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DEZEMBRO 2013

aproveitou os tempos livres para passear pela cidade. Reconfortados pelos livros. olhar longamente o Tejo. lugares e sensações. pessoas comuns. Como quem não quer a coisa. e assim descreveu a Europa Central com os seus escritores. ©Ulf Andersen/ Getty Images ENTREVISTA DE ANA SOUSA DIAS REVISTA LER 31 . Esta é uma entrevista feita em tom de conversa. reencontrar amigos. filosófos. irá aos temas queridos do escritor nascido em Trieste em abril de 1939 – um tempo de quase guerra – e que deseja que a Europa seja um «verdadeiro Estado». e também o Atlântico de Lisboa – na companhia de Sandokan e de Ulisses. guerreiros. pela escrita. pois claro.Claudio Magris O europeu que não pode viver sem o mar Ele é o viajante de Trieste que escreveu Danúbio. Iremos pelo mar – o Adriático. e também do maior amigo de Magris. pela leitura. quase uma flânerie. Em Lisboa no mês passado para receber o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva e apresentar o livro que a Quetzal acaba de lançar – Alfabetos –. entrever um gato numa esquina.

É esse o problema. os estrangeiros são os novos emigrados que encontro todos os dias.. Primeiro eram os italianos que tinham perseguido os eslovenos. gostaria muito de ter outros companheiros comigo em vez do meu eu. Por vezes os estrangeiros são ameaçadores. Era um problema dramático.. veja o caso concreto de Trieste. Era uma cultura entendida como estrangeira. Felizmente. estrangeiro.. Levei a minha casa dois ou três negros para lhes oferecer um almoço mas não tenho nenhuma ideia. para ficarmos no domínio da nacionalidade que não é o único domínio neste tema. Por exemplo. O que é que ele devia fazer? Respeitar a posição da religião. qualquer coisa que vai contra as convicções – o dever de um médico que deve salvar a criança. os estrangeiros. mesmo as pessoas que eram apaixonadamente italianas. em primeiro lugar. a descoberta dos que se mantêm estrangeiros apesar de tudo. Quem eram os estrangeiros para nós? Trieste é uma cidade italiana que fez parte do Império Austro-Húngaro. E há sobretudo o sentimento de que os outros não são sempre os outros mas. a visão do mundo dos outros. evidentemente. escreveu em Danúbio. Hoje. Há esta linha na Bíblia: «Sê benevolente com o estrangeiro pois tu próprio foste estrangeiro na terra do Egito. Por exemplo. Portanto. São estrangeiros e não são entendidos como ameaça nem estão completamente integrados. mesmo se a grande maioria era italiana. as misérias humanas. aceites. mas dizia-se «os italianos» para indicar os italianos.«A História prova como é difícil. que queriam conquistar a cidade. Somos atraídos pelo outro. Na origem. na maioria dos casos. independentemente de cada visão política ou religiosa. apesar de todas as dificuldades. Mas quando alguém chega de novo é mais difícil. porque o estrangeiro é o novo. Isto é. definir quem são os estrangeiros». E a literatura é também uma verificação do encontro. da dificuldade do encontro. com muitas pessoas vindas de toda a Europa que se italianizaram. nem todos os casos são tão dramáticos. que eu sou outro. e deixar morrer a criança? Ou salvar a criança? Foi o que ele fez. com uma minoria eslovena. Mas os estrangeiros. Quem eram os estrangeiros? Não eram os italianos. o perigo.. quando se diz «os estrangeiros». o outro. mas em todo o caso nem sempre simpático. estranho. Não se poderia dizer que ser estrangeiro é uma realidade que está sempre a mudar? Muitas vezes é-se estrangeiro para si mesmo. independentemente de cada visão política ou religiosa. o distanciamento. da dificuldade do encontro. os rancores. a descoberta dos que se mantêm estrangeiros apesar de tudo. É o outro? “ Sim. depois eram os eslovenos. com todos os ódios. E também não se pode dizer que os eslovenos eram estrangeiros. Essa é uma viagem.» A única possibilidade de viver esse problema é sabermos que somos estrangeiros para os outros. o que fazem. mas há problemas como este. A Europa é um território que foi cruzado por tanta gente que não se pode dizer que alguém é unicamente europeu. ou entendidos como ameaçadores. Não somos todos europeus e todos estrangeiros? Por vezes. um amigo meu. devia operar uma criança que precisava da cirurgia porque morreria sem ela. onde dormem. viver- mos e reconhecermo-nos dentro de uma certa comunidade que se habituou a viver ao longo de séculos. além de insensato e cruel. gostaria muito de ter outros companheiros comigo em vez do meu eu. com o seu nacionalismo. a descoberta de que os estrangeiros nos são mais próximos que os outros. Por vezes. ignorar o problema. E a literatura é também uma verificação do encontro. apaixonamo-nos por um outro e não por nós mesmos. o perigo. inaceitável. somos estrangeiros para nós mesmos. Essa é uma viagem. não era possível descartar. por vezes sim- 32 DEZEMBRO 2013 . no seu sentido mais profundo. Foi dramático porque era preciso escolher. o distanciamento. porque a grande maioria da cidade queria voltar à Itália. não direi detestável como dizia Pascal. mas os pais opunham-se porque eram testemunhas de jeová e não aceitavam transfusões de sangue. em certos casos. conheço-os. a aproximação. É mais fácil. a descoberta de que os estrangeiros nos são mais próximos que os outros. a aproximação. médico. pensa-se com fascínio. Há também dificuldades objetivas. Há uma certa duração de relações e de nexos. mas não sem um sentimento de inquietação. as dificuldades.

