CAPÍ TULO 3 SOLUÇÕES APROXIMATIVAS

1. A Formulação Fraca e o Princípio dos Trabalhos Virtuais

Conforme visto nos capítulos anteriores, a forma fraca de um problema de
valor de contorno pode ser obtida mediante diferentes metodologias.
Independente do procedimento adotado para obtê-la, a forma fraca se
caracteriza pela igualdade das ordens de derivadas sobre as funções-teste e
peso, e pela incorporação da condição de contorno em forças.

Por outro lado, uma interpretação bastante importante que se pode dar à forma
fraca resulta de sua associação com o Princípio dos Trabalhos Virtuais.

No sentido de justificar essa interpretação, retoma-se, inicialmente, o exemplo
da barra sob carregamento axial, para o qual a forma fraca apresenta a
seguinte redação:

( )
L L
o o
ES u w d x q wd x Pw L ' ' = +
} }
(1)

Apesar de u e w apresentarem um mesmo grau de regularidade, a função-teste
deve ‘a priori’ verificar as condições de contorno em deslocamento e a
função-peso deve ser homogênea nessas condições. Entretanto, é
perfeitamente possível associar de modo mais direto as duas funções,
relacionando w com a classe de funções adotada para aproximar u. Uma forma
de fazer isto, preservando a condição de homogeneidade, consiste em definir a
função-peso da seguinte maneira:

1 2
( ) ( ) ( ) w x u x u x = ÷ (2)

Na relação anterior u
1
e u
2
são funções-teste com boa capacidade de
representação da solução e que, portanto, possuem regularidade necessária e
verificam as condições de contorno essenciais. Claramente, a função-peso
assim definida é homogênea nas condições de contorno essenciais.

Por outro lado, como no exemplo em questão u(x) representa um campo de
deslocamentos, então, diz-se que w(x) representa um campo de deslocamentos
virtuais. Uma maneira de chamar a atenção para este significado é adotar a
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
46
notação w o quando se referenciar àquele campo. Segue que as integrais que
aparecem no lado direito da igualdade em (1) passam a ter o significado de
trabalho virtual das forças externas. Por outro lado, considerando-se que
Eu o ' = e u' = c , pode-se dar à w' o sentido de deformação, mais
especificamente: deformação virtual (oc ). Portanto, introduzindo ainda as
definições:
S
S dS =
}
e dV dS dx = , a primeira integral da relação (1) passa a
ser entendida como o trabalho virtual das tensões em todo o volume da barra,
ou trabalho virtual interno.

Assim sendo, a relação (1) pode ser reescrita na forma:

) L ( w P x d w q V d
V
L
o
o o c o o + =
} }
(3)

Naturalmente a relação anterior deve ser válida para qualquer que seja w o
compatível com c o (isto é: w oc o ' = ) e homogênea nas condições de
contorno essenciais. Vale lembrar, neste ponto, o que estabelece, em linhas
gerais, o enunciado do P.T.V.: um sólido deformável está em equilíbrio,
considerando-se a distribuição de tensões internas e forças externas
aplicadas, se o trabalho virtual interno for igual ao trabalho virtual externo
para todo campo imposto de deslocamentos virtuais admissíveis (homogêneos
nas condições de contorno essenciais) e compatíveis (que geram deformações
virtuais).

Resulta que a (1) exprime o Princípio dos Trabalhos Virtuais (P.T.V.),
particularizado para o problema da barra sob força axial estudado.

A relação do P.T.V. dada pela (3) pode ser estendida de forma imediata para o
caso das barras em flexão, uma vez que a hipótese de indeformabilidade das
seções se mantém e o problema também pode ser tratado em forma
unidimensional.

