EMPREZA LITTERÂRIA DE LISBOA

HISTOIIIA

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PRIMEIRO VOLUME

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MANUEL DE MACEDO

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OFFICmt TYPOGRtPHICt DE

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Cl MtTIOS
lili

jG, Ilua N'ivu (lo Almada,

1876

ADVERTÊNCIA

Convidado pela Enipreza Lideraria de Lisboa
da HISTORIA

juira escrever o

primeiro volume
útil

DE POKTlíiAL,

acceitei

o convite por

me

parecer

divulgar os

conhecimentos que os investigadores eruditos teem enthesourado, mas sem a
pretenção de accrescentar o thesouro.
distribuído

O

periodo da historia pátria que
está reconstruído pelo sr.

me

foi

na partilha da coUaboração

Alexandre

Herculano: a minha tarefa consiste, portanto,
discípulo a lição do mestre,

em pouco mais do que

repetir

como

pondo o seu génio ao alcance das

inlelligencias

menos

levantadas e reduzindo o plano da sua obra monumental.

C/ ctudot.

XD(Nra?DR.ODOXJGÇAO

Os primitivos baltiluntos do Irorio de terra
peninsular, om quo iio scouio xii ila era ác Christo se lançou a primeira pedra da nacionalidade porlii£»ueza, pertencem, como os do resto

descendência do que os Hirdnlos qne demoravam ao sul do Tejo, e a verdade é que o sangue d'esles como d'a(|uel!es se diluiu tanto em ondas invasoras, que a custo
a nos.sa

com

e turdelanos

se lhe encontraria já um glóbulo nas veias dos compaidieiros d'arm{is d'.\rtbnso Henriques. Os da Kuropa, aos domínios da geologia. No alvn- tnsitmws só teein de commum comnosco o lepecer da historia a Hospanlia estava ]iovoada pe- rem vivido em parte do torrão em que vivemos, los iberos, emigrados da Ásia Central, que são e o (pie nos deixaram [)or herança limita-sea alainda hoje representados genuinamente pelos guns ossos eiicrustadf)s na terra, algumas de«uskára ou vasconeos. Navegadores da Wieiii- signações locativas, e pedras toscas que attestam cia, vogando no Mediterrâneo, descohiiram pos- barbárie: os iberos e os celtas não exiilicam uma toriormente a vasta e opulenta moradia dos ibe- feição da nossa nacionalidade nem um facto da ros, e na esteira dos haixeis vieram colónias, nossa civiiisação. que se estahelecerani a par d'estes selvagens, Assim como os phenicios aportaraiu ã terra travando relações com elles e iniciando-os Jia a que chamaram Spnn, (pie signilicaxa, talvez,

grande cataclysmo perturbou, porem, esta iniciação: os celtas ou célticos transliiinlarain da (laliia |ielos deslihideiros dos l'yrcneos, edei'ramaram-se |iela 1'eiiinsula em duas
i-ivilisação.

Dm

invasões assoladoi'as. Attriliue-se a primeira invasão aos (lael e a segunda aos Kimri. meiuhros da mesma lamilia ariana. Os celtas li.\aram-se
eia, vir,

prinei|)almente ao nordeste da Iheria, na (lalacnas margens do (iuadiaua e do (iuadal(|ui(!

110

interior e

cora os iberos.
origiMii

no occidenle misturarani-se Uns e outros dividiam-se em trisi,

l)us dilTerenti's entre

e as trilms
.solo

liaralliaram-se

no

i|ue

de diversa successiva-

occuiiaram. Segundo lluuilioldt, procedia ihi^ros e celtas o jiovu i[ue os untifc'os coidieciani pelo nome de lusitanos, e no qual os archeologos e historiadores pretenderam entroncar a nossa genealogia, para nos alidalgarem.
miiiite

da fusão de

vasão dos c^//as, depois d el la e da destruição de 'IVoia viei'am colónias gregas explorar o chão fértil, (pie o Tejo cortava rollando palhetas dViuro, e n'esta colouisação se enraizou a lenda da fundação (h- Lisboa, cujo nome ( aliás derivado do vocábulo púnico aíisubbo, bailia ameua, que os romanos pronunciaram olisippo. Ao estabelecimenlo dos gregos segiiiiam-se as relações com Carthago, a lilha e herdeira de Tyro. De (juando datam essas relações, travadas ou estreitadas pelo (Yunniercio, é dillicil decidir: a coMimuiiicação e a colouisação pi'epararain, porem, a conquista por força (Tarmas, eesla consuminou-su no terceiro secuio antes de Christo, estando ateiada a primeira guerra púnica. Foi talvez um pensamento estratégico ([Ue trouxe ã llespanlui os generaes da
in

occulto,

— antes da

lista

preteiição é mais

llorescente republica, l'or ella fazia-se caminho comedida que a dos para o coração de Konia e a sua população po-

truditos estrangeiros de descobrirem os progenitores das suas gentes, senão na arca de Noé, entre os emigrantes que ainda encravaram os
artelhos nas lamas do diluvio universal; todavia

dia fornecer legiões valorosas. Atravessando os Pyreneos para depois galgar os Alpes iienelrou

não ha mais rasão para honrarmos os lusitanos

Hamiibaliia Itália, acompanhado porhespanhoes, cuja Índole hellicosa elle próprio, seu pae Hamilcar e seu tio Hasdrubal haviam apprendido

8

Historia de Portugal
rações associado ao de Viriatho, comprehendido nas famosas listas de proscripção de Sylla explorou o rancor dos hespanhoes ao jugo romano para os arrojar contra o inimigo triumphante, que com o vulto odioso lhe encobria ás vistas a figura da pátria e pondo-os em armas e fazendo-se eleger seu caudilho, levou de vencida por muitos annos os generaes da republica aristocrática, famosos alguns como Metello Pio e Pompeu, até prostral-o um assassino. A ambição e a vingança de Sertório não foram, porem, inúteis á cultura de Hespanha. Combatendo Roma esforçava-se o proscripto para romanisar os hespanhoes. Quando abria mão da espada, o habd capitão empregava-se em obras de paz. Organisamlo o governo e a administração, creou um Senado, modelado pelo da pátria. Armou
;

a estimar, lidando para subjugal-os. {juerendo tornal-os dóceis e fieis, o vencedor de Cannas mostrou-lhes generosidade, como quem antes desejava ailiados do que servos, e á sua generosidade parece ter correspondido sympathia e dedicação, porque esses mesmos bravos que se enfileiraram lealmente com os carthaginezes, quando depois da batalha de Zama (202 a. C.) viram a pátria prelada pela águia romana como espolio de vencido, porfiaram para vingar os antigos dominadores cm frequentes e vigorosas revoltas, e ostentaram-se mais do que nunca feros, guerreiros e insoffridos do jugo. Carthago sobreviveu a si mesma no ódio da Hespanba. Custou muitos annos de lucta o estabelecimento da dominação romana, que só foi plena c pacifica depois das victorias de César Augusto. Um dos athletas, que acaudilbaram os povos do occidente da Península, afamou-se tanto nas contendas com Roma que os nossos cbrouistas invejaram a sua espada para o tropheu das glorias portuguezas. Foi Viriatho, typo acabado dos heroes ingénuos da independência e da liberdade naturaes, em cujos músculos d'aço se amocegou o gladio da civLlisação conquistadora. Viriatho nascera nas fragoas dos Herminios (Serra da Estrella), onde se haviam encasteUado, como nos cerros vasconços, grupos dos primitivos peninsulares, para escaparem ao diluvio d'homens estrangeiros. Os habitantes das sendas são trivialmente validos de corpo e d'animo intrépido, e assim eram os patrícios, depois soldados, de Viriatho. Pendurados nas penedias, espreitavam como águias os caçadores nos desfiladeiros sulleiav«ni-n'os quaes lobos cervaes; como avalanchas esniagavam-n'os nas planuras; e supprindo a disciplina com a estratégia das bestas feras e vencendo a arte com o rancor, gueri'iIheiros indomáveis e salteadores heróicos, tantas legiões romperam e destroçaram, que, já senhores de vasto campo, tendo passado o Ebro, lendo bebido o sangue de Vetilio e repellido Plaudio e affugentado Unimaiio, Roma desesperou do Iriumpho leal e comprou a traição. O punhal acabou com oheroe, digno, por certo, de figurar na tradição nacional de pntriarclia da forti; raça dos l'acbecos e Castros. V. não acabou so coiii clle mas também com a esperança de emancipação da Hespanlia, jiorque Tântalo não poude sopesar a massa hercúlea, herança do jiaslor herminio, e pareceu fácil a Decio Junio liruto espesinhar cm rápidas expedições o paiz enlutado. Mas não foi duradoura a paz da subjeição. .\s vexações dos pretores, a Índole irre(|uieta dos povos e algumas vezes as contendas civis, transplantadas do fórum de Roma, continuaram a retalhar o chão feraz da Península. Foi escolhido até para llieatro dum episodio da lucta ao transe entre Mário e Sylla. Sertório, cujo nome
;

em que Huesca estabeleceu uma academia, onde se ensinavam as lingoas e as litteraluras grega e latina. Emprehendeu obras publicas, das quaes ainda conserva o seu nome o monumental aqueducto d'Evora, cidade que elevara a capital dos seus domínios e pareceu, emfim, querer consolidar o seu poderio
e

disciplinou

á

romana o

exercito,

abundavam

italianos e africanos.

Em

;

constituindo uma Itaha áquem dos Pyreneus. Esta empreza, própria d 'homem de levantados espíritos, adiantou a propaganda da civilisação de Roma e ajudou a sua politica assimiladora, bem mais do que a fúria de Caio Júlio César, quando este grande homem, nomeado pretor da Hespanha ulterior, metteu a ferro quanto se lhe oppòz, espalhando a desolação e o terror, porque em todo o tempo foram os hespanhoes tão promptos em submetterem-se ás forças moraea quanto em leagirem contra a força material. Todavia César estava compenetrado do pen-

samento politico de Roma e da sua necessidade de apagar a individuaUdade dos povos que avassalava, quando ordenou aos habitantes dos Herminios que descessem para a planície e os

constrangeu á obediência. D 'esta arte atlacou o elemento ibérico n'uni dos seus últimos entrincheíramentos; os outros, os mais importantes, as montanhas vasconças, só deviam ser accomniettidos por Augusto. Posteriormente, reconheceu também i|ue a luz devia andar na conquista atraz da espada, e que os benelicios firmavam a dominação mais do que o rigor. Voltou a Hespanha, porque a terra já tão escravada pelas patas do seu cavallo liavia sido escolhida para liça do duello com Pompeu, e logo que em Munda desbaratou Ciii^uca a retirada de Sexio e o vencimento de Pliilo lhe entregaram o paiz, applicou-se a organisal-o com brandura e sabedoria, radicando M'elle as instituições e as leis da metrópole. Mas a Iranquillidade restabelecida por César cedo foi perturbada por Sexto Pompeu, medindo-se com Asinio Polião. Uctaviano César lera vivido merecidamente na memoria das ge- Augusto ainda levou a guerra ao norte, empre*

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Nova

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(Ini.nla.

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VIRIATHO

Historia de Portugal

^

licndwulo suliiiiftUT os vascongos, unira tiil/u nulur jjara a historia o elemento celta e ibero, ati' futãii iii(l('|)ciKlfiitt'; L' só depois dos Iriuiii- substiluindo-se ao seu desenvolvimento orgânico. plios imperiais, depois de intimada ao mundo Us tristes restos da [iO|]Ulação submettida, trepavassallo a paz octaviaaa, |)0ude consuniniar-se a dos nas serranias ou sumidos nos ei-yastulos, foseíiuiida, mais preciosa e deliiiitiva, vicloria dos ram espectadores inúteis e desapercebidos, não romanos: a vicloria da sua a<liantada civilisa- actores, do drama dos destinos da sua pátria. ção, que cneorporou a Ilespaidia, não só terri- Ksta civilisação de que nOs, portuguezes c hestorial mas socialmeute, no Império, cuja sorte pauhoes, gozamos, começou para a Península, cila partilhou até á invasão dos Bárbaros, no v com o senhorio romano a que antes d'eUe coséculo de Cliristo. meçara a germinar, abortou. Com elle e com o seu Se a paz consummou esta vicloria e a encor- resultado social começa, pois, rigorosamente a poração consiMiucnte, força é dizer que a pre- historia de Poi-tugal, porque forneceu ao futuro, parou e facilitou a guerra, porque se as armas poi-que depositou no solo, os primeiros materiaes não cultivam, desbravam e di'storrôam o dião para a formação e organisação da nacionalidade para a cultura. Alem de diminuir a população, portugueza como, porem, Roma entrou na nossa a guerra de duzentos annos obrigou-a a um con- historia com uma berança, conservada atravez tacto diuturno com os exércitos, aggregados d 'ho- dos séculos, e não directa e mediatamente coma mens de outras raças e nacionalidades, que ao politica dos seus governos, as façanbas dos seus mesmo tempo que misturavam o sangue com o generaes, e a vida dos seus cidadãos, só dessa dos celtas e iberos, como já o haviam feito phe- herança nos cumpre tratar detidamente. A historia nicios, gregos e púnicos, comraunicavam-lbes as de Hespanba, província de Roma, pertence aos idéas e os sentimentos, as necessidades e os historiadores da líepubbca e do Império o estudo usos correspondentes ao grau de desenvolvi- e a descripção do que Portugal aproveitou de mento que possuíam e se a Hespanba recebeu Roma para a construcção do edificio social, em com as invasões militares, cora as expedições que ainda hoje habitamos, cabe-nos como indec correrias das legiões de Roma, a inoculação clinável dever. Procuraremos cimipril-o. civilisadora, também seus filhos foram buscal-a, desde a epocha em que serviram na Itália ás ordens d'Hannibal, aos paizes estranhos, aonde os II seus dominadores os levaram a combater. Esta dupla acção, exercida durante séculos, começou A influencia da civilisação romana 6 princia apagar, physica e moralmente, o typo ceilo- lalinente sensível no que poderemos chamar plieuicio-punico fora dos recessos naturaes onde i historia do povo, bem distincta da historia o conservou o isolamento. (,luando as colónias pa- dos reis, que até perto dos nossos dias foi quasi cificas succederam aos exércitos, estava já adian- exclusivo objecto das investigações eruditas. Re» tado o Irabíiilio que deviam com|iletar. Us colonos montam-se a essa civilisação as origens do nnivindos para a Península com a sua Roma no es- nicipio portuguez, a instituição popular por expirito não encontraram já influencias que Ih a cellencia, e não lhe são de todo estranhas as modificassem nem energias que lha repellissem. condições das pessoas, quaes as encontrou o séReligião, leis, costumes, lingua, tudo transplan- culo xii, depois da elaboração .social presidid;i taram e nada se alterou com a transplanta- pelos wisigodos, como que interrompida pelos ção. Não houve talvez provinda do Império que árabes e continuada peia restauração christã. se romanisasse tão com|iletanieiite como a Hes- Também é doctrina corrente que da lingua ropanba. No anno 15 depois de Cbristo já Slrabão mana derivou a nossa, e havemos de mostrar podia escrever com verdade que os turdelanos como; a lingua será, porem, assumpto de um catinham tomado de todo os costumes da metró- pitulo especial, queteni o seu logar mais adiante. pole, esquecendo até a própria lingua e f;dtando E puis (|ue nos não fazemos cargo da acção po.spouco para inteiramente serem romanos. Islo tlmma de Roma sobre o mundo moderno, que mesmo succedera tainhein, ou veiu a succeder se chamou Renascença, occupar-nos-hemas do depois, ás outras tribus, e Vespasiauo coulirmou rminicipio como da mais preciosa e da mais via observação do geographo e tirou-lbe as jus- gorosa semente, deixada pelos romanos nos sultas consequências politicas, concedendo a todas cos abertos com a espada conquistadora. as povoações hespanholas, indistinctaniente, ojus Pode dizer-se que o mmiicipio é uma instituiilaticum. No século v a assimilação dos venci- ção natural, e que por isso tem resistido a todas dos e dos vencedores era perfeita, e perfeita as vicissitudes da historia e está porventura desfoi até na corrupção ignóbil, que .se dirá que tinado a ser, no futuro, instrumento duma reinstigou a Providencia a decretar novo diluvio generação societária. Na antiguidade a população e nova purificação, soltando as ondas dos po- agrupava-se nas villas e cidades, procurando a segurança individual no agrupamento e na assovos setemptrionaes. Roma— pode dizer-se afToitaraente— fez an- ciação. O estado romano foi originariamente uma
; : :

;

VOL.

1

— 2.

H)
cidade, e

Historia de Portugal
Mais qualificado que o duumviro, porque eni iniprescíiidivel para o seu cargo o exercício d 'outro, era o curador ou censor, eleito de cinco era cinco annos, apezar de só exercer funcções durante um anno. Tinha algumas das attríbuições do censor de Homa. Superintendia na administração, na percepção e no emprego das rendas da cidade, nos contractos relativos aos seus bens, e ainda nos edificios públicos. Os edificios públicos estavam, porem, especialmente incumbidos á auctoridade dos edis, que egualmente faziam a polícia das ruas, olhavam pelos provimentos de grãos, inspeccionavam os pezos e medidas, tal como em Homa; e o funccionario a quem cumpria arrecadar as rendas munícipaes e particularmente cobrar os impostos, era o questor, que nos últimos tempos foi denominado exactor e susceptor. Termina aqui a numeração das magistraturas ordinárias; os municípios, todavia, tinham também osniuíiera, empregados, e d'estes os mais necessários eram os irenarchae, commíssarios ou agentes da policia, e os scribae, que escripturavam nas diversas repartições da cidade, e entre os quaes se comprehendiam os tabelliones, espécie de notários. A magistratura do defensor, já mencionada, foi instituída no período da decadência do regimen nmnicipal. (Iriginariamente tinha por missão defender o povo, e nomeadamente os pobres, das violências e extorsões dos delegados do poder central mas com o tempo as suas funcções primaram sobre as de todos os magistrados munici])aes. Justiniano encarregou-os de exercerem, junto a cada cidade, as attríbuições dos governadores das províncias, quando estes se ausentavam. Deu-lhes jurisdicção em todos
haltílitação
;

foi uma coUeção de cidades depois de se alargar pelas armas. Distanciadas cilas umas tempo em que das outras e da capital, a distancia isolava, era-lhcs indispensável uma certa autonomia, uma certa vida própria e independente, e daqui procedeu o regimen municipal, menos estabelecido do que acceilo pelos legisladores, e opposto à cenlralisação administrativa, que para Koma se foi tornando tanto mais impraticável quanto mais se foi cspraindo o seu poderio por inmiensos territórios. Foi elle que tornou possível a unidade do mundo romano, fundando essa unidade na variedade de elementos sociaes, que teria sido insensatez querer uniformisar de súbito. Se é possível a dominação universal, sonbada por Alexandre, por Carlos V e por Napoleão, só poderá realisal-a a politica romana, que deixava legalmente aos povos annexados toda a sua individualidade compatível com a annexação, para lh'a apagar realmente pelo influxo da prestigiosa cultura da metrópole; e o principal agente d'essa politica foi o regimen municipal, esse mesmo regimen em que, por singular privilegio seu, puem também as esperanças os philosophantes, que avistam n'um porvir de felicidade a federação dos povos! Qual era, porem, a organisação do município romano? Variava de província para província e dentro da mesma província, e variou muito no tempo: já vimos, comtudo, que Vespasiano concedeu a todas as povoações de Hespanha o jus ilalicum, e é portanto a formula de organisação das cidades que d'elle gosavam que nos importa conhecer. U direito iíalico equiparava os municípios aos dltalia, e estes eram os municípios perfeitos. Dentro delles a população livre dividia-se em eives oplimo jure, que partilhavam o poder solierano e jiodiam exercer magistraturas, e eives non óptimo jure, privados d'cstas regalias. Aquelles formavam a ordem dos decuriões ou cúria, e eram curiaes ou decuriões todos os cidadãos que possuíam vinte e cinco gciras de terra; estes eram os plebeus (plebci ou privatil. Aos primeiros foi atlribuída exclusivamente a

num

os pleitos soljre valores não superiores a 300 aurei, e competência em matéria criminal. Auctorisou-os,
cia e a independência, a

denominação de municeps. A cúria exercia a governação da cidade, representando o senado romano, conjunclamente com os magistrados, que ella própria elegia d'entre os seus membros, e só na eleição do defensor /defensor eivitatis,
loci, plebij

tomavam parte os plebeus. importante, senão a mais considerada magistratura municipal, foi a dos duumviros ou quatuorviros, segundo a exerciam duas ou quatro pessoas. Durava um anno e corespondia á dos cônsules. O duamviro presidia ás cúrias, dirigia a administração, possuía uma espécie de auctoridade policial, que lhe permittia castigar

A mais

com penas

leves os escravos e prender provisoriamente os homens livres, e decidia demandas que versassem sobre valores insignificantes.

para lhes accrescentar a ím])ortanexporem directamente as reclamações e queixas ao prefeito do pretório, e fel-os proceder da eleição de todos os habitantes dos nmnicipíos, comprehendendo-se entre os eleitores, quando o cbristianismo foi religião ollicial no Império, os bispos e o clero ehristãos. Com estas providencias emprehendeu .lustiníano revigorar o syslenia municipal decadente; o seu resultado mais apreciável foi, porem, apodcrar-se o clero da instituição do defensor, estribando n'ellaa infinencia dominante, que [tóssuia ao tempo da invasão germânica e com que prestou serviços relevantes á cívilisação. Só a egreja christã, como poder moral, c o seu sacerdócio, como poder social, moderaram, nos primeiros momentos da occupação dos Bárbaros, a sua força bruta, irresistível para destruir mas impotente para só por si edificar, Tal era, nos seus príncipaes lineamentos, a organisação municipal romana, no seu ultimo período, postas de parte, para não idongarmoa

Historia de Portugal
*'slB csluilo, díi
ililV( rfiiç;iiH

11

primilivas (\m- o Iciiipo

foi

apagando

rm

llcspiinlia.

Assim

orfjaiiisaiias,

de i('f.'ular suas i)ro|iiii(ladcs e pessoas civis, de cuidarem dos seus edifícios |)ulilicos e em peral da sua parte material, e por ultimo do se policiarem. A sua independência era todavia limitada peia ali,'ada dos delegados do poder centi'al, nunca delinida, mas que podia annular as eleigões dos magistrados munici|)aes e as deliberações lia cúria, e faltaram sempre garantias reaes contra o arbítrio (Testes funccionarios, que durante o Império raiou pelo despotisnio. A influencia dos governadores das províncias acabou de preponderar na gerência dos municípios, em virtuile da decadência e como que abdicarão da ordem dos decuriòes. Se o cesarismo usurpou, os povos ía('ilitaram a usurpação. Ser membro da cúria havia-se tornado onerosíssimo privilegio. Os curíaes, alem de servirem gratuitamente na administração, respondiam pela percepção das contribuições perante o governo da metropele, o que lhes acarretava intoleráveis vexames, forçando-os lambem a vexarem os concidadãos. Em troca de immunídadcs de pequeno valor, como a isenção de penas infamantes e de trabalhos públicos, eram-lhes impostos preceitos tão severos e opressivos como o de não sahirem da sua condição e classe, servindo no exercito, ou exercendo cargos do estado, ou tomando ordens sacerdotaes não venderem as propriedades nem auscntarem-se da cidade sem licença superior abandonarem três quartos dos seus bens ao munias cidades conscrvaraiu o
dii-cito

O plebeu (privalus) enordem dos decuriões pela acquisição de o \inte geiras de terra a plebe era pois composta
livres

e

jiessoas civis.

trava na

:

seu culto, de rendas como

adniiiiislrur as

de pequenos piuprietarios,
c jornaleiros.
tia

arlilices,

mercadores
livres exis-

Acima

d'esies

homens

a classe dos previlegiados; abaixo d'ell('S c privados da liberdade gemiam os escravos. Privilci,'iados eram os senadores e todos os altos ínnci'ioinirios, liom^ados com o tractamento (fe claríssimos, os olíuiaes da coroa, o clero c os militares. Constituíam como que a nobreza, (|ue em lioma foi pessoal e derivada rio exerlicio de carf/os e |irofissões, e só na decaiiencia

do Império começou a toi'nar-se heriMlilaría, c eiam dispensados das funcções cnríaes. Os escravos, esses, despojos das víctorius, eram cimsiderados pela lei cousas e não pessoas. Os senhores possuiam-n'os em plena |)ro])riedade, do que derivava logicamente o direito de estropial-os e matal-os só depois de derramada a luz evangé:

consentiu a legislação romana em restringir esse direito atroz. Havia servos particulares e públicos. Os particulares exerciam quasi (odas as profissões, de cujo soccorro carecem a vida social e o luxo da civilísação, pois que aos cidadãos romanos parecia aviltante o trabalho, e só compatível com a toga o serviço mihtar e o da
lica

;

governação da republica; e eram também eiles que cultivavam os campos de seus donos. Os servos públicos, pertença do estado, da egreja ou das cidades, occu[)avam-se nos serviços dependentes destes indivíduos moraes, serviços que
rejeitava a altivez dos homens livres, laes como os de carcereiro, lictor, servente dos magistrados e sacerdotes e ainda com a designação d'infimos
;

pagarem n'uma certa trabalhavam nas obras publicas, formavam a {|uantia, que aos imperadores era devida quando chusma das galés e cultivavam a propriedade colcingiam a coroa. A dignidade curial, graças a lectiva. Os filhos dos servos eram servos, c só a
cípio
filhos c

quando fallecessem sem

o

aurum coronalum,

consistindo

estes encargos, passou, de desejada e respeita-

alforria os fazia nascer para a liberdade, para a

o devia ser, a aborrecida e despresada. Os cidadãos empenhavam-se cm apagar os nomes do álbum e esquivavam-se por mil maneiras a desempenhar as funcções para que eram eleitos. Foi necessário decretar providencias severíssimas para evitar a total dissolução da ordem dos decuriões e fazer fmicciouar o mechanismo municipal, e este estado de cousas deixou campo livre á acção arbitraria dos governadores das províncias, assim como favoreceu a aucloridade dos bispos e o seu governo paternal. A cúria, alma do município, apenas conservou até fmal, das suas amplas prerogatívas, o triste direito de se queixar e o direito illusorío de conda,
sultar
!

como

classe dos libertos, cuja situação variou

com os

tempos e as leis, como variaram também as condições do direito de conceder a manumissão. Por estas quatro classes se distribuiu a população (111 Império entre a dos servos, porem, e a
:

dos plebeus estabeleceu-se uma outra, (pie imjiorla conbecer para explicar uma particularidade da condicção das pessoas no período wisigotliíco e nos séculos posteriores. Algumas vezes o proprietário romano, em lugar de cultivar a terra com os seus escravos, entregava-a, na totididade

ou em
deante
ctos
:

parcellas, a

quem

lh'a agricultasse

me-

um

cânon aniiual ou

uma

parte dos fru-

este agricultor voluntário era o colono. Era íiiconlroversaniente ingénuo, pois que contrahia

Assim viveu e assim declinou o município na niatrímoníi) legítimo, o que não podia o servo, cdade de Roma. A sua existência tem estreitas e era hábil para possuir, ao passo que ficava relações com as condições das pessoas na socie- sendo propriedade do senhor quanto o servo dade romana. Dentro d'elle encontrámos já o ad(]uirisse todavia não gosava liberdade em curial e o plebeu e indicámos alguns dos seus relação á gleba, que arava. Não podia abaudodireitos e deveres. Um e outro eram homens nai-a, passava com eUa, no caso de ser alienada,
:

IS
Íiara
lic

Historia de Portugal
n'a as pessoas de

o nnvo sniihorio, e morronrlo surcodiamfillios. domo lhe cm defeso al)aiMlonar o prédio tamltem não podia ser expulso d'elle, salvo raso de delicto estabelecido nas leis. Não dependia pessoalmente do senhofio, mas tinha para eom elle certas obrigações, como a de lhe pedir licença para alheiar os seus bens particulares, embora muito seus, e a de não intentar contra elle acção judicial, quando não motivada por determinados crimes e nomeadamente pela exigência de um cânon superior ao devido. Taes eram as principaes condições de colonato, base no nosso contracto de emphyteuse, que os godos (leviam'acceilar, modificar e transmittir. A situação dos colonos, adscriptos á gleba, não nos parece feliz todavia desejaram-n'a muitos homens
os
;

ambos os sexos, cabendo ás nmlheres metade da quota dos homens. Também

recahia sobre as pessoas dos colonos, respondendo os senhorios pelas contribuições ])roprias dos prédios. D'estc regimen tributário bavemos de observar

em epochas mais adiantadas, como os observaremos das condições das pessoas e da organisação municipal. Por isso o admittimos n'este apertado quadro, onde não tinha cabimento o que da civilisação romana se perdeu, ]iara sempre ou momentaneamente, submergido nas ondas dos povos germânicos.
vestígios,

Ill
Foi no século v da era chrisíã que as numerosas Iribus teulonicas, que graduaiinenle se haviam

que tornaram valiosos instrumentos de civilisação e desenvolveram a industria, que se tornou quasi única na idade media; acercado das fronteiras do Império, invadiram colivres,

n'ella se

coii(|uistadores os seus vastos territórios, penetrando-lhe no coração. A Hespajiha vieram em 410 os alanos, os vândalos e os suevos, tendoIhes ensinado o caminho a turbidencia de Geronquem estuda a legislação tributaria encontra cio. Suevos, vândalos, alanos, bárbaros a quem também a terra servindo de base á capiíalio o e.spectaculo da orgia romana peiorára a indolo ou jugaíio, que foi, no tempo do Império, o modo feroz, envenenando-a com a cobiça, puzeram a pelo qual principalmente concorreram os cidadãos saque o paiz, que percorreram de norte a sul, sem para o grangeio do estado. Apesar do nome, a que as ruínas d'um mundo os fizessem sequer capitação era um verdadeiro imposto predial. tropeçar A certo tracto ou a certo valor prefixo de terra Dividiram-n'o, como se, pegando todos na sua rabia o pagamento de uma quota tributaria: esta carta geographica e puxando-a, a fizessem em quota era a capita. Assim como se associavam, pedaços proporcionaes ás forças de cada qual fiscalmente, diversas propriedades pequenas para não tardou, porem, cpae os ivisigodos emprecomporem a extensão de terra ou prefazerem o hendcssem juntar esses pedaços e refazer a Hesrendimento agrícola sobro que recahia uma quota, panha, cahindo de framea em punho solire os assim se agrupavam os seus donos, possessores, primeiros assaltantes, 415 porque os Bárbapara formarem a capita: profiriedades haveria, ros primavam sobre os lobos pela ferocidade de porem, que pagassem muitas quotidades tributa- se devorarem. Eram estes os mais adiantados enrias, (! proprietários que representassem mui- tre os iillios da (iermania, porque tinham já [leretas cabeças, e dizia-se d'uma província que tinha grinado |íor distantes terras, os (pie mais iiaviam tantas cabeças quantas eram as quotas terrilo- apprenilido á beira da cuhura social, e talvez os riaes com que eutrava no erário. A capiíalio que [lossuiam por natureza mais aptidão para se era distriiniida conforme os dados colleccionados policiarem. Capitaneados |ior Alanljilio, herdeiro n'um cadastro, que de annos a annos se rectifi- da espada com i\m' Alarico batera ás portas do Cacava, medindo-se e avaliando-se de novo as pro- pitólio, tinham vindo desde a llalia, atravez das priedades, e incluia-se, com a humano capilatio, dallias, até á raiz dos Pyrineus dirigidos jiorWana denominação geral de census. Era esta outra lia, com quem houvera de firmar pazes o imperacapitação, a que, recaindo sobre individuo moral, dor Honório, varreram os alanos da Lusitânia e tinha o rigoroso caracter d'imposlo pessoal. O es- os silingos ítribu vandalai da Betica jiara o territótado romano quizera alcançar com a mão do fisco rio gallaico, oc('upado pelos suevos, atiraram os tudo o que hoje chamamos matéria collectavel, e vândalos por cima do mar para a Africa, c só se por isso inventou esta forma de tributo; não le- detiveram deaiite dos .suevos rohusiecidos. N'esvou, porem, tão longe como os financeiros mo- tas execuções, em virtude da alliança assellada dernos o abuso de accumular ónus diversos sobre por Honório e Wallia, diziam-se ainda instrumenos mesmos rendimentos, e só obrigou ao paga- tos do Império, de quem haviam recebido o dimento da humano capiíalio quem não possuia reito de se estabelecerent ao sul das (jallias, entre bens de raiz, pelos quaes estivesse sujeito á ca- o Loire, o Garomie e o Oceano; mas como a alpitatio. Pagavam-n'a, pois, os artífices, os ope- liança não foi duradoura, porque o imperador arrários, os jornaleiros, os servos, os cultores de mou os hunos contra os wisigodos, como armara todas as industrias não privilegiadas, e pagavam- estes contra os alanos, os vândalos e os suevos.

a agricultura.

mo

N'este ligeiro esboço de algumas instituições romanas deparou-se-nos já a propriedade conferindo direitos políticos e extremando classes

;

Historia de Portugal
o sucessor de Walliu, Tlicodorico, cavou os alicerces da moiiarchia goda do occidt-nte. Na Gallia leve, toiíiludo, Iktço essa poderosa monarchia. lírii 440 torava, pelo norte, mo Uliodano e por esse tempo foi invadida pelo famoso Atlila, que em Clialoiis-sur-Manie matou Tlieodorico, mas a quem um novo cliefe wisigodo, Tiiorisnmiido, fez pagar eara a victoria, allugenlandoos luiiios do território gauiez. Vencidos estes auxiliares dos romanos, o Império oflercecu [lazes aos godos, e a eleva(;ão de Avitus á dignidade imperial foi peidior da nova aliianra, que voltou as armas contra os suevos, deslroçando-os em Asiorga noanno de 450. No tempo d'luiri(o, 466 a 484, os visiteria sido

13

uma ininterrupta serie de venturas, se o não enlutasse a guerra religiosa intestina. Os wisigodos professavam, á sua chegada a Hesitanlia, o arianismo, que a egreja christã de Itoma coudenniára como crença herética; mas a religião du maioria dos vencidos depressa recrutou prosdytos entre os vencedores, e no tempo do Leovigildo a propaganda catholira havia já feito taes progressos qui' lhe convertera o próprio filho, fjuiçá encobrindo a ambição insolfrida com o zelo religioso, HernuMiegildo tomou armas contra o pae, e sendo vencido |iagou a sedição

com a libei-dade e a vida, que perdeuem Sevilha em 584. Não sabemos se a egreja

glorificou por martyr este filho rebelde; o que togodos eslendiam-se para alem dos Pyriíieus até davia é certo é que o catholicismo, vi^ncido com ás fronteií-as dos liurguinliões e dos ostrogodos, elle no campo de batalha, viMiceu dcfiois d'elle, e na lles|ianlia possuíam já a Tarraconense e a na consciência do povo, no paço e idinal em toda
lielica. Accfinnnettidos

posleriornicnte pelos fran-

a lles]ianha.

cos, caiiilaneados por (llovis, e pelos outros povos
viziuiios, foi-am <iesapossatlos

pouco

a poui-o dos

seus dominios tora
dis

ile

Hespanlia, e
]iara os

em

houve de

transferir para este paiz a sede

531 Theudo

seu governo.
decailencia

Como que

consolar d'esla

dos seus reis menos aguerridos, Alarico 11, compilou e codificou as leis romanas, que encontrou vigorando, editando o cvdex Alaricianus, tamliem chamado Breviaiiim Aniani, do nome do referendário de Alarico, Aniaiius, que colligira os luateriaes para o monumento jurídico, extrahindo-os dos códigos jT/icoiiosianus, Greyoriunus, Hermogeniaeus, das PauLi seitteiitiae tí das Cunstiliiirõesimpeyiacs. desde Theodosio. Esta codiíicaç;ão, feita nos primeiros aniios do século se.xio, fóiv. precedida pela das leis dos goilos, ordenada jior Eurico, e estes dois trabalhos de vullo e utilidade mostram que os "wisigodos muito cedo tomaram gosto |)ela civilisação e coine{,'aram a eniremeiar as emprezas guerreiras

momentânea,

um

Ueccaredo, o herdeiro (Kesse Leovigildo, tão fé ariaiui (|ue convocara a concilio os bispos da seita para acabarem de detinil-a e pai'a a fortalecerem; Ueccaredo, apenas subido ao throiio, declarou-se catholico e congregou os doctores do catholicismo na mesma cidade em que haviam deliberado os do arianismo em Toledo, no anno de 587. A conversão do monarcha wisigodo parece ter sido, como é vulgar serem as conversões de príncipes, inspirada por um calculo politico, similbanle ao de Constantino, o Ulustre comediante. A sua consequência foi fortificar-se a auctoridade real com a alliança da ecciesiastica, congraçar-se a realeza goda com os seus súbditos hispano-romanos, e prcparar-se a fusão d estes com os vencedores, que emgrande numero se deram pressa de confessar a religião de Ueccaredo. O concilio de Toledo, a que já alludimos, firmou o poder politico do clero, ([ue devia representar um papel quasi deprotogonista na historia da monarchia goda n 'essa assemzelador da
: :

com

a lavra pacilica.

bléa os ecclesiasticos, e só elles,
leis
te, a

Theudes, estabelecido em llespanha, dcfondeu-se galhardamente dos francos, e os seus successores balalliaram

cem

cessar

com

elles,

com

os suevos, que buscavam aimiquilar, e com os romanos (|ue ainda conservavam uma sombra de império sobi-e alguns tractos <le terra hesp;ndiola. .11 grande homem da sua descendência, Leovigildo, recebeu a corrta em 570. Sob os seus auspícios organisou-se deíiiiilivameiíle a monarchia, assim tei'ritoi'ial como politicamente. As suas armas submelleram para sem|ire os sui'Vos em 586, desa]iossaram o inqierio do fliieiíle da melhor parte dos dominios, ipie nunca [lerdera ou havia readíjuirido, e avassallaram os vascon(;os, a ipiem a decadência de lioma facilitara a independeniia. A sua coroa ampliou, mais poi- \ iolcnc-ia do que fmidando-se em direito, as prei-ogativas, mal definidas, em que se haviam transformado com o lempo as attribui(,-ões dos chefes das hordas germânicas, accompaiihando a transformação d'essas hordas em sociedades politicas; c o seu rciuado

sobre assmnptos religiosos, par dos seculares, nas deliberações concernentes aos negócios civis. É que ia chegar ao auge a inlluencia que vimos despontar no seio dos municípios romanos, que se convertera em verdadeira, senão única, auctoridade i'egular no tenifio da anaichia produzida pela dissolução do Império e pela devastação dos Bárbaros, e que se radicou no solo da Hespanlia, .sobrenadou nas suas revoluções e chegou até ao limiar da nossa edade. Tendo ari'eliaidiado com a baste da cruz a população hispano-romana, numerosa, relativamente culta, enriquecida com o espolio material, jurídico, moral, iiUelleciual de lloma, o clero catholico, logo no lim do século sexto, poude traclar com os wisigodos como potencia com potencia, sendo talvez a mais forte d'estas potencias a que dictou á outra uma crença religiosa. Ueccaredo alcançou contra os francos e osgeneraes do império byzantino victorias, que os piedosos chrouistas attribuem ao merecimento da

pronmlgaram as mas tomaram par-

14
conversão, e morreu
roròa, que piíssou
fronte
ile

Historia de Portugal
em
001, deixando a Liuva a

poderosos condes, Juliano, a

quem

havia sido cou^

ile

míio

C.liindaswiiillio,

em mão em 042.

até

cin^'ii'

a

liada a guarda de Ceula, baluarle da

Europa er-

Já então o

guido na

margem

africana do Mediterram>o e af-

pliuiilasma imperial liavia sido de todo esconjurado eom as cruzes das espadas, e já a religião oflicial

linha

começado

a desforrar-se, persefíuiudo,
:

Siseliulo, no primeiro do século, expulsara da llespanlia os ju(íeus, que não haviam qiu'rido liaplisar-se, e os tristes, refuí;iaudo-s(M)a (iallia, tinham caliido vi- seus guerreiros christãos com os infiéis, e n'uma elimasdo famUismodeDagoberto. Ohiudaswintho, liatalha juncto ao Chryssus principiou o fim do lendo recebido da eleição um reino seguro das império e acabou o ultimo rei godo. Tarik aporsuas fronteiras, embainhou a espada c cuidou de tou ao Calpe em 710 poucos annos depois, tendo organisal-o. Pediu, para esseíini, a habitual coope- vindo a Hespanha o próprio Musa com immenso ração do clero, reunindo o sétimo concilio de poder, a independência e o christianismo tiidiani Toledo, c com elle ou só por si emprehendeu por única trincheira as serranias das Astúrias, n^vôr e completar a legislação, que devia substi- d'onde havia de surgir a aurora d'uma redempção, tuir o uso e a auctoridade das leis romanas, abo- lambem alvorada d'uma edade. A monarchia wilidas nos seus estados. Esta empresa foi conli- sigothica cumprira a sua mis.são. nuada por seu filho líeceswintho, com o auxilio do oilavo concilio toledano, cujos cânones permittiram os casamentos, até então prohibidos, dos IV fíodos com os romanos. Esta innovação é um Essa missão foi a de todos os Bárbaros, que marco milliario da historia da Hespanha medival. Começou com ella a fusão das duas raças, se derramaram pelo mundo romano. Sc ha facto que se tinham encontrado no seu solo, fusão esta que induza a crer n'aquella providencia, que Boslie que procedem os povos modernos. Por ella en- suet, mais catholico do que philosopho, represeneaminhou-se a monarchia wisigothica para a uni- tava a encaminhar a humanidade pela mão, esse dade e para a homogeneidade de população, que facto é a grande invasão do século v. Não se a fez durar, e que faltou sempre nos estados pos- comprehende a historia sem ella. Quem assistisse teriormente constituídos pelos árabes. Os casa- ao espectáculo repugnante da dissolução do Immentos de godos com hispano-romanos não só pério sem lançar as vistas para as fronteiras, a misturaram sangue, associaram crenças e Iradi- que se iam encostando os povos germânicos, não enxergando uma esperança de regeneração, acre(,^ões, assimilharam costumes, combinaram línguas, e procrearam uma sociedade capaz de ser ditaria que o futuro das mais mimosas regiões da regida por um só código e de professar uma só Europa era um deserto de esi'ombros, como esses religião. (Ihindaswinlho e Ueceswintho fazem em (|ue já enlão o caminhante mal podia recopois epocha, deixem-nos dizer assim, na historia nhecer o camjjo onde fora liahylonia ou Ninio, da Península. Tróia ou Carlhago. Presentia-se a morte; mas a Keceswintho morreu em 672, e entre os seus morte veiu, e foi génesis de outra vida. O que pasuccessores assígnalaram-se Wamba, fazendo a recia um cadáver, operado n'elle a transfusão do demarcação das dioceses do seu reino, seis arce- sangue, cobrou alento para surdir do tremediíl bispados e selenla bispados, e promulgando leis em que se ia submergindo, das minas (|ue o iam para organisaro serviç-o militar; lírwig, acclamado sepultando, e meltcr mãos a um monunientíil vm 68U, (]ue reformou as leis militares do seu an- edilicio, de tão grandioso risco que ainda está tecessor e Egica, que encarregou o decimo sexto crescendo. Operaram este prodígio os Bárbaros. i-oncilio de Toledo de formar a collecção completa Ao estado de barbárie correspondem virtudes que das leis wisigothicas, conhecida por Forum-Judi- apaga a cultura, quando a não dirigem sãos princum ou Fuero-JiizçjO. A morle de Egica, em 701 cípios moraes: essas virtudes vítaes, que faltavam começou a decadência da monarchia. Witiza, seu aos romanos, conservavam-n'as os fdhos da Gerlillio, déspota torpíssimo, tunudtuou o paiz brimânia nos esconderijos das suas florestas, c por gando com o clero, com a nobreza, com o papa, isso devia ser fecundo para a civilisação européa com todos os poderes da epocha e do estado, até o connnercio das duas raças. Os germanos eram [lór termo ás brigas a sua deposiç-ão, obra da a virgindade da natureza, Roma a corrupção da vingança e da andiição de Roderico, filho do arte; eram a lil)erdade pessoal, o Império a tydu(|ue de (lordova, que fora perseguido rancoro- rannia do estado; eram a crença ingénua, o samenle pelo desregrado monarcha. Substituindo Panlheon syndiolísava o scepticismo; eram a faRoderico a Wiliza a Hespanha pareceu obedecer a mília e o res|ieilo pela nmlher, os costumes do um destino ruinoso. Passa por certo que a liber- povo rei, a crápula das bachanaes e a esterilidade tinagem do rei instigou á traição um dos seus do celibato e como os Bárbaros, cingindo o Im-

das persefíuições
(|uartel

solTi'idas

fronlado pelo pendão agareno. Para vingar diz-se afilha deshoiu-ada, a Cava do pocnui de que nos chegou um fragnuMito, ou para saciar o despeito da amante despresada, diz-se também Juliano franqueiou a palria a Tarik, logar tenente do amir Musa-lbn-Mosseyr, enfileirou os

;

;

:

Tip.

nu

i\ova do Almail.i.

:ili.

BATALHA JUNTO AO CHRYSSUS,

710

Jlistoria de Portugal
perio,

15

eram também a

força apertando nos l)ra-

ços a caebexia do vicio, a fruerra aceomnietlendo a etTi'mina(;ão do luxo, fácil liies foi abrirem com as framcas laríi;as incisões no caduco tronco da civiiisação romana, para se enxertarem n'elie e regeni'ral-0. A regeneração, pre])arada por este meio
violento, foi, todavia, ajudada e

justas e equitativas, ser clara e publica para não armar laços a nenhum cidadão.» Esta definição

da

lei

altribue-lhe

uma origem

divina, e admitte

em

]iarte dirifiida

pelo cbristianismo, que

poderá entrar nos templos mas não nas consciências, e que tinha necessidade, jiara jiovoar e dilatar a sua Jerusalém terrestre, d'alnias simples e corações puros como os da plebe da (ialliléa, que otfereceu a Jesus os primeiros discípulos. A velba sociedade e a nova religião não tinham podido liarmonisar-se, a religião deixará-se corromper pela sociedade empi'ebendendo salval-a, ami)as precisavam de um outro elemento com que se combinassem, c a historia precisava do cbristianismo, de lloniae dos Bárbaros para a elaboração do mundo moderno, que a occupou durante toda a cdadc media.

em Uoma

De todos os povos germânicos, que repartiram
si o Império, o que mais depressa se esqueceu das selvas e mais cedo começou a apagar as feições da barbárie e as da raça foi o godo, e assim o que se fixou na Itália cbamaudo-se ostrogado, como o que se estabeleceu nas Gallias e cm Hespanba, denominando-se -wisigodo. Já Ataulpho mostrou gosto pela cultura romana e desejo de a continuar. Estas tendências, que também manifestaram os seus successores, foram habil-

entre

mente aproveitadas pelo clero, ([ue os conquistadores da Hespanba acharam presidindo a uma espécie de governo patriarclial, nos municípios onde os vencidos se haviam recolhido com as tradi-

ções de Roma.

À prompta

alliança dos reis godos

com

o clero, cuja força moral reverenciaram e

cuja influencia social exploraram, deveu a Península uma legislação mais salda que dos outros paizes invadidos pelas hostes germânicas, e dis-

muito mais no romano do que nas leis e nos costumes bárbaros. Os principaes monumentos d'essa legislação, em que as vistas menos perspicazes reconhecem a mão e o espirito clerical, são Ot^rcviarum Aniani e o Fórum Judicum, queiégeu
tincta d'ellas por se ter inspirado
direito

com

por nmitos séculos as monarchias hespanhoías, o nome de Fuero-Juzgo. Este ultimo código torna-se singular pela exposição d 'uma espécie de direito jiublico. «A lei, diz elle, é mestra da vida, emula da divindade, mensageira da justiça. Rege todas as condições do estado e todas as edades da vida impõe-se ás mulheres e aos homens, aos moços e aos velhos, aos sábios e aos ignorantes, tanto aos habitantes das cidades como aos dos campos não favorece nenhum interesse particular protege e defende o interesse commum dos cidadãos. Deve ser conforme a natureza das cousas e os costumes do estado, adaptada ao logar e ao tempo, não prescrever senão regras
; ; ;

de verdade, de que a lei ])0sitiva deve ser emanação. .\ legitimidade do poder consiste na sua conformidade com o justo e o verdadeiro portanto, dil-o o legislador, «o rei é chamado rei frexj porque deve governar com justiça freclèj: se jjrocede com justiça possue legitimamente o titulo de rei, senão, pyrde-o miseravelmente. Nossos pães diziam com rasão fíex cjus eris si recta faás; si autem non facis, non eris. A justiça e a verdade são as «O poder real é principaes virtudes regias.» obrigado, como a generalidade dos cidadãos, a respeitar estas leis.» Esta doctrina, que espanta vèr professada n'uma epocha barbara, era visivelmente inspirada pelo clero catholico, que reservava para a sua auctoridade espiritual definir e intrepretar a lei suprema, fonte das leis humanas, e insinuava assim, no código politico, o principio fundamental da theocracia. Mas Q theocracia não pôde, em verdade, estabelecer-se superiormente á realeza wisigotliica embora o clero fizesse prevalecer na monarchia o principio electivo sobre o principio hereditário, adoptado pelos outros povos germânicos. Na eleição dos monarchas intluiam os bispos, reunidos em concilio com os nobres e os otficiaes do paço; a sua inlluencia não era, porem, tão decisiva que não cedesse a miúdo á força, em que os canliidatos ao throno faziam consistir o seu direito. Uma vez sanccionada pela formalidade da eleição, a realeza era absoluta. O preceito de se conformar com a justiça e a verdade não tinlia meios de se fazer cumprir, alem d'aquelles com que o descontentamento dos grandes e podero.sos (iepunha ou matava os soberanos. Faltavam instituições politicas que representassem a nação, e faltava de todo a divisão dos poderes. As únicas assembléas que collaboravam no governo eram os concílios e o ofjicium palalinum, e em nenhuma d'ellas tinha ingerência o povo. A formula que se encontra em alguns documentos cum tolo populo, populo assentiente, não corresponde a neidium acto real da vida politica, e é porventura uma tradição de chancellaria. Os concílios eram o baluarte do poderio do clero, o qual, encarregado de elaborar as leis, na quali(iade de depositário da sciencia da epocha, não se descuidou de imprimir o cunho do seu espirito n'essas leis, e principalmente na sua parte theorica mas como não dispunha de forças, e a sua inlluencia social, não dependente do valimento régio, consistia na auctoridade que exercia sobre a população dos vencidos, não poude esta classe eximir-se a preceitos e encargos, á subjeição aos tribunaes communs, civis e criminaes, por exemplo á obrigação do serviço militar que a mantiveram sob o jugo do poder
inqilicitamenle
ideal de justiça e
; :

um

;

m
civil; e

Historia de Portugal
Pomo corpo
politico

não lovc fjarantias Sc perdesse a força moral perderia todo o seu peso na iioveriiação, muito cmltora (Tessa força lhe adviesscm altriliuições tão importantes como era, entre outras que exerciam os bispos, a de inspeccionar os funccionareat>sd'in(lepcii(lciicia.

rios e juizes locacs.

Quanto ao officiíim palatinvm, herdado pela monarcLiia wisigotliica de Diocleciano c Constantino, c formado pela reunião dos grandes do reino gum govei'no, as cidades conservaram as insti^ (próceres) e dos altos funccionarios, tinha na go- tuições locaes com que as havia dotado Roma, vernação a importância que dava ás suas deli- modificando-as segundo as necessidades e as berações a força material dos seus membros, circumstancias, e modificando-as principalmente chefes de famílias militares o possuidores de para consentirem na supremacia jioliíica e admiterras e de castellos. Se os concílios eram a reli- nistrativa de quem ])Ossuia a auctoridade religiogião c a sciencia, actuando com o seu prestigio sa isto é, dos bispos e do seu clero. O ho das no espirito dos monarclias, a assembléa da no- tradicções municipaes não foi, pois, cortado pela breza era a espada que lhes impendia á cabeça, espada goda, e quando os conquistadores se apa espada que n'um regimen politico, baseado plicaram a organisar a conquista, respeitaram o na conquista, e n'uma sociedade essencialmente que, estando radicado nos costumes dos hispanoguen'eira, algumas vezes pesava mais do que os romanos, que constituíam na sua maior parte o códigos dos legisladores e o liaculo episcopal. O elemento cidadão, não contrariava os dos Bárbaojficium palaíiiiuni foi sede de conspirações c ros, geralmente estabelecidos fora dos povoados, instrumento de ambições, que depozeram e ele- no centro das terras extensas cp.ie lhes foram disgeram soberanos todavia esteve longe de ser o tribuídas, e rodeiados pela sua clientcUa. Dos que hoje chamamos um poder do estado, regu- factos o municipalismo passou para a legislação,, larmente constituído e claramente deGuido, e deu e no Breriarium Aniuni, encontra ainda o histotantos exemplos de humildade como de rebellião. riador a menção de algumas magistraturas municiReis houve como Chindaswinllio, que achando-o paes, como ellas existiam efunccionavam durante extremamente incommodo e importuno lhe reba- o Império, c outros indícios de que nem dos aconteram as pretençõcs, perseguindo evictimando a tecimentos nem das leis recebera durante muito aristocracia que lhe prestava força, embora ou- tempo a organisação do municipio alteração estros, como Waniba, succumbissem aos seus gol- sencial. Para o Breviarium juissaram quasi todas pes. Como os concílios e o (jue chamaremos conse- as disposições do código tbeodosiano relativas aos lho aulico i'epresentavam elementos e interesses curiaes ás attribuições, porém, que por cilas sociaes divei'sos, a realeza ponde evitar a domina- eram conferidas á cúria, accresceram outras, scnção systeniatica de qualquer d'estas assembléas, do-lhe incumbidos actos juridicionaes que d'antcs oppondo uma á outra. O poderio real, legalmente pertenciam aos presidentes romanos, tacs como absoluto, só solTren, portanto, as limitações even- as adopções. Us curadores ou duumviros quintuaes, que sotlrem todos os aljsolutismos, e o pre- quennaes subsistiram com o seu nome e porceito, que tanto lhe recommendava o Fuerojuzgo ventura com as suas antigas funcções. Acham-sc de se confoi'niar com a suprema verdade e a su- provas da existência de funccionarios corresponprema justiça dependia, jiara seu cumprimento, dentes aos edis e aos questores; c prevalecendo do caracter dos monarclias, port|ue não soubéi'a sobre todas as outras magistraturas apparece a de nem poderá passar da llieoria e impòr-se á pra- delVnsoi-, tendo provavelmente absorvido já todos ctica, por meio de instituições .solidas que lhe os lioderes dos duumviros, de (|uese não encontra olTerecessem sancção. Tanto hcava ao arbítrio do noticia. Mas o defensor, que originariamente deIhrono decidir só por si o (|uo era recto e justo, via ser estranho á cúria, convertéra-se em pesípie as assembléas politicas, cujas funcções cs- soa da sua classe, c as funcções judiciaes que lhe Ijogámos e ([ue deviam collaborar com elle no competiam assimilhavam-n'o a um juiz inferior, governo, dependiam para funccionar da sua con- só competente para conhecer de pet|uenos delivocação, salvo certos casos exti'aonlinai'ios em dos: a perseguição dos salteadores e dos sceleraque a seu concurso era preceituada Sisebntho, dos, (|ue o cotligo tbeodosiano lhe incumbira, paspor exemplo, dispeusou-s(; de pedir a apjjrova- sara para a alçada dos juizes, estabelecidos nas ção dos concílios para as suas numerosas e im- províncias pelo poder central. iMas o Brerianim Aiiiani contem a legislação portantes leis. \ monarchia wisigothica foi, de todos os es- pela qual se regiam os bispano-romanos, eratados fundados pelos Bárbaros, ai|nelle em que a ijuanlo lhes foi permittido regerem-se pelas suas
;
: ; :
:

salvou até o regimen municipal. Durante o largo jieriodo em que o solo da reninsula foi disputado pelos suevos, jielos visigodos e pelos generaes do império, devastados por incessantes correrias os canqios, pelos quaes nos últimos tempos haviam começado a dispersar-se habitações, a população concentrou-se mais que nunca nas cidades, menos expostas á rapina e como é forçoso que a todas as aggiomerações de indivíduos presida al-

-^^

população vencida e avassalada salvou melhor da antigas leis, e, como já dissemos, Chindaswintho e Recoswintho subjeitai'am-n'os, em commtjm con) invasão as tradições da sua existência anterior

Historia de Portugal
os godus, a uui uiiico direito polilico e parlifular,

17

de que é principal moimmeiUo o Fiííro-7«rf/o. Passou tanibciii [lara o direito propriainciitc wisigotliico o rcfiimoii niuuiiipar/' Guizot sustentou que. não, contra o parecer de Savigny o sr. Alexandre Heicuiano, porem, dá rasão ao auctor da Historia do direito romano na edade media, reconhecendo, todavia, ijue o municipio solTreu alterações profundas ao entrar na nova ordem de cousas, estabelecidas pelos mencionados reis. Dos curadores ou quinqueiiuaes não apparece uoticia no novo código, e é duvidoso, se existiram vigorando elle. Também não falia dos edis, que, toilavia, não é de crer que tivessem sido supprimidos ou que não tivessem sido substituídos, havendo edifícios, mercados, ruas, de que tractar. U questor foi continuado pelo numerarius, c suppõe-se que havia um numerarius nomeado pelo condo do patronionio, ministro das finanças, e confirmado pelo bispo, e outro eleito pelo povo e pelo clero, sendo este propriamente o funccionario municipal e aquelie um delegado do erário juucto do
:

de extensas sortes, repartiram também parte dCllas por indivíduos da sua raça, que ou não haviam alcançado bens de raiz ou não se contentavam com os que possuíam, ligando-os a si pela prestação de certos serviços, especialmente militares. Estes indivíduos, espécie de colonos, formaram a classe dos bucellarios, toniando o nome de bucella, pão, ou de bucket, escudo. U bucellario recebia do patrono, alem das terras, armas com que devia accompanhal-o à guerra, quando elle lho requeresse; e perdia terras e armas se lhe recusava este serviço ou buscava o patrocínio doutrem. As relações do bucellario e do patrono sobreviviam ás pessoas que as contrahiam, quando deixavam filhos. Não se rodeiavam d'esta espécie de domcstícidade militar somente os nobres também o rei a tinJia estabelecida nos seus vastos domínios, sendo os bucellarios da coroa incluídos no numero dos fieis (fidelesj, que eram todos os que d'ella dependiam pela concessão de heneficios, e teve-a
:

também
tária,

município. O defensor era instituído pelo bispo e pelo povo conjunctamente, o que significa que era escolhido ou pelo menos proposto pela auctoridade eeclesiaslica; mas a novidade mais importante que se introduziu no municipalismo durante o dominio wisigothico foi a instituição do canventus publicus vicinorum, assemblèa publica dos visinhos, auctorisada a reunir-se, cm determinados casos de interesse geral duma cidade, por uma lei de Reccsvvintho, e em que parece que

a egreja, quando se constituiu propriepor mercê das doações dos monarchas e

dos ricos.

A

classe dos bucellarios constituía a

camada

da nobreza. Esta, de pessoal que foi em Roma, passou a ser, na monarchía wísigothica, pessoal ou heríditaría. Era hereditária a que tinha por fundamento a posse da terra na qualidade de sorte, isto é, de lote da partilha feita depois da conquista entre os conquistadores, ou de beneficio. Beneficios eram as propriedades concedidas tomavam parte tanto os curiaes como os não cu- pelos reis sob clausula de prestação de certos serriaes, que desde muito tempo tendiam a confun- viços pessoaes, militares ou domésticos, ou como dir-se. Estas assemblêas são provável origem de retribuição do exercício de cargos públicos e outras que encontraremos funccionando nos con- também a egreja disfructava beneficios para apcelhos portuguczcs. plícar os seus rendimentos ás despezas do culto Nas condições das pessoas, que descrevemos ou a determinados fins piedosos. Os heneficios quaes se encontravam na sociedade presidida pelo eram vitalícios ou temporários, podiam ou não Império, introduziu a dominação dos Bárbaros ser retirados, e a regra geral era perderem-n'os mudanças radicaes. (^.reou condições novas e mo- os concessionários quando faltavam ao dever de dificou as que existiam, ora pelo facto da con- fidelidade, contrahido para com os patronos conquista, ora por influxo dos costumes e das leis servavam, portanto, um caracter de dependência, trazidas da Germânia, ora por inspiração do chris- davam às pessoas que os possuíam obrigação de tianismo. Guizot, na Historia da civilisação da subordinação, ao passo que as sortes eram toEuropa, mencionou como um dos mais importan- talmente independentes e livres, e os seus dotes elementos, introduzidos pelos Bárbaros na ci- nos, podendo rodeiar-se também, como já vimos, vilisação moderna, o patronato militar, o laço que de clientes, estabeleciam-se dentro d'ellas como estabelecia entre indivíduos, sem destruir a liber- pequenos soberanos, e tão soberanos que posdade de nenhum delles, uma subordinação bie- suíam jurisdicção própria mais ou menos ampla, rarchica, c que, com o andar dos tempos produ- mais ou menos desaflrontada da fiscalisação do ziu o feudaUsmo. poder central, conforme os tempos, e não eram Esse patronato, exclusivamente militar em obrigados, para com os reis, a ajudal-os nas quanto os povos germânicos, vagueando pela Eu- guerras com as suas pessoas e com os seus horopa, eram como exércitos, tomou outro caracter mens d'armas. Estes eram os títulos da nobreza quando elles se fixaram no solo e os guerreiros hereditária os da nobreza pessoal consistiam nos se converteram em proprietários, em virtude da altos cargos públicos e nas funcções do paço, distribuição das terras conquistadas. Esta dis- muitas vezes associados ao gozo de beneficios, c tribuição fez-se em Hespanha como em toda a n'esta se comprehcndiam os dignitainos da egreja parte, e os chefes godos, achando-se possuíilores catholica. .\8 sortes e os beneficios derivados d'ainferior
;
: :

VOL.

1

— 3.

IS

Historia de Portugal
pensação as dignidades da egreja, até á mais elevada, foram alcançadas, desde os primeiros tempos, pelos hispano-romanos. Entre as raças germânicas, de Índole guerreira,
existia

guerra parece ser originaria. ()s ^visigodos trouxerain-n'a comsígo para a Hespanha e encontraram-n'a em Hespanha; o seu código, inspirado pelo clero, foi todavia mais benévolo para com o servo do que a lei de Roma. Considerou-o pessoa civil, embora podesse ser objecto de venda ou doação; reputou legitimo o seu matrimonio, vil designava por ingénuos e que egualava pe- probibindo-o só com pessoa ingénua admittiu-o rante as suas disposições, distinguindo-os de ou- como testemunha, em juizo, em dadas hypothetro grande grupo, o dos servos. Nos ingénuos ses permittiu-lhe possuir um pecúlio próprio, incluiam-se egualmente os possuidores das terças embora exiguo vedou ao senhor matal-o ou muromanas, assim chamadas porque, na partilhado tilal-o sem processo judicial, e acceitou-o no exerterritório depois da invasão, só a sua ^írça parte cito em seguimento do seu dono. Mais ainda: ficara aos seus antigos senhores, isto é, os pos- havia entre os wisigodos uma classe de servos, sessores, que a legislação visigotliica chama tam- que de tantas vantagens gosavam que a .sua conbém curiaes e privados, e que estavam subjeitos dição era preferível á de muitos homens livres ao pagamento das contribuições fiscaes, de que os servos fiscaes, ou familias do fisco. Pertenhaviam sido dispensadas as terras dos godos. .V cendo ao fisco, estes privilegiados da servidtão principal d'essas contribuições era a capilalio ou exerciam cargos públicos, como os de exactores jugatio, conservada dos romanos pelos seus her- da fazenda pubhca ou administradores dos bens deiros, decerto pouco engenhosos para inventa- da coroa, podiam alcançar empregos e dignidades rem systemas tributários. Deprehende-se d'unia do paço, e eram aptos para possuir terras e serlei de Chindaswintho que os proprietários hvres vos Íntimos, com quanto a sua propriedade fosse eram obrigados ao serviço das armas, como todos tida como propriedade do fisco, e fosse defeso os homens livres e a decima parte dos escravos, alíenal-a a não ser em proveito d'outro individuo devendo todavia servir a cavallo, e em cavallos da mesma classe. O preceito que mais lhe devia seus. Finalmente, o direito civil considerava ain- parecer humilhante era o de não se ligarem por da como livres ou ingénuos os colonos, chamados casamento a família livre. plebeus. O colonato existia na Península antes da Não gosavam, por certo, de tão prospera forinvasão; os godos acceitaram-n'o, modificando-o tuna o commum dos servos, ou, por exercerem polo sentimento da independência individual. A algum mister d'estímação, se chamassem idópar do colono romano, essencialmente adscripto neos, ou estivessem subjeitos aos mais penoá gleba, e que a legislação wisigoda deixou n'uma sos trab;dhos na qualidade de vis, Ínfimos ou condição precária, creou ella outro, cuja dependên- riisticos; quer fossem propriedade particular, e por cia, inteiramente voluntária, consistia apenas no quer pertencessem ao estado ou á egreja pagamento do cânon e podia ser temporária, tor- isso devia parecer cruel a lei que reduzia os nando-se então o seu contracto similbante ao de homens livres, réos de certos defictos, e os delocação. Attenuado ou quasi supprimido o rigor vedores insolventes, á condição servil: todavia, das-condições do colonato, variando infinitamente para que em tudo ganhasse esta miseranda classe estas condições até às mais suaves, é provável ao passar do dominio da civihsação romana que as hajam acceitado muitos indivíduos da ra- para a tutella dos chamados Bárbaros, o .espiça conquistadora, e que com o andar dos tempos rito christão dos legisladores wisigodos facililouos accoUic ou agrícolas deixassem de ser exclu- Ihe a alforria ou a manumissão, completa ou insivamenle descendentes dos hispano-romanos. E, comphla, dando ao liberto larga independência. em geral se nos primeiros tenqios da dominação A manumissão completa, feita perante um ec^visigotilica o povo, as classes inferiores da po- clesiastico ou um juiz, deixava o liberto compulação até aos proprietários não nobres, era pletamente senhor das suas acções e apenas subibrinado pela multidão dos vencidos, as leis de jeito a voltar á servidão se affrontava, na pessoa (Ihindaswintho e de lícceswintbo, e principal- ou no credito, o manumittente a alforria incommente a que peniiittiu os casamentos entre pes- pleta estabelecia, por escriptura, as condições soas de dilTerentes raças, fizeram com que ven- em que era dada, sendo a mais vulgar a de não cidos e vencedores se baralhassem cm todas as poder o liberto alienar o seu pecúlio, tis servos
; ; ;

quellas, isto é, a terra originariamente distribuida aos godos, era isenta de tributos. O patronato militar, applicado ao regimen de propriedade pela coroa e pelos súbditos poderosos, creou, pois, uma nova classe social, que se estendia desde os degraus do tlirono até quasi A servidão. Os bucellarios, porem, Ínfimos membros d'esta classe, nobre por pertencer quasi toda á raça conquistadora, nobre pela profissão das armas, e porventura nobre pelo reflexo da nobreza dos patronos, eram ainda homens livres, fazendo parte da coUecção de indivíduos que o direito ci-

como

entre os

romanos

a servidão,

queda

;

;

camadas da sociedade, e só da superior, composta da aristocracia territorial e militar, se possa dizer que se conservou puramente goda. Em com-

da egreja, por

ella libertados,

entravam na classe

das pessoas ingénuas. E, finalmente, a concessão trivial de terras para cultura, feita aos libertçs

Historia de Portugal
poios
antif^os

id

senhores, ro(lei;iva estes (ruma que remonta á epocha em que os conquistadores A, dos colonos adscriptos á lio lm()erío se achavam ugglomerados no centro gleba, que passava de jiaes a filhos, e c[ue tam- da Europa, e foi recolhida na legislação dos franbém se formava junto do throno, tendo [)or ori- cos, salíos e ripuarios, dos lombardos, dos burgem os servos fiscaes, a quem só o rei dava a guinhões e dos bavaros, é a prova jurídica pelo juizo de Deus, da qual, comtudo, se não acha manumissão. Assim se distribuía a população do reino wi- noticia no Fuei-o Juzgo, encontrando-se apenas sigothico, correspondendo ao estado da terra a mencionada n'uma lei de Egica. O juizo de Deus era uma a[)pUcação da crença condição da pessoa. A propriedade dividia-se, desde a partillia dos conquistadores, em tributa- religiosa ao processo criminal. A justiça humaria e não tributaria n'esta estabeleceu-sc a no- na, cônscia da sua fallibilidade e sem vista que breza goda, rodeada dos seus clientes, a um tempo penetrasse nas consciências, citava os réos para aqucUa foi conservada comparecerem com os seus accusadores perante soldados e agricultores aos possessores liispano-romanos. A terra era o trilmnal de Deus. Elle, o juiz omnisciente, a possuída com dominio perfeito ou imperfeito o verdade inlínita, o vingador da innocencía, que dominio imperfeito caracterisava os beneficiários, refrigerara com brandas aragens as creanças classe numerosíssima, que comprehendia mui- lançadas às chammas por Nabuchodonosor, não tas gerarchias, tocava no throno pelos fideles do poderia consentir no castigo do justo. Invocado
clieiítella

similhaiite

:

;

:

acabava nos colonos, que possuíam a terra, título oneroso e precário, e eram possuídos por ella. A carência da propriedade c a inhabilídadc para possuil-a distinguia os servos, que se ligavam á ultima classe dos ingénuos pela sua classe superior, a dos servos fiscaes; e os ínfimos servos os mancipii eram quasi nivelados com a animalidade, ao passo que o grau mais elevado da escala social avisínhava-se, pela independência e pela liberdade, da condição privilegiada do monarcha. O direito civil, porem, só reconhecia duas cathegorias de indivíduos, os ingénuos e os servos, e egualava aquelles, reservando apenas algumas pequenas isenções para os
rei e

pelo justo devia responder à invocação
ciso,

;

era pre-

embora por

nobres. Conhecidas, embora superficialmente, as instituições da monarchia goda, a sorte que teve o município no seu regimen e às condições pessoaes determinadas pela introducção do elemento germânico na sociedade hispano-romana, fica-nos ainda o dever de mencionar as instituições da jurisprudência vvisigothica, que chegaram até ao século XII e foram recebidas pela nação portugucza na sua primeira edade. Para esta menção não nos ajudam o Breviarmm Aniani e o Fórum Judicum de que até aqui nos soccorremos é mister ir beber a outras fontes. Tradições ha, indubitavelmente germânicas, que apparecendo vigorosas na organísação dos concelhos de Portugal e figurando nos mais antigos fueros de Castella e de Leão, parecem ter sido regeitadas pelos legisladores wisigodos, porque não ha noticia d'ellas nos seus códigos deverá suppôr-se que o fio d'essas tradições foi interrompido por séculos e que o reatou a restauração goda e christã, expontaneamente ou por influencia dos povos vísinbos da Península ? Parcce-nos mais racional suppòr, como suppôz Savigny, que se as regeitou a legislação conscrvou-as o povo, que se não as sanccionaram os códigos geraes ficaram na vida local, e que d'ahi passaram para os municípios modernos e para as suas cartas. Uma d'essas tradições,
;
:

porém, que respondesse por um acto material, coniprehensivel ao homem, e que, sendo ou parecendo ser a derrogação momentânea de leis naturaes, denotasse a intervenção da sua suprema vontade. A tradição bíblica do prodígio operado em Babylonia determinou, talvez, a crença de que sahiriam illesos, do contacto com o fogo os innocentes, que se subjeitassem á sua acção destruidora pondo a confiança no Deus de Daniel. Sustentar na mão um ferro cimdente, andar descalço sobre brazas, mergulbar o braço n'um vaso dagua a ferver e não soíTrer queimadura, pareceu um testemunlio de protecção divina, que os criminosos nmica alcançariam, e admittiramse portanto nos tríbmiaes, com a approvação da egreja, como decisivas e irrefragaveis, as provas pelo fogo e a prova caldaria. E como se não podia esperar que Deus se interessasse por qualquer simples mortal tanto com se interessara pelo seus prophetas e confessores, não somente se Ibe pediu apenas um milagre commum, mas facilitou-se esse milagre envolvendo-se durante
alguns dias o membro tocado pelo lume em cera e estopa, e exigíndo-se só que estivesse são depois d'esta espécie de cui"ativo, porque teria sido realmente irreverência requerer do Omnipotente que se incommodasse todos os dias, convertendo fornalbas ardentes em frescas estancias Na prova do duello podia o accusado, se era mulher ou individuo inhabil para o manejo das armas, apresentar procurador ou campeão. Consistia ella num combate, regulado previamente, entre o reu e o accusador ou seus representantes, e admittia-se que a verdade decidia da victoria. Era esta a maneira mais usual de recorrer ao juizo de Deus, por mais accomodada á Índole guerreira dos germanos. Como a todas as outras serviamIhe do fundamento a rude ignorância e a barbara superstição da epocha; mas num estado social laracterisado pelo abuso da força, em que a justiça possuia e conliecia poucos meios de desço-

m
I>rir

Historia de Portugal

vidual, dado cm processo, chamava-se entre nós firma, como a seu tempo veremos. pendente do Ser Supri'mo que vè nas conscienO código wisigolbico, que não acceitou da raça rias c coniniunica a sua força á virtude, era útil germânica o juizo de Deus nem a compurgação, para amedrontar a calunniia e fazer perder ao acceitou, todavia, a usança do loehrgeld, que crime a esperança da impunidade, e valia tam- obrigava o delinquente a pagar á victima do debém por um meio de desailronta, como a enten- licto ou aos seus herdeiros uma indenmisaçâo diam homens acostumados. a só confiarem a se- pecuniária. O wehrgcld não foi, talvez, originagurança ao próprio esforço; por isso se explica o rianiente uma penalidade, mas sim um expediente favor lie que gosou em Ioda a edade media. Hoje destinado a remir o offensor da vindicta, faida, é evidente para as intelligencias mais apoucadas do olfendido e dos seus; é certo, porem, que se o absurdo do duello todavia não é justo eondcm- converteu entre os Bárbaros numa verdadeira nar com a auctoridade dos principies da nossa pena. D'elles o receberam os legi.-^ladores wisigocivilisação, instituições, usos, pj-acticas d'unia dos, mas como possuíam mais adiantadas noções epoclia em que esses princípios nem esclareciam de direito criminal reservaram-n'o principalmente as intelligencias nem dirigiam as consciências, para expiação de crimes menores, que causavam e o que é condemnavel sem atlenuante é a trans- prejuízos susceptíveis de indemnisação, e appli|ilanlação para o nosso estado social do que, caram-n'o aos grandes criminosos conjunclanieiite como o duello, não pode receber d'elle e das com penas corporaes, como o c;u'cere, o degredo, suas luzes a justificação e a rasão de ser, (|ue ti- os açoutes, a morte, jiensando provavelmente que idutm no estado social e na escuridão de que nas- d'estas penas nenhum beneficio advinha ao agceram. gravatlo e á sua família senão o prazer da vinOutro meio de averiguação, admittido pela judi- gança, e entendendo que a justiça devia, além de catura na edade media, e que se conservou em castigiu-, reparar quanto jiodesse o danmo, que uso por muitos séculos, era a compurgação fcom- dera logar ao castigo. Applicado assim, o wehrpurgatio) derivada do mesmo principio do soli- geld perdia o seu caracter odioso, porque já não dariedade, que tornava responsáveis os visinbos era o preço da vida humana, da honra das mupeio delicto do visinho, como cpie incumbindo a lheres, de interesses e de direitos inestimáveis; cada individuo a policia da povoação de que fazia mas não se pôde disfarçar que na jurisprudênparte. A compurgatio consistia em provar a falsi- cia germânica da edade media, sem excepção da dade de uma accusação, feita em juizo, pelo jura- wisígothica, apesar de mais compenetrada das mento mianime de um certo numero de parentes tradições romanas, foi estabelecido com mais ou do accusado ou de pessoas idóneas, que podessem menos latitude o principio da remissão por diter conhecimento d'eLle e do facto culposo que lhe nheiro das transgressões da lei social. E não era imputado. Os compurgadores, cujo juramento ailnnra que a edade media acceitasse essa jurisse assimilhava a um verediclum e tinha o seu prudência, quando ainda a não baniram compleeffeito, fazem lembrar o moderno jury, tanto mais tamente os códigos modernos. quanto algumas vezes era prescripto que elles fo.ssem escolliidos entre os pares do indiciado réo. Esta espécie de prova não era admittida, segunIV do parece, nos processos conduzidos segundo os preceitos do Fuero Juzgo: admitliram-n'a, poNo principio do século vni quasi toda a costa rem, quasi todas as legislações teutonicas, e cm septemtrional d'Africa dependia do khalifado de Hespanha deve ter sido usada onde não chegava Damasco e era regida em seu nome pelo amir a jurisdicção do poder central. O conjuramento, Musa Ibn Nosseyr. Foi este o potentado árabe que assim como servia á defesa, era também em o conde Juliano, feito com os filhos de Wiliza certos casos imposto á accusação, como elemento para derribar o tbrono de Koderíco, instigou para o que hoje chamariamos corpo de delicto a invadir a Hespanha, ajudando-o na empreza nos concelhos do reino chamou-se-lhe outhorga- com as próprias armas e facilitan(lo-lh'a pela enmento. Também os conjuramenlos ou outhorga- trega de Ceuta, fSeplum) (jue alem do Medimentos derivavam a sua importância das crenças terrimeo era sentiiiella avançada da monar('hia religiosas. Sendo o prejurio grave offensa á di- goda. O delegado de Musa no governo da Mauvindade e peccado que arrisca a salvação eterna, ritânia iMoghreb) tentou com bom exilo um desnão se presumia que prejurassem simultanea- embarque no (]alp(! e vencida jior eUe, Tarik Ibn mente muitas testemunhas e eram essas mes- Zeyad, uma batallia campal, que Roderico lhe mas crenças que attribuiam tal valor ao jura- otlereceu junto ao Guadalete (txhryssus), dividímento prestado em beneticio dlnteresse próprio, ram-se as hostes mussulmanas para se apodeque o impunham em geral aos accusadores e aos rarem de (]ordova, de Málaga e de Elvira, e não accusados, havendo casos em que aproveitava tardou que Toledo, a capital da cabida monar-

os delidos e perseguir os delinquentes, o duello judiciário, cujo resultado se suppunlia de-

;

;

consideravelmente á defesa. Ao juramento indi-

chia, abrisse as portas por ijitiiHas^ão de Tarik.

Historia de Portugal
Passaram-se estes trágicos successos no umio de 7. Invejando as glorias do seu iogar tenente, senão as riquezas por elle colhidas no saque de opulentas cidades, o amir Musa onicnou-llie, baldadamenie, que não vencesse sem elle e veiu assumir o coniniando do exercito agareno, guiando-o logo a Sevilha, que foi entrada, como o foram depois Niebia, Merlola, Ossuna, Beja e Merida.

^1

porem, nos Pyrencus, e para cá d'e9ta cordilheira

houveram afuial de voltar os aventurosos delegados
do
khalifa.

Conservar

em

paz a Hespanha, con-

servar encerrados nos covis os fmidadores da monarchia das Astúrias e de Oviedo, conservar subjeitos os berberes, naturalmente hostis aos
árabes,
terrâneo, conservar o
lidades e
tão leve

com quem haviam atravessado o Medimando a despeito de rivade, sedições, não era para os amires empreza que ])odessem associal-a à de

Em

curto praso elle, seu

íillio

Aiidu-l-aziz e

Tarik apossaram-sr de toda a Peiniisula, ;i exi-cp^;ão da zona iii(iiil;inhosa das Astúrias, onde se haviam cnlrinclieirado uni ]iunhado de guei'reiros dpi-ididos a morrerem aos pés da cruz, arvorada nos rochedos cmno |iendão de inde|iendencia.
I) dui|uc Tlicodoiiiiro, que, defcndendo-senas provincias de Murcia e Valenga, enqirehendèra

avassallar povos aguci^ridos.

Abandonaram

pois

esta e muitos succundiiram n'aquella,

alé que.

encravar uma monarcina entre as pontas do crescente, houve de ceder á fortmia de Abdu-1-aziz e acceitar d'elle, em Iroca de preito e de trihulo,

andanilo toda a Península avexada por guerra» intestinas, que tiiduun origem nas (|ue também devastavam a Africa, [)assou a província d'um grande inqierio a ser um estado inde(teiidente. Preparou este acontecimento a revolução que desapossou a familia dos Beni-lnieyTas da successão do Propheta, entregando-a aos Abbasidas.

um

simulacro de auctoridadi-. E ijuando Musa recolheu a Africa, chamado peio khalifa, a quem descontentara com a perseguit;ão que movera ao

vencedor do Chryneu, seu iilho, que o substituiu no governo do paiz conquistado, julgou-se tão seguro da conquista, que a ambicionou para alicerce dum throno independente, e deveu ãs maquinai'ões d'esta ambi(;ão, pouco tempo encobertas, o ser assassinado n'uma sedição da soldadesca, dizendo os cbronistas que foi Egilana, viuva de
Roderico, por quem se apaixonara o soberbo caudilho, que inspirou o pensamento crinuuoso que teve este castigo supremo. Abdu-I-aziz foi ininngo formidável mas vencedor generoso generoso para com os homens que o comliatiam, porem não com as mulheres que lhe estimulavam a las:

Um membro da familia deposta, Abdu-r-rahmau nm-.Muawiyah, recorrera á hospitalidade da tribu africami dos zeuetas e procurava adijuirir algum farrapo da purpura dos seus avós na occasião em que a Hespanha tinha chegado a tal anarchia, que se buscava com anciedade quem podesse governal-a, tendo auctoridade para se sobrepor às facções e aquietal-as. Pareceu a um partido numeroso e influente que o vagabundo descendente dos Khalifas possuia, pelo sangue, essa auctoridade, e chamou-o, pôl-o á sua frente, batalhou por elle, e no anuo de 760 Abdur-r-rahman,
tinha supplantado todas as resistências, era se-

porque o viram os chistãos, com lagi'imas de raiva impotente, encerrar nos haréns as moncívia,

jas arrancadas dos altares.

No cargo de que intentara abusar o Musa, succedeu-lhe .\jub, mas nem elle

de neidmm dos seus successores souIjc conserval-o jior nnuto tempo, porque o disputavam cobiças infrenes e era fácil indispor o suspeitoso khalifado com os seus delegados. Tm dos governadores
fdlio

nem

de Hesijanlia, Al-hoiT. trans])òz os Pyreiíeus, nuis
voltou de França destroçado,
(t

(]ue

o substituiu,

As-samah, dedicou-se a orgajiisar a ailniiii,istração do paiz, no que provou raro talento, e morreu no sitio de Tolosa, depois de ter incluído na monarcina árabe lioa iiarte da Provença e da Borgonha. A con(]uista do paiz d'Afranc, nome dado pelos sarracenos ao território occupado pelos
b-ancos, foi adiantada por outros amires, custou a vida a nuiis alguns, e Adur-r-rahman Ibn Abdillah [)izou as margens do Garomia e houve Bordéus ás mãos, mas acabou em Puitiers, desbaratado por KarI, que tão ennniMite logar occupa na historia com o nome vulgar de Carlos Magno. A fronteira do dominio mussulmaiio devia ser

nhor da Península, e fundava n'ella uma dymnastia. O tempo do seu governo passou-se a batalhar contra os generaes dos Abbasidas, que tentaram restabelecer a soberania do khalifado no paiz já dominado pelos descendentes dos seus rivaes, e a defender a fronteira do norte da invasão dos francos, que haviam passado de aggredidos a aggressores sob o commando de KarI. Este famoso caudilho, defioisde penetrar até Pamplona, foi forçado á retirada, e, sendo salteado pelos vasconços, viu a llõrd a sua cavallaria esmagada no valle de lioncesvalles, pelos penedos que os inimigos soltavam dos montes. Nos inlervallos das campanhas, o poderoso amir dedicou-se a policiar o estado, construiu uma frota destinada a obstar aos desembarques repetidos dos africanos, e erigiu palácios e templos, dos quacs dura ainda, para memoria do nome do seu fundador, a mes(|uila de (lordova. Próximo á morte, em 789, fez reconhecer como herdeiro do amirado seu filho Hixam, tendo-o por melhor dotado para o dillicil mister de governar do ([ue seus irmãos mais velhos, Snleyman e Abdullah, e falleceu com 59 annos tie cdade, venerado pelos seus e tendo merecido o respeito da historia. Abdu-r-rahman não se enganara na sua predilecção por Hixam, nnis essa preiiilecção, descontentando Suleyman e .Vidullaii foi causa de gr,

S2
,

Historia de Portugal
em que se havia fortificado õmar-lbii-Hafsunn para lhe disputar o poder. Deixou o governo a Abdullah, seu irmão, em 888. Este continuou a
ter,

Vfcs perturb3;<^'5ç8 e desordens que afinal sopitarara as armas. Seguro no poder, o novo amir tentou atalhar o desenvolvimento da monanhia das As-

túrias, e de feito|desapossou-a da Gallisa; e, como para. pagar a visita que Karl fizera á Hespanlia,

uma entrada nos seus estados. na expedição o general AbduI-1-malek, o
oríienou

Foi feliz qual de-

pois recebeu a commissão de reduzir e exterminar a tribuberbér de Takcrna rebellada ao sul da Península, e Hixam deixou a seu filho Al-hakeni, cm_ 795, um estado temido pelos visinhos e interiormente enriquecido pelos pi-oíjressos da agricultura e illustrado pela cultura das lettras e das artes. Al-hakem venceu seus tios, que de novo se liaviam revoltado, de concerto com o rei d'Aqui-

tania; combateu por largo tempo e com varia fortuna os christãos das Astúrias, sós ou auxiliados pelos francos e nem por um momento pôde
;

rmbainhar a espada, porque quando o não accomettiam os estrangeiros, amea(;avam-n'o as sedições dos súbditos, vexados pelos tributos que costeiavam as devassidões do amir e indignados com a sua crueldade. A Hespanha sotfreu grandes males sob o governo d'Al-kahem seu filho
:

Abdu-r-rahman, appeUidado Al-modhaffer, o viem 822cuidou, porem, de fazer esquecer esses males por um governo de brandura e justiça. Guerreiro esforçado fez sentir o peso do seu braço aos godos, que obrigou a recolherem às fortalezas naturaes, as serranias; ao duque de Aquitania, cujas invasões conteve, chegando a pôr cerco a Barcelona, centro dos domínios que adquirira áquem dos Pyrineos; e no fim do seu reinado aos povos de Merida e Toctorioso, subindo ao throno

insurreccionados contra a sua aucloridade. lettras e das artes, e magnificente, adornou Córdova, multiplicou por toda a parte as obras de utilidade e de luxo, cercou-se d'uma esplendida corte, em que eram honrados os poe-

ledo,

Amante das

tas e os sábios,

mas

as despezas d'esta corte e

d'este progresso material perturbaram a harmonia de Al-modlialTer com os súbditos.

Seu
isso

filho e

herdeiro

Mohammed

assimilhou-

se-lhe no caracter, imitou-lhe a politica, e por

houve de suílbcar como

elle rebelliões fre-

quentes, de que algumas vezes se aproveitaram os inimigos estrangeiros. Gomo elle, moveu também guerra quasi incessante aos chrislâos independentes da Hespanha e aos das Galhas. Durante o seu governo, os piratas normandos, vindos do Norte, e que se davam a saltear os estados marítimos do Occidente em ligeiras esquadras, appareceram nas costas da Galliza, como no tempo de Al-modliaffer haviam desembarcado na Corunha, na foz do Tejo e nas margens do Guadalquivir os árabes, porem, fizeram frente a este novo inimigo, construíram navios para lhe darem caça, e lívraram-se atinai das suas ex[i('dições. A Mo-

e seus partidários, sendo ajudado pelo rei christão Affonso ni, pois que se haviam firmado pazes entre Ovidio e Córdova, e em 912 legou o throno ao neto Abdu-r-rahman Ibn-Mohammed, terceiro de nome, e um dos mais iUustres príncipes que teve a Hespanha árabe. Foi elle que primeiro recebeu a denominação de amir-al-mumenin, jirincipe dos crentes, que de direito só pertencia aos khalifas de Bagdad, e o titulo de iman, pontífice, considerando-sc, como membro da familia dosBeni-lImeyyas, chefe politico e religioso do islamismo. Abdu-r-rahman tinha, em verdade, dotes moraes correspondentes A dignidade suprema de que se investira, e teve, para ajudar a felicidade do seu governo, a generosa dedicação de seu tio AlmodhatTer. Foi este príncipe que acabou com a revolta de (Jmar. Recomeçando as contendas com o reino de Leão, o khalifa viu Madrid assoUada pelas hostes de Ramiro n quiz vingar-se n'uma entrada que fez por GasteUa, mas o conde Fernando Gonçalves e o rei leonez destroçaram-n'o em Osma. Posteriormente, o wali de Santarém pediu auxilio aos christãos para se levantar conti-a .yxlu-r-rahman, e Ramiro fez uma excursão pelo sul, que lhe deu a vassafiagem de nuntos povos do Gharb; em compensação Al-modhaffer penetrou na GaUiza, deu uma grande batalha perto de Simancas, mas não alcançou resultados brilhantes nem duradouros. A inferioridade dos árabes n'esta campanha foi talvez devida a estar o grosso das suas forças empenhado na guerra d 'Africa, e essa guerra e o desejo de continual-a que tiidia o khalifa, concorreram para as trégoas (|ue elJe assignou em 955 com Ramiro. As trégoas deviam durar cinco annos expirado que foi este praso Ramiro atacou Talavera, o que deu logar a que os árabes invadissem a Galiza novameiíte, não havendo d'esta vez quem lhes sustasse o Ímpeto. Pouco tempo depois o successor de Ramiro, (Jrdonho in, adiantou-se pela Gharb até Lisboa, que tomou e abandonou não ponde, porém, proseguir na conquista nem conserval-a, porque as discórdias civis eidraqueceram o reino christão, o ([Uid tevede pedir pazes aos mussulmanos, admitliiulo-os depois os seus príncipes a decidirem os pleitos em que andavam empenhailos. Sancho i foi restabelecido no throno com o auxilio das armas do khalifa, e ttrdonho acolheu-se á generosa hospiitalidade de Abdu-r-rahman. A guerra d'Africa, a (pie já alludimos, foi emprehenilida para auxiliares Idrisítas, alliados da família dosBeni, Umcyyas, dos quaesos Falimitaseo seu chefe Obeydidlah liaviam derribado do throno, jior elIesIcvaiiladono.Moghreli, ou Africa Occiden;
: :

campanha contra Omar

hammed, morto em 886, succedeu
que perdeu a vida no
ata(]ue

Al-nunidhir,
líix-

tal. l']ste

auxilio

foi

do castello de

ram

os Idrisitas, das praças

comprado pela cessão, quefizedeTanger e Ceuta mas
;

Historia de Portugal
o ldi:ilif;ulr Córdova, não conlcntí^eoincslcs novos (loininii)s, linriou os seus aliados e talhou um esta-

23

dova a posse do Moghreb, cujo governo contiou a seu tillio Abdu-1-inalek, e rompendo a paz com
os christãos causou-lhes terríveis estragos, inva-

do para si na Africa, fazendo de Fez o seu centro. A conquista foi-llie, porem, tenazmente disputada; Kez passou pelas mãos de todos os partidos que SC gladiavam no solo africano, os arahes liespanhoes cjiegaram a perdel-a com todos os terri-

que lhe andavam annexos, mas afinal Abdu-r-rahmaud, com uma poderosa esquadra, fez mudar a fortuna, e todo o Moghred Ww obedecia quando em Ofil o colheu a morte no palácio de Azzahrat, maravilha architectonica operada pela sua magnificência. O nome de Abdu-r-rahman foi respeitado na Europa e na Africa, como o de um poderoso soberano e como o do chefe d'uma ])rilhante civilisação, que mais brilhante parecia destacando-se das trevas em que ainda permaneciam envoltos os estados christãos. As sciencias, asleltras, as artes, com que Karl, o Grande, qui7,('r,i adornar o seu Império, haviam-se estabelecido, como no seu único templo, na llospanha árabe. A côrle do lihalifa era modelo de luxo elegante, de costumes cavalheirosos, de franca hostórios
;

dindo a (lalliza. Aos christãos, [lorém, deveu afinal o termo de um governo tão aífortunado, que a Hespanha se es([ueccra da sua illegítiniídade. (Juando já o não inquietavam as cousas d'Africa, Al-manssor pensou em vibrar um golpe mortal â monarchia leoneza, e preparou-o mandando vir dAfrica numerosas legiões e reunindo um exer-

como nenhum outro se vira aíndanaPeninsuA estes preparativos corresponderam, todavia, preparativos similhantes da parte dos christãos, tomados de grande susto os leonezes associaram-se aos navarros, aos castelhanos, aos vasconços, c a algumas tropas vindas d'alem dos Pyrineus, [)ara allrontarem a tempestade, que tão
cito,
la.
:

formidável se annunciava. Não foi inútil a previdência. Os dois poderosos exércitos encontraram-se juncto das fontes do Douro, e a batalha, em que se chocaram a cruz e o crescente com todo o seu poder, ficou indecisa depois de um dia inteiro de esforços heróicos mas durante a noite, pitalidade para os estrangeiros, de justiça e mu- os sarracenos retiraram-se, e Al-manssor, ferido ou nificência para os naturaes e apesar das copiosas doente de desgosto, foi morrer a Medina Goeli. riquezas transformadas em mesquitas e alcassaPassaram-se estes acontecimentos em 1002. Abres pelo génio das artes, consumidas em festas e du-1-Malek, filho de .Mohammed, herdou o cargo lianquetes pela prodigalidade oriental, distribuí- de hajil), continuando o khalifa Hixam apartado das aos sábios e aos litteratos pelo favor do phi- da gerência dos negócios, como creança que ficara losoplio e erudito, era tal a prosperidade do paiz sendo por artifícios da educação, c o herdeiro de que Alxlu-r-rahman não conseguiu exliaurir os Al-manssor cuidou de vingal-o attacando os chriscofres, em que elle depositava os seus pingues tri- tãos, no que soffreu mais damno do que causou,
:

butos.

porque depois de curtas trégoas, que se seguiram
foi

de índole ]iacífica e dado ás lettras, o que não obstou a que castigasse o conde de Castella, que lhe inquietava os súbditos com saltos e correrias, obrígando-o a sollicitar pazes, que foram duradouras nem o dissuadiu do reconquistar os seus estados da Mauritânia, por um momento invadidos pelos Katimítas, enviando contra estes Ghalib, que voltou vencedor. Morto Al-liakem cm 976, subiu ao Ihrono Hixam, de dez annos de edade, sob a tutella politica de Mohammcd Abi Aniir Al-maaferi, seu hajíb ou primeiro ministro, o qual exercendo o mando em nome do klialifa menor, tomou as suas medidas para lho não restituir na maioridade. De feito, Mohammed, nos incontestáveis talentos governativos e no esforço do braço, nas sympathias que grangeiou no exercito, constituído principalmente com berberes e christãos, na atTeição (|ue inspirou ao povo mostrando-se-lhe munílic(>nte, estribou uma auctoridade tão real e tão íllímilada, (|ue elle e só elle governou a Hespanha, deixando a Hixam apenas o nome de khalifa eos deleites de que o rodeíou, para o indemnisar das prerogativas perdidas. Fez-se chamar Al-manssor, o mhiistro victoríoso, e é força confessar que

a essa primeira expedição, os christãos repelliram-lhe a segunda, obrigando-o a retirar de Galliza para Córdova. Em Córdova esperavam-n 'o ainda maiores desgostos. Abdu-1-Malek ora valente, mas não tinha os talentos de seu pae enão soubera como elle desarmar a hostilidade da família de Hixam, que não via com bons olhos um estranho dispor do poder do khalifa. Essa hostilidade augmentou com a noticia de que o hajib se fizera reconhecer herdeiro do soberano, e então um primo d'cste poz-se á frente da nobreza árabe, contra o ambicioso ministro, procurou colhel-o ás mãos, e tendo-o conseguido, n'uma batalha de ruas, fel-o crucificar. A este acto decrueldade seguiu-se a posse dada a Mohammed das dignidades e dos cargos de Abdu-1-malek. e os prinu>iros actos do novo hajib foram expulsar da capital os africanos que Al-manssor fizera núcleo do seu partido, e depor e perseguir os walis e outros funccionarios, que d'elle ou de seu filho haviam recebido as nomeações. Com estas providencias julgou ter assegurado o poder; mas como ainda o limitava a existência de Hixam, encerrou-o num cárcere fingindo que havia sido assassinado, e sentou-se no throno dos Beninão desmereceu o appeOido. Duas vezes venceu Umeyyas. OS inimigos que disputavam ao soberano de CórO rigor de Mohammed contra os africanos veiu

U seu successor, Al-hakcm,

mr

Historia de Portugal
mando supremo não o reconheceram, comtudo os principaes walis das províncias, e emprebendendo elle submetter o de Sevilha, pereceu n'unia cilada que este lhe armou. Era necessário dai'-lhe successor; agente de Córdova escolheu oul]'o descendente dos l!oní-Umeyyas, Hixam Ibn Mohannned que vivia retirado e a custo acceitou o throno. Hixam, a]ienas acclamado, mostrando receiar as facções que tumultuavam na capital, dirigiu-se ;i fronantes lhe disputara o
:

a custiir-llic caro, pwqiu-, juiitaiulo-si' esles cm grande numero, levaiitaram-se contra aquelle e oppozcram-llie seu primo, Suleyman Ibn Al-lmkem. Travou-se então prolongada guerra civil, em que por vezes intervieram os príncipes chrisafinal, quando os partidos se gladiavam tãos dentro de (lordova, realisou-se uma es])eeie de lerlius gaudet, porque Vadlieh, camareiro do khalifa que fóra dado por morto, fel-o saliir da prisão. O povo, reconhecendo-o, acclamou-o o entregou-ilie Maiiammed, que Hixam fez decapitar, mas este acontecimento theatral não liastou para socegar a llespanba. Suleuman, chefe dos africanos, unindo-se ao filho de Mohamme<l, Obeydullah, que governava em Toledo, continuou a guerra dirigindo-a contra Hixam, ou antes contra Vadheh, que exercia o poder era seu nome, na qualidade de liajih. O novo hajili depressa venceu o wali de Toledo, a quem fez degollar; tornando-se, porem, suspeito a Hixam, foi assassinado e substituído por Kbayran, governador d'Almcria, o que não impediu que pouco depois Suleyman entrasse em Córdova, dispersasse as tropas do khalifa, o matasse a occultas e se apoderasse do íhrono. Mas também a victoria lhe não aproveitou. Khayran, tendo conseguido escapar de Córdova, reuniu gente para combater Suleyman, fortaleceu-se no seu antigo waliado de Almeria, e pediu a Aly Ibn Hamud, idrisita que re:

teira para batalhar

com

os christãos, e foi este o

melhor tempo do seu reinado, porque, quando houve de se occupar do governo nem poude submetter os governadores das províiicias desejosos de independência nem poude contentar os soldados e a plebe, acostumados áanarchia, c teve de abandonar o tlu-ono, recolhendo-se á obscuridade. De|)osto Hixam, Jaubar, seu general, tomou o titulo d'amir e regeitcm o de khalifa, para prestar

homenagem
walis,

gia

uma parte da Africa, que viesse auxilial-o a restaurar Hixam, que elle dizia viver ainda. Aly
veiu,

tomou o commando d'um numeroso exervenceu Suleyman,
e aprisionando-o

cito,

com

o

pae e

um

irnião a todos três decapitou, fazendo-sc

Í)roclamar khalifa

em

lOlG, depois de saber que

lixam era morto.
.

Estes deploráveis successos, fazendo decahir a auctoridade do khalifado, posta á mercê do resultado de rixas sanguinolentas e perfídias de corte,

preparou o desmembramento do império mussulmano. Aly, fundador da dymnastia dos Alydcsou Hamudditas, foi accomettido pelos walis de algumas províncias e depois poi- Khayran com quem se úiimisàra e a quem matou, e tinuhnenie foi assassinado. Seu irmão e seus dois filhos dísputaram-lhe a heranija, ao passo (|uc um numeroso partido reclamava o throno para um descendente dos lieni-Ume^^as, l)isneto de Abdu-r-rahman, o Grande, e estes quatro pretendentes revesaramse na posse de Córdova, que obedecia á sorte das armas, até que os cordoveses acclamaram Abdu-r-rahman, outro bisneto do famoso khalifa. Adu-r-rahman perdeu a vida por intentar refi'eiar a soldadesca, e succedeu-lhe o irmão, .Mohammed, o qual apesar de recorr(>r a uma politica de corrupção, também foi banido da capital e depois assassinado. Us parciaes dos Idrisítas levantaram «ntão nos broqueis a Yahía, filho de Aly, que se linha apoderado de Málaga e Algéria, e o novo khalifa começou por arrancar a vida ao tio, que
,

aos sentimentos de autonomia dos imaginou governar com elles, reunindo-os n'um diwan a que presidis.se, mas também não conseguiu por bons modos restabelecer a unidade, que era inqjossivel restabelecer por força, e achou-se governando só a província de Córdova, cercado por estados já de todo independentes. O desmendjramento eslava consummado, para ruina do islamismo na llespanba e triumplio dos christãos, os quaes haviam sabido aproveitar-se das discórdias dos sarracenos para alargarem as fronteiras dos seus dominios e constituírem reinos que, remiidos, seriam já então o maior poder da Península. Da dissolução do império árabe nasceram muitos estados regidos ])or amires, e d'estes foram os mais importantes os de Toledo, Badajoz, Sevilha e Valência. O de Toledo separou-se da sédc do antigo khalifado por auctoridade do amh- Ismaíl Dhi-n-num. A antiga Lusitânia, depois província do Gharb, obedeceu á família dos Tadjibitas, desprendendo-se a [larte que corresponde ao moderno Algarve, para ser regida pelo wasir Ahmed Ibn Said. Sevilha tornára-se independente desde que o seu amir resistira ao khalifa Yahya
e lhe dera a morte.

Em

Valência estabelecera-se

a família dos Alamirís, a que pertencia o celebre Al-manssor; e .Málaga coube, na partilha da

anarchia,

em

aos Alydes, que também dominavam algunuis cidades d'Africa, c aos quaes reco-

nheciam como suzeranos os walis de Granada e
os senhores

de Cremona

e Ecija. Estes aniirados,

assim como haviam sustentado incessantes luctas com os últimos khalifas, luclaram uns com os outros, procurando cada qual engrandecer-se á custa dos visinhos, c d'aquí resultou que, no fim do século XI, o território dividido e subdividido tíidia-se

reunido sob a auctoridade dos amires de Toledo e de Sevilha, e que estes, achando-se rivaes, deram largas á rivalidade travando um duello, no qual as tropas de Leão e Castella muitas vezes

Historia de Portugal

25

ajuduram as de Toledo. D'eíte duelk), eonio dos e a soldadesca brutal o aibitr'o ila sorte dos poanteriores torneios, como de Iodas as discoi'dias vcs, os sarracenos mosti'aram-sesystematicameute e Lirigas dos sarracenos, tiraram enorme pro- tolerantes. Us nazarenos que queriam professar veito os cln^stâos, ora com as armas ora com a religião do propheta eram considerados como as iiego('iai;ões e ([liando Ibi Ião evidente a i'uina se outra nunca houvera sido a sua crença, mas do islamismo, ijue arecuidieceramosseuspiviirios ninguém os forçava nem quasi exhortava áapo.sfautores, quando os reinos de Leão, de Navarra tasia. O culto catholico pôde ser celebrado publie llasteiia pareceram, aos soljerbos que os lia- camente e cons<'rvou a maior parte dos seus temviam despresado no l)er(;o, colossos com quem plos, cedendo a outra parte á necessidade, que se não poderia medir todo o poder da llespanha tinham os mussulmanos, de edifícios que consaassim niussulmana, se fosse possível reunil-o, os des- grassem como mesquitas. Os mosarabes cendentes de Musa e Abdur-r-rhauian ajoelharam se chamavam os christãos his]iano-godos, estabenas marfíens do Mediterrâneo e pediram aos al- lecidos nas povoações dominadas pelos sarracecontimoravides (juc viessem salval-os. E elles vieram, nos, que ficaram no seu convívio social nuaram a reger-se pelas leis civis e pelos usos da mas vieram como seidjores. monarchia visigolhica, e conservaram a posse das suas propriedades, mediante o pagamento da contribuição predial, karadji, e da capitação, djiVI zihcd. Tiveram os seus bispos, hidepeudentes do Eis resumida a historia da dominação niussul- khalifado, e alguns magistrados especiaes, foram mana na Península, á excepgãodo seu final, que admittidos na milícia, e indivíduos houve da raça se encontra na historia dos reinos christãos. Trou- vencida e inimiga, que sem lerem renegado o seram-n'a as discórdias dos godos; arruinaram-n'a Evangelho obtiveram elevados cargos da govertinalmente as discórdias das raças, que se haviam nança e da corte dos vencedores. Estas concessões crearam aos mosarabes uma colligado para fundal-a, e as ambições insollridas das famílias poderosas. Sem aquellas nunca Ta- situação mais do que supportavel. Se algumas rik se teria adiantado do Calpe; sem estas, nem vezes as auctoridades mussulmanas os vexavam Pelagio se defenderia nas Astúrias, nem os seus exorbitando da lei, não era em ódio da sua fé ou successores dilatariam a terra independente. Pro- da sua raça, mas em rasão de ruindade de caraveitosa lição para os povos, de que, todavia, nem cter, ferocidade d'animo ou avidez, com que tanto sempre mostraram ter aproveitado, como vere- soffriam os crentes como os infiéis. K certo que mos, os próprios que aescreveram com a espada: ifuma ou outra epocha se moveu contra elles uma espécie de perseguição mas ha também inos cbristãús de llespanha A grande fraqueza do império de Córdova foi dícios de que estas excepções de tolerância foram a falta de unidade. Os godos e os hispano-roma- provocadas por fanáticos, que negavam aos musnos, por muito tempo distinctos, chegaram a con- sulmanos, ás suas crenças e aos seus templos, o fundir-se; os mussulmaiios c os christãos nunca, respeito e a liberdade que queriam para si, e deapesar da boa vontade com que a maioria d'estes safiavam o martyrio. Houve, em verdade, amires vieram a acceitar o que, da civilisação dos vence- e kbalifas intolerantes, como houve outros cruéis dores, uão era absolutamente incompativel com a ou devassos todavia, os próprios historiadores sua crença religiosa. A hostilidade do Evangelho chiústãos confessam que também algims castigae do Koran era insanável foi ella que cavou len- ram severamente -os menores abusos commettitamente a ruina do throno dos kbalifas. Houves- dos contra os direitos e as pessoas dos nazaresem os nazarenos, que ficaram na sociedade dos nos, e relatam, por exemplo, as generosas consarracenos, professado a sua fé, e teria sido fácil descendências de Abdu-1-Aziz para com o duque apagar o facho da independência, que alguns d 'el- Theodomiro, e o escrúpulo que teve Abdu-r-rahles accenderam no abrigo das Astúrias. Pelagio e nian iii de derribar o templo catholico, em cujo seus companheiros, para se defenderem, primei- chão devia levantar-se a mesquita de Córdova, ro, e depois para dilatarem o reino asturiano, antes de haver pago o preço que por elle exigiram precisaram de recrutar soldados no território ini- os mosarabes da cidade. migo, porque era mingoada a população da orla Mercê d'esta generosidade, a população hisda Península, nunca invadida ou cedo libertada, e pano-goda misturada com os saiTacenos pactuou esse recrutamento fel-o o proselytismo christão. com elles, e d'elles veiu a tomar costimies, A politica dos kbalifas de Bagdad, e depois dos industria, lingoa, vestuários e até nomes e apde Clordova, foi relativamente humana e generosa. pellidos. A brilhante civilisação do império omNão sabenios se teria sido possível aos conquis- myada attrahiu-a e fascinou-a. Os mosarabes fotadores da llespanha converterem-n'a, por arte ram os medianeiros entre essa civilisação e as ou violência, ao islamismo; é porem certo que o sociedades christãs, que posteriormente consauão tentaram. Passada a fúria da invasão, durante graram á cruz os edifícios de primorosa architea qual a força indisciplinada foi o único governo, ctura encimados pelo crescente, e receberam d ella
;

:

:

:

VOL.

