
damnificada: ao peão, que for morar para dentro,
damos os de escudeiro, e ao escudeiro os
de cavalleiro, não ficando, porem, isentos da jugada
3

Deste movimento de dilataçlo para f6ra de um nu-
cleo primitivo derivava o aggravo, que dava motivo
lis queixas do povo, formuladas pelas côrtes de 1481
em termos que demonstram que elle se tomára intole-
ravel. Representavam ao soberano, que muitos Jogares
gozavam do antigo privilegio de que as dignidades
municipaes s6mente podessem ser exercidas pelos que
t Eltremadura, liv. u, fl. 18.
I Clumcellario. de D . .A.jfonBO V, liv. n
1
ft. 87.
I E•tremaàura, liv. lW
1
fl, 29.
População 21
habitassem adentro dos muros: com o tempo tinham-
se formado gt·andes arrabaldes, cujos habitantes sof-
fl'iam mal a sua exclusão das magistraturas conce-
lhias, d'onde procediam continuas brigas entre as duas
ordens de moradores '· Porfiando na tradicional poli-
tica, o monarca revidou que se nlo podia estabelecer
uma regra generica; que lhe fossem, pois, apontadas
em particular as localidades que padeciam o gravame.
Do conjuncto de todos os factos apontados inferi-
mos que, por todo o seculo xv, a população do reino
foi sempre em augmento, á semelhança do que succedia
em outros paizes '. Mas este augmento foi necessalia-
mente muito lento. A expansão da população em nos-
sos dias, durante o seculo XIX:, a qual em algumas
nações mais que duplicou, e em todas remontou não
longe desta proporção, é um phenomeno extraordina-
rio e peculiar deste seculo
3
• Anteriormente o ascenso
era muito vagaroso. No seculo x:v, e em toda a idade
média, a causa mais effectiva deste retardamento devia
de ser a peste. Nos sessenta e quatro annos, de 1432
a 1495, Portugal nlo esteve immune dos ataques
1 •Outroay Senhor allguua lugarea antygamente pera milhor aeerem
poboradoa ouverom privillegio que 01 que nam viveaem dos muros
ademtro nam foaem Juizes nem vereadores nem procurador nem almo-
tace e deapoia oa di toe lugarea foram bem pobrados e ae fezeram gram-
dea arrabal1dee em que vivem muitos e homrrados homeêa e ha antre
ellea deferençaa e bandos: Veede Senhor eomo seria rrazam que em
lixboa e em aamtarem nl ouvesem de teer os taea oficioe aenam 01 que
vivem naa allcacevu a demtro•: Côrtu, maço 3.
0
, D. ó, fi. 44.
z Por enmplo, em Inglaterra : Thorold Rogera, HiMo'1J of Ãgricul-
lllre aad price• in England, vol. Iv, Introducçlo.
3 Cf!fllo   t ~ população em Ponugal, de 1890
1
Introducçlo, p. 66.
/
,
22 Populaçao
\ geraes ou parciaes d' essa epidemia, senão vinte e dois
annos, nos dezasseis que se contam de 1441 a 1456,
e a mais nos seis que vil.o de 1458 a·1463•. Em se-
gundo logar as fomes, muito frequentes, haviam de
causar grande mortandade. N'um paiz, que derivava
quasi toda a sua riqueza da agricultura, com a diffi.-
culdade de transportes, não s6mente do estrangeiro,
mas ainda dentro do proprio territorio, e dado o con·
sumo total das colheitas sem reserva para os annos
seguintes, qualquer intemperie das estaç15es produzia
logo uma deficiencia insupprivel de subsistencias.
Quando, pois, signalamos o crescimento da popu-
lação no decurso do seculo xv, não queremos dizer que
ella progredisse uniforme e igualmente por toda a su-
perficie do paiz. Haveria localidades, que fossem mais
cruelmente açoitadas por aquelles flagellos, e em que
a populaçilo descesse temporariamente. Uma carta
regia de Affonso V, de 27 de março de 1449
1
, refe-
ria-se, provavelmente, a um caso semelhante. « Mem de
Brito, fidalgo da nossa casa, -. diz este diploma-
nos   que elle tem umas terras em termo de
Aveiras de Baixo, no valle da Pedra, cêrca de Santa
Maria das Virtudes, que sempre foram aproveitadas
por caseirod, que n'ellas moravam, e haverá certos
annos, que se vieram a despovoar, como succedeu a
outras muitas terl'as, po1· mingua de cultivadores; e
t Pina, Chf'Oflicu de D. Duarte, D. AjfORMJ V, D. João II, nos res-
pectivos annos; Gama Barros, Historia da administração ptlblica, tomo n,
cap . .un.
z EIICremadura, liv. vm, fi. 227.
l
I
População 23
agora alguns lavradores comarcãos lhe mettem ali
seus gados, sem nada lhe pagarem. Elle nos pede re-
medio. Mandamos que os ditos vizinhos lhe lavrem
eBSas herdades de dois ferros, e, quando o não quei-
ram, lhe pagarão por cada cabeça de gado vaccum que
ahi for encontrada, a coima de um 1·eal, e, por outro
gado, meio real».
Em 1450 o mesmo rei concede a outro :fidalgo da
sua casa, João de Gouveia, que, visto como a sua
quinta do Colmeal das Donas «é mui despovoada por
mingua de achar para ella povoadores », seja coutada
para trinta homisiados, com tanto que o crime não
seja aleive, nem traição
1

O mosteiro de Santa Cruz sollicitou, em 1458, li-
cença regia para dar de sesmaria certas aldeias e Joga-
res em muitas partes do reino, e herdades, terras,
matos e maninhos, de que elle tem o senhorio, e que
não são aproveitados, mas jazem em mortorio. O rei
annuiu
1

É de advel"tir que a diminuição occasional de mora-
dores em algumas terras não significa necessariamente
diminuição da população total do paiz. N'aquelles
tempos era menos intenso o amor da :fixidade seden-
taria, criado pelo costume e pela civilização, que en-
raiza o lavrador no solo da sua herdade; a imaginação
mais irrequieta, mais vivo o prazer da vida errante,
odiosa a vida monotona, mai01· a aversão ao trabalho.
Quanto aos cavões e braceiros,   u j ~ nubimento era
1 Eatremad"ra, li v. 8, fi. 21)7.
Z Eatrr.madura, liv. IV, fi. 256.
24 População
precario, miseraveis as alfaias dÓmesticas, a habitaçio
uma barraca de madeira, nada mais facil e frequente
que a mudança de domicilio.
D. João I dirigiu, em 1392, uma carta aos juizes
de Arronches, em que lhes diz ter chegado a seu co-
nhecimento, que a villa se despovoa, e se vai embora
a gente pobre, que a ella vem morar, por causa do
cumprimento da ordenação, ultimamente feita pelas
cô1·tes de Viseu
1
, constrangendo á morada e ao serviço
os jovens de ambos os sexos, pelo modo do antigo cos-
tume; em virtude do qual os ricos e poderosos da
villa demandam os pobres para seus serviçaes. Deter-
mina, portanto, que a dita ordenação se não execute em
Arronches. «Mandamos -conclue o rei- que cada
um viva á sua vontade, e não seja obrigado a m01·ar
com nenhuma pessoa, por qualquer f6rma que seja»'.
Tambem, em 1409, o concelho de Mourão se ag-
grava ao mesmo rei, de que a villa se despovoa por
mingua de servidores: logo que alli apparecem alguns,
os juizes e alcaides os constrangem por alvarás para
servirem a certas pessoas. Manda o rei que ninguem
seja forçado a viver com pessoa qualquer, por pode-
rosa que seja
3

«Ü lagar de Podentes se despovoa -diz Affonso V
em 145 7 - porque tem de dar dous bésteil·os do conto:
passem-se estes para Miranda, que é maior povoação" '.
1 Veja-se essa o r d ~   ç l o nas Ordenagüu A.ffonliruu, liv. n·, tit. ut:a:,
§§ S.• e seguintes.
z Odiana, liv. vt
1
ft. 282.
l Odiana, liv. u, ft. 295.
t Estremadura, liv. u, ft. 167.
l
I
População 25
Nas côrtes de 1490 um dos capítulos especiaes de
Torres Vedras enunciava o pedido de que o numero
dos bésteiros do conto baixasse de trinta, que são,
para vinte. A povoação da villa, asseverava-se ahi, é
muito menor que antigamente: principalmente porque
el-rei D. Affonso V determinára, para augmentar o
· rendimento da jugada, que cada lavrador arasse, com
quantos bois, e quantas terras quisesse, não pagando
ao todo mais de vinte alqueires de jugada: d' onde
muitos se deram á lavoura, e nilo ha quem sirva para
bésteiro do conto; os que ha são taes, que o anadel-
m6r prefere não os arrolar. O rei assente
1
• Estes la- '
vradores improvisados por sem duvida que abandona-
riam a sua nova occupação com a mesma facilidade
com que a tinham tomado.
A guerra é o agente mais destructivo da população.
Nos povos jovens e vigorosos, a perda de vidas, cau-
sada pela fome e pela peste, é rapidamentts reparada ..
Mas a guerra não só destroe as vidas, mas o poder
reproductivo; porque elimina sobretudo, nas batalhas
e nas fadigas da campanha, os que estão na plenitude
da vil'ilidade. A assoladora guerra da  
sustentada no seu territorio por Portugal contra Cas-
tella e parte dos seus proprios naturaes, partidarios do
rei estrangeiro, ceifou innumeras existencias, e de certo
que atrasou o movimento da povoação. Os effeitos
ainda se sentiam mais de cincoenta annos depois da
sua te1·minação. Os capítulos especiaes de Pinhel nas
t CAanceUaria de D. Jollo II, liv. xm
1
ft. 144
1
e o Novo Foral de
Torres Vedras.
I
l
l
26 Populaçllo
côrtes de 1459 apontam que, no tempo de D. Joio I,
s6 no arrabalde viviam rl'lais de quinhentos homens, e
hoje, pela assolação da guerra, na villa e no arrabalde
demoram pouco mais de duzentos
1
• Cêrca de vinte
annos antes, quando os est1·agos deviam ser ainda
mais perceptíveis, affirma o concelho de Penamacor,
que na villa e seu termo não existem mais de cento e ·
quinze Yizinhos, onde iá houvera mil e cem a mil e
duzentos'· Estes Jogares são junto da fronteira, e, por
isso, mais sujeitos á desolação. Mas n'esta mesma data
Setubal declara que tem cêrca de quatrocentos vizi-
nhos, e que já contára setecentos
3

A guerra da independencia. tetminou de facto em
1399, tendo durado dezasseis annos. Desde então,
af6ra o espaço de quatro annos, de 1475 a 1479, oc-
cupados pela guerra da successão com Castella, e em
que o nosso paiz foi, a m6r parte do tempo, o invasor,
e não o invadido, Portugal esteve isento dos males
da guerra estrangeira, e tambem das refregas e bandos
c i vis, com excepção da breve atTemetida, que teve o
seu desfecho em Alfarrobeira.
Cremos, portanto, que do complexo de observações,
que havémos expendido, se p6de concluir, que, desde
o anno de 1399, em que foram firmadas as treguas,
que de feito poseram fim á guerra com Castella, a
pÓpulação do paiz cresceu, durante o seculo xv, len-
tamente,   n ~ sem intcrt·upção de continuidade.
I Btira, liY. n, fl. 217.
2 Btira, Jiv. u, fl. 103.
l Odiana, liv. Yl
1
fi.. 134.
População 27
'fodas as precedentes noticias são de exíguo pro-
veito sem o conhecimento de um algarismo, que sirva
de craveira para um aproximado avaliamento nume-
rico. Como d'esta epoca não existe nenhuma contagem
dos habitantes, nem conhecemos facto social, do qual
eJla se possa deduzir, temos que recorrerá. primeira
resenha da população realizada em Portugal. Foi estn
feita em 1527, por ordem de D. João III. Conhecido
o numero da população n'este ultimo anno, poderemos,
não com uma precisão absoluta, que nem mesmo se
p6de esperar nos mais perfeitos recenseamentos mo-
demos, mas com uma solida garantia de não nos tt·antl-
viaremos para mui longe da realidade, deduzir a somma
aproximada dos habitantes, trinta e dois annos antes,
ao tempo do fallecimento de el-rei D. João II em 1495.
Em 17 de julho de 1527, D. João III expediu de
Coimbra uma carta regia a cada um dos corregedores
das seis provincias, ou comarcas como então se desi-
gnavam, em que se dividia o reino -Trás-os-Montes,
Minho, Beira, Estremadura, Alemtejo e Algarve-
em que lhe preceituava, que fosse encarregado um es-
crivão da 1·espectiva correição de fazer o an·olamento
de todos os moradores da provincia; indicava o pro-
cesso que o mesmo escrivão havia de seguir; prescre-
via a todas as auctoridades locaes a obrigação de lhe
prestar o auxilio de que elle carecesse. O escrivão irilt
pessoalmente a cada uma das cidades, villas e Joga-
res, e ahi assentaria quantos moradores ha no corpo da
cidade ou villa, quantos nos arrabaldes, quantos no
termo; havia de especificar por seus nomes quantas
aldeias no dito termo, quantos moradores em cada uma
28 População
d'ellas, e bem assim quantos vivem f6ra das megmas,
em quintas, casaes e herdades; tinha de escrever
quantas leguas tem de termo a area de cada concelho,
e com que outros logares confina. Nos proprios Joga-
res privilegiados, onde não entrava o corregedor, seria
feito este recenseamento. O rei recommendava a ma-
:xima diligencia, e ordenava que, logo que fosse con-
cluído, lhe fosse enviado o caderno, cerrado e sellado.
O censo da população do Minho
1
, effectuado no
mesmo anno de 1527, é o mais desenvolvido: -um
documento historico de alta valia, não só pela enume-
ração dos habitantes, senão que tambem incidente-
mente nos dá noticia de muitos factos da vida social,
que na devida occasião aproveitaremos. Limitando-nos
ao resultado geral, o recenseamento apresenta n'esta
província a conta de cincoenta e cinco mil e noventa
e nove fogos'. O recenseador, tomando sobre si um
trabalho, que lhe não era imposto pelas iustrucç5es
da carta regia, registou af6ra parte os mancebos sol-
teiros de dezoito a trinta annos ; ascende a totalidade
d'elles a trinta e oito mil.
O recenseamento da província de Trás-os-Montes
3
foi sómeote levado a effeito em 1530, por expedição
de novas ordens do rei. É uma excepção, todos os
t Gaveta 15, maço 24, n.• 12.
:a No ms. encontram-ae, em doia Jogares, addições desiguaes: a de
55:010 e a de 55:766. É uma dift"erença de 756 moradores. Exactidlo
aritbmetica nos documentos d'esaes tempos é quasi uma maravilha. Ti-
vemos, pois, de fazer a addição total du sommu parciaea de todas as
localidades, o que nos deu o algarismo que consignamos.
3 Armario 17 do lmr:rior àa caaa da coroa, Iiv. 44.
População
29
outros foram acabados em 1527. Por elle se vê que
  s ~ província comprehendia aquella parte entre o
Douro e o Tamega, que hoje geralmente se attribue ao
Minho; findava na confluencia d'aquelles dois rios.
A somma de todoR os vizinhos de Trás-os-Montes é
de trinta e cinco mil seiscentos e dezaseis. N'este nu-
mero o arroJador entendeu dever destrinçar o estado
civil das mulheres com morada independente. São
viuvas cinco mil trezentas e setenta e seis; solteiras,
que vivem sobre si, com fazenda ou sem ella, umas
honestas, outras que o não sãoJ dois mil cento e quatro.
No mesmo numero total se comprehendem tambem
seiscentos e quatorze clerigos e abbades: mas não se
contam os f1·ades.
O censo da província da Estremadura
1
, af6ra Lis-
boa e seu termo, enumera. quarenta e oito mil trezen-
tos e setenta e oito moradores. O ·de Lisboa, feito por
Henrique da Motta, esc li vão da camara., perdeu-se :
mas uma ementa, escripta no censo da Estremadura,
declara que elle apurou na cidade treze mil e dez
fogos
1
, e, no termo todo, quatro mil e vinte e quatro.
A somma total dos moradores da Estremadura é,
portanto, de sessenta e cinco mil quatrocentos e doze.
E de notar que esta província se estendia até á Villa
da Feira inclusivamente, e comprehendia, alem da
area que vulgarmente hoje se lhe attribue, com exce-
1 Armario 17 do Itaterior da casa da coroa, liv. 47.
a Gaepar Barreiros, que compulsou o ceDBO da cidade, e conversou o
eacrivio, cwufirma o numero doa fogos apurado : foram trese mil e trinta,
cfu: elle. ChorograpAia, Coimbra, lõ61, p. M.
,
-!
!
I
I
30 Populaç4o
pção da parte transtagana, em geral todo o districto de
Aveiro, Coimbra e aquella parte do seu districto, que
correm entre o mar e o meridiano d'esta cidade.
O recenseamento completo do Alemtejo, que contém
dados do maximo valor para o regímen da proprie-
dade d'aquella região na epoca, a que se· refere, e o
recenseamento da Beira, desappareceram do Archivo
Nacional antes do anno de 18 14, em que se deu pela
sua falta
1
: encontram -se hoje no Museu Britannico
2

A comarca de Entre 1,ejo e Guadiana, como então
se nomeava a provincia do Alemtejo, comprehendia
todo o territorio entre o Tejo e o Algarve. Foram ahi
contados quarenta e oito mil oitocentos e quatro mo-
radores
3

Na Beira, que abrangia as duas modernas divisões
de Alta e Baixa, foram arrolados sessenta e seis mil
e oit-ocentos moradores
4

I Joio Pedro Ribeiro, Nor:o• additamerato• áa   IObre o Real
Arckir:o, naa Rl'jlexiieB hiBtoricas.
2 Ali os examinámos. Os doia reeenstlamentos formam o ms. n.o 20:959
da collecçio denominada Additior1al MatiUBCI'Ípt•. Ao recenseamento da
Beira faltam os trinta primeiros folio1. O do Alemtejo estl\ inteiro. No
Archivo Nacional ha um recenseamento pa1·eial, relativo ás terras d'eata
província, cuja jurisdicção nio fôt·a alienada, no armario 17 do Intffior
do. ca•a da coroa, liv. 48.
3 uEm todos os vz." damtretejo e odyana como vai neates itês acima
coremta e oyto mil oyto cemtos e quntrou: Addit. Mas. do Museu Bri-
tannico n.
0
20:959, •Comto do numero da gemte que ell Rey nosso se-
nhor mandou que se contaase na comarqua dantre Tejo e OdianR».
·I oAqui sacabam as cidades villas lugares da comarca da Beyra na
ql. amtre cidades villas e lugares que tem jurdiçio ha duzemtos e cin-
coenta e seis concelhos entrando bouzella e bolfeiar
i .i LVI
noa quaea vi vem sessenta e seia mill e oyto eemtos moradores•. Citado
ma. do Museu Britannico.
'
31
Do recenseamento do Algarve não ·nos resta noti-
cia
1
: mas não ha duvida que elle foi executado. Um
documento de 1535' declara o conto de vizinhos de
todos os concelhos, que teem assento em côrtes, o qual
é exactamente copiado dos recenseamentos, de que
temos dado conta: e ahi vem enumerada a popula-
ção dos respectivos concelhos do Algarve. A informa-
ção do documento abrange todos os concelhos d'essa
provincia, quer dizer, Castro Marim, Tavira, Faro,
Loulé, Albufeira, Silves, Lagos, com excepção dos in-
significantes de Aljezur, com um pequeno termo, e
Villa do Infante, Portimão e Alvor, que nenhum
tinham
3
• A populaçilo total d'aquelles concelhos é
fixada pelo referido documento em oito mil trezentos
e tl'inta e tres fogos: a dos outros orçamos nós conjec-
turalmente em quatrocentos e sessenta e quatro'·
D'onde resulta para o Algarve uma população de oito
mil setecentos e noventa e sete moradores.
Em 1527 era, portanto, a somma total dos fogos
t Joio Pedro Ribeiro, Rtjlt:Iiiu hiltorica•, parto n, n.• 1.
I Armario 26, maço 8.
0
, doe. 2, e transcripto em Visconde de Santa-
rem, Memoria• para a hiltoria 00. c8rtt•, parte 1
1
Additamentos.
J Que eate era o numero total dos concelhos vê-se de OdiaM, liv. u,
fi. 61 e liv. v, fl. 97. Eate ultin1o diploma menciona tamb11m Odemira,
maa eata villa foi comprehendida no Alemtejo no recenseamento de
1ó27.
4 Tomando igual proporção á que ezistia, em 1732, entre o numero
de moradores d'esaes pequenos concelhos e o do reato do Algarve -997
e 17:876,- segundo o recenseamento em Silva Lopes, Chorographia do
ÃlganH", c. õ. Como a villa de Sagres nlo vem ahi eapeciBcada, tom'-
moa os 150 fogos de uma que lhe havia de ser igual, a prozima Villa do
Bispo. Esta conta hypothetiea pouco altera o resultado total; e todas
eataa avaliações alo podem ser mais que apro:limativu.
32 Populaçcio
em todo o reino de duzentos e oitenta mil quinhentos
e vinte e oito. Dando a cada um d'estes o numero de
quatro individuas, que é a média que accusam a.ctual-
mente os dados estatisticos
1
, temos que a população
de Portugal seria n'aquelle anno de um milhão cento
e vinte e dois mil cento e doze almas. Este computo,
baseado em uma contagem numerica, é, em qualquer
caso, um padrão assentado em um ponto chronologico
da historia, que premune contra o extravio de calcu-
los phantasiosos. D'elle pretendemos ngora deduzir a
importancia da população em 1495.
Se no curto periodo de 1495 a 1527 nenhuns factos
se tivessem dado que podessem influir de um modo
extraordinatio no movimento da população, natu-
ralmente concluiriamos que tinha continuado ininter-
rupto o accrescentamento, que havemos notado. Mas
não foi assim : e somos ob1igados a apreciar anteci-
padamente importantes acontecimentos historicos, mas
tão s6mente nos seus effeitos sobre o numero dos habi-
tantes.
Não contamos entre esses acontecimentos a peste,
que era um flagello usual: n'este periodo de trinta e
dois annos, vinte passaram sem ella, e em treze gras-
sou geral ou parcialmente a epidemia'. A proporção do
tempo da infecção é q u ~   a mesma, que nos sessenta
e quatro annos até 1495, como atrás deixamos 1·efe-
1 .Mais e:nctamente, 8,928 para o continente, e 4,261 para u ilha•
adjaceutes. Ct.JW) da população, de 1890, Introducçilo, p. 101.
2 Freire de Oliveira, Elemento• para a hiltoria do município de Lü-
boa, tomo 1, pp. 409 e 464.
----
População
ss
rido. A invasão de 1521 é pintada como de excepcio-
nal gravidade por Garcia de Resende e F1·ancisco de
Andrada: juntou-se com uma esterilidade geral em
toda a. península e na Africa, o que lhe ateou a viru-
lencia. D'ella morreu el-rei D. Manuel. Garcia de Re-
sende recorda com espanto a morte de duzentos ho-
mens honrados, espanto que nos parece attenuar bas-
tante as tetricas côres da sua descripçã.o. Mas pouco
mais durou essa praga que um anno:' e não podia ex-
ceder em destroço a que, principiando em Lisboa em
1480: grassou pelo reino durante dezasete annos con-
tínuos. Por outro lado, com excepção do ultimo anno,
durante todo o reinado de el-rei D. Manuel foram asco-
lheitas abundantes, nem houve falta de mantimentos
1

Em qualquer caso não foi a pestilencia de 1521 da
violencia das que destroem familias inteiras, e não
podia, portanto, a sua mortalidade alterar o recensea-
mento de 1527, o qual, como vimos, não contou senão
os fogos.
O primeiro facto, peculiar do intervallo de tempo
em questão, é o procedimento de el-rei D. Manuel com
os judeus e os mouros em 1497. Nos fins do anno an-
tecedente publicára elle um decreto, expulsando de
Portugal todos os judeus e mouros fôrros, sob pena de
morte nutural e }lerda da fazenda em proveito do de-
nunciador'. Não se falia n'elle da nlternativa de con-
1 Pina, OArtmicG de D . .AffORIO V, 208; Garcia de Beaende, Milcel-
lonea e variedade de laiatoriu•; Andrada, CArortica. de D. Jol.o III, cc. 10
e 20.
a Eate decreto constitue o tit. 4:1 do liv. u daa Ma.ue·
lilltJB.
8
-;·: ..  
. .
..
34 População
versão ao christianismo. Ostentava o 1·ei grandiosa ma-
gnanimidade, promettendo mandar pagar aos
quaesquer dividas de que no 1·eino ·fossem credores, e
dar-lhes todo o aviamento e despacho que cumpria
para a sua saida, a qual se havia de effeituar até ao fim
de outubro de 1497. Estas promessas eram uma burla
para os banidos, e um apparato justificativo para o sobe-
rano. De facto, os judeus foram instados para receber
o baptismo: aos· que se recusavam, foram-lhes arran-
cados os filhos menores de quatorze annos: depois,
vedando-se-lhes os portos primeiro para o
embarque, foram encurralados em Lisboa, e ahi, á
força, aspergidos todos a montão com a agua baptis-
mal1. Uns sete ou oito, de rigida consciencia e inaba-
lavel tempera, insistiram pela saída, que lhes foi con-
cedida
1
• A isto é o que D. Manuel chamava depois a
geral conversão dos judeus
3
• O rei conhecia perfeita-
mente que semelhante fórma de sacramento era de
todo o ponto invalida: pelas suas proprias OrdenaçBes,
nem mesmo um escravo de Guiné, acima dos dez
annos de idade, podia ser baptisado sem o seu consen-
timento expresso
4
: por isso, nos diplomas legaes, e
nos escriptos destinados á publicidade, a violencia.,
se bem que claramente se percebe como foi rematada,
t Goea,   de D. ll-fanuel, parte r, cc. 18 e 20; Amador Arraia,
Dialogo•, dia!. 3, c. 2; Mariana, Historia general de E1p4iia, tomo xm,
liv. :un, c. 13; Herculano, Historia do estabelecimento da InquiBiçao,
tom. I, liv. u.
2 Herculano, l. cit.
3 OrdenaçéJu Manuelinas, liv. u, tit. 41, S 5.
0
' OrdtJfi4ÇÕeB Manuelinas, li v. v, tit. 99.
Populaçllo 85
é artificiosamente dissimulada pela recordaçio, ex·
pressa ou implicita, de que alguns obstinados aban-
donaram o reino
1
• Nos escriptos secretos a verdade é
desvendada. D. João III, dando em 1533 instl·ucções
ao seu enviado junto da Santa Sé para sollicitar a ln·
quisição, dividia os christãos novos em tres catego·
rias,- os convertidos á força, os de sua vontade, e os
filhos baptisados na infancia '. No calor da contenda
com o summo pontifice, que estava bem informado
dos factos, e objectava a coacção original, nunca da
parte do rei e seus letrados se allegou a minima liber-
dade de escolha, dada por D. Manuel aos jude':ls, mas
tão s6mente que, em mais de trinta annos, os violen-
tados, se alguns ainda viviam, podiam ter saido de
Portugal
3
• Alguns fugiram antes e depois d'aquelle
baptismo: mas ha que ponderar as difficuldades que
tinham de vencer. A sai da não se podia intentar senão
por mar; em Castella fiammejavajá a Inquisição. Os po-
bres não tinham meios, os ricos precisavam de realizar
os seus haveres. Como ainda assim havia quem affron-
tasse todos estes obstaculos, o alvará de 20 de abril de
1499 prohibiu a compra aos judeus de todos os bens
de raiz, e o saque a seu favor de letras de cambio; e
t •A maior parte d'ellea (judeus), que em nouoa reinos quiseram
ficar, ae converteram e tornaram á noaaa santa fé, e receberam a agua
do santo baptismou. Ordeflaçües Manuelinas, liv. u, tit. :nu, § r..
z •Tomados cbristlos, alguns por força, outros por saaa vontades,
e outros que, depois nascendo doa sobreditos, foram baptiaados em sua
iofancia•: Info;rmaçio para ae fazer a aupplicaçio ao Papa da Inquiai-
çilo, Corpo tliplomatico portugun, •Relações com a caria•, tom. u.
I Ibid., ~ o   o lll, pp. 3 e 98.
36 População
o de 21 de abril d'esse mesmo armo lhes vedou a saida
definitivamente sob graves penas. Os annos passaram,
os conversos resignaram-se á sua sorte. Em abril de
1506 foi em Lisboa o horroroso alvoroto e morticínio,
em que pereceram trucidados mais de dois mil. lias
o soberano vindicou a majestade da justiça. Os frades
dominicanos, instigadores da carnificina, foram garro-
tados, e os seus cada veres reduzidos a cinzas; enfor-
cados, esquartejados, ou decepados os principaes cul-
pados ; e á cidade, remissa em cohibir a revolta,
foram retiradas todas as franquias. D. Manuel, talvez
pungido de remorsos, abrandou então os rigores para
com os israelitas .. Pela lei de ·1 de março de 1507
foram revogadas as defesas, que mencionámos, e foi
permittida aos judeus a saida do reino, e a inversão
dos seus haveres em letras de cambio. Mas elles, ou
por á terra natal, ou por confiança no futuro, ou
pelas miserias que os esperavam em outro qualquer
paiz, não se aproveitaram da licença
1
• A anciedade
dos christi.os novos serenára: a lei esteve em vigor
até 1582. Depois sobrevieram inexoraveis defesas,
em seguida as sevicias da Inquisição. Não obstante,
tão grande repugnancia á. expatriação dominava os
conversos, que, apesar das cruezas do  
s6mente nos fins do seculo :xvx, e no  
quando os Paizes Baixos lhes offereceram hospitaleiro
valhacouto, e que na Inglaterra entibiaram os senti-
mentos da intolerancia religiosa, é que os christãos
I a Nenhuns ou qoaai nenhuns aairam do reino». Herculano, Historia.
do estabelecimmto dtJ   tomo r, liv. u.
-.,
População 37
novos activaram a fugida para aquelles dois paizes,
formando as communidades judaicas de Amsterdam e
de Londres, que ainda hoje se prezam da sua ori-
gem.
Este summario dos acontecimentos leva-nos á con-
eludo, que a ordenação de D. Manuel, em relação
aos judeus, pouca influencia podia ter exercido sobre a
diminuição do numero dos habitantes. Ficaram quasi
todos no reino: e as perdas, que occorreram, fo1·am
sem duvida suppridas pelo grande numero de conver-
so&, que fugiam para Portugal da furia da Inquisição
castelhana
1

Examinemos agora o caso em relação aos mouros.
Os mouros, comprehendendo sob este vocabulo toda
a sorte de mussulmanos, foram um dos principaes ele-
mentos da primitiva população da monarchia portu-
guesa
1
• Mas, no ultimo qtiartel do seculo XIV, hemos
de suppor que o seu nume1·o era longe de avultado,
se considerarmos que todos os habitantes da Mouraria
de Lisboa, que era de muito a mais basta do paiz, ca-
biam todos em um recinto, que não podia ser de largas
dimensões
3
• A causa principal d'este decrescimento
havia de ser a sua encorporaçlo na massa do povo
t Herculano, l. cit.
a Herculano, Hutoria. H Porluga.l, tomo nr, liv. vu, parte 1.
J Quando Henrique II de Caatella pôs sitio a Lisboa em 1873, no
reinad., de el-rei D. Fernando, «OS mouros fôrros do arrabalde foram-se
todos, com seus gasalhados, para o Curral doa Coelhos, junto com a
fortaleza doa PR908 d'elrei, que é em um alto monte, e ali estiveram em
tendilhllea acoutRdos por sua defenaio•. Femlo Lopes, Ckronica de
D. Fema.ndo, c. 73.

38 População
por via dos consorcios. Nos fins do seculo xv achamos
a gente mahometana muito diminuída.
Ao norte do Tejo não demoravam elles senão em
Lisboa e suas cercanias, e em Santarem.
No Algarve, onde, ao sul d'esse rio, elles mais abun-
davam, existiam, em 1442, mourarias em Tavira, Faro,
Loulé e Silves
1
• Quarenta annos depois não os encon-
tramos senão em Faro, Tavira e Loulé'. Loulé era a
estancia dos mais afazendados, ou mais numerosos, pois,
no dize1· dos magistrados municipaes, possuiam no
concelho,· em 1484, tres quartas partes da propriedade
territorial, e o outro quarto fõra em tempo d'elles
3
• Os
pesados tributos, que solviam, montavam ao tempo do
mandado de expatriação a vinte e dois mil quatrocen-
tos e cincoenta e quatro reaes '· D'este concelho pode-
mos desde já dizer que, qualquer que tivesse sido
depois a sorte dos seus lart-adores mouros, a prosperi-
dade da região, que era abrangida pelo almoxarifado
de que elle era a séde, não podia ter padecido enorme·
quebra: porque o almoxarifado de Loulé, que era o
menos fructuoso do Algarve, rendia, em 1512, duzen-
tos e setenta mil seiscentos e oitenta l'eaes
5
, e, em cada
um dos annos de 1516 a 1518, trezentos e dezoito mil
cento e cincoenta
6
• A quota dos mouros era menos de
I OdiantJ, liv. IV, fl. 239.
a Odic&na, liv. u, fi. 64.
3   liv. n, fl. 15.
4 Sousa, ProUGI da Historia Genealogica, tomo v1
1
p. 356.
5 Odiana, liv. vu, fl. 169.
& liv. vn, fl. 191 e 195.
População 39
uma duodecima parte d'esta somma. Os outros almo-
xarifa.dos eram, pela ordem do rendimento, Lagos,
Tavira, Silves e Faro.
No Alemtejo, não conhecemos, pelos fins d'este se-
culo, mourarias senão em Evora, Beja, Estremoz, Por-
talegre, Elvas, Setubal t, e uma muito insignificante
em Aviz.
1
Pelas poucas localidades, em que estanceavam, e
considerando que, alguns agricultores dispersos,
elles habitavam pequenos bahTos nos arrabaldes, onde
j,, como em Lisboa, viviam de envolta com os chris-
tãos, se avalia o modico numero dos crentes do islam:
o que se confirma pela indift'erença dos outros mora-
dores, ·pois que nenhumas queixas contra elles appare-
cem nos capitulos geraes ou especiaes das cOrtes. Nos
conselhos regios, em que se deliberou o decreto ex-
pulsorio, ninguem se lembrou d'elles, toda a questão
versava sobre os judeus.
Mas foram com eft'eito lançados f6ra do reino todos
os mouros, que não assentiram ao baptismo? D. Ma-
nuel nas suas Ordenações assim o significa: mas docu-
mentos particulares, não destinados a ver a luz publica,
e, por isso, mais :fidedignos, provam o contrario. O
ponto era blasonar ao mundo de que em Pol'tugal, na
phrase de Garcia de Resende, «nãohaviamaispagl.os>>;
e, como os mouros não tinham sido convertidos pelo
processo empregado com os judeus, apregoava-se que
t Odiafta, liv. n, fi. 109.
2 Capítulos de Aviz
1
Characellaria de D. Jolln 11, liv. :uu
1
fi. 68.
·:J
-'I
,
·•' .,
,. ... ,
  · ..
f! ..
...
'
.
40 População
clles haviam sido postos f6ra. D. Manuel confiscou-lhes
as mesquitas, as alfaias do culto, os bens consagrados
a usos pios, mas não os constrangeu á expatriação.
Damião de Goes, na sua empeçada narrativa d'estes
successos, a unica differença que nota entre o proce-
dimento havido com os judeus renitentes e com os
mouros, é que a estes lhes foi permittido levar os
filhos menores, quando sairam, e aos judeus não, pois
que não tinham no mundo protectores; ao passo que
os mussulmanos dominavam poderosos imperios, onde
podiam os christãos experimentar as represalias de
vingança, - pungente e intencional ironia. sob color
de ingenua simplicidade
1
: mas o facto é que aos ju-
deus, como vimos, não foi permittida, mas embar-
gada a. saida. Igual repugnancia se havia de manifes-
tar a respeito dos mouros. Que não foram expulsos
todos os que não abjuraram a sua crença, é indubita-
vel.
Em 1498 continuava residindo em Lisboa um
mouro, Alie Azulejo, que derivava este appellido da
sua profissão de fabricante de azulejos. Era «mouro da
rainha D. Leonor», o que significa, que e.ra seu servi-
dor, artista ceramico, como muitos dos seus correligio-
narios, industria em que primavam os arabes, o qual
a viuva de D. João II empregava, quem sabe se no
convento da Madre de Deus, que ella então fundava.
Reis e fidalgos tomavam por seus a artifices de diffe-
rentes industrias, para lhes servirem quando requeri-
l Goes, Chronica de D. Manuel, parte I
1
c. 20.
1
I
Populaçi!o 41
dos
1
• Alle et·a mouro livre. Em março d'aquelle anno
arrematou em hasta publica uma casa na Mouraria,
propriedade do Hospital de Todos os Santos, pelo
fôro de quatrocentos e dez reaes e duas gallinhas. O
emprazamento durava por tres vidas, sendo as duas
primeiras a d' elle e a da sua mulher Alema, e a ter-
ceira de livre nomeação. Havia a escriptura de rece-
ber a approvação do governo dentro de um anno. O
Alie foi remisso no cumprimento d'esta clausula, sem
embargo do que lhe foi outorgada a confirmação em
30 de fevereiro de 1501 '·
O proprio alfaqui de Lisboa, ou capellão dos mou-
ros, como elle é nomeado nos diplomas governativos,
Mafamede Laparo, residia n'esta cidade com a sua mu·
lher Doaira em 1517, e cultivava fazendas, de que era
dono, nas cercanias
3

De que servia expulsar alguns mouros livres, quando
no reino havia grande quantidade de escravos da
mesma raça e religião, que ora augmentava com ou-
tras capturas feitas na Herberia, ora diminuia com os
resgates ou troca por christãos sujeitos ali á. mesma
sorte ? E eram tantos relativamente, que mouro, s6 de
per si, se entendia vulgarmente por um escravo, era
necessario dizer mouro forro, ou apontar outra quali-
ficação, para prevenir aquelle sentido. Estes ultimos,
1
Ohancellaria de D. .4.ff0R10   ~ liv. xa, fi. 66, em Souaa Viterbo,
Diccionario doa an:l&iltciM, vol. 1, p. 420; ibià., p. 461; Gil Vicente,
Farça dM almocrevu.
2 &tremadura, Iiv. n, fi. 93.
3 &tremadura, liv. xu, fi. 62.
42 População
em virtude da nova ordenação, ficaram de ali em
deante submettidos á lei commum: mas ninguem os
importunava, eram pobres e humildes, addictos aos
trabalhos mecanicos e ruraes, prestimosos, sem faze-
rem sombra ou suscitarem invejas.
Alguns, sem duvida, ou mais escrupulosos, ou mais
ressentidos, se resolYeram a abandonar a terra do seu
berço, e conseguiram o intento. D'elles foi um certo
Alie Agudo, que tinha uma tenda de oleiro na Mou-
raria, na rua que saía da porta de S. Vicente
1
• A.
cas.a era foreira ao Hospital dos Meninos Orphlos
em cincoenta reaes e uma boa gallinha. No dia 18 de
setembro de 1497 apresentou-se elle no Hospital em
companhia do alfaqtti, acima referido, Mafamede La-
paro, perante o mui honrado Estevão   mestre-
escola e conego da Sé, provedor dos hospitaes e con-
frarias de Lisboa, para o lavramento de uma escri-
ptura, pela qual vendia ao alfaqui Mafamede essa sua
casa por mil reaes. Foi-lhe deferido juramento no Mo-
çafo de que esse era o verdadeiro preço ajustado.
Na escriptura acrescentou que se vae d'estes reinos,
e, por isso, faz doação ao hospital de uma terra de
trigo que tem em Alvalade pequeno. É difficil explicar
este lance de generosidnde, e suspeitamos que foi o
preço por que logrou a licença da saida. O case-
bre terreo, que, precedido de um pequeno quintal de
trinta varas de superficie, media uma área de treze
varas quadradas, confinava com casas de Mafamede
1 EBtremadura, liv. vu, fi.. 1M.
1
I
População 43
Lampada, com as da mulher do Algarvim, e com
as da mulher d'elle proprio Alie, o que suggere a ideia
de que esta não quiz acompanhar o marido, e que os
mouros vizinhos lhe não seguiram tambem o exemplo.
A escriptura não foi confirmada pelo rei senão em
fevereiro de 1498
1

Outra escriptura de 1499 nos informa que um Ro-
drigo Affonso comprára varias herdades nos Olivaes,
c1ue foram de mouros, e que o rei tinha ahi um chão
da mesma proveniencia, que se compunha de um par-
dieiro, uma horta, um olival, e um poço sêco '·A data
justifica a deducção de que esses mouros eram dos que
sacrificaram á sua consciencia a pattia, e o torrão que
lhes mantinha a existencia.
Toda a politica de D. Manuel auctorisa o conceito
de que, longe de compellir os mouros á expatriaçilo,
offereceria impedimentos ao seu egresso. Aos mou-
risco& de Castella, que entravam em Portugal sob pre-
texto de negocio, para se passarem para a Africa, elle,
para mallograr esse designio, lhes vedava absoluta-
mente o transpOr as fronteiras. Atrozes penas eram
commioadas pelas suas Ordenações a todos os auctores
ou cumplices do transporte d'elles para alem-mar.
A razio allegada era que iam engrossar· as forças
do inimigo da fé e do reino,. Incidentemente, na
mesma lei, se prohibe tambem a entrada em Portugal
aos mouros «que por nós d'estes reinos foram lança-
I EBtremadura
1
liv. 1
1
fi. 49.
2 EstremadurA, liv. u, fi. 212.
J Ordenag8u   liv. v, tit. u:un, §§ 2 e 8.
44 População
dos •
1
: mas temos semelhante clammla pela continua-
çilo do fingimento adoptado no decreto de desterro,
inserido, como apontámos, em um livro anterior das
mesmas Ordenaç3es. De outra maneira como conciliar
esta incongruencia com todas as provisões draconia-
nas, que teem por alvo o impossibilitar a passagem de
quaesquer mouros ou christios-novos para terras mus-
sulmanas 'l A mira nilo estava em limpar o reino de
mouros, mas, pelo contrario, em os rete1·. No seculo XVI
todo o sobre-aviso é curto para desvendar os rebuços
da santimonia. O verdadeiro pensamento do legislador
no titulo precedente áquelle que acabamos
de analysar
1
• N'elle se determina que ninguem possa
forrar capth·o ·mouro, ou moura, senão por dinheiro
ou mercadorias que o proprio escravo tenha f6ra do
reino, ou pelo resgate de outro christão; com excepção
d'aquelles mouros, ccque houverem nossa licença, para
em nossos reinos viverem e morarem ..• os quaes vi-
verilo sempre em nossos reinos, e se nilo irão d'elles
sem nossa especial licença». O desnudo sentido d'esta
refolhada phraseologia é manter a antiga lei
3
, que não
consentia a nenhum mouro a saida do reino sem
licença regia.
Propendemos a crer que o decreto de expulsão não
serviu senão para extorquir aos mouros sommas de
dinheiro. Fundamos a imputação, que não destôa do
praticado com os judeus, em uma quitação passada
t Jbidem, § 2.
z   liv. v, tit. LXUI
1
11 5 e 6.
s OàiafUJ
1
liv. u
1
fi. 2M.
População 45
por D. Manuel no seu Guarda-roupa em 28 de abril
de 1499, onde se lêem as seguintes verbas: «cento e
quarenta nove mil reaes de Fernando Affonso, rece-
bedor, que foi, do dinheiro do quinto dos mouros em
Lisboa; oitenta e sete mil e quinhentos reaes, de
Diogo de Aleaçova, do quinto dos mouros; um conto
trezentos e cincoenta oito mil quinhentos e vinte qua-
tro reaes, do quinto dos mouros»
1
• Este dinheiro nBo
era o tributo usual, que os pagavam, porque
o de Lisboa era, por doaçAo, percebido pelo Duque de
Bragança, e importava em vinte e tres mil 1·eaes
1
;
e o espírito da epoca não permitte suppor que, se elles
tivessem sido expulsos, o rei, que teve de indemnizar
todos os donatarios dos dinheiros pagos pelas moura-
lias, se contentasse com um quinto dos bens dos
infieis, quando a anterior legislaçAo lhe adjudicava
toda a fazenda do mouro que abandonava o reino sem
o seu beneplacito. Pelo preço da quinta parte da sua
fazenda, os mahometanos continuaram a viver em
P01·tugal.
Se houve monarca que deixasse a sua memoria vin-
culada a predilecções mussulmanas, foi D. l'tfanuel. O
caprichoso da fantasia oriental inspirou o estylo da
sua graciosa architectura; e é difficil conceber que em
muitos dos edificios, que dito brilho ao seu reinado,
como em Cintra e em Evora, não laborassem obrei-
ros mouros. Entre os artistas da sua côrte figura-
I B%lnu, B.. 7
a Padrlo de teoc;a ao duque de   ClaaneelltJriG de D. Ma·
nud, li v. nu, ft. 66.
46 População
vam <<musicos mouriscos, que cantavam e tangiam
com alaúdes e pandeiros, ao som dos quaes, e assim
das charamelas, ha1·pas, rebecas, dançavam os moços
fidalgos»; no seu reposte se guardavam vestidos e jae-
zes á mourisca para as corridas de touros e jogos de
canas
1

El- rei D. Manuel não era indifferente á diminuição
do numero dos seus subditos. Em 1509 instituiu
cinco novos coutos de homisiados para asylo dos cri-
minosos, que andassem foragidos em Castella, não
sendo moedeiros falsos, sodomitas, assassinos, ou la-
drões, e que desejava revocar para Po1·tugal «para
nosso serviço e bem de nossos reinos, os q u a e ~ : ~   louvo-
res a Nosso Senhor, pelas cousas que lhes temos acres-
centado, assim em partes de Africa, como em Guiné,
e nas Indias, hão agora mister mais gente que nos
tempos passados» t. Elle não perdeu de vista esta ne-
cessidade no seu proceder com os judeus e os mouros;
o qual foi menos o resultado de deliberação esponta-
nea, do que complacencia com os reis de Castella e
Aragão, a cujas exigencias julgava contrario aos inte-
resses do Estado o denegar satisfação.
Estas silo as razões que nos persuadem, que ne-
nhuma reducção attendivel foi causada na populttção
islamita pela ordenação que se gloriava de expurgar
o paiz de todos os infieis.
Essa ordenação, em relação aos mouros, não fez
mais que extinguir o culto do Koran. Assim o dá a
I Goes, Chronica de n. Manuel, parte xv, c. 84.
2 Alem-Douro, liv. v, ft. 4.
População 47
entender a propria linguagem do rei, quando, para
outros propositos, se refere incidentemente a este
facto •.
Nas cOrtes de 1563, no reinado de D. Sebastião, o
estado ecclesiastico testifica a existencia de muitos
mouros, uns christãos, outros que o não são, de cujas
crenças ninguem cuidava'· O Santo Officio, em Por-
tugal, não se embaraçava com os mouros: provavel-
mente porque não queria dar occasião a revindict.as
exercidas sobre os christãos captivos em Africa. Um
  x   m p l ~ assombroso de quanto esta consideração mo-
via até o espírito mais sanctificado pela.desg1·aça, pela
abnegação, pela fé, encontra-se na paciencia, com que
Frei Thomé de Jesus, captivado no destroço de Alca-
cer-Quibir, se refere aos mouros, algozes d'elle, e dos
portugueses, seus companheiros na escravidão; e no
odio, que não tem outro nome, com que malsina os
judeus que viviam na mesma 1·egiào, innocentes de
todos os trabalhos que elles padeciam
3
• Dos muitos
renegados, que abraçavam o islam, os que, arrepen·
didos, regressavam á fé christã e á patria, eram aco-
t •Por quamto semtimdo o nos asay por serviço de deos e noao e
bem de nosos regnuos detremynamos que em eles nom ouveae judeus
nem mouros•. ChtUictllaria de D. Manuel, li v. xm, fi. 11; ibid., fi. 55.
2 Visconde de Santarem, Memo-rial para a hiltoria du c6rtu, vol. r,
Documentos.
3 Compare-se nos Traballao1 tk Ju111 a carta á Naçlo Portuguesa, e
o trabalho 19, da parte r, Dureza da gente jtulaica: aalarguei·me tanto
no que estea 1\DDos, que estou cativo, aqui por experienciP.. n'eata dura
gente (os judeus) vi, porque é clara demona.traçlo do que Christo, Nosao
Senhor, com elles passou•; e o que relata ter visto nlo é mais que a
inflexibilidade d'elles nas suas crenças.
. '
48 População
lhidos sem reserva, nem penalidade, para não demover
os demais de abjurarem a sua apostasia e abandona-
rem o serviço de um inimigo poderoso.
Resta-nos mencionar a causa mais importante nos
seus eft'eitos sobre o movimento da população, super-
veniente durante o periodo, de que nos occupamos. É
a corrente de gente para a lndia nas armadas, que
sairam d' este reino, a começar pela primeira de V asco
da Gama em 1497. A colonização da Madeira e dos
Aço1·es já. se iniciára anteriormente, e na dos outros
dominios ultramarinos s6mente se entendeu depois. No
decurso de trinta annos até 1527, que é o anno que
temos em mira, navegaram para a lndia trezentas e
vinte naus, cada uma das quaes levava, em quanti-
dade media, duzentos e cincoenta homens
1
• Sio, por-
tanto, oitenta mil homens, que embarcaram para a
lndia durante este teiiJpo. Faria e Sousa que
s6 uma decima pal'te regressava á metropole. Haveria,
n'este caso, na populaçio um desfalque de setenta t>
duas mil almas, ou cêrca de duas mil e quatrocentas
por anno.
Mas o computo d'esta deficiencia é modificado por
termos co1·rectivos, que se devem tomar em conta. Dos
t Faricl e &UM&, Liata das armadu, no fim do 8.• volume da .41i4
PM'tltflltaa, onde enumera u naus de cada uma du armadu até 1640.
N'eate longo periodo de cento e quarenta e quatro annoa, o termo medio,
que elle aaaigna a cada nau, é de quinhentos homens: a razio é que,
depois do reinado de D. Manuel, o tamanho das nau augmentou conti-
nuamente, sendo de 800, 900 e 1:000 toneladas, mu nos primeiros tem-
pos nio     de 400 toneladu, &verim de Faria, Notú:ia1 de Por·
tugal, DiSClli"IIO 7.
0
4p't •.
49
embarcados, uma. ga·ande parte constava de crimino-
sos, qne haveriam do morrer na forca, ou de terminar
uma pm·te ou o resto dos seus dias no degredo da
Afaicn. ou nas cadeias. As possessões ultrnmna·inas
foram sempre para Portugal o ergastulo dos seus de-
linquentes. rclnçito a estes, não ht\\•ia novidade,
que alterasse o numero anterior da\ população. Á pm·tc
restante dos emigrados temos que contrapesar o in-
fluxo que os propaios descobaimentos opci'Rram sobre
a riqueza material. Ntlo discutimos ngorn. as conse-
quencias finaps, que o regimen da expansão coloniul
produziu sobre a força vitnl do pniz: fnlnmos dos seus
effeitos immedintos, em referencia a um breve espaço
de tempo. Pomos de parte os pro,·entos do monopolio
regio das especin1·ias, que mais que triplicou o rendi-
mento do Estndo, tnmbcm accresceram as despesas
para o manter: mas a exportnçito para o oriente dos
gene1·os ag1·icolas, e o trafico de outras mercancins,
locupletaram a agricultura, o commercio e a navega-
çiio. Por outro meio progrediu a agricultura, por via
de um instrumento dep!ornvel, mas momentaneamente
efficaz, o ta·abnlho servil dos negros dt\ Africa. É claro
que nito são estes contados no numero dos habitantes,
nem é esta a occasitlo de apreciar os misea·andos efft>i-
tos, moraes e   que a sua introducção causou
a P01·tugal; mas é indubitavel, que ellcs n'esse tempo
estenderam a porçito do solo cultivado. Nas côrtes de
14 72 os povos not"uvam com 1·egozijo o ga·ande numero
de escravos, que havia no reino, porque serviam para
desbravar os matos, dcsangrnr os pantanos, e ouh·os
du1·os b"abalhos, d'onde 1-eaulta"a a fundnçlo de no-
'
50 População
vos povoados
1
• Já, em 1466, havia em Evora tres
mil eeomvos de ambos os sexos'· Alas depois de cir-
cumnavegada a Af1ica, com o incremento da área da
colheita e o da sua frequentação, a quantidade m·es-
ceu prodigiosamente. Quando, cm 1536, Garcia de
Resende aponta, como um dos factos notaYeis do seu
tempo, o arroteamento de terrus   a abertura
de paules, a com·el'Sào de charnecas em lavouras
3
,
uão pódc bave1· duvida de que a esse nlleantamento
occul'l'ia o b·abalho da quantidade enorme de escm\"os,
cuja impo1·tnção incessante lhe entristecia o nnimo. A
multiplicação dn cspecie humana é naturalmente inde-
finida; o que a J'estlinge, abstrahindo das devastações
anormacs, é, soh•·ctudo, a misCJia: a população cresce
até t\s cxta·emas raias da subsistencia. II avia tnmbem
que alimentar os escravos, mas o sustento d'cstes era
misc1·avel, a mortalidade enorme, e o vh·eiro da Afl'ica
inexgotnvel. O progresso da agricultura nugmentava,
portanto, a população do paiz. A expcriencia de nossos
tempos tem demonstrado que uma desmesurada cmi-
graçilo nilo empéce ao crescimento do numero de lm-
bitantes '·
1 Côrtu, maço 2, n.• 14, müticol, n.• 9. Vide, no fim do vo-
lume, os Docummt01 illu•tralitw.
2 JTiaju por Espalla de Jorge de Ehiflgen, dei baron Lr.on Rosrnithal
de Dlatna, etc., traducidos por D. Antonio Maria }'abié, Madrid, 1879.
Via ,em de Rotmithal: o texto, que está muito eorruptn, diz •na cidade
de Braga•, maa evidentemente I! em Evora, pela sua situaçllo fJnsta no
Alemtejo a trea milhas de Arraiolos, e por outras partieulnridades.
I Múcellanea e t·ariedade de hi•toriaa; cf. Brtll4 de Paulo III no
Corpo Diplomalico   tomo m, p. 429.
4 Em doze anno11, de. 1878 a 1890, cm ama populaçio que, n'eSilc pc-
riodo, 1ubiu aprozimadameate de quatro e meio milbl!e1 a claco, a
--,
I
PopulaçlJ.o õl
Do exposto deduzimos que a diminuição da gente
eliminada pelas armadns da India, dua·ante a quad1·a
de tempo que fixámos, daria um resultado final insi-
gnificante, ou nullo. O numet·o dos nascimentos, e das
existencias roubadas á fome, preenchia a lacuna. E
tanto mais que uma parte d' estes emigrados pertcn·
cia ás ordens privilegiadas, que viviam do producto
da   sem que a fecundassem pelo seu trabalho.
Conjunctamcnte com esta ponderadas as oub·as
causas, que temos exposto, chegamos á conclusão, que
o recenseamento de 1527 1·epresenta aproximada-
mente a quantidade de fogos existente em Portugal
anteriormente a essas occurrencias.
il1ação ó confirmada pelos documentos, que
parecem antes indicar accrescimo, que não retrocesso.
Mas seria desarrazoado assentar affirmações precisas:
faz-se miste1· deixar largueza á margem do erro em
materia tão envolvida em incertezas, como esta.
Nas províncias do norte, o Porto nito podia contra-
hir-se em população, quando o art·endamento da sua
alfandega, que, em 1498, produzia um conto quatro-
centos e sessenta e seis mil reaes
1
, subiu, em 1518, a
dois contos seiscentos e quatorze mil seiscentos e seis
l'eaes, quasi outro tanto
1
• Tambem se povoavam os
seus ruTabaldes, e cresciam os mondo1·es do termo.
Pouco antes de 1512 surgiu junto ao rio do Ouro, ao
emigraçlo de Portugal foi IUlnualmente de 22:963 individuo&. Cen.o da
poprtlaç/lo, de 1890, Relatorio, p. õ3.
I Mem-Douro
1
liv. nr, fi. 197,
1   llv. ,., fi. 84.
.
52
sopé do monte de Santa Catbarina, uma povoação de
pescadorea, que foi denunciada ao rei para o paga·
mento da dizima do pescado
1
• Em 1520, D. Manuel,
tomando em consideração que Matozinhos e L e ~ a vão
em grande augmento, concede-lhes, por carta de 14
de janeia-o, nma cea-ta autonomia com dois juizes e um
alcaide, escolhidos pela camara do Porto de u ~ a lista
de candidatos n1>rcsentada por aquellas localidades, c
com seis procuradores do povo'· O censo de 1627
conta n'estas duas terras o numero de seiscentoa e se-
tenta e sete fogos.
O concelho de Ponte do Lima affirmava ao infante
D. Pedro, durante a sua regencia, que no termo da
villa não ba mais de seiscentos moradores
3
• O mesmo
termo apparece, em 1527, com mil cento e noventa e
ta·es. Igualmente, os moradores da cidade da Guarda
e seu termo, que pagavam fintas, eram, em 1465,
cêrca de mil ': seguramente não minguáa·a a popula-
ção, quando, sessenta e dois annos depois, ella toda é
arrolada em dois mil trezentos e vinte e um morado-
res. Sem duvida que a immune parte d'elles, por
isenção regia, e pot· acostamento á igreja e á nobreza,
era muito consideravel: mas não poderia exceder, na
Guarda, a metade da população.
Do extraordinario augmento de Lisboa, logo nos
primeiros annos do seculo XVI, temoa provas incontro-
I Alem-Doaro, liv. v, fi. 82.
2 Ãkm-Doaro, Jiv. v, fi. 88.
I Ãlem-Douro, liv. n, fi. 15.
4 &im, liv. 11
1
fi. ~ 8  
PopultujkJ 58
versas: a capital do reino tornou-se o emp01io do
comme1"Cio do oriente. «Esta cidade, -diz D. Manuel
em 1500-, louvores a Nosso Senhol", cada dia se
acci-escenta, asl5im em povoaçlo, como em muitas
outras cousas do seu ennobrecimento»
1
: e, posterior-
mente, em 1515, «a nossa cidade de Lisboa vae em
gt"&.nde crescimento, a Deus graças, e ha n'ella sempre
muita gente, assim de natm·aea como de estrangeiros>>
1
;
e, cinco RDnos depois, «as cousas do ennobrecimento
d'esta cidade, louvores a Nosso Senhor, vilo em mui
g1-ande crescimento, e cada vez com sua ajuda espe-
ramos que mais cresçam»
3

Em Santarem o movimento das jogadas, que atrás
apontámos, de 1451 a 1504, nlo indica decadencia.
No seu termo o Cartaxo, que, em 1458, se gloriava
doa seus noventa e tantos vizinhos, inscreve-se, na re-
senha de 1527, com duzentos e vinte e quatro.
No Alemtejo, Evora declinou. De quatro mil e qui-
nhentos mOJ·adot·es, que contava. em 1495 ', baixou a
dois mil oitocentos e treze, uma differença de mil seis-
centos e oitenta e sete em trinta e dois annos. O des-
canso foi gradual, e explica-se facilmente pela reti-
rada de muitos e principaes fidalgos, que ali J"esidiam
11
,
e que provavelmente se passaram para Lisboa. Em
contrap08içlo, Beja é feita cidade em 1521, em atten-
t   liv. 1, ft. 160.
:t. E•tremadura, llv. :m, ft. 20.
s EtlremtuJura, liv. 'IIII, ii. 176.
• Garcia de Resende, Vida tk D. JoiMJ II, e. 20i.
•lbidewt.
-
População
çito á sua gloriosa historia, e a a como, louvores a Nouo
Senhor, cada vez vae em maior crescimento,,•. Elvas
foi tambem por D. Manuel ele,·ada á mesma catego-
ria
1
• Nas cOrtes de 14 7 4!
3
se fala de .todo o concelho
de Portnlega·e juntamente até seiscentas pessoaso ter
feito uma a·eprcsentaçào a el-rei D. Duarte. Comquanto
este modo de fular seja uma base de calculo demasiado
fallivel, ~   todavia, de infea;r que a população th·esse
augmentado até o nnno de 1527, quando o concelho
contava mil quatrocentas e dezanove familins. Borba
gaba-se, nas côrtes de 1498, de que não haveria no
reino out1"D. villa com tão pequeno termo, e t . ~ o larga-
mente npa·oveitado! sobretudo em ,·inhedos; e queixa-
se, não da falta de b1·aços, mas da insufficiencia de
madeh·a para os seus apeiros, e de lenha para consumo '·
Em capitulos, que dirigiu no rei ('fi 1487, a villa de
Veiroa
5
contava os seus vizinhos em cento e sessentn;
não entravam, entende-se, os moradores das ordens
privilegiadas: em 1527, niTolava ao todo trezentos e
sessenta e um. A póvoa de 'l'ancos, fóra mas na raia
do Alemtejo, recebe, em 1517, a graduação de ,.iJla,
ccpor sabe1mos o accrescentamento, em que cada dia
vae a povoação,,
6
• SalvateaTa de Magosuão tinha ainda,
em 1497, quarenta lavradores
7
: em 1537, apuraram-se
t Odiana, liv. vu, fl. 199.
z Goes, Ohronica de D. Manuel, parte tv, c. 86.
1.n. us.
4 Odiana, liv. r, fi. 82.
s Odiana, liv. v, fi. 280.
& .&tremadura, liv. xu, fi. 79.
7 Otlia1U1
1
liv. 1
1
fl, 89.
-- --
..
Populat;llo 55
abi cento e dezesete fogos
1
• O Barreiro, em 1521, re-
cebe o titulo de villa, considerando que «O logar é tio
accrescentado,,
1

De uma possesslo no termo da villa de Almada é
conhecido o respectivo •·endimento no principio d'este
seculo .xv, e no do subsequente: a comparação paten-
teia o progresso da agricultura na comarca adjacente,
e ainda p6de servir de indicio do prog•·esso material
do paiz inteiro. Entre as mercês, feitas por D. Joiio I
ao condestavel D. Nuno Alva1·es Pereira, comprehen-
diam-se todos os direitos regios da villa de Almada e
seu termo. O condestavel entendeu que a doaçlo
abrangia os esteiros de Col"l'oios e Arrentella, e come-
çou a edificar no p•·imeiro azenhas de moagem. O
procurador da corôa denegava esse dil·eito, e embar-
gou as obras. Seguiu-se uma demanda, que terminou
por composiçlo amigavel, em virtude da qual Ó rei,
consider11ndo os riscos e damnos inherentes a um longo
pleito, e que aquellas abras estavam de todo desapro-
veitadas, fez d'ellas ce:ssilo plena ao condestavel, com
a obrigação de que este lhe pagasse o fôro de oito al-
queires de trigo por cada uma das azenhas, que ahi
levantasse. Nuno Alvares edificou na abra de Cor-
roios tres d'essas moendas, e doou-as em 1404,
junctamente com tvdos os seus direitos sobre este e o
outro braço do Tejo, ao seu convento do Carmo, ao
qual o rei quitou o fôro
3
• Em 1493 esses mesmos tres
1 Gaveta 15, maço 28, n.
0
15.
• Odiana, liv. vn, fi. 197.
, SIUlt'ADDa, CAroni'CtJ doi Cannelital, tomo 1
1
Documentos 7, 11 e 12.
---.,
I
56 Populoçtw
moinhos, cujo rendimento para o senho1·io fôra primi-
tivamente computado em vinte e quntl·o alqueia·es de
trigo, andavam aforados por oito moios, e, em 1505,
}lOl' nove. Accresce que no mesmo esteiro se haviam
consb·uido mais cinco azenhas, e ap1·oveitado em mari-
nluts o ter1·eno salgado
1

O almoxal'ifado de Setubal cobrou, cm 1l94, ta·es
contos cento e setenta mil reaes, e quinhcntns galli-
nhas': em 1512, quatro contos b·ezentos e vinte mil
l'enes, dezeseis aves e um carneiro
3
• Sctuhal, e\·idcn-
temente, niio dccaira. Das ,·illns de Alvito, Villa No,·a
da Hnronia e Oriolla, diz uma etu·ta 1·egia de 1502, que
slo bem povoadns, e que os dh·eitos reaes Cl'eRcem
cada vez mais '.
No Algm·ye, rravira é el'igida em cidade, attenta n
sua bencmcrencin. e <<como vai cada yez cm maior
Cl'escimentO>> r.. O almoxarifudo de Silves foi, em 1486,
arrendado po1· seiscentos c qum·cntn e quab·o mil
1·eaes
6
: em 1512 rendeu setecentos e cincoenta e sete
mil e quinhentos
7
• Se a capital do Algal'Ve definhava
em razão dos seus aa·es malignos, não succedia o mesmo
t Ibid., tomo u, parte m, ee. 4
1
ó e 7 I 2.
2 Odiana, li\·. v, fi. 196.
3 Odiarra, lh·. vn, fl. 113.
4 Odicma, lh•. r, fl. 279.
~ Carta Regia de 16 de maio de 1520, Odiana, li\•, vn, ft. 189.
G Odiarw, liv. 1
1
ft. 29.
1 O d i a t ~ a   liv. vn, fi. 169. Na apreciaçlo da legitimidade do a1·gu·
mente, derivado d'cstaa comparações de rendimentos, nlo olvidamos
o que adeante havemos de ezpôr aobre a moeda, uem o accrcscimo de
1 por cento, estabelecido em 1508 por D. Man11el, para obras pias em
todos os almourifadoa e .recebedorias, 81f'WII'Ü Chrorwlogica, tomo ''
p. 207.
l
Populaçllo 6T
com o seu nlfoz. Lagos, de cujo. polio surgh·am as ca-
ra,·elas do infunte D. Henrique, a.ttingia·a o cume da
sua grandeza. Era. o entreposto do trafico africano: e,
quando este foi tramsfcrido paa·a nos fins do
seculo xv, a. sun prosperid11de ressentiu-se. Nos cinco
annos precedentes a 149G foi, em cada um, o rendi-
mento do seu almoxnl'ifndo, deduzidas as sommas pro-
cedentes da \'enda. de cscra.\'os, de um conto duzentos
c setenta. mil novecentos c sessenta. c oito reaes
1
: em
1&12, quando o tt·a.to ultl'nma1·ino tinhn já. passado
para Lisboa, o t·en(limcnto bnixaírn a um conto cento
e quarenta c um mil c trcsentos '· Sem embat·go, o seu
almoxarifndo, com pouca differença do de 'l'nvira, con-
tinuou a sea· o mais rico do Algane.
O Alcmtejo c o Algarve emm, como dissemos, a
pa·incipal cstnncia dos mouros. Os factos apontados
não dalo fundamento no asserto, de que a ordenação,
que os bnnin, produzidsc qualquer despovoamento n'a-
quella região.
• Em a todo o paiz, o que as precedentes in-
dioações possam isoladamente tet· de deficiente é sup-
prido pela reflexão sobre o desenvolvimento ulterior
da historia.
A extensão de juizes ordinarios a todas as aldeh1s,
pa·ovidencinda por D. Manoel
3
, o ininterrupto accres-
centamento de juizes de fó1·a e de emp•·egados admi-
nistrativos, a criaçlo de quatorze novas corregedoria&
1 OdÜ&ftCI, Jiy, 1
1
ft. 281.
J OdiGM, liv. vn, fi. 169.
s Orderw,giiu   liv. 1
1
tit. ü.
58
por D. Joilo m tI a addiçlo ao numero de desembar-
gadores, a fundação de bispados, a multiplicaçito dos
concelhos, não se compadecem eom o 1·etrocesso da
população. É necessario, comtudo, qualificar o argu· •
rnento pela consideração de que a grande quantidade
de escravos complicava muito as •·elações sociaes;
pois, se bem que elles nilo eram julgados senão como
objectos de propriedade, nlo podiam ser, nem nunca
foram, tratados como brutos animaes.
A população estende-se mesmo em condições appa-
rentemente minguantes da quantidade existente. Em
uma das quadras mais calamitosas da nossa histmia
moderna, de 1801 a 1835, em que o paiz foi devas-
tado por tres invasões estrangeiras, pelas guerras ci-
vis, e por uma epidemia de cholera-morbns, accusam
as estatísticas o additumento annual de treze em cada
dez mil almas' do primeiro anno. As causas que diffi-
cultavnm o desenvolvimento da populaçllo na idade
media eram as pestilencias, a fome, o desabrigo da
vida, a guerra incessante, a universal penuria. Em
Portugal, nos seculos xv e XVI, a paz, com curtas
e leves interrupções, foi mantida, até á louca e fu-
nesta campanha de D. Sebastião contra llarrocos.
Todavia, qualque1· que fosse o incremento de habitan-
tes n'aquelles seeulos, o qual não temos dados para.
apreciar, não podia, pelas outras causas, ser senão
muito lento.
A consideração das circumstancias desfa.voraveis á
I Joio Pedro Ribeiro, Rf'jlezlJu hi•torica1
1
parte n, n.• 1.
J Cer110 da população em 1890, Introdacçlo, p. 67.
l
~ ·      
·-
População
vjda nRo consente nclmitth·-se n'·ultnda necessito no
nosso pb.iz durante o seculo XVI. Mus que alguma
houve, nilo padece duYida. Se em Portugal, quando
prosperado pelo monopolio incontestado do commercio
oriental, começasse logo de rarear n população com o
despacho das p•·imeiras armadas para a India, como
seria possivel que elle podesse continunr n expedir, du-
rante mais um secu1o, levas de soldados para o oriente,
e, simultaneamente, turmas de emigrantes para oBra-
zil? Ao passo que, no reino, conjunctamcnte ci.·escia
em quantidade espantosa o numero de gente votada ao
celibato. Nos fins do seeulo XIV o numero de com·en-
tos de um e outro sexo orçaYa por cento e seis; pas-
sado o seculo xv, subia a duzentos e trcs; e, ao findar
o XVI, contava t1·esentos e no,·entn e seis •. Comtudo,
no bre'\'"e el'paço de tlinta e dois annos, não podia I'e-
levnr o accrescentamento na somma de uma popu1a-
çito t . ~ o mal apercebida, pela rudeza da sciencia e da
civilisaçito, contra as inclemencias ·mortiíeras da na-
tureza.
A conclusito, a que chegamos, de que, nesses trinta
e dois annos, entre 1495 e 1527, não se deu ditfe-
rença consideravel no numero dos moradores, con-
tJ·asta uma opinião, já emittitla no meiado do seculo
xvn
1
, de que anteriormente ao reinado de D. }lanuel,
e em consequencia dos factos que temos discutido, a
populaçito era muito maior. Quando se inquire do fun-
damento historico d'esse juizo, não se depara outro,
t Cardeal Saraiva, Obrtu, tomo 1, Ordena monaaticas e mosteiros.
2 Severim de Faria, NoticiGtl de Portugal, disclll'IO L
60
senlo a expresslo do abalo que causava, em 1586, a
Garcia de Rezende a novidade, de que elle durante a
sua vida foi testemunha quasi desde a oaigem, de se
espalharem os poa·tuguezes pelas ilhas, pela lndia, e
pelo Brazil, ao passo que o 1-eino se enchia de negros
africanos. Se assim continuar, exclamava elle, serlo
mais os esc1·avos do que nós
1
• Nito diz que a popula-
çAo nativa diminuia, com quanto se comprehenda que
elle tivesse app1-ehensões a este respeito: a corrente
dos po1·tuguezes para fóra da patria era um facto sem
precedente, que não podia menos de o sobresaltar,
a elle e aos seus contemporaneos. Mas nós sabemos
boje de certesa pela expeaiencia historica, que os seus
temores eram infundados, e que a colonisaçio não an-
nulla a expansibilidade da populaçi.o da meta·opole. As
causas do seu retardamento, n'este e nos seculos se-
guintes, si.o mui complexas, e teem de se procm·ar na
contextura do regimen politico, social e economico: mas
cremos que, ao todo, ella tem sempre progredido, mais
ou menos lentamente, desde o principio do seculo :xv.
Se indaga1·mos qual a população das outras nações
da Europa pelos fins d'este seculo, ni.o encontra-
mos,   nenhuma dift'erença sensivel
em relnção a Portugal. Da Inglaterra, propriamente
dita, com o principado de Galles, em um telTitorio
que t1 quasi o dobro de Portugal e mais coroavel á.
cultura cerealífera, t1 orçado o numero de individuo&
entre dois e tres milhões
1

t .Vi•cellanea e variedade de hi1toria1.
z Thorold   Manual of Poütic4Z Eoonomg, c. 8, di1 doia ;
Hallam, Coueitulional HWI.ory ofB!Iglcwi, c. 1, dis trea milhha.
l
I
,.