um grande escritor. E isso é um problema. somos todos conservadores cegos. com os dentes cerrados. A literatura tem um significado se nos ajuda a compreender o que são o amor. receava todas as hipóteses. a realidade é muito mais bizarra do que a ficção.. a publicar em A Misericórdia dos Mercados. com políticos e homens da cultura da Europa de Leste. mas basta enviar um representante para falar com toda a comissão durante duas semanas. mesmo uma repressão sangrenta. LUÍS FILIPE CASTRO MENDES [inédito. é preciso discutir e. em Bruxelas... para que não sejam esquecidas. Começou a ler com Emilio Salgari. REVISTA LER 33 . de cada organização que quer defender pequenas posições que são obstáculos. e continuou sempre a ler imenso. com um escritório. é a realidade mais recente. Essa é uma premissa necessária. esconder os punhos da camisa já puídos e defender. Do ponto de vista psicológico. a morte. como sempre fizeram os humilhados. que não colhe mais as flores do mal nem a luz radiosa na própria miséria? Resistir. A literatura tem um significado mas só se mantiver uma independência total. Creio que a Europa está em grandes dificuldades. Dou-lhe um exemplo concreto. que vi do outro lado da cidade há uma hora. sem choques para não provocar reações negativas. constantemente. Aceitar discutir mesmo que sem cedências em certos pontos. e fizesse conferências sobre as cordas.. e fizesse redes muito perfeitas. na minha opinião. Os grandes protestos de Berlim-Leste já tinham começado e estava presente um encenador muito envolvido nessas manifestações que falou do que se estava a passar. aos vindouros. é também uma questão social. a última. possa mudar. uma coisa é certa: o Muro vai durar ainda muitos anos. o mar. mas creio que é preciso começar a dar pequenos passos concretos que possam conduzir lentamente. Repeti-las. num encontro organizado por Jack Lang. Não acreditamos realmente que o mundo. Decorar palavras antigas. Aceitar não é apenas uma questão individual. de cada categoria. porque só se nos projetarmos para diante podemos atingir os objetivos. . aos 14 anos leu Tolstói. Ele era um dos que tinham contribuído para derrubá-lo. e disse: «Tudo é possível.. que um Estado europeu é um objetivo muito longínquo. .. que no dialeto de Verona. em França.» E dois ou três dias depois tinha caído.«truth is stranger than fiction». [PARA QUÊ POETAS EM TEMPO DE INDIGÊNCIA?] I Levantar a gola do casaco. de cada departamento. ingénua. Não podemos limitar-nos a obedecer à chamada «realidade». Não é um fim em si. Como dizia Mark Twain. onde ele nasceu. porque isso custa imenso dinheiro.. e o peixe ficasse no mar e não chegasse à mesa. Um escritor não é um pai de família que tem de ser responsável. as palavras: mas quem aguenta mais este murmúrio vão. a vida... sim. A minha região. a Friuli Venezia Giulia. como o Estado italiano. por um discurso sobre o discurso. defendeu-o aliás quando discursou na entrega do Prémio Europeu Maria Helena Vaz da Silva.. edição Assírio & Alvim programada para fevereiro de 2014. No início de novembro de 1989 eu estava em Blois. É como o caçador que para matar a lebre tem de apontar para dois metros à frente. Claro que de vez em quando há problemas que dizem respeito às relações entre a Europa e Trieste. imutável. uma irresponsabilidade total. irónica. Creio na necessidade de uma utopia razoável. Porque o que nós consideramos realidade. a utopia é uma necessidade muito realista. política. tal como os outros. Fiquei chocado quando soube. claro. ou o francês. Escreveu que a literatura é «o único território onde podemos procurar a nossa identidade quando ela nos escapou». Defende «um verdadeiro Estado europeu». tem uma representação permanente. por vezes desagradável. todos nós. Salgari. é preciso recusar essa recusa. Eu próprio não podia acreditar.. estava habituado.] Infelizmente temos a impressão de que a União Europeia está paralisada pela burocracia. . Como se a rede fosse o objetivo e não o meio.. Ele estava muito emocionado. significa «salgueiro». Acha mesmo que é possível criá-lo? Não é uma utopia? Uma utopia não é necessariamente uma coisa abstrata. é como não poder imaginar que apareça aqui o rio Tejo. Infelizmente. Chamamos a isso em Itália «elefantíase». Para mim. ou o português. Com toda a burocracia que caracteriza a Europa de hoje? Gosto imenso da literatura. isso é evidente. a transferir certos aspetos da soberania dos Estados para um Estado europeu. Mas a História não está sempre a provar-nos o contrário? como se o pescador preparasse muito bem as redes. que era o ministro francês da Cultura. é uma pessoa que faz o que quer. É um enorme erro porque obedece ao espírito conservador de cada país. Porque se uma cultura recusa às mulheres o direito de voto. um verdadeiro Estado. A literatura é o território a que pertence? Sim.pático. tal como estamos habituados a vivê-lo.