1

4.

26
lectual e o progresso material.

Historia de Portugal
busto organismo municipal resistiu mais uma vez, ainda que mutilado, ao embate das ondas de povos e á pressão do despotismo mahome-

e transmittiram, principalmente, a cultura intelA inlkiencia dos

árabes de Hespanha não attacou a religião dos vencidos e adversários, quasi não concorreu para tano, para ligar a historia popular da Hespanha determinar as instituições politicas que deviam wisigothica com a da Hespanha moderna, nas succeder ás do khalifado, mas ficou indelével nos vastas regiões dominadas durante séculos pelo costumes e abriu aos espíritos novos e dilatados alfange e pelo Koran. horisontes. A corte de Abdu-r-rahman, o llrande, V seus successores foi escliola luxuaria de lettras,
artes esciencias, e capitulo
fidalga e

supremo dacavallaria, magnânima, que com os seus códigos

VII

policiou a guerra, educou a força bruta, c poliu
:

Ouando a torrente que alagara a Hespanha, as armas n'aquella escbola e com estes códigos submergindo o throno, desmuronando cidades, apprenderam até os christãos independentes das revolvendo o.s campos, arrombando mosteiros,
Astúrias e de Oviedo, os seus reis e as suas cortes. Para isto contribuiu a inimisade religiosa,

arrastando nas catadupas um povo de cadáveres, se engolphou nas gargantas dos montes das Astú-

mar ferveu e referveu, arrojou espor cima dos Pyreneus, cresceu poi' Africa dentro, mas deixou enxuto o subpedaneo do altar, em que Pelagio arvorara a cruz da espada. EUe e Fafila defenderam-se, quando a defesa inexpugnável era a supi-ema façanha AlTonso i attacou, e os mussulmanos sentiram que havia nas; cido um grande homem n'um berço de bestas feras. Na Galliza, em Leão, em Castella Velha começaram a resurgir os templos, a repovoaremse as aldeias abandonadas aos tigres d'Africa, a colorir-se o ceu com as tintas d'uma aurora. A aurora foi-se illuminando. No tempo de Fruela, Oangas pareceu pequena cabeça para o corpo social a que presidia, e edilicou-se Oviedo, que deu nome ã monarchia, antes chamada das Astúrias. Aurélio e Silo proseguiram na reconquista. Desgraçadamente, o viver dos arraiaes não aljranda as paixões humanas, e a fereza d'animo, que se cavalleiroso e artístico. iNãofoi, portanto, perdida para o futuro da Hes- ilhistra nas ])elejas por terríveis golpes, não raro panha a doniinação mussulmana; mas no to- é ingovernavel e tumultuaria na paz. Pequeno era cante à organisação politica da sociedade, os rei- o reino christão quando morreu Silo, mas já no nos chrislãos do século xn continuaram o impé- seio lhe lavrava a discórdia pesado como uma rio wisigothico, como se nunca tivesse existido o lança era o sceptro de Oviedo, mas disputaram-n'o khalifado de Córdova. O direito publico dos ven- Affonso e Mauregato, empunhando-o este afinal, cidos não só se conservou, sem outras modifica- para deixar á historia o encargo de dizer d'elle ções além das que lhe imposeram as necessidades que viveu e morreu obscuro. Succedeu-lhe Bere as consequências da guerra da restauração, nas mudo, que despiu as vestes sacerdotaes para lanmonarchia das Astúrias, de Oviedo e Leão, mas çar aos hombros a purpura. até salvou, em proveito dos mosarabes e para os Foi pacifico o reinado de Bermudo, talvez pornumter unidos no meio dos mussulmanos, algu- que houvera sido imprudência desafiar a cholera mas das suas instituições e entre ellas o regimen dos amires, próximos do auge do poderio, e que municipal, límbora seja diliicil determinar com ri- pareciam esquecidos de que lhes não obedecia gor quaes foram os privilégios locaes e collectivos uma orla da Península; AtTonso ii, todavia, não de que gosaram os súbditos christãos do khalifa- seguiu a politica do seu predecessor, e tendo desdo, é todavia certo que elles tiveram os seus juizes perta<lo ás lançadas os árabes da fronteira, viu os especiaes, chamados ceí7SorM, e subordinados aos seus estados entrados pelo crescente, valendo-lhe condes, seus chefes políticos, e cxactores que, um attaque impetuoso que impiovisou, e que o com o nome de exceptores eram nomeados pelas inimigo, surprehendido, não poude repeUir. Aniauctoridades sarracenas; e que, portanto, o ro- mado por esta victoria, Affonso correu de espada
aquelle outro

que não desappareceu com a convivência e a assimilação social. Os mosarabes não se esqueciam de que eram seus irmãos em crenças os inimigos irreconciliáveis dos seus dominadores, e quando a espaços a dominação se lhes tornava pesada, quando as dissenções dos mussulmanos lhes punham em risco as pessoas e bens, não raro emigravam em bandos para a zona seteni]itrional, cí'onde nunca havia sido desarvorada a cruz. Se as armas christãs batiam ãs portas das ])ovoações sarracenas de que eram visinhos, forcejavam por abril-as se as povoações eram entradas, os mosarabes estendiam os braços aos vencedores. Encorporados pela emigração ou pela conquista na sociedade fundada por Pelagio, levaram-lhe os conhecimentos, as industrias, os costumes recebidos da civilisaçâo opulenta, de cujo lar desertavam. E d'esta arte, os arraiaes christãos, ao mesmo tempo que se engrossavam com soldados, encelleiravani os IVui'tos que elles traziam comsigo do campo adverso; ao mesmo tempo que combatiam o império árabe, absorviam o seu espirito

puzeram-lhe diques os peitos, dilatados pela de um punhado de heroes. Devia ser ali o sacrário da religião e da pátria, (^angas d'Onis disse aos árabes o que os rochedos dizem ao mar, e
rias,
fé,

puma

;

;

Historia de Portugal
em
puulio, por meio dos niussuliniiiios, utú iis miirgens do Douro, c p;ii'a frustar o caslif.-o de tanta audácia procurou a alliança de Karl, o Grande. Uuando poude demorar-se em Oviedo applicou as atlengões a organisar o reino ao modo wisigoIhico, e

27

Ghamou-se (^ste Garcia, é foi no seu tempo ([ue começou a desmemhrar-se a monarcliia rhristâ,
Navarra para se constituir independente sob o sceptro de Sancho Inigo, conde de Bigorrc, que Affonso in lhe dera por governador, e ao qual succedeu Garcia Sanches; e que também se prepararam separações, que no futuro deviam consummar-se. Garcia estabeleceu a sua crtrte em í^eão, encarregou o irmão, Fruela, do governo das Astúrias, e Ordonho, outro irmão, do governo da Galliza, e foi talvez esta divisão que lhe aconselhou a trocar o titulo de rei de Oviedo pelo de rei de Leão, titulo este que não teve tempo de illustrar. Tomou-o depois d'elle o regente da Galliza, Ordonho. Findos três annos de reinado pacitico, Ordonho u declarou guerra aos sarracenos, e n'uma correria passou o Tejo e tocou no Guadiana, do que resultou exercerem os sarracenos severas represálias e baterem-lhe o exercito em Santo Estevara de Gormaz. O rei leonez também prestou auxilio ao de Navarra, quando
(lestacaiiiio-sed'ella a

eomo campeão que

era da fé multiplicou

os templos e engrandeceu o clero;

mas

as refor-

mas

fizeram-Uie maior

danmo do

qui^ as

armas

agarenas, por(|ue desenradeiaram uma revolta que o derribou do throno. lleadi|uiriu-o, conitudo, mezes dejiois de o tiT ]ierdido, voltou a pelejar contra os inimigos de todos os dias, e morri'u, aureolado pela gloria, noanMode842. A sua niorle foi signal para a guerra civil, e a elevação de Ramiro ao throno custou sangue christão. Mas custou ainda mais sangue aos árabes o seu feliz reinado, em que também foram repellidos os piratas normandos, que infestavam as costas da Galliza e Ramiro teria deixado de si boa memoria, senão fora a crueldade com (jue suppliciou os súbditos rebeldes, a unidos quaes, Piniolo, mandou matar juiictamente com sete fdiíos. Foram frequentes estas atrocidades, e só pode attenual-as a consideração da rudeza da epocha e du necessidade de disciplinar o povo, como um exercito que era, sempre em armas. Ordonho i herdou o throno de seu pae Ramiro, apesar de ser electiva a realeza, e deu créditos ao principio de hereditariedade melhorando a situação interior dos seus estados e accrescentando-os com vastos territórios, tomados aos infiéis, com as cidades de Albaida, de (loria, de Salamanca, e com a de Urense, que haviam perdido os christãos. Affonso ni sncccdeu-lhe em 860, não sem que lhe fosse disputado o poder pelo governador da Galliza, Fruela. O seu governo foi um renhido combate com os sarracenos, combate em que se mostrou variável a
;

este foi accomettido pelo inimigo commum, sem o livrar de ser vencido, e ha noticia de ter feito uma expedição á Andaluzia, victoriosa em vista do lim a ([ue se dirigia. Na guerra de séculos dos christãos com os árabes de Hespanha, uns e outros as mais das vezes não aspiravam a fazer conquistas que podessem conservar, mas sim a penetrar de improviso no território inimigo, entrar

e saquear cidades, metter a ferro exércitos e po-

vos, talar campos, espalhar o terror,

enthesou-

rar despojos, ou apenas vencer pela gloria de

N'um momento em que ellase pronunciou pelos christãos penetrou Affonso ni até Lamego, Vizeu e Goimbra, cidades que não conservou;
fortuna.

noutra occasião bateu os sarracenos em Polvoraria, fazendo-lhes tantos estragos que os obrigou a tregoas. Findas estas, o rei de Oviedo adiantou-se até á serra .Morena, d'onde se retirou para acudir aos seus estados, que haviam sido inva-

didos; repelliu os invasores de todas as provindas, fez-lhes desejar a paz, que effectivamente se assellou para durar vinte e sete aniios; e
(luaiido falleceu, isto é,

em

limites

da monarchia, pelo

910, tinha li.vado os sul, na corrente do

Douro.

O titulo de Grande, que alcançou da posteridade, mereceu-o o terceiro Affonso tanto na paz como na guerra parece, porem, que não Ih 'o re- gun mas quando Ramiro já tinha cingido a coroa, conheceu o filho, que se amotinou para o derriliar Affonso sahio de Sahagun para lii'a tirar, o que do throno, nem a familia, que o forçou e abdicar. lhe valeu ser aprisionado em combate e lançado No ultimo ainio da sua vida, o ancião venerando, n'um cárcere, como em castigo da sua versatique durante quarenta annos honrara o throno, o lidade em assumpto tão grave como a governa:

vencer e voltar para dentro das primitivas fronEra raro que os tractos de terra atravessados e devastados pelas correrias podessem ser occupados definitivamente essas correrias iam a distancias enormes do que chamaremos centros de operações, eram quasi sempre emprehendidas de surpreza, e as forças que se reuniam para as atalharem quasi nunca encontravam já a i|uem comJjater, e vingavam-se entrando, por sua vez, nas terras d'onde haviam sabido os provocadores. É assim que Ordonho ii pôde ter chegado ao Guadiana e assoUado a Andaluzia, e foi nVstas expedições que Lisboa, Coindjra e outras cidades importantes da Lusitânia cabiram por momentos nas mãos dos christãos, muito antes dos séculos XI c xn. Ordonho n morreu em 923, e depois d'eUe reinou em Leão Affonso iv. Este príncipe pouco beUcoso, julgando-se talvez inliabil para a missão que cumpria á sua família, abdicou no irmão, Ramiro, e recolheu-se ao mosteiro de Sahateiras.
: ;

vencedor de cem batalhas, serviu como general ção do estado. O procedimento singular de Afás ordens do íilho rebelde fonso espalhou sementes de discórdia, e Ramiro

28

Historia de Portugal
rebeldia não jiodendo conter a de Ordonho, o ftllio de Alfonso iv e genro de Fernando Cionçalves, conde de Castella, o qual, com o auxilio

II. liara segurai'-se nó lliroiin, teve de cncpiTariia masnioiTa, onde jazia o iniião, três primos seus que se haviam coiistituido seus campeõs e vingadores livre, porem, por este acto de rigor, da hostilidade da familia, apressou-se em fazer es([ueccr as desaven^^as internas, preparando uma expedifão contra os visinhos. Esta exiicdição rcalisou-se, e o seu mais valioso resultado foi o saque de Madrid, com que tanto se encolcrisou o amir de Córdova, que para logo se decidiu a tomar assignalada vingança. Esta vingança recahiu sobre a (utiliza, que foi invadida e assolada, mas quando os invasores regressavam jà ás suas fortalezas carregados de despojos e atravessavam o Douro, foi contra elles Ramiro e em:

máu,

do sogro, se apoderou do tlirono. Sancho, obrigado a fugir, foi implorar do khalifa de Córdova, o grande Abdu-r-rhaman, protecção para reliaver o reino, e o príncipe generoso deu-Ura
tão sincera e eflicaz que Ordonho teve também de se asylar entre os sarracenos, morrendo obscuramente no asylo. Depois d'este estranho successo era natural que o rei de Leão, que entrara na sua capital ã frente de um exercito mussulmano, firmasse pazes duradouras com D khalifado, e assim succedeu de feito, sendo as boas relações dos visinhos apenas perturbadas pelas excunsões armadas do conde de Castella, feitas por conta d'elle, e que Al-hakem repelliu. liste conde de Castella, senhor de extensos domínios, tinha adquirido uma quasi mdependencia, que procurava ampliar e consolidar levantando-se amiudadas vezes contra o rei de Leão e instigando outros condes e governadores de províncias a secundarem-llie a amliição. A monarchia christã encaminhava-se para o desmembramento. Alem de Castella, também a Galliza soffria mal a auctoridade de Leão, e foi um dos seus turbulentos condes, Gonçalo Sanclies, que envenenou Sancho i em 967. Succedeu-lhe Ramiro iii sob a regência de sua tia Elvira, e o reinado d 'este príncipe foi desastroso, porque as discórdias civis ajudaram as armas dos sarracenos, os quaes, dirigidos pelo famoso hajib Al-manssor, empre-

penhou uma batalha, em que, se a victoria ficou indecisa, ao menos foram numerosos os sarracenos que jazeram no campo. Também não foi peí[uena a mortandade de christãos, e ao estrago soffrido por um e outro campo se deveram três annos de tregoas.
Quebrou-as o rei de Leão, tendo-se-lhe deparado ensejo de librar um golpe profundo. (Hfereceu-lhe este ensejo o kaiyd de Santarém, pedmdo-lhe auxilio para se levantar contra o klialifa,
,

e promettendo entregartroca os castellos sobre os quaes tivesse auctoridade. Ramiro junctou, de feito, assuas tro-

que matara seu irmão,

Ihe

em

pas ás de Abu Yahya íassim se chamava o kaiyd) atravessou a Lusitânia, correu de Radajoz a Merida,

andou nos arredores de Lisboa e voltou á Abdu-r-rahman, que então reinava em Córdova, julgou pernicioso este exem- henderam anniquilar o estado christão. Com as plo da alliança do súbdito rebelde com o inimigo forças que poderia empregar na defeza das fronchristão, e para vingar a aflronta própria e a da teiras houve Ramiro iii de perseguir um neto de
Galliza triumphante.

em campo contra o rei leon(>z um poderoso exercito, d(> mais de cem mil homens, e á sua frente si(iou Zamora. Reuniu Ramiro as forças de todos os seus estados, pediu auxilio á Napátria pôz varra, Hcceitou a a ajuda de Abu-Yahya, e foi-?e encontrar com o khalifa para lhe cortar o passo. Feriu-se a batalha em Pisuerga e durou todo um

Fruela

ii,

liermudo, (]ue se fizera acclaniar
;

em

Compost(>lla

e

em

([uanio os dois príncipes se

ambos os exércitos attribuiram a si a victomas o certo é que os christãos retiraram durante a noite, sem que todavia os mussidmanos
dia,
ria,

julgassem i)oderperseguil-os. Abdu-r-rhaman apoderou-se, entretanto, de Zamora, e pôz -lhe guarnição, que não pôde defendel-a por muito tempo de novo attaque dos leonezes. Não acabou aqui a guerra. Ramiro continuou-a nos territórios de Castella cujas fronteiras firmou, e só em 944 se assentaram |iazes entre Leão e (Córdova. Essas pazes foram ainda interrompidas no ultimo aimo do reinado do bellicoso moiiarcha, que se finou em 9.50. (Irdonho n, seu lilho, depois de ter submeltido o irmão Sancho, ([ue
,

gladiavam, Al-manssor penetrou até Leão, que leria tomado se uma tempestade de neve lhe não desordenasse o exercito. O perigo, visto de tão perto, interrompeu a gueri'a civil. Rermudo chegou, porém, até ao crime de |)edir soccorro ao hajib para fazer triumphar as suas pretençOes, e cavaileiros christãos, seus parciaes, nulitaram no exercito com que ,\l-manssor segunda vez sitiou Leão, a qual, apesar da esforçada resistência do seu alcaide, foi levada á escala. Depois de Leão succumbiu Astorga, e o omnipotente ministro de Hixam recolheu-se a Córdova, deixando Bermudo sem competidor porque Ramiro era morto, mas deixando-lhe o reino cerceado e com a
capital arrazada.

liza,

tentara arrancar-lhe a coroa, e pacificado a Galdesceu pelas terras dos mussulmanos até

Lisboa, que

tomou

e saijueiou.
i,

Em

9.55 substia

liermudo n foi rei sem gloria e quasi sem domínios, porque lhos devastou ou conquistou o formidável Al-manssor, a quem elle tivera outrora por alliado. Foi principalmente funesta aos christãos uma expedição emprehendida por terra e mar, no anno de 997, e na qual o hajib demoliu os muros de Coiupostella e chegou á Coru-

tuiu-o o irrequieto Sancho

que expiou

própria

nha

:

e

quando Bermudo morreu,

isto é,

em

999,

Historia de Portugal
;i

29

Leão ('Sliiv;i(|Uiisi rpduzidii á zona der, e da Galliza desceu pelo Gharb e pòz sitio a dedas Astúrias, (juc lhe fòra berço, re- Vizeu. Foi infeliz ii'esta empreza. Passeiando um tn-o dos [ireseiiluiido Iodas as suas esperanças de salvação sariuado perto dos muros da cidade^ um nioiiarclia de rineo annos, AlVonso v. O rei sitiados deixou-o sem vida em 1027. tlingiu a coroa seu filho Bermudo iii, e os nomenino teve, |ioroni, tutores caiiai^issimos. V.vnm elles, alem de lilvira, viuva dellernuido, senhora bres leonezes propozeram-lhe casar sua irmã com Garcia Sanches, conde de llastella, para asseguih' pi'ande eoração, .Menienilo (lonçalves, conde
moniircliiiule
iiioiitiinhosa

de

listes fidalgos illustres

ronde de i:astella. rarem a jiaz interna. Fnganaraiu-se, porem, _e olharam apavorados para |irepararam sem querer a guerra. IJuando Garciii a situação do reino, e viram a necessidade de se encaminhava para a corte leoneza, os Vigilai^, empenhar o snpreiuo esforço para impedir nnui iiiimi.iios irreconciliáveis da sua familia, i'olheriiina total. IJuando, em 1I)IJ2, Al-manssor tentou ram-n'o n'uina emboscada e assassinarain-n'o. (hn' o golpe de misericórdia no inimigo, achou-o Trocaram-se por cre)ies as galas das bodas; mas com novos alentos e piwenido jnira a defeza. Os o peior foi que, morto Garcia, o rei da Naviii-ra, tutores do Allbnso tinliam consefíuido reunir aos Sancho, seu cunhado, julgou-se com direito a soldados do seu pnpillo os de Sancho de Navarra succeder-llie no condado, e como liermudo não e muitos rio sul da Franca, e o hajih, encon- reconhecesse tal direito fel-o valer á força d'artrando a feehar-lhe o caiuinho o exercito christão, mas, e depois de ter queimado os Vigilas, dedesejou talvez poder evitar a liatalha, tão imme- clarou Castella unida á Navarra. Este aconteciroso era o inimigo. Vieram, todavia, ás mãos os mento não tardou a ateiar a guerra, e quando ella encarniçados adversários, pelejaram como em acabou por intervenção dos bispos, Sancho não duello rie morte da cruz e do crescente, nenhum só fizera sanccionar a occupação de Castella pelo dos campeões recuou um jiasso, só a noite poude rei leonez, senão que juntara aos seus dominios separal-os, e Al-manssor, h'rido no coração pela o território comprehendido entre o C&d e o Pidor de não ter vencido e talvez tocado pelo ferro, suerga, como dote da promettida esposa de Garcia, levantou o campo c foi morrer em .Medina Coeli. cujo casamento ajustou com seu filho Fernando.
lialliza,

e Sanclio liareez,

Keriu-se esta tremenda batalha perto da origem

do Douro. Ahdu-l-malek, o

lilho

de Al-iHaus.sor, quiz con-

Posteriormente, e a despeito d'estas concessões, o ambicioso rei de Navarra ainda despojou B(mmudo de toda a província de Leão, conservando-a

tinuar a empresa exterminadora do pae, ainda

em quanto

viveu.
a posse da Na-

conseguiu apoderar-se novamente de Leão, mas não foram tão assignaladas as vantagens que os sarracenos colheram da guerra, que não consentissem nas tregoas que se assignaram em 1005. Ahdu-l-malek ainda voltou a Castella e á Galliza em 1007 as poucas victorias que n'este anuo alcançou foram, iMin^m, as ultimas, |iorque logo depois foi morto na guei'ra civil que se ateiai'a em f.nrdova. Ksta guerra, deipu' em outro logar lunrámos as cansas (> os episódios, pi-oduziu, em bemdicio dos christãos, o que proiluzira em seu |ii-ejuizo a lucta de Hamiro e líermudo os luussulmauos deixaram-n"osdesalTrontados, e, envolvendo-os nas suas brigas domesticas como alliados, oITereceram-lhes multiplicadas occasiões de se engrandecerem. Foi assim (pie o conde ilc Castella, Sancho tlarcez, se engrandeceu, ora fazendo pagar os seus serviços a Suleyman ora a Moliam:
:

O testamento de Sancho deu

varra a seu filho Garcia, a de Aragão, condado, a Ramiro, e a de Castella e do paiz entre o Pisuerga e o Cêa a Fernando. Ramiro não ficou contente com a divisão, e ligando-se com alguns walis
attacou os (estados de Garcia, mas foi destroçado e deu-se por fcdiz podendo salvar a herança. Pouco

depois começaram as hostilidades entre Bermudo 111, de Leão, e o seu visinho e cunhado, Fernando, de Castella. Bermudo, chegado ft maioridade,
sentindo brios guerreiros quiz recuperar o território que dera em dote á irmã. Fernando pediu o auxilio de Garcia para defender-se. Feriu-se uma batalha juncto de Carrion. O moço Bermudo era intre]iido até ser temerário. Abrindo caminho com a espada entranhou-se pelas fileiras caste-

lhanas e navarras, e empenhou-se em combate pessoal com um dos dois irmãos, Garcia ou F>r-

med, a quem aquclle disputava a coroa. .Mas o iiando, e morreu-Ihe ás mãos. Fernando, que só engrandecimento de llastella reverteu em damno cuidara de conservar intacta a herança paterna, da luonarchia de Leão. Sancho desejou a inde- achou-se por este successo rei de Leão, por dipendência, como já a desejara Feriumdo Gonçal- reito de sua esposa, irmã de Bermudo, morto sem ves, começou a proceder como soberano, e d'aqui filhos, e fundou em 1037 a nova dymnastia de se originou uma lucta armada entre elle e seu Leão e C.astclla, que tractou de fazer reconhecer sobrinho Affonso v, lucta (|ue terminou felizmente pelos nobres e pelos povos, dissuadindo-os, por com a morte do conde, de quem foi herdeiro actos de energia, da velleidade de se rebellarem. Garcia Sanches. Livre dos cuidados internos, o Fernando era digno, pelos seus talentos governarei leonez cuidou então de aproveitar o estado tivos e pelo seu valor em combate, d'estes dons das cousas para arrebatar aos sarracenos a parte da fortuna e dos que ainda lhe estavam reservados antigos estados ehriítâos ninda em seu po- dos. A posteridade chamou-lhe Magno. A gene-

80
rosidiuic
(Ic (|ue

Historia de Portugal
usou
jiara coni (larcia,

castigo onde julgava exercer uma vingança. Zamora defendeu-se galhardamente, e certo dia ltlor]'eLi ii'unia balalíia que oll'ei'i'eeu, mostra em que Sancho cavalgava desacautellado e desque Fernanflo era (/rande de eora^ão podendo acompanhado junto dos nmros, saiu d'elles liel-

seu irmão,

um

que

liu' (lerlaixHi «uei'i'a,

iuvejanilo-llie o poderio,

<!

:

cingir a coroa de Navarra deixou-a a seu sobri-

lido .irnulfes,

nho Saiirlio. com uma lançada Não renunciou, porém, a acerescentar os seus cho expirou.
estados á custa dos sarracenos. Moveu-lhes guerra Bystematicameute, começando-a em todas as primaveras, 8 dirigiu-se jirimeiro para sudoeste, apossando-se de Ceia, de Vizeu, de jjamego, de Tarouca, e de outras praças depois para o interior daHespanlia, estendendo as fronteiras de Llastella até perto de Toledo. Posteriormente, em 1064, asseuiioreou-se de Coimljra, depois de seis mezes de sitio. No aimo seguinte chegou até Valência, ajudando o amir de Toledo n'uma empresa contra o amir d'aquelle districto, e fazendo-se pagar do serviço. E mais longe teria levado as armas victoriosus, e mais haveria illustrado o nome tornanclo-o terror ilo islamismo, se o não arrebatasse a morte no anno de 1065. Oual seria o pensamento de Fernando, dividindo, por testamento, o estado entre os filhos, em vez de se esforçar para lhe assegurar a unidade e com ella a força? Talvez o de evitar discórdias d'irmãos, procurando deixar todos contentes; talvez o de impedir que as tendências separatistas que observava em algumas proviíicias da coroa fossem aproveitadas ])or estranhos. O facto é que deixou o reúio de Castella a Sancho, o de Leão e Astúrias a Affonso, o de (lalliza a Garcia, e deu a soberania independinite de Zamora a Urraca, e a de Touro a Elvira. Se Fernando cuidou consolidar d'esta arte a paz da família, enganou-se. No anno di' 1068 já andavam em briga AlTonso de Leão e Sancho de Castella. Em 1071 renovou-sealucta, envolvendo-se n'ella Garcia, da (jalliza, que seguiu a ])arcialidade do leonez e ajudou a desbaratar Sancho n'uma liataIha junto ao Carrion. Na noite seguinte nmdou a fortmia e favoreceu Sancho. Comljatia por elle Rui Dias, o celebre Cid, hero(í de novellas, a quem os novelleiros attribuiram façaidias incríveis, e este destemido caudilho, reunindo os castelhanos desordenados, deu de improviso e acobertado pela noite sobre os arraiaes de Allbnso, e logrou aprisional-o. O vencedor seguiu depois para Leão, (]ue foi entrada, e o rei prisioneiro teve de vestir o habito mouastico em Sahagun, d'onde posteriormente se evadiu para ToIimIo, dando-lhe hospitalidade o amir Al-mamon. Sancho reuniu d'este modo a coroa de Leão á de Castella, e não tardou muito que não levasse as armas aos estados de Garcia, nos quaes se incluia o moderno Portugal, para alcançar sobre elles uma espécie de .soberania. Não ficou ainda aqui a sua ambição. Sob pretexto de que Urraca, senhora de Zamora, fora sempre por seu irmão Atlbnso, Sancho sitiou-a na cidade para lh'a arrebatar. Encontrou, porem,
;

arremetteu contra o rei, varou-o e recolheu-se a seu salvo. San-

Morto elle, Aflbnso, o desthronado nionarcha de Castella, que estava em Toledo, recolheu-lhe dia herança em 1072, depois de haver jurado zem que nas mãos do Cid e por exigência dos que não era culpado nobres de Leão e Castella na morte do irmão. Foi este o sexto Atfonso. O amor fraternal não era por certo o sentimento mais desenvolvido nos corações dos filhos de Fernando Magno apenas Affonso se sentou no throno armou umu cilada a Garcia para o colher ás mãos, encarceral-o e assenhorear-se dos seus

:

estados, que não duvidaram reconhecel-o. Reuniu então sob o sceplro toda a herança do pae, e accrescentou-lhe a liiscaya e Rioja, ([ue lhe cedeu Sancho i, de Aragão, para não ser in(|uietado na posse da Navarra e com as forças de tão vasto
;

império renovou as correrias pelo paiz mussulmano, então dilacerado pelas ambições dos amires, que haviam retalhado a monarchia dos Beni-Umeyyas. Começou por soccorrer Al-mamon, seu antigo protector, contra o amir de Sevilha, e o soccorro foi tão vahoso que, quando pouco depois morreu o soberano de Toledo, julgou que não podia fiar seu filho infante de protecção mais

segura que a do

rei leonez. Esta protecção, todavia, não tardou em converter-se em espoliação. Em 1081 Affonso vi entrou como inimigo no território de Toledo, e se é duvidoso se era Yahya ou um tio seu que ao tempo possuía a herança de Al-mamon, é certíssimo que o rei cbristão conquistou para si e não para o seu

e que o seu mais intimo alliado foi o amir de Sevilha, Iljn-Abbad, antes seu adversário, do qual recebeu uma filha, Zaida, em casamento á moda mourisca, pois que era casado com Constança de Borgonha. Zaida trouxe em dote as terras (jue o amir sevilhano tomara ao de Toledo, como Cuenca, Huete e outras, mas este augmento de território não dissuadiu .\IVonso de se apoderar da velha capital do reino wi.sigothico, que ha muito cobiçava para residência da sua corte. Pòz-lhe cerco. Yahya pediu auxilio ao amir

pupillo,

de líadajoz para a defender, mas esse auxiho, prestado de boa vontade, de nada lhe valeu. A cidade houve de render-se, fazendo os vencedores
prio Yahya, e o rei
liza estabeleceu-se

largas concessões aos seus habitantes e ao próde Leão, de Castella e de Gal-

no alcassar dos príncipes mussulmanos, que já fora paço dos monarchas godos, quasi i|uatro séculos depois da batalha juncto ao Chryssus, que entregara Toledo e a Ilespanha ás hostes de Tarik. Approximava-se do seu complemento a restauração christã.

Tv|i.

ni.i

Nova

(In

Almaila,

H(i.

MORTE DE SANCHO, DE LEÃO,
Jimto aos muros de Zamora

Historia de Portugal
Receiou-o, por crrlo, Ibn-Abbad, veado os progressos de Allbriso, e proeurou ut;dli;d-os. Não contiando parn o commettiuieiíto nas for(;as próprias, alcançou alliar todos os aiiiires: não se

31

contentando com as forças de todos elles, pecliu auxilio aos almoravides, eslaheleeidos no norte (FAfrica soli o governo de Ahu-Yacuh-Yusuf. liste principe pAz certas condições aos seus correligionários da Hespanha para os soccorrer, mas como fossem acceitas elle próprio tomou o comniando de um luzido exercito, e jiniclando-lhe o dos ami- rioso throno. Faz parte da historia do reinado de Affonso vi res colligados prepai-ou-se para marciíar sobre Leão e (lalliza. tJ perigo era grande para os cliris- a origem jiolilica do reino de Portugal, que hatãos com])rehenderam-n'o os sous príncipes e vemos d'esboçar n'um quadro á parte. associaram-se para a resistência. Affonso vi e Sancho de Aragão, com as mais numerosas tropas que poderam levantar, sabiram ao encontro Vlll de Abu-Yacub, juncto do rio de Badajoz, u'uni N'este esboço politico da restauração neo-gologar que os árabes chamaram Zalaka e os chronistas christãos Sacralias. Ali se feriu uma for- thica mais de uma vez encontrámos nas campos midável batalha, formidável porque parecia de- de batalha os cavaUeiros da cruz enfileirados com pender d'ella a sorte da Península, e formidável os guerreiros do islam, e unidos por allíanças, pelo numero dos comliatenles, que eram, no di- amisades e até parentescos, os ])rincípes que a inzer dos chronistas, oitenta mil cavalleiros e du- tolerância das religiões apartava como irreconzentos mil peões no campo onde se haslciava a ciliáveis inimigos. Ramiro ii soccorreu o kaiyd cruz, e innumeraveis do lado dos inussulmanos. de Santarém contra o khalifa as tropas de AbduUs exércitos vieram ás mãos na manhã de "23 de r-rhaman entraram em Leão para restaurar no outubro de 1086, e ao cahir da tardo Affonso vi, throno Sancho i; o governador da Galliza, Berapesar das proezas que [iraclicou, perdera de mudo, pediu auxilio a Al-manssor para usurpar a todo a batalha, deixara no campo a flor dos seus coroa de Ramiro iii; o Cid, o famoso Cid, heroe liomens d'armas, e talvez que houvesse perdido lendário do christianismo bcUicoso, ora pelejava a coroa se um accontecimento inesperado não em prol ora em contra dos sarracenos, como bom viesse estorvar Ahu-Yacidj de aproveitar a victo- condollieri e o piedoso e iUustre Affonso vi tão ria quando a celebrava no seu acampamento, íntimo foi de Ibn-Abbad que lhe recebeu uma um mensageiro d'Africa trouxc-lhe a noticia da filha no thalamo, a despeito de C.bristo e da Santa morte do lilho primogénito, e o consternado pae Sé. Dizem esles factos que muitas vezes a andjípartiu inunediatamente para Isenta, deixando a ção preteriu a crença, e que dos corações dos desHespanha desaffrontada do seu mais terrível ini- ceniientes de Pelagio se desarraigaram as virtumigo. des austeras e heróicas, que talharam um altar e Partido o principe, o seu collossal exercito di- um throno nas penedias das Astúrias todavia, o vidiu-se, e o kaiyd Seyribn Abi Bekr, o amir de caracter geral da lucta secular, que revolveu e ende Badajoz e Ibn-Abbad deram-se a correr pelas sanguentou o solo de Hespanha, foi incontestavelfronteiras da Galliza e pelos territórios de Toledo, mente o de dueUo de morte entre os sectários de arrancando cidades e castellos do poder dos chris- duas religiões, ou de encarniçada disputa de um tãos, até que em Lorca o amir sevilhano foi des- templo sumptuoso pelos proselytos rancorosos do baratado. Com este successo começou o revez Evangelho e do Koran. As tregoas, as allíanças, dos musulmanos, e Ibn-Abbad, timorato, pediu as deserções momentâneas de um para outro novamente o soccorro de Abu-Yacub. Veiu elle, campo foram as excepções, que o livre arbitr' mas faltando-lhe o concurso dos amires hespa- humano impõe sempre ás leis históricas qu' nhoes, houve de retirar sem gloria. \'oltou ainda gem umaepocha, e as aberrações que elle em 109(1, e d'esta vez com o duplo intento de mina no movimento orgânico das socie^i guerreiar os christãos e de avassallar os sarraceO antagonismo religioso tornou-s',ade nos. Só com as suas forças pôz sitio a Toledo j para de raças, tradição nacional, e até mas subitamente levantou os arraiaes, dirigiu-se as ambições dos príncipes. Bata'' .i os sarpara Granada onde soubera que se conspirava racenos, encurtar a linha fro' js seus escontra elle, depôz o amir, e regressou a Africa. tados, repellil-os pouco a ^ara o mar e De lá mandou tropas frescas ao seu logar tenente para a Africa d'onde havi' jado, foi a misjtídíana dos chrisSeyr, e este apoderou-se em curto espaço de tempo são, a tarefa, a oceupde todos os domínios de Ibn-Abbad, á excepção tãos, sempre que ? ^ particular de alguns de Sevilha. O amir despojado pediu a protecção d'elles, príncipes es militares, não enco:

de Aflbnso, que lhe deu soldados e o seu melhor capitão, o Cid mas nada obstou a que os almoravides dilatassem o seu vasto senhorio ifAh-ica pela Península, até á margem esíiuenla do Tejo, onde os ihrislãos haviam traçado as suas fronteiras. Km ipianio os sarracenos hespaniioes luclavam com os ah'icanos, o rei leonez indemnisai'a-se das perdas soífridas e reconquislãra Lisboa, Santarém e llinlra, recolhe]ido-se depois a Toledo, para rodeiar d'excelleiit(^s instituições o seu glo;

;

;

:

:

.

.

32

Historia de Portugal

annexação resultante da conquista. Do território occupado pelos sarracenos para o território livre eslabeleceu-se uma torrente de fugitivos, que nunca cessou, altrahindo a cruz os christãos, a do, e depois em Leão. Eram sociedades militares, realeza gothica os homens da sua raça, a indepenverdadeiros exércitos adscriptos ao solo pela ne- dência os corações feros e generosos; com esta cessidade de arrancar d'elle o sustento, e pri- migração voluntária concorreu, poi-em, a migramitivamente só deviam existir entre os seus ção forçada jjara povoar as charnecas desertas membros, regular e prefixamente estabelecidas, do reino de (Jviedo. (juando as hostes christãs, as relações de soldados com soldados, e de guer- adiantando-se em aventurosas correrias, entrareiros com os seus chefes. A realeza de Pelagio vam em alguma cidade ou villa, que não podiam era um commaudo, a sua co rôa o elmo e como encor])orar na monarchia por distante das suas a obediência de homens livrese em armas presup- fronteiras defensáveis, mettiam a fen'0 os sarrapõe a confiança nos talentos e no valor dos capi- cenos (|ue n'ella estanciavam e conduziam os tães, a eleição, cabida em desuso na monarchia mosarabes, arrebanhados, para alem d"essas fronwsigothica, designava os herdeiros da espada teiras. Assim fez Affonso i, assim fizeram systedo monarcha. Posterioi'mente, o arraial convcr- matii;aniente os seus sucessores, e esta politica leu-se em associação politica, a occupação militar teve o duplo resultado de multiphcar em pouco tornou-se em estabelecimento definitivo e povoa- tempo a população do estado ovetense, e de torção, complicaram-sc as relações entre os povoa- nar deserta a facha de terra que se estendia a todo dores, os acampamentos fizeram-se cidades a o momento entre christãos e sarracenos, e que realeza assumiu então as luncçues de magistra- era o campo de batalha habitual de uns e outros. tura suprema e hereditária, e o estado a que ella Aproveitava, pois, ao desenvolvimento do estado presidia recorreu, para se policiar e constituir em e á sua defesa; permittiu a Ordonho repovoar harmonia com as suas novas necessidades, ao Leão, Astorga, Tuy e outras cidades importantes; direito publico que vigorava em Hespanha na ul- e quando o islamismo já tinha recuado para o tima hora da sua independência, e pelo qual os sul dos montes llerminios, ainda ÂITonso ni disamires consentiram que se regessem os mosara- tribuía habitantes christãos pelas zonas vastas em ([ue dominava, para lhes dar braços que as bes. Este direito publico foi a base de toda a legis- cultivassem e braços que pelejassem em sua delação das monarchias neo-gothicas: de ageital-a ás fesa. O elemento mosarabe deve ler, portanto, avulcircumstancias, creadas pelos acontecimentos successivos á batalha do Chryssus, encarregaram-se tado na população dos reinos neo-gothicos, e foi os reis, e o clero e os próceres reunidos em as- elle que em boa parle lhes introduziu no seio gersemblêas, sobresahindo, entre as auctoridades que mens de civilisação, pois que era brilhante e fese associaram á da coroa, a aucloridade eccle- cunda a que se desenvolvera na Hespanha mussiastica, iialurainiente prestigiosa entre homens sulmana, d'ondc iam os mosarabes para o norte, que se diziam aggremiados para combater pela sob os auspícios de Abdu-r-rahman e seus filhos. fé. O primeiro empenho dos monarchas das As- A este elemento accresceram outros, se não importúrias foi restaurar o culto christão, erigindo lanteSi dignos de menção: os colonos de fora da templos eprovêndo-os de pastores; o segundo, re- Península e os sarracenos. Para com estes foi imprimir as paixões soltas pelo tumulto das guerras, piedosa, nos primeiros tempos, a espada cbristã. paixões selvagens que se desentranhavam em as- () exemplo de Affonso, que matava os habitantes sassinos, roubos e banditismos, paixões ambicio- infiéis das povoações de que se apoderava, teve sas de magnatas que cevavam a rapina nos povos, imitadores systematicos. Immolavam-se até os priou se rebellavam contra a disciplina social. Af- sioneiros de guerra, e os desgraçados que procufonso n c Ramiro i, entre outros, fizeram muito ravam refugio e hospitalidade nas terras godas. lara ordenar o estado, e quanto era ditíicil a ta- Mas esta fereza abrandou com o tempo e a convi'i a que metleram mãos experimenlaram-n'o vência dos inimigos. No tempo de Ordonho já se Droprios, porque as suas providencias, algu- não mettiam a forro multidões inermes captiva'cs tão cruéis como as que cegavam os la- vam-se e conduziam-se para logar seguro homens, (1. 'eimavam os feiticeiros, responderam os mulheres c creanças para os vender como servos. pov». istumados de disciplina, e os nobres, Algumas vezes permittia-se-lhes rcsgatarem-se desejos ncia, com formidáveis rebeUiôes por grossas quantias. Reinando Fernando, Magno, que abali. hronos já então o bando indó- os mouros de Lamego foram carregados de cadeias mito, que a^ -ira Pelagio para as trincheie obrigados a trabalharem nos edificios religiosos. ras do norte, li -ossado até ser multidão, e Quem, porem, acabou quasi de todo com estes multidão talvez i. nada nas sedições poli- usos deshumanos, tão indignos de cavalleiros como ticas do que nas rei. de christãos, foi Affonso vi: homem desjiido de m os árabes. Esta multidão crescv iramigração e pela preconceitos, que não duvidou casar-se com Zaibriu o alvo iissignalado aos olhos de todos pelas crenças e pelos inslinrtos: para a guerra se organisarain, pois, as sociedades que tiveram a sede politica em Cangas d'Onis, depois em Ovie;
: :
"

,

:

Historia de Portugal
a fillia de Ibo-Ahbad, o famoso imperador consentiu que os sarrarenos das cidades (]ue conquistou, tirassem n'eiias, gosandu liberdade, exercendo o seu culto, disfruclando franquias e

33

du,

a acçào dos aiontecimentos históricos operára-se um movimento de translação de indivíduos d(!

umas
nas.

classes para as outras, e era todas ellas hae a dignidade

viam progredido a liberdade

huma-

foros civis,
cliia

I'

esta clemência conservou á nioriar-

Km

regra, o servo elevára-se á condição de

população musinstrumento de prosperidade e civilisação, porque us vencidos amnistiados eram peritos em ailes e industrias, para as quaes se não liaviani julgado hábeis, em geral, os hispano-godos, quasi todos soldados ou rudes
restaurada
sulmaiia, que
llie fui útil

uma numerosa

agricultores.

Com os primitivos habitantes das Asttu-ias e do Oviedo, com os mosarabes, com os mussulmanos, misturaram-se também gentes estranhas á Península, principalmente d'alem dos Pyreneos. Alfonso VI attraiu particularmente esta emigração, à qual deveu Portugal os fundadores da sua independência. Proveu muitas dioceses em membros do clero francez, e ó provável que a influencia d'este clero, mais illustrado que o hespanhol, não fosse estranha á brandura com que, pelo mesmo tempo, começaram a ser tractados os sarracenos, que cahiam em poder de christãos. Juntamente com os ecclesiasticos, e mais numerosos que elles, vieram também á corte de Leão cavalleiros francezes, destinando-se a correrem as aventuras da guerra incessanti; com os infleis, e não raros seguiram estes chefes militares, bandos d'ho[nená darmas, que acabaram por fixar residência na Hespanba, e aos quaes se distribuiram tiírras para fundarem colónias. Não foram tantos estes colonos que imprimissem caracter ás populações com que se mesclaram, nem trouxeram comsigo tão ricos thesouros de civilisação, que os repartissem com os palricios adoptivos das classes inferiores; todavia, a assiduidade, nos paços leonezes, dos fidalgos oriundos da França, onde Carlos,

embora adscripto, c o liberto passara a ingénuo. A intima condição servil era a dos mouros, despojos da guerra e da conquista, (jue se vendiam e alienavam como aniniaes de carga e exerciam os misteres mais vis da domesticídade. .\cima d'elles existiam os servos christãos da coroa, da egreja, ou dos particulares, e o que os distinguia dos homens livres era a adscripção á propriedade, que cultivavam hereditariamente, e com a qual passavam de mão em mão. Estas famílias, estes homens de criação, representavam os plebei godos, dos quaes em grande parte descendiam, e eram subjeitos, como agricultores, ao pagamento de censos e prestações agrarias, e como homens ao patronato dos senhores dos prédios, patronato que, se impunha encargos, também dava garantias de segurança á vida e aos bens,
colono,

sempre

periclitantes u'aquelles

tempos

revoltos.

A condição do júnior

fazia a transição

do colo-

nato adscriptido para o voluntário, 'ò júnior não podia ser forçado a residir no prédio, mas se abandonava a residência desistia d'elle e perdia-o. Se comprava a propriedade d'outro foreiro, pos-

em quanto demorava n'ella; mudando-se sO conservava metade das suas tersuia-a plenamente
ras, das quaes todavia dispunha livremente. Pagava sempre prestações agrarias e fazia serviços pcssoaes, como individuo que ainda era de classe servil. Já não pertencia, porem, a esta classe o colono voluntário das terras da coroa, comprehendido na denominação de herdador, tributário, presor ou privado. Se o prédio não era completamente seu, mas da coroa á qual por eUe pagava censo, possuia-o hereditariamente, podia abandonal-o se assim lhe aprouvesse, e não tinha obrigação de residir n'elle, pois que não estava subjcito a nenhum encargo ou preceito de natureza servil. E, finalmente, a outra espécie de presor, ou o presor propriamente dicto, representante do

o lirande,

ensaiara restaurar a policia e a

cultura da antiguidade, contribuiu, de certo, para

melhorar os costumes da nobreza e para dar á politica de Affonso vi o lustre de tolerância e de illustração, que a distinguiu da politica feroz dos
seus antecessores. Com esses estrangeiros introduziram-se na sociedade chrislã da Península muitos princípios de jmnsprudencia secular e ecdesiastica, novas ideas acerca das relações sociaes, usos cavalheirescos, instituições militares e religiosas e uma prova de quanto era vulgar primarem os adventícios sobre os nacionaes por engenho ou saber, dotes de capitães ou prendas de cortezãos, é que a muitos deUes foram confiados os mais importantes cargos e governos da monarchia de Leão, sem que parecesse injusto o favoritismo com que os distinguia o monarcha. Indígenas ou forasteiros, christãos ou infiéis, os súbditos dos reis leonezes dividiam-se em três grandes classes os nobres, os plebeus livres e os servos. Estas classes correspondiam ás da população do império wisigothico todavia, mediante
; :

possessor
rio livre,

romano

e wisigothico, era o proprietá-

que para se distinguir do servo se denominava frequentemente independente ou escuso, e para se differençar do nobre se chamava villão; chaniando-se também cavalleiro-viltão, porque tinha por dever e por direito servir na milicia em
cavallo seu.

Acima dos
classe

proprietários livres encontrava-se a

privilegiada dos nobres.

Seria prolixo e

ocioso, para o nosso intuito, estudar desenvolvi-

damente o modo de ser e de existir da nobreza na monarchia de Leão. Em relação à terra, os nobres das diversas cathegorias, em que se dividia a sua casta, ou eram proprietários com domínio pleno, e representavam os possuidores das sortes godas, ou desfructavam, sob condições va-

;

VOL.

I— õ.

84
riaveis,

Historia de Portugal
em parte, magistrado administrativo e judicial, e chefe militar; nas que dependiam directamente da coroa, os seus representantes gosavam também
alguns dos proventos dos senhores do solo. Esta confusão de idéas e de factos é bem característica nos prestameiros da coroa portugueza, de

bens territoriaes tie que a coroa era senhoria directa, e pelos quaes ficavam devendo ao rei, em geral, o serviço militar com os seus e noutro caso, clientes e homens d'armas. ás propriedades nobres andavam annexos extensos direitos senboriaes que equivaliam em grande parte a delegações do poder real, e nas quaes se incluia o direito, mais ou menos extenso, de administrar justiça aos indivíduos, colonos ou servos, que n'essas propriedades se estabeleciam; e bem assim isenções e franquias de toda a espé-

Num

,

cie, tantas e tão latas que foi tarefa secular da realeza diminuil-as e cerceial-as, sendo mais genérica e característica de todas a isenção do paga-

Os bens ecclcsiasticos, isto ó dos institutos religiosos e das dignidades e corporações clericaes, entravam na condição geral da propriedade privilegiada. Mas os nobres eram também, na monarchia
tributo.

mento de

leoneza, principaes depositários, agentes e representantes do poder monarchico, e n'esta qualidade possuíam uma influencia social, que não só an-

que havemos de tractar. O mais poderoso vassallo da monarchia de Leão, era o governador da província, ou o conde. Um conde regeu a Castella, um conde regeu a Galliza, quando estes condados eram, pela sua extensão, verdadeiros reinos, e a historia mostra-nos de quanta independência gosavam estes altos personagens Fernando Gonçalves, por exemplo, fazia correrias por sua conta no território sarraceno, quando Sancho i vivia em paz c amisade com o khalifa de Córdova. Essa independência era filha das circumstancias. Aftastados da sede do governo, incumbidos de sustentar guerras quotidianas de escaramuças e de sm'presas, que os monarchas não podiam pessoalmente dirigir, porque se empenhavam a um tempo em logares diversos e dis:

nulava quasi completamente a das classes populares, senão que restringia e ás vezes subordinava a da coroa. Eram elles os governadores das províncias ou distríctos em que se dividia o reino, os alcaides ou chefes das praças fortes e castellos, e ás prerogativas e funcções dos cargos
administrativos e militares andavam trivialmente associados o exercício e o goso de direitos próprios dos proprietários ou senhores das terras, como a fruição de rendas e contribuições. U ponto

tantes, dispondo, portanto, das forças militares,

de partida da organisação social, assim na monarchia vvisigothica como na leoneza, foi evidentemente a accumulação dos direitos civis do proprietário com as funcções civis e pohticas do soberano. Propriedade e soberania eram idéas que se confundiam a realeza começou a distinguil-as em seu proveito todavia, tão ditíicil foi separalas, que ainda em tempos de civilisaç.ão já relativamente adiantada, o proprietário tinha allribuições pertencentes ao que hoje chamamos poder social, e os delegados d'este poder gosavam alguns dos direitos dos proprietários. Nas terras previlegiadas o senhor, nobre ou ecclesiastico, era.
;

;

cuja organisação estava subordinada toda a organisação social, os condes sentiam muito o peso da sua espada e muito pouco o peso do sceptro, para reprimirem as velleidades de emancipação com o jugo do dever de lealdade e obediência. A força era então o direito, e elles tinham a força com ella se legitimou, segundo é de crer, a hereditariedade do governo dos condados de Castella e de Galliza, e de outras menos vastas províncias. Independentes, perpetuando os cargos nas famílias, dominando de facto sobre outros chefes militares, os condes foram verdadeiros soberanos, que só voluntariamente cumpriam ás vezes obrigações de vassallos, e a monarchia leoneza ter-se-hía fragmentado, como a Allemanha, em pequenos estados, se ura conjuncto de successos feUzes não tivesse permíttido a Fernando Magno e a AfFonso vi cerzirem, por heranças e por conquistas, os pedaços de purpura que já andavam por muitas mãos ambiciosas. A emcincipação de Portugal não foi um facto sem precedentes na
a
;

historia da

Hespanha

christã.

ILiX-^lEtO I

O

coiiclaclo

de

I^ortiiaal

-oo^c=—

CAPITULO

I

vos do engrandecimento de Henrique à custa

do primo são mal conhecidos, mas é crivei que

Governo do conde Henrique
Nos annos de 1079 a 1089 vieram a Hespanha, terra de promissão para aventureiros e terra
santa para cavalleiros da
cruz,

aquelle deixasse de depender d'este

em

rasão

do casamento, e que a derrota de Raymtmdo
pelos sarracenos,

com quem

descera a campear

nas margens do Tejo, determinasse o rei a talhar nos dominios que elle não soubera defender, talvez por

dois

fidalgos

aparentados

com

a rainha Constância, segunda
vi,

demasiado extensos, os que era

esposa de Affonso

de Leão e Castella. Se os

de equidade conceder ao novo genro.

trouxe só a ambição de gloria e o empenho de

Em
se,

1097 a auctoridade de Hem-ique estendia-

ganharem na matança de infiéis as bênçãos de Roma, acharam mais do que buscavam, porque
nos
fins

indubitavelmente, por toda a terra portu-

galense, que tomara o

uome da

antiga Cale,

de 1094 ou principio de 1095 estavam

povoação já conhecida por Portucale no tempo
dos godos, situada na
ro,

ambos

aliiados por

matrimonio com a familia

margem esquerda do Dou-

reai ieoneza,

e regiam,

com

o titulo de conde,

onde hoje é Gaya. Era, porém, soberana essa

vastos territórios á beira do Oceano.

Um d'elles,
de

auctoridade e independente da do rei de Leão e
Castella? Não.

Raymundo,

filho

de Guilherme

i,

conde de Bor-

O condado
foi

instituido

gonha, casou com D. Urraca,

filha legitima

de D. Thereza e seu marido, como

em favor uma espécie

Affonso VI, e intitulou-se senhor de toda a Galliza, por governar n'esta provincia e

de vinculo, não

desmembrado da monarchia,

na parte
dis-

muito embora a sua administração e a posse
das propriedades regalengas n'elle induidas fos-

da antiga Lusitânia, que antes formava os
trictos

de Coimbra e de Portucale; o outro,

sem

hereditárias.

É

isto e só isto o

que

significa
vi, fal-

Henrique, quarto filho de Henrique (irmão da
esposa de Guilherme
i,

a phrase do chronista do filho de .\ffonso

de Borgonha) e neto de

lando d'este monarcha

:

«casou sua

filha

Thereza

Roberto, duque de Borgonha e irmão de Henri-

com

o conde Henrique edotou-a magnificamente,

que u,
resa,

rei

de França, alcançou a

mão

de D. The-

dando-lhe a terra portugalense
reditário.»

com dominio he-

uma

que nascera dos amores do monarcha com nobre dama, Ximena Muniones. O seu con-

A posse

hereditária não dava inde-

pendência pohtica. Era
suetudinário na

um

facto legal e con-

dado, que ao principio só comprehendeu o tracto de terra

edade media a concessão de

Braga e

foi

que tinha por cabeça a cidade de dependente da auctoridade de Ray-

beneficias hereditários, e todavia o beneficiado

ou

fiel

não ficava isento de vassallagem, antes

mundo,

dilatou-se posteriormente do

Minho ao

se obrigava, pela acceitação da

mercê

regia, á

Tejo, e separou-se de todo da Galliza. Os moti-

prestação do serviço militar, e á fidelidade, que

36
commetter dolo ou traição

Historia de Portugal
sejoso de gosal-a que de augmental-a.
e

lhe prohibia tomar armas contra o siizerano e

Em

1097

em

detrimento da

1098

foi

em

peregrinação a Sanctiago de Com-

sua pessoa ou dos seus interesses, sob pena de
perder a propriedade. Similtiante a esta, senão
devia ser a posigão do conde
e depois d'elle a sua viuva,

postella, cidade

do

território

dominado por seu

primo,

com quem,

portanto, o não inimizara o

exactamente
de Portugal.

esta,
Elle,

engrandecimento.
Toledo.

Em
,

Em 1100 e 1101 residiu em 1103 tomou a cruz e partiu-se para
historia.

reconheceram por actos positivos a soberania
dos reis leonezes,

a Palestina onde as suas façanhas não alcançaram
a

como adiante veremos,

listes

menção da

Em

1105 tinha voltado a
para a corte de Af-

soberanos, por sua parte,
aberta

nem mesmo em

guerra

Portugal, onde deixara D. Thereza regendo os

com

os condes portugalenses mostraram

povos, e no anno seguinte
fonso
VI.

foi

querer ou poder, por força de direito, tirar-lhes
o

Esta mobilidade de cortezão e de fervo-

mando, como provavelmente teriam
estados.

feito se

roso catholico está denotando que

os considerassem meros governadores,

em

seu

da governança,

nem

os trabalhos da guerra,

nem os cuidados nem
espirito

nome, de uma parte dos seus
do
filho

O

direito

os cálculos da ambição

pesavam ainda no

de Henrique de succeder ao pae não pa-

do afortunado conde. D'aqueUes cuidados desobrigava-se a miúdo cedendo-os á esposa, mulher de
caracter dominador, que os considerava, talvez,
regallo
;

rece ter sido disputado.

Quando

D. Urraca, por

um

tractado generoso, accrescentou os domínios
ella

de sua irmã, confirmando tacitamente os que
possuia, impoz-lhe
(ista

da guerra dispensavam-n'o os chefes

honor que
et altera

la

como condição da tenencia regina da ad germana quoella lenet) os

alraoravides, oceupados

em

decidir pleitos alem

do Mediterrâneo

;

e as suas longas e frequentes

modo

que

deveres de a

ausências de Portugal provam que ainda lhe não
acudira o pensamento de crear partido,

ajudar contra mouros e christãos
serviço militar
e

— prestação de
sem
dolo,
e estes deveres

com que

— de como boa irmã —
e

ser sua amiga,

se alevantasse contra a suzerania de Affonso vi.

fidelidade

;

Exemplos e suggestões do conde de

Galliza. vie-

são precisamente os de todos os possuidores de
benefícios.

ram, porem, perturbar a serenidade d'animo de
Henrique e despertar n'elle sentimentos que sopitavam. Raymundo, sendo casado
filha

E tudo

isto define suflicicntemente,

quanto a nós, o modo de ser do condado de Portugal dentro da monarchia de Leão e Castella,

com

a única

legitima do rei de Leão, jidgava-se

com

di-

sendo pouco interessante averiguar se

elle foi

ou

reito a herdar-lhc a coroa,
VI projectava deixal-a

ao passo que AtTonso

não

foi

dotação de D. Thereza, porque o regimen

por sua morte ao príncipe
filha

no século xu, nada poderia dispor acerca da natureza politica, deixem-nos
dotal, caso existisse

Sancho, que tivera de Zaida,

de Ibn-Abbad,

de Sevilha, que os chronistas dizem ter sido guasi

dizer assim, da propriedade cedida

em

dote.

sua esposa. P'aqui
o genro.

uma

inimizade do sogro

com

Observaremos, porem, acerca d 'esta ultima questão, largamente controvertida, que nenhu-

E como o marido de

D. Lrraca não era

de caracter accomodaticio, planeou annullar por
força o testamento

ma

iluvida liaverà

em

admittir que a terra por-

que favorecesse Sancho

em

tugalense fosse dote da esposa de Henrique,

uma

seu detrimento, e concertou-se

com Henrique,

vez que se attribua á palavra dotavit, usada
pelo chronista de iVffonso
jurídico
vii,

para que, unindo ambos as forças, tomassem por
assalto o throno logo

não o significado
sentido vulgar de

que

elle

vagasse, devendo

que hoje tem, mas o
liens,

o conde de Portugal receber

em premio
districto

da sua

doação de
jior

em quesquer
filha,

condições, feitas

coUaboração na empreza o
e

de Toledo
•'''

um

pae que casa a

para sustentação

um

terço dos thesouros que se encontras-sem

dos consortes ou esplendor do seu viver social,
pois que é incontestável que Henrique deveu ao

n'esta capital.

O tractado dos dois condes
mente

foi

feito secreta-

seu consorcio e só a eUe o opulento senhorio,

em

1

106

e diz-se

que o inspirou o abbade

que depois veiu a ser reino de Portugal. Nos primeiros annos de governo o conde Henrique, apesar de subjeito á auctoridade do sogro,

de Cluni, Hugo, que era n'ac[uellé tempo
tentado ecclesiastico capaz de rivalisar

um

po-

com o

papa, e tinha relações de parentesco e amizade

pareceu contente

com a sua

fortuna, e mais de-

com

os genros de Affonso

vi.

O fallecimento de

Historia de Portugal
llaymundo, surrcHido
cfToitn
;

37

cm

1107, deixou-o
Siinrlio, iruina

sem
ba-

os leonezes e castelhanos á docilidade de súbdi-

a

morte do principc
feriu

talha
I'clés,

que se

em 11U8

juncto dos

muros de

Os fidalgos gallegos, dirigidos polo conde de Trava, D. Pedro Froylaz, tinham sido os pritos.

cereados pelos sarracenos, deixou

sem

meiros a levantar pendão contra o
disfarçando a

rei

aragonez,

ronlesta(;ão os direitos de D. Urraca ao throno

vontade que lhe tinham

com

paterno

;

mas o

desejo, inspirado a Henritiue,

o |irelexto de reclamarem a execução da clausula testamentária de AfTonso vi,

de alarpar o território juntando-lhe o distrirto de Toledo, fimn-ilie Ião entraniiado n'alnia, que,

que determi-

nava,

iKira

o caso de D. Urraca |iassar a segunfilho,
;

vendo inutilisadas

as

promessas da allianea com

das núpcias, que seu
ficasse

Afibnso Raymundes,
as

o primo, logo o conde macbinou obter por novo

reinando na GaUiza

armas dos insur-

testamento do sogro o que antes esperara alcançar pela annullação violenta do testamento, que o sogro premeditara. Perseguiu-o n'este intuito

rectos tinham ficado vencedoras

em

alguns en-

contros

por

elles,

com menos por amor ao

as de Afl^onso, a rainha declarãra-se
filho

do que por

no

leito

da morte, encheu-se de cólera por lhe
a cólera e a

ódio ao marido; a lucta, começada

numa

pro-

não serem attendidas as instancias,

víncia, irradiou para as outras: D. Urraca teve

ambição flzeram-no pensar, não
dar o condado, mas

em

arredon-

um

partido, Affonso de Aragão teve o seu, outro

em
foi

conquistar o reino, e

tomou por bandeira o nome de Affonso Raymundes, os senhores de terras aproveitaram a desor-

quando Afibnso

vi

fechou os olhos, no fim de
mettida de posse dos

1109, D. Urraca, que

dem

estados de Leão c Castella

com pleno

assenti-

para desenfrearem paixões e cobiças, os municípios tumultuaram-se, os numerosos ban-

mento dos súbditos, tinha por inimigo cobiçoso,
disposto á traição astuta e á guerra aberta, o

dos fizeram e desfizeram allianças, os reis ora brigaram ora se abraçaram, e o vasto império
foi

mais poderoso fidalgo da sua corte e o membro

tlieatro

duma

tragedia d'anarchia, a que os

mais valido da sua
cia a cobiça

familia.

Chegou

a tal audá-

sarracenos haveriam dado o desenlace

com uma

de Henrique, que, depois de algum
qual,

scena de gloria, se não andassem representando

tempo de dissimulação, durante o
lhido ás suas terras,
tra,

reco-

por sua conta outra egual na Península e
Africa. Este deplorável estado
lia

em

domou

os

mouros de Cin-

de cousas promel-

seus vassallos e tributários, que se haviam

mil venturas ás ambições do conde de Por-

rebelado, partiu

em 1110

para França, no proa qual tentasse de-

tugal,

que tinha as forças

inteiras, e elle

pensou

pósito de recrutar gente

com

de

feito

em

ir

ao encontro d 'essas venturas, alo rei de Aragão, quando este an-

sapossar

1).

Urraca da coríia. e cingil-a á fronte

liando-se

com

abrasada pelo delirio da ambição.
liste

dava

em

guerra accesa

com

a esposa e tentava

propósito não vingou, e o conde, que so-

usurpar-Ihe os estados, e pôz por condição à
alliança a partilha,

nhava com os paços de Toledo, encontrou alem
dos Pyrineos

— ignora-se em

que propor-

uma

prisão,

donde

se soltou

em
mas

ções,

— do

território leonez e castelhano, entre

1111, para voltar a Portugal. Voltou despersuadido de attentar contra o direito da cunhada,

os alliados.

Mas Henrique não contou, quando
cálculos políticos,

fez os seus

não de se engrandecer, e o estado da monarchia
leoneza offereceu-lhe ensejo para novos tramas.

ções de D.

com Urraca com
feito

a inconstância das rela-

o marido: aconteceu re-

Andava ateiada, no seu
vam.
Urraca casara

seio, a

guerra

civil,

e

conciliarem-se elles subitamente, e ficou inutili-

eram numerosas as parcialidades que
I).

se gladia-

sado o tractado

por Affonso, ficando o conde

em

1109, por conselho

outra vez derrotado nos planos de accrescenta-

dos seus nobres vassallos,

com

Affonso

i,

rei

de

mento. Recolheu-se então a Portugal, empregou-se

Aragão, cujo braço athletico, se podia
sceptro de ferro e

com um
e

em

aplacar o povo de Coimbra, que se re-

uma

espada nunca embainha-

voltara contra os

vexames das auctoridades.

e

da, era pezado e rude no
este

amplexo conjugal,

esperou. Xão teve que esperar muito. As pazes
entre os consortes régios foram sol d'inverno.

casamento

fizera rebentar

desavenças do-

A
vi

mesticas e discórdias politicas, porque tão reluctante era a raHiha á fidelidade de esposa,

rainha não se ageitava ao jugo do matrimonio
christão,

como

como boa

filha,

que era, de Affonso

38
e muito mulher do seu tempo
;

Historia de Portugal
o rei não queria
e parece

depois de ter fingido ceder ás suas exigências e
feito a

condescender com as fraquezas feminis,

demarcação das

terras,

que lhe deviam

fi-

que

um

certo conde

Gomes Gonçalves deu azo

a

car pertencendo, reconciliou-se

em

segredo

com

que se desencadeiasse novamente a tempestade,
por momentos serenada, e se realisasse
vorcio. Divorciados os esposos,

o rei de Aragão, para que a ajudasse a desfazer-se

um

di-

dos onerosos alliados e importunos parentes, e

pozeram-se eiu

deu traça para que
reza,

elle

houvesse ás mãos D. The-

guerra os soberanos. AfTonso emprehendeu conservar a corúa renunciando á mulher que lh'a
dera,

que só poude escapar-lhe fugindo de Saha-

gun. Henrique perdeu, portanto, mais
jogo

uma vezo
11-

mas

a nobreza de Leão e Gastella,

bem

em

que empenhou a vida, e achando-se

como
za,

a da Galliza, tornou-lhe difficil a

empre-

ludido e ludibriado procurou vingança e desfoi-ra,

adherindo a D. Urraca. Estas adhesões ameaunificar a

pondo-se á frente dos fidalgos descontenas pazes dos cônjuges

çavam

monurcbia e consolidar o throuo.

tes

com

divorciados, e

Viu-o o conde Henrique, percebeu o perigo que

cercando estes

em

Carrion.
foi infeliz.

corriam os seus interesses, e renovou a allianga

Ainda n'esta empreza

Os auxOiares

com

o príncipe aragonez,

em

termos análogos

abandonaram-n'o, considerando nos perigos da
rebeldia, e o conde de Portugal achou-se quasi

aos que já

uma

vez tractára. Os alliados juncta-

ram então

os exércitos e venceram

em campo

em

lucta

com

os dois príncipes, de cujas de-

d'Espina os parciaes de Urraca, capitaneados por

sintelligencias esperara proveito. N'esta situação

Gomes Gonçalves, que
D. Urraca assustou-se

ficou

no campo, tendo

precária tirou forças do despeito, e profiou para
se apoderar

legar estes successos no anno de 1111.

com mão armada das

terras

que lhe

com a victoria de Campo d'Espina e para desfazer a liga do marido com o cunhado mandou offerecer a este ambicioso, quando elle ainda estava sob as armas em Sepiilveda, outhorgar-lhe desde logo o que Affonso lhe promettera para o caso de sentar-se
isto é, fazer-lhe
rio.

haviam sido cedidas pelos tractados, nunca cumpridos. Posteriormente, vendo desunidos mais

uma vez

D. Urraca e Affonso, concebeu novas es-

peranças de fazer vingar os seus projectos, e enfileirou-se no partido da rainha;

mas

a morte salAstorga, e

no throno leonez;

teiou-o

no

1."

de maiode 1114,

em

uma importante cessão de territó;

fechou-lhe os olhos antes de terem visto começar
a crescer do solo o edificio, cujo plano concebera,
e a que seu filho pôz remate.

Henrique, que não contava a lealdade entre as

virtudes que o ornavam, acceitou promptamentc

O seu cadáver

foi

separou-se do exercito aragonez

de ser necessária

com o pretexto a sua presença em Portugal, foi

guardado

em

Braga, e o historiador que lhe re-

digir o epitaphio terá de louvar-lhe o valor e a

ao castello de Monzon firmar pazes e amizades

perseverança e desculpar a perfídia dos meios a

com a

rainha, e para attenuar o escândalo do re-

que recorreu a sua

politica,

por ser consoante

viramento retirou-se por algum tempo ás suas
tendas e encostou a lança.
iSo

a dos adversários e própria da epocha,

mas não

anno seguinte, poe

poderá attribuir-lhe dotes eminentes de espirito

rím, como continuasse a guerra entre Affonso
pas, e para agradecer as promessas

ou de coração,
Foi inferior á

nem

dar-lhe a estatura de heroe.

D. Urraca, desafivellou a mascara, levantou tro-

empreza de fimdar

uma

naciona-

com que

o

lidade, e inferior até á própria ambição.

haviam comprado,

foi

pôr cerco a Penafiel, po-

voação visinha de Valladolid, onde tremulava o
estandarte do seu antigo amigo. Mas no

CAPITULO

11

mesmo
Governo de D. Thereza
De mais levantados
espíritos e

tempo em que
tou

se propôz a servir a rainha, ins-

com

ella

para que lhe desse o ajustado preço

do serviço, e as instancias desgostaram-n'a. O seu

de mais agudo

com D. Thereza, que se ajuntara ao marido. E como era de caracter doble e só transigira com o conde
desgosto cresceu

com desavenças que

teve

engenho era porventura D. Thereza, que se pode
suppôr que haja sido inspiradora do marido, á
vista

da maneira como tentou realisar o pensaelle,

por medo, D. Urraca pagou-lhe a traição, de que
se aproveitara,

mento, que o dirigira a

de se tornar inde-

trahindo-o astutamente, porque

pendente da coroa leoneza e alargar o território

Historia de Portugal
porlugalpiise.

39

Apenas se afliou viuva, partiu de

aconselhado a fazer pazes
via-a

Portugal para Astorga, e

como achasse a irmã morei

meiitaneament(!

uiiiiia

a Affonso e a contrariasse

esta união, eslreiou-se

na intriga avisando o

aragonez de qucD. Urraca projectava envenenal-o.
Elle acreditou-a,

com D. Urraca, e sersem todavia romper as intimas relações que tinha com o conde de Trava, Pedro i'roylaz, e os fidalgos (]ue tramavam incessantemente em favor do hlho de Raymunostensivamente,
des. D'estas relações secretas teve aviso a rai-

accusou a rainha, perante toda
liie

a corte, da damtiada inteii(;ão, não

adrnittiu

nha, e visitando a Galliza
pios de

em lllSe

nos princí-

defesa, expulsou-a ignominiosamente de Astorga,
c preparou-se para lhe arrancar os estados. Tanta

1116 tentou por mais de uma vez pren-

der o prelado, preferindo tel-o seguro n 'um cárcere a tel-o [MT amigo. Mas não o conseguiu, e

violência desagradou aos povos. Os procuradores

de muitas cidades, reunidos

em Sahagun,
;

e os

Gelmircs não tinha longanimidade para perdoar
affroiitas.

mais poderosos fidalgos

e

senhores de terras, proAffonso

Vendo-se objecto de desconfiança e

nunciarani-se pela sua legitima soberana

ódio soprou o fogo da revolta, c

teve de pedir paz e retirar-se para os seus esta-

meroso bando se alevantou
Urraca, a qual
foi

dos; e a maldosa condessa de Portugal reconhe-

em 1116 um nuem Galliza contra D. combatel-o em pessoa. Os gal-

ceu que o seu golpe ferira a

mão que

o vibrara,

legos não foram afortunados. Pedro Froylaz, vencido, teve de fugir. Gelmires foi attacado pelo

achando-sc á mercê da cólera e da vingança da
irmã. Recorreu então á humildade, e ou porque
tivesse artes para parecer innocente e alcançar

povo de Compostella, que a rainha conciliara a
si,

e teve

de submetter-se com juramentos de

fi-

perdão, ou porque lhe acudissem protecções poderosas, o facto é que nada sotTreu na pessoa ou

delidade e

nos bens. Mas houve de dissimular as ambições
e os ódios que lhe ferviam n'alma, de

amor á soberana, que foram acceitos. O barão Gomes Nunes ponde, comtudo, continuar a guerra; mas como não bastasse para salvar a
causa da independência da Galliza ou do direito de AfTonso Raymundes,
elle,

bem

viver

com
ella,

D. Urraca e mostrar subjeição ã sua auctori-

os seus amigos, e

dade, e

em 1115

assistiu,

com vontade ou sem

porventura o próprio Gelmires, que estava relacionado

à assembléa de Oviedo. Esta assemblía, forbispos e procuradores de muni-

com

a condessa de Portugal,

pediram
e por-

mada por nobres,

auxilio a esta princeza. D. Thereza apressou-se

cípios, reuniu-se para providenciar contra os cri-

em

sair

da fronteira, e o exercito gailego

mes
e

e violências, que se perpetravam

amiudada

tuguez cercou

em

Suberoso D. Urraca, que a

impunemente em Ioda

a monarchia, e as suas

custo fugiu para Compostella, d 'onde depois se retirou para Leão.

actas foram assignadas por D. Thereza, impor-

O premio do valioso soccorro
foi

tando esta assignatura
tivo da

um

reconhecimento posi-

dado pela condessa

a cessão de terras alem

dependência de Portugal da coroa de Leão

do Minho, nos districtos de Orense e Tuy, terras

e (lastella.

que conservou como suas durante alguns annos.
Estes accontccimentos inimizaram as duas
ir-

O anuo de 1116 offereceu á condessa occasião
de pôr termo ao disfarce e de se vingar das hu-

mãs; mas D. Urraca, attacada pelo
teve de deixar

rei

de Aragão,

milhações que solWra. Depois da morte de Affonso VI nunca houvera socego na Galliza, onde
se gladiavam os parciaes da rainha, os de Af-

em

paz D. Thereza, que se retirou

para Portugal, e por alguns annos cessou de intervir

na guerra

civil

da monarchia leoneza-cas-

fonso dWragão, e os d'Affonso

Raymundes, que
estado indepen-

telhana, parecendo satisfeita

com

o accrescenta-

miravam
dente.

a erigir a provinda

em

mento de

território

que alcançara no norte. Este porem, compensado

Da desordem aproveitava-se o bispo de

accrescentamento

foi,

em

Compostella, Gelmircs,

homem de desmedida ame adquirir

parte pelas perdas que soffreu

no

sul,

porque

bição, violento e astuto, para alcançar influencia

ainda
liza,

em 1116

e no

tempo da expedição à Gal-

predominante sobre os patrícios
,

um

entraram-lhe os sarracenos

em

casa, toma-

poder coUossal que o fizesse temido e respeitado.
Gelraires inclinava para a parcialidade de Affon-

ram

e saqueiaram os casteilos de Miranda e Santa
e

Eulália,

obrigaram os habitantes de Soure a

so

Raymundes

e

algumas vezes tomara armas

incendiarem a povoação e retirarem-se para Coimbra.

por elle; os acontecimentos tinham-lhe, porem,

No anuo seguinte, nova

e mais devastadora

40
entrada.

Historia de Portugal
instigação folgou (Jelmires e

O amir de Marrocos, para vingar-se de Affonso d' Aragão, que lhe não dava tregoas,
passou á
PeniiiPulii, e

começou

a tramar,

encobrindo o trama por prudência. Mas não o
encobriu tanto ([ue não fosse descoberto.

ao passo que enviava seu

A

rai-

irmão Temin contra os aragonezes, atravessava o (iharb e punha cereo a Coimbra, onde se achava
D.

nha

viu

imminente outra revolta na Galliza
ir-llie

e

decidiu

ao encontro, ou antes abafar-lhe
Froylaz e os

Thereza, que correu perigo de lhe cair

os germens, e para privar o bispo,

nas mãos. A cidade defendeu-se valorosamente,

seus adeptos do auxilio e apoio de D. Thereza,
intentou dar
Ihe guerra,

mas

o amir arrazou-lhe os arrabaldes, e

quando

um golpe mortal

na irmã e deelarou-

julgou ter feito

destroço que ficasse memorado,

com o pretexto de que conservava

levantou arraiaes e partiu-se para Africa. A parle
estes successos desastrosos, a terra portugalense

usurpada

n'este espaço de

gosou socego relativo desde 1116 até 1121, e tempo pareceu moderar-se o génio irrequieto e ambicioso da condessa. Talvez

uma parte do território gallego. Com um poderoso exercito, a que se juntara Gelmires com os seus homens d'armas, porque
Minho no verão de 1121, e vencendo
pôz

lhe não convinha ainda tirar a mascara, passou
D. Urraca o

que o descanço da guerra e da politica lhe fosse imposto pelo amor. Na expedição á Galliza convivera com Fernando Peres de Trava,
filho

toda a resistência penetrou até ao Douro

grande estrago

e

com em grande aperto a condessa,

do conde

que se refugiou no castello de Lanhoso. Tão importante victoria assustou o compostellano, que

de Trava, Pedro Froylaz,

e é

de crer que d'esta

convivência nascesse a paixão impetuosa, que
veiu a submetter a altiva viuva de Henrique ao

não deixara de ser amigo da condessa de Portugal e de Fernando de Trava, e para crear

em-

domínio d'um simples fidalgo gallego, soldado do bispo de Gompostella, e a ser causa dos desgostos e infortúnios que a afíligiram

baraços á rainha pretendeu separar-se d 'ella e
retirar-se para a Galliza, pretextando afTazeres
e

no fim da

mostrando-se desgostoso com as atrocidades

vida e lhe encurtaram o governo.

Em

1121, senão

perpetradas pela soldadesca vencedora. Receiou

em

1120, já Fernando de Trava vivia na corte

Urraca deixal-o partir, temendo que fosse tentar

de Thereza,

em

notória ligação intima

associado á administração, e

com ella, dotado com o titulo

alguma sublevação, e porque se julgou fraca para ao mesmo tempo combater os portuguezes e conter os gallegos

de conde
districtos

e a

correspondente auctoridade nos

que conspiravam nos seus próprios
politica e

de Coimljra e do Porto, apesar do des-

arraiaes,

mudando de

em

vez de anni-

gosto que á nobreza e ao povo portugalense ins-

quilarairmã, applicou-se a grangear a sua amizade, para que lhe não impecesse no plano de casti-

piravam o escândalo,
valimento de

e.

mais que o escândalo, o

um

estrangeiro. 1121 é

também

a

gar Gelmires e os parciaes do

filho.

Offereceu-lhe

data da renovação das hostilidades entre D. Urraca e D. Thereza. Prepararam-n'a os acconteci-

n'este intuito pazes generosas, e por

um

pacto

solemnemente jurado
terras nos districtos de

fez-lhe

doação de muitas

mentos da

Galliza.

I)

partido de

ABbnso Uaymun-

Zamora, Salamanca, Toro,

des nunca se aquietara, apezar de Gelmires se
ver constrangido a abandonal-o, ao menos os-

Ávila, Valladolid e Toledo,
e direitos senhoriaes,

com

as suas rendas

confirmando assim ou re-

tensivamente, e déra-lhc alentos a protecção decidida do papa
Callisto
ii,

petindo o tractado que

tio

do infante, que

conde D. Henrique

;

e

em 1112 fizera com o em troca d'estes vaMosos

a rogos do sobrinho se interessara pela sua causa.

donativos obrigou-se D. Theresa a dar auxilio
á rainha contra mouros e christãos, e a não proteger

O bispo de ComposteUa dependia de Roma

pela pretenção de erigir a sua sé

em

arcebispa-

nem

dar accolhida aos seus vassallos reficou

do metropolitano, pretenção em que se empenhara para se eximir à supremacia do prelado
bracharense, e
o

bellados.

A condessa de Portugal também

de posse de Orense e de Tuy, que tinham dado
pretexto á guerra, que a pozera
e

papa deferiu-rha, fazendo-o
de Raymundes no throno de
dos jui-amentos

em

grave perigo

prometter que

invidaria os melhores esforços
filho

acabara

em maior

felicidade.

para sentar o
Affonso
VI,

Depois d'este tractado, D. Urraca não poude
tornar a inquietar a irmã,

e despensando-o

embora esta

se lhe

de fidelidade a D. Urraca, l^om esta despensa e

mostrasse tão ingrata e desleal, que apenas a

Historia de Portugal
viu pássaro Minho, logo se liandoiou
iiiimiíios, qu(> oní Oalliza, e

41
(Jailiza até

depois

rom os seus nas dutras pmoxito Affonso

ritorio,

que se estendia pela

ao Vibey,

tocava no Tejo e abarcava alguns districtos de

vinrias da nioiiai-cliia, roíiscguirani (lucliraiilarItip

Leão, jiiigou-se

com

forças |)ara desmascarar a

a aurtoridade, oppondo-Iiic
;'i

com

sua

politica,

w

direita ao fito e

negar a subordi-

Haimundps, rliogado
af(''122C, aiino

maioridado. Desde 1521
a raiidia, o seu vi-

nação a D. Lrraca e ao seu herdeiro, que, todavia,

em

(|ue

morreu

reconhecera pelo tractado de 1121. Negou-a

ver

foi

uma

luita eontinua

e os súbditos alTrontados

eom o marido, o filho, rom o valimento de l'e-

na paz, procedendo como solierana independente,
e aprestou-se para escrever
carta de emanci]iação.

com

a espada a sua

dro de Lara; e a infanta de Portugal, aflaslada
d'essas hirtas, aproveitou a tranquillidade para

Mas os aprestos foram

inetlicazes. Affonso vii,

eonsolidar o poder, estreitar os laços que a pren-

logo que por morte de sua mãe,

em

112tí, .subiu

diam aos portuguezes, c adiantar a obra da unidade moral
e soeial,

ao throno e debellou a sedição de Pedro de Lara,
voltou os olhos para o occidcnte da Península e
attentou

que devia preparar a da

iii-

depeudenria dos seus estados. Kssa unidade já

no

(jue

se passava.
tia,

A

princípio

foi

ha muito eomeçàra a manifestar-se. Os fidalgos
e os roncelhos dependentes do ronde Henrique e

brando para com a
hostilisal-a,

porque lhe não convinha

quando precisava de todo o esforço

de sua viuva, se

travavam

pleitos

bem tinham desintelligencias e á mão armada, uniam-se todos
intervir nas discórdias in-

para cortar o passo a Affonso de Aragão, que lhe
invadira os estados, e avistou-se amigavelmente

quando se tractava de

com

ella

em Zamora

para tractar dos negócios

ternas da monarchia leoneza-castelhana, e todos

d'ambos. Como, porém, a entrevista o deixou

seguiam a mesma bandeira, quer se desfraldasse
por Affonso d'Aragão, por D Urraca ou por Affonso
.

convencido de que D. Theresa firmara o propósito

de se esquivar á sujeição, apenas assentou

Raymundes. ^unca faltaram com

a fidelidade aos

tregoas

com o príncipe

aragoiiez,ísto é,

em

1127,
ci-

condes, seus chefes, quando elles se pozeram

em

veiu á Gallíza, juncton tropas, apossou-se das

campo para alargar

as fronteiras territoriaes ou

dades que alem do Minho obedeciam á condessa
de Portugal, para nunca mais lh'as restituir, e

proclamar a independência, e auxiliarani-lhes

sempre, se não lhes inspiraram, a ambição. Esta
concórdia era já urn principio de cohesão nacional.
tra

adiantando-separa o sul constrangeu a ambiciosa,

que já então se denominava rainha nos documentos olliciaes, a

Ao mesmo tempo que

se

apertavam uns conda

reconhecer a sua soberania para

os outros ]iara resistirem aos príncipes leone-

alcançar pazes. Este desastre atrazou por alguns

zes, seus verdadeiros soberanos, os habitantes

aunos a independência portugueza, e Affonso

vir

terra portugalense compraziara-se

em

attribuir

poude crer que de todo a evitara, porque na mesma
expedição

aos condes títulos e prerogalivas de soberania, e
conta-se que já

em

que venceu

e

reduziu D. Theresa,

em 1112 chamavam

rainlia a D.

conseguiu também, segundo a versão mais auctorisada, suhmetter Affonso Henriques e obrigal-o a
jurar,

Thereza,

se agastava.

em presença de sua irmã, que com isso Também se tinham acostumado a

dando fiadores do juramento, que quando

considerar estrangeiros os leonezes, os castelhanos, e até os gallegos, seus próximos visinhos, e

succedesse á

mãe

prestaria

homenagem, como

dependente, ao soberano de Leão e Castella.
Este idtimo accontecimento põe-nos
tacto

como como
cia

estrangeiro

foi

odiado Fernando Peres, e

em

con-

affronta aos nacionaes foi tida a sua influen-

com

os que

amarguraram os últimos dias da

no governo. Estas tendências, que D. Thereza

viuva de Henrique, e acabaram
verno.

desrespeitou poramor, acharam, todavia, collabo-

com o seu goO conde borgonhez deixara um filho varão,

ração zelosa e direcção hábil no seu orgulho, no

x\ffonso Henriques, nascido

em 11 10 ou

1111, que

seu gosto pela dominação e no rancor que votara

portanto contava dois ou três annos quando ficou

áirmã. A infanta

identifi('ou-se

com

os subditos.

sem

pae.

O

infante foi creado por
e

um

fidalgo de

E quando, restabelecida do susto qm' lhe causara
a invasão de 1121, viu estremíilíidòpor

illustre

linhagem

de nobre coração, E.sas Mo-

um ven-

niz, e

provavelmente viveu afastado da mãe, cuja

daval desfeito o throno,
gar-se, e fortalecido o seu

dtf'^'tr6

pretendia deslivasto ter-

Índole excluía os disvellos da maternidade, e até

mando n'um

á edade de quatorze annos, ou antes até

1

1

25, não

VOL.

I

C.

42
figurou na politica. N'esle aiino,
tecostes,

Historia de Portugal
em
dia de Pene jurando,

como

vassallo, guardar-lhe fidelidade.
foi

amiou-se cavalleiro na cathedraJ de Zaelle

AlTonso vn acceitou o offerecimento, que
jecto de

ob-

mora, tirando
tar

próprio a espada de cima do al-

um

tractado, e,

como

era

duso na epo-

de

S.

Salvador,

como usavam

fazer os príncipes
ijue

cha, trocaram-se fiadores do
tractado, sendo

cumprimento d'esse

que de ninyueni dependiam, o

denota que já
le-

um

d'elles,

por parte do filho de
aio Egas Moniz, que

ao seu animo juveniL^viam sido inspiradas
vantadas ambições. Este acto prova
propósito lios

D. Thereza, o seu

amo ou

também

o

estava
rei

com

elle

dentro dos muros assediados.

O

homens que dirigiam

Affonso, de

leonez retirou-se então.

Tempos depois

suc-

dar por acabada a sua infância e

iiabilital-o

para

cedeu que Affonso Henriques, vendo-se distanciado do perigo que correra, se esquecesse das

desempenhar uma missão no estado,

e é de crer

que essa missão fosse a de assumir a aucloridade

condições
pleito

com que

lhe escapara e renovasse o

que D. Thereza ainda exercia. Os amores da condessa

da independência com tão varia fortuna deque era franca viola-

com Fernando

Peres, que ella elevara a

riniido já por seus pães, o

uma

posição superiora de todos os barões portu-

ção do pacto que jurara e que Egas Moniz afliançára.

guezes e quasi egual á sua, e a

quem

se entre-

Assim o entendeu este varão perclaro, enão
da lealdade do que as suggestões

gara de corpo e alma a ponto de terem acreditado
alguns historiadores que o tomara por marido
esses amores, dizemos,
;

tendo meio de persuadir o pupillo a escutar antes os dictames

e o valimento politico

da ambição, condemnou-se pela culpa que não
era sua, sentenciou que não lhe bastava a vida

que

d'elles

dimanava, tinham descontentado proins-

fundamente os nobres, e o descontentamento

para desempenhar a honra, e
lhos
foi

com a esposa

e

fi-

pirou a muitos d'elles o plano de se gruparem

de liaraço ao pescoço, com a humildade
penitente e o heroísmo

em
rem

torno de AtTonso Henriques, de lhe adiantaa maioridade, e de o
effeito.

de

um

dum

martyr,

plano surtiu

oppòrem á mãe. Este Os inimigos de Fernando
partido, que intimou a

entregar-se à cólera de AlTonso vn.

Admirou o
macu-

monarrha
vilha

a rara austeridade, verdadeira mara-

formaram

um

numeroso

num

tempo cm que

a perlidia não

abdicação a D.
ella

Thereza, levanlanun-se contra

lava brazões

nem

deslustrava coroas, escusou o

por não obedecer á intimação, e parece que

sacriticio expiatório, e

despediu honrado o novo

em
reza

1127, quando Allbnso vn entrou

em

Portu-

llegulus, cuja façanha, por desapreço do século

gal, já

andavam em guerra os parciaes de Thecom o bando que titiha por bandeira o nome
de seu
fllliu.

que não sabia louvores senão para as lançadas
de matamouros, só leve por monumento o tosco
e gasto lavor

e o din^ilo

d'uma pedra tumular, escurecida
vii

Os historiadores que fazem datar de 1127 a
guerra
S.
civil,

nos carneiros de Paço de Souza.
Retirando-se Affonso
as

que

afinal se decidiu

na batalha de

para a sua corte cora
fi-

Mamede, dizem que

o rei de Leão e (laslella

promessas de subjeição de Thereza e do

encontrái-a Affonso Henriques e os seus

em

Gui-

lho, desaffogaram-se os partidos portuguezes

que

marães, que, não descriminando as responsabili-

achara

em

armas.

Em

1128 Affonso Henriques

dades do

filho

das da mãe, pozera cerco á cidade,

achava-se

em

Braga, rodeiado dos seus partidá-

e que d'este cerco tirara origem o acto singular

rios, entre os

quaes se assignalavam, pela no-

de lealdade, que depois ennobreceu o nome de

breza e pelo poderio, o arcebispo bracarense, seu

Egas Moniz. Succedesseo caso n'esta conjunctura
c n'este

anno ou posteriormente, a tradição
ijue

irmão Sueiro Mendes, Ermigio Moniz, Garcia Soares e

Sancho Nunes,

e alli declarava o

seu pro-

porque não é historia escrlpta

— narra-odo seguinte modo
sitiado

o documenta

pósito de se apoderar do governo e fazia

mer-

:

Affonso Henriques,
vii,

cês

como

se o tivesse já.

De Braga, a revolução

em Guimarães

por Affonso

tendo esgo-

estendeu-se pelas terras
e ainda
fjo

dEntnMMLnho

e Douro,
se encon-

tado a resistência e vendo-se a pique da necessi-

mesmo anno as suas forças

dade de se entregar á discrição, offereceu ao siiia(lor, para que lhe deixasse a liberdade, os bens
(]ue

traram cofpsg de D. Thereza no campo de S.

Mamede,
pelos

perto de, Guimarães, auxiliadas estas
d^arnias de Fernando Peres e de

possuia ou andava revindicando, reconhe-

homens

cendo a sua soberania, desde Jogo ou no futuro,

outros fidalgos gallegos, vindos a Portugal

como

Historia de Portugal
pura acabarem de inimizar os ])Ovos
dessa, que os
fiuerra (]ue
cisiva,
i).

43

(•oin

a cona

A

rei)ellião

de Allbnso Henriques, suggerida e

prot('f,'ia,

e

darem còr nacional
lialallia foi

apoiada pelo povo, contra D. Tliereza, pôde considerar-se

llie

movia Allbnso. A

de-

como um dos
para

primeiros, senão

como

TiuM'eza, (ies])araladas as suas tropas,
foi

o primeiro acto da autonomia dos portu;juezes.

liouve de fugir, e na fufja
lillio,

aprisionada pelo

Tomaram armas
dessa,

mudarem de governo, mas
se a considerassem in-

de

quem

a tradição conia ([ue fechou a mãe,
catieias,

não pediram a Allbnso vn que depuzesse a con-

carrefiada de

no castelio de Lanhoso,

como teriam

f<'ito

contrariando os documentos, que asseveram que

vestida no cargo por auctoridade do imperador.

apenas a expulsou do paiz.
este

li

certo,

porem, que
da

O

pleito decidiu-se

de portas a dentro, sem que ne-

desastre

(lòz

termo á

carreii'a politica

viuva do conde iienrii|ue,

e(|ui',

presa ou exilada

nhum dos pleiteantes invocasse intervenção estranha. U monanha leoiiez, i'ntrando em Portugal,
teve por inimigos os dois Ijandos que se degla-

morreu obscuramente em IKiU, lendd |]enlido por cegueira (Famor o respeito e a alTei(;ão dos
súbditos, que ganhara e merecera

diavam. And)OS o consideraram como
nho,

um

estra-

em

14 annos

de governo, constantemente dirigido pelo pensa-

nenhum consentiu, movido iioraniLição, em fortalecer-se com o seu patrocínio. E ((ue o sentimento da independência animava
nunca esmorecido,
já todos os co-

mento de

constituir e

emancipara nacionalidade

portugueza. Perdôe-lhc a historia,

em

attenção a

rações, e esse sentimento unanime, vehemente,
foi

esse pensamento grandioso, as fraquezas feminis;

o verdadeiro titulo da nacio-

perdôe-lhe,

em

atten(;ão á rudeza dos

tempos, a

nalidade portugueza.

A

philosophia da historia

indignidade dos meios de que se soccorreu a sua

considera-o mais legitimo e irrefragavel do que os
tractados asselJados por soberanos

ambição legitima

;

e cinzelem os portuguezes o

com

os punbos

nome de
tria.

D. Tiíereza no portal do templo da pá-

das espadas victoriosas, porque a vontade dos

povos é a única fonte pm'a do direito

politico.

LI^V^I^O II
^ffonso I

CAPITULO

I

pério, de

uma

creança contra uni gigante, ,efi

historia da idade media, imraeusa tela escura

da

Relações de Portugal com a monarchia
leoneza-castelliana

qual se destacam radiosas figuras épicas, houve

de desenrolar-se para estampar no plano mais
illuminado pela luz da gloria os vultos impávidos

Quando

Aflbiíso Henriques se apossou violenta-

dos fundadores de Portugal.

mente do governo contava dezesete para dezoito
annos, e se tão curta edade não obstava a que
fosse galhardo cavaUeiro,

Não podendo esperar que durassem
a cujas condições determinaram
faltar,

as pazes

Affonso

porque de pequeno se
de

Henriques e os seus capitães, logo que serenaram
as perturbações occasionadas pela deposição de
D. Thereza, foram attacar
attacal-os.

familiarisára

com

os lances arriscados dos torfalta

neios e das batalhas, inhabilitava-o por

quem não

tardaria a

madureza de

espirito,

embora

fosse de claro en-

Em

1130 tropas portuguezas passaram

genho, e de auetoridade moral, apezar do nasci-

o Minho e entraram na Galliza, pretextando revindicar a posse das terras, que n'esta província

mento, para dirigir o génesis d'uma nacionali-

dade

e

cumprir os encargos da

heran(,-a letigiosa,

haviam sido cedidas

á viuva de Henrique, e a
,

que tão cedo houvera ás mãos. Assim como
fora instrumento do povo e dos nohres, descontentes
res,

empreza pareceu auspiciosa porque o
linha os braços presos na briga

rei

de Leão

em que andava

com

D. Ttieresa e ciosos de Fernando, Pe((ue

com o
Lara,

padrasto e

com

os parciaes de Pedi'0 de

na guerra
inspira(,'ão

movera á mãe,
e deu-os

foi

guiado pela

amante de sua mãe. Mas a Galliza tinha

sua

nos primeiros passos que deu de-

fronteiros de grande valor e poderio, leaes ao

pois de emancipado,

na senda que seus
:

soberano, e elles e o conde Fernando Peres, que
linha duas vinganças a exercer, cortaram o ca-

pães haviam traçado e aplanado

tanto é certo

que o desejo da independência era

um

senti-

minho aos
as traições

invasores, os quaes, não tendo encon-

mento dos portuguezes,

e

não só uma aspira-

trado, para os ajudar na invasão, as adhesões

ou

ção ambiciosa dos seus chefes, e

um

sentimento

em

que se haviam
e a desistir

fiado,

foram obri-

constante que passava de geração para geração
e se affervorava

gados a retroceder
Este revez
foi

da aventura.

com

as contrariedades.

O moço

seguido por algum tempo de

infante e os .seus conselheiros consideraram rmllos os Iraiaados

paz entre os visinhos, o (|ue permittiu ao infante

humilhantes impostos por Af-

apagar a labareda de rebellião que rebentara
Seia, e que

em

fonso vn

em

1

127, porque tinham sido dictados

Bermudo Peres, irmão de Fernando,

pela força ovante e acceitos pela necessidade da

esperara converter

em

incêndio. Perto de 1135
Lialliza.

fraqueza, e

de

um

começou então uma lucta desegual, punhado de homens contra um vasto im-

renovou-se a guerra na

Attbnso de Por-

tugal penetrou, sem ter sido hostilisado, nas terras

Historia
(!(•

<ie

Portu^l

46

I.iiuia,

mus

foi

expulso pvlos coinlcs Fernando

l'etcsc Hodrifio
ilt!

\'ellii.

Ueputiua

teiituliva,

depois

de t;erneja, e lendo ganho vantagens importantes sobre Garcia. deliLerou acudir ã Galliza. Veiu
effectivamente a esta provinciíi, onde já não en1'ontrou o primo, recuperou Tuy e outras cidades

se ter reforçado, c ol)tt'\e o priMiiio da perseve-

rança, batendo os fronteiros e assenlioreando-se
lie

extenso território, para euju defensão futura

que linha penlido,

e propòz-se a

pagar a

visita

ediru;ou á pressa o castello de Colmes.

Não o conservaram, porem, por muito lempo os homens

devastadora que recebera, e sendo possível arefreiar para sempre, com duro castigo, a audácia

d'arnias, a
^-al,

quem

o

eiilrej:;ou
vii

ao voltar a l'ortuelle a

porque AfTonso

veia sobre

marchas

da gente porlugueza. N'este propósito onlenou aos nobres, condes, alcaides e umnicipios que

for(;adas, pôz-lho sitio, entrou-o,'c os defensores
lie

(lelmes,

numerosos

e illusires,

(

aliiram pri-

soiite

reunissem os seus homens de armas, e no horide Portugal encaslellaram-se as nuvens
cré, AlTonso Henriques, a

sioneiros.

percursoras de pavorosa borrasca. Assustou-se,

damno e desaire não jioude ser vingado senão em 1137. O infante travou allianija n'este anuo com (íarcia, a quem por morte de .^fHste

segundo se

quem

os

sarracenos não

davam tregoas

e

que não podia

com

o peso de duas guerras, e abateu a arrogân-

fonso

I

de Aragão

e por divisão dos seus esta-

cia antes

que Ufa abatesse

um

desbarato. Pediu

dos coubera a coroa de Navarra. U poderoso e

pazes,

foi

a Tuy negocial-as

com

Allonso

vii,

e

soberbo

monanha

leouez eonstraugèra o seu vi-

n'esta cidade, estando presentes os prelados de

sinlio pela parte

do oriente a prestar-lhc vassalae
elle,

Segóvia, Orense e Tuy, e os de Braga e do Porto,

gem
com

e prometter-lhe tributo,

soffrendo

assignou-se

um

maio jugo,

relacionou-se, no intento de sacudil-o,

rou amisade ao

rei

convénio pelo qual o infante jude Leão e Castella, e promet-

Affonso Henriques, que se encontrava

cm

teu respeitar-lhe os territórios, soccorrel-o contra

posição análoga á sua, e

ambos

se concertaram

mouros e

christãos, reprimir qualquer

damno

para apertarem enlre as armas o oppresspr com-

muui, attacando-osimultani'araeute, qualnafrouteira oriental qual

ou olTensa que lhe fizessem os seus barões, e restituir as terras que d'elle conservava, quando Um;
fossem pedidas. Este couvenio, celebrado

uu do occidente. As esperançai
offe-

em

i

que este concerto inspirava cresceram com o
reeimento que fizeram os condes

de juUiO de 1137
e cincoenta

e firmado pelo infante e cento

Gomes Nunes,
\'elloso,

dos seus homens bons, fez retroceder

do

districlo

de Tuy, e Rodrigo Peres

da

o pleito da independência ao estado

em

que o

terra
tra

de Limia, de ajudarem os portuguezes conVII,

tinham deixado os tractados consequentes aos
desastres de 11
-26.

AQbnso

com

o qual por motivos desconhe-

Portugal reconheceu-se outra
vi

cidos se tinham malquistado, e o infante passou

vez tão dependente da coroa de Affonso

coma

confiadamente o Minho. Não confiou
Ijurcia

em vão. Nem

de Navarra faltou a operar a diversão que

que este monarcha entregara o seu governo ao conde borgonhez, e ficou estéril o no tempo sangue vertido a jorros para converter
portugueza.

em

proniettéra,

nem

os fidalgos gallegos faltaram a

em direito,

jeunir-se ao infante

com

as suas tropas, e o exer-

respeitado pela força, o facto da nacionalida4e

cito jiortugueí entrou facilmente

em Tuy. Em see

guida venceu
castello

Fernando .Vnnes, governador do

Accusaremos de fraqueza Affonso Henriques
e os seus barões
stancias,
í"

de Allary, desbaratou Fernando Peres

Seria desconhecer as circura-

Rodrigo Vella

em

Cerneja, entrou

atii

ao coração

da Galliza, e mais longe
riiiues se

teria ido se Affonso

Hen-

não tivesse visto compellido a acudir
dos seus estados, onde os

que pareciam tornar impossível, sem ajuda d"um prodígio, o desmenbramento de Portugal do vasto império de Affonso vii. Õ monarcha, a cuja coroa se queria partir

á fronteira meridional

um

florão,

sarracenos haviam

feito

uma

entrada para se

apoderarem do

castello de Leiria. A seu tempo narraremos este desastre, que impediu que proseguisse a conquista de (.lalliza.

era imi dos mais poderosos da chrislaudade. Aos reinos de Leão e liastella, herdados de sua mãe,

accresceulàra novas possessões.
Ihe,

Subjeitara-se-

embora constrangida, a Navarra, n duque
e alguns

Ouasi ao

mesmo tempo em que o
vil

infante se

de liarcelona

senhores de terras d'alem

r£colto, ^ffQQso

recebia nolicj^ .da j)^ta^l,a

dos Pyrcaeos, como o conde de ToJps^, tinbiuuT^e

46

Historia de Portugal
castello

declarado seus vassallos, e este exemplo fora se-

de Penna da Rainha, mandou adiante
;

guido por príncipes mussuJmanos, seus visinhos.
Saragoça, capital de Aragão, abrira-lhe as portas,

um

dos seus capitães, o conde Radimiro

mas ao

encontro do conde sahiu AlTonso Henriques, que
deliberara resistir

depois da morte do lidador Affonso
via

i.