61
Florença, uma das mais industriosas cidades da Eu-
ropa n'aquelle tempo, comprehendia dez mil visinhos
1

Das dlla8 maiores cidades da Allemanha no meiado
do seculo xv, Strasburgo e Nuremberg, não continlm
cada uma mais de vinte e seis mil almas: nem era,
em todo o imperio, grande o numero d'aquellns qu«r
contavam entre dez e vinte mil
1

1506 Vinccnzo Quirini, embaixador de V cneza
em Hespanha, relatava ao senado dn sua republica,
que o 1-uino de Castella, quer dizer, ·a Hcspauhn
actual, escluidos os antigos reinos de Navarra e de
A1"Rg§o, não numerava, apeza1· das suas grandes di-
mensões, mais de duzentos c cincoenta mil fogos
3

Similhante avalinçuo, que dm·ia t\ Cnstcl1n, em um tca·-
ritorio quatro vezes maior, uinda que propoa·cional-
mente mais snfaro, uma inferior á de Por-
tugal, não p6de ser exacta: mas demonstra a rnreza
da povoação no reino vitsinho.
Exíguo era o numero dos habitadores. !Ias não ha
que. medir a sua capncidade ene1·gica pelo padrão dos
nossos tempos. Eram uma J'aça inculta, mas luctadora,
f01·te e audaciosa: homens capazes, pela sua pujança
muscular, de envergarem urna armadma de fert·o, e
brandirem o montante ou a aclan de armas nas bata-
1 Raoke, GucAicAleta dtr romanidua untl   VoelL·er, 1.
Bucb, S. Cap.
J Aaamaun, Ge.cAichte du MiUelalter1
1
8. Aufl. 3. Abth. Deutach-
laod, S. 629.
a •Non tiene, fra cità terre e ville, pio di dugento cioquanta miJa
fuocchi•. Alberi
1
Relauioni amba1ciatori veneti al Senato, aerie
t.•, tomo 1.
62
Populaçllo
lhas de uma longa campanha. «Temos n6a hoje, no
brando regaço do refinamento, deixado adormecer as
forças usuues e neccssarias n'aquelles tempos; com
humildosa admiração olhamos pa1·a essas imagens gi-
ganteas, como um velbo ene1·vndo par&& os exercicios
.viris da c. 'fresentos e ta·inta e um mil ho-
mens, que tantos seriam os varões activos de Portu-
gal', a·obustecidos pelo combate incessante contra as
calamidades onturaes, e contra as demazias da violen-
cia, acostumQ.dos a se valerem a si proprios, inoonscios
de duvidas sobre o seu destino e o caminho para elle,
considerando a vida e o tempo como o limiaa· da eter-
nidade, não são compnrnveis a igual numea·o decida-
dãos de uma sociedade policiada, emasculados pelas
brandua·as da   de quem o scepticismo tenha
mollificado o espírito, e limitado o hqrisonte ao breve
espaço da vida terrena.
I Schiller.
J Doe quiu;;e aos aeueota e no\·e anno•, na propol'Çilo encontrada
para a actual poputaçio pelo Ceoao de 1800, vol. n, p. 2.
,
I
"'""' -..- - --
.
CAPlTULO II
Aspecto geral do paiz e do seu estado social
O te1Titorio, que a communidade portugueza hnbi·
ta,·a, era o mesmo que ena nossos dias, com cxcepc;ão
da praça e tem1o de Olivença, que nos foram conqtaiti-
tados pela Hespanba em lHOl.
O aspecto gm·al dos lineamentos ph)siogrnphicos
não tem mudado. Não que se tenhnm conser,·ado
invariaveis, porque a face da terra está sendo   o m ~ t n ­
temente tJ'I\nsformada pela acção dos agentes physi-
cos: mas esta acção é tão lento, que o espaço de cinco
seculos não é sufficiente para a deixar pe1·ccbea· no seu
conjuncto. Historicamente, sómente é possivel averi-
guar algumas alterações parcines, que teeau deixado a
sua memoria nos documentos, ou, po1· muito sensíveis,
indícios irrecusaveis na face da terra.
Um sabio estrangeia·o, que estudou diligentemente
o aspecto physico e a formação geologica do Algarve,
attribue o obstruimento dos portos de Alvor, Lagos,
Aljezur, bem como de Odeseixe e Setubal, á. invasão
das areins arrojndas p('ln tremt>ndn vnga, alta de ses-
senta pés, que, por occasião do tea·reototo de 1 de
64 O paiz e seu estado social
novembro de 1 7 55, estoirou &Obre a costa de Por-
tugal•.
Da extensa linha de ilheus arenosos e mudaveis,
separando do oceano a ria que cone parallela á costa
do Algan·e desde o Encilo até á bal'l'a de Ta,•ira, nos
dá noticia um documento de 1441 ': já então, segundo
a infQJ'mn.çào dos mareantes do Porto, a barra de 'rn-
vira et·a muito baixa c perigosa, não medindo a ngua,
na baixamar, mais de um cova do de profundidade, de
sorte que os navios de maior porte, que ali iam bus-
car carga de fructa, haviam de ancorar em Fm·o, ou
no local que denominavam a «Foz Nova>>.
N'aquella pat·te da costa de Portugal, onde a zona
do litt01·al é muito baixa, as areias soltas e de grande
mobilidade, e o solo facilmente desintcgra'\"el, os ,·en-
tos ajuntam grandes medõcs de areia, e os propellem
pa1·a o interior. Assim, na cinta littoml de solo are-
naceo, que se estende desde Aljezur até á foz do Sado,
se teem obstruido totalmente ns desembocaduras de
alguns ribeiros, e determinado a fol'lltnçfto dns lngons
de S. Thiago de Cacem e de Melides; e, ao norte do
Cabo Espichei, a de Albufeira.
Igual processo vae em seguimento nns bocas da
Ribeira de Quarteira no Algnne: e nas dn Lagoa de
Obidos na •  
Na faixa de areiaes, de largura variavel, que se es-
tende desde a Pederneira até á proximidade da bana
t uMêmoire aur le royaume de I' Algarve•, nas Memoria• da Acadtmia
Real da• Sci•ncia•, 2.• aerie, tomo n, parte n.
2 Capitulo& eapeciaee do Porto nas côrtea de U41
1
C'hancellaria de
D. A,lort10 Y, liv. n, fi. l<K.
  ·
r- .
'
U paiz e seu estado social 65
do Douro, este phenomcno manifesta-se com grande
intensidade. A elle é devido o estancamento das aguas
nas lagoas de Tocha e de Mira, e o arenamento pro-
gressh·o dos rios Liz e Vouga
1

A povoação de Lavos tem por vezes sido mudada
parn o interior, por effeito da invasão das areias,
havendo desapparecido algumas ter1·as de cultura,
hortas e pomares
1

Foi para livrar o campo de Leiria d'esta invasão
que D. Diniz plantou o grande pinhal. Em 1286 o
mesmo rei mandou po,•oat· a villa de Paredes, ao norte
da Pederneira, a tres legou de Leiria, um porto bas-
tante accomodado para a pesca e para o commercio.
Esta vi11a foi em grande crescimento até ao reinado
de D. Manuel. Então os areaes, abalados pelos ventos,
que n'a.quelle sitio cursam de todos os pontos, cobri-
ram ns casas e entulharam o porto; de sorte que a
villa '\·eiu a despovom·-se totalmente
3

Em tempos primitivos as costas eram provavel-
mente cobertas de fiorestas. Foi a destruição d'estas
que franqueou o campo á invasão das areias. Plantando
o pinhal de Leiria, D. Diniz nito faria mais que res-
tabelecer o estado primitivo.
A causa ordinaria mais activa na alteração dos con-
tornos <lo solo é a acção da agua pelas chuvas, torren-
tes, riheh·os e rios. A erosito e desintegração do ter-
I Relatorio do Instituto Geograpbico acêrca da arborisaçio do paiz,
1868.
I .&la4orio da Admioistraçilo Geral das Matas do Reino, 1878.
s Fr. Francisco Braodlo, MoMrclaia T.ruitaJitl, parte v, liv.16, cap. 51.
li
66 ( J paiz e sen estado tocial
reno procedem constantemente. Quando a força da
corrente dos rios, onde os detritos soltos se vem ajun-
tar, nl1o é assaz poderosa para os remover até ao mar,
o alveo fluvial s6be de nivel, e as aguas e o seu con·
teúdo inundam os campos ma1·ginaes.
O 1·io de Portugal, onde atravcz dos seculos se tem
manifestado mais calamitosamente este phen01ueno, é
o Mondego. Este rio, por ~   e seus affiuentes, recebe
as aguas e os detritos da mais cstensa e elevada cor-
dilheira do paiz. O rio Alva, o Dao, o Ceira, as torren-
tes que se precipitam das sea·ras do Açor e da Louzan,
acarretam-lhe as alluviões e areias de uma dilatada
superficie.
Do alteamento do seu leito, e dos estragos por elle
causados, a primeira noticia, que alcançamos, data dos
fins do seculo xm. O mosteiro de Sant'Anna de Coim-
bra, edificado junto da ponte nos principio& do mesmo
seculo, foi, por esse motivo, ob1igado a mudar de sitio
em 1285
1
• Da continuação da mesma causa dõo tes-
temunbo ns ruinas soterradas do convento de Santa
Clara, e a memoria dos mosteiros desapparecidos, o
de S. Francisco, outr'oa·a assentado na varzea da mar-
gem esquerda, c o de S. Domingos, junto ao rio, na
margem direita; os quaes, nos fins do scculo xv, ainda
permaneciam no sitio da sua primiti\·a fundação. O
mosteiro de Santa Clara, obra do anno de 1314, trans-
feriu-se para a sua actual situação em 1649: o de
S. Francisco, fundado em 124 7, mudou-se em 1602:
o de S. Domingos, erigido em 1242, recolheu-se para
t Fr. Antonio Brandio, .Uonarchia Lusitana, parte tv, liv. xn, <'RJJ. 3G.
r r ~ - -
. .
O paiz e seu estado social 67
a rua de Santa Sophia cm ·1546. D'este, ainda no
meiado do seculo xvu, permanecia de pé o campana-
rio no seu primitivo assento
1

Em relação ao seculo xv, enc«?ntrnmos menção dos
effeitos devastadores das cheias do Mondego em 1464.
Na carta regia de 22 de setembro d'esse anno se re-
latn, que os officiaes e homens bons de Coimbra ha-
viam representado que o rio estava tão obstruido de
aa-eias, que, á mais pequena cheia, fazia grande damno
no campo até M.ontem6r, nos mosteiros ahi assentados,
o no arrabalde da cidade. Pelo que o rei, D. Affonso V,
mandára fazer uma estacada entulhada para minoraa·
os estragos, com grande dispendio e trabalho. A esta-
cada. pouco aproveitára.. As auctoridades de Coimbra
lembra,•am, portanto, uma pa·ovidencia, que, segundo
a noticia que havia, se guardára nos tempos antigos,
-que de Coimbra até Ceia nenhum fogo fosse posto
nos matos dentro do espaço de meia legua para cada
uma das margens. D'esta maneira não correria mais
areia para o rio, a que n'elle jaz se escoava arrastada
pela corrente, e não seria o damno tão grave como
agora. O rei assentiu a esta p1·oposta, impoz a pena de
mil reaes a quem lançasse fogo, e deu aos juizes de
Coimbra jmisdicção para este caso sobre todo o perí-
metro designado '.
A tradiçilo sobre o arvoredo das margens do rio e1·a
ve1idica. Entre os privilegias conferidos a Coimbra
desde 1368, um havia concedido pelo rei D. Fernando,
I Idem, ibid., parte 1v
1
liv. : ~ a v   cap. 23.
2 E:rtremad11ra, Iiv. v, ft. l4:J.
68 U plliz e se-u estado social
pelo qual á cidade se pcrrnittia o cm·ta1· madeira nRH
matas e soutos reaes nas ribeiras do Mondego e do
Ceira
1
• A bacia do Ceira é na serra do Açor, onde em
nossos dias se encontravam ainda restevas de grandes
matas, que tinham ensombrado esse rio
1

O mandado e sancçito penal de Affonso V foram
baldados. Os fogos continuaram a desvastnr os matos
nas ribanceiras do Mondego. Nas cô1·tes de 1490 o
povo de Coimbra retorna a amesquinhar-se de que
as areias alastram o campo, o que é devido aos fogos
que se p5em em ambas as ribas do Mondego. De si
mesmo é que elle se devia queixar, porque a carta
regia, de que acabamos de fazer menção: lhe dava o
meio de obstar a este pernicioso abuso. O povo pre-
fere recorrer ao rei, e pede-lhe que prohiba os fogos
até Linhares, junto á Serra dn. Estreila. Pede tambem
que sejam defesas as nassadas no rio para s. pesca das
larnpreias, «porque o menos que se p6de lançar no
rio são dez ou doze mil pedras, em que se represa a
areia, e não p6de correr, e se retem, e faz crescer a
areia e a agua para os ditos campos, pelo que tudo
se destroe
3
,,, Em consequencia d'este requerimento,
D. João li publicou no anno seguinte a carta regia de
5 de março de 1491. N'ella se estatue que, «Conside-
rando o grande damno que o campo de Coimbra recebe
pelas muitas areias, que n'elle recrescem por causa
dos muitos fogos que se põem nas mattas c charnecas
l E1tremadura
1
liv. n, fi. 10.
2 Citado Rrlatoriu sobre a arborisnção do paiz.
3 Clumcr.llaria de D. João 11, liv. xm, fi. 127. Vid(' os /Jocnmtnlo•
iUu8frati1.'08.
O paiz e seu estado social 69
ao redor do Mondego, c dns muitas nassadas, que se
deitam no 1io, para se tomarem lampreia&» seja no-
meado um «couteiro dos ditos fogos e nassadas». Este
offi.cial tem por encargo o velar por que se não ponha
fogo, de um e outa·o lado do Mondego, aguas verten-
tes, até Linhares, nem se armem nassadas no rio
1

Todos estes mandados de prohibiçã.o foram letra
morta, como se vê pe1u. naiTativa ele frei Luiz de Sousa
no primeiro quartel do seculo xvu. Ajuntamos aqui as
suas palavras, porque continuam a hist01ia do pheno-
meno até essa idade, c mostram a persistencia das
ideias sobre a sua causa, como tambem que nunca se
traduziram em obras. O que, porém, elle diz a respeito
dos tempos antigos cm·ece de fundamento; é um effeito
da imaginação, então iucontradictada, de que no pas-
sado florescêra toda a rasã.o e virtude. «Accontece em
alguns dos arcos (da ponte de Coimbra) terem estreita
e trabalhosa passagem os mesmos barcos, que poucos
annos atraz passavam folgadamente á vela. A causa
de tanto mal sabida é, e não está tão sem remedio
pelo estado a que tem chegado, como por ser negocio
publico, porque estes cm quasi nenhuma parte do
mundo teem hoje amparo ou valedor. Chega a cobiça,
ou a multidão e necessidade dos homens, a não deixn1·
palmo de terra, que não rompa. Em tempos muito
antigos eram inviolaveis as costas e ladeiras, que caiam
sobre os r i o ~ : ~   com medo do que hoje se padece, e, como
cousa sagrada, estava o cru·go de se guardarem á conta
dos melhores do reino. Lembra-me ouvir aos velhos
t E1trtmadura, liv. m, fi. 2.
-------------
-
. ~
70 O paiz e seu estttdo social
que o receberam dos mais antigos, fôra este cuidado em
um tempo do infante D. Pedro, que chamam da Alfar-
robeira, p•·incipe de grande valor, ainda que igual-
mente desgraçado. Faz perder os campos, muito la1·-
gos e muito proveitosos, o querer aproveitar montes
pela maior parte estereis, ou pouco fructiferos : acham
as inve1nadas a terra bolida, levam-na no baixo, e fi-
cam despidos os altos até descob1irem os ossos, que
são as lageas e penedias do centro, e assim ficam os
campos perdidos, e os montes não dilo proveito
1
>>.
Nos seculos subsequentes até aos nossos dias, não
cessando o areiamento do Mondego, tem-se gradual-
mente alteado o seu leito, e assim contimia.
Pelo que diz 1·espeito t\ navegação, a alteração não
p6de ser muito sensível; porque, no meiado do seculo
xv1, André de Rezende escreve que o rio Mondego é
por algum espaço accessivel a pequenos navios, e por
barcos Coimbra, e para cima
1
• Porém no seculo xu
pauece ter o alveo do rio comportado embarcações de
maior porte
3

O 'rejo, no seu percurso até á povoaçilo de Tancos,
corre quasi sempre comprimido em alveo estreito po1·
entre rochedos e montanhas. Passada a garganta.,
onde campeia. o castello de Almonro1, o va11e dilata-se
e as aguas do rio espraiam-se por elle, em leito sem-
pre variavel. As cheias do Tejo, inundando as vastas
1 Hi8toria de S.   liv. m, cap. JV.
2 Minoribua navigiia aliquatenua, cymbia vero 8uviaticis usquc Co-
nimbricam bodiernnm ct supra navigabilis. Alltit]1titalcB L11Bilaniae,
lib. JI.
3 Mona1·chia LuBil.a1ta
1
parte v, liv. xvJ! e. 12.
O paiz e seu estado soc-ial 11
campinas das Lezirias, não eram menos formidavcis
no seculo xv, do que em nossos di.as. Um poeta do
tempo
1
descreve u. sua furia e estragos; occorriam
não s6 em dezembro e janeiro, mas tambem em ab1il:
o campo, porém, é fecundado pelo nnteiro alluvia.l,
o o lavrador repara as perclas com o triplice rendi-
mento posterior. Não ha roem01·ia, elle, que
passassem cinco annos sem uma cheia, e, quando cllas
muito se espaçam, o 1·endimento da cultura é misera-
,·el :t.
As cheias do Tejo, ora beneficas, ora desoladoras
para. a agricultura, produzem tambem n'esse rio, em
menor escala, o mesmo effeito, que as do .Mondego,
-o alteiamento do leito pela accumulação de areias.
Nas côrtes de 14 72-14 73 affirmavam os procura-
dores do terceiro estado, que de Abrantes para jusante
cresciam continuamente as areias. Attribuiam essa ca-
lamidade a UJil ·caneiro para a pesca, que havia em
Abrantes, e que paa·ece se estendia muito a dentro
da veia do 1·io. A corrente quebrava n'elle, e saia tão
mansa, que não tinha força para arrastar as areias.
Antes da existencia   caneiro pretendiam elles que
«era o Tejo cavado e alto, e, ainda que as cheias vies-
sem, cabiam n'elle, e agora é tiio cheio de areia, que,
por pequena cheia que venha, espira logo por todo o
campo: e assim, Senhor, por causa d'este caneiro se
perdem a novidade de campo e a pescaria do Teio,
t Cataldua Hiculus, •Do ol.oitu Alphonti principia•, em Houaa, Pro·
t·a• da lli-.t.oria Ge11ealogica, tomo v1.
2 Proventum stcrilem misero dant arva colenti. Ibid.
.---·
--
----·
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----
72 O paiz e seu estado social
que são as melhores duas no\'idades que em vosso
reino ha: nem barcos d'ali para cirua. não podem
nndar.,, Pediam, porta.nto, fosse mandado que a veia
da agua se conservasse sempre aberta., ainda que nos
cabos se fizessem como se fazem em outt·os
rios caudaes; de maneira que os barcos podesseru
sempre navegat· despacha.damente. Affonso V deu em
resposta que não era certo que o caneiro fosse a causa
do mal: entretanto mandaria estancear em Abrantes
durante um anno duas pessoas competentes para estu-
darem o caso •.
A esse malfadado caneiro, que era propriedade da
co1·ôa ', davam tambem as côrtes a culpa da escassez
dos saveis, que se notava no rio, quando antigamente
chegavam até para abastecer Casrella. Era esta uma
cia·cumstancia de momento para aquelles tempos, em
que a pesca fluviatica provia consideravelmente á ali-
mentação de ricos e pobres. Por isso todos os rios,
e nomeadamente o Tejo e o Zezere, abundavam em
canaes e pescarias
3

Ignoramos como a questão, que tão   appre-
bensões causava aos deputados do povo, foi a final-
I'esolvida. O certo é que a fecundidade do Tejo na
criação de pescado não minguára, porque, no seculo
seguinte, é apregoada com encarecimento por André
l Uôrta, maço 2.
0
, n.• 14, ft. 125.
z Livro t:l'rmelho de D. Alfonso V, n.
0
18, lnedilos da Acade111ia,
tomo 111.
3 &tremadura, liv. vm, fl. Dl: Cartl& regia de 12 de junho de 1462
em J. P. Ribeiro, DiMertaçües chrOJWlogicas, tomo JY
1
parte 1
1
p. 210
1
c
AdditamentoB d SynOjlBiB chronologica.
---,
,
'*@kf-p . -
O paiz e seu estado social 73
de Resende. No seu livro de Are/teologia Lusitana
este escriptor nos info1·ma de que o Tejo, mais po-
bre de aguas que o Douro, mas que as diflunde os-
tentosamente como por mera vangloria, é redundante
de ostras, e abundante de   dos quaes o princi-
pal, na bondade e ahundancia, é o savel. Ha tambem
savelhas, que elle julga uma especie dift'ei·ente do sa-
vel, mas nflo silo mais que a sua criaçito miuda,
e que descreve como mais mag1·as e insipidas que o
savel, principalmente em maio, e s6 teem alguma
graça na comida, quando forem, logo que tiradas do
rio, assadas na grelha, e condimentadas com um mo-
lho de aipo, pimenta e algum sumo de maçan
1

Para beber, a agua do Tejo gozava da 1-eputação
de e saudavel, e de possuir a virtude medicinal
de curar da papeira dentro de seis meses
1

Já no seculo xv este rio, de Tancos até á Povoa,
vagueava caprichosamente no seu leito, ora formando,
ora destruindo mouchões. Em 1491 havia na sua mar-
gem, acima. de Santa1-em, uma leziria de grandes ar-
voredos, que elle depois arrastou comsigo
3
: mas, em
contrabalanço, havia, antes de 1495, recentemente for-
mado outra, que D. Joio II doou a D. Gonçalo de
Castello Branco
6

O Douro, conf1·angido no seu leito de rocha por
montanhas escarpadas, precipitava-se cm catadupa
t A,tiq,itate. LuBitaniae, Jib. u.
: Cataldu. Sicul"llll
1
citado.
3 Garcia de Resende, Vida de D. João 11, c. 180.
4 Ealnmadura, Iiv. m, fl. 236.
74 O paiz e seu estado social
com grande estampido a par de S. João da Pesqueira
1

A dureza dos penhascos, que lhe emmolduram a bacia,
a força torrencial da corrente, devem ter conservado
inalterado o estreito valle, po1· onde corre. Junto a Bar-
queiros, as l'uinas de uma ponte monumental, coeva
dos primordios da monarchia, attestavam o affecto que
D. Affonso Henriques consagra\"& ás dnas bellicosas
pl'ovincias da Beira e Traz-os-Montes; affecto, · que
confirmava, legando no seu testamento tres mil ma-
ravedis pa1·a a· sua conse1·vação ou acabamento, por-
que se ignora se a ponte chegou tl remate
1
• No se-
enio xv levantavam-se no meio do rio dois pilares,
alteRdos acima do nivel das aguas cerca de vinte pai·
mos no verão e dez no inverno, mais em cada margem
seu pilaa·, e na ea..querda o arco fo1·mado
3
• Durante
seculos duraram em pé estes desb·oncos, opprobrio
mudo ás gerações que passavam, que assim votavam
ao despreso uma obra benefica, pela qual o primeiro
rei da monarchia tinha affirmado o seu desvello. Os
pilares do rio serviam para pesqueiras: mas tanto es-
tes, como os das margens, iam sendo derrubados pe-
los la\•1'8dores, sob color que se criavam n'elles gra-
lhas, que lhes comiam os trigos, mas, provavelmente,
para aproveitarem as cantarias.
A região do Douro mereceu não s6 o aft'ecto de Af-
fonso Henriques, mas tambem o de sua mulher, arai-
nha D. Mafalda. Elln estabeleceu duas barcas de pas-
t Re8tmd,., citado.
2 Santa Rosa Viterbo, Elucitlario, a. v. Mcnmodi•.
3 .dlrm Douro, liv. v, fi. 113: •Dcacripçio do terreno cm roda de
Lamegoo, nos ltctditoa da Acadrmia, tomo v.
O pau e seu estado social 75
sagem gratuita em )loledo e Porto de Rei; e deixou
quintas e easaes para mantença dos barqueiros. Em
!Ioledo fundou uma albergaria, em que mandava daa·
gnsalhado de cama, fogo e sal aos viandantes. A admi-
nistraçfto das barcas e da albergaria pertencia, em
1531, á ca.mara de Lamego
1

A navegação do Douro, a qual s6 era possh·el até
S. João da Pesqueira, devia ser insignificante. No ve-
rão era pouco menos de impraticavel; porque o leito
do Douro, bem como o dos seus afBuentes, estava ob-
struido po1· paredes e caniços, que então ficavam a
descoberto, servindo para a pesca das lampreias, sa-
veis e outros peixes
1
• Não se concebia que um rio
podesse oft'erece1· mais prestimosa utilidade que o de
fornecer meios de subsistencia, que muito escasseavam,
ou de servir de motor ás azenhas de moagem. Não o
entendia assim a cidade do Porto, á qual o estado in-
na,·egavel do Douro prh•ava de facil communicação c
trafego com as povoações sertanejas. A suas insta.ncias
el-rei D. Manuel, estancea.ndo n'essa cidade, promul-
gou a carta. regia. de 31 de outubro de 1502, na qual
mandava abrir todos os ca.naes do rio Douro, c de
seus a.ffiuentes, até S. João dn Pesqueira., na.  
de tres braças craveiras cada. um; invalidava qualquer
nllegaçio de posse, e prohibia a constl·ucção de novati
burragens, de sorte que se a navegação dos
I Citada uDescripc;lo do terreno» etc.: Viterb,•, Rlucidarin, s. v. Al-
bngarhr, m, propcnde a que estas fundações fossem já de D. Tbe1-esa.
mulher do conde D. Ill'nriquc.
2 Alem Dotu'O, liv. v, 11. 4.6: citada uDeiiCripção do terreno• etc.
76
U paiz e seu. estttdo social
rios: as justiças deviam entender na execução d'estc
mandado: á cidade do Porto se conferia o dit·eito de
fazer os competentes requerimentos
1
• Pelo que lemos
· na Descripçôo do terreno em volta de Lamego estas pro-
videncias foram inefficazes.
Junto d'aquelles pontos, então chamados galeiras,
em que o Douro se despenha por íngreme pendo•·,
demoravam pilotos, que passavam os barcos
1

Não s6mente silo, como acima apontámos, as areias
das dunas, propellidas pelos ventos, que dito causa a
obstruir-se o escoamento das aguas fluviaes. Como jú
notava, no meiado do seculo :x.vu, o chronista Frei
Francisco Brandão, as bar1·as dos nossos portos são
continuamente estreitadas pelas prop1·ias areias, lodo e
detlitos, que os 1ios carreiam pelo seu ah·eo. Diz-nos
elle que o rio Alfeizia·llo, em que, no seu tempo, ape-
nas podia nadar um barco, era, no reinado de D. }fa-
nuel, capaz de oitenta navios de alto b6rdo. A fé
d'este escriptor merece todo o m·edito; mas julgamos
haver grande exaggeração na noticia subministrada
no documento po1· elle allegado. 'rambem o areiamento
era, já em seu tempo, notado no porto de S. )lartiuho,
onde aquelle rio vem desaguar
3

O entupimento da foz nilo se tem produzido com
igual proporção em todos os rios. O Lima e o Ave
pouco mais profundos deveriam ser no meiado do se-
colo xv, do que presentemente; porque já então eram
a Ãlem Douro, liv. v, fl. 46.
z Em 1631, citada Dcscripç8.o etc.
J J{onarchia Ltl8itana, parte v, liv. xv1
1
cap. u.
--,

O paiz e seu estado social 77
tidos por baixos, e não comportavam o calado de naus,
mas somente o de caravelJas gt·andes
1

Em conne.xão com o rio Ave deve ser rememorado
o nome de um fidalgo que, no seculo XIII, encetou a
destruição de um grande penhasco, que obstruia a
foz. Este fidalgo, cujo amor do bem publico contrasta
assombrosamente com o desdem universal da melho-
ria da sorte . commum, chamava-se João Pires da
Maia'.
A madre do esteiro que liga a cidade de Silves com
Villa Nova de Portimão tem-se elevado consideravel-
mente; porque, em 1481, os navios nacionaes e estran-
geiros, que entravam em Portimão, podiam navegar
até Silves
3
• Este alteamento é sem duvida devido em
grande parte ás alluviões da 1·ibeira de Odelouca e
seus atB.uentes.
A acção do homem sobre o relevo orographico do
solo é insignificante, mas p6de transmudar-lhe comple-
tamente a physionomia exterior, e crear uma nova
paisagem.
Nos principias do seculo xv, Portugal póde descre-
ver-se como um vasto matagal, ent1·esachado, afóra
algumas cidades e villas, de pequenas povoações, cir-
cumdadas de breves arrotens.
1 Capítulos eapeciaes, nas côrtes de 1456, de Viauua, Poutc de Lima
e Villa do Conde, Cl&ancellaria àt D.   v; Iiv. xm, ft. 114. Vide
os Documentoe iUv•Cralivot.
2 Frf'Í Frauciaco Brandl.o, Monarclaia l.111itana, parte 1v, liv. x1v
1
cap. , ..
3 Capítulos eapeciaes de Silves nas côrtes de 1481, Claancellaria de
D. João IT, liv. n, ft. 3.
78 () pa.i: e smt estado social
O Alemtejo ea·a na maxima parte uma brenha sel-
Yatica.
O trato comprehendido entre uma linha no nm·tc,
que, partindo de Ccsimbra, se dhigia ao Tejo, e seguia.
a sua margem até Abrantes, e outra linha ao sul, que
surgindo da foz do Marateca, na sua confiuencia com
o Sado, abrangia o termo de Alcacer do Sal, cortava
peJo de Montem61·-o-Novo, subia a Montargil, e ia
entroncar com a primeira em Abrantes; toda esta ex-
temm região era coutada de porcos montezes
1
: quer
dizer, que a ninguem, em caso algum, era permittido
sem licença regia, ferir, matar ou capturar algum
d'aquelJes anirnaes.
Ao rei asdistia o direito de prohibir e reservar para
si a caça em qualquer ponto do reino
1
• Onde essa. de-
fesa. se referia aos javnrdos, presuppunha a existen-
cia de extensas brenhas, habitação e guarida. d'essas
e outras bestas feras. Bem escasso e precario havia
alli de ser o lavor da agricultura.
No cuminho de Constança a Montargil não se en-
contm,·a um unico povoado
3

Enta·c E'•orn e Monsaraz, de poente e leste, e de
Redondo a Porte], de norte a su1, se encerrava nm
espaço, cuja peripheria não havia de baixaa· de cento
c vinte kilometros, entremeiado de mattas e montes
coutados, no tempo de D. João I, ccpara bacoros e ba-
t Ordenaçües AffonsinatJ, Ii v. 1, tit. r.xvn: Goes, Chronica de D. Ma-
rwP.l, parte r, cap. xxv1; Cô•1es de 1498.
2 Ordenaçiks Affonllinas, liv. v, tit. XLVI.
3 ViojPB por   de Jorge de Ehingen, dei Baron Leon de Ros-
mithal, ctr., trau.lncidos por J.<'abiP, Madrid, 1879. Viajf:m de Rosmithal.

O paiz e seu estado social 79
coras, porcos e porcas montezes, fogos e armadilhas •».
Não s6 se decretava a immunidade do animal, mas das
selvas, que o abrigavam, das quaes se prevenia a des-
trniçio pelo fogo. ·
Junto de Portel, em 1414, os infantes D. Duru·te c
D. Henrique matarnm um urso de tão desconforme
grandesa, que o enviaram, para admiraçio, a seu pae,
D. Joio P.
A pro,incia da Estremadu1·a não se distanceava
muito dt\ inhospita agrura dos paramos alemtejnnos.
S6mente no anno de 1439, a requerimento do con-
celho, descoutou o regente D. Pedro no tem1o de Lis-
boa os javalis e cervos, porém «deixando as perdizes
para relevamento de nossos cuidados e enfadamen-
tos•'· Foi, porventura, mais a necessidade do favot· da
cidade, que as lastimas dos municipes, representando
as suas la,·oiras, o seu piio e o de suas mulheres e fi-
lhos, destruidas por animaes seh·ngcns, que o demove-
ram a fazer aquella concessão.
Mas, na maxima parte da provincia, as Ordenações
AfFonsinas manteem a defesa da caça para os javalis.
Podiam forragear á vontu.de dentro do ci1·cuito demal'-
cado, protegidos pelo legislador contra a malevolencia
dos desventumdos agaicultores.
Desde a conftuencia do Nabão com o Zezere até
Thomar, e d'ahi, em todo o territorio comprehendido
I Orrklta9flt11   liv. r, t. LXVII, § 15.
2   CltrmaietJ de D. Joio 1, cap. um.
I Capitaloa de Lisboa em 1(89
1
Cha.neelúcria de D. A.ffOJiao V, li v. :n,
8. 87.
...., 15
MO O paiz e seu estadu social
entre a estrada de Coimbra e o mar, até ao Porto, os
porcos montezes eram legalmente coutados
1

A. protecção dos javat-d.os n'estes vastos territorios
foi caindo em desuso durante o seculo xv: as proprias
Ordenações Affonsinas já mencionam as demarcações
d'este coutamento especial, mais para memoria, do
que para cabal execução. Progressivamente a defesa
d'esta caça ficou sendo limitada áqttellas numerosas
coutadas, em que a protecção se estendia a todo o ge-
nero de veação. Como no pcrimetro dos terrenos de-
fesos se comprehendiam indistinctamente propriedades
regias e particulares, o descoutamento dos javalis si-
gnificava o adiantamento da. agricultura.
Sendo aquella. o. condição bravia do solo nas pro-
víncias de terras chans, p6de-se fazer conceito do que
seria. nas serranias e fra.guedos da. Beira e de Traz-os-
Montes. O concelho de Pinhel dirige-se a D. João I,
sollicitando licença para dar de sesmaria varios terre-
nos em torno da villa., que já foram cultivados, mas
agora estão ermos. Apezar do fogo que lhes deitam,
os matos são mui bastos, e o. elles se acolhem porcos,
ursos, e outros animaes ferozes. ccA gente é pouca, e
as a lima1ias muitas,,
1

Na viagem que o barão bohemio Leão de Rosmithal
I Ordenaçüu AffonaiRtU, liv. I
1
tit. Lnn.
2 Beira, liv. I, fl. xLvn. Este documento vem tambem transcripto no
Elucidario por Viterbo, que o tirou do cartorio de Pinhel. Tanto no li-
vro da Beira, como na copia do Elucidario, a data do diploma é de
1475. Esta data é um erro, porque a carta regia é passada cm nome
de D. Joilo, Senhor de Ceuta, portanto de 1415 a 1483. A data de 1475
seria a da conftrmaçllo por Affonso V.
........ -.
r-:1·
O paiz e seu (';Sfado social 81
de Blatna fez por Hespanha e Portugal em 1465, a
região de Traz-os-Montes é-nos representada como co·
berta de chavasc.aes e inçadn de feras, algumas das
quaes, vista a sua descripçilo, existiam apenas na ima-
ginação escandecida do viajante: lw·gamente espa-
çadas se destacavam raras culturas, e arv01·edos de
castanheiros, figueiras e amendoeiras
1

Os ursos, de que ainda no reinado de D. Fernando
não havia carencia
1
, já escaceiavam no de el-rei
D. Duarte, que, para os. preservar, dete1·minou que
quem quer qne matasse algum sem licença regia, em
qualquer parte do paiz, solvesse a multa de mil libras
3

A prohibiçilo levava em mira o conservar uma fera di-
gna do nobre e aventm·oso passatempo da fidalguia.
Elle mesmo, em um elos seus escriptos, doutrinava o
cavalleiro, como se deveria haver com destreza e segu-
rança na montaria do urso
4

A sollicitude pela pt·eservaçào dos ursos não accres-
centa lustre no renome do rei eloquente. É um sym-
ptoma de quanto a reacção fidalga lhe tinha já riscado
da memoria a origem da dynastia, fundada pelo
mestre de A viz, e o facto historico de fJUe fOra princi-
palmente o povo, e não os nobres monteadores de ur-
I Cit. Viaje"' de Jorge Ehingco, del Baron J,eon de Roamithal, etc.
J •E porque o certificaram que em terra da Beira e por Riba de
Côa havia bons montes de unos e porcos em grande abundancia• : Fer-
nlo Lopea, C/af"ORica de D. Femando, c. 99.
3 OrdmaçüeB AffouintU, liv. I, tit. uvn, § 18.
t Livro da Ef1Bitaaf1911 tle bem oaualgar toda a .eUa, parte v, cap. XI.
No seculo nu, ainda no Gerez ae criavam unos; Frei Luiz de Sousa,
Vida do ÃrcebiBpO, Jiv. m, c. 20.
G
I
82 O paiz e seu esfooo social
aos, quem havia elevado seu pai ao throno, disputado
por Castella em guerra sanguinolenta e diuturna.
Aos não estendia o rei a mesma benevolencia;
pelo contrario mandava dar uma recompensa a quem
os matasse
1
• Eram tão numerosas as alcateias que até
nas costas do mar os concelhos se viam ob1·igado1 a
fazer-lhes montaria todos os sabbados
1

As aguias depredavam os armentios. Os bésteiros
do conto a lei obrigava a entregar cada anno, nos
meses de maio e junho, ás justiças e almoxa1·ües um
certo numero de garras d'estas aves damnosas
3
• Dava
um cUlioso espectaculo vêl-as adejar sob1·e as lezírias
do Tejo, libradas nas suas poderosas azas, e nio longe
o torvo abutre, de aspecto mais ferino, e mais tardo
no vôo, em pesquisa de presa'· rrambem ahi, bem como
no Alemtejo e na comnrca de Coimbra, frequentavam
os falcões e açores
11

A presença d'estas aves de rapina indica, nio me-
noa que o das feras cervaes, o agreste e despovoado
do paiz n'a.quelle seculo.
Na luta de uma populaçio escassa contra a p1·opa·
gaçlo de animaes ferozes e damninhos, a simples mon-
taria pouco aproveitava. Tomava-se necessario des-
truir os seus covis e abrigos; e recorria-se a um
I Eluciàario, •. v. LiuhadL
I Ordaap'Ja   liv. r, tit. LIJS, I 4.
3 Jbid., Jiy, 1
1
t. LIYlll, § 3'1 e tit. LXIX, ft 19.
4 • • • • • • • • Aqailae aaper aetbere panais
Qaaereutea oealia praedam vegetantibua alia,
Valtur etc. Caltlldu 8icultl1
1
cit.
5 Livro doe Erárat, fi. 112.
I
·i
_j
,...WC•··
.• .
O paiz e seu estado social 88
agente temeroso, que devastava com effeito 01 cha-
vucaes e as balsas, guaridas das feras, mas ao mesmo
tempo anniquilava o arvoredo silvestre, a criação de
longos annos, indispensavel á hygiene, á. agr·icultura,
aos usos fabris e domesticos.
Durante o seculo xv, e a primeira metade do se-
colo XVI, o fogo acabou por denudar o territorio por-
tuguez da sua vegetação florestal. Á medida que a
população cr·escia, e com ella a agricultura, e sobre
tudo a industria pastoral, não se apagava o facho in-
cendiaria. O territorio era tão vasto para o diminuto
numero dos habitantes, que o fogo se lançava..sem o
menor esc1·upulo, não só para a renovação dos pastos,
mas até como o meio mais singelo de fazer carvlo, e
até para n apanha dos coelhos, que morriam queima-
dos •. Durante o seculo xv nenhuma lei geral havia,
que regulasse o modo das queimadas: sómente al-
gumas provis<>es especiaes, como aquella de que
fizemos menção, relativa aos terrenos marginaes do
Mondego, e que evidentemente nunca se cumpriu.
Uma ordenaçito particular defendia contra o fogo as
matas reaes do termo de Santarem
1
• Por instancias
dos ver·eadores e homens bons de Pahnella, D. João II,
attendendo aos estragos que padeciam as colmeias,
e como as abelhas eram privadas do seu pascigo pelos
grandes fogos, que n'aquelle concelho ateiavam car-
t Capitulo& de Olivença em 1488, Ohanctl.laria de D. João II, Ii v. :u:vu,
fi. 12; Odiana, liv. vu fi. 188; Orclenaçõe• Mtmuelinfll, liv. v, tit. LJ:DIIJ.
J E.tremadura, liv. m, fi. 69: I,ãvro wrmtl.Ao de Ãff0'1180 V, n.o 39
1
nos lnedito. da Academia, tomo m.
,.
I
i:
-
84 O paiz e seu estado social
voeiros e caçadores, determinou que aos primeiros
não fosse licito arranCAr a cepa tostada nos dois
annos seguintes ao dia em que o fogo fosse posto; e
que qualquer coelheiro, que caçasse em hucha (quei-
mada) nos primeiros cinco dias, pa.gasse cincoenta
reaes •. Estas comminações, com alguma modi:ficaçio,
passaram para o codigo manuelino, que primeiro es-
tabeleceu lei geral para todo o reino sobre o lança-
mento dos fogos
1
: mas é de advertir que n'esse codigo
nenhum castigo é imposto ao accendedor do fogo,
quando d'este não resulte prejuízo para nenhuma pro·
priedade.
Apezar do fogo, como a população era muito rara,
o paiz não offea·ecia á vista, na segllnda metade tlo
seculo xv, aquelle &llpecto escalvado, em que hoje o
sol lhe tinge a paisagem de um fulgor esbra.zeado e
uniforme. Os a.Icantis, algares e q ueba·adas das altas
serranias defendiam o seu arvoredo alpestre contra a
destruição do fogo. Ahi encontravam aoolheita veados
e feras. Pat·a os desbastarem no concelho da Louzã,
cada anno, desde o primeiro sabbado depois da Pas-
choa até ao dia de S. João, eram os visinhos, por tur-
nos, obrigados a correr monte
3
• A serra da Estrella
coroava-se de matas, valhacouto de javalis, que des-
ciam á Covilhã, S. Vicente e Castello Novo, onde os
matavam com béstas e armadilhas. Este modo de pro-
ceder, contrario ás leis da cynegetica que então voga-
t Odiaaa, Jiy. vu, fl. 188.
a   r d ~ • Manueliruu, Jiv. v, tit. Luxur.
3 Eetremadura, liv. v, fl. 97.

  .
'
-O paiz e seu estado social 85
vam, era objecto de escandalo e indignação para
D. Affonso V. No anno anterior ao da sua morte, com·
quanto alquebrado de desgostos pelos males que a sua
politica externa arrojára sobre o paiz, expedia elle a
carta regia de 20 de abril de 1480, pela qual coutava
essas matas e os javalis, infligindo aos que os matas-
sem por aq uella f6rma uma pena de mil reaes, pagos
da cadeia, com perda da bésta e da armadilha; mas
nilo prohibia que os matassem á lei da montaria. De-
fendia tambem n'essa provisão que não se apanhaBSem
os açores na serra senão depois do S. Joio
1

Affonso V foi, durante todo o seu reinado, severo
mantenedor das praxes da correcta montaria. «Somos
certificados,- estranhava elle n'llma carta 1·egia de
1466,- de que nas comarcas de entre Douro e Minho
e de Traz-os-Montes todo o homem soltamente mata os
porcos e outra veação com armadilhus, cepos e
como lhe praz, em tal devassidade, que assim n6s, como
outras pessoas, que, para seu desenfadamento, quize-
rem andar a monte ordenado, os não acham, nem os
ha na terra, como soia de ser,,. Pelo que, attendendo
a que a caça é um nobre exercicio e grande recreio
para o rei e grandes do reino, e provê á necessidade
do mantimento commum, ordena· que se não matem
nas terras da corôa, nem nas dos fidalgos, porcos nem
outra veaçilo com armadilhas, nem béstas, mas só-
mente a cavallo ou a pé, «ás lanças e com cães,,
1
• Este
mandado demonstra a nllo existencia, por e88e tempo,
t Beira, liv. 1, ft. 91.
z Alem Douro, Iiv. 1v, fl. 60.
86
O paiz e seu estado socü:U
de tenenos coutados para a caça dos javalis nas duas
provincias de Alem Douro: e a dest1·uição d'estes ani-
maes indica o progressivo arroteamento do solo pelo
lavrador, a quem importava a conservaçilo da sua co-
lheita, e não a observancia dos preceitos nobiliarios da
arte venatoria, que s6mente permittiam esta caça com
lança e matilha. D. Affonso V, lamentando a escassez
de javalis em Alem Douro, que o privava a elle e aos
fidalgos do seu recreio, symbolisa a transformação que
se operava no 1·egimen politico. A supremacia da força
muscular decrescia, e raiava o advento dos lettrados,
dos humanistas, dos estadistas artificiosos, todos elles
gente de habitos sedentarios.
Era o ardor pelo fragueiro exercício da caça, que
mantinha no reino a salvo do fogo um grande numero
de matas.
No Algarve a pittoresca serra de Monchique ainda
hoje conserva os seus frondosos bosques. Mas, a seu
lado e sobranceiro, o cabeço de Foia, que D. João II
doou ao povo para logradouro commum, em breve foi
despojado do arvoredo. As queimadas destruíram até
aos ultimos vestigios dos primitivos sovereiros e azi-
nheiras
1
• Ahi, e seguidamente pela serra do Cereal
attS Grandola, vegetam a esteva, a urze, o samouco, o
medronheiro, que renascem pe1iodicamente dos brazi-
dos do incendio.
No Alemtejo continuou subsistindo até ao tempo de
D. Manuel um g1·ande numero de coutadas e matas, de
que se dist.inguiam, entre as principaes, as de   i ~ v o r a
l Baptista Lopes, Ch?f'Ograplzia do Algarve, cap. v, § ló.
1
O paiz e seu estado social 87
e de Montem6r-o-Novo
1
• A serra da. Arrabida conser-
vou até ao tempo de el-rei D. José o seu arvoredo de
sovereiros e zambujeh·os
1
• Mas n'aquella vasta provín-
cia, onde estanceava uma rareada populaçio, já. no
seculo xv alguns concelhos experimentavam detri-
mento pela falta de madeira para o lavor agt·icola. É
que a imprevidencia alastrava sem piedade as cham·
mas por todos os baldios. Anteriormente
3
fizemos men-
çio de como o concelho de Borba padecia por esta
carencia para os seus vinhedos. Tambem o concelho de
Elvaa, nas cô1·tes de 1498, se magoava de que a terra
estivesse tilo destruída de matas, que aos lavradores
faltassem madeiras para os apeiros, nem se achasse
onde fazer carvão
4

Em 1451 os paços de Cintl·a pousavam entre po-
mares, matas de pinheiros e um grande castanhal. Por
toda a serra se expandia a espeBBura do arvoredo,
abrigo de toda a casta de veaçio, reservada exclusi-
vamente ao passatempo da realeza. Para o mesmo fim
eram as perdizes coutadas em todo o concelho. D. Af-
foneo V permittiu aos habitantes da villa que cortas-
sem lenha para o lume nas matas da serra, comtanto
que nio tocassem em castanheiro, nem sovereiro, nem
arvore de fructo
11
• Anteriormente D. Joio I os havia
1 Otlitma, liv. 1
1
fi. 100.
I   da Academia, tomo m
1
•Deaeripçlo econo-
mica da comarca de Sctubal•.
3 Capitulo 1.
' Viseonde de Santarem, Memorial para IJ Hilturi11 da. C6rtu,
parte I, Additamentoa.
5 Estremculura, liv. u, fi. 274.
88 O paiz e seu. estado social
auctorisado a matarem quaeàquer javalis ou veados
que encontrassem em suas propriedades, mas nunca
na serra ou em qualquer outro sitio. Os coelhos, porém,
.havia licença de os destruir onde quer que se achas-
aem; não se julgava, pois, que as utilidades d'este
animal contrapesassem os seus damnos á. agricultura.
Nilo succedia assim no meiado do seculo nn, em que
se protegia a sua multiplicação pela defesa de os ma-
tar na primavera e parte do estio
1
; sem duvida para
o effeito da alimentação, e por que a pelle servia á
feitura de vestuarios ', bem como a de differentes ani •
maes, gatos, raposas, fuinhas, cordeiros, cabritos, cor-
ças, e outros. A serra, ainda em 1462: era infestada
de alcateias de lobos, para cuja destruição se aperce-
biam frequentes montarias
3

As matas de Alverca e seu termo, as de Alhandt·a,
de Villa Franca de Xira, nas quaes fruiam os visinhos
p•·ivilegio de cortar madeir8s8 para caibros e para ra-
biças dos arados, e as de Santarem, encontram-se
mencionadas em documentos de 1470 '·
A real estancia de Almeirim tinha por coutada para
toda a veação um dilatado circuito, que o Tejo limi-
tava ao nordeste e sudoeste: a estrema oriental pro-
longava-se, desde uma linha tirada do paul de Atella
t «Et mando et defendo fir•niter quod nullus couehuius de toto meo
.regno sit aosus mactare couilios de die cineris usque ad diem Sancta
Maria de Augusto.• Lei de Alfonso III, de 21J de dezembro de J2ó3,
em Portugaliae Monumenta HiBtorica.
z «Et vestido de conilio de aasom valeat octoginta solidos», etc. Jbid.
3 E11tremad1mJ, liv. 1, ft. 191.
4 EBlremad,ra, li v. r, ft. 79; li v. vm, fts. 6, 22 e 55.
r··
O paiz e seu 68tado social 89
até Chouto, a. Lamarosa. e Coruche, onde encontrava
o linde meridional, que ia fenecer em Salvatel-ra de
Magos. No paul de Magos os ma.rtinetes e outras aves
forneciam desporto de caça com falcões
1

Sobre os oliva.es de Alemquer, e. sobre uma larga
orla de te1·reno entre essa villa e Otta, pesava o en-
cargo de constituirem uma coutada real
1
• Em Otta.
possuia a co1·ôa uma grande mata, onde permittia aos
frades de S. Francisco de Alemquer, que se abaste-
cessem de lenha
1

Nos concelhos de Obidos e de Athouguia, e na pe-
ninsula de Peniche, grande numero de bosques davam
acolheita aos cervos, javardos, coelhos, e outra vea.çio.
Cysnes selvagens habitavam e.criavam nas lagoas
4

As matas das cercanias de Abrantes estavam a
cargo de cinco monteiros, de que, em 1460, acamara
da villa pedia a reducção a dois
11

Entre Ourem e Torres Novas protrnhiam-se, em
1459, estensos montados, que forneciam com larguesa
madeil'as a esses concelhos
6
• No alfoz d'este ultimo as
selvas, que revestiam o cabeço e pendores da sel'l'& de ·
Aire e o vale de Boquilobo, propriedades do rei, acoi-
tavam javalis e veados, destinados para seu entrete-
nimento na montaria
7
• Mas, como vimos antecedente-
' Liuro 'I1Ufllelho de D.   V, cit. n.•• 89 e 43.
2 C1t. Livro vermt.lho, n.•
3 E.tremad?lra, liv. m, ft. 268.
• Ci&. Livro vermell&o, n.•
5 &tremadura, liv, v, ft. 185.
6 OhiJIIcellaria de D. V, liv. zuv1
1
ft. 146.
7 }Ãtremadura, liv. x, fi. 288.
90 0 paiz 6 16'U estado 10cial
mente, nos fina do seculo estava de todo extincta a
vea.çã.o n'estes bosques.
No termo de Leiria, alem do celebre pinhal de
D. Diniz, se enumeram, em 1450, outru muitas
matas, em algumas das qua.es os habitantes da villa
gozavam da pre1•ogativa. de cortar lenha. 'fanto ahi
pullulavam os cervos, que havia liberdade de os matar,
comtanto que nlo fosse nas proprias devesas, ou ao
redor d'ellas
1

Na mata de Botlo, no termo de Coimbra, havia. o
mosteiro de Santa Cruz, em 1458, licença pa1·a fazer
provisão de lenha \"ea·de e secca em arvores taes como
aderno, louro, medronho e urzes, com exclnslo dae
arvores de f1·ucto de lap.de, necessaria.s para o sustento
dos animaes de veaçio '·Quando á oonveniencia dos
conegos 1·egrantes se antepunha a fartura dos javalis,
nito era de esperar que a commodidade d'estes fosse
sam·ificada. em vantagem dos moradores de Coimbra.
Nas côa·tes de 1490, em capitnlos espeoiaes, faziam
os procua·adores d'essa cidade cargo ao monteia·o da
mata, de que lhes não consentia fazerem ali espera
aos pombos bravos por occasião da sua passagem.
D. Joiio II concedeu-lhes que requeressem ao mon-
teil·o, lhes   local, onde podessem fazer a sua
caça, mas fóra das moutas onde se acolhe a veação,
de sorte que nem fizessem damno a esta, nem cami-
nhos por onde fosse pe1-turba.da
3

t E1trenaatlura, liv. vm, fi. 276.
z Elltrematlura, liv. 1v, fl. 270.
3 Chancellaria tle D. JoiJo 11, Ii v. xm
1
ft. 127; vide os Documtnto•
iUU1trativ01.
'·' .• >'ft
. .
O paiz e seu estadO social 91
Entre Montem6r-o-Velho e Buarcos a oorôa posauia
eztensos tratos de terreno arborisado. Os habitantes
de Buaroos disfructavam o privilegio de tirarem d'ali
pranchas e vigamento para fabrico de embarcações, e
cortiça para encortiçarem u redes
1

Uma enorme coutada, existente em 14:88, abrangia
as gandaras, que rodeavam a villa de Aveiro, conti-
nuava d'ahi até junto de Agueda, na largura de uma
legua, at•·aveesava para a lagoa de Mira, e prolon-
gava-se até ao rio Mondego. N'essa coutada nutriam-se,
e eram defesos, veados, corças e outra caça grossa.
A pesca na propria lagoa, onde abundavam trutas e
negrões, pertencia ao dominio realengo
1

Nas vastas matai reaes, que ensombravam a teiTB
de Santa Maria, hoje o concelho da Feira, se provia a
villa de Aveiro, por concessão regia, de para
a conatruoção dos seus navios
3

O numero de vinte e cinco   que, em 1484,
regiam a montaria da serra de Cabril, um conta·aforte
do Gerez, denota a sua grande amplidão'· Não menos
vasta haveria de ser a da serra de Soajo
5
• Assim
pois, quando D. Affonso V se queixava, como acima
narramos, de que, nas províncias do norte, escassea-
vam os cerdos, e que por isso ia em decahimento
o nobre exercicio da montaria, bem se lhe podéra re-
vidar, que o fouem elle e os fidalgos procurar nos
I &tremadura, lh·. 12, fi. 52.
2 &tremadura, liv. 6
1
fl. 277. Livro vermelho, cit. n.
0
41.
3 Eltremadura, liv. 3
1
fl. 214: e 217.
4 Alem Douro, liv. 8
1
fi. 150.
& Alem Douro, liv. 1, fi. 194:.
92 O paiz e seu estado social
inhospitos desvios d'estas serras; onde, por dever do
officio, os monteiros, examinados e encartados pelo
monteiro-mór, estariam sempre promptos a entoar o
alarido das suas buzinas, armados de ascumas e com
matilha de sabujos
1
, segundo a f6rma unica, que elle
julgava correcta para o perseguimento e combate cy-
negeticn.
Similhante objurgatoria nunca as proprias cOrtes,
quanto menos qualquer mofino concelho, se lembra-
riam de contextuar em seus capitulos. Não podiam
pensar como n6s, domesticados e embrandecidos que
somos pelas policias e conchf!gos da civilisação, para
quem a continuação do exercio violento desbarata as
forças e a vida. Para os homens da meia idade, sobre-
excitados de estimulos e vigor muscular, impacientes
da vida sedentaria, para a classe isempta do trabalho
corporal, para o rei e para os nobres, a venação não
constituia uma recreaçno rara e eventua1, mas um des-
gaste uecessario e quotidiano do excesso de energia
physica, a qual não era conb·apesada pelo esforço da
applicaçllo mental. Por isso nas terras da corôa per-
tencentes aos fidalgos, e até nos coutos dos mosteiros
benedictinos e cistercienses, se encravava uma região
selvatica, que rodeava a casa de habitação. O mosteiro
de Alcobaça era cercado de espessos bosques, onde se
criavam animaes de montaria'· O mosteiro de S. Pedro
das Aguias, nas margens do Tavora, jazia no meio de
uma floresta, com igual criação: no começo do seculo
t ..4lem Douro, liv. 1, ti. 194.
2 &trematlura, liv. 6, ti. 222.
r··· ...... ---
O pau e seu estado social 93
XVI os. frades obtiveram de U. Manuel que aquella
fôsse coutada no ambito de duas leg;tas
1

A:ffonso V e JoAo TI fôram os ultimos reis d'esta
raça de fragueiros monteadores, assim como fôram,
na successão dos tempos, os ultimos representantes da
realeza medieval. Da paixiio de Aft'onso V já acima
apontá-mos alguns exemplos. O seu filho, se bem qne
debil de saude, não era addicto ás agruras e
enlevos d'este exercício. Em longas digressões pelo
paiz, d'elle e de sua côrte, o despacho dos negocios
governativos procedia a pa1· das cavalgadas t'enato-
rias. Em 1483, partindo de Abrantes, vagueou pelas
provinoias da Beira, de Traz-os· .Montes e do Minho,
veio ao Porto, e d'ahi seguiu para Aveiro e Santarem,
entremeiando as caçadas reaes com a decisão dos ne-
gocios 1·elativos ao reparo das fortalezas e á adminis-
tração da justiça'·
D. Manuel, satisfazendo ao reque1imento das côl"les
de   os Philippes, que continuaram o descouta-
mento, as côrtes constituintes de 1821, que aboliram
as ultimas coutadas abertas, ainda existentes, nenhu-
mas providencias adoptaram para a conservação das
matas da corôa, e entregaram sem discernimento o seu
at-voredo ao machado, ao fogo, ao barbaro desperdicio
da imprevidencia
3
• O intuito era louvavel, maa con-
t Ãlem Douro, liv. õ, fL 9.
:a Beaende, Vida de D. Jollo II, c.
s Goea, Chronica de D. Manoel, parte I, C!ap. :r.xvi: 81JfW11#1Ü cAronolo-
gictJ, tomo u, pag. 266 e 287; Caetro, MaP.fHJ de Port.ugal, tomo I, parte u,
cap. :r.u; Decreto de 8 de fevereiro de 1821
1
Diario dai C6rif!• de 1821,
pag. 66; lbitl., pag. 1918.
94 O paiz e 1eu e&tado IOCial
traproducente. A ag•·icultura padeceu : o solo ia.so
tomando a mais e maia arido e infecundo, pela falta.
da humidade e que lhe grangeavam as flo-
restas. E os desastrosos effeitos avultavam já senai-
velmente nos fins do seculo xv, viato como fôram
compellidoa os lavradores á plantação de arvores,
providencia depois muitas vezea renovada, mas de que
elles aempre se e:xin1iram
1
: e, pusaclo o meiado do
seculo xv1, se reconhecia a necessidade de promover,
por preceitos legislativos, a plantaçil.o silvestre nol!l
montes e baldios do reino
1

Contra n. eapontanea do solo, valhacouto
de animaes malefioos, o homem do seculo xv soltava,
dcacuidoso do futuro, a fnria do incendio.
D'esae tet'l'euo, que elleo auim eacalvava, apenas con-
vertia uma exigua porção em tena fructifera. Por
entre as serranias e charnecas, cobertas de urze e de
tojo, ali onde aa povoaç6es tinham feito o seu assento,
se divisava um ambito de terra lavradia, maior ou
menur, segundo a grandes& da cidade, da villa ou da
aldeia. Para se estimar quanto era apoucada a porção
do tcneno grangeiado,   considerar que a popu-
laçio el'a, noa fins do seculo .xv, menos da quarta. parte
da actual. Esta con11ideraçil.o, porém, não fornece uma
medida exacta; porque o trabalho de quatro seculos,·
t Alvará de 18 de dezembro de 1499
1
relevando da pena em qae ti·
nham incorrido os rnoradores do reiao por nio terem plantado arvores :
J. P. Ribeiro, Dú«rtGpJe. claronologiotu e trrlltcal, tomo v, p. 819, e
AdditameDtol '8popiÜ p. 166.
' Alnr' de 8 de outabro de 1666 em Leio, Lei•       parte
1v, tit. xvn
1
lel 22.