Neste caso, admitindo-se que a função de aproximação dos deslocamentos
seja representada por ) (x v , de acordo com a teoria clássica de flexão a relação
de compatibilidade escreve-se: v y ' ' ÷ = c ; por analogia a deformação virtual
pode ser escrita como: v y ' ' ÷ = o c o . Levando-se em conta que a relação
constitutiva é dada por: c o E = , e sendo p(x) a força externa aplicada de
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
47
natureza distribuída ao longo do comprimento da viga, resulta que a (3)
assume a forma:

} }
=
}
' ' ' '
L
o
L
o S
2
x d v p x d S d v v y E o o (4)

sendo que, agora, v o é um campo de deslocamentos virtuais compatíveis e
homogêneos nas condições de contorno essenciais. Reconhecendo que na
integração na área os termos E, v'' e v o '' são constantes e que
2
S
y d S
}

representa o momento de inércia da seção, a relação anterior assume a forma:

( )
L L
o o
E I v v d x p vd x w x o o '' '' = ¬
} }
(4 a)

Conclui-se que o P.T.V. proporciona diretamente a forma fraca dos problemas
de valor de contorno, constituindo-se em alternativa geral que dispensa o
conhecimento da equação diferencial do problema específico em análise, ou
mesmo a aplicação de princípios variacionais. Nota-se, ainda, que numa única
relação podem ser contempladas as condições de equilíbrio, de
compatibilidade e a relação constitutiva.

2. Formas lineares e formas bilineares

Em termos de estrutura matemática, de uma maneira geral todas as
representações variacionais do P.V.C. (que incluem aquela que penaliza a
equação diferencial e a forma fraca, dada pelo P.T.V. ou pelo método da
energia) envolvem operadores (formas) lineares e bilineares. No sentido de
associar esses operadores com cada uma das integrais que aparecem em dada
representação variacional é preciso antes conceituá-los, retomando definições
conhecidas da Álgebra Linear.

Inicialmente, uma aplicação ( ) F w , que faz corresponder à w um escalar, é
dita uma forma linear sobre w se:

-
1 2 1 2
( ) ( ) ( )
( ) ( )
F w w F w F w
F w F w o o
+ = +
=
(5a,b)

ou, de modo equivalente,
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
48

-
1 2 1 2
( ) ( ) ( ) F w w F w F w o | o | + = + (6)

J á ( , ) B u w é uma forma bilinear se for linear em cada um dos argumentos:

-
1 2 1 2
1 2 1 2
( , ) ( , ) ( , )
( , ) ( , ) ( , )
( , ) ( , )
( , ) ( , )
B u w w B u w B u w
B u u w B u w B u w
B u w B u w
B u w B u w
o o
| |
+ = +
+ = +
=
=
(7a,b,c,d)

Voltando, por um momento, à expressão (1), por exemplo, nota-se que ela
inclui uma forma bilinear, na parcela à esquerda da igualdade, e uma forma
linear, composta pelas integrais à direita da igualdade. Assim sendo, ao
P.T.V., no caso, pode-se dar a seguinte representação:

( ) ( ) , B u w F w = (8)

aonde u representa um campo de funções com continuidade compatível com a
forma bilinear e que verifica as condições de contorno essenciais (em
deslocamentos) do problema. Por sua vez, w representa um campo de
deslocamentos virtuais compatíveis com as formas bilinear e linear e que são
homogêneos nas condições de contorno essenciais.

A forma variacional que penaliza diretamente a equação diferencial do P.V.C.
também é dada pela composição de uma forma bilinear e de uma forma linear.
De fato, reproduzindo-se a expressão (29) do capítulo I, segue que:

( )
0
L L
o
ES u wdx q wdx '' =
} }
(9)

ou ainda,

( ) ( ) , B u w F w = (10)

Nesta representação do problema, u representa um campo de funções com
condições de continuidade compatíveis com a forma bilinear e que verificam
as condições de contorno (todas) do problema. Por sua vez, w representa um
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
49
campo de funções com regularidade compatível com a forma bilinear e
homogêneas nas condições de contorno cinemáticas.

Tendo-se em vista a generalidade prestada pelas formas bilineares e lineares à
representação do P.V.C., a formulação de problemas de valor de contorno
pode ser colocada na seguinte forma: encontrar u X e tal que

B( u,v ) F( v ) v Y = ¬ e (11)

No caso da representação pelo P.T.V., toma-se Y X = , de modo que v assume
um significado de deslocamento virtual.