Um grande poeta polaco. diz que aqui fica a fronteira. o mar está ali. Mas tenho a certeza de que sem certos azuis do oceano de Gauguin eu não teria criado certas coisas.. todas as manhãs. é uma questão fundamental para mim. Como quando lê um livro que lhe agrada? Também se abandona? 34 DEZEMBRO 2013 . novembro de 2013] Não. Em Trieste. Esta relação é realmente imediata. são acondicionadas como mercadorias numa viatura com vocação de furgoneta. Em primeiro lugar. mas eu não tenho a capacidade de falar dela. a racionalidade necessária. se viver em Génova. enquanto espécie humana. O mar está também na história da minha vida das paisagens do amor. vimos do mar. a língua. as artes plásticas. isto é. A. Nós. a razão. O mar parece-me muito importante na sua escrita. o caos podem. de analisá-la. Não. é realmente abandonar-se em grandes braços amorosos. a Eros. o que é o mar? Desculpe.. encontrar-se com [FECHOU A ESCOLA EM GRIJÓ] Ao Frederico Amaral Neves Dantes ouviam-se as crianças a caminho da escola e eram como pássaros de som nas manhãs de Grijó. As minhas primeiras recordações são de caminhar à beira-mar com os meus amigos conversando sobre os primeiros encantamentos amorosos. tal como escrevo em italiano e não em português e não penso que o italiano seja melhor do que o português. preciso de fazer não digo uma viagem mas. E eu não sou capaz de fazer isso com outras artes. É por isso que o mar está indissoluvelmente ligado ao amor. não da luta para dominá-lo. Evidentemente não penso que a literatura seja mais importante do que a música ou as belas-artes. Não é bem a mesma coisa. Sim. a escrita noturna. [Czeslaw] Milosz disse que os poetas muitas vezes têm um coração frio. atiro-me ao mar. Para ir ao mar. mas ao contrário. Perante certas coisas que acontecem. Por isso perguntei se a literatura é o seu território. Coloquei esta questão porque tenho a sensação de que nunca escreve sobre a música. A minha mãe gostava muito do mar e levava-me até lá quando eu era muito pequeno. por isso imagino que para si é muito importante. vou ao mar.M.Não é necessariamente um compromisso. É uma questão de pertença. A literatura é o domínio onde a fantasia. Porque em 10 minutos estou no mar. o mar da tempestade. Sem luta. Vão aprender em terra estranha o que os seus pais e os pais dos seus pais aprenderam em Grijó. O mar é interessante porque é essencialmente duas coisas. que é uma cidade magnífica e tem um mar lindo. a irracionalidade. e quando fala de Lisboa fala do mar. uma certa ordem que devemos dar mesmo à desordem e ao caos. de Stevenson. certas felicidades que são mais raras. não. é verdade. era inconcebível o amor sem o mar. nas águas da mãe onde somos feitos. É o mar da posição horizontal. se escrevem um poema pela morte de uma criança corre-se o risco de eles darem mais atenção à harmonia das sílabas e dos versos do que ao sofrimento da criança. Nado muito mas isso não tem nada a ver com o desporto. o mar de Conrad. mas a língua italiana é o meu instrumento e infelizmente a língua portuguesa não. II Agora as crianças. Trieste é uma pequena cidade e portanto a relação com o mar é muito fácil. Como grande amante da literatura de aventuras isso significa muito. continha à distância o deserto que a ronda como a alcateia ronda uma rês tresmalhada. PIRES CABRAL [Gaveta do Fundo. parece uma pergunta de algibeira. Isto é. mas sim o sentimento do enorme mistério da criatividade da vida. mesmo a maior literatura é qualquer coisa de elementar. Para mim. Mas para mim o mar é outra coisa. Não eram muitas. se eu tiver meia hora no meio da minha vida infernal de trabalho. desse grande abandono nos braços da vida. E isso para evitar a condescendência da literatura. É o mar da felicidade. edição Tinta-da-china. no meu caso. Para mim. a literatura é contar uma coisa. Tem o seu mar. Mas é-me mais difícil falar diretamente desse oceano azul. sim. que é o Adriático de Trieste. Há o mar como grande prova. mas as vozes joviais davam sinais de que a aldeia resistia. eu oiço música e talvez a emoção que ela me dá seja mais profunda do que a da literatura. É o meu território. Somos feitos de água em 70 por cento. de uma forma indireta. o mar dos grandes capitães de Conrad como símbolos da luta e da lealdade. É uma questão de pertença? Sim. muito próxima. claro. para se abandonar. não é uma decisão – «agora vou ao mar». aprendemos a nadar antes de andar. certos sofrimentos. livre. sim. Lembram judeus amontoados em vagões jota a caminho de algures. Para si. porque apesar de tudo pode traduzir-se um texto e noutras artes não há essa transposição. isto é.