I
?IV-.41•-.
O paú e seu estado 1ocial 95
01 recunos crescentes da civilisação e tia sciencia, o
enormemente maior cúmulo de riqueza, o comruercio
de exportaçlo, o decrescimento das classes improdu-
ctivas, devem ter augmentado avultadamente a pro-
porção entre a cultura e os habitantes. Por outro lado
ba que tomar em conta que, entlo, a agricultura in-
terna havia de prover ao ~ u s t   n t o de todo o paiz, e a
todos os gastos da vida publica e particular; e, pelo
muito que se avantajava na importancia productiva ao
trabalho da industria caseira e do commercio rudi·
mentar, havia de occupar um numero, relativamente
muito mais crescido, de braços do que em nossos dias.
lias estas causas nilo contrapesam o immenso incre·
menlo da riqueza e da exportaçilo
1
; e podemos segu-
ramente affirmar que a area do solo arroteado no
seculo xv era inferior á quarta parte da presentemente
cultivada.
Hoje em dia a densidade da populaçio no Alemtejo,
a nossa. provincia mais enna, é pouco menos de desas-
seis habitantes por kilometro quad•·ado
1
: no fim do
seculo :xv a densidade da população em todo o paiz
era inferior a esta, não chegava a treze. Naturalmente
a densidade variava nas differentes regi5ea, como se
deduz do numero de visinhos, que, segundo no capi·
tulo antecedente exposemos, o arrolamento de 1525
attribue ás dift'erentes comarcas: maa, para se fallel'
ideia do aspecto inculto que o paiz em geral offerecia,
t Veja-se adeiUlte, DO capitalo v, a comparaçlo entre o rendimento
da alfandega de Lisboa noa fina do aeealo n e o actual.
2 lõ,9: Cenao de 1890, Belatorio
1
pag. õõ.
\
96 O paiz e seu estado social
bastará olhar para o Alemtejo, e reflectir que a pro-
porção de terreno bravio era, ha quatJ·o seculos, em
todo o reino, ainda maior que o é hoje nas solidões
d'aquella província.
. A população aggremia va-se em cidades, villas e al-
deias, sendo ra1·issimas as habitações ou casaes, dis-
tantes d'estes centros •. Um ambito cultivado circum-
dava as povoações, e fornecia a subsistencia de seus
moradores : toda a demais região intermedia era um
deserto. cAldeias e desertos» é como Ruy de Pina
figura o paiz em contraste com Lisboa'·
Os caminhos discorriam por cavoucos e fragosida-
des; mas o transito inevitavel para grande parte dos
habitantes, não só pelas necessidades do trafl'go, mas
pelas exigencias da justiça e da administração. Não
havia em cada província senão um col'regedor, que
vagueava pelas terras; ao qual deviam acudir todas
as pal'tes involvidas nos pleitos, que elle ia espaçada-
mente resolvendo. O mesmo succedia nos casos de
appellação para os tribunaes da côrte, que acompa-
nhavnm o rei nas suas continuas deambulações. As
circumscripções dos almoxarifados alcançavam largo
perímetro, e o povo havia de a.ccorrer á séde dos jui-
zes :fiscaes e almoxarifes para o despacho dos seus
requerimentos. E todos estes funccionarios tinham em
leve conta o descommodo dos seus jurisdiccionados.
l E aaaim ee dava ainda no fim do eeculo eeguinte. Vide Vitlgem de
Tron e Lippomani, em Herculano, OpucrUo., vr.
J CAronica de D. Duarte, c. 1 .

..... -..
,.-:-.- ..........
. i
O paiz e seu utado social 97
Nas cOrtes de 1459 o concelho de Villa Real solli-
citava do rei que puzesse cobro ao abuso do cOI·rege-
dor, que escolhia o ensejo, em que u. correiçio andava
muito longe, para enviar dois inquiridores e um escri-
vio a fazer as averiguações necessarias   r ~ a decisão
dos processos; o que bem poderia ser posto por obru.
pelos juizes e tabelliiett da villa. Cada um dos tres en-
viados judiciaes ganhava quarenta reaes por dia, de
sorte que essa despeza e a da escripta podiam, por
fim, avultar a quatro e a cinco mil reaes; que, em
caso crime e quando o preso nio tinha bens, carrega-
vam sobre o concelho. Tambem acamara capitulava
o contador, de que abandonára a cabeça do almoxa·
rifado pa1-a ir vive1· na villa de Chaves, «que é no
cabo do reino», onde o haviam de procurar os inte·
ressados para· prestar contas ou reque1·er dos seus
aggravos t. Os moradores de Chaves, nas cOrtes de
1498, malsinavam os rendeiros das alfandegas da raia,
que os compelliam a caminho de vinte e de vinte e
cinco leguas, para comparecerem perante a auctori-
dade fiscal, e darem conta do panno que traziam ves-
tido, e, ao cabo, lá os entJ·etinham alguns meses, e
lhes faziam pagar o que bem lhes parecia
1

Estes factos, que é impossivel comprehender senilo
como raros e occasionaes, estio revelando nas suas
circumstancias, quanto devia ser despovoado e safaro
o paiz, em que occurriam.
I CAanctll4ria de D. Aff&r180 V, liv. 86, B.. lõl.
J Alem Duuro, liv. 1, fi.. 18.
""'
,,
:«oi,
98
Na mais populosa província, a de Entre Douro e
Minho, as estradas do Porto a Braga, e do Porto a
Guimarães, haviam de ser as mais trilhadas do paiz.
Em todo o seculo :xv não houve em cada uma d'ellas
mais que uma s6 taverna, para dar hospedagem aos
viandantes. E a vida do estalajadeiro nlo discorria
bonançosa, senio muito em tormentos e alvoroços.
Por extorséJes dos rendeiros da sisa, e por desaforos
de outras pessoas, que, segundo costume, haviam de
ser os fidalgos, a venda da Trofa, na estrada de Braga,
teve de fechar. Então A:ffonso V, para a restabelecer
em 1462, concedeu ao proprietario a isempçlo de
todos os encargos publicos e concelhios, e a avença
da sisa. por quatrocentos rea.es annua.lmente, para
tudo qunnto comprasse e vendesse, comtanto que nlo
f'Osse senão pão, vinho, carne, pescado, cevada, e
outros generos proprios de uma estalagem. Esta mercê
foi confim1a.da por D. Manuel em 1499
1
• Na estrada
do Porto a Guimarães a avença feita com o tave1·neiro,
em 1467, foi de trezentos reaes
1

Se, como esses vendeiros, algum lavrador, mais
affoito, assentava vivenda, ou grangeava herdades, a
distancia da séde das auctoridades locaes, fazia-o com
seu proprio risco, porque d'estas nenhuma protecção
tinha que esperar. É o que succedia ao presidente da
Casa de Supplicação em 1462, como 1·elata a carta
regia de 8 de abril d'esse anno, cuja substancia é a
• Alem Douro, liv. 1, fi. 94.
2 Alem Dourn, liv. 8, fi. 288.
O paia e seu utado social 99
oeguinte: «0 presidente conde palatino
1
nos informa
de ter no termo da Santarem, onde chamam Barri-
falcão, uma quinta no meio de uma charneca, da ex-
tensão de meia legua para todos os lados (de meia
legua de raio), na qual não ha agua, nem verdura. Os
gados e outros animaes, qne pastam na dieta char-
neca, fazem muito damno no ta·igo, oliveiras, vinhas e
hortas da quinta, de sorte que não póde elle achar
lavradores, e os que ora abi tem, se querem ir em-
bora: a herdade, antes de ser sua, esteve por vezes
abandonada quinze e vinte annos. O presidente re-
quer que lhe dêmos licença para elle lançar uma
coima. Mandámos saber a San tarem, se n 'aquelle lo--
gar a camara estabelecera coimas, responderam-nos
que não, mas que os damnos de visinho a visinho (do
concelho) se satisfaziam por estimativa. Portanto orde-
namos, que o referido presidente possa na sua quinta
exigir coimas iguaes ás impostas pelo concelho, alem
da indemnisaçilo do damno por verdadeira estima-
tiva; e da importancia d'essas coimas lhe fazemos doa-
ção• '·
O povoado não só oft'erecia maiores garantias de
respeito á propriedade, mas tam bem de segurança ao
proprietario. Cada qual ta·azia a vida pendente do seu
punhal, adaga ou espada; que estas eram as armas
I Ruy Gome• de Alvanmga, pre1idente da C11a de SupplicaçAo, conde
palatino, como ae lê na carta regia de 29 de Junho de 1452 em J. P.
Ribeiro, Additamento• i 8ynt)JMi8 clmmologica: coruk palati110 era Ull'
titulo dado pelo imperador doa romaao•, ou por 1eu1 vlgari01.
1
E•trtmaadura, liv. 8, fi, 74.
100
O paiz e seu estado Bocial
licitas e de bom nome
1
; trazer o proprio cle-
rigo, que, de manhã cedo, safa de casa para ir á. Sé
resnr as matinas. Mas ao caminhante, mesmo á.quelle
que apenas safa da povoação para visitar suas herda-
des, todas as armas eram permittidas, taes como a
bésta, a pella de chumbo, de ferro, ou pedra
1
; isto é
aquellas armas, que podiam ferir a distancia, havidas
por traiçoeiras, e s6mente legitimas na defesa. Em
outro conceito se tinham as que feriam em travação
de frente a frente. A espada não se torná.ra ainda no
seculo xv o appendice ordinario do trajo cortezão,
considerava-se uma parte da armadura de guerra: se
bem que, na paz, o seu uso fosse frequente como ins-
trumento de defesa ou aggressão. Mas o punhal era
trazido por todos, até pelos mancebos; foi, no seculo
seguinte, substituído pela adaga
3
• O homem do povo
tinha tambem as suas armas. O lavrador do Minho
levava para os campos dois dardos, presos a cor·
reias
4
: o transtagano trazia sempre comsigo uma lança
comprida, sobretudo quando andava a ca.vallo
5
• Até
mesmo aos mosteiros e paços episcopaes não faltava
s Ordmagi'Ju Ã.ffominaiJ, li v. 1, tit. xxx1: Ordetaaçüe• Manuelina•,
Jiv. 1
1
tit. LVII.
2 Ãfoui'tlal, li v. ó, tit. L.U'I': Ordmaçõu Manutliruw,
Jiv. 1
1
tit. LVII.
3 Pugiouum u&us Hispaniae autiquia&imae, qui me puero in magno
bonore viris adhuc erat, paulatim deiluzit ad aiccaa, qaibu& etiam
impuberea ••• armantar: André de Re&eude, Ãntíquitalt• Luntaniae
Jib. I.
4 Biua ferente& jacula, et qaidem amentata. Ibid.
5 lbidem: OrdmaljÕu Manuelina•, liv. 1, tit. Ltv, I 4.•
 
*'" :.   -- .. -
I '
O paiz e seu estado social 101
o seu arsenal bellioo, bem provido de todo o genero
de armas de guerra
1

Lancemos agora a vista por essas povoações, onde
se concentrava a vida social nos ultimos annos do
seculo xv.
As cidades, villas e aldeias, entito existentes, per-
sistem em nossos dias. Em algumas tem va1·iado a sua
importancia relativa, mas, na maioria, conserva-se a
mesma. Tambem ha ainda hoje em Portugal muitas
povoações, que recordam, mais ou menos, as feições
do passado : -as muralhas cerca-ndo as habitações,
amont.oadas em estreitas e tortuosas ruas, e, no topo
do monte, a alcaçova com a sua torre de menagem:
sob protecção d'esta, a cathedral, ou a igreja matriz,
e oito longe os paços do concelho, em frente dos quaes
se levanta o pelourinho, symbolo e instrumento da
justiça. Mas, ainda mesmo n'essas terl'&S, onde menos
se ha feito sentir a sua influencia, tem o decurso dos
tempos operado grandes transformações.
A casa feita de pedra é sobretudo indígena dos pai-
zes romanicos ': nos paizes do norte predominava a
madeira nas construcções. Todavia sabemos que, tanto
em Portugal como em Hespanha, a madeira se usava
largamente. Eannes de Azurara
3
, memorando os be-
..
l Moateiro de 81nta Cruz em 1475, e 86 da Guarda em 1513; Codice
125 da Bibliotbeca Publica do Porto, tranacripto em Sousa Viterbo, •
Artu e artillta•, p. 802.
J Das Steiobaua hat aeine Heimath vornebmlich in den romaniachen
Laendern. Spriuger, .lluutgucl&iollle, •Mittelalter•.
I Chrotlica tia Guiné, c. 2.
•I
i
!
·i
102 O paiz e 1eu utado IOCial
neficios auferidos por Portugal das descobertas do In-
fante D. Henrique, conta. entre ellas que, com as ma-
deiras importadas das ilhas, se elevaram as casas a
grande altura. Nas cõrtes de 1459, Lamego aggra-
vava-se do fa.llecido Conde Vasco Fernandes, que
fizera grandes estragos no castello da cidade, incen-
diando casas, a ponte, a cet·ca, os paÇos do concelho,
e muita madeira que ahi havia, e de que a sua viuva
queimára o resto. Os estragos eram superiores a cem
mil reaes t. Evidentemente todas essas edificações eram,
pelo menos na maxima parte, de ta.boado. Em 1474
D. Afl'onso V mandou desfazer em Lisboa  
sacadas, arcos, e tudo o que pudesse embaraçar a ser-
vidilo publica e a passagem da procisslo do Corpo de
Deus, bem como, pela mesma razio, derribar certas
propriedades': o que tudo é indubitavel havia de ser
de madeira. De uma carta regia de D. Manuel de 1515
sabemos, que em duas ruas p1·incipaes do Porto as
casas eram do mesmo material. Os moradores das rua.a
da Ou1ivesaria. e Banhos, incommodados por quatro
ou cinco tanoeiros, que, para darem o conveniente
feitio ás suas aduellas, accendiam ahi grandes foguei-
ras, soccorret·am-se á Camara, a qual assignou aos
tanoeiros um terreiro da cidade para aquelle fim; e,
para maior segurança, requereram, em seguida, ao
rei, que confirmasse a decisão municipal, allegando
serem as ruas estreitas, que o fomo lhes estragava as
l CAancellaria de D. Ãffo'IIIO V
1
liv. 86, fi. 194.
z Lei de 12 de setembro de 1474 em J. P. Ribeiro, Additamotos A
8yntJP8i• Chronologica.
- j
o paiz 6 seu eatado social 103
moradas, as quaes tambem corriam grande perigo
«por serem de taboado». O rei deferiu
1
• O proprio
tecto do cruzeiro da Sé da mesma cidade era de ma-
deira, e nlo foi tomado em abobada de pedraria senão
no terceiro quartel do seculo XVI pelo bispo D. Ro-
drigo Pinheiro
1

Uma grande parte das habitações do paiz, e até de
Lisboa, eram construcções de adobes. «Os christloa
de Lisboa e de Portugal, assim como os da Galliza,
empregam, segundo o estylo dos infieis, muito o barro
nas suas edificações
3
». O mesmo acontecia em todo o
resto da Hcspa.nha '.
Na Chorographia da viagem, que Gaspar Barreiros
fez em 1536 de Badajoz a Millo, encontram-se muitas
observações sobre as cidades estrangeiras, das quaes,
por comparaçlo, se p6de concluir para o que existia.
em Portugal
11
• Madrid, segundo a relação do viajante,
é a metade de Lisboa; as casas são ali pela maior
parte de taipa; de taipa são tambem as muralhas, com
alicerces de pedernal. Saragoça tem boas casas de
tijollo; as muralhas são de taipa. Barcelona contém
boas casas de pedra e cal, publicas e particulares :
euas, que silo de pedra, slo as melhores que cidade
alguma tenha em Hespanha. 86 quando elle entrou
I Alem Douro, 1. li, fl. 28.
2 D. Rodrigo da Cunha, Cat.alogo do• BiBpoB do Porto, parte u, c. 36.
3
Yiaju de Eztranjer,. por .Espafta 11 Portugal_ en z, • Bigl01 xv, xv1 _
11 xvn, traducidoa por F. R., CoUeccion de Jatoier de Liike. Madrid, 1878.
Nicolas de Popielovo, em 1484.
' Guicciardioi, adeante citado.
5 Gaspar Barreiros, Chorograp'4ia., Coimbra, ló61.
. , ..
'.  
104 O paiz e seu 61tado social
no Languedoc, é que encontrou casas particulares de
cantaria lavrada. «Na architectura das casas .Barce-
lona não tem vantagem a :MontpeJiier, as qnaes silo de
canta1ia lavrada com janellas e vidraças, que por a
mór parte d'esta terra de Languedoc se costumam
1
,, •
·crAvignon tem muito boas casas de cantaria lavrada,
com janellas de vidraças, que muito costumam em
toda. esta terra
1
,,, Evidentemente, pela maravilha que
lhe causam, as janellas com vidraças eram muito ra-
ras em Portugal: nem eram communs no resto da
Europa, porque Aeneas Silvius apresenta a sua fre.
quencia como uma amostra da magnificencia de
Vienna de Austria
3
• ccCarpentras tem boas cuas de
pedra e cal
4
». Tambem esta insistencia sobre a parti-
cularidade de casas de pedra e cal dá a entender, que
não eram ellas, ainda no reinado de D. João III, abun-
dantes no nosso paiz. Não o eram com certeza no
seculo xv, a julgar por um artigo dos capit.ulos espe-
ciaes de CastelJo Rodrigo nas cOrtes de 144 7. Esta
villa, - dizia o procurador do concelho-, é fundada
em serra, onde não ha senão seixo put·o, muito mau de
assentar, mesmo de alvenaria com cal e argamassa:
agora cairam duas quadrellas da muralha, por serem
feitas com pedra e barro, porque, se fossem de arga-
massa, duraram para sempre como as outras
11
• Quando
t FI. 169.
2 FI. 174.
J De moribu GtrmGftOrum em Hallam, Europe in CM Jl'adàk dgte,
(!, 9, pArte II,
'FI. 177.
5 &ira, liv. n, fL 126.
l
O paiz e seu estado social 105
nas muralhas de um baluarte da fronteira se economi-
sava a argamassa, não .S de crer que o seu emprego
fosse muito usual. As demais comparaçaes de Gaspar
Barreiros sobre estalagens, e commodidades da vida,
slo relativamente identicas ás que faria o viajante ho-
diemo. Portugal e Hespanha têm, n'este particular,
guardado desde então até hoje a mesma atrazada dis-
tancia dos outros paizes da Europa.
A construcçio de taipa, quer dizer, de barro amas-
sado e seixo entre tabuados, é um genero usado na
Península desde o tempo dos romanos t: e tambem os
construíam assim as suaR habitações
1

Quem não conhece aquella casa e torre do Senhor de
Basto, celebradas por Sá de Miranda em uma das
suas cartas :
N'easa hora os olhos ergui
Á casa antiga e á torre ... s
Essa antiga casa e torre eram oonstrucçlJes de taipa,
segundo prosaicamente nos informa o coetaneo Recen-
seamento do Minho de 1527. Cabeceiras de Basto,
lê-se ahi, «não tem villa, nem castello, salvo as casas
de taipa d' elle Antonio PereÍJ'R, fortes com muro e
torre'·''
t Plínio, liv. :uxv, cap. :uv, citado por Trigoso, •Memoria sobre os
terrenos abertos•, nas Memorial ec:onomical da Ãcademill, tomo v.
2 • Por serem os editicios (de Silves), segando o syetema de eonatruc-
vio arabe, feitos pela maior parte de taipa ou formigão, e cobertos de
eirados de ladrilho•. Herculano, Biltoria de Portugal, liv. m .
. J Carta 2.•, a Antonio Pereira, Senhor de Basto.
4 Archivo Nacional, cit. BeceMeamento do Min/w,

 
I.
106 . 0 paiz e HU eatado IOCÍal
Não ha comarca no reino, em que haja tantas caau
de fidalgos, como no Minho: -aasim se expreBBava a
cidade do Porto naa cartaa de San tarem de 1430
1

Esses solares da fidalguia do Minho, bem como da
Beira e de Tnia-os-Montes, haviam de ser modestas
habitaç3es, construidas pelo mesmo systema: alguns,
de que havia memoria e vestigios no seoulo xvu, eram
humildes choças de lavradores
1

A telha é de immemorial antiguidade; nem se p6de
suspeitar que fosse jamais· desconhecido em Portugal
o seu fabrico, pol'que d'ella fazem menção os mais re·
motos foraes. Todavia, até ao meio do seculo :uv, pelo
menos, havia ainda habitações reaes que eram cober·
tas de giestas
3
• No seculo xv as caaas dos lavradores
do Minho cobaiam-se de colmo ou tabúa
4
:-costume
ainda muito geral no seculo xvm
3
• A mesma usança
havia em Trás-os-Montes, como se vê nos desenhos
das casas no Livro de Duarte de Armas, que adiante
citamos. Nos contractos se especificavam os materiaes
de construcçlo das C888B
1
pedra e cal, ou taipa, com
cobertura de telha, para exclusão dos outros proces808
I J. P. Ribeiro, Memoria 110bn H forau, doe. 26.
I Villasboaa Sampaio, NobiliarcAia portugveao.., cap. :r.vr.
3 Viterbo, Elucidario, a. v. Deaeangar.
• Eannea de Azurara, CAronica de D. Duarte de Meaest•, cap. u
1
noa
I11etlitol da Aoatlemta, 1u.
5 Elucidario cU.
•De mil casas diaperaaa, (quem tal creia),
Tirando a de meu pai e quatro maia,
Eram brntas, aem cal, cujo telhado
De colmo, oom torraea malaeprado•.
'Manaacripto (meu) de 1788 •

O paiz e seu estado social
. 107
mais economicos. Na Batalha, centro de mestres de
pedraria e carpintaria, é aforado pelo mosteiro um
chão, para que o emphyteuta ahi faça «Uma casa com
paredes de pedra e cal, ou de taipa   e madeirada,
e coberta de telha e pregadora,,
1

No interior das casas fidalgas e burguezas notava-se,
em comparaçllo com a lnglaterra e as cidades de
Flandres, falta de moveis, alfaias domesticas, e de
aceio
1

Em cidades e villas as ruas e1·am estreitissimas. Os
habitantes conchegavam-se quanto podiam, para mu-
tua protecçlo e segurança, no espaço limitado pelo
circuito das muralhas. Tio apertado o chio da rua, que
a lei tinha de providenciar sobre a collocaçlo das por-
tas e janellas, para que não fosse devassada a reclu-
sAo da vida domestica. Se alguem tiver a su:1. casa de
uma parte da rua, e o visinho quiser construir da ou-
tra parte, nllo póde este fazer portal, janella ou fresta
a direito do portal, janella ou fresta do visinho, nem
tio pouco escada defronte do portal d'elle, para nlo
lhe embargar a entrada. Se uma casa fOr de dois
donos, de um d'elles o sotão terreo, do outro o so-
brado, nlo póde este fazer janella sobre o portal do
do sotlo, nem nenhuma outra construcção. Se al-
guem possuir casas de ambos os lados da rua, e
lançar traves de uma á outra, fazendo um balcão,
póde o concelho mandar derribal-o, quando o julgar
t Soaea Vi&erbo, Diccionario d06 architeetot, v. 1, pas. 919.
z Popidqtlo cit.
108 .
O paiz e seu esttJdo social
conveniente. Taes · slo as disposições da Ordenaçlo
Manuelina
1

As ca888 eaiadas
1
davam de longe ás povoações um
aspecto ridente: mas no interiQr bem dep•·essa se des-
fazia a illusão. Em nossos diaa as grandes agglomera-
ções de gente nas cidades têm a sua rado de ser no
lavor da industria fabril e eommereial. No seeulo xv
s6mente a Lisboa e ao Porto se podia assignar este
e   r ~ ~ o c t e r predominante. As demais cidades e villas, se
bem que naturalmente fossem centros, onde artifices e
mercadores abasteciam o povo das aldeias adjacentes,
eram, eorutudo, principalmente habitadas por lavra-
dores que possuiam e cultivavam as suas herdades nas
cercanias. Para adubar a terra, cada lavrador juntava
o estrume ante a sua porta, por lhe ser assim mais
eommodo. É o que sueeedia até n'uma cidade tAo im-
portante, e predilecta estaneia da côrte, como Evora
3

Cada mez a remoçllo para um sitio, mareado no pro-
prio povoado para esse deposito, era obrigatoria; aos
almotaeés competia tornai-a eft'eetiva '· Não é prova-
vel que estes magistrados fossem muito rigorosos, para
nlo desgostal'em os munieipes, e serem malsinados,
como o fôram, nas côrtes de 1446, os officiaes da fa-
zenda real, que tomaram sobre si o prohibir aos mO-
radores de Ponte de Lima, que ajuntassem o lixo nos
t Liv. I, tit. xLIX.
2 Resende, Vida de D. Jollo II, e. 118.
3 Regimento do concelho de Evora, Gabriel Pereira, Documemo. Au·
toricot de ErJOrtJ, parte I, pag. 188.
4 ~ qO!UinM, Iiv. t, tit. ::s:nm: Ordena.t;fiu Manuelintu
1
Uv. I
1
ti&. xLis, I 14.
.....
..
O paiz e B6U estado social 109

.• muladares da villa
1
• Assim, das estreitas ruas da ci-
dade ou villa offerecia cada uma á vistA e ao olfato
um renque de monturos. As aldeias, formadas de mes-
quinhos casebres, naturalmente não se avantajavam
na limpeza. Por esta causa se explicam as continuas
invasões e depredações da peste, e de outras epidemias.
O cerdo montez era o terror das   o porco
domestico a praga da:s povoações. A criação d'estes
animaes, que vagueavam em grandes fatos, dava
n'aquelle tempo causa a muita amofinação. Não julga-
mos abater a dignidade da Historia, recontando uma
particularidade economica da maxima importancia
para a vida do povo. O porcariço, auxiliar indiKpensa-
vel da economia domestica, foi por Homero cantado
na Odysseo. A questão assoberbava a intellectualidade
das   homens bons e dos concelhos
do reino: a p•·opria sabedoria dos ministros do go-
verno central se confessava, pelatt suas variações, em-
baraçada para dar uma solução satisfatoria a um pro-
blema, em que o proveito da alimentação defrontava
com graves inconvenientes. O porco, que ·se nutre de
refugos e de fructos improprias ao sustento de qual-
quer outro animal domestico, é, por isso, de criação
pouco dispendiosa, e apropriada á economia de gente
pobre, e muito mais n'aquelle seculo; mas é um animal
muito obnoxio. Como dissemos, nas povoações se cria-
vam grandes bandos. A cidade de Evora representava
ao Infante D. Pedl'o, durante a sua regencia, que ali
I Altm-Douro, liv. n, fi. 15.
\-
110 O paiz e seu utado social
havia uma ordenação, pela qual se determinava que o
vassallo não tenha mais que dois porcos e o peão um
s6, mas que os homens da governação tinham cada
um dez, e vinte. Era tio crescido o numero que na
praça estragavam o pão cozido, as couves, a carne de
enxerca, as fructas, o peixe, e até levavam as crianças
do be1·ço, que as vendeiras tinham deante de si ; no
ter1·eiro desbaratavam o trigo; nas h01·tas devoravam
os melões, pepinos e hortaliças ; assolavam os ferre-
giaes em volta da cidade. O regente mandou que se
guardasse a referida ordenaçlo c. Sem embargo deviam
as depredações ter continuado, e foi, sem duvida, por
esse motivo que a vereaçlo de Evora, por nova pos-
tura, ordenou que nenhum porco andasse pelas ruas,
ao qual não tivessem fendido o focinho, ou lh'o tives-
sem preso com uma argola de ferro
1
• Nas cõrtes de
1481 o concelho de Santarem recorria ao monarcha
para que defendesse andarem os porcos pelas ruas da
villa, para se evitarem os damnos e cenosidades que
faziam; já acontecêra que, fossando pelos adros, soter-
rassem os finados
3
• Assim o prohibiu D. João II, e que
ninguem podesse Ciiar porcos senilo em sua casa, ou
em cerrado proprio '· Afigura-se esta como uma solu-
çlo mui simples e decisiva; mas o reverso appareoe
em uma outra representação, que a mesma villa de
Santarem endereçára ao rei tres annos antes. Santarem

t Odiana, liv. v, ft. 134.
2 Citados IJocumema. hiBtorico& de Evora, parte 1
1
pag. 184:.
3 Capítulos de Sutarem; Chancellaria de D. João II, li v. u1
1
ft. 8 i
vide os Documenlot illultratiVOB.
t ICBtremadura, liv. m, ft. 227.
--··:,
'
_j
      ~
:• ...
O paiz 6 HU estado social 111
nos exp&, -diz a carta regia de 28 de outubro de
1478-, que tem havido nessa ten·a grande mortan-
dade de gado, e ella padece de grande necessidade de
mantimento: pelo que, -a seu pedido, por serviço de
Deus; e para que o povo nio morra á fome, apraz-nos
que, sem embargo da nossa anterior defesa, se possam
criar n'essa villa quantos porcos queiram e por bem
tiverem •. Na villa de Elvas, durante annos, se trava-
ram sobre esta questão accesos debates entre os fidal-
gos e eacudeiros de um lado e o povo miudo do outro.
D. Mon11o V passou muitas cartas e alvarás, ora em
favor de uns, ora em .favor do outro. Mas a experien-
cia dos ultimos tres armos, em que ces11aram de os
criar, -diz uma carta 1-egia. de 14 7 2 -, most1·a que a
perda é tal que o damno, que elles faziam, «havemos
.. por tão pequeno, como se fosse nada». Permitte, por-
tanto, a criação. Para alcançar este despacho, a yerea-
ç&o de Elvas tomára previamente a providencia de que
aos porcos, que se criassem na villa, se puzesse uma
argola de ferro no focinho, inteira, ou cot-tada por fôr-
ma que nAo pudessem fazer damno
1

A escassez de alimentos, a descommodidade da vida,
a insalubridade da habitação, eram a sorte do homem
do seculo xv; e o horrol' que, no tempo de .agora, nos
suscitam taes privações, tende a tomar-nos de desdem
por gente tão desprovida dos bens e confortos mate-
riaes. É mister não esquecer que elles revidariam a
nossa sobranceria com igual, senão maior despreso.
1 E.tremadrwa, liv. nt, fl. 148.
z Odiana, liv. n, fl. 268.
'.
112 O paiz e seu estado social
Essas não eram as suas absorventes preoccupações,
nem elles comprehendiam que se lhes désse a impor-
tancia que nós ll.Jes assignamos. N'aquelle tempo o
valor da vida humana não se estimava em tio alta
conta. O luxo e o agrado da propria habitação não des-
velavam, nem o rei, nem o nobre, nem o concelho.
Durante seculos a architectura reservou as maravilhas
da sua arte, e a riqueza a profuslo dos seus donativos,
para a fundação d'aquelles monumentos religiosos,
I'omanicos e gothicos, que proclamam o sublime idea-
lismo do homem medievo. O po,·o dava o seu ti·abalho
e as suas mealhas para o levantamento e manutenção
da armadura de alterosas atalaiu, alcaçares e mUI'&·
lhas, que velavam pela guarda da independencia na-
cional. De Castro Marim, pelas planuras do Alemtejo,
pelos alcantis da Hei1·a e de Trás-os-Montes, pela
cumiada do Gerez, e ao longo do rio Minho, uma cin-
tura de possantes fortalezas defendia a liberdade de
Portugal'. No interior do reino, as cidades e villas
principaes cercavam.se de igual defesa. Esses castellos,
sobranceiros á povoação e ás q uadrellas das mUI'&lhas
crespas de ameias, e flanqueadas de cubellos, davam
á perspectiva um aspecto severo, como a lição, que
apregoavam, de que sómente a força mantem o direito.
As proprias torres quadrangulares das ig1-ejas pare-
ciam antes baluartes de guerra, do que piedosos cam-
panarias, destinados a repercutir ao longe, pela toada
dos sinos, a celebração das solemnidades religiosas.
t Archi;o Nacional, Desenhoa das fortalezas situadas no estremo de
Portugal e CasteUa, por Duarte d'Armaa.
j
~       .         -
O paiz e seu estado social 113
Sempre armados para a luota, endurecidos pela ru-
deza e agt·uras da vida, enlevados na contemplaçlo
das phantasias e imagens, que lhes offereciam as por-
tadas, as cimalhas, as naves, os presbyterios das cathe-
draes e mntuarios, -de taes homens o temperamento
mental era de todo avesso ás nossas concepções da
vida.
Corramos agora, em rapida excursão, pelas prinoi-
paes poYoações do reino.
Lisboa, ((vida e coração d'este reino, purgada de
todas as fezes em o fogo da lealdade
1
,, devia a pra-
eminencia de capital, de que se ufanava', ao seu vasto
e accessivel porto. Com essa preeminencia começára
a figurar desde o meiado do seculo xm, no reinado
de D. Affonso IIP. Em 1484 parecia a um visitante
estrangeiro igular em grandeza a cidade de Colonia,
ou a de Londres'· No seculo xv os seus navios visi-
tavam os portos de França, de Inglaterra, de Flan-
dres, da Hollandn., e, reciprocamente, os navios d'estes
paizes lhe traziam o retorno dos seus artefactos ~
Para leste, a navegação estendia-se aos po1·tos do
Mediterraneo e do Levante. A grandeza das embar-
cações em construcção nos seus estaleiros fazia a
t Femlo Lopee, Ckronicca de D. Jollo I, p1rte 1
1
c. 162.
:a Capitulo• de Lieboa nu côrtee de 1489- vide oe.Docummto. illru·
tratit101.
3 Herculano, BiBtoria de Portugal, tomo m, liv. v1.
• Citado Nicolae de Popiolovo.
s E.tremadura, liv. x1, ft. 55.
8
114 O paiz e seu. e s t t ~   o social
admiração do referido viajante, que acabava de per-
correr os Paizes Baixos e a Inglate1Ta '.
Da populaçio de Lisboa uos ultimos annos deste
seculo nio podemos dar uma conta exacta: porque, se
bem, como mostrámos no capitulo anterior, o enume-
•·amento de 1527 indique aproximadamente a popula-
ção de todo o paiz vinte e sete annos antes, nio tem
esse computo applicaçio no que respeita a Lisboa,
que, em resultado do commercio da India, cresoeu
anormalmente nesse interva1lo. Comq uanto esse cres-
cimento, no algarismo total da população, se possa
desattender, como relativamente inconsideravel, seria
incOITecto nio o tomar em estimação no caso especial
d'esta cidade. O que, portanto, unicamente podemos
&ltseverar é que a sua populaçio e dos arrabaldes era
inferior á d'aquelle apuramento, isto é, inferio1· ao nu-
mero de treze mil vizinhos, ou de cincoenta e dois
mil habitantes
1

El-Rei D. Fernando, determinado pela experiencia
da assolação perpetrada pelos castelhanos, durante o
assedio, na parte exterior aos estreitos limites da pri-
mitiva cêrca, que pouco mais abrangia que a Alca-
ÇilVa e o bail'J"o, que hoje denominamos de Alfama,
cingiu toda a cidade de uma nova e extensa cintura
de muralhas. A nova circumvallação era coroada de
setenta e sete torres, e franqueava a passagem por
trinta e oito portas, dezasseis para a terra e vinte e
1 Citado Popielovo.
2 Archivo Nacional, cit. ReceMeamemo da :&tremadura.
--"l
O paiz e seu estado social 115
duas parn o mar •. Desta obra grandiosa, arrasada
pelo terremoto de 17 55, a picareta do progresso des-
truiu &R ultimas relíquias, e o desprezo das tradiçê5es
historicas vae apagando até os nomes dos sitios por
onde passava. 86 a traços largos se p6de seguir
o seu percurso. Pelo oriente, desde a orla do mar,
começava na proximidade do local onde l10je assenta
o Arsenal do Exercito, e subia ao fim da rua das Por-
tas da C1-uz, que, por maravilha, conserva o nome
primitivo. Aqui era uma porta de grande passagem.
E, não longe delJu, encontravam-se, trazidos em can-
nos de differentes pontos da cidade, caudalosos manan-
ciaea de aB'ua, que corria para o mar; entre os quaes
alguns, ainda no seculo seguinte, bm·bulhavam livre-
mtmte sem nenhum artificio de captaçilo; outros se
ajuntavam na Fonte dos Cavallos, uma das maravi-
lhas de Lisboa, já assim nomeada no tempo d'El-Rei
D. Fernando
11
, porque da bocca de alguns cavallos de
metal jorrava a agua em tanta abundancia, que for-
mava um lago e um ribeiro, e no Chafariz d'El-Rei,
«deitando tanta copia de agua por seis bicas, que uma
quasi bastaria para dar de beber a toda a cidade»
3

D'este chafariz a agua borbotava tepida, e, depois de
assentar, era suave e f1igidissima; no sabor, limpidez
e levidade excedia ou igualava, na opinião de Damião
I Femio Lopes, Chronica de D. João I, parte 1, c. 116: Damiio de
Goee, Olúíponi• Ducriptío, Húpanía illrutrata, vol. n.
I Esta fonte A provavelmente aqueDe chafariz posteriormente, e, ainda
hoje, denominado Chafariz de Dentro. Julio de Castilho, A Ribeira de
T.Uboa, li.-. n, c. 7.
s Goes citado.
'I
116 O plliz e seu estado social
de Gocs, quantas elle tinha conhecido. Estas fontes,
alguns outros chafarizes e numerosos poços no inte-
J•ior, abasteciam de agua. a cidade
1

Das Portas da Cruz a muralha ascendia, encer-
rando o mosteiro de S. Vicente; d'ahi trepava ao
monte da Graça, apegando-se e cingindo o convento
dos Agostinhos; descia até ao .AI·co de Santo André,
ao fundo da calçada da G1·aça, e dava volta para.o
cabeço, onde encontrava a muralha, que encerrava a
A.lcaçova. Transposto o cimo do monte, prolongava-se
no pendor até onde hoje se depara o Arco do Marquez
de Alegrete na Mouraria, e cruzava o valle d'este
nome, deixando de f6ra o baia·ro   De novo
subia ao monte de Sant'Anna, involvendo o assento
. do convento da Encarnação, o qual ainda não existia;
corria para baixo até ás portas de Santo Antão; con-
tornava o Rocio até á abertur11. da calçada do Duque,
euja linha seguia até á entrada do largo de S. Roque.
D'onde baixava finalmente, pelo largo do Loreto, á
rua do Thesouro Velho; obliquando, atravessava, o
Ferregial, e ia fenecer no largo do Corpo Santo. As
duas extremidades do flexuoso a1·co eram. ligadas pelas
quadrellas da muralha, que corria a par do Tejo, dei-
xando a descoberto uma grande porção de praia, e,
no lanço oriental, se encorporava com os muros da
primitiva cêrca mourisca, conservando f6ra do seu
recinto o bairro da J udaria.
D. Fernando, dando estas largas dimensões á cêrca
defensiva, mostrava confiar nos futuros destinos de
1 Ibidem.
O paiz e seu estado social 117
Lisboa; porque, ainda no seculo XVI, as habitações es-
tavam longe de encher a área total d'este recinto. Gas-
par Barreiros, o qual suppõe a esmo que, desde ore-
censeamento de 1527 até ao anno de 1536, em qu
escrevia, o numero dos ·habitantes te1ia augmenta
em dezaseis mil, ou quatro mil vizinhos, o que nos
parece demasiado, não orça, todavia, o numero das
casas em toda a cidade em mais de dez mil, e accrcs-
centa que difficilmente se achará. uma só casa, em qu
não vivam muitos mor.adores
1

A carta regia de 16 de dezembro de 1500 attest
os largos descampados, que havia a dentro _da cêrc..1.
Nessa provisão D. Manuel, considerando que esta ci-
dade é a principal do reino, e que muito se deve atte
der ao seu ennobrecimento, manda derribar todos o
olivaes dentro do seu recinto, quer sejam de igrejas
de mosteiros, de morgados, ou de quaesquer outro
senhorios; em indemnisação, a camara pagará o valot·
ou dará. propriedades equivalentes. Determina mai
que, em volta da cidade e contiguo âs mm·alhas, se ab ·
um rocio commum, da iargura de dois tiros de bésta,
onde os gados e animaes de carga, que vêm á cidade,
se possam accommodar; para o que se to mario as pr -
priedades a quem pertencerem, sendo o dono devi-
damente indemnisado '· Não temos noticia de que '18
t Chorographia, fi. 58. O seu eontemporaneo Damilo de Goea (I. ~
avalia a mesma eomma de eaaaa em maia de vinte mil; mas este alg -
ri1010 6 ineompativel com o numero da popalaçlo; a de Barroiroe
muito maia veroaimil.
I ~ t m l   Jiv. 1
1
fi. 160.
118 O paiz e seu estado 10cial
provisões d' esta ordenação jámais se puzessem· por
obra.
Como se vê, era grande o concurso de viandantes
a Lisboa. Para os receber, alem dos Estaus, aposenta-
doria official, havia muitas estalagens. Sabemos de al-
gumas Ribeira 1500
1
• No tempo desde Aft'on-
so V a D. Mauuel, a melhor, em vista da sua sitnaçAo,
e as repetidas referencias que d'ella encontramos du-
rante esse período, parece ter sido a Estalagem da
Egua, na praça da Palha, juntli) ao Rocio, estabelecida
n'uma casa foreira á Camara Municipal'. Nem havia
falta • de estalagens nas principaes terras do reino, se
bem que todas de mui somenos qualidade.
A população agglomerava-se principalmente no
monte do Castello, a antiga Medina Achbuna dos
  na sua vertente meridional, e no quadri-
latero delimitado pelas abas d'esse monte e as dos
montes fronteiros do Carmo e de S. Francisco, pela.
praça do Rocio e pelo Tejo; e, para nascente, até áR
Portas da Cruz e ao mosteiro de S. Vicente.
. O Rocio era um grande largo h-regular, e muito
mais espaçoso do que em nossos dias: pelo lado do
sul abrangia, da banda do Carmo, pelo menos até á
extrema balisada pela igreja deste convento
3
, e da
I E.tremadura, liv. I
1
fi. 299.
z Eatremadura, Jiv. Iv, fl. 211 e liv. v, fi. 52: de D. Ma-
nuel, li v. uxvi, fl. 86, em Soua Viterbo, DictMnario do. AreAit«:/08
1
pag. 457.
3 •Ao Rocio, atravez (a par) de Santa Maria do Carmo•. Auto da
acclamaçi1o de D. Joio II em Freire de Oliveira, ElerMnto. para. a Ai•·
toria do município de Lwboa.
- ,
--;-;- -- ..
O paiz B seu estad.o social 119
banda opposta descia muito mais abaixo; dos out1·os
lados era contermino ai mm·alha
1

O Monte do Castello, a padrasto da cidade, demar-
cando as suas duas p1incipaes divisões, do oriente e
do poente, constitue a feiçlo mais proeminente de Lis--
boa. A chapada do cume era coroada pela Alcaçova,
recinto murado, onde, em um dos angulos, campeava
·o castello e paço real, e, junto da Igreja de Santa
Cruz, demorava a residencia episcopal'. O rei e o a r ~
cebispo convizinhavam: o alto assento da sua morada
symbolisava o predominio que as duas potencias, real
·e ecclesiastica, mantinham sob1·e a sociedade: a fidal-
guia, cuja desuniio foi semp'l'e motivo da sua fraqueza,
tambem na vivenda se dispersava por _differentes pon-
tos da cidade: o palacio do seu mais altaneiro indivi-
duo, o duque de Bragança, entestava com a ig'l·eja de
S. Christovão
3
• Na fralda do monte, os Paços do con-
·celho, sobre a capella de Santo Antonio, estanceavam
ante a veneravel portada e macissas torres da cathe-
dral de Santa Maria Maior.
A ingreme ladeira do Monte do Castello, pelo lado
do norte, era despida de habitações: e, pelo lado do
poente, onde demorava a freguesia de S. Ch1·istovão,
1 Veja-ae o   e ~ e a h o de Liaboa do tempo de D. Manuel ao Maa. do
. Moaeu Britunico, intitulado Portvguue Dra.IIIÍag•, e reprodollido em
Benevidea, Rainluu de Portugal, tomo r, e em Oliveira Martins, Vitla de
Nun'Alvaru. C( Goea cit., e Sooaa, Hiltoria de S. Domiftgot, vol. r,
liv. m, c. 18.
a .Fernlo Lopea, C.'Artmieta" de D; Jo8n I, parte 1, c. '51; Pina, Cl&ro-
. •les de D. Affo1110 V, o. 88.
3 Pina ci&., c. 181.
. ·.
:I
.. ,
~
120 O paiz e seu estado social
não remontavam estas tanto acima, como em nosso
tempo. Parte da costa superior, contigua aos paços da
Alcaçova, era um monturo, pelo menos até 1498.
Nesse anno D. Manuel dá de aforamento, por um real
de prata, a Pero de Alcaçova, fidalgo de sua casa, e
juiz da Alfandega, o chio, adjunto á morada deste,
desde a. po1·ta. de Alfofa. (porta da primitiva. cêa·ca, não
longe da actual entrada do Castello) até aos mUI·os do
Miradom·o dos Paços (sobranceiro ao valle do Rocio),
porque nelle «Se faz muita esterqueira e sujidade
pelos vizinhos de arredor», como o proprio rei teve
occasião de ver
1
• Pelo viso meridional, e de leste, e
dahi no trato de terreno até ao alto da Graça, eram
raras as habitações: Para promover ali a edificação,
o alvará de 10 de janeiro de 1499
1
ordenou á cama1·a
mandasse apregoa1· que, quem quizesse construir desde
a porta de Alfofa até. ao postigo da Graça, gozaria
dos mesmos privilegios que os moradores da Alca-
çova, e que os te1Tenos seriam concedidos coui a
isenção de, todo o fôro. O convite parece ter sido
inefficaz, porque, ainda em 1513, em carta de 26 de
fevereiro, dirigida á camara
3
, o rei adverte os verea-
dores, de que, tendo o povo feito muitos caminhos
pelas encostas, a agua con·ia por elles, a terra esbo-
roava-se, e arruinava os pendores; recommenda-lhe
que mande desfazer os carreiras, plantar salgadeira&
que sustenham o terreno, que não consinta extrahir-se
t .E.tremadura
1
liv. 1
1
fi. 288.
I Cit.Eltmentol para a hütoria do mURicipio de LilboG, tomo 1, pag. 882.
s Archivo da Camara Municipal de Lisboa, liv. IT de D. Mauuel,
fi. 11.
O pau e seu estado social 121
d'alli areia; e que sanccione as defeB&B com penas de
dinheiro e de açoutes. E, logo em seguida, em outra
carta, o rei avisa a camiua, de que uma pro·te da costa
'
derruiu, e veiu entupir a calçada subjacente, de sorte
que as aguas, que se escoam pela porta da Alfofa,
não p6dem romper, e vão inundar outra rua, que está
descalçada, e, como o caudal é grosso, C&l'l'eia comsigo
a terra. O rei ordena que se calce esta rua até entrar
na calçada de Gilvas, e recommenda que o calcea-
mento seja feito em degraus fortes, que resistam á
corrente das aguas.
Os charcos de illuvies existiam mesmo na parte da
cidade densamente habitada. Em uma demanda so-
bre uma casa na rua da Achada, que ainda hoje con-
serva o mesmo nome, na freguesia de S. Christovio,
o foreiro reclamava, que lhe ·levassem em conta as •
bemfeitorias «porque elle fez um cur1·al (pateo ou
cerrado) de um monturo, onde nunca esteve curral,
senão monturo
1
». D'ahi a insalubridade, e a conse-
quente germinação da peste, como já entllo se reconhe-
cia: «porque, -escrevia D. João ll á camara-, algu-
ma parte (alem dos nossos peccados) da causa d'estes
maus ares é a grande sujidade das esterqueiras e mon-
tlll·os, que em essa cidade ha
1
». EsJJas accumulaçaes
mephiticas nilo existiriam, se as cenosidndes fossem,
como deviam ser, levadas á Ribeira, que era o des-
pejadeiro da cidade
3

I JC.tremadura, liv. rx, ft. 168.
I Cit .1iJiemattol fHJrtJ 11 laueorill do municipio de .l.Ãti1HH1..
s J. P. Ribeiro, Diuerlat;iJM cArorwlogi«u e oriticu, tomo u • .dppett-
àice, doe. 16.
122 O paiz e seu estado social
Na propria cidade, comtudo, havia alguma canali-
saçlo
1
• Em 14 71 nlo devia ella ser muito irradiada,
por quanto a camara nlo tinha senilo um alimpador
de canos, a quem pagava annualmente duzentos reaes
1

E, com effeito, D. Joio II recommendava á camara,
em 1486, que ramificasse a canalisaçlo por toda a ci-
dade
1
• Nlo sabemos se foi em resultado d'essa recom-
mendaçlo, mas é certo que, em 1488, a cidade baixa
era at1·avessada por um largo cano, o qual, em razio
da sua capacidade, se denominava real. Esse cano co-
meçava .f6ra dos muros, por detrás dos Estaus, e, prtl-
longando·se pelo Rocio e pela Rua Nova, ia dar ao
mar. No Rocio pasamva perto do convento de S. Do-
mingos, ao qual servia para dar vasilo ás· aguu du
chuvas e enxurradas, que contra esse convento sedes-
-penhavam do campo e monte de Sant'Anna, e do valle
da Mouraria. O chronista da ordem nos dá noticia de
que, no referido anno, foram tilo eng•·ossados os cau-
-daes, que o CR.no de nada valeu, ·e os frades estiveram
-alagados em uma braça de agua
4
• Esse cano el'a cons·
.truido muito á superficie,. e facilmente se descobria.
:Na carta de 29 de novembro de 1520 el-rei D. Manuel
.escreve á camara, que o dito cano está aberto, muito
1 E.trematlum, liv. u:, fi. 172: • .VIIRUtlmcu, Uv. 1, tit.l-9,
§ 18.
2 Liuro Vermtlho de D. Ãj'OfiMJ V, 'nos IMditoe tltJ .Academia,
to010 III.
s Carta Regia de 22 de janeiro de   em pam a AueoricJ
tlo município de LilbOo., cit. parte 1
1
pag. 468.
• Citad01 Elemento. para 11 AUtoria do municipio de Lieb911, tomo i,
pag. 459; Sousa, Hiltoria de S. Domingos, tomo I
1
liv. m, c. 18.
O paiz e seu utado social 128
sujo, e nelle se deitam muitas immundicies : que o
mande tapar
1

Nesse tempo o alveo do Tejo junto da cidade
muito mais profundo. Tem-se gradualmente alteado
pela accumulaçi.o dos detritos emanados da cidade, e
pelo enlodamento do proprio rio, que, em contraposi-
çito, escava as ribanceiras da margem opposta.
As ruas da cidade, na maxima parte estreitissimaa
e tortuosas, Antes mereceriam em nossos dias o nome
de viellas. A Rua Nova de El-Rei tinha a largura fa-
bulosa de trinta palmos ; mas ainda as mais nobres
e anchas nlo teriam   de oito ou dez
1
• A maior
parte eram calçadas; algnmas parece terem sido ladri·
lhadas
3

Algumas casas nas ruas principaes elevavam-se a
boa altura,-sobre a logea tres andares e uma açotea,
ou eirado, que, sendo em parte coberto, parece serviria
tambem para habitaçio
4

Mas, geralmente, á logea terrea nlo se sobrepunha.
mais que um andar, dividido em quatro ou cinco_ com-
partimentos. Uma casa assim era, em 1561, hábitada
por um tabellião de notas. Poucas as janella.S ; rara a
cozinha com chaminé. Abundavam, para deleite e uti-
lidade, os quintaes com parreiras, laranjeiras e outras
arvores, e providos de poços e tanquea
11

t Archivo da Camara Municipal de Lieboa, Livro IV de D. Jlo.t&ut}..
I Herculano, Mpnge de Ci1ter, vol. n, c. 17.
• 3 Citadoe Ekmmto1 para a AUtoria do mu11icipio de Lilboa.
4 Archivo da Camara Muuieipal de Lieboa, Li'UJ'o IV de D. Manuel,
fi. 162 : E1lremadura, li v. 1
1
fi. 24 7. - ·
• Vide o Documento do cartorio de S. Domiugoe de Lieboa, em-Souea
Viterbo, Noticia de algMII porlvguua, pag. 19.
l
124 O paiz e seu estado social
Os balcões, que D. Affonso V mandára desfazer, ou
não foram removidos, ou se tornaram a construir,
porque Damião de Goes attribue o merito da elimina-
çlo a D. Manuel t. Mas, ainda em 1508, de uma c     ~  
sabemos com balcão na Rua dos Mercadores, dentro
da área da que é hoje parochia da Conceição Nova,
onde morava um desembargador. Essa casa constava
de um rez-do-chão e de um andar. O rez-do-chão ti-
nha de comprido oito varas, e de largura tres varas
e um quarto;-po1-tanto vinte e seis varas quaru·adas.
O andar compunha-se de tres repartimentos e·um bal-
CAo. Da medição das respectivas superficies resulta,
que a lirea do balcão abt"Bngia algum tanto mais que
dezesete varas quadradas, e o resto do andar continha
as vinte e seis varas dalogea
1
• Balcões tão despropor-
cionados, como os d'aquella casa, é evidente que se
não destinavam a servirem de miradouro, mas a usos
de habitação. Assim, projectando por cima das aper-
tadas ruas, formavam uma especie de alpendrada, e
não podiam senão difficultar muito o transito, sobre-
tudo dos cavalleiros.
De noite essas ruas soturnas, e impenetraveis ao
luar e á luz das estrellas, prestavam-se a todo o ge-
nero de aventuras e maleficios. Davam-se f1-equente-
mente brigas entre individuos ou bandos 1ivaes, com
feridas e mortes. De combates renhidos com esforçada
valentia se propalavam os pormenores, enaltecendo os
heroes assignalados na lucta. El-Rei D. João II,
l Clworaica de D. Mauel, parte rv, c. 86.
J &tremadura, liv. n:, fi. 168.
O paiz e seu estado social 125
quando ainda principe, na sua mocidade, costumava,
conforme nos conta o seu panegyrista ', sair disfar-
çado á noite, com uma ou duas pessoas, «a folgar em
cousas de amores». Por duas vezes lhe succedeu sal-
tarem, contra elle, junto de Santa Justa, tropeis de
gente Bl'mada, com quem jogou as cutiladas, com tal
destreza e denodo, que sempre saiu illeso, afugen,-
tando e ferindo os contrario&. Estes, por sua parte, se
haviam portado com tio notavel bravura, que o prín-
cipe, havendo-se informado de quem eram, lhes en-
viou mei'Cés de dinheiro, e, depois de curados, os to-
mou para sua casa.
O sino de correr, que obrigava todos os moradores
a recolher a casa, tangia uma hora inteira nas cidades
principaes e meia hora nas inferiores, das oito ás nove
horas da noite durante o inverno, das nove ás dez ho-
ras no verão
1
• Rondas dos quadrilheiro& do alcaide
percorriam depois a cidade; mas faziam medo aos
alrotadores e gualteiros, que pelas horas da modorra
vagueavam pelas ruas. Seria para estimular o zelo d'a-
quelle magistrado que D. Affonso V, tomando em con-
sideração a:os mnitos e grandes maleficios de feridas e
mortes de homens» perpetrados em Lisboa, determi-
nou que sempre nesta cidade, á maneira do que está
em pratica na residencia. da côrte, se pague em taes
casos uma multa, que accresça á pena criminal. Em
1468 doou elle esse rendimento ao conde de Monsanto,
seu camareiro-mór, e alcaide-mór de Lisboa, como
t Garcia de Resende, Vida de D. Jo/Jo II, cap. VJ.
z Manutlituu, llv. x, tit. u.zv, § M.
126 O pau e seu estado social
parte integrante dos percalços da alcaidaria t. O Codigo
Manuelino prohibia trazer de noite mesmo as armas
licitas, a espada, o punhal, a adaga; e s6 isentava da
prisão aquelle que, depois de tangida a campa de cor·
re1·, fosse achado com candeia accesa ou lanterna, e
sem armas
1
• A ferocidade dos costumes ia afrouxando;
mas muito inadvertido seria aquelle que, no tempo de
D. Manuel, de noite se aventurasse desarmado para
f6ra de casa.
Os traços geraes, que temos delineado, em pouco
differem dos que servhiam a desenhar qualquer outra
das principaes capitaes da Europa, entre as quaes se
contava Lisboa. Esta levava vantagem no pittoresco
da situação, e no panorama que offerecia a esplendida
bahia do Tejo, com a sua bordadura de collinas e ho-
rizonte de azuladas montanhas.
Mas o homem não vale senão pelo espírito e pelos
sentimentos; e d'estes a cidade patenteava a manifes·
tação em muitos edificios. Vinte e uma igrejas paro-
chiaes
3
attestavam a piedade religiosa, que reque1·ia
um templo e seus sace1·dotes para menos de seiscentas
famílias, das quaes poucos seriam os chefes que não
pertencessem a alguma irmandade ou confraria. Alem
t Estremadura, liv. v, ft. 176.
s Ordenações Manuelina., liv. 1
1
tit. Lvn.
3 Santo André, S. Bartholomeu, S. Christovão, Santa Crws do Cas-
tello, Santo Estevio, S. Joilo da Praça, S. Jorge, S. Julião, Santa Justa,
S. Lourenço, S. Mamede, Santa Maria (Sé), Santa Magdalena, Santa
Marinha, S. Martinho, llartyres, S. Nic:olau, S. Pedro de Alfama,
S. Thiago, S. 'fhomé, Salvador; Castro, Mappa de Portugal, tomo m, c." 2,
§ 7 : no reinado de D. Afl'onso III eram aómente onze, Herculano, Bw·
toria de Portugal, tomo 111
1
liv. v1.
O paiz e seu estado social 127
d'e88&8 igrejas, uma ce1·cadura de conventos acompa-
nhava o lanço das muralhas. A partir do Oriente en-
contrava-se primeiro, a cu1·ta distancia e fóra da cérca,
o mosteiro de Franciscanas de Santa Clara, fundado
no reinado de D. Diniz pela mulher de um rico mer-
cador genovez, cidadilo de Lisboa t, e que, até ao dia
da sua completa destruição pelo terremoto de 17 55,
se havia engrandecido, e gozava a nomeada de um
dos mais vastos, sumptuosos e povoados claustros da
capital. Seguia-se o convento de Conegos Regrantes
em S. Vicente; no alto do monte da Graça o dos Ere.;.
mitas de Santo Agostinho; no Rocio o convento dos
Dominicanos, e mais adiante, fóra de muros, o de
religiosos de Santo Antão
1
• Entre este ultimo convento
e a porta da cidade, conhecida pelo mesmo nome,
estendia-se, entre hortas, um vasto campo, denomi·
nado a Carreira dos Cavallos, prop1·io para este muito
costumado exercicio
3
• Nas alturas do occidente os t ~ ·   s
conventos, dos Carmelitas calçados, dos Trinitaa·ios da
redempçilo, dos frades de S. Francisco, cuja ig1·eja
não ostentava ainda a magniticencia com que depois
a reedificou el-rei D. Joio III; e, por ultimo, á beira
do rio, exte1·iormente á. cêrca em Santos-o-Velho,
.o mosteiro das commendadeiras de Santiago. Este
mosteiro, D. João II, em 1480, o transferiu para a
extremidade opposta da cidade, para Santa Maria do
1 l<'r. Francisco Brandio, MOtUZrchia Luitana, parte v, liv. xvu,
eap. Zilt.
z F. Lopes, Chronica de D. Jollo I, parte 1, e. 160.
• Telles, Cllronica da Compa!lhia de Juw, liv. 1, c. 17.
128 O paiz e seu estado social
Paraíso, que se ficou chamando Santos-o-Novo, e
transmudou o antigo edificio em palacio regio
1
; ante-
riormente o rei e sua familia poBBuiam unicamente os
paços da Alcaçova, que foram a 1·esidencia 1-eal desde
o tempo de D. Joio I
1
, e os de apar de S. Ma1-tinho,
de sinistra memoria, onde vive1·a el-rei D. Fernando.
No inte1ior a cidade ostentava ainda o mosteiro de
freiras dominicanas do Salvador, cuja igreja era tam-
bem a sáde da parochia do mesmo nome, e o convento
dos conegos de Santo Eloy na freguesia de S. Bartho-
lomeu. ·
Como cada geração t1·ouxe a Portugal um augmento
de cenobios, nesta idade, durante o reinado de Af-
fonso V, surgiram nas cercanias da cidade o convento
franciscano de Xabregas, fundação dos condes de
Atouguia, e no sitio, hoje appellidado Beato Antonio,
o dos conegos de Santo Eloy, em cumprimento dos
desejos testamentarias da rainha consorte. Em Bemfica,
o convento de S. Domingos é creaçio conjuncta de
D. João I e do seu privado João das Regras
3
que ali
repousa. ltlais feliz depois da morte que o seu rival, o
bellicoso condestavel, que o terremoto expulsou da sua
igreja do Cal'mo, o jurisconsulto continúa a dormir o
somno eterno na paz do sacrario, que escolheu para
sua ultima morada.
Não devemos omittir que já existia nas proximida-
des da cidade o antiquíssimo mosteiro de Chellas, das
1 Resende, Vida de D. Jo8.o II, c. 111.
I Femlo Lopes, cit. parte u, c. 189.
3 Eltremaàura, liv. w, fl. tl5.
...-wi
1.
O paiz e seu estado social 129
conegas de Santo Agostinho
1
e, mais longe, o das
Bernardas de Odivellas, fundação de D. Diniz.
Neste tempo, nem as iga·ejas da cidade, e muito me-
nos os aposentos dos conventuaes, se distinguiam pela
magnificencia, que a esmola e as deixas de successivas
gt>rações lhes accrescentaram, e que 8 horrenda catas-
trophe de 1755 derrocou em estilhaços, e consumiu
em cinzas. A população era escassa, 81:1 suas posses
acanhadas. Mas o fervor 1·eligioso estampava-se na
traça e lavores architectonicos, como, para nos res-
tringirmos aos minguados restos da Lisboa antiga,
transpira ainda na fachada da Sé e no arcabouço da
igreja de Santa Maria do Carmo.
A intensidade do sentimento religioso não degene-
l"ava em odiento fanatismo. Na cathedral o christAo
elevava as preces ao Redemptor; a curta distancia, a
Synagoga congregava os filhos de Israel ; no lado op- .
posto da cidade o alfaqui doutrinava na mesquita os
sequazes de Mahomet. Estes templos, assentados ás
raizes da Alcaçova, como que testemunhavam, peia sua
jazida, o patrocinio que lhes dispensava a auctoridade
publica.
Na sua modesta estancia, acima da iga·eja de
S. Thomé contra a velha cêrca, a Universidade ensi-
nava os elementos da linguagem e do raciocinio, re-
petia os tradicionaes aphorismos sobre os phenomenos
da natureza physica, perscrutava nos codigos romano
e canomco as regras de direito, levantava o pensa-
'Antonio Braudlo, Monarchia lAUitaoo, partem, liv. x, c. 88.
11
180 O paiz e seu estado sodal
mento acima das impressões sensuaes ú abst.racçaes
das concepções metaphysicas.
As Terecenas Reaes, junto da casa de Guiné e perto
da Ribeira, nas quaes se armazenavam todos os mate-
riaes de conatrucçio e apparelho de navios, e toda a
sorte de armas, indicavam que, desde a morte do in-
fante D. Henrique, Lisboa era a escola, onde se for-
mavam os navegadores, e o porto onde, como no de
Lagos do Algal"Ve, se aprestavam as caravelas, que
singravam por mares desconhecidos a desvendar as
regiões occultas do orbe t.
Attrahidos pela novidade das descobertas, pelos
lucros do commercio, ou pelo interesse de outra pro-
fissão, já muitos estrangeiros fixavam a sua residencia
em Lisboa, que offerecia o aspecto de uma cidade cos-
mopolita
1
• O judeu, dado ao negocio monetario e á
industria fabril, o mouro humilde agricultor ou meca-
nico, o banqueiro florentino e o genovez, o cosmogra-
pho germanico, humanistas, architectos e pint01-es de
Italia e de Flandres, nobres viajantes casuaed, faziam
d'esta cidade o ponto de encontro entre os povos semí-
ticos e os da Europa. A frequente assistencia da côrte
e da nobreza, a séde dos altos   e funccioua-
I F11tremadura, liv. m, fl. 184; liv. rv, fi. 294 e liv. vu, fl. 86.
2 a.A qwuntoa esta carta uh;-em fazemos saber que nos priu.iligiamoa
todollos bretonea, alemaeea, framengu.oe, que ueerem morar
a noaaoa regnoa, e porque Vicitor Visete, framemp;u.o, pimror, morador
em a nossa mui nobre e leal cidade de Lixboa, be huü das ditas naçom-
eea, qu.e assy priuiligiados teemoa .•. » etc. Carta regia de 26 de abril
de 1452, em Sousa Viterbo, Noticia de algu.u pintoru portup1!.81!.8,
pag. 176.
. . . . ~      
O paiz e seu estado social 131
rios publicos, a consequente habitaçlo das pessoas
preeminentes do reino, avantajavam a capital, e a dis·
tanceavam muito das ou,tras cidades. Não admira que
a rainha D. Leonor, mulher de D. Joio II, com a sua
natural viveza e capacidttde de engenho, se julgasse
malaventurada, quando circumstancias a constrangiam
a residir em outra parte: «sabeis -escrevia ella á
Vereação- que, pelo amor e grande affeição que te-
mos a essa cidade, nenhuma cousa tanto desejamos
como haver de Nosso Senhor cumprimento de sande,
para nella podermos estar de assocego, que o tempo,
que fóra della gastamos, havemos que n§o é viver»
1