Não ha-

com

todas as forças á invasão,

em Ucspanba

poderio que se medisse

com o

d'elle; e

audácia que Ibe affrontasse e lhe pro-

não podendo esperar que outra vez lhe acceitassem pazes, e a avançada do exercito real foi
derrotada. Os vencedores dirigiram-se então para

vocasse a cólera, recusando-llie o preito que outros

povos lhe oirereciam espontaneamente, só havia a dos portuguezes. No combate do mos-

Valdevez, e defrontaram
Atfonso
VII.

com o acampamento de

quito

com o

em

liça

leão não se oppõe força á força como ou estacada, fere-se quando se pôde feferir

Em

quanto as duas hostes se preparavam para

o combate decisivo que

ambas pareciam

recciar,

rir a

salvamento, e foge-se para outra vez

os cavalleiros portuguezes e os seus contrários

de súbito. Assim combatia AfFonso Henriques.
Attacava quando via o inimigo coUossal despre-

converteram

em

liça a

veiga do Vez, que sepa-

rava os arraiaes, e ahi os mais afamados d 'entre

vinidoda defeza, retirava seelle corria às armas,
mirrava-sc

uns e outros pelo valor do braço, disputaram

com o chão

se era investido por elle,

primazias

e apenas o via voltar costas erguia-se de novo e

em ameudadas justas, que erara ao mesmo tempo preludio de batalha e festa belli-

cravava-lhe a lança na espádua. Não poderia

cosa, consoante aos costumes rudes da epocha.

mais o mais indómito valor. Deixar-se esmagar

mordendo no calcanhar, receber a ponta do punhal na garganta sem pedir misericórdia, é façanha para gladiadores, mas não para povos que
pelejam pela vida do direito, ou príncipes que são cabeças e braços de povos. O convénio de 1137
foi

A victoria coube aos campeões do infante; segundo as leis da cavallaria ficaram prisioneiros fidalgos tão illustres como Fernando Furtado, irmão natural de Fernando vii, e Bermudo Peres,
e este acontecimento, de
ria

que ainda ha memo-

no

local

que lhe serviu de Iheatro, seguindo

acto de boa politica, e a doblez que o assignou
afiar

de perto a derrota do conde Radimiro, quebrantou os ânimos dos leonezes de
tal

e

foi

a espada para raspar a assignatura,
cria de-

modo que o
officios

desculpa-se

veres

com a coacção, que não que durem mais do que ella.

combate
gou a

geral,

que parecia imminente, não che-

ferir-se, e

medeiando os bons

do

A paz que

se lhe seguiu só foi, portanto, prepa-

arcebispo

de Braga ajustou-se

um

armistício,

ração para a guerra, e os cavalleiros portuguezes,

depois do qual o rei de Leão se pôz

em marcha

para não affrouxarem os músculos d'aço cora a
inacção passaram o anno de 11 38 e parte de
,

para voltar à Galliza. É de crer que para este ines-

1

1

39

perado desenlace concorressem acontecimentos
internos da monarchia visinha, que reclamassem

em

entradas e correrias pelo território mussula

mano, vencendo sob o commando de Affonso
batalha de Ourique. Alentado, talvez,
victoria,

a presença do

monarcha e das suas tropas em

com

esta

ponto distante de Portugal.

o infante rompeu as hostilidades

Affonso

VII

para rasgar o tractado humilhante,

que nunca se lhe conciUára o animo, e
1
1

com com ainda em
,

O

armistício ajustado

em

Valdevez fora con-

siderado preliminar de pazes definitivas, cujas

condições posteriormente deviam ser estatuídas,
e estas pazes vieram a fazer-se

39 invadiu a Galliza e occupou Tuy; não foi porém, feliz contra Fernando Annes,queselheopcompanheiros d*armas

em

1143. Desde
até esta data,

os combates nas margens do Affonso Henriques

Lima

pôz, e sahiu do encontro ferido e deixando muitos dos seus

augmentára os créditos de

em

poder do

guerreiro formidável e de inimigo perigoso, á
custa dos sarracenos, e dilatara os seus esta-

inimigo. Este castigo não pareceu bastante ao
rei leonez.

Largou a guerra, que trazia com os
e

dos pelo

sul.

A nacionalidade portugueza

conti-

mussulmanos
por sua vez

com

Garcia de Navarra, entrou
foi

nuara a affirmar-se como

um

facto pela estreita

em

Portugal e

devastando as

união dos seus elementos constitutivos, e a separação de Portugal da monarchia leoneza a ser
real,

terras e entrando os castellos,

que encontrou na

sua marcha triumphante, até se aproximar das

apesar dos tractados, porque

nem

o seu

margens do Lima. .\campando então

em frente do

pendão se vira ntmca levantado fora da fronteira

Historia de Portugal
senão como inimigo, ncmi o seu chefe apparccéra

47
infante, por ser neto do rei.

permittiu ao primo chamar-sc príncipe dos por-

na corte de Toledo ou nas
presididas por Allonso
vii,

assend)l(?a.s politicas

tuguezes,
Atlbnso
VII

mas s6

neni

este príncipe

estava (•onvencido provavelmente, de

reccbôra dos súbditos iioniinaes, ijue

moravam

que não podia obstar á desannexação da' terra
portugalense, e só lhe impôz condições, consentindo n'ella, para parecer que não renunciava a

desde o Minho ao

Tiíjo,

tributo

que não fosse

pago ás lançadas nos
tra parte o

campos de

batalha. Por oufdlio

imperador, (assim se chamava o

um direito da sua coroa, embora soubesse ofi pnevisse qui! taes condições não seriam cumpridas.

de D. Urraca) a

quem

a vastidão dos estados

e a visinhança dos nmssulmanos e do rei de

O

tractado de

1843 pode,

pois, considerar-se

o

Navarra traziam
porfiosa lucta

em

incessante

inquietação e

diploma da constituição do reino de Portugal.
Por onde passava a linha das fronteiras d'este
reino no

com inimigos de

fora e de dentro,

devia desejar quanto possível pór termo ás contendas derivadas da posse de Portugal, que valia pouco, para

momento de
ou se

se

desmembrar da mo-

narchia de Leão e Gastella? Não é de crfr que
estivesse feita
fizesse

quem

tinha tanto

com

elle, e

custava

em Zamora uma
confinava

de-

muito, listas e aquellas razões, e porventura outras,

marcação rigorosa do
Henriques, na parte

território sujeito a Affonso

que se ignoram, ])arecem

ter

mudado
vii

pro-

em que

com

o ter-

fmulaniente as disposições de AlTonso

para

ritório leonez; todavia os

documentos antigos perl)alizas

com seu primo
rem

;

e o certo é

se junctaram os príncipes as pazes (|ue

que em 1 143 e quando em Zamora para firma-

mittem marcar como que as principaes que separavam

um

do outro. Eram

ellas,

ao norte

haviam convencionado, como
ini-

e nordeste, a foz do Minho, Contracta, (Valença),

que se tinha apagado a memoria da antiga

a terra dos Valladares, onde posteriormente se

mizade, que já antes d'elles desunira seus pães,

fundou Melgaço, Montalegre, Bragança, povoações que incontestavelmente d(!pendiam no fim

porque o imperador reconheceu a Affonso Henriques,

com uma

facilidade

que surprehende o
dos portuguezes,

do século

XII

da coroa portugueza. Pelo oriente,

historiador,

o titulo

de

rei

Portugal era limitado pelo Côa, desde o Douro até

dando-lbe ainda por cima o senhorio d'Astorga.
Este reconhecimento consumniou a separação

á confluência de Pinhel, e a sua ultima povoação

no angulo do nonieste era Numão. Depois de Nu-

material de Portugal,

embora AÍTonso

i

não

al-

mão

a fronteira rasava por .Marialva, descia pelo

cançasse por

elle

a total independência politica,

território

da Covilhã até junto das fontes do Elga,
este rio sobre o Tejo.

antes licasse de algum fonso vn,

modo subordinado

a Af-

e cabia

com

O

território

como o

era já, por exemplo, o rei de

da Cuarda, Sortelha, Penamacor e Monsancto es-

Navarra, que não tinha sido afortunado na tentativa para se isentar

tavam

em terra portugueza

;

Castello-Bom, Villar-

da vassalagem. Essa suborfoi

maior. Sabugal, Alfayates,

em território de Leão.

dinação, porem, pouco pesou e
nal e ephemera.

apenas nomi-

Ao

sul

do Tejo a raia variava com a fortuna das

A

declaração da independência,

armas, porque era incessantemente disputada por
christãos e
ria

que não poude ser inciuida no tractado de Zamora, fel-a

mussulmanos

;

demarcal-a-ha a histo-

o

rei

posteriormente pelos seus actos,
disputada. As guerras

das conquistas de .\£fonso Henriques. (Juanto

e quasi

não

foi

em

que

ao senhorio d'Astorga, dado a este príncipe por
Affonso
foi-lhe
VII,

depois de 1143 se

empenhou contra

os monar-

certamente como feudo da sua coroa,
tirado, talvez

chas leonezes foram já guerras de potencias e

promptamente

em

conse-

não de vassallo e suzerano, e tiveram motivos estranhos ao pleito suscitado pelo conde Henrique.

quência dos acontecimentos de que vamos dar
noticia.

O

titulo

de

rei

dado a Affonso Henriques era, no

CAPITULO

II
I

conceito do povo, que primeiro

lho concedeu
paiz, e o

como

cônscio da sua soberania, o symbolo da

autonomia e da independência do

impe-

Relações politicas de Affo&BO oom a c6rte de Roma

rador, acceitando o symbolo, conformou-se

com

Na edade media a

força material
direito e

foi,

mais do

a idêa, tanto mais claramente quanto se

deduz
sequer

que nunca, origem do

fundamento do

dos documentos que annos antes

nem

poder: todavia, a força moral do catholiciamo

48
nisou
a

Historia de Portugal
papa Inncencio
ii,

que vencera os vencedores do Império, enthro-

e offereceu o seu reino á egreja

uma auctoridade politica, que sem florear espada nem capitanear legiões sobrepojou a
domou
a audácia dos

de Roma, obrigando-se a pagar o tributo annual de quatro onças de ouro e a não reco-

soberbia 'dos principes,

paladinos, arrebanhou povos turl)ulentos, deu e
tirou coroas, dividiu e
Ifeou

nhecer dominio secular ou ccciesiastico, que não fosse o dos successores de S. Pedro; jurou cumprir os deveres, que por esta declara-

demarcou estados, humique entestava com o

poderosos, exalçou humildes, e teve por

ção de vassalagem se impuzera espontaneamente,

cortejo de sua grandeza,

nas mãos do cardeal lluido, legado apostólico
;

céu, todas as grandezas da terra. Essa aucto-

na Hespanha

e feito isto aproveitou a primeira
vii

ridade

foi

o papado romano. Os publicistas, que

occasião opportuna para notificar a AlTonso

o censuram por haver conspirado contra a liber-

que estava dispensado da subordinação que lhe
promettera, a qual, segundo parece, o obrigava

dade humana, confessam, todavia, que o predomínio de que veiu a abusar não
foi

usurpado,
ci-

à prestação do serviço militar, pelo facto Aé
se ter coliocado sob a suzerania da Santa Sé,

mas legitimamente

adquirido, por serviços á

vilisação, e livremente consentido, se

não

oíTe-

que excluía qualquer outra, segundo o Iheor da
phrase;
«fiz

recido, pela sociedade niedival. Antes que Gre-

gório

VII

concebesse o pensamento da dominação

o papa e

theocratica, já os reis e as nações

haviam erigido

dro e

á

homenagem a meu senhor e meu pae também offereço a minha terra a S. PeSanta egreja romana. de modo que
. .

a cadeira de S. Pedro

em

tribunal supremo, do

não receba nunca na minha terra o jugo de ne-

qual fiavam voluntariamente a decisão dos seus
pleitos, e os fracos tiça e os fortes

nhum domínio

secular ou ecciesiastíco, senão o

recommendavam-se á sua jus-

dos delegados da Sé apostólica.

desejavam a sua uncção. A his-

O papado, como

é de crer, acceitou o preito,
ii,

toria de Portugal,

como

quasi todos os estados
plos

como a de modernos, fornece exema de França,
í^u-

embora

interesseiro, do rei portuguez, e Lúcio
ii,

segundo successor de Celestino
no momento

morto quasi

do reconhecimento e da invocação da

premacia temporal dos pontifices pelos poderes
seculares,
altivo para

deu

em em maio de

que Afibnso lhe escrevia, respon1

144 louvando o vassallo pelo seu

e o próprio Affonso Henriques, tão

procedimento agradável a Deus e proveitoso para
os seus representantes na terra, relevando-lhe a
falta,

com

o soberano de Leão e (lastella e

tão zeloso pela independência nacional,

curvou

de que

elle se

desculpara, de não ter ido a
pessoal, e prometten-

o joelho diante

d'um successor d'Hildebrando,

Ruma

prestar

homenagem

como
terra,

vassallo submisso, dando-se-lhe

com

a sua

do-lhe as bênçãos especialíssimas que o papado

para que o defendesse

como

a cousa sua.

reserva para os seus mais dilectos filhos. (Juem,

Foi a piedade que lhe inspirou esta

gem?

Não, que os

homenaprimeiros monarchas por-

porem, não ficou

satisfeito
ii,

com o procedimento tão
vii.

louvado por Lúcio

foi

AlTonso

Apenas soube

tuguezes aspiraram mais ao heroísmo do que á

o que se havia passado, escreveu

também ao

O origem ifum
santidade.

acto apparentemente piedoso teve
calculo d'ambição. Affonso
i

papa, que jà era então liugenio in, o qual fora

não

acciamado

em

fevereiro de 1145, queixou-se-lhe
ler auctorísado

confiou no

tractado

de 1143. Receiou que o

amargamente de
gal

o

rei

de Portu-

imperador o rasgasse quando sentisse forças
para invadir Portugal, ou que quizcsse tornar
effectiva a soberania nominal, de

a altentar contra os direitos da sua coroa,

e offereceu provar,

sendo necessário, que o

trac-

que não qui-

tado de 1143 o não privara do dominio sobre este
reino.

zera despojar-se, e pensou

em

iinnular essa so-

Não obteve, porem, em resposta senão
affei-

berania oppondo-liie outra, menos onerosa, e que,

divagações palavrosas, que asseveravam a

não tendo meios materiaes para fazer cumprir
as

çâo particular de S. Pedro pelos monarchas leonezes, e a questão parece ter ficado aqui.

obrigações que d'ella dimanavam,

tivesse

A

côrlo

bastante prestigio moral para que a não dispu-

de Roma, provavelmente, impediu que
gredisse,

ella

pro-

tassem os reis leonezes, bons cathollcos e

te-

condescendendo com Affonso vn

em

mentes a Deus
livre,

e ao seu vigário.
,

Como
de

se fosse
i

algumas pretenções suas ou do clero do seu reino,
tal

escreveu

pois,

em dezembro

143 ao

como a do arcebispo de Toledo a

ser reconhe-

Historia de Portugal
eido molropolitano da Hospiínha c ]iortanto superior
(Ir

49
di'

conseguir ser embolsado da grossa quantia

em
I

jurisdicção Cfclpsiastira

ao prelado

que

S.

Pedro

já era credor.

Itrapi, c oí pontilires fifaraiii roíirJiderando

Kstas negociações

com

a Santa Sé

acabaram

Alloiiso
ellc

seu fciidatario

i-

tribulario,
julfíassein

sem que
dever ou

de consolidar o

throiio

de Aflbnso Henriques, e

ou os seus surressores

serviram, realmeiíle, para pôr termo ás |ireten-

poder ue^ar esta qualidade, doutro

modo que

ções dominadoras de

AfVon.-JO
foi

vn.

O ultimo mo-

não fosse

a

falta

de pagam(!nto do censo con-

mento
ni,

d'essas pretenções

a carta a Kugeiíio

vencionado.

de que opportunamenie dêmos conta. Depois a independência de Portugal, á parte a sua

Seguro da protecção da Santa Sé, Affonso Henriipics

d'ella,

ainda quiz olilerd'ella mais alguma cousa.

subordinação a lloma, não tornou a ser disputada

\ carta de Lúcio, que mencionámos, sendo amaliilissima para com o vas.sailo de S. Pedro, não
lhe dava todavia o titulo de rei, apesar de reco-

nem

por actos de guerra
i

nem

por protestos di-

plomáticos, e AíTonso

voltou todas as suas at-

tcnções para a guerra contra os sarracenos, sobre
os quaes alcançou victorias sobre victorias, que

nhecido já

j)or .AtTonso vii,

mas simplesmente o

de dux portugallensis, talvez por se entender
lloma que só este convinha ao regente de
paiz que,

em

vieram a ser os melhores

titulos

da legitimidade

um

da sua dymnastia e da nacionalidade portugueza.

como feudo da Santa
politica.

Sé,

não tinha

Resumamos

a sua historia.

independência
tou

.\tTonso

não se conten-

com

elle e

doeu-se talvez de ver que o papa
serio a soberania

CAPITULO
A

1

II

tomava tanto a
otTerecida
:

que lhe fora

começava a

sentir as consequências
vi,

guerra com os sarracenos

do seu procedimento. O neto de Affonso

que

nunca se chamara senão infante ou príncipe, e
a

Quando se desmembrou o vasto império subjeito aos khalifas

quem

os súbditos de ha muito

saudavam como

de Córdova

e se

tornaram inde-

rei,

houve então de

sollicitard'aquelle

mesmo po-

pendentes os amires, que

em

seu

nome governaHespanha que

der que erigira

em

seu tutor o reconhecimento

vam

as províncias, a parte da

do
i's

titulo real

,

e

não lhe custou pouco a alcançal-o.

corresponde às modernas províncias do Alemtejo
e do Algarve cahiu sob a auctoridade dos ReniAlafftas,

papas negaram-lho teimosamente até 1179,

e elle, emfira, recorreu ao

meio que naquelle
jus-

que tinham a corte

em

Badajoz e se
dívidia-

tempo era o mais apropriado para alcançar
tiça

intitulavam amires do Gharb.
se então

O Gharb

ou benevolência do chefe da christandade.

em

três províncias

:

a de Alfaghar ou

(itTereceu a

Alexandre

iii

pagar-lhe o censo de

Chinchir, a de Al-kassr e a de Belatha.

Na

pri-

dois marcos

em

vez de quatro onças de ouro,

meira ficaram situadas as povoações de Faro
(Santa Maria i, Tavira iTabirai, Silves
Silb

fez-lhe a dadiva

só vez,

c esta generosidade enterneceu

a ponto de ser

uma Roma immediatamente expedida uma
de cem morabitinos de

e

Mertola (Mirtolah)

;

na segunda, as de Évora
Gantarat al-Se}'f
.

laborahi, Alcântara jah

Beja íBa-

buJla concedendo o titulo e a auctoridade real ao

Elvas ílelch

e Alcácer

lAlkassar: easprin-

duque portugalense,
ços que á
fé christã

em recompensa

dos servi-

cipaes cidades de Belatha

eram Lisboa
.

(Lix-

prestara combatendo intre-

bona ou Achbuna;

e

Santarém Chantarin
foi

pidamente os mussulmanos e cortando na ponta
do crescente que cobria terra hespanhola. Esta
bulia veiu a custar a Portugal cerca de oilo contos de réis, e o tributo de trezentos e vinte mil
réis

A

família dos Beni-AlatTtas

privada da posse

d'estes territórios pelos almoravides, que no fim

do século XI estenderam a sua dominação, desde a Africa, onde tivera origem, por toda a Hespa-

annuaes; mas Affonso Henriques, como que

nha mussulmana,

e o território que lhe obedecia

para castigar a avidez de Roma, deixou de pa-

repartiu-se pelos conquistadores. Mas a fortuna

gar este tributo logo que deixou de precisar da
protecção

dos almoravides teve rápido termo. Nascida d'u-

em

troco da qual o promeltèra, e

no

ma

revolução religiosa

e politica,

acabou-a outra

reinado de

.seu

successor, Sancho

i,

o famoso

revolução similhante. No principio do século xii

Innocencio ni teve não pequeno trabalho para
VOL.

um

berhér

illusire,

Abn Abdillah Mnhammed,

1—7.

50
fundou

Historia de Portugal
em
Africa

uma nova

seita religiosa, a

dos

coração do Gharb para vingar
rida a não leve que recebera.

com

dolorosa fese

unitários
te,

;ilmoiiadcsi

que engrossou rapidamen-

Deu mostras de

e

como

luivia feito AljduUali Il)u Sasiu, chefe

encaminhar para
Al-kassr, e

Silves, percorrendo terras

do

dos almoravides, passou da propaganda pela palavra á propaganda pela espada, e aproveitando-se das dissensões dos dominadores, venceu-os

vallaria, assustaram-se os inimigos

como levava comsigo numerosa cacom a incurque os velhos chronistas
é

cm

são, e concertaram-se para a ropellir cinco chefes

numerosos encontros,
e

fez-se acclamar khalila,

sarracenos,
reis,

chamam

moveu guerra de exterminio a Aly-lbn-Yusuf, príncipe lamtunita, n'uma e outra margem do
Mediterrâneo.

achando cinco onde
tão rápida a

duvidoso se existia

um. Fora

A

sorte das

armas favoreceu os

os infleis só

marcha de Affonso, que poderam alcançal-o em tlurique, e

almohades, ajudaram-n'os as revoltas dos povos,
o império almoravidc começou a espedaçar-se, e o Gharb
foi

n'este logar, no dia 25 de julho de 1139, se feriu

uma

renhida batalha de que os portuguezes sa-

das primeiras províncias que sacu-

hiram vencedores, deixando montões de cadáveres por

diram o seu jugo. l'm general feliz, Seddaray ou Sid Ray, assenhoreou-se de Badajoz e de quasi
todo o território que linha esta cidade por cabeça, e outro, Ahraed Ibn Kasi talhou na vastidão do
(iliarb

monumento da

victoria.

Esta é a batalha que serviu de thema ao fana-

tismo religioso e patriótico para compor
lenda, cjue a credulidade aceitou por

uma
(Cou-

dogma.

um

estado independente,

i|lic

taram visionários que Jesus Ghristo se mostrara
a Affonso, referiram novelleiros que os mussul-

teve Mertola por capital.

A Hespanha nuissulmana arruinava-se por suas mãos e parecia dispensar os christãos de a
acabarem; todavia, os sarracenos da fronteira
poi'lugueza fizeram

manos eram mais em Ourique do que são
trellas

as es-

no céu,

e deu-se

por assentado que não

fora o esforço de braço

uma

grave aflVonta a Affonso

contenda,

humano (jue decidira a mas sim a espada llammigera do Seomnipo-

Henriques nos primeiros tempos do seu governo. Tinha elle fundado cm 1135 o castcllo de Leiria,

idior dos exércitos, ao qual, apesar de
tente, custara

um

dia inteiro de lide o milagre

que pela elevação e aspereza do monte, que lhe
servia de fundamento, e pela sua situação
ei'a

de desbaratar .Mafoma. Fraudes ridículas,

com

que
qui!

a historia se enfeitou

para pai'ccer epopèa, e

um

formidável padrasto, destinado a conter as
infleis

não gloritícam Deus nem engrandecem os
as tiveram talvez os seus

invasões dos

e a ser

base de operações

homens! Por piedosas

contra elles, e entregara a sua defensa a Paio
Guterres, cavalleiro de grande esforço. Guterres
flagellava os inimigos

inventores; por absurdas as regeitou ha nniilo a
scicncia, e por irreverentes as reprova a religião

com

frequentes correrias,

de amor e de misericórdia.
i[ue,

(•

Crucificado d'Uuri-

e elles, por livrarem-se

de tão iiicommoda visileva-

que desjirega a mão da cruz para ordenar
infleis, é

nhança, movei-ani-se

em 1 137 contra Leiria,
passaram
á

com um aceno o exterminio dos
cordeiro, que

o car-

ram

d'assalto o castello e

espada a
derro-

rasco divino dos in(iuisidores e não o

manso

guarnição, quasi ao

mesmo tempo cm que

adoravam os martyres

christãos.

tavam perlo de Thoinar
se pozéra

um

cor])0 d'e.xercito,

que

Os e\angelistas não o conheceram, Maria não o

em marcha

para i-ebater a invasão.

amon,
feito á

o coração

Foi este o successo desastroso, que compelliu

AtTonso a desistir da começada cou(|uisla da
liza,

(lal-

mi'dia,
tadas,
toria

humano repelle-o. É um Deus imagem do homem rude e fero da edade um Ídolo modelado por mãos ensanguenaltar e

recolher-se ao reino e firmar pazes

com

o

que cahiu do

desappareceu da his-

primo. Assegurada a fronteira do norte, o infante

com

os seus milagres ferozes,

quando lhe

debcUou o perigo extremo cortando o passo aos
vencedores de Leiria, e applicou-se depois,

bateu

em

chapa a clara luz da razão. Foi a razão,

cm

a reprovada da egreja, que restituiu ao Ser Supi'e-

apparentes tregoas só interrompidas por escara-

mo aznagestade que lhe abatera a superstição,
da terra

eii-

muças na

raia, a

congregar forças com que desse
c

volveudo-o nas miserandas contendas dos vermes

no poder mussulmano largo

profundo golpe.

N'estcs preparativos gastou o anno de 1138, e

Uual fosse a importância militar e politica do

no seguinte atravessou o Tejo

e dirigiu-se ao

combate d 'Ourique dizom-n'o os conhecimeitíos

Historia de Portugal
(|n('
;i

51

scgiiiniiii ile perto.

AlTonso

Il('ririi]U('s

não

panha Abn-Zakaria Ibn-(ihanyyah. Este general
prestante tentou reduzir ã obdicncia Seddaray e
Ibn Kasi, que,

tiirdou a voltar aos seus
(li(;ão

dominios,

ijue a

expc-

não accrescentou apesar de ser affastado
lirai'ani tão

da fronteira, e os sarracenos não
ridos e desalentados

do-

rado de

liailajoz c

como dissemos, se haviam apodede Mertola, mas não o conserevolução na Andaluzia lhe

eom

a derrota, que não ten-

gnin, |iiirque
dislrahin
e

uma

tassem desforral-a
ri

ainda

no

anno de

Ii;i9.

as forças.
(|ue

Procurou então desunil-os

exereito portniruez,
IV)ra

sem

desran(;ar da aliíara.

conseguiu até

Seddaray

e Ornar Ibn Al-

em que
foi

ceilar louros ao sertão do Aleuilejo,

mnndliir,

que governava
:

Silves,

declarassem

encoiUrai'-se no norte eoni o de U. Attonso vii
lital-o

guerra
se

a Ibn Kasi

e o

amir de Mertola, vendoalliar-se

e

detidamente
d'este

em

\alilevez,

e logo ([ue
cliefe

em

jicrigo, ]iensou
i,

em

com

o rei de

houve noticia

movimento, o principal

Portugal. Allbnso

desoccupado dos negócios

vencido e dizem que ferido em Ourique, Esmar ou Ornar, accommetteu novamente o castelio de
Leiria,

com Leão,

acceitou a alliança, e os portuguezes

foram combater sarracenos ao lado de sarracenos. N'esta aventura abandonou-os, segundo parece, o valor inquebrantável

o qual

novamente

foi

entrado, ficando

Paio (lUtterres prisioneiro, e depois o de Trancoso, que teve sorte egual. Entretanto ajustou

com que defendiam
incommodos

os lares.

Ibn Kasi achou-os nuiis

MTonso o armistício que
Sendo-lhe

foi

preliminar das pazes
infiéis.

do que

úteis, e,

apesar de vencido pelos amires

de li 43 e desceu a abater a soberlia dos
fiel

de Badajoz e Silves, despediu-os ainda que

com

a fortuna, bateu-os

cm

dois en-

boa sombra,
sionado.

e

continuou só a lucta, até ser apriainda

contros e fel-os retroceder para o sul. Pouco depois |)assou da defeza á oITensa, e intentou fazerlh'a tal

Conseguindo fugir da prisão,

achou meio de converter

em

fortuna a sua ante-

que aprendessem com o seu estrago

a

rior desgraça. Foi à Africa pedir protecção a

Ab-

pronunciar
llie

com

terror o

nome de

Ibn-Errik, que
ar-

du-1-mumem, chefe dos almohades, que

já então

davam. Tendo fundeado no Douro uma

estavam senhores de Marrocos. Deu-l}i'ao amir,
enviando três expedições á Península, e os seus
generaes restituíram Mertola a seu dono, mas
subjeitaram grande parte da Hespanha mussul-

mada que

transportava cruzados francezes para a

Syria, propòz-lhes ajudarem-n'o

num

commettitão

mento contra os mussulmanos de Santarém,
inimigos de Deus
foi

como

os da Syria, e a proposta

mana, entraram em
tar e

Silves,

que

foi

incluída nos

acceita.

A

esquadra velejou para o Tejo, os

estados de Ibn Kasi, obrigaram Seddaray a pres-

francezes desembarcaram e
tropas portuguezas,
sitio
il

deram

as

mãos

ás

homenagem

ao novo soberano de Marrocos,

e

o exercito christão pôz
n'ella

sahindo depois do (iharb foram levar a outra

forte cidade.

Mas Abn-Zakaria, que

parte a guerra.

governava, defendeu-se valorosamente ajudado
pela natureza, e o sitio

Estas discórdias, que adiantavam a decadência

houve de ser levantado,

do islamismo

e lhe

consumiam

as forças tão

d;mdo-se os sitiadores por contentes com a devastaç;ão

necessárias para resistir ao poder crescente dos
christãos, fizeram que o rei de Portugal conce-

que fizeram nos seus arredores e os desestes acontei,

pojos que n'ella arrecadaram.

besse a esperança de reduzir a província de Belatha,

O anno de 1143, que veiu sobre
cimentos,
foi

que lhe limitava o reino pelo
civil,

sul.

Esta

de ventura para Afibnso

([ue n'elle

província escapara á guerra

mas

estava

viu reconhecida a sua realeza pelo tractado de

como que

isolada e entregue aos próprios recur-

Zamora,

e

com

essa ventura aproveitaram os seus

sos, que, se

não eram pequenos, não pareceram

vizinhos pela parte do sul, porque não foram por

inferiores á audácia de Affonso. Consistiam elles,

algum tempo inquietados por nenhuma empreza
importante.

principalmente,

em

duas cidades, Santarém
estavam de-

Em compensação dilacera ram-se elles
com vantagem com o melhor

e Lisboa, cujas riquezas tentadoras

uns aos outros. O duello dos aimoravides com
os almohades proseguia na Africa,

fendidas por fortes castellos,

coroas

bem assentes nas de montes escarpados. Ambas tinham

para estes, e para Africa partira

população numerosa e aguerrida. O alcaide de

das suas forças o chefe dos lamtunitas, amir de

Santarém, Ahu-Zakaria, era
(erro,

homem

á prova de

Marrocos, ficando por seu logar tenente

em

Hes-

e o pensamento de accometter

uma

ou

52

Historia de Portug-al
i'xpii'ado
i-i-èndo
elle, se descuidassem da vigilância, que os não accommetteria de improviso

«mtra (fu^sias ddiuks, ijuu purucunu iuseiisutu a
ulguiiá

dos mais ousados cauipeadoros de Uuri-

'|ut', uo ]jropriu iiitciiiwato AlFoiiso pareceu tão arriseadu ijue o revolveu por muito tempo no cérebro, antes de tentar executal-o. .\âo llie perinillia, porem, a ijidole ficar parado iliante

de

lealdade, (|ue ignoravam ser liiigida, de aimunciar as hostilidades; da confiança que devia seguir-se ao receio contara efie, toda via,

quem

tivera a

iiiurailias,

em que

podesse eulalar

para servir de estribo á escalada,

determmou

um puniial e em 1147
a tentativa

aproveilar-seperfidamente,eportantosõ passados
.os três

repelir contra

Samarem

dnis da iniimação se approximou de Santarém e declarou ás tropas que esta era

a fortaleza

que Já uma vez lhe sabira fruslra,la, apesar do valioso auxdio dos cruzados francezes.

um plano estratégico, em segredo e que vamos
n

Confiava

que comsigo meditara
vèr posto

em

practica

CAPITULO IV
Conquista de Santarém
e

porque havia que lhe abririam as portas. Não laltou quem ainda assim achasse temerária a empreza, mas AlTonso insistiu em teulal-a, e na noite de 14 de março realisou-se a tentativa. Ao maior perigo do commettmiento tinha
n'ella traidores

que iam attacar, persuadindo-as ao de que seria fácil a sua rendição,

mesmo tempo

des-

tinado

um

troço de cento e vinte

Lisboa

homens de

Tomar Santarém á escala visl a, eslandoosbabilantes apeirebidos ixira fazerem rolar os assaltantes pela escarpa natural
_

ocastello, era

sobre que assentava commettimento para titans, queposalto galgar-lhe as

d 'ante mão appareíhadas. Estes bravos, guiados por .Mem liafeito

exlremado esforço, os quaes, pela calada da noideviam trepar a uma quadrella, que não costumava ser vigiada, por dez escadas
te,

dessem d'um podiam
riques,

muralbas. Não

mires e acompanhados pelo rei, acercaram-se de do lanço do muro assignalado á
escalada,

cozendo-se de

bomens darmas de AlTonso Hennem elle, como prudente capitão, quiz aien-

tanto os

com

o chão

como

reptis e a passos

riscal-os

aromperem-se na investida ás muralhas, como vagas embatendo nas fragoas. Procm^ou
tão

phantasma, para não serem vistos nem presentidos. Já quasi ao sopé do castello pararam
desalentados.
ra-se nas

A

claridade das estrellas rellectiatalayas,

um

stratagema que remediasse a escacez das

armas de duas

que assim

engenbo apurado pela ambição. Não o confiou a ninguém senão a .Mem Ramires, a quem precisou incumbir de estudar a topograpbia da cidade ameaçada e o desenho das suas fortificações, mostrando

forças, e forneceu-lbo o

illuminadas lhes haviam parecido dois olhos reluzentes, espreitando sobre a negra mole que os

assoberbava. Estava vigiado o logar que julga-

com

este sigillo

mais intrépido do que os seus capitães; e quamlo se lhe deparou ensejo
propicio
sidia,

ter-se por

para o practicar, moveu-se de Coimbra onde recom poucos mas escolhidos soldados e

que fazer y Tentar o assaíto, ou esperar que se fechassem os olhos que sondavam a escuridão. Era esta ultima aunica esperança de fortuna em tão apurado lance esperaram, inimoveis, mudos, sumidos numa ceara, cobertos
: :

vam desprevenido

Ai^i-Zaliaria não suspeitasse do jierigo que lhe estava imminente

revelar o iuluito da expedição, subitamente ordenada, nietteu-se a um caminho que não levava a Santarém, para (|ue

sem

manto de trevas. (Juasi ao romper d'alva, as atalayas encostaram-se ás ameias, cedendo ã
o

com

um

modorra. Era aproveitar a occasião fugidiça, com golpe de mão mais rápido qui; um despertar,

Depois duma legoa de jornada, a rerluzida hoste atravessou para J'erues, onde acampou. AnIcs, lora

trepar á murallia, matar os dormentes, descer a corredoura, quei)rar os ferrolhos das jiortas, i; abrir a cidade a uma toireute impetuosa,
qu(;

mensageiro de Atlbuso intimar aos santarenos o rompimento das trégoas dmvmte
Irez dias.
lista

um

a idagasse
di(jues

sem

lhe deixar tempo para levantar
fossos.

ou escavar

Isto se faz.

intimação era

um

ardil.

O

.Mem liamires cresce para o

umm,

rei

portuguez

e as sentinellas

e.sperou

que os mussulmanos, dos

dormem. Sobe

a

uma

casa que

quaes se avisinhára, estivessem alerta durante o prazo que marcara para os assaltar, mas que

se lhe tinha encostado, e as sentinellas ainda.
ceiro,

dormem
ruido,

Lança

uma

escada ao parapeito sobran-

mas

a escada uâo se aferra, cáe

com

]'f.

riui

Nota Jo Mniadi. Mi.

TOMADA DE SANTARÉM

Historia de Portugal
e as seiítiiielJiis acL-unlaiii
tlas
:

53
em-

i'

biMdaiii fiitremunlia-

ser doble, por conselhos da necessidade. Este vicio serviu-llu!
()reza
e

(]Ui'Di

está

alii

':*

Tm

iiiunu-nto de lii'sita(;ão
Itaniircs, le-

como

virtude na ditlicilima
politico

efalliuuaoinpi-csa.

i;niii|iiL'liriiilr-i)

vaiila sobre os lioiiibros iiin soldailo, cstu

segura

de toda a vida. Um mais honrado, succumbiria na tentativa de se-

mais

inteiriço

outra eseada na iiiuralba, trepa por eila o alferesiiiór,

parar Portugal da monarchia leoneza

;

um

guer-

e são três as vozes i|ue respondem ao ala«

reiro mais cavalleiroso acharia sepultura gloriosa,

laya «Nazarenos

enibebendo-llies as adagas nas

mas desaproveitada, no

fosso dos castellos que

gargantas. Arvora-se oulra escada u

sobem mais

Affonso rendeu. Por instincto ou por calculo, o

portuguezes; são já vinte e cinco os que estão

heroe sacrilicou-se ao fundador de

um

estado.

no adarvc, rodciando o estandarte de Aflbnso.
I'recipitam-se então sobre a porta, e

Uma

das qualidades excellentes do

rei era

a

começam
si

ambição perseverante, que nenhum triumpho
contentava, que

de aiiaial-a ás pedradas, sentindo atraz de
alarido dos

o

nenhum
pensou

esforço cançava.

Uma

mussulmanos que corriam

ás armas.

vez de posse de Santarém, não se deitou á som-

A porta

resiste,

e os vinte e ciuco Lravos vão

bra dos louros

;

em

adiantar a conquista
e assenhorear-se de

ser des|)edaçados contra os seus ferrollios pelo

da província de Belatha,

Ímpeto dos inimigos
rivel o lance
!

(jue .=obre ellcs

vêem. E

ter-

Lisboa. Mediu, porem, as forças e, duvidando da
fortuna,

Ini esforço supremo quebra o ferro,

esperou, ponjue sabia esperar

como

escavaca as madeiras, e AtTonso com o grosso da
sua hoste entram de tropel

sabia querer. Lisboa já era no século xii

uma

em Santarém já alucomo
sempre a

cidade importante, por mercê da sua posição geographica, que a destinara ao connnercio. Tinha fama de possuir riquesas que desafiavam o saque,

miada

pela aurora,

encbem-llie as ruas

lava caudal, c o islamismo perde para
altiva cidade,
([ue

tantas vezes vira as algaras

mas defendia-as uma
gmentado, e se
dizia

])opulação numerosa, que

dos christãos passarem respeitosas a distancia
das suas torres.
lista

valiosa conquista, devida ao arrojo de. Vf-

Santarém haviam ausubira cento c quarenta e cinco mil almas. Senhoreava o Tejo, permittia a
os habitantes fugidos de

lonso llenri([ues, diz-Uieo caracter.

Não

era

sem

quem

a jiossuisse pôr o pé na península apertada

razão que, o temiam e odiavam os sarracenos,

como
(j

se fosse enviado pelo anjo
lbn-Erril<

do cxterminio.

por este rio e pelo Sado, mas a sua posse estava assegurada aos sarracenos por fortificações formidáveis pelo desenho e pela estructura, e que tornava a natureza do solo em que se apoiavam
ainda

nome de

nunca apparece nas cbrocortejo de maldições, pro-

nicas árabes

sem
feliz

um

vocadas pelo
as

succedimento de quasi todas
viril.

mais formidáveis.

Inspirava,

portanto,

emprezas da sua edade
a crer

Esta felicidade
e

move
raro

que era hábil no commando,

de

engenho para traçar

um

plano estratégico.
in-

phrenetico desejo mas não menor temor; tentava e assustava como uma formosura austera e Affonso namorou-a, mas de longe e com recato,
até ver luzir a esperança de a render.

No ataque era dos primeiros, expondo a vida
lemeratamente, mas pou[iava-se
a entrar,

abrindo

caminho pela

lorça athletica do braço,

omie po-

Esta esperança trouxe-lh'a uma armada de cruzados, que no ;mno de 1147, aciossada e dis-

dia insinuar-se pela astúcia ou introduzir-se por
perlidia
:

persa por

prova-o

a

tomada de Santarém. Muitas
asurpi'ezas no-

Douro.

das suas

vii-torias lorain ili'vidas

temporal, se reuniu e fundeou no os cruzados inglezes, normandos, allemães e tlamengos, sommavam treze mil ho-

um

Eram

cturnas: falhasse, porem, a surpreza e viesse a
luz
qu<'

do

sol denuncial-a á

vingança dos inimigos,

logo

a raposa se transformava

em

leão e

mens, e destinavam-se áSyria,ondeos mahometanos haviam ganho sobre os christãos viclorias importantes, que tinham movido o piedoso
abbade de Claraval, Bernardo, a iniitar O exemplo de Pedro o l>mita e convidar a Europa inteira
pai-a

convencia,

com

os rasgões das garras, de que

o ardil e o disfarce
covardia.(J

haviam sido ijrudencia

e

não

mesmo

era na politica. Teiiqierado

uma
i

nova expedição á terra santa.
foi

como o

aço, vei-gava

como

elle

sem quebrar.

.Na-

Apenas Artbnso

informado de que aportara

turalmente fero e inclinado aos meios violentos,
doniava-se até humilhar-se e dissimulava até

a Portuiial tanta gente armada, imaginou aproveilal-a jiara a conquista

da cobiçada Lisboa,

e

54
mandou rerado
zesse

Historia de Portugal
ao
liif^po

do Porto para que
aos liospedes,
c

li-

a ser
rio foi

templo de Nossa Senhora dos Martyres

;

eo

bom

acolhinifiito

ibes

guardado pelos navios, assim portuguezes
estrangeiros, para que se não fizesse por

propozesse tomaiTin parte na empresa que delineara, a qual proinettia ser proveitosa para a

como
elle

o abastecimento da povoação, que assim iicou

alma, porque os sarrarenos das margens do Tejo

sitiada.

eram inimigos de Deus como os de Jerusalém,
o prelado, e os cruzados

c

A parte mais

forte de

Lisboa e a primitiva

para a algibeira, porque eram opulentos. Assim
fez

cidade era a kassba ou castello, que ainda existe,

condescenderam

cujo âmbito fora demarcado por

um

extenso

com elle também
res

e vieram

surgir no Tejo, para onde

muro

circular, alteroso e espesso, guarnecido a

se

encaminbou Aflbnso com as tropas
aos seus auxiliares estrangeiros.

espaços de torres quadrangulares; e d'esta área
fortificada

que poude reunir, e que uão deviam ser inferio-

corriam duas muralhas até à beira

em numero

do Tejo, onde eram fechadas por outra, ficando
dentro d'ellas o terreno do actual bairro d'Alfaentão estava coberto por compacta ca-

Encontrando-se juucto dos muros da cidade

ameaçada portuguezes
tes,

e cruzados,

dictaram essi,

ma,
dina

ipie já

não sem

difficil

accordo entre

as condi-

saria.
;

Esta era propriamente a cidade ou alme-

ções do serviço a que se tinham prestado. Exi-

haviam-lhe accrescido, porem, im[iortantes

giram

([ue os

bens dos babitantes de Lisboa lhes

arrabaldes.

A população, não cabendo dentro das
descendo pelo monte

fossem abandonados,
prisioneiros;

bem como

os resgates dos

fortificações, sahira d'ellas,

que se tomassem a almedina só
rei depois

coroado pela kassba, e a meia encosta cobrira-se

fossem obrigados a entregal-a ao

de

com

um

novo muro, ligado aos superiores. Mas

a terem saqueado; que se distribuíssem as pro-

ainda ahi não ]rarára. Continuara a descer, pelo
occidente, para o valle que hoje é cidade baixa,
e o

priedades,

urljanas e rústicas, aos que n'ellas
([ue todos os estrangeiros

quizessem viver: e

que
di-

montão

ifedificios

em que

se abrigara tinha

entrassem no comnuM ti mento ficassem com o
reito

ficado constituindo
ler cerca,

um

arrabalde, aberto por não
difficil

de commercio com Portugal, sem serem
e

mas que

era de

entrada, por

compeUidos ao pagamento de peagem
Isto

portagem.

ser tal o aperto da casaria, que quasi não ca-

exigiram os magnânimos soldados da cruz,
celeste
:

bia

um homem

d'armas nas viellas tortuosas

armados por inspiração

bandidos vul!

que a separavam

em

grupos. Esta enorme pijá dissemos,

gares teriam sido mais desinteressados

Aftbnso

nha encerrava, como

mais de cem
que faziam

a tudo accedeu, tanto era ardente o seu desejo

mil moradores e quinze

mU homens

de reunir Lisboa aos seus estados; conseguiu
serenar as discórdias e os tumultos, que poze-

profissão das armas, e todos elles se

mostraram
e alguns

decididos a defenderem-se até á extremidade,

ram

a tentativa

em

risco de abortar, os cruza-

quando os prelados de Braga
rios, lhes offereceram, antes

e

do Porto

dos desembarcaram, e começou o investimento

capitães cruzados, na qualidade de parlamenta-

da cidade. Os allemães que obedeciam ao conde

do começo das hos-

Anmipho de

Areschot,

e os

flamengos, capi-

tilidades,

uma

capitulação vantajosa

com que

taneados por Christiano de Gistell, acamparam

salvariam as vidas e os bens.
Principiou então o attaque,
pri'

ao oriente, na elevação

em que

posteriormente
S.

em que faltou sem-

lançaram os fundamentos da egreja de

Vi-

unidade

e concerto, porqui' cada qual dos três

cente de F'óra: Atfonso e os portuguezes esta-

exércitos sitiados intentava as operações que lhe

beleccram-se no monte da Graça; os inglezes,

pareciam

úteis,

separadamente

e regeitando até

que

eram dirigidos

jior

(|uatro

condeslaveis,

o auxilio dos outros. AfTouso parece ler querido

dos quaes eram os nuiis auclorisados lierveu de
Glanviljp e Saherio d'Ârcells, e os normandos,
([uc

deixar aos cruzados o maior trabalho e
cerco, ]iara que lhes

i'isco

do

recoidicriam por chefes os irmãos Wilhelm
Viiulo, dois piratas ferozes, assenta-

e

Randulph

não ficassem gratuitas as valiosas recomiiensas (|ue tinham exigido, e não haver podido subordinar á sua direcção suprema
a

ram arraiaes ao occidente, occupando o sopé do monte que se chamou de Santa Galharina, na
encosta do qual edificaram

gente collecticia, tumultuaria e soberba,
alliãra.

com

que se

Nem

ella era, a

bem

dizer, sus-

uma

capella ijue veiu

ceptiv(d de direcção.

A primeira vantagem con-

Historia de Portugal
seguida
soliri'

55

os

sitiuilo.s

foi

rcsullaiio iriuiui
c
.si'ni

á viva força na cidade do que a obrigassem a
capitular, e

('scaraiiiuça, travada,

scni

ordi'iii

plano,

encalharam os navios para tirarem

pela soldadesca anglo-Moniiamlii (0111 a

í^cijU'

do

aos sitiados a esperança de vejcm levantado o
assedio, cuja duração devia ser-lhes fatal.

arrabalde inferior e oeeidenlal. Trucanna pedra-

das e tiros de

Ijésta, e

conio n'esle jogo levassem

Os inglezes

e

normandos minaram
elTeito

um

lanço

a melhor os sarracenos parapeitados, os anglo-

de muro, mas, não surdindo
te,

o expedien-

iionnandos procuraram vir ás mãos com

elles, e

construíram

uma

torre rodante de oitenta e

]i'uma suliila ar]'aiicada peneiraram nas viellas
e

trez pés

de altura, destinada a lançar

começaram

um

combate corpo a corpo, ^'iram-

á nuiralha dev que se avisiiihasse, e ao

uma ponte mesmo

ii'o

os chefes e tentaram pòr-Uie termo. Saherio

tempo entreliveram-se a bater as portas com ballistas.

d'Arcells foi encarregado de ordenar e dirigir a
retirada,

Por sua parte, os allemãcs e flamengos

mus achou

a sua lro|ja tão entranhada

abrii'ara

uma

vasla mina, encheram-n'a de

ma-

no airabalde
e

ijue lhe era

impossível retroceder,

térias

combustíveis a que lançaram fogo, e

com

arraial,

chamando eutão a si a ([ue havia ficado no começou de vari'er as ruas e compellir
nmssulmanos
a

o incêndio veiu abaixo

um

pedaço enorme do

muro, que lhes deixou

iialente l;u'ga entrada. .Mas

os

recolherem-se ao subúrbio
Conseguiu-o. A noite
foi

não aju-oveitaram como esperavam. Os mussul-

superior e
allniniada

fortiíicailn.

manos, sempre vigilantes, fecharam apressada-

pelo incêndio da parte da povoação

mente

a brecha

com uma
rebatido

estacada, estenderam

que

licãra

em poder

d'Arcelis, e no dia seguinte

por delraz delia os seus esi|uadrões, e o assalto
dos cruzados
foi

os flamengos e alleraães apossaram-ge quasi
i-ond)ate

sem

com grandes

estragos

da parle que correspondia

a esta pelo

para estes, que,

todavia, repelliram os anglooíVei-eceram para ajudal-os,

lado do oriente, lendo os sitiados resolvido encurtar a
linlia

normandos que se
vicloria.

de defesa e abandonar de ludo a

querendo antes ser vencidos do que partilhar a
Tentaram-se ainda novos assaltos i'om
egual insuccesso. Lisboa teria podido confiar na

zona aberta da cidade.
(Is

(|uinze

dias

que se seguiram ao d'esta

victoria

nada adiantaram as operações dos cer-

sua fortuna e reputar-se inexpugnável, se a fome
lhe não andasse roendo as entranhas

cadores, que todavia repelliram frequentes sortidas, llscalar as altas

com

tanta

muralhas de cujos ailarves
para derribal-as eram ne-

crueldade, que todos os dias viam os chrislãos

os niussulmauos cuspiam injurias impunes, era

arrastarem-se para as suas tendas espectros mi-

façanha iiupossivc^l
cessárias
nas.
(Js

;

serandos, que se olTereciam ao baptismo por ura

maquinas poderosas ou profundas mie belgas applicaram-se portanto

punhado de
geridos por

farinha, e a

quem

os dcsainm4os

germanos

faziam padecer, para se recreiarem, tractos sug-

a construir

uma

lorre
alluir

dií

vaivém,

e

assentaram
foi

uma

maldade

iidernal.

catapultas para
i|ueiniadi>

os muros,

mas tudo

A
vel,

situação da cidade tornára-se já insustentá-

ou

inulilisado.

Us anglo-normaudos

quando os inglezes
attacal-a

e os

portuguezes deterrio.

teceram Unnbem a sua torre movei,
n'a enlei-rar-se

mas virama qui-

minaram

novamente pelo lado do

na areia da praia, por onde

Serviu n"este attaque, começado no dia 19 de
outubro, a lorre cuidadosamente preparada no

zeram

appru\iniai'cl;is fui-liticações, e ser destruí-

da. Mstes niiUrateuqius lizei'am-n'os desalentar,

acampamento

occidental. .\'esle dia

foi

ella

im-

e a enqireza leria sido talvez
se houvesse espalhado nos

abandonada se não
aivunpamenlos
i|ue

pellida á força de braços para defronte do

nmro. no

No seguinte rodou para juncto da
ção do sul e pela do occidente;

torre, sita

os cercados sentiam os horrores da fome, porque
tinliam perdido os seus armazéns de
tos,

vertiee do angulo formado pela linha de fortifica-

mantimenestavam

mas percebendo

cavados nos arrabddes

iuferini-es, e

os assiUiantes que n>ste logar havia a defesa

condeuuiados a morrer de inedia atraz dos muros inveucidos. Sabendo-se auxiliados pela fo-

reunido as suas forças, desviaram a machina
para a direita, e sobrevindo a noite deixaram-

me, os cruzados proseguiram nos trabalhos preliminares de novos assaltos, por que lhes aconselhava o desejo do saque que antes entrassem

na

A maré, subindo,

guardada por duzentos homens d'armas. pôl-a em grande risco. Vendo-a

os sarracenos rodeada de agua, e portanto isola-

56
(la,

Historia de Portugal
iil)riram

uma

pnria

qw

lhe ficava fronteira,

transporiam os muros, antes de todos, trezentos
estrangeiros, e occupariam a kassba. Ahi toma-

começaram a despejar fogo, que lhe consumisse as madeiras, c armas de aiTcmessn, que lhe matassem os defensores. A lucta fui terrível mas tão gramle o esforço dos
e por olla e pelas ameias
;

riam conta de todo o haver dos moradores.
seguida

Em

far-se-hiam buscas na povoação para

averiguar se algumas ri(|uezas haviam sido so-

christãos que conservaram

a

sua torre até

(]ue,

negadas, castigando-se com a morte os autores

posta

em

secco pelo refluxo do rio e podendo ser

do delicto, e só depois se daria livre saída aos

soccorrida, os sarracenos recolheram-se.

mussulmanos
tuguezes.

e se

abandonaria a praça aos por-

Recolheram-se, porem, por poucas horas, por-

que os trouxe a volta da niarí ao romper da manhã. Renovaram a tentativa de queimar a torre,
e a sua guarnição

Mas contra a regularidade que se pretendera
estabelecer na espoliação, reagiram as soldadescas.

houve de comhater debaixo de

Vão

l;'i

conter
!

uma

alcateia de lobos soltos
alis-

torrentes de fogo, porque os sitiados entornavam

n'um

aprisco

Para as expedições á Palestina

sobre elles barcos cheios de matérias inflaminadas,

tava-se de ordinário a ralé da gente de guerra, e
era d 'esta Ínfima espécie, da que teria saqueado

que içavam com engenhos

ã altura das

muo

ralhas. Fraquejaram então e

começaram
soccorros

a fugir

o Santo Sepulchro se o houvesse ás mãos, a que
viera ao Tejo. Lisboa teve sorte similhante à das

a nado,

mas ehegando-lhes

mudou

aspecto do combate, e a tão disputada machina

cidades da Syria, onde a cruz vermelha se relin-

encostou-se quasi á quadrella, sobre a qual lançou

giu
fora

uma

ponte de traves, que logo se cobriu de ho-

em sangue de mulheres e creanças, como se symbdo da religião do banditismo. Affonso
homens d'armas, encamiuhou-se processio-

mens d'armas promptos a saltarem ao adarve. Ao mesmo tempo alU'mães e flamengos repetiam
tentativa .sobre tentativa para penetrarem pelabre-

Henriques, ladeado pelos bispos, escoltado pelos
seus

nalmente para a kassba, e na sua mais alterosa
torre foi hasteado, ao

cha aberta ao oriente, e então os chefes da cidade, quebrados os

som d'hyranos
se ao

sacros, o

ânimos pela miséria, quebradas

pendão da cliristandade, como
Golgotha se
ta;
fizesse

martyr do
conquis-

as forças na peleja incessante de muitos dias,

homenagem da

pediram anciosos

um

anuisticio. Foi-lhes conce-

dido, trocaram-se reféns que assegurassem o

cum-

mas ao mesmo tempo derramou-se a turba armada pelas vieUas da cidade, e aos cânticos
dos levitas responderam gemidos de victimas imbelles e rugidos de algozes sanhudos.
tas horas o saque,
(]ue foi saturnal

primento das condições com que

se ajustou, e

estalieleeeram-se negociações para a entrega de

Durou mui-

Lisboa.

de demónios.

Dm-ante

ellas

c por causa d'ellas tumultua-

E ao

cair

da tarde, quando a avidez se cevou, peescoou-se para as campinas as-

ram-se os cruzados, porque os reféns tinham sido entregues ao rei de Portugal e queriam-n'os em
seu poder, e porque receiavam que AfTonso não

las portas abertas

soUadas
halla

uma

multidão phantastica, como se ex-

um

soluço da garganta de

um

agonisante

cumprisse as condições que acccitára, relativas
ao saque. Chegaram as cousas a ponto de corre-

eram os sarracenos, que ao voltarem-se para enviarem á pátria o beijo de despedida, avistaram
por entre as lagrimas, negra como a sua sorte e

rem mas

às

armas os portuguezes e os estrangeiros;

a firmeza de AlTonso conteve as paixões

estampada no céu rubro do occaso, a cruz
nistra

si-

infrenes, e pitulação.

poderam

ajustar-se os termos da ca-

que encimava a cidade

— a tua

cruz, ó

Foram

elles

que Lisboa se entregaria

Christo

ao

rei,

entregando também os vencidos, à excevi-

pção do kaiyd, quanto possuíssem menos as
ctualhas.

Assim passou ao poder de christãos a senhora do Tejo. A tradição refere, porém, episódios do
cerco, de

l'ma parte da canalha cruzada ainda

quiz regatear a concessão dos mantimentos,

mas
e

É

um

d'elles a

que não rezam os documentos coevos. morte trágica de Martim Moniz,
:

demoveu-se

afinal

de tão deshumana avareza,

entallado

num postigo do castello

será invenção

no dia 23 os chrisiãos tomaram posse da cidade,
tendo previamente traçado, de

d'aquelles espíritos poéticos, que adornaram a

commum iiccordo,
elle,

nossa historia d'epicas falsidades

?

N'esta conta o

o programma d'este acto solemne. Segundo

téem sizudos

críticos, e

nada

é crivei,

em

ver-

Historia de Portugal
(liiiU-, ]iiiiiilo

57

(|m'
[)()!•

|ii'lo

la(liisc]ilciiitriiiniil(líici(la(lL',trc-

uiria

escarpa aprumada

jiara

alcançar

abandonada Cintra, apesar de distante do caminho que ia seguindo Affonso. O desígnio d'este,

um
vcl,

cslrcito postigo, se tentasse

um

assalto qui;

uma

vez submettida a província de lielatba,

foi

otlerecesse ensejo á façanha de Moniz. E possi-

penetrar na de AIkassr, e para esta passou, de fa-

porém, que os sarracenos fizessem alguma sortida pelo norte, para caliircm sobre o acam-

do, a guerra sem tregoas, servindo de base de operações o altaneiro castello de Palmella, tão
inq)rudentemenle desamparado n'um momento
de susto.
Alcácer do Sal íAl-kassr Ibn

pamento dos portuguezes, ([ue estanciavam no monte da Graça, que estes os seguissem ua retirada, de perto ou de envolta

com

elles e portanto

Abu Danes) ainda

peao abrigo dos tiros das murallias, cs[)erando para netrarem pela abertura que se franqueiasse
os receber, e que n'este lance o guerreiro esfor-

no século XII não havia decahido, da prosperidade de que gozara no tenqjo dos lieni-L'meyyas, na

pobreza doentia que depois lhe rareiou os habitantes e lhe deixou tombar os

çado se arrojasse contra a porta

no momento de

muros

a pedaços.

fechar-se sobre elle e talvez sobre alguns dos

Fazia-se por ella a exportação dos ricos pruductos

mouros, com quem se misturasse, sendo esmagado entre os seus batentes por acto heróico de
vontade ou por aceidente da lucta. Explicado
d'esla arte o caso não repugna á intelligencia,
e só

do Alemtejo, o que lhe dava importância commercial,

e a estructura das suas fortificações,

sempre

guarnecidas de tropas numerosas, fazia-a respeitar

como

um

dos mais seguros baluartes do
i

ha a advertir que não deu causa á rendição da cidade, ipie se fez jior capitulação, c que fdi piirlaiUo inútil ou quasi inútil o sacrilicio de
Martim Moniz, a não ser para o seu nome, que as gerações gravaram na memoria como o de um
inarlyr da fé e de
via,

islamismo, levantados no Gbarb. AtTonso

pla-

neou dar-lhe a

sorte (]ue

haviam

lido

Santarém

e Lisboa, e logo depois de estabelecido na mar-

gem esquerda do
nova
[iresa.

T(íjo

começou a

fital-a

como

Iiua vez que rondava nas suas cerd(!

um

berue da pátria; se, todae o seu

canias, talvez espreitando occasião

a saltear

uem assim se pode acceitar Moniz feito como realidades históricas, acceitémol-os como imagem dos campeões denodados, que regaram com o sangue as raizes de Lisboa, e das
suas proezas homéricas, poripic a gratidão e o

de súbito, vieram contra elle c os seus, que

eram

poucos cavalleiros, bandos mais fortes de sarracenos, que o tiidiam avistado da cidade, e puzeram-n'o

em

perigo de vida. i)efenderam-se os

enlhusiasmo

pali-iotico

tèm os seus symiiolos

e

as suas ficções.

com estremado esforço, repelliram os assaltantes, mas o rei sahiu ferido da peleja, e apprendcu, com a dòr do ferimento e a consiportuguezes

A

conijuislade Lisboa, dissemos nós,

f;icililava

deração do aperto

em que

se vira, (pie os defeni|ue se

a invasão da liugua de terra (|ue se estende entre

sores de Alcácer não

eram turba imbelle,

o Tejo e o Sado, e tanto a facilitava, que quando
esta cidade ainda resistia ao cerco já os cbristãos, só por a tei-em inqiossibililado de defen-

enxotasse

com

a haste da lança e se allVuntasse

de gibão de seda. Passou então da audácia ã prudência,

e

parece
(lilber-

der o

rio, se

abalançavam

a atravessal-o e levar
:

que

em

1151 induziu o bispo de Lisboa,

as armas á

margem esquerda um
dWhuada, de cujos

troço d'anglo-

to, inglez

de nação, a pregar na sua pátria
baldada, b;ildada

uma

normandos, capitaneados por Arcells, devastou
as cercanias
haliitantes ha-

cruzada contra mouros d'Alcacer: se, porém, a

pregação não

fui

foi

a tentativa

viam

recebido ollensa.

Cabida a poderosa cida-

de, ainda mais offerecido ficou o território, que

dos homens d'armas portuguezes e estrangeiros, que ella reuniu, para se apoderarem da forte cidade. Esta tentativa
foi

com
o

ella defrontava,

ao poder de AtTonso. Só

com

repetida

em

1157,

com

estrépito

da queda se apavorou a guarnição
castello de Palmella, aliás forte

auxílio dos cruzados, que

em

nina frota haviam

mussulmana do

entrado para se refrescarem no f«'to do Tejo,
e

por coustrucção e importante por dominar

uma

que eram talvez capitaneados pelo conde du

planície ubérrima, a ponto de aliandonal-o e permittir

Flandres, Thierry;
fructifera a

mas ainda

d'esta vez

foi

in-

que o occupassem os portuguezes sem desas espadas
;

empreza

e impossível aos

Uamengos,

embainharem
VOL.

e do

mesmo modo

foi

que se retiraram. Affonso não conhecia, porém,

1—8.

58
impossivcis.
inlciilo,
I'

Historia de Portugal
I'i'rsisliu
;is

iio

Iniiiso tio

ronlrariado

a tradição que vaf.'ueava ]ielo sertão alemtejano

so coin

suiis roíras laiiln se eiirar(|iK'

um

certo Geraldo,
(pie

homem
a

de

iioa stii-pe e tão

iiiçou

cdiiii-a
1

ns iniiros ilWIcaccp,

a 54

de

intemerato

merecèi'a

alennha de

Sem pabando

juulio de

138, ao cabo de sessenta dias do cerco
oiilros taiilos

vor, o qual, para fugir ás justiças, (|ue o perse-

que
foi

foi-aiii

de
os

cniiiliates, a

cidade

guiam por um

ci'inie,

se fizera ciíefe do

um

eilli'ada,

e

— dizem

clii-niiislas

aralies


se

de salteadores ou guerrilheiros, que Niviani de
attaques e assaltos uoctuiaios, não poupando a sar-

a sua
a

i!iiai'iiição

meltida á

ef|ia(la,

para expiar

heroicidade

da sua resistência. Xão desdiz

racenos
a lenda,

nem
p('iz

a chrislãos. Este athleta, accrescenia o fito

esta versão da ciiieldade dos lionieiis a

quem

em

alcançar o perdão d'el-rei

attribue.

recommeudando-se-lhe por
Alcácer, cliave da pnuincia de Aiesla
aliei'la

uma insigne
com

façanha,

Tomada
kassr,

e

como

vivia nos arredores da opulenta laborah,
d'ella só

íii'ou

aos

clii-istâos,

ipu.'

se

imaginou apoderar-se

os seus ho-

espaiiiaram p(dos seus sei'tões, e aiinla uo anuo de

mens, para depois a

olíei-ecer a

AlTonso

como

1159 occuparam lívora e Beja, cidades militares
p

glorioso presente. Valeu-se,

em

tão temerário

commereiaes. Taiilas

e Ião assi^maladas viclo-

commettimento. d'uma estr.itagema similhante
ao que facilitara a tomada de Santarém, aproveitando-se
para
a

rias,franlias

com

pi'ipu'uo podt'r,

deviam, poi'em,
po-

provocar

um

i-cvcz,

cliamaudo

a allriicâo ilo

o

pôr

em

pi"ilica

— estamos
llic

drroso annr de Marroros
Alidn-l-niiimcm, ]iara
(|ni'

e idielr

dns almoliades,
i'

a aflVonla

para o

damno
Assim

com uma moura
ainda

linda

— do

amor

(pie

votara

geiHil, a (piai, eriiido abi-ir a

camará

fazia

aii

islamismo o
aiiiir

faial lliu-l*!rrik.

ao amante abriu a cidade ao inimigo. Ileraldo, introduzido n'imia tone, inalou por surpreza as

siiccedeu. I.luaiido o

viu sulimellidos os altlii^ono

moravides
frica,

e

enraizado o

nas plaijas d',\-

suas alalavas, desalleri-olbon

uma

porta por onde

dcicrnnnnn passar á llespaniia. onde nioi,

entraram os seus compaidieiros (Tarinas, e com
elles caliiii sobi'e a

rèra o seu ijenei-al llin-llliannyyiali

para conter

guarnição sarracena, desprea

os cln-islãos nas suas IVonleiras. de ipie se adian-

venida e adoiMuenlada, melteu-a

ferro,

e ar-

tavam qnolidianamenli'.
nação

MITecliion esla ileleriniprinri|)aliiienle

vorou o e.-landarle dAllonso onde horas antes

em

IKil, e

como eram
o exercilo

tremulava o pendão do ci^escenle.

Isto diz a tra-

dois os inimiiiiis ipie linlia a comliali'r, dii'ii;iu-se

dição: ha, porem, historia escripta que assevera
ler

pessoalmenie

i'olilra

ilo

rei

de Leão,

sido Mvora conquistada p(do proiirio rei, e

e enviou ao occidente dezoito nnl cavalleii'os,

se esta asserção

não basta para fazer descivr da
jielo

capitaneados poi' Aliu

Moliammed

Ahdullali

Hm

proeza de (leraldo, não ha,

menos, funda-

HalTss. Ksli' tjcnei^al entrou

em

\lkassr, e encon-

mento para se
romaniicas.
ipie lhe

acreditai-

nas suas circumstaucias

trando AlTonso
tomando-llie
a

I

(lesliaralon-o

complelameme,
ilVsla dei-

Mem
nem

llamii-es

não precisou amante
para escalar os muros

inuiliis pi'isioneii-os e nialando-llie

estendesse a

mão

llòr
foi

da cavallaria.
a

lionseqneiii-ia

de Santarém,

l<\'rnan(lo lionçalves

para gal-

rota

penla paiM os poi'tUiim'zes das praças

gar os de

lieja, e

a aventui'a de Geraldo deve ler

recentemeiíli' con(|uisladas no inleriei' dn .\lemlejo,

sido, caso fiuccedessc, tão siiigella
les

como a

d'es-

como

lívoi'a e lieja,

e

com

cila |)ari'cerani

esforçados assaltantes.
pela fortuna de Ião arriscados

dai-se por viiifiados os almohades, por(|ue não

Animado
AlTonso

comelle,

seguiram ávunti'
cer-se do
j,;olpe

e

deixaram AlVonso

restaliele-

meltimentos, fossem ou não dirigidos por
I

que

solVrèra e cobrar alento pai'a

entranhou-se novamente no território

novas emprezas, que levantassem a reputação
iil)atida

d'Al)uissr.

Era oppurtuna

a

conjuiictura, porque

das suas armas.
1

o amir de Marrocos
os ca-

morrí^-ra

em

Saié

em

11G3, e

lím uoveml)i'o de

iG"2, ilislaiiciados já

Yusuf Abu Jacub, que lhe succed(''ra, vira-secompellido a passar á Africa. Favorecidos por esta

pitães de Alidu-l-nunuem,
frente de

Fnuando

llon^-dves, á

um

corpo de milicias liurimezas, pene-

ausência os portuguezes, nos aunos de 1165 a

trou pela callada da noite

em

Beja,

que

licou

em

1IG7 penelrai'am no que hoje

( E.\.lremadura

seiípoder.NareconquisiadeKvora, aronlecidaem
1166, enipreíiou-.se

liespanhola e apoderaram-se de Gaceres e Truxillo,

um

ardil simdlianli'.

(lonta

e

mudando

depois o

rumo da incursão

Historia de Portugal
loninram Moura, Serpa o Juromcnha. IVislciMoiiiu'ijl(',
('

59
Esta agressão
foi

a tomar e desti'uir.

dolorosa

cm

1160, clicgaram a attacar Bailajoz

para o

rei

de Leão, quepenlia terreno na lucta

a (lomiiial-a

cm

parte,

mas

esta

empresa

foi

com
com
nir,

os partidários de Affonso vni: cuidou coiii-

fatal a

Allbnso, ipic então andava

em

i,'iierra i-oni
[ii')/

ludo de repellil-a. avançou contra o cnidiado
as forças ipie apiv^ssadamenle poderá reue

o

rei

de Leão, eonio vanids narrar, e
(lliai'!).

lermn

às suas eoni|uistas no

dando-lbe

lialalha

cm

Ariíanal, perlo

de

l^aslello liodrigo,

dcsbaralou-o, obrigou-oa fugir,

CAPITULO

V

e fez ]irisioneiros muitos dos seus soldados, (|ue
ilepois

generosamcnie

libertou.

Guerra com Leão
I)

.N'este acto e

em

outros snbse(|ucnti's mostrou
a guerra coiisti-an,L'iila-

Fernando que sustentava
imperador AlTonso
vii,

de ipieni Allbnso llen-

nienle e

com

dcsi^jos

de paz.

riipies alcaii(,-ára
i-ei,

o reeonlieeimeiílo do titulo de

.Não sentia .\llbn.-;o esti' desejo, e a dcriola de

morreu

em

1157, tendo dividido os estados

Arganal feriu-o no orgulho. Decidiu então invadii'

entre os seus dois filhos varões. Sancho, o mais
velho, lieou reinando na (laslella, e [•'crnando
l.eão,

a (ialliza,

e a entrada ell'ectuou-se

com

feli-

em

cidade,

chegando os porluguezes a Tuy, onde
pai'a

c os dois prineipes,

ambos animados

jielo

practicaram crueldades. De Tuy mairharam
o districlo deToi'onho, que

foi

desejo de concórdia, maiitivcram-n'a

cm

virtude

submettido, e de

de

um

tractado assellado

em

Saliagun. A con-

para o lerritoiio de Limia onde edilicaram o
(h;

córdia acabou, todavia,
S;iiicho.

com

o fallecimento de
fillio

casiello

Ledufeita. Este castello foi logo depois

A menoridade de seu

AlTonso

vm

deu azo a que Fernando, com o pretexto de o
tutorar, se ingerisse

rei de Leão, mas .Ulonso poude conservar, por esforço dos seus capitães,

sitiado e

tomado pelo

na governação de Castclla,

as outras conquistas
116'J. >"este aiino,

e esla ingerência trouxe

uma

guerra que durou
o rei de Leão a

que fizera, até ao anuo de emquanto Fernando se oc-

por largo espaço e que

moveu

cupava com pouco êxito

cm

expulsar os

ini-

procurar, seuão a alliança, a amizade do rei de
Portugal, ou para que este o auxiliasse a sub-

migos da

Uailiza, o rei de Portugal,
fazer-llie

como que
a

desdenhando
sua ambição
esla
i-idade

frente^ pòz

mira da

melter os castelhanos ou para que se não bandeasse

com

os castelhanos contra elle. N"esta in-

cm apoderar-se de Badajoz. Estava em poder dos sarracenos, mas os
a

com Atfonso em Oeila Xova em ItiU, e alii pediu a mão da infanta portugueza D. Lrraca. com quem eITeelivamente casou annos
lenrão avistou-se
1

seus moradores linbam-se collocado sob
tecção de Leão, e na conferencia de
ujustãra-se
ipie

pro.Nova

l^ella

perleiicei'ia
jiois,

a

Fei-nando.

Este

depois, talvez

em

116.').

monarcha julgou-se,
títulos

obri,i:ad(j

por dois
a
(ialliza

Lsle casamento não e\ilou, todavia, ([ue se

a

acudir-lhe,

e

abandonando

suscitassem, tempos depois, serias desintelligencias entre

veiu encontrar o sogro já senhor dos ai'rabaldes

Fernando n

e Allbnso

i.

Não se sabe ao
(juc o rei

de Badajoz
Alli

e sitiando

apeiáadamentc

a

kassba.

certo o seu motivo,

mas presume-se

mesmo

investiu

com

elle.

(is

[iorluguezes

de Portugal, que attendia mais aos interesses do que aos laços de familia, favorecera secrcia-

viram-se então enlallados entre os leonezes e os
sarracenos, que fizeram

uma

sortida,

e

foram

mente os Inimigos do genro, os castelhanos, ou
os seus súbditos revoltados. .\os pretextos para
as hostilidades, que

desbaratados. Allbnso, não ]iO(lendo já resistir,

cravou as esporas nos ilhaes do ginete e pro-

romperam
a

entre leonezcs e
edilicação,
or-

curou salvar-se na luga. Tão desapodei-ada
cila, poi'eni. ipie

foi

liorluiíuezes, figura, todavia,

ao sahir por um.i porta da pofoi

denada por Fernando, de
sitio

llastcllo liodrigo,

em

voação o cavalleiro bateu n'um ferrolho,
derribado

apropriado para ser centro de expedições

com uma coixa

fracturada,

t;

no logar

contra os súbditos de Aironso, e

foi contra esta cidade ipu' o iroso inonarciia |irinieiro dirigiu as

da ijuéda ou

em

sitio

próximo,

para onde o

levar.un os seus, o

tomaram

pi'isioneirn

os

.sol-

armas, encarregando o
(

lillio,

Sancho, que então
arte

dados leonezes.

Ivste desiisli-e

podia ter sido

fatal

omeçava a aprendizagem da

da guerra, de

para a independência portugueza. .\Hbnso, ava-

60
li;inrlo

Historia de Portugal
talvív,

pelo sou o ciirartcr do gonro, e

CAPITULO

VI

vendo-se ferido c aprisionado

cm

conscMiucncia

d'uma guerra,
gança a

(|iie

talvez provocara injustamen-

Invasões dos mussulmanos
A
joz
noticia
(la

te, julgou-se, pei'dido,

reputou merecida a vinIcnialiva de AlTonso contra Hadae

(pie eslava ollerecido, e es]ioiitaneamente

propôz a Fernando dar-lhe os estados pela liberdade. Não acccitou o vencedor a projiosla, talvez

chegou a Africa,

Yusuf Abu

Jaculi,

(]ue

respirava das revoltas suscitadas

jiela

morte de
llafss,

por generosidade, talvez por calculo, pois que
lhe seria
difficil,

seu pae, enviou a llespanha seu irmão Abu

andando cm

lucla

com

os sar-

encarregado de acudir á cidade sitiada; quando
este,

racenos c os castelhanos, subjeitar os porluguezes,

porem, chegou a Sevilha soube que o

sitio

que

bem

sabia quanto

eram

ciosos da inde-

fora levantado. Deslacou, apesar d'isso,

um corpo

pendência. Contentou-se
terras

com

a restituição das

de tropas commandado poribrahim Ibn llamimick
para cobrir a fronteira de Badajoz e fazer incursões no território porluguez,
tão pouca

que de Affonso o esbulhara na campanha dos annos precedentes, e depois de o ter captivo
durante dois mezes despediu-o livre e
rei,

mas foram

estas de

mas

monta que

só de

passagem

as registrou

sempre

ingrato.
ii

Algum tempo

depois,

em

1175,

a historia.

Fernando

repudiou D. Urraca, com o pretexto

O exercito de Abu Hafss era apenas a vanguarda de Yusuf.

de parentesco, que habitualmente occultava os
verdadeiros

Em

1171 o imperador veiu

em

motivos,
isto

políticos

ou domésticos,

pessoa á Península

e, mostrando o propósito de

do repudio, e

denota que o tinha desgos-

assegurar a posse dos territórios que ainda lhe não

tado o sogro, cujo animo fero não lhe perdoou,

haviam tirado os
tropas,

christãos,

começou por junctar

provavelmente, a generosidade de que se doera

que se diz terem excedido cem mil soldafrente atravessou o Alemtejo, e apon-

como

duma

humilhação. Aífonso, todavia, re-

dos.

À sua

correu a essa generosidade quando,

remos, se
Jacub.

como veachou cercado em Santarém por Âbu

tando a lança ao coração do inimigo para o acabar d'um golpe, desdenhou investir cidades e
castellos

de importância secundaria

c foi

pôr

Depois do successo de Badajoz, Portugal viveu

cerco a Santarém, onde se achava Afl'onso. Tre-

muitos annos

em

paz

com

os estados christãos

meu

o leão do caçador cpie o procurava no fojo, e

limitrophes, e para esta harmonia forçada deve
ter concorrido a invalidez de Affonso,

mais tremeu ainda, porque não acreditava na

que nunca poude sarar da fractura da perna, e cuja energia moral se abrandou com a velhice e a doença. Sabendo-se fraco contra o genro, o velho leão não cessou de desconfiar
e receiar d'elle.

magnanimidade que não
que ao

tinha,

quando

soulte

mesmo tempo

se levantara

Fernando n

com muitas

forças c entrara

em

Portugal. Viria

ajudar Yusuf? Viria aproveitar a invasão dos sar-

Prova

racenos para cortar algum retalho dos estados,

d'esta desconfiança foi a pressa que teve de as-

que aimos antes rejeitara? Mandou o
guez perguntar-lh 'o
dil-o

rei

porlu-

sociar o filho, Sancho, ao governo e declaral-o

e ao

mesmo tempo
mas
foi

dissua-

seu herdeiro, para que Fernando não podesse aspirar a disputar a herança. N'este intuito
cavalleiro

das intenções hostis que lhe suppunha;
ocioso

armou-o

pediu-lhe amizade e protecção,

em

15 de agosto de 1170, quando só

o pedido. Fernando vinha soccorrer por inotu
próprio, e não perder, o sogro, c o

contava 16 annos, c pôl-o à frente dos exércitos
(]ue

rumor da

levantou para combater os mussulmanos,

sua vinda bastou para salvar Santarém do apuro

crendo acostumar assim os porluguezes a obedecer-lhe, ehabilital-o, a elle, para defender a coroa,

em que

se achava já, porque Yusuf, para não ser

meltido entre dois exércitos, levantou o cerco,

se

alguém pretendesse arrancar-lh'a. A conlar de
foi

addiando a realisação do seu empenho de conquistar Portugal.

1109, Sancho
zes
:

o chefe militar dos porlugueliça o

desapparecôra da

lidador strenuo, que

Este addiamenio durou nU' 1178,

em

viriude

conquistara

um

reino á ponta da lança, e debru-

de Iregoas ajustadas entre porluguezes e sarracenos, e que foram aconselhadas ã(iuelles pelo can-

çado para o tumulo coiisummia o resto da vida
organisando a conquista.

çasso do diuturno pelejar e pela inhabilidade de

Historia de Portugal
\ITniiso
p;ir;i

61
em

n Inicio diis

iiriiiiis,

oacstcs porroil'
qui' i'm

amir de Marrocos eram recrutadas

Africa,

viMiitMicias
Africii
(111

(lci'ivii(l;is

dii

gucrr;! rivil,
iniiiiivii
loiviiii

donde
ulil

atravez o Estreito ou pelos portos da costa

cm

llcsjuiiiliit

o

iin[i('rio

dos

de Portugal peneiravam n'este reino, pareceu
a Affonso Henriques habilitar-se para lhes sa-

idriHiliadcs.
('

Hxpiradas

([ai'

essas ti'cgoas

estando o ainir ausciilc da Pcninsida, o infante
;i|ipan'll)on

hir ao

caminho,

e ireste intuito
jior

cuidou de

fabri-

Sancho

unia cxpciligão c intcniou-sc
'i'anlo

car e apparelhar galés, que
ser maravilhas d'arte
pilotos e

certo nao

deviam
os

com

cila

na Andaluzia.

se inlcriiou

i'

Ião

nem podiam

receber a bordo

tcnicrai-ianicnlc quclopoii ciini Scviliia, c

não pode

guarnições exiieriíuentadas.

Como

dendo

eniral-a, assenlioreou-sc

do

suiiui-iiio

Tryaiwi c lievastou-o, deixando a luva de desalio

romanos, na primeira guerra jiunica, os porluguezes entenderam, porém, que a intre]iidez ea
força do braço supiiriam a arte náutica e abalança,

ás poi-ias da

monumental

eidaile.

Aprcssou-sc

Viisuf para levantal-a, e voltando-llie o antigo
ilcsejo

de acabar com 1'orlugal
e conliou-ii ao

ei]ui|)0U

uma

ar-

ram-se ao oceano, pelo qual séculos depois furam em demanda das mais vii-entes palmas, que exor-

mada

cominando de

lllianiin llin

nam

o

Iropheu das glorias nacionaes. .Mas de

Moliainiiied, a

quem encarregou de aimunriar

a

(|uein se liaria o

cominando da pequena

h-ola,

sua vingança aos porlugiiezes, entrando no Tejo
i'

jiara sahir a enconlrar os baixeis dos mouros, ([ue

attacaiulo Lislioa. Illiamin quiz obedecer e sur-

ameaçavam Lisboa?
A escolha
anda ligada
dillicil

giu, de íeito, deanie de

Lisboa

em

ini), mas

recahiu n'um cavalleiro de

os habitantes da cidade defenderain-se tão bizar-

valor estremado,

ramente da gente da

frota e

causaram-lhe tanto

uma

Fuás Uoupinho, a cujo nome lentia piedosa, que ainda se não
:

ilamno, que a emprezu falhou, rontcntando-se o

apagou da memoria do povo

a

do milagre de

almirante mussulmano

com

assoUar os legares

em

que poude operar desembarque, e retirar-se
os captivos que fez n'estes modestos comniet-

Nossa Senhora da Nazareth. Fuás Roupinho recommendãra-se recentemente á estima do monarcha
jior

com

um

feito d'arinas,

que os chronistasnão
elle

limentos.

sabem datar com
a enviai' contra Portugal

rigor.

Governando

no cas-

Não se lunitou A'usuí
jirimogenito, Yacub,

lambem seu íilho com um exercito de terra, e este princijie atravessou com felicidade o Alemlejo e pôz cerco a Abrantes, também em 1179. .Mirantes sustentou-se, mas a guerra continuou com fortuna variável, (loruche foi tomada e desa esquadra de Gliamin; enviou truída pelos almoliades.
<le

tello de Porto de Moz, pequeno e mal guarnecido, houve noticia de que vinham pôr-lhe cerco

os sarracenos. Calculando que não poderia resistir-lhes

com

as forças de

que dispunha, incitou
porque

os moradores da villa a que rejiellisscm o pri-

meiro embate dos
os

sitiantes,
ia

elle,

com

homens d'armas que

reunir, não se de-

Km

1180, ou princípios

1181, os mussulmaiios de Sevilha, capita-

moraria a soccorrel-os, e sahiu do castello para pedir reforços ás milícias burguezas de Santa-

neados por
din,

Mohammed

Ibn Yusut Ibn

Wamuveii-

accommelteram
.\o

lívora

sem conseguir

cel-a.
ls'liak

ini'smo anuo o almirante Abdallah llm

rém e Alcanede. Os moradores de Porto de Moz cumpriram galhardamente o seu dever o primeii'o assalto dos mouros foi recebido na ponta
:

Ibn .lami ti-avou

combate com

uma

frota

das armas, c os assaltantes, tendo sobrevindo

a

portu.tiueza,
llie

não lonue da foz do Tejo, e afundou-

noite, recolheram-se ao arraial para se refaze-

vinte navios
\l

pondo os restantes em

ihdiaiida[leri-

rem com
pouso
e

o

somno.

V.r,i

este o

momento de

re-

da.

como

a

lucta

que corria com estas

descuiflo com que contava Fuás Roupipratica o ardil

(lecias

não satislizesse os ilesignios ambiciosos e

nho para pôr em

que delineara.

vingativos do amir de Marrocos, deixou-a elle

Com
lonire

os auxiliares que ajunctára aproximou-se

atlrouxar emquanto reunia forças para
decisivo, e os

um

i:olpe

de Porto de Moz, ainda a tempo de assistir de ao assalto: mas

porluguezespoderam por momenarmas.

em

vez de tomar parle na

tos encostar as
l'oi

briga

escoiideu-se cautelosamente, c logo que

na campanha de 1180 ou 1181 que, se-

se fechou a noite e os sarracenos ;idormeceram,

fiundo antigos clironistas, se eslreiou no
valor portuguez.

mar

o

deu sobre
lezas

elles

de improviso praticando gentiderrolou-os, e pôl-os

Homo

o melhor das foryas do

de

viilor,

cm

fuga,

62
sem
dos

Historia de Portugal
so volt;irL'in, simiuci-, paru coular o nuiiiiTO
iniiiiifios.

crendice popular, e o seu único

monumento

é a
ro-

supposta pegada de ginete impressa
diMlodd julclia

numa

A

gLicrreinj de Uiiilo ciliicnlio r
llciirii(M('s (|iie |j(idia

sobranceira ao oceano!

gou AlToMío
niaiidu
1'cilu

ciUi^cgar o i'oin-

Fm
barcou
para

maio de

1

184 Vnsuf .Vim íai-uli desemliibrallari,
ipie

lia |ieijuciia

IVula iruniil,i ciu Lislioa, c
l{ou|iiiili(i

de

em
com
e

Cebal-felali

dirigiu-se
Iroiixera

diií-sc i|ui'

Kuas

se írz

com

cila

Scvilba,

juncluu as tropas

ao

iiiai',

o cncoiilfaudo juiiciu ao cajio de lispi-

d'Alrica
ls'bali,
leita

as que cominaiidava o

lillio,

Abu

clicl uiiia
Mii

osquadra roniiuaiidada por

pi'o\nvcliiu'nlL' Jaini

— logrou

um

Dalxu-

a vciilura do

acompanhado por este rompeu a froude Portugal como a coi'rente engrossada

|iòl-a

cm debandada
succcsso

Eslc

— acciT'sccnla-sc — cucbeu-o
foi

aprisionando alguns iiaixcis.

pelas cbuvas

rompe

o

tliijue.

A innundacjão de

de

gente ai'mada

conlianca.
liido

Ilegrcssado a Lisboa, onde

rece-

Santarém

e

cbegou ao sopé dos nmros de alii parou, liatidos e minados du-

Iriumpiíalmeule,
rei

como um novoDuiiiio,
inimigo alô

pe-

rante semanas inteiras, esses

muros resistiram

diu ao

(juc

o deixasse fazer-se

novameule

impávidos, e depois de muitos assaltos sempre
repellidos,

de veiiu

e ir [ii-ocurar o

em

sua pró-

Yusuf cabiu ferido c houve de retirar-se
ir

pria eusii. U rei assentiu. Fuás

Roupinho percor-

com

o exercito para

morrer

em

Algeziras.

As

reu a costa de Portugal som encontrar com quem se medir; singrou em seguida para o sul, correu
ta,
-d

circumstancias d'este grave successo são nud conhecidas.

O

escriptor

sarraceno Abd-el-halim

costa d'Africa, e entrando no porto de Ceu-

conta que o amir,

desistindo da conquista de
filho

desprevinido para receber visitas de galés

Santarém, ordenara a seu

Abu

Is'liak

que

inimigas, destruiu ou aprisionou os navios

mou-

com

o grosso do exercito passasse o Tejo o fosse

riscos ([ue n'e)le enconlrou ancorados, e regres-

pôr cerco a Lisboa. Que este movimento se operara effectivamente durante a noite, ficando Yusuf no

sou á pátria rico de gloria

e

de despojos.

Tempo depois, talvez em 1 182, repetiu a emprcza, já alFeito aos seus perigos. .lunctou vinte
e

acampamento

fronteiro á cidade só

com

os

principaes cabos de guerra e a guarda negra, que

uma

galés e foi

a Ceuta.

com cilas dar nova iuveslida Mas d'esta vez os mouros estavam appaporto, da primeira vez dese

trouxera d'Africa.

(Jue

este

imprudente

isola-

mento do amir
tar,

fora reconhecido ao

romper do
penetraram

relhados ]jara a defesa, senão preparados para

dia pelos cbristãos, e que estes, para o aprovei-

algum attaque. Xo

fizeram

uma

i'apida sortida e

armado, encontrou Fuás lloupiídio cincoeiíta
portuguezas se
te.

até á

tenda do amir, o qual se defendeu com va-

quatro galés, as quaes tauto qu(í avistai-am as

lentia da súbita investida.

Oue a guarda negra,

moveram para

lhes dar

comba-

desperta pelo rumor da lucta, repelliu os portu-

escusal-o conio

Não poude ou não quiz o almirante portuguez rccommendava a prudência em;

guezes para dentro da cidade, mas que Yusuf ficou ferido no combale,
e

ijue

houvera de sustentar,
reli-

penbou-se a lucta,
se batci-am

a

desegualdade do numero

de tanta gravidade que não poude dirigir a

decidiu da vicloria, e ainda que os portuguezes

i'ada

do exercito, que se elíectuou ordenadamente

como

leões, onze dos seus baixeis
piípu'

no dia da derrota.
D'csta versão, a ipie não faltam inverosimi-

loram niettidos a

ou aprisionados,

e

os
foi
:

restanlcs fugiram desa|ioderadaniente. ^^ão
este,

Ibangas, discorda a de lladulpho de Diceto. liste
escriptor

comtudo, o maioi' estrago que solTreram Fuás lioupiidio, crivado de feridas, caiu exânime no mesmo logar onde annos antes trinnq)háperda de varão de tanto esforço, e já adextrado na escola do mar, devia ser mais sensível
ra, e

não teve noticia do attaque dos porturei

guezes ao acampamento do amir, e conta apenas

que Yusuf, pr(q)arando-se para combater o
Leão, vindo

de

em

soccori'o

do sogro e para descer-

car Santarém, vacillára e cabira no acto de cavalgar, e que a sua (|uéda fora signal da

a Portugal u a seu
i|ue o

iri

do que o dannio

matei-ial,
foi

debandada
se o

Irabalbo re|)arava. Fuás

l!on|iinli(i
:

o

dos

mussulnianos
1'òra

:

não explica,

]ioi'ém,

]icrcursor das nossas glorias navaes

o seu nolilLdo
|icla

amir

ferido ])or tiro das mm^allias

ou

alla-

me

vive,

porém,

])ei-pciuado,
Icjiihi

não por este

cado de súbita eidernndade.

Ilisloriadoi'es

árabes

d'lionra,

mus

pela

milagrosa, acceila

ba lambem que coidessam ignorar a causa da

Historia de Portugal
niorlcilc
Viisiil',
I'

63
(|uasi

u

(|iif, ])orl;iiilo, S(';i|iurii,

romo

na historia militar porlugueza,
na
historia
politica

não figura
in-

de

iri'('ciis;iv('l
(•

vcnkiilr,

iirci-cii ilu silio

de Saiila-

senão como fautor da
(|ue, todavia,

rciii,

i|iii'

Icriiiiiiiiu ciiiii
foi
I)

um

d(.'sastru

puraoisdo podu-

de|)eudeiicia

nacional,

seus pães

laiiiisiiio

i'

ulliinu coiniiiclliiiiciiln

haviam preparado, estimulados pela própria ambição e ajudados pela vontade lirme do povo.
líiu
l^ri-

roso
('(11

ainii'

de Marrofos. Eslc di^saslrc siicccdeii

jiiiilio

ou julho

(Ic

1

184.

nm

throiio

mas não procurou
do fado,
iieni

dar-llie outro

Não arahou com

clli.',

ainda assim, a yucrca
iicquciio estado por-

fundamento

ali^m

delerminar-Uie

movida pelos almidiadcs ao
tu.uuez.
(Kl

condições dexistencia mais especiaes que as estabelecidas pelo direito publico wisigothicoe pelos

em

couseiiiieiiria ile

ordens expedi-

das por Yusuf, ao passar a llespaulia, ou por
iiiicialiva

usos vigentes na

1'eiiiusula.

Transformou

em

do seu suecessor, as forcas navaes

d'.\-

estado livre e imlepeinleute

uma

província da

íriea e

da Andaluzia vieram,

tamhem em ilS4,
vez o liiiham feilo.

monarehia leoueza, mas não cuidou de adaptar
á transfornuifão as instituições politicas e (dvis,
(|ue iTessa

allaear l.islioa, eoiiio já

uma

mas a eniprezu

^'orou, e iel-aiíorar

um

acto indi-

provinda achou implantadas. O con-

vidual de heroicidade. Os sarracenos roníiavain,

dado pas.sou a reiuo alterando-se apenas achancella

para entrar na cidade, no auxilio de

uma

engealto

dos documentos otliciaes, e a monarehia

nhosa maehina,
lionlo,

ipie consistia

irum navio de

dispensou diploma de constituição e conteiitou-se

cliamado droiuoii ou dromunda, o

(|uad,

com

o titulo

d(í

i-econhecimei)to, obtido á força
!,eão, e

á maneira de easlello llucliiaute lançaria tropas

d"armas do

rei

de

por dinheiro da Santa

sohre as muralhas de ipie se approximasse, e esU;
baixel
si]i,'oliron

Sé Apostólica.
lis

por

arlilii-io

de

um

soldado, ipie

historiadores fabnlistas pretendem ((ue Ai-

acoherlaiulo-se
110

com

a noile lhe alirin lariío romlio
ii,i

foiíso

tomou

o titulo de rei

em

1131),

tendo a ac-

c<islado.

Vendo-o varado

praia

como uma

carcassa, vendo iiiulilisada a sua melhor arma,

os capitães da

h'iila

mussiilmana perderam o ani\

mo, desIVidilaram

as

cilas, sahiram

do Tejo, não

damação da soldadesca convertido em coríia real os louros da vicloria d'Uurii]ue, mas esta versão nem documentada nem ( verosímil. As campanhas de AUbiLso com os sarracenos eram aL('

st;m lhe devastarem as inarLrens alierlas, e roram,
talvez, dizer a ipiem os enviara ipie iião calda
lio

solulameiíle alheias e estranhas ao

jileito

(|;i

Í(h

dependeu(-ia purlugucza,
tão

em

que foram parleá
AlTon.so vi eo-sdcí
u'ellas, peraill(<

poder do

l'roplici:i

desencravar a cruz do

somente os successores de
;

torrão portui,'uez,

e i|ne a espada de Uniar far-

conde Henrique
a fortuna das

não se debatiam

se-hia pcda(;os contra o sceptro de Alloiiso. D
certo
(':

(jue os

almohades desistiram de novos

armas, questões politicas, o sô s(f di.sputava a posse de províncias e cidades; cpdr-*
tanto não
('•

coiiimellimeiítos contra Portugal, (|ue pi'ovou a

crivei

que do desbarato dolsmaroit

sua ndiusla vitalidade rehalendo-os, coinoiírocla-

mãra a sua emancipação

|iolitica

saindo incólu:

de quae.s()uer chefes agarenos se deduzisse o direito do filho de Tlierexa d independência coroada. Valor [icssoal. feitos d"armas. victorias
giies sobre os inimigos
iiisi»

me

dos repelidos assaltos dos Iconezes

a Ibrga

saiierioiíára o direito,

derivado da voiitade po-

pular.

por

si

da cruz, não conferiam só prerogativas iwaes. A fabula da acdamação,
v(>rosiniil

CAPITULO VII
Instituições

que seria
plo,

se fosse datada, por

exem-

do dia da batalha de Orneja ou da retirada de D. AíTonso vii de Valdevez, não lem cabimento
depois do combate d'Ouriqne, e apenas pôde addcsjiir as

Forçado pela edade e pela doença a

mittir-se

que no cntbusiasmo do triumpljo os

sol-

armas, AfFonso Henriíjues já não tomou parte pessoalmente na campanha com o amir de Marrocos.

dados, saudando o seu caudilho, lhe dfissem
titulo

um

Os últimos annos de vida c de reinado foram

que o povo já começara a atlribuir a D, Thereza, sem que esta saudação fosse ou pretendesse ser acto
direito.
poliliíío

gastos pelo guerreiro invalido nos mist(!'res pacíficos

regular ou fundamento de

da realeza,

p;u'a

os quaes tinha capacidade
i

mediocre. Se AfTouso

avulta

como um gigante

Não ha documento nenhom publico de dafa

64
anterior a jiiiiho
cli>
1

Historia de Portugal
140,

vm que

D. AlToiíso se
1

do Vez era relativa a essa independência
leza de Affonso
e pela retirada
:

e á rea-

intitule rei, e n'uni;i

rscríplurapaiaicukinle

de

tendo-se decidido

sem combate

outubro de \l'M), portanto posterior quasi três niezes ao sun-esso ile Ourique, o chefe dos portuguezes eliania-se simplesmente infante. Foi este o titulo que elle adoptou logo que assumiu o governo, e
era neto

do monarcha de Leão, os portu-

guezes e o seu chefe tiraram as legitimas consequências do
facto,

sem mesmo esperarem
verdadeiro Iriumpho.

pelo

tractado que devia seguir-se á suspensão d'ar-

ninguém podia
do

contestar-lli'o pois
vi

que
de

mas, que fora

um

imperador AfTonso

c

ilibo

Esse tractado fez-se todavia

em 1143, na
filho
vii

ci-

D. Tbereza,

sempre

tractada, até por D. Urraca,

dade de Zamora, conforme narrámos,
foi

e n'elle

como infanta. Posteriormente, quando AlTonso concebeu esperança de vencer a demanda com a
coroa leoneza, denominou-se systemalicamcnle
'príncipe, e

conhrmado a

titulo real

ao

do conde

Henrique.

No entender de

Affonso
titulo

não

fica-

ram, porém, ligadas a este
tão

prerogativas
pri-

como

tal

liguia nos diplomas desde

amplas da soberania, que isentassem seu

1136

até 1138, talvez para fazer lentamente a

mo

de algumas, embora suaves, obrigações para
a cortja leoneza; e Affonso
i

transição do titulo, (pie indicava a sua genealogia regalenga, para o que elledeseja\a r havia de
.ser

com
fazei'

tamljem julgou

necessário, para se furtar a essas obrigaçt")es,

symbolo do seu poder soberano
derrotado por Atíouso
vii

;

mas quando

homenagem do

reino a S. Pedro, decla-

foi

houve de reiumciar,

rando cuidadosamente que «não receberia
sua terra o jugo de
lii'0

em

espontaneann'nleou por inlinuição, otrai-lameiílo

nenhum

doininio ecclesias-

de príncipe
usara.

ti

contentar-se

com

o que

pi'iiiieii(i
1

ou secular, senão os delegados da sé apostóclausula, que parecendo concessão ao paanl(>s era

O

ceU'bre Iraclado de

Tuy de julhodí;

13S

lica,'!

tem a rubrica: convcnientia qiiam
porluf/alensis

fácil infans
;

pado

segurança conlra o im]i('rador. Aseste,

rum Ispaniw impcvalovc
d<i

e esla
leoiiez
ti-

sim a considerou

e
fijra

a pi"ova de qne pelo

formula denota o cimne que ao monarcha
iiispiíavam as pretenções
[irimo,

pacto de Zamoi'a não
alisolnla

sua intenção deixar
rei,

porque o

imicpendeucia ao novo
iii

é

(]ue se

tulo de príncipe ora, M'a(|uelle

tempo, Ião pouco

quejxoii a líugenio

de

ipic elle li\('sse

accei-

indicativo
fidalgos,

tie

dignidade real que o usavam alguns
territórios,
/<rí)?(Y7<s

tado a hom^enagem que lhe lòra h'ila da terra portugalense, allegaudo, segundo se diz

governadores de extensos
si'

n'um trecho
e os

como Fernando Amies, que
Limix.

chamava

da resposta que
seus súbditos

llic

deu o papa, que Affonso

llie

deviam auxilio

militar contra

Depoisdii tracladodeTny, AIVoíiso vullon,
a usar do titulo de infante,

(lois,

os sarracenos, quando elle o reclamasse. Esta

como denota
di;
1

aescri-

queixa

e

esta

allegação

concorreram, talvez,

ptura já citada do

1

."'

de oulubi'0
Imií

139, a des-

para que os papas, apesar de acceilarem a subjeição de Portugal, se obstinassem

peito da vicloi'ia d'Uuri(]ue.

o armistício de

em não
titulo

re-

Vaklevez,

em

1

14U, (pie o inoven, pela convicção

conhecer ao seu chefe

politico

senão o

de

de

(jue

seu primo era impotenie para reprimir as

dux
tico

:

mas

esta

obstinação leve

um

termo, o

suas aspirações e as do povo, a intitular-senãojá

ouro contribuiu para alirandar o rigor pragmá-

príncipe mas

rei.

O

titulo

de doação da ermida
:

da cúria,

e

em

1

175)

Alexandre in (expediu a

de Santa Maria de Panoias

diz

«

Ego egregins rex

bulia de contirinação da dignidade regia, que

alfonsusgloriosissimeyspanie imperatoris nepos
et

acabou para sempre com as reclamações e pretenções dos soberanos leonezes c púz ao abrigo

consulis

domni

henrici

et

tarasie regine fiHus,

dei vero providentia lotius portugalensis pro-

de todas as contestações, fundadas
existência de Portugal

em

direito, a

vinde princeps, e é datado de 10 de
attribuiu linha por fundamento, não já

abril

de

como estado

livre e au-

1140. D'esta vez, sim: a realeza que Affonso se

thonomo.

uma derÁ
ção.

rota dos sarracenos,

mas um

AS

('.(JUTKS

DE LAMEGO

insuccesso dosleorealeza de Affonso faltou

nezes e quasi

uma

acquiescencia de Affonso vn

uma
a

consagraantes

ao facto da independência de Portugal. A questão que havia de decidir-se piilas armas

É

incontestável que lh'a conferiu,
bulias,

na veiga

que os tractados e as

vontade

do

Historia de Portugal
povo: não liouve, porém, acto ou acta dessa
vontade, regularmente consultada e expressa,

65

acerca das prerogalivas o da própria legitimidade

da realeza, citaram o Fitero Juzgo, i-itaram breves e bulias pontiGcias,
ferencia,

que a sanccioiíasse e que lhe determinasse as
|)rerogalivas.

mas nunca

fizeram re-

Durante séculos, e até ao limiar

nem

directa

nem
;

indirecta, ao docufoi tido

do nosso, acceitanim-se como carta constitucional
e

mento que a contar do século xvn
fonte de direito politico

como

fundamental da monarcbia as actas

diis

o que é pi'ova, apesar de

airtes de
liradas

Lamego, que

se dizia terem sido cele-

negativa, valiosa, da sua não existência. As ne-

no anno de 1143, e

em

que a uagão, reconfirmado so-

gociações

com

a Santa Sé acerca da confirmação

presentada pelos ricos homens, pelo clero e pelos
|iriicuradorés dos cuiicclhos, havia

do

titulo real,

o pleito derimido perante os ponii

lilices

entre

Afibiiso

e

suas

irmãs, leriam,

Icmne e juridicamente a acclamayão de Allonso pelo exercito de Ourique, e ao mesmo tempo lavrado o diploma da sua autonomia. U famoso

entre outras muitas contendas, dado occasião a

mencionar-se forçosamente o importante docu-

mento, se o conhecessem os jurisperitos
chronistas da epocha,
e só

e os

Nos

libri

sunms, rex nosler

liher esí foi reve-

podiam ignoral-o

renciado

como proclamação

altiva

de

uma

nacio-

estando

elle e

devendo estar ainda por séculos
falsario.

nalidade c de

uma

dynastia; dyuastia e nacionali-

na mente de

um

dade pareceram leíjitimadas com o cumprimento
(las

Esse documento adquiriu, porém, valor pelo

mais escrupulosas praclicas e formalidatles
politica; e

uso que d'eMe se
aqui, tal

fez, e

por isso o transcrevemos
Alco-

de jurisprudência

as actas de Lameiro

como o encontrou no archivo de
ela

foram muitas vezes adduzidas como argumento
e sentença

baça e o verteu a vulgar o erudito auclor da terceira parte

em

graves pleitos. Recentemente, po-

iUonarcIíia Lusitana

rem, a

critica scientifica

de eruditos desassomsis.

brados de preconceitos, especialmente dos
iloelho
i|ue o

Em nome da santa e individna Trindade, Padre,
Filho e Kspirito Santo, i|ue é indivisa e inseparável.
t!

da Rnilia e Alexandre Hercidano, provou

documento respeitado como tahoas da

lei

Eu,

1).

AlVonso,

íillio

do conde D. Henrique

era ohra tosca de
V

aJgum

falsario

do século

xvii,

da rainha D. Thereza, neto do grande D. Af-

que as còrles de Lamego, de que pretendia
origem, tinham sido invenção quasi tão in-

fon.<o,

bnperador das llespanhas, que poui'0 ha
fui

tirar

que pela divina piedade

sublimailo á digni-

verosímil

como o milagre d"Ourique,

e esta de-

dade de

rei. .hl

que Deus nos concedeu alguma
favor alcançámos victoi'ia

cisão da critica não teve apiiellação

agora anuulada. ^'ão liouve cortes

no anno de 1143

;

não se firmou
;

nem será já em Lamego nenhum pacto

quietação e

com seu

dos mouros nossos inimigos, e por esta causa

estamos mais desahvados, convocámos a cortes
todos os que se seguem.

entre a realeza c a nação

não se estabeleceu

O arcebispo de Braga,

para a nova monarcbia nenliuni código especial

o bispo de Vizeu, o bispo do Porto, o bispo de

de direito
ilo,

politico, e o

que n'eUa ficou vigoran-

Coimbra, o bispo de Lamego, e as pessoas da
nossa còrtc que se nomearão abaixo, e os procuradores da boa gente cada

depois de separada da monarcbia leonezafoi

castelbana,

o que vigorava

em

todos os reinos

um

jior

sua cida-

cbristãos da Península: o antigo código wisigol-hico,

de: convém a saber: por Coimlira, Guimarães,

ídterado, mutilado

ou interpolado por

câ-

Lamego,
ves
,

\'izeu,

HarccUos, Porto, Trancoso, Cha,

nones de concílios, determinações do poder real

l^.astello

Kcal \'ouzilla. Parede? Velhas, Geia,

ou usos generalisados e radicados pelo tempo. Os argumentos com que se mostrou a falsiilade
das actas de Lamego, principalmente deduzidos

Covilhã, Montemor, EsgueiíM, Villa do iiei,e por
parte do seidior rei, Lourenço \iegas,

havendo

do seu texto

e até

da barbárie insciente da sua
;

também grande multidão de monges gos. .Vjuntámo-nos em Lamego, na
Santa .Maria
ile

e de clériegreja de
cl-rei

linguagem, são incontrastaveis

se precisassem

Ahuacave. E assentou-sc

corroborados poder-se-hia fazer observar (]ue

no throno real sem as insígnias reaes, e levantando-sc. Lourenço Viegas, procurador d'el-rei,
disse

nos primeiros dias da monarcbia, e quando os

monarcbas discutiram,
Leão, já

com

os soberanos de

com

os papas, já

emfim com os subditos,

«Fez-nos ajuntar aqui

el-rei D. Aflonso,

o qual

VOL.