O abandono à música. é como. Aí é uma escrita. A História Não Acabou. Mas nesse mergulho uma pessoa pode afogar-se. na qual não sou realmente mestre do que escrevo. Entretanto. Tem uma disciplina enorme para escrever há tantos anos para o Corriere della Sera. a última. que não estão incluídas neste livro mas estão por exemplo noutro diferente.. todos nós. Se a ideia.. é a realidade mais recente. imutável. A perturbação. bebemos um café. o caos devem estar desde logo na linguagem. um desafio de boxe. sobre um tema. ou o Danúbio. muito professoral. O romance contemporâneo é assim? Sim. sim ou não. e depois começo um controlo. é como numa relação sentimental. protestar. Porque o que nós consideramos realidade. Quando escrevo intervenções ético-políticas. com um objetivo específico? São momentos diferentes. irónica. é isso. telefonamos um ao outro. de ver os passos em falso. muito penosa. mas a música não é destruída. fazem-me pensar.. É um pouco a linguagem do Evangelho – sim. Há sempre várias vozes. então é como o baile de Natacha... Surgem quando tenho o sentimento súbito de dever defender qualquer coisa. escrever. então há uma fase selvagem em que escrevo sem atenção especial ao estilo. . por vezes escrevo em 20 minutos e envio-o logo. aí são como furores. é como um ataque. estilhaçada. o sujeito deve ser idêntico ao estilo do romance. pelo menos do ponto de vista subjetivo. uma correção muito pedante. que precisa de muita investigação. numa narração. transtornada. que exige muito conhecimento e muitos dados. depende do tema. Se o tema começa a tomar forma. muito aborrecida. A história de Às cegas. espero. É uma escrita muito diferente. não – diante de uma injustiça. Há talvez três momentos na minha escrita. a utopia é uma necessidade muito realista. outras vezes não. já passaram 18 anos a escrever. entre tantas outras. Se sinto que o livro nasceu. a deambular sem direção com isso. Aí a escrita é muito diferente. onde os valores nos quais continuo a acreditar se misturam na história de uma pessoa – mesmo um assassino. é o abandono. a escrita é ambígua. escrever. Mas quando o livro é realmente uma experiência. destruir. por- REVISTA LER 35 . há uma relação profissional. e não vou dizer que não é possível fazer romances. não é uma decisão. Isso não tem nada contra a capacidade profissional de julgar. Não há receitas.. o projeto não morre nesse momento inicial. muito fria. Do ponto de vista psicológico. espero sempre. Quando conto a história de uma vida. Não podemos limitar-nos a obedecer à chamada «realidade». denunciar. Li que quando escreveu Às cegas ensaiou diferentes caminhos. O livro Alfabetos inclui textos escritos para o jornal nos últimos 10 anos. esmagada. mas a maior parte sim. Creio na necessidade de uma utopia razoável. é torrencial? É torrencial. Nem todos. encontramo-nos. Não há táticas. ou um rosto. é preciso compreendê-lo. e claro que tem a técnica. Porque num romance. Se a ideia. Por vezes é como uma intuição.“ Para mim. Ou então é uma coisa diferente. somos todos conservadores cegos. o encantamento de Schubert ou de Mahler não se opõem à técnica necessária para compor e interpretar a música. qualquer coisa. há textos mais longos que não são do Corriere. não para o justificar. Claro que fui toda a vida professor de Literatura. uma certa capacidade de analisar. Tinha começado a escrever essa história como um romance linear e não funcionava. uma sugestão que pode ser uma notícia lida no jornal ou uma pequena história portuguesa. possa mudar. não é a história de uma loucura. selvagem de uma forma diferente. Estamos ainda num ponto em que o mundo à nossa volta é tão perturbado. Mas o momento decisivo é antes. me agarram. também se abandona ou tem muitas regras? Creio que sim. fiz outras coisas. por vezes isso continua. tal como estamos habituados a vivê-lo. premente. É aí que um livro nasce ou não. mas procurá-lo atirando-nos para o vórtice. A grande diferença é que quando escrevo sobre escritores. Quando escreve. De outro modo é uma conferência tranquila sobre uma demência. Não se pode contar com calma uma história que é completamente quebrada. como um músico que toca. um episódio. que é preciso procurá-lo. perdemos de tal forma o fio condutor que mantém o mundo agregado numa unidade. o projeto. abandono-me. a desordem. Então começo a pensar. Não acreditamos realmente que o mundo. começamos a ver a pessoa. então agarro-o e talvez comece a trabalhar.