As immediatatS cercanias de Lisboa eram bem culti-
vadas, como é. natural junto a um mercado de grande
consumo. Vinhas e olivaes cercavam o mosteiro em
Santos-o-Velho
1
• Os valles da Annunciada e da .&lou-
raria alfombravam-se de hortas e vergeitt: no terreno,
que os separa, alastravam-se campos de pascigo; aqui
estava situada a Gataria e o mercado de gndo bovino.
O monte d., Sant'Anna era um olival cerrado, impene·
travei á. vista
9
,
O termo de Lisboa, segundo lhe foi ampliado por
D. Joio I ', comprehendia Torres Vedras, Mafra, Eri-
ceira, Cintra, Collares, Alemquer, e todo o territorio
incluso entre esta villa e o Tejo, e d'ahi até á. cidade,
excepto Villa Franca e Arruda, por serem, a primeira
t Carta de 15 de aetembro de 1495, transcripta do Arcbivo da Ca-
mara Municipal de Lisboa, em Benevides, Rainllas tk Portugal, vol. 1.
2 Estremadura, liv. vn, fi. 168.
3 Goea, Olisip. DtM:riptiD.
• Femio Lopea, Ckronica de D. João I, parte n, c. 8.
132 O paiz e 1eu estado 1ocial
da ordem de Christo, e a segunda da de Santiago.
Comprehendia, segundo o computo de Damião de
Goes, duzentas e quarenta povoações: mas dellas trinta
e seis tinham magistrados proprios, de que, &6mente
nas causas capitaes ou mais graves, competia appella-
çi'io para as justiças concelhias de Lisboa'. Em todo
este territorio, comprehendidos os dois logares nomea-
dos de jurisdicção alheia, numeravam-se aproximada-
mente 4258 fogos, dos quaes 234 pertenciam á villa
de Alhandra, 257 á de Torl'es Vedras, e 336 á. de
Alemquer
1
• O termo do concelho, propriamente dito,
em que a cidade gozava de plena jurisdicção, era limi-
tado pelos de Alhandra, de Cascaes, e de Cintra. Neste
ambito dilatavam-se vastos maninhos e muitos reguen-
gos: a cultura abrangia o trigo, a videira, a oliveira,
hortas e pomares
3

Evora, no scculo xv, era a segunda cidade do reino.
Continha, em 1495, como anteriormente dissemos,
qnata·o mil e quinhentos fogos, que, em 1527, tinham
baixado a dois mil oitocentos e treze. Situada n'nma
suave collina, a cidade é rodeada de vastas planuras,
que se estendem por muitas leguas até se perderem
no horizonte, contra as encostas das serras de Ossa,
Arrnyolos, Montemuro, Viana e Portel. A perspectiva
é larga, mas monotona e melancholica.
t Logar citado.
a Citado Recenseamento ela Estremadura.
3 Herculano, Historia de Portugal, li v. vu1
1
parte m; Illttremadura,
liv. vm, ft. 160
1
e liv. x, ft. 87.
O paiz e seu estado social 133
Os arredores estavam plantados de vinhas. Para o
gosto do barão bohemio Rosm1thal, que ali estanceou
em 1466, e, como originario que elle era das regiões
boreaes, o seu gosto não podia ser muito refinado, o
_vinho p1·oduzido era tão forte e aspero, que se tornava
necessario misturai-o com agua; de outra maneira
não se podia beber
1

· Neste seculo, e no seguinte, Evora mereceu á rea-
leza particular agrado, e disputava a Santarem a pri-
mazia de aprasivel estancia e a mais accomodada
para acalmar o espirito alvoroçado de cuidados'·
Era cingida de muralhas; mas el-rei. D. Duarte
mandou derribar as torres da cêrca, pa1·a aproveitar a
pedra e cantaria na edificação do paço real
3
, o qual
foi continuado por D. Affonso V e D. João II, junto
ao convento de S. Francisco, de (1ue 11propriaram
uma parte, com grande desgosto dos frades.
Se o ambito d'este convento se apoucou, em com-
pensação foi, durante este seculo, lnrgamente augmen-
tado o numero de institutos monasticos. Existiam já
os de frades de S. Francisco e de S. Domingos, e,
nos suburbios, o de freiras bernardas do convento de
S. Bento; no decurso do seculo :xv accresceram, de
freiras, os de Agostinhlt.s de Snnta :Monica, de francis-
c a n a ~   ~ de Santa Clara, de dominicn.l!&S de Santa Ca-
tharina de Senna, e o da mesma ordem de Nossa
l Viagem de Roemithal, citado.
2 HRec• duo gi"Rta magia toto eunt oppidot regno
Regibue, aut cuiquam cura& ecdare volenti.
Caltlldu Slculuo, cl&ado.
3 Souea Viterbo, Diccionario ào8 Archilect01, vol. 1
1
pag. 807.
184 O paiz e seu estado social
Senhora do Paraíso; de frades, fundou-se o convento
dos Loyos, e, nas cercanias, o de Jeronymos de Nosaa
Senhora do Espinheiro, em cuja igrega repousam os
ossos de muitos fidalgos illustres do Alemtejo
1
• Pelo
termo se espalharam varios oratorios dos eremitites
da SeJT& de Ossa.
· Na cidade a lutulencia nilo podia ser inferior á de
Lisboa. Em 1428 os vereadores deliberavam usobre
as muitas esterqueiras e sujidades, que se fazem em
esta cidade, assim nas praças e ruas della, como em
muitos outros Jogares; e em como muitas pessoas re-
cebem, por uso das ditas esterqueiras e sugidades,
grandes perdas e damnos em suas casas, adegas e ca-
vallariças, e ainda, o que peior é, recebem grandes
doenças e enfermidades em seus corpos»
1

Escassamente provida de agua, no verão m01·ria-se
ahi de sêde. D. João II começára obras, e assentára
já uma parte dos canos para conduzir agua da Quinta
da Oliveira. Mns a morte do rei suspendeu este traba-
lho, e D. Manuel, em vez de o continúar, doou a· agua
e os canos a Jorge da Silveira para a levai para uma
herdade sua
3

Que uma cidade, que Sea·torio tinha escolhido para
capital da Lusitania, e onde se arreigára a civilisaçào
romana, como tantas inscripções lapidares e
as columnas corinthias do formoso templo pagito; que
uma tal cidade, ennohrecida com um senado e insti-
l Vide Braamcamp Freire, ÂB   do &pinheiro.
z Gabriel Pereira, Documento& hiltoricol de Euora, parte n, pag. 6
3 OdianG, liv. 1
1
fi.. 105 ..
O paiz e seu estado social 185
tuições moldadas pelas de Roma, carecesse de agua e
de um aqueducto, é o que, no seculo seguinte, um
humanista tllo afervorado, como André de Rezende,
nilo podia admitth·, porque o abastecimento de agua
em abundancia era o primeiro cuidado da admi-
nistraçlo romana. As suas excitaçõt:s concorreram
provavelmente para determinar D. Joio III a levat·
a cabo o aquE>ducto existente, . no qual, porém, se
nlo encontra hoje nenhum vestígio de lavor ro·
mano
1

No secnlo xv a archeologia e a arte classica nlo
preoccupavam ainda os espíritos em Portugal. O helio
templo romano, que é hoje a ufania de Evora, servia
já, e pelo menos desde o tempo de D. Fernando, de
açouge da cidade, como continuou· a sel-o até ao se-
gundo quartel do seculo XIX. Foi o que salvou as rui-
nas, que hoje admiramos. Em 1467 Sueiro Mendes,
cavalleiro da casa de lJ. Affonso V, que andava cons-
truindo uma casa em Evora, appeteceu duas pedras,
que forravam as paredes do dito açougue, para pei-
toris de janella; a seu pedido, o rei endereçou-se á
vereaçlo de Evora, solicitando para o cavalleiro a
    das pedras, «porque ellas pouco aproveitam
onde estio, e em sua casa muito, e é nobreza para
uma cidade haver ahi taes casas como as que o Sueiro
está edificando, e que as faz para nós ahi pousannoa»;
o mestre das obras reaes, Roda·igo Esteves, será en-
carregado de tirar as pedras seguramente e tapar os
l Hflbner, Noticiai aroAeologica• de Portugal.
136 O paiz e seu estado tocial
buracos com pedra e cal, de sorte que nenhum d.amno
advenha ás paredes do açougue
1

Segundo cremos, a razio do favor, que Evora me-
recia á côrte e aos fidalgos do seculo xv, encontra-se
nas duas condiçaes, de ser uma terra muito adequada
aos exercicios   e facilmente aprovisionada
de mantimentos. Ainda hoje se dilatam na sua vizi-
nhança vastas charnecas, que se vilo ligar com o trato
montuoso sul-oriental do baixo Alemtejo e com o.s
serras do Algarve, e, para o poente e norte, com o di-
latado plaino, que constitue a parte mais agreste da
provincia. Por out1·o lado, Evora encontra-se na orla
d'aquella faixa, cuja linha mediana se dirige de Ouri-
que a Castello de Vide, passando por Beja, Vidigueira
e a villa de Estremoz; faixa, já no seculo xv, fecunda
em pilo, vinho e azeite ', e onde se encontra o mais
ubertoso e cultivado torrilo do Alemt.ejo. Ora a resi-
dencia da côrte, a qual levava comsigo nos seus des-
locamentos toda a plana dos funccionarios do paço,
muitos magistrados administrativos e judiciaes, a casa
da Supplicaçilo, e todos os fidalgos de moradia, de-
mandava largo e facil fornecimento de generos ali-
menticios.
A predilecção da realeza fez de Evora um thesouro
de preciosidades artisticas. Os escandalos contra o
asseio e a hygiene, que acima referimos, são imper-
t Carta do D. Alfonso V de 10 de agosto de U67 cm citados Docv-
ment;,, hiltoric01 de Evora, parte u, pag. 108.
Z Ortle114ÇiJU A..ffoMÍ11lJ1
1
liv. IV
1
tit. LUXI
1
§ 31 e aeguintea.
'.•Jil f'. e • ._ "T..... , -
O paiz e seu estado social 137
doaveis para o scientista sanitario. O amante da arte
será mais indulgente. As notaveis e singulares feiçaes
de architectura sarracena, que ainda hoje se deparam
em tantos edificios de Evora, dão testemunho, o qual
é confirmado pelos documentos, da populaçlo mou-
risca, que ahi estanciava, e pelo Alemtejo e Algarve.
Em torno do templo romano e da cathedral gothica,
Evora havia, no seculo :x:v, de conservar no seu aspe-
cto geral a physionomia arabe, que depois se afinou
nag edificações manuelinas, onde a alvura do marmore
de Egtremoz é dourada pelos reflexos do sol ardente
d,aquella regilo.
No termo de Evora numeravam-se 788 fogos. Como
a cidade era estancia prezada da côrte e da aristocra-
cia, no seu termo se criavam os melhores cavallos do
reino. Acontecia que alguns fidalgos, de menos escru-
pulosa consciencia, depois de os comprarem, e os te-
rem decepado em caçadas e montarias, pretendiam
enjeitai-os, e armavam pleitos aos vendedores, dizendo
dos animaes, ccque silo maus, fracos, doentes, mali-
ciosos, que compraram a bêsta por boa, san, gabada
por avantajada, e que de todo oa acham pelo contra-
rio, e outras tachns muitas que lhes piSem, de que
recrescem aos lavradores demandas, trabalhos, e occu-
paç(Jes, mais que em suas lavoiras e aproveitamento
de seus bens>>. El-rei D. Duarte, com o fim de prote-
ger esta aprimorada industria, concedeu, em 1435,
aos vizinhos de Evora o privilegio, confirmado pelo
regente D. Pedro, unico em todo o paiz, de que o con-
tracto sobre a venda ou troca de cavallos fosse, na
cidade e seu termo, definitivo e irrevogavel, desat-
.,
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188
O paiz e smt estado 10cial
tendendo-se a toda a allegaçio de vicios redhibito-
rios
1

Das outras principaes teiT&II da região  
Elvas continha 1916 fogos, o seu termo 488; Portale-
gre 1224, o seu termo 195; Setubal1220, o seu exi-
guo termo apenas 35 '·
Setubal devia a sua graduaçlo, não á riqueza agri·
cola, como as outras terras, mas á vantagem do seu
porto, de onde se exportavam sal, uvas e figos passos
3

A villa era abastecida de agua ca.nalisada da serra de
Palmella, beneficio promo\'ido por el-rei D. João II,
o qual tambem ordenou a edificaçio de duas praças,
a do Sapal e a do Paço do Trigo. As despesas foram
custeadas conjunctamente pelo municipio e pela fazenda
regia'·
Depois d'estas, a villa de Beja occupa o quinto lo-
gar na escala da população com os seus 120ô morado-
res, mas o seu .te1·mo o primeiro com 1602. Tambem
o seu almoxarifado era o mais rendoso de todo o Alem-
tejo
5
• A. uberd.ade das campinas, no meio das quaes
Beja se levanta, justificava a fortaleza dos seus muros
1 Ordmaç/Ju   liv. IV, tit. xzn.
z Na numeraçlo doa fogos deatu e maia tel'l'IUI do paiz, apreseata-
moa os algarismos do CeDBo de 1527; porque, como mostrámos DO capi-
tulo   a dift'erença para o 8m do seculo zv havia de ser insi-
gnificante.
3 OdiaM, liv. vn, ft. 131.
t Pina, CkronicG de D. João II, c. 25.
s Odiana, liv. v, ft.. 100.
  · ·
O paiz e seu utado sociol 139
e cubellos. A terra albarran, que ainda hoje admi-
ramos, singularisa-se pela sua robustez e altaneira
f6rma; do topo a atalaia podia descobrir a maior parte
do Alemtejo. Das igrejas medievas das suas quatro pa-
rochias nlo degenerava no primor a do mosteiro da
Conceiçilo, de freiras franciscanas, fundado neste se-
colo pela viuva do infante D. Fernando. Seu filho, o
rei D. Manuel, anteriormente duque de Beja, dotou a
villa de uma praça e de um chafariz, e, em 1521, lhe
confetiu a categoria de cidade
1

Serpa, anteparada de duas torres em cerros pl'Oxi-
mos, Portalegre, 9livença, Castello de Vide, Elvas,
Campo Maior, eram villas acastelladas e cercadas de
muros; Alcoutim, Mertola, que se umnava da mesquita
mussulmana. sagrada em igreja matriz, Moura, N ou-
dar, MarvAo, Montalvlo, Mom-ào, Monsaraz, Terena,
distincta pela sua igreja romanica de canto talhado,
Alandroal, Jeromenha, Ouguella, Anonches, Mon-
forte, Assomar, Alpallulo, Niza, repou&&vam ao abrigo
dos seus castellos, que protegiam a fronteira ne11ta
regiAo, onde a natureza a deixou de todo desampa-
rada1.
No Algat-ve era, no seculo xv, escaua a cultura doa
cereaes, e diminuta a criação de gados: as herdades
constavam, pela mór parte, de olivedos e :figueiraes
1

l Goes, Chrortka de D. Mafltlfl, parte IV, c. 85.
2 Reeenieamento do Alemtejo de 1527, citado: Livro de Dull'te de
Armas, citado.
3 Otliana, liv. xu, fl. 128.
!
I
'
140 O paiz e seu estado social
Sih·es, que se gloriava de cabeça do reino e séde
da sna cadeira episcopal, era uma pequena terra de
271 fogos: mas senhoreava um tea·mo que se estendia
até á. serra, e confinava com o de Oua·ique t, e para
o sul com a villa de Alvor que d'elle foi desannt>-
xada nos fins do seculo xv, sendo o mais populoso
de todos os do Algru"Ve. Continha elle 1186 fogos.
I
A curta distancia ·da cidade habitavam, em 1482,
na aldeia da Lagoa 160 vizinhos, e na de Estombar
100
1

A escassez da população da capital do Algarve pro-
cedia da insalubridade do solo apaulado pelo ininter-
rupto enlodamento do esteiro, que liga a cidade com
o mar.
Jti. no seculo Xlll os conegos, logo que chegava o
S. João, tratavam de se ausentar, por começar então
a quadra mais doentia
3
• Por isso o zeloso bispo D. Fr.
Bartholomeu, antigo capellão e medico de Affonso III,
entendendo que ao trabalho devia corresponder justa
medida, estatuiu, de accordo com o cabido, que os
redditos do pé de altar, e as chamadas pitanças, de
frangos, milho, legumes, cebolas, s6mente se dividis-
sem entre os conegos residentes. A ausencia tempora-
ria foi-se evidentemente no decurso dos tempos con-
vertendo em permanente, porque, no seculo xv, a
I OdúJna, Jiv. IV
1
ft. 161.
l Chancellaria. de D. Jollo II, liv. u, fi. 8, Capituloe de Silvee.
3 •Cum aer ut dioitur eo tempore dietemperatior apud Silviurn situ.
Estatutoe da Sé, de 1278, em Silva Lopes, Memoria. eecluia.tica• do Al-
garve, documento n.o 7.
l
- --------
O paiz e seu estado social 141
ordenaçito foi a todos os ausentes por qual-
quer motivo que allegassem
1

Tambem a desolaçilo era cada vez maior. A cathe-
dral jazia em ruinas, ji\ antes de 1444. Para a sua
restauração concedêra o governo o rendimento dos
legados não cumpridos da villa de Faro, que alli eram
empregados na reparação da igreja de Santa Maria'·
Mas os trabalhos, se os houve, não impediram que,
em 1458, o bispo D. Alvaro informasse o rei de que
o edificio da Sé tinha desabado, e que nilo havia ou-
tra igreja em que se os officios divinos;
tJUe elle o queria reedificart mas que não enconta·ava.
pedreiros, nem carpinteiros, nem outros officiaes, e
llue seria difficil havei-os de outra parte; mas, se o rei
lhes conferisse o privilegio de nilo se1·em apenados
para as armadas, o bispo os poderia talvez alcançar
3

A tal mieria descêra aquella formosa cidade, que,
sob o domínio sarraceno, colonisada pelos arabes do
Yemen, se avantajava na cultura dos arredores, cober-
tos de hortas e jardins, na exportação de madeiras,
de figüs nomeados em tmlo o mundo, e na policia de
·seus habitadores, sumptuosidade de edificaç&s, a.bun-
dancia e riqueza dos mercados'· Ainda hoje em dia,
sete seculos depois que foi conquistada por Sancho I,
auxiliado pelos cruzados do norte, ninguem suspei-
tará, na sua pouquidade e na malignidade dos seus
t Ibid., cc. 4:1 e 46.
2 CAanctllaria de D. A.ffMIBO V, liv. sDV
1
ft. 68.
s Orliana, Ii v. v, fl. 120.
4 Hercoluo, HUioria de Portugal, liv. u1.
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1 ..
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I
142 O pai: e seu estado social
brejos, a opulenta e donairosa capital do Al-faghar
mussulmano. Sob o domínio dos arabes continha para
cima de quinze mil almas •; presentemente foram ali
recenseados oito mil trezentas e noventa e seis
1

D'esse passado abundavam ainda as memorias no
secu·Io xv. Nas cOrtes de 1459 Silves dizia-se situada
em ((terras de grande lavoura e criaçAo de todos os
gados•, mas decaida em grande abatimento do que
haveria ~ : t i d o   como se mostra nas ruinas e vestígios,
ainda subsistentes
3
• Todavia os moradores não des-
corçoavam. Decorrido!! quinze annos elles, em ca-
pitulos especiaes apreseBtados nas côrtes de 14 7 8,
davam graças a Deus por ter retirado a maldiçlo que,
na opinião ge1·al, coudemnava a sua cidade a que
nunca visse acabar a construcçlo, nem da Sé, nem da
ponte; a que nunca se erguesse uma casa caída; nem
a mulher viuva tornasse a casar, nem houvesse pae de
familia, que visse bisneto·s seus. uTudo isto, diziam
elles ao rei, achamos em nossos dias desmentido, a ci-
dade povoa-se e toma-se mais sadia; queremos ago•·a
fazer uma praça, e pedimos que nos deis umas cuas e
logeas, que tendes no sitio que para isso destinamoe».
O requerimento foi attendido
4

Mas, como se os flagellos da natureza nilo bastu-
sem, foi a cidade ainda muito prejudicada pelos pri-
vilegios que Affonso V concedeu a Gonçalo V as de
t Gama Barros, Hi1toria da Adminillraç(Jo PubUcs, tomou, pag. 164.
z Ceoso de 1890, pag. 134.
J OGiana, li v. m, ft. 81.
4 OGiafUJ
1
liv. lV
1
fi. 1&1.
O paiz e Betl estado BOCial 143
Caatello Branco, quando em 1476 lhe doou Villa
Nova de Portimlo
1
• Esta villa, segundo os de Silves
ae queixavam, em capitulos especiaes nas cOrtes de
1481, monopoliaava o commercio de navegação, poa·-
que era ahi que, pela prerogativa outorgada ao do-
natario, os na,ios desoarregavam os pannos, ferro e
outras mercadorias; d'onde a este acrescia o rendi-
mento de portagem, no valor de vinte a trinta mil reaes.
E ainda, por demais, lhes fazia pesaima vizinhança,
porque o mesmo donatario obtivera de Affonso V
o tornai-a couto de homisiados. D' ahi aurgiam na
comarca roubos, feridas, mortes, e, em Portimio,
aftluencia de mulheres de vida deshonesta.
Esta. queixas dos povos é preciso descontai-as
sempre com certo rebate; e temos agora uma prova
em que, ao mesmo tempo que Silves se queixa do
augmento de criminalidade no concelho, tambem se
ressente da prolongada assistencia na cidade do corre-
gedor do Algarve. Todas as outras terraa, excepto Ta·
vira, a:ffirma a cidade, haviam sido doadas a senhores
particulares, e n'ellas era a entrada vedada ao col'l'e-
gedor. Em 1,avira o mais do tempo ha alçadas ex·
traordinariaa por causa das continuas desordens do
povo com os fidalgos. Assim o corregedor nlo larga o
seu aasento em Silves, que tem de o sustentar, a maior
parte do anno, o que lhe custa quatro a cinco mil
reaes. Tambem aqui nos parece haver incorrecção.
Tres annos antes, nas côrtes de 14 77 de Montem6r-o-
2 Odiaraa, liT. v, fi. 162.
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144 O paiz e seu estado social
Novo
1
, mas em capitulas geraes de todo o Algarve,
que, por isso, nos merecem maior fé, não só Silves,
mas tambem a villa de Lagos, aventavam identica
queixa de que o corregedor, ou os ouvidores por elle
deputados, nilo largavam uma e outra terra; e nlo
sabemos que, n'este intervallo, fosse a ''illa doada a
ninguem.
Nenhum d'aquelles aggravos, p1·oduzidos nas cOrtes
de 1481, foi attendido por D. João II
1

A cidade andava sempre envolvida em desavenças
com o seu bispo e cabido; no que procediam mal avi ..
sados, porque a residencia d'estas dignidades eccle-
Hiasticas redundava em favor da .terra, e bispo e capi-
tulares nlo curavam de viver em um foco de febres
paludosas. Por isso estes em breve trabalharam para
obte1· a transferencia da Sé para Faro, · o que final-
mente conseguiram pela bulia de 29 de outubro de
1539
3
• Essa bulia fundamenta a resolução pontificia
em que Silves nlo contém mais de 240 fogos, pela
maior parte plebeus e pobres; e que, pela intemperie
dos ares e intensivos calores do estio, durante cinco
mezes não se p6de ahi habitar sem perigo de vida ;
que o bispo não reside, e poucas vezes visita a igreja;
e, durante aquella estação do anno, capitulares, eccle-
siasticos, officiaett, e os moradores que pódem, aban-
donam a cidade. Mas então o concelho e munícipes
I Côrtea, maço 2.•, n.
0
14, ft. 144.
2 Capitulo& de Sil\"e&, Oham:elltwia de D. Jo6.o II, liv. n, fl. 8; Odia·
aa, liv. IV, fl. 161 e liv. v, fl. 252.
s Silva Lopes, citado: a data da bulia vem abi errada.
 
O paiz e seu estado social 145
contrariaram por tal modo a execução da bulia, que a
transferencia nlo se levou a effeito senão sob a prela-
tura de D. Jeronymo Osorio, no reinado de D. Sebas-
tião.
Em Tavira o numero de fogos constava, na villa,
de 1667, e, no tem1o, de 478. •ravh·a era um porto
commercial, que, na ptimeira metade do seculo xv,
mantinha relações com Bruges', sem duvida para ex-
portação das suas fructas e vinhos, que, em capítulos
de 144 7, a villa dizia serem a sua principal produc-
çilo agricola
1
• O viajante allemão Nicolau de Popplau,
ou Popielovo, que a visitou em 1484, conta que, na
extensi\o de duas milhas antes de chegar á villa, se
viam do mar figueiraes e olivedos, tão espessos como
uma selya; e que ahi encontrou muitos negociantes
de Flandres, que faziam compra de uvas e figos
3

Durante o reinado de Affonso V tumultuavam ahi,
como acima dissemos, continuadas desordens entre o
povo e os fidalgos, motivadas, segundo o concelho se
amofinava nas côrtes de 1478, pelas concessões, con-
trarias aos f6ros municipaes, que o rei fazia aos fidal-
gos
4
• Attento o carader perdulario e imprevidente do
monarcha, e a sua obsequiosidade para com a nobreza,
ni\o duvidamos dar credito e razio ás allegações dos
magistrados municipaes de 'l'avira.
I Livro doa Eztrru, Jl. 12.
:t Odiana, Jiv. IV, fi. 69.
s Viaju de Eztranjerot por &pala 11 Portugal, etc., Colleccion de
Javier Liake, tradueidos por F. R., l'rladrid, 1818.
4 Odiana, liv. v, :ti. 118.
10
146 (J paiz 6 IBU 100ial
Lagos contava na villa 1810 fogos, e, no termo,
453. O desenvolvimento do commercio maritimo ele·
vára ai categoria de villa importante uma povoaçio
que, no meiado do seculo xm, não passava de uma
aldeia, doada á Sé de Silves
1
• Do seu porto sa.rpavam
as caravelas que o infante D. Henrique enviava ás
descobertas do mar Atlantico. Nos fins do seculo xv,
como já dissemos, a importancia da villa declinou,
pela transferencia para Lisboa da navegação e com·
mercio com a Africa. Tambem, pela descoberta da
via maritiiQ.a para a India, cessaram as viagens das
gaMs de Veneza, que por Lagos faziam escala de pas-
sagem para os portos do norte da Europa; os venezia-
nos vendiam especiarias, pannos e outros artefactos, e
compravam victualhas
11
• A pesca ficou constituindo a
grande industria da villa, a compenslll··lhe, pelo menoa
parcialmente, as perdas. Em 1490 haviam-se ali ar-
mado recentemente, por mandado real, vinte e dois
acedares para sardinha. Existiam tambem armações
para corvinas e atuns. Na salga do peixe gastavam-se
annualmente dez mil mois de sal. O termo produzia
vinho e trigo; mas este não bastava senão para metade
do anno
3

A Lagos seguiam-se, na importanoia da população,
Faro com 873 fogos na villa e 572 no termo; e Loulé
com 53 6 na villa e 4 7 6 no termo.
l Herculano, HútoriG de Poriii(J4l, tomo m, liv. VI.
z Odiana, liv. u, fl. 294.
3   de D. Jo&J II, liv. x, fl. 114.
O paiz e seu estado social 14:7
Regressando ao not·te do Tejo, encontramos a villa
murada e acastellada de Santarem, com 1998 fogos.
O termo estendia-se para alem do Cartaxo e de Rio
Maior, e para lá. do Tejo, incluindo Almeirim, com os
seus amenos bosques e matos bravios, onde D. Joio I
fundára uma casa de campo e uma elevada torre;
contavam-se nelle 3377 vizinhos. Dess'outra banda
do rio dilatavam-se vastos campos de ferragiaes.
D'aquem vinhas e pomares revestiam os montes, sobt·e
os quaes campeava a villa, e ao sopé emquadra.vam.
os dois arrabaldes da Ribeira e do Alfange. Densos
olivaes recobriam os outeiros e valles, que se prolon-
gavam para o norte
1
• O ((desejado Almeirim, o farto
de Santarem » gozavam de nomeada em todo o reino
111

No seculo xv Sautarem distinguia-se pelo seu caracter
aristoeratico. Alli demoravam muitas ilJustres familias
em seus solares. Depois, quando as delicias de Lisboa
engodaram e attra.hiram a fidalguia, essas no9res
sas foram tombando em ruínas
3
• A abastança dos ha-
bitantes, e o favor da realeza de que a villa era t•esi-
dencia dilecta, haviam congregado em curto espaço,
na coroa semilunar dos seus cerros adjuntos em
commum cabeço, collegiadas, mosteiros pinguemente
dotados, e primorosas   que ainda hoje, apesar
das deturpações, conservam o traçado o1iginal e mui-
tos dos primitivos membros, e de tanto maior preço,
que ellas se germanavam com as de Lisboa, que para
sempre desappareceram.
I Oatalà'IJI Siclllw, citado.
2 Sá de Miranda, carta ó.•
3 &ua, HWioria de S. liv. u, c. 1.
\
148 O paiz e seu estado social
A picturesca villa de Thomar, nas duas margens
do Nabão, comprehendia 737 fogoa, o seu termo cêrca
de 1516. Fundada pelos templarios, a villa com seu
termo pertencia, temporal e ecclesiasticamente, á Or-
dem de Cluisto. O convento, então adjunto á igreja
de Santa Maria do Olival, era a cabeça de toda a
Ordem. Como as outras ordens militares, a de Ch1isto,
alem dos seus commendadores e cavalleiros, com-
punha-se tambem de freires sacerdotaes; ao prior
do convento·de Thomar, onde estes assistiam, oompe-
tia a jm·isdicção ecclesiastica da villa. A jurisdicçfto
temporal era exercida pelo ouvidor, nomeado pelo
Mestre.
Des que o rei D. Diniz transferiu os bens e privile-
gio& da extincta cavalla1·ia do 'l'emplo para a de Christo
até aos fins do seculp XIV, a sorte dos moradores de
Thomar não se poderia tachar de gravosa; pagavam
o dizimo, e os direitos de portagem ; moendas, pisões,
e fomos eram monopolio da ordem
1
• Parece mesmo
que a avidez não dominava no Mestrado. Quando
D. Diniz pediu ás auctoridades municipaes o transsum-
pto do foral, para se certificar dos direitos que devia
cobrar a nova ordem, foi-lhe por ellas enviada uma
copia truncada, em que se eliminaram as jugadas de
cereaes, vinho e linho. A ordem não reagiu. Mas, no
começo do seculo xv, o mestre D. Lopo Dias de
Sousa, menos accomodaticio, descobriu que o foral
de Torres Novas fôra a tJ·ansCJ·ipçào do outorgado a
Thomar, no que se não enganava, porque n'aquelle
1
Foral de Thomar, Foraes Novos da Estremadura, fi. 88.
,.-... .,ess.:t
O paiz e seu estado social 14:9
expressamente assim se declara
1
; reclamou judicial-
mente aquelles tributos, e-alcançou-os po1· aentença no
anno de 1407. Annexou-os á mesa mestral, quer dizer,
ao seu proprio usufructo. Os lavradores, alem do di-
zimo, sairam da demanda onerados com mais o oitavo
das suas colheitas. Ainda assim não constituíam exce-
pçiio, nem ficavam tiio sobrecarregados como em mui-
tos reguengos da coroa. A uma prestação, suscitando
suspeitas de fiagiciosa origem, estavam elles adstri-
ctos, mas envolta agora em certa aureola de fidalguia.
Era a gayosa de um alqueire de pilo cozido e um
almude de vinho por occasião e antes do casamento.
O noivo cavalgava, armado de uma lança, e levando
comsigo aquella oft'erta; chegado ao castello, dava
com a lança na porta, clamando acavalleiro quero eu
ser»; a esta voz sabia f6ra o alcaide, e arrecadav.a a
pitança. Se elle casasse sem esta previa obediencia,
tomava-lhe o alcaide o oitavo dos seus haveres
1

Nas cOrtes de 1498, os de Thomar profaçavam o
alcaide do castello de oppressor, que abusava da sua
jurisdicção, demasiado ampla e odio1:1a ao povo, para
penhoraa· e demandar, e prolongava adrede os lití-
gios, de sorte que «OS homens pobres deixam perder
o seu, e ficam roubados,,. O DoJm Prior e freires do
convento não experimentam melhor gasalhado, pelas
vexações que infligem no arrecadamento das rendas.
l Gama Barros, Hútoria. da Ãtlminútração Publica, tomo r, pag. 87.
2 Elucidarão, s. v. Tempreiro1; Fr. F. Brandlo, MoMrclaia Luritana,
tomo n, li v. xu:, e. 11; Definit;õu e utatulol da Ortlsm de Clarüto, Lis·
boa, 1671; · J. P. Ribeiro, Diuertcu;iilll chronologicM e criticai, tomo v,
pag. 400.
--
150 O paiz e seu estado social
Mas como os reclamantes, logo em seguida, acoimam
os seus proprios vereadores de nepotismo e corrupçlo,
afigura-se-nos que r.l-rei D. Manuel se houve sizuda-
mente, mandando previamente examinar a causa ori-
ginal dos aggravos
1

O magestoso convento da Ordem, que hoje vemos
no viso do monte a padrasto da villa, nilo existia
ainda. Havia ahi sómente o caatello, com a sua capella
e primitivas edificaçoos do fundador, o mestre D. Gual-
dim Paes, e um claustro e aposentos, erigidos pelo in-
fante D. Henrique
1
• O monumento, que agora nos
maravilha pela sua grandeza e primor artistico, é obra
de D. Manuel e de seus successores atá Filippe III.
Documento é tambem de quão minguado infiu:xo
exerce a razio p ~ r   no regimento da sociedade. Re-
conquistado o reino do dominio mussulmano, em que
muito se assignalaram as ordens militares, perderam
ellas toda a razão de e:xistencia; sobretudo depois
que, acaudilhadas pelo infante D. Fernando, irmão de
D. Affonso V, alcançaram dos tribunaes pontificios
sentença de isempção de toda a gue1·ra invasiva; de-
mais que, por esta epoca, se outhorgou a todos os
cavalleiros professos das tres ordens a faculdade de
contrahirem nupcias. Foi então que se levantou aquella
esplendorosa fabrica para habitaçAo de alguns frades,
reduzidos á clausUl·a por D. Jolo III, e séde do go-
verno de uma associaçlo, que da ordem militar nlo
t E.trematlura, liv. 1
1
fi. 243.
z Fr. F. Braodlo, citado.
_lo_
O paiz e seu ~ t   d o social 161
conservava aenilo o nome, a cruz vermelha no habito,
e o gozo de todos os rendimentos e prerogativas.
Uma descripção do paiz, mesmo cursoria como esta,

não dispensa a recordação da vasta e opulenta abba-
. dia de Alcobaça.
Erigida por D. Atfonso Henriques, e doada aos
monges de Claraval, foi um dos cento e sessenta con-
ventos, filiados n'esse famoso asceterio pelo seu santo
prelndo Bernardo, o oraculo da Europa no seu tempo.
Não desmentia·am os monges de Alcobaça nos pri-
meiros tempos a profissão do seu instituto. A elles se
deveu successivamente a cultura de uma extensa parte
da alta Estremadura
1
• ·
No couto, doado por D. Afl'onso, que abrangia todo
o territorio entre a, Pederneira e a foz do Selir nas ri-
bas do mar, demarcado no inte1ior por uma linha ba-
lizada approximadamente pelas povoações inclusas de
Cós, Aljubarrota e Turquel, e que comprehendia uma
area de cêrca de quarenta leguas quadradas, o mos-
teiro disfructava todos os impostos prediaes, e os
dízimos da Igreja; exercia certa jurisdicção espiritual,
e tambem a temporal, subordinada á superior .alçada
do corregedor.
O rendimento de prestações de cereaes orçava, em
1476, por quinhentos moios'. Foi em 15311ixado o
numero de todos os conventuaes em sessenta, e ele-
vado, sete annos depois, a oitenta
3

t Hercal"oo, BvttwitJ de Portugal, tomo 1, Jiv. n.
z Frei Maoael doa Santos, AlcobagtJ iUuwatla, pag. 818.
3J6ifl., pag. 889 e 841.
152 O paiz e seu estlUlo social
Que, no seculo :XV
1
OS moradores desamavam O Se·
nhorio do mosteiro, mostl·a·se bem claramente por va-
rias rt:voltas tão incendidas, que, para as apaziguar,
se tomava neceBBaria a intervenção do poder civil •.
A riqueza derrancára os costumes d'este e de todos os
demais conventos das ordens bernarda e benedictina
1

Concorreu ainda para relaxar mais a disciplina a
substituição, por este tempo, dos commendatarios
alheios á ordem, prepostos pela Curia, aos abbades
perpetuas de eleição do Mosteiro. Os commandatarios
não curavam senão de comer a renda, sem mesmo
r e s i   i r ~ m no convento. A lucta, empenhada éntre o
cardeal D. Jorge da Costa, primeiro commendatario
de Alcobaça, e el-1·ei D. João II, que não levou, por
fim, a mPlhor, desenrola um painel pouco edificante
dos propositos mundanaes da côrte pontificia
3

Em grossura de haveres manachaes, Alcobaça oc-
cupa o segundo logar, sómente inferior ao de Santa
Cruz de Coimbra. Ás suas posses correspondia a gran·
deza das suas edificações, que, apesar da aproprição do
rendimento por estranhos, continuaram durante toda
a existencia do convento. No seculo :x:v ainda o edifi-
cio não attingira as proporções que depois adqui1iu
com os accrescentamentos de D. Manuel, do Cardeal-
rei, e dos Filippes. Compunha-se então sómente da
igreja e do velho dormitorio, obras dos primeiros reis
da dyuastia affonsina, e do claustro de D. Diniz ';
I Ibid., pag. 260 e aeguintea.
2 Bulia de Nicolau V, lbià., pag. 21J8 e seguintes.
3 lbid., pag. 287 e aeguintea.
• l!'rei A. BriUldào, MoMrclia .Lutitana, parte UI, liv . .1
1
eap. uxn.
l
I
I
O paiz e seu estado social 158
mas a igreja guardava na sua pureza primitiva a aus-
tet·a simplicidade, com que ainda h->je nos assombram
as suas alterosas naves, obra do p1·imeiro architecto
cisterciense.
Leiria, banhada pelo rio Liz, bemquerido da poesia
bucolica do seculo   recebeu de D. Jolto I
o privilegio, confirmado por D. Afonso V, de nunca ser
o seu senhorio alheiadf) da coroa. O seu roqueiro cas-
tello fôra restaurado po1· D. Diniz, que lhe reconstruiu
a tor1·e de menagem, o fortaleceu com baluartes, e
lhe adornou os paços de formosas quadras e de ima-
ginosos cinzelados. As recordações da rainha Santa
Isabel, donataria da villa, e que ali esta.nceára, accres-
centavam o lustre, que ao antigo castello conferia a
hist01ia de um glorioso pa.asado guerreiro
1

Leiria constava de 584 fogos; e o seu termo, em
que então se comprehendia a igt·eja e mosteiro da Ba-
talha, de 1478
1

Aa ferazes veigas, por onde aerpeia o Liz, as quaes,
desde Leiria até ao mar, medem vinte e oito kilome-
tros sobre a largura media de um e meio, produziam
principalmente trigo tremez e milho
3
• D'esses campos
em grande parte pertencia o senhorio ao rei; e1•am re-
guengos. Como taes pesava sobre elles a quota tribu-
taria de um quinto, em outros de um quarto, e até de
t Fr. A. Braudlo, M-marclaia I.mlitana, partem, liv. IJ:, c. 25; Fr. F.
  lbitl., parte v, liv. xv1, c. 58, e parte v1
1
liv. XIX, c. lU.
z A Blltalha foi deaannuada, e inetituido& em municipalidade em
1600: E1trtmtJtlura, liv. I, fi. 276.
3   liv. nr, fi. 286.
154 O paiz e seu utado 30cial
um terço, alem de outros gravames aupplementaree '.
O lavrador, assim acurvado pelo imposto, estava in-
habilitado a pagar au:fficiente salario aos seus jorna-
leh·os; por isso o ganhapão se fazia carpinteiro, serra-
dor, ou carreiro, o que contrastava o interesse dos pro-
prietarios. Em 1455 solicitaram ellea do rei, que
tolheBSe essa mudança de officio; mas o rei manteve o
direito da liberdade pessoal'. Tres annos depois, em
1428, o concelho allegava, que a terra se despovoára,
e que tio grande era o numero dos munícipes que o
rei privilegiá.ra, que nilo havia gente bastante e apta
pAra preencher o numero de quarenta bésteiros, a que
estava legalmente obrigada; pedia o abaixamento a
vinte. O rei concede, mas com a condiçlo de que os
outl"Os vinte disJrenlados sejam empregados em abri-
rem as valias dos seus reguengos
3
• O serviço militar
foi trocado em &ei'Viço braçal.
Esquecido d'estas magoas, Aft'onso V, com a sua
usual leviandade, praticou em breve um acto, que sem
encarecimento se p6de qualificar de desaforado, se
tomarmos em conta que a coroa era possuidora de
grandes matas e do grande pinhal nas vizinhanças de
Leiria.
A villa tinha, em renda, de oito a dez mil reaes, de
que a terça parte, na f6rma da lei geral, era cobrada
pelo fisco para a reparaçlo da oarca e do castello. Com-
parado com o de cidades como Braga e Lamego ', este
'Foral de Leiria, Foraes Novos da Estremadura, fi. 80.
z 0/mn«llaria de D . .4ffomo V, liv. xv, ft. 67.
3 Eltremaclura, liv. IT, ft. 265.
• Vide infrQ,.
"V.*' . ç-
O paiz e seu social 155
rendimento municipal era avultado. Para supprir des-
pesas extraordinarias, como a proci88ilo do corpo de
-Deus, valia-se ainda o concelho da venda da madeira
de. um pinhal, propriedade sua. Em 1462 ordenou o
rei, que lhe cortassem, para elle, no referido pinhal
trezentas duzias de taboado, e seBsenta duziu de cin-
tas e arcos. O pinhal ficou desbaratado. Em compen-
sação o concelho pôde apenas conseguir a remiui\o da
te_rça d' esae anno •.
  V poz remate aos mana tratos da villa,
empenhando-a seis ou sete 1:1.nnos antes da sua morte,
ao conde de Villa Real, D. Pedro de Menezes, rico
fidalgo e denodado cavalleiro
1
, por dois contol!l. Ella
rendia, de imposto para o Estado, quinhentos mil
reaes; os de Leiria tachavam de vexatoria a f61·ma por
que o conde os arrecadava. Era este um dos infindos
cargos, com que as côrte& de 1481 malsinavam as dila-
pidaçõea d'el-rei D. AffoD.Bo. O seu suooessor promet-
teu occupar-se do assumpto
3

O que concorria par.a manter os habitantes de Lei-
ria era a sua industria. Em 1489 estabeleceram um
engenho para o fabrico do papel, que, no seu dizer,
era o ptimeiro que se fundava em Portugal, e requeria
grandes despesas e cabedaes. Já anteriormente labo-
ravam ahi pis&s de burel
4

I &tremadura, liv. IV, ft. 292.
z Vide adiante capitalo v.
3 C6rtea, maço 8, D. • ó, Cspátub tk jaMruls, il. 14..
t CAcuacellsris tk D. ÃffOJIMJ V, li'f, :u, ii. 8; &lretRGdurc&, liv. s
1
fi. 68.
156 O paiz e 1eu estado 1ocial
Estes cabedaes, e arrojada iniciativa fabril, suppo-
mos que proviriam da communa dos judeus; não po-
demos atinar com outro modo de explicar a sua exce-
pcional existencia n'esta villa ..
Essa communa, pe era rica, sabemos de certo que se
assignalava tambem por homens doutos. Com ella está
ligado o nome do mestre Guedelha, astrologo e medico
da côrte no reinado de D. Duarte e nos primeiros an-
nos do de Affonso V; d'esses soberanos recebeu ~     ~ o
usufa·ucto do serviço real, que pagavam os seus corre-
ligionarios da villa •. Era mestre Guédelha um pro-
fundo sabio em ler os futuros eventos na posiçAo rela-
tiva dos astros. D. Duarte, philosopho e incredulo,
desprezou os conselhos, e, em menoscabo das supplicas
do astrologo, eft'ectuou a solemnidade do sen alevanta-
menta ao throno, quando «Jupitel' e a ~ t a v a retrogrado
e o Sol em decahimento». E logo o mestre lhe augu-
rou poucos armos de vida, e cortados de trabalhos t,
Mais respeitador da sciencia, o infante D. Pedro na
enthronisaçào do seu sobrinh?, el-rei D. Affonso V,
seguiu-lhe á risca os preceitos. E aconteceu que o
rei, ainda então na puericia, veiu a lograr muitos an-
nos de vida, mas com sacrificio do infante, seu tio, a
quem occasionon a morte na batalha de Alfarrobeira
3

Esta abusão da influencia planetaria durou ainda se-
culos. Em 1568 o famoso mathematico Pedro Nunes
t CkanceUaria de D. AffrmMJ Jt, liv. x:uiY, fl. 116, em Sousa Vitforbo
1
Traba.llun nautiCOB do. portuguuu, parte 1, pRg. 187.
z Pina, Ckronica de D. Duarte, e. 2.
3 Pina, Chronica de D. Aff'oruo V, e. 2.
l
~       · õ
... ,. .
() pai..z 6 seu estado social
aeonselhava, em vista da configuração dos astros, que
D. Sebastião differisse a sua coroaçlo •. Não garanti-
mos a realidade d' este facto paa·ticulaa·. Mas ainda no
seculo XVII se acreditava na veracidade dos juizos as-
trologicos '. -
Afóra Lisboa, Leida· foi a unica terra do reino em
que existiu uma typographia hebraica no seculo .xv.
Das reproducções d'esta ultima, conhecem-se o texto
hebraico doe prophetas maiores
3
; e o tratado do rabbi
Jacob ben Ascher sobre a lei ritual, impresso pol'
Abraham d'Ortas em 1495
4

Coimbra, que desde o tempo do conde D. Henrique
atá quasi aos fins do seculo xm fôra ·a capital do reino,
tinha descido na gerarchia. No seculo xv, fignrava
apenas como cabeça de um ducado, que primeiro per-
tenceu ao malaventurado infante D. Pedro, e depois
ao filho bastardo de D. João II. Na coa·oa do monte,
o palacio real, velho e arruinado
5
1
symbolisava este
1 Barbosa Machado, M•moricu de D. Sebtueião, tomo m, liv. r, c. 1.
2 Ordemzçüu PAilippina., Jiv. v, tit. m, §a.
3 Antonio Ribeiro doa Santos, Memoria• de Litteratura da .Academia,
vol. n e vm; Cf. Hiltoria e Memoricu dtJ .Academia, tomo z, parte r,
pag. 141.
l Ha um exemplar d'esta obra, esposto ao publico na sala doa im-
pressos hebraicos da Bibliotbeca municipal de Fraucfort sobre o Main;
o qual, segundo diz o catalogo, que ulli consultámos, e d'onde deriva-
moa esta noticia, é o unico conhecido. Tambem na mesma sala ae en·
contra um exemplar do oommentario sobre o Pentateucho do rabbi Moy-
aés ben Nach111an, impresso em Lisboa por Elieaer Toledano em 1489.
Ben Nacbman, de Gerona, viveu de 119ó a 1270; Ben Ascber, de To-
ledo, de 1288 3 1840: Ge•chicl,te der Rabbinilchm Litterat.r waehrend
du Mittelalter1, Trier, 1894, S. 424, óOó.
~ Goee, CAronica de D. Manuel, parte rv, c. Só.
158 O paiz e seu utado social
descenso nobiliarchico. Todavia era uma du princi-
paes cidades: numerava 2209 fogos, e o seu termo
2360. Distinguia-se tambem entre as primeiras 11raças
de guerra do seu tempo, pela fortaleza das torres e
muralhas, que, ainda no meado do secu lo xvm, se
conservavam em perfeito estado
1
, ·e de que ~ i   pode-
mos fazer eonceito pelo aspect.o pujante do Arco de
Almedina, uma das portas da cidade.
A descripçlo das relações entre as classes sociaes
do concelho de Coimbra, no seculo xv, dá uma syn-
these exacta do que, a este respeito, passava em todo
o pa1z.
Na cidade e seu termo se achavam congregados,
na sua mais aquilatada representação, todos os ele-
mentos da sociedade, -- o clerical, o monastico, a no-
breza, o m&lo proprietario, a burguesia mercantil, o
povo dos lavradores e jornaleiros; e todos estes ele-
mentos lidavam em refrega continua entre si, e, no
conjuncto municipal, com os concelhos ]imitrophes.
O bispo e. cabido, o convento de Santa Cruz com
os seus sessenta conegos ', e os nobres donatarios da
coroa, dividiam para si a maxima parte das vastas
campinas do Mondego
3
• Os bens dos cidadãos abona-
dos consistiam principalmente em olivedos'. Azeite e
1 Lima, Geograp1i4 hütorica, vol. u.
:a Em UU. No meiado do aeeulo :r.vn o numero tiDha aubido a eento
e vinte: Nicolau de Saata Maria, Olar01rioculo. Oonego. Bcgrtlfttt•, tomo n,
Iiv. vn, eap. :um e liv. u, eap. :r.zv.
3 &tremadura, liv. vu, fi. 268 e 2!>9.
4 Ibid., liv. v, fi. 281.
--.. ,
     
. . . .
O paiz e seu estado social 169
vinho, produzidos em exce88o do consumo, alimenta-
vam o trafego do mercador'·
A oathedral e o cenobio dos conegos augustinianos
constituiam, no edifioio material como na in1portancia
dos seus prelados, as duas primeiras grandezas de
Coimbra. Entre ellas não reinava a cordialidade.
Desde o tempo de D. Aft'onso Henriques, o convento
de Santa Cruz, com suas   et"& livre e isento de
subordinação aos bi .. pos de Coimbra, e constituía, por
si, bis pano particulat·
1
• O priorado de Santa Cruz ha-
via-se geralmente por igual em rendas e conaideraçio
a qualquer arcebispado; o seu titular não se reputava
por somenos do bispo, conde de ÁI"gauil. AD. Joio
Gaivão, bispo de Coimba·a, e a seus succeBSores, foi
conferido eete titulo uobiliario, pelos serviços que
aquelle prestou na tomada de Anilla e de Tanger
3

O pomQ de discordia entre as duas potencias eccle·
siastioas estava sobi"etudo na jurisdicçio 01·dinaria e
metropolitana, com appellação immediata para a Santa
Sé, ou seu Legado, que o prior-m6r exercia na fre-
guezia do convento e annexu.
Na situação hostil, criada pelo ciume e rivalidade,
qualquer centelha bastava para ateiar grande eonfla·
graçAo. Assim succedeu em tempo de D. João II, em
1490, em que regia no convento D. João de Noronha,
filho do marq uez de Villa Real, e na diocese D. Jorge
1 lbid., liv. 1, fi. 287
1
e ChanctUaria de D. João II, liv. xur, fl. 127.
J Frei Antonio Brandia, Monarchia .Luituna, parte m, liv. z,
cap. J:LJv.
J Por carta regia de 2ó de 1etembro de U 72.
160 O paiz e seu estado social
de Almeida, tambem de nobre linhagem. O famulo
comprado•· de Santa. Cruz entrou um sabbado no mos·
teiro sem levar carne, porque no açougue tinham pri-
meiro servido o criado do bispo, que a com,l)rára toda.
No dia seguinte, por suggestão do prior escandalisado,
os criados d'este assaltaram com mito a1-mada a cozi-
nha episcopal, e apossaram-se de toda a carne que
encontraram. A guerra accendeu-se. Dividiu-se a ci-
dade em dois bandos, feriram-se brigas de cutiladas e
mortes. os dois contendores invocaram o auxilio
de seus nobres parentes, que accorreram com seus
escudeiros e va88allos. A lucta clerical tornou-se em
lucta de fidalgos. Os dois bandos estavam a pique de
se em batalha campal, quando chegou a
ponto o commissario, que o rei tinha enviado com tro-
pas á cidade. Este, não sem difficuldade, acabou por
suffocar os tumultos.
1

Em relação ao município, bispo e prior eram por
aquelle havidos na conta de seus mais acerbos adver-
sarias. Assim se expressavam os procuradores de
Coimbra nos capítulos especiaes apresentados nas cOr-
tes de Evora de 1460. Bispo e cabido, e o mosteiro
de Santa Cruz estavam sempre -diziam elles- a
contender com as aucto1idades do concelho em ques-
tões de jurisdicção; pelo que, os antigos tinham esta-
tuido que ninguem, que fosse procurador ou tivesse
qualquer officio da mão dos ditos senhores, podesse
exercer cargos municipaes, ou assistir aos conselhos
I Nicolau de Saota Maria,   doa Conegot Regrllfll.es, tomo u,
lh·. 1x1 ''· 29: Reaende, Vida tk IJ. João II, c. 100.
l
I
O poiz e seu eBtado aocial 161
da ve1·eação, seru1o quando ali tive88e algum nego.:
cio a tratar, de interesse dos seus constituintes; e ha-
via n'este sentido um capitulo, outorgado em cõrtes•
Reclamavam que se suscitasse a observancia d'esee
capitulo, ao que D. Affonso V assentiu t.
Sem duvida uma das razões do conflicto dimanava
do privilegio que, por carta de 9 de junho de 1409,
D. Joio I o u ~ o r   o u á cidade, mandando que os
laV1'ad01·es e caseia·os do bispo e cabido, e do mosteiro
de Santa Cruz, e demais conventos da cidade e termo,
bem como os dos fidalgos, pagassem e sel'Vissem nas
obras de fontes, pontes e calçadas. Desattendia·se a
immunidade dos bens da igreja e da fidalguia. E seria
pa1'8 atalhar a semélhante allegação, que a lei decla-
rava, que estas taes «são obras piedosas, e de que to.:
dos se aproveitam
1
».
Coimbt•a merecia aos fidalgos provincianos o ser
escolhida para residencia de recreio, e tanto mais que
o Porto lhes era interdicto. Para esse fim os mais
validos alcançavam alvarás de pousada, cama, e palha
gratuitas, paa·a mais do praso ali costumado de tres
dias, ou, em serviço regio, de um mez. O theot· de
vida· d'estes personagens era destempet-ado; do que
nas referidas cOrtes de 1460 se mazellavam os pa·ocu ·
radores da cidade. Não contentes com occuparem as
casas dos morad01•es, estragavam roupa e mobilia, gas-
tavam fructas, palha, herva, serviam-se das cavalgadu-
ras do hospedeiro. Os mais torpes desmandos, perpe-
t &tremadura, liv. v, fi. 231.
2 Eatrtmadura, liv. u, ft, 10
u
162 O paiz e Beu ellado 1ocial
trava-os sobretudo a gente do sequito, que a cidade
havia tambem de aposentar. IJ'estea a perve1'1idade
cevava-se em «damnos, injurias, oppresaões, des-
honras, que soltamente fazem em .mulheres, filhas
e Cl"eadas>>. A ppellando para a consciencia do· rei, e
por salvação da sua abDR, os procuradores pediam-lhe
por mereê, que enviasse os fidalgos para as suas ter-
ras. A.ft"ooeo V detel'lDinou que a estada d'elles na ci-
dade nunca excedesse o praeo legal'. Como era elle
pa'Oprio que violava o costume, concedendo licenças de
maior duraçilo, a resposta devia inspirar escasso con·
forto.
As vexac;ae• infligidas por clerigos, frades e fidal-
gos aos cidadãos de Coimbra não impediatn entre estes
a desunilo, que se desafogava em mutuas aft"rontas.
,
E o que nos ct:rtificam os aggravos capitulados n'estas
mesnuw côa·tes. Os 1n·ocuradores soltam-se em doestos
contra aquelles dos seus magistrado& municipaes, que
exercem a profissão mercantil, «porque o trato da
mercadoria, qne é comprar e vende1·, é cousa de en·
g,ano», e pretendem que o rei intel'Venha para excluir
os mercado•·es do cargo de juizes, ve1·eadores e procu·
radores de uma cidade, «onde ha outros muito enten·
didos, e bons homens, bem criados, que e6mente vi-
vem por seus bens, que p6dem servir os ditos oflicioe».
E, especificadamente, apontam por seus nomes cinco
mercadores, que baviam exea·cido cargos municipaes,
e a quem incriminam de concussões, prepotencias, e
t Elllrtmadttra, liv. ,., fl. 130 e 229.
168
até de uaarem no seu negocio de peeot e medida• fal.
saa. O rei 1-ecuaou-se a derogar para Coimbra o direi-
to geral estabelecido
1

Nlo era menor a n1alquerença entre oa da cidade e
os lavradores do te1·mo. Estes havian1 alcançado nu
oôrtes do anno anterior, poa· capitulo& de 8 de julho
de 1459, o direito de aerem representados na vereaçlo
por procuradores seus, que, na conformidade do 18U
requerimento, fiscalisassem o di&pendio dos dinheiro•
municipaea, e podeasem ave•iguar e dar conta ao mo•
narca dos malea e damnos da tel'l'a, da ana origem e
auct01·es
1

Por fim a benevolencia nlo dominava tio pouco
nas relações inter-concelhias: muito pelo contt·ario.
Coimbra exporta v a para o eatrangeh·o os &eUI vinhos
e azeites pela barra de Aveiro. Ora esta villa preten-
dia qne, pelo seu direito commetudinario, s6mentc aos
proprioa moa·ado1·es, e a ninguem mais, natural ou
estrangeiro, cabia a prerogati va de exportaa· merendo-
rias pelo ateu porto, e, portanto, a de serem ellea o&
unicos negociantes dos generos exportados. Igual mo·
nopolio se arrogavam outl·ae tet·ru maa·itimas. E, entre
ellas, provavelmente tambem a villa de }fontem6a·-o-
Velho, em cujo termo cabia a barra do   clm-
mada entAo Foz de Buau·cos
3
: mas d'esta contenda com
Aveiro ae infere ser aquelle po1·to pouco f1·equentado
t Ibidem.
z CAanctllaria de D. A.ffon• V, Jiy. x:uv1, ft. 164; vide 01 Documen-
ta. iUwtratiiJOI,
I Pina, CAroni«J de D . .dffomo V, c. 90; Furai de Montem6r-o.Velbo
1
de 90 de agosto de 1516, Livro doe foraee povoe da Eatremadura.
164 O pai-e e seu estado social
no seculo XV. Como é de suppor, uma cidade set·ta-
neja, como Coimbra, indignava-se, nas côrtes de 1498,
contra similhante •desarrasoado, cobiça e oppresslo»,
que tanto lhe prejudicava os interesses. Com efTeito s6
então vieram a conseguir, em hat·monia com as suas
reclamações, «para os mot·adores da cidade e seu
termo, e para todos os estrangeiros que ahi viessem
comprar vinho, azeite, ou outra mercadot·ia, privilegio
e liberdade de o can-egarelh em qualquer porto de
mar, depois de pagos os respectivos direitos, sem em-
bargo de usos, costumes, postums, ou sentenças em
contrario allegadaB>> '· .
Eis, em esboço, a vida social de Coimbra no se-
colo x.v: e semelhante feição se reproduzia em todos
os concelhos de P01·tugal.
Aveiro, villa cercada de muros e torres, que
D. João I mandára edificar', e cm cujo remate se tra-
balhava ainda em 1490
3
, continha 994 fogos: o seu
termo 1466. Dos moradores da villa, grande parte
eram mareantes e mercadores, que viviam largo es-
paço do anno f6ra de suas casas
4

A principal industria da localidade eram as mari-
nhas de sal:;,
Aveiro, como todos os concelhos do reino, padecia
do menosprezo, infligido pelos propt-ios m01·adores á
t E.tremadttra, liv. r, tl. 237.
z 0/.ancc:llaria de D. ,dffoJliO V, Iiv. xt, fi. 69.
3 Capitulos de Aveiro, Ol&ancellaria de D. JolW II, Iiv. xvx, ft. 18.
4 Capltulos de Aveiro, OliaJU:ellaria de D. Manutl, liv. XLrv, ft. 23.
•   Affo118incu, liv. 1
1
tit. LU
1
S J.l.
- """':' 31
l
I
I
O paiz e seu estado social 165
sua condição de munícipes, a qual abdicavam para se
acostarem á. Sé, ao mosteit·o, ás casas fidalgas, com o
fim de egoisticamente se eximirem, sob o abrigo do
privilegio, dos encargos, serviços e fintas do con-
celho
1

F6ra do termo, propriamente dito, dava-se uma pe·
culiaridade judicial. Em certos exiguos concelhos ad-
jacentes a justiça civil pertencia ao bispo de Coimbra,
ou ao mosteia·o de Santa Cruz, e a justiça criminal á.
jurisdicçlo da villa. Assim succedia nos concelhos su-
bordinados de Ois, Bairro, Mogofores, Anadia, Pe1·eiro,
Agueda de Cima, e no Couto de BarrO. N'estaslocali-
dades os juizes da villa nomeavam delegados seus,
chamados jurados, que tinham a seu cargo prender e
segurar os criminosos; e os mesmos juizes pe1-corrinm
o districto para desempenho dos seus deveres. As des-
pesas de todo este serviço car1·egavam elles soba·e os
respectivos moradores. D'ahi surgiam conflictos com a
auctoridade ecclesiastica, porque os interessados se
soccorriam ao bispo e ao prior do com•ento. «E estes,
com a vara da Santa Igreja, por excommunhio que
põem nos juizes, defendem que so nlo lancem taes
despesl\S, nem se constranjam os seus lavradores, e
n6s, com temor da dita excommunhão, os nito manda-
mos const•·angea·,,. Assim se queixavam os procurado·
l'CS de Aveiro nas CÔl'tes de 1482. o aggravo sobretudo
os mngoaya por terem os da sua villa e termo de sa-
I CJAtJncellaria de D. Ãj'ouo v, li v. xr, a. ó9: vide 01 DocttmffllOI
   
'1
·,.