1—9.

66
liivantastcs

Historia de Portugal
no campo (l'Ouriquc, para
f|U('

vcjaos

no reino,
Se
ver
rer;

e

que sobre

isto se

fagam

leis

;

»

e os bis-

as letras do Santo Patlrt; e iligaus se quereis que
seja elle rei.» Disseram todos:

pos e nobres Hzeram as
el-rei

leis n'esta

forma:
varão e
ti-

«Nós queremos
:

de Portugal não tiver

filho

que seja
sim

elle rei.

»

disse o procurador

«Se as-

filha, ella será a

rainha tanto que el-rei mor-

é vossa vontade, dae-lbe a insifrnia real.»
:

porém será

d'este

modo não
:

rasará senão

E disseram todos

«Dêmos cm nome de Deus.»
e

com portuguez
rei

nobre, e este

tal

se

não chamará
filho varão.

E levantou-se o arcebispo de Braga
das mãos do abbade de Lorvão

tomou
coroa

senão depois que tiver da rainha
fôr nas cortes

uma grande

E quando

ou autos públicos, o ma-

de ouro cheia de pedras preciosas, que fora dos
reis

rido da rainha irá da parte esquerda e não porá

godos

e a

tinham dada ao mosteiro, e essa
d'el-rei, e o

em

sua cabeça a coroa do reino.
lei

pozeram na cabega
a espada

senhor

rei

com
na
aju-

Dure esta
lha d'el-rei

para sempre

:

que a primeira

fi-

núa em sua mão, com
:

a qual entrou

batalha, disse

«Bcmdito seja Deus que

me

que o

nunca case senão com portuguez para reino não venha a estranhos, e se casar com

dou

;

com

esta espada vos livrei e venci nossos
e vós

príncipe estrangeiro não herde pelo

mesmo

caso

inimigos,

me

fizestes rei e

companheiro

porque nunca queremos que o nosso reino saia
tora das
lor

vosso, e pois
se governe

me fizestes façamos leis pelas quaes em paz nossa terra. » Disseram todos
rei, e

nos fizeram

mãos dos portuguezes, que com seu varei sem ajuda alheia, mostrando
e

«Queremos, senhor
fazer leis, quaes vós

estamos contentes de

n'isto

sua fortaleza e derramando seu sangue.
;

mais quizerdes, porque nós

Estas são as leis da herança do nosso reino

todos

com nossos

fiUios e filhas, netos e netas es»

leu-as Alberto, cancenario do senhor rei, a to-

tamos a vosso mandado.
rei os

Wiamou
si

logo o senhor

dos, e disseram

bispos, os nobres e os procui'adores dos
:

«boas são, justas são, queremos que valham por nós e por nossos descendentes,
:

concelhos, e disseram entre

«Pagamos primeido reino» e

que depois vierem.»

ramente

leis

da herança

e successão
:

E disse o procurador do senhor

rei

:

«Diz o se-

fizeram estas que se seguem

nhor
reino, do

rei

:

Quereis fazer

leis

da nobreza e da jus-

Viva o senhor rei D. Affonsoe possua o reino. Se
tiver filhos varões

tiga?» E disseram todos: «Assim o queremos;

vivam

e

tenham o

façam-sc

em nome

de Deus.

»

E fizeram

estas
e

modo que não
reis

seja necessário tornal-os a fazer

Todos os descendentes de sangue real
filhos e netos

de seus

de novo. D'este modosuccederão. Por morte
filho,

sejam nobilíssimos. Os que não são
infiéis

do pae herdará o
os filhos dos
l)re.

depois o neto e finalmente

descendentes de mouros ou dos

judeus,

fillios

em todos os séculos para semd'el-rei

sendo portuguezes que livraram a pessoa d 'el-rei

ou o seu pendão ou algum
iillio

filho

ou genro na

Se o primeiro

morrer

em vida de
o

guerra, sejam nobres. Se acontecer que algum
captivo, dos que

seu pae, o segundo será

rei, e este se fallecer

tomarmos dos
filhos

infiéis,

morra por

terceiro, e se o terceiro o quarto, e os

mais que

não querer tornar á sua infidelidade,
na
lei

e perseverar
([ue

se

seguirem por este modo. Se
el-rei fallecer

de Cbristo, seus

sejam nobres. O

sem

filhos,

nha irmão possuirá o reino quando morrer não será rei seu
iiieii'ii

em caso que teem sua vida, mas
filho

na guerra matar o

rei contrario

ou seu

filho, e

ganhar o seu pendão, seja nobre. Todos aquelles
que são de nossa corte
e

sem

pri-

têem nobreza antiga, per-

n fazerem os bispos, os procuradores e os
;

maneçam sempre

n'ella.

Todos aquelles que se

nobres da còrle d"el-rei
e se o

se o lizerem rei será rei,

acharam na grande batalha do campo d'Ourique
sejam como nobres
e chamem-se meus como seus descendentes.

não elegerem não reinará.
el-

vassallos,

Disse depois Lourenço Viegas, procurador d
rei,

as.sim elles

aos outros procuradores: «Diz el-rei se que-

Os nobres, se fugirem da batalha, se ferirem

reis

que entrem as

filhas

na herança do reino,
»

e se

([U(!reis fazer leis

no

ijue lhes loca.

E depois que

alguma mulher com espada ou langa, se não libertarem a el-rei ou a seu filho ou a seu pendão

altercaram por muitas horas, vieram a coucluir e

com

todas as suas forças na batalha, se
falso,

derem

disseram

:

«TaraLem

as filhas do senhor rei são de

testemunho

se

não fidlarem verdade aos
filhas,

sua descendência, e assim queremos que succedam

reis, se fallai-em

mal da rainha ou de suas

Historia de Portugal
as couse se forem para os mouros, se furtarem

67

blasphemarem de Nosso Senhor Jesus Christo, se quizercm malar el-rei, não sejam nobres nem elles uem seus lillios para semsas alheias, se
pre.

o cancellario d'cl-rei, Alberto, a todos, e disseram "Boas são, justas são, queremos que va:

lham por nós

e por todos nossos descendentes,

que

depois vierem.
];

disse o procurador d"el-rei Lourenço Viegas
,

Estas são as leis da nobreza

;

e leu-as o can-

«

(Juereis que

el-rei
d(5

nosso senhor vá ás cortes de

cellario d'el-rei, Alberto, a todos.

E respondeque

Leão ou lhe

triimto,

ram:

«Boas são, justas são, queremos que vae por nossos descendentes,
-

soa, tirando ao senhor

ou a alguma outra pesPapa que o confirmou no

lham por nós

vierem depois de nós.

reino?" E todos se levantaram, e lendo as espadas nuas postas em pé, disseram « Nós somos
:

Todos os do reino de Portugal obedeçam
rei c

a el-

livres,

nosso

rei é livre,

nossas mãos nos liberconsentir morra, e se

em
leis
(I

aos alcaides dos logares que ahi estiverem nome de el-rei, e estes os regerão por estas

taram, e o senhor que
fôr rei

tal

de justiça:

homem,

se fòr

comprohendido

em

furto,

despela primeira e segunda vez o porão meio todos de visto seja aonde pubhco, logar pido em
se tornar a furtar

não reine, mas perca o senhorio." E o senhor rei se levantou outra vez com a coroa na cabeça e a espada niia na mão, e fallou a todos "Vós sabeis muito bem quantas batalhas tenho
feito

por vossa liberdade
e o é
tal

;

sois d'isto boas teste-

ponham na
;

testa

do

tal

ladrão

mmihas
alguém

também meu braço

e espada; se

um

signal
e

com

ferro quente

e se

nem

assim se

cousa consentir morra pelo

mesmo
»

emendar
dado

tomar

a

sercomprehcndido

cm

furto,

caso, se fòr filho

meu ou

neto não reine.

E

dis-

morra pelo caso, porém não o matarão sem mand'el-rei.

seram todos
tal ([ue

:

«Boa palavra, morra.

El-rei, se fòr

consinta

em
:

domínio alheio, não reine.
«

A mulher, se commetter adultério a seu marido com outro homem, e seu próprio marido denunciar d'ella á justiça, sendo as testemunhas de credito, seja queimada depois de o fazerem sa-

E

el-rei

outra vez

Assim se

faça.

.\

REALEZ.V

ber a

el-rei

:

e queime-se conjimctamente o va-

Acceitando-se como verdadeiras estas actas das
cortes de

rão adultero
(juizer

que a

com ella. Porém se o marido i\ão queimem, não se queime o cúm;

Lamego, pretendeu-se inculcar

a

mo-

plice

mas

fique livre

porque não é de justiça que

narchia de Allonso Henriques como cercada de imúlaiçõesrepresenlalivas; a verdade é, porém,

ella viva e ([ue o

matem a elle. Se alguém matar homem, seja quem quer que
morra pelo caso. Se alguém
Se eUanão
fòr nobre,

que não ha no diccionario da moderna politica vocábulo que defina com rigor a realeza do fundador da nacionalidade.
Elle

for,

forçar

virgem

entendeu-a,
a

se-

nobre, morra e toda sua fazenda fique à donzella
injuriada.

gundo

se nos affigura, quasi
:

como

entenderam

casem ambos,

os bárbaros
espirito

como uma

chefia militar.

O seu

quer o

homem

seja nobre quer não.

Quando alguém por
alheia, vá dar o

força tomar a fazenda
d"elle á justiça,

dono querclla

ijue fará cora que lhe seja restituída a sua fa-

conservou-se estranho ás quesdos tões do seu tempo, relativas á coordenação como poderes sociaes. Viveu bem com a nobreza ciúme dos seus classe, com o clero sem mostrar

rude

zenda.

privilégios

nem

intentar desenvolver á sua custa

O homem que tirar sangue a outrem com ferro amolado ou sem elle, que der com pedra ou algum páo, o lUcaide lhe fará restituir o damno e
o fará pagar dez maravedis.
(>

as prerogativas da coroa, e

com

as classes po-

recrutou os pulares, entre as quaes uáo raro
troços mais firmes, intrépidos e desandiiciosos soberada attribuições As d 'homens d'armas. estavam mal definidas. A nmdança do conde
ni;i

que

fizer injuria

ao aguazii, alcaide, portaferir,

dor d'el-rei ou a porteiro, se o

ou lhe

fa-

em
foi

rei,

(|ue

instou torrentes de sangue, quasi

çam

signal

com

ferro quente,

quando não, pague

insensível

no regimen interno do

paiz.

n

rei

cincoenta maravedis e restitua o damno.
Estas são as leis da justiça euobreza; cleu-as

commandou

exércitos e ordenou emprezas mili-

tares, fez e desfez allianças,

doou propriedades,

68

Historia de Portugal
tal

decidiu Icliyios, adiiiinislrou justiça,
fizera o coudtí, o iníaulc,

como

obrigação legal do que por conveniência de auctorisaras deliberações preceptivas,
realeza.

ou o priucipe, mudando

emanadas da

apenas de ohancella. Ha que distinguir n'elle o senhor, o proprietário de vastos dominios

Os ricos-homens eram como pequenos

— bens

soberanos de estados mediatisados, para nos ser-

da coroa, acci-escentados a toda a hora pela conquista, e o chefe doestado; o poder, e a forca

virmos da expressão adoptada na tlonfederação
germânica.
«

tlhamavam-se

para niantel-o, eram mais d'aquelle do que d'esle.
Jvão

narchia Lusitana
caldeira,

— Brandão na Mo— ricos-homens de pendão
,diz

e

havia centralisação. O estado tinha o aspecto

porque traziam pendões na guerra, a
c

de unui federarão de terras privilegiadas, honras e coutos pertencentes á nobreza e ao clero,

que obedeciam muitos nobres, seus vassallos,
a caldeira era

em

razão do mantimento que lhes
rei, e

de bens da coroa, patrimoniaes ou recebidos por
partilha dos despojos dos sarracenos, e de con-

davam. Eram do conselho do
republica.

por seu pa-

recer se faziam as cousas de mais importância da

celhos, de que

em tempo

próprio fallaremos lar-

Tinham auctoridade para

auxiliar

com

gamente. Na propriedade regalenga, sujeita ao
direito
luto,

seus vassallos os reis estranhos, quando no reino

commum,

o monarcha era soberano abso-

não era necessária a sua assistência,

e,

o que

reunindo a lodos os poderes sociacs todos
;

mais
tos

os direitos individuaes do propriíitario

suas relações, immensamente variáveis,

mas com

as os

podiam fazer guerra a seus reis em cercasos, sem d'isso ;resultar damno ou infâmia
é,

a seus parentes. Seus vassallos, epriacipalmeiíle
os lavradores das suas terras, tinham

senhores das terras privilegiadas c

com os

conce-

grandes

lhos, individualidades de excepção,

reduziam as

isenções, porque conviídia não faltarem as ren-

hiiicçOes da realeza ás
e

de coordenadoi'a de forças

das áquelles que sempre deviam estar preparados

elementos

independentes, e o trabalho dos reis
séculos
foi

e o seu
forças

empenho de
e
!\las

subordinar essas

com grande numero d(! vassallos mas não eram obrigados a ir a eUas senão quando
para as guerras
o rei ia

combinar esses elementos n'uma unieste trabidho

em
. . .

pessoa, o que seria ordinariamente,

dade, o estado.

não

foi,

sequer,

pelas muitas

em

que os

reis d'aquella

época se

iniciado por Affonso Henriques, cujo reinado, re-

achavam
sários

Não se derivava

esta proeminência

petimos,

foi

unia época exclusivamente guer-

muitas vezes pelos descendentes, e eram neces-

reira, e as largas doações de terras aos barões

da

merecimentos pessoaes ou favor dos

p!'in

sua còrle, aos paladinos dos seus exércitos e ao
clero e aos seus institutos,

cipes.» Esta noticia

dá ideado grande poder dos

generosas

bem como as condições em que foram feitas, concorreram para desenvolver em Portugal o regimen do privilegio,
privilegio de pessoas e privilegio de propriedade,

ricos-homens. As isenções, que Brandão úiz gosa-

rem

os seus vassallos,

eram isenções de encargos

geraes, de obrigações para
tado,

com

os chefes do eselles, vassallos,

que aproveitavam, não a

para cercar o throuo de vassallos poderosos e
tivos

al-

mas

aos seus senhores, e taes eram, realmente,

como

os senhores feudaes de Finança e Al-

tão valiosas,

como havemos de mostrar, que no
de as restringir.

lenianha, para robustecer e engrandecer aegreja

reinado de Allbnson começou a coroa a rec.onhei-\:v

como poder

siícular,

e portanto para restringir

a necessidade

a auctoridade real e crear-lhe tutores.

Estes magnates

eram

as princiíiaes |iei'sonalíuire elles

Não existiam, é

certo, instituições politicas re-

gens da corte e da administração,
escolhia o

gularmente constituídas que compartissem com o
moiiari-lia a gerência
cia estava

monarcha os

três primeiros funi-cionae

do estado; mas essa gerên-

rios e dignitários

do paço

do reino

:

o mordo-

extraordinariamente sinqililicada pelas
.lá

autonomias locaes e individuaes.

vimos que
i.

mo-mór fmaiordomusj, o aiferes-mõr (signiferj eo veador (dapifer). O mordomo-mór, cm quanto
se não multiplicaram os cargos palacianos, geria

nunca

si;

reuuiram cortes no reinado de AtTonso
noticia de

Tandjem não ha
lico,

nenhum
:

conselho au-

a fazenda real, e o livro de D. Diniz explica que
se

que substituísse o offitium palatinum, condos reis visigodos
todavia, acerca de

chamava assim por
d'cl-rei,
;

ser

«como maior homem

.selheiro

da casa

para ordenar quanto ha

em seu

graves negócios eram consultados os rkos-homeiís do reino,

mantimento

»

e accrescenta

engenhosamente que
senescal «que

menos em cumprimento de uma

em algumas

terras lhe

chamam

Historia de Portugal
i|ni'r ilizcr taiiln
(li'VL'

69
do

comk]

olliciiil si'iii

o

qiiiil

se

rifio

nistração intern;i da casa real. .\i)esar da grosseria dos

lazer (Icspcs:! oiu casa

de cl-rei."

l)'('ll(!,

costumes do tem[io

e da miséria

como

dum

superioc,

dependiam portanto as

di-

paiz, a realeza estabeleceu-se

em

Portugal

com

versas cathegorias dos funccionarios incumbidos

uma
rece,

etiqueta luxuaria, e aos rudes barões, lla-

da am'caiia(;ão e liscalisagão das rendas da corrta
e de (pianio lhes

gello de sarracenos, não repugnava,

segundo pa-

dizia respeito: e as persona]iiiiiderosus

gens de (piem tão

interesses se

lia-

exercerem juncto dos soberanos misteres de fâmulos. O veador tinha um estado-maior de
olliciaes,

vam não podiam deixar deserdas mais giMíluadas e i'espeitaveis do reino, e isto eram, sem duvida, nin Cioiicalo lioilrií/iies, que assignava como mordnmo-mor eiu lllí, um ligas (íozendos, ([ue
ligui'ava
divs

ou ntcstre-sala, e presidia á solemne, de
(|ue

sendo o primeiro d'elles o irinchante comida do rei, acto

Brandão dá succinta noticia
fidalgos, e assistia

dizendo: "O veador trazia as iguarias á mesa
i'eal

em

lli;i, e o importante (lonçalo .Men-

poi'

mãos de moços

com

de Sousa, que occupou o eminente cargo

uma

cana de bengalla na

mão em um
;

dos cantos
e depois o

durantií muitos

annos do reinado de AtTonso.
sUjnifcr,

da casa, e no outro o niordorao-mór
mestre-sala ou trinchante,

O aUcres-mór,
ild

era o logar-lcneiile
rei

com uma

toalha lan-

rei

no

commando

das tropas. (Juando o

çada ao hombro, descobria as iguarias e as administrava ao
rei.
»

dirigia as batalhas, o alferes-mór transmittia as

Estas particularidades são

suas ordens aos cabos de guerra e velava pelo

interessantes para a historia da vaidade humíina. Ainda a realeza não tinha diploma jurídico, e já tinha culto e lithurgia. Os fidalgos, tão alti-

seu cumprimento; na ausência da pessoa real,
possuia a su|irema auctoridade militar.

Uma

das

suas allriliuigões, que depois perdeu, era administrai' justiça

vos e galhardos

com

a lança

em

riste,

nos campos.

Homem

experimen-

vam com orgulho uma

cana de hengalla, e

empunhacom
de

tailo

na arte da guerra por dever do cargo, go-

este synd>olo de agaloada servilidade assistia

sava de grandes honras e muitos privilégios, o

pé ao repasto de Affonso o venerando e beroico
ligas Moniz,

um

d'estes era receber dos povos,

como

tributo e

que

foi

por muitos annos veador da

quando andava cm jornada, alimentos para a sua
mesa, quaes os recebia o
rições de Allbnso
ii

sua casa
Uutro funccionario liavia ainda d'allo cothurno

rei.

No

livro das inqui-

diz-se. por

exemplo, da terra
el-rei

no séquito

do

monarcha,

mas

este

não era

de Figueiredo: «Item devem-lbe de dar a

habitualmente escolhido entre os ricos homens

onze leigas de pão coito á saquitaria, e

uma tciga

ou varões

d'alta prosápia,

porque as suas funcfalta

de pão coito á cozinha, e Irez quartas de vinho
á escansaria, e

ções destinavam-se a remediar a

de edu-

um

(|uarto

de vinagre ã cozinha,
elle

cação intellectual e

litteraria

das summidades

se

houver na

terra, e se

não darão por

um

sociacs. Reis que escassamente

sabiam traçar o
legenda
si

([uarto

de vinho; e

uma

vacca, e troz porcos e
«

nome

num

documento

e decifrar a ter juncto

dum

seis carneiros, e
i-egalia

um

carneiro ao Alferes.

lista

pergaminho precisavam
gogo e director
elles,

de

um peda-

nenhum

outro funccionario disIVuctava,

espiritual,

senão que pensasse por
e coordenasse os pen-

não sendo

em

raros casos o uiordomo-mór, c dis-

que lhes exprimisse

l'ructava-a o alferes
cia

porque as funccõcís que exer-

samentos, e este era o chanceller, cancellarius.
(lumpria-lhe especialmente redigir os decretos

não eram exclusivamenie jialacianas mas de

interesse ])ublico, e porque rreijuentemente devia

d'auctoridade regia, de toda a sorte, e entender

jornadear, já á IVenle

ile gente armada, já para ordenar aprestos de guerra. Na dignidaile (h'

nas questões de direito publico e particular: mas

com o (empo, usando da preeminência que sempre
aiiipiirem
a sciencia e

alferes-mòr 1'oram investidos, nos primeiros

;iii-

a inlelligencia,

o

nos de existência nacinnid, Fernando Cativo, Carcia

i-liani'elli'r

lornou-se conselheiro, valido e ás ve-

.Mendes e outi-os capitães, (|ue passavam por

zes menlor dos reis,
foi

como havemos de

v(*t

que
i.

abalisados.
(I

o famoso .Julião

em tempos
i

de Sancho

veador, dapifer, tirava o
real,

nome

das iguarias

D. Thereza e Affonso
celleres,

tiveram os seus chan-

da mesa

mas

a sua alçada

não se reduzia

sendo o d'este Alberto, que o auctor das

á direcção das cozinhas e abrangia toda a admi-

actas das cortes de

Lamego

faz figurar n'esta

70
solomnidade como vozciro do
tacs funccionarios

Historia de Portugal
moiiiiiTlia,

o

com

não pertenciam. Os

castellães

também percebiam

começaram

a introiluzir-se na

parle dos direitos reaes dos castellos que gover-

governação da republica as influencias de

uma

navam

:

em

regra, a retribuição dos funcciona-

classe, adversa por instincto e por necessidade

rios era tirada directamente dos tributos,

pagos

á nobreza e ao clero, e princípios de jurisprudência, bebidos nas fontes da antiguidade ou

por muitos

modos

pelo povo.

dictados pelas aspirações populares, que guia-

O domínio keal
Este, o povo, ou bal)itava no dominio real e

ram a monarcbia no deseni|ienbo da sua missão social. Os cbancelleres tiveram
importantíssimo, e não raro
gonistas,

um

papel

um

papel de proto-

era sujeito ao que pode considerar-se
reito

como

di-

na

bistoria politica de Portugal.

commum, ou

nas terras privilegiadas, ou

corte, o

Assim como occupava os primeiros logares da rico-bomem (ricushomo, diveshomo, le-

nos concelhos, e segundo esta circumstancia variava a sua condição. Só nos occuparemos, por

nens ou dominus terre) era também o chefe da administração local. O paiz dividia-se administrativamente
ras, e

agora, da população dispersa nos bens da coroa,

que eram

em

parte patrimoniaes e

em parte

ad-

em grandes districtos, chamados tercada um d'elles era governado ã parte

quiridos por conquistas sobre os sarracenos.

O

fundador da monarcbia talhou n'elles esses jjrestanios,

as porções de território privilegiado, que consti-

que distribuiu aos companheiros d'armas,

tuíam as hom-as

e os coutos

da nobreza

e

do

clero e os aifozes dos concelhos,

—por um um

rico-

bomem. O
diciaes,

districto era

também, para os

fins ju-

ordem monasticomilitar do Templo, e não os desfalcou menos cedendo-os como aifozes aos concelhos, que instiás egrcjas e especialmente á

uma

comarca, a que presidia

juiz,

tuiu; e a parte do dominio real, que conservou
esta natureza, foi repartida geralmente
nias, das quaes nos

(judex terre) e havia n'elle

um

funccionario es-

em

colótrês

pecialmente destinado a arrecadar os direitos reaes e a entender n'elles, e este era o mordomo (maior, maiordomus)
:

apparecem no século xn

espécies

:

a cavallaria-villã-colonia, •àjugariae.

todavia estes diversos

o reguengo.
vel

magistrados não tinham attribuições rigorosamente demarcadas, e assim como o rico-homem,
por exemplo, se ingeria

A primeira, que tinha origem prováem tempos remotos, era sujeita ao fossado,

á anúcluva e ao pagamento de prestações, foros
e

em

matéria criminal,

lucluosa; s^jugaria era a colónia hereditária,

o juiz, apesar do seu principal misl('r ser o de
julgar, intervinha

pela qual se pagava

um

cânon prefixo, ajugada;

em

questões de serviço militar

o reguengo a colónia incerta, sujeita ao
to

pagamen-

pagamento de impostos, a despeito da existência do mordomo. Do rico-homem, do juiz e do mordomo dependiam diversas ordens de eme de

duma
ou

quota dos fructos piincipaes, porção,

e outra

menor, dos pequenos proventos da culmais propriamente dos rendimentos

tura,

pregados inferiores.

Nos

castellos

punham

os

do casal, as direituras. Estes tributos, que dei-

ricos-homens castellães ou castellciros, que
les

n'el-

governavam eram

e proviam á sua defensão; os

xamos mencionados, eram de duas espécies: pessoaes ou pecuniários. Pessoaes eram o fossado e a anúcluva
:

juizes

assistidos pelos
;

sayõese depois pelos

o fossado consistia na obrielles,

moi-dômo tinha ás suas ordens muitas jerarchias de mordòmos-menores,
e o

porteiros reaes

gação, que tinham os cavalleiros-villãos e só

de tomarem parte nas expedições mibtares

com

como
das

os

mordomos

rias

terras ou das eiras, os

eavaUo seu

e

armas suas, lança c escudo; aanúfeito

suirof/ados, os e.speciaes dos prestameiros e os

duva era o serviço

nas edificações e repa-

muUas judiciaes. Nos districtos comprehendiani-se também os prestamos, que consistiam

rações dos castellos e praças de guerra, ou ainda

dos paços dos reis e seus delegados

;

e tanto a

em

terras

ou jiovoações, cujos rendimentos

re-

obrigação da anúduva como a do fossado podia

parte para os prestameiros, por concessão regia destinada a remunerar serviços e

vertiam

em

em
i|ue

algumas

]uirtcs ser

resgatada por

uma

con-

tribuição

em

dinheiro. Dos tributos i>ecuniarios

cargos públicos, miliiairs ou civis, recel)cndo o
,iico-liouiem os

citámos, a lucluosa consistia n'uina coiihe-

rendimentos que ao [irestameiro

cença, que pagava por morte do colono u seu

Historia de Portugal
lii!nk'iro,

71

f a luctuosa dos caviilleims, devida
liiiliain,

qw

deviam, sendo lambem cavallarias porque

polus prestamos (\w
cio; ajufjada era

cliaiiiava-.sc

nún-

os seus |iroprietarios

davam

fossado.
re-

um

furo, variavt'1

conforme o

Afora os cavalleiros-villãos e os colonos,

numero de juntas de bois empregados na lavoura
e

guengueiros ou jugadeiros, distinclos uns dos outros pelas condições dos prédios

pago ordinariamente

em

trigo,

vinho e linho;

em que

viviam,

e a

porção ou lerrudigo e as

m iunças
como

ou direijá vimos,

existiam dispersos no dominio real indivíduos pri-

luras dos reguengos cquivaham,
a

vados de propriedade, proletários, que viviam do
trabalho manual
:

um

cânon frumciilario.

chamavam-se cahaneiros

e ins-

Nas terras da noiíreza e do clero a propriedade
eslava scmipre tlividida entre o senhor e o colo-

piravam tanto desprezo, n'um regimen

em que

todas as dislincções sociaes derivavam da terra,

no: não succedia, porém, o
real.

mesmo no dominio

que não raro se

dizia,

por exemplo

:

vinte e

um

Havia n'elle

uma

classe de individues cor-

homens
O século

e lirs

cabaneiros. Todavia eram livres.

respoiKh-ntes aos possessores romanos, aos priva-

XII

não encontrou em Portugal outros
livres,

dos godos e aos presores dos estados ovetensos,
e estes

servos além dos mouros, espolio das guerras e
conquistas.

eram os cavalleiros-villãos, tamheni chamados herdadores. As propriedades lerritoriaes

Eram

quando chrislãos, os próeste

prios servidores domésticos, conhecidos por ho-

d'estes

homens

livres, d'esta classe

media do

sé-

mens de crearão, embora

nome
A

derivasse

culo XII, estavam sujeitas a

uma obrigação comcumprida pelo pro-

ainda da servidão pessoal da gleba, lendo perdi-

nmni, que sendo rigorosamente da terra era,
todavia, pela sua natureza,
prietário
tributo
:

do o seu significado primitivo.

terra

conti-

nuava

em

parte serva,

como
i>lla

o

testemunhavam
c a obriga-

o fossado, que já eiu^ontrámos

como
pro-

os encargos que sobix'

pesavam

inqiostii

ás cavatlarias-villds-colonias,
j)ara a

ção, im[iosla a certa classe de colonos, de resi-

que elVectuavani a transirão do colonato

direm no prédio sob pena de perdel-o, mas o

priedade plena. lodosos cavalleirosvillãos,

como
ti-

homem
se

liberlára-se,

mercê do progresso moral

todos os seus ascendentes romanos e godos,

dos espíritos e não menos da necessidade,

em que

nham

por dever tomar parte

com

cavallos seus e

haviam

visto as altas classes

da sociedade, de

armas suas nas expedições, que de ordinário se eniprehendiam na primavera, contra os inimigos
da pátria e da
fé,

pedirem auxilio ás inferiores na lucta incessante

e este dever passava

lambem por

com os mouros e de agradecerem esse auxilio com iinmun idades e alforrias. Desde o cavalleirovillão e ao
vis,

honra, a que andavam annexas muitas isenções
pessoaes. Grande parle das herdades dos cavalleiros-villãos

mais visínho da nobreza até ao cabaneiro

homem

de creacão todos eram pessoas

ci-

estavam sujeitas tão sómenle a este

lodos tinham espontaneidade, embora alguo seu goso fosse limitado por clau-

tributo, e podem chamar-se, portanto, herdades simplesmente afosseiradas. Outras havia, porém,

mas vezes

sulas onerosas

menos immunes

e desatfrontadas de encargos.

ausência, e ao
pelo i;bristo

Se a regra era serem todas isentas de contribuições pecuniárias, algumas pagavam, comtudo,
talvez

como a de perder o prédio pela menos entre christãos, egualados como filhos de Deus, homem nenhum

era cousa d'outro

homem.

Faltava, porém, e falta

em

razão de serem antigas colónias, aco-

Iheita, quola
tos análogos,
isto é,

de fructas da

terra, e outros tribu-

em parte que a cgualdade convertesse em cgualdade civil.
ainda hoje
(I

natural se

e os seus donos iam á

anúduva,

dominio

real,

povoado por estas diversas

associavam-se aos trabalhos de construc-

classes e calhegorias sociaes, era a fonte principal dos

ção de casleilos e edifícios reaes, devendo comparecer nos legares das coustrueções a cavallo e

rendimentos da coroa. As contribuições

de toda a espécie, pagas pelos colonos e pelos
cavalleiros-villãos

com uma vara na mão,
peões.

o que indica que lhes era destinado o serviço de dirigirem os trabalhadores

não simplesmente sujeitos ao

fossado, deduzida a parte applicada á retribuição

E abaixo

d'estas carai/arias, já inferio-

dos funccioiíarios públicos e que estes percebiam
directamente, entravam nos cofres do rei, en'elles

res ás simplesmente afosseiradas, havia aquellas

que já iucluiinos uo numero das colónias, e que
o eram pelas prestações agrarias e pela luctuosa

entravam lambem as rendas que se cobravam
municipioá,

dos

especialmente

dos imperfei-

72
tos,

Historia de Portugal
como
oppoi-tuuanientc diremos. Outra verba

paços e caslellos, eram as mais das vezes súbditos turbulentos

de certo copiosa, provinha da quinta parte de todas as presas feitas aos sarracenos pela cavallaria-villã, a qual parte pertencia de di-

de

receita,

do

rei,

senhores opprcssores do

povo, fautores de conspirações e enredos, e sem-

pre inúteis como o ferro a corroer-se na panóplia
e estéreis

reito á coroa.

Da obrigação do fossado
regra geral

lambem

se

como

o madeiro secco da lança.

tiravam recursos pecuniários, porque se estabeleceu, não

Não faltaram,

em nenhum

século, arautos ás

como

mas em determinados

glorias da aristocracia: justo é

que a historia mo-

casos e

cm

certos legares, o uso de a resgatar,

derna, inspirada pela justiça, honre e celebre o
valor dos homens do povo, sobre cujos cadáveres campeavam os corcéis ajaezados dos nobres caudilhos,

permanentemente e pelo pagamento da fossa-

dvira, contribuição predial

em

dinheiro, géneros

ou certa porção de

tela de linho

ou bragaes, já

na hora do triumpho.

d'um modo transitório e mediante auctorisação do monarcha pelo pagamento do cavallo ou morabitino de maio, que remia também a anúduva.

AS ORDENS MILITARES
Se as milícias burguezas prestaram relevantes
serviços a Affonso

Bem mais
de maio

valioso que a fossadcira

ou o cavallo

era, porém, para monarcbas guerreiros,

na guerra quotidiana com

o.s

o tributo de sangue, que

por estas prestações
elle,

sarracenos,

também

lhe foram preciosos auxilia-

pecuniárias se dispensava, e a

muito mais

res as milícias rehgiosas, que apenas fundadas

no

do que ao esforço do braço da nobreza, deveu Portugal a independência e Affonso i a gloria. As
cavallai-ias-villãs
citos,

estrangeiro e principalmente na Palestina logo
se introduziram

em Hcspanh ae em Portugal, onde,
de.s-

foram o nervo dos seus exér-

sem

os riscos e as canceiras de longas peregrina-

os troços mais disciplinados e perseve-

ções,

podiam cumprir os seus votos de nunca

rantes da

sua hoste, e algumas vezes vimos

cançarem os braços de
flenrif|ues,

flagellar infiéis. AlTonso

esses burguezes mal armados, de que talvez des-

que era hospitaleiro e munificente
ini

denhavam
derem
e

os barões vestidos de ferro, enqireben-

para quantos cavalleiros vinham etiBIeií^ar-se

consumarem só por si tão emprezas como a tomada de Beja.

ariisradas

sua hoste, recebeu de braços abertos os iiumges soldados, applaudiu

com

(Uilhusiasmo o penesses inslitulos
i'eino a

A formação do estado portuguez, a procluma-

samento dos seus
implantaram-se e
se filiar n'elles,

institutos, e

ção da sua independência e o seu engrandeci-

medraram no

ponto de
no-

mento

territorial

não foram obra nem
classe
;

dum

ho-

em

curto prazo,

a llòr da

mem nem duma

as glorias militares do

breza e da cavallaria, e ser

como brazão

a cruz

berço da monarchia não pertencem

exclusivaprivilévil-

do Teiuplo, de

S.

João ou de Galatrava.

mente á nobreza, como fundamento de
gios

Os primeiros monges-cavalleiro.s.que se esta-

ou douradura de brazões.

(J

sangue dos

beleceram

em

Portugal foram os templários. Esta
freires, pela

lãos mislurou-se

com

o dos fdhos d'aUjo nos

ordem, famosa pelas proezas dos

am-

campos de batalha. Reunidos pelo fossado para
o attaque, ou congregados pelo apellido para a

bição dos grãos-mestres c pelo fim desastroso que
lhe pi-eparou Philippe o Bello, teve principio .lerusalem,

em

defcza, os populares
los

eram

fortalezas vivas e arie-

no anno de 1118, sendo seus funmais sete cruzados francezcs,
ii

animados, que ora quebravam a fúria das

dadores Ilugues des Payeus, Geoffroy de Saiut-

incursões ora abalavam e

rompiam

as fronteiras

Adhémar

e

e logo

inimigas. É de crer que onde rhegasse a jionta

alcançou de fialduino

e da Santa Sé coníirma-

da lança do cavalieiro não raro alcançasse também o chuço do peão, e se não ha chronicas das
façanhas dos obscuros plebeus, como ha epoi)éas

ção e protecção generosa. O fim principal da instituição

da ordem do Templo era organisar

uma

milicia cbristã, que por voto e profissão
tesse

comba-

que ceh'ijram as gentilezas

fidalgas, é

poniurna

os infiéis, resgatasse a Terra Santa, e pro-

obsciu-idade da condição se encobria o lustre da acção,
li

tegesse os peregrinos que a ella iam para visitar
o Santo Sepulchro e os logares da Paixão. Para
tão pio mister preparavam-se os lenqilarios, co-

quando o plebeu abria mão das armas eme era operário prestante

pmihava a enxada
vilisação, ao passo

da

ci-

que os nobres, recolhidos nos

mo

soldados pela sujeição a

rigorosa discipli-

Historia de Portugal
nu
res
('

73
em
IVjr-

coslump

lic

obediência passiva aos superio-

(Juando os templários se inlrodiiziriim
lugal

:

eomo

rliristãns pela pratira ile virtudes aus-

estavam ainda
()

iia

sua edade de virtude e
ipie aqui

teras.

Faziam voto de pobreza, deveiido viverde
e

modéstia,

primeiro estabelecimentu

esmolas, de castidade, pois que eram monges,
era-liies

tiveram
serviços
llies

foi

o castello de Soure,

mas logo

os seus

imposta

uma

repra severissima, que
a imiica fuf,'irem

mereceram

larga recompensa, edeu-se[ji^los

os obrigava,

|)or exem|)l(),

em

a zona,

então infestada

sarracenos,

combate de
tos

três inimigos e a outros

muitos ace

comprehendida entre Ooimbra

e Leiria,

na qual

de valor individual ou collectivo,

que se

edificaram Pombal, Ega e Kedinha, levantando
aldeias e granjas e encetando arroteies no chão

fosse

sempre observada
legião
d(^

faria

da

milicia

do

Templo uma
go, e

lieroes diante

do inimi-

antes

ermo

e sáfaro. Posteriormente ím-iu
[)resligi()

tempo

um

coro de santos diante de Deus.

de Aironso Henriques tanto

alcançaram
pai'a

A ordem era cosmopolita.

Em

todos os paizes
ella

que o próprio monarcha se
honral-a, e
honral-a, prometteu-lbes,

filiou

na oi'dem

podia estabelecer-se, cada paiz era para

uma
to-

como entendesse que não bastava
para a interessar na
as

piovincia e dividia as províncias
rados, priorados
e

em

grãos-prio-

commendadorias, sendo

tomada de Santarém, dar-lhes
egreja d'esta cidade;

rendas

da

dos os templários de todos os paizes subordinados
ao grão-meslre, que primeiro residiu

mas

a

promessa não se
di-

cm

JeruzaS.

poude cumprir, porque a essas rendas tinha
reito o bispo
e então Affonso, para

lem,

em

1

187 transferiu a residência para

João

de Lisboa, que as não quiz ceder, indemnisar os seus confra-

d 'Acre e no lim do século xni para Chypre.

A

or-

ordem nasceu pobre, como dissemos,
prolissão

e

lazeudo

des, fez-llies concessão
ra, visinha

em llõD

da terra de

(le-

da pobreza

;

todavia os reis porfiaram

do Nabão. Onde a milicia do Templo

em

fazer-lhe doações tcrritoriaes, c a pobreza

se estabelecia, justo é dizel-o, agradecia o beneficio

converleu-se cedo

em

opulência,

que devia ser
e cobiça, cor-

recebido beneficianilo o paiz,

Na

terra de

fundamento de ambição, poderio

tlera quiz o superior fia

ordem em

Portugal, que

romper os costumes austeros dos

cavalleiros, e

se encontra designado ^ov preceptor

commcndae

excitar o receio e a inveja dos soberanos. (Juando
ella

dor mór, mestre, ministro, procurador

mes-

entrou no caminho do engrandecimento e se

trc-provincial, quiz o superior, dizíamos, fixar
residência, e parecendo-lhe apropriado local para

M)ltou para os intiMTSses

mundanos estabeleceu

vasto systema de filiações.
e dos noviços,
elles

A par dos

cavalleiros

construir sua sede a visinbança do rio, lançou
1

em

vivendo

em

conununlião com

ItíO

lis

fundamentos do

castello

de Tliomar, ao

ou á sombra

tutellar das

mansões, admitliu
Portugal fra-

qual logo

começou

a encostar-se

uma

vifia.

Em

familiares,

também chamados em

1165 novas doações regias. Manha a Velha, que
pouco depois
foi

des, confrades

ou quasi frades, e estes eram

arrazada, e Monsanto, que pros-

pessoas de ambos os sexos, que acceitavam

uma

perou, passaram para odominio du
militar

monachismo

condição muito similhante á de vassallos da or-

em

razão talvez de terem os muros exata(|ues

dem,

e cujo principal dever consistia na doação
elles,

postos

a contínuos

dos sarracenos, e

dos seus bens ou d 'uma parle d

vulgar-

ainda no reinado de Alíonso entrou esse mo-

mente

um

terço, á

mesma ordem,

a qual tamfilhos.

nachismo nas graffdes cidades, alcançando estabelecimentos
e

bém costumava
res

herdal-os se

morriam sem

em

Lisboa,

em

Leiria,

em Santarém
á prodiga-

As clausulas d 'esta libação

e os direitos e

deve-

em

Évora,
rei

que

d'ella

resultavam eram immensamente

A munificência do
lidade;

chegou pois
jior

variáveis; a regra era, porem, ser a filiação lucrativa para a ordem, e

mas não

foi

só exci'ssiva

alienar

da

como os templários em

coroa extensos territórios, foi-o
sulas de doação.

também nas
1

clau-

toda a i)arte adquiriram poderio, nunca faltava

Uma carta

de

1

57, confirmando

([uem quizesse compartilhar d"elle ou recommendar-se-lhe, c portanto era incessante o progresso das riquezas, principalmente Icrritoi-iaes,

os templários na posse das suas propriedades,
egrejas, villas, castellos, terras, vassallos, isen-

tou-os de quasi todos os encargos de vassallagem
e assegurou-lhes o goso das mais amplas

dos successores degenerados dos piedosos cruzados francezes.
VOL.

immu-

nidades. Os habitantes das suas terras ficaram

I— 10,

74

Historia de Portugal
neroso para

dispensados do pagamento de impostos e da prestação de serviços ao rei, e elles, os cavalleiros, obtiveram d'esle prcrogativas pessoaes tão im-

com

elles

como para com a milícia do
privilé-

Templo, mas tornou-lhes extensivos os
gios
e
il

que até foi defeso prendel-os por rul[ias ou confiscar-lhes os bens, não ficando a ordem obi-igada para com a coroa senão a pouco mais
tantes,

que a estes outhorgou pela carta de 1157, sombra d'cstes privilégios medrou e desendevia alcançar grande valimento e enorme

volveu-se a ordem, que nos reinados subsetpientes

do que ajudar a repellir as incursões dos mouros ou a fazer incursões nos seus dominios. b^o-

fortuna territorial.

Tendo apprendido, com os serviços dos templários e hospitalarios, a apreciar as ordens militares

ram, pois, pagos por

alto

preço os serviços dos

Icmplarios. Todavia, esses serviços

eram ines-

como

viveiros de

homens

intrépidos, Af-

timáveis. O bulsão do Templo inspirava terror

onso
a

I

quiz multiplicar estas instituições e creou Ala, que todavia se extinguiu logo
(I

aos

infleis.

Muralha

em que

elle

tremulasse só

ordem da

era galgada quando só havia cadáveres nos seus
parapeitos.

depois de fundada.
era,

sentimento do monarcha

Em campo

razo os esquadrões assi-

porém, partilhado pelos seus cavalleiros, e

gnalados pelo alvejar dos mantos eram os primeiros a entrar como cunhas nos macissos de
lanças e cimitarras e despcdaçal-os, e os últimos
a atfrontarem, unidos

alguns d'elles, ou depois de 11 39 e da batalha de
Ourique, ou

em

seguida ás conquistas de Santa-

rém

e Lisboa,

concertáram-se para formar

uma

como

se

formassem

um
nem

associação militar, que movesse activa guerra aos
sarracenos, e redigiram os estatutos a que elles
e os seus adeptos

corpo

com

mil braços e

uma

só alma, o revez c a

morte. Não existia milicia mais disciplinada

deviam obedecer. Esta

inicia-

mais impetuosa, e quando havia algum posto de perigo, algum casteilo adiantado onde embates-

tiva foi agradável ao rei, e

em 1162

a nova orS.

dem

militar,

que veiu a chamar-se de

Bento

sem ondas

solire

ondas de inimigos, algumterri-

de Aviz, teve confli-mação real e rendas de que
vivesse.
bra,

torio escolhido para liça de quotidianos torneios,

dava-se o perigo aos templários como

uma

re-

A sua sede foi primitivamente em Coimmas em 1166 transferiu-se para Évora, pelo
E para
se auctorisarem,

compensa.

que lhes ficou a designação vulgar de freires d'Erivaes, i'ivaes

Tinham poivm
eram
ou de
S,

no valor,

e taes

vora.

bem como
S.

para

]irincipiilmente os cavalleiros Iwspitalarios
.loão

aperfeiçoarem o instituto, os freires de

Bento

de .lerusalem. A sua ordem fora
1
1

travaram relações de fraternidade com os de
latrava,

Odas
ilo

instituída

em .Jerusalém em
]iios

09 para Uns exclu(iérard

em Hespanha, adoptaram algumas

sivamente
fnndadiii-,

e caritativos,

Tom, seu

suas instituições e reconheceram a jurisdicção

deu-lhe por missão hospedar os peree

seu grão-m estrado, que

em

toda a Península go-

grinos doentes
.lerusalem
;

famintos,

que concorriam a
1

sava prestigiosa fama, c por isso figuram

também
que

mas posteriormente, em

121

,

os en-

na

historia

como

cavalleiros de Calatrava, até

fermeiros converteram-se

em

guerreiros e a m--

no reinado de AíTon.so n tomaram o

nome de Avíz,

dem

foi

reformada pelo seu grão-mesire, Dupuy,

onde

se estabeleceu a residência dos seus supe-

para defender

com

as

armas os christãos, a quem
fel-a

riores.

antes soccoi-ria na mizcria. Esta reforma, aconi-

Os cavalleiros de

S.

Bento de

.\viz

eram obritre-

modadn ao
giosa

espirilo

do tempo,

pi-osperar,
reli-

gados a defender a religião, a combater sem
goas os
infleis, e

( os hosiiiiíilririíix,

lendo adoptado a regra

de Santo

.\gostiiilio e estatutos

militares

quando lhes cahíam nas mãos prisioneiros mouros deviam exhorlal-os a converterem-se ao christianismo. A estes deveres de
apóstolos armados

em

tudo similhantes aos dos templários, comefreires a espaihar-sc- peia

çaram como estes

Eu-

andavam associadas obrigapraticar a caridade, dar hospi-

ropa c a disputar aos seus irmãos d'armas e de
crenças o favor dos monarchas e a gloria dos

ções moraes,

como

talidade aos estrangeiros, guardar fidelidade conjugal, venerar os velhos, e outras

combates.

Em

Portugal estabeleceram-se elles
e o primeiro estabelecimento
foi

que visavam á

no anuo de 1130,

perfeição christã.

Um terço de todas as presas que
em
beneficio dos pobres,

que tiveram no paiz

em

Leça, que possuíram

faziam revertia

das

como

donatários. Affonso não se mostrou tão ge-

viuvas e da egreja.

E como a

disciplina militar

Historia de Portugal
e social auduvii associada n'cstes iiistilulos á disciplina religiosa, os intrépidos cavailciros

75

aperto era que se achava a villa e [larliude La-

que na

mego em seu
inimigo

.soccorro;

mas

antes de procurar o

guerra faziam temida dos

infiéis

a cruz verde re-

foi visitar

uns monges de dister, que se

matada por
bolo,

llóres

de

liz,

que lhes servia desymfreiras vota-

haviam estabelecido em Tarouca egosavam lama
de santidade, es|ianlou-se e doeu-se da pobreza
e eslreileza

eram na paz como piedosas

das ao cuJto das egrejas, ouvindo missa logo

em

i|ne os religiosos
el

viviam, capti-

que se erguiam, jejuando ás sextas

feiras,

guar-

vou-se du venera\

aspecto do seu prior. Alde-

dando

silencio á comida, e praticando todos os

berto, a jjonto de lhe rogar (luc o

acompanhasse

actos de devoção e austeridade, prescriptos pela

ao exercito para o ajudar no combate
ções.

com

as ora-

regra de S. Bento. As ordens militares foram

um

dos mais singulares exemplos da alliança do

Acceden Aldeberlo á rogativa, encorporou-se

espirito religioso

com

os costumes bellicosos,

er

no séquito do monarcha, levou comsigo paramentos e alfaias

era forçoso que se implantassem e desenvolves-

para celebrar missas, e quando os

sem

n'ura paiz onde os exércitos tinham por
cria

portuguezes vieram ás mãos para descercar Trancoso, o

pendão a cruz, e se

que os

feitos

de valor

com os sarracenos monge ficou orando

eram recompensados com a
turança.

gloria da

bcmaven-

pelo triumpho da cruz e ás suas orações se acre-

ditou ([ue fora devido o successo da jornada e o

A ordem de S. Thiago, instituída em Hespanha e estabelecida em Uclés também se propagou em Portugal ainda no reinado de AlTonso i, que lhe fez largas doações, sendo as principaes,
Messagene, perto de Beja, Vilarinho, Valmelhor
e Montenegro
;

desbarato dos inimigos, ("ontinuando a acompa-

nhar as tropas, o prior de Tarouca ainda
a outra batalha

assistiu

em que

os sarracenos tentaram

vingar a primeira derrota, e

como

elles só

con-

seguissem ser novamente derrotados, augmentou
a

e a sede da ordem,

portugUi-z, foi o convento de Santos,

cm território em Lisboa.

dos soldados a intercessão de Aldeherto para
exércitos, e AlTonso quiz agra-

com o Senhor dos

Por muitos annos subjeitos aos mestres de Uclés,
os cavalleiros portuguezes de S. Thiago conse-

decer-lhe, a elle e aos seus frades, o serviço a

que se attribuiara duas
Tarouca
senho

victorias,

dando a todos

guiram
tifico

afinal, jà

no reinado de Diniz, que o pon-

casa digna de albergar santidades. Voltou pois a
e

lhes permittisse elegerem mestres que os

lançou a primeira pedra d'uma egreja,

governassem, e assim se nacionalisou a ordem,
estrangeira dorigem, para compartilhar

destinou rendas para costeio da fabrica, e o dee

com

as

execução d'esta foram entregues a

um

outras milícias religiosas os perigos e trabalhos

architecto da localidade, .loão Froylaz, que es-

da guerra da

fé e

as

mercês dos mc^iarchas.

culpiu o

nome nas

pedras do edificio
artísticos.

sem poder

illustral-o

por primores

CAPITULO

Vil!

Ko tempo em que começava
o mosteiro de Tarouca tinha

a crescer da terra

também

principio o

Fundações
Tendo associado
as
a

de Santa Cruz de Coimbra. Emprehcndèra a obra
o arcediago Tello, sacerdote de muitas virtudes e

causa da sua ambição á

letras e,

segundo parece, bemquisto ua
edificio

corte, e
n'elle se

causa da religião, para que o clero lhe sagrasse

apenas o

poude ser alojamento

armas com que

ia

fazendo recuar os moiu-os

estabeleceram o fundador e mais onze companheiros,

das fronteiras, Affonso Henriques erigiu alguns

tomando

o habito de Santo Agostinho. A
.Vflbnso para con-

monumentos piedosos, desses que no juizo da epocha testemunhavam gratidão ao céu. Foi o
primeiro d'elles, de que ha noticia, a egreja de
S.

obra tão

bem começada accudiu

tinual-a por sua conta, e assim o fez alterando o
risco primitivo

da fabrica para mais grandioso,

João de Tarouca. A historia d'esta fundação

pelo que é geralmente considerado

como funda-

anda enfeitada com
chronistas.

um

milagre pelos nossos pios
elles,

dorde Santa Cruz. Terminada a construcçâo, tam-

No anno de 1131, segundo

os

bém
tello

o infante

deu aos cónegos copiosas rendas

mouros tinham entrado por

terras da Beira e

e avultados bens, sendo os mais valiosos o cas-

posto cerco a Trancozo. Teve Affonso recado do

de Santa Olaia, cedido

em

1156, e a

villa

de

76
J.oui'i(;;il,

Historia de Portugal
diniila iio

mesmo

;iimo. Poi'

sua parte,

res-móres que iiuuve

em

]'oi'tugal,

foram lamlieni

o prior D. Tello cm[)eiiliou-se por engrandecer o

confessores dos reis, tinham logar nos seus conselhos, confirmavam e assignavam logo depois

mosteiro
cas,
e

com
a

privilégios e isenções ccclesiasti-

foi

Roma

iniploral-as ao papa,
(Iruz

que se

dos bispos e antes
litares, e

i|ue os

mestres das ordens mi-

mostrou genei'oso. Santa
sendo, por estes meios,
tes instituições religiosas

de lloimbra licou
importan-

para ipie nada faltasse ao mosteiro d'Al-

uma das mais

cobaça, dispunha

também

de força militar, ar-

de l'ortugal, e

como

se

mando

os seus numerosos vassalios. lira, pois, o

ainda

llic

não bastassem para celebridade os

pri-

Claraval

ou o Cluny jiortuguez,

e logo depois

da

vilégios concedidos pelo pa[)a e as riquezas da-

fundação })rofessou n'clle
real,

um membro
foi

da familia
aberta na

das pelo infante, muito cedo alcançou fama pelas

Pedro Affonso, cuja sepultura

exceUencias dos varões de que se rodeiára Tello.
(Is

capella
(]ue se

mór da

egreja, da parle do Evangelho, e
filho natural

onze companheiros do arcediago foram

i|uasi

duvida se era irmão se

de

todos famosos e alcançaram as mais altas digni-

Aflbnso.

dades da egrejá, contando-se entre
culiar,

elles

João Pe-

Mais necessárias que

i'stas

construcções lu-

que

foi

arcebis]io de liraga, Odorio, bispo

xuosas, attento o estado do paiz, eram as de
castellos c fortalezas,

de Vizeu, Sesnando, prelado da egreja de Montejuór. Salvador, auctor

que guardassem as terras que hoje coroam

do livro dos Testamentos, e

ameaçadas pela visinhança dos mouros, e algu-

o venerando S. TLeotonio cuja

memoria vive na

mas das

pictorescas ruinas,

devoção do povo.

serras e a pedaços lhes resvallam pelas encostas,

A

principal fundação pia do reinado de Aflbnso
foi,

são restos venerandos de obras de defesa, teci-

Henriques

porém, a do mosteiro de Alcobaça,

das pelo fundador da monarcliia. Deveu-lhe a

destinado a monges da ordem de Cister. Teve

sua origem, entre outros, o altaneiro castello de
Leiria, construído

começo a 10 de maio de 1178, mas em Alcobaça
edificara AlTonso outra egreja e oulro convento,

quando era deserto o

território

circumvisinho e a miude se derramavam n'elle
os sarracenos:

Santa Maria a Velha,

em

1152, en'este edifício

em

1135, segundo a mais auctori-

residiram os frades até poder recebel-os
fabrica,

ode maior

sada versão. Destinado a rebater entradas e a ser
base de expedições, apenas erguido
foi

que começou grandioso e que os descen-

confiado a

dentes do fundador foram engrandecendo pelos
séculos fora, pois que só a egreja e o dormitório velho

ura intrépido capitão. Paio Guterrez; eapezarde

campear sobre
inaccessivel,

um

monte escarpado

e por parles

tiveram principies

em

tempos de Af-

como

se tivesse trepado para vigiar

fonso.

1^'oi,

comtudo, este monarcha que lançou os

ao longe a planície, muito solTreu
tos dos sarracenos,

com
foi

os assal-

alicerces da

immensa prosperidade do mosteiro.
e

mais de

uma
e

vez

perdido,

Dando-lhe casa vasta

templo magnilico fez-lbe

houve de ser reconstruído,
sas,

não ha

uma

pedra

também doações
mais ]ioderosos

taes,

que o tornaram

um
em

ilos

das suas muralhas, agora esbroadas e musgo-

]iroiirietariosde Portugal e esten-

que se não banhasse

em sangue

portuguez-.

deram

o seu senhorio por nmitas léguas

der-

Leiria e o seu território foram porfiosamente dis-

redor d'Alcofiaça. «Por doação d'el-reiD. AlTouso

putados, e

n'uma das batalhas

ofi"erecidas

por

Henriques, diz lirandão, pertencem a esta abbadia trinta e

Aflbnso aos iniieis tiveram origem provável as ar-

uma

villas,

algumas das quaes são
fértil

mas da

cidade, cujo

emblema

é ura corvo sobre
rei

portos de mai% e nmitas léguas de terra

c

um

pinheiro verde. Conta a tradição que o

abundante." O

mesmo

auctor conta que chega-

assentara a sua tenda n'um logar alto, que se
ficou

ram a

viver no edifício, sustentando-se ã farta,

chamando

C.abeço d'el-rei,

sobre o qual

novecentos e noventa e nove religiosos. E não

verdejava

um

pinheiro, e que tanto que se feriu

eram só

ricos,

fabulosomenle ricos os monges

a peleja pousou sobre a arvore
n'ella se

um

corvo, que

d'AIcobaça; Affonso, movido pela predilecção que
lhe inspirava a

conservou, apesar do fragor da lucta,
i^

ordem de

Cister, quiz

também

(|ue

batendo as azas

denotando alegria, até ven-

os seus priores gosassem no reino e na corte de

cerem os portuguezes, que tinham tomado a
ave e a sua companhia por favorável presagio.

grandes honras e dignidades, que outros reis accrescentaram. Foram elles os primeiros esmoie-

Os chj'Dnistas faliam também ameududamenie

Historia de Portugal
(rum
RO
ciístcllo

77
em que
era

de Herena, que
(•

dizí-rn

levantado

pae nas boas artes da cavaliaria

com-

por Alfonso,

mas duvidoso seUiTcnacniLi-iria, Thomar, se Ourem salic-se que era sito não
:

summado, c aos doze annos, para se faniiliarisar com os espectáculos da guerra, acompanhou a
expedição enviada contra Cidade-Kodrigo e
a[i-

lonjíe

de Saniureiíi

e destinado a refreiar as alIv

garas dos mouros (Testa cidade.

(;erto,

todavia,

prendeu

n'ella,

que Thomar, seja ou não a llerene, que Brandão
imaiiiiia

denodo e a
depois, a
1.")

como narrámos, a avançar com fugir com celeridade. (Juatro annos
1

derivada de Irene ou
iio

Iria, a

santa inartyr,
foi

(fagosto de

170,

foi

solemnemeide

leve prineiíiios

primeiro reinado e

obra

armado

cavallciro

na

S(;'

de Coimbra para poder

dos templários, senhores do vasto território de
(l(''ra.

suceedcr a Affonso, aposentado pelo desastre de
Badajoz, no

Tandiem são

d'esia ejinelia o castello e a
(pie licaram

commando da

hoste portugueza,

ea

villa

de Alcanede, de

sendo senhoe

primeira façanlia
|)essoal,

em

que testemunhou o valor

res,

no temporal tiongalo de Souza

no espiritual
i)'alf,'uinas

que o distinguiu mais do que oillustràfoi

o nK)sleii'o de Santa llruz de (loindira.

ram

os dotes de capitão,
at('

uma

entrada pela

outras edilicaíjOes, militares ou reli^'iosas, exis-

Andaluzia dentro

ás portas de Sevilha.

tem ainda
ruiu

noticias, raas apesar d'ellas

(';

certo (jue

As infantas,

C(?do privadas pela

morte dos ca-

no lenqio de AlTonso Henri(pies muito mais se der-

rinhos maternos, foram creadas de pequenas nos

com minas
do

e Ijalistas e se arrazou a ferro

paços de Salzeda, onde residia a segunda esposa

e fogo,

(|ue se construiu e refez.

A grande

de Egas Moniz, Thereza Affonso, matrona de vida

arte tinha então por cinzel a

espada e a lança, e

exemplar, que lhes serviu de aia e mestra, como
seu marido guiara os primeiros passos de Affonso

o

monumento

arcliitectonico

do nosso primeiro

rei foi o reino.

na vida. Chegadas á puberdade, não lhes

falta-

ram propostas de casamento.

D. Mafalda foi pe-

CAPITULO
A
Vivendo
ços,

IX

dida

em 1

Berenguer, para seu

160 pelo conde de Barcelona, Raymundo fdlio, ainda em tenra edade,

família real

e o enlace ajustou-se entre os pães

numa confeA
alliança
já a ser
i,

rencia que tiveram
nuiis nos

em

Tuy, baldando-se, porém,

acampamentos

(]ue

nos panos cos-

o ajuste pelo falleciniento da noiva.

acostumado à vida
(los

solta, solta até

com

a casa real portugueza

começava
todavia,

tumes,

homens de guerra, Affonso Henri-

desejada.

Bem

poderoso era, a par de Affonso
ii
;

ques não cuidou, segundo parece, de constituir
família senão (piando precisou ter herdeiro para

o rei de Castella, Fernando
este

quando

monarcha

se viu a braços
ix,

com

os partidários
sol-

a coroa e sentiu a

ambição de fundar dyranastia.
e esta foi

de seu sobrinho, Alfonso
licitar

não desdenhou

Só no fim da mocidade, aos 35 annos, se deter-

por sogro o que íòvn vassallo de seu pae,

minou

a

tomar esposa,

Mahaut,

(]uc se

e pedir a

mão da

infanta D. Urraca. (;ond)inou-se

poderá traduzir por Malhilde ou Mafalda,

filha

este consorcio

n'uma

entrevista

em

Cella-Nova,

de Amadeu

iii

conde dcSaboyae Maurianna, es-

mas como
e

a filha de Affonso estivesse ainda en-

colhida provavelmente

sem

intuitos políticos, e

tão na puerícia só veio a eITectuar-se

em

1165,

so reconnncndada por dotes pessoaese pelas

w-

melhor

fora

que se não houvesse effectuado,
a

lações amistosas da sua casa

com
1

a de liorgonha.

porque não evitou

guerra aberta, a quesópoz

Mafalda veiu para Portugal
;i

em

146 e morreu a

de dezembro de

11. j8, .sem se

haver assigna-

termo o desastre de Badajoz, e d'esta guerra foi victinia D. Urraca, ponpie (^m 1175 a repudiou
o marido, profimdamente inimizado

lado ã historia senão pela maternidade. Deixou
«lualro fdhos,

com o mo-

Sancho, Mafalda, Urraca e The-

re/a,
três,

lendo visto morrer

cm

tenra edade mais

narcha portuguez, invocando-se para o repudio o pretexto de parentesco remoto, que não f('ira
obstáculo ao enlace. Nas desavenças que leve

Sancho. Henrique e João.

Sancho, que não pode ler sido o primogénito, nasceu em 1154. Destinado a empunhar osceptro,

com Fernando u provou com
(3s

Affonso quão pouco se

lhe abria o coração aos affectos da familia, pois

que devia ser espada para relampagueiar aos

aggravos

qiu' fez

ao genro, sem provoca-

olhos dos sarracenos, de pequeno o adestrou o

ção, feriu dolorosamente a filha, cujas instancias

78
e
su]iplicas

Historia de Portugal
não pudcniiii
abriíiular-llic as iras

cho

I,

já quasi

acostumado ao seu pezo, e o
rei

nem

soUreiar-lhc a anibifâo.

cadáver do primeiro
cançar

portuguez poude des-

Apesar da pouca estima que mostrou a D. Urraca, é

em

paz

em

Santa Cruz de Coimbra, ao

fama

qui' o

endurecido guerreiro
filha,

amou

lado de D. Mafalda e

em

tunnilo modesto, que

lernamente a outra

D.

Tliereza,
tèl-a

a mais

a magnificência de D. Manoel trocou por outro, de lavor mais accomodado á magestade e fama do vencedor de cem batalhas e fundador

nova de todas, e que desejou
a

por compa-

nheira até aos últimos dias da vida, oppòudo-se

que casasse por egoismo de pae. O ronde de
Thierry
d'Alsacia,

dum

reino.

Flandres, Philippe, filho de

Esse tumulo é

um reliquario para
com

o patriotismo

captivou-se porém da infanta, que dizem ter sido

portuguez, que se deslumbra

os resplendores

de rara gentileza,

e a

quem

talvez vira

na corte

da gloria militar e

ama entranhadamente
;

a inde-

tendo vindo a Portugal, e fez grande força para a alcançar por esposa. Affonso ncgou-lh'a, apesar de ser vantajoso o enlace, e por muito
;

pendência. Affonso Henriques pôz dourada cúpula

no

edifício

planeado por seus pães

se os meios

tempo

de que usou para consummar tão arriscada empreza

não houve demovél-o da negativa mas afinal podaram mais as rogativas do fidalgo namorado e

nem sempre

foram honrados, nenhuns ou-

tros teriam sido talvez eíficazes,
era, só por si,

porque a força

da dama que lhe correspondia ao amor, do que
a teimosia do velho avaro do seu thesouro, e D. Thereza casou no Porto e embarcou pai'a Flandres,

insulficiente para vencer os fortes

monarchas de Leão e

Castella e rasgar-lhes

um

pedaço da purpura. Peccou algumas vezes por excesso de ambição, e peccou principalmente contra
o genro,

havendo por esta occasião ruidosos

festejos,

e presenteando Affonso os jovens esposos

com ma-

Fernando

ii

:

a ambição

foi

todavia, a

gnificência consoante á ternura que consagrava

inspiração da sua grandeza, e não

foi

n'eUe

um

á

filha.

A partida da infanta teve logar em 1183;

sentimento egoista, que o movesse a procurar os
regallos e os prazeres do poderio.

annos antes,

em

1174, casara o herdeiro da co-

O ambicioso

roa, o príncipe Sancho,

com a princezaD. Dulce, filha deRaymundoBerenguer, verificando-se d'este modo a afiianca da casa real portngueza com a de Barcelona, allianca que já uma vez fora
tractada e que se tinha malogrado pelo falleci-

não se furtava ás canceiras e asperezas da guerra
quotidiana, e era o primeiro a expor a vida ao perigo e o ultimo a ceder á fortuna adversa.

Não

usurpava, conquistava; não intrigava, vencia. As
suas campanhas contra os sarracenos são

uma

mento prematuro de
fonso,
filho

D. Mafalda; e o velho Af-

epopêa. A sua figura athletica

avoluma na historia
tlomo guerreiro,
;

de

um

fidalgo aventureiro, viu os

como

um

modelo de

foi'taleza.

seus descendentes entrarem, considerados e respeitados,

nenhum heroe
politico,

o excedia no valor pessoal

como

no

seio de

algumas das mais nobres e

alcançou a gloria das emprezas politicas

altivas famílias

da Europa.

o

bom

O casamento de D. Thereza não antecedeu
muito a morte de Aífonso, e é possível que a
apressasse.

gar,

êxito. Não era por certo um homem vulembora não tivesse um espirito provido de

todas as faculdades, que a sua tareia de fundador

Nunca

di^

todo sarado do ferimento,

dum
o

estado podia pôr

em exercício.

Era porém,

que

em

Badajoz pozéra fim á sua carreira mili-

homem
;

de que Poilugal precisava para se pro-

tar, al(]uebrado pelos

annos

e pelas

canceirasda

clamar nação e riscar as fronteiras na carta da Pe-

guerra, o

rei,

apesar de ser de constituição ro-

busta e

com

o exercício physico ter

ganho ainda

maior rolmstez, passou os últimos annos de vida
recolhido nos paços

como

invalido, e apóz gra(j

dual decadência veiu a fallecer a

de dezem-

um braço forte movido por uma vonum paladino para as justas com os leonezes, um açoute de Deus jiarn os sarracenos ([ue por tal o temiam, um Alias para aguentar um Ibrono, e era a ]iersonalisação heróica da nanínsula
era
tade firme,

bro de 118.5, ignorando-se as circumstancias dos
seus derradeiros dias,

cionalidade portugueza. Os grandes

homens são

mas sem que a sua morte occasionasse perlurbação no reino. Gomo eOe ordenara em tempo devido, a coreia passou sem
abalo da sua cabeça desfallecida para a de San-

aqueUes que se apropriam do espirito

duma epo-

cha ou d"uma nação; a verdadeira grandeza de

ABbnso Henriques
identificado

é ter sentido a

ambição, ter-se

com

a vontade, ler resumido

em

si,

Historia de Portugal
como um symbolo,
a
IV-

79
honrada
sumiu-se
extasis de

c o valor ilo

povo,

(|UC'

que

seria, pelos feitos das suas gentes,

o IcviíMlou nos escudos.

christandade o assombro do

mundo

;

o a[ioz estas

promessas do particular bonovoloncia

CAPITULO
A
Não ha
lai-

X

em

trevas,
fé.

doixamlo ligas Moniz

em
lia

jubilosa

lenda de Affonso Henriques
liproc

Tondo dado

croilito ãs

palavras

Virgem, o

amo do
sem
Iriida.

Allonso cavalgou logo ao amanhecer, e

A

iiiuiírinação y)0[iu-

tendo percorrido campos, guiado por inspirafeito uma imagem de n'uma gruta e, ao parecer, modelada por mãos não humanas, .\dorou-a com humildade, transportou-a, como hóstia, do escon-

rrluiidc rios seus

moídos o bronze conimenio-

ção divina, encontrou de
Maria, occulta

rativo du historia, (.luandoseassombra, julga ter
visto

um

resplendor divino. Figura que exceda a
parecc-llie

altura do vulgo

que topeta com o

céu.

VC sempre o Uninipolente na magostade hu-

derijo devassado por

milagre para logar onde

mana, o milagre na proeza, a inspirarão sobrenatural no génio, e, crendo na predestinação dos

podesse rocobor fervoroso culto, deu traça para
se construir o templo de Carquere,

que lhe

ser-

grandes homens, cerca-ihes o berço de maravilhas e o tumulo de phantasmas luminosos.

visse de sacrário, o logo a

promessa do céu se

K o

cumpriu no

infante. Desligaram-so-lhe as pernas

seu

modo

de fazer apolheosc.
c fundador de

como por encantamento,
feito

e tão valido ficou e per-

Ksta apollieose não faltou a Aflbnso Henriques,

da sua pessoa, que poude começara apren-

campeão da
cer

te

um

reino,

n

patrio-

dizagem das artes do cavallaria,
foi

em que

depois

tismo alliou-se á credulidade piedosa para lhe te-

professo mestre para ruina dos sarracenos.

Da

uma

lenda rica de prodígios, que a? gerações
e foi recolhida

creança aleijada fez-se

um

athiofa, insigne

em
foi

contaram ás gerações

no thezouro

todos os exercicios physicos, o Affonso, que soube
a que mystcriosa protecção devora a sua cura,

das tradições nacionaes. Logo na infância
a

historia maravilhosa

— teve

— conta

o filho do condo

grande devoto da Virgem
do reino, que som
preso ao de Leão e

e fez-lho

homenagem

Henrique revelação do sou glorioso destino e do
valimento do céu. Nascera aleijado. Apesar do vi-

ella continuaria, talvez, tão
i:astclla

como estavam presas

gorosamente constituído, tinha as pernas ligadas

as pernas do varão predestinado, que havia de

uma

á outra, e até aos cinco annos foram impotodos os esmeros da atrazádasciencia

emancipal-o ãs lançadas.

tiMites

meo

Vida começada sob tão poderosa égide como

dica para as desligar. Dosesperava-sejà de que
|)odesse andar e viesse a ser apto para o mister

amor de Maria, devia
foi,

ser favorecida

com ameue as-

dadas intervenções dos poderes

c.elestiaes,

do chefe de

uma nação

bellicosa,

mas

eis

que

sim

segundo a lenda, ("lontãmos
é

em

outra

sou amo, Kgas .Moniz,

com quem

elle vivia

na

parte

como

de

fé (]ue

se doscoi-cou

Trancoso e

quinta de Cresconlie, visinha de Lamego, vê

num

se desbarataram os cercadoros por intercessão

sonho,

om

noite talvez atormentada polo desgosto
(juo

do monge de Tarouca, Aldelierto. cujas preces

de não poder sarar a croança

por

lillio

amava,

encontraram o céu propicio
a soccorrel-o.

a Affonso e

disposto

apparecer-llie radiosa e fallar-llie benigna a rai-

Mas a prova mais assignalada de
segundo os chronistas,

nha do céu. A apparição disse ao honrado oavalleiro qu(^ se partisse

([uo o

senhor dos exércitos combatia pelos porfoi visivel,

em

busca do

uma imagem
ermo dos
recom-

tuguezos,

sua, que havia de encontrar

em

logar

Ourique. A batalha que n'este logar se feriu

em em

arredores de Lamego, a tomasse nos braços e
lhe erigisse altar e templo, porque

1139 não que não
tra

foi

vencida pelo braço humano, por-

em

é para

humanas

forças pelejar

um

con-

pensa d"este devoto acto Affonso recuperaria o
uso das pernas. Ao
a creança invalida, a

cem

e desbaratal-os. A

promessa da Virgem

mesmo tempo annunciou que quem se dignava soccorrer

a Egas Moniz, de que o seu pupillo fundaria
reino, esteve
ali

um

ameaçada, pelo grande poder

miraculosamente, fora destinada pelo Eterno para
glorificar o

dos mussulmanos, de ser contrariada por derrota
e morte de Affonso
;

seu nome, libertando terras de Hesinfiel,

mas como não ha poder que
de
Deus,
os

panha do jugo

e para fundar

um

reino,

prevaleça contra a palavi-a

mi-

80
ella

Historia de Portugal
o e

lagres suppriram a frinjuezada liosle cLirislã,

pediram-lhe que os não guiasse á morte, que

eo

seu predestiiiuilo raudillio sairam
liça,

triíiiii-

todos viam,

como

num

espelho, nas armas poli-

phantes da
acabar,
i'

onde, segundo a razão, deviuin

das dos sarracenos, e negociasse

com

Ismario

onde já os inimigos Ibes repartiam os

para poder relirar-se do desesperado lance

em

A crença n'esles milagres chegou viva quasi ao nosso tempo; a batalha d'Ourique teve umachronica circumstanciadamente maravilhosa
despojos.

que
dado

se achava.

()

infante

não cedeu ao pedido
reconhecia fun-

mas não ousou

repellil-o, tanto o

em

boas razões. Prometteu consultar a sua

que se enraizou no

espirito popular, e se hoje fe-

experiência da guerra e ouvir o conselho da meditação, e depois,

nece a crença e a historia repudia a lenda, ainda
se deve crer, todavia, que n'esse recontro de por-

quando viu que se

ia

desvane-

cendo o susto que por momentos quasi lhe tumultuara o exercito,

tuguezes e mussulmanos alguma fortuna houve

mandou formar

os esquailrões

para aquelles, que pareceu tão extraordinária,

em ordem

de batalha, cavalgou para lhes passar

que a credulidade não soube explical-a senão
pelo auxilio divino. Está provado que o combate

revista, e n'este acto exhortou-os para

que não

voltassem rosto ao inimigo, porque não havia

d'Ourique não
litar,

foi

um

grande acontecimento mi-

desegualdade numérica que não supprissem o valor

não se pódc dar crédito aos recenseamentos
julgar-se que Affonso e os seus esquai'ra

do braço

e o auxilio

que Deus dá ás boas caujuramentos ác

das forças belligcranles feitos pelos chronistas,

sas, desistissem

de negociar com Ismario porque
e inelle

mas deve
e

não havia
fiéis,

fiar

em promessas

drões se acharam ainda assim

grande aperto,
prodi-

e se

preparassem para pelejar logo que

gios,

ganharam a salvação e a victoria com não do céu mas do valor.
Segundo

desfraldasse o pendão, tantas vezes victorioso.

Estas falias não somente levantaram os ânimos

a tradição maravilhosa, Affonso

Henexer-

abatidos, senão que os soldados, enthusiasmados

riques, tendo-se inleriuido no Alemtejo

com pou-

com

a intrepidez do chefe, o acclamaram, e o in-

cos
cito

mas escolhidos

soldados, encontrou

um

fante recolheu-se á tenda, fiado
faltaria

em
ia

que lhe não

sarraceno perto de Uurique. Avistando-seos

a protecção celeste que promettêra aos
e

inimigos, pararam

ambos como para

se medi-

companheiros d'armas,
fervorosas preces.

que

implorar

com

rem, e o infante levantou a sua tenda sobre
sonte, só descobria legiões de iníieis,

um

outeiro, d'onde a vista, relanceiada para o hori-

Recolhido, pegou n'uma biblia para se fortalecer

numerosas

com

a sua leitura, e abrindo-a

sem

escolher

como
Ics,

as constellações do firmamento.

Eram

el-

acertou cahir-lhe a vista sobre a narração da victoria

no dizer de Brandão, quatro centos mil hoe cavallo,

alcançada por Gedeão

com

tresentos israeli-

mens de pé

havendo por cada cem

um

tas sobre quatro reis

de Madian, que na refrega

portuguez para combatel-os, e

commandavam

perderam cento c vinte mil soldados. Este prodígio era de

esta multidão cinco reis mouros, dos quaes o mais

molde para lhe inspirar

fé.

Lançou-se

poderoso e auctorisado se chamava Ismario. Ti-

então de joelhos no chão da tenda e orou assim

nham

vindo muitos d'elles dWfrica, a estes se
forças da llespanha

«Bem

sabeis vós,

meu Senhor Jesus Christo, que
nome

haviam reunido todas as
sulmana,
tes e o appellido

mus-

por vosso serviço e pela exaltação do vosso

que congregara tantas gen-

cmprehendi esta guerra contra os vossos inimigos;
vós,

annunciára-se como o extremo recm-so,

em

que

sois

todo poderoso,

me

ajudae

que o islamismo pozéra a confiança para vibrar golpe -mortal ao fei-o Ibn-Errik e espedaçar este
açoute de Deus, que o flagellava sem piedade: a batalha devia, pois, ^a^ decisiva, e Affonso
entraria n'ella

nella, animae e

dac esperança a meus soldados,
tendo orado, encos-

para que os vençamos, pois são blasphemadores

do vosso santíssimo nome.

»

li

tou a cabeça cançada das lulas do espirito, ador-

como campeai?

fia

christandade.

meceu profundamente eteve
so, d 'aquelles

um

sonho milagro-

O grande numero dos

infieíi'

amedrontou os

de que se servia o céu para mandar

cavalleiros portuguezes, apesar (íe desacostumados de contar os inimigos. Pareceú'-lhes insensatez luctar

inspirações aos seus protegidos. Sonhou que via

um homem

de aspecto venerável, vestindo

um

sem esperança de

vencimlt'nto, e junc-

burel de eremita sobre o qual se espalhavam lon-

taado-se n'este parecer foram á ten'^a de Affonso

gas barbas alvas, e que o velho lhe mandava que

Historia de Portugal
ordenasse a peleja ao romper da manhã, e dizia qnc aiitfs ii'cila o scnlior dos oxiM-ritos
parcccria luminoso no lirniaincnlo, |iara
inetliMllic'
llii'

81
fé catholica.

as mais

que úéres aos inimigos da

a]!-

Tua gente adiarás prompta para a guerra e

com

jjro-

a viitoria. ijiiando se deleitava

com

este

grande animo pedir-le-ha que com titulo de rei comeces esta batalha não duvides de o acceitar,
:

sonho enlron na tenda João Fernandes de Sousa, otlieiai da sua camará, jiara lhe amuuiciar i|ue
se

mas concede livremente
do, e

a petição,

porque eu ^nn

o fundador e o destruidor dos impérios do

mun-

apresentara no acampamento

um
faltar

ancião de

em

ti

e

em

tua gei"ição quero fundar jiara

presença respeitável ]iedindo para
negocio ao
i'hefe

em grave

mim um

reino, por cuja industria será

meu nume
que teus

christão.

Ordenou AtTonso que

notificado a gentes estranhas. E para

tosse introduzido o visitante, e tanto que o avis-

descendentíís
reino,

tou reconlieceu-o pelo
ra,

mesmo

([ue

em sonho

vi-

conheçam de cujas mãos recebem o comporás as tuas armas do preço com que
e d'aquelle por
i|U(' lui

com

o

que se convenc('U de que era algum

comprei o género humano
ficado, amatlo de

mensageiro divino, e o eremita repetiu-lhe o (|uo elle também já ouvira durante o somno, dizendo-lhe que quando tangesse o sino do seu eremitério saísse da tenda, porque lhe appareceria o (Jhristo a annunciar-lhe o triumplio dos

comprado pelos judeus, e ficará este reino santi-

mim
«

p<'la [lureza

da

e excel-

lencia da piedade.

Estas falias attribuidas ao lihrislo pateuleiam

bem

o propósito de

portuguezes sobre os

infiéis.

Retirado o enviado
oração, e ao rom-

o milagre de Ourique.

quem lhas attiibuiu e forjou O pleito travado com o

celestial o infante pôz-se

em

monarcha de Leão acerca da independência de
Portugal

per dalva ouviu,

como

lhe fora prometlido, o sino

apparece resolvido por sentença d'a-

do eremitério, e vestindo as armas saiu pai-a o campo. Não
iiou-se

quelle que funda c destróe os impérios.

A

ori-

se fez esperar a visão,

n céu

illumi-

gem

da parte do oriente com
foi

um

resplendur

do reino não é já a victoria das armas, um tractado assellado por soberanos ou a aspiração

deslumbrante, que se

dilatando, e no ceniro

do povo

:

é a

vontade de Deus. O crucificado de
es

do disco de fogo desenhou-se por arte maravilhosa

Ourique paraphraseia o Tu
cindindo do trocadilho

Pelrus

'et

super

uma

cruz, sobre a qual eslava csteniliiln e

lianc pclram xdificabo eccksiam

pregado o Redemptor, rodeando coros de formosíssimos anjos, enirajados d'alvura, o cnicilixo

— para proclamar e
:

meam — preslegiti-

assombroso.
Prostrou-se o infante

em terra,

largadas as ar:

mara monarchia portugueza. liousa notável e que não abona a lógica dos milagres os inimigos são iniieis sarracenos, é sobre elles que vae ser ganha a
victoria proraettida pelo céu,

mas, desatou-se em prantos e rogou assim «IJue merecimento achastes, meu Deus, em run tão
grande peccador como eu, para me enriquecerdes com mercê tão soberana? Se o fazeis por me
accrescentar a
íò,

mas

a i)uem

o Cbristo mostra a sua cholera, no discurso tpie precede a batalha, é aos monarchas leonezes,

parece não ser necessário, pois

sobre a terra portugalense

porque os despoja dos seus direitos de soberania .\ntes de derrotado
!

vos conheço desde a fonte do baptismo por Deus verdadeiro, filho da Virgem Sagrada, segundo a

Ismario estava vencido Affonso vn, que não era perro inliel, não tinha hostes em liidia de batalha

humanidade,
vina.

o

do Padre Eterno, por geração
infiéis

di-

Melhor seria participarem os
(pu',

da

nos plainos alemtejanos, e que portanto devia estranhar vèr-se envolvido no pado d'alliança do
céu

grandeza d'esta maravilha, para
seus erros, vos conhecessem."

abominando
esta oração,

com

AlVonso Henriques, ainda mais do que

dom

Pilatos estranharia achar-se no credo.

O

Clirislo

que

tinlia

uns longes de advertência e conselho,

de Ourique
;

é

evidentemente

um

Deus dos por-

não ])areceu olTendido o (a-uciiicado, e respondeu-lhe com um som de voz dislincto só ])ara o
infante:

lusuezes o dos h(>spanboes fallaria em outros lermos. Elle não quiz moslrar-se aos nnissulmanos,

«Não

te appareci d 'este
fé,

modo para
jirincipios

ac-

como

lhe aconselhava Atlbnso

:

os chronistas mos-

crescentar tua

mas para

fortalecer tua cora-

gem

n'esta

empreza e fundar os
pedra firmíssima.

do

traram-n'o, porém, aos leonezes e castelhanos, aceitado para os convencer aaí)0í)!Í7?n)'«?i os seus
erros ambiciosos,
e

teu reino

em

Tem

confiança,
toda.s

ha quem ainda hoje uão

porque não só vencerás esta batallia mas
•VOL.

queira prescindir d'elle para fronteiro do reino.

1—1

1

.

82

Historia de Portugal
|)ara

Uuvidas cuin veiioração as palavras tio Senhor, o infante respoiídeu-llie, e ilepois (le breve colloquio em que se renovaram as promessas do céu
á gente porlu^ueza e aos seus monarcbas, desvaneeeu-se a visão, e Aflunso reg|-essou aos arraiaes, fortalecido e confiado.

lhe acudirem,

indo Affonso

com

elles

e

adiante d'elles, e

começaram a destroçar no
n'ella os

ini-

migo.

Em

derredor do estandarte christão se em-

braveceu a peleja, lidando

mais esfor-

çados campeões d'ambas as hostes. Aqui esteve
Affonso
ros,

No dia 25 de julho

em perigo,

porque, conhecido pelos moula elle practi-

d'aquelle anno de

1139, dia consagrado pela
a_cumprir-se as

procuraram-n'o todas as armas,
:

Egreja ao apostolo S. Thiago, propagador da
christã

cando gentilezas de valor

a

um mouro collossal,

em Hespaiiha, começaram
O

que se lhe atravessou diante, varou com a lança; debaixo dos pés do seu cavallo agonisavam

palavras divinas.

exercito, antes desalentado,
brios, e Aftbnso

amanheceu cheio de
e

ordenou-o

temerários que o haviam affrontado de perto
a espada esgrimida ás

para o combate, não sem antes ter ou\ ido missa

commungado com
a hoste

os principaes cabos de guer-

ra. Dividiu

em

quatro pequenos corpos

com mãos ambas traçava á roda de si um vácuo, no qual voavam estilhaços d'armas e membros rotos mas como cresciam de
;

;

a vanguarda, composta de trezentos ginetes e trez

continuo os inimigos que o apertavam, teria perecido

mil infantes, da

ijual

em

pessoa tomou o com-

sem

o soccorro

prompto dos capitães. Diogo

mando

;

a rectaguarda, de egual

numero de boe seu

Gonçalves acabou defendendo-o. Outros guerreiros illustres lhe fizeram trincheira

mens, commandada por Lourenço Viegas
da, capitaneadas por Martini Moniz e
niz.

com

os ca-

fdbo Gonçalo de Souza; e as alas direita e esquer-

dáveres

;

mas vencido

pelo

valor o numero,

Mem

Mo-

Aflbnso desembaraçou-se, e os sarracenos prinr

E quando

já se

preparava para dar o signal
elle os

cipiaram a esmorecer e affrouxar no combate,

de accommetter, vieram a
valleiros e pediram-lbe,

principaes ca-

como lhe annunciàra o
rei

Senhor, que se deixasse acclamar

antes de

dando mostras de ceder o campo. Acudiu a este desalento Ismario com as forças que tinha em reserva, e para aguentarem o seu

se ferir a peleja, e assentindo elle ao podido e di-

embate adianlaram-se
portuguezes.
foi

as alas e a rectaguarda dos

vulgando-se a noticia do assentimento, logo os
soldados soltaram vozes de alegria, bradando:
Reul, real, por D. Affonso, rei de Portugal!

Generalisou-se então o conibatCj

enraivecido, durou largo lempo, e por

mo-

E o

mentos pareceu indicisa a

victoria. Decidiu-a,

novo

rei,

cavalgando donairosamente, vestindo
escoltado pelos barões de
filas

porém, o incansável Allbnso. Vendo que a principal força dos contrários era

brilhantes armas e

um

esquadrão de

maior prosápia, percorreu as

armadas ao
o estrondo

gente escolhida, que a toda a parte acudia

com

som de acclamações, concertadas com

exemplos de

valor, e

no qual commandava Ho-

dos tambores e o clangor das trombetas, chegando

o rumor d'esta festiva solemnidade ao acampamento dos mouros, que julgaram ter entrado no
arraial portuguez poderoso reforço de gente, tra-

mar Atagor, sobrinho dlsmario, reuniu os seus homens darmas mais intrépidos, e investindo com estes formidáveis inimigos empenhou com elles um como torneio, em que os desbaratou e
matou Atagor. Este successo quebrantou o animo
dos mouros, que o presenciaram. Começaram a
recuar
e a

zendo comsigo esperanças de

victoria.

Terminada
desemdiou

a

revista,

o alferes,

Pêro Paes,

a bandeira] branca, (]ue e os ca valleiros

esperava pelo

desordeuar-se. Ismario, que combatia

escudo das quinas,

da vanguarda

valorosamente, viu-se

em

risco de ser

abando-

enristaram as lanças, esporearem os ginetes e
precipitaram-se

nado pelos seus e perecer, e voltando subita-

com grande

fúria sobre os sar-

mente costas põz-se
estava cumprida.

em

fuga desapoderada. Foi

racenos, abalando e

rompendo

as primeiras filas

este o signal da debandada.

dos seus grossos esquadrões. Nelles, por ordem

A promessa do céu A hoste portugueza proron)peu

de Affonso
tante, se

e

abrindo brecha a golpes de

mon-

em

jubilosas acclamações, e os cavalleiros, cor-

entranhou o alferes-mór, e a bandeira

rendo á desfilada pelo campo, perseguiram os
fugitivos,

appareceu aos portuguezes arriscada, surdindo

acabando uns, aprisionando outros, e

d'uma pinha de

infiéis,

que se atropellavam para

varreram a planície até que ao cliamamento das
trombetas se recolheram ao arraial. Ficarão chão

a abaterem. Fizeram força, todos a

um

tempo

Historia de Portugal
alastrado
ile

83
com meus descen-

radaveri-s, i.onrra tanto sangue, diz

passasse na verdade, juro eu D. AlTonso, pelos

André do Resende, que se tingiram as aguas do
(dobres e

Santos Kvangelhos de Jesus-Christo, tocados
estas mãos.
V,

do Terges e appareceram novamente

portanto

mando

a

retinctas logo ([ue as

chu\as lavaram

o.s

rampos

dentes,

que para sempre succederem, que
e das cinco

em
tra-

inarginaes

;

o (juando os soldados despojarain os

honra da cruz

chagas de Christo

mortos acharam entre elles mulheres, quequaes

amazonas haviam orcultado o sexo com as

ar-

gam em seu escudo cruz, e em cada um
e,

cinco escudos partidos

em

d'elles os trinta dinheiros,

mas
a

e

tinham pelejado com animo

viril.

Dospor-

]ior

timbre a serpente de Moysés porserligura

luguezes tand)em não poucos haviam pago

com
histi-

de Christo, c este seja o trophéu da nossa geração.

vida a victoria da religião e da pátria, c nos

E

se

alguém tentar o contrario,
e

seja maldito

festejos

do triumplio houve lagrimas que

do Senhor
o traidor.

atormentado no inferno como Judas,

masscni a perda de Martim Moniz, capitão de

uma

Foi feita a presente carta

em Coim-

das alas, a ijucm a fortuna não quizera recom-

bra aos vinte e nove de outubro, era de mil
cento e cíncoenta e dois.

pensar o esforço generoso.

Tendo estado
gressaram a

trcs dias

no campo, como era no dia 15 de agosto,
festas

dos e ricos-homens.

— Confirmam prela— Citamos documento
»

este

uso do tempo, AlTonso c o exercito glorioso re(_;oimbra, e ahí,

unicamente porque
que

faz parte

da historia d'unia

lenda, que passou tantos séculos por verdadeií-a
historia,

se festejou o triumpho
religiosas,
I).

com solemnissimas

até

contém

a única exiilicação, (]ue

em que pregou

o arcebispo de Braga,

se saiba,

do escudo d'armas d'uni reino.

João, e otllciou o de Coimbra, D. Bernardo,
e depois d'ella jogos

Creatura tão favorecida

em

vida por milagres,

havendo procissão
não ('ondignas do
da ejiocha, a

de ca-

como

foi

Affonso Henriques, devia gosar depois
feito

nas, corridas de touros e outras folganças, se
feito

de morto fama de santidade, e de
Ihe essa fama os frades, por

deram-

que se celebrava, próprias

mão dos quaes andou

um tempo de grande devoção e não menor barbárie. No logar de Ourique não houve
munumento além do
no qual,
eremitério

desamparada a nossa

historia, e deram-lh'a, se-

gundo parece, não

tanto por interesse da gloria

por séculos outro
convertido

do fundador da monarchia, quanto por interesse

em

capella,

em

seguida á

mundano da
nado
rei, e

Egreja. Nas

memorias de Santa Cruz
fi-

hatalha se não encontrou o ereniitão que apparecèra a Aífonso
tião
;

de Coimbra contam-se algumas apparições do
especialmente
i.

mas no reinado de

D. Sebas-

uma que teve logar no
campo de ba'?

e por

ordem

d'este príncipe foi a capella

reinado de D. João

Suppõe-se que o phantasma

reconstruída e accresccntada, fabricando-se tam-

guerreiro haja apparecido n'algum
talha,

bém um
letreiro

arco sumptuoso,

em que

se esculpiu

um

incitando o valor dos paladinos da cruz

composto pelo douto André de Resende,

Cré-se que deva ter-se mostrado a

algum dos

que narrava succinlamente a apparição do Christo
e o resultado do combate. Outro

seus descendentes, para lhe
licidade do jjovoí" Pois não.

monumento, de
ter ficado

recommendar a feO mestre de Aviz

maior estima, aíliança Brandão

dos

contestava ao mosteiro de Santa Cruz a posse da

acontecimentos maravilhosos de Ourique. Ilom

quinta da Atamuia, e faltava aos cónegos docu-

uma boa
clor da

que destoa do seu

fino critério, o au-

mento do seu
ticar o

direito

:

acudiu então por elles o

terceira parte da

Monarchia Lusitana
Fr.

primeiro Affonso, dorido da injustiça que ia prac-

conta que no archivo do mosteiro de Alcobaça e

seu bastardo successor, revolveu-se na

no anno de 1596 encontrara
Brito, o insigne falsificador

Bernardo de

sepultura, e não ponde ter-se que não rompesse
a lousa para
ir

da nossa historia,

um

mostrar-se

em sonho

a D. João e
reli-

pergaminho antiquíssimo, que era nada menos que o instrumento ou acta de juramento, que fizera AlTonso Henriques perante os ]irelados de

segredar-lhe que devia deixar a quinta aos
giosos.

O

rei

obedeceu: bemavcnturados frades,

Rraga e Coimbra, de como vira Christo

em

Ouri-

res de suas causas

que tinham phanlasnias augustos por sollícitadoditosos tempos, em que se
!

que e com da menor

elle fallàra. liste
fé,

documento, indigno
«E que

alteravam as

leis

da natureza por causa da quinta

condue

n'estes termos, depois de
:

de

um

mosteiro

narrada miudamente a apparição

isto

Outra vez, estando os monges d'Alcobaçano

84
còii)
;i

Historia de Portugal
caiitur nialiiias,

viram Alíouso

loilo

ornado,

humilhando a sua creatura. AtTonso Henriques
não
foi

o o ataviado espectro dissu-lhes
tle

que por vontade
un-ancar Ceuta

predestinado para fundar a nacionalidade

Deus

Tora

com seu liibo Sancho
:

porlugueza; a nação cmancipou-se, amonarchia
constiluiu-se, porque AlTonso Henriques teve as

do poder dos mouros
e (|uejaudos actos

tinha vindo ao

mundo para
I

jianhar alviçaras pela conquista de Ceuta

Estes

qualidades necessárias ]iara

consummar

a

em-

de poder sobrenatural tizeram
celes-

preza começada por seus pães. Se Deus o ajudou,

passar
tial,

AUbuso por bemaventurado na corte

ajudou-o dando-lhe valor c fortaleza e inspirando
ao povo as virtudes, que fazem os povos gran-

pensou-se algumas vezes era canonisal-o,

e

conipozeram-.se orações

em

sua honra

:

Orapro
na sua
glo-

des

:

confiança

em

si,

solidariedade e constância.

iiobis,

famulis

tuis,

invictissimé liex Alphonse.

Para que a historia seja como

um

templo não é

Não vae
se
i'ia

tão longe a historia, por certo,
jielo

necessário que bo seu altar transluza o Christo

admiração
Ilie

primeiro

rei portiiguez

;

todavia,

d'Ourique, e vagueie pelos seus carneiros o phan-

não pôde

dai' altar

nos templos

nem

tasma d'Aironso

:

basta que n'elle fuija a luz pu-

nos céus,

dá-llie

um

levantado pedestal de

ríssima da verdade, (|ue mais deslumbra o espirito
(lo (|ue

louros e palmas na galeria dos grandes

homens

todos os lanqiadarios accesos pela super-

da edade média.
A lenda não o engivmdecc, aniesipiinba-o, c é

stição
poili'

no seio das trevas da edade-mcdia. A lenda
encantar a imaginação, mas a historia asa

mal entendida piedade

i]ui'rer ^lurilii:ar o lilerno

sumlira

razão.

d8

IliI"VK,0 III
í*i»a,iielio

I

CAPITULO

I

portuguez, e as doações de Almada, Alcácer o
Palmeila ã ordem militar de Santiago, e de Al-

Relações de Portugal com os reinos
de Leão e Castella
;orroi-aiii [lacilicos

pedriz, Alcanede e

Jerumenha

á de (lalalrava,

doações interessadas, que asseguravam ás fortalezas mais expostas a commettimentos a guarrt'i-

(

os primeiros uiino.s do

nição dos monges-cavalleiros, apostados sempre

Diido de

Sancho

i,

que cingiu a coroa a 9 de dediasdopoisdo
falliTinifiito

para vencer ou morrer.

No desenvolvimento dos
i,

zembro dp 1185,
dl'

trfz

concelhos e das ordens militares viu Sancho

seu pae. O novo ainir de Miirroros, Yaruli Alm
fóra despersuadido jielo desbarato dos

sem

se enganar, o

meio

efficaz

de accresccntar

Vusuf,

as forças defensivas do paiz e ao

mesmo tempo
feito,

exércitos sarracenos, juiicto de Santarém e Lisl)oa,

promover a sua prosperidade, porque, de
paes, as cavallarias villãs
sos auxiliares

de continuar por então a guerra

em

Portufiel

se era pacifica a indole das instituições munici-

gal.

Fernando

ii,

de Leão, conservou-se

ás

eram comtudo

precio-

pazes juradas depois da batalha de Badajoz, c
seu sobrinho, Allbnso vin, monarcha de
("astella,

na guerra, e se os freires faziam profissão das armas, na paz arroteavam charnecas e

encontrou na situação interna do reino e na hostilidade, manifesl.i

ou dissimulada, do

tio,

moti-

Em

povoavam ci-mos. 1188 a morte prematura de Fernando n

vos de sobra para se não deixar arrastar pela

obrigou o rei de Portugal a desviar a attençXio,
por momentos, dos negócios internos

ambição

a

unaesquer tentativas contra o repouso

em que

an-

de seus visinhos portngnezes. A separação das
coroas leonpza ecastelhana, naturalmente rivaes,
era

dava occupado. U finado deixara
seu
filho

em

tenra edade

primogénito, AlTonso ix, nascido da

um

penhor de segurança e quiçá

uma
f
,

pro-

infanta D. Irraca e portanto sobrinho de Sancho.

messa de engrandecimento para Sancho

o qual,

Pertencia-lhe de direito a coroa leoncza, todavia

não obstante, se preveniu no remanso da paz
para a eventualidade da guerra, edificando caslellos, ([ue

quiz disputar-lli'a a madrasta, D. l'rraca Lopes de
Ihu-o,

para pôl-a na cabeça de seu próprio

filho,

servissem de padrastos contra a inva-

Sancho, e AtTonso i\ viu-se compellido a
lar

sollici-

são de chrislãos ou mussulmanns, e povoando os
logares próximos das fronteiras para lhes dar
|ior

a protecção do monarcha portuguez, o qual

porventura ajudou a debellar a conjuração que
o ameaçava, e a segurar-lhe o throno a despeito
d'ella.

defensores as milicias populares. Datam d'este
|ieriodo os foraes

da Covilhã, de liouveia, de

Faria o

moço

rei

de Leão n'esta conjuntio,

Bragança, de (Ihão, de Felgosinho, de ValheIhas, concelhos

ctura
xa,sse

alguma promessa ao

que depois deié

próximos do
.seniinellas

território

de Leão e

de cumprir;* Não se sabe ao certo, mas

("asteMa e

como

avançadas do povo

provável que não fosse outra a raxào das hostiH-

86
certo

Historia de Portugal
i,

dades que rodo lhe declarou Sancho

de con-

dicto

no reino

e obrigou-o a sacrificar a felici-

com
II

Affonso vni de Castella, desejoso este

dade domestica aos escrúpulos de consciência
dos súbditos. Effectuado o repudio, ficou partido
o vinculo mais forte que prendia Affonso ix a

de vingar-se dos aggravos que recebera de Fer-

nando
do

e

de accrescentar-se á custa dos estados
rival.

filho

do seu

Sancho

i.

O

rei

de Castella approximou-se então

Impotente para se defender de dois inimigos,
Affonso IX tractou de desunil-os e lançou-sc nos

do de Portugal, é

em 1196

ligou-se

com

elle of-

fensiva e defensivamente, por mediação do principe aragonez, Pedro, que veio expressamente a

braços do castelhano,
cto

com mostras de
consentiu

tanto affe-

e humildade, que até
d'elle o

em

rece-

Coimbra para se

avistar

com Sancho

i,

e

que

ber

grau de cavalleiro e

em

bcijar-Jhe a

entrou na liga que conseguiu firmar.
Esta coafisão ameaçava o rei leonez, e
elle,

mão, como se fora seu dependente. Este procedimento, senão foi decoroso, foi politicamente útil.

csquecendo-se de que era christão,

sollicitou aini-

Quem, em razão
cho
;

d'elle, se sentiu fraco, foi

San-

sade e auxilio do amir de Marrocos, Ali-Manssor.

e tão temerosa lhe pareceu a alliança de
e Castella, ijue

O príncipe almohade não desaproveitou o ensejo,

Leão

devorou a affronta que rece-

que se lhe antolhava favorável para

ferir os

bera do solirinho ou renunciou ao projecto ambicioso ([ue a sua fraqueza de

inimigos tradicionaes da sua

e do seu poderio,

momento

lhe sug-

e levou a guerra ao coraçãQ.de Castella, dando
logar a que Affonso ix se declarasse por elle.
feito,

gerira, e desistiu das hostilidades.

A paz entre os

De

príncipes da Hespanha christã revalidou-se então,

os leonezes, associados aos navarros, lan-

para durar até 1191. N'esseanno, porém, desenvolveu-se o fermento, que ficara, de discórdia
entre Affonso ix e Affonso
viii.

çáram-se nas pegadas dos sarracenos, os castelhanos

reclamaram o auxilio promettido por

Aquelle compre-

Portugal e pelo Aragão, e todas as potencias de

hendeu que

fora ignominiosa a sujeição

que a

este offerecêra

num lance apurado, este ([uiz tal-

Hespanha se empenharam numa lucta assoladora. O papa interveio então n'ella, cxcommungando o catholico que fraternisàra com o mus-

vez tornar onerosa a supremacia que alcançara

sobre aquelle, e ambos deliberaram deixar a formula das suas relações futuras ao arbítrio das

sulmano e offerecendo os seus estados a quem
podesse conquistal-os, c expediu
theor seguinte

uma

bulia do

armas, e

uma

vez desunidos ambos desejaram

também

a alliança do rei portuguez. Obteve-a
«Celestino, bispo, servo dos servos de Deus,

Affonso IX, e para que fosse mais solida ajustou-

se o seu casamento

com

D. Thereza, filha mais

Ao caríssimo em Chrislo

filho o illustre rei

de

velha de Sancho; c para que ficasse mais formidável a liga de Portugal e Leão, entrou n'ella o mo-

Portugal, saúde e benção ajiostolica.

Como

pelos

sagrados cânones esteja taxada egual pena aos
auctores e executores do mal, e não seja

narcha aragonez. Esta

triplice alliança teve resul-

menor
que se

tado similhante ao que tivera,

cm

1188, a dos

despreso impugnarem a

catholica os

dois Affonsos: o rei de CasteUareceiouaffrontal-a,

têm por

christãos, do

que seria se a deixassem,

deixou tranquillo o adversário que tão bem se precavera contra a sua aggressâo, e a paz foi proro,

perseguissem e seguissem a superstição dos bárbaros, nos pareceu

que não devíamos

faltar

com

gada.

o favor apostólico ás petições que fazeis, de que

A

coalisão dos três soberanos

não poude ser
que importava
:

a vós e a todos que fizerem guerra a el-rei de

duradoura. O casamento da infanta D. Thereza

Leão sejam concedidas as mesmas indulgências

com
tes
foi

Affonso ix tinha

um

vicio,

que a Santa Sé Apostólica têm outhorgadas aos

nuilidade segundo as leis canónicas

os consorlogo que

que militam contra os
á sua conta a

infiéis e

defendem a
elle

chris-

eram primos. O papa Celeslino

iii,

landadc de Hespanha, por quanto
defensão dos
fáz

tem tomado

informado (resta circumslancia condemnou

mesmos

infiéis, e

em

a união,

cm que

o seu predecessor consentira,

companhia dos mouros
i\ós,

guerra aos christãos.

intimou ao rei de Leão a ordem de se separar da esposa, que estremecidamenie amava, e como elle quizesse resistir, o pontífice pôz-lhe inter-

respeitando vossa real petição e concedendo

pelo theor das presentes a vós e a lodos os que

fizerem guerra ao dito

rei,

em

quanto permane-

Historia de Portugal
cer

87
porque essa região voltou ao
foi,

em

sua pertinácia, as graças que são conce-

foi

infructifera,

didas aos (|ue passam á fiuerra

em

.leiíisalem,

dominio da coroa leoneza. Allbnso não
rém,
feliz

po-

ordenamos mais

qu(í todas as terras (]ue

vós ou

nos cercos (]ue pôz a Bragança e San-

outrem (jualquer ganbar ao
está
coiiluraaz,

mesmo rei

,

einquanto

cho não conseguiu entrar
([ue

em

Gastello-Hodrigo,

fiquem livremente a quem as
se

também

sitiou.

A

victoria declarou-se ora

occupar,

sem mais
rei.

devolverem ao senhorio

por

um

ora por outro

ilos

belligerantes, e a

cam-

do próprio
licito

Portanto a neidiuma pessoa seja

panha terminou não se sabe quando nem porque,

quebrantar ou contrariar temerariamente
indulficnria, e se

mas terminou, segundo
a ser o rio Minho.

se julga,

com

prejuízo

esta bulia de

alguém se

atre-

para Portugal, cuja fronteira do norte; tornou

ver a fazel-o, saiba que ha de incorrer na indi-

Tudo quanto se

refere a esta

gnação de Deus Todo Poderoso e dos bemaventurados apóstolos
S. S.

contenda está, comtudo, obscurecido pelo tempo,

Pedro e

S. Paulo.

— Dada em

e apenas se pôde dar por certo estar ella

.loão

de

jjatrão a 4

dos idos de abril do anuo

sétimo do nosso pontificado.»

em rjOU, anuo em que Allbnso ix acompanhou seu sogro n'uma expedição guerreira a Navarra, e em que Sancho se applicou, com
acabada

Esta sentença

inspirou

alentos

aos alliados

uma

diligeni-ia, (|ue

denota despreoccupação de

de AlVonso

viii.