É por isso que o mar está indissoluvelmente ligado ao amor. era inconcebível o amor sem o mar. o mar dos grandes capitães de Conrad como símbolos da luta e da lealdade. Como grande amante da literatura de aventuras isso significa muito. Há o mar como grande prova. mas ao contrário. isto é.“ O mar é interessante porque é essencialmente duas coisas. Mas para mim o mar é outra coisa. Nado muito mas isso não tem nada a ver com o desporto. o mar da tempestade. O mar está também na história da minha vida das paisagens do amor. para se abandonar. desse grande abandono nos braços da vida. É o mar da posição horizontal. não da luta para dominá-lo. não. 36 DEZEMBRO 2013 . Sem luta. de Stevenson. o mar de Conrad. a Eros. é realmente abandonar-se em grandes braços amorosos. É o mar da felicidade. Para mim.

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. não se conseguia distinguir o Danúbio do prado. mas no início não sabia se ia escrever um livro de reportagens de viagens. qual é o verdadeiro tema... e fiz muitas enquanto jornalista. tínhamos a sensação de estar em harmonia com o fluir da vida e do rio. ou. A viagem começou aí e eu não tinha nenhuma ideia sobre que livro estava a fazer.. culpado. a viagem é sobretudo uma deambulação? Sim. Absolutamente. e é completamente diferente de uma deslocação. claro. então? Quatro anos. Uma reportagem sobre um país governado pela direita não é a mesma coisa que um país governado pela esquerda anos mais tarde. Escreveu Danúbio antes da queda do Muro de Berlim. etc. é um eu que é uma espécie de roupeiro onde quase todas as roupas penduradas são minhas. que não é a justificação literária. ou de não as compreender. Gastei quase todas as vidas. enquanto narrativa. É o Danúbio porque a seta o diz? Então a Marisa disse: «E se nós deambulássemos até ao mar Negro?» Foi essa a ideia. num dia magnífico de setembro em que estávamos a fazer uma viagem com amigos à Eslováquia. porque aí o Danúbio é a 38 DEZEMBRO 2013 . A viagem é isso. impossíveis de aplicar na minha rua. Falemos do ponto de vista da compreensão desses países danubianos que atravessei. a minha mulher. Não quero colocar-me essa questão. não só porque não fiz só uma viagem desde a nascente que não existe. estar apaixonado. vemos um gato que nos faz mudar de direção. é esta a última. Vir de Trieste a Lisboa para apresentar um livro não é uma viagem. porque cada livro tem o seu momento em que tem a sua verdade e a sua necessidade e a sua justificação. Se fizesse agora essa viagem. que também não são o Danúbio enquanto livro. Sim. Sim. Pode descobrir-se alguma coisa inesperada e aí começa a verdadeira viagem que pode ser divertida. durante quanto tempo? [12] III Riscado há muito. Na fronteira com a Eslováquia. que morreu há 17 anos. MARGARIDA FERRA [Sorte de Principiante. mas se está envolvido na história de uma vida –. que são assim. Para si. Não se pode responder.. como quase todas as ideias. Viagem pode ser um passeio. mas há intervenções políticas que são realmente um combate. E naquele momento «museu» era tão estranho. aí a escrita é instintivamente diferente. a situação mudou completamente. as pessoas também. é cumprir um objetivo. foi da Marisa. o sentimento de estar próximo ou longe. É um pouco como dizer sobre um poema de amor sobre uma pessoa amada escrito há 290 anos: «Escrevê-lo-ia agora?» Seria um outro poema mas não posso responder como. porque o livro tem muita informação concreta. mas não é isso. novembro de 2013. mudada por coisas que se acrescentam. sobretudo narrativas de viagens ou ensaios literários. talvez te sirvam pela manhã. Não. Danúbio não é uma reportagem.. porque cada afirmação é corrigida. Mas também lá está? É uma flânerie total. É uma total flânerie e no entanto tem um objetivo. como é o caso. Se fosse uma reportagem. é uma deambulação. estou longe desse dia de sorte para principiantes. E de repente uma seta: «Museu do Danúbio». sou eu mas não o eu direto dos artigos que escrevo para protestar contra isto ou aquilo. Isso acontece-me sempre: só depois de ter escrito um terço de um texto sei realmente que texto estou a escrever. Falou de viagens. sobre a flânerie.que um assassínio é um assassínio ao qual é preciso dizer «não. Edição & etc. que não é idêntico ao título. via-se o Danúbio a brilhar.. a relação também já é diferente. há imensa tática. ou um verdadeiro romance. Há artigos no Corriere della Sera. um combate bom.] Ele morre no fim e eu ainda aqui estou. Se fosse a descrição da pessoa.. para trás e para a frente. das minhas fraquezas.. . Perdi sempre casacos vários no mesmo cabide e qualquer benefício dos iniciados. um romance submerso. Por vezes estamos fascinados por uma árvore mas não escrevemos um artigo de botânica. Danúbio é uma viagem. A primeira ideia. esse livro seria muito diferente? A paisagem é a mesma. inquietante... Como refrões repito números desfocados em medalhas de plástico colorido e velhas lições de autodefesa. pode ter-se a impressão de que se compreende as coisas. Era como se dois amantes num banco público descobrissem que faziam parte de uma exposição sobre o amor nos bancos públicos.. Mas ia tomando notas. onde o eu não é idêntico a mim. dou-lhe muitas das minhas manias. Li declarações que fez sobre esse tema. os cabelos ficaram brancos ou grisalhos. ou de ter o coração árido. foram idas e voltas.