166 0 paiz e HU eMado 10ciaJ
tisfazer o respectivo dispendio. D. Joio II deferiu á.a
suas reclamaçaes
1

A confnsilo jurisdiccional, que, n'este te1-ritorio, dif-
ficultnva o encargo aos juizes de Aveiro, aggravou-se
desntinndamente em tempos posteriores. No seculoxvm
ha,·in. po,•oaçaes enjeitas por partes a dift'erentes al-
çadlls. A villa de Agueda offerece o supe1·la.tivo d'esta
complicnçilo, que muito sobrelevava Aquella, de que,
no scculo xv, se doiam os j u i ~ e s de Aveiro. A sua
jUI·isdicçi\o pertencia a quatro senbat·ios; de sOrte que
succedia appellarem os visinhos para differentes ()Uvi-
dores, segtmdo o lado da J•ua em que habitavam
1

A provincia do Minho já. entlo se celebrava pelo
seu· arvoredo e ribeiros de aguas cristallinas, devesas
cercadas de uveiras e pat-reiraa, sementeiras de milho
e painço   Dava na vista, pela singularidade, o enla·
ça.mento das videiras nas arvores, usança de origem
J'Omana, que se encontra já. referida em empraza-
mento do seculo J.lll
4
• A densidade da populaçlo so-
brelevtt.va, como em nossos dias, á. de qualquer outt·a
circumscripçno do paiz.
N'esta provincia, e em todo o Alem-Douro, desta-
cava-se o Porto pela sua grandeza e riquezas.
1 E1tremadura, li v. m, fi. 278.
z "AI varA de 7 de janeiro de 1792.
3 Barreiros, Ooorographia cit. : N"'- Cluiardi EpwtoltJntm libri duo,
Aotuerpiae, li v. u, carta de 8 de tetembro de 1587 ao arcediago Parvu1.
• Lobio, Appetldice ao 7ratado do Direito JDmphgtev.tico.
l
~
;- --·-;,-
O paiz e 1eu. 631ado 1ocial 167
O Porto fOra um dos auxiliares mais enthusiaaticos
da causa do mestre de A viz e da independencia nacio-
nal; e desde o principio da insurreiçlo, quando a fi.
dalguia. tinha sujeitado ao mounrcha de Castella a
maxima parte das provincias do norte. Foi n'essa J'e-
giio o baluarte da. causa nacional. Mns os seus servi-
ços tinham-se certamente oblitet•a.do da memoria do
batalhador Afl'onso V, quando este, em 1461, pe1·rnit·
tindo aos cidadloe do Porto que, nlo obstante a sua
ordenaçlo geral em contrario, pos81lm andar por todo
o reino em muares de sella e freio, justifica a excep-
çlo pela circumstancia de que a situaçlo da cidade
é tal, que nilo p6de manter cavallos, e accrescenia,
com cetto tl'&VO de desdem, que «o seti viver é maia
por trato de mercadoria por mar, que por outra cou-
sa•».
A prosapia genealogica do Porio é modesta, e
deve humildade á do Castello de Gaia com o seu Bur-
go Velho na margem esquerda do Douro, o Cale ro-
mano, o PortucRle dos wisigodos
1
• Ao Burgo Velho
D. Diniz trocou o nome pelo de Villa Nova de Rey,
qttando lhe deu regimen municipal, conferindo-lhe os
f6ros do concelho de Gaia, ante1·iormente organisado
po1• D. Aft'onso III
3
• Comquanto do senhorio da coroa,
e por ella protegidos, nem os dois <'oncelhos, nem
Villa Nova de Gaia, em que   viet·am a fnndir, pode-
I .Alem-Do11ro
1
liv. m, ft. 278.
2 Hercnlaao, HUtoria de Porlllgal, tomo xu, liv. VI.
3 Gama Barros, Historia da Atlmini1tra900 Pvblim, tomo n, pag. 1 'l
e 170.
.. '
.
'i
:..j
·.'
.,
: ...
.....
168 O paiz e seu utado &ocial
ram jámais atalhar a b1·ilhante prosperidade do Burgo
Novo, em que dominava a mitra episcopal. D'elle veiu
por fim Villa Nova de Gaia a constituir uma depen-
dencia, como adiante ve1·emos.
Ne seculo xu o Porto não passava de um pequeno
burgo, eontiguo á Sé portucalense, A qual foi doado
pela rainha D. 'rheresa, recebendo o seu foral do bispo
Hugo em 1123
1

D'este grau inferior o Po1-to havia attingido, no se-
eu lo xv, a posiçlo de terceira cidade do reino em po-
pulaçito: porém, já em 1484, era considerada a me·
lho•· cidade de Portugal, depois de Lisboa
1

Este engrandecimento deveu-o á causa desdenhada
por Aft'onso V, á navegaçlo do oceano Atlantieo. Esse
mar, nunca perlustrado pelos romanos, servira nos
tempos barba1-os s6mente de via para os corsarios.
No segundo quartel do aeeulo IX, os normandos saidos
do Daltico, depois de te1-em assolado o litto1·nl da In-
glaterra e da França, appareceram pela pt·imeira v   ~
nas costas da Peninsula. Desembaa·earam na Corunha
em 843. Repellidos, proseguh·am a viagem, fazendo
assaltos nos lognres abertos; desceram na foz do 1'ejo,
e devastaram os arredo1·es da Lisboa mussulmana;
continuando a derrota paa·a o meio-dia, subia·am pelo
.Guadalquivit· e destrniram parte de Se\"ilhn.
3
• Nito
cessaram depois as suas temerosas visitas. Em uma
das suas arrojadas incursões chegaram, no secnlo x,
I Herculano cit., tomou, liv. m e tomo JV
1
liv. vm, parte r.
z Nicolau de Popielovo, cit.
3 Herculano, HilloritJ de Portugal, tomo 1
1
Iatroducc;io, II.
O paiz e seu estado social . 169
at4S aos suburbios de Guimarães'· Comprchende-se
que as grandes cidades demorassem entfio para o in-
terior.
·Foram, porém, estes salteadores que abriram a via
do Oceano e mostraram a. possibilidade da sua nave-
gaçlo, que, depois, serviu pa•·a o pacifico intercurso
das nações, e ministrou um poderoso instrumento de
civilisação,
É do transporte maritimo dos productos agricolas
do Minho, Traz-os-Montes, Beira, parte da Estrema':'
dura, e á sua troca por al'tefactos estrangeiros, que o
Porto derivou a sua progressiva elevação.
Já no meiado do seculo XIII avultava o numero dos
seus burgueses, que mercadejavam em França, ou en1
Flandres'.
Em 14:48 eram frequentes as viagens entre essa ci-
dade e Bruges, o grande emporio de Flnndres. Em
documento d'esse tempo se encontram os nomes de
exportadores, não s6mente do Porto, mas de Braga,
Guimarães, Mesão Frio, Villa Real, que evidentemente
se serviam das embarc:aç&s do Porto
3
• Como conse-
queucia da ac\tividade commercial, no fnbJico de ca-
ravelas e navios consistia uma das principaes profis-
sões dos habitantes'· Tambem a foz do Douro era, em
1465, frequentada por uma quantidade de baixeis es-
• Gama BaiTOII, HúiDriG da Ãdminütrat;ao Publica, tomo 11
1
pag. 7.
2 Herculano, cit., liv. "'·
I Livro doe Edra1
1
fi. 112.
4 Ãlan-Dortro, Jiv. 1
1
fi. 68; Oluutt:dlaria tle D. ~ J   o r u o V, liv. u:r.vr,
ft. 190.
170 O paiz e seu utado 10cial
trl\llgeiros, extraordinaria para aquelle tempo
1
• Esta
concorrencia estrangeit·a nlo era do agrado da cidade.
Os armadores entendiam, em uma representaçlo que
dirigiram a D. Joio II em 1487, que o tranaporte das
mercadorias do paiz devia ser reservado á. sua propria
matinha; p01·que emquanto, nlo a6 ali, mas em Lis-
boa e no Algarve, se carregavam navios estranhos, as
naus do Porto ficavam vazias, e viam-se na necessi-
dade de irem procu•·at· fretes em outros portos do reino
e de Caatella. A resposta do rei, mandando que tanto
por tanto fossem preferidos os navios nacionaes, nlo
nos parece mais que uma evaaiva
1
• Mae a liberdade
de navegaçito mercantil nlo impedia o progresso da
cidade.
No seu recinto quadrangular, circundado de muros
e torres de canto lavrado, e medindo cêrca de 858
metros de comprimento e 694 de lat·gura, o Porto
crescia em populaçAo e riqueza
3
• Quando os cidadlos
do Porto solicitaram e alcançaram de el-rei D. Manuel,
em 1497, a permiuão de usarem o luxuoso calçado
dos borzeguins, mostravam que os seus haveres os
levantavam acima dos mesquinhos cuidados da sub-
sistencia; mas tambem que não eram degene1·ados da
ancestral galhnrdia, porque essa distincçlo se ligava
ao dever de continuarem a possuir uma. àrmadu1·a
completa, de coiraça, capacete, babeira e coxotes, em
t Viajes por Eapaila de Jorge de   dei Baron Leon de Roa·
mithal, etc., traducidoa por }'abié, Madrid, 1878. Viaje de RDftlilAal.
z Alem-Douro, llv. m, ft. 78.
3 R1!01'111tammlo do Minllo, cit.: Lima, GeogJ·aplaia Hwtorica, tomo n.
l
·-... ..
. . '
O paiz e seu social 171
substituiçlo dos arneses, que já nem se fabricavam,
nem se costumavam
1

Durante o seculo xv existiam ainda dentro da cê1*CR
muitos descampados. A Hua Nova de S. Nicolau foi
edificada por D. J olo I •; o monte, onde esse mesmo
rei ergueu o mosteiro de Santa Clara, constava de
terras de Jovom'ft ; D<' Ioga r, onde postet·iormente
D. Manuel mandou edificar o mosteiro de S. Bento da
Ave Mal'ia, encontravam-se ve•·geis, entrell\chados de
alguma& caaas; hortas, foreiras 1\ Sé, occupavam tam-
bem o sitio, onde esse mesmo rei levantou as primei-
ras casaa da Ru1\ das Flores
3
• Nos fina do seculo xv
os fogos montavam, dent1·o de muros, a c-'rca de ta·ea
mil.
Para o exercício livre e desopprimido do sett traba--
lho, os cidadios do Porto tiveram que Rustentar, du-
rante seculoR, renhidas lutas com o seu bispo. Sendo
tet·ra senhorial da Igreja, o bispo e cabido percebiam
ali os dirdtos realengoP, intervinham na administra-
çlo tempoa·al, exerciam a suprema jurisdicçilo civil e
ctime. Os tumultos, nAo raro instigados e sempt-e
bemvistos pelo monn.rcha, repetiam-se incessante-
mente; o paço e o castello acontecia serem assaltados
por bandos de burgueses enraivecidos; e o bispo via·se
compellido a abandonar a cidade, ou ntesmo a diocese,
e acolher-ae á, curia pontificia '· Os interdictos eccle-
I   liv. m
1
ft. 79.
1
Uluurcellaria de D. V, liv. xuv1, ft 190.
I Canba, Cakllogo do. BúpM do Porto, parte n, co. 24
1
28 e 84.
4 Hercalaao, Hiltoria de PIJrlugal, tomo n, liv. m.
172 O paiz e seu est,tdo social
siasticos fulminavam o burgo: nem padres, nem leigos,
os attendiam. No meado do seculo XIV durou um d'el-
les por espaço de nove annos •. O Po1·to não se des-
conce•·tava; tanto mais que já n'este tempo por unico
effeito resultava que os offi.cios divinos se celebravam
a portas fechadas e não tangiam os sinos. Essa mesma
prohibição costumavam os bispos levautat· em certas
occasioos festivas, como suecedeu por motivo das bo-
das de D. João I
1

A supremacia eventual, que á classe popula1· deram
os levantamentos nacionaes em favor do mestre de
A viz, fui logo aproveitada pelo Porto para a depressão
do poderio ecclesiastico. Nas côrtes de 138ó, em que
o Mestre foi alçado ao tbrono, o bispo, os abbades
bentos e a clelizia do Porto, deram capítulos especiaes
'
contra o concelho, que os ob1igava a pagar fintas, ta-
lhas, e demais enca1·gos locaes. O novo rei afth'Inou a
immunidade dessas pessoas, tanto a respeito dos tli-
butos do concelho, como dos lançados po1· elle proprio,
com excepção das fintas e talhas, destinadas á restau-
ração das muralhas, ás pontes e calçadas, e da vela e
roida das fo1·tificações em tempo de guerrn: mas s6-
mente em relação aos bens ecclesin.sticos, e não aos
proprios e pab·imoniaes. Determinado sem duvida por
conside1·ações de ordem politica, escre\·eu logo uma
carta ao concelho, em que lhe ordenava que guardasse
ao clero os privilegios outorgados pelos reis, seus an-
tecessores, e nomeadamente pelo ultimo, D. Fernando,
I Cunha, cit., parte 11
1
e. 18.
z Ibid., c. 22.
l
O pai:: e seu estado social 173
e que se abstivesse de os quebrantar, como havia
feito'· Assim, em relação aos privilegios fiscaes, o
clero nilo havia peiorado de situação desde o tempo
de Sancho I, que o sujeitava ao hibuto, unico é ver-
dade, o da colheita, só uma vez por anno, e quando
elle transitasse pelos Jogares onde moravam os seus
membros t.
Vinte annos depois, D. João I, já então seguro no
throno, expungiu a causa principal das tumultuarias
desa,•enças. Pelo conb·ato de 13 de fevereiro de 1405,
posteriormente ratificado pelo Sancto Padre, a juris-
dicção, senhorio e direitos foralengos foram transferi-
dos pelo bispo D. Gil para a coroa a preço de t r   ~
mil libras de moeda antiga, ou trezentas mil da moeda
entilo corrente. Como a moeda padeceu, durante
aquelle reinado e ainda depois, incessante e enorme
depreciaçilo, não descontinuavam as instancias dos
prelados portuenses sobre a lesão, cada vez mais avul-
tada, de que eram victimas: até que D. Manuel, em
1502, fixou difinitivamente a somma em cento e vinte
marcos de prata ou 273:600 reaes
3

A convenção p o ~ termo á frequencia e encarniça-
menta dos conflictos, mas não os extinguiu de todo,
porque no Porto, como nas outras dioceses, conti-
nuava, para fermento de discordia, o 1·egimen das im-
munidades ecclesiasticas. Nessa cidade, em resultado,
provavelmente, da sua diutuma sujeição e renitencia
I .Alem-Douro, liv. u, fl. 114.
:a Herculano, Historia de PorlU(Jal; tomo u, liv. m.
J Cunha cit., cc. 24 c 82.
174: O paiz e 1eu atado IOCial
ao imperio episoopal, vigorou sempre um espirito no-
tavelmente anti-ecclesiastico. 'remos d'isso outra• pro·
vas. Até 1588 nlo havia em toda a cidade mais que
uma unica freguesia, a da Sé: e, quando nesse anno o
bispo D. llarcos a subdividiu em quatro, experimen-
tou da parte da camara e do povo violenta opposiçlo,
com receio de virem algum dia a fica1· obrigados aoe
encargos da fab1•ica. Foi necessario ao Bispo tomar
sobre si, po1· eseriptura publica, a 1-esponsabilidade em
todo o tempo das obrigações respectivas: s6 assim
pôde sair com o seu intento •.
Tambem causa estranheza a escassez de funclações
monasticas. Até ao fim do seculo XlV nio havia, den-
tro da ce1·ca, mais que um unico covento, o de S. Do-
mingos; que ahi fundára D. Sancho II, \'encendo a
grande resistencia do biapo e da clerizia, que nlo que-
riam concorrentes no gozo dos percalços e esmolas'.
Em 1416 D. Joio I mudou de Ent&-e Ambos os Rios
para a cidade as f1·eiras de Santa Clat·a: e, em 1425,
de f6ra dos muroR para o interior a communidade dos
franciscanos, de cujo convento resta só a igreja que
noa amostra um grandiotSo e bello monumento de Ar-
chitectura ogival. Em U 91 se começou a fundaçio do
convento doa Loyos junto á mu1·alha da cidade. Até
ao fim do seculo xv não existiu no Porto nenhuma
outra congregaçlo monastica.
I Cunha cit., c. 89: Rebello da Costa, Dscript;8u da cidade do Pr.r·
lo, c. 3.
J FI'. Antonio Braodllo, MoiiGrcliia LuritaM, parte .n·
1
liv. zn·,
cap, XXIII.
.. ,
F'!'i't."'iiif'
.... --
O paiz e eatado 1ocial 175
I>as prepotencias da outra claue superior, a no.
breza, estiveram 011 eidadlos isemptoa até aoa fins do
mesmo seetdo. Um privilegio antigo p1·ohibia que
tiveuent no Porto a sua morada, ou ahi comprassem
Cft888, ou pousassem por mais de tres dias; fidalgos e
donas fidalgas, p1ioree de Mosteiros, e Abbadee. de
S. Bento. D. Joio I, grato aos aerviçoa que devia á
cidade, confirmou estes privilegios em 1890: e, em
1412, estendeu a prohibiçlo aoe mestres e
dadore• das ordens de Santhiago, Christo, Aviz e
Hospital'. Foi de certo para baldar qualquer pretexto
a edificaçlo de moradas pela aristocracia clerical e
fidalga, que elle, em 1391, mandava ao Meirinho-mór
de Alem Douro, que ordenasse no Porto estalagena
para pessoas grandes e honradas '.
Nio era sem difficuldade que o P01-to conseguia
manter o privilegio. A confirmaçlo por D. Joio I te,·e
precisamente por motivo o facto de que alguns fidal-
gos tinham ali comprado <>asas de ''ivenda.
Com certo fidalgo, de nome Fernlo Coutinho, teve
a cidade uma longa demanda, por ter elle construido
uma casa em Monchique, no arrabalde de Mia·agaia.
A cidade protestava por seus privilegios. O fidalgo
produzia caa-tas do regente D. Pedro, que lhe conce-
diam a faculdade de residir na dita casa tl'es vezes por
anno, e cada vez por espaço de quinze dias.   1463
D. Aft'onso V, ouvidos o Desembargo e o Conselho,
1 Alem-Doltf'O, liv. 1, ft, 66 e 61.
z 26 de fevereiro de 1891 em J. P. Ribeiro, Additamentoa
Á 81/'WI* cAronologioa.
176 O paiz e seu estado social
sentenciou a favor do fidalgo, dete1·minando que se
cumprissem as cartas do regente
1

Em 1 de junho de 14 7 4 a cidade alvorotou-se con-
tra Ruy Pereira, senhor da teiTa da Feira, e incendiou
a casa de Leonor Vaz, na Rua Nova, onde aquelle
fidalgo se havia aposentado
1
.   i ~ s t e Roy Pereira era
provavelmente o capitão desse nome, que militou no
exercito com que, no anno seguinte, Affonso V inva..:
dia Uastella
3
• Foi esse motim popular que daria occa-
siãe a nova ratificação do privilegio por Affonso V em
1475
4

Uom o decurso do tempo se tornava a mais e mais
difficultoso o impedir completamente a estancia aos
fidalgos, que haviam de forceja•· por se recrearem na
cidade das agruras da vida campestre, á medida que
os seus gostos e indole se amaciavam. Tambem se iam
destingindo as raias sociaes, e tornando-se incerto o
padrão de aferimentQ para a qualidade de fidalgo. De
facto, pela carta regia de 1 de Junho de 1490, todos
os cidadãos do Porto recebiam de D. João II a cathe-
goria de fidalgos, como já a tinham os de Lisboa
6

Pelas provisões dessa lei, o portuense gozava de todos
os privilegios e liberdades dos antigos ricos-homens e
I .Altm-DOUI'0
1
liv. IV
1
fi. 82.
! Alem·Douro, li v. '• fl. 4f: Arnaldo Gama, UUima /)()ff4 de 8. Ni-
colau, notas 4, 71 e 72. Eate romancista colheu as suaa informaçaea no
cartorio da camara do Porto.
3 Goes, Chrcmica do Principe D. JoiJo, c. 50.
4 Alem-Douro, liv. 1
1
ft. 69.
r. Alem-Douro, liv. 1, fi. 70: Priuilegioa doa cidadlloa da !'idade elo
Porto, pag. 5!, Porto, 1611.
.......
177
infanções; não podia ser mettido a tormento senlo nos
casos, em que o são os fidalgos, e, como estes, seria
somente preso sob sua menagem. Apesat· de tudo, a
distincçlo existia no conceito publico, e ninguem igua-
laria o mais abonado vereador do Porto com um des-
cendente dos Pereiras e dos Uoutinhos. Por estaa
razões seria que a camara t•esolvêra, e D. Joio II
approvára em 1485, que quaesquer pessoas, morado-
ras na cidade, que no alfoz tivessem coutos, honras,
jurisdicções, nlo podessent desempenhar nenhum dos
officios do concelho, juiz, vet•eador, almotacé, procu-
rador, ou outro qualquer; porque usurpavam em favot·
das suas tetTas as regalias municipaes
1

A pt'Ovisilo de que os fidalgos nilo podessem fazet•
parte da govemança do Porto foi oonset•vada por
D. Manuel, quando, pela carta regia de 16 de dezem
6
bro de 150:::!, aboliu o antigo pt·ivilegio d'essa cidade.
O soberano adduz, como razões de ali permittir a mo-
rada aos fidalgos, o proveito e illusta·açilo dn cidade, e,
o que para esta não havia de set• mui saboroso, que
d'essa f6rmn se atalhava aos desmandos, que, em suas
aldeias, os fidalgos praticavam conta·a lavradores des-
validos'. Se, comtudo, a fidalguia se desaforasse tam-
bem no Porto, ser-lhe-hia cassada a licença. Prova-
velmente assim succedeu, porque a cidade instou pela
revogação da cal1a t·egia, e pela restauração do seu
t Alem-DoiU'o, Jiv. u, ft. 9.
z uSeria auo de sc bevitarem e aredarem alguus demos cucoovi·
nieutea que delo pela ealidade du terras deles e doe ecue oe Javradorea
e povoo meudo delas recebem•: .dlera-Douro, li v. r, ft. 41.
11
---.....__
1'18
O paü e ''"' utado 10cial
privilegio secular. O rei tomou a restituir-lb'o
1
• Mas
essa reatituiçlo não surtiu eft'eito: o privilegio acabou
pelo desuso
1

- Nilo é de estranhar que a cidade fosse tão ciosa da
sua immunidade, quando tinha ante os olhos o deplo-
ravel espectaculo do que se passava no seu proprio
termo.
Sobre os demais fidalgos, de longa data se distin-
guiam os Coutinhos e Pereiras por flagello dos lavra-
doret
3
• A queiJe mesmo Fernlo Coutinho, acima refe-
rido, a quem D. Aft'onso V fizera mercé do reguengo
da Maia, em que a jurisdicçlo ordinaria pertencia á
cidade, elle e sua muJher acabrunhavam, não só 01
lavradores do seu reguengo, !Senão tambem os estra-
nhos, com toda a sorte de p1·epotencias, tomando-lhes
victualhns, e fazendo-os trabaJhM· em seu serviço sem
mesmo lhes dar de comer. Sobre taes vexações foi
aberto inq uerito pelo chanceller da corregedoria e seu
escrivilo: e estes, por fim, levaram de custas aos Ja-
vradol'es sessenta mil reaes, e sentenciaram Fernão
Coutinho a pagal'-lhes de perdas e dam.aos nlo mais
de trinta. mil. A camara do Porto, levando estes factos
ao conhecimento do rei, concluia dizendo: ~ <   gento
chora e brada e não acha justiça»'.
I Cerca de 1618; nlo eonhecemoa o diploma reapectivo, aenio pela
mençlo ezplicita, que delle e do aeu conteúdo ae faz na carta regia de
20 de julho de 1518: Ãlem-DormJ, liv. v, ft. 22.
z Aaaim ae conclue das palavraa de Damiio de Goea, CAroni011 de
D. Manuel, parte IV, c. 86, o qual aaaigna para a data da eeuqlo do
privilegio a citada carta regia de 1502 (e nlo 1608, como ahi ee lê).
3 Vide oa Capituloa do Porto em lül noa Docammtol ill...Wali1:oa
t Âlem-Douro, liv. JT, ft. 294.
O p4U e aeu estado 10cial 179
OutJ.-o fidalgo, Roy Pereira, senhor da terra de Re-
íoyos, pa-ovavelmente parente do seu homonymo,
acima nomeado, assentou residencia n'essa teiTa em
1459, e perpetrou taes rapinas, averiguadas pelas in-
quirições que mandou tomar a camara do Porto, que
Affonao V lhe prohibiu que jamais estivesse ali de aa-
aento, mandando-lhe arrecada•· os fóros pelo seu almo-
xarife: e ao mesmo tempo enviou as inquirições toma-
das ao COlTegedor da côrte
1

D'estaa tyrannias estava o P01·to livre dentro do re-
cinto das suas muralhas.
O termo do concelho era muito extenBO. A estrema
divisoria acompanhava as ribas do mar até á. foz do
Ave, onde partia com Villa do Conde, seguia o curso
d'esse rio até Santo rJ'hirso, descia e encerrava Roaiz,
Ferreira, Penafiel, corria para o 1
1
amega e baixava
pela margem dh·eita nté Entl'e-Ambos-os-Rios. Para
alem do Doua·o abmngia cerca de duas legoas da costa
até perto da Villa da },eira
1
• Mas n'esta ,rea, em que
moravam cerca de dez mil vir.inhos, a acçlo da aucto-
ridade municipal do Porto era, em alguns Jogares de
todo, em outros parcialmente limitada. Limitada pe-
los coutos, que eram muitos : só no raio de uma lagoa
em volta da cidade havia cinco, -o couto episcopal
de Campanhã, o da collegiada de Cedofeita, o de Rio
Tinto, o de Paranhos, e o de S. Joio da Foz, que per-
tencia ao mosteiro de Santo Thirso. Os moradores da
Foz logravam a pa-erogativa de nunca servirem em
I .A.km-Douro, liv. rv, fi. 111.
:a Citado Recenteamento do Minho.
180 O paiz e seu estOJ:lo social
guerra, por mar ou por ter1·a, senão sob as o1·dens e
por npp.ellido do rei, em recompensa dos se1·viços,
que prestavam na pilotagem dos navios
1
• Coareta-
vnm n auetoridude municipal as   dod Re-
guengos e as immunidades das Honras dos Fidalgos.
Diplomas regios ou o uso immemorial, em um trato
do territot·io, tolhiam integt·almente a jurisdieção con-
celhia, n'outro apenas lhe deixavam a parte civel ou
a criminal. Nio ha.via nenhum principio generieo. Den-
tro do alfoz coexistiam concelhos subordinados, os
chamados julgados, como eram o de ViJla Nova de
Gaia e o de Penafiel, em que á cidade apenas cabia a
jlllisdicção appellatoria. D'aqui resultava que o cida-
dão do Poa-to ni.o considerava como sua verdadeira
terra de visinhança, senito o penhasco de granito, em
que aBSentava o seu burgo. Nas relaçõeR magidtra-
dos com o governo central, o Porto é por elles repa-e-
sentado como uma rocha este1il, não produzindo, nem
pio, nem azeite, nem vinho j. Causa surpreza ouvil·
simiJhante affirmaçllo da parte de um concelho, que
abrangia no seu perimetro valles e devezas das mais
ferazes do pa.iz. Mas é de advet-til· que essa allegaçio
tem sempre por fito o fundamentar alguma pretensão
da cidade: -a prohibição do commercio aos estran-
geh·os; a prerogativa de jomadear em mua1·es, porque
o Porto não produz forragens para cavallos. Este ul-
timo privilegio era antigo e muito cobiçado, e foi-lhes,
como vimos, confirmado por Affonso V em 1461. To•
t Ale-m-IJduro, li v. I
1
fi. 51.
l Ãkm-Dortro, liv. I, tl. 63.
-- 111111!!1
r:: ,•: ... -.----
_ _.,
O paiz e seu estado social 181
d.._via quando, em 1487, o Porto pediu a ratificação a
D. João II sob o costumado asserto de se1· fundado
sobro pedra, ae os mantimentos sio centeio e palha,
por tal modo que nenhum cavallo pode durar são e
vivo, senão um annoll, o rei respondeu que pensaria
sobre a decisão, o que equh•alia a uma recusa
1
• E de
facto, em 1490, o Porto não fruía d'essa isempção, que
era exclusiva de Lisboa'· É de justiça não passar em
silencio de que aquelle requerimento se auctorisava
~ m   e m com o facto not01io, de que, em tempo de
guerra,_ os cidadlos do Porto se davam pressa em pro-
cm·ar bons cavallos.
A circumstancia de que a área de Portugal se dilata
principalmente do septentrilo para o meio dia, e nito
na direcçlo da longitude, á propicia ao seu desenvol-
vimento mate1ia1, pela variedade de producções pecu-
liares de cada região, determinadas pela differença. do
clima. A e1la. se devem tambem pa.rticula1idades cara-
cterísticas, procedentes de causas ethnologicas e his-
toricas, nos costumes sociaes e, até certo ponto, na
raça nacional. Estas distincções se tornam conspicua-
mente perceptíveis, qunndo se comt>nram com as de-
mais as duas províncias de Alem Douro, e a da Beirn.
N'estas p1-ovincias, reconquistadas pela monarchia wi-
sigothica nos seculos x e xr, e onde a populaçito infe-
rior se organisou sob o predomínio da servidão, se
conservavam ainda radicadas, nos princípios do se"
1 Alem-Douro, liv. m, fl. 78.
1 .A.Zem-.Dorlro, liv. 1, fl. 70.
\
182 0 paiz 6 BBU utado IOCÜzl
culo mr, usançu gravosas e direitos oppressivos, de
que dilo testemunho os respectivos foraea
1
• No se-
colo xv esses gravames excepcionaes não haviam de
todo desapparecido, sobretudo no que diz respeito á
ser,·idlo da terra. Mu, em contraste com a sua peno-
ria e sujeiçlo ás ordens privilegiadas, a classe popular
se distinguia pelo seu caracter energico e compleiçilo
robusta. Jt'oi d'estas tres provincias do Norte, que sai-
ram, no seculo seguinte, os mais valentes e destemi-
dos guera-eiros da India
1
• Estes traços caracteristic<?s
tornam-se tanto mais accentuados, quanto mais se
avança do littoral para o sertão. Pelo que diz respeito
á oppresslo exercida pelas ordens ecclesiastica e aris-
tocratica, o Po1-to, pela sua historia especial, constitue
uma excepçio no 1·egimen du provinciu do norte.
Como havemos visto, nunca eXJ>erimentou o jugo da
nobreza, e, no seculo :xv, tinha-se inteiramente eman-
cipado da dominação ecclesiastica. Nio succedia assim
na cidade archiepiscopal de Braga.
Braga, situada ntt. risonha veiga, banhada pelo Ca-
vado e pelo Deste, é, de todas as cidades de Portugal,
a que se p6de hist01icamente ufanar da mais remota e
fidalga ascendencia. CabeçR de um dos djstrictos dR.
Lusitania romana, centro de uma 1·ede completa de
estradas imperiaes, capital do reino dos Suevos, tendo
I Herculano, 1/U.toria de Portugal, tomo 1v, liv. vm, parte ,;,,
z cEata gento eram aolda ioe d'.Entre Douro e Minho, Beira, 1'ráa·oa·
Montes, criados pobre e rusticamente, màl vestidos e peor atados ••.
E estes, de que fallo, slo os que acabaram na lodia 01 maia feitos arris-
cados, que nella ee commetteram». Couto, Dtcad41
1
8, llv. J:
1
c. 14.
---
O paiz e seu estado social 183
o seu nome ligado ao de tres concilio& famosos da
igreja hispanica nos seculos VI e vu, sé metropolitana,
que disputa á de Toledo a primazia das Hespanhas,
nenhuma terra de P01·tugal se lhe p6de avantajar em
titulos tAo authenticados de antiga e garbosa linha-
gem
1
• Marcos milliarios e tantos outros vestígios- da
civilisaçlo romana, moedas dos Suevos, cunhadas em
Braga
1
, os canones dos concilioa, as memorias hagio-
graphicas, ahi estio para attestar a sua gloriosa vida
dos seculos. Mas, como que opprimida pelo
peso dos Heus passados feitos, depois da constituição
da monarchia portugueza nunca representou, como
cidade, um papel proeminente. Todas as suas tradi-
ç&s têm apenas servido a glorificar a dignidade do
seu senhor espiritual e temporal, o Arcebispo Primaz,
que foi sempre um personagem de pril:neira magni-
tude. Não era principalmente do senhorio de Braga
que o arcebispo derivava o seu poderio: memorias do
passado, quando disjunctas de posses materiaes, não
rendem ao seu imperio a vontade humana; sio uma
aureola que facilita o respeito, mas não o impõe. A
potestade arcebispal fundava-se sobretudo na supelio-
ridade metropolitica sobre as tres dioceses de Coim-
bra, Porto e Vizeu, na vastidão da diocese que se
espaçava por mais de mil e seiscentas freguezias do
Minho e de Traz-os-Montes, no crescido rendimento
da mitra, que excedia o de qualquer outra diocese.
t Argote,   para a Hilltoria eecluitutica do areebüpado dt.
Braga..
s A Heias, Acadimie du lucriptioru, aeaslo de 2 de novembro de
1888.
.,'.-
184 O paiz e seu estado 10cial
Braga, cm si, era no seculo xv uma pequena cidade.
Dentro dos muros e cubellos, em volta. do castello com
as suas barbacans e torre de menagem, e nos arra-
baldes adjuntos, nill) viviam mais de 848 familias.
O espaço interior não se cobria todo de habitações.
No local, onde no primeiro quartel do seculo seguinte
o arcebispo D. Diogo de Sousa edificou a Rua Nova
e a do Souto, frondejavnm bosques de canalho e cas-
tanheiros
1

O mesmo prelado, que alguns outros melhoramen·
tos effectuou na cidade, tambem 1-estam-ou e accres-
centou a cathedral
1
• Estes e outros desharmonicos ad-
ditamentos posteriores não lograram imp•·imir á igreja
primacial o caracter magestoso, de que já carecia no
seculo xv. Acanhada nas proporções, compaginada ·de
pedaços desconformes, não cor1·esponde ás venerandas
recordações, evocadas pelo seu titulo. O tumulo do
Conde D. Henrique e sua mulher D. 1.,herbza, cttios
ossos foram posterionnente separados em sepulturas
destinctas, solicitava ali o acatamento devido ás 1-eli-
quias dos principes, que assentaram os alicea·ces da
nacionalidade portugueza. A curiosidade do visitante
contemp01·aneo havia de procumr com interesse o ja-
zigo recente do arcebispo D. Lourenço, um dos hei"'es
de AJjubarrotR; .-, como obra de a11e, o snrcofago de
b1-onze dourado, enviado de Borgonha pela duqueza
D. Isabel para jazida de seu irmão, o infante D. Af-
fonso, filho de D. João I
3

I Cunha, Hiltoria eccle•itUJtica til' Braga, parte n, c. 69.
I Jbid,, C. 'll.
3 IbítJ., c. 58.
*'" 'f"
..---;-
O paiz e seu estado social 185
No seculo :x.v deu-se um facto momentoso na vida
iutema de Braga.. Depois que a viuva do conde D. Hen·
rique, renovando a antiga concessio dos reis de Leio,
doou á Sé bracharense o domínio temp01·al da cidade,
e do seu termo, os moradores, ao contrario do que sue-
cedia no Porto, viveram sempre em l"espeitosa obe-
diencia ao seu pastor. Desde entio a hist01ia de Braga
é quasi exclusivamente ecclesiasticn, e nilo o:fferece ou-
tJ.·os incidentes memoraveis, senão as requestas que o
arcebispo sustentava no reino para entrar, como pri-
maz, de cruz alçada em todas as dioceses, e em Roma
contra as pretençõês do metropolita de 1
1
oledo. Luctas
intestinas davam-se s6mente entre o a1-cebispo e os
capitulares, e essas nio descontinuavam. Referiam-se
á divisA<> respectiva de jurisdicção e dos rendimentos
diocesanos.
D. Joà:o I, exaltado ao throno por uma l'evoluçio
popular, foi um esphito innovado1· e pouco deferente
ás tradiçi5es l'ecebidas. Da mesma sorte que no Porto,
tambem em Braga pôz a mira em esbulhar o p1·elado
dos seus direitos  
N'estas investidas contra o poder da lgl"eja, o rei
sabia-se favorecido pelo scisma, que entllo dilacerava
a cbristandade, e que só terminou alguns annos de-
pois, cm 1417, no concilio de Constança. Ao papa de
Roma, Bonifi.acio IX, importava nio alienar a obe-
diencia de Portugal em favor do seu concorrente, o
papa de AvinbAo, Benedicto Xill. Duvidamos que o
proprio D. Joio I se abalançasse a estes commetti-
mentos, e muito menos saisse com o seu p1-oposito,
em plena paz da Igreja. O seu bisneto D. JoAo II,
.,
·.
186 O paiz e seu estado social
cujo caracter nlo cedia ao delle em rigidez, teve que
se penintenciar perante a Santa Sé por tentativas bem
menos audazes.
Em relaçlo a Braga, o empenho de D. Joio I ha·
via de accender-se mais vehemente pelo desacato re-
cebido. O Porto, desde o começo da revoluçlo, tomára
a sua voz. Em Bt·aga, de que o proprio arcebispo,
D. Lourenço, militava na hoste do mestre de Aviz, ti-
nham o cabido e os magistrados sido impotentes para
tolher ao alcaide do castello, que introduzisse na ci-
dade o arcebispo de Compostella e gente de armas de
Galliza, que proclamaram a soberania do rei castelha-
no
1
• Este facto mostrava ao rei de Portugal o perigo
de confiar o castello e a fot·ça militar a quem lhe nlo
rendesse a elle prop1io preito e homenagem. Assim,
em 1401, durante a prelatura de D. Mat1inho Affonso
Pires, apresentou-se em Braga com o conegedor, ao
qual mandou tomar conhecimento dos feitos judiciaes,
e metter na cadeia o juiz da terra. O arcebispo com-
prehendeu as intenções do monarcha. Convocou os
capitulares, expoz-lhes a impossibilidade de resistir ao
poder 1-eal, lembrando-lhes que os reis ante1iores se
apossavam a bel prazer da jurisdicçlo, e faziam gt·andes
injurias ao arcebispo e ao clero. Os desaseis conegos
prebendados, que compunham o capitulo, assentiram
a uma concordia. Em conseqnencia firmou-se entre o
rei e o arcebispo com seu cabido o contracto de 10 de
janeiro de 1402. Por elle o senhorio e jurisdicção tem·
poral de Braga e seu termo se transferiam para a
I Femlo Lopes, Clronioll de D. Jollo I, parte '• c. 69.
. -.,.,..,
§lf'91?!".: -
O paiz B seu atado 10cial 187
coroa em escambo de muitas casas e logeas em dift'e-
l'entes pontos da cidade de Lisboa, pela mór parte na
Rua Nova, e de í'ertos tributos regios em Vianna do
Minho. Dos direitos senhoriaes reservava o arcebispo
para si o serviço braçal dos moradores do termo. ~ ~ s   e
serviço vem ali miudamente especificado. Alem da
geira de trabalho, annualmente devida, ha-de cada
braceiro trazer á porta do paço uma carrada de ma-
deira de carvalho, e outra de palha de trigo; a madeira
e a palha ser-lhe-hilo pagaa pelo preço corrente, o
transporte é gratuito: ha de tambem, por um salario
fixo e sem sustento
1
, levar os estercos do palacio até
S. Victor, 011 ás devezas e vinhas do arcebispo. Pelo
mesmo salario pedreiros e carpinteiros serão obrigados
a fazer as obras por elle requeridas e a acarretar ás
costas, 011 em carros, as pedras e madeira necesaarias.
Pelo dito jurnal os lavradores haverão de cavaa· e po-
dar as vinhas de Santa :Euphemia, do Avelal e outras
existentes denta·o e f6ra dos muros; ·levar da mata do
arcebispo estroncas e vergonteas para erguer e atar
as cepas; faze1· a vindima, levar as uvas ao Jogar, en-
cubar o vinho: lülo de semear as devesas de Orgaes,
Avelal e Golada de trigo, cevada, milho e eenteio com
a semente que lhes será fornecida: cada um dará um
dia para sachar, redrar, leva1· á eira e malhar o trigo.
O trabalho dura do nascer ao põa· do sol. São d'elle
exceptuados os enfermos e os velhos de setenta annos.
Cada visinho do termo, sem excepção, pagará ou dará
t 10 libras e meia, eompatada a dobra moariaca em 480 libras.
188 O paiz e seu estado social
uma gallinba, quando o rei vier jantar ao paço, ou
quando entrar na cidade novo arcebispo.
Os one1·osos serviços, que o arcebispo rese.-vava,
demonstram a dureza da condição, a que o povo estava
sujeito. E este facto evoca a memoria de um bem re-
moto passado da cidade de Braga, e subministra uma
d'aquellas maravilhosas surprezas, que abundam na
historia,- a de observar, na distancia de muitos se-
culos, a influencia, ou, pelo menos, a germanidade
de um facto plimordia.l. O teni.torio de Braga, ermado
pelos mom·os e pela guerra da reconquista wisigothica,
foi, logo no seculo vm, repovoado pelo bispo de Lugo,
Odoario, com «ser\•os da ig•·eja'' •, e, no seculo xr, este
caracter lhes revalidou, em favor d'aquella Sé, uma
sentença de A.ft'onso V de Leão'.
},oi D. Martinho precatado e habil negociador. Mais
atilado que o bispo do Porto em iguaes circumstancias,
fixou o preço da troca, nilo em moeda cujo valor no-
minal variava a g.·ado do soberano, mas em rendas
de predios c tendas, e no sitio mais favorecido da ca-
pital. O contl·acto, para a sua validade, reque1·ia o be-
neplacito pontificio. O papa Innocencio VII, que suc-
cedêra em Roma a Bonifacio IX, ressentiu-se de não
ser previamente pedida á cm·ia a competente nuctmi-
sação; e ordenou que o accordo fosse examinado pelo
arcebispo de Lisboa, D. Joilo, e, caso elle assim o en-
tendesse, o podesse confirmar em seu nome, e abdolveJ•
o seu confrade de Braga do pe1jul"io e penas em que
t •de servos ecclesiae populavib: Argote, citado, tomo m, doe. 'l.
l Ibid.: Herculano, Hütoria. de   tomo m, liv. ,,,, parte n.
O paiz e seu estado social 189
incorrêra. Estas prescripções não tinham evidentemente
por alvo senão o de resalvar os p1·incipios. Foram exe·
cutadas: em 25 de julho de 1406 D. Martinho rece-
beu de joelhos a absolviçio e uma saudavel peniten-
cia : em seguida foi a troca ratificada pelo delegado
da Santa Sé
1

.
A passagem da dominaçilo ecclesiastica para o se-
nhorio da corôa dera grande regosijo á cidade do
Porto: qualquer tel'l'a tinha por invejavel regalia a
dependencia immediata da a.uctoridade •·egia. As esti-
pulações do contrato, acima reproduzidas, e o rigo1· e
extensão, que no arcebispado de Braga se davam á
cobrança dos dízimos e primicias, que abarcavam todo
e qualquer producto do solo e da industria t, demons-
tram que o baculo archiepiscopal carregava duramente
sobre a cerviz dos seus vassalos. No concelho de Braga
havia pouca gente que nio fosse pobre
3
• Pareceria
que a cidade houve1·a de exultar com o novo regímen;
nlo que elle a libertasse, nem da excoriaçlo dos dizi-
mos, nem do onus, que fôra exceptuado, das presta-
çUes pessoaes, nem das foragens dos extensos bens,
que eram propriedade da igreja, ao passo que os di-
reitos realengos, recuperados pela corôa, eram relati-
vamente insignificantes; mas por lhe facultar, nos mi-
I Gaveta 14, maço 1, u.• 20 e Gaveta 18, maço 6, n.• 5: Livrou dos
Reis, fi. 84.
z Vide Elucidario, s. v. Decimcu.
J •Todos os d'eata terra commummente são pobres•, diaia no seculo
aegninte o arcebispo D. }'rei Bartbolomeu; Sousa, Vida do A.rcebüpo,
Jiv. JU
1
e&p. XXIX.
190
O paiz e "" estcldo IOCial
nistros da justiça e do governo administl·ativo e
militar, um apoio valioso para as suas reclamações.
Os documentos nio auctorisam a supposiçlo de
contentamento, quer na cidade, quer no seu aro. Para
explicação do facto, temos de considerar que os gros-
sos rendimentos do arcebispado se consumiam, pela
maxima parte, na cidade ; e, quando o arcebispo acer-
tava de ser esmoler, da sua largueza vivia grande
numero de familias. Na cidade e seu termo foram, em
1527, recenseados mil novecentos e trinta e nove vi-
sinhos: no tempo de D. Frei Bartholomeu dos Marty-
rcs, alem dos muitos soooorridos em pnrticnlar por
este santo prelado, passavam de mil as pessoas, que
vinham á. esmola da porta nas.quartas e sextas fei-
ras •. D'esta liberalidade nio usavam certamente os
funccionarios do Estado.
Nas cõrtes de 1459 a camara de Braga insurge-se
contra os administrad01·es regios, de quem fôra con-
fiado o dispendio dos dinheiros municipaes destinados
a obras publicas; tanto o duque de Bragança, que
fô1·a o primeiro nomeado para veador das obras, como
Ayres Ferreira, que OJ'a o é, não prestam contas; a
fiscalisação da cidade é nulla ; estes personagens en-
tregaram o encargo a um delegado; este e seus escri-
vles são os verdadeiros culpados dos descaminhos,
que levou o dinheiro, e de que carregam a respon·
sabilidade sobre os thesoureiros innocentes, perse-
guindo judicialmente os herdeiros. <<Estamos enfada-
dos de requerer, -concluíam elles -, porém d'aqui
1
Rouea, Vida do .4rcebi•po, liv. r, eap. xx.
191
avante, posto que vejamos roubar e destruir o vosso
povo, a Deus não seremos tidos por ello»
1

A respeito de malversações observaremos, que os
proprios magistrados eleitos nio paBsavam por muito
escoimados, no juizo dos lavradores do termo. Estes,
em 1462, verberam asperamente perante o rei os re-
gedores da cidade, que, no lançamento das talhas e
fintas, são largos nas isempções que çoncedem por
amisade ou empenhos, e malbaratam p dinheiro co-
- brado dos desprotegidos, sem que os lanadores pos-
sam exercer supervislo, por não terem representante
no gove1no do concelho
1

Onde palpavelmente se evidenceia o desprazer dos_
cidadãos de Braga com o regimento temporal é nas
invectivas com que, nas referidas cõrtes de 14õ9,
acossam os corregedores. A estada demasiado longa
na cidade, as exigencias desmesuradas de pousada,
alfaias e victualhas, são objecto de querimonias geraes
n'aquelle tempo, que nos inspiram mediocre confianÇa
de acrisolada veracidade: nlo ba que fazer d'ellas
grande cabedal. O extraordinario, de que não conhe-
cemos outro exemplo, é o aggravo de que o c.orrege-
dor tome conhecimento dos feitos civeis e crimes, em
que silo partes o alcaide, vereadores e funccionarios
municipaes, e as pessoas poderosas, o que não deve
usalvo se os juizes disserem, que não podem d'el1es
fazer justiça. • . e isto fazem (os corregedores) para
I Clulflcelloria de D • .AfunMJ V, liv. xu.vx, 8. 150.
2 .Alem Douro, liv. u, fl. 34.
192 O paiz e seu estado social
se fazerem servir e subjugai' a terra>>
1
• O principio
allegado é verdadeiro, mas a defeza de magnates e
fidalgos, assumida em côrtes pelo estado popula.-, é
uma occol·rencia surprehendente.
Braga viveu sob a jurisdicção regia durante setenta
annos. N'este intervallo os predios e logeas de Lisboa
haviam augmentado de valor e rendimento, e o con-
tracto não podia senão apparecer cada vez mais lesivo
para a corôa. Não era essa a razio, que Affonso V
a:dduzia perante a côrte pontificia para a resciSJlo:
manifestava-se tomado de escrupulos de consciencia
pela offensa das prerogativas da igreja primacial, c
ancioso por exonerar a alma de D. João I e a S!J.a.
Desconfiamos da sinceridade d'este zelo: a culpa, in-
corrida por seu a\·ô, fôra sanada pelo Chefe da  
() que nos confirma na supposiçil.o de que no dist1·ato
não houve mais incentivo que o do interesse é que a
Sé de Braga não o acceitou singelamente, mas exigiu
em compensação a cedencia á mesa arcebispal da
administração dos territorios de Olivença, Campo
Maior e Ouguella, que, para este effeito, foram des-
annexados do bispado de Ceuta. O distrato foi cele-
brado entre o rei e o arcebispo D. Luiz em 16 de
março de 14 72, e ratificado por bulia de Xisto IV, de
22 de dezembro de 1473. Por elle a co1·ôa recuperou
as suas antigas prop1·iedades, e a jurisdicçilo temporal
de Braga e seu termo foi restituida ao metropolita
1
,
I CluJnctUaria de D. Afforl80 V, liv. XXX\"1
1
fi. 150.
z Gaveta 15, maço 10, n.• 46 e Gaveta 18, maço 6, n.• 4: Jiv. 11 doe
Reis, fi. 98.
--:'-1
O paiz e seu estado ·social 198
que à conservou até á extincção d'estas jurisdicç<Jes
dos donatarios pela lei de 19 de julho de 1790 no rei·
nado de D. Maria I.
No )linho n população espraiava-se muito mais dis-
persa do que nas outras províncias: encontravam-se
ahi frequentemente casaes apartados, não congrega-
dos em aldeias. É o que acontecia no termo de 8J"8.ga,
o qual se estendia approximadamente por um raio de
legoa em volta da cidade, onde os habitadores se po-
deriam estimar em numero de 1091 '·Confinava com
os concelhos   de Prado, Entre Homem
e Cnvado, Tibães e Vimieil·o. O elemento clerical e
aristocratico, ou pelo menos o de todos os privilegia-
dos, constituia pouco abaixo de tres quartos da popu-
laçilo total, na cidade e alfoz, de 1939 visinhos, abs-
trahindo de algum pequeno augmento possível d'esta
no esp.nço de tr·inta e sete annos; porque, como infor-
mavam nas cOrtes de 1490 os deputndos de Braga,
nilo havia na cidade e seu termo mais de quinhentas
pessoas que pagassem fintas e talhas. O rendimento
permanente do concelho consistia na pobre quantia de
mil reaes
1

Guimarães, villa relativamente populosa, continha
dentro da cerca e nos subm·bios 1405 visinhos. Esta
illustre povoação, onde o conde da província portuca-
lense, D. Henrique, estabelecêra a sua côrte, gloria-
I Citado Rectlflleamento do Minllo, gaveta 15, maço 24, a.• 12.
2 Cl&anceUaria de D. João 11, liv. xm, ft. 118; Vide 01 Docrmaentot
il'u1trcrtivo•.
13
194 O paiz e seu atado social
va-se do castello e paços, onde naacéra o primeiro rei
da monarchia, e da sua collegiada de Santa Matia de
Oliveira. A collegiada succedêra no aeculo :xu ao an-
tigo mosteiro benedictino de S. Salvador ou de
D. Mnmadona, sua fundadora, do qual a origem re-
monta a mais duzentos annos atraz; em torno d'elle ae
agrupá•·a o primitivo burgo de Vimaranes '. A igreja
da eollegiada, um santuario de grande devoção e roma-
gem, foi reedificada por D. João I, depois da jornada
de Aljubarrota. Este monumento, de que hoje apenaa
restam na f6rma original o frontispicio e a torre ameiada,
ostentava entAo, no viço do recente acabamento, o seu
tecia de grossas vigas, esmeradamente entalhadu, o
garbo das suas tres naves, separadas por columnataB,
cujos capiteis e cornijas o cinzel tinha adornado de
primorosos lavores. A inscripc;lo coeva, insculpida em
uma das pa1-edes exteriores, commemora que ·a obra
de D. João I foi erigida «em honra da victoria que
lhe deu Santa Maria na batalha que houve com o rei
de·Castella nos campos de Aljubarrota». Na igreja se
conservam outrps donativos do mesmo rei, recorda-
ções de um dos feitos mais nota veis da nossa historia:
mas é irritante que o natural pendor para a r.rença
nlo seja auctorisado por nenhum documento. Debalde
se compulsarlo os archivos da collegiada: nenhum
ahi se encontra
1
• E o despeito s6be de ponto, quando
t Portugaliae Monumenta Hiatorica, Diplomata et cbartae, docu-
mentos 86, 67, 71, 76, 97.
a Pelo meDOs nenhum encontrou o bacharel Serra Craabeek, eorre-
pdor da comarca de Guimarles em 1725, que oa iDveatigou diligente·
mente: Memoria da Academia. ReaZ de Hütoria   tomo vi.
-·-
-. . ...,. ...
O paiz e HU atado social 195
ahi 1e relatam minucioaamente factos, que noa do
hoje inteiramente indift'erentes, como, em 1454, o da
renhida demanda do cabido com a irmandade dos sa-
pateiros sobre a posse de certas missas, ou, em 1490,
o da contestação entre os capitulares e o prior aobre
o pagamento do salario do prégador ordinario
1
• Mas
as censuras seriam descabidas: não ha que estranhar,
a occorrtoncia é usual. J' ella pungia o animo do He·
rodoto portuguez: ''quem cuidaes, dizia Femio Lope1,
que se não enfade de revolver cartorios de podres e&·
cripturas, cuja velhice e defazimento negam o que
homem queria saber?»' O primeiro e mais ab10rvente
coidado de todo o individuo ou corporação é o da man·
tença diaria. Documento& que assegurem a aubsiaten-
eia e o bem estar registam-se escrupulosamente: me-
modas de outros successos deixam-se á ventura da
tradição. ·
Barcellos, villa fol"temente murada, continha 420
fogos. Solar da casa de Bragança, nio oft'erecia, com-
tudo, ao viandante senão objectos de mediocre inte--
resse-a velha ponte sobre o Cavado, o e:xiguo palacio
ducal, o edificio da collegiada, que fundára o primeiro
duque. Em 1537 o humanista Cleynarts, um doa   n   ~
ciadores dos estudos classicos em Portugal, que via-
java pelo Minho, tendo na mente as cidades populo-
sas, activas e opulentas de Flandres, sua patria, con-
templava com mal reprimido sobrecenho estas pobres
l lbid.
2 Clu·onica de D. João I, parte r, e. 1!>9.
196 O paiz e let& estado 1ocial
e placidas villas, dadas aos lavores da agricultura. Á
vista de Barcellos, berço de um tio famoso ducado,
nilo pôde conter-se que nilo manifestasse, na carta ao
francez Petit, arcediago de Evora, a e:x.presslo do seu
compassivo desdem
1

Ponte de Lima, cuja ponte pelo seu comprimento e
por bem acabada, era uma das maravilhas d'aquelle
tempo e dera o seu titulo 4. villa, compunha-se de um
pequeno nucleo de habitações murado, e de quintas e
casaes dispersos; onde residiam 386 familias. No
termo, em que viviam 1679, havia quatro reguengos,
o de Frailo, o de Vai de Vez, o de Geraz e o de
Santo Estevlo, os qnaes, por doação de D. Joio I,
pertenciam agora áquelle D. Leonel de Lima, que, em
1476, foi creado por Affonso V visconde de Villa
Nova da Cerveira
1
• Este fidalgo foi, durante toda a
sua vida, o tormento de Ponte de Lima. O senhorio da
villa nito podia elle conseguir, porque o regente D. Pe-
dro concedéra a esta o privilegio de realenga, de sorte
que em nenhum tempo podesse ser alheiada da corôa
3
:
mas procurava de todas as maneiras sujeitar ao seu
mando moradores e auctoridades. De motu proprio
lançava contribuições aos lavradores do termo, como
foi a de quatro alqueires de centeio a cada um, quando
1 Contemplabar locam humilem et eogitabam qaamtam intere11et
inter ducem Brabantiae et daeem de Barcellia, quo titulo gaudebat hic
du:r Bragantiae vivente patre. Epiatolarum libri duo, cit., Carta. ao ar-
cediago PtlF"'Jta.
z Alem nou.ro, li v. r. ii. 21; Mvtico., li v. u. ii. 59.
3 Alem Douro, liv. •, ii. 109.
. ..
----
  " ' · - - - ; ~
O paiz e seu estado ·social 197
elle se fez .prestes para a mallograda expediçlo de
Tanger no reinado de D. Duarte. Os seus parciaes, e
n'este ponto o exemplo era seguido por outros da sua
esphera, 'fazia-os elle seus acostados, isentando-os as-
sim daa taxas e encargos municipaes: os recalcitran·
tes perseguia-os, privando-os á força de jornaleiros e
pastores, de sorte que as herdades ficavam a monte.
Aos moradol'es da villa lançava coimas desmesuradas
pelos gados que entravam em certas devezas abertas,
junto da villa, de que a corôa lhe fizera mercê. Levava
a audacia a ponto de invadir os conselhos da respei-
tava} vereação, e obrigava os magistrados a cederem
ás soas exigencias
1
• O rei prohibia as prepotencias, e
remettia os aggravados para o corregedor. Não cre-
mos que o poderio d'este fidalgo, valente militar e va-
lido, se assombrasse perante a vara do corregedo1·.
Sendo regente o infante D. Pedro, Leonel de Lima
construiu umas casas de morada na villa: o concelho
protestou contra o desaguisado, qne offendia os f6ros
da villa, que era reguenga. O 1·egente ordenou que as
casas fossem vendidas ou trespassadas por seu dono
1
•.
Este não executou, ou illudiu, o mandado. Essas ca-
sas foram o meio d'elle conseguir, se nAo o senhorio e
jurisdicçi'io da villa, comtudo a dignidade de seu al-
caide-mór, que lhe dava ampla dominação sobre os
habitantes. Ponte de Lima carecia de um caatello.
D. Leonel, em 1464
1
offereceu ao rei aquellas suas
t .4Jem Douro, Jiv. u, fi. lõ: Capitulo& de Ponte de Lima em 1466,
Cluutcellaria de D. §ORIO V, liv. xv, fi. 6õ.
:a Altm Douro, liv. u, fl. lõ.
198 O paiz e seu utado social
cuu para asaento, onde ae erigisse ena fortaleza.
AHonso V acceitou, deu·lhe poderes para adquirir o
mais terreno necessario, e nomeou-o por alcaide com
&u00818io hereditaria, recebendo·lhe logo a homena-
gem, e outorgandcr-lhe as franquias, direitos e tributos
inherentes ao cargo por costume de outras terras.
Tudo isto aem terem sequer começado as obras '. As-
&im juntou o artificioso procere, já donatario dos re-
guengos do termo, a alcaidaria de Ponte de Lima á
alcaidaria, juriadicçllo civel e crime, e senhorio de
Villa Nova da Cerveira.
Vianna constava de 962 fogos. A mór parte dos
moradores empregavam-se na pesca e na navegaçlo.
A fos do rio Lima era baixa; por Í880 construíam-se
earavellas ligeiras, que demandavam pouea agua, e
tinham assim a vantagem de escaparem facilmente á
perseguiçlo dos corsarios nas viagens que faziam aos
mercados do Levante, onde levavam o peixe secco.
Navegavam tambem para o Norte, sobretudo para a
Irlanda, de onde traziam pannos de lã, que se reexpo1··
tavam para a Galliza e para as ilhas da Madeira e dos
Açore1
1
• De identico trafego viviam as povoações de
Ponte de l.ima e de Vil!a do Conde.
t OAancellc&ria de D. AffoniO V, llv. vm, ft. 11.
:a AlaR Douro, li v. r, ft. 241, e Capitulo& de Vianna. Ponte de Lima e
Villa do Conde nas côrtes de 1456- vide os DocummWII illutratiVOI.
No aeculo :r.v a Irlanda e:r.portava estimados tecidos de li e de linho,
  BrilaMiM, s. v. lrelarul. Cf. Pina. Chrmlica de D. Jo"O II,
c. ür •Proveo aaaia (D. Joio II) que de Fraudes, Inglaterra, Irlanda
e Alemanha vieuem, como vieram, em navios maitu e mai rieu tape-
çarias, e panos de lan finos, e facaoeas" etc.
199
A formosa e conhecida descripçlo, que d'esta villa
nos legou Frei Luiz de Sousa, vem confirmar oa fa-
ctos que no capitulo antecedente assentHmos, com res-
peito ao incremento sucoessivo da populaçlo do reino
desde o seculo xv. Pelo meado do seculo xVI, nio pos-
snia Vianna senAo o convento de S. Francisco. No pri-
meiro quartel do secnlo xvn, em que escrevia a sua
obra o nosso classico, havia a mais o convento de
S. Domingos, fundaçlo de D. Frei Bartbolomeu dos
Martyrea, e dois mosteiros de freiras, cada um com
mais de cem religiosas. A populaçlo da villa su-
bira dos novecentos e sessenta e dois fogos, que acima
dissemos, a dois mil e quinhentos. A pesca fôra de
todo abandonada. Os moradores empregavam-se na
navegaçio com os paises do norte, com as ilhas e con-
quistas de Portugal, e, sobretudo, com o Brazil para
o retomo do assucar. Traziam no mar setenta navios,
quasi todos tripulados por gente da terra
1

Caminha, com 280 fogos, era um couto de homi·
siados para todos os mareantes, que ahi se quizessem
acolher a salvo da perseguição da justiça pelo crime
perpetrado
1
• Nos fins do seculo xv, alem da pesca, tam-
bem ahi se exercia algum commercio de navegaçlo
3

Valença, fortificada de macissas e alterosas torres
e muralhas, nlo continha mais de cento e setenta vi-
sinhos.
I Vida do A.rcebilpo, liv. r, eap. 1xvr.
a   A l e t ~ ~ Dtr.ro, liv. 1
1
fi. 4,.
3 Ibid., ft. 10.
--- J'(
200 O paiz e aeu estado aocial
Em Trás-os-Montes as terras mais populosas eram
Bragança, Chaves e Villa Real, de que comprehendia
cada uma approxiwadamente o mesmo numru·o de fa-
milias:-Braganc;a 480, Chaves 485, Villa Real 478.
Bragança, para a qual o primeiro duque d'eese ti-
tulo, sempre avido e ambicioso, tivera o desassombro
de pedir e alcançar o titulo de cidade em 1464
1
, foi
durante todo o seculo xv, como quasi todas as terras
da fronteira, um couto de homisiados '. N'esses tem·
pos as desavenças e brigas entre os concelhos limitro-
phes, dos dois lados da raia, eram incessantes, e cos-
tumavam elles resolvei-as entre si, sem recorrerem ao
poder central. Precisava-se ali de homens feros e des-
temidos, que estimassem em barato a vida. Para con-
vidar os moradores, a cidade gozava do privilegio da
isençlo do imposto da sisa nas compras e vendas: pri·
vilegio que D. João II, em virtude de uma represen-
tação dos cidadãos nas côrtes de 1490, declarou in-
applicavel aos visinhos do te1·mo, que nilo construis-
sem morada sua dentro dos muros no espaço de dois
annos
3
• Bragança era tambem um baluarte da defeza
nacional. As muralhas, que a circumdavam, alteia-
vaw-se firmes e solidas, como testemunham os lanços
que restam de pé. A torre da alcaçova ainda hoje se
ufana, illesa do roçar dos seculos, da sua ampla, ro-
busta e formosa architectura '·
l .Alem Douro, liv. 1
1
fi. 180: Elu.cidario, s. v. Bemquerença.
I .Alem Douro, liv. 1
1
fi. 121.
3 Capitulo& de Bragança, Chancellaria de D. Jo/JQ 11, liv. xVI, fl.l31·
• O seu deaenho vem no citado Livro de DuGrle ff r m a ~  
  ·-.
O paiz e seu estado social 201
Bragança teve a desgraça de ser uma das cincoenta
e quatro fortalezas, nomeadas por Lopes, que
segniram o bando de Castella contra o mestre de A viz:
«não porém que os povos moradores dos Jogares lh'os
dessem (ao castelhano), nem lhe obedecessem por seu
grado, mas os alcaides e os melhores de cada um lo-
gar lh'os oft'ereciam e sua voz, e a faziam
tomar aos pequenos por força,,
1
• Assim o fez em Bra-
gança Aft'onso Pimentel, senhor da villa, a quem
fôra doada por seu cunhado, el-rei D. Fernando. Af-
fonso Pimentel era casado com uma irmit bastarda da
rainha D. Leonor. Pouco aquilatado em pontos de
honra, este fidalgo tambem não cui'dou em valer-se da
fortaleza das muralhas de Uragança para demonstrar
a sua fidelidade a Castella e os seus brios de cavalleiro.
A rendição de Chaves, cujo alcaide seguira o mesmo
caminho, porém, s6 na extrema necessidade e absol-
vido do preito pelo seu rei, entregára a praça, bastou
para que o de Bragança negociasse com bom proveito
a capitulação; depois de ter esbulhado de grossa
somma de dinheiro mercadores castelhanos, que se
tinham acolhido na villa, confiados na sua lealdade '.
D'esta serie de desprimores do seu alcaide resultou
para Bragança, peior escançada que outras terras em
igual situação, que ficasse nos limites do seu proprio
te1-mo um padrão vivo do desar que empanava os pea·-
ga.minhos foralengos, que lhe haviam sido outorgados
pelo segundo rei de Poa·tugal. Ainda em 1500 D. Ma-
t de D. Joã, l, parte r, c. 69.
a Jbitl., parte u, c. 72.
202 O paiz e seu estado social
nuel confirmava a carta regia de D. João I, que isen-
tou os morad01·es de Agrocbào de pagarem a Bragança
peit.a.s, fintas, talhas ou qualquer outa·o encargo, e de
serem obrigados a trabalhat· nos muros, carcovas e
barbacans do castello, e de velarem e roldarem na dita
villa: porque, quando.João Affonso Pimentel se alçou
com essa villa por   os de Agrochlo ajuntaram
os seus gados, e se acolheram para o interior '. E não
s6mente era esta aldeia isenta das collectas municipaes
mas ta.mbem da contribuição senhorial em dinheiro,
que, por cada lareira, pesava sobre o resto do termo.
no novo foral do mesmo D. Manuel, o rei, com
bem entendida génerosidade, att1ibuia essa notavel
prerogativa aos serviços outr'ora prestados por Agro·
chão á cidade de Ba·agança '.
No extenso alfoz do concelho residiam algumas 5169
familias.
Nilo longe da cidade apparecem hoje aa ruinas de
um dos mais opulentos mosteil·os benedictinos de Por-
tugal no seculo xv, o de Castro de Avellans, cuja fun-
dação entronca nos tempos da monarchia wisigothica,
e ao qual, provavelmente, Bragança deu vassalagem em
tempos muito antel'iores á carta de foral com que, em
118 7, foi beneficiada por Sancho I. Entre os tributos,
que o cenobio impozera aos colonos das suas terras,
comprehendia-se o de maneria ou maninhd.dego, gra-
vame usual n'aquella regilo, que consistia na attribui-
çlo ao senhorio de uma parte da herança do morador
1 Alem Douro, liv. 1
1
fi. 29.
a Foral de Bragança, Livro doa foraea novos de Trú-oa-Moutee, S. !8,
--,.
--- --.. -
O paiz e seu estado social 203
defunto. D'essa imposiçlo libertava o fo1·al de San-
cho I os visinhos de Bragança, de quem ficassem pa-
rentes
1
• O mosteiro, porém, não se cingia i. esta res-
tricção com os seus tributarias. No seculo xv a
pretenção havia-se encurtado até á terça da herança
dos fallecidos sem deixarem filhos. No meiado d'esse
st>culo o primeiro duque de Bragança restringiu-a ainda
mais, s6mente ao caso d'aquelles fallecidos, que nunca
tivessem tido filhos, e oito d' aquelles, cujos filhos hou-
vessem previamente morrido'· O faustoso mosteiro,
que assim accumulára vastas possesslJes, foi, a instan-
cias de D. João III, extincto em 1546 pelo papa
Paulo III, que fulminou sobre a communidade a sen-
tença, de que a sua devassidão e vida escandalosa ex-
cluiam toda a esperança de reforma
3
• As suas rendas
foram applicadas pelo rei á sustentaçilo do novo bis-
pado de Miranda.
Chaves, em cuja ponte sobre o Tamega se lia a in-
scripção dedicatoria a Vespasiano, Tito e Domiciano
e a seu legado V a.lerio Festo, com a lista das dez ci-
l «Logo que o morador de Bragan\!a tenha um filho, nlo fique su-
jeito ao maninhádego (non .it manaria), quer o filho tenha m<orrido, quer
estt>ja vivo. Se o habitante da vossa villa morrer e nio tiver ahi filhos
ou parentes, tende-os n'ootra parte, venham esses parentes e recebam
a ena heran9a; mas, se os nilo tiver, a metade de todos 01 aeus bens
dê-a o concelho por sua alma, e seja para o senhor (da terra) a outra
metade. Os clerigos de Bragança nllo sejam sujeitos ao maninhádego•.
Foral velho de Bragança em Herculano, HVIoria de Porl.uga.l, tomo IV
1
Jiy, VII1
1
parte 111.
J .Elucidlirio, s. v. Maninhádego.
3 Gama Barros, Hiatoria da AdminittrtJVllo Publica, ". 1, c. 2
1
secçlo r.
204 O paiz e seu estado ·social
dades, que haviam concorrido para essa obra
1
, era, no
seculo xv, outro couto de bomisiados
1
• Depois de con-
quistacla ·com assaz trabalho a Martim Gonsalves de
Athaide, que seguira a voz de Castella, D. João I doou
a villa ao condestavel
3
• O genro d'este preferiu Cha-
ves para séde da sua residencia a Bragança, á qual
estava ligado o seu titulo ducal: ainda hoje pelo seu
nome se designam os paços do castello. Em Chaves
morreu, e jaz sepultado na igreja de S. Francisco.
Na dilatada e fertil veiga, onde assenta a villa, e
em outros Jogares do termo, possuíam coutos e hon-
ras o arcebispo de Braga, o prior do Hospital, outras
ordens, e alguns fidalgos poderosos. Ferozes como se-
riam os criminosos   de Chaves, os fidalgos,
qne por ahi esta.nceavam, não lhes confessavam van-
tagens. Em 1487 os visinhos de Chaves invocavam a
protecção de D. João II contt·a os fidalgos que lhes
tomavam para seu serviço os animaes de carga, de que
os donos pt·ecisavam para o transporte dos generos
agrícolas'·
Villa Real, sobre o Corgo, situada em chão feraz de
vinhedos, milheiraes e pomares, é uma ct·iação exclu-
siva da coroa em um dos seus reguengos no districto
de Panoias. Nesta regiito, por carta de foral de 1096,
o conde D. Henrique povoou de mesteiraes e merca-
1 Haebner, NMiciaB archtJJlogiotu de Ptn'ttlgal.
l Alem Douro, liv. r, fi. 116.
3 Fernlo Lopes, Olaronica de D. Jollo 1, parte u, e. 68.
4 Alem Douro, Iiv. r, ft. 116 e aeguiutes.
O paiz: e Beu utado 1ocial 205
dores o burgo de Constantim
1
• A organisaçào munici-
pal d'este b01·go, evidentemente destinado a auxiliador
do poder central na cobrança dos direitos reaes e no
enfreiamento da aristocracia, parece uio ter surtido os
desejados effeitos, porquanto cessam as memorias da
sua existencia, e vemos Sancho II, na primeira metade
do seculo xm, tentando constituir em unidade muni-
cipal as povoas dispersas d'aquelle teiTitorio. 'rambem
foi baldado o seu tentame
1
• 86mente em 1272, no rei-
nado de Affonso II, nos apparece um foral dado ex-
pressamente aos moradores de Villa Real. Mas este
rei não conseguiu ainda assentar decisivamente o con-
celho. D. Diuiz outorgou-lhe outra carta em 1289, a
qual não deu satisfação aos moradores; e, por mutuo
accordo, se lavrou definitivamente o foral de 24 de fe-
vereiro de 1293
3
, por onde se regeu a terra até á re-
forma geral em tempo de D. Manuel, que, lembrando e
excluindo os precedentes foraes, tomou unicamente o
ultimo para base da estimativa do imposto'·
As difficuldades, experimentadas na implantação do
1·egimen municipal na região de Panoias, demonstram
que ahi, como em geral nas p•·ovincias septent1·ionaes,
uma aristocracia soberba, poderosa e oppressora manti-
vera por mais tempo a sua tyrannia sobre as classes po·
pulares, e annullava as tentativas libertadoras do poder
monarchico. Ainda, no seculo xv, se patenteava no con·
1 Herculano, Rüloria de Portugal, tomo 1v, Iiv. vn, parte 1.
J lbid., Iiv. vm, parte n.
s Uama Barros, Hütoria d4 ÃdminútriJ9(Jo Publica, tomo n, e. 7.
4 Li11ro doB forau fWf,'OIJ de Tnú-oB·Montet, fi. 41.
206 O paiz e utado IOCial
celho de VillaReal a persiatencia hereditaria d'ea88.1 in-
fluencias seculares. A villa compunha-se quasi exclusi-
vamente de artifices e negociantes. No termo a fidalguia
não perdêra de todo os costurues tradicionaes da sua
estirpe. É o que transluz da exposição feita pelo pro-
curador de Villa Real nas cOrtes de 1459. No alfoz
abundavam os coutos e hom·as, solares de poderosos
fidalgos, contra cujas demasias se confesaava impo-
tente a justiça municipal ; por ser esta exercida por
cidadãos da villa, os quaes, mercadores de profisüo,
eram obrigados a vaguear pela terra, e, n'essas digres-
sões, esperados e maltratados pelos fidalgos. O corre-
gedor, para o qual appellavam, mostrava-se remisso
em fazer justiça dos nobres delinquentes
1
• O rei reco-
nhece a justiça da petição, . e manda ao corregedor
que execute as respectivas ordens regias, sob pena
de dois mil reaes, metade para o p1·ocurador do con-
celho, que o accusar, e metade para a arca dos capti-
vos.
Pela soa carta de foral era a villa séde de toda a
justiça, e aos juizes do concelho cabia jurisdicçiio em
toda a t.erra de Panoias. Nas aldeias do termo, aqui
como succedia em outros concelhos, delegavam
uma parte da sua auct01·idade judiciaria em juizes su-
balternos, chamados jurados, do juramento pres-
tavam, cuja miaão consistia na captura dos Ciimino-
sos e na decisão das pequenas questões, com appellação
t Clarutcellaria tü D. Affrnuo V, liv. suv1, fl. 151 - vidf' os  
flttlnlot iUuttTCilir;ot.