Hm

d'elles,

Sancho, penetrou

negócios militares, a levantar castellos e organisar cx)ncollios.

na

(lalliza

e

em

breve espaço se assenhoreou

do extenso

terrilorio

de Tuy, Lobios, Sampaio

São escassas

e

pouco seguras as informações
i

e Ponti'vedra. A IVirlmia declaron-se adversa a

dos chronistas acerca das campanhas de Sanclio

AlTonso IX.
victorias

()

amir acudiu-lhe,

líaidiou ai«;uMias

com

o rei de Leão, e o único dos seus episódios,
elles

por conta dVIle e inleivsse próprio,
fez

de que

encontraram noticia, é

uma

batalha

chegou ás portas de Toledo, mas ahi

pazes

junclo de Gelorico, talvez por andar associada essa
noticia à lenda milagrosa de

com

o i.ionarcha de Castella e abandonou o de
sorte, liste

Nossa Senhora dos
antes da

Leão á sua desesperada

reviramento
i.x

Açores. Esta

imagem vcnerava-se ainda

apressou o termo da guerra. Allbnso

julgou

fundação du monarchia

numa

capelia sita entre

indispensável humilbar-se perante os três poderosos inimigos, que a
tiam, congraçou-se

Linhares e Gelorico, e tivúra, no dizer crente do
povo,

um tempo

o

accommetna
pacifi(]uu

uma origem

maravilhosa, pois que apparea pique de alTogar-se vacca, cabida

com AUonso
rei

vni recebendo

cêra para salvar

um pastor,

em

casamento sua
foi

lilha iíerengaria, e

no intento de acudir a

uma

em

cação

comprehentlidú o

de Portug;d,

lago profmido. Recolhida

n'um modesto templo
e tmia rainha

todavia conservou as conquistas que fizera
Galliza.

em

por

mãos

piedosas, correra a fama do seu mila-

gre até entrar
D. Bereu-

em

Hespanha,

de

U consorcio do priucipe leonez com
garia eílectuou-se

nome
filho,

ignorado apegou-se devotamente cora

ella

em

1197. A harmonia restai.

para, á semelhante de Sara,, alcançar do céu

um

belecida entre Castella e Leão inípiietou Sancho

herdeiro da sua coroa.

A creança nasceu,

Receiava

elle,

provavelmente, que Attbnso

viii

elYectivamente,

mas como

se tivesse sido feito

ajudasse o primo a arrancar a Portugal os despojos, que lhe

de

vontade o milagre que lhe dera o ser,

haviam

ficado da

campanha de

nasceu aleijado. Novos rogos à Senhora para que o
pozesse são e escorreito,

1197, e este receio moveu-o a recorrer a lunoceucio ni. Empenhou-se o pontifico, não desin-

mas nova demonstração

de que a

celestial
:

madrinha não era extremosa
vez de melhorar, o príncipe

como veremos, para que o monarcha castelhano nada empreheudesse contra o
teressadanieute,

pelo afilhado

em

morreu. Era para entihiar-se

uma

robusta

:

a

portuguez, e de

feito,

quando Affonso

ix invadiu
fèl-o só

a província de Tras-os-Montes

em

1199,

da rainha, todavia, não se quebrantou, e fez voto de ir ao templo visinho de Gelorico, levando nos
braços o filho morto, para que a Virgem o ressuscitasse.

com

as suas tropas, porque se negara o sogro a

soccorrel-o. Esta invasão

deve ter tido por causa

principal

ou única a disputa acerca da parte da Galliza occupada por Sancho, e parece que não

Gumpriu o voto. Ella, o rei e a corte visitaram a Senhora, e quando estavam todos dentro

88
nem
a iiumaniilado

Historia de Portugal
tiros,

da ermida occorreuura incidente, que não abona

é

de tradição que a lua e as estrellas bri-

nem

a devoção do monarclia.

lharam com desusado fulgor, mostrando como
Josué
poderia
ter

Fugiu

um

açor do punho

dum
O

servo, baleu as

despensado o

sol

de parar

azas e perdeu-se no espaço.

rei,

esquecido da

para de todo vencer os inimigos do povo de Deus.

morte do

íillio

c

do fim da romaria a que viera,

Km memoria
seu escudo

d'este prodígio pintou (lelorico no

encolerisou-se e ordenou que fosse decepada a

darmas

a lua e as estr(!llas, e os po-

mão do
ciosa.

caçador, que deixara escapar a ave pre-

vos d 'esta vílla e os de Linhares foram, durante
séculos,

Jsem lagrimas

nem

suppiicas o al)randa-

em

romaria annual á eapella dos Açores,

ram.O caçador encommendou-se então á Virgem

a qual, todavia, não adquiriu direito de figurar na
historia senão
ticos,

em

cuja presença eslava. E quando já o cuteilo

como um dos muitos,

ás vezes poé-

se erguia para o mutillar, conforme attesla

um

ornamentos, com
enriqueceu.

(|ue a credulidade

popu-

velho quadro conservado naegreja, eis ijue o perdido açor,
110

lar a

A

víctoria de Celorico

não está

templo e vae pousar

como guiado por mão celesti', entra com as asas abertas so-

documentada.

Não ha

notícia

de que Sancho pegasse

em

ar-

bre o braço do condemnado, defendendo-o do ferro cruel. O rei perdoou, todos se prosliaram

mas

contra outro príncipe chrístão desde

1197

até ao fim
ti

do seu reinado. Na guerra de
interferiu.

(iastella

em

terra assombrados, e o seu assoinliro cres-

Leão contra a Navarra, não

Apesar

ceu de ponto e rebentou

em regosijos, quando ao
não só vivo mas
ricas

de nunca terem sido amigáveis as suas relações

levantarem-se da oração viram o príncipe, trazido

com

Affonso ix, não consta que se envolvesse nas

no esquife,

restituído á vida, e

desinteilígencias que este teve

com

o sogro,

em

sem

aleijão.

Os monarchas fizeram, então,

sequencia do repudio de D. Berengaria, ordenado
pelo papa. L que o lilho de Alfonso Hem'iques,

offcrendas á eapella, retiraram-se elles
lho aviventado, retirou-se o caçador
salva e o açor recuperado, e a

com o ficom a mão imagem recebeu

bem menos
niiava

aguerrido

que

elle,

não deseml)aipor
va-

a

espada

senão

determinado

o

nome de Nossa Senhora

dos Açores, e ganhou

lioso interesse

ou obrigado a defendcr-se. A sua

créditos de ser misericordiosa e mimificente para

politica interior foi quasi

sempre defensiva, e se
na Gal-

quantos se abraçavam

com

viva ao seu desoi-

em 1197
liza,

se abalançou a fazer conquistas

nado

altar.

A
ria

esta

imagem, da qnal narrámos
foi

a pintada e

pintoresca lenda milagrosa,

attribuída a viito-

moveu-o a isso o papa, seduzíndo-o com a perspectiva do desmembramento dos estados de Affonso IX, o excommungado. Temendo-se do
de Leão, seu visínho
e deu-lhe a filha
,

de Celorico. Aílonso

ix, diz-se,

entrara

em

rei

c rival, desejon-o

para

terras portuguezas

sem encontrar

resistência, c

amigo

em casamento;

quando,

passara

com grande poder por

(kdorico.

O

capi-

porém

o

rompimento da aliiança de

família trouxe

tão d'esta viUa era

homem

esforçado, teve de-

o enfraquecimento da aliiança política, procurou

sejo de vibrara ra golpe aos leonezes,

mas não

systematicamente ligar-se

com

os inimigos do

se julgou

com

forças para tão arrojada empri'za.

seu ex-genro, e reconhecendo quanto era natural

Pediu, pois, auxilio ao céu e aterra. Heuníuaos

a hostilidade entre leonezes e castelhanos, a

homens d'armas do seu commaudo
res,

os de Linha-

despeito de tractados e parentescos,

em

ódio a

da (luarda e de Algodres,

e á frente d'estes

Leão requestou Castella e lançou-se-lhe nos braços, não,

troços se

moveu em perseguição de

AlTonso ix,

porém, com tanto abandono que lhe

encommendando-se previamente com nuiíta devoção à Virgem dos Açores. Não foi baldadamente.
Os portuguezes encontraram o inimigo ao cahir da tarde, quando já era para receiar que a obscuridade impedisse o combale ou desse salvamento aos leonezes; travou-se, porém, a peleja, avictoriadeclarou-se pelos protegidos de Nossa Senhora, e para que
fo-sse

offerecesse o sangue dos súbditos. Evitou cau-

telosamente desavír-se
reu,
a sua

com

Aflonso vin

;

recor-

como vimos,
amísade
;

a

um

pontífice para conservar

e por ultimo, para consolidar

como que impòl-a ao seu herdeiro, Affonso, casou-D em 1208 ou 1209 com Urraca, filha do monarcha de Castella e de I).
essa amísade e
D. l.«onor de Inglaterra, sua esposa. D'esta arte

completa e não faltasse aos ven-

cedores luz que lhes permitisse acertarem seus

soube

elle aproveitar

a divisão dos

estíidos

de

Historia de Portugal
Fernaiidi)
ii,

89
moderno

sem

u qu;il é possível i|ue livcsse

tinha apparelbada, para irem implantar o estandarte christão nas costas do
Alf;arve.

sido epiiemera a indepciuiencia do reino porlu-

guez, apezar do valor dos seus lialtitantes.

As esquadras reunidas surgiram de

feito

na enterra

seada de Lagos, a gente armada saltou

em

CAPITULO

II

atlugenlando a população da beira mar, e
lhes licasse à

como

mão

o castello de Alvor, os cru-

Guerra com os sarracenos

sados pozer.im-llie cerco e levaram-n'o á escala,

sendo meltiilos a ferro os seus habitantes, que

Em

quanto Portugal descançava das lides que de AlTonso
i,

dizem as clironícas serem mais de

seis mil.

illusirarain o reinado

o suecessiir do

Depois d esta façanha os navios dos cruzados

amir ferido de morte juncto de Santarém, Vaculi-

velejaram para o estreito e os porluguezes cor-

Abu Yusuf, apellidado Al-Manssor
(|ue liio

(o victoriosoi,

reram a costa, fazendo depredações, e vieram
colher-se no Tejo.

re-

segurava-se no tlirono, dehellando as sedições

disputavam. Submettida a Kirikia, aca-

tomada de Alvor Mzéra nascer o desejo de novas conquistas. O solo de
a

Mas

bou o momento de tranquilidade que o seu levantamento proporcionara á Ilespanha.
de
1

Al-faghar era

fértil e

eram opulentos
e

os seus baSilves
,

Em

setembro

bitimtes. Perto d'Alvôr ficava Chelb

ca-

188 Yacub entrou triumpbantemente

cm

beça do

território,

nos seus muros alterosos

Marrocos; na primavera de 1189 estava já no
Andalús,

cravaram-se as vistas cobiçosas dos christãos: a
conquista de Silves
foi

com

o pendão desfraldado e o exercito

decidida. Se

eram fracos
la
i'e-

em

armas. Tinha que vingar a morte do pae

os portuguezes para a tentarem sós, todos os dias

encaininbou-se, portanto, por terras portuguezas para Santarém, talando campos, saqueando

passavam por Portugal estrangeiros armados,
então caudalosa a torrente que

Homa

fizera

povoações abertas, accommettendocastellos; mas
retrocedeu rapidamente e sem deixar

bcntar do solo para alagar a Palestina, e era
dirigir

fácil

memoria

um

braço d'essa torrente para o chão ími

de

feito

de armas notável ou de importante con-

pio d'AI-faghar. Sancho

esperou,

jiois,

por

uma

ipiisla.

Acaso o chamaram a Africa novas revo-

nova armada de cruzados como qnem espera no auxilio da Providencia,
tando
e foi entretanto jun-

luções, que

esperavam triuinpho da sua ausência.
i

Esta algara estimulou os brios de Sancho

um

exercito e equipando navios,

com

a di-

para trocar golpe por golpe e continuar as conquistas sobre os sarracenos.

ligencia

que merecia uma empreza de que podia

Andava

elle

pla-

resultar a rápida sujeição de
teira.

uma
com

província in-

neiando eniranhar-sc com a espada na
província de Al-faghar,

mão na

Não

es]ierou debalde. Nos princípios de ju-

que se estendia para

lho dilatou-sc-lhe o coração

a noticia de

o sul de Belatha e Al-kassr, já avassalladas pela
cruz,

que tinham entrado no Tejo
cações

trinta e seis

embaral-

quando lhe veiu fa\orecer o plano

um

com

Ires mil e
e

quinhentos soldados,
fosse

acontecimento -similhante ao

(|ue habilitara Af-

lemães e inglezes,

comquanto não

demafeita

fnnso Henriques para accommetter Lisboa.

Roma

siado valioso este auxilio, decidiu aproveital-o, e

chamara os christãos á guerra contra os mussul-

para o aproveitar comprou-o pela promessa,

manos da Palestina, que na batalha de Tiberiade haviam captivado (!uido de Lusignan, rei de Jerusalém, e havido ás mãos a cruz do Salvador, e uma frota de cruzados, seguindo o rumo de outras

aos capitães estrangeiros, de lhes abandonar, a
elles e aos seus, o

saque da cidade. Depois deste

ajuste, a 16

de julho de 1189,

uma

esquadra de

setenta e quatro galés e navios de alto bordo, ac-

muitas que se refrescavam nos portos da

Península para continuarem a viagem, entrou no
rio

companhada por grande numero de setias, fez-se ao mar em demanda da bahia de Portimão, onde
fundeou quatro dias depois.

de Noya, aberto na

lialliza, e

depois no Tejo.

Trazia a seu bordo dez a doze mil frisões e di-

Pouco antes descera pelo Alemtejo e acampara
ao norte de Silves um exercito portuguez, capitaneado, no dizer dos chronistas, pelo conde Mendo

namarquezes, e Sancho, que os cobiçou para
auxiliares de

do
a

uma tentativa contra os sarracenos bom agasalho e determinou-os juntarem-se a uma esquadra portugueza, (jue
sul,

fez-lhes

Gonçalves de Sousa, mordômo-mór de Sancho
D'este exercito se

i.

approximou a

frota,

subindo

VOL. 1—12,

90
pelo
i'io

Historia de Portugal
(lo

Silves alé

onde lho

]ieiniilliram

;is

i^repararam-se enião para attacar a couraça, e

aguas, e

uma

vez

postas

em

(•omuiuiiicação

deu vigor aos trabalhos a presença de Sancho que
a "29 de julho

i,

todas as forças christãs traclou-se do invesli-

chegou com reforços ao
o

arraial

menlo da praea. Era

ella

das mais inexpugná-

portugúez. Seria prolixidade relatar as numerosas
tentativas feitas

veis de lodo o (iliarLe excedia Lisboa

em

fortaleza.

com minas

machinas para rom-

Compnulia-se da aimedina, coroada pela kassba,
e d'uni vasto arrabalde espraiado a seus pés, ua
plauieie cortada pelo rio.
I''ecliava

per a hnha de fortificações, que protegia os poços
indispensáveis ao abastecimento da povoação;

o arrabalile

depois de copioso derramamento de sangue, que

um

cerco de muralhas, guarnecidas de lon'es e

chegou a
elles

fazer

desmaiar oscercadores, lograram

contornadas por

um

largo fosso cheio d'agiui, e

peneirar na couraça,

em parte desmurouada,
Alcançada esta

estas forlitlcaçOes ligavam-se

comas da aimedina
i)or

e cortar a agua aos cercados.

pela couraça
rio Drade, e
]ior uíii.i

,

que descia a encosta para o lado do
quatro torres e

eram .defeud idas?

pé e intacta, soberba e provocadora, a enegrecida aimedina. \'oltaram-se
para
cila os

vantagem ainda

ficou de

estrada coberta, que terminava na torre

engenhos e as armas^ mas com pouco
edifícios

albarran, (M-guida na planura, llobriam-sc
estas

com
.os

exilo.

Duas minas abertas á sombra dos

moles de pedra vinte

a trinta mil san'ace-

do arrabalde foram inulilisadas pelos sari^acenos,

nos, governados por
historiadores

um

valoroso chefe, que

que incendiaram os madeiros empregados
suster as
terj';is.

em
uma

chamaram Aibaino

e que era tal-

Os allemães experimentaram ar(|ue

vez Abdullah ou Abu-.vbiinlhdi, e esta nunaerosa

rombar
tor]'(í

um

muro,

comniunicava com

população liuha-se pi-eveiiido
lidade

pai'a
luis

a

evíMUua-

da aimedina, mas foram descobertos

e

i'e-

(fum

sitio,

accumulando

maliuoras

pellidos.

N'um

assalto geral, tentado

no dia i8

grande copia de viveres;

faltava, ]iorém, airua
a

de agosto, os christãos chegaram a cegar o
fosso

na aimedina, cujos habitanles iam buscal-a

com

faxinas,

mas nunca poderam

aferrar

uns abundantes poços abertos no an^abalde
sitio

em

as ameias defendidas por leões; c depois erelle

protegido peJa couraça, e

foi

esta falta,
ella,

como

os portuguezes opimn-am pelo abandono da preza,

em-

veremos,, que per-deu- Silves.

Sem

o valor

em que

até alli se baldara o seu estre-

dos christãos teí-se-hia encarniçado baidada-

mado

esforço, inclinando-se o próprio

Sancho á

mente contra os
crescente,
íionçalve.s
f)erlo,

muros encimados pelo porque uão foi sem rasão que Mendo do Sousa, Le.ndo-os examinado de
rijos

opinião dos soldados.

Outra vez resistiram, porém, os cruzados, desejosos do saque, ao levantamento do cerco, e

os julgou invencíveis e aconselhou os cru-

proseguindo elle assentaram-se quatro trons, que
pelo lado do norte bateram as muralhas, e para

zados a desistirem d'assallal-os.
-

Não

acceitarani clles, todavia, o conselho do

augmentar o estrago abrirnm-se novas minas.
Mais do que as pancadas dos vaivéns e o trabalho dos gastadores apressava, porém, arniiia da

rbele portugúez, e uo dia il saltaram
e,

em

terra

atlacai'am os ari'abaldes, que na véspera á noite

se tinham illuminado festivamente

em

signal de

cidade a sede horrorosa, que lhe consummia os
defensores, lira
tal

destemor, n assalto

foi

iinpi-lnoso.

Transpostos os

a escassez d'agua (|ue não a

fossos, galgadas as nuu'alli;is, os sarracenos

que

havia sequer para cosinhar os viveres, aliás abundantes. Mastigava-se binro, mordia-se no feiro,

as gnaiMieciam |iozcram-se

em

fuga para a aline-

dinav^ai cujas porias nuiilus pereceram

esmagar
de sana ai-

para refi'c3car a bocca resequida. Da sede proce-

dosnotro|iel(puM|ueriafraní|ueal-a, e os christãos

diam enfermidades, que matavam os débeis
bilitavam os vigorosos. Silves era

e de-

pernoitaram emterraconi|uisladaa

pr<,'ço

um inferno de
sem

gue. >ia alvorada seguinte investiram

com

dores, de misérias, de desesperos, e todavia os
christãos não se acercavam das suas torres

medina mas não poderam eiUral-a, e como se não julgassem seguros no arrabalde, dominado
por torres d'onde choviam
frechas o virotes,
lentarcffl incendiaj'-

ouvirem
por

sibillar

um

virote,

não se entranhavam

uma

brecha sem se perderem n'unia selva

abandonaram-uo depois, de
le,

de lanças, não aprofundavam

uma mina seDi

ve-

Ihe osedilicios, e voltaram aaoamparfóra d'el-

rem

surdir do seio da terra os inimigos,

como
ga-j

mas

enisoslados aos seus

nmros

inutilisados.

vermes armados dé. ferrões venenosos. Nas

Historia de Portugal
lerias subterrâneas

91

encontravam-sn amiúde cerlii>;

dos seus mais valorosos capitães, talvez llodrigo Sanches.

cados

('

cercadores, e á

vermelha dos archotes que eram como

empenhavam estranhas
liatulhas dentro

pelejas,

Á tomada da

capital

de Al-faghar .seguiu-se a
visi-

de sepulturas, lima vez,

num

rendição das cidades e dos castellos da sua

d'esscs
fíuezes

meandros tenebrosos, toparam os portu-

nhança, que não esperaram poder

resistir ás ar-

com

os sarracenos,

que tinham vindo en-

mas que

a tinham vencido. Lagos, Monchique,

conlral-os por baixo da torra, e correu [lara elles,

Portimão, PadiMTie, .Messines, Albufeira, cahiram

como

pela golteira d'uin vuli-ão,

um jorro de Ibfío

em

poder de Sancho,

e

quando

este se retirou
rei
tri-

mallográra-se mais

uma

tentativa de entrada.

para o norte poude, sem vaidade, intitular-se

Uuanio sabia a

arte militar

do tempo, quanto pose;

do .Mgarve. A retirada leve logar no ultimo
mestre de
1

diam

o valor e a raiva, tudo

fez iio alla(]ue e

18'.),

e o exercito victorioso, pas-

na deleza. Us sarracenos
galeria

chegaram

a abrir

uma

sando pelo AlciiUejo, demorou-se alguns dias para
S(!

em

toda a extensão das muralhas e por

apoderar de

lieja,

que voltara amios antes a

lora dos seus alicerces, para cortarem ([uantas

ser possuída pelos sarracenos. Esta reconquista

minas se fizessem

;

mas

a

coragem

e perseve-

importava á segurança dos novos territórios, accrescidos ao dominio da coríU portugueza.

rança, que realisavam estas obras gigantes, hou-

veram

alinal

de ser vencidas, não pelos chrislãos,
sèdc inexorável, c Silves offereceu

A
rias

alegria causada por estas importantes victo-

nuis ]H)r

uma

do

filho

de Allbnso Henriques não tardou a
vanrei

capitular.

ser aguada pela immincncia d 'um grande perigo.

Sancho mosirou-se generoso n'osta conjuncfão
;

A perda de gi^ande parte do Al-faghar
de Castella reclamavam a presença

e as

não assim os cruzados. O

rei

portuguez quiz
di-

tagens alcançadas no Andalús pelas tropas do

conceder aos valentes moradores da cidade o
reito

em Hespanha
elTec-

de ahandonal-a levando todos os seus bons

de-Yacub, e o poderoso amir desembarcou
tivamente

moveis: os eslranpeii'os, porém, não renunciaram
ao que lhes havia sido promellido,

em

Tarifa
foi

na primavera de 1190.
recobrar a cidade de
;

nem mesmo

O seu primeiro plano
porém, não

Sil-

olTerecendo-lhes Sancho vinte mil morahitinos

ves, para a qual se dirigiu a toda a pressa

como,

em

resgate da promessa, e

foi

necessário condes3 de setembro o

conseguisse cntral-a no primeiro

cender com a sua avidez.

A

Ímpeto, porque a defenderam, além da guarnição,

chefe sarraceno sahiu da almedina, seguido por

cem cruzados
entrado
lui

inglezes que por lorluua ha-

grande

|)arte

da população valida: a

tui'ba des-

viam

sua

ria,

deixou-a

em

paz,

i-idreiada dos cruzados maltratou esta genle iner-

atravessou o Alemtejo, e internando-se na Estre-

me, e esteve a ponto de

vir ás

portuguezes, que quizeram defcndcl-a.

mãos com os A noite a

madura atlacou
vas,

e

tomou o
alii

casteilo

de Torres

No-^
foi
i'e-

que resistiu dez dias. De Torres Novas
lhe olVerecerani tenaz

mesma

soldadesca estrangeira occupou a cidade,

contra Thouíar, e

IVchou-se n'ella para a seu salvo roubar e devastar, e o espectáculo pavoroso dos soffrimenlos

sistencia os templários,

commandados por
(jue

(Jual-

dim Paes. DeThomar, oamir,

experimentara

dos habitantes, cadáveres

com movimento,

em

não impediu actos de repugnante selvageria. O sa-

cujo território se internái-a,

mais d'um recontro o valor dos inimigos em mandou propor pacondição de lhe ser restituída

que deu outra vez motivo a cncolerisar-se Sancho
contra os seus auxiliares, a
e ferozes, e então os

zes a Sancho, que a toda a pressa fortilicava

um

tempo desleaes

Santarém, sob

porluguezes apoderaram-se

Silves, restituindo elle Torres Novas. Sam-lio re-

de Silves, expulsaram os cruzados dei.xaudo-lhes,
todavia, os despojos que lhes pertenciam, e elles

cusou

a proposta.
,

Yacub ameaçou

cèrcal-o

em

Santarém

mas quando

esta cidade se aprestava

recolberam-se ás naus, mal contentes, efizeramse ao largo, para irem esp;dhar pela os portuguezes, não tendo combatido

para a defensiva e tinha já dentro dos muros

um

Europa que

troço de cruzados inglezes, dos que pouco antes se

nem

traba-

haviam alojado no Tejo fugindo
nu-nte levantado o sitio

a

um

temporal,

lhado no cerco, os tiidiam esbulhado do fruclo da
i'onquista. Partidos os estrangeiros,

soube-se que o chefe almohade havia repcntina-

Sancho pòz

deThomare

retrocedido

guarnição a Silves e eutregou-a ao

mando de

um

para Sevilha. (ibrigaram-n'o a este procedimento

92
inesperado,
si'f;uiido
(•

Historia de Portugal
l;ima, as febres profirius
llie atlai-a-

tado ao dominio mussulmaiio,

em

1197,

um

de certas regiões da Eslreinadura, que

bando d'allemaes attacou-a inesperadamente e
levou-a á escala vista,

ram
não

os soldados e de que porventura elie
ficou

mesmo
seguida

mas houve de abandonal-a

immuue.
1

por não ipierer ou não poder tomar po.sse d'ella

A

invasão Ião intructilera de
feliz,

190

foi

o rei

lie

Portugal. Este facto |)rova ([ue Vacub

por outra, mais
a render-se,

cm

Uill. Yacub pôz no-

não deixou tão

bem

guarnecidas as cidades, que

vamente cerco a Silves e d 'esta vez obrigou-a

reconquistou, que não podessem accommettel-as
os porluguezes para conservarem

sem que

se saiba circumstancias

aoseumonar-

do

facto.

Depois d'este triumpho o exercito do

cha o

titulo

de

rei

do Algarve.

amir e outro, commandado pelo kayid AbuAbdullah-lbn-Wasir, que operava de concerto

Depois de 1191 as lanças dos cavalleiros de

Sancho só se cruzaram em batalhas campaes

com
lejo,

elle,

subníetterani Ioda a provincia do Aiem-

com

as dos

mussulmanos além da
1195 AlTonso
viii

fronteira de

á e.Ncep(;ão dlivora, e avisinbaram-se de

Portugal.

Em

de Castella, que

Lisboa, assenboreando-se de Alcácer, Palmella
c

aproveitara a ausência do amir de Marrocos para

Almada, sem que o

rei

de Portugal ousasse

peneirar até Algeziras, viu-se

em

perigo de terrí-

sequer oppôr-se á sua marcha victoriosa. Dois
d'estes castellos, os de Palmella e

veis represálias e pediu soccorro aos príncipes

Almada,

fo-

christãosda Península. Deu-lh'o Sancho, mais ge-

ram abandonados, mas o de Alcácer, trario, foi fortificado como que para

pelo conservir de

neroso que os reis de Navarra e Leão, que só lh'o
pronietteram, e na batalha de Alarcos, ferida

em

posto avançado aos sarracenos. Todo o Algarve
ficou perdido para a coroa portugueza, e

agosto de 1195 e que deu mais

um

triumpho a
e

Yacub

Yacub, pelejaram tropas portuguezas

morre-

retirou-se para Audalús

com

a certeza de que

ram

dois dos seus mais illustres caudilhos, o

um
da

dos mais formidáveis adversários do seu

mestre da ordem de Galatrava e Rodrigo Sancho,
([ue fora alcaide

império e da sua
ferida,

só tarde se restabeleceria

de Silves. E não

foi, talvez,

que

elle lhe

rasgara no seio, e só tarde
devia ser.

este o

damno que adveiu

a Portugal

da lealdade

poderia vingal-a.

E assim

e o Alemlejo perdidos, quasi

O Algarve sem combate, di-

com que

auxiliou Castella, porque se diz que o

chefe almohade, para castigar o alliado do seu ini-

zem quanto
valia mais

o Portugal de Sancho i era ditferente

migo lhe metteu pela

fronteira dentro

um exercito

do Portugal de .\ffonso Henriques. Yacub não

numeroso, o qual, indo dar a Alcobaça, attacou

como

capitão do que seu pae; o po-

der dos almohades não crescera depois da morte
d'este príncipe; o território porluguez

como se fora uma fortaleza o mosteiro, onde os monges se defenderam como soldados, e fez outras

augmen-

atfronlas e depredações

que não tiveram
rei

tára

em

extensão e

em

população; e todavia o

desforra. Vau 119(5,

quando o

de Leão, para

filho d'aquellè Yusuf,

que se rompera d'enconlro

aos muros de Santarém, poude avançar das costas

do Algarve até às margens do Tejo sem en-

contrar, a descoberto dos castellos,

um cavalleiro

com os mussulmanos, novamente se encontraram com elles os portuguezes, auxiliares de Allbnso viu, mas no anno seguinte este monarcha fez pazes com Yaguerrear o de Castella, se alliou
cub, e n'essas pazes, (|ue duraram por muitos

(|ue Ibe fizesse rosto, e relirar-se lraii()uiilamenle

sem que

o inimigo lhe Ibsse nas [légadas tenlis-

annos,

foi

comprehendido Sancho
])ei'iodo

i,

o qual atra-

tando recuperar o que não podéra defendei',

vessou u ultimo

do seu reinado livre dos

tavam esmorecidos os brios dos funiladores da
monarcbia,
e tanto

cuidados da guerra que tanto Ibe pesavam, sem

estavam que nãobouve

feilo

nada tentar para recobrar
dida

a parte

do paiz per-

d'armas no reinado de Sancho para que não concorressem milícias estrangeiras. Os cruzados entraram em Alvor, os cruzados susleiílaram o
cerco de Silves,
os cruzados acudiram a esta

em

1191 e sem

ter

que defender de sarra-

cenos o senhorio restante.

Para

esta tranijuillidaile desejada concorre-

ram

successos, que pertencem á historia do im-

cidade na [irimeira invasão dos almohades, os

pério almohade. Vacub Abu-Yusuf lAl-.Manssori
falleceu em 1199, e succedeu-lhe seu filho

cruzados soccorreram Santarém ameaçada, e poucos annos depois da capital de Al-faghar ter vol-

med En Nacer ou

Annasir, não

Mohamsem opposição de

Historia de Portugal
uma
(lo

93

parte dosalmohadcs, porque o primuiro acto
foi

tugal esteve deliberado a passar á Terra Santa, e tão

sou governo

foiulialcr a revoltadas trilms

deliberado que,

considerando nos peridilatada e de

de (jLoiuera.

Snlinietliilas estas, o
ihir

novo

aniir-al-

gos morlaes de

uma viagem

uma

iMumenin

iiitcniou

uni

golpe mortal nos

campanha
coroa.
(Is

contra os aguerridos exércitos do Sa-

almoravides, que se haviam enlrinclieirado nas
Baleares
Africa,
v,

ladíno, fez testamento para prover á successão da

d'es(as

ilhas

iam passando

|)ara

a

seus súbditos, porém, e nomeadamente

mas os

Ihn-tianyyiulis, seus chefes, oppo-

as ordens do

Templo

e do Hospital, contrariaram-

zeram-lhe tenaz resislencia, e empeidiou-se cnláo

Ihe o desígnio, que custa a crer que fosse voluntário,

uma

puerra saníruinolenia, que termÍMou

com

representando-lhe os males (|ue podiam advir
e

o desharalo dos almoravides. Annasir empregou

da sua ausência
ria ao reino,

da ausência da llórda cavalla-

nella todas as foryas do seu império c todas as
faculdailes
ili'Si)anlia

do seu

espirito, c

deixou portanto

a

sempre ameaçado por christãos rivaes e sarracenos inimigos a contrariedade deu
:

chrislã no repouso de

que precisava

azo a desavenças e

foi

castigada com severidade

;

jiarase refazer das perdas niateriaos elevantar-se

do abatimento moral, consequência das derrotas
successivas (|ne solTrèra, medindo- se

com Yacub.

Sancho desistiu de se cruzar, e conta a tradição que pediu muitas desculpas ao papa de não acceder ao seu convite ou obedecer á sua

mas

afinal

dom

a morte d 'este príncipe conie(;ára a offus-

ordem, expondo-lhe as circumstancias que

tor-

car-se a estrella dos almohades, de funesto iniluxo

navam

necessária a sua presença

em PortugaLÉ
com o papa modo

para os reinos christãos.

provável que a tradição seja verídica, que o rei
procedesse, n"esta conjuncção, para

CAPITULO
Relações de Sancho
I

III

como um respeitoso súbdito, porque
procedeu posteriormente,
e
III

d'egual

parece que Clemente

com a Santa Sé

ficou satisfeito

com

a sua docilidade, porque a

cúria

Affonso Henriques fizera homenafiem do reino
a S.

ções

Pedro e prometlèra jiagar
(Js

um

tributo anii

romana conservou as mais amigáveis relacom elle. Prova d'este bom accordo é a confirmação do
de
rei,

imal á thiara pontifícia.
e

successores de Lúcio

titulo

concedido

em 1190

a Sancho,

que

Alexandre

iii

não eram homens que se es-

a impetrara de Clemente, e é possível que só o

quecessem

d'esta promessa,

ou abdicassem a su-

desejo de a alcançar movesse o monarcha portu-

zerania i[ue lhes fora es|ionteaniente reconhecida.

guez a mostrar-se condescendente com o papado

(Consideraram o herdeiro de AlTonso
vassallo ou feudatario, e, portanto,

como

um
Cle-

na questão da cruzada. Dão força a estas conjecturas os seus actos posteriores. Celestino
iii

quando

mente
tãos a

III,

em

1187, exhorlou os príncipes chris-

tomarem a cruz e a empunharem as armas para vingarem a derrota de Tiberiade, cm que
Sancho
i

não encontrou n 'elle a humildade e obediência que lísongearam o seu autecessor, e negou-lhe por
isso a benevolência

que lhe prodigalisára Cleix, ([ue

fora aprisionado o rei de Jerusalém,

re-

mente
rei

:

demonstra-o o rigor com que exigiu do
repudiasse a infanta

cebeu convite instaute, senão ordem expressa,
para
ir

de Leão, Aflbnso

combater na

{'aleslina os sarracenos,

que

D. Thereza. A disciplina ecclesiastica não era tão

linha ás [lorlas dos seus estados. Só a instancia,

severa (|ue não transigisse
c

com
é

as conveniências

só a inliinaçjào pofle

explicar o |)roposito

amizades

politicas, e

não

de ciTr que o papa

de

um

seiro,

monarcha tão pouco bellicoso e tão cacomo era Sancho, de abandonar o Ihrono e
de interromjier tarefas que tomara a
ir

sentenciasse a filha

de Sancho à desgraça do
]iae,

repudio se estimasse o

que levou muito a

a pátria,
peito,
|ielo

para

como

simi>lcs cavalleiro |)elejar

mid a sentença, t.elesiínofoí, porém, inexorável. Vendo que o genro e o sogro lhe resistiam, ex-

resgate do Sanio Sepulchro,
religião,

monumento de
ter

commungou ambos.

Perseguiu D. Thereza até

uma

que parece nunca lhe

dominado

revoltar contra ella as consciências ignaras dos

o espirito a ponto de apagar n'elle a noção do interesse.

leonezes. L todo este extremo rigor não deve ler
sido determinado unicamente pelo zelo catholico

O fado

é, todavia,

que

em

1188 o

rei

de Por-

nem

pelas suggestões, suppostas,

do

rei

de Cas-

94
tella,

Historia de Portugal
não sendo para estranhar-se que concorexhortou o
;

rei a

desempenhar-se da obrigação
ao legado

resse para elle o ressentimento do pontífice, que

contrahida e ao

mesmo tempo ordenou

quizera cobrar,
estava

mas debalde, ocensoannual que

que tomasse conta da demanda, e que para fazer
respeitar o direito de S. Pedro usasse, sendo necessário, dos raios apostólicos.

em

divida a S. Pedro desde os tempos de

Aflbnso Henriques.

O repudio de
mente Sauclio
sas
I

D. Tbereza malquistou grave-

Sancho não teve que replicar a
minante
e

este carta ter-

com

a Santa Sé, e todavia as coill',!G

mandou

logo pagar, por intermédio do

mudaram quando em

o rei de Leão se

mestre do Hospital, o censo atrazado, mas na
razão de quatro ouças por anuo, e declarou que

uniuaYacub em ódio aos príncipes cln-istãos, que se baviam unido contra elle. (ielestino nicondemnou com a maior severidade este abominável
connubio, e como precisava do braço secular para

no tocante ao augmento, que se
a Alexandre

dizia promettido

m, entregava

o negocio ao (>xame e

á consciência do pontífice. Esperou, talvez, que

dar sancç.ão ás censuras apostólicas, chamou a
o rei portuguez, c por

si

não houvesse documento do
rcmettêra os mil áureos e
car

direito de

Roma.
Affonso
fi-

uma

bulia especial couce-

Havia-o, porém. Havia a carta,

com que

deu-lhe que incorporasse ao seu reino lodo o território

em que

promettéra

excommungado, que podcssc

conf|uistar,

pagando os dois marcos,

e essa carta foi en-

c fez-lhe muitas outras graças, vantajosas para u

viada por copia ao rei de Portugal, que se viu
constrangido a calar-se e a remetter a Innocencio o resto

alma. Sancbo não rejeitou o cargo de lictor da

Santa Sé, visto ser

bem
:

pago, e reinou então a

da quantia, que

elle

lhe exigira.

O

melhor harmonia entre o pastor e a ovelha, o
suzerano e o sulidito

papa,

em

troca,

expediu

nem assim,
rei

todavia, se re-

firmava a protecção

uma bulia em que conde. Deus- edô seu vigário aos
-'•
>

signou a avareza do

de Portugal a pagar o

portuguezes e ao seu monarcha, e a contcndater-

censo que Celestino reclamava.

minou, para não mais se renovar.
1198, c Sancho
ção de Portugal perante
seguinte

A harmonia durou ainda nos primeiros tempos de Innocencioiíi, eleito

Esta bulia, interessante porque define a posia

cm

Santa Sé, é do Iheor

aproveitou-se d'ella quando julgou perigosa para

a sua segurança a alliança politica e de familia dos reis de Leão c Caslella. Mandou
a

um

enviado

«Innoceiício, bispo, servo dos servos de Deus.

Roma

pedir ao papa que obstasse a que Af-

Ao caríssimo em
rei

(Ibristo tillioD.

Sancho, illustre

lbnso vni ajudasse contra elle o rei leonez, ehi-

de Portugal, saúde e benção apostólica. Tendo

nocencio ordenou ao legado Hayucrio
lhasse n'este sentido, o que idle
exilo.
tuito.
l'ez

ipie traba-

a nosso cargo o cuidado e vigia da Sé Apostólica,

com bum

assim nos convém ap]dicar a vista da consideração a todos

Mas este serviço impoi'tanle não fui graVendo Sancho depender d'elle por graves
renovou as diligencias de
tlc-

em

geral e a cada
jiara

um em

particular

de nossos súbditos,

que não liquem defrau-

interesses, o papa

dados da benignidade apostólica visinhos
remotos
e
d'ella,

nem

leslino ni para lhe arrancar a
tos

somma

dos tribu-

merecendo todos sua protecção

atrazados.

Esse tributo devia ser de dois

devendo

ella acudir-lhes

marcos douro,

em

virtude do ajuste feito

com

em

particular a

Mexandre
titulo real:

ni,

de que resultou a confirmação do
se pactuara
ã

entre os outros

com todo o affecto, quem a cgreja romana príncipes do mundo reconhece
vós,

a

Sancho, porém, pretendia que fosse

particulares obrigações de

amor

e benevolência,

somente de quatro onças, como
Lúcio
11,

com

por vos haverdes mostrado, assim vós

como vossatisfa-

e accrescenlava

que nada devia

Santa

sos antepassados, fieis e devotos a suas cousas.

Sé, porque seu pae pagara por

uma

vez o censo

E assim sabei que tanto com maior gosto
lemos
ridade
reino,

de dez annos. iXão se conformou com esta pretenção huiocencio
lii.

zemos a vossas petições cora os poderes que

Em

carta

deíi de

abril de

em
lie

o Senhor, quanto
allVição vos
tributários,
llliristo

1198 cortou
ipie os mil

a

evasiva a Sancho, dizendo-llie
i

com a maior sinceamamos a vós e a vosso

áureos dados por AlTonso

tinham sido

como

emfim, da egreja romana.

ollerta generosa, estranha ao

censo; insistiu

em

Pelo que
a

em

caríssimo, condescendendo

que

este era

de dois marcos de ouro annuaes;

vossa justa petição

com

grato consentimento.

Historia de Portugal
rcctilicinoii

95
IV

sob u proluc-yão do Ijcinaveiilurado
c a

CAPITULO

S.

J'(;ilro

nossa a vos v a vosso

n;iiio (Ic

Portugal, cora tudo o que de jircseule possuis c
lie

Discórdias com o clero
.\

futuro poderdes,
. .

com

o favor divino, alcançar
cgreja nacional alargára-se

iicilunientc.
Irez das

S. João de Latrão aos nonas de dezembro do primeiro anno
>i

Dada cm

com

as viclorías

e opnli'ntara-se

com

a munificente piedade dos

do uosso poutificado.

monarchas. Itraga era a mais antiga sé fundada

em
E.sle

território portugalense, e diz-se

([uecmloda
das Hes-

resiunido (piadro das i-claçõcs de Sanclin

i

a 1'ciiiiisula, porque se faz remontar a sua fun-

com

a cui'tc

de lloma denota que se o monarclia

dação ao tempo de S.
paiilias, c

'rhiafjo, apostolo

jiorluguez,

como

lodos os priucipcs christãos,
('^''ejii

assevcra-se ter sido seu [)rimeiro pre-

respeitava e temia o clieie da
llic

cdesejava-

lado S.
si'US

l'i'ilro

de

líates

:

craijui

a prctenção

dos

a

gi'a<;a,

quando se

cria oITendido

ou lesado

arcebispos ãprimacia. Durante n dominação

por

eile

nos amores de familia ou nas coiivcnien-

árabe a sé liraccarense decabiu do esplendor e da
aucloridaile, a rpic lhe
tólica,

cias |ioliticas

não duvidava

airronlar-llie a i-oIcim,

dava direito a origem apos-

que roLcnIava
Isio si^'uili<a

em

admo('sta(;ões e iiUerdiclos.
(pic |iie-

a sua calhedral arruinou-so

com

as tem-

que era mais calculista do

])i'Stades

do céu

e os

marulhos dos homens, e

doso, e (|ue eoasidei'ava o vigário de (ilirisb)como

esteve subordinada
liarcia de.

ã de Compostella até que
jíi

um

|ioleiUadu temporal. Para

com o

clero píjrlu-

Leão lhe acudiu á viuvez, estando
certo Pedro, que depois Lhe cahiu

guey.,

que so

linlia

a coroa ([ue recorda a de espi-

a cidade libertada do jugo infiel. Deu-lhe por
bisjio

uUos, era elle duro e resistente,

como Ibcindiam
ma-

um

em

a Índole c o desejo de fortalecei' o podei- real. .\c-

desagrado e houve de rccolher-se a ura mosteiro,
e

cusaram-n'o mesmo, a[iesar
iiifoslou

ilo

[iroposito ([UC

morrendo

este ccclesiastico

em 1096 succedeuestrangeiro, Ge-

de se cruzar, apesar do censo que pasou
ser Ião hostil aos ministros

Ibc na dignidade prclalicia raldo,

um

á Sé Apostólica, de dar cscaudalosos exemplos

que a cgreja canonisou,' c de que ha
capital

de irreligião e

rle

memoria venerada na velha
Ijeraldo enipeiihou-se
tra as preroirativas

dos suevos.

de Deus, que se comprazia
balxal-os

em

insultal-os e rc-

em

rehavcr para a sua mifoi a

com

palavras e acções.

Em

voz de

que lhe pertenciam,

Ro-

pedir inspirações ao céu ou aos definidores privi-

ma

pedir ao papa que a isentasse da sujeição a

legiados da
qui!

venlade e da justiça, era notório

tlompostella e a reconhecesse

como

metropolita

se aconselhava

tude, que o

com uma mulher de virembaía com suppostos sortilégios,

de Portugal,

e o

pedido

foi

deferido. .\s suas vir-

tudes deram, poi-ém, ã sua auctoridade ainda

pelos quaes era preceito ter aquelle santo horror,

mais prestigio do que as concessões
(ieraldo

pontificías.

que acccndia fogueiras para patíbulo de bruEstes peccados

ganhou fama de santo,

e

morrendo no
pregava na

xas.

tinham gravidade,
a contumácia,

sem

anno de 1109, na occasião
operou

em que

duvida; mas o que parecia á ordiMU ecclesiastica
culpa

província de Traz-os-Montes, conta-se que o céu

sem remissão era

com que
al-

um

milagre para dar testemunho da sua

Sancho contrariava as suas tentativas para
cançar dcatro do estado
dente do poder
civil,

santidade, porque as aguas do

Tâmega pararam
li'

uma

posição indepen-

para dar passagem enxuta aos devotos, quecoa-

furtatido-se aos encargos

duziam o seu cadáver. O sucessor
guiu o
trilho,

da guerra, cximindo-se á alçada dos trihunaes

d'estc piedoso varão não lhe se-

communs, dcsobrigando-se do pagamento dos
tributos

mas affamou-se, em

Portugal e na

que mais oneravam o povo,

e, final-

mente, repeUindo a intervenção do
quanto a
e

rei

no go-

Europa, pelas aventuras da sua desmedida ambição. Foi Maurício, chamado líurdino, que pastoreiou

verno da cgreja nacional. E esta culpa
culpa,

nós — teve-u

— honrosa

em Coimbra antes de seutar-sena cadeira
Geraldo.

realmente San-

de

S.

Este temerário encontrou nas

cho

I,

expiou-a

com

as contendas, que lhe
espirito nos ulti-

luctas do

papado cí)m o império occasião para

amarguraram e inquietaram o

achegar aos homhros, embora usurpadamente, a

mosauuos de

vida.

purpura

poatiíical.

Tinha ido a

Roma

sollicilar

9e
de Paschoal
ii

Historia de Portugal
a tliocese ile Toledo, apesar

de

vi-

com tudo que

lhe pertence, e o castello

chamado

como o papa cobiçosa, inimizou-se com preteução repellisse a Esta inimizade recommenprofundamente. elle
ver ainda o prelado toledano,
e

Gennello, o qual primeiro lhe havia dado minha

irmã a rainha D. Urraca, e com todas as herdades reaes comprehendidas no

mesmo

couto. As-

dou-o ao valimento do imperador d'Ailemanlia,

sim que dou e concedo com firmeza perpetua as
sobreditas herdades ou pesqueiras a Santa Maria

Henrique

v.

E quando o successor de Paschoal,

Gelasio, se pôz

em

guerra aberta com Henrique,
elle as

da sé do Porto e a D. Hugo, bispo da
firmíssimo couto.

mesma

fulminando contra

censuras apostólicas,

egreja, e a todos os seus successores, e lhes faço
. .

o monarcha irritado apoderou-se de

Homa

á força

»

A

esta doação, que devia

d'armas, obrigou Gelasio a fugir para (iaeta, e

ser motivo de sanguinolentas discórdias dos bis-

querendo

ter pontifice

da sua escolha e da sua

pos do Porto

com

os

homens do burgo,

accres-

obediência, promoveu irregularmente a esta su-

centou D. Thereza novas mercês, e a sé
depois de restaurada,

foi,

logo

premacia o irrequieto Maurício. Papa

e anti-papa

uma

das mais ricas e po-

combateram-se durante algum tempo a excom-

derosas de Portugal.

munhOes, mas faltando a Maurício a protecção
secular de Henrique v, o successor de Gelasio, Calixto, voltou

As outras dioceses foram restabelecidas logo
depois de resgatadas do poder dos mouros as

triumphantemente a Roma, prendeu

cidades

em que tinham

a sede.

Tomada Lisboa

o seu adversário, e enclausurou-o

n'um mosteiro
déi-a

em

1147 deu-se-llie por bispo

um

inglez, Gil-

de França, para meditar no escândalo que
influencia de que elle gosou

lierlo,

que como vimos prestou relevantes serde

á christandade. O pontificado de Burdino, ou a

viços, alliciando estrangeiros para o exercito

em Roma

antes da
a sua

Afíbnso, e ajjenas eleito o prelado o rei entre-

usurpação, não

foi

todavia infructifera

])íU"ã

gou-lhe o templo de Nossa Seidiora dos Martyres,
fundailo pelos cruzados, e procedeu-se á edifica-

antiga diocese, porque Braga ficou isenta da de-

pendência da sé de Toledo,
les

e ficaram depeinleii-

ção

(la

egreja de Santa .Maria Maior, que não era,
tradição, mesquita árabe. As

da sua mitra Iodas as outras de Portugal.
d'estas, a

como assevera uma
antigas dioceses de
pastores,

Uma

mais antiga depois da bracca-

Lamego

e Vizeu,

não tendo

rense, era a de Coimbra. ABbnso vi pozéra-a na

haviam

sido com])rehendidas na de

cabeça de Patrino, que fora prelado de Tortosa,
e este deixou-a

Coimbra; mas a este estado de cousas reluctavain os povos, desejosos de independência ecclesiastica
local,

em 1087

ao bisjío Martinho, que

em 1092
do Porto

foi

substituído por Cresconio.

A diocese

e

o

de Vizeu tumultuou-se no

foi

restaurada

em tempo

de D. Thereza,

tempo de D. Thereza contra o bispo conimbricense, e unindo-se ao clero elegeu para seu pre-

sendo entregue o seu governo a outro estrangeiro, Hugo, porque parece terem faltado enlão
ecclesiasticos

lado Udorio. que o não

foi

por muito tempo. A sé

portuguezes

com

luzes

e

virtu-

de Coimbra protestou contra a eleição tumultuaria, o

des para herdarem dos apóstolos. Hugo cingiu

papa não quiz confirmal-a, a rainha inter-

a mitra

em

1114, e

em 1120

fez-lhe a rainha

feriu talvez

com

as

armas para

refreiar a audácia

doação do burgo do Porto, já importanKí, por
carta

dos vizienses, e afinal chegou-se a
data
pela

uma

concor-

que se conserva no
e que diz assim:
filha

ai-chivo

da Torre do

qual Odorio e os seus eleitores se

Tombo

Eu, a Raiidia D.

submetteram á legitima auctoridade ecclesiastica, (]ue

Thereza,

do glorioso imperador,

em

louvor

estendia sobre elles o báculo desde as

e gloria de Nosso Senhor Jesus Chrislo e por

amor da Beatíssima Virgem Maria, para remissão
dos meus peccados e redempção da minha alma
e de

margens do Mondego. Posteriormente, porem, a pretenção do clero e povo de Vizeu, tida por
sediciosa, pareceu justa e digna de ser attendi-

meus

pães, faço testamento e carta de doa-

da, e depois de

1

143,

em anuo
e

incerto, a diocese

ção pela firmeza d'esta escriptura á sé do Porto

teve chefe independente,

este foi o

mesmo

de todo aquelle burgo, sem que haja
herdeiro,
visinhos, e
della, e

n'elle outro

Odorio, que já

uma

vez vestira, ainda que usur-

com todas as suas rendas e logares com a egreja de S. Pedro de RedonBasto, e o castello chamado de Lueda

pando-as, as vestes episcopaes.
cessão se fez a

Lamego

pelo

A mesma conmesmo tempo, e o

seu prelado, apresentado por Affonso Henriques,

Historia de Portugal
cliamou-sc,

97

Mendo.

E

finaliiicnic

Kvura,
p()r(|U('

i|Qe

todo o poderio, e auxiliava a sua andoridade espiritual

nunca deixara de

ter o

seu bispo,

lho

com

os privilégios que desfructava e a
qui; possuía

lonseiitiani os árabes tolerantes, foi reconhecida

força material
cular.

como potestade

se-

como cabeia
poude dar
capliveiro.

il

unia divisão lícclesiastica, ipiando

recobrada pelos cliristãos, e o seu prelado, Sueiro,
grat-as ao

(Juando Sancho

i

subiu ao tlirono regia a dio-

Senhor que o livrara do
é iiiipossi-

cese de Braga o arcebispo fiodinho, e

ado

Porto

o bispo Martinho; ouiro Martinho pastoreava
(ioimbra, ouIro (jodinho

Todas estas dioceses, cujos limites
vel

trayar hoje,

e entre as

quaes primava a de

Viseu, Paio

em

Kvora e

em em Lamego, .loão em Sueiro em Lisboa. Dois
[irelado

jiraga,

como

nietro|iolilana,

tinham sido muito

ainios de|iois,

morrendo o
foi

de liraga, pas-

cedo objecto da protci^jâo zelosa e dadivosa dos
móiiarchas. I'ara que se faça idéa da importância

sou para esta sé o do Porto, e na dignidade de
bispo portuense
investido Martinho liodriguos,
I''oi

das

nn,'rc(*s qu(! elles IIkís lizerani,

basta mencio-

tbesoureiro da calhedral.

este o primeiro
créi'

nar as seguintes doações do conde Ilenricine, de
1).

campeão

(|ue invesliu

com

a realeza, e é de

Thereza e de seu

lilho

:

á sé de Braga, o couto
i

que fosse dos mais descontentes com a opposição
de Sancho ás ambições clericaes. Entre
cabido da sua sé suscitou-se
elle e

de S. iMamede,
dl'

em Panoias

Villa Realj

,

de Moura,

o

FalOes e de Uegallados, egreja de S. António e

uma desintelligcncia
;

outras, e as herdades de
quí! insullára

um

certo l'edro Osores,
;

por causa da distribuição das rendas da diocese,
parte das quaes

o arcebispo Maurício

á sé do l'orlo,
faz

pertencia aos cónegos

estes

além do burgo, das egrejas e castellos de que

pediram ao

rei

que os protegesse, o

rei decla-

menção

a carta que Iranscrevemos, os coutos da

rou-se por elles contra o bispo, e d'esta questão

llegoa e de S. Pedro de Cova, as egrejas da lle-

de diidieiro veio a resultar
vel

um

conllicto deploráa

goa e de Mainede, os mosteiros de santa Maria
de Crestume e de liouças, e parle das aguas do

(Tauctoridades.

Em

1200

demanda com o

cabido terminou por yi'bitragem do metropolita

Douro com os direitos de pesca correspondentes
(!

de

lii'aga,

posteriormente confirmada pelo papa
ih,

á sé de Coimbra, as villas de Coja e Arganil,

hmocencio
cia d'ella,

mas tendo

ficado,

em

consequên-

pelo que os seus bispos

usam

o titulo de ronde,

|irofundamente inimisados o soberbo
i,

a
S.

villa

de Lourosa, as egrejas de Santa Comba,

Martinho llodrigues e o fogoso Sancho

ambos

João de Axas, Oliveira, Ourelos, Parada, parte

acharam motivos, que a
príncipe na guerra

historia desconhece,

da de Miranda, e o mosteiro de Lorvão, com suas
dependências.

para se guerrearem abertamente, e entrando o

Com

tão vastos bens territoriaes

com

a força material, de que
foi

os bispos lornarain-se poderosos senhores tem-

dispunha, o ecclesiastico

compellido a fugir

poraes,

sem contar que ainda

lh'os accrcscenta-

do Porto, deixando os bens confiscados e o irmão

ram

as dadivas e os legados incessantes da piedade

num

cárcere.

Nao era

elle sujeito

que desani-

dos particulares, que

em tempo

d'ignorancia fa-

masse com

uma
;

derrota. Recorreu para o papa,

cilmente acredita que agrada ao ccu enriquecendo
os seus ministros. E se addicionarniosás proprie-

expondo-lhe os aggravos que recebera e pedindo-lhe desforra
o papa encarregou o bispo de

des das mitras as que logo nos primeiros tempos

Zamora, o deão d'esta sé e o de Leão de exami-

da monarchia foram cedidas, pordiversostitulos,
a cabidos,

narem o negocio
foi

e decidirem n'elle

;

a decisão
tinha

mosteiros, albergarias, egrejas, e a

favorável a Martinho Rodrigues, e

como

toda a sorte de estabelecimentos religiosos e cor-

a sancção poderosa do servo dos servos de Deus, o rei acceitou-a, repôz o prelado na diocese, restituiu-lhe os haveres, soltou-lhe o irmão,

porações ecclesiasticas, comprehenderemoscomo
foi

que a egreja nacional, poucos annos depois
tri-

indem-

de libertada pela espada dos monarchas das

nisou-o materialmente dos prejuízos soffridos, e
coin esta humilhação julgou talvez ter poupado

bulações e misérias, que padecia vivendo da tolerância, às vezes desmentida dos sarracenos, se

ao reino as graves perturbações, que procederiam

ergiH'U altiva pari afTrontar o estado, niedindo-se

de
cio

uma
III.

lucta ao transe

com

o inflexivellnnocen-

o clero

com

a realeza

como potencia com potencia.
na
terra, então alicerce de

Tinha firmissimo

aiioio

Enganou-se,

todavia, n'eRto juizo.

Martinho

voL. i~i;i.

98

Historia de Portugal
eloquência instinctiva, que sabe resumir o sentir
e o querer das multidões, é o pregão das revoltas e o clarim dos

Rodrigues, tendo ficado vencedor na primeira batallia,

procurou ensejo de batalhar novamente.

OlVcreceu-Uio o casamento do principe AtTonso

combales

:

João Alvo se cha-

com

a filha do rei de Castella. Os nubentes

eram

mava um

d'estes heroes da arruara, e o outro

em grau remoto, e por isso o seu enlace uma lei ecclesiastica essa lei andava, porém, já desacreditada e em vésperas de soIlVer
jirimos

recebeu a alcunha de Fcudo-Tirou. Ilom esles
caudilhos á frente, armados

transgredia

;

com

a

sua cólera,

que dava tempera d'aço

á

despolida e extrava-

profunda reforma, e por isso os prelados porlu-

gante ferramenta das sedições, os villãos arrc-

guezes e castelhanos não julgaram dever pugnar
por ella contra os desejos e as conveniências dos

metteram contra os homens de guerra do bispo,
conquistaram e arrasaram as casas dos seusparciaes,

seus soberanos. Mas o bispo portuense não teve
esta condescendência.

assaltaram o paço episcopal e converte-

Negou-se a intervir na cefoi

ram-n'o

em

cárcere. Martinho Rodrigues lançou

lebração do matrimonio, para que
c,

convidado,

mão

das armas espiriluaes,

mas

os burguezes,

não se comentando com esta olTensa, recusou receber o herdeiro da corôae sua esposa, quando;

verdadeiros precursores, a cinco séculos de distancia,

dos discípulos de Voltaire e da Encyclo-

passaram pelo Porlo,

com

o que se encolerisou
injurias.

pedia,

a|uiparam os pregoeiros solemnes dos

Sancho
.\

i,

pouco inclinado ao perdão das
foi,

anathemas. Como se haviam insurgido contra o
senhor, insurgiram-se contra o prelado. O seu

guerra

pois,

novamente declarada, apro-

veitando os inimigos os pretextos (|ue se lhes depai-avam para as hostilidades, o cabido achou-se
outra vez envolvido

rude

bom

senso não acreditou que S. Pedro

fe-

chasse as portas do céu por intimação de Martitinho.

em demandas,

e

no complipara o
á

Entenderam que podiam viver bem com

cado pleito de interesses e de paixões tomaram
parte, logo depois, os burguezes do
I'oi-to,

Deus, apesar de viverem mal com o bispo. Se
lhes fechavam as egrejas,
dicto, raettiam-lhes

em

resultado do inter-

aggravarem

e

fazel-o

degenerar

em combate

mão armada.
Se Martinho Rodrigues era insoflVidoda aucloridade real, fazia pesar insupportavelmente a sua

cerdotes se

hombros ás portas. Se os sarecusavam a celebrar oíBcios divinos,

lovavam-n'os de rastos para os altares. Era defeso
enterrar os cadáveres
no's aos hombros,

em

sagrado?

Tomavam-

auctoridade sobre os portuenses, e queria estendel-a para além dos seus justos limites. Os

moradireita

dores do burgo, que se elevara na

margem
forat,

do Douro, tinham desde IJ 23 o seu
dera o bispo Hugo,

que lhes

mas apesar

d 'isso o ambi-

arrombavam as necropoles, e lá os depositavam, zombando da defeza e da auctoridade de quem a dictára. Os excommungados eram os mimosos da populaça, sob cuja protecção violenta tomavam parte nos actos religiosos,

cioso Martinho pretendia que elles se reconheces-

como

se não estivesse na alçada do prelado ou

sem

seus súbditos,

com

o fundamento de que

poiítiricc

privar da graça de calholico

quem

o

haviam renunciado
prelado.

ás regalias do foral por terem

era por confissão e profissão.

E com

tal

firmeza

alguns d'elles acceitado cargos dependentes do
X'esta desintelligencia estava a justiça
e

se liouveram os revolucionários durante cinco

da parte dos burguezes,

como

estes vissem

que

mezes de porfia que Martinho Rodrigues julgou-se feliz podendo fugir da clausura, em que o haviam
,

lambem
o bispo,
lhes

estava por elles a força, pois que lh'a

])Osto,

enfermo, andrajoso, consummidopelo sofir

prestaria Sancho, inimisado profundamente

com

frimento e pelo desespero, para

a

Roma

cho-

romperam abertamente com este. Não faltou o rei com o apoio em que tinham posto
foi

rar a sua miséria e vomitar o seu ódio aos pés

de Innocencio

ni.

a confiança, quasi se constituiu seu chefe, e o
Porlo
theatro de

Em
va-se

quanto o bispo do Porlo andava nas deli-

uma

d 'essas luctas,

em que

gencias de

mover o

pontifico a vingal-o, suscila-

a burguezia da edade media se ensaiava para a

em

Portugal nova discórdia do rei

com
tra-

magnifica tragedia, que só veio a ser representada

outro prelado. O bispo de (Coimbra, Pedro, andava

no
'fes

linal

do século xvni. Os populares acharam che-

de rixa velha com Sancho,

e

quando o viu

no seu marulho, e reconheceram-n'os pela aue,

vado com Martinho Rodrigues desejou também
para
si

dácia no acconnuelter

porventura, por aquella

a honra e a gloria de ser campeão da or-

Historia de Portugal
(Icin
(.(clcsiasticii,

99
.\ccresçentava que se

(jue

manifesta ou dissimula-

rias

do

(jue

prufei'il-as.

ilaiiKMite

esposara a causa do [jirlado [lorlucnsc,
rei.

reduzia os bens temporaes do clero, fazia-o por

e se

comprazia era crear dilUcuklades ao
i>iu

Na

necessidade de reprimir o luxo e a soberba dos
hypocritas; observava que os prelados procediam como inimigos do reino e da realeza, des-

occasião

que

elle

andava mais

irritado

como
allas-

procedimento de Martinlio, intimou-o para
tar

de

si

a feiticeira, que costumava consultar c

agradecendo

a

liberalidade que os dotara
;

com

com escândalo

não sendo obedecido deixou de frequentar o paço puidico. Não era necessário mais

pingues rendimentos

não negava que preferia,

a locupletal-os, premiar os

bons servidores do
;

para determinar

uma

explosão. Sancho protestou
hostili-

estado, (jue padeciam muitas misérias

e con-

castigar o temerário, e para romper as

dimentava estas e outras duras verdades com
expressões, que pareceram tão abomináveis a hi-

dades

exigiu-lhe

que pagasse

direitos

senho-

riaes por certa aldeia da sé de Coimbra,

com

o

noeencio
censurar,

iii,

que

nem ousou

repelil-as para as

lundamento de que era propriedade da coroa.
Pedro resistiu, e
logo o arrebatado

l^sta
(!

linguagem acre era consoante á
dada naturalo altivo

monarcha

que usava,

ainda hoje usa, a cúria romana nas
foi

recorreu á força e os seus

homens

d 'armas ar-

suas admoestações. A resposta

rasaram as casas, que o cabido tinha na aldeia
disputada, e saquearam a egreja.
[íiV/.

mente no caso da pergunta; todavia,

O aggravado

sentimento da independência, que a inspirou,
é

interdicto

na diocese

e recorreu para

Homa

digno de admiração, e pôde servir de exemplo

o

rei

sobrepôz-se á auctoridade

ecclesiastica,

a governantes do nosso tempo atirmesa

com que

mandou desprezar

o interdicto, ordenou aos sa-

Sancho

i

se atTrontou
ni,

com

o quasi omnipotente

cerdotes que celebrassem os officios divinos, e

hinocencio

para repellir o que julgou ser

um

perseguiu cruelmente os que lhe não obedece-

attentado contra os direitos e as prerogativas da

ram. Acudiu ao conflicto o metropolita de Braga,

sua coroa.

Em

plena edade media, quando ainda
e o

no intento de serenal-o,

e alcançou

do

rei pro-

estavam quentes as cinzas de Ilildebrando

messa por escripto de que daria
bispo, logo

satisfação ao
:

seu espirito revivia, esta firmeza da coroa contra
a
lliiara, esta

que

elle

levantasse as censuras

Pe-

audácia de re|irehender aspera-

dro negou-se, porem, a fazel-o, mos!rando-se

mente

as demasias da auctoridade pontiticia e

mais

contumaz do que Sancho, e o arcebispo

os vicios e ambições do clero, pareciam temeri-

liouve de annular o interdicto.

Mas o

clero co-

dades aos caracteres mais resolutos, impiedades
ás consciências

nimbricense não o attendeu,

a

questão ficou mais

menos
jielo

timoratas, e

complicada do

(|uc antes,

Sancho enfureceu-se,

giu a carta, (jue

insólito

deixou

quem rediHoma es-

maltratou os ecdesiasticos do diocesano, e constando-lhe que este se preparava para
unir-se a Martinho
cárcere. llodrigues,
ir

tupefacta, era poi- certo

homem

adiantado da

a

Roma
n'um

sua epoclia e já indiuido das ideias revolucionarias,

lançou-o

que sccidos depois deram martyres ás
ila

fogueiras

orlhodoxia catholica. Esse

homem

Preso, o prelado teve artes para

mandar

um
a

não se chamava, porém, Sancho e não trajava
purpura; chamava-se modestamente Julião, e
alcançara pela recommendação do talento e da
sciencia o cargo de cbauceller de Portugal.

agente

com
.\

cartas a Innocencio

iii,

e o papa at-

tendeu-o promptamente e escreveu

com energia

Sancho.

resposta que obteve é

um documento

singular no seu género, talvez único da sua epo-

Presume-se que mestre JiUião, a cujo nome
faltavam apellidos fidalgos, lora educado na es-

cha, que deve ter maravilhado a chancellaria ro-

mana, acostumada a ver prostrarem-s e diante das
leti-as

chola de jurisprudência de Bolonha e apprendéra
n'ella as doutrinas,

apostólicas os mais poderosos príncipes da

que com perfeita coniprehense

terra.

O

rei

de Portugal queixava-se abertamente
a

são do estado da sociedade sua coeva incidcou

de que o pontifice desse crédito
vidasse usar para
in.suiluosa,

quantas accu-

aO

rei,

com quem

pode dizer que subiu ao

saçOes lhe faziam do seu procedimento e nãn du-

Ihrono, para lhe remediar,

com

o conselho, o

com

elle

de

uma linguagem
(Ihristo,

apoucamenio

intellectual e a incultura.
foi

A

tradi-

im[iro[iria

de discípulo de

ção do direito romano

um

dos agentes do

qne antes devia

solTrer jiacienlemente as inju-

movimento politico, que consummou noseculoxv

100
;i

Historia de Portugal
monaichira, e
foi

(cntriilisação

n'flla,

ovi-

eiu:ariegou o arcebispo de Composlella de a fazar
ler

iliMitciiicntc,
lia

que so inspirou Julião pondo a mira
e

a Sancho pelo seu secretario.

O papa

foi

mais

sua dcxtrcsa

da sua asiucia

cm

fortaifcor o
di'

moderado do que
altivo e

se podia espercr

do seu génio

podur rual contra o ultraniontanismo, que
o clero, que de dentro d'elle

fora

dominador. Advertiu o monarcha porlu-

do estado pretendia tutellal-o, e contra a nobreza
!•

guez de que nunca
dirigir

um

príncipe christâo ousara

procuravam

res-

ao chefe da egreja phrases tão irreve-

lrin;.'il-o.

A sua

politica foi essencialmente rea-

rentes

como

as

que

elle

usara, ta.xou algumas

lista,

até

na protecção que deu ao elemento

d'ellas d'hereticas,

negou a Sancho competência
para (]ue

popular, destinado a servir de alliado e apoio á
realeza, e essa politica, que o caracter violento

para julgar

em

nuiteria de disciplina e moralielle

dade ecciesiastica, apertou com

de Sancho

i

tornou bellicosa, fez as suas primei-

reparasse os aggravos feitos ao bispo de Coim-

ras armas contra os
siastica.

campeões da ordem

eccle-

bra e ao seu clero, declarando que nunca abandonaria a defeza da sua justa causa. Ao

É mister confessar que nem sempre

se

mesmo

fundou no direito e na equidade. Julião quiz nada

tempo, porém, que expediu a missiva que continha estas paternaes admoestações, ordenou ao

menos do que subordinar totalmente
estado, a auctoridade religiosa á
rou-se. Os prelados

a epreja ao

civil.

Exagjíe-

prelado compostellano que empregasse os meios

não o calumniavam accusan-

necessários

para

fazer

entrar
elles

o rei

em bom

do-o, accusando o rei, de dispor arbitrariamente

caminho, e que, esgotados
recorresse ãs censuras; e

baldadamente,

dos lieneficios e de demittir e substituir paroclios,
rollados canonicamente. Nos conflictos

bem assim recommenà egreja e aos seus mi-

bispos do Porto e lloimbra vimos nós

com os como a co-

dou-lhe que avisasse o chanceller Julião de (]ue
a perseguição, que
nistros, o

movia

roa se arrogou attribuições do papa ou do metropolitano, para annular interdictos e obrigar os

expunha

á indignação de

Deus

e

do seu

representante na terra.

sacerdotes a desobedecerem aos legítimos superiores,

Não

é de crer que este ultimo aviso devesse

em

motivo de disciplina ecciesiastica. Na
iii

surtir effeito;

mas(]uando Julião o recebeu já

es-

carta escripta a Innocencio

confessava o mo-

tava vencido e humilhado. As contendas tão brio-

uarclia o seu propósito de reduzir os bens do
rlero,

samente sustentadas acabaram com vergonha de
Sancho. A intervenção de

e portanto proclamava que lhe era licito

Roma em
foi

favor de

dispor d'esses bens. .Assim se misturava, no pro-

.Martinho Itodrigues, e posteriormente
ficio
(lo

em

bene-

cedimento do chanceller, a violência com o e.xercicio do direito, o abuso com o uso. Mas a
violência e o abuso
lucta,

bispo de Lloimbra,

ociosa.

Quando o

prelado portuense voltou da capital do
calholico,

mundo

eram

talvez necessidades da

em

1210, com as cartas que alcançara

deshonrum, considerando-se a rudeza dos tempos e dos homens, a idéa capital de
Julião de sustar o desenvolvimento, prodigioso e

e não

para os dignatarios escolhidos para juizes do seu
pleito,

achou o encarniçado adversário

em
com

ex-

tremo abatimento. Tinha-o accommeltido a enfermidade que o levou ã sepultura, e
forças ]ih\sicas havia-o

temeroso do poder do

clero,

reprimir as suas

as

pret<>nsões á independência, e evitar
fortalecesse

que ellese

desamparado a energia
leito

com

a

protecção do papa para dar

moral.

Vendo-o preso ao
arceliisjio

da dôr, rodeia-

rudes combates árealeza: o iliuslrecliancellcrpôz

ram-n'o o
(]ruz,

de liraga, o prior de Santa

sempre o extremo empenho em
prelados,

iin|ie(lir

que us

o abbade e os

monges d'Alcobaça,
si

e alTus-

com quem

pleiteava, appeliassem para

tando o chanceller arrancaram ao enfermo toda
a espécie de concessões e graças jiara
clero. e para o

lloma, e

em

quasi todas as conconialas que fez

com

elles esigiu-lhes

que reimuciassem

a

essa

Foram

tanilx-m estes conselheiros da
a

ago
res-

espécie d'a[ipela(;ão.
liste

nia,

que provavelmente dictárani

Sancho a

era o

homem

a

quem

liiMocencio ni allri-

posta que elle deu a .Martinho Itodrigues e aos
juizes,

liuia

a

responsabilidade da caria audaciosa de
iiotiria.

que se lhe tinham dirigido intimando-lhe
a fav<ir
<•

que demos

Traclaiido de responder, pro-

a sentença jironunciada

do prelado,

lista

videnciou para que Julião não recebesse a i-espysta c iiáo a oçcultasse do rei, e ii'esse intuito

resposta

foi

humiliissima.

rei

prometteu

sui)-

scrcver a i[uaiito onleiíassem os delegados da

Historia de Portugal
Suiila
('

101
fora

Si',

(•

coiiviíloii

Martinho a voltar ao reino

acampamento que
riques,

no tempo de AlTonso Hen-

á còrU;,

onde

rccchcriíi
;is

honroso

arolhiiiiciito
iiiitru

;

em

assento de

nma

sociedade organisada

(•

clVcclivuinciiU'

rciidiis c

os hciis da

pur-

para o trabalho da civilisação, de que não são
únicos instrumentos a lança c a adaga. Inclinarse-hia o monarcha, por inslincto

lueiise

foram

restituiilos, pelos

daninos

feitos á

(igreja e

aos seus serviçaes

(h.'raiii-se

copiosas

ou conselho da

inderiiiiisayões,
rneiile

c o hispo entrou triuni|)iiantereal.

razão, para as tarefas pacificas, das quacs

uma

no paço

Mais aimia

:

os hurfjuezes,

lhe mereceu o

nome de povoailor/ Os
viril

seus pri-

auxiliares de Sancho, foram cruelmente sucriil-

meiros annos não fizeram presentir o desgosto da
guerra, que na cdade
sia: é licito

cadds. l)eclarou-se nullo o seu foral, o hurjro

fi-

manifestou

em dema-

cou fazendo

|)arte

do senhorio prelalicio,

ecomo

suppòr que lhe modificou o caracter

os resolutos companheiros de João Alvo c Fciido-

e lhe corrigiu a educação, desallciçoando-o das

Tiruu reafíissera contra a injustiça, que os enlre^íavii

eniprezas bellicosas, o seu conselheiro de todos
os dias, o seu mentor politico, o tutor de seu
espirito inculto, esse chanceller Julião, (jue

de mãos atadas

á

vingança e ao despotismo

de Martinho, correram reiratos de sangue nas ruas do Porto até
missão.
lista victoria

como

ifue a caniilicina

persuadiu á sub-

homem

de toga devia empenhar-se
e as lides

em

que átoga

cedessem as armas,
do clero e a exclusão do chanceller

da conquista ce-

da gerência dos negócios públicos, que a determinara, reverteu

dessem aos labores da organisação. Esses labores foram emprehendidos com grande actividade
c

tamhem em hencficiodo bispode
foi

dirigidos

com

notável

intclligcncia.

(J

ele-

f.oimbra, que subilamcnle

solto e

chamado

mento mais essencial da prospei'idade do reinO eram homens, porque naturalmente escasseiava a jiopulação n'um campo de batalha de séculos
para recrutar povoadoivs ou para os deslocar,

aos conselhos do rei, ainda antes de terem che-

gado as cartas de Innocencio
por
clle.

iii,

que pugnavam

O fim do ixMnado de Sancho pareceu,

portanto, á

ordem

ccciesiastica o principio

de

encaminhando-os para onde eram mais necessários

uma
pos,

domiiKição absoluta; nuis emquanto os bistripudiando na alcova do moribundo, lhe
os báculos, vieslrv Ju-

empregou

o governo de

Sancho a concessão

de privilégios e beneficios, exarados

em

foraes,

amolgavam a coroa com
lião

e a distribuição de terras a colonos estrangeiros.

chorava a vergonha de seu amo, e chorando

Quando entravam nos portos de Portugal as
tas

fro-

lançava os braços ao pescoço do príncipe Affonso.

de cruzados, que iam no rumo do Oriente,

impedido de acudir

á velhice,
i,

amparava

a

moci-

não somente se lhes pedia ou comprava o auxilio
para algum commettimento contra os sarracenos

dade

;

vencido
ii.

com Sancho

preparava desforra

com

Atlbnso

empregavam-sc tamhem meios carinhosos de persuadir os

homens d'armas, que vinham a seu

CAPITULO

V

bordo, a Cxarem-se no paiz aonde os conduzira

unia necessidade ou

uma

eventualidade da nave-

Politica interna As primeiras necessidades dopaiz,

gação, e de

feito,

muitos allemães, france/cs,

inglezes ou llamengos, que treparam aos
ciiiifpiislado

muros

de Alvor ou de Silves, trocaram depois a vida
aventureira
e,
jiela

palmo

a palmo,

eram

cidlui'a jiara as leiras (|ne

condição plácida de lavradores,
villas.

o arado abandonara por
ilores para as
llagellos

medo da

esp;ula,

mora-

tendo arrazado castellos, edificaram

San-

povoações antigas, ermadas pelos

cho recebeu de braços abertos estes
tores
elles,

da guerra, e novas povoações para os de-

sertos; as primeiras necessidades dopaiz,
çailo a toda a hora por inimigos visinhos,

amea-

como deserr dos exércitos ilo ciitholicismo, c foi com talvez, que cresceram cm numero os habi-

eram

tantes da Villa Verde e da Lourinhã, a ponto

castellos para

guarnecerem as fronteiras

e solda-

de ser necessário doar-lhes

em 1195,

para se

dos para guarnecerem os castellos.
i

A todas estas necessidades altcnilen Sancho com incançavel diligencia, e no seu ri-inado, sem lustre militar, começou Portugal a Iransforinar-se, de vasto

alargarem, Ponlevel e seu termo.

o niovimenlo dos cruzados vein

a parar,

e

Sancho imaginou então enviar aos paizes estrangeiros agentes incumbidos da alliciaçào de emi-

102

Historia de Portugal
como
fisco,

grantes. Foi esta alliciação que trouxe o bando

oásis

semeados n'um deserto, no qual o

de francezes, que
simbra,

em 1198 ou 1199 povoou
os que se estabeleceram
e o rei

()e-

suor do trabalho era infecundo, porque o bebia o
sedento

bem como
;

em

como um

areal, e as vidas periga-

Montalvo de Sór

mostrou-se tão regosi-

vam com

a visinhança das mansões senhoriaes,
:

jado com a sua vinda e Ião desejoso de que
outros viessem atraz d'elles, que ordenou ás auctoridades dos concelhos, visinhos das terras que

covis de rapina e violência
equivalia, pois, a fundar

crear
asylo

um

concelho

um

onde o povo

encontrava justiça, liberdade e segurança, e o

lhes doou, que os tractassem

com

cordcai anii-

povo corria pressuroso para esse asylo apenas se
lhe franqueava.

sade e se abstivessem de lhes fazer
injuria, sob

damno ou

A fornmla da

pena de 600 soldos de multa. Pelo

concelhos era, de mais, variável; os /bí-acs

organisação dos d
'u-

mesmo
me,
foi

tempo, o deão da sé de Silves, Guilherenviado a Flandres,

mas povoações concediam aos seus moradores
isenções e regalias ditTerentes das que outras go-

também para angaelle

riar colonos, e aos

que com

vieram sob a
de Azam-

zavam, podia introduzir-se

em

cada

um d'elles o

direcção de Raolino destinaram-se as férteis lezírias

engodo, deixem-nos dizer assim, tido por mais
efTicaz

do Tejo, onde fundaram a

villa

para attrahir povoadores ao logar a que

buja,

que depois se constituiu

Estas colónias estrangeiras
agricolas e militares.

em município. eram ao mesmo tempo

era destinado,

podiam também harmonisar-se as

disposições de cada qual

com

as conveniências

Doavam-se aos seus chefes

geraes do estado e as particulares das suas classes, e por isso o principio nmnicipal foi

vastos li'actos de terra, que eiles repartiam pelos

um

ins-

companheiros, dei.\ava-se-lhes o direito de se
organisarem

trumento accommodado ás mais delicadas exigências da politica constituinte e reparadora de

em

sociedade conforme as

leis e os

costumes dos seus paizes, mas impunha-se-lhes

Sancho
menlo.

i,

politica

que hoje cliamariamos de

fo-

sempre coliectivamente a obrigação de acompanharem o rei á guerra. Algumas vezes também se
concediam aos emigrados grandes privilégios
es-

Além de distribuírem metliodicamente

a po-

pulação pelo solo, os concelhos emancipavam as

peciaes. Os francos de Montalvo de Sòr, por ex-

camadas populares da quasi servidão em que haviam jazido durante séculos,
classe social,
IV)i-i;a,

emplo, ficaram dispensados do pagarnenio de
portagens

e

creavam uma

em

todo o reino, e não havia priviléexhorbitantes,

com

direitos e

com

interesses e

com

gios que fossem ou parecessem

proveniente da união,

jiara

os fazer respei-

sendo preço da conversão de matagaes
ras e de sertões

em

cea-

tar,

liste

progresso convhiha aos fins políticos,
e

em

povoados, e talvez de relações

não de todo desinteressados

generosos, de
.lulião,

commerciaes travadas pelos novos habitantes de
Portugal

Sancho
do

e

do seu esclarecido chanceller.

com

os paizcs d 'onde provinham, e da

adversário declarado ou disfarçado da nobreza e
clero, por

introducção de artes e industrias desconhecidas
a

amor á

realeza e talvez por instin-

um

povo de soldados.
e útil

cto plebeu, adivinhou o processo

engenhoso que

Mas não somente era necessário
tar a população:

augmen-

em

toda a Europa consolidou as monarchias, e

convinha também distribuil-a

em

estendeu as mãos ao povo, dos degraus do throno,
para que o povo offerccesse os braços para esteio

harmonia com

as circuinstancias topographicas

c até estratégicas do reino, e a este intento ser-

do throno.

Em Portugal nunca houve feudalismo
reis

viu maravilhosamente a faculdade regia de organisar concelhos, usada as cidades e villas que

houve, porém, classes privilegiadas poderosíssi-

como meiode ]irivilegiar mereciam ser levantadas
das fronteiras, (|ue as

mas, que os

cedo reconheceram como inimi-

gos natos e ás quaes declararam crua guerra não

das ruinas, as fortalezas precisadas de defensores, os terrenos vizinhos

muito depois do reinado de Sancho, e para essa
iíuerra,

em qne algumas

vezes foram vencidos,

algaras dos sarracenos tinham tornado estéreis
solidões, e portanto de convidar para se fixarem

habilitou-os a organisação municipal, preparan-

do-lhes

um

alliado

vigoroso,

n'estes logares favorecidos pela legislação os ha-

teriam podido eond)ater,

sem o qual nem como combateram es(t

bitantes d outros, onde fossem

menos benignas
eram

lorçadamente, Alfonso n e Sancho n.
Julião

|iroprio

as condições do viver social. Os concelhos

experimentou as vantagens da sua

politica

Historia de Portugal
ik' alliaiifa

103

da coroa com o povo, quando armou
contra Martinho Uodrigui-s

vos, e na historia das origens das cidades e villas

os bui-guczcs do l'orlo

do reino.
c repovoar, urgia prover á

c, talvez os de Coinil)!'» contra o liispo Pedro, i! elie veria magoa quanta com pódc imaginar-sc

A mais de povoar
defensão do reino, e
tajava
res.

nenhuma

milícia se avan-

essa alliança rota, por sug^estOes de padres, pela
imljcciliilade servil

em

valor e disciplina ã das ordens militaellas sido predilectas

do soberano, a quem os seus
lior-

Tinham
lízéra

de Affonsq

i,

serviços zelosos e intelligentes íizeram considerar

qnc

largas doações aos templários e hos-

um

dos mais juipulares da dynastia de
foi,

pitalarios, e

foram-no egualmenle de seu 6lho,

gonlia: o ronipimenio

como veremos,
e

p()ri|ue

porém, momentâneo, Julião sobreviveu a San-

porque eram ao
convertiam
los

mesmo tempo
f)s

seminários de guer-

reiros e colónias pacificas.

monges

cavalleiros

cho, poude guiar os primeiros passos de Aironson.

em mansões

e preceptorias os castel-

dei\ou-]he ao lado, quando se linou,

um

hei-

deiro do seu espirito.

sas

que guarneciam, na sombra protectora d'esmansões fundavam-se aldeias, emprehen-

l"oram numerosos os forars expedidos pela
chancclleria de Sancho. Os primeiros datam de e diciou-os o desejo de repovoar aquella 1 IHG
jiarle

diam-sc arroteamentos, cstendiam-se povoados. As ordens promoviam no remanso da paz a cultura do paiz, que na guerra defendiam denoda-

do reino, confinante com o de Leão, c que lora assollada pelas campanhas da independência
:

damente,

e

nãousur])avam, portanto, a estima de

que gosavam

em

toda Hespanha,

nem

a proteci,

são os de Bragança, Vizeu, C.ouveia, (lovi-

ção decidida que lhes concedeu Sancho

o qual

lhâ,Avò,FolgosinhoeValhelhas. Posteriormente, outros foram dados a povoações fundadas de novo

logo nos primeiros annos de reinado entregou aos
freires

de Santiago os caslellos de Alcácer, Palvilla

ou restauradas, também próximas da fronteira
leoneza
:

mella e Almada, e a
e

de Arruda

;

e Alpedriz

tal é

o da (iuarda, cidade forte, destie baluarte.

Alcanede aos de llalalrava, aos quaes lambem

nada a atalaya
I

Depois da invasão de

prometteu Jurumenha, logo que a conquistasse
aos mouros.

ly

1

,

que não poude ser repellida e de que re-

sultou a perda do Algarve e do quasi todo o Alemlejo, as attenções de Sancho vollaram-se para o
território

Posteriormente e á medida que
o seu desígnio de acaliar
lidões, o rei
lie

foi

realisando

com

as ruínas e as so-

talado pelos sarracenos ou

ameaçado

I^ortugal foi fazendo

novas

distri-

por elles; teve então organisação municipal Torres Novas,

que solTrêra

um

assédio, crearam-se

buições de propriedade ao monachísmo militante. I]m 1194 doou a propriedade de Guídímtesta
aos hospitalarios, para construírem o castello de
lielvér.

concelhos numerosos nos arredores de Santarém e na zona muitas vezes atravessada pelos inimi-

Idanha, a antiga Egitania, logo depois de
foi

gos de todos os dias, para accomniettereui esta cidade: tem esta origem os foraes de Benavente,
Aveiras, Azambuja, Pontevel, os de Aréga, Pe-

reedificada,

entregue aos templários, aos quaes

também
do

se fez doação no

vastíssimo território

da Açafa

anno seguinte, 1198, Rodam*. Aos
i

drógão c Figueiró, e o de Leiria, reedificada.
Mais para o sul cuidou-se de occupar a península,
entre as hahias do Tejo e do Sado, o Cezimbra,

freires de l^alatrava coube o senhorio de Mafra em 1193, e foram elles que povoaram Benavente

em
lha,

fundada pelos francos, teve a sua carta de privilégios.

1200. Ouando Yacub, retrocendo para Seviabandonou os castellos de Palmella e Almada,

Mas se

estas regiões, se as orlas das

províncias de Traz-os-Montes e das Beiras, visi-

nou

que tinha conquistado, a ordem de S. Thiago tora tomar posse d'elles. E não só em logares
de perigo ou
tristes desertos foi

nhas dos leonezes, e a Extremadura, ao norte e ao sul do Tejo, visínha dos sarracenos, foram
as

dado aos monges

que principalmente mereceram da munificên-

estabelecerem-se como proprietários. O seu esforço era tão afamado, os seus balsões inspina-

cia do

povoador os beneficios das

instituições
as outras

vam

tanto susto aos sarracenos, que

Sancho

i,

muuicipaes, alcançaram-n'os
províncias,
c

o

também nome de Sancho i
lêr,

tendo-se visto

uma

vez

em
com

Santarém tão desaas quaes resistisse

é o que

companhado de

tropas,

mais vezes se pode

cora reconhecimento,

nas collecções de foraes, recolhidos nos archi-

ao amír, que houvera de pedir soccorro a poucos ínglezes hospedados em Lisboa, decidiu depois

104
dVste lance púr da
ai|uc'lla

Historia de Portugal
cidade sob a protecção perseguições movidas por
elle

com sanha

a per-

cavallaria rcligioía,

e

entregou

sua torre e a sua alcáçova à de S. concedeu bens em Santarém aos templários, e eslabeleceu
Iho,

em 1 193 a Thiago. Também

sonagens da côrle innocentes de culpa grave.
• 1

procedimento de que usou para com os bis-

pos do Porto e de Coimbra peccou capilalmente

em IJsboa, no edifício de Santos-o-Veuma mansão dependente de Caceras.
foi

por arbitrário e brutal. Mas

quando era dev^r do
de Alexandre,

otlicio

de

Esta generosidade não

mal retribuída. Não
de Sancbo, e se é

um

nó gordio,

em compensação, rei cortar, à moda resolver uma pen-

consta que as ordens militares perturliassem a

paz interna do reino

em tempos

dência com um arranco de energia, vibrar um golpe profundo para atalhar abusos ou soffreiar

certo que os templários e bospitalarios se inimiza-

desordens, Sancho cumpria esse dever
solução e alongava
ferrada.

cem

re-

ram momentaneamente com

elle,

oppondo-se com

com

braço

rijo

uma manopla

energia ao seu projecto de arriscar a própria vida
e a dos súbditos na guerra cLristã da Palestina,

Senliram-lhc o peso portuguezes e estrangeiros
;

de que nunca resultou honra ou proveito senão
a av(>ntureiros, esta opposição deve-llies ser to-

scntiram-n'o por mais d'uma vez os cruza-

dos, genle tumulluaiia, tão perigosa para christãos

mada em

conta de serviço patriótico, .\pcsar de

como para sarracenos,

e quasi tão

prompla

terem confrades

em

beão,

como em

Castella e

a

desembainhar a espada contra os alliados como

nos outros estados christãos de Ilespanba, os
monges-cayalleiros de Portugal não faltaram aos

contra os inimigos.
ferro

Em

julho de 1190 lançaram
e Ires

na bahia de Lisboa sessenta

naus

deveres de lealdade nas campanhas contra os leonezes,

inglezas,

que se dirigiam para o Oriente, sob
Sabloil e Ricardo

em que mais

de

uma

vez se viu o

mesmo

o

cominando de Roberto de

balsão tremulando nos dois arraiaes inimigos, e ura

de Camwill, c a soldadesca, que n'ellas vinha,

commendador do Templo, Lopo Fernandes,
As regras dos seus institutos

apenas saltou
disciplina, a

cm

terra mostrou

a cordura, a

morreu ao lado de Sancho no commettimento de
Cidade-Rodi-igo.

mansidão

e a caridade evangélica,

de

([ue

se dispunha a dar

exemplos na Pales-

obrigavam-nos, porém, especialmente a pelejar
contra os infiéis, e nas contendas

tina,

para que os mussulmanos reconhecessem

com

os sai'ra-

a

excellencia
a

moral do catholicismo. Desata-

cenos as suas lanças eram sempre das primeiras
a porem-se no riste e das ultimas a encosta-

ram

roubar e maltractar os habitantes de

Lisboa, tomando-os por perros infiéis, e fizeram
tanto estrago e

rem-se. Sancho

i

não houve de pedir repetidaestas contendas
;

commetteram
d'ellas a

tantas malfeitorias,

mente o seu auxilio para

todavia,

que chegou noticia

Sancho, que estava
e pór-se

a defcza de Thomar, onde os templários tinham

em Santarém.

Receber a noticia

em mar-

a casa capitular, contra Yacub, que lhe pozéra
tio, foi

si-

cha para Lisboa foram actos quasi simultâneos:

um

preclaro feito d'armas, que acabou de

mas quando chegou á cidade
a subjeital-os ás regras do

invadida, usou de

afamar o nome de Gualdim Paes.

prudência e convidou os chefes dos cruzados

Á

parte as dissenções

com

o alto clero, de que

bom

viver. Sabloil e

opportunamente dêmos

noticia,

a attenção de
tarefas paci-

Camwil adoptaram providencias repressivas, e a

Sancho não teve que desviar-se das

ordem manteve-se durante
firmou pé

trez dias: ao quarto,

ficas, sollicitada por sedições populares

ou am-

porém, desembarcou gente da frota, e apenas

biciosos

desmandos das

classes privilegiadas.

em

terra desforrou-se

da quietação

Das discórdias violentas que rebentaram nos rei-

forçada das vésperas. O rei deu então

uma

li-

nados subsequentes só os prenúncios apparece-

ção severa. Mandou fechar subitamente as portas

ram, e ainda mal definidos, no do monarcha
povoador.

da cidade para colher os inglezes, e cahindo

A

sua auctoridade

foi

respeitada, ape-

sobre clles

com

as tropas do castello prendeu
resisti-

sar de não ser branda
ceira.

nem constantemente justiinsof-

quantos encontrou e matou os que lhe

O

caracter de

Sancho era arrebatado,

ram

:

os prisioneiros foram setecentos.

Não

ficou

frido

de resistência
cruel.

e contradicção, e se o peiorava

ainda aqui. Seguro de que a esquadra nada ousaria tentar

ã paixão,

Chegaram

até nós informações,

contra Lisboa, onde estavam

em

ferros

emi)ora pouco precisas e circumstanciadas de

tantos dos seus, intimou os que n'ella tinham

Historia de Portugal
iiiamlo

105
com que, na
|iuregriiLação

para quf restiluissem todos os roubos

gios de toda a csiiecie

feitos aos

portuguezes e se fizessem ao largo, e
a restituirão teve logar, v as naus,

que durou desde 1202 até 1208, procurou fazer
surgir o reino do abatimento,
terrivcd
qu(!

i'tr(!Ctivar1ii'iiti!

aque o reduzira

a

(l('[)ois

dl'

lorcin recebido os jirisiouciros, pozé-

calamidade, accrescida a tantas outras

lain as proas

na barra, onde encontraram mais
esti' i'e:

diariamente o visitavam.

A

este pei-iodo de

tWntá, que viniiam juntar-se-lhes. llom
Ibrço a
liavia

providencias emanatlas directa ou iiidireclani(;nle

armada conlou

perlo de

cem

navios

lo-

do poder

real,

[)ertencemasfmidaçõesde algumas

lomou o mar, sem

tentar renovar a oITciisa.

cidades e villas e o estabelecimento de immerosos concelhos. Os

Se ifesta (wnjuueção, como na da entrega de
Silves e outras muitas, o
rei atteslou

muros de-Montemor-o-iNovo co-

firmeza e

meçaram

a l(!vantar-se

em 1203 em
filho nalm-al

território

energia, se nas contendas

com

o clero e especialecclesiasticas

doado a l'edro Affonso,
Henriques. No

de Aílbnso

mente em arcar com as censuras
(leu

mesmo anno

o bispo de Lisboa,

provas de que lhe sobejava,

prostrou a doenç;a, força

em quanto o não moral, um lance houve

Sueiro, deu traça para a fundação de Alhandra.

Pelo

mesmo tempo

foram expedidos os foraes

doloroso para o reino

em que Sancho acudiu com

de Villa-nova, .Monte-.Mór, Aveiras, Alhandra, Al»
pedrinha, (luyães, Santa Martha eBeduido, Fontes, S.

rara actividade e meritório zelo aos soffrimentos

dos súbditos, para protegel-os, não já conlra a
selvageria dos estrangeiros ou a intolerância clerical
,

Taboadelo, Crastello, Ucobou, S. (]ypriano,
.lulião,

Godins,

Aguiar,

Souto,

Andranes,

mas

cfontra

um (lagello da natureza.

iSo

anno

Ranalde, Guardão, Lapella e muitas outras.

A

de 120"J a fome, resultado da irregularidade das
estações, assolou o sul e o occidenle dalíuropa, e açoutou impiedosamente Portugal.

fundação de Idanha-a-Nova data de 1205 oul20C,
e o seu senhorio
foi

entregue aos templários. A'ão

Espíritos

foram, porém, exclusivas.d'estaepocha de repa-

acostumados a vér sem espanto a civilisacão hodierna
luctai'
í:

ração as edificações de fortalezas e o estabeleci-

com immensos

recni-sosscientificos,

mento de novas povoações,
o castello da Guarda, que

e o principal

monui,

industriaes

administrativos, contra os males na-

mento, dos d'esta espécie, alçado por Sancho
foi

liM'aes, difficilmente

concebem

os pavorosos qua-

em 1199

cresceu no

dros da tragedia da fome, encarniçando-se sobre

um
ir

povo debilitado pelas feridas de

uma

guerra
para

viso d'um monte da serra da Estrella, olhando como atala\ a, por cima da fronteira, para a Extre-

de séculos, atrazado na agricultm^a,

inhaljil

madura leoneza.

buscar atravez das terras e dos mares as sub-

sistências

que lhe negava o

solo, c

pobre ainda

CAPITULO
Sanclio
I e

VI

(|uando eram abundantes as colheitas. Os escriptores

que presenceiaram a calamidade pintam-n 'a
as cores mais negras da palheta do horror.

sua descendência

com
O

cortejo da

fome foram as epidemias. De ura a

outro extremo do paiz elevou-se para o céu

um
bal-

Allbnso Henriques ajustou em 1174 o casamento do herdeiro da coroa portugueza. com
D.

immenso

soluço. (Jue fazer,

porém, para mitigar

Dulce,

filha

do conde de Barcelona, Raye

tanta miséria V iSão o

ensinavam as sciencias
i.

muudo Herenguer,

irmã de Atlbnso

ii,

que

buciantes, e não o soube decerto Sancho

Mas

succedeu a sua mãe, D. Petronilha, no throno
do Aragão. Este casamento, que a morte desfez

a sua presença levou consolações a toda a parte,

impediu os distúrbios que facilmente sc originam do desespero, ensinou os ricos a condoerem-se
dos pobres
;

em

1198, arrebatando a rainha,
d'elle

foi

fecundiss^^

mo. Nasceram
fantes

o príncipe Affonso, os inThereza,

a sua

mão derramou

benefícios, as

Fernando

e Pedro, as infantas D.

suas ordens applicaram ao mal os palliativos posr
siveis,

D. Sanidia, D. Mafalda, D.
garia, e outros filhos
nice,

Branca

e D.

Beren-

percorrendo o paiz

em

todas as direcções

que falleceram na meni-

com

actividade febril; se uão conjurou o flagello,

mas não

obstante dar tantos fiadores á

recebeu nos braços as suas victimas, se não evitou o estrago, apressou-se

dynastia borgonhesa, D. Dulce não ponde se-

em repai'al-o. Kormam
privilc-

gurar no collai- dos braços o (ugidiço esposo. Era
elle,

volumes e volumes os documentos dos
70L.

como o seu tempo, pouco severo em

cos-

1—14.

106

Historia de Portugal
A
família real portugueza,

tumes, f ao que parece de temperamento sultanesco, porque de D. Maria Ayres de Fornellos,
D. Maria Paes Ribeiro e outras concubinas
prole,

no fim do século

xii,

era já tão considerada não só na Península

mas
ti-

bouve

em

toda a Europa, que trez fdhas de Sancho

que não desmereceu, como tão numerosa de povoador que mereceu cognome o homem,

veram thalamos encimados por coroas fechadas.
D. Tbereza, a mais velha de todas, foi escolhida,

como

rei.

Dois rebentos do concubinato, Martim
e llodrigo

em

1196, para amoravel penhor de

uma alliança
foi

Sanches

Sanches, assignahn-am-se á

de Portugal com Leão, e o consorcio que contraliiocom Affonso ix por intimação da politica,
tão consagrado pelo

menção da

historia,

dando boa fama do sangue

que lhes corria nas

veias.

Não assim

o principe AfTonso, (|ue veiu ao

amor que pelo amor perdurou alem do divorcio, consummado em 1195 ou
119(1, por exigência de Celestino ni.

mundo em
dar se
elie

1186. Nasceu tão débil que Sancho,

Fundou-se

no testamento lavrado em 1188, mostrou duvipoderia
cingil-a.

a exigência no parentesco dos cônjuges, houve

com

a coroa, caso chegasse a

de ser

satisfeita,

mas como

o coração é rebelde
e Affonso, se-

edade de

Posteriormente,

uma

grave

á disciplina ecclesiastica, Thereza

enfermidade teve-o suspenso sobre o tunmio, e
se o sol meridional e as lirizas do oceano o em-i-

parados e volvida a infanta á sua pátria, troca-

jaram, não lhe deram, todavia, vabdez jiara

liriíi-

ram testemunhos honestos de constante affeição, que fazem pensar em como seria acerbo o solTrer
da desconsolada viuva

rar na infância cora a lança e o escudo, que o

dum vivo,

e dos quaes foi

avô e
forte,

pae haviam levantado do

altar

com

liraço

o ultimo a profissão da fdha de Sancho,

noanno
Villa-

ainda antes da puberdade. U apoucamento

de 1228, no mosteiro de Lorvão ou de

de forças e as prolongadas tregoas

com os

sarra-

buena. Melhor sorte teve D. Berengaria. Não se
sabe que acontecimentos a fizeram conhecida e

cenos privaram-n'o da educação guerreira e dei-

xaram sem

correctivo a sua propensão natural

desejada por

Waldemar

n,

mas em 1214 Bereu-

para combater, sim, mas para combater sem armas. Passou os primeiros annos da vida sumido nos paços,
a

garia sentou-se no throno de Dinamarca, onde a

não perseguiram, como a D. Thereza, as censuras de lloma,

invejar,

talvez,

a possança dos

nem foi

inquietada,

como

as outras

irmãos

applicados

aos

exercícios

em que

se

irmãs, pela avidez ou malquerença de AtTonso n.

adextravam cavalleiros,

e os chronistas quasi só

Uma

d'estas, D. Mafalda,

também

teve indemni-

deram noticia d'elle, antes de subir ao Ihrono,
quando
filha

sação dos vexames e do esbulho, que soifreu na

em

1"208

ou 1209 esposou D. Urraca, de Castella, para estreitar

de Affonso
a alliança

viii,

com

de família a alliança politica, com

Era senhora de caracter brando e piedoso, dada a praticas devotas e ascéticas, que passou no mosteiro o melhor da mocidade, mas do
pátria.

tão

que Sancho contrabalançou systematicamente a
inimizade dos leonezes.

mosteiro a tiraram os tutores do joven rei de
Castella,

Henrique

i,

para a casarem

com

este

Os infantes Fernando e Pedro, educados para soldados, foram desde a puerícia objecto do

principe e

darem por
e D.

altar ás suas virtudes

o

mais soberbo throno de Hespanha.
D.
ias,

ciúme

e

da malevolencia do irmão

inais velho, e

Sancha
de
1).

Branca ficaram

solteiras, e

del-

tanto se arreceiaram d'elle, que apenas

come-

.Mafalda, que casou depois da morte do

çou o seu reinado ausenlaram-se do reino. I^ernando foi procurar fortuna em Frauça, onde vivia
D. Mathilde, sua
tia,

pae, e de D. Thereza, expulsa do throno, se leml)rou

Sancho

i

no testamento que

fez

em

1209,

viuva do conde de Flandres,

para lhes assegurar no reino posição condigna da

e a fortuna não lhe foi esquiva, porque casou D. Joanna, fdha de Balduíno ix
;

com

sua origem e independente de Affonso, que conhecia por

Pedro rctirou-se

máu

irmão.

A

D. Thereza

doou he-

para os estados de Affonso ix,

de Leão, d'onde

reditariamente Montemór-velho e Esgueira, a
D. Sancha, que já possuía Aveiras, legou tam-

passou annos depois para Aragão, casado

com a

condessa de
zes,

Urgel; e os dois infantes portugue-

bém Alemquer,

e a D. Mafalda os mosteiros

de

mais similhantes ao avô do que ao pae, es-

forçados e ambiciosos, figuraram
cortes e

com

lustre

nas

Arouca e Bouças. Tomando estas disposições, o testador receiou tanto que as não cumprisse o
herdeiro da coroa, que lhe exigiu por mais de

campos de batalha.

T'|).

r;i.i

\o>,i

*'.\i

\,\u.ul\.

-U.

TESTAMENTO DE D SANCHO

í

Historia de Portugal
uma
vez juramento solerano de que
si;

107
por minha morte haja toda a
ti-

não insur-

chas, e

mando
liteira,

(lue

giria contra a sua lierradcira vontade. M

nem rom
da sin-

minha
fonso,

e todos os anneis e fortijas,

esta precaução se contentou. Desconfiado

rando dois anneis que mando dar a

el-rei D. Af-

ceridade do Dlho, quiz providenciar para que
fosse compellido,

meu

filho.

Tenha também minhas
pannos vários
e lenços
:

vesti-

sendo necessário, a desenipe-

duras e escarlatas,
as mais cousas da

todas

nhar-se delia, e n'este intuito obrigou o arcebispo de Braga, o bispo de tloimlira, os abbades

minha

re[)0steria se

dêem aos

leprosos de Coimbra. \ rainha D. Mafalda dei por

de Alcol)a(.a e Santo Thyrso, o prior de Santa
Cru/,,

herança dois mosteiros. Bouças e Arouca, c a herdade de Ceia, a
mil maravedis
([uaI foi

os mestres do Templo e do

llos[)ilal

e al-

de sua mãe, e quarenta
prata. \

guns ricos-liomens, entre os quaes Gonçalo Mendes de Souza, mordomo-mór, Lourenço Soares e
Cioines Soares a

com duzentos marcos de

rainha D. Branca quarenta mil maravedis e duzentos marcos de prata, k infanta D. Dulce, mi-

jurarem que executariam
os

e fa-

riam executar ;wj' lodos
to,

meios o seu testamenmotivo a

nha neta,

a qual criei

em minha

casa, quarenta

o qual, apesar de tantos testamentários, tan-

mil maravedis e cento e eincoenta
prata,

marcos de

tos

juramentos e tantas cauteIJas,

tleu

que está

em

Alcobaça. A infanta D. San-

lamentáveis discórdias que liavemos de relatar,
liste

cha,

minha

neta, (]ue

estáem

Castella, vinte mil

testamento, importante pelas contendas a
logar, é do tbeor seguinte,
fr.

maravedis.