Guimarães Rosa.. Ah!. a morte de Diadorim. Conhece o Brasil? Em italiano. Na minha opinião. não reparamos nos pormenores. Era um pouco desaparecer no mar. dizer-me respeito. fui lá duas vezes. e creio que ele não o faz por razões morais. um contacto muito superficial. a mulher negra e Diadorim. Mas no que diz respeito àquele mundo. claro. mas creio que é preciso começar a dar pequenos passos concretos que possam conduzir lentamente.. de mar. Mas havia personagens de livros de aventuras… . descer aos estratos do tempo. ah. só há um pequeno erro na sua obra-prima absoluta. porque é uma mestiçagem diferente da que tinha visto nos Estados Unidos.“ Creio que a Europa está em grandes dificuldades. Mas Lisboa tinha qualquer coisa da variedade do mundo numa cidade ao mesmo tempo absolutamente europeia mas onde tinha a sensação de encontrar muitas coisas que não eram europeias no sentimento que eu tinha da minha Europa. Era esse o interesse. REVISTA LER 39 . do Danúbio? A primeira vez que vi Lisboa. Foi a única vez em que tive a impressão – não tenho nada contra. a sensação que tenho deste país é de uma varanda sobre o oceano.. O livro seria outra coisa. claro. teria. no estilo. E esta é uma história absolutamente pura e casta de um amor homossexual. sim. sobre o vazio. o português Eanes. é uma coisa de integração e de não-integração. Conheço muito bem alguns dos seus autores. Foi o primeiro contacto que teve com Portugal e as coisas portuguesas? Sim. conhecer. teria escrito outra coisa.. não é essa a questão – que é uma coisa que podia. ele fá-lo pelo modelo dos romances de cavalaria. ainda não foi reconhecida a sua grandeza. a experiência oceânica. Mas quando li Os Lusíadas para mim era uma ficção. isto é. conheceu José Saramago. em Salgari.. Mas ali apercebime de que nos apaixonamos por uma pessoa. seria outra história. Se não fosse assim. tinha lido muito... Comprou Os Lusíadas quando tinha 14 anos? Exatamente. Temos a impressão de que a União Europeia está paralisada pela burocracia. Eu tinha lido Proust. De certa maneira. Tudo isso e também um livro de expetativas. o que me permitiu ver muitas coisas aparentemente pouco importantes.. No fim. a mestiçagem? Babel contemporânea com todas as hipóteses e todas as ameaças.. ... Atravessar Lisboa durante o Terramoto ou agora são coisas completamente diferentes. não por um sexo. a transferir certos aspetos da soberania dos Estados para um Estado europeu. Já tinha visto Londres. mas eram sempre coisas que não tinham nada a ver comigo. à exceção da Roménia. O espírito de todos os homens desaparecidos. a revolução. de viagem. Se houver um incêndio. evidentemente. É a mistura. havia uma certa tranquilidade. Para si o que representa Portugal hoje? Sei que leu a História Trágico-Marítima e Fernando Pessoa.. nada mais. de mitologia? Conheço muito superficialmente. creio que tive sorte por viajar nesses países num tempo em que. há 30 anos. a queda. tinha 14 anos. visto apenas as coisas fundamentais. o Grande Sertão: Veredas e também os outros como o Corpo de Baile.. mas é outra coisa: em Londres senti que é uma cidade muito importante. o centro do mundo onde toda a gente vai parar. por exemplo.. talvez. Não se pode vaguear quando há uma revolução. Isso deu-me a possibilidade de vaguear. com aspetos políticos. o herói número dois de Sandokan.. sobre uma abertura.. É a capacidade de inventar uma linguagem sem a tornar hermética. mas sobretudo para mim era a abertura pelo mar sobre horizontes desconhecidos. Há lá muitos escritores e há sobretudo um que. Aqui. sem choques para não provocar reações negativas. é inacreditável. de me afastar da estrada principal. essa abertura. que um Estado europeu é um objetivo muito longínquo. Era ao mesmo tempo um livro de aventuras. senti que era a primeira cidade europeia com um carácter que não é só europeu. Portugal é uma Europa muito diferente de Trieste. As mitologias são muito importantes. Ele tem três possibilidades de amor: a mulher dele. uma história bem conhecida. encontrar certos aspetos profundos da realidade danubiana que podem ajudar-nos a compreender também a transformação que se passou depois. Se tivesse feito a viagem em 1989. com os traços do império. para esconder. como se regressasse à fonte da linguagem. vemos apenas o incêndio. é qualquer coisa.