O paiz e HU utado BOCial 207
para o tribunal da cabeça do concelho
1
• Aqui tinham
estes tambem a seu cargo a cobranqa dos impostos,
taes como os dez a·eaes J»U'a Ceuta e os pedidos lança-
dos em côrtes. Em summa, representavam nos seus Jo-
gares a auctoridade municipal, e, como apontava a
,·ereaçào nos seus   eram indispensaveis para
a governaçlo da terra. A todo o n1unicipe incumbia a
obaigaçlo de servil· este espinhoso officio publico. Os
fidalgos de Panoias por valimento com o cora·egedor
escusavam os seus clientes e parciaes, e a poder deve-
xações compelliam os independentes a deporem o en-
cargo. As aldeias ficavam sem justiça
1
• O fidalgo se-
nhoreava a seu belprazer. Pelo a·ei é, ua fórma do
costume, commet.tido ao corregedor o desaggravo, e
a manutenção do direito.

Baixando de Villa Real á Regoa, couto do Bispo do
  em que elle exercia a jurisdicção civel
3
, e atl'Oo·
vesaando o Douro para a margem esquerda na barca
de passagem, de que o mesmo, neste ponto, tinha o
monopolio de metade com o conde de Marialva, en-
tramos na mais pobre e despoliciada região d'aquelles
tempos- a comarca da Beira. N'ella l\8 terras ln·inci-
paes eram as tres capitaes diocesanas, Lamego, Vizeu
e Guarda.
t Vide eobre esta entidade dos jurados, origem doa jaizt>s pedaneos,
Herculano, Hã.Coria de Portugal, tomo rv, liv. vm, pade u. Tambem se
chamavam juraão. quaeeqaer empregados manicipaes, aos quaes a ve-
reaçlo deferia juramento : Fóros de 8. Martinho de Mouros nos Ineii
to. da Academia, tomo rv.
2 CACltlcellaria de D . .AfOfiiD V, liv. citado.
I Cunha, Catalogo do. do Porto, parte n, cc. 18 e 28.
208 O paiz e seu e8tado social
Na feracidade do torrão circumjacente, Lamego
era a mais avantajada d'estas cidades. No meiado do
seculo xv expedia para o   cereaes, azeites, vinhos
e vinagre
1
• Um curioso obsel'vador, em 1531 , nos dá
noticia de que a producção do conct:lho abrangia trigo,
centeio, milho, vinho, azeite, grande abundancia de
castanhas, e muita variedade de fructas. Nas margens
doBarosa, que verte no Douro as aguas d'esta região,
davam-se dos melhores vinhos do reino, medravam
olivaes, nogueiras, e outras arvores de fructo; por
uma legua antes da sun confluencia, essa ribeira era
toda assombrada de bosques de castanhtiros. Aflluente
della, o riacho Balsemão, que banha a cidade, a mon-
tante movia azenhas de moagem, a jusante até á al-
dt:ia do seu corria entre espessos soutos e po-
mares'.
Lamego constava de 4 72 visinhos, por
tres bairros; de um lado o arrabalde da Searn, vivenda.
do povo miudo e trabalhad01·, do out1·o lado o bairro
aristocratico da Sé, morada do bispo, conegos, bene-
ficiados e pessoas nobres; no meio, em um teso, a al-
caçova com seu castello e torre, dentro de cujo re-
cinto, em 1441, residiam trinta familias, e, em 1527,
cincoenta e oito
3

O termo, em que viviam umas mil famílias, e.-ten-
dia-se em 1·oda da cidade no raio medio de uma legua.
t Chancellaria de D • .fj'QJIIO V, liv. xm, fl. 104.
! Dcscripçito do terreno em roda de LamE'go, Ineditw da Academia,
tomo v.
I Chancellaria de D. Alf• n1o V, li v. n, fi. 87 : citado Rtcen•emnentn
da Beira.
l
O paiz e seu estado social 209
A estreiteza do alfoz ea·a objecto de lastima pru·a os
cidadãos, que memoravam o tempo, em que a jurisdic-
çlo municipal Re ampliava a teaTitorios, que haviam
sido dados em prestimonio a fidalgos e a mosteiros
1

JI,Ora D. João I quem eft'ectuára esta mutilação, pe-
las doações, a seus dilectos, das terras de Mondim, Se-
ver, S. Martinho de Mouros, Castro d'Aire, Magueja,
Valdigem e Sande, assim desagregadas do concelho.
Lamego não merecêra este esbulho, porque, como toda
a comarca da Beira, tinha tomado a parte do mestre
de Aviz
1
• Na regencia do infante D. Pedro, o conce-
lho, assim amputado, padece novas tribulações. O go-
verno d'este principe, contestado na sua legitimidade
e de que se previa a curta duraçilo, dava campo, pela
Rua debilidade, ás prepotencias do clero e da nobreza.
Na cidade e termo de Lamego, onde se contavam seis-
centos moradores da classe popular, o bispo e o cabido
arrogaram-se o direito de eximir da tributação muni-
cipal mais de duzentos e quarenta, seus lavradores e
caseiros; o alcaide, de quem abaixo fallamos, cerca de
duzentos; outros fidalgos, trinta ou quarenta; de modo
que, em summa, toda a população sujeita aos encar-
gos ficava reduzida ao numero de trinta fo-
gos. Era a decapitação da cidade, que, como diziam
os procuradores ás côrtes de 1441, descia á graduação
de uma aldeia. Os magistrados impugnaram judicial-
mente as .pretensões da igreja diocesana, e ao mesmo
t Claanetllaria de D.   • V, Jiv. :uu, fi. 104..
2 Fernlo Lopes, CAronica de D. Joao 1, parte r, c. 162.
14
210 O paiz e seu estado social
tempo t·ecorreram ao t•egente. Este, em relação ao plei-
to que se ventilava com a auctoridade ecclesiastica, de-
clarou-se inhabil para intervir, e, quanto ás exhorbi-
tancias dos fidalgos, recordou as provisões de D. João I
e D. Duarte, que invalidavam os alvarás de immuni-
dade concedidos pelos :fidalgos'· Dos capítulos de La-
mego em cOrtes posteriores se co1lige que a cidade
conseguiu triumphar d'estas iníquas arremettidas.
Dentro do proprio tet·mo conservado, ou na contigui-
dade, o governo encontrava as barreiras do
privilegio. O opulento cenobio cisterciense de Salzedas,
fundação de D. Tareja, viuva de Egas Moniz, gosava,
nos seus estensos coutos, da jurisdicção episcopal e da
secular com mero e mixto imperio '. O duque de Bra-
gança governava a behetria de Bretiande
3
; nas suas
honras varios fidalgos estavam isentos da auctoridade
municipal.
Estreito oomo era já o aro do concelho, houveram
ainda os magistrados de pugnar pela sua conservaçlo
contra a insensata prodigalidade de Affonso V. No seu
desordenado jubilo pela tomada de Alcacer Ceguer, o
rei doára a esmo jurisdicções e tributos regaleugos. No
reino similhantes mercês causaram grandt"' abalo, e
reclamações dos povos assim entregues ao domínio de
uma aristocracia infrene. Uma das cidades lesadas· foi
I   de D. A.ffonBo V, li v. n, fi. 87- vide os Documenl08
iUuBtrativ08.
2 Brandlo, Monarchia LUBittma, parte m, !i v. xr, cc. 5 e 21; Fr.
Manoel dos Santos, Alcobaça illmtraàa, Apparato I 3.
3 81Jf10p8Ü clronologico., e. r. de ao de setembro de 1444.
---------------------
O paiz e seu estado social 211
Lamego. O •·ei concedêra a jtlrisdicção do reguEingo
de Penajoia a D. Fe1·nando de Menezes, o qual já ahi
diafa·uctava as rendas da cot·oa. }i,eliznlente a. cidade
posamia uma carta de el-1·ei D. }i'ernando, que lhe in-
cluira no termo essa aldeia e a de Figueira.
Á v i   ~ t   d'esta ca1·ta, o soberano, fundando-se, alem
de r&Bes genericas, em que não tinha conhecimento
d'esae diploma, quando :firmára a doação, revogou-a,
e restituiu a juriadicçilo a Lamego. Tambem elle con-
cedêra a um simples escudeiro, por nome Fernão da
Granja, pa1·a uma quinta que posauia no termo em
Canellas de Av<5es, a alta regalia de honrada e cou-
tada, de sorté qne ali tivesse ujurisdicção, voz, coimas
e senhorio, e podesse para ahi nomear um dos tabel-
liàes da cidade». Similhante distincçào s6mente cabia
a fidalgos da primeira jerarcbia; por ella um singelo
escudeil·o se intitularia senhor de Avões, e em seu
nome seriam publicados os mandados da juatiça. Sem
entrar n'estas particularidades, Cel'tamente porque se-
riam pessoalmente oft'ensivas a um conter•·aneo, a ci-
dade de Lamego limitou-se a declarar que similhante
concessão no seu proprio tea·mo era humilhante para
a sua dignidade. « Viato seu requerimento e aggravo;
esguardando as muitas e legitimas rnzBes, que poa· es-
tes pt·ocuradores, e por outros uas cidades e villas,
que a estas côrtes (de 145 9) vieram, foram allega-
das sobre similhantes jurisdicções, e dadas por tal
maneh·a; e considerando que nunca fôra seu intento
fazer outorgas em prejuízo das cidades e villas, c.u-
jas liberdades e franquezas muito desejava honrar
e accrescentar)): o rei declat·ou por nullas as ca1·tas
212 O paiz e seu estado social
dadas a D. Fernando de Menezes e a Femlo da
Granja •.
A cidade de Lamego nito desejava ver-se a braços
com mais fidalgos: para seu desassocego já elles so-
bejavam. Sobretudo um da mais subida cathegoria
nutria ella no proprio seio, que bem lhe amargm·ava
a vida.
A histot·ia domestica de Lamego prende-se intima-
mente com a da poderosa linhagem dos Coutinhos.
O solar desta casa era o couto de Leomil, no pla-
nalto coroado pela serra do mesmo nome, que mede
mil e desoito metros de altura, um dos pincaros da
cordilheira, que corre entre os rios Paiva e Douro. A
ultima jazida destes fidalgos era a igreja do convento
de Salzedas. A sua arvore de costado remontava aos
tempos da libertação de Lamego do jugomussulmano
1
.
O chefe desta nobre familia, Gonçalo Vasques Cou-
tinho, cumulava as alcaidatias de Lamego e de Tran-
coso quando, em 1384, D. João I de Castella entrou
pela p1imeira vez em Portugal pela Beira. Hesitou o
alcaide se haveria de se lhe apresentar, e seguir o seu
bando. Contava-se que o haviam demovido os conse-
lhos de sua velha mãe, que o adve1·tiu, de que com os
nescios e os apressados lucra a outrl\ gente, que em
caso tão incerto toda a trigança era danmosa: ccé bem
que voa deixeis estar, até que vejaes que termo dispõtm
vossas cousas, e assim podeis encaminhar vossos fei-
t Beira, Jiv. n, fi. 222.
2 Branclllo, Monarchia ImtJilafla, parte m, lh·. nn, c. 21: Hilloria
Gemologica da CaBtJ RtaT, tomo v, p. 172.
O paiz e seu estado sucial 213
tos, como senth·des por muis vossa honra e proveito
1
• ))
O alcaide assim o fez; conservou-se neutral. No anno
seguinte foi um dos capitães na mortifera batalha de
Trancoso, em que nem um s6 dos homens d'armas
castelhanos ficou vivo'.
Posteriormente era a família representada por V asco
Fernandes Coutinho, primeiro conde de _:Marialva,
titulo, que recebeu do Regente D. Pedro, sem embargo
de que fôra anteriormente o caudilho da fidalguia con-
jurnda contra este principe
3
• Mas desta e outras mer-
  que depois alcançou, se deprehende que o Regente
lhe soube amacia•· o animo. Era o conde um habil
agenciador: deixou de si a memoria de muito destro
nas artes de grangear o incremento da fortuna'·
Vasco Fernandes Coutinho foi um dos maiores se-
nhores do seu tempo. 1\Iarechal, meirinho-0161· do
reino, senhor de Marialva com jurisdicçào civil e cri-
minal 51 elJe percebia todas, ou algumas das rendas
fora)eiras, em Armamar, Sinfães, Trancoso, Fonte
Arcada, Penella, e outros Jogares
6
• No termo de La-
mego o opulento morgado de Medello era sua proprie-
dade patrimonial. Como donatario da coroa possuía
ahi tambem Penude e :Magueja, e nas cercanias Mon-
dim e S. Martinho de :Mouros. Em Lamego era senhor
l F. Lopes, Chronica de D. Jollo I, parte 1
1
e. 60.
2 I6id., parte u, ce. 20 e 21.
3
J>ina, <.hronica de D. A.lfouo V, c. 10.
• Veja-se, na citada DucripçiJu do territorio, etc., a tratli9ào, que
quaai um seculo depois corria no vulgo, da maneira por que elle adqui-
rira o morgado de Medllllo.
!>   liv. m, ft. 148.
' lbid., fi. 117.
!14 O paiz e ~   u utado 10cial
do prestimonio e alcaide-mór: colhia todos os direitos
senhoriaes da cidade e termo, os quaes eram muito
gravosos; - fôro de quasi todas as c88a8, a porta-
gem, as multas criminaes, seis arrateis de carne de
cada rez bovina abatida nos açougues, e muitas outras
prestações
1

Por morte deste magnate, com excepção da digni-
dade de marechal, que passou para o seu filho segundo
D. Fernando Coutinho, em cuja descendencia conti-
nuou, o titulo de conde, demais ca•·gos e os bens da
coroa foram herdados pelo seu primogenito, D. Gon-
çalo: e na "sua geraçio se conservaram, até que ella
se extinguiu tragicamente em 1534, morrendo, no curto
espaço de cinco mezes, duas creanças, e seus paes, o
infante D. Fe1nando e D. Guiomar Coutinho, unica
herdeira das casas de Marialva e de Loulé. Quatro
annos apenas durá.ra a união matrimonial, porque a
tinha impedido uma longa demanda, em que o mar-
quez de Torres Novas reclamava por sua legitima
mulher, secretamente recebida, a desposada do infante,
irmilo de D. João IIP.
As chronicas dos reinados de D. Affonso V e
D. João II relatam muitas proezas de valor praticadas
por membros desta illustre família. O segundo conde
pe•·eceu no mallogrado escalamento de Tanger em
1 Chancàlaria de D. João II, li v. xv1, fi. 22: citada Ducript;llo do
terreno em redor fie lAmego; é de advertir que os direi toe n 'este eecripto
designados como perten<lt'ndo ao infante D. Fernando aio oe da casa
Marialva, com cuja unica herdeira o infante era casado.
z Hilloria. Genea.logim til.& Cam Real, tomo 111
1
Ii v. IV
1
c. 9 e tomo xn,
parle r, liv. :uv, p. 827.
O paiz e seu estado social 215
1463: o terceiro na tomada de .Arzilla em 14 71. O
marechal D. Fet'llando ficou prisioneiro dos mouros
n'aquelle assalto de Tanger: seus dois filhos, D. Alvaro
e D. T1·istão, acabaram na guerra de Castella, cc.ante
mim, por meu serviço-diz .Affonso V n'uma carta
regia assignada em Toro em 1476-morreram como
bons e leaes criados e servidores>> : seu neto, filho de
D. Alvaro, foi, no reinado de D. João II, desbaratado
e morto, com outros desassete fidalgos, nos campos de
Arzilla
1

Não era illuminado por esta aureola de gloria que
habitantes de Lamego consideravam o seu alcaide-
mór. A nobreza de Portugal nunca teve o condão de
se fazer amar dos seus subditos . .Aos plebeus não
desprazia o serviço de acostados e apaniguados, para
assim disfructarem a protecção dos poderosos, e o
privilegio das altas classes de isençl.o dos encargos
municipaes: mas recalcitravam contra o senhorio des-
tas, quer como tributarios, e muito mais como juris-
diccionados. A villR. de Marialva houve por grande
ventura a promessa, que, em 1464, lhe fez o rei de
a libertar da jurisdicção dos Coutinhos por falleci..a
mento do conde D. Joiio, o que foi morto depois na
tomada de .Arzilla, e de lhe guardar o privilegio do
seu foral, lavrado por D . .Affonso Henriques, de não
poder ser doada senAo ao príncipe herdeiro'.
1 Beira, liv. u, fl. 80 e 124; Mütico., liv. m, fl. 288; Chancellaria
de D.   li v. xxvn, fl. 42 e 45; Goes, Ohronioa do Principe D. Jollo,
cc. 17
1
26, 28, e Ohrrmico. de D. Manuel, parte I
1
c. 12 : Pina, Chroni()(l
de D. AffoMO V, cc. 168, 165, 179.
a BftrtJ, llv. n, fl. 81.
216 n pai:: e seu estado social
Sobre Lamego nenhumA. acc;ão judiciaria cabia ao
donatario: a justiça pertencia ' municipalidade. Os
aggraTos da cidade referiam-se a extorsões violentas,
e a excessos na exacção dos direitos do prest.imonio.
Ao primeiro conde imputavam os procuradores nas
cOrtes de 1459, que mandava tomar as victualhas aos
laYradores, e nilo as pagava pelo terço do valor
1
• Uma
das questões entre o concelho e o nobre senhorio, que
se protrahiu por longos annos, versava sobre o relego
do vinho, quer dizer, sobre o direito exclusivo de o
vender na cidade durante certo tempo. O donatario
arrogava-se esse direito no mez de Agosto. A cidade
parece que :..cceitava a pretenção nas côrtes de 1451,
mas affirmando que a prerogativa se limitava exclusi-
vamente ao vinho p r o   u ~ i   o no termo, e a nenhum
outro'· Posteriormente contestava em absoluto simi-
lhante privilegio. Quando em 1514 D. Manuel refor-
mou o fo1·al, a questão pendia. nos tribunaes, e esse
novo diploma reportou-se ' final decisRo do pleito
3

O conde de }farialva não exercia pessoalmente as
fnncçoos da. alcaidaria: segundo o costume eram estas
desempenhadas por um preposto, o alcaide pequeno,
cuja. nomeação em Lamego competia ao alcaide-mór.
Oppressões e desprezo do sen dever assacavam a este
funcciona.rio os procuradores nas côries de 1468: em
cinco annos haviam sido entregues 'sua guarda no
castello quarenta a cincoenta. presos, e todos se haviam
' Claancellaria de D. Aff071MJ V, liv. ,;xxvr, fi. 194:.
2 OAanceUaria de D. AffORIIo V, Jiv. xx, fi. ó7.
3 Foral de Ltlmego, lÃvro 00. Fora.u No1J08 da /Jeira, fi. 133.
E -
PfEI.s. upa» ·-
O paiz e seu estado social 217
evadido. E, por desgraça, o cargo fôra-lhe conferido
por toda a vida, contra os preceitos da lei geral, que
limitava a duraçilo a tres annos. Affonso V respondeu
mandando cumprir a lei, salvo se o foral estatuisse
privilegio opposto
1

Nas côrtes de 1490 apontavam os procuradores de
Lamego uma extorsilo fiscal do conde donatario. A
portagem, de que, pelo seu foral, eram isentos os mu-
nícipes, e que elle devia cobrar na barca de Moledo a
legoa e meia, mandava-a exigir á entrada da cidade,
e até aos oleiros, que viviam no termo. D. João TI,
com a sua incisiva energia, determinou a cessaçfto do
abuso', tanto mais de estranhw·, que este conde,
D. Francisco Coutinho, por seu casamento juntára á
riqueza de sua casa os bens do condado de Loulé
3

  t ~ t a s incriminações contra os nobres senhores do
prestamo esmorecem deante d'aquellas pl'Oduzidas
contra o bispo D. Joilo da Costa nas côrtes de 1-4:59.
Este prelado trazia na cidade um numeroso sequito
de parentes e apaniguados, que se aposentavam nas
casas do arrabalde, e ahi se mantinham, defraudando
de muitas victualhas os seus forçados hospedeiros:
«e estes homens fazem muitas t1·avessuras em dormir
com as mulheres casadas, e em ferir e acutilar, sem o
corregedor e juizes a isso tornarem, a uns por serem
seus, a outros por nilo ousarem». O bispo, de caracter
violento, não consentia qne os tabelliiles da cidade
t Beira, liv. u, fi. 198.
2 Cl&anceUaria de D. João II, I. 16, fi. 22.
I Hi&toria Ge11•alogica dtt Cam Real, tomo v
1
p. 898,
218 O paiz e seu estado social
fossem, na fórma do costume, ú audiencia.s do tribu-
nal ecclesiastico, para ahi apreaentarem instrumentos
e eacripturaa doa litigantes secularea: excommun-
gava-oa, «e manda-oa ameaçar que os fad. lançar por
uma janella. fóra,, A mansidão da phrase no despacho
regio, provendo a estaa eacandalosas prevaricações,
nilo nos deixa suppor que elle amedrontaase e cohi-
biaae a soltura doa acostados episcopaes. Afl'onso V
determina, quanto á aposentadoria, que, se ella foSBe
imposta aos leigos sugeitos á jurisdicçlo temporal, nlo
o consintam os juizes; quanto á.s mal feitorias, fosse o
bispo citado ante elle pela vereaçilo, que «serão ou-
vidos, e haverão cumprimento do seu direito • : que
não fossem excluidos os tabelliAes seculares dos audi-
torios ecclesiasticos, senito elle proveria, como enten-
desse, em proveito do seu povo •.
Contra as violencias do bispo e dos fidalgos tinha
Lamego a ventura. de se poder escudar com a protec-
çlo dos seus magistrados autonomos: como no Porto
e em Braga, tambem em Lamego D. João I privá.ra
o bispo da jurisdicção civil e criminal, que exercitava
no seu antigo couto, o arrabalde da cidade
1
• Outro
tant.o nilo acontecia no territorio circumvisinho. A ma-
xima dist.ancia de tres legoas, Lamego estava l'odeado
de dez logares de jurisdicção senhorial
3
: ahi, se bem
que nlo iaentos da superior jurisdicçlo do corregedor,
os donatarios dispensavam a justiça pelos seus ouvi-
l ChancellGriG de D. A..ffon10 V, Ii v. xuv1, fi, ·liK.
2Jbidem.
s Beim
1
Iiv. n, fi. 198.
,--.-i .. -.
O paiz e seu estado social 219
doreB, e tinham aBsim na Bua mio a "ida e fasenda
dos vassallos.
Lamego teve a ousadia revolucionaria de represen-
tar, nas cOrtes de 1468, contra a injusti6cavel conser-
vaçito destes focos de criminalidade, onde se acolhia
toda a casta de malfeitores, e propunha a extincçito
desses coutos: mas o monarca, como se lhe pedissem
que altera.sse o curso dal!l estações, replicou seccamente
que nlo podia quebrar os privilegias •.
Nesse circuito, apezar da fecundidade do chio, m a ~
nifestava-se em relevo a iniquidade usual na distribui-
çlo dos fructos do trabalho agricola.
Institutos asceticos, e laboriosos na sua origem, ha·
viam-se convertido em mansões da indolencia. Alem
do mosteiro de Salzedas, ahi demorava tambem, do-
tado de um couto de amplas herdades, o de S. Joio
de Tarouca, primaz da Ordem de Cister em Portugal,
fundação de D. Affonso Henriques, e notavel pela sua
bella igreja, obra do architecto Joio Froylaco
1
• Este
nome indica origem franceza: o edificio, como elle
ainda hoje subsiste, é um primoroso exemplo do c h a ~   ­
mado estylo de transiçilo, aquelle que os monges cis-
tercienses levavam comsigo de França no seculo XII,
e espalharam por toda a Europa, imciando a criaçfto
da forma ogivaP. Mas já no seculo :xv a riqueza nilo
IJbidem.
a Frei Antonio Bnmdlo, MORtJrGAit.l Luilana., parte m, liv. n::, ec. 9
e 21, e liv. xr, c. 27.
s •Wohl aber ebneteD aie (die Cisterzienaer) Taseber den gotieeben
konstruktiven Formen dea Wege; Spri08'flr
1
Kanatgesehiebte
1
citado.
220 U paiz e seu estado social
servia a esta ordem religiosa para a erecção de monu-
mentos do culto divino.
As classes superiores, o bispo, o cabido e os pre-
bendados, o conde de Marial v a e os outros donatarios
da coroa, as ordens militares, os dois claustros cister-
cienses de Salzedas e Tarouca, consumiam a maxima
parte do rendimento da tel'ra pelos dizimos, direitos
dominicaes, fóros, monopolios, pelas innumeras pres-
tações de generos e de serviços pessoaes. O colono e
o emphyteuta conseguiam aguentar a vida: o jorna-
leiro, o cavilo, o proletario, sempre misera.veis, mor-
riam á. fome com a menor intemperie nas quadras do
anno
1
• O município era pobre; o seu rendimento, em
1456, não passava de tres mil reaes
1
: por isso elle
reclamava nas cOrtes de 1490, que para as despezas
da enviatura a essas assembleias fossem compellidos a
contribuir todos os concelhos do almoxarifado, ou,
pelo menos, os adjacentes á. cidade dentro do raio de
duas legoas
3
; o que não obteve resposta.
Vizeu continha 459 moradores, rudes e safaros como
os fraguedos do seu districto.
Dos extravagantes capítulos, que succedia apresen-
tarem-se em cOrtes, poucos disputarão a palma da ori-
t Vide citada Ducripçlo do teTrerw, de. O auctor d'eate notieiol!o
opuacnlo, eacripto em 1531-1532 e dedicado ao bispo da diocese, a par
doa seue t>ncomioa i regilo deacripta admira-se, eomo forasteiro qne
era. do exceuo du foragena, e nota a miaeravel condiçllo do simples
braceiro.
I ChancellarÜJ àe D . .Aj'001o V, liv. xm, ft. 104.
3 04ancellari4 àe /J. João II, liv. &VI
1
ft. 2'J.
-  
----
,..,_ ___ -.
O paiz e seu estado social 221
ginalidade áquelle que os procuradores de Vizeu leva-
ram 's côa·tes de 1459. É COtltume da nossa cidade-
expunham elles- ir em romaria eom a signa a Santa
Matia do Castello, que é no concelho de Azurara
(Mangualde): ora dá-se o caso que alguns moradores
do termo, que pertencem á freguezia da Sé, não que-
rem ia·: pedimos que possam ser a isso constrangidos
por justiça. A pretençAo de tornar oba·igatoria uma
longa jornada em romaria conseguiu saccar dos qui-
cios a prop1ia natural cortezia de Affonso V, que a in-
deferiu com rudeza
1

A vereação sollicitava outra wercê, relativa ao
mesmo objecto: «e nos deis um pendão, que levemos
á dieta romaria, como déstes ao concelho de Lnmego
e ao da Guarda, porque um, que temos, é já roto, e
nos fareis em ello grnnde mercê.,, petição foi fa-
voravelmente acolhida: «e o pendão me pa·az de lh'o
dar; requeiram ao nosso thesonreiro»
1

Como se vê, a cidade não era abastada: ella mesma
dizia de si e do seu termo, que eram «uma das pobres
e gastas tetTas que ha no reino». Cabeça de um du-
cado, de que fm·am successivamente titulares o infante
D. Henrique, seu sobrinho D. Fernando, e o
filho deste, apunhalado por D. Joio II, não parece
que estes principes, que arrecadavam os tributos, se
desvelnssem_muito pela sorte dos contribuintes. As mu-
s «A esto rreapondemoa que nom he necesaria rrepoata e quem tiver
deuaçnm vnR romaria como e quando lhe aprouver•.   de
n. A.ffmiMJ v, liv. UX\"1• fi. l'lO.
z lbidem.
922
O paiz e HU eatado social
l'alhaa da cidade tinham sido começadas pelo wfante
D. Henrique: mas, em 1465, nlo estavaun na devida
altura, e eram encimadas por um tapume de mad.,il'a,
que fôra já duas ou t1·ee vezes queimado. Nas côrtes
desse anno o concelho, eomo já muitas vezes tinha
feito, insistia com o rei, para que mandasse termi-
nar a obra dos muroa, sobretudo em vista dae revol-
tas, que os reinos de Castella, e cujos
escarceus se podiam alastrar a Portugal. IJe feito, não
eram os receios injustificados, porquanto, no rei-
nado de D. Fernando, a cidade, por aer entilo de todo
aberta, fôra sem resistencia entrada por Henrique II
, de Castella na sua segunda invasão de Portugal t: e,
durante a guerra da independencia, toda abrazada em
uma rapida incursão, commandada pelo condestavel
de Castella
1
• Como remedio provisorio e urgente, sug-
geria que «se poderia, sobre a cerca (muralha) come-
çada, fazer um. peitoril com pouco custo, pa1·a a r.idade
se poder dt:fender, ao menos dos corred01·es
3
». O rei
concordou, e prometteu lá mandar pessoa competente:
mas só em 1473 entendeu no acabamento da obra.
A fórma, por que elle obteve os ta·abalhadores pa1·a
esse fim, denuncia   com&l"C& uma especie de
serviço pessoal, extremamente gravosa. A abbadessa
do mosteiro bernardo de Arouca, precisando em 1469
de reparar o edificio que anaeaçava ruina, sollicitou
l Femio Lopes, ClironiC4 ele D . .iirn41ndo, c. 'll.
J ldem, Cltroaica ele D. João I, parto u, c. 161.
3 &ira, liv. n, fi. 25. D'esta passagem se colhe que é erronea a in·
terpretaçllo que Viterbo, no Elucidario •· v. Peitoril, dá a esta palavra.
O paiz e seu estado BOCial 228
a serventia dos morado1·e• do aeu couto, que o 1·ei lhe
concedeu por esmola, pelo tempo que sua mercê fosse;
mandando que todos os lavradores d'eBBe couto servis-
sem ou pngassem para as obras do mosteiro, segundo
cada um costumava para as obras de Braga
1
• Em
14 73 determinou o rei que os moradore& do couto
cessassem a serventia ao mosteiro, e a tl·ansferissem
para a feitura da cea·ca de Vizeu, mas sómente Oleia
serventia, p01·que no começo do mlll·o, mandado fazer
pelo infante D. Henrique, cada um havia contl'ibuido
para a obra com 150 reaes '· De sorte que estea des-
graçados mo1·adores do couto deviam o eerviço pe&-
soal nlo só ao mosteiro, mas tambem em B1-aga,
em Vizeu, ou onde quer que o 1-ei lh'o exigisse. E o
mesmo encargo havia de ter sido imposto a out1·os
logaree, onde pot· foral, ou por cpatume, elle se man-
tinha.
Em 1465 o atraso da cidade de Vizeu era tal que
nos paços do concelho ulo havia o sino indispensavel
para convocar ou avisar os habitantes. Nas cõrtes
d'esse anno o concelho pedia ao 1·ei, que suspendesse
a isenção dos plivilegiados para o pagamento de uma
finta, que elle ia lançaa· para a acqnisiçio de um
sino de correr, como havia nos paços das pa·incipaes
cidades e villas do 1·eino, e que era necessario para
chamar á vereaçio, e da1· rebate em caso de arruido
ou de fogo. Até então serviam-se doa sinos da Sé, mas
t Beira, Jiv. n, fl. M.
2 Ibid., fi. 188.
224 O paiz e seu 68tado social
ago1·a o bispo e o cabido nAo consentem, e os têem fe-
chados. O rei deu o seu beneplacito •.
A municipalidade procedia com acerto em requerer
licença previa para esta denama, porque dez annos
antes, em 1455, commettêra a imprudencia de u1andar
vir de l'"landres uma bandeira que lhe custára a som-
ma, enorme para gente tão penuriosa, de mais de
4:800 reaes, e só depois é que se lembrou de pedir
auctorisação para lançar a respectiva talha.. Affonso V,
que por conta propria era um dilapidador dos bens
da corOa, mas que n'este caso se amostrou proporcio-
nalmente pa1·a com os seus subditos, negou si-
milhante auctorisação, para que o povo não foSBe ave-
xado: se as pessoas privilegiadas quizessem pngar
para a bandeira, fizessem-n'o muito embora, de outro
modo se pagaria pelas rendas do conselho nos annos
successivoA
1
• A compra fô1·a evidentemeute devidn á
influencia das pessoas gradas do concelho. Como este,
quatro annos depois, sollicitavn do rei o douati\·o de
um pendão, vê-se que a bandeira de Flandres era tida
po1·. demasiado preciosa para ser levada em romalia ao
sanctuario de Mangualde.
É singular que Vizeu, que no seculo seguint.e foi
o centro da nossa unica ideação de pintura, evidente-
mente filiada na escola flamenga, já tanto tempo antes
estivesse em relações com Flandres, e praticasse
um similhante desatino por amor das bellas artes. A
l Jbid., fi.. 2õ.
J. Claonctllaria de D. Afonto V, liv. n, fi. 134- vide os Docu.mmto.
 
  ~
r .
O paiz e seu estado social 225
rudesa intellectual coaduna-se perfeitamente com a
sensibilidade esthetica. A cathedral de Vizeu, ainda
hoje grandiosa apesar dos seus anachronicos refazi-
mentos, é o parto de uma imaginaçfto artistica.
A fidalguia de Vizeu seria de gosto mais refi-
nado, mas, pelo que respeita á reflexlo intellectual,
pouco se devia elevar acima do povo commum, a jul-
gar pelo seguinte lance. O termo da cidade era muito
vasto; n'elle viviam uns 2881 moradores em aldeias
espaçadas por intrata.veis desvios e penhascos. N'estas
-.astas BOlidões, natural habitaculo das feras, os fidal-
gos de Vizeu, não contentes com o desporto que lhes
oiferecia a gt·ossa veaçâo, pt·etendiam ainda que se
regulamentaBSe a caça das perdizes em harmonia com
os pt·eceitos da nobre arte da caça de alta.neria. Um
d'tSlles, FerniÍo Soares de Albergaria, alcançou por
fim de Aifonso V a desejada ordenaçio, de que nin-
guem ahi podesse matar perdizes senAo pelo modo de
altaneria, com eles e açores, falcões ou outras aves
de rapina, sob multa de cem reaes por cada peça. Nas
côrtes de 1465 a cidade amesquinhava-se de simi-
lhante regimento, crporque esta terra é de muito monte
e de grande criaçlo de perdizes, e por esta causa nlo
podemos haver pilo, e muito menos haveremos, se as
perdizes fol'em coutadas,,. A defesa fôra anteriormente
sollicitada do infante D. Henrique, mas elle nunca a
quizera conceder. Aft'onso V, apesar do seu amor pelas
velhas tradições nos exercicios venatorios, deu satis-
facçlo á cidade, e revogou a prohibiçlo •.
I BeiNJ, Jiy. n, 8. 26.
J5
126
Segundo o curso natural do desenvolvimento da
sociedade, os homens têem·se congregado n'aquellas
localidades, cujo ·torrlo fecundo lhes faculta o gran-
geio da subsiatencia, ou em sit.ioe favoraveis á laboa·a·
çlo industrial e mercantil, onde, pela permutação de
artefactos, conseguem o mesmo fim.
A cidade da Guarda é um exemplo contrario; um
caso excepcional, em que conveniencias politicas de·
terminaram a escolha do sitio. O cea·ro de granito n'una
doe contrafortes da serra da Estrella, que Sancho I
lhe deu por assento, foi destinado para servi1· a  
tupl de atalaia e baluarte contra ae im•aaõe1 eatran•
geirae. A Guarda era, no pensamento do seu fundador,
um acampamento militar. E este caracter se percebe nos
seus primitivos costumes foralengos. Abi se enconb'1lm
proviaCSee tendentes a manter os laços dé confr&terni·
dade, e a avivar o sentimento pràtl'iotico. Nenhum mo·
ràdor, eob grande pena, havia de dar &.colheita ao
inimigo de qualquet• seu visinho. Seotinella ,·igilante
do reino, o apodo de «castelbano» era ahi considerado
por um dos maiores insultos, e punido como tal' .
. Na segunda metade do seculo xv a tensão do inces·
sante guerrear, que origináa·a aquellas usan't'ls, havia
afrouxado. A Guarda, dentro de cujas f01-tes
habitavam 879 familias, e extel'iormente trinta, esque-
cêra de todo as antigas tradições de solidariedade. O
que ahi se encontra são animosidades entre todas u
classes.
t Fóf'OI dG GuardtJ, nos Ineditoa da Academia, tomo v.
I
~ . .   . .. -- ...
. .
i
217
Uma das principae1 rasões de desavença era a ques.
tão da introducçio na cidade de vinho pa·oduaido fóra
das raias do termo. Em 1455 andava a camara e1u
demanda com o Bispo, pm· este importar vinho eatra-
nbo, o que, no dizer d'aquella, era contrario ás provi-
saes do foral. E, na.a côrtes que n'eue anno ee ajunta.
ram, pretendiam os procuradores da cidade, que o rei
por auctoridade propria decidieae em teu favor o liti-
gio. Mas este com justiça lhes replicou que não podia
dirimir feitos pendentes nos tribunaea
1

Dez annos depois occupava o solio episcopal um
prelado, de quem nos restam bastantes noticias, D.
Frei Joio .Manuel, capellão-m6r do paço, que disem
filho natural de el-rei D. Duarte'· Pa·ovincial dos car-
melitas, havia tambem tomado parte activa nos nego-
cios politico& durante a regencia do infante D. Pedro.
Por este principe elle e o prior da collegiada de Gui-
marAea foram enviados por embaixadores a Roma,
onde negociaram com feliz exito auunlptos muito et-
piohosos
3
• Elevado a bispo de Ceuta, interveio depois,
como emisBRrio do infante D. Henrique, naa Ju.ctq.s eo·
tre o joven rei D. Affonso V, esporeado peJo duque de
Bragança, e o ex-regente D. Pedro; inclinando-te '
parcialidade dos primeiros, pela criação que recebêra
do condestavel D. Nun'Alvares: «era porém, nu pa-
lavras de Ruy de Pina, homem de grande prudencia
t CAsncellcariG tle D. A.lrm110 V, liT. n, fi 141-Tide cs Docurneffl011
illulrtativot.
I Sousa, Hüturia Gemalogica. da Casa Real, tomo sz, Jiv. xu, e. 1:
Nicolau Antonio, Bibláotlaeca Hilpana Vdu•, tomou, p. 188.
s Ruy de Pina, CATOftica de D • .AiortM V, c. 73.
1
\
/
..
'
228 O paiz e seu 88tado IOCial
e de san e justa tenção»
1
• Cultor das lettras, escreveu
em vernaculo uma obra intitulada .A regra de viver
em paz
1
, hoje infelizmente perdida: os seus conselhos,
attenta a idade revolta, em que viveu, e as dignidades
que exercitou, mereceriam attenta meditação. Mas,
provavelmente, viriam a. resumir-se todos na. sabida
regra da passividade, que o Padre Antonio Vieira. for-
mulou n'esta. sentença: - accommot!,ar com o eBtado
pre.ente, e conforma?'   o que Deus é servido. Não ba
outro meio de evitar a lucta. Sendo a. nossa supposi-
ção verdadeira, o auctor, como é vulgar, dava conse-
lhos para uso alheio, e que elle proprio não seguia,
pois sabemos haver sido pugnaz e obstinado.
N'esta epoca bispo da Guarda, somos obrigados,
para dar conta das relaç6es sociaes n'essa cidade, de
o apear do seu alto pedestal de pontifice e estadista, e
de o na. sua vida municipal e privada.. )fe-
lizes os antigos historiadores, que haviam de apresen-
tar sempre os seus personagens em publico tablado,
com os ademanes e discursos adequados á sua digni-
dade. Hoje em dia é nos arrhivos, em pulvurentos ma-
nuscriptos, que somos obrigados a contextuar a nossa
narrativa, e rara vez ahi se deparam apostua·as escul-
pturaes.
Em 1465 reuniram-se côrtes na Guaa·da. Ahi se
desentranharam em mutuas recriminações o bispo
D. João e os seus diocesanos. O bispo queixava-se de
que muitos dos seus rendeiros, remissos no pagamento,
1 Ibid., c. 99.
a D. Nicolau Antonio, citado.
O paiz e seu estado socüd 229
andavam excommungados por sentença ecclesiastica,
e posto que requeresse ás justiças seculares que os
prendessem e lhes infligissem a pena legal annexa á
excommunhlo, nenhum despacho obtinha. Obrigado
d'eata instancia, o monarcha dirigiu aos corregedores,
juizes e justiças do reino, a carta regia de 2 de setem-
bro de 1465, ordenando-lhes o cumprimento das res-
pectivas leis
1
• As justiças da Guarda haviam de ter a
principal parte n'essa protecçilo dos réus incurso& nas
censuras ecclesiasticas. Por outro lado, o concelho de-
clarava abertamente a sua antipathia pelo prelado e
seus familiares, e expressava-se assim : «Senhor, Vossa
Mercê saberá que vae em dons annos que o bispo
d'esta cidade continuadamente aqui está sem andar
a ver o seu bispado, como os seus antecessores fize-
ram. E, por bem d'esta sua longa estada,· fazem os
seus algumas cousas em prejuizo d'esta cidade e termo,
segundo Vossa Alteza poderá ser em conhecimento
pelo ouvidor Fernilo Cabral, que d'ello tem inquirições.
Pedimos-vos, Senhor, por mercê que lhe mandeis que
não esteja aqui continuadamente, para esta terra se
poder recrear». A resposta do rei indica grande em-
baraço: remette a camara para as justiças, porque elle
nilo podia mais que fallat· com o bispo, e mandar-lhe
que tenha outros termos, e que visite o seu bispado '.
A cidade respeitosamente calava o que haveria de ser
o principal motivo do seu disaabor: por este tempo
t Beira, li v. n, fi. 26.
J lbitl.
1
fi. 26 e 27.
i'
280 O paiz e aeu estado 10cial
os costumes do prelado não inculcavam austerida-
de •.
A declaraçlo de animosidade procedia, comtudo,
unicamente dos magistrados do concelho, os quaes re·
presentavam a classe nobiliaria, que n'esta epoca tinha
o predominio na Guarda, e não do povo meudo, e dos
lavradores do termo. Estes apresentaram n'essas côr-
te& capítulos separados, em que maltratam desapieda-
damente as su·as auctoridades. Fazem-lhes cargo de
os sobrecarregarem de fint.as. Não se oppõem áquellas
duas, que ordinariamente se lançam cada anno, uma
para a festa do Corpo de Deus, e a outra para o
ordenado de dois meirinhos e um càrcereiro, ás
extraordinarias,   com permisdo do corregedor,
lhes silo impostas, e que não servem mais que para
alimentar os desperdícios dos governantes. Reclamam
para si um procurador com assento na vereação «para
que, por nossa simpleza e pouco valor, não nos seja
feita cousa indevida». Representam contra o p•ivile-
gio oonsuetudinario, que prohibe a importaçilo do vi-
nho externo, «privilegio odioso a toda a republica,,:
pedem que, para bodas, baptisados e consumo domes-
tico, possam introduzir o vinho que quizerem; que a
t Justa Rodrigues, ama de leite d'el-rei D. Manuel, nascido em 1(69,
àov.ve d'eet;e biepo doia &lhos; Goes, de D. Man•el, parte 1,
c. 5: foram ellealegitimadoa e herdaram, por testamento, os bens do pae,
conj11nctamente com sua mie; Sant'Anna, Chronica dOI Oarmtliúu,
tomo u, parte 1
1
c. 6. Jll8ta Rodrigues é a fundadora do mosteiro de Jesus
em Setuba.l, CkrtcellaritJ de D. Manuel, liv. xxx1
1
ft. 81, em Sousa Vi-
terbo, Diccionario tlOI Architecl06
1
s. v. Bo;rtae : ahi e lia. se recolhe"
e findoq a vida,
O paú e seu 88lado IOCial 281
probibiçlo 1e mantenha unicamente para oa regati5ea
e taberneiro&. Imploram proteoçlo para os
res, que armuenam seu vinho na cidade, viotimaa de
grandes vexame1. Umas veses alo coagido• a vendv
contra a sua vontade: outra• veses, quando abrem
aeua toneis, se os poderosos querem fazer o meamo,
entram-lhe• pelas adegas dentro, e quebram·lhes aa
medidas e alcadafes
1
• Pa1·a a resoluçlo de todo, eate1
aggravamentos, que eram oQntraatadoa pelos gover-
nantes com a invooaçlo do direito dos costum('s, o rei,
evidentemente perplexo, remette os queixosos para o
corregedor, Femlo Cabral
1

Fernlo Cabral era neto de Alvaro Gil Cabral, al-
caide do castello da Guarda
3
, que fôra um prestimoso
partidario da oausa de D. Joio J. Parece ter perten·
cido 1\ uma família de mediana fidalguia da Beh·a. Foi
esta classe, e a gente do povo, que defenderam a inde.
pendencia nacional contra Oastella, e contra a maxima
parte da alta aristocracia, que tomaira a sua .voz.
D. Joio I galardoou os serviços de Alvaro Cabral cQm
a doaçAo, de juro e herdade, das terras da corôa en1
Azurara da Beira, Valelhas, Manteigas e Tavares, e
com a alcaidaria vitalícia do castello de Belmonte; que
continuavam em seu neto, o corregedol' dq. Beira, o
qual f6ra criado na caaa do infante D.   '·
A tarefa d'este magistrado que, pelo menoa dun.nte
t Vaso de barro, sobre o qual se medem oa Jiquidoa i Moura, Vt1tigia.
dtJ língua arcrbic:a:.
a BeirtJ, liv. n
1
ft. 28.
I Ferlllo Lopes, Oltroaicx& de D. Jolo I, parte 1, c. C,S,
• Beira, liv. m, ft. 17 e aeguintea.
I
232 O paiz e 1eu ewdo social
desasete annos até 1482, exerceu o seu alto catgo
n'esta comarca, não era para invejas. Em todo este
espaço de tempo o seu nome nos apparece, ora invo-
cado para salvagua1·da do direito, porém, em maior
numero de casos, como o de um réu de desacatos ájus-
tiça. As accusaç<Ses er&IU publicas em côrtes, a.ssigna-
das e selladRS pelos concelhos da Beira. Da sua de-
feza., que havia de ser verbal, não nos ficou documento:
se é que lhe era exigida, porque é notavel que em geral,
nas respostas aos capitulos, rara vez o rei contradita
as a.ccusaç<Ses contra qualquer funccionario; mas tam-
bem não as dá por provadas: limita-se a resolve1· o
caso, na supposiçAo da sua e.xistencia. Todavia, em
vista da contraposição dos testemunhos, da palpavel
improcedencia de algumas imputações, da -confiança
que lhe foi conservada durante tilo longo tempo, da
benevolencia que a elle e a seus descendentes teste-
munharam successivamente D. Affonso V, ·D. João II,
e D. Manuel, não temos a menor duvida em affirma1·
a probidade e rectidão de Fernão Cabral, aferida pelo
padrão juridico da epoca. Nem era elle dominado da
cobiça. Do esbanjador Affonl9o V, que dissipava os
bens do Estado sem conto nem discrime, este funccio·
nario de primeira jerarchia nAo recebeu outras mercês
mais que a conversão em bereditaria da alcaidaria.. vi-
talicia de Belmonte e o padroado da igreja de S. Se·
bast.iilo em Azurara
1
• O que elle não pôde foi reROlver
a pendencia sobre os vinhos, que continuou a fornecer
I ]bid.
j .. Cf'
O paiz e I6U utado aocial 233
aoendalhas para as malquerenças entre os oidadlos
da Guarda.
Os magistrados do municipio indignavam-se, nas
cOrtes de 1482, de que muitos individuos, contra att
disposiçaes do foral, introduzissem vinho estranho em
uma cidade, que nio tinha lavouras, nem olivaes, mas
s6mente algumas vinhas, com que supportava a exia-
tencia; e, desvairados pela paixão, propunham que fos·
sem degradados para o ultramar os auctorea de simi-
lhante maleficio: mas o rei, mandando guardar o foJ·al,
nio sanccionou a penalidade
1

Nas cOrtes de 1490 o concelho, sempre reacciona-
rio, requer que, aos que agora pedem p1ivilegios para
estabelecerem estalagens, não lhes seja concedido o de
introduzirem vinhos de f6ra do termo; porque assim
'determinado pelo foral, e porque os escudeiros e ca-
valleiros da Guarda nilo têem outro recurso para vi-
verem senão as suas vinhas, situadas a quatro e cinco
legnas de distancia, de onde s6mente a carnagem lhes
custa quatro a cinco reaes por almude. D. Joio II nilo
satisfez por completo a pretençào: facultou a entrada
de vinho estranho em caso que na cidade o não hou-
vesse de producçilo concelhia
1

Era um passo dado no caminho da liberdade com-
mercial. A questão, hoje em dia internacional, debll.-
tia-se n'esse tempo entre os concelhos da mesma naçlo.
E s6mentc foi esta definitivamente liquidada em Por-
tugal no primeiro quartel do seculo .xu:, pelo decreto
t OAancellaria de D. Joll.o II, liv. 11
1
ft.. 79.
l   de D. Jollo II, liv. :n-1
1
fi, 26,
284
O paiz e seu estado IOCial
de 20 de março de 1821, legislado pelas cOrtes cons-
tituintes, o qual aboliu o privilegio, existente ainda em
algumas cidades e villas, de nenhuma peuoa poder
vender outros frnctos, senio os produzidos no termo,
emquanto ahi os houvesse
1
• N'esses municipios nito
tinha a. doutrina do intercuNo economico ultrapassado
o ponto, em que, no seculo xv, a estabelecêra na
Guarda o poder regio.
Por outro lado a vereaçlo alcançou de D. Joio II
que os estalajadeiro& nlo vendessem carne, nem peixe,
senão por almotaçaria, para obstar ao encarecimento
das victualhas
1

A pt·oducção do concelho da Guarda era escasaa, o
solo ingrato. A lavoura do espaçoao termo, em que vi.
viam 1942 visinhos, apenas chegava para apropria
subsistencia. O seu eommercio consistia na venda de
algumM nozes e castanhas, que levavam ás terras de
Riba Coa, e de sal
3
, que provavelmente mandavam
vir de Aveiro. Sem embargo, como Lamego e Vimeu,
a cidade mantinha tambem o &eu convento de frade&
de S. Francisco. A edificaçilo da &ua formosa cathe ..
dral procedeu lentamente durante todo este seculo, a
expensas da mitra
4

t Dlario dtu Côrtt• de tBflt, vol. r, pag. 483.
a Chancellaria de D. Joio II, Ii v. xv1, fi. 26.
• Beira, liv. u, fi. 27.
4 Sylva Leal, Catalogo doi Bilpol da Guarda, naa Me1110ritu da Aca-
demia Real de Historia, tomo n; Bulia de 21 de agosto de U71 em
Rebello da Silva, Quadro Eltmentar dtu Relaçüu Diploma.tietu, tomo :r.
Advertimos que o referide Cala.logo dtM BiBJIOI contéoa muitot erroa e
deficieoejaa,
-··
'
..,r'.,.....,.·--· . -•.
O pai: e seu estado social 235
Uma revista geral do pa.iz seria incompleta sem al-
guma indicação sobre o caracter dos habitantes.
A indole de uma nação, nos seus lineamentos mais
subtis, cujo conjuncto e expressão constituem a indi-
vidualidade da physionomia, não se p6de conhecer
senão pelo exame circumstanciado dos factos histori-
cos, nos quaes ella se revela. Ha, porém, traços sa-
lientes e manifestos, que nio demandam esse rigoroso
trabalho.
O portuguez do seculo xv era fragueiro, abate-
mio, de imaginaçio ardente, propenso ao mysti-
cismo. O caracter independente, não constrangido pela
disciplina, ou contrafeito pela convençlo. Como em
toda a idade media, a personalidade do homem do se-
cuJo xv ainda se patenteia com toda a clareza. O seu
fallar era livre, não conhecia rebuços, nem euphemis-
mos de linguagem. Ninguem pensava em acobertar
factos notoriamente publicos, quaesquer que fos-
sem. Essas eras incultas sobrelevam-se pelo contraste
que offerecem com as envoltura&, disfarces, artificio&
dos seculos subsequentes. A doutrina de que o segredo
attenua a maldade do vicio tem o seu berço no se-
enio XVI •.
A tempera era rija, o coração duro. As commina-
ções penaes não conheciam a piedade. A morte expiava
crimes taes como o furto do valor de um marco de
I uO p   q u ~ n o erro publico é maior
Que 01 maiorea aeeretoa: o aegredo
O mór dos erros grandes faz menor».
4a&elllo Ferreira,
236 O paiz e seu estado" social
prata
1
• Ao falsificador da moeda infl.igia·se a morte
·pelo fogo, e o confisco de todos os bens
1
• El-rei D. Di-
niz ordenaU-a ·que ao réu de falso testemunho fossem
decepados os pés e mãos, arrancados os olhos, e se
désse a morte. Tão desmesurada penalidade já não se
executava: pelo que o codigo Affonsino a commut.ou
em açoitamento publico, e cerceamento da língua no
Pelourinho
1
• Esta attenuação marca o adiantamento
da civilisação no espaço de um seculo e meio.
Com a 1·udeza de costumes, que assignala aquelles
tempos, a segurança da propria pessoa, família e ha·
veres, dependia em g1·ande parte da força e energia
individual; d'ahi frequentes homisios, aggressBes, feri-
das e mortes, que habituavam á contemplaçfto da vio-
lencia e ·da dôr, infligida ou recebida. O espectaculo
do penar nilo repugnava, porque tinha em
muita conta o padecimento physico. É mesmo muito
possível que, physiologicamente, o organismo fosse
menos sensivel á dôr: não tinha ainda a civilisação,
apurando as faculdades cerebraes, refinado em grau
correspondente a impressionabilidade nervosa. Cruezas,
que hoje denotariam a vileza de um caracter perverso,
não tinham u'esses tempos similhante significaçilo. O
mal, qnc cllaR cA.usavam, não se 1·eputava por nenhuma
c.lemasia, todos estavam sujeitos a padecei-o. A esta
luz se devem· apreciar sentimentos taes como aquelles
revelados em dois exemplos, que colhemos no trato
t MtJr&uelint.u, liv. v, tit. 87.
z .f.J"OAIÍrriU, liv. v, tit. v; •   liv. "'
tit. TI,
a .f.j'oluiRCII, liv. v, tit. UX't'IIo
- -- ·-_ _....j
O paiz e ~   u utado aocial 287
usual da vida. A lei prescrevia, que qualquer mouro
ou escravo, que não trouxesse o signal distinctlvo, pa-
gasse trezentos reaes de pena e houvesse dez açoites
na picota: mas os juizes ordinarios não executariam a
sentença sem previa confirmaçÃo pelo corregedor. Em
1468 a villa de Santarem dirigiu-se ao rei em cOrtes,
sollicitando a 1·evogação da clausula relativa á ap-
pellação, e que a sentença se executasse immediat.a-
mente, pela rasào de que os donos dos escravos
eram prejudicados nott seus interesses pelas demora•
da .justiça. 86 estes teriam o dh·eito de inte1·pOr a ap-
pellaçfto, se assim o quizessem. O rei annuiu •. Nas
cOrtes de. Lisboa de 1498 os moradores de Elvas, em
capítulos especiaes, apontavam que os con·egedores e
juizes de alçada costumavam applicar a tortura nos
paços do concelho, que estavam perto da igreja ma-
triz, e taxavam de «deshonesto» praticar-se esse acto
«tanto cerca de onde está o Sacramento»
1
• Não eram,
pois, os gemidos e gritos lancinantes dos torturados,
que pertut·bavam a devoção dos fieis: similhante 1"8.-
zão se1ia inconcludente. O rei mandou que os tormen·
tos se executassem ·na Torre Nova.
Mas se a dOr, physica ou moral, alcançava mollifi-
car a rijeza da indole, inacostumado. á paciencia e
á repressão, ou se a paixão a inflammava, entlo o sen-
timento irrompia em clamores, prantos e contorsões,
semelhando os meneios da demencia furiosa
3

t Edremadura, liv. v. fi. 82.
l Od•t.&lltJ, liv. 1, fi. 238.
J ce logo aquella tarde (nu ezequias do prineipe, filho de D. Joio II),
eom grandes e espantosos prantoa, e doridu lamentaçõea d'el-rei, e do
288
Á dureza de tempera correspondia exteriormente
um aspecto agreste. As guedelhas longas, cahindo so-
bre as espaldas, e, p01· deante, 1·ccortadas a meio da
testa: D. Manuel foi o ultimo dos reis que assim aa
usou compridas por detraz '·Os fidalgos começavam a
rapar a barba no reinado de D. Joio II, o que parece
desprazia a este monarcha
1
• Diogo do Couto contrasta
o soldado do seu tempo, de capa bandada de velludo,
coura e calçlSes 4o mesmo estofo, meias de retl'Oz, cha-
peu de canotilhos, espada e adaga dout·áda, barba ra-
pada ou muito tosada, com o veterano da epocha de
D. Manuel, de barba pelos peitos, um gibanete de cou·
ro golpeado, pellote pelos joelhos, uma ch:uça ferru-
genta nas mãos, ou uma bésta ás costas
3
• A força naus·
cular era tida em grande apreço. Cercear com um re·
ve?O de montante uma perna de boi por meia coxa, ou
decepar-lhe quaai todo o pescoço, eram feitos dignos
duque, e de todea 011 do reino que ahi eram, e grandes gritos e carpicloa
du senhoraa e honradas mulherea, se diaseram a11 veaperaa; e ao outro
dia miBIB aolemne ... e assim uma prégaçlo. que fez um grande lettra·
do. . . em que aUPgott tantas e taea ruõea para choro e tristeza, que
muíro11 homens de muita aaetoridade, muito saber, muito aiso. aquella
hora parecia que o nlo tinham, vendo-lhes muito cruamente dar oa e9a
tamanhas cabeçada11, que parecia que quebravam u cabeças, depennando
todoe auu b&l"baa e cabelloe, dando em ai muitas bofetadas, auim Jao-
mens como mulheres, velhos e moços•. Resende, Vida de D. João II,
c. 133.
1 Retratoe d" D. Joio II, no Láflf'O 00. Ooprn da Ortüm de &ntAittgo,
um colorido a fL 18, e o outro em tinta preta a fl. 167 : Faria e Soun,
Epitome de lal Hútoria1 • partem, cap. xv. tf
I Garcia de Resende, Vida de D. JolJ.o II, cap    
3 Couto, Soldado pratico, 1.
0
dialogo, parte n, acena IL N'eata pas-
sagem ha outras particularidades, mas inintelligiveia, nataralmente pela
l'ieiaçio do original. A ediçio d'eata notavel obra foi a11aito de1lei:rada.
Veja-se tambem lbid., partem, acena u.
.....---
239
de recordaçlo historica
1
• Braceiro e forçoso, D. Joio li
talhava de um golpe de espada tres a quatl-o tochas
de cera juntas: açulava aos touros lebreus e alãos;
animava a lucta, a corrida, os saltos, o atirar da lança
e da barra, a montaria, a eq uita.ção, a dança, todos
oe exercicios do corpo, assim a pé como a cavallo '·
.AH infQrmações de um viajante sobre qualquer paiz
não são, em 1·egra, muito dignas de confiança, porque
dependem de encontros occasionaes e de t1·ansitorias
disposições de espirito. É este o cuo da narrativa do
cavalleiro silesiano Nicolau de Popplan
3
, e tanto
maia que elle apenas se demm·ou em P01·tttgal cerca
de tres mezes, de julho a principio& de outubro de
1484. Alem d'isto, estava tão possuido da conscien-
cia da sua propria superioridade, que tanto na-
turaes de Portugal como os da Hespanha, que
depois visitou, são pat·a elle «grosseiros, nescios, in·
cultos, ignorantes, com a presumpção de serem muito
Rabios, como os inglezes que não admittem outro
mundo igual ao seu . . . Ha p01·tuguezes muito atila-
dos; sem embargo nenhum encontrei que se pudesse
medir comigo n'este particular». Em vista de in-
genua philaucia devem as impressaes do fidalgo alie-
mão ser recebidas com certa reserva, reportadas como
do ao ideal da sua sobreexcellente personalidade.
uOs portuguezes são entre si e para o seu rei, com
excepção da nobreza, muito mais leaes que os ingle-
t Gaspar Correia, Lemlu do.   vol. m, p. 40.
I Garcia de Resende, Vi.fcz de D. Jo8.o 11, Iotrodueçlo.
, Citadas flt Bdrcsrwtro., etc., Nicolu de Popiel4vo.
240 O paiz e aeu estado aocial
zes; nem silo til o cru eis e desasisados como estes •.
No comer e beber mais moderados. Silo mais feios, de
côr morena e   pretos. Dados ao folgar, não
gostam do trabalho: e, por isso, nil.o dil.o hospedagem
para ganhar dinheil·o, nem a nacionaes, nem a viajan-
t.es. São grosseiros, gente sem bondade nem miseri-
. cordia, incluindo a propria côrte do rei. Usam capas
pretas e largas, que lhes pendem pelas costas até baixo,
como os frades agostinhos. Em viagem, envolvem a
cabeça em lenços brancos de IA, e p6em por cima um
chapeu largo. Muitos vivem unicamente de pil.o e agua.
Ha poucas mulheres bellas, que parecem mais homens
que mulheres, porém têem olhos ge1·almente negros e
formosos; penteiam-se sem exagerados adornos no ca-
bello, cobrem o collo com um pequeno laço de lil., ou
com um lenço de seda, deixam mirar livremente a
cara, e trazem o vestido e camisa decotados de ma-
neira, que se p6de ver a metade do seio; da cintura
para baixo trazem muitas saias, por isso o 1·evez do
corpo parece garboso e como um ganso de
S. Martinho (Martinsgans), e til.o volumoso que, de-
veras o. digo, nil.o hei jámais visto cousa assim maior.
As mais formosas mulheJ"es de HeJpanha sil.o as de
Barcelona, poucas se pintam; n'esta cidade acabam os
boi<'Ses de tinturas>>.
Nos costumes das que hoje constituem as duas na·
çêSes independentes da peninsula havia, n'aquelles tem-
pos, grande similhança, como era natural em povos
t Elle tinha 'rindo directamente da Inglaterra para Portugal.
O pai: c se" estado social 241
,·isinhott, que tinham a mesma oa·igem etlmologica e
as mesmas tradições sociaes, e cuja historia se havia
desdobrado parnllelamente na lucta contra os sarrace-
nos. Como diz Alexandt·c Herculano, a histoa·ia social
de Castella é annloga á nossa, até no synchronismo das
transformações •. Quando se trata de traços genericos,
desprezando differenciações que descobre um exame
mais minucioso, podemos applica1· ao nosso paiz as
informações que a respeito da nação visinha nos trans-
mittiram testemunhas contemporaneas. Nos principios
do scculo xv1, do 1512 n lõl3t.residiu como embaixa-
dor em Caaltclla um distincto florentino, observador
penetrante, como o eram todos os estadistas da sua
nacionnlidmle. A api·eciaçito do italiano tem valia de
ontro_s quilntes, a que nem de longe alcança a do em-
pavonado allcmão, que acima transcrevemos. Na rela·
çã.o da sua embaixada, que Guicciardini enviou ao go-
vemo de Florença
1
, a descripçã.o do territorio e das
grandes cidudt's de Castclla não é reportavel ao nosso
paiz. Mas cremos que as suas observações a 1·espeito da
condição social e cm·acter dos habitantes quadt"t\m ao
I>01·tugal d'aquella epoca. Envindo de uma republica
que primM·a pelo brilho das lettras, 1·equinte dos
costumes, riqueza da indusbia e da agricultura, não
admira que assignale com dcsdem a escassez da po-
pulação, a rareza do solo nnoteado, a miseria das
povoações, cm que a maior parte das moradas são
l Hll.toria. de Portugal, tomo m, liv. vi.
2 }o'ranceaco Goicciardini,   ~ r e intditt, vol vr. La Lt'gazio11e dl
Bpagna.. Fircnze, 1861.
10
242 O paiz e &eu C3tado &ocial
construídas de barro e cheias de immundicies •. Os
:fidalgos em casa vivem em extrema penuria, mas
fóra alardeam grande estado. Mesteiraes· e lavrudores
são pouco propensos no trabalho. Todos têem na ca-
beça fumos de fidalgo
1
• A pobreza é grande. São ad-
dictos ás armas. «Nas armas estimam muito a honra,
de sorte que, para a não macularem, não cuidam da
morte,,. Se o florentino tivesse analysado este traço
distincti\'o do caracter castelhano, e enumerasse as
qualidades m01·aes, de onde resulta, o sen quadro
seria mais pel'feito; e_ haveria comprehendido n ra-
zão po1· que a sua patrin, com toda a sua opulencia,
o aprimorado do seu espírito, o esplendor das artes c
das lettras, a sagacidade dos seus estadistas, não era
mais que um joguete pa1·a o soldado de Castella.
I ••• e la maggiore parte in molti luogbi di terra e iu oltrc piece
di faugo e di bruttura.
I Tutti banuo ncl eapo uno fumo di (dalgo.
~ - · ......
' .. . . .
CAPITULO III
Os pesos e medidas
A socicdn.dc vive da permutnção de utilidades. Sem
um padrão de pesos c mcdidns, determinado c garan-
tido pelo legislador, se1·ia por extremo difficil o ajustar
as commutnções, c nsscgurar a sua immunidadc de
fraudes.
A hist01·ia d'estes instrumentos essencines no intcr-
curso social ~   em grnnde pa1·tc, a historio dos trope-
ços que á sua efficiencia oppõem o cgoismo, a cobiça:
a nstucin.
Esta historia Yem de longe. Encontramos já um dos
seus dictnmes no Dcuteronomio
1
: «Nilo terás no teu
sacco cliversos pesos, maior e menor; nem hnverai cm
tua casa um alqueire mniot· c outro mais. pequeno. Te-
rás um peso justo c verdadeiro, c o teu alqueire se1i.
igual e sempre o mesmo; para assim viveres muito
tempo na terra, que o Senhor teu Deus te der. Porque
o Senhor teu Deus abomina ao que fnz estas cousas, e
aborrece toda a injustiça)). Este preceito anathematisa
a falsificação da medida legal. lias a grande diversi-
t Cap. uv.