(|ue

deu

segundo a
:

«As heranças que dei a D. Maria Paes e aos
filhos

versão portugueza de

António Brandão

que

d"ella tenho, são estas

:

Villa

do Conde,
Gil

Parada, Pousadela e Pereira. Dei mais a D.
«

Km nome de Deus.
rei

Eu, D. Sancho, pela graça

Sanches, filho que d'eUa tenho, oito mil maravedis,

de Deus

de Portugal, temendo o dia da minha

dos que estão

em

Belver, e outros oito mil a

morte, para salvação da minha alma e

bem

de

Rodrigo Sanches, e a Thereza e Constança Sanches sete mil a cada uma. As heranças que dei
aos filhos que tenho de D. Maria Ayres são estas
Villa
:

meus

filhos e

de todo o
assim
e tudo

meu

reino, faço testa-

mento, por meio do qual permaneçam
tranquillidade,

em

paz e

meus

filhos

e vassallos
tli-

Nova, Collares e Silvares. Dei também a D.
filho

como o reino
vina

mais de que a piedade

Martim Sanches,

que delia tenho,

oito mil

Mando primeiramente que meu filho el-rei D. Affonso possua o reino com minhas rendas e celleiros e duzentos mil mafez entrega.

me

maravedis, dos que estão
a Lrraca Sanches.

em

Belver, e sete mil

«Dei além d'isto da

minha arca dez mil mara-

ravedis, que estão nas torres de Coimbra, eseis

vedis ao abbade d'Alcobaça, dos quaes faça
hospital de galos

um

mil maravedis de Évora c os

meus pannos de
pae, e cinco ca-

em

Coimbra, por minha alma.

Cuimarães

e todas

minhas armas com mais dois

Dei-lhe
estão

também dez
Alcobaça,
Cister.

mild'aquelles maravedis que

anneis, os quaes foram de
vallos dos

meu
tiver.

em

com que

faça

um

mosteiro

melhores que

Mando também

da ordem de

Ao mosteiro de Santa Cruz,

que

meu

íilho o infante D.

Pedro tenha quarenta

em

mil maí'avedis, dos quaes o mestre e freíbes do

que mando sepultar meu corpo, dou dez mil, com mais a minha capelia e a minha copa douro,

Templo tecm em Thomar
freires

vinte mil, e o prior e

para que façam d'ella

uma

cruz e

um

cálix, e

do Hospital outros vinte mil

em

Belver.

O

cem marcos de
S.

prata que está nas torres de (Coim-

infante D. Fernando haja quarenta mil maravedis

bra, para que façam

um

frontal para o altar
S.

de

dos que estão nas torres de Coimbra, e
1).

meu neto

Pedro e outro para o altar de

Agostinho.

Fernando outros quarenta mil marevedis. Dei
a minha filha a rainha D. Thcreza por

Para captivos deixo vinte mil maravedis d'Alcobaça. Aos mestres e freires
ravedis e todos os outros

também

dlAora

cinco mil

ma-

herança Montemor c Esgueira, com mais quarenta
mil maravedis e mais duzentos e eincoenta marcos de prata de Leiria.
.V

meus

cavallos e

mulas

de

sélla

e azemolas.

Ao bispo dEvora

dois mil

rainha D. Sancha dei

maravedis, c ao comniendador de Palmella cinco
mil maravedis. Ao abbade d'Alcobaça c á fabrica
cinco mil maravedis. A sé de Lisboa mil maravedis.

Alemquer por herança

e quarenta mil

maravedis
<le

e onlros duzentos e eincoenta marcos

prata

de Leiria, e todas as minhas colgaduras e col-

A sé de Viseu mil maravedis. A sé de La-

108
niego mil mariivedis. A sú
dis.
ilu

Historia de Portugal
lliumla mil maiavi'-

duzenlos mil maravedis, os (|uaes

mando

dar a

À

do

)'ortn

mil maravedis. À só de liraga

meu

lilho cl-rei D.

AlTonso, estão nas torres de

dois mil maravedis. A sé de
vedis.

Tuy

ti-es

mil mara-

Coimbra
freires

c

mais

seis mil

Ao mosteiro de
maravedis,

S. Vieeiíle

de Lisboa qui-

do Templo teem

em Évora. cm Thomar

Os mestres e
aquelles

ma-

nhentos

c

a

S.

Jorge quinhentos

1'avedis

que mando dar a meus
I).

filhes, os infantes

maravedis, A

Lorvão quinhentos maravedis. A

D.

Pedro e

Fernando, e a

meu

nelo o infante

Salzcda i|UÍiihentos maravedis. A S. João de Ta-

D. Fernando. Os que

rouca quinhentos maravedis. As outras egrejas

do

meu

reino dois mil maravedis: a saber, du-

nho da rainha D. lhas da minha filha
filhos e lilhas ria Ayres,

mando dar ás filhas que teDulce e a minba neta, ás fia raiidia D. Thereza e aos
e D.

zentos a cada

uma,

e sobrando

alguma cousa

di-

que tenho de D. Maria Paes
e os freires

Ma-

vidir-se-ha pelas egrejas pobres.
freires
dis, ao

Ao mestre

e

teem o prior

do Templo de Jerusalém dois mil marave-

Belver. Os que

em mando dar por remédio da mido Hospital
e

mestre e

freires

do Hospital de Jerusalém

nha alma, com mais cento
prata que
D. Dulce,

cincoeuta marcos de
a infanta

dez mil maravedis, á albergaria de Poyarcs duzentos maravedis, á albergaria do l\Iondego, sita

mando dar

a

minha neta

teem o abbade e convento de Alcobaça
que assim presentes como

em

Linhares e Yalhelhas,

bergaria da Fonte de Aranha

cem maravedis, á alcem maravedis, a

no seu

castello. |E para

futuros saibam melhor e

com mais

clareza Iodas

Santa Maria de Guimarães mil maravedis, a Santa

estas cousas e se lhes dê
fiz

melhor cumprimento,

Maria de Santarém mil maravedis e cincoeida

fazer seis cartas similhanles,

cm

cada
:

uma
d'el-

marcos de prata de Coim])ra, da qual façam
frontal.

um

das quaes se contém tudo o acima descripto
las

A Santa Maria de Socarnados

í?!

duzen-

tem

uma

o eleito de Braga, outra o prior de

em alguma herdade que esteja designada para o meu anniversario. Mando além d'isto que do meu vaso de ouro e sua tampa mandem fazer dois cálices, dos
tos

maravedis, os quaes empregarão

Santa Cruz, a terceira o abbade de Alcobaça, a
quarta o mestre do Templo, a quinta o prior do
Hospital, e a sexta faço eu guardar para

mim

e

meu

filho el-rei D.

Affonso no

meu

escriptorio.

quaes darão

um

á egreja de Braga e outro á sé

«Saiba-se mais que a todas estas cousas se

Mando ainda que o mosteiro de Santa Cruz haja as minhas egoas de Soure e os meus porcos de Coimbra. O hospital de captivos, que
de
Lisl)oa.
fiz

deve dar cumprimento pelo

eleito

de Braga, pelo

abbade de Alcobaça, prior de Santa Cruz, abbade
de Santo Thyrso, mestre do Templo, prior do
Hospital,
e

em

Santarém, haja as minhas vaccas, ove-

por D. Pedro Affonso, D. Gonçalo

lhas, egoas, porcos e herdades que já lhe dei, e

Mendes, D. Martim Fernandes, D. Lourenço Soares e D. Gonçalo Soares.

os

meus

]iorcos (jue

tenho

(jue tenlio

em

lívora

em Santarém. Do gado mando que se dê aos parenlíellida,

Sendo caso que algum
estas cousas, por

ou alguns d 'estes morrer ou morrerem, os que
d'clles ficarem

tes

que n'éste reino houver de D.
ella
si

do

devem cumprir

modo que dam entre
o

ordenou,

e o

remanescente

divi-

quaesquer vias que poderem fdebent ca adimplere modis quibuscumquc potiwrinlj. E se isto
fizerem,

o bispo e mestre-eschola d'Evora e

meu

hospital de Santarém.
(|ue

valham por
;

esta causa

sempre mais e

"Mando lambem

de cenio noventa e cinco

não menos

e se o

não fizerem valham pela

onças e meia de ouro, que tenho nas torres de

causa sempre menos, assim para
para

mesma com Deus como
que reinar os
eii,
/;

Coimbra, dêem ao Senhor Papa cem marcos,
rogo-lhe,
e

e

com

os

homens,

e

meu

filho

como a meu pae c senhor do meu corpo alma, faça com sua santíssima auctoridadedar
estas

tenha por li'aidores e aleivosos.
fonso, fdho do sobredito rei D.

rei D. Afc

Sancho

da

rai-

cumprimento a Iodas
mitia ser impedida

cousas, e não perd'ellas por

nha D.

Dulce, prometto firmemente na fc de

nenhuma

pessoa

Jesus Christo cumprir e altenlar por todas estas
coitsas, se

alguma. Deixei dez mil e duzentos maravedis das
torres de

Coimbra e da minha

arca, dos quaes

pedirei
las.

farão pagar quanto

acharem que recebi indealma. Declaro que os

viver mais que meu pae, e que não imnem consentirei impedir-se a menor d' ciE d'isto fiz já homenagem nas mãos de
e

vidamente, c o restante dêem a captivos e pobres por

meu pae,

também jurei nas mãos do
c

eleito

de

bem da minha

Braga, do bispo de Coimbra

do abbade de Al-

Historia do Portugal
colnira

109
ella se casar, as

,

que cumprirei

c lerei

particular cuidadrt

dei a

I).

Maria Paes, que se

pos-

de todas estas coisas. Eu, Pedro A/]'onso, cu,
Ooiiralo Mendes, cu,

Martim Fernandes,

eu,

Lou-

Tem suam os filhos que d'ella tenho, somente. vermelha, cera este testamento o siHlo real cm
enfiado
liste

renço Soares, e cu, Gonçalo Soares, promeltenws

em duas

tiras de

pergaminho.
i

firmemente de fazer executar todas estas coisas,

ti'stamento de Sancho

é dos últimos do-

por (luaesquer modos que podermos. E já disto temos feito homenarjeni nas mãos d'cl-rei D. Sancho,
eleito

do seu reinado, e não lhe honra a memoria. Kesentiu-se do estado, do seu
cunuMitos iíuportaiites
espirito,

nosso senhor, e o jurántos nas de lira;/a,

mãos do
e

acabnmhado

r)ela

doença que o matou

do bisjw de Coimbra

do

ali-

depois de dilatada agonia, e iniluenciado pelos
religioso.s,

Inidc de

.Mcohaça

E concedemos que faltando no

que lhe guardaram

a cabeceira,

como
fir-

sobredito sejamos todos por traidores e aleivosos.

posição estratégica. H o annuncio da paz que

"Mimilo aiOm (rislo que se o
fante D. Pe()ro

meu
o

filho

o in-

mou com
ria
([ue

o clero, e já o

um moimmento
mundano
O

da victo-

ou

1).

remando, ou
fòr morto,

meu

neto o

catholicismo

e ambicioso

infante D.

Fernando

repartam os dois

alcançara sobre a fraqueza mental, que Affonso n
qualificou de imbecilidade.
ria foi

(jue fiearem entre si este dinheiro,

que lhes

dei,

espolio d'essa victo-

exrepto aquella parte que o morto appiifar por
sua alma. Do

opulento
i

em

dinheiro e

em mercês

politi-

mesmo modo,

se a

minha

lillia

a

rainha D. Thcreza fòr morta, herde a rainha
D.

cas. Sanr'ho tinha amontoado avaramente grossos cabedaes, que orçavam por um milhão de raora-

Branca Montemor e lísgueira, e suas
tiver,

filhas

ha-

bitinos ou

mais de mil
e esta

e

duzentos contos déreis
os le-

jam tudo o mais que

excepto o que der por
íiJha a rai-

da moeda actual;

somma, deduzidos

sua alma. E se fòr caso que minha

gados dos infantes e suas irmãs, foi repartida por
mosteiros, egrejas e ordens militares. Ao papa

nha D. Sancha morra primeiro, minha fdha a
rainha
1).

Derenguria herde Alemquer, e suas
si,

foram ofTerecidos cem marcos de ouro

e a esta ge-

irmãs partam o dinheiro entre

excepto o que

mandar
que

olTereeer [>or sua alma.
1).

Mando também

nerosidade verdadeiramente catholica do testador, accreseeram posteriormente concessões do

da herdade que dei a
d'ella tenho,
si

Maria Paes e aos filhos

monarcha
lhado no

à

ordem

ecclesiastica.

Em

1210 os

bis-

que se D. Maria Paes morrer,
os filhos
;

pos de Coimbra e do Porto viram Sancho, ajoeleito pedir-lhes

repartam entre
fòr

e se

algum

d'elles

perdão dos aggravos que

morto, ella e os mais que fiquem
si

com

a he-

lhes fizera,

sem

obter reparação dos que solTrera

rança e dividam entre
i]ue

o dinheiro, excepto o

d'elles, e n'esta conjunctura,

para que o clero

em

der por sua alma. Da

mesma maneira mando
I).

geral tivesse parte no triumpho dos dois orgu-

í|ne os filhos

que tenho de que

.Maria

Ayres posal.uuni

lhosos prelados,

foi

dispensado do serviço militar,
invasão sarracena, e do paga-

suam

a

herança que dei a sua mãe, e se
lirar

excepto

em caso de

d'elles morrer, o

haja toda a herança e

mento de

colheitas. Até os juizes ecclesiasticos,

dinheiro, excepto o que der pela alma dodefunrlo.
li

que sentenciaram

em

favor de Martinho Rodrifoi

isto

mando

fazer

emquanto o mestre

e

gues, receberam benefícios. A humilhação

hvires do

Templo

e o prior e freires do Hospital

completa, a submissão

foi

perfeita, tão trans-

tiverem este dinheiro, que dei a
lhas, netos e netas,
li

meus

filhos e

fi-

tornado estava pelo soffrimenlo physico e pelos
terrores

declaro a todos os que esta

moraes o caracter firme

e altivo

do mo-

esrriptura virem, que
tre e freires
fai'ão

emquanto eu viver, o mesdo Templo e os freires do Hospital

narcha

I

Em

compensação não faltaram bênçãos

e indulgências de

Roma
a
2()

a premiar-lhe o arre-

de todo este diidieiro o que liem

me

pare-

pendimento, e preces
e

encommendar-lhe a alma,
de Março de l"2ll, lendo

cer e

mandar. Foram

feitas estas seis cartas

em

Sancho acabou a

(loimhra no niez de ontuliru, era mil duzentos e
(|Uiiri'iiia e

oito.

Mando

alrni d'isto (|ue

de

i'inco

ganho em dois annos de incapacidade intellectnal a [irumessa da bemaventurança eterna, que
arriscara

mil maraveilis e dos

paimos que tenho

bra se faça entrega áquellas pessoas,
cebi

em Coimde quem redo direito.

em

vinte e quatro de serviços intelligen-

les á pátria

— na opinião dos juizes espiriluaes,
juiz

alguma coisa indevidamente

e fora

que informaram dos seus merecimentos o
supremo.

Mando também das herdades

e maravedis que

110
Outra
é,

Historia de Portugal
porém, a opinião da historia, e
Lainunta o
triste

é

mais

ral fora abolida pela

multidão dos casos particu-

toleraiilu.

epilogo da vida de

lares,

e o município

tomara todas as formas
as con-

Sancho

i,

não vae enramar o seu tumulo cora

necessárias para se

accommodar a todas
do povo com o

palmas e louros, mas grava-lhe na campa, como
epitaphio, esse

dições do viver popular, e ás relações complexas
e variadas

cognome de povoador, que
rei

diz o

do

homem

rei

e as

seu melhor elogio e assignála, para
tos

monumenportu-

classes privilegiadas.
'São

que perpetuem o nome do segundo
,

existem dois foraes idênticos

em

todas as

gucz as cidades resurgidas das ruinas, os castellos
rebentados das calvas penedias, as granjas c as
searas brotadas das charnecas. O seu reinado não
foi

suas disposições, porque não havia legislação geral

de que dimanassem,
:

nem typos

prefixos pelos

quaes se modelassem

todavia são-lhes

communs

glorioso,

mas

útil;

não

foi

tempo de colheita

os caracteres essenciaes da instituição, da qual

mas de semeiUeira.

eram diplomas. O concelho
reunidos

é

sempre

uma

as-

sociação popular privilegiada, cujos

membros,

CAPITULO Vil
Os
conoellios

— regueugueiros ou jugadeiros — ou Esproprietários immuncs — cavalleiros
tributários
villãos.

n'um

território

demarcado, são peões

tas associações constituem unidades moraes e po-

A hisloria dos concelhos portuyuezes não na
liislui'ia jiarlicular
;

calie

liticas,

e o que as distingue
sr.

umas das

outras, e

de nenhum reinailo éjusio,

permittiu ao

Alexandre Herculano grupar os
imperfeitos e perfei-

porém,

inserir o capitulo destinado a descrever

concelhos
tos, é

em rudimentares,

succintamente a sua organisação no livro consa-

a natureza e a extensão dos privilégios de

grado ao monarcha, que mais generalisou os privilégios

que gozam. Se são meramente liscaes ou administrativos esses privilevios, os concelhos

municipaes. Este capitulo tem o seu
o nmnicipio ro-

que os

começo na Introducção, porque

têem pertencem á calhegoria dos rudimentares.

mano

é a

origem do concelho do primeiro período
:

Onde ha jurisdicção
rio fiscal, existe

local,

haja ou não funcciona-

da monarchia

todavia, se aquella instituição de-

um

concelho imperfeito. O con-

mocrática sobreviveu ao Império, atravessou os

celho perfeito

e

completo possue

um
si,

systema
e mili-

tempos gothicos, sobrenadou na invasão árabe
se revigorou á

e e

de instituições administrativas, judiciaes
tares,

sombra da monarchia ovetense

que lhe permittiria viver sobre

se acaso

leoneza, não resistiu a lanias revoluções

sem

ser

se

profundamente modificada por

ellas. .Não resistiu

der central

quebrassem os vínculos que o prendem ao poé o mais legitimo representante do
:

como uma arvore com

as raizes encravadas, o
:

niunicipio romano.

Mas

estes grupos

não são

bem
fa-

tronco erecto, a folhagem viçosa

passou atra-

extremados. Ha organisações concelhias que

vez dos séculos e das transformações sociaes

em

zem

Iransição d'uns para os outros, e
foi

como o

sementes, raizes e estacas, que
cia

nem

a inclemêndes-

grupamento

feito scientificamente,

altendcn-

do céu

nem

as devastações dos as

homens

do-se só à natureza dos privilégios e dos magistrados que os representam, junctou concelhos

truíram,

mas que

mudanças de

torrão,

de

clima e de cultura, fizeram degenerar. lia dege-

ainda dilTerençados profundamente por disposições dos seus foraes, concernentes ás condições

nerescências de vegetaes que consistem na varie-

dade da coloração das
foi

llòres

:

similhante a esta

das pessoas, aos tributos, ás relações

com os

se-

a degeneração do principio municipal romano.

nhores do solo e a outras espécies, o que todavia não

Subjeito primitivamente a

um

pequeno numero
xii

impede esse grupamento de ser racioas

de formulas rigorosas, quando surge no século
e

nal, methodico, e talvez o único possível para
satisfazer

em

1'ortugal

apparece tão variamente applicado,
discri-

necessidades do estudo analytico

que a par de concelhos que quasi se não

e lia generalisação.

minam

das povoações sujeitas ao direito publico
outros ha que parecem republicas au-

Os concelhos rudimentares eram sempre constiluidos por indivíduos tributários, e a

commum,

fnmquia
rajii-

tónoma.s. As formulas

haviam sido espedaçadas.

que os caracterisa mirava a poupar-lbes as
nas
e as violências

A tradição cedera

ã

espontaneidade, a regra ge-

dos exactores íiscaes. Para uão

Historia de Portugal
terem contacto com
ordinariamente por
elles,

111

os villãos

nomeavam,
ir

dVlles, daremos, todavia, exemplos de todos.

oJeit;ão,

um

dos seus para
entre-

Os frades do mosteiro de
ral,

S. Vicente

dizem no

fo-

cobrar os triliutos que todos deviam, e
{lal-os

que concederam a

S. Julião

do Tojal: «He-

ao senhor no próprio domirilio, ou ao inllic

servanios para nós o poder e jurisdicção de dar

dividuo que

arrecadava os ren<iimentos

:

esse

uni juiz.

.

.

II

e
:

não faliam

em

funccionario ad-

funccionario local clianiava-se
rio, e relritiuia-se-llie o
ju|,'a(ia.

mordomo ou vigáserviço com isenção de

ministractivo

— o concelho é do primeiro género
:

dos inqierfeitos. No foral de lialneo lè-se

«Se

Ao direito de ter vitjario andava oniinacollecloi' puhlii'0 e repel-

algum dos moradores
ração pc/os visinhos»;
nero. Celeiros

ferir

alguém, dè-lhe repa-

riamente anncxo outro, que lhe era relativo, o
de vedar a entrada ao
lil-o,

— Balneo é do segundo géislo é, o
ir

tem justiça e mordomo: «As fianças

se quizesse entrar: o foral de Soulomaior,

sejam d'nm bragal,

homem
ii

que, cha-

por exemplo, auctorisava os jugadeiros a espancal-o,
e a

mado

a juizo,

não quizer

a elle, dê ura bragal

mesma

auctorisação so encontra

em

ao concelho o
concelho.
«
.
.

uma

pellc de coelho

justiça do

muitos outros. O de i;a[)elludos diz expressa-

.

«Ponde cada anno d'entre vós por
individuo, de
. .

mente, alludindo ao foro que estabeleceu: «Este
1'ôro

mordomo um
ceiro género.

quem recebamos

a

seja entregue pelos vigários da vossa villae
»

vossa renda e as multas.

»

— Celeiros

é do ter-

não entre ahi o mordomo.

Diz mais

:

«

.\s

coimas

O quarto

é o dos burgos, de que

julguem-se por inquérito de homens bons de três
aldeias da vossa freguezia, e as execuções sejam
feitas pelos
tra

tractaremos á parte. E do foral de Coimbra a seguinte disposição
:

«Se algum ctíDa/Zítro comprar

vossos vigários.

«

Esta di.sjiosição mos-

vinha de tributário, seja essa vinha isenta.»—
(Coimbra, (]ue tem peões tributários c cavalleirosvillãos, pei-teiice ao quinto

que os encarregados da cobrança tinham
lriM"i,
píii'a

poderes, dimanados do senhor da

género. Finalmente,

compellir ao pagamento dos direitos ipic
lenciaiu, e

llir pci--

são exemplos do sexto género ou da sexta for-

que portanto não eram

fuiici-ionarios
Im^cíxícI a

mula os concelhos de .Melgaço, de
e de
|ior tributarios-villãos,

\'illa-boa-jejua

exclusivamente nmnicipaes. V.m

sua

Mougadouro, que não sendo habitados senão

nomeação precisava
Templo, (juanlo
á

ser conlli-mail;! iiclo bailio do

gosam das

instituições e

intervenção dos Iwtncns-hons

dos

pi'ivil('gios

mOs municípios mais graduados,

na applicação das coimas ou mnllas criminaes,
é preceito pouco vulgar nos diplomas dos concelhos rudimentares, nos quaes esta espécie de jury,

cm

que ha sempre cavulleiros-villãos.
burgos, que já mencioná-

A denominação de

mos, cabia ás povoações contíguas aos mosteiros,
ás sés, aos paços reaes e aos caslellos.

formado pelos homens mais ricos e melhor conceituados

Nem sem-

duma
cm
:

povoação, nunca inqueria
regra, senão

nem
fa-

pre os burgos tinham organisação municipal;

pronunciava,

em

matéria pura-

tinbam-n'a, porém, o Porto, Constantim, Guimarães e .Mesâo-frio, que
tos,

mente Gscal

o foral de Capelludos é dos que

eram concelhos imperfei-

zem a transição para os dos concelhos
cal,

imperfeitos.

e

o que os distingue dos outros do
e permitte collocal-os

mesmo

N'estes é que ha propriamente a jurisdicção lo-

grupo
é

num género á parte,

exercida só por

um

juiz eleito pelos

mora-

que

em

todos elles a base do tributo directo é o

dores ou

nomeado pelo senhor, ou pelo juiz e conjunclamente os homens bons. Alguns também
os teem. Os visinhos d'uns são exclusivamente

prédio urbano, e não a terra. De immunidades judiciaes e administrativas todos

eram pouco

fa-

teem funccionarios administrativos, outros não
peões tributários, n'outros ha também cavalleiros-villãos e entre aquelles
,

vorecidos. Constantim, Guimarães e Mesâo-frio

tinham o seu

juiz electivo,

mas

faltava-lhes o

mordomo

e o Porto dependia da jurisdição do

apparecem concelhos

maiorino do bispo.

que só se distinguem dos perfeitos pela condição
uniforme
e inferior das pessoas. Estas distincções
sr.

A organisação do systema

judicial e as dispo-

sições relativas á administração nos concelhos de

serviram ao

A. Herculano para separar cinco

géneros de concelhos imperfeitos, aos quaes accrescentou mais um, formado pelos burgos
;

que temos tractado, não tem nenhuma particularidade, que se não encontre n'algum dos diversos
typos dos concelhos perfeitos. É n'estes, que pode
ser estudado o organismo municipal, que n'a-

dis-

pensando-nos de estudar miudamente cada

um

112

Historia de Portugal
compensação, porém, gosani de grandes honras
e

quelles apparecc sempre mutilado, consistindo

n'essa mutilação, e nunca

em

accrescentamento

recebem valiosas retribuições. N'alguns conce-

ou interpolação, a sua

caracteristica, e por isso

lhos teem salário, n'outros cobram

uma parte

das

poude ser breve a noticia que dêmos duns, e por isso lerá de ser extensa a que vamos dar dos
outros.

multas applicadas por contravenções e dclictos,

em alguns percebem emolumentos pelo julgamento de causas crimes. As suas moradias estão em
regra isentas dos encargos de aposentadorias

MAGISTRADOS MUNICIPAES

ou as suas pessoas de servidões, especiahnenie

Também

os concelhos perCeitus Icem diversas

de aniiduva, ou as suas propriedades de foros e
jugada. Se viajam

constituições: ha, porem, três lypos de foraes,

em

serviço teem direito

aga-

que serviram de modelos

a

muitos outros, e são

salhado e mantença nas povoações do concelho,
e

os de Santarém ou Lisboa, de Salamanca e Ávila e os foraes que se não modelaram por
d'elles,

quem

os offendc ou attenta contra a liberdade

nenhum
sr.

das suas deliberações incorre

em

penas severas,

constituem, na classilicação do

Her-

que cht'gam a ser o desterro

e a morte.

culano,

uma

formula á parte, a quarta, sendo

da primeira formula os que imitaram o de Santarém, da segunda os que copiaram o de Sala-

alfozes por vastos territórios, e estarem

Não era raro estenderem os concelhos os seus como dis-

persos e isolados pela dilliculdade das conmiunica-

manca, e da terceira os que se regularam pelo
d'Avila.

ções os
tal

membros d'uma

familia municipal, e

em

Em

todos elles e

em

todos os municíclasses de pese os

caso mal podiam os funccionarios jurisdiccio-

pios d'esta
soas,

ordem existem duas

naes acudir-lhes a todos com a justiça, multiplicando-se para inquirirem simultaneamente de negócios vários

que recordam os decuriões

privados,

e são os cavalleiros villãos e os

peões e exis-

em locaes diversos

e distantes. Para

tem também presentam os decemviros e qualorviros romanos.

magistrados jurisdiccionaes, que re-

remédio d'esta insuHiciencia tinham, porem, delegados e accessores, escolhidos pelos habitantes

O foral de Santarém

c todos os que o imitaram cha-

das villas ou aldeias
e chamava-se-lhes
aporlellados,
tello,

mam

a estes magistrados alvasis, por corrupção

em que deviam funccionar, commummente jurados ou

da palavra árabe al-wasir, denominação do ministro ou conselheiro do soberano, posteriormente
dos chefes da administração o de Salamanca cha;

derivando esta palavra de por-

que era o tribunal. Nos concelhos nascidos

d'outros,

como nasceu

o de Touro do da Guarda,

ma-lhes alcaides, termo derivado de al-hhadi,
juiz entre os

havia sempre aporlellados. Algumas vezes eram

mussulmauos. Alvasis

e alcaides são

também designados por
gistrados subalternos:

alcaides. Concelhos ha-

os mais elevados funccionarios municipaes. São

via tão extensos ijuo tinham doze d'estes

ma-

geralmente dois. Elege-os o povo annualmente,
e o primeiro dever dos eleitos é jurar que não

«Os alcaides da Guarda

cumpram
rem
.

tudo isto ... e se assim o não cumpri-

houve

vicio

na

eleição, e

bem

assim que mantee farão jus-

.

.

lodo o concelho os haja por falsarios e

rão os foros e
tiça recta.

costumes do concelho

derribem-lhes as casas e nunca mais entrem

em

Julgam conforme o

direito escripto e

nenhnmáos doze lagares dejurados do coíwelho.n
Apesar de derivarem da eleição popular, iam prestar juramento nas mãos do juiz municipal, de que

os usos estabelecidos, e segundo a própria rasão,

quando

a legislação é omissa.

Em
,

algumas parreceberem

tes cumpre-lhes estar no tribunal para

eram representantes
dizia dos

e

dependentes, e assim se

queixas a toda a hora do

dia.

Mais geral é a obriex-officio

moradores de Germelo, aldeia do termo
villa

gação de nomeiarem advogado

quando

da Guarda, que «costumavam virá
trabalhar no

(Guarda)
ali

o réu é pobre e indefeso, ou de se encarregar
d'elles d'este ministério,

um

muro

e

nos fossos, e que ia

pe-

não havendo outra pes-

nhorar e cobrar o mordomo, levando o mandado
dos alcaides da Guarda, que o alcaide que ahi fa-

soa que o exerça. Se

abusam da aucloridade são
direito de

severamente punidos, aqui com a perda dos bens,

ziam
villa,.
feria

ia
. .

dar juramento perante os alcaides da
e

além com a privação do

desempenhar

que se o alcaide que ahi havia pro-

cargos públicos, e usualmente respondem pelos

sentença appellavam d'ellapara os alcaides

damnos que causara, julgando contra

os foros;

cm

da Guarda.» Este trecho das inquirições de 1290

Historia de Portugal
prova

113
a

também que os
e
lia

juizes

secundados depensei;unda

Santarém que para mais firmeza

façam

sellar

diam dos seus superiores
instancia
;

como de uma

com

o sello do concelho.

ainda

iiidicios

de (|ue algumas ve-

zes se junclava o alcaide aos seus accessores {al-

pois, civil e criminal.

A jurisdicção dos magistrados duumviraes era, A criminal alcançava to-

caldecum
pleitos.

sociis siiisl para presidi r a

importantes

dos os munícipes, e não o eram os
classes privilegiadas,
ritório concelhio:

membros das
ter-

embora residentes em

A jurisdicyão dos magistrados nmnicii)aes nos
deiictos contra as pessoas era limitada ás questões

mas algumas vezes

até os pri-

vilegiados estavam sujeitos a essa jurisdicção, se
a pessoa por elles aggravada era e assim dizia o foral de Lisboa:

entre os habitantes do concelho
cipio geral.

;

este era o princri-

um

vizinho,

Nas cau.^as eiveis, porém, e nos

«Não haja na

que de algum modo diziam respeito aos bens situados no território do muni-

mes

relativos a cousas

vossa

villa

pessoa Ião privilegiada, i|ue possa

sustentar o mal que tiver feito a qualquer dos

cípio, a natureza

da cousa ou do facto disputado

seus visiiihos e eximir-se de Ibe dar repaiação
pelo alcaide e pelos alvasis.» Este foral é, po-

determinava o fòio judicial

em que

se

havia

de

dii-imir o pleito,

mas

esse foro era sempre o

rém, do reinado de Sancho

i

e está

impregnado

dos funccionarios duumviraes, e n'elle compa-

do espirito popular d'este monarcha ou do seu
chancellcr, porque a regra era

reciam até os nobres e os ecclesiasticos, princi-

serem julgados os

palmente quando pleiteavam com visinho do concelho.

nobres pela cúria do

rei

ou pelos magistrados su-

O

tribunal do concelho, a

que pertencia

periores dos districtos, estendendo-se esta regalia

materialmente o objecto sobre o qual versava a

aos seus familiares c até aos seus colonos.

demanda, era o competente para a

julgar, até

Ijuando o olTendido e ofTensor pertenciam a concelhos diversos onde se julgava a causa? Os foraes da segunda formula resolvem geralmente a
difficuldade estabelecendo os
jiincías, consistindo

quando os demandistas não eram munícipes

mas membros das
priedtide
íi

classes privilegiadas, se a pro-

que litigavam estava compreliendida

mcdianidos ou as

'algum alfoz municipal. Nos costumes dEvora

na reunião dos magistrados
.seus terri-

previnia-se este caso e estabelecia-se que «de

de dois concelhos nos extremos dos
tórios, e quasi

quaesquer demandas de hoinens de fura, que são

sempre n'aquelle

a que pertencia

demandados perante os juizes, cobrem o dizimo da
importância da causa por elles julgada.
suscitou-se
»

o réu. «.\quellcs que deverem ter juizo ou janela

Em

1

1

79

com homens de
"

outras terras, tenham-n'o no
estatue o foral da (iuarda.
:

em

(ioimbra

uma

contenda entre o

cabo do seu alfoz

O

mosteiro de S. Jorge e uns pescadores, por causa

de Monsanclo

é

ainda mais preceptivo

«Se o mo-

da posse

duns

caneiros; julgaram-n'a os magis-

rador de Monsancto tiver de entrar

em juizo com

trados duumviraes. E da ingerência d'cstes

ma-

homem
tas

de outra terra, não pleileic senão ás por»

gistrados nas questões eiveis na.sceu o uso de se
recori-er a elles

de .Monsancto.

Nos foraes de outras formulas

para confirmarem os contractos,
falta

também
nido
:

ás vezes apparece iiisiiluido o mcdia-

que podiam por

de cumprimento dar logar

o de Seia chama-lhe julgamento a meio

a pleitos, [que a sua auitoridade tivesse de julgar,
e os alcaides

caminho. As vezes, porém, suppria-se o julga-

ou alvasis ficaram, portanto, exer-

mento dos magistrados de dois concelhos por
convenções como esta
:

cendo

uma

espécie de tabellionato, emquanio o
e ainda de-

«

Se algum ou alguns ou tiverem con-

não houve regularmente constituído,
pois.

dos homens da Covilhã

tiver

O

sr. A.

Herculano dá noticia de muitos do-

cumentos, que provam a intervenção dos alcaides
e alvasis nos contractos particulares, sendo
d'elles o

um

tenda com outro ou outros de Castello Branco, venham a esta villa para que lhe administrem justiça como aos próprios visinlios; o mesmo

instrumento de doação de

uma vinha do

façam os de Castello Branco aos da Covilhã,
e

Cereal ao mosteiro de Alcobaça, instrumento que

não haja medianido entre

elles.

»

Onde faltam

o tabellião d'Obidos declara ser redigido por or-

convenções como estas ou o tribunal collectivo,
o principio genérico que se applica é o do jul-

dem

dos alvasis, e outro a carta

em que

os frades

de Alcobaça, tendo alcançado escriptura d'uma
cessão do bispo de Leiria, rogam aos alvasis de
vur,.

gamento do réu pelos magistrados do concelho
a que pertence, qualquer que seja a residen-

i—

l."i.

114
cia

Historia de Portugal
um
{irincipio liberal e equi-

do aggravado. É

cam-se, porém, pela confusão e pelo arbitrário

tativo.

que reinavam na administração publica.

Os alcaides ou alvasis tinham também attribuições fiscaes, principalmente para decidirem
nas questões suscitadas entre os oiliciaes do fisco e os visinhos, ou legalisar o procedimento d'aquelles contra estes por falta de

Em
lativas

alguns concelhos tinham attribuições legis:

isto é,

podiam por auctoridade própria

promulgar e alterar regulamentos concernentes
á administração municipal, e os foraes de Freixo

pagamento de

da Serra e Santa Cruz declaram expressamente

contribuições devidas à coroa. Nas cartas municipaes de Yilla-Viçosa e Estremoz é doctrina

que quaesquer prohibições (cautos) impostas pelos

commum

a

alcaides

devem
escriptas

ser respeitadas,

como

se

de que os mordomos não penhorem
pessoa,

estivessem

na carta municipal. Nos
alvasis,

nenhuma
cipal veiu

sem

a

chamarem perante

o

municípios do typo de Santa Cruz era d'uso

alcaide e os alvasis. Esta

mesma

regalia

muni-

poderem os novos
seus
tel-os

quando tomavam

a

introduzir-se

em

quasi todos os

posse dos cargos, alterar os regulamentos dos
antecessores,

diplomas do typo de Santarém. Mais ou menos,
o agente do fisco dependia dos magistrados
nicipaes, e a penhora só tinha effeito

devendo ou não submet-

mu-

á approvação da assemblêa popular.

E

quando era
deposito até

da carta de Beja este trecho:

«Costume

é

que

julgada legal ajusta pelo tribunal burguez, sendo
usual ficarem os bens penhorados

no tempo

em

em

outros, estes

que uns alvasis saem e entram possam revogar as resoluções tomapor bem».

á sua sentença, e não raro se estatuía que d'esta sentença não havia appellação. Nos concelhos de

das por aquelles, e depois substituirem-nas pelas

que o concelho

tiver

segunda formula, as funcções

fiscaes

competiam

Como
julgavam

juizes, os magistrados
sós.

duumviraes não

principalmente ao judex, entidade que faltava

Em muitos casos concorria com elles
como opportuas
e era

nos outros concelhos. O judex advogava perante os alcaides as causas do fisco, procedia às execuções quando se

o representante do poder central,

namcnte veremos,

ainda mais vulgar interpleitos

impunham

multas, calumnias,

virem na resolução dos

assembléas

aos criminosos, e o vigário, o almoxarife, o
official

mordomo-mór, o

de fazenda, emfim, rece-

chamadas dos homens-bons (boni hominesj, que eram os chefes de familia mais abastados e melhor
conceituados de cada povoação. Os homens bons,

bia d'elle os redditos judiciaes pertencentes à
coroa.

Nos conceUios de
foral d'Avila,

terceira formula, que

como accessores dos
modernos jurados,
cipio

juizes,

correspondiam aos

tinham o

o judex, emquanto o

e por elles se applicava o prin-

houve, exerceu funcções similhantes ás que este magistrado desempenhava nos municípios da

do julgamento pelos pares, principio consué-

taneo á Índole da sociedade germânica, e que,

segunda formula; quando, porém, o substituiu o alcaide, o encargo de soUicitador da fazenda
nacional passou para o almoxarife.
indícios de

como muitos

outros destinados a garantir a liber-

dade individual, passou, atravez dos séculos,
d'essa sociedade pura a civilisação actual.

Também ha

que

os alcaides, alvasis c o judex,

Ha muitos

vestígios da intervenção dos ho;

afora a sua intervenção nos negócios fiscaes de

mens-bons nos julgamentos
Tendo-se suscitado
letigio

citaremos alguns.

que já

demos

conta, ainda de outro

modo

se
ter

entre o
e

commenda-

ingeriam

em

assumptos que parece deverem

dordo Templo em Santarém
decidiu diz

um

cavalleiro, pe-

sido da competência exclusiva dos agentes da

rante o tribunal do concelho, a sentença que o
:

coroa

:

encontramol-os, nos documentos, gerindo

«O alcaide
os

e os alvasis

debateram a

rendimentos de certos bens da coroa, examinando
títulos

matéria

com

homens-bons c ouvido o seu con.
.

de propriedades, demarcando terras,
;

fa-

selho julgaram.

»

O

tribunal municipal de San-

zendo restituir outras usurpadas

e

havemos de

tarém, sentenciando a demarcação de duas propriedades, feita por juizes árbitros, usa

ver as cortes de Leiria de 1261 ordenarem que
as quantias votadas ao rei, para resgate da antiga, sejam lançadas e cobradas pelos

em 1286

moeda homens
expli-

da seguinte formula
sis,

:

«Nós, o dito alcaide e alva-

havido conselho

com muitos homens-bons,
documentos co-

bons e magistrados de cada logar. Estas relações
das auctoridades municipaes

damos por

juizo ...» Por outros

com a coroa

nhece-se que os homens-bons iam aos mediani'

Historia de Portugal
dos, onde os havia.

116
Quando os
alcaides
si

Mas

as corporações dos chefes

ses privilegiadas.

ou

alvasis

de família, além de attriliuições judiciaos, exer-

viam o
rigo

foral

ameaçado chamavam a
e é

os

homens-

ciam também
convertia-se

func(;õ('s legislativas, e

então o jury

bons, para que todos junctos acudissem ao pe-

em

parlamento

local,

elementar-

commum,

um

dos muitos exemplos d'essr.

mente

constituído. Dissemos, falhmdo dos

ma-

tes appellos o caso
([ue leve

que o

Herculano narra, e

gistrados duumviraes, que a sua prerogativa de

por theatro o concelho d 'Alemquer. En-

alterarem os regulamentos dos antecessores estava
;\s

tre o alcaide, representante

do

rei, e os alvasis

vezes subordinada á sancção de asscm:

travára-se conflicto, querendo aquellc funccionario

bléas populares

estas asscmblêas

eram

as dos

que lhe pertencesse o

direito

de nomear os

boni-honiines. Os costumes de Santarém estabe-

porteiros e reivindicando os alvasis esse direito

lecem que as posturas devem ser

feitas á

vontade

para o concelho. Não podendo chegar a accordo os
pleiteantes, os olliciaes municipaes recorreram

do concelho, (raccordo com o alcaide
sis
;

e os alva-

o concelho é n'este caso a reunião dos chefes

para o povo, para que por

si

se defendesse,

eos

de familia honrados da povoação. A"um escripto de 1267 mencionam-se até as formalidades com

promenores d'este incidente foram relatados por
testemunha ocular n'estes termos pictorescos:
«Está lembrado do tempo

que os homcns-bons resolviam ou concorriam para
resolver as questões económicas e administrati-

em

que era alcaide

ímór) de .\lemquerD. Affonso Lopes de Baião, que

vas do município, dizendo-se: «Nós, N. alcaide,
e N. N. juizes e concelho de Montemór-o-iiovo,

deixou

ali

por alcaide (menor) a N. Foi este que

usurpou o provimento do cargo de porlciro pondo

convocados todos especialmente a este propósito
e reunidos na egreja de Santa Maria da Praça,

um

de sua mão,
villa, e

com

o que se
a

offcndido. Succedcu

dahi

deu o conselho por pouco vir D. Affonso

tendo discutido attentamente o negocio, por ser matéria de interesse

Lopes á

estando na egreja de S. Estevam,
elle

commum,

recolhidas as opi-

foram

fallar

com

muitos homens-bons da
al-

niões, tomados os votos de todos e de cada

um,

terra, representando-lhe o aggravo que o seu

primeira, segunda e terceira vez,

damos

e con-

caide fazia ao concelho
ria,

em

usurpar-lhe a porta-

cedemos.
tos

.

.

»

Eis

como funccionam

os parlamen-

fiespondeu-lhes D. Aflonso Lopes, dizendo:
eu,

burguezes. Convocados provavelmente pelas

Não quizéra
vesse quebra

auctoridades que presidem ao concelho, reunemse

egreja cheia de ouro, que por

meus amigos, a troco d'esta minha causa houfeito,

n'um templo,

e ahi

cada uni dos seus

mem-

em

vosso foro. E de

ordenou

bros, informado do fim da convocação,

exprime o
ou

a N. seu alcaide (menor)

que deixasse ao conce.

seu parecer, emitte livremente o seu voto, os votos são consultados três vezes para evitar erro

lho o provimento d'aquelle cargo.
pois a alcaidaria

.

Obteve de-

imón

1).

.loão,

quepôz por alcaide

leviandade, e a maioria dieta a sentença, que é

promulgada

em nome
feitas

da assemblêa. Todos têm
;

(menor) a N. o qual renovou a usurpação com grande queixume do concelho, que assim se via

o direito de zelar os interesses de todos

as leis

esbulhado do seu direito.
os

Em consequência d'isso
da
villa

municipaes são
obedecer-lhes
;

por aquelles que

devem
e a

homens-bons
si

e os alvasis
foi

tomaram

a sociedade municipal regula-se
;

entre

um

accordo, e

o de prohil)irem ao

pela concordância das opiniões individuaes

porteiro,

nomeado

pelo alcaide menor, que inti-

liberdade democrática é mais real, no seio dos

masse pessoa alguma, prohibindoconjunctamentc
ao povo acudir ao chamamento
todavia,
d'elle.

concelhos da edade media, por mercê de seus
raes, do que
politicas,

fo-

Houve,

no seio das modernas sociedades

apesar das suas volumosas cartas repre-

sentativas.

Mas quem ha de intimar qualquer individuo para virajuizo? A isto responderam os homens-bons; Quando uma pes-

quem

perguntasse

:

D'estes parlamentos rudimentares que,

quando

soa quizcr chamar outra ao tribunal, intime-a
perante os homens-bons para que venha dar-lhe
repíiração
teiro

era preciso, se transformavam de j.acificos
hellicosos, de deliberativos

em

em

executivos pela

em

juizo.

Assim

se fez, até

que o por-

força das armas, tiravam os magistrados autori-

nomeado

pelo alcaide

menor declarou que

dade para resistirem ás tentativas de usurpação
dos officiaes da coroa ou dos

se denietlia de veito auferia.

um

cargo, do qual

nenhum

pro-

membros das

clas-

116

Historia de Portugal
Temos
os uiiicos,
faltado até aqui dos alcaides e alvasis e
ijâo

Eis aqui uniii icvoJugíio pacilir-a rÍLTrulada c

organisada

pclo.s

homens-boiís,

para defensão

dos seus collaboradores:

eram

elles,

porém,

dos privilégios eoneelhios; outras houve violentas
('

embora fossem os

prini-ipaes funi-cio-

sanguinárias, priielanjadas

Jias

crastas dos tem-

narios dos concelhos. .Vssiniconio representavam
os duitmviri e quaiuorviri dos nmnicipios

plos pelos parknnenlos burguezes, quelcvautavaiu

roma-

as sessões para correi^eni ás armas.. os pi-eseiiciar lormidaveis,

Havemos de

nos, havia a par (Telles entidades que recordavam
os edis e e.Kerciam
çóes, e estes
ijue

nos últimos tempos

em grande

|iarte as

suas func-

da dyuaslia borgonlieza.

U que eram,
tanto nos

|iorOm, estes homens-hons, eujo
e

eram principalmente os almoluccs, haviam tomado o nome do drãbnel-mohtcsib.

aggregado formava o concelho,

que inlervinbam
resolu(,-ão

Estes olliciaes não existiam, todavia,

em

todos

julgamentos como na

das

os concelhos do reino. Faltavam originariamente

questões administrativas e económicas?
]iula(_'ão

Na po-

nos do typo de Salamanca e nos do typo d'Ayihi,
e é de crer que

dos concelhos perfeitos havia sempre

nuns

e n'oulros a administração

eavaheiros-villãos, proprietários livres, c peões
tributários;

dos mercados, a policia das vias de transito e a

seriam os homcns-bons da classe dos

conservação dos edifícios competisse aos alcaides

cavalleiros, e constituiriam, portanto,
a aristocracia

como que
hege-

comtudo, o tempo acabou por introduzil-os, como
necessários que eram, n'estes

do município, sendo

a

sua ingerên-

mesmos concelhos,

cia

nos negócios a característica

duma

fazendo o uso

uma

interpolação nos foraes. Os

monia

social, d'um regimen oligarchico ? Não. As assembléas municipaes eram puramente demo-

almolacés são, porém, antiquíssimos nas socie-

dades municipaes da primeiro formula,
typo de

isto é,

do de

cráticas.

Eram homens-bons

todos os chefes de

Santarém ou Lisboa,

e as posturas

família, cavalleiros ou villâos.

X posse da proprie-

Coimbra regularam-lhe as attribuições no aimo
de 1145, dando a entender queos almotacés existiam na cidade antes d'essas posturas, correcções d'outras anteriores, sendo provavelmente
tão antigos

dade não dava exclusivo

direito a opinar e votar

acerca dos interesses do concelho, e d'este direito
só estavam privados os servos e os indivíduos as-

soldadados.
•114.")

Na rubrica das posturas de Coimbra de
«Correcção dos costumes de Coimbra
»

como o próprio concelho.
1

lè-se:

O

foral

de Torres Novas, de

190, é o que

me-

ordenada por lodos os cidadãos.
bulo está escriptoque:
«
.

No seu preamsem du-

lhor serve para se reconstituir a individualidade

.

.foi

resolvido por todos

do almotacc. N'esta

villa

havia dois almotacés,

os homens-bons da classe mais elevada

um

maior, outro menor.

Ambos eram

eleitos

vida a dos cavalleiros-villâos)

cda

inferior (a dos

pelo concelho e pelos magistrados duumviraes,

peõeS; da cidade de Coimbra, que se corrigissem
c

que provavelmente o propunham ou confirma-

melhorassem os

foros e

costumes ...» E

a

prova

vam. A sua jurisdieção estendia-se ás questões
acerca de caminhos vicinaes, aosaqueductos, ás
servidões que lhes eram relativas, á inspecção dos
edifícios e das ruas e

mais positiva de que nem só os cavalleiros-viUãos tinham entrada nci grémio dos homens-bons, é
que
d'elle faziam parte artífices,

invariavelmente

sua limpeza, aos pesos e
olliciaes d'ollicio, à conj

pertencentes á classe dos villâos, pois que no acto

medidas, á policia dos

de doação dos bens de Traxede, ao mosteiro de
S. .lorgc

feita

em J172
n'um

servação dos cães, fontes e navegação dos rios
e ei-am

em presença

de homens-

também

elles

que taxavam os preços das

bons, apparere assignado
ilocunicnto de
|-i4l)

um

sapateiro;

vietualhas, segundo
lica

mandava

a

economia

[loli-

assignara

também como ho-

do tempo. Tiidiam também competência ju-

niens-lionsuni alfagcme e

de 1239, de Santarém,
l)inteiro;

um sapateiro; noutro, um cozinheiro o um carinfinidade de provas

dicial

em

todos os litígios concernentes a cousas

que

d'elles

dependiam admim'strativameute,
jirocesso

jul-

podendo aponlar-se, segundo assevera
Herculano,

gando por
bunal fixo,

o

sr.

.\.

uma

summario e sem terem trimas havendo appellação das suas

escriptas de que os

dição,

homens da mais humilde consendo livres, gosavam dentro dos concefói'os

sentenças para os magistrados propriamente jurisdircionaes.

lhos de todos os

de cidadãos, e como honi

Os almotacés estavam isentos, como os alcaides
e alvasis,

homines inteiieriam na gerência municipal.

do pagameuto da jugada.

e o

seu cargo

Historia de Portugal
ri;i ri'li'il)uiilii
(|ii(;
|i(ii'

117
dava posse dos

meio

(ruiiia i|uol;i lios

géneros

a juizo, fazia iieidioras e arrestos,
heiís julgados

!*u

wiuliuiii

;i

ri'Uilliu

nus meneados c runs,
(jue

por sentença

e puidia-os

em

hasta

( (l'uiiia parle
iiiipuiiliani

ou da lolalidade das multas,
nos

puhlica, mettia

em

deposito as cousas acerca das
pri.sões.

por contravenção de posturas. Os easelles excciílavain-se
licja,
[)e:

quaes havia demanda, e fazia

Era no-

tigos

ordenados por

meado conjunctamente
pelo ali'aide,
l/o
i'

pelos juizes electivos e
se

louriíilios,

eonio o prova a caria dv

dizendo

poi- isso

chamava orã porteiro

«llsalmotacés maiores
consistia
olirií,'al-o

devem

fazer justiça, a qual

alcaide,

ora das alvasis, ora. í/o concelho,

em

jiiM-

o

deliii(|ueiile

no |)elouriulio e

e no acto da

nomeação prestava juramento de
c^irgo.

a contar lá

de cima

cíikh) soldos paivi o
ali.
»

bem
vezes

servir o

Tinha retribuição
fixo,

:

umas
tinha
(io-

eoucellio, conscrvaiido-ii eiilrclaiilo

n almo-

percebia

estipendio

outras

lacé
lieial

menor, onde o
de jnsliça,

liavia, ei"i

uma

espeiie de of-

emolumentos do trabalho a que se dava.

([Ue

executava as onlens do

zava de certas isenções pessoaes, ([ue chegavam

almolai'é maior;
l\){'

em

al.Liumas [lartes

cliamavam-

em

certos casos á despensa do pagamento da jue ás prerogativas dos cavalleiros-villãos.

andador.
clia-

gada
não

Outro fnnccionario superior dos concelhos

?y"alguns concelhos de segunda e quarta for-

mava-se scsmcivo
elles e tinha

;

existia,

porém,

em

lodos

mula os porteiros estavam substituídos pelos andadorcs, tendo attribuiçôes análogas ás suas. O
ollicial

uma

existência temporária.

Cum-

pria-llie fazer,

conforme a

direito e equidade, a
alfoz,

que desempenhava juncto dos peões o pa-

dislril)UÍção dos territórios

do

quando havia

pei que o porteiro tinha juncto dos cavalleirosvillãos,

logar para fazer-sc, ou por se iiaver estabelcciíio

chamava-se saião: pertencia, porém, á

de novo o concelho

em

terras cedidas collecti-

cathegoria dos delegados do poder central, de que

vamentc a

um

grupo de indivíduos, ou quando

em

outra parte havemos defallar.

estavam apagadas as liuhas divisórias das propriedades e era mister truçal-as de novo, ou ainda

introduziu-se

No século xin também geralmente, nofuncciona-

lismo municipal,

um

encarregado de pôr por

quando

se tornava

preciso rectiQcal-as. Usualaté

escripto os actos dos concelhos e as leis civis: foi

mente havia mais de ura sesmciro, existindo

o escrivão. Os pregoeiros tinham a incumbência

coUegios de sesmeiros, chamados sesmo; e as importantes funcgões de demarcar propriedades e
decidir questões de interesse capital,

de proclamar os nomes dos magistrados nova-

mente

eleitos,

annunciar as resoluções adminis-

estavam

trativas e judiciaes,

convocar os cidadãos para as
aos actos que

sempre confiadas a pessoas das mais gradas e
respeitáveis das povoações.

assemblèas, e
d'ella

dar publicidade

Onde

poi'

mais tempo
foi

precisavam. Os vozeií-os eram procurado-

SC conservaram estes funccionarios

nos con-

res permanentes dos municípios, cumpriudo-lhes

celhos do sul do reino, pois que, estendendo os

advogarem os seus
via

interesses,

sempre que

elles

seus alfozes por tractos de terra recentemente

careciam de advocacia.

Em

algumas partes ha-

occupados e arrancados á posse dos sarracenos,
n'elles,

empregados especiaes, que tínhamos padrões
funccionarios não ap|iarecem,

mais .que

em

quaes(|uer outros, havia

dos pesos e medidas e faziam as aferições. Estes
últimos

occasião de delimitar prédios.

porem,
todos os

Todos estes dignitários munici[iaes precisavam,
para exercício dos seus ministérios, da accessão

em

todos os concelhos,

nem sequer em

d'unia certa formula, e são peças (|uasi inúteis

de funccionarios inferiores, (|ue lhes cunqirissem
os

no mechiinisiiio do reiiimen municipal.

mandados. Kstes funccionarios, mnnerosos,
01.KU'.l.\Kg

em geral, variavam de concelho para concelho, em immero, em attribuiçôes e designações. Os
iwrleiros
ijue

DA COKÒA JUNCTO

nus OONCKLIIOS

eram os mais notáveis de todos

e os

mais commununente se encontrav;un. lím

Temos

ii-aclado ate a(|ui

dos funccionarios pro-

regra havia

um em

caila niunicipio

da |)rimeira

priameiUe nnmici|)aes; os concelhos, todavia por

e da terceira formula. l)e]iendia dos niagislrados

maioresque fossem nsseusprovilegioslocaes, não

judiciaes edos alcaides e tinha funcções deollicial

eram sociedailes independentes, pequenas repuIdicas

de justiça, f.itava os cavalleiros-viUãos para irem

autónomas encravadas no domínio

real e

118
costeando as terras senhoriaes
grante do estado, eram
associação politica, e
:

Historia de Portugal
faziam parte inte-

peões que tiverem direito a haver alguma cousa de alguém di^em a dizima da divida ao mordomo,
e o

membros d "uma vasta como taes estavam presos
senão
apertados,

mordomo

faça-lhes obter pagamento.

E

se a

ao poder supremo da associação, á realeza, por
laços

troco d'essa dizima não o quizer fazer, então o

bastante

fortes,

para

alcaide faça-lhe administrar justiça por inter-

manterem

a cohesão nacional.

Tendo

justiça sua,

venção do seu

portei.io.

»

O mesmo diploma

diz

:

administrando-se por meio de magistrados que

«Que os meus mordomos não vão fora da
prender ninguém
lências,

villa

nomeavam,

os concelbos recebiam, todavia, no

nem

roubar

nem

practicar vio-

seio delegados da coroa, incumbidos

em grande
alcaides,
militar

mas façam chamar

os culpados de deli-

parte do exercicio das funcções sociaes collectivas,
e

ctos sujeitos a

multa pelo porteiro do alcaide á
Este texto mostra que

taes

eram principalmente os

presença deste e dos alrasis, e obtenham reparação dos criminosos.
»

que como para attestarem o seu caracter
al-kaid, que
tão de

conservavam, só ligeiramente alterado, o nome

o alcaide tinha competência judicia! conjuncta-

em

árabe significava

ciíefe

ou capi-

mente com

os juizes electivos municipaes.
real reunia-se

Em

um

corpo de tropas, e que na Africa se

Coimbra o funccionario

com

os do

applicava especialmente ao commandante de qual-

concelho para deliberarem sobre objectos de policia e

quer fortaleza ou

castello.

Os alcaides, delegados

administração interna, e as deliberações

do

nomeados mais ou menos livremente, governavam os castellos, que em regra
rei, e

por

elle

promulga\um-se com

um

formulário

como

este

:

«Nós N. alcaide, N. e N. alvasis e o concelho de
Coimbra, chamados e ajunctados por nosso pregoeiro, de sciencia certa e espontânea vontade,

protegiam e assoberbavam as povoações importantes,

eram chefes das

milicias burguezas, e

civilmente correspondiam aos modernos administradores dos concelhos, tendo

consentimos e concedemos.

.

.

»

E

os reis tanto
identifica-

porem

attribuições
restri-

consideravam os seus delegados como

muito menos extensas que
ctivos

elles e

menos

dos com a sociedade local a que presidiam, que
se lhe dirigiam para tractar negócios de interesse

da liberdade e independência das cor-

porações municipaes,
lações.

com que estavam em

re-

exclusivo do município,

como

fez,

por exemplo,

AfTonso ni, que escreveu ao alcaide, aos alvasis

O

alcaide

costumava ser

um fidalgo ou homem
e a

e ao

concelho de Lisboa, dizendo-lhes:« Disscter

d'armas d'elevada cathegoi'ia,

concessão de

ram-me que vos aggravaes de eu
fazer

mandado

uma
llíe

alcadaria reputava-se

mercí honorifica e

um

dia de feira todas as

semanas nas mi-

proveitosa. Por necessidade do cargo cumpriaresidir

nhas casas contíguas
gindo renda por
era proveito
era,
ellas

á alcáçova d'essa villa, exi;

na

villa

onde tinha mando como, po;

tinha entendido que isso
»

rém, essa residência fosse ás vezes incommoda a homens da corte e senhores de vastas propriedades, que lhes era penoso abandonar, estabeleceu-se a practica de se fazerem substituir os

meu

e vosso.

O proveito do alcaide

no entender do monarcba, o proveito do mu-

nicípio, cujas franíjuías elle limitava

com

os seus

poderes de procedência

real.

alcaides-mores por delegados seus, chamados alcaides-incnores ou ince-prelores. Esta substitui-

Nos concelhos
dex:

perfeitos

da segunda formula,

o delegado do poder central é geralmente
é,

oju-

ção estava sujeita a regras variáveis. No foral de

portanto,

na essência,

Santarém determinou o

rei

que o seu nohre-ho-

dicial, ao

passo que nos de

um magistrado juprimeira formula é um
real,

mem, que
ali

d'elle tivesse

Santarém, não pozesse

chefe militar.

X

j)ar

do jtulex apparece, porem,

outro alcaide senão visinbo da

mesma

villa,

muitas vezes outro delegado da soberania
e,

e n'este caso a logar-tenencia tornou-se vantajosa

em

resumo, esta soberania faz-se representar

para os burguezes, pois mais lhes conviídui que
tivesse a delegação real

variadamente nos concelhos do typo de Sala-

um

patrício do

que

um

manca. O jiidex tinha funcções jurisdiccionaes,

estranho. Nos concelhos do typo de Santarém o
alcaide ou o seu supplente tinha funcções ju-

como

diz o seu

nome,

e a doclrina corrente era

a contida n'esta disposição

d'um
a

foral

:

«Por ne-

risdicrionaes e administrativas

:

no

foral

modelo
:

nhum

dos delictos sujeitos

reparação e a coima

encontra-se, entre outras, esta disposição

«Os

vá ahi exercer seu ollicio o meirinho real,

mas

Historia de Portugal
exerça-o o juiz do vosso concelho.
«

119
liste

Uue também

substituição do sénior pelo alcaide,

pro-

intervinha era assumptos de administração
nicipal,

denola-o esta disposição.

pousada cavalleiros,
Era também a

nem
elle

alcaides,

mu«Não dêem nem cléridi-

gresso

lento

ficou,

segundo

elle,

assignalado

nos documentos por

uma

franquia,

que deve

ter eflectuado a transição

da dependência d'um

gos; mas somente peões, por determinação do
juiz.
»

prestameiro para a liberdade fiscalisada, para

que os monarchas se

assim dizer, por

um

alcaide, e essa franquia é
ter por

rigiam, quando tinham negocio

com

o conceliio,

a de que gosava Freixo, de não

senhor

epor
por

isso AlVonso

ii

escreveu nojmlex de (louveia
feita

senão o

rei

ou o seu

filho,

tendo-a egualraentí!

para lhe ordenar que examinasse a qut^ixa

Castello-Mendo e Guarda, ou a que se encontra

um

foreiro

seu, de que os
elle

mordomos

lhe

exarada nos foraes de Penamaciir e de Proença,
c que consiste

exigiam maior foro do que

devia pagar, e
ella

em não poderem

os concelhos

sendo fundada fizesse reparar o damno que
sofTrOra.

ser dados

em

prestamos. Estas franquias de-

viam ser e parecer importantes aos burguezes,
porque os eximiam da sujeição aos ricos-homens
do
districto, a

linde o poder régio se fazia representar por

um
gum
tado

funccionario judicial, forçoso seria que aloutro

quem

o próprio prestameiro era
rei pelo

commandasse as milícias burguezas, que em toda a parte dependiam do chefe do es:

sujeito,

deixando-os só dependentes do
:

alcaide

os municípios preferiram sempre a au-

este funccionario militar existia

de facto

ctoridade real á dos nobres, por
siva e usurpadora.

menos oppres-

nos concelhos da segunda formula, supprindo o
alcaide dos da primeira, e tinha mais

duma

de-

Concelhos havia também, dos da segunda for-

nominação. As mais das vezes
(sénior).

é

chamado senhor
:

mula, que gosavam da prerogativa de não terem
senhor, e n'estes o
a

No foral de Numão lè-se Os cavalleiNumão não façam fossado senão com o seu senhor. A mesma disposição se encontra em
ros de
•>

commando

militar era

dado

um

alcaide-mór ou pretor, que se podia fazer

substituir por
ficava,

um

vice-pretor: este funccionario

muitos outros diplomas. O senhor,

em compen-

porem, de todo alheio á magistratura mu-

sação dos seus encargos, gosa certas regalias.

nicipal, e só tinha funcções militares. Tal era o

O de Mós tem direito a comedorias: «Dareis parada ao senhor ...» O de Valhelhas percebe

alcaide de Penamacor, que o foral subordinava

aos seus preceitos, e a

quem mandava abonar

uma

parte dos tributos que se
:
«

cobravam dos

uma

quota dos direitos de portagem, e o de Sal-

pastos (montalico)

tragam-n'o os cavallpii'os

O montatico de Valhelhas com o seu senhor to-

vaterra do Extremo, ao qual se inhibia ser ro-

ceiro ou procurador do concelho, para o excluir

mando para
litar

si

a terça parte.»

Como

era regra

de participação na sua gerência.

confundirem-se as attribuições, este chefe mi-

Nos concelhos da terceira formula, typo d'Avila,

também na administração local. O senhor de Valhelhas, que era um commendador do Templo, ordenou, com os alcaides e o concelho, que os visinhos, quando vendam prédios, os vendam a indivíduos que se sujeitem ao foral,
ingeria-se
e

a representação do poder central era análoga

á da primeira formula.

O

alcaide tomava parte

nas deliberações relativas a negócios administrativos e judiciaes.
«Isto foi feito e

Nas posturas de Évora

lé-se

confirmado por nós, alcaide, e

impõz multa ao coutraventor. E de todas estas
sr.

por N. N. juizes e por todo o concelho de Évora.

circumstandas deduz o

Alexandre Herculano,

Em

1210 o alcaide, os alcaides e o concelho da

que o sénior ou senhor era
principal mister consistia

um prestameiro, cujo em conduzir á guerra

Covilhã concedem

um

herdamento a D.

Gil

San-

ches, filho de Sancho. Nos costumes de Monte-

os cavalleiros-villãos, e não podia ser identifi-

mor ordena-se
o deixem
ir

:

«

Que todo o homem que o alcaide
o que fôr seu.

cado com os alcaides do typo de Santarém.

prender, dando fiador antes de entrar no castello,

Também
tiva

é opinião

do

illustre

escriptor que

com

Também

esta-

n'estes últimos concelhos a manifestação primi-

tuem, para o caso de haver briga entre visinhos,

do poder régio deve

ter

sido similhante

que

'

Se houver morte de

homem

não lhe accei-

& que se encontra nos do typo de Salamanca, e

tem

fiadores, e

venham

os juizes e façam

com

o

que

foi

um

progresso de liberdade municipal a

alcaide toda a justiça, conforme o que está decla-

120
rado no
foral.
:

Historia de Portugal
»

Islo

[irova

que

ci-i

magistrailo

typo de Salamanca é esta a que principalmente

jurisiliccioiíal

parccf, porem,

ijui'

o alcaide dos

exercem os representantes da

coros., juizes.

foracs do typo d'Avila iiâo tinlia laiila importân-

Entre estes representantes e os magistrados

no mechanismo do governo municipal como o dos concelhos da primeira formula; não ha ine pode presudicio de que tivesse substituto
cia
;

dos concelhos travaram-se differentes disputas

de aucloridade, e estas dis[)utas foram ainda

mais amiudadas onde os burguezes não depen-

mir-se que, embora de nomeação regia, fosse
tirado muitas vezes das fdeiras

diam directamente do
Porto do seu

rei

da burguezia.

secular ou ecclesiaslico,
bisjio.

mas d'algum senhor como dependiam os do
geral,
foi

Nos concelhos da quarta formula, aquella que
encerra grande numero de espécies differentes,
os delegados do poder central ou eram,

Em

porém, nos priincessante,

meiros tempos da monarcliia

em-

como

bora gradual, o progresso das franquias municipaes e o desenvolvimento da força popular, que
as

nos de primeira, chefes militares com attribuições judiciaes e administrativas, ou,

como nos

reclamava ou reivindicava, e

foi

a realeza

da segunda, simples magistrados judiciaes tendo a seu lado funccionarios encarregados do com-

o poder que

menos

as regateiou.

Com o progresso

d'essas franquias diminuíram as attribuições dos
alcaides ou pretores, e veiu alé a estabelecer-se

mando das sénior com

milícias.

Em

Monsaraz havia

um

o titulo de

povoador (probadori e

o uso de o proporem os niunicipios á approva-

depois de alcaide.

Em

Guimarães, onde os bor-

ção do

rei.

AlTonso

iii

disse aos habitantes de

guezes gozavam das maiores isenções, o castello
estava governado por
nicipio, e

Trancoso, dando-lhes
veis apresentar-nu'

foral

em 1270: «Evos delinhagem

um

alcaide estranho ao

mu-

um

cavalleiro de

que subsistia

dum

património situado
ali'aide fazia justiça

cada vez que eu o quizer, o qual

me
»

farã

mena-

fora davilla.

Em

Monforte o

gem do meu

castello
:

de Trancoso.

No diploma de

com

os juizes davilla. Nas terras que tinham foral

Montalegre lè-se

«Dar-me-heis a

meu

contento

dado pelas ordens militares, o commendador substituía o alcaide, tendo usualmente poderes muito
mais am[ilos do que este funccionario
real
:

um

cavalleiro fidalgo, portuguez, que vingue qui-

nhentos soldos, por
alcácer,

me

fazer

menagem do meu

o

quando eu o

construir. Elle será o vosso

commendador da
de
l^ialatrava,

Ericeira,
direito

sujeita

á

ordem

alcaide

emquanto

fòr

do vosso agrado.» N'esta

tinha

de exigir que os
aprazimento.
havia com-

disposição enconlra-se ainda mencionada

uma

alcaides fossem

nomeados
se

a seu

outra vantagem, alcançada não só pelo concelho

Chega a ser duvidoso

em Bragança

de Montalegre

mandante
a

militar posto pelo rei, porque o primi;

sidiar o alcaide

mas por muitos outros a de subcom uma quantia annual fixa,
:

tivo foral diz

«Os varões da vossa cidade sirvam

em

vez d'elle se sustentar de alguma parte das

quem quizerem, a el-rei, ao conde ou nos infanções»; mas posteriormente o governador do
castello adquiriu importância a ponto

rendas municipaes. Era

uma

vantagem, porque

onde os chefes militares tiravam proveito das
contribuições locaes, fácil seria que a avidez os

de se

tor-

nar

oiVicial

municipal, e n'esta qualidade figura

movesse a disputas
rios

e pleitos

com

os funcciona-

em documentos
pois,
n'elles facto

do século xni. A variedade era,

nmnicipaes ou com os munícipes: esta me-

grande n'estes concelhos, mas não havia

lhoria,

porém,

e a

de propor ao

rei os alcaides,

novo

e

não conhecido nos das
era haver

outi-as

não foram alcançadas pelos grémios populares
senão

três formulas.

A regra

em

todos os gré-

em tempos

posteriores ãquelles,

em

cuja

mios populares

uma

entidade que os ligava ao

historia politica intercallamos este estudo succinto dos concelhos do reino.

poder central, e as attribuições mais essenciaes
d'essa- entidade são as militares.

O

rei

reservava

Além dos alcaides ou
outros funccionarios de

pretores, do

judex

e do

sempre para

si

o commando das

milícias nacio-

senhor, havia vulgarmente dentro dos concelhos

naes e o governo das praças e dos castollos, e depois da direcção da força publica, a funcção

nomeação

regia, cujas

que

funcções se exerciam só dentro do alfoz municipal
:

n'aquelle tempo parecia mais rigorosamente collectiva e

eram

elles os

mordomos, os

vigários e

mais própria do poder régio era a ad-

almoxarifes, e cobravam as rendas reaes,

com

ministração da justiça, porque nos concelhos do

o concurso dos funccionarios do concelho. A exis^

Historia de Portugal
Iciicia

121
dimanando
a sua supe-

(restes

olliriaes

ilo

íisco,

era por eerlo
to-

a aristocracia do povo,

uma

liinilação ás imiiiuniiiadcs

muniripaes;

rioridade

— como

também

já explicámos

— da
ca-

davia, bastava para a tornar indispensável o faeto

qualidade de [iroprietarios livres e da obrigação,
tida por [irivilegio,

de estar a terra
por

cm

grande parte ligada á rorõa
foreiros ou

de fazerem fossado

em

um

grande numero de servidões, sendo,

vallos seus. Cavalleiros

ou peões,

nem

todos os

romo eram, muitos dos mnnicipes
lãos

moradores d'uni inunicipio eram, porém,
bros da associação [lOpular
;

mem<?

jugadeiros, e havendo entre os eavalleiros-vil-

|)ara (jiie

o fossem

numerosos

tributários.

A cobrar as rendas
e já

gozassem das regalias de vizinhos, era-lhes mister

d'osta terra não livre se destinavam os oíliciaes

uma

espécie de incorporação politica.

Os

do

lisco

que mencionámos,

não era pequena

vizinhos, inscriptos n'uma espécie de recensea-

concessão dos reis permittirem que essa cobrança
e as execuções a que dava logar fossem de certo

mento, chamavam-se arreiíjailos

.

Jião

arreiga-

dos eram os que não tinham residência habitual

modo

fiscalisadas pelos funccionarios municipaes,

na povoação;

c

uns e outros distinguiam-se dos

naturalmente hostis ou

inditlrrentes aos interes-

indivíduos completamente alheios aos concelhos
e designados por

ses da coroa. Essa concessão deve ser principal-

homens de fora

parle.

Algumas

mente apreciada n'um
este nosso
fisco só

paiz e

n'um tempo, como

disposições do foral de Castello-bom ajudam a

tempo

e este nosso paiz,

em que

o

comprehender

estas distincçOes

:

por suas mãos lança e cobra a maior

«Todo o individuo
no registo
el

— diz

elle

— que possuir o
furo,

parte dos impostos, e

penhora os contribuintes

valor de dez morabitinos e
e

não estiver airolado

insolventes para processos snnunarios e espoliadores.

na matriz do recenseamento (in caria

No século

XII

estávamos mais adiantados

in

padronj não seja vizinho de

nem

n'esta matéria!

exerça cargos municipaes,
jurada tenha maior
disto,
aliste

nem

a sua declaração

Também

pertencia á classe dos olllciaes da

em

direito, e

pague, álein

coroa, que funccionavam juncto dos municípios,

um

iiiorubitino

cada domingo até que se

o adail. Substituiu o alcaide-mór no militar,
o alcaide-menor o substituía

no

civil.

como Comman-

no recenseamento, ficando sujeito aos en-

cargos ...»

dava a
rerias

cavallaria-villã,

sendo seu chefe nas cor-

«Os alcaides, jurados e vozeiros andem pelas
ruas e arreiguem os

que se emprehendiam ordinariamente na

primavera, menos para fazer comunistas do que
para recolher presas, e que eram muitas vezes

modo de vida tèem. quatro homens bons

.

homens e examinem que De cada aldeia venham
.

e

jurem que os habitantes
e se o

devidas á iniciativa dos burguezes, quasi tão
aguerridos

da aldeia se arreigarão;

não fizerem pa-

como
rei

os barões.

Em

compensação da

guem

o

damno que
.
.

ahi fizerem os ladrões e mal-

sua responsabilidade, o adail estava dispensado
de pagar ao
lhe cabia

feitores.

a quinta parte das presas, que

«Quem não

estiver inscriplo

no registo da

fre-

em

partilha,

como faziam

todos os ca-

guezia e sob garantia do foral e não fôr sujeito
a todos os encargos, não seja vizinho

valleiros-villãos.

nem exerça
Cas-

magistratura.

.

.

DIREITOS E DEVERES DOS VISINIIOS
Enumerados os funccionarios dos concelhos,
electivos e de

"(Juem não tiver filhos

nem maJber em

tello-bom não seja admittido aos cargos públicos.»
Esta's

nomeação

regia, e definidas

com

disposições

mostram que havia

dilTe-

a possível precisão as suas principaes allrihui-

rença importante, quanto a direitos e a deveres,
entre os arreigados e os não arreigados, e que
aquelles se

ções, vejamos quaes

eram

as condições de exis-

tência, os direitos e deveres dos seus habitantes.

tomavam

a rol

com

o maior escrúpulo

Já tivemos occasião de o notar
perfeitos a população dividia-se

:

nos concelhos

e

bem assim que

a base da organisação municipal

em duas

gran-

era a família, pois que

quem

a não tinha

n'um

des classes, correspondentes aos curiaes e aos
privados do município
antigo:

concelho não era seu membro. Os costumes de
Beja

os cavalleiros-

também dão

idéa da differença da situação

villãos e os peões, e aquelles

formavam como que

dos vizinhos e da situação d'aquelles que o não

VOL.

1— IG.

122
eram, dizendo
:

Historia de Portugal
«É costume que se estou arreimordomo exige de mim fiador por de-

gado e o

de Salamanca declarava-se que todas as casas estavam sujeitas ao foro commum, salvo as do
Lispo e dos freires, e que os caseiros do rei e do
bispo deviam ter esse

não sou obrigado a dar-lho lido sujeito a multa, incorri n'essa multa. Se, que provar me sem elle
devo porém, não estiver arreigado arreigado, não Biordumo me penhora estando eu me entregar o de se antes me cumpre ir a juizo
<jue se

mesmo

foro.

Em Pinhel era
mesmo

dar-lh'o. Se o

preceito que todos os vizinhos tivessem o
loro.

Noutras

partes, o espirito

burguez mostra-

va-se ainda mais severo contra as pessoas d'outras classes
:

me

tirou.

»

Xo pagamento de portagens

e

em

Valhelhas chegava-se a prohibir

se descriminadireitos de barreiras egualmente

sob pena de morte a venda de qualquer prédio rústico

vam
.jho

conceos vizinhos dos que o não eram o «Ha de Santarém e<5creveu a este respeito;
:

ou casa a cavalleirode linhagem a bispo ou a freire de alguma ordem, que não fosse a do Tem,

mercadores que vêem de outras viUas, alugam vendem os casas ou lojas em Santarém c n'ellas
seus pannos e

plo

;

c

em

Castello

Mendo não

se permittia sequer

vender ou doar propiiedade a

quem não fosse
Os nobres,

vi-

guardam os seus haveres, equando

zinho do concelho. E não eram excessivas
injustificadas estas precauções.

nem
or-

tèem arranjado alguns retornos vão-se embora, deixando as casas ou lojas alugadas ou sob paportagem na nossa lavra. Sabei que estes taes dão
que alugam casas villa. Mas aquelles moradores e n'ellas reanuo, para pelo S. Migui'l, de anno camas, toem lume e accendem sidem e romem e
vizinhos e não estes fazem vizinhança e são a residência Santarém Em payam portagem.» vizinhança, de condição era demorada habitual ou

gulhosos da sua stirpe c fortes
tivas

com

as preroga-

populares

da sua casta, eram no seio dos grémios como lobos em redis se haviam de de:

fcnder-se dos seus

vexames

e resistir ás suas es-

poliações os burguezes preferiam avisadamente,
excluil-os da sua convivência e fechar-lhes a sete

chaves as portas dos seus pacíficos concelhos.
Tractavam-n'os, e não sem motivos, como inimigos tradicionaes e irreconciliáveis.

deprehcnde d'este trecho; em Beja, porém, é vizinho «o homem que alugue casa, se ahi ou tiver bens moveis ou cousas equivalentes

como

se

A aggregação dos vizinhos ou o concelho formava uma pessoa moral, com direitos e deveres.

em

poder alheio, de

modo que

se possa obri-

Um
do
pal

gar a responder

cm

juizo.

asijlo, altribuiilo a todo o território

dos mais importantes d'csses direitos era o municiá villa,

Esta distincção de vizinhos e simples moradores acha-se, como principio geral, nos foraes dos concelhos da primeira formula nos da segunda
;

ou

sua cabeça. (Juem entrava n'essa
território coutado, estava salvo

villa,

ou n'esse

das perseguições, assim dos particulares como dos agentes da justiça do districlo, e esta

e terceira não ha vestígios d'ella, parecendo ter sido obrigação de todos os moradores arreiga-

immu-

rem-se ou arrolarera-se, gozando lodos dos mes-

mos

direitos.

nidade, se era excessiva c parece monstruosa por se estender aos maiores criminosos, era útil e humana porque servia também para livrar ho-

Os grémios municipaes eram essencialmente
populares. Constituiam-nos indivíduos das classes não nobres. Era, porem, caso vulgar residir

mens das

classes servis das violências dos se-

nhores. Define-a claramente o seguinte artigo do foral da Castreição «Se algum individuo de
:

um

individuo de condição privilegiada dentro do

diversa terra vier culpado

em alguma

morte ou

território

dum

concelho ou ter n'elle proprieda-

com alguma cousa apprehendida
gos entrar após
elle e

e entrar no

des, e acerca d'este caso legislaram geralmente

termo de Castreição, e se algum dos seus inimilhe tirar as cousas appre-

os redactores dos foraes no sentido, ou de sujeitar esse individuo á
lei

commum

municipal
elle

bem
ter

licndidas ou fizer mal, pague ao senhor da villa

como o seu
alfoz.

prédio,

ou de o inhibir a

de

residência ou possuir bens dentro dos limites do
JSos

quinhentos soldos e restitua em dobro o que tirou ou pague uma composição dupla das contusões

diplomas do typo de Santarém o rei

ou feridas que

fizer.

»

Neste caso a imnmnidade

estatuía que os prédios urbanos
freires hospilalarios
villas

que os

fidalgos,

escandaUsa os princípios da justiça e dá ao concelho, que d'ella gosa, o caracter de valhacouto

ou mosteiros tivessem nas
foral.

estivessem sujeitos ao

jNos

do typo

de malfeitores; noutros casos, porém, o asjlo

ú

Historia de Portugal
um

:

123

meio de libertação para o
n'aqii('lles

homem

do povo,
se.

lhos,

romo

conrelhos

em

cujos di[ilomas
n'('lle

e defensão dos seus

como pessoas moraes, proverem á segurança membros, existia entre estes
eram obriga-

«O eolono (júnior/ ou servo que

morar
ou

uma

estreita solidariedade, e todos

um

anuo, ninguém leniia poder sobre
;

elle

dos a acudir por todos e por cada um. Para resistirem a agressões interiores punham-se

sobre a sua dcscendcmcia

»

ou ainda

:

«O mouro

em armas

que se

fizer ehristão e se

acolher a Freixo seja

todos os nmnicipes, e esta resistência coUectiva
era o appclido.

livre.» iN"alí.'umas partes o direito d'asylo estava

Quem

faltava ao appelido [la-

mais limitado,

e

assim succedia

em

Urros: «Se
villa ini-

gava

uma

multa, que no Freixo era de

um moda

qualquer individuo vier para a nossa

rabitino e

em Penamacor

de dez soldos para os

mizado com alguém
alii

e os seus inimigos

vierem

cavalleiros e cinco para os peões.

O

espirito

apoz cUe,

saúdcm-n'o e dêem-lhe seguro,

fraternidade, que se manifestava na concorrência

afliançado por quatro pessoas que fiquem responsáveis por
sujeitar-so

ao appelido, dictava

também muitos

preceitos,

cem

morabitinos.

Quem não

quizer

alguns dos quaes estão mencionados nVstes tre-

a similhante condição torne a sair

chos de diversos foraes

:

«Ninguém, que

seja

da

villa,

e se

alguém lhe dér guarida pague cem

vizinho da Guarda, dô guarida a individuo que
queira fazer mal a alguém do concelho ou que
seja seu inimigo.
»

morabitinos. Isto não é applicavel aos casos de

bomicidio ou de

ra|)to."

— «Vizinho que se apresentar
homem
doutro
»

Se os municipios defendiam os estranhos dos
seus inimigos, ainda

como

vozeiro,

(advogado) por

com mais

zelo

defendiam

concelho contra o seu vizinho, pague dez soldos
e a sétima parte ao fisco.

as pessoas e bens dos vizinhos dos attentados de

— «Qualquer vizinho da
do concelho ou d ouvilla,

estranhos.

O

foral

de Proença estatue que

:

«

Qual-

Guarda que
tro vizinho

fór queixar-se

quer

homem

de Proença que encontrar indivívilla

seu ao senhor da

pague cem moda Guarda

duos de outras terras nos termos da

levando

rabitinos, derríbem-lhe a casa e saia
e

ou cortando madeiras dos montes, tire-lhes quanto
lhes achar,

do seu termo como aleivoso e traidor». Tamdestinadas a assegurar a cohesâo in-

sem coima. Se alguém

vier ás nossas

bém eram
estas: «Se

aldeias para tomar á força victualbas

ou outra

terna dos grémios populares disposições

como

qualquer coisa, c ahi o matarem ou espancarem,
o matador ou espancador nada pague por isso,

houver vizinho que nas relações com

os seus vizinhos não se quizer sujeitar ao foral

nem fique em homizio com
e se estes

o.s

parentes do morto
facto a cl-rei

:

nem
da

acceitar o arbitramento d'elles ou do senhor

forem qucrellar do
districto,
.

ou ao

terra,

expulsem-n'o da

villa.»

— «Quem
villa, e

le-

rico-homem do
nos de multa.
.

paguem cem
.\

morabiti-

vantar discórdia ou vos pozer
tra

em

lucta

uns connão

»

A

doctrina d 'esta provisão es-

os outros

ou com o senhor da
fez,

tava geralmente acceita.

quem penetrava no
mal, era
licito

poder emendar o mal que
todos os seus haveres.
«

expulsae-o

com
e e

termo d"algum concelho
fazer

pai'a fazer

Em summa,

os foraes

sem pena
do do
direito,

todo o mal possível. Os próprios

officiaes

fisco

incorriam

em

castigo grave, se,

accumulavam preceitos tendentes a manter fortalecer a união dos membros do concelho,

fora

violavam o
vier ahi

território municipal.

acceitavam por tão excellente a doctrina da sua
solidariedade, e portanto da sua responsabilidade
collecti va, ijue até

«Se o

mordomo

Nova

— para vos espoliar de qualquer cousa que
elle,


»

lê-se

na carta de

Villa

alguns repartiam por todos elles

vos pertença, espoliae-o vós a
outro qualquer individuo.

como

se fosse

as multas devidas pelo crime de

um

:

em Bra-

O

castello de S. Chris-

gança, por exemplo, se o
nado, todos os cidadãos

tovão tinha a sua immmiidade affiançada por
esta determinação real:
districto
([uer

mordomo caia assassipagavam uma parte da
a severidade

«Xem

os vigários do

calumnia.

nem

os porteiros se atrevam por qual-

Vimos opportunamente

com que

disscnção que haja entre vós a entrar ahi.

se discriminavam, principalmente nos concelhos

i'm muitos casos o particular ou oflicial publico,

do typo de Santarém, os indivíduos que deviam
ser vizinhos dos que

que invadia

território coutado,

pagava uma multa

eram simples moradores

avultada, que se

chamava coulamenlo.

esta severidade procedia da importância dos direitos,

Sendo

um

dos principaes deveres dos conce-

que áquelles pertenciam e de que estes

124

Historia de Portugal
devia, antes de o castigar,

estavam privados. Os principaes d'esses direitos eram a iminunidade da pessoa, salvos certos fora casos exccprionaes, quando a prisão não do lar inviolabilidade a judicialmente, orileiíada
diiniestieo, e o respeito aos \inys

chamar o dono

a res-

ponder por

elle.

Uma parte

das multas criminaes,

pagas pelos creados de lavoura e caseiros, revertiam para seus amos. Os pães não respondiam
pelas calumnias impostas aos filhos
tes pagal-as dos seus bolsos, e se o
;

de

faniilia e

á

deviam

es-

propriedade.

não podiam

São muitas as provisões e os artigos dos foraes, que cliegaram até nós, destinados a protegerem
os

ficavam sujeitos a

uma pena

corporal.

plicaçâo do castigo de varadas ou açoutes a
lheres casadas havia

Na apmu-

indivíduos eontra o

encarceramento.

Para

um

costume brutal, mas
ha-

quasi todos os delictos, excepto os de pena capital,

consoante á importância que se attribuia á auctoridade do marido.

deviam ser

adraittidas as fianyas, e

mesmo
do
rei

A pena executava-se na

fora das povoações era defeso aos otliciaes
('

bitação da ré. Esta, era camisa e saia de linho,

aos magistrados jurisdlccionaes prenderem os

envolta

n'um

lençol e cingida d'uraa faixa, ajoe;

indiciados réus,

devendo apenas

cital-os

para se

lhava no meio da casa

as varas

deviam ser do

apresentarem no tribunal municipal. Este respeito |iela liberdiíde pessoal estcndia-se aos bens
dos vizinhos, considerados talvez como fazendo
parte da sua personalidade social. A. ninguém se
permittia,

comprimento de metade do braço, desde o sangradouro alé á raiz do dedo médio, e da grossura
do poUegar. Ajoelhada a mulher,

um

alvazil |ie-

ga\a n'uma

d'estas varas, e para indicar a força ás costas da paalmofaila.

nem mesmo

ao exactor

fiscal, ajipre-

liender

(|uali]uer

cousa possuída por
ella tivesse direito,

um

cidapoi-

com que devia ser appliçada decente, batia com ella n'uma
riilii

O ma-

dão, ainda que a

senão

dava então os açoutes,

e devia dal-os
;

com

mandado de juiz,
de aluguel.

e

apenas o seidiorio podia

;ipo-

a

foiça indicada pelo alvazil

se lhe afrouxava

derar-sc d'uni penhor d'uni inquilino por divida

o biMço, ou era substituído na tarefa de algoz,

ou

i'c(cbia
tle

elle

o castigo que não tivera a co-

Xão menos
liiliilaiU'

bem

garantida estava a inviola-

ragiMU

executar na mulher. Era

uma

usança

do

domicilio.

Nos concelhos da

pri-

bai-bara,

de certo; mas ao marido devia parecer

nieiía formula, estatuia-se

que quem entrasse à

uma

deferência da justiça não consentir ella que
elle,

forga

jiuma casa pagaria a coima de quinhen;

ninguém, senão

pozesse

mão

violenta na es-

tos soldos

se o

dono da casa se defendesse do

posa criminosa. A barbárie consistia mais no
castigo corporal do que

intruso e o matasse pagaria apenas
bitino.

um

mora-

no modo de o apphcar a

O próprio ministério publico não podia

muUieres.

transpor o hraiar da porta do cidadão
prir

sem cumse
ia

Os vizinhos dos concelhos perfeitos da primeira
formula gosavam ainda de outras immunidades.

certas formalidades:

por exemplo,

procurar

um

malfeitor refugiado, devia, antes

Não pagavam
no domínio

o tributo da lucluosa.

Usavam

li-

de penetrar na casa onde o suppunha escondido,

vre e gratuitamente de certas cousas que a coroa,
real, e os

chamar liomens-bons que o acompanhassem,
não entrar antes de
asylado.
li

e

senhores, nas suas propriesi,

ter

exigido a entrega do

dades, reservavam para

taes

como moinhos,

se a entrega se não fizesse c portanto

azenhas, pisões, fornos de
e

cal,

de telha, de louça

SC uzasse da força, ainda assmi o

dono da casa

de pão. Não podiam ser obrigados a vender cou-

invadida tinha direito de exigir reparação de
(juahpier estrago soIFrido.

sa

alguma contra sua vontade. Se algum

d'elles

estando doente, era
leis

Para protegerem a instituição da família, as

pela

chamado ajuizo, esperava-se sua comparência um anno e um dia. Não

nmnicipaes fort;ik'cíam

a

auctoridade do seu chefe,

se lhes penhorava a roupa de uso,

nem

se ctfe-

não só sobre os

filhos c a

domestícidadc, mas lam-

bem

sobre a esposa.

contra mulher citsada

Não se podia intentar acção sem accordo do marido, e

ctuavam penhoras de forma que os deixassem na miséria. Quando condemnados à morte não
se lhes confiscavam os bens, e

não se lhes

ins-

só era considerada adultera a que o niarulo accn-

taurava processo criminal sem ter havido quei-eila

sava como
cravo

tal

perante o concelho. Sc algum esleve, a justiça

do aggravado.

Iv

assim como as fraiujuias

mouro connnettia crime

municij)aes serviam para attrahir população a

Historia de Portugal
certos pontos do paiz expostos aos perigos da
teiras

125
se providenciava cora rigor: o

também

guerra,

também dentro dos municípios

se con-

criminoso, alem de ser multado, era entregue

cediam ás vezes privilégios especiaes aos moradores dos bairros insaiulires ou que, por algum
inconveniente, eram pouco procurados para estancia;

como um assassino á

vindicta da familia,

modo

de fazer justiça reconhecido como legal em certos casos. No Frei.xo e em Urros protegiam-se os
direitos dos noivos

gosavam por exemplo, de dispensa do

com um

singular preceito

servigo militar e da aiiúduva os moradores da

donzella pedida
zida,

em

casamento, que fosse sedu-

alcáçova de Lisboa e da almcdina de Coimbra.

não podia ser recebida pelos parentes sem

Nos conccllios do typo de Salamanca lambem
se cuidava

licença do malaventurado noivo, sob

pena de

fi-

com

esmero do assegurar as pessoas,

carem

elles sujeitos á

sua revindicta e de lhes pamercenários pertencentes á

as famillas e os bens dos vizinlios

com muitas

garem 300
familia

soldos.

I

)s

disposições curiosas. Se

um

d'el]es era encarce-

dum

vizinho não iam a juizo estando

rado por pessoa eslranlia ao município, pagava o detentor a multa de 'Mú ou 500 soldos, da qual
pertencia metade ao offendido
;

este ausente, e as multas

que se lhes impunham
favor do

por delictos revertiam

em

amo. Como

quando, p'orem, o

nos concelhos da primeira formula, os pães não

vizinbo practicava cgual violência sobre um cslra-

pagavam
oflendido.

pelos filhos, e

nbo apenas pagava 5
dividuo que
r<!sidia

soldos, (jeralmente, u in-

podia ser processado

como irelles nimguem sem preceder querelia do
que foram

durante

um

anno n'alguni

d'estes conccllios ficava sendo seu vizinbo. Se
n'elle edilicava

Nalguns
seus

d'estcs grémios populares,

uma

casa podia depois

mudar de

porventura os mais adiantados

em

liberdade, os

residência

sem perder

os foros de vizinbanga.

membros estavam

isentos, por concessão

Tambt^m se Ibe não prohibia servir fora do grémio municipal, e consentia-se-lhe que possuísse bens noutros concelbos.

especial, de certas prestações singulares,

quere-

Em

Proença, Sal-

cahiam commummente sobre as pessoas e sobre a terra não pagavam o núncio, que era a luc:

vaterra do Extremo, Idanlia,
villas,

Penamacor contras

tiiosa

dos cavalleiros-villãos, não estavam sujeiisto é,

o munícipe não tinha obrigação de dar pou-

tos a

maniidiadegoonmaneria,

áreversão

sada a ninguém, e
ria

quem

lhe invadisse o larincor-

dos seus bens para o senhor, quando morriam

em

pesadas coimas, porque a casa do cidadão

sem

filhos,

nem davam

as asas, a que as mulhe-

era tão inviolável que até o salvava de qualquer

res de condição tributaria

eram obrigadas quando
livre a

perseguição ou vindicta, quando

mesmo

fosse cri-

casavam. N'outras partes a coroa deixava

minoso. Egualmeiite se cercava a instituição da
familia de respeitos c garantias,

exploração das minas e o aproveitamento dos
barros próprios para fabrico de louças, e geral-

havendo

até

disposições legislativas destinadas a evitar-llic a

mente era

commum

aos habitantes d'estes con-

dissolução por culpa dos seus

membros ua Guar:

celhos a propriedade dos baldios e dos bosques.

da e

em

Santa Cruz, o marido que deixasse a

Nos concelhos de
d'Avila, as

terceira formula,

ou do typo

mulher e a mulher que fugisse ao marido eram condemnados a uma multa, sendo, porém, mais
pesada a que se impunha ã esposa. No
Salvaterra do
foral

immunidades individuaes ou estavam

exaradas nos foraes ou eram de direito consuetudin rio.

de

Não tinham menos largueza que as

Extremo

e

em

outros enconlra-se

dos outros concelhos, e assimilhavam-se ás d'es-

uma

provisão que talvez podesse ser imitada
;

com

proveito pela legislação

moderna «(Juem encontrar sua mulher commeltendo adultério, abandone-a. O marido e os filhos f\quem-lhe com todos
os

quê já expozémos. Os vizinhos podiam deixar de residir nos seus prédios, comprehendidos no alfoz municipal, mas deviam concorrer, quando
tes,

necessário fosse, à defesa conimuui.
cias

As providen-

bens...« O marido podia castigar por suas
iniiel
;

que

se

propunham

a obstar ã dissolução da

mãos a consorte
licito auseiilar-se

a esta não era, porém,

familia,

além de numerosas, eram severíssimas.
lar

do

lar c dissolver o

matrimoEreixo, o
ã

O cônjuge que desamparava o O noivo que O raptor da
faltava ás suas

pagava multa.

nio por infidelidade do marido. raptor da mulher casada ficava

Em

promessas também
ao homi-

como cila

mercê
sol-

solTria coiubMiiiiaçãu pecuniária, pusto i}ue leve.
filha-faniiiia equiparava-.se

do aggravado. Contra o rapto de mulheres

128
cida.

Historia de Portugal
As
isorifões

de prestações e serviços pes-

que tomavam parte pertencia-lhes

uma

parte:
ses-

soacs estcndiam-se

em

Évora e

em

outras partes

quando o fossado era
cavalleiros-villãos,

feito

com menos de

á dispensa de aníiduva, e á conslrucção de for-

senta cavallos, toda a presa se distribuía pelos

nos e moinhos

;

o uso das aguas e a extracção do

que só davam

d'ella ao al;

barro consideravam-se geralmente livres. Nos da
quarta classe as garantias e as isenções

caide o que lhes parecia

bem
.

dar-lhe

quando a

eram

cavalgada era mais numerosa, o quinto dos despojos revertia para o rei

análogas ás que ficaram indicadas, e municípios

Se os seus cavallos

fa-

havia imperfeitos que

também

as tinham, espe-

ziam serviço de recovagem, não pagavam o
tributo imposto ao

cificadas nos seus foraes, tão valiosas para asse-

commum

dos almocreves, e

gurarem a liberdade pessoal, a

instituição

da
infa-

estas alimárias
das.

nunca lhes podiam ser penhora-

familia e o direito de propriedade, que

nada

Nas anúduvas não trabalhavam braçalmente:

vejavam, n'csta parte, ás mais adiantadas e

dirigiam o trabalho dos peões. Se commettiam
crime, a que se applicasse o castigo das varadas,

vorecidas associações burguezas. Tal era o de
liragança.

não os eximia

d'elle a

sua qualidade; mas se o

([ueixoso era peão

podiam dar outro peão que
de peão, communicava-lhe,
os privilégios da sua

CAVALI-EIHOS, PEÕES E MALADOS
iMeiícionaiido os

recebesse por elles os açoutes. Filho de cavalleiro,

creado

em casa

mais importantes direitos

c

emquanto com
família e classe.

elle vivia,

privilégios dos munícipes,
aíjui,

não distinguimos, até

Viuva de cavalleiro gozava dos

os cavalleiros-villãos dos peões; os foraes

privilégios do marido, que lhe
e só os perdia se casava cora

eram

applicaveis,
inferior.
;

distinguiam-n'os, porém, principalmente para re-

homem

gular o

modo como

aquelles

deviam descmpe-

Estas

eram as suas principaes vantagens

dos

nhar-se da obrigação do fossado,

commuin

a

encargos, o mais impreterível era o fossado,

todos e exclusiva da sua classe. Nos concelhos

do typo de Santarém a corporação dos cavalleiros

com bém
e

os chefes militares.

A

cavallaria-villã

tam-

devia

(lar

metade da guarnição das

torres

compunha-se dos cidadãos que já tinham esta

dos postos fortificados, estabelecidos para vi-

graduação, por serem proprietários livres, ao

giar a approximação do inimigo, dando o poder
central a outra metade. Para concorrerem aos fos-

tempo do estabelecimento do niunicipio, dos
peões, que tinham adquirido o direito de entrar
n'ella, e

sados, estavam obrigados os cavalleiros
cavallo,

aterem
trinta

ainda d'aquelles que no

momento de

se

que apresentavam nas mostras de maio,

armarem

as milícias burguezas para as expedi-

e que n'este acto não devia ter

menos de

ções, da primavera se apresentavam ao alcaide

mezes. Se o não tinham, ou o que apresentavam

para n'ellas serem arrolados, provando reunir as
ciirumstancias re(]ueridas para a inclusão no arrolamento.
ficava
e

não era próprio para a guerra, passavam a ser
considerados peões e a pagar jugada, não incorrendo, porém, n "esta penalidade, aquelles a

Uuem uma

vez entrava na cavallaria

quem

gosando de todas as suas prerogativas
a todos os seus encargos,
[lodia

morria o cavallo na guerra.

sujeito

e d'estes

A par dos
lhos

cavalleiros-villãos havia nos conce-

ninguém

eximir-se senão por velhice e

uma

classe de

incapacidade physica, que os magistrados reco-

estavam equiparados
teiros.

homens de guerra, que em immunidades os
:

lhes

bes-

nheciam dando ao invalido carta de cavaUeiro
pousado, para continuar a gozar das vantagens
sociaes da sua graduação,

O serviço do besteiro era inteiramente vo-

luntário.

Quando

elle

não queria continuar a presá condição de jugadeiro,

como

até

ali.

tal-o e preferia voltar
jiiizo

Estas vantagens

eram importantes.
Xa hoste
real

Em

apresentava-se ao concelho, fazia declaração do
seu propósito, e tirando a corda á besta lançava-a

os cavalleiros-villãos estavam equiparados aos

nobres

e infanções.

tinham logar

deantc dos magistrados. O numero dos besteiros,

na vanguarda, cabendo-lhes a distincção do perigo.

que deviam

fazer parte das tropas concelhias,
:

Podiam

alistar-se

nas companhias dos

ri-

estava d'ordinario taxado nos costumes
tes,

Abran-

cos-homens, ficando n'esse caso dispensados do
serviço municipal. Das presas dos fossados

por exemplo, dava SÍ,

Thomar

'.V2,

Pombal

em

21, Soure 12, Leiria 40, Coimbra 31, Santarém

Historia de Portugal
70. Se os besteiros, a chamanieiito do rei, faziam
tar

127

dos fossados, que perraitte ter conhecimento
villã.

serviço extraordinário, recebiam
tribuição.

(l'elli'

uma

re-

minucioso do modo como a cavallaria

se

desempenhava dos seus deveres públicos. Este
regulamento applicava-se especialmente ás tropas
de cavallo
:

Os ecclesiaslicos residentes no
nicipal
lãos,

lerrilorio mulambem liubam o foro dos cavalluiros-vilsem estarem sujeitos aos seus encargos;

mas dispunha também acerca do
;

ser-

viço dos besteiros

daremos noticia de alguns dos

esta isenção, de direito, era todavia fre(|uente-

seus preceitos. Os vigias ou atalaias, que

como já

mente aimullada de

facto, e os

niemjjrosdo clero

vimos, saiam por metade das

fileiras

da milicia

acompanhavam á guerra o

exercito real.

De egual

burgueza, recebiam
viço de

foro gosavani os mert^adores de grosso tracto, i|ue

campanha

e a

uma gratificação. Em serbem da disciplina impu-

comuierciavam com Flandres ou com o Levante, e segimdo os costumes de Santarém, communicados a Oriola, os seus bens não pagavam jugada.

nham-se pesadas multas aos criminoso» de rixas
pessoaes, de que resultassem ferimentos, esten-

dendo-se a penalidade aos cavalleiros que

feris-

sem
linha,

os cavallos dos camaradas.

Uuem

perdia o

Esta era a legislação mais vulgar, concernente

cavallo

em

batalha tirava o seu valor dos despo-

á cavallaria-villã

;

porém, numerosas

e

im-

jos da correria,

mas
no

esta indemnisação ou erecla

portantes excepções. Xos concelhos de segunda

sõ era concedida

em

circumstancias cautelosaintuito

formula havia egualdade de foro para todos os
visinhos, e os cavalleiros só se distinguiam dos

mente

definidas,

de se evitar dolo e

fraude, e nunca podia exceder a importância de
trinta morabitinos. Vigia

peões nas suas relações
alguns d'elles

com

o poder real.

Em

que fosse surprehendido

nem

sequer estavam estabelecidas

a dormir, provando-se-lhe o descuido, solTria a

as condições para que

um

cidadão pcileucesse a

pena de degradação e expulsão, tendo-se-lhe
previamente rapado a cabeça
;

uma ou
caseiro,

oulra classe; n'outros, comtudo, exigia-

e egual

pena pa-

se que o cavalleiro possuísse

uma

granja

com

decia o soldado que fugia ao signal de rebate

uma

juncta de bois, quarcnila ovelhas,

ou no meio da acção. Aquelle que na frente do
inimigo brigava
tractava

um jumento
bém
lypo d'Avila.

e duas camas, e esta clausula tam-

se encontrava frequentemente nos foraes do

com um companheiro e o malcom arma cortante ou contundente tinha
ter

A obrigação de

concorrer ao fossado

a

mão

cortada, se a não remia, e era enforcado

achava-se ás vezes limitada á lerça parte da
cavallaria villã

no caso de

morto o adversário. O achado,

em

cm

cada armo, tornando-sc o ser-

campo inimigo, de presa de
bitino.

valor não inferior a

viço puramente voluntário se as expedições militares se multiplicavam.

vinte morabitinos, preniiava-se

com um mora-

Municípios havia

em

Sempre que uma cavalgada transpunha

que, por estarem expostos a coramettimentos, ns
milícias burguezas
alfoz.

os limites do território municipal, o cavalleiro que

nunca saiam dos limites do

derribasse

Nos concelhos de terceira formula e em

se da sella

um inimigo tinha direito a apropriarem que elle montava, e o valor da
por todos os que tinham ajudado
se

outros d'oulras formulas, as penas impostas por
offensas corporaes

sella repartia-se

eram maiores sendo o

offcn-

a

derribal-o,
feito.

mais d'um havia concorrido

dido cavalleiro do que sendo peão.
estar sujeita a classe superior

A

regra era

para o

(Juando a expedição se fazia

com
fa-

da burguezia ao

mais de sessenta homens, a divisão da presa
zia-se proporcionalmente ao

serviço militar e dispensada dos tributos directos;
todavia,

modo

pelo qual cada

em

alguns mmiicipios de quarta classe

um

ia

armado
inteiro

:

o que levava loriga ou lorigâo,

como na Ericeira, os cavalleiros não davam fossado e pagavam os tributos. A regra geral, a que
estavam subordinadas as condições das duas classes da população municipal, tinba, pois, impor-

nhão

ou almofre, recebia um quiou uma cavallaria; o que levava lorigâo sem a cervilheira, meio quinhão o que apenas estava defendido por brafoneiras ou bracervilheira de ferro
;

tantes variações.