Escrevi muitas vezes para jornais alemães como o Südeutsche Zeitung. por exemplo que é húngaro e deixou a Hungria quando tinha 18 anos. Se lemos uma coisa não lemos outra.. porque é uma mestiçagem diferente da que tinha visto nos Estados Unidos. claro. a literatura mundial. Tem alguém que o ajude a escrever as cartas? Depende. artigos. Há escritores que escrevem na língua do país para onde foram viver. Não sei se é um limite ou uma riqueza. mas é um grande escritor. em 1956. por vezes são muito antigos. tratou um assunto muito 40 DEZEMBRO 2013 . Mas para mim a língua da emoção e da ordem que se dá a essa emoção é o italiano. e que hoje se tornou um escritor italiano. os mais jovens? Mas Lisboa tinha qualquer coisa da variedade do mundo numa cidade ao mesmo tempo absolutamente europeia mas onde tinha a sensação de encontrar muitas coisas que não eram europeias no sentimento que eu tinha da minha Europa. claro. Não posso não responder a um senhor. Exatamente. Conhece muito bem a literatura europeia. essa abertura. Era esse o interesse. eu respondia. Também releio mas sou muito curioso e portanto leio muito. Creio que ele já morreu. por exemplo.. Houve coisas de que gostei menos. a experiência oceânica. porque não teria podido ler em português. explicando porque não posso ler. de a apreender. imagine. estava atualizado. os cheiros sinto-os em italiano. Por exemplo. Mas tento acompanhar. As cartas começavam sempre por «Senhor professor. Quando ensinava. Mas não é possível recusar. me diz «Boa-tarde». Por vezes começo a escrever com a sintaxe italiana com muitas palavras que são idealmente palavras alemãs. quatro ou cinco manuscritos que me enviam. mesmo que seja para lhe dizer que não posso ler o seu manuscrito. Mas é um problema. Responde a todas as cartas que recebe? Sim. Mas esse é um enorme trabalho: as solicitações que temos e que somos obrigados a acompanhar. Aqui. descobri por acaso [Édouard] Glissant. Mas as cores. ao escrever o nome. mas havia um Tampellini que me escrevia de uma clínica psiquiátrica do Piemonte. O meu amigo Giorgio Pressburger. Mas agora leio aquilo que tenho vontade de ler. a minha maneira de olhá-la. Quando [Elias] Canetti ou [Isaac Bashevis] Singer me escreviam. Mas a minha sintaxe. era a minha profissão e eu sou muito profissional e muito honesto. de a pôr em ordem está ligada absolutamente à língua italiana. seria muito difícil ler essa obra. pensava no livro 24 horas por dia. mas conhece os autores contemporâneos. dito a uma pessoa algumas cartas que não são pessoais. mas como escrever não são só palavras mas sim frases. Como não sei escrever à máquina. o italiano e o alemão. E mesmo na filosofia tenho muito marcado o pensamento alemão.Leu Guimarães Rosa em italiano ou em português? Li em italiano e depois tentei ler bastantes páginas com as duas versões abertas. o escritor da Martinica. respondo a todos. sem nenhum problema. há o terrível problema do tempo. Nunca poderia escrever um texto literário em alemão. Não posso dizer «Boa-tarde» só a Saramago e não a esse senhor. críticas literárias em alemão. Recebo regularmente. É um problema muito interessante. A minha pátria é a língua italiana. Por vezes são muito jovens. já escrevi ensaios. Respondo a todos e é um trabalho cansativo e talvez seja falso porque ao responder. talvez esteja a dar esperanças. precipitei-me sobre a sua obra. e tenho grandes lacunas. No entanto. E não tem tempo para ler. É como se alguém me saúda. e que o mesmo aconteceria se recebesse Dostoiévski. sempre. Porém. Conheço a literatura alemã melhor do que a italiana porque a ensinei a vida toda. é uma coisa de integração e de não-integração. uma história bem conhecida. Trabalho muito. Mas um ensaio poderia? “ Sim. isto é. o meu rio é o italiano. Pertence a duas línguas. no seu artigo publicado em. Para mim o azul é mais blau do que blu. a minha cultura é mais alemã. nunca a um livro. E há os casos do Joseph Conrad e de outros. Mas não sou capaz de dividir a humanidade entre pessoas a quem respondo e pessoas a quem não respondo. Por exemplo. Pensei que poderia preferir apenas reler livros preferidos. Era completamente louco mas muito tranquilo e reagia a cada artigo. para escrever o Danúbio documentei-me. Há muitos loucos e loucas e esse é um outro capítulo.