244 Pesos e medidas
dade de medidas legaes no mesmo paiz traz principlll-
mente a sua origem de motivos identicos .
• ( mais rude intelligencia é evidente que n. justiça,
e o proveito commuru, requerem que o padrão, aferi-
dor das quantidades ajustadas, seja legitimo, invnriavel
e unifórme, pelo menos para os membros de uma mes-
ma naçito; o passado nos amostra com que difficulda-
des para a sua acceitação tem luctado uma verdade
tiio singela. O egoísmo c a injustiça compõem a trama
da l1istoria unh·ersaJ.
Uma tabella do Peculo :xv nos informa quacs as uni-
dades e divisões de peso, então cm uso
1
• Segundo
esse documento, um quintal pesa quatro al'l'o-
bas; uma al'l'oba dezescis libras; uma libra dois ar-
rateis ; um arratel um marco e seis onças; um marco
oito onças; uma onça oito oitavas. O arrateJ, portanto,
continha quatorze onças. Esta nomenclatura, que de-
li,·a a sua origem dos arabes, encontra-se   t ~ nos
diplomas dos primeiros tempos da monm·chia
111

Cremos, pelas razões que vamos expor, que o pa-
drão d'efltes pesos era, no secu]o :x:v, identico em to-
do o reino. Mas o arratel de quatorze onças, que cons-
tituía o peso mais usual d'este systema, que pode-
mos chamar o systema ordinario, não era empregado
t BcmcBBa de Sanfartrn, n.• 16, fi. é6: trauscripta por Teixeira de
Aragilo, De1cripçllo da• Moeda•, yoJ. r, pag. 881.
z Lei de Aft'onso III, de 26 de dezembro de 1258, cm Po1tugaUae Mo-
ftllf1jtflfa Hi•lorica, yo]. r, pag. 192 .
.,
PeRos e medidas 215
cm todo o gcnero de mercadorias. O nuatel folforinlw
servil\ para pesar a carne
1
• Para a lã e para o linho
havia um peso especial, chamado pedra, e que, de
feito, ct·a d'este material
1
; d'elle se usava tambem em
lnglater1·a part\ o mesmo fim
3
• A seda e a mat·çaria
4
tinham pesos proprios, c ainda os havia differentes
para outras mc1·cado1'ias
5

Esta especialidade de pesos pll.l"a determinados ob-
jectos não contradiz a existencia e n uniformidade, em
todo o reino, dos pesos ordinarios. A tabonda, que
acima havemos tl·anscripto, presupp<Je essa unifot·mi-
dade. O marco era uma subdivisão do arratcl, e nito
ha duvida de que o marco, e, portanto, tambem as
suas partes aliquotns de onças o oitavas, commnns a
ambos esses fossem no seculQ xv identicas no
paiz inteiro. O ma1·co empregava-se principalmente em
pesar os mctaes preciosos; e com a mesma divisão que
tem conservado até nossos dias, de oito onÇl\S, ou
sessenta e quatro oitavas, segundo o documento acima
referido, ou qnatt·o mil seiscentos e oito gt·ãos
6
• 01·a o
1 Mendo Trigoso, Memoria sobre os pBsos e medid1&S nas Memorias
ecmiiJtltictJB da Academia, tomo v.
z Trigoso eit.: carta regia do 10 d" m'\rço de U97, em Freire de
Olh·eira, Elenaelll01 para a l.ist?ria d:J m·"alolpio d4   vol. 1, P:ló·
874:.
1 Thorold Roger•, Hi8tory of Agrioullure anã P,·iou i' EnJland,
vol. 1
1
eap s.
• Margaria correspondo ao que boje chrunariamos artigos de capei-
lista e de r.n,uoiro i Fóros de Torres Novas, n'>S Ined.ltol dt6 .Aca:lenaia,
tomo IV, pag. 631.
ã Cit. carta regia de U97.
G Goes, Chr.Jnir:a de D. M1.11uel, p:uto 1v, cap. Lxuv1. Egual numero
de gràoa (lü()9) c de onç;u (8) tinha o muco du P.uis, usado om Fl'llD':I&
Pesos e n1edidas
pcsaa· a moeda constituía uma opernção tlc pratica
usual cm toua a idade media, c a i n d   ~ no seculo xv. A
prata solta era meio ordinnrio e frequente de transac-
ções; as moedas cst1·angeiras de ouro e prata circuhn·am
livremente cm todo o paiz, e niio havh' modo de deter-
minar o seu ntlor senão pelo peso; os ourh·es percor-
riam as feiras, e o preço dos seus artefu.ctos cotava se
pelo marco. O marco da prata em o padrão a que se
1·eferiam todas as moedas canlmdas no reino; por esse
marco se determinavam, nas leis e nos contractos par-
ticulares, direitos c ob1·igações •.
O uso do marco estava, pois, em constante c diarin
requisição em todo o paiz; c não ha o minimo indicio
de que houvesse mais que um só c unico peso do
marco. O legislador, quando providenceia soba·e os
pesos, nunca distingue entre o marco para os metaes
preciosos e o marco para outro uso. Não falia senão de
um só'· Fernão Lopes, sommando o ouro que, em
1370, El-Rei D. Fernando enviou de subsidio ao Rei
de Aragão, seu alliado, exprime-se d' esta maneira:
«assim que seria todo o haver, quanto então foi junto,
até quatro mil marcos de ouro, que eram pouco menos
de dezoito qnintacs
3
>>. Esta passagem ó decit!h·a. pa-
desde o fim do scculo xr
1
mns este pesa\·& 2-15 gramma11, (Leber, A]Jpré-
ciatüm tle la fortune prir:ée au moyen-llg•, 2.• edição, pag. 212), ao passo
que o nosso sómente 229,5.
I Vide o capitulo seguinte, onde se citam as auctoridades confirma-
ti ,-as destes assertoe.
z Ordenaçüea Affonainaa, li v. r, tit. v, §§ 81 a 40: Ordenaçàt:B Jlu-
nuelinaa, liv. r, tit. :r.v, § ao.
3 C:lu·onie1 de D. Fernando, eap. :r.:u.xnu.
Pesos e medidas 247
ra demonstrar que o mm·co era identioo para todas as
transacções; p01·que o algm·ismo dos marcos de ouro,
reduzido á commum subdivisão de onças, equivale ao
numero de nrrateis e arrobas, que perfazem a conta
dos dezoito quiutncs, na fóa·ma por que é expt-essada
pt:lo chronista.
Dada a natural vigiln.ncia, que o inte1·esse proprio
despertava áceroo da legitimidade do marco, e o cons·
tnnte emprego d'elle, não é para ·estranhar, que os
pesos, a cuja ordem elle pertencia, e que eram os mais
usuaes, se ti\"essem uniformisado em todo o paiz. E
é tambem de attender que a balança oft'erece um meio
1-elntivamenté facil de afilamento, se bem que pouco
apurado n'aquelle tempo.
Não dizemos que houvesse pe1·feita identidade cm
todos os concelhos, mas, simplesmente, que, ao con-
trario do que succcdia com as medidas de capacidade,
os pesos se conformavam aproximadamente ao pa-
drão determinado pelo marco. Considerada a escassez
de acção administrativa da parte do pode1· central,
de facto devia acontecer que nos concelhos se encon-
tl·assem dift'erençns. Tambem pela incapacidade das
artes mecanicas ' as balançns não consentinm inteira
justeza; por isso a lei concedia na arroba a toleran-
cia de um quarto de ara·atel para baixo •; em uma
moeda de ouro a de um grão ((porque as balanças de
tal peso são tllo subtis, que se não podem tanto afinm·,
que sempa·e estejam na fieit·a,> ', tolet·ancia conscr\·ada
l Ordenaçik1 .Affolllillall, liv. a, tit. ,., S 37.
2 01'dellaçiira AffimJincu, ibi I.   !O.
248 Pesos e medidas
nas Ordenações :Uanuelinas c nas Philippinas
1
• 'l'odas
as precauções, que o interesse indh·idunl havia de
suscitar, nem sempre tombem tolheriam o falsea-
mento do marco.
· Por esta fórma se explicam certas npparcntcs con-
tradicções com o fucto, que lun·emos assentado, da ge-
ral uniformidade do padrão de peso. Nas côrtcs de
Lisboa de 1455, os procuradores da província fla Beira
allegavam que uas vossas cidades c villas da comarca
da Beira direitamentc tiveram sempre os seus pesos c
medidas, as quacs c1·am g1·andcs c boas, c de que o
povo era bem contente; e, quando ora Vossa Alteza foi
á dita comm·cn, o vosso almotacé-mór, pelo grande
proveito que d!ello houve, mandou vir perante si as
dietas medidas, que cada um concelho tinha, ns quaes
mandou britar, e faze1· outras, que fossem cortadas por
um padrão, que assim trazia, o qual era mais pequeno
que o que assim tinhamos
1
>>. Os procuradores da Beira
empenhavam-se em afcia.r o p1·ocedimento do almota-
cé, e começam pela menção generica dos pesos e me·
didas; mas, quando particularisam precisamente, então
a linguagem restringe-se ás medidas_ que elle mandou
britar, o que parece indicar que o seu descontentamento
versava, tn·incipalmente, não sobre a alteração dos
pesos, os quaes não duvidamos excedessem a bitola,
mos do padrão das medidas de capacidade. Em rcs-
t Ordenagiju Manueli11a1, liv. I
1
tit. n, § 2!), 01"dcnaçür• Pliilippi·
ntU, Ii\·. I
1
tit. xvm, § 88. Em um cruzado de 72 gritos da,·a-ae, por-
tanto, a tolerancia dtt peso de pouco menos de U por mil: hoje cm d:a
o lei nio permitte aenito a de 2 por mil.
2 Côa·tcs, mnço 2.
0
1
n.
0
15, fl. 15: l\lcudu 1'rigoso
1
lllem. dt.
Pesos e medidas 2-IU
  o gonrno decretou cm gemi, que o reino fosse
dividido cm seis circumscripções: c apontou, }Jnl't\
c.'\da umn, n capital do concelho onde haviam de ser
aferidos os pesos c medidas; o que niio significa ne-
cessariamente qnc o padl"iio do nrratcl fosse diffcrentc.
A Bcim era a comarca mais rude do pniz; nns recla-
mações dus cô1·tcs, que fizE'ram constante opposiçito ás
tcntath•ns do poder central pa1·a a uniformidnde, ne-
nhuma outm clausult\ encontt·nmos, dumnte o seculo
xv, que infirme a nossa conclusão sobre a identidtlde
cm todo o reino dos pesos ordinarios, multiplos ou di-
visores do marco.
D. João II tentou igualnr as medidas de capacidade,
e, nos pesos, substituir o ma1·co nacional pelo marco
de Colonia. A pequena differença de pouco mais de
quatro grnmmns
1
, que existia enh·e os dois padrões de
peso, naturalmente aconselhava a iguulnr o de Portu-
gal com o predominante no Imperio da Allcmanha ',
cujas cidades IInnseaticas mantinham activo commcr-
cio com o nosso paiz c com o resto da Europa.
Escreviu. D. João 11 á camara do Porto: ccdctermi-
namos ora, com conselho c accordo de algumas cida-
des c villns principnes, q ne sobre este caso mandamos
I>mticar, que o peso c marco de (n' este logar lta uma
  1·otura 'IW papel) seja de ferro, c nenhum
official, nem outras pessoas, o não tenham mais, nem
pesem por clle cousa alguma, senão pelo peso e marco
I O marco de Culouia pcu nproxirnadumcutc 233,8 grammus.
Z Viclt o c:tpitub Bl'guiutc.
250
Pesos c medidas
de Culouin.
1
'' •. Trigoso suppõe que no logur ela l'Otura
se   o padrão do marco então cm uso;
não o cremos; et·a inutil especificar o que el't\ bem co-
nhecido, nem podemos imaginar como tal indicação,
caso excedesse o dizer que era de oito onças, o que
toda a gente sabia, podessc caber no curto espaço da
l'otum. Do theor do documento se infere que n' esse lo-
gar se apontava o materinl de que e1·a feito o ma1·co
em uso, o qual o rei mandava que fosse, d'nli cm
diante, de ferro: a palavra que falta deve ser-pedra.
Seria absurdo suppo1· que o rei mandasse de
ferro o proprio padralo,quc elle proscrevia e substitui.\
por outro.
Tnnto para o marco, como para as medidas, o tcn-
tamen de D. João H foi mnllogrado pela resistencia
das corles de 1490 '·
.
Em 10 de março de 1497 El-Rei D. :&Ianuel expe-
diu uma circular ás differentes camaras do reino para
que lhe enviassem delegados, com quem consultaria
sobre n reforma dos pesos, reclamada pelo grande da-
mno que os povos recebiam ((por haver pesos de mui-
tas maneiras como eram os pesos da came e marça1ia,
as libras de seda, as pedras de linho e lan, e outros
muitos a,, Como jt\ observámos, não diz o rei que o
arratel, suas divisões c multiplos, fossem differcntes,
mas que se usavam outras especies de pesos para ccr-
l Carta de 14 de outubro de 1488, cm J. P. Ribeiro, Dúautarfíc•
cl•ronologicaa, tomo 1
1
Appendicc, n.
0
91.
z Trigoso cit. ·
3 A circular ai camara de Li11boa é reproduzida por ••rcirc de Oli-
,·dra, I. c. ; c a dirigida ll camura do Porto, por 'fdgoso c:it. pag. 3G6.
....


Pesus c nzeclidas 251
tas mercancias. Não conhecemos o nmlumento d'csht
consulta; mas, pelo que consta das Oa·tlenações Ma-
nuelinas, foi cstrictamentc ,·cdmlo o emprego de to-
dos pesos pm·ticulnrcs. N'cssas ordenações é pa·o-
hibido todo c qualquer outro pt>so, que niio fosse o
quintal, a aJ'I'obn, o arratcJ, o marco, a onça, n oitaYn,
com as suas • subdivisões; tÍ   se
com mina v a a pena de falsidade do peso
1
• A liba·a or-
dinrtria, qttc, como acima vimoR, pesava dois arratcis,
nito é mencionada\; o que era desnecessnrio, poa· ser
ella o dobro de um peso legalmente I'Cconhecido. A
libra para a sc!la divergia d'essouta·a, visto haver sido
apontada na soba'Cditn. circulat· como um peso excep-
cional; c foi portanto abolida. Fót·os de cem e linho
ca"'lm ainda pagos, pela libra de dois arrnteis, no mos-
teiro de Grijó, em 15-t 1 c 1566 !. Podemos, poa·tanto,
concluia· que, nos fins do seculo xv, cessou o uso de
todos os pesos especiaes.
Outa·a reforma, muito importn.ntc, foi conjuncta-
mente cffectundn. pelo mesmo monnrchn no systcma
dos pesos. Como acima refea·imos, o na·ratcl pesava até
então um ma1·co c seis onças; a lei manuelina assignou
ao arratcl o peso de dczeseis onçns, quer dizer, de dois
marcos
3
• Assim o marco ficou perfazendo um divisor
inteiro do arratel. Mas no marco, e nas suas divisões
de onças e oitavas, não se fez mudança alguma.
O marco anterioa·, o marco nacional, ficou cm uso, c
t OrdmafÜI!ll Manuelina•, liv. r, t:t. n, S§ 30 c 31.
2 Vitcrbo, Elucida•·io, s. v. nLibrau.
3 Orrlrnoçüe1 I. c.
252 Pesos e medidas
tendo idt:ntico peso. A prova está. cm que, no mesmo
lognr, a lei declara que o cruzado tem o peso ele uma
oitn\·a; e, com   o cruzado se empregava como
tnl na balança t. Ora como D. Manuel continuou a cu·
nhagem dos cruzados com o mesmo peso que os seus
antecessores, João li c Affonso V
1
, c como o mat·co foi
não só no reinado d'esses monarchas, mas cm todo o
tempo até ruodemamente, o padri'io de peso da moeda,
segue-se que o marco ficou A tcnta.th·a de
El-Rci D. João II pura introduzir o maa·co de Co-
lonin, superior cm peso no nacional, nilo fôra pot•
diante.
,
E o que a p•·opria lei dá a entender, quando rep011a
todos os pesos, -quintaes, at·t·obas, arrnteis, marcos-
ao nume1·o de onças, oito das quacs ficaram, como até
ali, perfazendo um marco, sem declara•· que qualquer
alteração houvesse sido determinada para o peso d'es-
tas. Durante o seculo xv, e no reinado de D. Manuel,
deu-se, como havemos de ver, uma constante subida
no valor nominal do marco de ouro c de prata; o
mesmo succedeu nos seguintcR 1·cinados : as -.provisões
  que mm·cavam esse valor nominal, prc-
suppunham sempre o identico peso do marco. Nos
exemplares dos ct·uzados, de D. Affonso V, D. João II,
D. Manuel, que nos restam, não se divisa nenhuma
mudança de peso; notam-se apenas, c communs a to-
1 ·hüua guarniçit de cimta .•. que reaa jumtamcnte tr:ntn c eimquo
l."ruzados lxiij grloa douro•. Documento do lálã, Corp:> Cbrouologico,
maço   doe. 9i.
2 Vide o capitulo seguinte.
_..-.r
       
Pesos e medidas
253
dos os exemplares d'aquelles tres reinados, differeuçns
resultantes ela imperfeição do fubrico: e, porventm·a,
dos estmgos do tempo
1
• Nenhum cruzado pesa mm-
ctamente os setenta e dous grãos, que fnzem uma oi-
tava: por isso nas côa·tes de 1535 pediram os po,·os
se declarasse legalmente pesar o cruzado tres quartos
de grão menos que a oitavn. D. João III assim o de-
cretou na provisão de 26 de no,·embro de 1538; mas
o exame dos cruzados d'estc rei mostra que, com ex-
cepção cm um ou outro, continuou o lnvrnmento com
igual imperfeição á anterior. N'aqnelles tempos o pro-
cesso tcclmico era incapaz de produzia· moedas ignnes,
nem havia balan,ns scnsh·eis a de um grão,
como jt\ dissemos; sómcnte pelo peso de uma. certa
quantidade de cruzados se podit\ notnr a diffcrença.
totnl de quarenta c oito grãos cm marco, accusada pc-
los povos nas supradictas côa·tcs de 1535.
O padrão do novo arratel, ereado por D . .Manuel,
ainda subsiste boje cm dia na Casa dn. Moeda. Foi
cm 1815 pesado por homens de
scienci11, e achou-se ser igunl a quata·ocentoH e cin-
coenta e nove gmmmas '· Portanto, o mm·co de oito
onças, ao qual não foi mudado o peso antea·ior, e ficou
sendo ametade d'esso arJ·atel, cquivo.lin a duzentos c
vinte e nove e meio gmmmns
3

I Vide oa respecth·os pesos a\·crignlldos por Teixeira de Aragilo,
vol. 1 da obra citada, no principio de cada reinado.
z Trigoso cit., pag. 391, nota 1.
3 Não l1a o menor fundumc:nto para a conjectura de Trigoso na ci-
tada Memoria, de quo D. ltlanut-1 tomasse por padrio os pesos bctzpa-
uhoee, que aliás eram differcntcs : o padrilo foi o portugucz, com
o peso que tinha.
254 Pesos e medidas
A reforma devia ter sido posta por obra cm 1499,
porquanto é esta n dutn, que se lê na inscripção do
110\'0 nrratel, na qual tlunbem se dcclnra ba,·er este
sido mnndado fazer por el-rei D.  
1
• O rei pro-
cm·ou gnranth· a genuinitlndc dos padrões, diffundindo
pesos de cobt·c po1· todo o reino; os antigos de ferro
estavam fulscatlos pelo desgaste da fcl'l'ugem de lon-
gos nnnos'.
O nO\'O nrrntel não supplantou de todo o antigo; fi-
cou-se contando pelo peso vellto nas mercadorias im-
portndus da India. Como o antigo nrmtcl era de qua-
torze onçns, c o moderno de dezcscis, segue-se que o
peso Yclho oitavos do pedo no,·o. Em
1516 cscrc,·in Dum-te Barbosa
3
: «O m·rlttel tio peso \'c lho
tem quatorze onças, o armtcl do peso. novo tem dczc·
seis onças; oito quintncs velhos :fi1.zem sete quintacs
novos; c cnd:\ quintal novo tem cento c ''inte c oito
an·atcis de descseis onças; cada quint.nl velho são tres
e meio quartos do quint.nl no,·o, e é de cento e vinte c
oito nrrateis de quatorze onças cada um. Todas ns cs-
pecim·ias e drogarias, e tudo o mais que Yem da
ln dia, vende-se em I 'ortngnl a peso Yclho: tudo o
mais vende-se a peso no\'O>>.
Este testemunho comproYa plenamente quanto
havemos ex pendido: a innovnçlio de D. }fnnuel foi
s6mente no arrntel, c, conseguintemente, nos pesos
l Teixeira de Amgito cit., ,·ol. r, png. 40.
2 Gora, ChroHictJ de D. Maftutl, parte Iv, c. 86.
3 Lh·ro de Duarte B11rbosa, ad jit&em, na Collcrçilo de n<.ticia&a para
1\ lli,toria daa flaçiitB ultramarinas, tomo u.
Pesos e medidas 255
multi}>los d'estc; o arratcl foi elcYaclo de quntorzc a
desasseis onças, ou dois mm·cos inteiros ; a onça c a
oitaYa ficaram como d'nntcs, bem como o marco com-
posto, como cJ·a, de oito onças. Em 1554 Antonio Nu·
nes ' reduzia pelo mesmo teor os pesos da Indio. ao
velho c ao novo peso de Portugal. O uso do peso ve-
lho na casa da lndia ficou subsistindo nté 1\ cxtincção
d'esta
1

Com esta unica excepção, o systema de D. :Manuel
foi o que vigorou em Portugul até ú introducção elo
s ystcma metaico-decimal.
Das medidas lineares, a ,·ara e o co\·ado são jt\ ml·n-
cionados nos primeiros foraes dos concelhos
3

El-rei D. Diniz, em uina sentença de 1315 sobre os
direitos, que o concelho de Gulfar na Bcirn devia sol-
vel' ao senhor da tcl"l'a, determina o comprimento das
medidas incertas, denominadas ''lenço,, e '' brngah,
pelo padrão da vara, o qual é, portanto, considcJ·ado
como invaria,·el '· Em todas as pt·ovidencins e tenta-
t Livro doa pceoa, mcdidu c moedas, Subaitlios para " lli.toria da
lnditJ, publicados pela Academia.
I Trigoao, Memoria cit.
3 E. g. no foral de Saueho I dado a Torres No\'aP, lnedilo• da Ãca-
demia, tomo IV
1
pag. 611 ; c na cit. lei de Aft'onao 111 de 26 de dezem-
bro de 1253.
t • . • • achei pl'r homens bõos dantre doiro e minho que o lenço he
de   ~ n v uaraa e o bragal de sete uaraa.» Cl•anct.lla'l'ia d ~ D. Dimz, I h•. m,
fi. 95, cm Gama Harros, Hietoria da ÃdMilli•traçllo PrtUica, tomo n,
pag. 351.
! •
>
l.:
..
,.
:256 Pesos e meJidas
th·as do poder central para a igunlac;ão tlas medidas,
no scculo .XIV desde o reinado de D. I •edro, c cm todo
o scculo .xv
1
, em nenhuma se cncontm referencia ás
medidns de extensão; posteriomtcntc cl-rei D. Sebas-
tião, na sua reforma, unicamente legislou sobre as de
cnpacicladc, porque crnm então as uni-
cas multiformes. 'l'nmbem nenhuma rcclnmaçiio se
ouve em cOrtes a respeito de qualquer destl"Uimcnto
de varas ou covndos locaes pelo almotacé-m6r, como
elle costuma\"a fazer nas loculidudes, onde a côrte es-
tanciant, das t,tüo confo1·mes no padrão que elle com-
sigo trazia para desempenho dos dc,·ercs do seu Ctlrgo.
D'c!::ites factos concluimos que a vara, medida geral,
c o co,·ndo, empregado para nrtefuctos mais preciosos,
e1·am, pelo menos no scculo X\'
1
da mesma craveira
cm todo o reino. Nem conhecemos ontrn medida cm-
pregada cm conconencin com aq ucllas senão a alna,
muito     no seculo XIV pnra medição dos pau-
nos', e cujo uso não desapparecera nos princípios do
scculo xv
3
• A alna (aulne) fôrn sem duvida importada
de França, conjunctamentc com os lanificios, d'ahi
p1·ocedentes. Mas a vara e o covndo constituiam us me-
didas de uso commum '· O palmo, que lhes sct·via de
tmidade, era uniforme no tempo de D. João I: um of-
ficial regio, mandando a esse soberano, em 1421, a
t llide Trigoso, <:'it. Memoria.
I Côrtea de 1352, em Trit,roeo cit., png. 8!9.
I Exemplo cm Gabriel Pereira, DocumDilOB llútoricOB de Et·ora,
parte u, pag. 11.
t OrdenaçJta .A.ffcmaina•, li v. 1, tit. v, § 88; Ordenaçüu Mitnuelinu,
Jiy. 1
1
tit. XY
1
§ 28.
Pesos e medidas 257
medição do te1·reno para a edificaçito do convento de
S. Domingos em Villa Real, conta a braça craveira
em dez palmos
1
, -a mesma quantidade de hoje em
dia-, sem qualificação que faça suppor que ao palmo
se attribuissem differcntes grandezas. Á vara, tambem
como hoje, se assignava o comprimento de cinco pal-
mos j.
Nas cortes de 14 72
3
1
os procuradores apontam o
seguinte aggravo: havia belfurinheiros de }>annos de
Ian e linho, d'elles judeus, em geral contrabandistas,
que mercadejam com ca1·gas em azemolas pelas aldeias
da Beira, Traz-os-Montes, .Uinho, Riba-Coa, enganam
nos preços a gente simples e ignorante, e até trazem
varas e covados falsos; e fazendo com esse commer-
cio grande damno ás feiras 1·eaes, como as de Lamego,
Guarda, 'l'rancoso. Concluiam por solicita1· que fosse
prol1ibido o trafico d'estes mercadores volantes. Com
muita justiça lhes respondeu o rei, que o não faria,·
porque a gente meuda nem semp1·e p6de vir das aldeias
ás cidades e logares grandes para fazer as suas com-
]>ras. Este commereio vagueante presuppõe a existen-
cia de varas e covados communs a todos os concelhos
das tres provincias, a que se referem as côrtes; e
1
jun-
tamente com a facilidade de transporlar essas medidas,
não podia deixar de concorrer para lhes a n t ~   ~ uni-
formidade. A fabricaçfio e ajustamento d'estas não··-re-
t Sooaa, Hutoria tle S. Dominge•, parte n, liv. 111
1
cap. xvr.
2 Documento, de 1561, do ca.rtorio do S. Domingos de Lisboa, ma
Sousa Vitcrbo, Noticia de algum pial.ore1 portvguae1
1
pag. 23.
3 FI. 122.
17
!1'"-
258 Pesos e medidas
9.uer especial destreza; e o afilamento é p1·ompto, basta
uma simples apposiçio. As fraudes previnem-se, sem
necessidade de recorrer aos padrões do concelho, pelo
assignalamento, em qualque1· parede de um edificio
publico, da extendo da medida; como pa1·ece se pra-
ticava em algumas povoações de Portugal
1

Na ausencia de toda a prova em contrario, é de pre-
sumir que as medidas de pollegada, palmo, pé, vara,
covado, braça, usadas no seculo xv, sio as mesmas
que chegaram nos nossos dias. Não s6mente a pratica
do comme1·cio as deve ter conservado, mas, muito mais
efficazmente, a tradição e aprendizagem dos mesteres
de pedreiro, carpinteiro, calafate, e outros artífices,
que precisam, para o exito da sua obra, de dar execu-
ção a preceitos technicos, fundados na pontual appli·
cação de certas grandezas lineares.
A• Dledlda• de capacidade
A historia das medidas de capacidade recorda a
triste condição da humanidade, senhoreada do desor-
denado amor de ganancia, e conturbada pela tyrannia
dos   a braços com a ardileza dos humildes.
Nos ultimos annos do seculo VI o papa Gregorio
Magno se indignava e estatuia defezas contra a fraude
no alargamento do moio, operada pelos senhorios ec-
clesiasticos na ltalia
1

t Teixeira Gyrio, Memoria •obre 01 puo• e medida., pag. 14, o qual
adduz para aemplo aa medidas gravadas na antiga muralha de Villa
Keal de Tráa-oa-Montea.
z Fustel de Coulangea, Rtcl•er.:Re. .,. qtU!lq11u probl'ême• d'hútoif"e:
le colonat romain, cap. x.
·•411"'
::r ...
---- -----------------:,-------.
Pesos e medidas 259
Portugal, no seculo xv, os povos do Minho re-
presentavam nns côrtes de 1472 contra os prelados de
Brnga, que lhes fazinm pagar a prestação predial de
cereacs c vinho, denominada os wtos de Santiago, pela
medida novn, e não, como devia ser por direito con-
suetudinario, pela medida velha que chamavam coyra,
de menor volume
1

As côrtes do 1372 se amesquinhavam de que o rei
lhes exigisse as jugadas por medida continuamente
accrescentada, c de que clerigos e fidalgos introduzis-
sem medidas novaR e falsificadas '. Pelo mesmo tempo
os lavradores de S. Martinho de Mouros sustentavam
que em tempos antigos Re pagavam direitos e joga-
das ao rei, á igreja, aos donatarios e senhorios, por
uma medida chamada jagunda, _mais pequena que a
usual, - pretençfto contrariada pelos interessados ;
a questão andava em litigio
3
• Ainda modernamente,
em 1833, havia um convento de frades, que recebia
os seus f6ros por uma rasa grande denominada a velha,
e .vendia pela rasa do concelho, que e1•a de capacidade
inferior em uma qua11R parte'·
N'estes exemplos está cifrada a causa 01iginal da
grande diversidade de alqueires,   rasas, buztol,
moios, medidas, -jagunda., cayra., de Sangalhos, velha,
nova, de rasoura, de cogulo, com ou sem vetrtedura$
1
as
quaes serviam á dos cereaes e dos generos
I Côrtea, maço 2.•, n.• U, fi. 116.
z Trigoso eit. pag. SM.
3
F6roa de S. Martinho de Monro11, lntdito. da Amdemia, tomo n•.
·I Teixeira Gyrio cit. pag. 20.
260 Pesos e medidas
seccos
1
• A subsistencia, e quasi toda a riqueza, pt·ovi-
nham da terra; a industJ-ia e o commcrcio pouco va-
liam; por sobre a grandeza do alqueire c do moio
se renhia umu perenne 1·efrega entre o tributario e o
emphyteuta de um lado, e o Estado e o dono da terra
do outro.
Nas medidas dos liquidos não havia tão variada
nomenclatura; o almude e suas divisões para o vinho,
e o alq neire para o azeite, constituiram sempre a de-
nominação geral; mns a grandeza d'estas medidas
variava em muito subidas que a do
alqueu·e dos cereaes. A origem da diversidade é sem-
pre a mesma, e patenteia-se ingenuamente em uma
petição da camara de Evora em 1481. N'esta cidade o
almude constava de trese canadas e meia. No dito
anno mandou o almotacé-m6r que fosse dividido em
doze canadas ; era a di visão usual. 1\J as a cidade I'elu-
ctou, e justificava o seu costume em que tinha de
pagar dois impostos soha·e cada almude de vinho-
um de meia canada, destinado primitivamente á edifi-
cação de uma ton·e em Redondo, acabada a qual fOm
doado pelo rei a certo fidalgo, outro de uma canada
p8'l"a o aposentamento da cOrte, «assim que-conti-
nuava elia-onde o almude era de doze canadas, ficou
de treze e meia t,,_ Eis a razão da hete1·oclita divisão do
t Vejam-se Viterbo, Elucidario, nas palavras Alqueire, JLoio, Teiga,
etc.; J. P. Ribeiro, DúBel'taçües Ckf'Oflokgicas e critica•, appendice v1;
Trigoso, memoria citada, cap. n: temos por escusado repetir o que ahi
de diz a respeito destas medidas, e que nenhuma informaçio nos dá so-
bre a sua capacidade meb·ica.
2 Gabriel Pereira, Docume11tos HiBtoricoB de Evora, parte u, pag. 153.
   
 
-                                                                
Pesos e medidas 261
almude, confessada pelo proprio mumcapto delin-
quente. A sinceridade é uma virtude pouco vulgaa·,
quando prejudica o intbresse, e muito de louvar. A
camara concluía o seu requerimento ao rei, pedindo
que tivesse muito embora o almude doze canadas,
mas, para o pagamento dos impostos, se houvesse por
dividido em treze c meia.
No almude a lei, attendendo á perda das vertedu-
1-as, concede a toleruncia da falta de um quartilho
1
:
em relação ás demais medidas de capacidade, guarda
silencio.
Se á. variedade se juntar a difficnldade no fabrico,
com identicas dimensões, d'estc genero de medidas,
pela inhabilidade industrial d'aquelles tempos, e o re-
lativamente maior embaraço para o seu aferimento, é
de ver que, mesmo nos pada·ões suppostamente iguaes,
se hltviam de dar g1·andes differenças.
A emmaranlutda confusão de medidas offerecia des-
\·antngens tão visíveis, qut>, de D. Pedro I a D. Ma-
nuel, todos os reis, com cxcepçiio de D. Duarte, cujo
malventuroso e curto reinado não lh'o permittiria, ten-
taram pôr-lhe fim. debalde: nem mesmo as suas
providencias de simplificação lograram resultado. As
resoluções regias adoptadas nas côrtcs de 1455 e
para este fim, conhece-se perfeitamente que não alcan-
çaram execução. ARsim, nas de 1455, se ordenava que
a Beira usasse as medidas de Santarcm, o arcebispado
de Braga as de Guimarães, e todos os logares d'Ent1·e
t Ordtnat;Uu A.ffo118itUU, li v. 1, tit. v, § 86 : Ordtnat;Uu Manueli11as,
Iiv. r, tit. xv, M 27 .
.....
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P- •
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t,;
I    
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··.
262 Pesos e medidas
Lima e Minho ns de Ponte de Lillla. :&Ias, logo no
annO'" seguinte, c cm continuação das mesmas côrtes,
queixando-se Lamego de que o nlmotncé-m6r lhe hou-
vera anteriormente C) uebrado ns suas medidas, c as
substituiru. pelas de Santurem, D. Affonso V permit·
tiu ao concelho o regresso no antigo padrão t. Quatro
annos depois, nas côrtcs de 1460, a villu de Guima-
rães se ngga·avavn de que as povoações de Entre-Dou-
ro c Minho e ns de Traz-os-Montes· não viessem ahi
buscar os padrões, conforme costumavam; e D. Af-
fonso V dctemtinon que lhe fosse mantido esse direito t.
Nas côrtes de 1490 cl-rei D. João II prescreveu que
u Beira, o Minho e Traz-os- Montes empregassem os
padrões do Porto. Ao Álgar,·e, nas côrtes de 1455,
eram dadas as medidas de Lisboa, nas de 1490 as do
Porto. Esta contmricdade de resoluções prova a sua
inanidade; é inncredita vel que a Beira e o Algarve pas-
sassem com tanta facilidade das medidas infe1iores de
Santarem e de Lisbou. pura as supe1iores do Porto
3

Demais, cl-rei D. Sebastião, na lei a que nos vamos
refc.ria·, declara que n variednde não era s6mcntc de
uma para. outra província, mas de um para outro con-
celho, ainda que não di:stantcs.
t Clw.ractllaria de D . .AffonBo V, liv • .s.m, fi. lU!.
z Altm Douro, Iiv. 1v, fl. 10!.1.
3 A asserçito de 'J'rigoso, que ns medidas de Lisboa c Santarcm
eram de maior capacidade que as demais do reino, é contraria no quo
&o III nas proprias actas das referidas côrtcs, e ao cxprcasameute decla-
rado nos capitulas de Lamego nas cürtt!B de 14ã6, Cl1ancrllaria de D .
.A§on110 V, liv. xm, fi. 101, c nos capitulas do Porto nas côrtcs de 14óU.
Yide os Documentoll

no fim d'cstc ,·olumc.
... ,
Pesos e medidas 263
.fi,oi este sobe1·ano que commetteu a de1·radeira ten-
tativa para levar a cabo a uniformidade das medidas
de capacidade. Pela lei de 26 de janeiro de 1575
1
ellc
estntuiu que as medidas de capacidade se igualassem
em todo o reino pelo padrão de Lisboa; era o que já
tinha sido prescripto, mas sem effeito, pelas Ordena-
ções1tlanuelinas!. Não se limitou o governo a um mero
preceito legislativo, mas tomou as providencias I'eque-
ridas pa1·a a sua realisação, obrigando os concelhos a
adquirirem os respectivos padrões de bronze, e encar-
regando os COJTegedores e ouvitlores de fazerem a com·
putação e esth·a das antigas com as novas medidat1.
É muito provavel que, com o decurso do tempo, esta
providencia surtisse o desejado intento; mas a do-
minação bespanhola, que sob1·eveiu cinco nnnos depois,
atrophiou toda a iniciativa nacional, c privou o poder
central da força necessaria para arrostar com os cos-
tnmes c 1-epugnancias locaes. Em uma falla que se at-
tribue a D. Aleixo de Menezes, nio de D. Sebastião
3
,
mas que foi evidentemente imaginada por outrem de-
pois da infnusta jornada de Africa, o joven rei é, já
em 1568, prevenido contra a temeridade de contrariar
radicados costumes com reformas, ainda que necessa-
rins, como, enb·c outras, a dos pesos e medidas; no que
·bem se nota a animadversão que no animo do povo
suscitám a intentada unifonnidade.
I Transeripta por J. P. Ribeiro, Diuerlaçõte CArorwlogictu, vol. 1.
Appendiee, documento 96.
2 .Li v. 1
1
tit. xv, § 24.
J Barbosa Machado, Memorias de El-Rei D. Sebastião, parte
liv. 1
1
eap. 1.
264 Pe$os e medidas
Desde então foi sempre em m·escimento a diversi-
dos padrões, a par da constituição de novos con-
celhos; cm 1834 havia no oitocentos e dezasseis
concelhos, coutos e honras. e em quasi todos cra.m dif-
fe1·entes as medidas de capacidade •.
Querer determinm· o valo1· comparativo de todas
essas medidas dos concelhos em seculos re-
motos, seria um emprehemlimcnto superior ás forças
individuaes, c de escasso ou nenhum cxito :.. Cremos,
todavia, que algumas reg1·as se pouem as:;entar, pro-
pl·iaK para darem 1·esultados aproximativos, que são
Ol' unicos, que, n' e:; te caso, podem ser fornecidos pela
historia.
Todas as medidas de cnpacidadc, e de todos os con-
celhos, usadas ao tempo da implantação entre nó:; do
systema metrico-deciwal, foram officialmcntc 1·cduzi-
das ao computo d'este ultimo, hoje vigente
3
• É muito
provavel que   medidas dos treKentos c quatro con-
celhos, existentes cm Portugal no scculo xv, c nomcn-
1 Silva Lopes, Memoria sobre a rtforma dos puos e ·medidas, 184!).
a Para se apreciarem as difficuldades, apontaremos que o snbio pro-
fessor de economia politica na universidade de Oxford, Thorold Rogers,
dedicou muitos annos de lavor ás investigações ncecssarias para a sua
valiosa obra, a Hiaforia da agricultura e doa preçoa 11a Jr.-glafcrra, c nilo
lbe foi possivel determinar oom toda a certeza a quantidade apenas de
um padrlo geral, a do antigo quartciro (quart,.r), medida usual dos cc-
reaea, HÍIItory of Agrúmlf.ure aml Pricu in E11gland, vol. 1, cap. x e lU.
Em França existiu, como entre nós, R meama confusão e variedade do
medidas, c ahi tambem a ignorancia da metrologia mcdicva comparada
ó quasi completa, Giry, Manuel de 1Jiplomatiq11P
1
li\·. m, cap. xv, S 2."
J 1\-lappas das medidas do novo systeina legal com1nu·adas com as
antigas, publiciLçilo ollicial.
-.
f4
-
Peso& e medidas 265
dos nas Ordenações Affonsinas •, continuassem, desde
então, não pontualmente as mesmas, mas com peque-
na differença. Que n'ellas se conservasse identica ga·an-
deza, não é de suppôr, attentas as causas de falsifica-
ção, que havemos exposto, c de que seriam conniven-
tes as proprias auctoridades Mas não
podiam as alte1·ações ter sido muito considera veis;
p01·que em contrario militavam 08 interesses resultan-
tes da multiplice e complexa trama de prestações
agrarias, impostas pelos foraes c pelos contractos, c,
do seculo xv em diante, o poder central gosava de ro-
bustez sobeja paru contrastar flagrantes e geraes de-
masias de prepotencia. N'este caso, porém, é necessa-
tio ter a certeza de que a medida investigada seja a
velha e u usual do concelho, e não uma denominada
nova, ou d'aquellas excepcionaes, de que varias corpo-
rações, e até familias nobres, se serviam por direito de
uso commetudinario; algumas d'estas vigoraram até
ao tempo 1·ecente '·
Em relação a cada província, o termo mcdio da re-
ducção das actuaes medidas antigas de todos 08 que
cmm já. no seculo xv principaes concelhos da mesma
  como ella era entio delimitada
3
, offerecerá.
urna quantidade, não muito discordante da realidade
historica.
Que, nos fins do seculo XIV, havia em cada pro,·in-
cia, entre os extremos maximo e minimo das medidas,
t Liv. 1, tit. LZIX.
z Vejam-se os Mappas cit., onde ullaa vem &!&mbem reduzidaUI.
l Vitle o capitulo 1.
266 Pesos e medidas
distancia não muito apartada, que permittia legislur,
como se ahi houvesse um unico padt'io, demonstra-se
pelo exemplo de el-rei D. Fernando. Depois da pl·i-
meira celebração dn paz com Cnstella em 1371, elle
fixou em todo o reino o mnximo do preço de todos os
generos agricolas e, nomeadamente, do alqueire de
trigo, centeio, milho e cevada, maximo \"ariavel
segundo as províncias, mas um unico para cada uma
d'ellal5
1
sem attender á. grandeza das medidas munici-
paes t. rrambem hoje, abstrabindo de uma ou outra
mra excepção de algum somenos concelho, se nota nas
medidas antigas usuaes de cada uma pt·ovincia diffe-
rença, mas não muito considcravel, emquanto que esta
avulta muito mais na comparação entre duas pro-
vincias, m6rmente entre o norte e o resto do paiz.
Jl.,oi pelo referido pt·ocesso que formulámos a reduc-
ção do alqueire e do almude do seculo xv, que adiante
juntamos; rcducção que, tornamos a advertir, é um
termo medio para cada provincht, mas inapplicavel ás
medidas de qualqnet· concelho cm particular.
Ha uma ouh·a indicação de caracter generico.
Na.s provisões lcgi15lativas ft·e'luentemente se prc-
suppõo a cxistcncia de um alqueire c nlmudc, com·
muns a todo o reino. EMta prcsupposição deri,·a da
linguagem indeterminada, sem referencia a nenhuma
localidade. O corregedor da côrte, pelas Ordenações
Affonsinas :'1, tinha por obrigação do cargo, a qual foi
confiada por Affonso V a um uoyo mngistt·ado, o ai-
I Fernlo I..opcs, C/u'Onico. de D. Fel'nando, eap. õ6.
2 I ~ i v   1
1
tit v, ~ § 26 c 33.
~
..
-----
. -··
e medidas 267
motacé-m6r, o trazer comsigo uma completa
de pesos e medidas, que substituia aos padrões lo-
caes, onde quer que o rei estacionava. Segundo se
deprehende dos aggravos das cOrtes, elle, por vezes,
destruia as medidas concelhias e 01·denava o uso ge-
ral das suas; outras vezes, havemos de inferir, que
se limitava a fnzer os seus ajustes pam as provi-
sões da casa real por estas ultimas, sem se intromet-
ter com a melrologia municipal.
O Estado era um grande proprietatio, que rece-
bia rendas e f6ros por via dos seus almoxruifes, e pa-
gava muitos ordenados dos funccionarios ·en1 gene-
ros, que estes cobravam directamente no local da pro-
ducçlo. Para o calculo dos seus rendimentos, e satis-
fação das suas obrigações, fazia-se mister a reducçlo
a uma medida commum, que tomasse possivel aquella
estimação. Desde o tempo de el-rei D. Manuel não ha
duvida de que, n'estes casos, a medida se entende se1·
a de Lisboa, porque a sua grandeza mandou elle ndop-
tar como obrigatoria, e as locaes, em todo
o paiz
1
; a prcscripçlo se reiterou na lei de D. Sebas-
tião, e passou· para as Ordenações Philippinas Mas
já anterio1·mente os padrões de Lisboa gosavam, desde
tempos remotos, a :preeminencia de servirem de com-
mensurador geral. É por esses padrões que, na legisla-
ção de Affonso IV, relativa aos judeus de todo o
reino, se regulam os ta·ibutos a que elles estão sujeitos;
assim era o alqueire de trigo, pelo qual haviam de pa-
t Ortlm1J9iitt Manuelina•, liv. ,, tit. s.v, 11 <!4:
2 Liv. '• tit. xvm, 2t4.
268 Pesos e medidas
gar quatro dinheiros na compra ou venda: o de Lis-
boa ou o de Santarem, nos quaes se vê não havia dif-
ferença • ; n sisa da carne determinava-se pelo arratel
de Lisboa, e a do vinho pelo almude da mesma ci-
dade
1
• Consta que, no meado do seculo XIv, os pe-
sos, bem como todas as medidas de vinho, se haviam
mandado aferir pelo padrão de Lisboa
3
, providencia
que, em relaçi\o ás ultimns, sabemos haver sido de
nenhum effeito ulterior. O Estado possuia, em diffe-
l'entes terras, armazena ou fangas, em que vendia ge-
neros, de que, segundo o respectivo foral, lograva o
monopolio, e, nomeadamente, fnrinhns. A medida por
elle usada era, niio n do concelho, mas a do padt·ão
official '·
Cremos, poa·tanto, que, não havendo especificação
de particular localidade, são as medidas de capacidnde
de Lisboa, as que se devem subentende1· nas provisões
governativas do seculo xv; e d'esta sua ininterrupta
serventia como typo preferido ao de todas as demais,
e cuidadosamente vigiudo pelo poder central, deduzi-
mos que, pelo menos já no seculo XIv, as suas dimen-
sões et·am as mesmas, que na nctualidade tem o pa-
drão antigo-16,8 litros o almude, e 13,8 o alqueire.
t Hrtie, nas medidas antigas, o alqueire de I.isboa é de 13,8 litro11,
o de Santarem de 13,11: a pequena differença dos 69 centilitros deve
Rer 11. variaçio experimentadA. pela medida de S11ntarem desde aquclle
tempo.
2 Ordenoçõu Affonlinru, liv. n, tit. 74, !!§ 5.•, 8.• e 9.
0
3 Trigoso, Memoria cit, pag. 251.
t "Nossa medida• dia o rei no foral llc Coimbra, Jo'urats Nut"OI d''
l'Àlremadura, fl. ~ 4 .
  ~   · J
..... , .....
Pesos e medidas 269
D'este padrão, adoptado po1· D. c por D. Se-
bastião para as suas mallogradas reJormas, se conse1·-
vam ainda boje varios exemplat·es do tempo d'este ul-
timo monarcha, destinados á. execuçito da sua lei
1

O moio é tão s6mente uma expressão de conta, si·
gnificando certo numero de alqueires, e tambem, me-
nos usualmente, de almudes. Este numero divet·sificava
segundo o costume J'egional; e mesmo se fixava muita
vez arbitra1·iamente nos contractos por convenção das
partes.
Para os cereaes, o moio de Lisboa, determinado no
seu foral, continha cincoenta e seis alqueires
1
; e este
foi o que D. Manuel prescreveu parn o pagamento do
t1·ibuto geral da jogada, resalvando comtndo. a dispo-
siç.=io contraria dos foraes ou o costume antigo
3
, excep-
ção que nem sempre era favo1·avel ao tt·ibutario, por-
que, em algumas partes, se computava o moio em ses-
senta e quatro alqueires'· O moio d'esta ultima quan-
tidade era,_ a julgar por varios diplomas, frequente-
mente adoptado nas contas dos almoxarifes
11
• Pela lei
acima referida, D. Sebastião fixou definitivamente a
quantidade do moio em sessenta alqueires, a qual
t Teixeira de Aragão, cit. vol. I, pag. 44:: Trigoso cit., pag. 886,
nota 2.•
2 Portugaliae Mon11mellla Hí•l.orica, Legu tt Co1U1Ulttulinu, vol. I,
pag. 412.
3 Ordenaçõe• Manrulina.t, liv. u, tit. XVI.
4 Capitulo& de Torree Novae orn 1459, Chancellaria. de D.   V,
liv. 86, ft. 146.
s Eetremadura, li v. 12, fl. 82; liv. Ul, ft. 195 o liv. 7, ft. 243.
270 Pesos e' medidas
tambem se costumava
1
• E esta é a taxa cm que, na
falta de alguma indicação contraria, se p6de media-
mente computar o moio do seculo xv.
l •wn molo, que alo aesaenta alqueires•, cit. lei do 26 do jmeiro de
lõ7õ.
Pesos e medidas 27.1
Bedaeçio media aprollmada, em lltros, do almude e alqueire do seculo IY,
por protlaclu, como entlo delimitadas
Trãa-os-Xontes
L !troa
Almude •••...•.•••••••••••••••.•••.••.••..•••••.•...••..•.• 2á
Alqueire . • • . . • • • . • • . • . . • . • • • • • • . • . • . • • . . • • • • • . . . . . . . • • • • • • • lá
Beira.
Almude ••••.•••••••••.••••••..•••.••••..••..•••.••••.•..•• 26
Alqueire ...•.•••••••..••.•.•••.•••.••...••....•••.••••.•.•• lá
lllllnho
Almude. • • • • • . • • • • . • • • • • • • • • • • . . . . • • • • • • . • . . • • . . . . • . • • • • • • • ~ 4
Alqueire. • • • • • . • • • • • • . • . • • • • . • • • • • • . • • . . . • • • . . • . • • • . lH
Estrema.4ul'IL
Almude ...•...•..•..... :. . . . • . . . • . . . • . . . . . . . . . . . . • . • • • • • • . . HS
Alqueire ............................... : ................... 14
Alemtejo
Almude •••••.•••...••••••.•••.•.••..•.••••..••..•••.....•• 18
Alqueire .•••••••••••.•••••...••.••..••••.•..•...••..•••••.• 14
Alprve
Almude ••••••.••••.•••••.•••••.•••••••••.••..•.•...•••.•••• 20
Alqueire •••••••.••     . • • . . • • • • • • . . . • • • • . . . . . . . • . • . . • . • • . • . 14
. . ,

•• =·:
CAPITULO IV
A moeda
A historia da moeda, comprehendendo a investiga·
çio do seu valor, é um estudo commum ao de toda a
ordem social, porque em dinheiro se avaliam geral-
mente o trabalho e os serviços para o effeito da reci-
proca permutação. Por motivos identicos aos que refe-
Jimos em relação aos pesos e medidas, esta historia,
que parece deveria ser simplicissima, é extremamente
complicado..
Os metaes preciosos, o ouro c a prata, têem servido
em todas as communidades policiadas, de que existe
memoria, para valor intermediario de troca. Sllo as
suas qualidades, accommodadas a esse fim, que lhes
têem conferido uso universal. Esses metaes, po-
rém, são l'nros, escondem-se emb1·echados cm l'ocbas
nas p1·ofundezas da tena, a sua pesquiza, extracção e
segregamento requerem grande trabalho e ce1·ta pro-
ficiencia no conhecimento e uso dos processos mecha-
nicos indispensaveis. D'ahi o seu valor.
Para acautelar as fraudes da imitação ou ndultel·a-
mento, a autoridade publica toma a seu cargo o lavra-
los em moeda, e garantir com o seu cunho o peso e
18
274
\
Moeda
toque de cada peça: mas a historia mostra a cada
passo, que essa auctoridade não está tão pouco im-
mune dos estímulos da cobiça e das artes do falsea-
mento.
Presupposta a pureza do metal, o que importa co-
nhecer para o seu emprego commensw·ado nas trans-
acções commerciaes, é o peso. Durante toda a idade
mediu, o ouro e a prata em barra se usavam de pari-
dade com a moeda lavrada: mas é evidente que nos
mais frequentes contratos, os de pequena monta, esse
modo de pagamento, a peso na balança, era pratica-
mente impossivel; sómente a moeda, em que a quan-
tidade de metal é afiançada pelo cunho regio, se pres-
tava a eue fim.
As primeh·as monarchias dos ba1·baros da Gernumia
tomaram po1· modelo o systema monetario do impe-
l'io romano,- a libra como padt·ão do peso, a qual
era dividida em solidos, soldos, de ouro, unidade da
n1oeda, e estes em de-na rios de prata t. Este simples,
racional e probo methodo de lavramento transfor-
mou-se com o tempo, não subsistindo d'elle aenão a
nomenclatura, mas com designações inteiramente dif-
ferentes. A libra cessou de, n'este caso, significar um
peso real, e veiu a converttu·-se em moeda de conta; o
que resultou, sem duvida, de que auccessivamente o
seu se foi diminuindo por necessidade ou má fé,
conservando-se-lhe todavia o mesmo nome, até que
t Para oa wiaigodoa da HeRpanba, veja-ae o Coài!Jo Wi6igot1ico,
tit. v1
1
e, para a monarchiadoa Frankoa, consulte-se der JJt.-
Uclae" Gucllü:Ate,   voa Gebhardl, 2. 1 . .84Rd
1
S. 161.
  --.
"
2'15
por fim se attribniu ao marco, que a ·substituiu, uma
quantidade a1·bitraria de libras, reconhecidamente fi-
cticias.
I
A DJ.oeda nacloaal
O marco foi, desde o berço de Portugal até á ado-
pção em nossos dias do systema metrico, a unidade
de peso, a que se reportava a quantidade de metal
precioso em todas as moedas cunhadas
1
• Mas, para se
declarar, tanto nos preceitos legislativos como no trato
usual, qual a quantidade partitiva de metal fino
contido em cada uma das peças talhadas em um ma1·co
de ou1·o ou pmta, não se adoptavam as divisões ordi-
narias do marco em onças, oitavas e gdos: usava-se,
na idade media, o systema de contagem por libras,
que vamos explicar.
O ouro e a prata nunca se empregaram, estt·emcs
de toda a liga, no lavramento da moeda: a adjuncçito
de pequem1 porção de metal somenos, geralmente o
cobre, produz um composto muito mais malleavel, e
resistente ao desgaste. A quantidade d'esse metal, que
é, por diminuta, sem valor considera\'el, determina o
que se chama o toque, liga ou lei da moeda.
O toque dos metaes preciosos, que actualmente,
no systema metlico, se computa por millesimos, ex-
t E tambem em França, e ji desde os fins do seculo xr, Leber, Ap-
préciation de la fortune privée an moyen-i\ge, 2" édition, pag. 212:
igaalmento na Allemanha, onde, desde o aeculo xu, o marco de Colonia
adquiriu preeminencia, e foi o padrio do ayatema mooetario Até 18ó'l,
.A.man••, G,...m;,.Jite tlt.B Mitt,.lalf.,.,.,, l'it., pag. 603.
276
prmua-se anteriormente, e ainda hoje na linguagem
vulgar, em dinheiros para a prata, em quilates para o
ouro : a prata estreme dizia-se ter doze dinheiros, o
ouro esta·eme vinte e quatro quilates.
O marco de prata, a·econhecido como legitimo pa-
drão monetario, foi sempa·e em Portugal, como geral-
mente no resto da Europa, de onze dinheiros de metal
fino e um de liga. Desde o começo do secnlo .xv não
existe duvida a este respeito, porque esta composição
se declara expressamente em muitas provisões legisla-
tivas, que tea·emos de citar no decm·so d'este capitulo.
Que anteriormente assim foi, deduzimos; porque, fal-
lando-se em muitos documentos do marco de prata,
presuppõe.-se sempre o seu toque como certo e sabido,
nem hn, nem houve nunca quest.ão a este respeito,
nem noticia de uma alteração qualquer. Assim, nas
contendas de D. Affonso III com o clero e o povo a
a·espeito da quebra da moeda, o que se determina em
relação ao marco padrão de prata, no accordo a que
se chegou, é que seja empregado o peso de Colonia,
mas nenhuma duvida se suscitou a respeito do seu to-
que
 
~
O mm·co de onze dinbeiroa era o pnd1·ão. Mas isto
nilo quer dizer que todas as moedas, que se lavra,·am,
tivessem e ~ s a mesma liga ; pelo contrario, a maior
pnt·te a tinham muito infea·ior. Assim D. Aftonso Ill,
em 1261, emittiu dcnarios, cuja proporção de prata
t Este emprego do marco de Colonia foi um facto excepcional : o
marco, que sempre vigorou entre nós, foi o nacional, pesando 2291/1
grammaa : vide o eap. antecedente.
Moeda 277
era exactamente inversa do toque do mw·co mensural,
isto é, compunham-se de onze pa1·tes de cobre e uma
de prata t: mas é por esta quantidade de prata, afe-
rida com a de um marco de onze dinheiros, que se
contava e conhecia o valor do dena1io.
Em relação ao marco de ouro não havia regra de-
terminada; porque as moedas de ouro tinham pouco
uso no intercurso interno, e, como dizia el·rei D. Fe1··
nando, ((correm mais por mercadoria que po1· moeda>)
1
;
mas, pot• isso mesmo, cunhavam-se de boa lei, sendo

o cruzado, até no fim do seculo xv, e em parte ainda
do seguinte, de \'inte e tres quilates c tres quartos
3

As moedas cunhadas nos diversos periodos da nossa
historia appeUidam-se de differen!es denominações; e
até, desattentos á commodidade publica, cada novo
rei timbrava em cunhar moedas suas proprias, que se
distinguissem no cunho, valor e nome das dos seus an-
tecessores. Porém a designaçAo de morabitino, dobra,
barbuda, escudo, C?'Uzado, e as demais, não decJaram o
valor da moeda, isto é, o seu peso e liga, nem a sua
relação com uma unidade universalmente conhecida:
e é exactamente isto mesmo o _que ao pe1·mutante uni·
camente importa saber.
Para este fim, o de especificar a valia de cada o ~ d a  
o arbitrio empregado, que s6mente cessou nos fins do
seculo xv
1
era convencional : cada marco de prata de
t IwMrumentum ~ ~ ftJCto m'tfletae; Portugaliae Montnnenta
1
Ltgu et
COitnetudinu, vol. 1.
2 RegimeDto de 8 de fevereiro de 1878
1
om Teixeira de Araglo, Dtl·
cripçào da.8 Moeda, vol. 1, doe. u.• 11.
• Idem, vol. n, pag. 287, Mappa u.• l.
278 Moeda.
onze dinheiros se reputava equivalente a certo numero
de libras, numero de si indefinido, e dependente, salvo
a opposiçlo dos eatadoa do reino, da discriçlo do mo-
narcha, .em cuja unica jurisdicçlo cabia a cunhagem
da moeda •. A libra, portanto, era nlo mais que um
nome para eapecificar certa parte de um marco de
prata: quando se dizia que o marco valia doze libras,
significava-se apenas que se chamava libra a duode-
cima parte d'ease marco.
Nio está bem averiguada a historia d'este modo de
aferição monetaria nos primeiros seculos da idade me·
dia. Mas no meiado do seculo xm apparece elle per-
feitamente definido por D. Affonso 111, no regimento,
de 26 de dezembro de 1253, almotaçando os preços
dos generos, das mercancias e do trabalho, em Entre
Douro e Minho. O marco de prata é ahi taxado em
doze libras de moeda portugueza
1

A libra subdividia-se em vinte soldos, moeda igual-
mente imaginaria: e cada soldo em doze dinheiros
3