çaes,
vallo,

um

quarto de quinhão. O besteiro de ca-

Os foraes de alguns logares próximos da fronteira leoneza,

armado com duas cordas, uma ante-corda e

como Sabugal,

.\lfaiates

eCastello
mili-

sessenta virotas, tinha direito a meia cavallaria,
e o de pé a

bom, incluiam uma espécie de regulamento

um

quarto. Os alcaides

guardavam

128

Historia de Portugal
gem aos estranhos, que por sua cathegoria tinham
direito a exigil-a.

os atlais. Os as presas que faziam, liem como os soldados, maJtractar e espancar podiam adaís

N'estes concelhos, porém, a
ei'a

por necessidade ou conveniência da disciplina, serem castigados. Todo o individuo que du-

condição dos peões

mais vantajosa do que nos

sem

do typo de Santarém, e pareceria até preferível
ã dos cavalleiros,

de se rante o combale ou depois d'eile, mas antes parte alguma distrahia fazer a repartição da presa,
d'ella

sobrecarregados

com

a obriga-

ção dos fossados, pois que aos redactores de muitos dos seus foraes

em

seu proveito, ficava considerado trai-

pareceu necessário obrigar os

dor e perdia o quinhão de despojos, que legitima-

indivíduos, que possuíam

uma certa fortuna,

a ar-

mente lhe pertencia.
Se a característica do cavalleiro-villão era a
obrigarão do serviço militar, a do peão consistia no pagamento da jugada. A contribuição predial
era obrigatória para os peões, principalmente nos concelhos do typo de Santarém, e estava regulada

rolarem-se na cavallaria-víllã. Este arrolamento

que nos concelhos de primeira formula era

uma

concessão, consíderava-se nos de segunda e terceira

como penosa obrigação.
que nos munici[]íos do typo de Santarém
elles

ijuanto aos direitos civis dos peões é para notar-se

em

alguns d'elles pela provisão seguinte

:

«Pelo

estavam
cie

em

certos casos sujeitos

auma espé-

que respeita á jugada, esta será paga atô ao Natal. De cada jugo de bois darão um modio de
milho ou de
trigo,

de

tutella judicial

do mordomo, enão podiam
:

intentar acção cível directamente

faziam-se recedendo-llie

conforme

fôr o cereal

que cul-

presentar no tribunal pelo

mordomo,

tivarem, e se lavrarem

uma

e outra cousa pa-

por isso a dizima do valor da causa, o que denota

guem-n'a de ambas pelo alqueire aferido da villa, devendo ser o quarteiro de quatorze alqueires,
O que lavrar de parceria com cavalD não tendo hois seus, não dè jugada. que cultiva á enxada fcavonj dê de furo unia teiga de trigo ou de milho, conforme o que cul-

que se consideravam como colonos da coroa,

em

virtude das terras que lhes tinham sido distribuídas.

sem

cogulio.

leiro,

Alora os cavalleiros e os peó(!S, que lodos

eram ou podiam an-vizinhos, havia nos concelhos

uma

classe privada de certos direitos munícipaes;

tivar.

Da lavoura

feita

pagar-se-ha

um

quarteiro

de trigo ou de milho, segundo

fôr a cultura

—O

Os indivíduos d'esta classe chamavam-se malar
dos, e a

maladia denotava dependência pessoal.
particulares, e
e clientes dos

peão pague oitavo do vinho e do linho.»

Matados eram em geral os colonos
tarnbem os familiares
rosos, que os

A contribuição

predial recahia, pois, sobre a

homens pode-

cultura do trigo e do milho, do vinho e do linho,
e parece que pelas outras espécies de cultura nada se pagava ao estado.

tomavam sob

a sua protecção a troco
;

de serviços ou de dinheiro
culo
xiii,

nos concelhos do séli-

Quando o prédio do peão

inalados eram todos os cultivadores

estava arrendado,

exceptuava-se da jugada a

vres não proprietários, e portanto os jornaleiros e

quinta do senhorio.
d'ella as searas

Também

se

exceptuavam
producção

creados de lavoura. Sobre estes proletários exercia o chefe da família, a

dos mancebos,

isto é, a

que

elles se

aggregavam^

das pequenas porções de terreno, que os agricultores usualmente

uma
tas,

espécie de tutella, a que andava associado

cediam aos criados de lavoura,
quando, por

o direito singular de receber

uma

parte das mul-

para que as agricultassem de conta própria. As

em

que incorriam por delictos: «Se os ho-

jugadas cobravam-se até ao natal
culpa do exactor
fiscal,

;

a cobrança se não fazia

até esta epocha, a divida

do contribuinte ao da terceira

es-

perpetraestatuía um foral mens da herdade sendo metade a multa, paguem roubo, algum rem para o rei e metade para o dono do prédio.» Em

tado proscrevia de direito.

homenagem
e
for-

à tutella dos proprietários sobre os

Nos concelhos da segunda

seus caseiros e creados,
estes

também

se dispunha que

mula não

se pagava contribuição directa predial,

mas
tas

era pela classe dos peões tributários que

principalmente se repartiam as derramas ou Un-

não fossem obrigados a comparecer em juízo estando ausente a pessoa de quem dependiam «Os homens de vossos termos que residi:

municipaes, e sobre elles recaiam os mais

onerosos encargos, de que estavam isentos os
cavalleiros, sendo

um

d'elles

o de dar hospeda-

rem nas vossas herdades ou nos vossos solares, estando ausentes os donos d'estes, venham ao tribunal, se a elle forem chamados, para darem

Historia de Portugal
fiança

129
uma
quantia egual aos ven-

de

qiic,

loijo

que voltem os donos da

cebeu, e além d'isso

casa ou herdade, oJlos se aprcsentiiruo

cm

jni-

cimentos do tempo que deixou de servir.

K costume que se eu maltractar o

meu man-

Taml)em cnim os proprietários que
dos contra os seus malados :
o
criado

receiíiani

cebo ou o
Ibe

meu homem não

sou obrigado a dar<ie

ás vpjies as muitas impostas por rrimcs pratica«

reparação, se náo o tolher

algum mem-

Se

alfiueni

matar

bro."

de qualquer visinho, receba este a

"K costume que se persigo o
e lhe tiro

meu mancebo
leva,

muita do liomicidio.

n mesmo

é ap[ilicavel ao

alguma cousa que

me

não sou
poi'

sou hortelão, ao caseiro que lhe paga quartos,
ao seu moleiro e seu solarenpo.
diversas classes estavam
»

obrigado a responder á acção de força, que
isso

Os malados das

me

jionha o

mordomo.

>

em

regra dispensados

«K costume

(|ue

iiuem ileinaiida o mancebo ou
cu.stas,

das obrigações publicas, a não ser de concori-e-

creado que o serviu não lhe pague as
ainda sendo absolvido o réu.

rem para a defensão commum, e por isso os foraes empenhavam-se em impedir que se considerassem membros d'esta classe individues que
d'ella

Dutro testemunho da inferioridade dos mala-

dos 6 dada pela jurisprudem-ia, que diminuía

estavam excluídos, por

titulos

que os

in-

consideravelmente a importância das multas

cri^

cluíam nos grémios dos peões tributários: da
dispensa dos deveres públicos, e especialmente

minaes quando o otíendido era individuo d'esta
cathegoria. Assim,

um

foral

dos da segunda

for-

de encargos tributários, é prova o foral de Mogadouro, que exceptua dVsses encargos «os
jit-

mula, tendo estabelecido que

quem

espancar

alguém sem premeditação [lague quatro maravedis, e

gueiros e os mancebos dos particulares, que não

dez se o tiver

feito

de caso pensado,

fi-

teem de pagar kSro,«

e

o de Cintra, que diz aos

cando á mercê do offendido, eslalúe depois

munícipes que se lhes approuver porem caseiros
nas suas herdades, estes só a
elles

«Quem espancar

aldeão ou jugueiro ou mancebo

façam foro

ou manceba com punhadas ou com açoutes pa-

das precauções tomadas para evitar que se usur-

gue dois maravedis;»
qiialquer

se,

porém, o réu era
tanto'

passem

immunidades, são exemplo as seguintes disposições «Nenhum homem que
estas tristes
:

malado, pagava pelo dehcto

como pagaria
:

homem

de condição superior

«Rendei-

sair de sua casa

ou da sua,herdade para

ir

viver

ros e solarengos

tenham

foro egual ao dos visiferidas;
»

em
t)

prédio alheio será reputado solarengo,

mas

nhos tanto no caso de pisaduras,
das e pontapés como nos de morte.

punha-

ficará

obrigado a fazer foro

com

o concelho.

Nos concelhos

que deixar seu amo, atrevendo-se a viver sosi,

do typo de Salamanca, quando o mancebo não
tinha meios para a reparação pectmiaria, soffría

bre

faça frtro

com o concelho,

e

não se enou

coste a

ninguém

se adquirir prédios urbanos

varadas proporcionacs

em numero

á cathegoria

rústicos.

Aquelle que lavrar

com

juncta de bois
particue o

do queixoso.

Também

era vulgar assegurar-se a

sua, ainda que se
lar)

và metter jugueiro

sujeição do malado ao dono da casa ou herdade

fique sujeito aos encargos

communs,

que

em que
rar

habitava, por meio de rigorosas determiestas:

cultivar a

meias pague meio imposto, ficando
de fossado
e appelido.

nações, como

«Quabiuer individuo que mo-

aliás isento

em

herdade alheia e tiver discórdia com o

Os matados, que nas citações temos visto designados por jugueiros, solarengos, mancebos,
caseiros,

senhor, ninguém o receba.

Quem

o receber pa-

gará cem

soldos ao dono da herdade e será obri-

creados, estavam privados de muitas

gado a expulsar o hospede.
Os malados eram, pois, a plebe dos concelhos,
os representantes dos antigos servos romanos
e visigodos.

prerogativas de cidadãos e abaixo

do direito

commum,

e esta inferioridade de condição civil

deduz-se, entre outras, d'estas provisões dos cos-

Caracterisava-os principalmente a

tumes de Santarém
«É costume que se alguém assoldadar mancebo e este se fôr sem consentimento do amo, havendo recebido já alguma cousa da soldada,

privação de propriedade e a residência em' pro-

priedade alheia, á qual, todavia, não estavam
presos senão por
ceito,

um

contracto livremente ac-

embora celebrado em condições deseguaes.

tem o mancebo de
YOL.

restituir

em

dobro o que re-

A

servidão não existia, para christãos, nos gre-

1—17.

130
mios populares;
sistir

Historia de Portugal
subsistia,

porém, e devia subcivil

se responsabilisava pela boa-fé do auctor e certificava o réu

por séculos a distincção

das pessoas

de que o [loder judicial o chamava

segundo eram ou nâo proprietários, e n'csta circurastancia e no modo de possuir a terra se baseiava a distribuição dos moradores dum concelho nas Irez
lâos,

realmente a responder por algum delicio que
lhe havia sido imputado.
consistia

O

terceiro, finalmente,

na penhora,

feita pelo

auctor

sem

in-

grandes classes, cavalleiros-vil-

tervenção

d'official publico, e

logo que intentava

peões e malados, cujas condições de exis-

a causa. Esta penhora, esta apprehensão violenta

tência social

procurámos descrever.

de objectos pertencentes ao réo, que tinha uni-

camente por fim compellil-o a não se esquivar

os PROCESSOS JUDICIAES
Os processos judiciaes, qualquer que fosse a
sua natureza, cotriam dentro dos concelhos pelos

ao processo, estava sujeita a muitas prescripções

destinadas a evitar que ella desse logar a rixas

ou se convertesse
tes

em espoliação n'algumas
:

par-

nâo podiam ser penhorados d'este modo os

mesmos

tribunaes

:

os dos alcaides ou alvasis,

devedores e os fiadores. Quando o auctor, só

acompanhados ou não pelos representantes do poder central e por jurados d'honK'ns bons. A instauração de qualquer processo precedia a querella.

por

si,

não podia effectuar o arresto, recorria

aos magistrados para que o fizessem, e elles fa-

ziam-n'o de facto, excepto quando o individuo
contra o qual procediam offerecia fiador, que se
responsabilisava pela sua comparência

Havia tempo demarcado para se querellar
:

e ser acceite a querella

o ferido, por exemplo,

em

juizo,

devia queixar-se era acto continuo ao ferimento,

cessando a sua responsabilidade logo que a comparência se verificava.
Feita a citação e apresentado o réo, trácia va-se

tendo-o recebido dentro da povoação, e no praso

de
;

trez dias,

tendo sido aggredido fora do povoa-

do e á mulher violada cumpria pedir justiça logo

da discussão da causa, discussão

em que

se ad-

que se achasse livre da coacção physica sobre ella exercida, denunciando o crime com lamentos e
gritos e narrando-o a

mittiam advogados, conhecidos então por vezeiros e arrazoadores.

quem

encontrasse pelo cavilla.

dentro d'um determinado praso,

O réu podia escolher patrono com liberdade

minho, quando tivesse tido logar fora da
perdia o direito de querellar,

amplíssima, e só não podiam ter advocacia, nos
concelhos de primeira formula, os olBciaes do
fisco

Sc o olfendido se desalTrontava por suas mãos

mas não

era incom-

quando pleiteavam por dividas á fazenda,

modado pela desaffronta tomada.
Ao
acto da querella seguia-se o da citação por

e nos de segunda os ladrões conhecidos
taes por seis

como

homens

bons.

Em

presença do ad-

parte da justiça, ao réu, para comparecer
juizo, geralmente

em

vogado

e

do réu procedia o tribunal ao exame das

no praso de

três dias.

Nos con-

provas, e admittiam-se
tos,

como provas

os

documen-

celhos de primeira formula a citação fazia-se por

os inquéritos, os depoimentos de testemu-

órgão do porteiro
e o indiciado réu

em

presença de bomens-bons,

nhas, a compurgação, o juramento pessoal e o
juizo de Deus.

não podia excusar-se de a retribudíil,

\ prova documental recorria-se
de propriedade, que já

ceber e de comparecer no

senão quando

principalmente nas causas eiveis e (juando ellas

provasse que precisava ausentar-se

em

serviço

versavam sobre
então
blicos,

direitos

do
por

rei:
elle

se,

porém, estava enfermo esperava-se
e dia. .Nos

andavam

certificadas por instrumentos pú-

anuo

concelhos de segunda e

muitas vezes assellados pelos magistrados
enqui-

terceira formula havia três
juizo, e

modos de

citar para

muuicipaes. Ao in^verito de testamentos
sa, cxquisa,

também de assegurar

a comparência do

exquisa- directa,

— procedia-se deno qual existiam
d'elle.

réu uo tribunal. O primeiro era a intimação pessoal

dois

modos

:

indo as testemunhas depor no tribu-

do auctor, apresentando o

sello

do jui? como
official

nal, ou enviando-se inquiridores ao logar do facto,

documento do seu mandado, ou d'algum
publico

que se pretendia averiguar,
pessoas indicadas

e

com

auctorisação do juiz, fazendo este

como podendo informar
civis

penhora em alguns bens do processado, para se-

O depoimento
criminaes.

dicecto de testennmhas era d'uso

rem como

fiança da sua obediência.

O segundo

mais vulgar, tanto nas causas

como nas
falta

era a intimação por meio d'um fid, inijuiduo que

Nas demandas motivadas por

Historia de Portugal
de pafiamento
lie

181
visi-

multas trilmlarias

i-ra elle

obri-

— Mualquer
nhos ou
concelho.»

que haja de firmar, firme com
do logar onde

gatório, e tamljcm nos pleitos entre particulares

filhos

fôr o tribunal

do

por dividas e fianças. Cada
o direito de reeusar certo

uma

das

jiartes linha

— Deprehende-se

d'estas disposições

numero de testemunhas,

obrigando a outra a substituil-as, e a esta re-

que o numero das pessoas que deviam jurar pela accusação ou pela defeza variava conforme a gravidade da causa.
Outro juramento testemunhal collectivo era a

cusa se chamava dizer ús enquisas.

O uso da prova

pelo juramento predominava
foral

nos concelhos regidos pelo

da Salamanca.

Havia o juramento do auctor, aflirmando, e do
réu, negando; os juramentos collectivos díicom-

manquadra, acerca da qual estatúe o foral de «.\ vmnquadra que dér a mulher Castello-boni queixosa de estupro deve ser do seguinte mo:
I i

purtjnçáo;

e

os

de firma ou ouloryamenlo.

do

:

jure conjunclamente

com quatio
e,

[larentes

(Juando alguém dava quereila

em

juizo podia e

seus sendo ella a (|uinta,
jure

se os não tiver,

em

certos casos devia jurar

com

outras pessoas
:

a verdade do facto, de que se queixava
dizia

isto se

firma ou oulorf/amento.

Em

algumas partes

com quatro visinhos que em tal dia elle fez sem seu consentimento e sem que ella recebesse retribuição alguma, nomeando
aquella violência

era a base do letigio;

o foral da (íuarda, por
([uul-

desde logo quem combata por

ella. Se,

porém,

exemplo, ordena
quer mulher, e de que
foi

ijue

«Se alguém violar
voz

não jurar a manquadra, não é o réu obrigado a
defender-se.
especial,
»

ella,

em

grita, se

queixar

A manquadra

era, pois,

uma firma

forçada e o accusado negar, dè a que-

que tirava

o nome do numero dos con-

rellante o

outorgamento de

três

homens de

ca-

juradores e talvez de jurarem elles cruzando as

thegoria egual á do réu, o qual se defenderá

mãos.

Em

alguns concelhos admiltia-se afirma

jurando

com doze homens. Se ella não achar indivíduos que dêem o outorgamento, servirá de
defeza ao culpado o seu juramento só, e, se não
sol-

singular, e era Torres

Novas o queixoso do

feri-

mento jurava

a queixa, fazendo

era presença dos juizes,

uma cruz no chão pondo uma mão sobre
das mãos, esta fe-

poder dar este, pague á queixosa duzentos

a cruz e a outra sob a ferida, e dizendo: «Por
esta cruz
rida

dos, deduzida a parte para o fisco.» Esta cita-

em que

tenho
a

uma

ção mostra

também que

á firma se podia oppôr

em

que tenho

outra fez-m'a o accusado.

um juramento negativo, e a este se chamava jura de malicia, dispondo os costumes dos concelhos do typo d'.\vila que «Por costume, nas

Tanto bastava para que este soffresse condemnação.

causas de ferimento, pode o réu pedir. /ííco de
malicia, accusando o auctor de o

antiguidade,

A compuryação, prova testemunhal de alta servia para attestar a innocencia

demandar mase fazia da

liciosamente e por malevolencia, e os juizes de-

d'um accusado pelo consenso dos seus visinhos, que a abonavam com juraraenlo. Os conipurgadores chamavam-se

vem ordenar que jure.
ideia estas disposições

»

Do uso que

em

Portugal jucadorcí.

./!(-

firma e do juramento contradictorio do réu dão
:

rados, conjurados, e

o numero de juramentos

«Ouem

ferir a

qualquer

que

fazia fé

em

juizo era determinado pela legis-

concidadão com pedra ou páu pague vinte morabitinos, se lh'o

lação e variava conforme a gravidade do crime,

firmarem, e se não lho firmarem jure 'a defeza com cinco visinhos. Se o ferir ou lhe fizer pisadura com a mão ou com o
i

nunca excedendo, porém, o de doze. Os foraes do typo d'Avila descrevem o modo como se fazia
o réu jurava primeiro a falsia compurgação dade da accusação, e depois delle cada um dos juradores, por sua vez, prestava juramento de
:

pé pague quatro morabitinos, se houver /irmã
se não a houver jure

com

quatro, sendo elle o

quinto.

— Se o

visinlio

da viUa, a quem arrombae dentro d'clla o ferirem,
i,

rem a casa com armas
poder firmar
ia

se

que o réu dissera verdade, terminando por dizer assim não c. Deus me confunda. Os juradores

quereila

pague-lhe loréu) mil
(o réui

deviam ser sempre homens de probidade
cusado, e as mulheres só

c vi-

soldos, e se a

não poder firmar, jure
(>

sinhos do concelho, de cathegoria egual á do ac-

com doze
delicto.

vizinhos

tique absolvido d"ai]uelle

em

certos casos eranl

— Havendo

de dar-se ou firmas onjit-

admittidas a attestarem a innocencia de outrfls

radores,

devem estes ser da cathegoria do atictor.

mulheres.

132
llcdlii-iios

Historia de Portugal
lallar

da |irova

juilicial,
:

que mais

solarengo rebelde ou o inimigo d"um visinho.

proía a harbarie da cdailf-raúdia
jiiizo de Deus,
(|U(:

o idiaiiiado

Cidadão que deixasse de acudir á defensão com-

tem

saliidu consci^var-se nos

mum,
cia, só
I)

resultando

costumes

até

ao nosso tempo.

Nos concelhos

podia resgatal-a

damno da sua fraqueza ou inércom as armas na mão.
pois,

poi-tu^'uezes,

ojuico de Deus cousultava-se pela

combate singular andava,

vulgarisado

ijruva

dii

íc'i'i'0

em

hraza e pela do combate sin-

como
é

se n'elle se não arriscassem duas vidas ou

gular.

A do

ferro

candente usava-se principal-

as vidas

não tivessem preço,

e a burguezia, (lue

meute, como meio de averiguar a innocencia do
réu, nos concelhos re^jidos pelo foral de Sala-

costume suppôr pacifica

e reluctante

ao

tierra-

manca, Fccorrendo-se a ella quasi sempre nas causas de roubo e algumas vezes nas de homicídio. O modo de a empregar, o ceremonial que ella

mamento de sangue, batia-se, senão por lana caprina, por pombos roubados, com tanto desfastio como se desafiavam a estocadas os gentis-homens na corte de Luiz xni pelo amor das damas casquilhas.

exigia, estava ainda pifscripto pela jurisprudência municipal

A

differença é que presidia aos seus

da monarchia leoueza-castelhana.
de Cuenca, o juiz e

duellos a

imagem da cega justiça, mais cega que
victoria,

Segundo o
aqueciam

foral

um sacerdote
ile

nunca quando via Deus e a verdade na
que lhe estendia aos pés

até ao rubro

uma

chapa, de ferro

um

cadáver.

dois dedos de largura e

um

palmo de compri-

Os dueUos judiciários estavam sujeitos a muitas formalidades.

mento, não conseulindo que ninguém se approximasse d'ella emquanto estava sujeita á acção
do fogo, para não haver fraude. iVJjrazado o ferro, eoUoeava-se sobre quatro hastes cravadas no solo, de modo que ficasse bastante levantado para
o padecente podesse passar o brayo entre
(]ue

mem

á liça

nos casos

Quem queria chamar outro hoem que era permittido fazel-o
ou mandava-lhe
do-

ia reptal-o

com

três vizinhos

ze, encarregados

do repto

em seu nome. O réu ti-

nha então nove dias para dar reparação judicial,
confessando-se culpado; não a dando, ou se encerrava

elle e

ochão.D'estessupportes o tirava o accusado, depois de ter lavado e en.Kugado as mãos, andava
o espayo de nove pés sustendo-o na
e.

em

casa, aproveitando-se da inviolabili-

dade do

lar,

ou acceitava o combate. N'esta hy-

mão

níia,

potheseos combatentes escolhiam para padrinhos
dois alcaides,

depois collocava-o vagarosamente em terra, recebendo n'este acto a benção do sacerdote.

dirigiam-se

com

elles

á devesa

escolhida pelo uso para arena, e n'esse terreno

Immediatamente o
ao
caloi'

juiz cobria-lhe a

mão exposta
linho ou es-

com

cera, enibrulhava-a

em

demarcavam os padrinhos o espaço cujos limites os campeões não deveriam transpor. Combatia-se
a pé,

topa, envolvia-a depois

num

panno, e se no fim

com

clava ou bordão, ou a cavallo,

com

de

trcs dias o

membro assim

acondicionado apre-

lança e escudo, sendo geralmente prohibido o

sentava

vestígio de queimadura, dava-se por provada a culpa acerca da ([ual se consultara

uso de armas defensivas, como a loriga e o elmo.
Antes de virem às mãos, ambos os adversários
reptador que a justiça estava da

o juizo de Deus, e o

r^Ju soíTria

irremessivel con-

juravam,

o

liemnação.

sua parte, e o reptado que este juramento era
falso
;

O dueUo ou combale singular era d'uso mais
vulgar ainda que a prova pelo ferro em hraza nos concelhos da segunda formula, embora a legislação de nmitos outros o excluisse dos proces-

aquelle

também dava

fiador

de que sendo

vencido pagaria

em

dobro o valor da causa
listes

bem

como o

estrago das armas,

preliminares

cedendo ao progresso da i-azão social. Os costumes da Iluarda aiJ[ilicavam-n'o a muitos casos,
sos, ordciiando-o positivamente nos
dio,
t

tinham logar n'uma egreja, na qual osduellislas e os padrinhos ouviam a missa dalva; findos
elles,

até ao

momento do combate,

os que iam

de homicí-

expor as vidas ficavam iucommunicaveis, pagando

>

homem

ierimeatoe affronta. Noutros era facultativo, accusado de, ter apanhado na rede pom-

um morabitino de multa quem entrasse na egreja.
Também
era prohibido aos estranhos penetrarem

bos alheios estava obrigado a defender-se
du«llo, sendo-lhe, portanto,

cm

mais penosa a defeza do que o seria a condemuação. Também combatia (liiem

no logar da justa e aos campeões sairem d'elle, dando-se por vencido aquelle que lhe transpunha
as balisas.

era accusado de recolher

em

casa

um

Examinava-se se o reptado e o reptador eram

Historia de Portugal
ili'

133

foiyas [iljysicas cguaes,

i-

para assegurar

i'sla

listes

eram os meios de averiguar a culpabili:

egualdade e a de forças nioraes aduptavaiu-sn certas providencias,
ijue

dade, usados pelos tribunaesdos municípios

ter-

como

prohibir sob pena de multa

algum dos dois ou amhos tomassem qualquer

minada a discussão da causa, proiiunciava-se a sentença comminando a penalidade. As penas não
podiauí ser benignas n'uma epocha de barbárie. Os juizes dos concelhos portuguezes dispunham

refeição depois de terem entrado na egreja, e im-

pedir que alguém fosse cantar
lide

com

elies. Ijuaiido a

durava mais de

um

dia, o

que era possível, os
e só

da vida dos criminosos de delictos graves as pe;

campeões só com os alcaides podiam comer,
durante a comida podiam desarmar-se
;

nas de morte e de mutilação encontram-se decretadas

o pór do

em

todos os códigos medivaes.

Também

sol punha termo ao combate do dia, e sobrevindo
elle,

se applicavam

com

frequência os castigos de va-

cada padrinho levava para casa o seu consobrigaudo-se a apreseutal-o no campo

radas e ainda a tortura.
plo, e

Em

tituinte,

em

Torres Novas, o

Thomar, por exemt'o:;ei;-o advogado

na manhã seguinte. Na lucta era vedado lançar

que veudia a justiça do cliente era enforcado.

mão darmas que não fossem
servirem
n'clla,

as destinadas para

O individuo que de
tico,

noite furtava

em

prédio rús-

ou de armas do adversário, ou
elle,

se não pagava

uma

pesada multa, tinha

pegar

em

pedras e torrões para lançar contra

a

mão pregada n'uma

porta por vinte e quatro

ou cortar arreios do seu cavallo, ou malar-lh'o. O
(jue

horas, e no dia seguinte soffria varadas.

Com tor-

matava o cavallo do contendor jurava não o
de propósito. Se o reptado punha pé

ler feito

em
se

mentos e açoutes se puniam também os ferimentos. Nos concelhos do typo de Santarém subiam
à forca os réus de homicidio, estupro e roubo
valioso.

terra devia esperar o reptador de

modo que

visse que este o podia ferir por todos os lados, e
ficava obrigado a defender-se durante três dias

Nos que se regiam pelo foral d'Evora,
maltractava

(ter-

ceira formulai os salteadores

eram enforcados,

e

consecutivos. Se o reptador se apeiava esperava

a quem

um

magistrado cortava-se a

também que

o inimigo o attacasse, devendo elle

mão. Segundo os costumes da Guarda,
sava nove dias raettido no tronco

homem

attacal-o três vezes

em

cada dia, braço a braço,

que dissesse injurias calumniosas a outro pas-

e feril-o nas armas, e.Kcepto

na lança, ou no cor-

sem

se lhe dar

po.

Se o reptado se conservava a cavallo podia
attacar três vezes por dia, e se não era

também

de comer, até que pagasse cinco morabitinos, e a mulher culpada de egual delicto era azorragada

derribado

nem

ferido ficava vencedor. Ser des-

andando

em

redor da povoação. N" outros foraes

montado equivalia a ser vencido. Quem
supplantado pagava o estrago das armas.

ficava

do typo d'Avila ordenava-se que se cortassem as
orelhas ao salteador que pela primeira vez cahia

— Uma

parte d"este cerimonial propunha-se visivelmente
a impedir, quanto possível,

em

poder da justiça, sendo enforcado no caso de

que os combates ju-

reincidência.

Em

Cima-Côa o violador da mulher

diciaes fossem sanguinários c custassem vidas. Ajjcsar de obscurecido pela superstição e muito
débil para se rebellar contra a tradição, o espirito

honesta

ia

á forca,

bem como o

incendiário. N'al-

guns municípios fundados por estrangeiros castigava-se o homicida enterrando-o vivo
victima,

com

a sua

dos legisladores municipaes já entrevia o
armas, c procurava attenuar, pelo menos, as
:

absurdo de recorrer ao Juizo de Deus por meio
lias

havendo exemplos de pena de enterramento a réus de outros crimes.

se applicar a.

A espécie de penalidade sempre
e especificadi pelos foraes era,
judicial

estabelecida

suas conse(iuencias deshumanas

todavia,

foi

ne-

porém, a coima
pecu-

cessária a propaganda de séculos para que a justiça se resolvesse a

ou calumnia. A coima derivava da usança
e este sacrifício

renunciar á supposta inter-

germânica do wehrgeld,
niário destinava-se,

venção da Providencia

em

favor dos innocentes,

primitivamente, a renúr o

chamados ao seu

tribunal, e a supprisse racio-

criminoso da vindicta da victima ou dos seus parentes, na qual consistia propriamente o castigo,

nalmente pelo aperfeiçoamento dos meios natuvaes de inquirição e averiguação das culpas, por

num

tempo em que era

licito a

cada qual fazer

que a usança barbara que

ella

legitimou teve ori-

justiça por

mão

própria, não

podendo esperal-a

gem

e

encontrou presis lente protecção nos cosbellicosos da

exclusivamente da sociedade, elementarmente
I

tumos ferozes e

edade media.

constituída e impotente para velar pela segu-

134

Historia de Portugal
:

rança de todos os seus membros a esta vindicta, que motivava a miúdo verdadeiras guerras particulares,

cobral-a a família do assassinado.

Na Guarda, ao
morabitinos,
;

crime de morte, resultante de rixa e sem premeditação, applicava-se a multa de

chamava-se

a faida.

Aos séculos

xii

cem

e

xm

e aos roncelhos portuguezes chegaram, por

mas o réu

ficava sujeito ás represálias

se o

tradição acceila pola legislação, tanto a faida,

crime fora premeditado a composição pecuniária
subia a dez mil soldos, e o delinquente, alem de
ser expulso do concelho, corria os perigos da /hi-

como o wehrgdd:

este,

porém, chegou adulte-

lerado e esquecido da sua origem, e applicou-se

por meio das multas ou calunmias, não só aos

da. O principio geral na legislação d'este município

crimes que dariam logar A faida, ou, como se
zia
zio

di-

era a
:

applicação

da pena de morte ao

em
com

Portugal, a que o réu ficasse
os parentes do offendido,

em homia outros in-

matador

quando a familia da victima a não exe*
concelhos do typo de Salamanca

mas

cutava, substiluia-a no encargo a magistratura.
N'estes

e a quasi todos, salvando

não já da vindicta
social.

mesmos

dividual,
zes,

mas ainda da vindicta

Outras ve-

os attentados contra a honra das mulheres pu-

porém, não remia o castigo, associava-se-lhe,

niam-se com extremo
zella,

rigor.

Quem

violava don-

e n'este caso

um mesmo

crime era punido com

que estivesse sob o pátrio poder, pagava a

mais d'uma pena. A jurisprudência penal da edade-média não estava subordinada, como ad'hoje,
a

coima de trezentos soldos a duzentos morabitinos
;

sendo mulher casada a victima, a coima

uma

theoria philosophica;
;

não

tinha, sequer,

importava

em trezentos

soldos

:

mas

n'uni e n'ou-

lógica nas suas disposições

era

um amalgama de
:

tro caso o criminoso ficava sujeito á

pena de ho-

tradições

romanas e gothicas incoherentes, de
e usanças

micidio, isto é, entregue á revindirta da familia

costumes

desconchavadas

e por isso
si-

da aggravada, revindicta tão protegida pela

lei

não

satisfaz a

quem

lhe perguntar qual era a

municipal, que quasi não havia meio de cscaparIhe senão a fuga para fora do lar e do concelho.

gnificação rigorosa da
cluía

cahmmia,

e por isso a in-

no mesmo código com significações diversís-

Similhante a esta era a legislação nos municípios de terceira e quarta formula.

simas, sendo" agora uma pena, logo

uma

remissão

Em

toda a

de pena
e

alllictiva,

ás vezes

uma

indemnisação,

parte, aos crimes contra a vida e contra a

honra

não raro indemnisação

e pena.

Mas como o

sa-

das mulheres correspondiam avultadas multas pecuniárias, cobradas pela offendida ou seus her-

crificio

pecuniário parecia doloroso a

homens de

poucos haveres, e taes eram trivialmente os populares, e como, por outra parte, a reparação a

deiros ou embolsadas pelo fisco,

como

tributos,

sem

que, todavia, essas multas remissem penas

dinheiro agradava aos ofTendidos e favorecia os
interesses dos magistrados e da coroa, que cos-

afflictivas

impostas pelos magistrados munici-

paes, ou salvassem da vingança pessoal.

tumavam
tiça

ter parte

nas coimas, o certo é que

a jus-

Os crimes leves e ainda os de roubo castiga-

municipal as comminou

em

larga escala e de

vam-se

geralmente com as coimas, soffrendo

preferencia a quacsquer outras penalidades

castigo corporal o réu que não podia solvél-as.

Os foraes dos concelhos do typo de Santarém

A importância das coimas correspondentes a attentados contra
as

condemnavam

os réus de homicidio ou rapto,

pessoas

costumava

variar

commettido dentro da povoação, á multa de quinhentos soldos, e os ladrões ao pagamento de

segundo a cathegoria do offendido; na Guarda,
por exemplo, a composição por homicidio era de
trezentos soldos,

nove vezes o valor dos objectos roubados
reito

:

o di-

mas

subia a mil sendo o assas-

consuetudinário d'estes

mesmos

concelhos,

sinado

um

cavalloiro.

Ainda quando a quantia

todavia, castigava os homicidas e violadores

com

paga pelo delinquente servia de indemnisação á
victima ou a seus parentes, o fisco recebia ge-

a pena capital e declarava os seus co-réus, ha-

vendo-os, homizieiros dos parentes das victimas.
Ksta accumulação é frequente, tractando-se de delictos graves.

ralmente parte

d'ella,

sendo essa parte de ordi-

nário a sétima, e d'este

modo

a criminalidade

Nos municípios da segunda formula
as penas

produzia para

a corrta,

para os seus delegados ou

eram sanguinárias

comminadas aos

para os funccionarios municipaes,
i'eceita,

uma

valiosa

grandes criminosos, mas os seus foraes impunham a multa d(í trezentos soldos ao assassino, devendo

e

as

caliimnias

consideravam-se

um

verdadeiro tributo, que, attento

rigor da legis-

Historia de Portugal
lução penal e a frequência dos crimes, não devia

136
uma

o direito sobre os pastos, o qual, segundo

serdes que menos avultavam no erário.

provisão de AlToiíso in, consistia

numa vacca de

cada manada e quatro carneiros de cada rebanho,

TRIBUTOS
Não era
só pelo

que pastavam nos termos da povoação.
dos vizinhos, recahindo
os dos estranhos
;

Em alguns

concelhos estavam isentos do montado os gados

pagamento das calumnias ou
concorriam

elle

unicamente sobre

peitas que os grémios municipaes

n 'outros, os foraes declaravam
rei

para as despesas do estado

;

reeahiam soiíreelles

expressamente que o

ou o senhor da terra

vários outros Irilmtos, que no fim do século xiv
D. Diniz distriliuiu

dispensava este tributo. Povoações havia

em que

em

Ires cathegorias

:

sei^

o montado, por concessão regia, revertia para o

viyo pessoal do fussaclo e da hoste; o fòvo,

com-

município.

— O condado era imposto sobre a caça.
como pagavam os es-

prehendendo todos os encargos pcssoaes ou pecuniários da
terra,

Fmas

vezes pagavam-n'o tanto os visinhos

da producção agrícola e dos
;

os estranhos, outras vezes só o

valores industriaes ou commerciaes

e a -peita

tranhos, e não raras o tributo era mais pesado

ou mluinnia, de que

já Iractámos.

para estes do que para aquelles; assim, nos concelhos do typo de Salamanca, o caçador de caça

A designação genérica do foro estendia-se a numerosos tributos, directos ou indirectos, que

miúda, pertencendo ao grémio municipal, dava
apenas

pagavam individualmente os membros do concelho ou o concelho como pessoa collectiva. Um
d'estes últimos era a colheita
,

um

coelho ainda que se demorasse oito

dias no matto,
fora se exigia a

emquanto que

a

um homem
foral

de

jantar o\i parada,

decima parte do producto do seu
de Sapor ser a propriedade

que consistia na obrigação de fornecer vicluallias

trabalho.

Nas povoações regidas pelo
livre,

para a mesa do
;

rei

(|uando entrava

cm

qual-

lamanca a caça era

quer povoado

só por excepção se isentava

algum
o de

municipal plena e absoluta; na carta de Sortelha,
entre outras, lè-se
:

nmnicipio d'este encargo.
lheita

A

importância da coforal
;

«Possuí vós e a vossa poste-

costumava ser estabelecida no
:

ridade estes termos do

Valhelhas dizia

«Esta é a colheita que, por foro,
el-rei

aos povoadores de Sortelha
possuí

mesmo modo que os deu meu avó Sancho, e
hereditária quanto se
»

o concelho de Valhelhas deve dar a

Sancho,
.\

como propriedade

uma
saber

vez por anno quando vier a Valhelhas.
:

encerra n'estes limites.
tos,

Nos concelhos imperfei-

uma vacca,

seis carneiros e

mais

um para

ao contrario, estava geoeralisada a imposição

o alferes, três porcos, seis cabritos, seis leitões,
cinco gallinhas, duzentos ovos,

do condado, pois que se approximavam da condição das terras não privilegiadas, recahindo

manteiga

e outro tanto

de mel,
sal,

vinagre e outro tanto de

um alqueire de um alqueire de um alraude de famãos de
li-

em

alguns exclusivamente sobre a caça grossa, da
qual o caçador devia dar certas porções ao se-

rinha de trigo e outro tanto de milho, duas resteas d'alhos e duas de cebolas, três

nhor do termo, e n'outros sobre a caça grossa ou
miúda,
se
e até sobre a colheita

que faziam os que
lhes

nho,

um

morabitino para cera e pimenta, seis
três foga-

empregavam em procurar enxames, para

modios de cevada, quinhentos pães,

aproveitarem o mel e a cera.

— O tributo das aza-

ças e Ires modios de vinho, tudo medido pela

rias consistia no quinto das prezas feitas pelas
milícias burguezas,
ria feita

medida de Valhelhas.
claravam, portanto,
pelos visinhos.

»

Este tributo recahia col;

chamando-se azaria à corre-

leclivaraente sobre o concelho

alguns foraes deser destribuido
di-

espontaneamente pelos habitantes d 'uma

como devia

povoação. Já dêmos noticia dos preceitos que

Em

algumas partes remia-se a

mais vulgarmente regulavam o pagamento d 'esta
contribuição militar. Nos foraes do typo de San-

nheiro, e assimsuccedia, por exemplo, na Guarda
e

em

Benavente, que pagavam

uma

renda an-

tarém é geral a disposição que isenta de quinto
para o
rei os

nual ao rei por serem dispensados de lhe dar

despojos das expedições feitas
cavallos. N'alguns

com

em parada.
Entre os impostos directos e collectivos avul-

menos de sessenta

do typo de

Salamanca nada se encontra disposto acerca das
azarias; n'outros, porém, ordena-se, como nos

tavam também o montado, monladego ou montalico, o

condado

e as azarias.

O montado era

de Numâo, Monsancto, Penamacor, Proença e

136

Historia de Portugal
para baixo meio morabitino. De égua comprada

Salvaterra do Kxtn-mo, que os liurguozes diiem

ao senhor

da torra a quinta parte de tudo
paiz de sarracenos.

quanto

ou vendida e de boi dois soldos

;

de vacca ou

colherem em

Nos concelhos
obri-

jumento ou jumenta

um

soldo.

De mouro ou de

de

terceira e quarta formula

predomina a

moura escravos
í

i

meio morabitino. De porco ou
;

gação do tributo; mas em Leiria, alem do quinto da preza, pertenciam ao rei todos os cavallos to-

de carneiro dois dinheiros
bra

de bode ou de caazeite,

um

dinheiro.

De carga de

de couros

mados ao inimigo, ao passo que
deiTibava

era Seia

quem

de boi, de gamo ou de veado, meio morabitino.

um

cavalleiro tinha direito ao seu ca-

vallo e espolio,

sem pagar nada ao

rei.

De carga de eira meio morabitino. De grossaria dois dinheiros. De fato de pelles, dois dinheiros.

Estes

eram os principaes impostos

directos,

De

linho, alhos ou cebolas, escudelas e va-

mas não os únicos. Nos concelhos da província de Traz-os-Montes, os chefes de familia, cujo
rendimento excedia
da,

sos de madeira, dizima. Se as pessoas de fora do

concelho que trouxerem estas diversas cargas e
tiverem
lor

uma

quantia

determina-

pago portagem levarem outras do va-

pagavam uma quota
:

fixa d'esse

rendimento

d'ellas,

não paguem portagem

d'estas.

De

pelo S. Martinho

chamava-se a este tributo a

carga de pão ou de sal que venderem ou com-

mariinéga ou martiniega. Na Estremadura os almocreves estavam sujeitos á almocrevaria ou
almoquevaria, consistindo n'uma carreira que

prarem pessoas estranhas, sendo carga de cavallo

ou de macho, pagarão
três

três dinheiros

,e

sendo de jumento

mealhas. Os mercado-

deviam

fazer

annualmente

em

serviço do

rei.

res naturaes da villa que quizerem dar soldada,

Das contribuições indirectas notaremos como

receba-se-lh'a

;

se

não quizerem, paguem porvilla

mais importantes os direitos de barreira, de transito e

tagem. Da carga de peixe que levarem da
pessoas de fora

de mercados. Os direitos de barreira, a
fiscaes, pela-

paguem

seis dinheiros.

Os mora-

mais iniqua de todas as imposições
intolerável, porque se

dores de concelho que tiverem pão, vinho, figos

vam na edade media o commercio d'uma maneira
cobravam ás portas-de cada
povoação, como se não fossem todas economica-

ou azeite

e

trouxerem qualquer d'estas cousas

para seu gasto e não para mercadejarem, não pa-

guem portagem,»
D'estas desordenadas disposições fiscaes conclue-se, era primeiro logar, que a

mente

chamavam-se então 'portagem e coniplicavam-se com a passagem ou peagem, que se dava ])clo transito de géneros de commersolidarias
:

portagem se
:

cio.

domo

se não bastasse ainda tributar a

mer-

pagava tanto á entrada como á saida da villa não se pagava, porém, senão uma vez, quando
a mercadoria era importada c exportada. As por-

cadoria na entrada ou na saída

d'uma povoação
era posta

ou na sua passagem, quando

ella

em

tagens recahiam especialmente sobre os

homens

venda no mercado ficava também sujeita à açou-

de fora: os visinhos remiam-se d'ellas pagando
a soldada,

gagem,
tos

e estes três impostos de

consumo com-

que devia ser uraa espécie de avença.
se faz era duplicado, no trecho
direitos

binavam-se diversamente, ficando ás vezes isen-

Da raenção que

dum

os

géneros que pagavam outro. De

que transcrevemos, dos
sujeitos ao

que deviam pa-

como se lançavam e cobravam a portagem e a açougagem dá idéa este trecho d 'um foral da
typo de Santarém.

gar certos géneros, deve concluir-se que estavam

«Dêem de foro da vacca um dinheiro, e do gamo um dinheiro, e do veado um dinheiro, e da carga de cavalgadura com pesca um dinheiro, e o mesmo se dará de julgado e três dinheiros de alcavala. Do veado e do gamo e da vacca e do
porco e do carneiro, por qualquer d'estas cousas
ura dinheiro. Os pescadores paguera dizima.
cavallo ou de

mesmo tempo a açougagem e a portagem: de uma vacca, por exemplo, dava-se âs portas um dinheiro, mas quem comprava ou vendia

no mercado uraa vacca pagava mais

um

soldo.

Também apparecem

raencionados na tran-

scripção o julgado e a alcavala:

eram espécies

particulares dos impostos indirectos, ou addicio-

naes.
ros,

A alcavala
fisco

De

que o

consistia n'uns tantos dinheicobrava da carne que se vendia

macho ou de mula que venderem ou comprarem homens estranhos por dez morabitinos ou por mais,

na praça, e sobre esta venda recahia egualmente
o julgado.

Um

addicioaal era a alcaidaria, foralcaide.

um

morabitino, e de dez

ragem destinada ao

Outro encargo do

Historia de Portugal
comraercio, a relegagem, consistia no direito que
linha o fisco, o rei ou o senhor
d;i

137

quarto volume da Historia de Portugal. Ex-

terra de

vender

huniando dos archivos, peça por peça, o complicado mechaiiismo dos concelhos do reino, para
o recompor

o seu vinho antes que os particulares ofTerecessera o seu ã venda
:

o praso para o uso d'este direito

com a

precisão scientifica

com que
fra-

estendia-se desde o 1.° de janeiro até ao 1." de
abril.

os naturalistas reconstituem, à vista

d'um

Vizinho de concelho que fizesse concorrên-

gmento fossilisado, aniraaes antediluvianos,

o pri-

cia ao senhor, n'este praso,

pagava a multa de
arrombavam-se-lhe

meiro historiador portuguez não foi inspirado uni-

cinco soldos pela primeira e pela segunda vez

camente pelos dictames da sua consciência de
erudito
:

que delinquia,

e à terceira

cedeu também á sympatbia das suas

as cubas e entornava-se-lhe o liquido.

E quem

crenças pelas associações

em que

o

homem

do

de fora do concelho trouxesse vinho, para o vender no mercado, podia vendel-o pagando de
cada carga

povo encontrou no passado asylo contra as violências da realeza e da aristocracia,

adquiriu

um

alraude de relegagcm, tributo

consciência dos direitos da personalidade hu-

que cobrava o senhor como indemnisação do

mana

e se iniciou no
politica.

cumprimento dos deveres
Mais ainda.

mal que
celhos

soffria

com
se

a competição. N'alguns con-

da hberdade

O

sr.

Hercu-

também

lançavam tributos sobre os gée achavas.

lano julgou reconhecer no município o elemento
natural da organisação societária, o meio justo

neros que se vendiam a alqueires e a almudes

cham.ivam-se fangas
Estes

de
tributários

ligar

o indivíduo ao estado,
a

evitando ao
fra-

eram os principaes encargos
aos grémios populares
:

mesmo tempo

absorpção do individuo e a

communs
e

todavia, a le-

gmentação do estado, a escola pratica dos cidadãos, a instituição que pôde conciliar a varie-

gislação fiscal variava de concelho para concelho,

mormente d'uns para os outros concelhos de differente typo, para se accommodar ás circumstancias locaes,

dade dos interesses locaes com a unidade dos
interesses collectivos, e teve

severa

e

embora nunca deixasse de ser vexatória e como rede de apertadas

resm-gír o passado, offerecer
turo e porventura

em vista, fazendo uma lição ao fufiel

uma

tradição ao progresso.
fez

malhas. Comparada

com

a

que vigorava nas po-

Por

isso,

depois de ter feito a descripçâo

voações do dominio da coroa e a que avexava
a parte da população sujeita directamente aos se-

a apreciação conceituosa das instituições miinicipaes dos séculos xii e xni, para indicar os defeitos
gir,

nhores e ecclesiasticos, essa legislação parecia

que o futuro

e o progresso

devem

corri-

de tanta brandura e equidade que só por

si

bas-

em

levantadas paginas que nos permittimos

tava para attrahir os populares aos grémios
nicipaes.

mu-

transcrever, por incapazes de substítuil-as e desejosos de ajudar a pi'opaganda que encerram.

O despotismo usurário da

realeza e das

classes superiores da sociedade fora

engenhoso

«Os factos descriptos por nós faliam

bem

alto

e fecundo na invenção de meios e formas de su-

a favor das instituições municipaes, que

cremos

gar a substancia do povo, ordenhal-o e tonsural-o

inseparáveis de toda e qualquer organisação ver-

como rebanho,

e o

regimen tributário dos con-

dadeiramente

liberal

;

mas por

isso

celhos dos séculos xii e xni significa
quista do progresso social e

uma

con-

pre indicar os parceís mais arriscados
ellas

mesmo cumem que

um

triumpho dos

naufragaram;

princípios e dos interesses democráticos,

mos-

Portugal, encontraram

em que, pelo menos as de em boa parte a sua ruína.
li-

trando

como a

historia dos impostos é a historia

É assim que pela
trinas

historia o passado serve de

da democracia.

ção ao futuro, e que a restauração de certas dou-

ou de certos princípios oblitterados, não

APRECIAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES
MUNICIPAES
Descrevemos, com a largueza que nos
sível, as instituições
foi

por falsos, mas por mal desenvolvidos,

em

vez

de ser

um

passo retrogrado, pôde significar

um

verdadeiro progresso, restabelecendo-os na espossência,

municipaes, aproveitandosr.

cordes

mas applicando-lhes formulas novas accom a sua índole ou com as modificações

nos do proficiente trabalho do

.Alexandre Her-

aconselhadas pela experiência dos séculos. Três
circunstancias nos parece terem-se dado no sys-

culano, que consagrou ao seu detido
VOL.

exame

o

1—18.

138

Historia de Portugal
porque assim vinham a ser árbitros escolhidos
só por

tema dos nossos antigos concelhos que, occorrendo a certos inconvenientes próprios da época

uma

das partes. Este- vicio da instituição
todas essas

em que aquelle systema começou a difatar-sc, creavam outros maiores para o futuro. A reacção da sociedade geral contra estes últimos deu motivo ou pretexto á coroa para ir mais longe

produzia todas essas variedades,
lluctuações
existir

na espbera da sua acção que vimos
vi-

de concelho para concelho. D'aqui

nham também
tia

os medianidos, remédio elRcaz
e, até,

do que cumpria e para langar no seio dos grémios os germens da sua dissolução como ele-

para resolver muitas dilliculdades

garan-

admirável considerados
dos

em

relação ao sys-

mento

social independente, isto é, para

matar

a

tema jurisdiccional

grémios,

mas

que,

força própria du democracia.

avaliados sob outro aspecto, contribuíam

por

«As três condições que principalmente reputa-

certo para radicar as provas barbaras dos juizos

mos


deletérias

no organismo municipal, foram

:

de Deus, que obviamente deviam ser preteridos
n'aquelles tribunaes mixtos, para onde tanto os

i.' a existência de

cional particular e

uma magistratura jurisdicexclusiva em cada concelho
;

magistrados como os jurados levavam prevenções e affeições do espirito de localidade e onde,
portanto, os accordos da razão fria e imparcial

2.' a separação material das classes

nobres

da convivência com os vizinhos ou cidadãos do
concelho, separação que se estendia até á pro-

seriam

dilficeis.

priedade territorial
belecida

:

A segunda circumstancia que,

3.° a

desigualdade esta-

sendo caraeteristica na Índole das instituições
municipaes, veio a ser

como regra a

favor dos habitantes do

com
foi

o decurso do tempo

nuuiii'ipio lonira os individues estranhos a ellc,

a causa talvez mais etlicaz da alteração radical
d'essa

desigualdade manifestada na diversidade das garantias,

mesma

indole,

a formula grosseira a

na ordem do processo, no systema
Estes factos orgânicos, se

tri-

que

a

rudeza da época recorreu para separar o

Imtario.

obviavam a

individuo coUectivo, a associação que caila gré-

males instantes contra os quaes a sciencia politica

mio

constituía, das pessoas

que a

elle

eram

es-

moderna acharia mais

fáceis remédios, pro-

tranhas e sobre tudo dos

membros das

classes

duziam, porventura, maiores desconcertos, crea-

priveligiadas. Esta formula era a separação
terial

ma-

vam maiores embaraços do que
vidido

esses que se
di-

do individuo

e

da propriedade

territorial.

pretendiam remover. Se o paiz estivesse todo

A

insulação das aggregações municipaes no meio

em

concelhos

;

se

os juizes burguezes

das classes aristocráticas, seja qual fòr o estado
e organisação d'eslas, é,

fossem aijsoiuiamente magistrados territoriaes e

em

nosso entender, a

não electivos ou

eleitos

de outro modo

;

se a di-

ídéa mais fecunda que a edade

média concebeu

versidade de direitos e deveres que distinguiam
as classes sociaes não se estendesse aos privilégios de foro, isto é, se a
lei

em

relação á liberdade

;

porque é o único meio

de conservar a independência do elemento democrático e de tornar possível a sua acção no
equilíbrio social. Esta insulação aíiigura-se-nos

positiva eivei

ou

crime fosse egual para todos, não haveria inconveniente

em queo ambilo dacção da magistratura

a pedra angular do verdadeiro progresso politico.

jurisdiccional nas inferiores instancias estivesse

Mas a sua expressão legitima não pode ser

determinado pelas circumscripçOes municipaes.

senão immateríal. Deve manifestar-se

em

certa

Mas as condições d'existencia d'essa magistratura eram outras absolutamente. Os juizes dos concelhos procediam da eleição e esta

somma
tuem o

d'aquellas relações sociaes
direito

que

consti-

publico do

paíz.

Os homens,

porém, dos séculos bárbaros não podiam comprehender
isto e, portanto,

pertencia unicamente aos vizinhos, aos arreigados. Pela

não previram as concerto

origem

elles

eram antes

juizes pesárbitros nas

sequências de converter

íle

modo em honra

soaes do que territoriaes.

Como

ou couto democrático o perímetro de cada concelho e de contrapor este às honras dos nobres e aos coutos ecclesiastícos. Mil causas, sobretudo
as económicas, tendiam a annullar a exclusão

contendas entre vizmho e vizinho a sua jurisdicção era não só legal,

mas também moralmente

legitima; nas que, porem, se alevantavam entre

um

vizinho e

um

estranho essa jurisdicção poera

dos indivíduos pertencentes ás classes elevadas

deria ser legal,

mas

moralmente illegitima;

do

território municipal.

Nos foraes mais antigos

Historia de Portugal
e nos dos

139
;

concelhos mais fracos é onde esse

revoluções da Península na época presente

re-

principio absoluto.

sobretudo

predomina de

um modo
a força ir-

voluções copiadas servilmente de typos estra-

Com

o tempo e nos grandes municí-

nhos, potentes para derribar e impotentes para
reconstruir; revoluções

pios os próprios foraes transigem
resistível dos factos. Deixa-se

com

sem autonomia, que

al-

que os poderosos transponham as barreiras d'esses asylos da liberdade
popular e recorre-se ao
triste

teraram as manifestações exteriores da sociedade,

mas que,

politicamente, a deixaram im-

expe-

movel no seu viver ou antes no seu agonisar
intimo.

diente de os igualar aos villãos

em

direitos e
.

deveres públicos, como se

isto

bastasse para

«Sc as imperfeições no mechanismo municipal

anniquilar a superioridade das suas influencias

que até aqui notámos eram antes de desorganisação futura do que

moraes

e materiaes

;

como

se,

incorporando-se

um um

elemento
inconve-

nos grémios, não se levasse ao seio d'estes o

niente immediato e actual na época

em

que o

veneno que devia
democrática dos

ir

destruindo a individualidade

municipalismo se constituía e dilatava, outro
havia cujos fataes
elleilos,

mesmos grémios. Emquanto por
ou
tal

embora continuassem
\'i-

um

lado

a

coroa negava expressamente aos
tal

depois a actuar, eram desde logo sentidos.

membros de

concelho instituído de

nha

a ser a desigualdade posta
;

como regra
tributário,

entre

novo a faculdade de alienar os seus quinhões no
sesmo, os prédios que se lhes distribuíam, ven-

concelho e concelho
politicas e judiciaes,

desigualtlade nas garantias

no systema

num

dendo-os ou doando-os a indivíduos do clero ou

grande numero, emfim, de direitos e deveres
públicos.

da fidalguia, por outro lado o

rei dirigia cartas

Como

a edade

média procedia mais
factos,

patentes aos magistrados locaes para distrílmí-

pelo impulso dos ínstinctos do que pela reflexão

rem terrenos no
d'isso,

alfoz

municipal a personagens

como
villa
fácil

partia

não das doutrinas, mas dos

prívelígíadas e, até, a seus próprios fdhos.

Além

a necessidade de attrahír moradores a qualquer

os

poderosos ímpelliam os concelhos,
a violência, a incorporal-os

ou logar que se povoava incutia

uma

idéa

empregando às vezes

de occorrer, mas cujas consequências não

no grémio e a distríbuir-lhes vastas propriedades territoríaes, o que era n verdadeiro ponto

era igualmente fácil prever
são. ,\ssim, cada foral,

em

toda a sua exten-

dando vantagens espe-

das suas miras.

Na verdade

estes factos consíde-

ciaes ao habitante do respectivo concelho sobre

ravam-se como excepção, como

uma

quebra do

os dos outros, quer limitrophes quer mais distantes, creava entre

direito publico, para a qual, apezar

da supposta

homens na

essência iguaes

ou verdadeira espontaneidade dos burguezes, se
reputava necessária a approvação
licença
e

uma

distincção odiosa e, ao
inútil;

mesmo

tempo, as

expressa
esses

mais das vezes
idêntico,

porque, dado

um

foral

do

poder central

:

mas

todos

ou contendo privilégios similhantes,

apparatos, todas essas formulas de chancellaría

aos novos concelhos que se iam successívamente
constituindo, esses privilégios

nem mudavam
^

a essência das cousas,
efFeitos.

veniam os seus desastrosos
demarcação de
villão,

nem preSe, em lo-

annuUavam-se de
se annul-

ordinário uns pelos outros.

O que não

gar de se estremarem os grupos burguezes pela

lava era os conflictos, os ódios e malquerenças

um

território,

digamos assim,

de interesses e direitos oppostos entre as

villas,

se estabelecesse o verdadeiro

muro de

separação entre elles e as classes privilegiadas,
o principio da associação moral

que deviam resultar d'essas disposições absurdas tendentes a exaggerar o espirito de localidade e a debilitar o elemento democrático, forte pelas instituições municípaes, mas que o seria

tendemos, mas absoluta,

como hoje a enmas exclusivamente
de degenera-

democrática, que era a idéa fundamental das instituições municípaes, estas, longe

incomparavelmente mais pela cohesâo intima
dos diversos concelhos.

Em logar d'essa

cohesão,

rem, ter-se-híam desenvolvido

e fortificado a tal

as instituições, estabelecendo o

ciúme e a guerra

ponto, que provavelmente haveriam obstado ao

entre elles, enfraquecendo-os moral e material-

predomínio completo do principio monarchico e
ao regimen do absolutismo durante mais de três
séculos, tornando,

mente, davam-lhes

em

resultado serem

menos

de temer para as classes aristocráticas

e torna-

portanto,

desnecessárias as

rem-se cada vez mais dependentes da coroa.

iL.i"Vi^o
.A^ífoiíí^o

X'\r

rr

CAPITULO

I

chefe da christandade, o novo rei empenhou- se

em
Primeiros actos do governo de Affonso II
Apesar áv hostil por mteressc,
niiiio e
iiii'liiuiç;Qo

manifestai- ao clero nacional a benevolência

(ie

que estava animado para com que de

elle,

benevolên-

cia

facto só era impotência

de

lutar, e,

provavelmente por sua mstancia, consentiu
ifa-

reunir, ainda

em

cuuselho do chauceller Julião ú ruacgão

de assemblèa

em uma espécie de cortes ou legislativa, em que predominou, se
1211,

religiosa

que vencera
II,

Sftiicho i„

seu filho e her-

não dominou absolutamente, a ordem ecclesiaslica.

deiro, AfTouso

ao sentar-se no Ihrono julgou

O

traslado da acta das deliberações adopta-

necessidade de bofi e sagaz politica dissimular a
hostilidade, e mostrar-se atiectuoso para
clero,

das n'essa assemblèa, que existe na Torre do

com

o

Tombo, dá

noticia d'ella e da maneu-a
:

como

foi

senão submisso á sua
foi

tutella.

Um

dos seus

constituída, dizendo

«No anno primeiro que
D. Affonso
ii,

rei-

primeiros actos
cencio
III,

escrever ao pontífice Imio-

nou o mui nobre
alto rei D.

rei

filho

do mui

annunciando-Ihe a sua elevação ao

Sancho e da rainha D. Dulce, neto do
Affonso,

throno e offerecendo á Santa Sé a sujeição espiritual e politica e o trilmto pecuniário,

grande

rei D.

em Coimbra

fez cortes,

em

([ue

em
de

as quaes

com conselho de

D. Pedro, eleito de

seus antecessores haviam consentido, para que a
auctoridade apostólica o ungisse, e este pedido
loi

Braga, de todos os bispos do reino e dos
religião, e dos

homem
esta in-

ricos-homens e seus vassallos,

benevolamente accolhido pelo papado, que
enviou

estabeleceu ...» Apesar de

bem lacónica,

em 1212

uma

bulia de confirmação do

formação é conceituosa. Nas cortes emittiram parecer e

titulo real,

semelhante ás que expedira
i

em

fa-

deram conselho os bispos
n'ellas

e o clero

;

fi-

vor de Affonso

e

Sancho

i,

e
ii

na qual recordava
se

guraram

também os ricos-homens e os seus
não se
diz,

expressamente que Affonso

compromellèra

vassallos, isto é, a nobreza;

porém,

a piigar aos representantes de S. Pedro a quantia

de dois marcos d'ouro

em

cada anno. Lembrado,

que ao lado da nobreza e do clero tomassem logar os representantes dos concelhos. Km vez de
assemblèa da nação, as chamadas cortes de 1211

provavelmenie, da demanda que tivera

com San-

cho

I

reliitivameute á quotidade do tributo, Iniii

devem

ler sido

uma como

juncla dos chefes do

nocencio

acautellava-se contra

demanda egual

movimento

clerical,

que se desencadeiàra contra

declarando

com

a maior clareza por qual preço
ii

a auctoridade regia,

na qual

elles e os

barões

concedera a AlTonso
omnipotente.

a sua protecção quasi

seus apaniguados dictaram ao novo soberano,

como orgulhosos vencedores de seu
ções de paz, cujo resumo
foi

pae, condi-

Ao mesmo tempo que tractava de segurar-sc
no throno fazendo reconhecer o seu direito pelo

a humilhação e su-

bordinação do sceptro ao báculo.

Historia de Portugal
Uuc
é esta a significação das cortes de 1211

141

utilidade geral, e até algumas destinadas a fortalecer a auctoridade regia na sociedade leiga.

provani-n'o, ainda melhor do que o predoiniiiio
n'ellas dos inimigos
leis

da agonia de Sancho

i,

as

AlTonso

II

pensou

em

reivindicar para a coroa o
çtifi

que

se promulgaram, quasi todas proveito-

poder judicial, en'este intuito mandou
e todos

o reino

sas para a

ordem

ecclesiastica e destinadas a

que nelle morassem fossem sempre regielle e

resolver antigas pendências doesta
coroa.

ordem com a

dos e julgado por
res, e estabeleceu

por todos seus successotoda a parte juizes seus

Determinou-se,

em

primeiro logar que

em

fossem respeitados os direitos da egreja de Roma,
declarando-se que as leis que attentassem contra
clles

delegados, attacaiido assim, ao menos
cipio, as prerogativas jurisdiccionaes

em

prin-

que anda-

ficavam ipso fado nullas c como revoga-

vam

associadas á auctoridade dos ricos-homens.

das, o

que era subordinar claramente a

legisla-

Considerando-se

supremo magistrado

judicial

lai;ão civil

á canónica e o temporal ao espiritual.
instancia

promulgou

também algumas
ficar

disposições,

ás

Recommendou-se com muito piedosa
se considerassem privilegiadas,

quaes deviam

subordinadas todas as juris-

que os mosteiros e egrejas e as suas herdades

prudências locaes e particulares, c assim estatuiu

tomando o

rei a

que os bens dos condemnados á morte não

fos-

propriedade ecclesiastica sob a sua especial protecção e impedindo que lhe causassem
seculares.

sem

confiscados, salvo determinação

damno os

exarada na sentença; reprimiu o

em contrario uso, em parte

Ordenou-se que nas egrejas do pa-

legalisado, da revindicta pessoal, da justiça feita

droado régio, o padroeiro só provesse clérigos
naturaes da terra, sendo a disposição visivel-

pelas próprias

mãos dos aggravados, ordenando

que para todos os aggravos houvesse reparação
jurídica
;

mente inspirada pela animadversão dos portuguezes contra os estrangeiros, aos quaes não raro se

declarou todas as casas, de nobres

como

de peões, privilegiados para n'ellas se não commetter homicídio; intentou atalhar demandas,

davam em

Portugal elevados cargos ecclesiasti-

cos. Estabeleceu-se

que os ministros do templo

determinando que os auctores de causas injustas
fossem multados;
próprio
nitária, e

nada dariam de

cotheila,

as edificações militares,

nem concorreriam para nem prestariam serviço
elles

finalmente impòz-se a

si

um

preceito de notável prudência
:

huma-

como homens

d'arnias, estendendo-se esta isen-

dizendo

«Porque a cólera costuma per-

ção aos seus bens, e ficando

independentes

turbar o coração de

modo que

se não

podem ver
alal-

do poder dos seculares. E como

em compensa-

direitamente as cousas, estabelecemos que se

ção d'estas importantissimas concessões da coroa, o clero, por sua parte, talvez porsuggestão

porventura no movimento do nosso coração

guém coudemnarmos
giun membro,
tal

á morte ou á perda de

do chanceller

.lulião

recomraendada pelo

rei,

sentença seja addiada por vinte

concordou

em

que as egrejas e os mosteiros não
raiz,

dias, depois dos quaes será executada, se en-

podessem de futuro comprar bons de
se

não

tretanto a

não tivermos revogado.» Oxalá que
justiça

comprehendendo no

preceito os clérigos par-

sempre a

humana

se acauteliasse, d'este
I

ticulares, e

imaginando-se obstar por este modo

modo, contra a suggestão das paixões

ao accrescentamento progressivo da propriedade
ecclesiastica privilegiada. Esta providencia

Em
ram

beneficio das classes populares, ordena-

o

notámos

— concorda de

— já

as cortes de 1211

que

fosse abolido o uso

tal

modo com o pensa-

e abuso de dar ao rei, aos ricos-homens, aos se-

politico de Julião, que a sua iniciativa lhe pode ser altribuida; todavia, não tinha tanto alcance que a egreja julgasse dever repellil-a, por-

mento

nhores das terras

e aos oUiciaes

da casa real a terça

parte de todas as cousas que se

compravam,

que a acquisição de bens
só a compra

territoriaes fazia-se

mais

mandando-se que todos fossem eguaes nas compras e vendas, e todos comprassem pelo verdadeiro
e

por doação c testamento do que por compra, e
foi

justo

preço,

não havendo privilegio

prohibida
si,

pessoal que o fizesse diminuir. Mostra esta equitativa provisão até

Tractando de
tractasse

o clero deu logar a que o rei

onde chegavam as extorsões

lambem de algumas necessidades da ad-

das classes privilegiadas, pois se deprehended'ellas

ministração publica, e por isso, a par das leis feitas
epa beneficio da egreja, encoutram-se outras de

que era direito de posição de certos fimccio-

narios apoderarem-se dos objectos necessários ao

142

Historia de Portugal
uma ameaça
de sedição. Abater

seu consumo pagando-os por menos a terça parte do seu valor, o que equivalia a defraudar gratuitamente o homem do povo da terça parte do producto do seu trabalho
Esta determinação é
litica

com um

golpe

do sceptro os báculos

e as lanças

dos fiadores

testamentários, arautos e campeões do espectro

de seu pae, era, portanto, façanha e desaffronta

também consoante

a po-

tão condigna do caracter auctoritario e

domina-

do chanceller Julião, sem duvida inspiraii

dor de AtTonso, quanto era agradável à sua cobiça
conservar e recuperar as rendas e os senhorios

dor de Affonso

desde os primeiros annos do

seu reinado. Não ousando luctar abertamente

com

da coroa alienados por Sancho, e o joven mo-

o clero, prestando-se até a ofTerecer-lhe penhores de benevolência e a deixar-lhe dictar leis, o

narcha esqueceu-se das promessas e juramentos,

raonarcha e o seu sagaz jurisconsulto souberam

movido pelos impetuosos sentimentos que ram quasi toda a historia do seu reinado.
É de crer que ainda

dicta-

comludo aproveitar as cortes de 1211, convocadas, para assim dizer, por

em

vida do pae tomasse

um

poder rival da

providencias para não ser impellido a cumprirIhe o testamento, porque não ha noticias de que
os testamenteiros tentassem a principio

realeza, para introduzir na legislação alguns princípios úteis a essa realeza

humilhada

e ao

seu

desem-

natural alliado, o povo.

penhar-se da sua missão pelos meios violentos

de que lhes era

licito usar.

Gonçalo Mendes de
el-

CAPITULO

II

Sousa,
les,

um

d'el]es e o

mais poderoso de todos

abandonou

o paço e talvez o reino, logo que

Contendas com as infantas
Impotente para luctar

Affonso n subiu ao tlirono, e este facto denota

que o mordonio-mór se achou sem as forças

em

com o

clero, Affonso

ii

que Sancho confiara para iinpôr obediência ao
seu successor, naturalmente porque este lh'as

como que pretendeu

desforrar a auctoridade real

d 'esta impotência dolorosa, reliellando-se contra a vontade do pae moribundo e iirivando as
ir-

havia quebrantado previdentemente. Os infantes

Fernando

e Pedro, apezar

de aguerridos,

também

mãs das doações destinadas

a assegurarem-lhes

se expatriaram, prío esbulho.

sem terem podido

obstar ao pro-

fortuna independente. Essas doações prejudica-

Com
alto

a sua retirada e a demissão

vam-n'o e as precauções tomadas por Sancho
para as fazer valiosas otfendiam-n'o. As rendas

de Gonçalo do

cargo que exercia coincidiram

ainda o desterro de alguns fidalgos e mudanças

de Alemquer, Montemor
siado importantes para

e

Esgueira eram dema-

no pessoal da
Alíonso,

corte,

e todos estes

successos

serem cedidas sem pesar
o ouro legado aos infan-

obscurecidos são indícios vehementes de ([ue

pelo
tes

monarcha pobre

;

quando soou a hora de assumir o goao
fi-

Fernando e Pedro tentava a avareza do irmão
feita a súbditos

verno, tinha já robustecido o braço, afiado a es-

malévolo; a entrega de praças,

pada

e disposto trincheiras para dar batalha

avisinhados do throno pela ascendência, repu-

partido congregado pelo pae
lhas.

em

torno das

gnava ao soberano prepotente

:

e aos

sentimentos

pessoaes e ás conveniências da coroa juntavase,

para conspirar contra o testamento de Sanir

cho, a irritação produzida no animo de Affonso

pelas garantias de que o testador rodeiára as

Não ha duvida de que empunhou o sceptro com mão robusta e atloita, apezar de ter contemporisado com o clero, e que o manejou sem hesitação, como executando um plano antecipadamente traçado,
d'extraordinaria
a (|uem e é provável (lue concorresse

suas derradeiras disposições. Os prelados e

ri-

cos-homens ajuramentados para as auxiliarem e
fazerem executar por todos os modos

para esse plano e para o seu êxito esse

homem

— quibusdo prín-

destreza, o chanceller Julião,

cumque modis potuerint
direito e contrahido

— haviam

adquirido o

Affonso agradecia e retribuía, logo no
e méritos a elle presta-

o dever de se alevantarem

anno de 1211, serviços
A sua coroação.

contra o príncipe reinante
cipe

em nome

dos, e que portanto parece terem sido anteríores

defuncto, e esta espécie de fiança,

com
como

Em

derredor do

leito da-

quanto usual, devia parecer áquelle tão afTrontosa

agonia de Sancho agitaram-se por certo ambições e ódios, tramaram-se conspirações, urdi-

como uma

tutella

e tão aggressiva

Historia de Portugal
rani-se intrigas, piciteou-se o futuro, (izcrara-se
alliciações, gladiarain-se surdauieutu dois

143

sar de novas e fidedignas informações, e para aa

bandos

colherem foram nomeados os bispos de Astorga,
Burgos
e Segóvia.

oppostos; o das infantas estava, senão vencido,
debilitado,

Mas eraquanto estes prelados

quando morreu seu pae,

e qui(;á

ti-

traiUarain de se

desempenharem da incumbência,

nha perdido por deserção dois dos seus caudilhos,

iUTonso n conservou posse do objecto doletigio,
e pareceu tão confiado na justiça da sua causa

Lourenço Soares e Gomes Soares, a quem
faltou o
;

nunca

agrado do perseguidor de Gone n'esta lucta e para este resul-

que se applicou a esbulhar D. TherezaeD. Sancha,

çalo de Sousa

como esbulhara

D. Mafalda.

tado d'ella cooperou Jidião, vingando aggravos
próprios, adquirindo valimento e servindo dedi-

Áquellas senhoras tinham cabido a villa de

Esgueira e os casteilos de Montemor e Alemquer,
e o ambicioso irmão procurou apoderar-se de

cadamente os interesses do novo

rei.

Desailrontado dos testamenteiros e tendo ex-

tudo

;

mas

os primeiros esforços dos seus par-

perimentado as armas da guerra contra os

ir-

ciacs, feitos n'este intuito,

foram infructiferos e
de Casa flor

mãos, a quem negara o quinhão de om-o, que
ILes havia sido destinado, Aflbnsovoltou-se contra

não poderam por algum tempo ser renovados,
porque Affonso
tella,
ii

houve de acudir ao

rei

os irmãos.

Estes offereceram-lhe

uma

re-

ameaçado pelo amir de Marrocos, com

sistência talvez

não cuidada. Tinham começado
do testamento paterno na

da cavallaria, que ajudou a vencer a batalha de
Navas. Obrigado por esta distracção de forças a
contemporisar,

a precaver-se pedindo todos ao papa Innocencio ni a confirmação

mas não querendo parecer que
intimou pacificamente

parte

em que

llie

era applicavel, e D. Mafalda

renunciava ao

pleito, o rei

buscara mais

um

apoio poderoso, fazendo doa-

as irmãs para lhe entregarem as villas disputadas, e três vezes,

ção dos domiuios de Bouças c Arouca á ordem

com

intervallos de três dias, repe-

do Hospital e reservando para
fruflo.

si

apenas o uso-

tiu as intimações.

As infantas, porém, despreza-

Mas O

esta astúcia não bastou para deter
rei

ram-n'as, confiando provavelmente nos tramas

Aílbnso.

desapossou os freires dos novos

ainda occultos, que não tardaram a apparecer,

bens, e como a

ordem appellasse para o

pontífice,

recolhcram-se

com

D. Branca a. Montemor, forti-

perante o iribmial de Innocencio se deriniiu o
pleito, já decidido de facto pelas

ficaram este caslello, e mensageiros seus foram

armas. O advocerto Vicente,
pri-

pedindo, por Portugal e Leão, soccorro de cavalleiros

gado do aggressor

em Roma foi um

para damas perseguidas. Não lhes faltou

homem

letrado, e este

advogado expôz pela

este soccorro.

Numerosos

fidalgos, acaudilhados

meira vez a doctrina jurídica com que o herdeiro de Sancho, ou o seu chanceller, procurava

por Gonçalo Mendes de Sousa, que emigrara
para Leão e lá se conservara
filhas
fiel

ao partido das

legitimar a própria conveniência. Segundo tal

de Sancho, entraram

em Montemor como

doctrina os bens patrimoniaes da coroa
inalienáveis, e

eram

para provocar Affonso, eeste houve que responder á provocação poiido-se
tinguir o foco de sedição.

deviam portanto passar
filhos,

integral-

mente de pães a
na bulia
fonso
I

como estava expresso de ^Uexandre m, que confirmara Afrei.

em armas para exDe caminho por Moa-

temòr mandou occupar Esgueira e du-igiu tropas
sobre Alemquer. Affirmado assim o seu propo»
sito

na posse do reino e na dignidade de

O monarcha também sustentava que a doação a
.Mafalda fora

de usar e abusar da força, crendo ter

inti-

unicamente limitada ao usufructo e

midado D. Thereza, mandou-lhe
realmente conciliadoras
das as rendas da
a
villa,
:

fazer propostas,

só valiosa para o caso da princeza entrar

em clauaos hos-

offerecia deixar-lhe to-

sura

;

observava que a transmissão

feita

entregando-se o castella

pitalares privava o erário de sele mil morabiti-

um

fidalgo

que merecesse simultaneamente a

nos amiuaes

:

e por ultimo, e não contente

com

confiança da infanta e a do

Hi

o reconhecesse
offerta foi

definir a seu gosto a natureza

da doação, preten-

o dominio supremo da coroa.

Mas a

dia invalidal-a, allegando que seu pae
sião de testar

na occa-

rejeitada. D. Thereza contava, para

fundamento

estava mentecapto. Estes argu-

de tanto arrojo, com o auxilio de Affonso ix que
fora seu esposo; Gonçalo

mentos pareceram de algum peso ao papa:
hesitou portanto

Mendes trouxera-lhe

em

sentenciar, declarou preci-

talvez certeza d'esse auxilio; e

Montemor era

144

Historia de Portugal
zera, e d'est'arte se salvou mais

o logar da reunião escolhido para mais do que um torneio, em que esforçados paladinos que-

uma

vez, por

mercê de

um

alliado

fiel

e generoso,

a indepen-

brassem lanças pelos

direitos das infantas

:

para

dência periclitante do reino de Affonso Henriques,
e ficaram as irmãs de .\ffonso
cólera, agora justificada, do

uma

revolta de súbditos descontentes contra o
rei, revolta

n ameaçadas pela

seu legitimo

que se declarou, acclaii

monarcha, que ha-

mando

o monarcha de Leão, logo que Affonso

viam posto em imminente

risco de perda total.

recomeçou as hostilidades interrompidas pelas
propostas conciliadoras.
ciosos dos defensores de

Não desdenhou
córcos de

elle

de vingar-se, e apenas se

Como

se os gritos sedise tivessem
ix,

viu desaffrontado do exercito leonez apertou os

Montemor

Alemquer

e

Montemor

;

mas como

as

ouvido além das fronteiras, Affonso

acompa-

praças oram fortes e eram valorosos os seus
defensores, o cerco prolongou-se

nhado por D. Fernando, nascido do seu consorcio

com grande

com

D. Thereza, e pelo infante portuguez

dispêndio de vidas, e deu tempo a que o papa

Pedro, entrou então por terras de Portugal, c a

Innocencio ni se dirigisse ao rei e ás infantas e
as intimasse para submetterem á sua arbitragem
a contenda, que a força

guerra

civil

converteu-se

em

guerra estrangeira

em

1212.

não decidia. Esta
ii,

inter-

O soberano portuguez tinha o melhor das suas tropas empenhadas em rebater a invasão
de Annasir,
e

venção

foi

aceita por Affonso

porque tinha sido

em

parte provocada por elle, appellando para o

achou-se,

portanto,

quasi

des-

chefe da egreja do interdicto que lhe haviam
posto no reino os prelados parciaes das infantas

armado deante do novo inimigo, o qual poude
assenhorear-se,

sem

resistência, de quasi toda

no momento da invasão leoneza, e consequente-

a província de Traz-os-Montes e parte da provin-

mente Innocencio ni ordenou aos abbades de
Spina e Osseira que viessem a Portugal, tomas-

da do
fonso

Minho. Assustado

com

taes progressos, Af-

n ainda tentou atalhar o passo ao invasor,
precária posição peiorou

sem juramento ao
formarem com

rei e ás infantas

de se con-

mas a sua

com uma der-

as decisões pontifícias, e feito isto

rota soffrida

em

Valdevez. Depois d'e]Ia Affonso ix

procedessem á suspenção do interdicto. OrdenouIhes mais que intimassem os pleiteantes para

poude esperar, sem vaidade, vingar cruelmente
D. Thereza e pôr

mão na coroa que

se separara da

cessarem as hostilidades, procurassem trazel-os

sua, e continuou a avançar para o coração do

aumaccôrdo,

e,

não o conseguindo, fizessem

um

reino;

que a
dar

mas subitamente um acontecimento, com sua imprevidência não contara, veiu mususto a confiança do vencedor, e trazer

inquérito sobre as circumstancias da questão e

mandassem o seu

resultado para

Roma
com

;

e tendo

em

os abbades vindo, effecti vãmente, á corte de Af-

salvação aos vencidos que jã desesperavam d'ella.
Foi o caso a victoria gloriosa das Navas,

fonso n, foram recebidos por elle

gr.indes

ganha

protestos de docilidade, que lhe eram inspirados

pelo exercito castelhano e portuguez. Esta victoria

pelo desejo de vêr terminada pacificamente,

mas

memoranda trouxe pazes com

os sarracenos,

em

seu favor,

uma demanda

já causadora de

o rei de ("astella regressou aos seus estados, as
tropas prepararam-se para volver á pátria, e

graves damnos, e receberam os juramentos exigidos pelo pontífice,

como

como condição previa de

Affonso IX, antes de invadir o território portu-

annulação das censuras.
Contra essa annulação protestaram todavia as
infantas, allegando

guez, passeiàra as armas no castelhano, entrando
castellos e saqueiando cidades,

temeu-se de que

que o juramento do irmão

Affonso vin buscasse vingança d'esta grave injuria e

era tão digno de fé

como o que

prestara, e não

da injuria

feita a

Affonso

ii,

seu alliado e

cumprira, de executar as disposições testamentárias

parente, e que se voltassem contra elle, entra-

de seu pae, e os delegados apostólicos ac-

nhado em

paiz inimigo, as lanças vencedoras de

ceitaram o protesto e pozeram duvida

em

sus-

Annasir. Este temor fez-lhe desejar as pazes

com

pender o interdicto. O

rei,

por sua parte, exigiu

o soberano de fiastella, e as pazes fizeram-sede
feito.

a observância das ordens do pontífice, appellou

Portugal

foi

comprehendido

n'ellas, reti-

para

elle, c o

appello não

foi inútil,

porque Inno-

rando-se Affonso ix para alem das suas fronteiras e

cencio

mandou

aos abbades que

novamente con-

abandonando todas as conquistas que

fi-

vidassem Affonso a jurar o que já jurara, e que

Historia de Portugal
accedendo
se fez.
elle

145

levantassem as ceníuras. Assim

menos aos

templários. A este pedido, endere-

Depois disto os juizes tentaram conciliar

çado ao papa, juntaram ainda outro, que mostrou

as partes,

a instruir o processo.

mas não o conseguiram e começaram A primeira sentença que
foi

quanto estavam abatidas e assustadas, e rogaram
a Innocencio
iii

que intimasse o

rei

para firmar

nelle se proferiu

desfavorável ao rei e cou-

pazes

com

ellas c abstèr-se

de qualquer aggres-

demnou-o a pagar cento e cincoenta mil morabitinos ás irmãs, a titulo de

são, e determinasse

que essas pazes fossem conricos-

indemnisação pelos

sagradas

com

o

juramento dos prelados e
solidas.

damnos que injustamente
foi

lhes causara. Esta sen-

homens, para ficarem mais

tença, lavrada nos fins de janeiro de 1214,

não

Reduzida a contenda a estes termos, a

su-»

acceita por .\.ffonso. Recorreu d'eila para o

papa. Os abbades de Spina e Osseira, entendendo

prema auctoridade pontifical facilmente fim, mandando assentar as pazes, com

lhe pôz
as fianfir-

o recurso como

uma quebra da obediência jurada
com
;

ças requeridas pelas infantas para sufficiente

ás decisões da cúria, castigaram-n'o logo

meza, e declarando que quem as quebrasse
correria nas censuras apostólicas.
d'isto

in-

excommunhões

Innocencio ni mostrou-se, poelles, e

Em

resultado

rém, mais benigno do que

mandou julgar

parece que o bispo de Burgos e o deão de
al-

novamente sobre

a matéria das indemnisações,

ComposteUa não chegaram a resolver cousa

nomeou

juizes

ad

hoc,

annuUou as excommucastellos

guma

ácêrca das indemnisações, talvez para não
conflictos.

nhões e ordenou que os

disputados

darem pretexto a novos

As irmãs de

fossem entregues á guarda dos templários, po-

AlTonso socegaram, convencidas provavelmente

dendo
mente.

as filhas

de Sancho viver n'el]es pacifica-

de que o papa era parcial do
d'elle

rei e

nada obteriam

que lhes fosse favorável, e se esta convicção

Os novos juizes foram o bispo de Burgos

e o

as desanimou, é mister confessar que não dei-

deão de Compostella, e a estes

foi

determinado

xou de
cencio

ser firmada

que averiguassem quem tinha sido, na guerra

III

usou, de facto, da

em bons argumentos. Innomáxima benevolência
if

que se empenhara, o offensor

injusto, e o cons-

para

com

o monarcha portuguez. Fcz-Ihe mais

trangessem a reparar os damnos do offendido;

do que

justiça. Âffonso tinha razão contra as

mas o ponto

capital

do pleito dccidiu-o o papa soII,

mãs quando

requeria d'ellas que reconhecessem

beranamente. AlTonso

chamado

a

uma lide, em

a jurisdicção da coroa sobre as suas villas e os

que a força não dispensava a razão, pozera-a do
seu lado, não disputando ás irmãs as rendas das
terras,

seus castellos, e o pontífice não podia deixar de
decidir a seu favor

em

tal

matéria

;

mas não

é

como

a principio disputara,

mas querendo
eminente e

duvidoso que antes de se mostrar moderado fora
violento e tentara

somente
real,

ter sobre ellas a jurisdicção
iii

uma

espoliação, pois (jue pre-

e Innocencio
llie

sentenciou que essa juris-

tendera

também

apossar-se das rendas, que

em

mandou ás infantas que a reconhecessem sem restricções e se contentassem com o gozo dos rendimentos,
dicção

pertencia de direito, e

bom
seus

direito

tinham sido doadas sem restricção
filhas,

por Sancho a suas

e que a guerra, os
d'esta

damnos

e estragos

haviam procedido

nos quaes consistiam unicamente as doações de

pretenção cúpida.

Havia logar, portanto, para

Sancho. O

rei

ganhou, portanto, a demanda na

o pedido da indemnisação. Havia

também bons

sua parte importante e especial, e o julgamento

motivos para obrigar Affonso a affiançar qualquer concordata que fizesse, com penhor mais
valioso do que a palavra, (]ue
pria
;

do bispo de Burgos e do deão de Compostella devia versar apenas sobre

uma

questão accessoria.

nem

jurada cum-

As

porém, repugnava confessarem-se vencidas, e além dessa questão das indemnisainfantas,

e todavia Innocencio ni dispensou-o d'egta

fiança,

desconheceu o direito das infantas a

uma

ções pelos damnos da guerra suscitaram outra,

reparação, fechou os olhos ás demasias do rei
anteriores ao letigio judicial, e attendeu-o e deferiu-lhe
até

pedindo que lhes fossem dadas garantias de que

Monso

as

não esbulharia, de

futuro, d'aquelle

quando se insubordinou contra os

dominio que lhes era reconhecido, desejando

legados apostólicos. Mais ainda: apesar de

um
foi

que essas garantias fossem a entrega dalgims
castellos reaes a

processo de trez annos, que correu perante nu-

homens de sua confiança, ou

pelo

merosos juizes, a sentença

final

pronunciada

VOL.

1—19.

146

Historia de Portugal
mal a po-

tão pouco definitiva e determinou tão

CAPITULO

III

sição de D. Thereza, de D. Sanelia e D. Branca, que foi necessário voltar ao assumpto no principio do reinado de Sancho
ii.

Guerra com os sarracenos
Os últimos annos do reinado de Sancho
i

Apenas o

rei se

deu
haOs portuguezes pareciam

por

satisfeito

com

as decisões pontificias, o juiz

pôz de parte a demanda que tomara tanto a peito, importando-se pouco com as duvidas e as
incertezas que essas decisões
tir,

viam sido
ter

pacíficos.

desesperado de recuperar os territórios con-

deixavam subsise

quistados por Yacub na invasão que chegara ás

com

risco e prejuizo

da parte mais fraca

margens do Tejo,
morreu, seu
filho

e

quando o

klialifa

vencedor

primeira aggravada: veremos qual era o interesse que o movia a tanta
e tão

Annasir occupou as armas

em

pouco sizuda

submetter os Ibn-Ganiyyahs, que procuravam,

condescendência.

como herdeiros dos almoravides, minar

os ali-

O

lastimoso conflicto durou desde 1211 até

cerces do throno almohade. D'esta distracção de
forças c attenções procurou aproveitar-se o rei

1216, e foram as infantas D. Thereza e D. San-

cha que principalmente se envolveram

n'elle.

de Castella, o bellicoso e magnânimo Affonso vm,
para vingar a derrota que soflrêra

D. Branca acompanhou-as e partilhou a sua sorte.
D. Berengaria conservou-se estranha, provavel-

em

Âlarcos e

proseguir no empenho,

comnium

aos monarchas

mente por ser de pouca idade, ás desintelligencias
da familia, e
rei

christãos, de expulsarem para

sempre da Penín-

em 1214

foi

dada

em casamento
D. Mafalda

ao

da Dinamarca,

Waldemar

ii.

mos-

trou desapego dos bens terrestres resignando-se
á espoliação, que soffreu apesar da defeza dos liospitalarios, e

O golpe rijo que recebera, se o impossibilitara por momentos de renovar a lucta, não lhe quebrantara o animo
sula os sectários do islam.
viril. SolTria

a cusio as tregoas que fora compel-

procurou no claustro a paz que fugira

lido a ajustar

com

Annasir, e repetia a miúdo

do paço. Ahi

mesmo

a procurou a fortuna.

Em

«Os

filhos

vingarão o sangue vertido pelos pães»

1214
rei

falleceu d'enfermidade o
viii, e

nobre

e glorioso

pondo

a

mira dos mais desvelados esforços

em

de Casteiia Affonso
I,

succedeu-lhe Henri-

preparar essa vingança. E logo que o praso das
tregoas expirou, achando-se

que

seu filho primogénito, tendo dez annos de
rei

em

paz

com

todos

edadc. A menoridade do

deu ensejo a que a

os reinos da Hespanlia e ligado por alliança aos

sua tutella fosse disputada por D. Berengaria,

monarchas de França
vestiu as

e Inglaterra, Aííonso vni

repudiada rainha de Leão, e pelo conde Álvaro

armas

e espreitou occasiâo e pretexto

Nunes de Lara; o conde venceu na disputa,
pensou

e

para recomeçar a campanha contra os inimigos

em

dar a Henrique
elle

i

esposa que o domi-

da

fé chrislà.

nasse e a

quem
foi

dominasse, para d'esta arte

O pretexto não

lhe faltou. A edificação, por elle

annuUar a influencia de Berengaria. A esposa
escolhida
D. Mafalda, senhora afamada por
virtudes, de juizo são e grande docilidade, e o

intentada, do castello de Mora ou de Maia na
fronteira dos estados sarracenos
foi

por estes cone logo o rei

siderada

como declaração de guerra,
território

consorcio teve logar

em 1215 com

muito agrado

castelhano fez entrar seu filho

Fernando com
ai-

do

rei

de Portugal, que julgou não dever disá

algumas tropas no

dominado pelos

putar
tirara
•a

rainha

de Castella os senhorios que

mohades, e devastou as cercanias de Baeza, Andujar e Jaen. Os chefes d'estas provindas e os

á irmã, e portanto lh'os entregou
d"elles recebera.

com
mu-

renda que

Mas o casamento
e irrequieto, fez

seus vizinhos, não podendo resistir ao embate

foi

infelicíssimo.

A irmã do
iii

rei castelhano,

dos christãos,

mandaram
civil,

emissários a Africa pe-

lher de gonio

emprehendedor

dir soccorro a Annasir, já então liberto dos cui-

com que Innocencio
de parentesco,
gal, e e D.

o annullasse por motivo

dados da guerra

e este

Mafalda voltou para Portu-

djihed, ou guerra santa, reuniu grande

mandou pregar o numero

cedendo a impulsos de piedade tomou o Véu no mosteiro de Arouca, no qual veiu a falJecer.

de soldados, e

o Estreito e desembarcou

em numerosas frotas atravessou em Hespanha em 1 210.
tro-

Tendo tomado era Sevilha o commando das

pas reunidas de Africa e de Andalús, passou da

Historia de Portugal
defensiva,

147
feito

cm que

se

haviam

colloi-ado os seus

sogro o n(!cessitado serviço, e de

não

lh'o

capitães, á oífensiva vigorosa, e

em

vez de se en-

regateiou, apesar da sua indole pouco aguerrida.

contrar

com

o exercito de Fernando, procurou
castelliana

Os reis de Aragão e Navarra também juntaram
as suas tropas ás de Castclla, e do concerto dos

romper a fronteira

pondo

(^érco a Sal-

vatierra. A rebater esta aggressão acudiu prom-

monarchas

cliristãos

de Hespanha só se apartou

ptamente AtTonso vni
reconheceu
Ihas e

em

pessoa,

mas

avistando
jiraça,
Ijata-

o leonez AlTonso ix,

que calculou que podia

tirar

a multidão dos sarracenos que sitiavam a
(|ue seria

proveito da guerra do seu rival Affonso vni

com

imprudência dar-lhes

Annasir, c quiçá fez tractudo secreto de ami-

mudou

o

rumo da expedição, entregando

zade com o soberano
zera

a guarnição de Salvaterra á sua sorte, que devia
ser, apesar

inflei, como outr'ora o ficom Yacub, merecendo que o fulminassem

do esforço com que se defendeu duAllbnso, alanceado por

os raios da Santa Sé.

rante mezes, succumhir sob o peso dos mouros.

O coração do
tre,
foi

tal

desas-

O soccorro offerecido por Portugal consistiu n'um corpo de tropas reunido por Aflbnso n, nas
milícias religiosas, principalmente nas do
plo,

landiem dilacerado, n'esta conjuncturu,

pelo lulleciniento do príncipe Fernando, victima

commandadas

pelo mestre

TemGomes Ramires,

do repentina enfermidade nionarcha

:

todavia, o corajoso

e

em

muitos cavalleiros e peões, que voluntariase dirigiram para Toledo, niostrando-se,
christãos, dispostos a

nem assim

se desalentou, e deixando,

mente

por não poder irapedil-o, que o chefe almohade
fosse

como

não regateiarcm o

vencendo e conquistando nos
foi elie,

districtos

em

sangue á causa santa da independência de Hespanha. O monarcha Affonso n não se prestou,

que penetrara,

como para compensar-se,

cercando e entrando custellos mussulmanos. Che-

porém, a acompanhar os seus guerreiros
locar-se ao lado do sogro.

e col-

gando ao inverno descançou as armas. Mas como
se convencera por dolorosa experiência de que,
só'

Demoveu-o natural-

mente de
ter

arriscar a sua pessoa o génio, que logo

por

si,

não poderia rebater a invasão dos

al-

na infância se manifestou só propenso a comha-

mohades, aproveitou-se da interrupção das hostilidades para reunir forças temerosas

sem armas,

e descuJparam-lhe, de certo, a

com que
e
vi-

falta

de enthusiasmo bellicoso os complicados

as renovasse

mais esperançado no triumpho,

enredos políticos,

em

que andava envolvido para

para

isto

pediu soccorro aos monarchas seus

desappossar as irmãs da herança paterna c robustecer a auctoridade regia. Se, comtudo,
tou o rei portuguez na iusida hoste que
fal-

zinhos e aos cavalleiros francezes, e pediu ao

papa que o auxiliasse com a sua auctoridade a

em 1212

promover na Europa occidentai uma como cruzada
contra os mouros de Hespanha.

se abalou de Toledo ao encontro dos sarracenos,

cobriram a sua ausência o numero e o valor dos
of-

O papa accedeu diligentemente ao pedido,
cito

guerreiros, que rodeiavam o seu pendão hasteiado,

fereceu aos soldados que se alistassem no exer-

e Portugal teve parte brilhante na bri-

de Gasteila as indulgências que se costumaconceder aos que iam pelejar na Palestina,

lhante victoria de Navas de Tolosa.

vam

Esta batalha feriu-se no dia 16 de julho. O
exercito coUecticio, movendo-se de Toledo, en-

e os esforços de AlTonso vni foram coroados de
êxito,

porque

em

Toledo, logar designado para
todas as par-

caminhou-se para a Serra Morena, juncto da
qual acampara Annasir.

a reunião dos
tes,

homens de guerra de

A passagem

pela serra

que quizessem acudir á christaudade hespase accumularani
forças numerosas,

escabrosa

foi

dillicil e ia

pondo termo, por des-

nhoia,

em

breve

espaço de

alento dos soldados, á expedição a tanto custo

tempo

capazes de affrontae

começada. Faltavam mantimentos para tanta copia de gente quanta

rera o poder

immenso de Annasir

terminarem

accompanhava os

reis chris-

a campanha, que já durava havia dois annos. Entre os príncipes

tãos, as jornadas apressadas

haviam cançado e

que auxiliaram os castelhanos

estropiado os soldados, deante dos seus passos
erguia-se

não
cho

foi

dos menos diligentes Affonso n, de Por-

como muralha a

fechar-lhes o

caminho a

tugal. Alliado
I,

de Affonso

viii,

como o

fora San-

cordilheira alcantilada, por entre cujas penedias

e seu genro, cumpria-lhe, por mais estes

raro se encontrava trilho, as difficuldades e os

dois títulos accrescidos ao de christão, prestar ao

trabalhos acabrunharam os espíritos, fallou-se

em

148

Historia de Portugal
lança na mão, nos territórios visinhos, oceupa-

retroceder, e o exercito ter-se-hia desordenado,
se

um

pastor, ruja iutcrveiH-ão

foi tida

por mila-

dos pelos sarracenos e até então defendidos pela das invasões de Yacub. Desde a data d'estas iovasões nada se emprehendi?ra,

grosa, não ensinasse aos chefes christãos

uma

dolorosa recordação

senda, peJa qual poderam atravessar a serra e avistar o airaial iiiimifío. Apenas o avistaram, as
tropas fizeram alto e

por parte dos portuguezes, contra os mou-

descanyaram do jornadeiar

ros das fronteiras, senão

algumas correrias sem

de muitos dias, e com esta paragem ganharam confiança os mouros, attribuindo-a ao medo. Depressa se convenceram de que tinham errado.

importância, feitas principalmente pela cavallaria
das ordens militares, que nunca deixavam arrefecer os braços
ria das

A

nem enferrujar as armas. Mas a victo-

16 de julho.cahirani sobre

elles,

como penedos

Navas predispôz os ânimos para sacudirem
voltar-se as attenções para o es-

despregados da serrania, os esquadrões christãos,

o terror e o desalento, de que estavam possuídos.

empenhou-se uma das mais formidáveis batalhas que ensanguentaram terras de Hespanha.
e

Começaram de

tado das províncias do sul do Tejo,

começaram

O attaque

foi

impetuoso. Os reis,

em

pessoa,

de accender-se novamente os brios guerreiros nos
corações dilatados
christâo

deram exemplo de destemor. O de
talvez

Castella, ar-

com

a alegria do triumpho

rojando-se ao meio das legiões sarracenas, teria

das Navas, e esta transformação, de
feitos

succumbido, se o arcebispo de Toledo, que

que deviam resultar gloriosos
importantes conquistas,
foi

d'armas e

o accompanhava, lhe não recordasse os deveres

ainda auxiliada por

de capitão

;

o de Navarra

foi

o primeiro que desar-

acontecimentos
guerra
civil

inesperados,

que

levaram

a

pedaçou as cadeias de ferro que fechavam o
raial

ao seio do império almohade e lhe

mussulmano, na parte onde Annasir tinha
;

apressaram a decadência, otTerecendo-o, desar-

a tenda
tilezas;

o de Aragão egualmente practicou gene se faltou n'esta porfia de heroísmos

mado, aos golpes desassombrados dos inimigos
seculares.

o

rei

de Portugal, os portuguezes assignala-

Annasir ficara acabrunhado com o desbarato

ram-se entre os seus n-niâos d 'armas pelo arrojo

que

sofTrêra, e

sem esperança de

se vingar reli-

em

accomnietter e pela firmeza

em

resistir,

rou-se para Africa,

recolheu-se nos paços de

merecendo citação honrosa dos próprios
riadores hespanhoes.

histo-

Marrocos

e,

renunciando á carreira das armas,

entregou-se aos deleites
foi

com

tal

abandono, que

O resultado de tanta bravura
se diz

a fuga de An-

acabou por também renunciar a coroa

em

favor

nasir e a derrota dos seus soldados, dos quaes

de seu

filho

Yusuf ou Aben-Yacub Al-Mostansermorrer envenenado

terem perecido duzentos mil As mãos im-

Billah, vindo a

em

1214. O

piedosas dos inimigos. A Hespanha estava mais

novo amir, Al-Mostanser, não estava ainda
edade de reger povos, e a
tutella

em

uma
em

vez salva; por isso, quando se espalhou a

de seus

tios e

noticia e|a

fama da victoria ganha por AtTonso vin,

dos wasires suppriu esta deficiência, não já para
escrever

todos os logares da Península, onde se ado-

uma

pagina brilhante na historia dos

rava a cruz, ressoaram

hymnos de

alegria e de

almohades, mas ao menos para conservar o império sujeito e pacifico;

louvor a Deus, celebrando a batalha das Navas

de Tolosa como

um

dos mais memorandos suc-

cessos dos fastos da Hespanha ehristã. Foi a batalha de Navas,

mas quando a creança mão das rédeas do governo, mostrou-se logo como destinado
chegou á edade
viril

e lançou

como em seu

logar nar-

para cavar a ruina do throno,
tado fora
invicto

que tão levanpor

rámos, que obrigouorei deLeão, que se internara

em

Africa e

em Hespanha
si

seu

em Portugal com
reza, a parar

o pretexto de soccorrer D. The:

avô.

Aífastando de

os parentes, os
e po-

no caminho das victorias

o premio

tutores c os
der,

homens de mais experiência

do esforço dos portuguezes na sangrenta batalha
foi,

mandou-os governar vários

districtos

da

portauto,

indirectamente, o insuccesso da
ix.

Península, e elles, para se desforrarem da perda

invasão de Aflonso

Outra vantagem resultou
ii,

do valimento, deram-se a espoliar os povos, de

ainda, para o estado de Affonso
Ajinasir
;

da derrota de
rei e os sú-

com

ella

cobraram alento o

que eram regentes, por ambição de riquezas, semearam descontentamentos, enfraquecendo a;
própria auctoridade e desacreditando adoamii<^!

bditos para se aveinturarem novamente,

com a

Historia de Portugal
seu amo,
(las
e,

149

portanto, prepararam a renovação

Hollanda. Esta frota, de mais de duzentas velas,

guerras civis,

com asquaos,

dilacerando-se
chris-

encaminhando-se para o Mediterrâneo tocou

os sarracenos, folgavam e
tãos.
la

Iriumphavam os

n'uma parte da Galliza, como era usual, e desembarcou os passageiros para irem em peregrinação a Santiago de (Jompostella.

em bom caminho
foi

a dissoliit;ão do império
17. Este

Em

seguida
sul

almohade quando chegou o anno de lá

tomou novamente o mar, correndo para o

mesmo anno
e grande

assigiiahulo por grande agitação

mas

perto da costa de Portugal açoutou-a

uma

movimento dhomens d'armas na líuropa: reunia-se uma nova expedição pararir comliater á Terra Santa. Orcinochi-istãoda Palestina

furiosa borrasca e dispersaram-se os baixeis, dos

quaes, os que não naufragaram, se acolheram no

Douro

e depois

no Tejo. N'este

rio

estavam sur-

estava quasi reduzido

ao.-?

territórios

de .\cre e de

tos, a 10

de julho de 1217, cerca de cento e cin-

Tyro. Mingoava já a corrente de cruzados, que
antes alagara

coenta navios de cruzados, estando

com

elles os

em

succcssivas inundaçõas o súlo
facilitan-

principaes chefes da expedição, os condes de
lloliaiida e

consagrado pelas tradições religiosas,

de Withe.

do-se assim a completa victoria dos mussulmanos

Este acontecimento, a visita de tantos

homens

sobre os e.\ercitos da Europa, levantados á voz do

d 'armas,
Atfonso
II

fez

augmentar o desejo que já sentiam

papado.

(J

fanatismo, que a principio escolhera

ou os seus capitães de aproveitar a

O Oriente para campo de batalha, achara outra
liç^i

prostração dos almohades para resarcir os dam-

em que

raivasse, e achára-a

no Occidente
e glo-

nos causados pela invasão de Yacub
intentando

em

1191,

exterminar herejes parecia tão benemérita
riosa façanha

uma

reconquista, que devia come-

como combater

infiéis,

Tolosa e

çar por Alcácer do Sal, a mais adiantada fortaleza

Alby disputavam a Jerusalém a honra de converter a piedade

mussulmana para

o lado do Tejo.