li com muito interesse». arcadas. nestes últimos dias da sua vida. Mas no fim disse-me: «Sabes. É muito difícil pensar nisso. mesmo sabendo que a matéria era boa e que o professor era muito mais inteligente do que nós. é um grande advogado. A amizade desempenha um grande papel na minha vida. por exemplo. Dá muita importância à amizade. Vive em Trieste. uma cidade mais impessoal onde me seria mais fácil desaparecer. Vou ter de renunciar às viagens porque são interrupções. E continuamos a viver.» E o meu amigo disse: «Sabe. e deparou com o retrato do Mazzini. para ele poder dormir. É um momento. Já esteve diante da morte.» Isso é uma coisa que li na porta da Catedral de Linz.. Um vive em Trieste e fez o curso de Direito com uma tese sobre o pensamento político de Fernando Pessoa. Felizmente ficaste-te pelas palavras. No Danúbio cita uma frase: «Só quando podes voltar a rir perdoaste deveras. Talvez eu fosse um cobarde se a morte chegasse daqui a 10 minutos. naturalmente. Está a escrever um novo livro? De tudo.» Não se ultrapassa. Escondemo-los debaixo dos bancos e fingíamos que olhávamos para lá. mas é demasiado fácil dizê-lo. demasiado católico! O outro filho vive em Paris. mas depois começaste a dar ordens como se fosses o maior cirurgião. Chamam-nos «o triunvirato» porque eu escrevo e eles também escrevem. e depois havia o «Feliz Natal» e coisas assim. Temos uma relação muito intensa. à beira de perder alguém que lhe é muito querido. O meu maior amigo – somos amigos há 66 anos – está muito doente. estudámos muito mas também nos divertimos. menos importante do que ter filhos ou apaixonarmo-nos. o profissionalismo começa no exercício. percebe-se nos seus livros. pensando que ia encontrar as traduções. E eu disse-lhe: «Sei que é proibido. a aproximar-nos de novo. senhor presidente. Pensei que talvez fosse eu a única janela que ele tinha para o mundo. Mas é uma história que não acabou. Traduzia imediatamente Tucídides do grego. mas isto dá-me consolo. em recusar convites? Por vezes é uma situação ambígua.» Não é mau rir assim no limiar da vida. Penso mais neles do que em mim. até que o presidente da comissão se precipitou sobre mim. Continuamos a viver com as pessoas amadas. Ríamo-nos de assuntos. É preciso que a morte não seja demasiado prepotente. pensa nisso? Penso nisso. é uma perda idêntica à mutilação completa de um braço. Rimo-nos. não dizemos que ele era um poeta. é professor de Economia. Ele não me disse nada. a convidá-las para jantar. Menos importante do que um casamento significativo. que copiávamos. de disparates. E uma vez ele escreveu-me: «Devíamos publicar ao nosso epistolário. tenho dois filhos. e em dialeto de Trieste. Fomos fazer um exame muito importante e levávamos dois retratos: ele do Garibaldi e eu de Mazzini. de 47 e 44 anos. Tem filhos? Sim. no cemitério de Staglieno. Agarrámo-lo e aquilo provocava-lhe imensas dores. ou então a razão do convite é uma causa – uma organização de imigrados. e talvez isso seja dar-me muita importância. Se perco um braço. Na escola aprendi uma coisa muito importante: a rir-me do que continuo a respeitar e considero mais importante do que eu. porque era um delírio. sobretudo numa cidade pequena como Trieste onde uma pessoa é demasiado bombardeada. E escrevia 10 ou 20 páginas num italiano fantástico mas sobre o vazio. de matérias. Um dia destes ele estava cheio de dores. um grande professor de Direito. porque me convidam para um sítio onde tenho um amigo. Confesso que o pensamento que me vem é sobretudo no que diz respeito aos meus filhos. tem um cancro e está muito mal. por vezes é difícil. Isso não é um excesso.» Nunca dizia se o tinha tratado bem ou mal. Não tenho a menor vocação para a autotortura ou para o sacrifício. Todavia. Creio que não tenho medo. Tem dificuldade em dizer «não». Mas sim.» Ter-me ia destruído. Respondia-lhe com cartas muito banais: «Caro Tampellini. e o amor partilhado. No início estavas muito dócil perante as sugestões da enfermeira. sim. era preciso ser mais duro. Respondia-lhe sempre? Fala de quê quando está com esse amigo? A cada três ou quatro cartas. noutros domínios. lúgubre.. bolas de sabão. e tentamos viver o melhor possível. seria muito melhor viver em Milão ou em Roma. a apagar-nos. A morte o que é? Um momento da vida.importante. Pessoa era contra Salazar porque ele era demasiado moderado. REVISTA LER 41 . e eu ajudei a enfermeira a mudá-lo para a cama. é preciso pô-la no seu lugar. acreditar que sou necessário. para lhe dar a sensação de ser alguém. mas é muito fácil dizê-lo quando não estamos diretamente ameaçados. Tem medo da sua morte. Faço conferências e isso é um outro tipo de escrita. Eu era bom aluno mas ele era um génio. Quando fizemos o bacharelato. porque estavas quase a deixar-me cair no chão. porque o cancro está espalhado por todo o corpo e os ossos estão afetados. de filosofia. isso é um pouco abstrato. tenho o outro. enquanto estamos vivos a história importante para nós é sobretudo o amor. mas não o mais importante. Tem tempo para a sua vida pessoal? Sim. a afastar-nos. estou a fazer pesquisa. somos capazes de rir. Ainda agora. Existe um certo presente eterno. Desse ponto de vista. a fazer-lhes a corte. Desse ponto de vista. Como é que se ultrapassa isso? Sim. a força da personalidade dele ajuda a utilizar melhor os aoristos. Não posso ir a Lisboa receber um prémio e recusar outros convites. Dizemos que Shakespeare é um poeta. que era muito difícil naquela altura. De política. Espero que não. a outra mão. triste. de professores.