Portanto, neste caso do taxado em doze li-
bras, o fixar a uma moeda sonante a valia, por exem-
plo, de um soldo, quel'ia dizer que essa moeda conti-
nha, otl se supporia conter, de um marco de prata.
Os dinheiros foram realmente moeda cunhada du-
rante os primeiros reinados, até D. Aft'onso IV, que
t •Segundo direito e razio, ao rei ou príncipe da terra é aómente ou-
torgado faaer moeda•, qouiruu, Jiv. v, tit. v.
2 ·Marcha argenti valeat duodecim libras monete portugalenaia•;
Portugaliae Monumenta Hútorico., Leget el colf8UetudifWlll, vol. 1,
J Nilo ae confunda dinlaeiro, divialo do aoldo, coa dirtltnro,  
tivo da liga da prata.
Moeda·
2
tambem os cunhou, mas altea·ando a sua 1·elaçAo d
quantidade para com o soldo •.
Por eHte modo de contagem se especificava o val.
metallioo de todaa as moedas cunhadas. Asaim D. At
fonso Ill, no regimento supramencionado, depois d
BBBiguar ao marco a ava.liaçlo de doze libras, enumua
em seguida o valor das moedas cor1·entes em confo ·-
midade com eua taxa. O morabitino novo de ouro •
fixado em vinte e dois soldos, que é o mesmo que (h-
zer, que elle equivalia a onze cento-e-vinteavos de u 1
marco de prata: o morabitino velho em vinte e set
soldos, quer dizer, uma fraoçilo do marco de pra t
que, no systema metrico-decimal, corresponde a vint
e seis grammas e tres decimos
1
: e pelo mesmo theo ·
em relação ás demais moedas ali tarifadas. Uma onçt
de ouro é taxada em onze libras, o que dá a propor-
ção, no valor do ouro pa1·a o da p1·ata, de um pa1
sete e um terço. Os productos agricolas e serviços peo;
soaes si\o almotaçados, ora em dinheiro sonante, o "t
na moeda de conta. Um porco é taxado em um mol"l
bitino velho: o preço de um boi nito exr.eder' tl' •
d'eBBes morabitinos, quer dizer, oitenta e um soldo ,
equivalentes ao nos11o peso de setenta e oito, e novL
decimos, graminas de prata. A soldada. annual do m ·
lhor criado de lavoira é de tres libras, isto é, um quar 1
de marco de prata, com mais vinte alqueires de p w
t •Elrei D.Aft'onao(lV)mudoua moeda, e fez os dinheiros, que e1 -
mavam novos, mandando que nove d'ellea valessem um soldo, quan o
d'antes (o soldo) valia doze•; FernAo Lope1, Chronica .de D. Jolfo
parte n, eap. 'll.
z Computando o mareo de Colonia cm 233,8 grammas.
280 Moeda
meia.do : e assim por diante. 1,ambem slo taxados os
metaes, e todo o gene1·o de artefactos. Um quintal de
cobre ou de estanho valha doze libl"B.S de moeda por-
tugueza, isto é, moedas que contenham a quantidade
de um marco de prata: um quintal de chumbo valha
cincoenta soldos, o que significa, moeda que tenha o
valor nominal de duas libras e meia. O mesmo preço
de cincoenta soldos é marcado para um covado de es-
carlata ingleza; o de tres libras para o covado de es-
carlata flamenga; o melhor panno tinto de Rouen,
Gand, Ypres, é apreçado em quarenta soldos. Muitos
pannos de outras sortes, vindos de Inglaterra, França, ·
Flandres, são almotaçados: o mais barato é o burel
nacional, que vale por va1·a dois soldos, pouco menos
de dois gramma.s de prata.
Liba·as, soldos e dinheiros, nunca foram em Portu-
gal seniio moeda de conta, destinada a determinar uma
fracção, ou multiplo, do marco de prata de onze di-
nheiros. Podia acontecer que alguma moeda cunbada
correspondesse exactamente ao valor de uma d'essas
denominações; como dissemos, os dinheiros foram
moeda real nos dois pÍimeiros seculos da monarchia;
D. Fernando cunhou barbudas, a cada uma das quaes
deu o valor de uma libra: mas do factos accidentaes.
Como em Flandres
1
, como em França onde este modo
de contar durou até 1789
1
, o costume, transmittido
l Vide no fim d'eate capitulo a tabella do valor da moeda ftamenga
em Portugal.
I Avenel, Hütoire konorraique de la propril.té, vol. I
1
cap. 1. aLa livre
ne fut jamaia qu'une monnaie de compte•, Giry, Manuel de Diplomati-
9f&t, liv. nr, cap. IV
1
1 8.
0
JJloeda 281
de geração em geração, impozera esta intrincada re-
gra de contagem.
Tal·a força da necessidade e do habito, que ho-
mens rudes, para quem as mais simples operações ari-
tbmeticaa offereciam difficuldade extt·en1a, se accom-
modavam, no trato commum da vida, a este esforço de
calculo mental, exigido p01· um systema, cuja existen-
cia, depois que elle entre nós completamente se obli ..
terou nos fins do seculo xv, nem por homens dados ao
culto das letras e ao estudo da historia era sequer
suspeitada
1

A valia nominal em libras do marco de prata de
onze dinheiros foi constantemente crescendo no de ..
curso do tempo, que é o mesmo que dizer que a valia
real da moeda se foi comparativamente depreciando
na mesma rasilo. Taxado em doze libt·as pot· D. Af-
fonso III em 1258, o marco foi elevado a quato1oze
por D. Diniz
1
, a   por Affonso IV
3
, a dezenove
por D. Pedro I '·
t Todos 01 eeoriptorea, aem ezcepçlo, doa aeculoe xvn e xvm, que
ee oocuparam da moeda, ( colleecionadoa por D. Caetano de Souaa no
tomo 1v da Bul.oria. Geraea.logictJ dtJ Ca10. Real), crêem que &I libra•
eram moeda cunhada : e, o que ê de eatranhar, aasim tambem o aftirma
o diligente e laborioso auctor do ElucitltJrio, a. v. LiurtJ. Nlo ê menos
para admirar n'eete ultimo, que nlo tenha elle a minima noçio de que
a quantidade de metal precioso, representada pelo real, tem diminaido
continaadamente: por iaao elle auppõe, •· v. Decimtu, que o preço de
aeiacentos rêia, que no aeu tempo euatava um alqueire do trigo, era
trinta vezes superior ao de vinte reaes, que poderia custar DOI aeou-
los XV e XVI.
:a Documento da Rm&UM.& de Sa.flttJrem, Eetante 6.•, vol. x, n.• 16,
tranacri, to Teixeira de Araglo, cit. vol. 1, doe. n.• 32; vide o 117.
I lbidem, 1 19.
• Fernlo Lopea, CAnmior& de D. Pttlro I, cap. :sr.
282
O filho de D. Pedro, el-rei D. FeJ"nando, legou A
hist01ia um c.ontraste psychologico, de comprehendo
assaz embaraçosa. No seu proceder entremeiam-se ma·
nifeataçaes de vícios abomina veis, e actos de bom juizo
e de zelo pela causa publica. O galanteado1· de sua
propria irml, o· marido da adultera e sanguinaria Leo-
nor Telles, nlo ha duvida de que fosse um caracter
dissoluto e cynico. De voluvel inconstancia, po1· cinco
vezes mudou os esposorios de sua filha Beatriz.; por
tres vezes alternou a obediencia do 1·eino entre o papa
de A vinhão e o de Roma; o seu reinado foi uma con-
tinua oscillaçlo entre a aJliança e a inimizade de Cas-
tella. Empedernido egoísta, lançou os seus subditos,
só para satisfaçio de seus caprichos, em desastrosas
guerras com aquelle reino; o pais foi invadido, abl'a-
zada a melhor parte de Lisboa, taladoa os seus subur-
bios, e outras regilles, ao passo que o rei folgava des-
cuidosamente nos seus paços de Santarem. Mas se, na
sua vida particular, e na direcção da.politica externa,
elle se nos antolha como um ente desprezível, e como
um rei detestavel, pelo contra1·io na administração in-
terna do paiz sobresae, com louvavel preeminencia,
entre todos os monarchas portuguezes. A solução
d'esta flagrante contraposição deve ser que teve elle a
felicidade de ser rodeado de excellentes conselheiros,
a quem dava ouvidos, quando a paixio ou o interesse
lhe nlo pe1•turbavam a lucidez natuml do entendi-
mento.
Em toda a historia de Portugal encontra-se, em re-
gra, completo desdem pelos bens materiaes ; e, a par,
uma avidez fiscal, que se traduz n'uma profusão de
   
188
empecimentos aos meioa de grangear a vida, até no-
civa ao fim anteposto. Nilo ha terra no mundo, diziam
as cOrtes de 14:72, onde a liberdade seja tolhida pelos
costumes, como em Portugal: não ha meio de ganhar
"vida
1

Nilo se observa ep1 nossos annaes que se estimule
o laborioso ; ninguem se desvela pela communidade ;
nlo se cuida de aligeirar a inevitavel dureza do ta·a·
balho, nem de o auxiliar na lucta com as oppreesões
da natureza. A solicitude que, em algumas providen-
cias economicas, D. Fernando manifestou pelos la-
vores da agricultura e do commercio marítimo', tem,
pelo excepcional civismo e zelo de republico, algum
tanto resgatado a sua memoria do ferrete que lhe en-
caustaram os seus costumes e flagicios.
Na historia da moeda se encontra reflectido o duplo
aspecto d'este reinado.
Nas desatinadas gue1·ras contra Castella, nos annos
de 1369 a 187 a, D. Fernando teve de recorrer ao
usual expediente de alçar progressivamente a valia no-
minal do numerario, chegando a cunhar   de
tão baixa lei, e tAo alta taxa monetaria, que cabia ao
marco de prata de onze dinheiros o valor real, n'esse
numeraria, de cento e noventa e cinco libras; pilartu,
I •Voaoa regnoe mal aforados, nem livree, nemeuemtoe, como outraa
terras, de costumes muitos que liberdade e ft'ranquesa tolhem ..• e ao
pouo leluea muyta perda e dano eom pouca liberdade e franqueza, ti-
rando a faculdade aos vosos nataraes per omde ajam de viver, apermu-
dooa em maneira que nam posam levantar as cabeçaa e fiquen1 como
minguados e pobrea». Capitulo. miltico., fi. 82.
• Femlo TApes, CAronica de/). Fef'fiiJndo, cap. LXssiX, r.:u e LliLJ.
284 Moeda
em que o mesmo marco de prata ficava por duzentos
e tres ; e g1·aves por tresentas e sete libras
1

Terminada a guerra, tomou o bom juizo a sobre-
mão.
A doutrina assentada pelo rei, ou antes, provavel-
mente, pelos judeus, seus officines de fazenda, o t.he-
soureiro D. Judas', ou o almoxarife David Negro
3
,
sobre o officio da moeda', .S de todo o ponto inoon-
tradictavel. A moeda, dizia elle, foi estabelecida como
«meio entre os homens nas cousas que hão de com-
prar, vender e trocar», porque, na sua falta, se ha-
viam ellas de escambar umas pelas outt·as, e d'ahi
grande desconcerto, visto a: como as cousas, que os 110-
mens haviam, nito fossem iguaes, nem de igual pt·eço,
nem todos os homens as haviam, nem podiam hanr,
assim igualmente para as dar e escambat·»: portanto
<<deve ser lavrada e feita esta moeda de boa lei e de
certo peso, e posta em certo valor, estabelecido pelo
rei>,, N'esta sisuda ordem de idéas, D. Fernando, con-
cluida a guerra, desceu o valor nominal de todas as
moedas.
Não é facto bem assentado em quanto ao justo ficou
computado o marco de prata pela reducção definitiva.
Segundo Fernlo Lopes
5
, ficou valendo vinte e duas
t Teixeira de Araglo, citado vol. r, pag. 198.
I Femlo Lopes, C.\ronietJ de D. Jollo I, parte r, cap. cznm; Mo-
Mn:hiG Lutitt&fttJ, parte VIJI
1
}iy, :IXU. C8p. J:SJ:I,
I Carta do Meatre de Aviz
1
em Sant'Anna, C.\rtmica d01 Carmelita•,
tomo r, doe. n.• 9.
4 No Regimento de 8 de Fevereiro de 1818, cm TeiJeira de Araglo
citad.,, vol. r, doe. n.• 11.
r. C.\r011ica de D. Joll.o I, parte 1
1
cap. L.
·   . ~
_.,,
~   ·
Moeda 285
libras. Em um relatorio sobre a historia da moeda
nacional e a determinação do valor das moedas cir-
culantes, dirigido a el-rei D. Affonso V, provavel-
mente em 1453
1
, se transcreve a opiniilo do judeu
Catello
1
, que calculava o valor do marco em vinte e
duas libras e treze e meio soldos, tomando a media dos
valores de todas as moedas correntes no tempo, em que
D. Fernando fez a reducçio
3
• Posteriormente outro
juden, o conhecido favorito de Affonso V, Abrabanel,
opinava que «em vinte e quatro libras da dita moeda
havia um maa·co de prata da lei de onze dinheiros»
4

)las, em todos os documentos do seculo xv, e até
desde logo no reinado de D. João I, o ma1·co da «boa
moeda antiga», e é n'esta designação comp1-ehendida a
moeda de D. Fernando, sempre se reputa equivalente
a vinte e cinco lib1-as
1

t Citada Remt•a de Sanlartm. É de advertir que este diploma,·tal
como se encontra no Arcbivo Nacional, é uma copiR coeva, maa muito
incorrectA. Do seu conteúdo parece deduzir-se, que é ama consulta
elaborada. por algum cmpregade da moeda, aabcdor tcchnico do seu ofti-
cio, mu pouco conversante com as questões monetariu, e que, por i•so,
transcreve primeiro uma anterior c msulta, dirigida a el-rei D. Duarte
por um judeu chamado Catcllllo, a qual se estende desde o §1.• ao 11.•,
o á qual pertencem aindn, provn.vclmento, o final do § 2.2.• e os ~ ~ 23.•
e 24.•, e, com certeza, os I§ 25.• o 26.•; cm seguida as refle:a:ües do ju-
deu Abrabanel, seu coetanco, que vito do § 12.• ao I 20.•; e conclue
com a noticia do toque c peso das moedas enllo correntes; infelizmentl',
n'estc ultimo acervo de algarismos, ha evidentemente muitíssimos erros
de copia.
2 Um Isaac Catellio, talvez descendente d'este, vivia em Lisboa,
quando foi a conversio forS!ada dosjudeas por D. Manuel cm 1497, e
recebeu o nome baptismal de Rapbael Dias; Estremadura, li v. n
1
fi. 178.
I Citada Remu.a de Satttarem, § 5.•
4 .IbitUm, § 20.•
~ Veja·so mais adiante a representavito do clero de Braga ao papa;
286
Estas divergenoias se conciliam algum tanto pela ·
consideração de que • Lopes e o Catellão to-
maram em conta tambem os dinheiros affonsis, de
melhor lei, e que corriam ainda no tempo de D. Fer-
nando, ao passo que Abrabanel s6mente attendeu ás
moedae cunhada& pelo rei : posteriormente, como es-
tas eram de· differentes ligas, e nem sempre, por ocoa-
sião da reduoção definitiva, seria bem ajustada a equa·
çlo, foi, para tira•· esta e outras duvidas, que natural-
mente trazia o decurso do tempo, avaliada em vinte e
cinco libras por marco de prata de onze dinheiros a
moeda de D. Fernando. Ha até casos convencionaes,
em que ella se reputa de qualidade inferior: assim,
em 1405, o arcebispo de Braga, D. Martim Affonso
Pires, aforou a Gonçalo Pereira o castello de El'Ve-
dedo em Traz-os-Montes por sessenta libras de boa
moeda antiga, dinheiros affonsis, graves, ou barbudas,
ou, na alternativa, dois marcos de prata
1
; sendo pois,
n'este caso, o marco avaliado em trinta libras d'essa
moeda. Na vigencia de um numerario circulante, ex-
traordinariamente depreciado, como era o de 1405, os
pagamentos em moeda de boa lei haviam de ser muito
cobiçados, e nilo admira que ao devedor se facultasse
no reinado de D. Duarte, axxb libras de boa moeda (antiga) que era
um marco de prata• : c.'apituloe especiaes de Evora nu côrtes de 1486,
em Gabriel Pereira, Documtnlol HiltoricoB de E"'Ora, parte u, pag. 50.
E n'esta meama BO!Dma foi computado o marco por el-rei D. Manuel,
quando, em 1502, quis dar um justo cambio ás traz mil libras de boa
moeda antiga, em que D. Joio I ae obrigára anoualmente para com a
Sé do Porto pela cadencia da jurisdicçio aenhorial; Cunha, Catalugo drn
  do Porto, parte u, cap. xuu.
I Cunha, Hütoria EccluiulictJ de Brtlfla, parte u, cap. 53.
.__,
'
MOlda 287
a vantagem de, com ella, satisfazer maior numero de
hbras, do que o resultante do valor, que D. Fernando
ssignára ú suas moedas.
Os desva1ios de el-rei D. Fernando, q ~   haviam
empobrecido o reino, e esvaaiado o erario dos thesou-
1 os accumulados por eeus anteceSBores na tora·e do
astello de Littboa
1
, redundaram, por sua morte, na
longa e calamitosa guerra da independencia nacional ;
uerra estranha e civil, porque uma grande parte das
daues superiores do reino tomaram a voz do estran-
beiro.
Nenhum documento testifica hoje, com brado mais
·loquente, a g'l'aveza dos sacrificios que os noSBos
naiores se impozeram para a conservaçlo da sua li-
berdade, do que a singela noticia da assombrosa de-
lreciaçAo da moeda, que elles supportaram. De IDOl'-
s, assolações e ruinas, os seculos apagaram os
"estigios: a ohronica de Fernão Lopes é uma narra-
tiva exultante do esforço coroado pela victoria: a igreja
a Batalha é um hosanah de tl·iumpho. Mas que Por-
.ugal acceitnsse sem desanimo o alteamento do valo1·
•ominal da moeda para cima de mil e cem vezes mais
lo que era o seu OUI'SO no começo da luota, encerra
l'Sse facto, cifrada em um algarismo, a iliada de mise-
I·ias e de abnegações, que assignalaram a guerra da
independencia.
A depreciação foi progressiva, assim como o exigiam
t Fcrnio Lopes, Chronica de D. Ferwando, cap. 173.
288 Moeda
as necessidades e a crescente depauperaçlo do the-
souro: terminada a guen·a, a penuria e a desordem,
por ella engendradas, e os habitos contrabidos pelo
governo, mantiveram o continuado recurso a esse des-
graçado arbítrio ; de sorte que, no fim do reinado de
D. Joito I, a moeda tinha descaido n'aquella enorme
despropo1·çio entre a quantidade do metal precioso,
que ella continha, e o seu valor nominal
1

A primeira moeda que o MestJ·e de Aviz, ainda como
Regedor e Defensor do 1•eino, cunhou, foi a de 1·eats
de p1·ata, da lei de nove dinheiros, taxada cada peça
em dez soldos '; havia, portanto, uma libra em dois
d'estes reaes. A breve intervallo, e no curto espaço
que elle exerceu as funcções de Regedor, de 6 de de-
zembro de 1888 á reuniAo das côrtes de Coimbra em
6 de abril de 1885, cunhou reaes, a que deu o mesmo
valor de dez soldos, mas s6mente da lei de seis dinhei-
ros
3
• Como este valor uominal era já muito superior ao
da moeda de D. li'ernando, pretendiam os proprieta-
rios, os · senh01·ios, os arrendatarios dos impostos, se·
rem pagos na moeda do tempo, em que contrahira o
devedor n obrigação, e rejeitavam a nova moeda; mas
n'essas côrtes de Coimbra os povos requet·e1·am e al-
cançaram, que os foreiros, rendeiros e contribuintes se
t Vide a tabella dl1 reducção da libra em moeda de boje, no fira
d'este capitulo.
2 Citada RemellBtJ de Santarem, § 7.
0
3 Fernito Lopes, Claronica de D. João I, parte 1, cap. L, diz cineo :
mas o Catellilo, citada Bemeua de &ntarem, 8 8.
0
1
não falia de reaes
da lei de cinco, mas de w, dinheiros. N'estc ponto a auctoridade do
financeiro parece-nos supe1ior á. do ehronista.
.- ...
   
Moeda 289
podessem desobrigar com o I'ecente numerario
1
; de
modo que o numero de libras, soldos ou dinheiros de-
vidos, fosse contado segundo a taxa que a lei mar-
cava a cada moeda, o que na realidade diminuis a
ob1·igação estipulado.
Se bem que a m61· parte dos 1·edditos do clero
e da nobreza provinham de prestações em generos
agrarios, todavia. n'aquella. porção soluvcl em moeda
\'inba essa. decisão das côrtes a causar-lhes decres-
cença nos p1·oventos, o que não era de para
·.lhes avigorar o cnthusiasmo pela causa. nacionul; ao
passo que o povo cm algum tanto allivindo dos seus
encargos.
Nem eram sómcntc os magnates privilegiados, a
quem desp1·azia o rebaixamento da moetla. O favo1· do
concelho do Porto era de demasiada impÓ11ancia pam
o 1·ei, I'ecentemente eleito, para que este houvesse de
o descontentar: o mestre de Aviz, um bastardo de
D. Pedro I e de uma mulher do povo, defrontado com
a filha de D. Fernando, mulher do 1·ei de CasteUa, e
com os filhos de D. Ignez de Castro, fuzia maior fun-
damento na acceitaçiio dos concelhos, do que no
agrado da nobreza; e, assim, por lei de 30 de agosto
de 1386, mandou que os dinheiros em divida áquelle
municipio fossem pagos cm moeda de D. Fcruaudo, ou
na de Castclla, e não ua sua!. },oi esta, porém, uma
gmça especial : o rei 01·denava t\s justiças do 1-eino,
' da Camara Municipal de Lisboa, lh·. 1 dOB PregO&, cm 'fci·
scira de Arag!o, vol. r, doe. n.
0
12.
2 J. 1'. Ribeiro, Additamc:ntoa á Sy11op8i• chronologica.
19
290 Moeda
que constrangessem toda a gente a acceitar a nova
moeda •.
D'esta a valia effectiva continuou baixando em res-
valadeh·o. De seis dinheh·os. o toque dos reaes desceu
a quatro, depois a tres, a um e meio, a um, e, final-
monte, a meio dinheiro
1
• Não s6mente dect·escia a
quantidade dn pratn, mas tambem o peso das moedas.
Dos reaes da lei de um dinbeit·o sabemos se talhavam
noventa peças em um marco
3
• o valor nominal dos
reaes e1·a sempre de dez soldos
4

Em 1898
3
a moeda recebeu de golpe outra larga de-
preciaçlo. N'esse anno entraram em circulaçilo os
reaes, a cada um dos quaes se assignon o valor de
tre1 lib1'tu e meia, e por esta designaçlo nomeados.
Estes reaes foram, a principio, da lei de trez dinheú·os,
mas, em breve, baixaram á de um dinheiro e meio
6

A esta moeda succederam, em 1408, os meios reae1
cruzados de trinta e cinco soldos ; a sua lei é incerta,
mas n'elles houve deterioramento em relaçlo ao valor
metallico
7

No anno de 1415, quando pareceria que a paz com
Castella, assignada em 81 de outubro de 1411, se bem
t J.<'emlo Lopes, Chronica de D. Jollo I, parte u, cap. I.
2 Citada llemt.BBa. de Satllarem, § S. a, e l<'ernlo Lopes, parte u, caJ>. Iv.
3 LiDro de cmuelAol de el-rei D. Duarte, tranecripto em Teixeira de
A.ragio, cit. vol. 1
1
doe. n.• 25.
" RtmCBia. de &ratarem, e Fernlo Lopes, ubi 1upra.
• Lei de 18 de setembro de 1417, nas Ordeftaçüel   liv. 1v,
tit. r, §§ 38 a 46.
• Fernlo Lopes, Chronica de D. Jo/J.o I, parte I
1
cap. L, e RemCBIII de
Santarem citada.
7 de Evora.
1
em 'l'eiseira de Aragio, cit. pag. 208.
Moeda 291
que a gueiTa cessá.ra de facto desde 1399, haveria não
s6 dispensado similbante arbítrio, senão que aplanado
o caminho para maior regularidade, deu-se outro pro-
fundo decaimento. A expedição de Ceuta motiyou o
emprego do já inveterado expediente. Cunhou-se,
n'esse anno, a moeda denominada Real de dez reaes,
a que se chamou real branco, para distincção dos
reaes, seus componentes, nomeados reaes pretos. A
cada um d'esses reaes brancos o rei assignou o enorme
val01· de t1·inta e cinco libras, e a cada um dos pretos
o de tres libras e meia
1
• Era essa moeda, tal como se
cunhava em 1417, cinco ve1.es inferior, em valor ma-
terial comparado com o nominal, á dos reaes de tres
libras e meia
1

Ha uma moeda de D. João I, mas s6 conhecida por
alguns exemplares existentes, o real de pratn do to-
que de dez dinheiros. lgno1·amos o anno em que foi
cnnhndo, bem como as relações de peso e cotação que
o rei lhe attribuiu. Melh01ia de toque não significa de
per si melhoria da moeda, quando o valor nominal é
conjunctamente accrescentado. N'este caso o refina-
mento da prata nada aproveita. A elevação do valor
nominal do nume1·ario produz nas transacções mercan-
tis a mesma perturbação que o incremento proporcio-
nal da liga. E possivel que este real fosse destinado a
pagar os fornecimentos estl'Rngeiros para a tomada de
Ceuta; e d'ahi a sua boa lei.
Nos ultimos annos da sua vida, o soberano não deu
l Fernlo Lopes, Olwonica de D. João I, parte 1
1
cap. L.
t Citada lei de Hl de setembro de 1417.
292 Moeda
de mio ao seu usual expediente financeiro; porque
temos po1· indubitavel que, em 1422, ou a liga da
moedà. foi dobrada, ou o seu peso foi diminuído por
ametade, conservando o real branco, que então corria,
o mesmo valor nominal de trinta e cinco libras
1

Em summa, no fim d'este reinado, em virtude do
continuado subimento da taxação nominal dos reaes, o
valor effectivo da libra era, segundo a computação de
Fernão Lopes, mil cento e setenta e tres vezes inferior
ao da libra de D. Fernando
1
: e teremos occasião de
comprovai' no decurso . d'este capitulo, que o calculo
não é exagerado.
Este espantoso envilecimento da moeda custa hoje
a conceber: mas é de considerar, que a população era
diminuta, as relações economicas rudimentares, infa·e-
quente o uso da moeda, e qne as consequencias de si-
militante fncto não se podem comparar com aquellas
que surdiriam, em igual caso, em um organismo tão
vasto, complexo, activo, e uni\•ei'Salmente interdepen-
dente, como é o das modernRS sociedades
3

t Vide o o.• 5 d'csto capirulo.
z «Foram em cllas (nas moedas) feiras tantas mudança• de liga. e
talha., que acrlo longas do coutar ..• Assim que, por quanto (cm libras)
achavam no tempo de el-rci D. Fernando mil conto e setenta o trez do-
bras, nilo achavam depois maia de uma dobrau; Chronica de D. João I,
parte I
1
cap. L.
3 Na cpocba de maior ape1·to fin'anceiroproduzido pelarevoluçlo, em
1795, o governo de França nlo recebia maia de um franco em metal
por duzentos de papel-moeda em assignados; e, nna transacções parti-
culares, fl cambio subia a quatrocentos: Thicrs, Histoire de la lldoolu-
tion Française, Iiv. xxvm e xxxn. Mas a convulsão social era. tremenda,
e cata situação nio foi longa, porque a. prancha doa aaaignndos foi abo-
lida em fevereiro do 1796.
"'· ---
Jloeda 293
Simples como e11t a estructura social, comtudo esta
continua e ve1·tiginosa derrocnda não podia menos de
produzir perturbações desastrosas, que o legislador
procurava atalhar, mas, naturalmente, com escasso
exito.
Considerada em si, a estimação de um marco de
p1·ata em maior ou menor nume1·o de libras é de todo
o ponto indifferente. É apenas uma mudança de nome:
no tempo de D.   chamava-se libra a vige-
sima quinta parte de um marco, D. João I deu essa
denominação a uma fracção d'esse mesmo marco mil
cento e setenta e tres vezes menor. Mas esta ope1'8ção,
qtte é em absoluto puramente verbal, produz socinl-
mente effeitos tanto mais desgraçados, quanto maior
é a differença nominalmente cffectuada.. Todas as obri-
gações pecuniarias se acha,•am determinadas em li-
bras; de sorte que o devedor de vinte e cinco libras,
que nnteJio1·mente l1avia de pagar um marco de prata,
não ficava adsbicto depois senão ao insignificante des-
embolso de menos de quatro g•·ãos do mesmo metnl.
E é precisamente este resultado que induz o govel·-
nante a decretar a alteração nominal. O moth·o da
quebra «la moeda é sempre o meFmo, -libe1-tar o Es-
tado do pagamento integral dns obrigações contrahi-
das. Quer essa quebra se realise, adulterando o toque
ou diminuindo o peso, sem mudança do valo1· nomi-
nal, quer, conservados o peso e o toque, elevando a
taxação nominal, a ope1·ação é identica ntt. substancia
e nos effeitos. O Estado faz, a cada mudança, banca-
rota parcial, e def1·auda os seus credores, funcciona-
rios, pensionistas, servidores. Já o sabia bem lucida-
2B4 Moeda
mente· el-rei D.     e o declarava r.om a sua
habitual franqueza '.
Para as transacções, que occorriam depois de cada
mudança effectuada, o damno era de somenos monta,
porque os preços vinham a ajustar-se ao accrescimo
do valor conferido á.s moedas
1
• Mas, em relaçlo aos
contratos e obrigações particula1·es contrahidas ante-
riormente, a leslo era enorme para o credor. O Estado
padecia igualmente na cobrança doR impostos em di-
nheiro.
Não cominha ao rei eleito exacerbar os a.nimos
dos prelados, fidalgos e ricos proprietarios
3
• K estes
não descuravam os seus intea·e88es. Nas cOrtes de
Coimbra de 1398, comquanto já entito o rei houvesse
parcialmente indeomisado as classes afazendadas com
o cambio de cinco libras por nma, os fidalgos se ag-
gravavam do detrimento, causado pela baixa da
moeda, na solução dos f6ros e rendas das suas herda-
t •El-rei disse, que, pelos gnLndes misteres e enearregos que se lhe
recresceram pelo azo da guerra, que houve com el-rei D. Henrique, lhe
conviera mandar moedas de desvairadas leis e preçoa, por melhor
poder pagar as quantias, e soldos, e as outras despezaa, que para tal
guerra eram pertencentuo : l<'ernlo Lopes, CAro,.ica de tl-rei D. F'tT-
nalldo, cap. LVI.
I •E esto (o augmento do numero dftl libras nos pagamentos) parece
que raz<ladamente se deve fazer, porquanto a maior parte das eousaa
igualmente fizeram esta multiplicaçio• : Leia de 30 de agosto e 18 de
setembro de 1417 nas Ordmaçi}t• AffOMiJUU, liv. 1v tit. 1.
3 •Esta é a maneira qne nós el-rei D. Joio mandamos que se tenha
sobre pagas, que se devem fazer aos prelados e fidalgos, ou outras
quaesquer pesaoaa, nos aforamentos, empnLzamentoa, arrendamentos,
alugueres e outras quaeaquer pagas•: citada lei de 30 de agosto de
1417.
- .,
=--' -. -.- -
Moeda 295
des
1
: pediam que se lhes mandasse pagar na moeda,
por que se haviam feito os contractos, ou pela actual,
segundo o que e11a realmente valia. O 1·ei respondeu
qne já fallára com os prelados, fidalgos e procurado-
res do povo, e qne havia de dnr remedio. De facto al-
guma satisfação lhes deu, como abaixo diremos.
Posterio1·mente, não podemos precisar o anno, o
clero de Braga se queixava ao pllpa, de que o rei mu-
dára muitas vezes o valor e peso da 'SUa moeda., e po-
zera certas estimações á moeda antiga, mas taes, que
d'ahi J'etmltava ainda um grnnde abnixamento no seu
valor primitivo, de maneira que onde, nos antigos con-
tratos das herdades das igt·ejas e matrizes cchavia cem
libras da moeda antiga, que eram quatro marcos de
prata a vinte e cinco libras o ma1·co, pelas estimações
nas ditas moedns novas tornava-se pouco mais de
marco e meio de prata; e assim são defraudados em
quasi dois mat·cos e meio 11  
Para o fim de compensar algum tanto essas lesões
resultantes de cada alteamento feito ao valor nominal
da moeda, D. João I marcava, de tempos a tempos, o
qne se devia pagar na nova, como equivalente da an-
tet·ior
3

A primeira ordenaçlio, que conhecemos
1 uNos tempos que foram aforadas e arrendadas, era a moeda boa, e
ora, Senhor, a moeda é tal como vedes, e elles (fidalgos e vas•alos) das
suas herdades n!o hito sedo cinco por um (cinco libras por uma llnti-
ga), e em esto sabeis que recebem muito grande damno e perda» : Or-
denaçiit• Affon•ina., liv. n, tit. LIX.
2 D. Rodrigo da Cunha, Hi1toria ectluia•tica de Li•boa, parte u,
eap. :u.
3 Citada Rtmeua de Santarem, § 8.•
296 ltloeda
pela menção, que d'ella se faz, nomeadamente nn
carta regia de 18 de maio de 1389, mas ignoramos a
data. da sua promulgação, vigorou até parte do anno
de 1398
1
: por ella se mandavam pagar cinco libras
por uma. Em 1399 f<li dec1-etado que, retroactiva-
mente para o espaço de tempo de 1398 até 24 de ju-
nho de 1399, se equipat·asse, nos pagamentos em di-
vida, uma libra da antiga moeda a dez, e, d'abi por
llionte, a quinze da moeda cora·ente
1

Por estas duns ordenações a proporção do incre-
mento no numero das libras e1·a identico. pam qual-
quer pagamento eft'ectuado depois da publicação. Mas
as descommunaes depreciações, que depois se decreta-
ram, forçaram o legislador a distinguir as taxas da
proporção segundo o tempo origina.•·io da obligaçito.
Nos pagamentos por obrigações existentes antes de
1386, quer dizer, no tempo cm que se reputa,•o. ter
cursado a «boa moeda antiga», as taxas estabelecidas
foram as seguintes:- por e.ada libra d'essa moeda .-c
manda'\'am pagar, em regra porque algumas
cepções
1
(lincoenta libras da moeda corrente pela lei
de 20 de fevereiro de 1409
3
1
depois duzentas e cin-
coenta pelas de 30 de agosto e 18 de setembro de
1417 ', e, finalmente, quinhentas pell\ lei de 14 de
t Ortk11apjts .dffouinas, liv. IV
1
tit. J
1
o J. P. Ribeiro, Mtmnria para
a hi•toria du C011firowrç;ju Btgias, doe. J1.
0
67.
2 Lei de 11 de abril de 1401, no Arcl.i1:o da Camara Municipal de
Lisboa, liv. u de D. Jollo I, fl. 88
1
transcripta em Tciscira do Amgln,
cit. v. r, doe. n.• 14.
3   Affonsinas, li\·. 1\'
1
tit. 1, §I 2 c 2!.
4 lbidem, §§ 2!1 R 46.
Jloeda 291-
agosto de 1422
1
• Estas taxas vigoravam igun.hnente,
quando o contrato, feito cm qunlque1· anno posterior
a 1385, estipulasse o pagamento na «moeda antiga».
Considerando a 1-espectiva quantidade do metal de
prata, estas equipBrações officiaes não condiziam com
a realidade: nn
1
nO\'& moeda essa quantidade era muito
menoa·. D. J:oão I não o ignorava. Et·a um dos agga·a-
vmuentos do clea·o cm 1427, que o rei mandava pagm·
uOll foros e ta-ibutos, qne lhes (ao clero) devem peJa
J;Docda antign., a quinhentas libras por uma d'esta
moeda que m·a corre, c quando lhes lança imposição
ou taxa, faz pagar a elles setecentas por uma». O so-
berano redarguiu evasivamente, que assim «foi outor-
gado em côrtes geraes por prol commum e bem de
toda a tea·ra, porquanto não hn agora moeda antiga;
e foi ordenado de se pngnr por cada. uma libra da
moeda antiga quinhentc'\9 por uma, d'esta moeda que
ora cora·e»
1
• NAo era essa a objecção do clero.
De facto todas estas nlteraç(Ses vieram a 1-edundar
definitivamente em beneficio da classe popular; se a.
unidade monetaaia se houvesse mantido estavel, a som-
ma. metnllica dos f6ros e tributos em dinheiro conti-
nuaria muito mais subida. Por essa rasilo, alguns con-
tratos particula1·es se nos depa1-am, em que se não dava
obediencia, na estimativa dnsliba·as, ás pa·cscaipções da
tarifa legal. Já em 1404 o mosteia·o de Pedroso, n'um
contrato de empbyteuse, inseria a do paga-
• Ibidem, §§ IH a 57.
2 Concordata do 30 de agosto de 1421, art. 23.•, nas • .Af
  liv. u, tit. vn.
Ãfneda
mento do fôro de dezoito librafl, a quinhentas por
uma, «sem embargo da Ordenaçito»
1
• Mas a taes actos
de rebeldia sómente o clero, com o privilegio do seu
fô1·o ecclesiastico, e entre uma população l"ude e se-
nhoreada pela Iga·eja, se podia prndentemente aventu-
rar.
Para as obrigações, contrahidas em   e poste-
riormente sem a clausula do pag!'mento em «moeda
a.ntiga»
1
prescreveu-se um cambio em libras, variavel
segundo a data e a especie determinante da divida. As
taxas, para esse fim estatuidas pela legislação definiti-
vamente assentada, diversificavam desde a mesma som-
ma originaria até dez vezes o seu multiplo, pela sobre-
dita lei de 1409: foa·am elJas quintuplicadas pelas men-
cionadas leis de 1417; e este quíntuplo dobrado pela
lei de 14 de agosto de 1422. De maneira que uma
identica somma anterior de libras se estimava em
maior, mas differente, quantidade do no,•o numerario,
segundo o tempo e a causa efficiente da obrigação .
. Havia uma regra generica para os contratos ordinarioll,
a qual teremos de expOr subsequentemente': mas
davam-se numerosas excepções para outrus especies de
dividas, que não reproduzimos, por ser o
detenninado por esta legislação.
Pelo enunciado se podem conjecturar as emaranha-
das complicações engendradas pela continuada mu-
I Lobio, Diplomatico lawlorico ao Dirrito Emplaytetttico,
pag 210. Os documentos d'este appendice foram, segundo dia Hercula-
no, colligidos por J. P. Ribeiro.
2 Veja-11e o n.• õ d'e11te capitulo.
.,
 
.Jfoeda
299
dança elo valor nominal do pad1·ão monetario. Nem é
de admirar que, por essa causa, «clerigos e leigos
movessem entre si cada um dia demandas e conten-
das, em que andam gastando o que têem, e deixam
por ello de aproveitar seus bens», como o monarcha
deplora na citada lei de 20 de fevereiro de 1409. E)
comquanto esta lei tivesse justamente por mira dar
c6rte ás causas d'easas demandas, nlo nos parece
tivesse, pela complexidade dRB suns disposições, acer-
tado o alvo. .
Para se libertarem de questaes e pleitos hnvia para
as partes contrahentes o remedio de estipularem o pa-
gamento em ouro, ou ma1·cos, ou dinheiro especificado
de prata, e assim lhes era licito até 1402: mas, n'esse
anno, a lei de 9 de feve1·eiro, allegando que similhante
costume de faze1· aforamentos era moderno, contl·ario
áquelle até então seguido, de fazer esses contratos em
moeda corrente (em libras), ou a pão e vinho, pl·ohi-
biu-os sob pena de perda do fôro para o senhorio, e
do officio para o ta.bellião
1
; e esta prohibição se en-
tendia como extensiva a todo o genero de contra-
tos'.
Tambem os mosteiros, nas províncias do norte, pre-
cavendo os seus interesses, e confiados nas suas im-
munidades e na submissa religiosidade do povo, não
duvidavam em infringir esta lei, declarando aberta-
mente na escriptura de emprazamento a sua desobe-
l Ordenagõu Afor&BÍnaJI, liv. IV, tit. n, §§ 1.
0
a 11.
0
J Citada lei de 18 de setembro de 1417, Ordenaçüu Aj'o"Mintu, liv.
1V
1
tit. I
1
§ 86.
300 Jfoeda
diencia
1
• Abaixo veremos como el-rei D. Duarte cohi-
biu este genero de transgressões.
Logo nos primeiros tempos do seu reinado, nilo sa-
bemos o anno preciso, mas antes de 1391, D. João I,
para escorar a desmesurada cotação da sua moeda,
estabelecêrn o monopolio regio do commercio dos me-
taes monctarios, o qual durou pot· todo este seculo.
El-rei D. Fernando costumava, quando queria la-
vrai' moeda, pt·obibir temporariamente o commercio
particular do ouro e da pt·ata, e delegai· em dift'eren-
tes partes do reino a cambeadores seus este nego-
cio: mas era um abuso, no dizer das côrtes. O monar-
clra reconhecia que, afót·a aquelle caso especial, era
justa a 1-eclamação dos povos
1
• A legislação sobre a
circulação de moedas estrangeiras, estatuida por este
mesmo rei
3
, sómente defendia o curso no 1·eino das
de prata, como numeraria, mas permittia que circulas-
sem como p1·ata em bat·ra : emquanto ás de ouro, o
t Em um emprazamento do mosteiro de Pavo do Sousa, em 1419,
•doze maravedia doa dinheiros meudos cxpre&lltlmente da antigamoeda,
do seu justo verdadeiro valor, sem embargo das leia e das ordenações
dos reie, que para esto renunciou, feitas e por fazer.. Em 1421 um em-
prazamento do mosteiro de Pedroso cm marco& de prata. Lobio citado,
pag. 210 e 238.
z aA este artigo diremos que, pois nós nio entendemos lanar moe-
da, que nilo J:!aja abi eambeadores, sah·o um cambeador, que costuma-
ram os reis de haver em alguns Jogares; e que, sem embargo da DOI!sa.
defesa, possam comprar esse ouro e prata, querendo nós fazer graça e
mercê ao nosso povo em isto». Côrtea de 1872 em Teixeira de Aragio,
citado, vol. 1
1
pag. 57. Á luz d'c;,te artigo das côrtes ao deve interpretar
o que diz Fernão Lope1 a respeito dos cambradores regioa do D. Pe-
dro I, e de seus autecessorea : Chronica de D. Ptdro I, eap. xu.
3 Citada lei de 8 de fevereiro de 1378.
Moeda 301
seu giro, compra, veuda ou troca, era livre, e á
de cada um. Faziam, po1·tanto, concorrencia á moeda
nacional.
Pa1·a tornar indispensavel o uso da sua baixa
moeda, D. João I vedou absolutamente a negociação
particular de quaesquer moedas de ont·o, na.cionaes ou
estrangeiras, e da pa·ata em barra, que s6mente se po-
diam comprar ou vender nas duas 1·eaes casas de
cambio, que estabeleceu em Lisboa e no Porto. Nas
côrtes de Evora de 1391, durando ainda o furor da
gnerra, foi, a pedido dos povos que requeriam a sua
antiga franquia, levantada a defeza sómente em rela-
ção ás moedas de ou1·o ' : mas, vinte e tres n.nnos
depois, a lei de 5 de março de 1414' restabeleceu o
monopolio integral, sob pena de prisão e de confisco
de todos os bens do contraventor. Como succede no
caso de todos os monopolios, o negocio clandestino na
mea·cancia açambarcada tornou-se tão f1·uctuoso, que
os judeus incorrinm frequentemente n'este delicto e
na col·a·espondente penalidade
3

Poa· outl·o lado, g1·aves penas impendiam sobre
quem rejeitasse a moeda de el-rei
4

Todt\8 estas provisões de D. João I l"esumem-se na
imposiça"io legislativa do cm·so forçado de uma moeda
fa·aca, que n. commuuidade 1·epulsava.
t Archivo da Camara Municipal do Lisboa, Livro d01 Pregos, em
Teixeira de Araglo
1
vol. x, pa.;. 200.
2 Ordcnaçüu AffonsitUU, liv. IV, tit. :ux1.
3 Ordenações A.ffominas, liv. n, tit. 78.
4   AffonBillal, liv. n·, tit. G9.
302 Jloeda
. .
taes circumstancias é muito possível que, mesmo
em gl'ande numero de convenções transit01ias, se
accordasse o pagamento em generos, pratica que, aliás,
deveria ser ainda muito usual: em 1411 uma mulhe1·
cedeu uma herdade ao concelho de Evora a troco de
oito alnas de panno de Castella
1

Ao Conde de Barcellos, futuro Duque de Bragança,
sagaz grangeador de suas ganancias, nenhuma fé me-
recia a moeda do rei, seu pae: e este, desatinado pelo
amor paternal, prestava-se a contradizer em acto pu-
blico as proprias detero1inações da sua legislação mo-
netaria. No contracto de casament.o de Dona Isabel,
filha do Conde, com o Infante D. João, assentou-se
que o pagamento das arrhas seria obrigatorio em
«dobras cruzadas de bom ouro e justo peso, do cunho
de Castella»
1
• No segundo casamento do proprio
Conde, o dote da noiva, JibeJ·alisado pela munificen-
cia de D. Joilo I, foi determinado uas mesmas dobras
cruzadas de ouro
3

Legalmente, para os contractos, de prasos, arrenda-
mentos, e de oub·as prestações em diuheiro, o
menos precario, e geralmente adoptado, consistia em
convencionar o pagamento em «boa moeda antiga•,
o que se fazia até nos contractos com a fazenda pu-
blica': mas aqui intervinha depois o alved1io do legis-
I Gabriel Pereira,   Hi1tori«M de Evora, parte u, pag. 11.
2 Sousa, Prot'QI da HiltoritJ GentalogictJ, tomo I, liv. s.;, n.• 86,
pag. 487.
3 lbidem, liv. VI
1
n.• 9.
t Soares da Silva, MemD'ritJI de D: Jo&J I, tomo n·, doe. n.• 14.

.... --.-.
Moeda 803
lador, estabeleceudo, como temos visto, a equivalencia
em moeda cor1·ente.
Ni\o desconhecendo as tremendas provações e a pe-
nuria, que ao paiz infligiu a guerra da independencia,
não se póde, todavia, isentar o rei de toda a culpa por
ter desvirtuado em tão descomedida proporção a legiti-
midade da moeda, e precisamente em mais lat·ga escala
nos ultimos annos do seu govel'Ilo
1
que cor1·eram em
plena paz e socego. Durante todo o reinado, a sua
moeda, os reaes, ora melhoravam, ora desciam na liga
e no peso, mas a dep1·eciação, pelo ascenso do valor
nominal em relação ao e:ffectivo, foi continua. Na
obscuridade, que involve a hist01·ia das suas cup.ba-
gens, por falta de documentos e de diplomas legisla-
tivos, pela contradicção dos   pela desor-
ganisação occo.sionada pela guerra nos primeiros dez-
eseis annos, um ponto é certo, e domina sobranceiro
toda a politica moneta1ia do seu longo governo de
cincoenta annos. Cada nova moeda era uma deprecia-
ção da anterior e, portanto, uma fallencia do Estado.
Não existe, pelo menos ainda não foi encontrado, um
diploma governativo, que fixasse em qualquer occasião
o valor monetario do marco de prata, como era justo,
e já o fizera, mais de um seculo antes, el-rei D. Al-
fonso III, como acima apontamos. Mas para que publi·
car um limite, quando, no proprio pensamento do go-
verno, elle selia em breve ultrapassado? Na mesma in-
ferior nova moeda, o toque estabelecido começava logo
a peiora1·. O padrão da mQeda, o marco de prata de
onze dinheiros remontou de vinte e cinco libras, em que
o deixára o seu predecessor, a mais de vinte e nove mil.
304 Moeda
Quando em 1427 o clero expressava o seu amargor
pelos damnos, que lhe advinham da a•·bitrariedade
l'egia, D. João I lhes 1-evidava, que somente ao rei
pertence fazer moeda, mudai-a, pôr-lhe a valia que
entendesse, e que assim se praticava em   Ara-
gio, Fmnça, Inglatena, e em todos os demais reinos•.
A resposta foi evidenten1ente redigida por algum le-
gista do conselho, extasiado no culto do Direito Impe-
rial, e fanatico partidario da supremacia absoluta da
realeza. E, demais, sophistica\·a. O Infante D. Pedro,
esc1-evendo de B1·uges a seu h·mão o P1·incipe D. Duar-
te, ainda em vida de seu pac, contrasta\'& a fixidade
do padrão da moeda nos pnizes estmngeit·os com a
sua continua mobilidade cm Portugal, e signalaYu o
empobrecimento, que d'abi resultava'·
O velho guerreiro, acostumado outr'ora, e com as-
senso das côrtes, a usar d'essc cxh·cmo alvitre para o
minoramento dos encargos do Estado, julgava-o
sempre perfeitamente legitimo e acertado, como lh'o
demonstrava a ventura, que tinha coroado as suas be-
roicas façanhas Os seus conselheiros, cm assumptos
economicos, nilo hombreavam com os de el-1·ei D. Fer-
nando: eram eximios jurisconsultos, mas indoutos fi-
nanceiros.
O seu chronista, e admirador, fez-se cargo de reba-
ter o reparo, que naturalmente havia de occot·rel' então
I Ordtnaçilu •   liv, u, tit. vn.
2 a Aqui nlo ba novas de de moedas, porque é cousa que se
costuma fazer em vosu\ terra, c yem dcllo grande mal. . • c se segue
dcllo grande pobreta á terra•. Arcbh·o Nncionnl, Col/ecçào de Carta1,
tomo vr, n.
0
G, em Olh·eira MIU'tins, Prllun de JJ. João I, Appcmlice D.

I
jfuedtt
305
como hoje, e responde que por tal preço se gnnhou
a independencin nacional
1

Segurnmentc nada tinha que ver com a indepen- '
dcncia, hom·a ou ludtre nacional, qup, por occasião
do casamento da Infanta Dona IKabel, em 1429, se
ostentasse o luxo, desaccommodndo t\s posses do pniz,
de a mandnr ao seu marido, o Duque de Borgonha,
acompanhada do duas mil pessoas, em uma esquadra
de quatorze naus grandes, armadas c pomposamente
apercebidas á custa do rei'; sem mencionar outros ex-
cessivos gastos de igual caracter festivo, cujos encar-
gos pesaram sobre n fazenda. do subsequente reinado
3

A verdadeira defesa é que u gratillão impõe o dever
de não pedir contas ao glorioso defensot· du indepen-
dcncia nacional. Aos coutemporaneos, que padece-
ram, c não a nós, competia o direito da censura.  
clles cntendel'nm serem de nenhum momento cstns
demasias ante a benemcrencia do chefe, que os  
conquista da libcrdad<'.
Duros como eram os gmvamcs da instabilidade,
d'ahi resu1tou finalmente melhoain na condição da po-
I oE porém cumpre aqui de nota1· um grande dito e muito proveito·
so, que cada um rei e príncipe de\'e de ha\·er com seu conselho quando
lhe tal necessidade avier, que o de outro guisa rcmcdia1' não possa, que
mais vale terra padecer que tt•rra se perder; que com tn('B mudanças c
lavramento de moedas, com ajuda do muito nlto Deus, o reino de Po1··
tugal foi por ellc (D. João I) defeso, e posto cm boa pax com acua ini·
migoa, posto lftte na gentes em ello alguma miugoa c damno padeccs-
aemu: Chrcmicc' de D. João I, parte 1
1
cap. L.
z Visconde de Sanlarem, Quadro El•me11tar da.r Relat;iit's Di'ploma-
ticaR, tomo m, png. 52 e óõ.
3 Pina, Clu·mdctt cll' n. Dmulr, cap. XIII.
!O
..
.. : ...
:306 Jlueda
pnla.ção tributaria. O rei, na maxima estimação que
na sua depreciada m o e ~   arbitrou á libra antiga, de
• quinhentas das suas, taxou-a em menos de metade do
valo1· que ella 1·ealmente tivea·a no tempo de D. Fer-
nando: e assim aligeirou os encargos da classe po-
pular, affrontst.ndo os interesses e resistencias das Ol'-
dens privilegiadas
1
• Firmado no throno, nilo esqueceu
os humildes a quem devêa'R a. elevaçio; virtude que
bastaria para lhe grangel\1' a boa. memoria, que a na-
çlo lhe consagrou.
D. Joi\o I falleceu em 14 de agosto de 1433. Na
co.a.sulta a seu successor, el-rei D. Duarte, o Catellão,
em 1435, descrevia assim o estado da circulaçlo mo-
netaria.:
cE, quanto é a este presente tempo, em que ato-
mos, d'esta e1·a do nascimento de Nosso Senho1· Je-
sus Christo de 1435 annos, co1·rem reaes de dez
reaes a peça, dos quaes são os demais delles da lei de
um dinheiro. E em oitocentos e trinta e seis delles ha
um marco de prata da lei de onze dinheiros'· Estes so-
bredictos reaes de dez em peça são reaes brancos dos
de trinta e cinco libras: e em cada um d'estes reaes
1 Convertida na nossa moeda actual, a libra antiga foi por elle ta-
sada em 216 réis, quando a de D. Fernando valia 510. Vide no fim
d'este capitulo a tabella de reducçio da moeda.
2 Esta aeaerçio confirma o dicto de Fernio Lopes, que o valor no-
minal da moeda de D. Joio I era 1178 \'ezes o da moeda de D. Fer-
nando; porque 886 reae•, de 85 libras cada um, perfazem 29:260 libras,
que aio, com a dift'erença de menos de· dois reaes brancos, o producto
de 25libras
1
o marco de D. FerniP,Ildo, por 1178.
Mueda 307
brancos ha. dez reaes pretos, qne são de tres libras e
meit& cada uma peça . . . E em razão dos reaes pretos
de tres libras e meia, que se ora lavram, que são sem
nenhuma liga de prata, e dez d'elles valem um real
branco, é muito grande torvação ao reino, porque as
pessoas, que têem os reaes brancos,· guardam·n'os, e
não os querem t.razer a uso commum; porque, segundo
o valo1· do eobre, de que elles (reaes pretos) são feitos,
trinta d'elles deviam valer um real branco, e mait1 não,
e isto porque não têem liga nenhuma de prata, que
são de cobre. E, se alguma pessoa disser que assim se
lavram em outras terras moedas feb1·es (fracas), dirão
verdade; mas eu digo, segundo meu entender, que
a dita moeda. é logo tão pouca quanto necessaria é
para uso commum, a saber, para esmola e pru·a com-
pra de cousas meudas, que se não podem comprar por
moeda grossa, e não tamanha somma d'ella como esta,
que se ora, Senhor, lavra d'estes reaes pretos de trez
libras e meia cada uma peça ... Não mandeis dar ao
escudo de ouro menos do que a dob1·a de banda cas-
tellan vale, pois que no peso e ouro é tão bom como
· a dobra; nA: o fazendo mudança em estas moedas, a
saber, em escudos e meios escudos, os quaes se lavrem
abondo, e reaes de prata d'estes que são chamados
leaes. E reaes brancos e reaes pretos, dos brancos la-
vrem-se já agora poucos, e dos pretos, para uso com-
mum e cousns meudas, mais poucos, e isto pelo ga·ande
abondo q u   j ~ ahi d'elles ha
1
>>.
1 Citada lleme11a de Scmtarem, § 10.
0
808 Moeda
Sobre a comparação d'este numerario de D. Duarte
com o antigo, elle entende, como já dissemos, que,
na moeda de D. F'emando, depois da reducção nomi-
nal, «vem cada um marco· de prata a vinte e duas
libras e treze soldos e meio • ; c sobre esta base elle
calcula a libra antiga em mil e quntl·o centas libras
da moeda dos rcaes ba·ancos enülo em circulação, isto
é, em quarenta d'estes reacs
1

D. Duarte cunhou escudos de om·o de dcsoito qui-
lates, e de cincoenta peças em marco, leaes de prata
de onze dinheiros, de qnc oitenta e quatro pesavam
um marco
1
; 1•eaes brancos de um dinheiro, c reaes pre-
tos, bilhão de cobre
3
• Ao real branco, que constitnia o
instmmento usual de troca, consen-on a mesma talha,
tt lei de um dinheiro, c Ynlor nominal de tt·inta c cinco
libras, confot·mc a ultima cunhagem de seu pac. O
Catellno não faz differença entt·c uns c outros'· O que
elle nota é o excesso do seu lavramento, significando
assim, que este ultrapassava as da ch·cu-
laçi\o, e que não correspondin.á. lei das outras moedas
de D. Duarte. É nccessal'io ter bem presente, que, n'este
seculo, nos lavramentos dn mesma moeda não lmvia
uniformidade: como diz o economista judeu, dos
reaes brancos eram os 'mais d'elles, que tinham a lei de
l c Vem por libra, segundo o lavramento elos rc.ic•, a mil e quatro-
centas libras, que alo dos reaes brancos, que ora correm, quarenta renes
branCOS» i Ibidem, § 3.
0
2 Pina, Cltronica clt D. Duarte, cap. vn.
3 Cibda Renusaa dt!
·1 "a qual moccla (os rcacs   cl-rci D. Joao ajuntou por mui-
tua parteM, quer di:>:er, 1\ prntn •Jclles: ibidrm.
Moeda 309
um dinheiro; em casos de necessidade, o governo
  sem nenhum aviso, á quebra da moeda.
A consulta do Catellão era provavelmente destinada
a esclarecer el-rei D. Duarte a bem da importante re-
forma, que efl'ectuou no regímen monetario.
D'essa reforma o primeiro ponto consiste em que
clle proscreveu de todos os diplomas legislativos c
officiaes a avaliação em libras: o marco de prata, as
moedas, as contas dos funccionarios fiscaes, a almota·
çaria dos preços, tudo determinado em •·eaes bran-
cos. Não houve, que saibamos, nenhuma ordenação
formal a este respeito; no uso Yulgar continuaya.m as
avaliações cm libras: mas o Estado n:io se servia
cl'essa numeração monetnria, senuo quando era a isso
forçado pela necessidade de tormu· intelligiveis as suas
dt!cisões. Á moeda fictícia das libras substituiu, conio
meio de contagem, a moeda cunhada do •·cal branco
1

O valor do marco de prata de onze dinheiros, fixou-o
em setecentós reaes brancos. Foi clle, pois, quem es·
tabeleceu a unidade monetaria, que tem durado até
nossos dias, o real b1·anco, que fôt·n originalmente
cunhado por D. João I; no meiado do seculo xvi já
se empregava indifferentemente a locução de reis ou
de reaes !!.
t •Segundo por nós 6 ordenado de ae pagar, convem o saber, marco
de prata por setecentos rcaes brancos, dobra cruzada por cento o cin-
coentao etc., lei do 80 Novembro de 1486, em J. P. Ribeiro, Addita-
mcntoa A. Synopsis Chrormlagica, p11g. 114, o em Teiscira do Arngito, ci-
tado, vol. 1
1
doo. n.
0
28.
• 2 Lei de lG de setembro de lúúO cm ADd1·ada, Cl•ro11ica deJJ.Jollo 111,
parto l'r
1
eap. XLIJ.
1
e em Leão, Leis Ezl.ravaganles, parte v, tit. Ym
1
lei IY.
310 Moeda.
A esta innovação foi o rei, provavelmente, incitado
pelo systema usado em Castella. Ahi adoptava-se, por
unidade monetaria, o maravedi (moeda de conta), que
constava de duas brancas (moeda cunhada). De facto,
equiparava elle o seu real branco a um maravedi '.
O segundo capitulo da reforma contem-se na lei de
25 de outubro de 1435 t. Po1· ella foram alterados os
termos da equação, estabelecidos por D. João I, entre
as libras da antiga e as da moeda nova.
Este ponto era de summa importancia. <<Libra
antiga>> chamava-se proptiamente aquella, que cur-
sára no tempo de D. :F'et•nando, depois da reducção
definitiva do valor nominal das suas moedas; quer di-
zer, significava, conforme geralmente se estimava, a
vigesima quinta parte de um marco de prata de onze
dinheiros. D. João I, como havemos narrado, estendeu
essa designação até aos fins do anno de 1385. A con-
fusão e depreciamento monetario., resultantes das con-
tinuas emissões d'este rei, occasionaram o costume, por
elle permittido, de se estipular, nos contractos a di-
nheiro, o pagamento em ((moeda antiga»: era o meio
menos contingente de se fixnr para o futuro uma quan-
tidade determinada de prata. D'ahi procedeu  
convertido a ((moeda antiga» em uma fórma usual de
pagamento convencional. Pela ultima lei de D. João I
a este respeito, a libra antiga foi mandada pagar por
l Citada Rtmtsla de Santarem, 9.
0
, Ordmaçüu A.ffonBinas, liv. n·,
tit. XJ:.
2
Ordenaçõc1 A.ffonsina•, Ii v. xv, tit. 1
1
§§ 60 e seguintes i Ordene&·
rões Manuelina•, liv. IV, tit. r, § 1.
0
.Moeda 311
quinhentas da nova cunhagem. D. Duarte alterou este
computo pela f6rma seguinte.
O anno de 1395 foi escolhido como limita divi-
sorio entre duas taxas differentes. A razão assignada
á selecção d'esse anuo é que no periodo desde então
decortido !!Je comprehendem os mais e principaes con-
tl-actos de afol'amento feitos, reformados ou inno-
vados em todo o reino: por onde cremos se pretendia
inculcar que o nugmento, que ia ser decretado, nilo
abrangia senão a poucos mais que os conttibuintes
das foragens seculares. Para as obrigaçoos, incor-
ridas em moeda antiga desde o principio d'esse anno
até á data da ltd, era adoptada, para os pagamentos,
a ultima. taxa estatuida por D. João I, isto é, a
de quinhentas libras modernas por uma antiga; o
que correspondia por libra antiga a quatorze reaes
brancos, dois pretos e trez quartos
1
• Para as obriga-
ções anteri01·es áquelle anno, uma libra da moeda an-
tiga era igualada a setecentas da moeda moderna; de
f6t'DlR que, na moeda dos reaes, uma libra antiga era
declarada equivalente a vinte reaes b1·ancos; um soldo
a um 1·eal branco; um dinheiro a um real preto, • va-
lendo dez pretos um real branco, como ora valem '• .
I Esta eorrespondencia é a noticiada pelas citadas Ordenaçõe• Ma-
nuelintU, como aendo do tempo de D. Duarte: n'esta lei elle nilo con-
verte em reaes a libra de quinhentas, mas o algarismo deduz-ae da
equivalencia subaequente.
z Quer dizer : expresaada a libra antiga em mOt!da de hoje, de&de
1395 por diante era, por eata lei, conservada a taxa de 216 réia, fixada
por D. Jol'l I; para oa annos anteriorea era eeaa taxa elevada a 302 réis,
que é esse aproximadamente o valor metallico dos vinte reaes de D.
Duarte : veja-se no fim d'este capitulo a tabella de reducçlo da moeda.
312 J.l:lueda
Em resultndo d'estn lei, a estimação das libras par:\
o seu pagamento determinava-se do seguinte modo.
Reputava-se lib1·a antÍ!Ja, em virtude das leis de
D. João I de que anteriormente fizemos menção, toda
aquella libra que fosse mencionada em qualquer di-
ploma ou. contrncto até no fim do anno de 138:j,
Depois d'esse anno, era tnmbcm havido por tal aquclla
que fosse designada por coHvcnc;ilo entre con-
trahentes, ou por legal. A libra antiga, qne1·
anterior a 1386, qum· l>ostca·iormcntc assim qualifi-
cada, foi pela lei de D. Duarte equipamda, até ao fim
de 1394, a setecentas libras novas, ou a vinte reaes;
c desde o principio do anuo seguinte até á data d'cssa
lei, 25 de outubro de   a quinhentas, ou a qua-
torze rcaes lmmcos, dois pretos c trcs quartos. Depois
da data d'essa lei, fica,•u ao arbitrio dns partes o esco-
lherem, se o houvessem por conveniente, uma ou outra
libra antiga, de setecentas on quinhentas, pm·a paga-
mento das pt·estações convencionadas. E assim se pra-
ticava, como adiante veremos certificado pela ordena-
ção de D. Affonso V, que modificou a legislação que
acabamos de expor. Fóra d'estes casos todn a libra se
reputava itova, e o seu pagamento era regulado pela
legislação especial de D. J oito I, de que já denios no-
ticia: mas, desde o tempo de D. Duarte essa.não ser-
via senão como medida para a computação da libra
antiga, porque o seu valor era tiio ínfimo, que não
hnvia moeda, que a representasse; c este rei adoptou
por unidade monetnria o renl branco, que tmnbcm era.
designado nos contractos, pelo 1·eal de trinta e cinco li-
bras (novaH), sendo o 1·cal preto pelo de t1·es lib1•as e meia.
Mueda. 31a
D. Dnm·tc, determinando a equiparação de uma
libra antiga a vinte dos seus rencs, pam todo o tempo
anterior a 1395, augmentou bastante a taxa estabele-
cida por seu pae •, c mostt·ou-se menos caroaYel ás
classes laboriosas, que tivessem de pagar em dinheh·o
os direitos regalengos e as foragcns. 'l'odt\via não foi
extt·cmo no rigor. O Catellii.o, que, pelo thcor do seu
relatorio, se mostm muito entendido cm assllmptos
monetarios, avaliava, como havemos dito, a pnl'idade
da lib1·a antiga cm qttarenta rcnes da moeda ele
D. Dn:utc. :Mas, tomando mesmo a estimação usual
d'estns libras em vinte e cinco por marco, c a taxa.
official do marco em setecentos reaes, a libra antiga
vinha a equivaler a vinte oito reaes. E era esta igua-
lação, para todos os tempos, q nc, pelo menos: lhe re-
queriam os infantes sens irmãos, o conde de liarcellos,
os filhos d'cste, os prelados, os fidalgos, os mosteims
o as igrejas'; mas o rei não nssentiu. Concedeu-lhes,
mas só pam ns foragens anteriores a 1H95, cerca de
tl·es qnintas. partes da quantidade mctallicn, que elles
recebiam· no tempo do rei I>. Fernando. Na noYnção
dos aforamentos da coroa, tnmbem ellc se conformon
ás provisões da sua. lei
3
7
c não sabemos qne c11a
tivesse suscitado nenhumas reclamnçõcs.
A(·ima apontfimos qne D. Dunrte fixárn o valor elo
I F.m moe•la de boje, elle elevou a libra antiga do 21G a 302 réis.
2 «lJUe rceebinm muito grande perdn. om lhes haverem do dar qui·
nbontas librM por uma, que é acerca menos ametade, ou as duas partes
(dois tcrço11) do seu direito valor•, citada lt i do 25 tte outubro de 1435.
3 Cnrta de D. Duarte de 4 do fevereiro de 1436, cm J. P. Ribeiro,
Mem,ria para a Ilistoria cl·u Confirmaçüet, doe. n.• 51.

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