O bispo

em

furor e o chrislianismo

em

religião

de Lisboa, Sueiro, guerreiro mal disfarçado

com

de verdugos, e a mquisição nascente preteria já
a cruzada e Domingos de (jusman eclipsava Pe-

as vestes sacerdotaes, o bispo de Évora, que se

achava

em

Lisboa, e o commendadordePalmella,

dro o Eremita. Esta diversão, produzida nos âni-

da ordem de Santiago, que, como visinho dos

mos, ameaçava fazer abandonar de todo a empreza, já secular e já encarecida por torrentes de

mouros

d'.\lcacer,

todos os dias terceiava

com
ex-

elles, tanto

que viram os cruzados no porto lem-

sangue, de resgatar o .Santo Sepulchro do jugo
dos mussulmanos, e o papa Innocencio
ni,

braram-se de pedir o seu auxilio para
pedição guerreira,

uma

que

como
i

o haviam pedido Affonso

reconheceu o perigo, cuidou de acudir ã ruina
do reino christão da Palestina convocando o
quarto concilio lateranense,

Henriques e Sancho
tendo-lhes feito

a outros estrangeiros, e

para exhortar os

ram com

elles

uma recepção magnifica entraem negociações para os moverem

príncipes e vassallos a cruzarem-se mais
vez. Honório
iii,

uma

que lhe succedeu, proseguiuno
ã Syria. Pre-

intento de

promover a expedição

gou, negociou, exhortou, seduziu, mas, afinal,

segundo é de crír, As negociações foram demoradas. Os condes de Hollanda e de Wilhe cederam ás instancias de Sueiro e, tendo informações de que
a attacar Alcácer, auctorisados,

por Affonso

ii.

porque os ânimos andavam já desgostosos das aventuras do Oriente, só conseguiu que da Hungria e da .\llemanha se

parte dos cruzados, que se preparavam para,
elles,

como
seus

passarem á Syria, haviam resolvido addiar
resolveram
ficar.

movesse gente, respon-

a partida,

xNera todos os

dendo ao pregão de guerra, ao djihed catholico,
que soara

companheiros, porém, tiveram egual condescendência. Por causa d'ir ou ficar
rível

em Roma.
numerosas partiram por

houve na

frota ter-

André, soberano da Hungria, e o duque d'Austria,

discórdia. Os

frisões

teimaram

em

prose-

á frente de tropas

guir na arriscada viagem. E, não sendo possível
despersuadil-os, oitenta naus levantaram ferro e

terra para a Syria

em

1217, e ao

velejou

de Wlaardingen

mesmo tempo uma numerosa frota,

transportando os cruzados das províncias visi-

saíram a barra, ficando no Tejo apenas cem, promptas a desembarcarem a gente que tinham
a bordo, para, de concerto
investir a forte cidade

nhas do Rheno
pelo conde de

inferior,

que eram commandados
Guilherme, conde de

com

os portuguezes,

Wilhe

e por

mussulmana.

160
Como

Historia de Portugal
a empreza projectada era
difBcil e se-

duUah ou das ordens do seu soberano, quando
os christãos mais se embraveciam contra as pe-

ria impossível

com

tropas pouco numerosas, os

prelados de Lisboa e Évora

começaram a pregar

dras de Alcácer, appareceu-lhes de improviso
exercito numeroso,

um

crusada

em

Portugal, e as suas vozes agitaram

avançando pelos dilatados

toda a nação, c principalmente as ordens militares.

plainos que o Sado corta, para descercar a ci-

Em

quanto se reunia e organisava a gente

dade. N'este exercito, que se calcula ser composto

que de toda a parte acudia ás armas, os condes
de Iloilanda e de Withe sairam do porto e subi-

de quinze mil cavallos e quarenta mil infantes,

vinham

o governador do di-stricto de Badajoz, o

ram

até

iis

proximidades da cidade ameaçada, e

de Sevilha, os walis de Jaen e Xerez, os cheicks de Sidónia, Ecija e Carmona, cada qual podéra reunir, de
o poder

simultaneamente moveram-se por terra os bispos e o comniendador dePalmelia, Martinho
drigues, capitaneando
iio-

com as tropas que modo que quasi todo
se congregara

um

pequeno

exercito.

A

mussulmauo do Andalús
ii

30 de Julho romperam os cruzados as hostilidades, desembarcando, assaltando as cercanias da

para disputar a Affonso

a posse de Al-kassr.

Tantos inimigos á vista ateniorisaram os christãos
:

praça e escaramuçando

com alguns almogaurcs,
;

felizmente alevantaram-lhes os ânimos os

que
cio

d'ella se

adiantaram

e

dado assim annun-

soccorros valiosos e inesperados que receberam,

da sua chegada, acamparam, esperando pe-

sendo o primeiro de trinta e dois navios, e o seu

los portuguezes. Estes

chegaram quatro dias de-

pequeno

arraial foi a toda a pressa fortificado

com
ca-

pois e então se apertou o sitio e se preparou o
assalto.

trincheiras e fossos, porque

não sendo possível

o atlaqup
vallo, era

com apenas

trezentos

homens de

A

cidade era cercada por muralhas, que paretitans, e atalayada

prudência preparar elementos para a

ciam alevantadas por
res erguidas

por tor-

defesa heróica. Para ella se apercebiam os cercadores, exhortando-se talvez para
as vidas,

como a topetarem com as nuvens. As forlificaçõas davam duas voltas á povoação, assente na crista de um monte aspérrimo. De
roda d'ellas verdejavam os olivedos c os figueiraes, escondendo-lhe os alicerces

venderem caras

quando se lhes foram junclar o mestre

do Templo
e

com

a sua milicia, os hospitalarios

muitos cavalleiros accompanhados por nume-

na ramaria:

foi

rosa peonagem, e

como

este reforço, se

não era

nos seus troncos annosos que primeiro feriu o
ferro

numeroso, porque não excedia quinhentos cavalleiros

dos assaltantes.

Tombado

o arvoredo e

amontoado nos fossos para os cegar, portuguezes e estrangeiros subiram á escala,

mas foram

com os homens d'armas que a cada um costumavam andar junctos, inspirava confiança pela intrepidez dos capitães que o commandavam e
pelo prestigio dos balsões, o terror que se espa-

rebatidos e houveram de fugir acossados pelas fre-

chas e virotes, despedidos dos muros, e pelas labaredas ateiadas nas fachinas por artificio dos
sarracenos. Cuidou-se então de demolir as
ralhas,

lhara no

acampamento christão mudou-se em

regosijo, c logo se resolveu para o dia seguinte

mu-

um

attaque impetuoso contra os sarracenos. Esse

que se não podia escalar, abriram-se
torre,

dia, dia destinado á gloria, era

o de 11 de se-

minas e dispozeram-se engenhos, veiu ao chão
parte

tembro de 1217.

duma

mas como por zombaria da
muro
e fechando a

Apenas amanheceu adiantaram-se trezentos cavallos para explorar o terreno e observar as dis-

sorte ficou de pé e intacta a sua parede interior,

ligando os lanços do
aos crusados.

passagem

posições do inimigo: este descobriu-os, e forças

superiores correram sobre elles.

Não fugiram os

Entretanto, o governador d'Alcaccr, Abu-Abdullah,

denodados exploradores: esperaram o embate,
pelejaram

experimentado

e

corajoso

guerreiro,

mandara pedir
do aperto

auxilio de tropas aos walis das

com firmeza durante algum tempo, mas crescendo de continuo o numero dos sarracenos, que procuravam envolver os mingoa-

cidades vizinhas. Diz-se

também que

a noticia

em

que se achava a praça chegou a

dos esquadrões, tiveram de voltar costas e à espora
fita

Al-mostanser, e que o amir ordenou aos seus

procurar refugio entre os seus. Vendo-os

delegados
diligencia
;

em Hespanha que lhe acudissem com e em resultado dos pedidos de Ab-

fugir, os

do-os

em

mouros perscguirara-n'os perseguincarreira desordenada, chegaram com
;

I_v|i.

rua

\ov.i

ilii

Alili.iila.

:ili.

CO.MBATK JUNTO D ALCÁCER DO SAL

Historia de Portugal
elies

161

ao acampamento,

(leneralisou-se pntão o

\ intervenção dos cavalleiros aéreos também se
attribuiu

combate. Os quiiiJientoscavalleiros, chegados na
véspera, esperavam já
noticias

boa parte na assombrosa

victoria, e

em ordem
:

do batalha as

para que se não podesse descrer do prodígio asseverou-se que deram testemunho d'elle os prisioneiros sarracenos.

dos exploradores

vendo-os regressar
infiéis,

acossados pela multidão de
laní,'as

enristam as

O que

foi,

porem,

real e é

e precipitam-se

em massa sobre os

esqua-

humano,
res,

é

que

os freires

das três ordens milita-

drões contrários. Vae na sua frente o

dor de Palraella, cobrindo a
e agitando

commendacabeia com o escudo

do Templo, do Hospital e de Santiago porfia-

ram, achando-se reunidos, por se excederem uns
aos outros

com

a

mão direita o pendão da ordem,
Temfileiras

em gentilezas de valor,

ás quaes

houve

e logo apòz elle Pedro Alviliz, o mestre do plo
;

de ceder o numero.

os dois penetram nas

sarracenas, e

Abu-Abdullab, que assistiu ao extermínio dos

imitam-lhes a intrepidez os

freires,

que os tinham

que vinham soccorrel-o sem poder juntar-seIhes,

por exemplos. U choque é medonho.

Um

contra

porque os cruzados vigiavam as portas da

dez, os portuguezes practicam extremos de valor.

cidade, não desanimou por se ver entregue ás próprias forças,

Tanto os exalta a
bellicoso que,

rehgiosa e o enthusiasdelirio,

nem quando,

logo depois do successo

mo

como em

julgam vêr

que narrámos, soube também que

uma

esquadra

nos ares legiões de cavalleiros celestiaes, ferindo

que lhe levava gente c munições fora destroçada
por

nos sarracenos. X confiança, que gera heroísmo,
recresce n"elh«s, e

um

temporal. Preparou-se para a resistência

amiúdam
e se

os golpes.

Já os
JSo tu-

ao transe, e
fiança,

quando os

sitiadores, cheios

de con-

mussulmanos titubeiam

desordenam.

accometteram as muralhas, acharam-n'as

multo combatem-se uns aos outros, os esquadrões
atropellam-se e esmagam-se, e ferindo sempre
n'elles as lanças cbristãs,

guarnecidas por homens inteiros d'animo e de
braço valido. Mais d'uma escalada
e os christâos
foi

rebatida,

perdem

afinal a cora-

houveram de resignar-se a nova-

gem

e a disciplina, o que era luzido exercito

mente
mais

attacar as fortificações

com minas

e

enge-

converte-se

em

tropel

de gente amedrontada,

nhos. N'estes demorados trabalhos consumiram

que só procura a fuga e na fuga se espedaça,
torna-se geral a debandada, e a cavallaria christã
[lersegue por dez milhas, até

um

mez, durante o qual foram quasi quoos

tidianos

combates ás portas da cidade ou

onde lho consente

debaixo dos alicerces dos seus muros, e só no

o dia, os restos dispersos da formidável hoste,
([ue

ainda na véspera fizera desesperar da vida
.\

meiado de outubro, quando já quasi não tinha que defender senão um montão de ruinas, é que
Abu-Abdullah consentiu
do-se prisioneiro

os siliadores de .\lcacer.
tosa.

carnificina

foi

espan-

em

rcnder-se, entregan-

Durante trez dias se aprisionaram e mata-

com

toda a guarnição e aban-

ram,

em

largas correrias,
l)s

mouros dispersos nos

donando os habitantes á mercê dos vencedores.

arredores da cidade.

walis de Jaen e Córdova

A 18 de outubro entraram
pojos.

estes

em Alcácer, onde

ficaram entre os mortos, e quatorze a quinze mil

fizeram dois mil captivos e recolheram ricos des-

cadáveres de mussulmanos, amontoados na planície dilatada

que se descobria das torres de Al-

O auxilio dos cruzados estrangeiros fora valioso

cácer,

apavoraram os seus moradores, fazendo-

na empreza d'.Ucacer. Mais disciplinados
fraternisaram de

Ihes presentir a sorte que os esperava.

que os sitiadores de Lisboa e Silves, estes ho-

feitos

um dos mais gloriosos da cavallaria portugueza nos primeiros tempos da monarchia, porque era grande a desEsta batalha passou por

mens de guerra

tal

modo com
tanto o

os portuguezes e fizeram estimar

em

seu valor, que o beUicoso bispo Sueiro imagi-

egualdade dos exércitos, e por isso anda a lenda misturada na narração, que d'ella fazem os chronistas.

gal,

nou demoral-os por mais um anno em Portupara os empregar em novas campanhas

Dizem que antes de

se

empenhar

a lucta

contra os inimigos da cruz.

O plano também

e quando os soldados christâos estavam já além

agradou aos condes de Hollanda e Wilhe, e estes,

do

rio,

lhes appareceu no céu,

em

que fitavam

por

uma

parte, e por outra o arcebispo de

as vistas,

uns

uma claridade pareceu uma cruz, a

deslumbrante, que a
outros

Évora, o bispo de Lisboa, o mestre do Templo,

um

estandarte.

o prior do Hospital e o commendador de Palmella

162

Historia de Portugal
iii,

escreveram ao pontífice, Honório

explicando

Mostanser não o

foi

menos com a paz

interna.

e justificando a demora da frota cruzada no occidentc da Europa, e pedindo-lhe que dispensasse

ManttHe-a somente a fraqueza da auctoridade

suprema, que tudo permittia, até a desobediência,

a gente que

elJa

tinha a bordo de seguir im-

aos walis e aos cheicks, e estes, regallados
o poder, fugiram de aventurar-se

mediatamente para o Oriente, perniittindo-lhe
applicar-se a expulsar os sarracenos da Peninsula.

com

em emii

prezas guerreiras e deixaram a Portugal dilata-

Também pediram

ao papa que ajudasse

dos annos de tregoas, de tregoas a que Attbnso

com

a sua auctoridade espiritual o

empenho em
de

não quiz renunciar, porque as aproveitou
ballios

em

tra-

que estavam de espurgar de

infiéis as terras

de organisação politica e administrativa,

Hespanha, que concedesse a todos os soldados,
cruzados ou não, que quizessem coadjuvar esse

e que só foram perturbadas pelas ordens militares,

nunca fatigadas das

correrias,

em que davam

empenho

as

mesmas

indulgências outhorgadas

exercício aos braços, recolhiam prezas e alar-

aos que combatiam na Palestina, que deixasse
applicar o vigessimo dos rendimentos do clero

gavam

possessões.

de toda a Península á continuação da guerra, e
finalmente que auctorisasse os indivíduos que,

CAPITULO
8 Castella

IV

por algum motivo, occorrido durante a sua de-

Relações com os reinos de Leão

mora em

Portugal, se

achavam

inhabilitados de

passar ao Oriente, a regressarem à pátria

sem
fo-

incorrerem

em

censura. Todos estes pedidos

A

politica exterior

de Sancho

i

consistiu,

como

ram recommendados com o encarecimento das
vantagens, que resultariam para a christandade
e para Portugal do serviço militar dos esforça-

a seu

tempo observámos, em oppôr á inimizade,
ix

que lhe votava Affonso

de Leão, a sua estreita
Castella.

amísade com o monarcha de

Já vimos

dos estrangeiros,

e á espera de que ejles al-

cançassem deferimento se conservaram os condes
de Hollanda e de Wíthe no porto de Lisboa. Mas

como Affonso ii respeitou as tradições d'esta polica hábil. Sempre em paz com Affonso vni, prestando-lhe todos os serviços que
elle

reclamava da

esperaram debalde. O papa, que tinha mais a
peito a libertação dos logares santos do

sua lealdade, ajudou-o
soldados a vencer

com

o esforço dos seus
:

que o

engrandecimento do reino de Affonso u, ordenou

narcha de Castella,

em Navas de Tolosa em compensação,

o

mo-

obrigou

que os cruzados cumprissem os seus votos partindo

Affonso IX a sair de Portugal e restituir as conquistas que tinha feito, logo que, vencedor de

sem detença para

a Palestina, e a frota saiu

do Tejo em 31 de março de 1218, logo que a
volta da primavera lhe proraetteu
e os

Annasir, poude ameaçar o vizinho turbulento, tão

viagem segura,
para

inimigo seu como do genro. E

como

a alliança,
oflicios,

portuguezes ficaram entregues ás propicias

mantida com esta reciprocidade de bons

forças,

que lhes não pareciam

sufficintes

não era meramente pessoal
tesco,
rei

e

fundada no paren-

alTrontarem os exércitos do império almohade,

quando Affonso vni morreu, era 1213, o

ainda que decadente da sua formidável
deza.
Sós,

gran-

portuguez desejou conservar

com

o seu suc-

cessor o pacto de amizade e família, e consentiu

mas alentados com
ii

a victoria d'Alcacer,

gostosamente no casamento da irmã, D. Mafalda,

os guerreiros de Affonso

ainda se internaram

com

o joven Henrique

i.

no Alemtejo, recuperando alguns castellos perdidos

Este casamento, porem,

foi

annullado ainda

em

1191

;

todavia não foram longe
íllustrar

nem

ti-

antes do consorte ter chegado á edade de poder

veram ensejo de
forrar-se

novamente

as armas.

cousummal-o, e como preponderou

em

Castella

Por sua parte, os sarracenos não tentaram des-

a infiuencia de D. Berengaria, irmã de Henrique,

da derrota

soffrida, a qual,

seguindo de

que combatera tenazmente o enlace do irmão

perlo o desbarato de Navas, acabara de atemorisal-os.

com

D. Mafalda,

poude crer-se por momentos que
de Aí«

O império almohade

corria para a ruína,

a antiga alliança de Castella e Portugal se romperia, a despeito das intenções pacificas

impellido pelos inimigos e pelos súbditos. Infeliz

na guerra com os christãos, o voluptuoso Al-

fonso.

Mas não chegou a haver occasião para o

Historia de Portugal
rompinifiito. Henriíjui!
i

153
pacto de resistência á hostili-

falleceu re[ieiitinani('nt(;

de seu

tillio,

como

em

1217, e não tendo

lilhos,

o direito de tingir

dade de AlTonso
goso dos dois

ix,

visinho

incommodo
..

e perir
.

a coroa coube a sua irmã mais velha, D. Berengaria, que o

alliados.

-aí

ú

cedeu ao

filho,

Fernando

iii,

fazen-

lista hostilidade é

que nunca se desmentiu. As

do-o acclamar. A morte de Henrique deu então
logar a que o

contendas de Affonso n

com

D. Thereza exacer-

mouarcha leonez concebesse
elle sido

um

baram-n'a por
e

um momento, como
ix ao coração

narrámos,

plano ambicioso. Tinha

esposo de D. Ue-

trouxeram Alfonso

do reino porAf-

rengaria, depois de o ter sido de D. Thereza, e

tuguez. Obrigado a retirar-se,

com medo de

o papa arraiicára-lhe dos bragos a infanta caste-

fonso vin de Castella, ficou, todavia, espreitando
todas as occasiões de mostrar a sua malevolencia

lhana por motivo semelhante ao que invocara
para o obrigar a di vorciar-se da filha de Affouso
ii.

aos vizinhos, e mostrou-a, não podendo mais,

U segundo divorcio não lhe causara, talvez, tanto desgosto como o primeiro: quando, porém, viu
D. Bcrengaria senhora do throno de Castella, de-

recebendo na sua corte com agasalho honroso
quantos

portuguezes

se

retiraram

da pátria,

descontentes
reial-o.

com o soberano
i.

e desejando guerfilho na-,

sejou-a novamente para esposa, pondo a mira

em

Um

d'elles foi

Martim Sanches,

reunir os estados de Leão aos de Castella, e offereceu-lhe refazer o enlace desfeito pelo papa,

tural

de Sancho

Cavalleiro de grande esforço,-

este irmão de Affonso

n cahiu no seu desagrado,
isto é, pelos

proinettendo alcançar d'elle
Ksle plano, que denota

uma

reconsideração.

talvez por ter seguido o partido das infantas, e

bem quanto era phantasista
i.x,

quando estas foram supplantadas, na pátria e
outros

a ambição de Affonso

não agradou à herdeira
cedeu a coroa

annos de 1216 ou 1217, não se julgou seguro
foi

de Henrique

i,

pouco saudosa do seu curto viver

pedir hospitalidade a Leão, como.

conjug;;!: rejeitou-o abertamente,

antes o haviam feito Gonçalo Mendes de Souza e

a Fernando, e o rei leonez tanto se exasperou cora

testamenteiros de Sancho, perseguidos

a rejeição e o mallogro do seu ambicioso projecto,

pelo seu successor. Affonso ix receheu-o de hra-

que buscou pretextos para declarar guerra a
filho.

ços abertos, mostrou-lhe o apreço que
as suas qualidades, e deu-lhe,
tar AlTonso
ii,

mereciam

seu próprio

como

paraaffron-

D. Berengaria e Fernando ni tiveram, pois, de

o governo dos districtos de Toro-

sustentar nas fronteiras o peso dos exércitos leonezes, quando ainda duríiva a guerra civil pro-

nha e
D"este
teira

Liraia,

que confinavam com Portugal.
e

modo

o chefe militar, que guardava a fron-

movida pelo conde Álvaro Nunez de Lara,
n'esta perigosa situação desejaram manter, e

e

de Leão pelos lados do Minho

de Traz-ot;do seu

manii,

Montes, ficou sendo
rei,

um portuguez inimigo

tiveram de facto, relações politicas
i|ue

com

Affonso

talvez por julgar Affonso ix

que o ódio do

também não

se prestou a ajudar a rebellião
ter

estrangeiro seria mais zeloso do que o patriotismo

de Lara, apesar de

tomado partido por elle quando se declarou rival da filha de Affonso vni,
e haver consentido
tar-se

de qualquer dos seus súbditos.
Vizinho do seu paiz e capitaneando forças con^
sideráveis, Martim Sanches
1
,

em

que D. Mafalda fosse seni,

achou motivo,

em

no throno, ao lado de Henrique

para ser

instrumento da politica do ambicioso conde. Os
successos da

220 para dar expansão ao rancor que nutria contra o irmão natural. H possível que esse motivo
nascesse das contendas de Affonso n

campanha dos leonezes contra

os

com

o ar-

castelhanos não pertencem ao nosso quadro histórico
:

cebispo de Braga, amigo de Martim, e que os

o resultado politico d'essa

campanha

foi,

agentes do rei entrassem na Galliza para fazerem

comtudo, para Portugal, o estreitarem-se mais e mais as suas relações de amizade com Castella.

depedrações nas propriedades patrimoniaes do
prelado, sitas nesta província,
feito

como

as

haviam

Ambos inimigos do
elle,

rei

de Leão e avexados por
ii

nas

daquem do Minho

:

o certo é que tendo

Fernando ni e Affonso

approximaram-se

os portuguezes violado território leonez, Martim

naturalmente; D. Berengaria esqueceu-se de que o rei portuguez se ligara em tempo ao conde de

Sanches, era

nome do monarcha
elle

a

quem
foi

servia,

pediu satisfação e indemnisação do aggravo.

Lara contra

ella

;

e a alliança luso-castelhaua, que
i,

Uuiçá por ser
e

quem

pedia não

allendido

durara todo o reinado de Sancho
VOL.

pendurou no

havendo portanto de se resolver o

conflicto pela

1—20.

154

Historia de Portugal
cou o reino

de Toforça das armas, as tropas dos dislrictos

em

grave perigo. Mas os leonezes

ronha e Limia

e

do valle de Varonceli invadiram

não poderam, por motivos que se desconhecem,
proseguir na conquista, e tractaram pazes
Aífonso
II,

a provincia de Entre-Douro-e-Minho e

marcharam

com
de

sobre Ponte de Lima. Informado da aggressão, AtYonso correu a rebatel-a, e os dois exercites
avistaram-se, avistando-se
e irmão, rei e súbdito.

conservando

em

seu poder,

como pe-

nhor de segurança da sua

fronteira, a praça

como inimigos irmão

Chaves, que só restituíram no reinado de San-

cho n. Martim Sanches regressou então á Galliza, rico

Martim Sanches, diz-se, teve escrúpulos de combater contra as bandeiras da sua pátria e o
filho

de gloria e de despojos.

Terminada esta campanha, que durou até
12C2, a fronteira portugueza não tornou a ser
transposta por bandos armados, e o tinir das ar-

de seu

|)ae, e

para tranquillisar a consciên-

cia

mandou

pedir a AlVonso que se retirasse

com

o pendão real para onde o não vissem os seus olhos o rei satisfez-lhe o desejo, que se concer;

mas não mais importunou os ouvidos de AUbnso ii.
Não parecia do sangue de Atfonso Henriques este imbello monarcha! Só ha noticia de que uma
se pozesse à frente do exercito, e fez excepção

tava

com

o seu de evitar os perigos e
foi

incommo-

dos da campanha, retirou-se, e

tão generoso

na retirada que só parou

em

S.

Thyrso,

donde

os

seus costumes, segundo se presume, para

depois partiu para Gaia. Seria esta anedocta inverosimil inventada pelo patriotismo dos chronistas

voltar as costas ao

irmão bastardo, por excesso

de generosidade muito parecido

com
foi

falta

de co-

para encobrir

uma

fuga vergonhosa

'!

Não destoa

ragem. A empreza dAlcacer, único

feito d'ar-

a hypothese da fraqueza do
assistiu a

monarcha, que não

mas

glorioso do

seu

reinado,

promovida

nenhuma

das emprezas militares do seu

pelos prelados de Évora e

Lisboa e pelo com-

reinado, que não appareceu nas Navas, e que nin-

mendador dePalmella

guém

viu

em

Alcácer, onde se juntara a ilor da

com
bateu

a presença

cavallaria.

Foram os portuguezes vencidos no

aproveitar a

AUbnso nem a ajudou nem soube dar traça para se victoria. Com os leonezes só com:

primeiro recontro que tiveram

com

os gallegos ?
Barcellos.

em
A

defeza jiropria, e até na defeza

foi

Ignora-se. Martim Sanches entrou

em

remisso.

sua coragem, a sua actividade, o

As tropas de Portugal, commandadas por Vasques de Soverosa
c outros barões,

Mem
(jil

seu ardimento, manifestaram-se apenas nas contendas
iiiti'rnas (jue

Gonçalves de Sousa, João Peres da Maia,
encalce dos inimigos, pararam a
viila

enchem quasi todas

as pa-

que iam no
legua da

ginas da historia do seu governo, e que
narrar.

vamos

uma

sem ousarem

attacar. Foi,
e a

porém, altacal-os

CAPITULO
A Santa Sé
e o clero

V
nacional
ao sentar-se no

Martim Sanches,
mosteiro da
valor.

batalha deu-se junto do
Fizerain-se prodigios de

Várzea.

De João Peres da Maia conta-se que só
lança derribou sete cavalleiros. Ainda

com uma

Narrámos como AlTonso

ii

maior que a sua era, comtudo, a força do braço
de Martim, athleta de quem poucos valorosos

throno, impetrou da Santa Sé a confirmação da

dignidade real, e como a alcançou de hinocencio ni,

podiam

a|iarar os golpes, e deanto d'elle recua-

mediante

a ]iromessa

que

fez

de continuar

ram os j)urlugnezes. Na retirada foram escaramuçando até á.s porias de Uraga, e o bastardo de
Sancho
i

a pagar o tributo annual de dois marcos de oiro.

As boas relações do

rei

portuguez

com o

sobe-

aprisionou, fazcndo-lhe saltar a esjjada
(íil

rano ponlifice duraram por alguns annos. AUbnso
teve cuidado de as cultivar
protestos de submissão,

da mão, a

Vasques, seu padrasto, ao qual

com homenagens

e

logo concedeu generosa liberdade.

emquanto teve pendente

Novos combates, oITerecidos pelos defensores
de Affonso n, foram outras tantas victorias para

do tribunal apostólico a demanda com as irmãs,
e Innocencio

mosirou-se seu parcial e dispensou-

Martim Sanches, que acabou por encerrar os
adversários

Ihe benevolência,

nem sempre
não

compatível
foi,

com

a

em

Guimarães.

Quasi

ao

mesmo

justiça. Esta benevolência

porém,

intei-

tempo, o

rei

de Leão

com

outro exercito entrou

ramente gratuita. Portugal estava
S.

em

divida a

em

Traz-os-Montes e apoderou-se de Chaves, Fi-

Pedro de alguns annos de tributo, contados

Historia de Portugal
ainda no reinado de Sancho
tou a occasião
i,

165

e o

papa aproveid'elle

primazia, pleiteou por Rraga contra Toledo, e entre os

em
A

que AlTonso dependia

dois mais elevados dignitários da egreja

para lhe pedir o pagamento da divida. Não havia

de Hespanha empenhou-se

um

pleito,

em

que

meio
a

de rerusar.

obrigação do feudo estava ex-

um

e outro

ajudaram

a rhetorica

com

instancias,

pressa na bulia de confirmação e nas cartas que

jiunio do papa e dos

membros do

concilio, para

haviam impetrado. O

rei resolveu-se, portanto,
foi tal

alcançarem decisão favorável. O

pleito foi

demo-

apesar de avaro, a abrir os cofres, c

o seu

rado, vieram abaixo os archivos, inquiriram-se

empenho de condescender com
litico e

o suzerano po-

testemunhas, fizeram-se consultas, Braga e Toledo invidaram os mais diligentes esforços para

espiritual,

que

até errou

ou deixou

er-

rar a conta corrente do paiz cora

Roma,

e

pagou

provarem a sua razão,
de

c tanto se

provou,

afinal,
fi-

muito maior sonima do
Fr.

([ue devia.

uma

e outra parte,

que o papa e o concilio

Gonçalo, legado pontifício na Península,

caram indecisos acerca de quem tinha por
justiça, e para a

si

a

vindo expressamente a Portugal para tratar este negocio de dinheiro, recebeu

não offenderem ou não offendepleiteantes resolveram

em

1213, segundo

rem nenhum dos
tenceiar.

não senas

consta de documento, 3:360 moraliitinos oucin-

«Considerando — escreveu o papa —

coenta e seis marcos de ouro. Esta avultada quantia

circumstancias das cousas que se allegam e dos

corresponde a vinte c oito annos de tributo, e

tempos que succederam, com o parecer de nossos irmãos
falle.
»

a divida não era tão antiga.
1 1

Sancho

i

pagara
c por

em
el le

ordenamos que nesta matéria
fallou n'ella
;

98 ou

1

1

99 o censo divido por seu pae

I>

não mais se

se não com grande

até à data do

pagamento, como opportunamente
a

desgosto dos dois prelados

a questão de prece-

narrámos, e portanto lioma só tinha

perceber

em

dência, que tanto valor teve sempre para o or-

1213 cerca de metade da sorama que o seu legado
embolsou sem escrúpulo seria a differença a mais
:

gulho ecclesiaslico, ficou para todo o sempre por
decidir competentemente, e os arcebispos de Toledo e de Braga cortaram o nó gordio, que o concilio

um como
que o
putar
rei
,

adiantamento? seria

uma

extorsão?

Inia e outra hypothese é admissível, e é evidente

não se atrevera a desatar, intitulando-seum
concilio lateranense reuniu-se

dependendo da Santa Sé por um imporella

e outro primaz da Hespanha.

tante pleito, não tinha liberdade moral para dis-

com

sobre questões de dinheiro, e de-

via até aproveitar gostosamente o ensejo de lhe

em de caminho em 1215 no anno seguinte falleceu, nome deixando o Innocencio iii, Génova, o papa
O quarto
:

grangear as boas graças a troco de
de ouro, d'esse ouro que sempre

um

punhado

afamado pelas raras faculdades de
póz

espirito
:

que
foi

foi

bom empe-

em

pratica para constituir a theocracia

nho em Roma.
Nos últimos annos do pontificado de Innocencio
III

um
em Roma uma
questão de

grande

homem

ao serviço de

uma ambição
houve
ii

funesta. Succedeu-lhe Honório ni, e apenas
noticia

ventilou-se

em

Portugal do seu advento, AfTonso

auctoridade ecclesiastica, que dizia respeito a
Portugal. Fora convocado o quarto concilio late-

mandou embaixador a Roma que por eile lhe prestasse homenagem e lhe pedisse a confirmação da coroa, já obtida do seu antecessor. Sem advinhar (]ue um dia, não distante, teria de flagellar

ranense. Tractára-se ueUe principalmente de acudir ao reino christão da Palestina,
total ruina,

ameaçado de
mui-

mas

depois de satisfeito este fim es-

com

as censuras apostólicas o

monarcha

pecial da convocação, cuidou-se de resolver
tos

negócios concernentes á boa disciplina da

que tão pressuroso e submisso o saudava agora, Honório iii acolheu com boa sombra as mensagens do
rei

egreja, e então o arcebispo de Toledo, Rodrigo

portuguez,

em 1218

expediu o brevp

Ximenes, varão douto e prelado ambicioso, procurou alcançar do concifio a confirmação do direito,

de confirmação, que lhe fora pedido, tecendo louvores a Affonso por haver feito grandes estragos
nos mouros, e assim ficou duas rezes confirmada
e ungida, para sua satisfação e segurança, a rea-

que julgava

ter,

á primazia de Hespanha,

expondo-lhe os suppostos fundamentos

em

elo-

quentes arrazoados. Mas na assembléa achava-se

leza do neto de Affonso Henriques.

também o arcebispo de Braga, EsteTão Soares da Silva, eoBmo este prelado aspirasse egualmente á

Correspondendo a esta benevolência da Santa-Sé e dobrando-se ainda sob o jugo clerical. Af-

156
fonso
II

Historia de Portugal
mostrou-si' muniHcpnto para
iii,

com a egreja.

cerca do anno de 1215
ter pela palavra,

A

buJIa de Honório

contirmaniio-lhe a posse

empregado em combacomo Simão de .Monlfort combatia
:

da coroa, é dalada de 11 de janeiro de 1218; poucos inezes depois, a Ki de abril, sexta feira
maior, o monardia
bulia e os louvores

pela espada, a heresia dos albigenses, o ardente
apostolo pensou

em

formar

um como

viveiro de

como que agradeceu essa
que
n'ella lhe

missionários, que se applicassem a manter a pu-

haviam sido

reza da

extirpando as heresias, e com este pensaOllicio

endercyados, fazendo ás sés e a alguns mosteiros do reino

mento, de que devia resultar o Santo

como

uma

concessão tão generosa, que a

dcducção rigorosa, fundou

um

instituto

que delle
iii

tiveram seus successores por excessiva e pro-

tomou o nome e que o papa Honório

confirfo-

curaram annullal-a.

Em

conformidade com os

mou em

1216, impondo-lhe regras que não

seus mandamentos, quasi equiparados

em

aucto-

ridade ao decálogo, a egreja cobrava dos productos

ram por muito tempo observadas, porque as derrogou o amor phrenetico da riqueza e do poderio.

da terra os dízimos, que posteriormente lhe
tri-

foram disputados pelos seculares, mas d'este
Pois Âffonso

princípio á

buto oneroso estavam isentas as rendas da coroa.
II,

a cujo cadáver o clero devia re-

S. Francisco de Assis deu ordem dos Menores, propondo-se fim análogo ao S. Domingos, mas por meios tão dilTerentes quanto differia o caracter humilde, manso

Pelo

mesmo tempo,

cusar sepultura

em

chão sagrado, renunciou a

e soETredor

do conlricto burguez italiano, da

ín-

essa isençíão importante. Sujeitou ao pagamento

dole aguerrida do fidalgo bespanhol. Este era o

do dizimo as rendas que percebia nas dioceses
de Braga, Évora, Coimbra, Porto, Lisboa, Lamego, Vizeu, Idanha, e na parle da diocese de Tuy,
incluída

dogmatismo catholico, com
raiava pela ferocidade
;

a

sua intolerância,

(]uc

aquelle, cheio de abnee

gação e repassado do amor de Deus

do pró-

em

Portugal, e estendeu a sua generosi-

ximo, ensinados pelos apóstolos, pretendia persuadir pelo exemplo e exaltar a religião fazendo derivar d'ella virtudes tão severas, que a sua
pratica fosse

dade ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Parece que não se podia fazer mais para coutenlar
o clero
;

parece que não se podia cumprir

com

como um martyrio prolongado por

mais rigor o preceito de subordinar a legislação
civil à

toda

uma
que
e

vida. N'este angélico propósito esta-

canónica: todavia, não tardaremos a ver
relações da coroa

beleceu a regra da ordem mendicante dos menoritas,
foi

como nas

com

a egreja jà na

approvada

em 1212

por Innoceniii,

edade-raédia correspondia a cada nova concessão do poder civil uma nova exigência da auctoridade
religiosa.

cio

III

em 1223

confirmada por Honório

e os primeiros franciscanos,

bebendo a doctrina

Os dízimos das rendas da coroa, acres-

da humildade cbristã nos lábios seraphicos do
patriarcha,

cidos ás amplas isenções decretadas pelas cortes

maravilharam, com o seu heróico

de 1211, não bastaram para evitar
dia accesa entre Allbnso
nal.
ii

uma

discór-

desprendimento dos interesses e das vaidades

e o episcopado nacio-

mundanas, os
costumes do

espíritos

escandalisados

com

os

alto clero,

em

tudo degenerado da

Quando o
discórdia.

rei fez esta

pródiga concessão jà es-

simplicidade e mansidão dos discípulos do Ghristo.

tavam no reino alguns dos fautores da futura

As novas ordens religiosas causaram, apenas
fundadas, profunda sensação

Em

1217 iniroduziram-se

em Portugal

em

toda a parte

as ordens mendicantes de S. Erancísco e S. Do-

onde peneiraram os seus adeptos, exaltando os
sentimentos piedosos

mingos. Estas ordens haviam sido fundadas, como
muitas outras que pretendiam imitar a austeri-

com

a pregação e fasci-

nando as
gual,

inieliigencias débeis

com

o mysticismo.

dade dos primitivos

institulo.s

monásticos, para

Dos primeiros franciscanos que vieram a Portufr.

oppôrem ao movimento

febril,

que desviava os

Zacharías e

fr.

Gualtcr, este ultimo gafoi

espíritos da orlhodoxía calholíca, a propiiganda

nhou fama de

santo, tanta

a admiração que
rai-

da doctrina ibcologica definida pelos concílios, c á relaxação, que se introduzira na disciplina e nos costumes do sacerdócio, o exemplo edificante de virtudes evangélicas. A ordem dos Pregadores foi instituída por S.

causaram as suas virtudes. Patrocinado pela

nha D. Urraca, senhora de muita devoção, estabeleceram-se em Coimbra em 1217, depois cm
Lisboa e

em

Guimarães,

e

em

lotlas estas cida-

Domingos de Gusman,

des fundaram casas. Não lhes faltaram noviços.

\oTa

lio

AliMila.

-l''-

AS MISSÕES DE SUEIRO GOMES

Historia de Portugal
A
fr.

167
re-

infanta D. Sancha, a

exemplo da rainha,
]iaç;os

oITe-

dura

em nome

de Deus e por necessidade de
sr.

rei:cu

os sims próprios

oiu Aicinqucr a
coiivt-nto.

formar os costumes sociaes. O
Herculano suppõe que as
leis

Alexandre
fo-

ZacLarias, para fuudur

um

Poucos

de Sueiro não

annos depois de introduzida, a familia deS. Francisco estava espalhada por todo o paiz, fiosaiido

ram da sua
proínulgára

iniciativa,

mas copiadas ou deduzidas
ii,

das (|uc o imperador d'Allemanha, Frederico

do favor

tios

grandes e do respeito dos povos.

em 1220 em

favor das liberdades ec-

Mas

esta prosperidade
fez

não affrouxou o rigor da
conceber aos seus
i*

clesiasticas, para repressão

da impiedade,

ecom

sua disciplina, não

su|ie-

o intuito de coiíibir crimes, que se commettiam

riores planos ambiciosos, e Gualter

seus confra-

com

fri't[uencia contra o direito

de propriedade,

des não causaram na sociedade, que os accolhêra

a segurança do commercio e era especial contra
os naufi agos e seus bens, arrojados à praia.

como
ba(;ão

Israel accolhia os Prophetas, outra perlur-

Tendo

além de

uma recrudescência do sentimento

o papado romano sanccionado estas providencias

religioso.

imperiaes

como

a sua chancella, é possivel, real-

Não succedeu assim com os dominicos, que o
seu palriarcha armara como luctadores, para os

mente, que fossem essas as que Sueiro pretendeu
introduzir

em

Portugal, dispensando-as do que
:

Gomes achou na famimilia real tanta protecção como os franciscanos, mas não lhes correspondeu como elles. Com o
0[ipòrá heresia. Fr. Sueiro
favor de D. Sancha fundou na serra de Montejuncto, perto de Alemquer,

hoje chamaríamos beneplácito régio
arvorasse, porém,

ou

elle se

em

legislador, ou, o

que vale

quasi o

mesmo, quizesse

applicar a Portugal

uma

legislação estranha por seu alvedrio, o facto é

um convento,

que logo

que ACfonso n julgou com bons fundamentos
usurpadas as suas attribuições,
gante attentado
e atalhou o arro-

se encheu de reUgiosos, e d'ellese partiu depois

para missionar no reino,

como

lhe era dever im-

com

a seguinte provisão

posto pela regra do instituto. N'estas missões

«Aífonso, pela graça de Deus rei de Portugal,

exhorbitou o discípulo
gos de

fiel

do intolerante Dominn'elle

ao alcaide de Santarém, alvasis e todos os mais

Gusman da auctoridade que

haviam

homens que

n'ella

julgam das rainhas causas, e
fir-

delegado os seus superiores ecclesiasticos, desviou-se da senda do apostolado christão, e usur-

aos tabelliães e conselho, saúde. Mando-vos

memente a

todos que não haja pessoa alguma

pou prerogativas da coroa. As recommendações,
que lhe dera Honório
guezes, haviam-n'o
ni para os prelados portufeito

em

a vossa nlla quo ouse trazer a publico aquei-

les decretos seculares sobre

matéria de penas pe-

confiado e altivo.

O bispo

cuniárias e castigos corporaes dos delinquentes,
os quaes Sueiro

de Coimbra, Pedro, concedêra-lhe licença paia
pregar na diocese, prometter remissão de pcccados c indulgências aos
fu!Ís

Gomes,

prior da

ordem dos Pre-

gadores, ordenou

com

os frades da

mesma

or-

que escutassem a sua

dem
dei

:

porque não quero que se proceda nos casos

pregação, e constranger á correcção dos erros e

sobreditos pelos seus decretos, e assim o accor-

emenda dos peccados, com poder
nevolência d 'Honório,

nido d'esla auctorisação, fortalecido

Mucom a beSueiro Gomes começou a
indefinido.

com o meu
parte, por

conselho.

Movo-me

a isto, por

uma
dos

serem os

taes decretos publica-

proceder conao vira procederem
albigenses os legados pontifícios,

em

terras de

e dos reis e

líntendendo,

com grande quebra dos foros da minha corte, meus successores, e dos meus fidalgos, em sunmia de todas as pessoas do meu reino,

como depois professou a
e a disciplina

inquisição, que a au-

fidalgos e villãos, seculares e ecclesiasticos, e,

ctoridade espiritual precisava defender o

dogma

por outra parte, por se oppôrem áqueile livro

com

espada e culello;

armado de considerando, como todos os
o braço secular

das minhas

leis,

no qual se

diz
leis

expressamente

que se não admitiam novas

no nosso reino,

ministros da theocraeia, que não ha delicio es-

contendo-se n'esse Uvro os foros por onde devem
ser julgados os fidalgos de Portugal. Os taes decretos não

tranho ã competência dos tribunaes da religião,

que além d'uma um código de moral

doctrina theologicacomprehende
:

o ousado prior da ordem

do i-onde
el-rei D.

D. Henrique,

andaram nunca em practica em tempo nem no tempo de meu avi>

dos pregadores arrogou-se jurisdicção secular e

AlTonso, a

promulgou

leis

penaes,

como

se exercesse dicta-

por seu privilegio confu'mou

quem o papa Alexandre in como rei, contir-

158
mando a sua
terra

Historia de Portugal
como
reino
;

nem em tempo uma carta d'el-rei D. Sancho, de protecção do papa l^lemente ni nem também em meu tempo, tendo eu duas cartas, uma de Inmeu
pae, que teve
;

A hypothese do
verosimilhança

sr.

Alexandre Herculano ganha
estas considerações.

com

E se
litte-

não 6 verdadeira, se deve ser interpretada
ralmente a phrase da provisão
res.
.

:

«decretos secula-

nocencioiíi e outra de Honório

iii.

E, pois, por to-

das estas razões, todo aquelle que quizersahira
publico

com

esses decretos

me

pagará mil mara-

Gomes ordcnoxi com os frades;» deveremos então admittir oqueoprior da ordem dos Pregadores trouxòra para Portugal
.

os quaes Siwiro

vedis de condemnação, alem de se fazer

em

sua

poderes canónicos extraordinários, ou que lh'os
havia dado o episcopado nacional, ou que o povo,
fanatisado por elle, o acceitára

pessoa e fazenda toda a justiça conveniente.

E tenha por sem duvida o meu rico-homem, em
cuja terra se publicarem os decretos mencionados, que além de ficar

como um enviado

do céu, e lhe obedecia de preferencia ás auctoridades constituídas, cumpríndo-lhe

em

desgraça,

lia

de per-

uma

espécie

der a terra que de
a alcaidaria e a

mim

tiver.

O

alcaide perderá

de díctadura semelhante á que exerceram alguns

minha

affeição, e será castigado
fôr

reformadores religiosos.

na pessoa e na fazenda, como
justiça.

de direito e
to-

Defendendo a auctorídade real contra o missionário, que de certo
theocratico, Affonso

Dos

alvasis, tabelliãcs e

mais justiças

modo
ii

representava o poder
ter

marei justa vingança nas pessoas e nos bens.

não deve

augmentado,

Mando, comtudo, que se alguém vender o furto ou vender escondidamente alguma cousa, por proceder contra os decretos presentes, que n'esta
parte admitto, pagará quinhentos maravedis e

juncto do clero nacional, os seus créditos de vassallo

piedoso e dócil da egreja. E para notar que

a provisão, que transcrevemos, não procura se-

quer fundamentar-se no voto ou nos direitos e
interesses da
tidária

será castigado

em

sua pessoa e bens, além de per-

ordem

ecclesiastica. Seria ella par-

der a cousa vendida; e do
cederá contra os

mesmo modo se que fizerem compras em

pro-

do dominico? E de crer que o fosse, se o

con-

dominico gosava do valimento do pontífice, e
já saliemos

trario dVstes decretos, incorrendo o delinquente

que o bispo de Coimbra, vendo as

nas penas supraditas e na perda da cousa comprada e do dinheiro dado por
tarém, a
li)

cartas de Honório ni que lhe

recommendavam
dio-

Dada em Sande junho, por mandado d'el-rei.»
ella.
ii

Sueiro, concedeu ao

recommendado, na sua

cese, as mais amplas liberdades.

Não

é,

pois,

Esta severa provisão mostra quanto .\fronso
se indignara

aventuroso considerar o episodio, que narrámos,

com

a audácia de Sueiro,

mas

de-

nota

também que

o prior dos Pregadores era

como um dos actos da guerra ao empenhou entre o rei e o clero.

transe, que se

sujeito bastante auctorisado,

ou pela protecção

da Santa-S6 ou pela popularidade que tinha no
paiz, para

CAPITULO

VI

que o

rei

julgasse necessário justifi-

car-se largamente de não deixar correr os seus

Contenda com o arcebispo de Braga
Se nos primeiros annos do seu reinado, Affonso
11

decretos

como

leis

do reino. Fazendo valer as

cartas da confirmação e protecção que elle e seus

antecessores haviam recebido dos pontífices, Af-

alcançou as bênçãos do clero

em

troca das

fonso parece querer contrapor a sancção que tinha
o seu poder a outra sancção pontifícia, fazendo-nos
'crÍT

generosas concessões que lhe

fez,

as bênçãos

vieram a converter-se
cha,
doril

em

maldições, e o monare Honório

que a haviam alcançado as

leis

promulgadas

amado por Innocencio

como filho
condcmjuifo-

pelo dominico, ou fossem suas ou do imperador
d'.\llemanha. Para reprimir a ousadia

o extremoso da egreja, acabou

com que

nado ao castigo eterno dos réprobos pelos
zes

Um

simples pregador se intromettêra nos negó-

mundanos das almas. A paz
foi

e a

amizade

cios da justiça,

não precisaria o monarcha argudireito da sua

ram apenas o prologo da guerra
fonso, ou não
affeclo

e do rancor. Af-

mentar prolixamente para pôr o
parte c contra
elle.

sincero nas demonstrações de
ecclesiastica,

.Mguma cousa

havia, forçosa-

que prodigalisou á ordem

mente, que tornava respeitável o usurpador e delicada a empresa de reprimir a usurpação.

ou se desgostou de as vér mal correspondidas e a primeira hypothese se cançou da submissão
:

Historia de Portugal
altigura-se-nos, port-ra, a mais verosiinil, porque,
st'

159

que Sueiro se queixava para iloma delle e do
rei.

é dilifil reconstruir o caracter do rei e lér-llie

n'aliiia

á distancia d'elle

em

que se

aiJia a his-

Irritado Affonso pelo recurso

toria,

os sentimentos do cLanceller Julião, re-

um

do prelado para poder estranho e superior ao seu, esqucceu-

vellados

sem obscuridades
i,

pelos seus actos no

do-se da sua apregoada sujeição á aucloridade
espiritual

reinado de Sancho
tis

eram indubitavelmente hos-

ou atirando

fora a

mascara de piedoso,
Sueiro

ao clero, e é mais de crer que

com

elles se

que usara por conveniência

politica, saciou

concertassem os de Atlbnso n, do que é provável

de perseguições e vexames. A contenda azedouse.

que se prestasse o jurisconsulto, de bom grado e

O cónego escolhido para

substituir Vicente

sem

intenção reservada, a subscrever às delibe-

entrou n'ella,

em

defesa da sua nova dignidade.
suljordinada a dio-

rações das cortes de 1211 e á concessão dos dí-

U metropolila a que estava
os ânimos e fazer justiça

zimos, emendando durante o governo de Affonso
o procedimento que aconselhara a seu pai. D'u[u

cese de Lisboa, o de Compostella, quiz apasiguar
:

apparecerani cartas

ou d'outro modo, comtudo,

é certo

que o monar-

suas intimando o bispo a enviar procurador a

cha se mostrou nos últimos tempos do seu reinado, adverso ao clero, quanto lhe fora antes sub-

Évora, para ahi, perante
dos, ser ventilada a

elle ou os seus delegademanda. Sueiro escolheu

misso e obediente, e que este reviramento se-

para seu representante e advogado o novo deão
este dirigiu-se a Évora, e

guiu de perto a terminação das contendas com
as infantas, que
civil

na cidade ou

em

cami-

haviam originado uma guerra
regia

nho
seu

foi

atacado e ferido por dois sobrinlios do

e posto a aucloridade

em

coullicto

rival.

com

alguns dos seus mais poderosos súbditos.

composlellano

Pouco depois vieram novas cartas do contradizendo as primeiras, que
:

A paz com a egreja começou a romper-se por
causa daquelJe
bisi)0

de Lisboa, Sueiro, que enSal, á rrcule

haviam sido adulteradas, ordenavam que Sueiro comparecesse em pessoa perante os juizes, que
nomeara. O bispo obedeceu. Os ódios jà pediam sangue; os servos de Deus já se gladiaelle

contrámos no caminho de Alcácer do

do exercito de cruzados estrangeiros e portuguezes,

e por occasiâo d'esta empreza. Ausenlau-

vam

a punhaladas. Vicente, durante o pleito,

foi

do-se o bispo, ficou regendo a diocese o seu deão,

ameaçado de morte por

um homem

do prelado,

mestre Vicente,

homem

de engenho agiulu,

iiue

(jonçalú iMarlim. Escupou-llie.

o empregara no serviço do rei como seu advo-

vingar-se e não ousando pôr
rior canónico, fez cahir

gado no

jileito

com

as irmãs, e que egualincntií
ir-

Mas tendo jurado mãos no seu supeGonçalo n'uma cilada, e

desejava aproveital-o uo serviço da própria
requieta and)ição. \icente malquistou-se

ps seus sicários mutilaram-n'o barbaramente

com

o

cabido, que pretendeu reformar, usando discre-

exemplo de caridade evangélica, dado por ministro do Evangelho
I

um

cionariamente dos poderes que lhe haviam sido
coníiados, e quando o bispo voltou de Alcácer os cónegos queixaram-se-lhe

JNão contente

com

a intervenção do arcebispo

de Compostella, o bispo de Lisboa instou juncto

amargamente do
sé.

seu substituto, e aleiou-se a discórdia na
Sueiro não era tolerante,

do papa para que o desaggravasse. Foi attendido e Honório ni nomeou o abbadc e o prior de Alcobaça e o chantre de l^oimlira para tomarem conhecimento do negocio e para o resolverem sem
appellução, annuUando, portanto, a jurisdicção

nem

devia ser

affei-

çoado ao deão, porque naturalmente lhe inspirava ciúme o valimento de que elle gosava na
corte, e depois

de disputas rancorosas que a pe-

do melropolita. É de crer que ainda n'esta conjuQctura acudisse o rei a Vicente

numbra das
sor.

sachristias encobre

da historia,

pt'i-

com

decidida

vou mestre Vicente do deado e deu-lhe succes-

protecção. E, ou porque esta protecção fosse po-

Mas o offendido reagiu. Fiado na protecção
justiça, apode-

derosa jmicto dos delegados pontificaes a ponto

de Affonso e ajudado talvez pela

rou-se dos bens e das rendas de beneficio de que

de subordinar a justiça, ou porque a justiça estivesse reahnente da parte do antigo deão, o caso
6 que elle foi restituído á sua dignidade, resi-

o haviam despojado, e apellou da sentença dq
bispo para o rei apesar d'este
se iutromelter

haver jurado não

gnando-se o cabido a acceitál-o, o prelado asoffrer

no governo

ecclesiastico, ao passo

o vexame da derrota, e ficando o vencedor,

160

Historia de Portugal
á cúria real nas questões de impostos, e conver-

que pelo menos era réu de violências contra a pessoa (lo cónego que o substituirá e de depredações feitas nos bens da egreja, não só impune,
roas agraciado por Affonso

tendo

em

proveito da coroa o encargo da advoecclesiaslicos,

cacia ou

commenda dos bens
e

que

com muitas mercês,

lhe fora imposta e elle acceitára para beneficio

gio.

que lhe augmen taram a auctoridade e o prestiNão valeria ao favorito do raonarcha, para al-

da egreja

sua segurança contra os seculares.

Estes actos do rei indicavam

um reviramento da

cançar tão grande triumpho, o valimento de que

sua

politica,
foi

de que o conílicto com o bispo de
indicio, ainda

o próprio monarcha gosava ainda juncto da Santa-Sé e dos chefes da egreja nacional? É de suppor que sim.
Esse valimento estava,

Lisboa

um

mal comprehendido

pelo clero.
lesse

Não tardou que

elle abrisse os olhos e

no coração de Affonso. A benignidade trans-

porím, para durar

forniara-se

em

malevolencia. As concessões, atsido

pouco. Se o clero, era massa, não tomou partido
pelo prelado lisbonense e não se indignou por

tribuidas

a impulso de piedade, tinham

artificio politico.

O

sceptro, que se julgava aba-

vèr Affonso ingerir-se

n'um

conílicto

puramente

tido, erguia-se, e erguia-se

como

clava,

prompta
ressusci-

ccclesiastico, olTendeu-se,

comtudo, com outros

a ferir

em defesa do
Affonso

estado e contra as tentativas
i

actos do poder real,

que pareciam annunciar

da independência da egreja. Sancho
tava

o rompimento do pacto assellado nas cortes de

em

ii,

e ressuscitava

mais hábil

1211. Esse pacto, que nunca fora cumprido pelo
clero

adversário e mais systematico.
ter sido dolorosa.

A decepção deve

na parte

em que

o obrigava, porque as

Era mister combater. A ordem

egrejas e os mosteiros não deixaram de comprar

ecclesiastica,

ameaçada por

um perigo commum,
hostilida-

propriedades,

também cessou de

o ser pelo

rei.

procurou chefes que a commandassem na resistência, e

Começara a preponderar no conselho de Atlonso,
desobrigado da dissimulação a que por muito

campeões que rompessem as

des. Offereceu-se-lhe o arcebispo de Braga, Es-

tempo

se

condemnára, o

espirito

do chanceiler
ter

tevão Soares, sacerdote de instrucção e talento,

Julião. Este

homem

illustre

morrera antes de

bemquisto

em Roma, onde

assistira ao quarto

tirado desforra das

humilhações de que o ha-

concilio laleranense, aparentado

com poderosos

viam saciado nos últimos annos da vida de Sancho
clle
I,

barões de Alem-Douro, como descendente dos

mas deixara um successor escolhido por
politico e vingal-o.

Souzas e de Fafes

I.uz.

No regresso de lioma

para proseguir na realisação do seu pro-

gramma

O novo chanceiler,
a sua

comprehendeu o estado de cousas do seu paiz, viu imminente a lucta do clero com a realeza,
julgou acertadamente que ninguém era mais di-

Gonçalo Mendes, era
tinuador do antigo,
e

cm

tudo discípulo e con-

como que

imagem na
do throno,
foi

gno que

elle,

por dotes pessoaes e cathegoria

animadversão ao
e

clero, .luncto d'elle e

ecclesiastica,

de primeiro entrar na

liça

para a

como para nos

indicar que

sempre

fingida

qual estava sendo provocada a milicia da egreja,
c

e artificiosa a predilecção

de Affonso pela ordem

começou a oppôr ás usurpações, reaes ou sup-

ecclesiastica, havia-se reunido

um

grupo de

di-

postas de Affonso, admoestações e censuras, a
principio paternaes e depois acrimoniosas.

gnitários seculares, cujos sentimentos se concer-

tavam com os do chanceiler, sendo o principal d'elles o mordomo-mór, Pedro Annes. E com
estes conselheiros

As primeiras reclamações de Estevão Soares versaram sobre o abuso de julgar os clérigos
nas causas crimes perante os tribunaes seculares e de os sujeitar á anúduva, e estavam justificadas pela letra das leis de 1211. Outra causa

ou agentes a seu lado, o moir

narcha abalançou-se a

retirando pouco a pouco

as concessões que fizera nas cortes de 1211, a recuar lentamente no caminho pelo qual se dei-

de constantes queixas contra o poder real era o
artigo d'essas leis

xara arrastar por fraqueza, a combater surda-

que estabelecia a superioricivil,

mente o poder que consentira em

fortalecer, e

dade da legislação canónica sobre a
o clero a todo o

porque

começou a gravar o
clle se isentara,

clero

com

oppressões de que

momento

e a propósito de tudo

obrigando os seus membros ao

julgava existir antagonismo entre as duas legislações e procurava acobertar-se
n'esta parte, Estevão Soares,

serviço militar e da anúduva, sujeitando-os aos

com

a canónica

:

tribunaes seculares nas causas eiveis e crimes, e

quando mesmo não

Historia de Portugal
sophismasse o texto da delibpração das cortes,
propozera a examinar os
títulos,

161
para averiguar

reclamava do poder temporal o que
dia conceder

elle

não po-

se tinham sido usurpados ou estavam legitimaiiienlc

sem

suicídio, e representava fxenui(irefíorio

possuídos.

As inquirições tinham dado

namenle as pretenções Iheocraticas do
VII

em

resultado revogareni-se muitas doações mal
tri-

e Innocencio

iii.

Fossem, poròm, jnstificadas

authenticadas, e exigirem-se dos donatários
butos que tinham cabido

ou Dão as queixas do arcebispo de Braga, não
foram attendidas pelo
rei,

em

desuso; haviam of-

que renunciara a

dis-

fendido nos interesses tanto os

membros do

clero

simulações e fingimentos e já se não esquivava à
lucta, e o rei

como

os da nobreza, e Estevão Soares, vendo es-

eo

prelado, profundamente inimi-

palhado o descontentamento nas duas mais poderosas ordens do estado, tractou de explorar
esse descontentamento. Convocou

gos, só esperaram pretexto para
estrepitoso.

um rompimento

uma

reunião

Procuraria o arcebispo, certo de que cído ou
tarde leria contlicto

de prelados e outros personagens ccclesiasticos,
e perante elles

com

AEfonso

ii,

contrahiral-

expôz com azedume o procedisó das in-

lianças que n'essa conjunctura o sustentassem e

mento de Affonso, queixando-se não
quirições,

fortalecessem? Chegaria, na previsão do futuro,
a conspirar

com

estrangeiros para lhe ser

faci!

mas de outros vexames particularmente feitos ao clero. Na exposição, o virulento
prelado dispensou-se de todo o comedimento. At-

vencer a realeza,

ameaçada

por perigos exa sua hostilidade

ternos? Parece que sim.
ao
rei

Com

tacou o rei de frente, censurou-lhe os costumes,
pintou-o

coincidiu a sua amizade

Sanches, que,

como dissemos,

com Martim governava em
e a

como um

libertino

que profanava o

lar

com

a concubinagem, cobriu de lama a coroa,
e

Toronho e Limia por Affonso
chegou a
tal

ix,

amizade

pregou a sedição;

com

estas demasias,

mais

extremo, que, por mediação de

próprias de revoltoso, que pretendia demolir, que

Martim, o monarcha de Leão doou ao prelado portuguez o couto de Ervededo, famosa propriedade

de pastor d'almas, exbortando á conlricção, en-

cheu de cholera Aflonso
tal

ii,

que jurou ódio mor-

em

terras da Galliza. Esta generosidade de

um

ao offensor, e para mostrar que se não temia

inimigo para

com um
ii,

súbdito, tornou este sus-

d'elle

nem

do clero, que o apoiava, reincidiu

peito a Affonso
d'elle.

que para logo se acautellou
ti-

apropositadamente

em

todos os

vexames

e

em

Como

Estevão Soares, por sua família,
fidalgos poderosos

todas as violências, que o haviam feito incorrer

nha intimas relações com
Alem-Douro, o
rei

de

na formidável objurgatoria.

temeu-se de que o arcebispo

A guerra

estava declarada

:

Estevão Soares res-

encontrasse n'elles allíados que convertessem
conflicto

um

com o clero em guerra civil,
si

e procurou

pondeuá reacção doreiexcommungando-o, como o mordômo-mór, Pedro Annes, o chanceller, Gonçalo

conciliar a

os Sonsas, cujo chefe, Gonçalo Men-

Mendes,

e todos os

cúmplices doseuattentado

des de Sousa, seguira o partido das infantas e
se retirara da corte. Conseguiu-o. E presume-se

contra os direitos da egreja, e pondo o reino
interdicto.
:

em

que, não contente
rio,

com haver
foi

tirado ao adversáelle,

Eram estas as suas armas Affonso ii jogou também as suas. OíBciaesda coroa, acompanhados pelas tropas concelhias de Coimbra,
destruíram os bens patrimoniaes do arcebispo. Os burguezes de Guimarães entraram á força

que se preparava para medir-se com
a Santiago

naturaes auxiliares,

com o

pretexto

de devoção, mas realmente para se avistar

com

em

o arcebispo de Compostella e impedir que elle
se ligasse

Braga e apoderarani-se dos
e,

cclleiros

de Estevão,

com o de

Braga, mostrando assim a

não os amedrontando as excommunbões, en-

Estevão que correspondia aos seus apercebimentos

traram nas granjas da sé, «arrancaram as vinhas,

com

outros não

menos

cautellosos, e

que lhe

arrasaram os pomares e as mattas, e teriam
vez posto

tal-

dava as honras d'ínimigo perigoso.

mão

violenta

no imprudente prelado,
fuga,

Uma

lucta,

para a qual se preparavam tão de
devia ser
encarniçada.

se elle se não pozesse

em

com alguns dos
Itália.

espaço os luctadores,

seus parocbos, dirigindo-se para

Travou-a o arcebispo, aproveitando a irritação

Honório

iii

devia ficar surprehendido ouvindo

que causavam as inquirições, de que

fallarerei se

as queixas que Estevão lhe fez do

mesmo

prín-

mos largamente, ao
I

clero, de cujos

bens o

cipe que a benignidade apostólica pouco antes

VOL.

— 21.

162
acarinhara
:

Historia de Portugal
loila\ia,

uão

foi

remisso

em

casti-

gal-o, acudindo pelo prelado

que se lhe lançara

Ao mesmo tempo que mostrou ao rei as armas do seu arsenal, Honório iii proveu à sustentação de Estevão Soares, que se apresentara
Itália

aos pés.

Em

1221, a chancellaria romana dirigiu
longa carta,

em

a Affonso

uma

que daremos

em

re-

no desprovimento d'um mendigo,

e orde-

sumo. Honório declara ao rei de 1'orlngal que se abstém de lhe endereçar as saudações usuaes,
porque as desmereceu pelas suas culpas, desejaIhe melhor conselho, e adverte-o de que todo o

nou que lodos

os prelados sullraganeos da sé de

Braga se quotisassem para estabelecer

uma

pen-

são ao metropolita, incumbindo os bispos de Osraa
e o bispo e deão de Palencia de fazerem

cum-

poder

vem de Deus,
d'elle

e

que os

reis

devem

exercel-o
a justiça.

prir este preceito de fraternidade episcopal, ao

conforme a vontade divina, guardando

qual, todavia, se fm-ton o bispo de (Joimbra, Pedro. Este ecelesiaslico era partidário d'el-rei,

Ouviu

muitas queixas, e está iuíoruuidu

me-

de como tem attentado contra a liberdade daegreja, vexando-a nos bens e nas pessoas dos
ministros

nos por convicção do que por medo. Tendo tido
desavenças conr
elle,

tanto receiou ser maltra-

com

tributos e outros
feitas

gravames, e reseus antecesfeia culpa,

tado que se encerrou voluntariamente nos paços,

vogando doações
sores. Lança-lhe

por

elle e

como n"uma
o falcão e
ali

fortaleza. Affonso

n dissera

um

dia

em

rosto,

como

o

apontando para a morada do bispo: «Aqui está
a garça
:

seu procedimento para

com

o arcebispo de Braga,
politica injusta e

se a garça se

mover

o fal-

que o exhortava á emenda da
as avanias qae o prelado

cão ha de apanhai-a», e desde esse dia não mais
se

dos costumes desregratlos, narra nieudadamente
solTreu,

moveu

a garça. Encarcerado voluntariamente,

ou directaolfi-

aterrado, isolando-se de toda a convivência para
se acautellar conlra assassinos, o pobre bispo en-

mente do

rei,

ou indirectamente dos seus

ciaes e dos burguezes de Guimarães, e pergunta

louqueceu, e quando, tranquiUisado, se atreveu
a sair do paço, trazia as barbas intensas de

se este procedimento é próprio
christão ou

dum

príncipe

um

d'um lyranno. Lembra a Affonso o

peregrino, no

hombro

a cruz vermelha de cru-

exemplo do Pharaoh que, apezarde pagão, deixou

zado, e estava ligado a Aflbuso por
cia passiva e

immunes as terras do sacerdócio, e ameaça-o com a sorte do audaz, que pôz mão profana na arca santa, e com as predicçues dos Prophetas. Faz a apologia de Estevão Soares. Accusa o monarcha de
ter

uma

fldelidade automática.

uma obediênTomou
sua

abertamente partido conlra o arcebispo de Braga,
e

não somente se negou

a concorrer para a

sustentação

como desprezou o

interdicto,

que o

perseguido o prelado para se apo-

papa, posteriormente, pôz no reino, rebelJando-se
contra o seu superior ecclesiastico e fazendo

derar das suas riquezas. Depois exhorta-o á contricção
:

um

intima-o para que reconheça seus erros

scisma singular na egreja nacional
de loucura.

:

um

scisma

e dê reparação á egreja e aos ecclesiasticos de

todos os aggravos que lhe haja feito, e especial-

Regulado este assumpto secundário, Honório ni escreveu

mente indemnise o arcebispo de Braga dos prejuízos causados
(|ue
|)ela

lambem

aos prelados de Astor-

perseguição. Annuncia-lhe

ga, Palencia e Tuy, para que o representassem

encarregou os bispos de Palencia, Astorga e
inli-

juncto do príncipe porluguez, e enviou-lhes insIrucçOes para o

Tuy, de velarem pelo cumprimento (festa
miiiriti,

desempenho

d'esla missão. In-

e,

no caso dClla não ser obeilecida, de
maior conlra o mo-

cuml)iu-ús especialmente de alcançarem que os

fuliniiKU'fm excíjuumndiãu

membros do
resistência ao

clero fossem dispensados de

comas-

narcba e seus cunsellieiros, e

porem

inteixlirlo

parecer perante tribunaes civis por delictos de

no reino. E hnalmente, receioso de que AlVonso

pagamenio de impostos,

e

bem

não cedesse ao medo dos auathemas religiosos,
declura-lhe que castigara a sua obstinação desli-

sim que ficassem isentos de tributos e serviços
pessoacs, invocando,

como

um

dos fundamentos

gando os portuguezcs da fidelidade de vassallos,

d'csta isenção e do previlegio de foro, as leis pro-

excommuDgando cel-o como rei, e

os que continuarem a reconhe-

offerecendo o reino aos prínci-

mulgadas em 1220 por Frederico n, ao qual, como imperador d'Allemanha, a cúria romana
queria que de certo
príncipes da terra.

pes a aos nobres, que d 'elle ou dos seus retalhos
se quizessem apoderar.

modo obedecessem

os outros

Mas não se contentou coin

Historia de Portugal
estas

163

recommendayõcs o protector zelozo de Esreparação mas
clero

reverencia de Jesus-Christo, que confessa honrar-se ou menoscabar-se

tevão Soares. Inspirailo por este, que desejava não

em

seus. ministros, e
real,

uma

uma

vingança, (lue tanto

não altentando ao que se deve á magestade

pugnava pelo
pessoaes,

como pelos seus rancores Honório iii mandou também aos deleMendes

que por esta via deslustra mais do que imaginava. Mas se os sobreditos atiçadores tractassem

gados que obrigassem AlTonso a expulsar da
corte e do conselho o rhanceller Cionçalo

mais do que cumpre a
ticular,
elles,

el-rei

do que de seu par-

(luando não respeitassem o

bem
sua

mordomo-mór Pedro Annes, vociferando contra elles n'uma bulia, que transcrevemos da Monarchia hisitana, como amostra da rhetorica
e o
virulenta da chancellaria apostólica. Diz este curioso documento,

da sua salvação, ao menos reparariam

em

fama, só para que publicamente se não dissesse
que, publicadas guerras e inimizades

em

certo

modo

contra Christo, tyraunisa el-rei de Portu-

segundo a versão de

fr.

António

gal seus ministros

mui ás

claras, e

que não só
que rou-

Brandão
«Honório, bispo, servo dos servos de Deus, aos

destroe os bens das egrejas, applicadas somente
a Deus,

senão que como inimigo
desistir até agora

faz

veneráveis irmãos os bispos de Palencia, Astorga
c Tuy, saúde e apostólica benção.

bem, sem
nós

com

se lhe ter posto

Como

de ordi-

excommunhão

e interdicto. Portanto, confiados

nário os costumes da boa ou

conversação se
il-

em que

apartando-lhe estes homens pestilen-

reformem ou depravem, houvera de prover o
lustre rei de Portugal

ciaes de sua

companhia se desvie saudavelmente

em

que, conforme ao con-

dos caminhos por onde o guiavam, nos pareceu

selho do Sábio, andassem a seus lado

homens
da

admoestar o
attenção que,

mesmo

rei e

exhortar

com muita

justos, os quaes, cora a devida affeiçâo e zelo

affastando-os totalmente da sua

sua honra e fama, o retrahissem dos males e en-

familiaridade e conselho, se d'aqui

em

deante
leite

caminhassem para acções honestas
pelo contrario

:

mas

elle,

tornarem, peccadores, a lhe apresentarem o
infernal da sua doctrina, os

o que relatamos

com grande

sen-

não consinta, antes,
e os beiços mentiro-

timentoí não advirlindo que o preverso levanta

alongando de

si

a bocca

contendas e que sempre o

máu
com

busca brigas e

sos, faça eleição

de conselheiros providos e ho-

desavenças, se diz avocar a taes familiares e
conselheiros, que, corruptos
a própria malelle,

nestos,

homens, emfim, que além de temerem e

sentirem que se lhes impute a elles qualquer

dade, buscam corrompel-o e depraval-o a

cousa que façam alguma vez menos conforme

persuadindo-o sollicitamente a maldades e a outras

com

a auctoridade d 'el-rei, se gloriem de o ver

cousas

illicitas,

para que, soberbos

com

o

a elle accrescentado dos bens temporaes e espirituaes.

poder que

bem

se lhes dá para fazerem mal, se
rei e

Pelo que

mandamos a

vossa fraterni-

façam temidos dos súbditos do próprio

em

dade,

em

virtude d'estes apostólicos escriptos,

dispêndio da própria alma negoceiem seus com-

que apparecendo pessoalmente deante do mesmo
rei

modos

É assim, porque, segundo ouvimos, Pedro Annes e Gonçalo Menparticulares torpemente. des, dito chanceller, conselheiros seus ou, para

o admoesteis attentamente e induzaes

com

muita efRcacia às cousas sobreditas. E sendo
caso que não possaes assistir lodos á execução
d'ellas,

melhor

dizer, seus enganadores,

como

as rans

dois de vós ao
S. João

menos

as executarão.

residindo nas camarás e retretes d'el-rei,

em

tal

Dada em
i4

de Latrão aos dois das nonas

forma o revolvem com as suas maldades e o perturbam, que movendo-o a tudo quanto querem

de janeiro do anno quinto do nosso pontificado de janeiro de 1221).»
Esta bulia, dictada

chegaram

a tanto que, além de outras impieda-

des, persiga impiamente as egrejas e outros lo-

gosto litterario, illucida-nos acerca do

com mais acrimonia do que modo como

gares pios, os quaes devera defender obrigatoria-

a cúria romana c o arcebispo de Braga, seu infor-

mente;

e,

o que mais tem soado, affrontando

mador, apreciavam os chefes do governo de Portugal. fraco,

indecentemente o nosso venerável irmão, o arcebispo de Braga, pessoa por suas Irttras e honestidade merecedora de todo o respeito, o obrigue

O

rei,

quanto a

elles,

era

um

caracter

que se deixava persuadir pelo coaxar das

rans aninhadas nas suas camarás: responsáveis pela resistência ás pretenções do clero

a andar desterrado da sua egreja, desprezada a

eram

164
("longulo

Historia de Portugal
Mendes
e

Pedro Aiines. n cbancciler go-

foi

um

triumplio para elle e

mesmo conceito em que lôra tido o seu antecessor, de quem os papas mandavam esconzava do
der
a

Affonso n. Feita a paz

uma vergonha para em 1222 com Leão, me-

diante a perda de Chaves, continuou o conflicto
religioso.

correspondência dirigida a Sancho

i

:

Honia

O

rei,

allribuindo a culpa da invasão,

reconbecia-o

de Julião,

como legitimo herdeiro do espirito e podia lambem reconheceras tradições

que o pozéra
res,

em

grande aperto, a Estevão Soa-

de ha muito suspeito de tramar occultamente
Affonso ix e Martim Sanches, mais se enco-

do direito romano, ensinadas na escola de Bolo-

com

nha

e de

que se haviam repassado os chancelle-

lerisou contra elle e mais se obstinou

em não

res portuguezes,
co. Era,

como

hostis ao poder theocratifazia

ceder ás admoestações do pontífice. Os delegados

porém, exacta a apreciação que se

da Santa Sé fulminaram, portanto, as excommunliòcs,

do caracter de Aflbnso n,
miliares

e os conselheiros e fa-

mas também
:

este expediente não alcan-

dominavam-n'o realmente a ponto de

çou
e

effeito

o exconunungado appellou para

Roma

converterem a piedade, que apparentára no principio do reinado,

continuou a perseguir o clero. Estevão Soares
Itália,

em animadversação

á egreja e

regressou então de

trazendo

ao sacerdócio

'í"

Não nos parece.

Em

vez de fraco,

Honório

III

déra-lhe cartas para AtTouso,

um ullimalum. em que

o monarcha que apenas senhor do poder aflastou

empregava os meios extremos da eloquência para
abrandar o animo do
realisaria a
rei, e

de

si

os fidalgos que o pae lhe deixara por tuto-

lhe annunciava que

res, se rehellou contra a sua ultima vontade, e

ameaça de desligares portuguezes da
não
fizesse penitencia

em
'

defesa da auctoridade regia

empenhou accesa

fidelidade de súbditos, se

lucta

com

as irmãs e o

bando que as apoiava,
a consciência dos die

immediata. Ao

mesmo

tempo, para accrescen-

inculca-se-nos
reitos

como tendo

tar a auctoridade
ljilital-0

do portador d'estas cartas eha-

da sua magistratm-a,

vontade firme e

para decidir da paz ou da guerra, conce-

obstinada para os fazer respeitar.

A confiança

dèra-lhe plenos poderes para, no caso

de se

que

elle

depositou

em

Gonçalo Mendes e Pedro

render o perseguidor da egreja, levantar os inlerdictos e restituir Portugal á
tholica.

Annes, depois de a haver recusado aos Souzas,
teve provavelmente por fundamento

communhão

ca-

uma

con-

Este era o
:

supremo esforço

em

favor

cordância de opiniões. Antes que inspiradores,
os validos foram agentes e instrumentos da politica

da conciliação
rio e o

foi

bem

succedido, porque Honó-

seu protegido, como hábeis políticos, souescolher, para o tentar,

de Affonso, que, cioso das prerogativas da

beram

uma

occasião

em

coroa e propenso ató a exagger;d-as, não podia
ver

que o monarcha,

em

resultado da agitação pro-

sem temor o poder crescente do
ia

clero e a

duzida pelas inquirições, sentia mal segura na
calieça a coroa

independência que
recordar-se
elle lhe

alcançando no estado,

nem

que o pontífice ameaçava arran-

sem amargura das humilhações, que
feito sotTrer

car-Ihe, estendendo desde lloma o potente braço,
e sabia

havia

nos primeiros annos

que não faltavam no reino descontentes
promptos a levantarem o estandarte

do seu governo.
Estreitamente ligado aos seus validos, o principe repelliu a intimação do papa, para os affastar

e inimigos,

de rebellião que o clero promeltía abençoar.
liesolvido a terminar a contenda religiosa para

de

si, e

as instancias dos bispos de Astorga,

não aggravar a situação

difficil,

em que o haviam
ii

{'alencia e

Tuy, para que desse reparação aos
á

collocado as malquerenças

da nobreza, Aflbnso

aggravos

feitos

ordem

ecclesiastica.

Honório ni

escolheu, para negociar pazes

com

o arcebispo de

desperdiçara a sua rhetorica. Estavam as cou-

Braga, o famoso deão de Lisboa, mestre Vicente,

bem distante da paz, quando occorreu o conflicto com Martim Sanches, governador de Limia e Toronho, que em outra parte
sas n'este estado,

que passava por ser

uma

das

ram

aninhadas

nas caviaras regias, de que se queixava amar-

gamente o papa. O negociador, experimentado
nas artes da politica e da diplomacia,
cedido.
foi

narrámos. A violação da fronteira da (lalhza e

bem sucque

provavelmente as depredações

feitas

por

offi-

Não ha

notícia minuciosa, dos passos

ciaes da coroa portugueza no couto de Ervede-

deu em favor da concórdia, mas nos archívos
conserva-se
estava feita

do, doado ao prelado braccharense, trouxeram

um
em

documento que pfova.

qtie ella

a Portugal o bastardo de Sancho

i,

e a expedição

agosto de 1222. Por esse do-

Historia de Portugal
cumento, o
(lo

166
forças próprias e as dos adfortalecer a realeza gran-

rei e

seus filhos fazem doação perpetua

Não mediu bem as
versários,

preslaino, que fora de Pedro Affoiíso, a
Vicuiile, dizendo-Uie (jue a

mesno

nem soube

tre

mercê se fundafizestes

geiando-lhe o apoio dedicado das classes populares.

mentava «no muito serviço que nos
concerlo que tivemos
ulias U.

Ter-lhe-hia sido possível vencer o clero,

com

nossas irmãs, as
1).

raiiie-

auxiliado pela nobreza ou contando

com a sua

Thercza, D. Sancha, D. iiranca e

neutralidade

;

facilmente supplantaria a nobreza,

rengaria, sobre os castellos de

Montemor eAlemirinãl).

conluiando-se para isso

qucr; porque ajudastes miiilia
ser rainiia de (lastella; e

Mafalda a

desse hictar .sem

com o clero talvez podesvantagem com as ordens pri;

pdo muito
. .

servira (lue

vilegiadas do estudo, se o povo
tesse

em massa comba-

me
(
I

fizeste

no concerto que assentámos com o arEsterno.
»

por

elle,

combatendo ao mesmo tempo

cchisjjo de Braija, D.

pelos seus interesses legítimos e pelos seus di1

concerto estava, pois, ajustado

em

íií, pou-

reitos irrefragaveis.

Mas brigar ao mesmo tempo

cos niezes depois do regresso de Estevão Soares
a Portugal. Kste prelado confirmou a doação feita
a

com

a

ta-Sé,
sitaria

mestre Vicente, assignando-a, o que é prova de
còrle.

ordem ecclesiastica, patrocinada pela Sane com a fidalguia, em grande |.arte depoda força material do paiz, sem ao menos
imprudência, nase

que voltara á

Também

a confirmou o iiispo

poder lançar contra os dois poderosos antagonistas as milícias bnrguezas, foi

de Coimln-a, do qual pouco antes fora exigida,
por

ordem do papa, a expulsão do paço
portanto, deposto as armas,

real. tis
ti-

cida da
([ue

ímmoderada paixão pela auctoridade,

antagonistas, que pareciam irreconciliáveis,

devia ter fatalmente o resultado, que AtTonso n

nham,

tinham dado

ainda viu e teve de acceitar, reconciliando-se

uns aos outros penhores da tolerância e desejo
de conciliação,
e

com Estevão
soube querer
inopportuna,

Soares, e que tornou desastroso o
filho.

haviam entabolado negociações

reinado de seu
;

AfTonso quiz de mais e não

para assentarem na maneira de se dar desaggravo

a sua politica peccou

em

parte por

ao clero e regular a sua futura posição no estado.

em

parte por inhabil.

Mas

estas negociações

foram domoradas, esten-

Não

foi,

comtudo,

deram-se, sem resultado, até ao dia 25 de março

se disfarçou e

estéril, e não o fòi em quanto combateu separadamente o clero

de 1223, e n'este dia falleceu Affonso

ii,

que jà

e a nobreza, que

não tinham comprehendido a

ha muito

soíTria

enfermidade incurável, deixando

necessidade de se alliarem. Is'esleperiodo foram

ao seu herdeiro o espinhoso encargo de regular
as condições definitivas da concórdia da realeza

proclamados, por mercê d'esta separação, alguns
princípios favoráveis à auctoridade real, cuja ap-

com

o clero, cada vez mais confiado na própria

plicação
nullada.

foi

posteriormente

em grande

parte an-

força,

dimanada da auctoridade tbeocratica do

Nas cortes de 1211

ficou assentado

que
rei;

papado romano.

o poder judicial pertencia exclusivamente ao
e a este largo passo, aventurado no

caminho da
mes-

CAPTIULO

VII

centralisação, não se oppôz o clero, porque, con-

tente

com

as isenções que obtivera d'essas

Politica interna

mas cortes, não reconheceu a conveniência de
resistir á

adopção de

um

principio,

que especial-

Se Affonso n, avisinhado do tumulo, fraquejou
deante de Estevão Soares, campeão do clero ar-

mente attacava a auctoridade dos nobres, que
tinham jurisdicção nas suas
terras.

Posteriorfoi

mado com

os raios

da Santa-Sé,

foi

ponjue o

ly-

mente, a contenda com as infantas

empe-

rannisou a necessidade e não, decerto, porque se

nhada evidentemente com o

intuito

de fazer

modificassem as convicções do seu espirito. O
terceiro rei

reconhecer o domínio politico da coroa sobn? a
propriedade particular, e deu logar
a'

de Portugal adiantou-se, pelo pensado seu tempo e do estado da so-

arentar-se

mento

politico,

o principio da não alienação dos bens públicos,

ciedade a que presidiu. Só o século xv poude
realisar a^entralisaçào monarchica,

por

jiarte

de Afl'onso: como estas doctrinas, não

que

elle pre-

de todo orthodoxas, eram apenas invocadas para
despojar as infantas ou coarctar a independência

tendeu effectuar no século

xiii,

com

recursos

desproiíorcionados ás diOiculdades da empreza.

que

eilas tiueriam ter

dentro dos seu? castellos,

166
o clero ouviu-as sem receio

Historia de Portugal
nem
hostilidade e a
ecclesiastica teria consolidado o triumpho,

que

Santa Sé não duvidou como que

sanccionaj-as,
i

alcançara sobre Sancho

i,

alliando-se estreita-

definindo a natureza da doação, feita por Sancho
às filhas,

mente aos
fonso

fidalgos

;

e se

assim procedesse, Af-

como mais convinha ao monarcha. A no-

breza ou

uma

parte d'ella pressentiu

na verdade

n vér-se-hia compellido a renunciar ao seu empenho auctoritario. Desunidos, porém, os dois
adversários da sua auctoridade, o
rei

que a causa das infantas era a sua, advinliou as
confirmações o as inquirições, e
foi

aproveitou

pelejar

em

a desunião. Basta relanceiar a vista pelos do-

Monte-mór; como, todavia, a egreja não pugnou
por
ella

cumentos que nos restam do seu governo, para
se conhecer quanto a nobreza havia perdido o
favor, de

nem

pelas infantas, antes o seu chefe
parcial do rei, o

supremo se declarou

bando da

que gosàra nos reinados de Affonso Heni
:

nobreza, que tionçalo Mendes de Souza capita-

riques e Sancho

escasseiam absolutamente

neou, poude ser supplautado e disperso.

os actos d'essas doações generosas,
estes dois monarchas, e

com que

Em
ril-a a

quanto Affonso

ii foi

alliado

do clero nada

especialmente n pri-

teve que temer, portanto, da nobreza, e poude fe-

meiro, retribuíram os serviços e grangeiuram
a dedicação dos seus illustres vassallos, e ape-

seu salvo. Mais ainda.

A generosidade com
ir

que favoreceu a egreja e a submissão que mostrou aos seus ministros, permittiram-lhe

nas ha noticia de que as ordens militares, por

sub-

serem addictas á egreja, receberam algumas
mercês de Affonso n, sendo a mais valiosa de
todas a cessão da villa e do castello de Aviz á or-

pticiamente introduzindo na legislação e profes-

sando otlicialmente princípios, contra os quaes
o clero teria protestado, se, por excessiva confiança

dem

d'Evora. Explicar-se-ha este facto pela ava-

na docilidade do monarcha, não acreditasse

reza d'el-rei? Não, pois que elle se não mostrou

que taes princípios nunca seriam applicados

em

avaro quando premiou os serviços feitos á sua
politica.

seu detrimento. Estava captivado pelas mercês

A propriedade

era o fundamento da in-

que recebera. Confiava no

rei

como em

creatura

fluencia social da nobreza,

como o

era

em

parle

muito sua. Não lhe desagradava,

talvez, queelle

do poder secular do clero, e quem se propunha
a abater estas aUivas classes, devia racionalmente recusar-se a augmentar-lhes as riquezas territoriaes.

fosse abatendo a nobreza elivrando-o, portanto,

de

um

rival.

Quiçá não comprehendeu também

todo o alcance das doctrinas que o ardiloso chancheller Julião lhe ia fazendo acceitar, accompa-

Os nobres não eram para Affonso n, como

haviam sido para seus avós, companheiros d 'armas, campeões do throno e da pátria de
:

nhando-as ás vezes de concessões que pareciam
contrarial-as.
car, por

membros

Nem

de outro modo se pôde expli-

uma

corporação que inspirava ciúmes á rea-

exemplo, que não visse o seu privilegio

leza,

não havia que dar-lhes mas somente que

de

foro, a

que tanto queria, ameaçado logicajudicial e de

lhes tirar, as suas propriedades pareciam usurpa-

mente pela declaração de que era inherente ao
rei a

das ao domínio real, e se o
liia

rei

podesse, ter-lhes-

suprema magistratura

que os
asanc-

juizes

eram apenas seus

rejiresentantes, e

cionasse complacentemente para depois se rebellar contra os seus rigorosos consectarios.

como impôz á egreja nas cortes de 1211 o preceito de não comprarem bens inimoveis. A concentração da propriedade nas mãos
imposto,
,

Toda

das classes privilegiadas, já

em

Portugal preocsé-

a politica dos últimos annos do reinado de Affonso u estava incluída nas theorias, acerca do

cupava os homens d'estado no principio do
culo xni.

poder judicial e do direito de propriedade, professados por elle ou por seus procui'adorcs, logo

AlTonso

II

não se contentou, porém, com

es-

tancar a fonte da munificência regia,

em

que a

depois de elevado ao throno

:

todavia, o clero

nobreza bebera opulência e poderio. Tendo podido, graças á alliança

que se insurgiu contra a pratica approvou a theoria,

ou á neutralidade da egreja,

e

com

a incoherencia e a imprevidência do

destruir a coalisão dos rícos-homens ajuramen-

i'goismo deixou fortificar,

em

prejuizodanobreza,

tados por Sancho

i

para o obrigarem a cumprir

o poder real, a que era naturalmente hostil e que
pretendia avassallar.

o seu testamento; tendo privado a aristocracia de

seus caudilhos obrigando-os a desterrarem
,

,

como

Menos egoísta

e

mais previdente,

a

ordem

se desterraram seus próprios irmãos e os Sonsas,

Historia de Portugal
il'Alem(louro; tendo reduzido o partido das in|

167

tinham sumido, ficavam sujeitas a ser annulladas,

faiilas,

que

haftíiam

juntado

em Montemor

todos

como

é

de crer que o fossem algumas.

os nobres descontentes e ciosos dasprcrogativas

O

direito corria, pois, risco de ser

desconhecido

da sua classe

;

tendo, emfim, vibrado todos estes

jior falta

de prova; mas os posssuidores de bens,

golpes, uns sobre outros,

sem

se Hie i|uei)rar a

d'antes pertencentes á coroa, não se inquieta-

espada, Alfonso

ii,

sempre confiado na

alTeiçâo

vam, de
reito.

certo,

unicamente por causa do seu di-

do clero e cultivando-a, tentou estulieiecerdeum

.Muitos d'elles

tinham lambem usurpado

;

modo

delinitivo e catbegorico a subordinai;uo da

as ballizas dos seus prédios não concordavam

nobreza ao throno, e fazer-lbe sentir a sua dependência era relayão ao direito de propi-icdade,

com

as demarcações das cartas de doação,
real,

um

arredondãra-se á custa do doniinio
incluii'a

outro

de que

ella fazia derivar os

mais preciosos

pri-

no seu berdamenio terras tributarias
;

vilégios, (ieneralisou então o principio da não alienação dos bens públicos, que invocara no
pleito cora as irmãs, e lirou-lbe as
cias. Se,

para as isentar do tributo

a posse legitima asso-

ciára-se á apropriação suhrepticia ou violenta,
as concessões regias tinham sido ampliadas pof
arbítrio

consequên-

conforme o

direito wsigotbico e a bulia
ni,

do concessionário, e todos estes abusos
rei,

de confirmação de Alexandre

cada monarcba

se

desmascaravam perante o

que certamente

devia legar ao seu suceessor a propriedade da coroa tão inteira

os não perdoava, revendo elle, e revendo

com o

como

a recebera, todas as doações

desejo de achar que emendar, o archivo disperso

de retalhos d'essa propriedade eram por sua natureza temporaiMaserevocaveis. Nãooltiiliam en-

da jiropriedade de origem regalenga. Por todoa
esles

motivos, a nobreza só

com concentrada

tendido assim, é certo, os avós e o pae d'AITonso n. Tinbam feito concessões de bens territoriaes e

cholera se prestou ás confirmações. E se o estado

de abatimento, a que já a havia reduzido a politica

de rendas publicas por
cessões

titulo

perpetuo

:

estas con-

realista,

lhe não pcrmittiu resistir aber-

foram,

porém,

consideradas abusivas
elle

tamente, ha noticia de que alguns fidalgos se

por Affonso, sendo válidas somente as que
quizesse confirmar; e
revogal-as

recusaram a fazer confirmar as suas cartas de
doação, [lorque muitas existem confirmadas

como

teria sido loucura

em

em

massa, o

rei satisfez-se cora fazer

tempos

])Osteriores a Aflbnso
fazia o clero,

ii.

reconhecer indirectamente o seu direito de as
revogar, avocando a
si

O que

em

quanto a aristocrocia

os titulos,

rundaincntavinn, para as prorogar,

em que em vista

se

murmurava
propriedade

contra a revisão de seus titulos de
? ^"ão

da

parece ter ficado de todo alheio

aulbenlicidade d'esses titulos, pelo processo das

a essas murmurações, e ha

um

facto,

ou antes

confirmações geraes.
Durant(! os annos de 12 IG e 1217 AlTonso oc-

uma

coincidência de datas, que nos induz a crer

cupou-se quasi exclusivamente

em

percorrer o

gosto produzido pelas confirmações no

que AlTonso julgou necessário remediar o desanimo dos
ministros da egreja.

reino e examinar os titulos das propriedades, que
outr'ora

O maior

trabalho das con-

haviam

sido publicas. Esle

exame de-

firmações fez-se desde o anno de 1216 até 1218,
e n'este

via irritar

profundamente a nobreza. U principio,
era applicagão, coUocava-a, então e

mesmo

anno,

em

abril, exp<'diu

o rei a

de

ijue elle

por todo o futuro, na sujeição dos monarchas,

famosa carta pela qual sujeitou ao dizimo as rendas reaes, que percebia das dioceses: não seria
esta concessão, tão estranhavel

porque se de Allonso dependia a prorogação das

num

monarcha

mercês

feitas pelos

seus antecessores, dependia

avaro, destinada a abrandar algum desconten-

lambem de

seus successores, e assim ficavam in-

certos e condicionaes todos os berdamentos. Por

tamento do clero, e não seria a questão da propriedade o motivo d'esse descontentamento ? Não
nos parece inverosímil a hypothese. A egreja, como a aristocracia, teve indubitavelmente de sujeitar os titulos

outra parte,

nem

todas as concessões dos reis

estavam regularmente documentadas, pois que
os actos da vida civil ainda não

eram sempre acompanhados de formalidades que a todo o
tempo lhes servissem de prova, e aquellas que
nunca, haviam tido titulos, ou cujos titulos se

dos seus bens à revalidação. Por

muito affeiçoada que fosse a AETonso, não se concebe que lhe não repugnasse a desusada exigência do poder real. E o
rei,

pei^ebendo esta

168

Historia de Portugal
nado. O

repujínaiicia e receiando que desse alentos ô resistência da nobreza, tratou logo de se congraçar

homem

astuto,

que depois de ser exi,

pulso da camará de Sancho

enfermo, pelos seus

com o

clero mediante a generosa concessão dos

directores espirituaes, se fez acceitar pelo clero

dizimos, para evitar mais

uma

vez,

como conse-

como

chanceller de Âffonso n, teria comprehen-

guira evitar até

alli,

que se comliinassem as duas

dido que as inquirições, ordenadas

em

1220, e

de cuja divisão precisava ambas, combatendo cada supplanlar a para as vez. E se não é esta a explicação sua por uma
classes priviligiadas,
politica

o uso que d'ellas se fez para annullar de facto
as insenções concedidas
pelas cortes de 1211,
<ios

membros da

egreja

eram ura passo errado,

da carta de 13 de

abril

de 1218, é certo,

que daria aos inimigos da coroa

uma

força im-

pelo menos, que Âffonso soube manobrar de

ma-

mensa, procedente da agitação espalhada
todo o paiz.

em

neira que depois do processo das confirmações
geraes, e apesar delle, ainda continuou a viver

As inquirições foram o resultado das confirmações geraes, e quanto a nós

amigavelmente com o clero nacional, pagandoIhe com mercós o serviço de o não estorvar na

derivaram d'ellas

al-

guns dos aggravos de que se queixou o
Já antes, porém, se operara
politica

clero,
ni.

empreza de

fortificar o
foi,

poder

real.

por órgão do arcebispo de Braga e de Honório

O anno de 1Í20
affigura, a data

porém, segundo se nos
.\f-

um

reviramento na

do rompimento declarado de
ccclesiaslica. Até aqui

de Âffonso, e de benigna para com o

fonso

com

a

ordem

temos

clero tornára-se-lhe hostil.

A contar de 1218 co-

visto a politica realista dirigir-se babilmente para

meçam

a apparecer indícios de que o rei arran-

o seu fim; vamos vel-a agora commetter erros
tão graves, que quasi lhe

cara a mascara de piedade.

Um

d'elles é a severa

comprometteram todos

provisão, proliibindo que corressem no reino os

os triumpbos anteriores. Se o rei condescendeu

decretos de Sueiro Gomes. Outro são as ameaças ao bispo de (loimbra, Pedro, que o fizeram

em

pagar dizimos das rendas da coroa, assustado
a attitude adoptada pelo clero

com

cm
elle

conse-

enlouquecer. As primeiras queixas do arcebispo

quência das confirniações, depressa passou do
susto à audácia.

de liraga contra o procedimento do chefe do estado

Convencer-se-hia

de que

tudo podia tentar contra a aristocracia, visto que
ella se resignara,

cndjora a custo, a

um

vexa-

também parecem ser anteriores a 1220; andevem ter sido, portanto, os primeiros aggravos feitos ao clero, com derrogateriores a esta data

me?
clero

Pensaria consigo, ao

mesmo

tempo, que

ção das

leis

das cortes de 1211. As inquirições

podia contar

com

a tolerância ou a amizade do

augmentarara, porém, o numero d'esses aggravos, e estando á frente da
altivo Estevão Soares,

em

quanto tivesse

rar, e até feril-o

com que ]h'a remunecom uma das mãos uma vez que

ordem

ecclesiastica o

que trouxera de

Roma

a

lhe estendesse a outra cheia de dons? Chegaria

certeza do valimento do pontífice, o rei encontrou n'elle,

mesmo

a persuadir-se de que, abatidos os nobres,
ecclesiasticos, e era che-

em

vez da tolerância e da resignação

não precisava poupar os

com que

talvez contara, a resistência profiada e

gada a occasiâo de lhes arrancar o que concedera

audaz, que acabou por vencel-o

em
mos

quanto lhe conviéra o seu apoio? Não sabeo que se passou realmente no espirito de Âf-

Âs inquirições foram ordenadas

em

1220. Nas

suas digressões pelo paiz e no rápido

exame que

mas sim que a sua politica desembainhou como uma espada de dois gumes e começou a
fonso,
ferir

fizera dos titulos de propriedade, Âffonso entre-

vira quantas usurpações

estavam mascaradas com

nos dois adversários, que a principio cau-

apparencias de direito, e especialmente quanto

tellosamente evitara que se unissem pelo descon-

andavam defraudadas
dões,

as rendas da coroa, ten-

tentamento. Talvez morresse por este tempo o
chanceller Julião, e o seu successor,

do-se os particulares eximido a tributos e servi-

embora comconforme o

que pesavam sobre os seus prédios, e
as classes privilegiadas estendido abu-

penetrado das suas doctrinas, não tivesse tão fino
tacto como.elle para as ir realisando

havendo

sivamente os seus privilégios e as suas isenções
sobre terras sujeitas, por natureza, a ónus fiscaes.

permittiam as condições sociaes. É certo, ao menos, que não
(oi

Julião

que aconselhou a Âffonso

Imaginou então corrigir todos os abusos e rebater todas as usurpações, e

os actos violentos dos ultimes annos do seu rei-

nomeou uma alçada

'ip,

nia ^o^a

iln

tliiiaila.

:i(i.

AS INQUIRIÇÕES

Historia de Portugal
ou
cuiiiinissão,
i|U('

169
reclamações de
iii

(lisrarrciuio pelo jiaiz Tosse

inqidrirõcs.

.\s

1'istevão

Soares e

avcriguamlo

judicialinciiti' a

natureza das diver-

as admoestações de Honório

citavam sempre,
ii,

sas propriedades, dos direitos seuboriaes e dos

como um dos
ministros

actos de perseguição de AfTonso

])adroados das efirejas e uiosteiros, e á vista de

o gravar os bens da egreja

com

tributos e os seus

documentos ou mediante iiit'ormai;õesrepozesseui

com

serviços pessoacs. Kstes tributos e

cm em
ir

vigor todos os direitos reaes que estivessem
desuso. Os

estas servidões eram, provavelmente, os

que de-

membros

d'esta alç,'ada

deviam

rivavam da natureza das propriedades ecclesiasticas,

a cada frefíuezia, cliamar os liomeiísmais aii-

descobertos pelas inquirições e exigidos,

tifíos

que

n'elia residissem, e pelos seus esclarejielo

depois de terem caído
res fiscaes.

em

desuso, pelos exactoesta exi-

cimentos e

exame de documentos, quando

Não era preciso mais do que

os houvesse, decidir quaes eram verdadeiramente
os l>ens do património real, quaes os que lhe ha-

gência para suscitar conilicto entre a coroa, que

pugnava pelos seus
dições

direitos sobre a terra

outrora

viam sido roubados,

e registrar,
olliciaes

emfim, tudo

do seu património e pelo cumprimento das con-

quanto podésse servir aos

do

fisco

para
e

com que

a alienara, e o clero, que ar-

fazerem rigoi-osa cobrança das rendas da

cor('ia

gumentava com a isenção de contribuições pecuniárias e pessoaes, que alcançara

incluírem, para assim dizer, na matriz tributaria,

em

1211.

os prédios indevidamente privilegiados

e

D'este legitio resultou naturalmente outro. Jiesistíndo o clero ao

isentos. K fácil ima^'inara agitação

que produzi-

pagamento dos

tributos, o rei

ram

os

trabalhos d'esta commissão, pela que

não tinha meio de lh'os arrancar senão o de
cital-o

ainda hoje resiste, no nosso paiz, a todos os esforços dos governos para arrollarem a jiropriedad(!

perante a sua cúria, e se este tribunal

parecia suspeito aos padres, os Iribunaes ecclesiasticos

sonegada ao imposto. Os abusos eram enor-

pareciam suspeitos ao

rei,

com

sobeja

nH's:

enorme devia

ser, portanto, a irritação

dos

razão

:

suscitava-se, portanto, a questão de foro.

ânimos contra o nionarcha, que pretendia pòrllies

Ksta e a dos gravames fiscaes foram as que de

cobro.

Do mais generalisado de todos

elles

todo

em

todo inimizaram a egreja

com

o throno.

eram réus os nobres,
iiistilulos pios
:

as ordens militares c os

E como Estevão Soares, constituído advogado dos
interesses da egreja, viu todo o paiz perturbado

estes indivíduos e estas corpora-

ções (;onvencionavam-se usualmente
lãos, e,

com

os vil-

pelas inquirições, julgou-se forte, levantou a cerviz, e

mediante estipendio, estendiam as pró-

declarou guerra a Affonso, convocando a

prias íseiiçíjes ás terras tributarias dos visínhos,

assembléa de ecciesíasticos,

em

que vociferou

marcando-as com as cruzes de diversas formas que
aíVastavani d'ellas os exactores fiscaes.

como energúmeno

contra a politica e os costumes
effeitos

Também

do soberano, o que produziu os
outra parte narrámos. Affonso achou-se, pois,

que em

se tornara escandalosa a dispensa de contribuições

concedida a qualquer casal
criado o filho

em que

se houvesse

em

lucta

com

o clero e

d'um cavalleíro,
outros muitos

e provídencíára-se,

com

a iiolireza. Ond(í encontraria forças
i*

com que

baldadamente, por lhe pôr termo nas cortes de
1211.
listes e

sustental-a

Só no seu caracter firme e no apoio

modos de defraudar
lucravam, interessa-

dos ricos-homens, de que se rodeiára e a

quem
com

as rendas publicas, considerados direitos pelos
proprietários que

indemnisára dos prejuízos, que lhes podessem
causar as revisões dos títulos de propriedade,

com

elles

vam

aos senhores das honras e dos coutos, que

generosas mercês, e
tico,

dum
Com

ou doutro ecclesiase o deão

tralicavani

com

os seus privilégios, interessavam

como o bispo de Coimbra, Pedro,

aos colonos que compartiam d'elles, e portanto
as inquirições, a tentativa para restabelecer a pri-

de Lisboa, Vicente.

a burguezía não podia

contar. Affonso, apaixonado pela auctoridade real,

mitiva condição dos bens de raiz, levaram o des-

descurara o melhor meio de indirectamente a fortalecer
:

contentamento tanto aos paços fortificados como
ás choupanas, que se encostavam aos seus
ros.

alliar-se

com o

terceiro estado e dar-lhe

mu-

cohesào e força, continuaudoa desenvolver o municipalismo. Poucos foram os foraes que elle ou-

O

clero associou-se d'esta vez ás queixas da

thorgou. Nada fez para robustecer as instituições

nobreza, pois que soffria tanto
I

como

ella

com

as

municipaes generalisadas por Sancho

i,

nem

para

VOL. — 22.

170

Historia de Portugal

as ligar ao throno. Attacou-as atú em mais d'uma provisão destinada a limitar a jurisdição dos magistrados locaes, e oITendcu os burguezes, como

CAPITULO VIII
Affonso
II e

a família real
ii

oflendéra os nobres c os clérigos,

com

as con-

firmações

e

as

inquirições,

que contenderam

U reinado de Affonso
fezada e o

ditferençou-se tanto dos

com

tudo quanto dizia respeito aos alfozes dos

de seu pae e avô, quanto differiu a creança en-

concelhos e á condição dos bens de raiz, n'elles

homem

de obesidade doentia, que

comprehendidos. A

estes attaques, a estas offen-

veiu a finar-se aos 37 annos de edade, dos athletas

sas, a esta imprevidência politica, correspondeu naturalmente a burguezia, se não hoslilisando a coroa, mostrando-se indilTerente às suas con-

que, se não estrangularam serpentes que lhes

assaltassem os berços,

dotados pela natureza

como Hercules, nasceram com robustez physica para
e

tendas
n'ellas

com

as classes priveligiadas.

Que

liavia

sopesarem a lança na puerícia
elmo de

não sentirem o Chegou-se
i

que interessasse à existência do povo?
rei só

ferro pesar-lhes sobre as cãs.

Nada e nada. O </