Por outro lado, mesmo as parcelas de energia potencial mencionadas no
capítulo anterior, e que podem servir para a dedução da forma fraca, possuem
relação direta com as formas bilinear e linear descritas.

Por exemplo, a Energia Potencial de Deformação U(.) é definida como sendo
o valor obtido de:

1
2
U( u ) B( u,u ) = (12)

Por sua vez, a Energia Potencial das forças externas aplicadas é definida por:

( ) ( ) u F u O = (13)

Exemplificando de modo mais objetivo, retoma-se a expressão do P.T.V. para
o problema da barra sob força normal, nela destacando-se as formas bilinear e
linear:

( )
0 0
L L
B( u ,w ) F( w )
ES u w d x q wd x P w( L ) w ' ' = + ¬
} }
 
, admissível e compatível. (14)

A energia potencial total pode ser representada na forma:

( )
1
2
u B( u,u ) F( u ) H = ÷

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
50
ou

( ) ( )
2
0 0
1
2
L L
u ES u d x q u( x )d x Pu( L ) H ' = ÷ +
} }
(15)

3. Soluções aproximativas para o P.V.C.

Uma vez formulado o problema de valor de contorno, seja pela forma
variacional construída a partir do conhecimento da equação diferencial, ou
pela forma fraca diretamente obtida pela aplicação do P.T.V., vale a
representação implícita indicada pela (11).

O passo seguinte é a busca de soluções aproximativas. Um caminho natural
nesse sentido consiste em procurar candidatas à solução (funções-teste) entre
aquelas que apresentem regularidade e boa capacidade de aproximação, como
por exemplo, as funções polinomiais ou trigonométricas.

A depender do tipo de formulação, a aproximação adotada deve atender
inicialmente a todas as condições de contorno (essenciais e naturais) do
problema, como é o caso da forma variacional ponderada da equação
diferencial, ou apenas às condições de contorno essenciais, como é o caso da
forma fraca.

Novamente recorrendo à Álgebra Linear, pode-se adotar a representação das
funções-teste e peso como combinações lineares de bases de funções daqueles
espaços. Uma forma geral para a aproximação, independente da formulação
escolhida, é, então, a seguinte:

( ) ( )
1
( )
i i
i
u x x x ¢ o |
·
=
= +
¿
 (16)

onde ( ) x ¢ é uma função com o mesmo nível de regularidade exigida para a
função solução e que verifica as condições de contorno conforme os requisitos
de cada tipo de formulação variacional. J á as funções ( )
i
x | compõem um
conjunto linearmente independente (base), com regularidade compatível com
a exigida para a função-teste, porém sendo homogêneas nas condições de
contorno envolvidas em cada tipo de formulação. Obviamente, espera-se que
quanto maior o número de termos na somatória, maior seja a aderência da
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
51
aproximação em relação à solução exata. Tal requisito deve ser garantido pela
base de funções ( )
i
x | , sendo denominado genericamente por completude.

Na somatória que aparece na (16), os coeficientes
i
o devem ser tais que
proporcionam o adequado ajuste, ou aderência, da aproximação em relação à
solução. Entretanto, apesar da somatória indicada envolver infinitos termos,
operacionalmente é possível empregar um número finito deles, por maior que
seja. Como o número de termos da base define a dimensão do espaço, diz-se,
nessas condições, que a solução aproximada pertence a um espaço de
dimensão finita.

Por outro lado, também a função-peso pode ser escrita numa forma como a
indicada pela (16), exceto que não há a necessidade de uma função particular
como a ( ) x ¢ . Assim, as funções base devem ter regularidade compatível com
a formulação adotada, sendo, ainda, homogêneas nas condições de contorno
essenciais. Portanto, para a função-peso vale a seguinte representação (já num
espaço de dimensão finita):

( ) ( )
1
n
j j
j
w x f x |
=
=
¿
(17)

Uma vez adotadas as aproximações descritas pelas relações (16) e (17), a
caracterização final da solução depende da determinação dos coeficientes
i
o .
No que segue, apresenta-se o desenvolvimento que leva à obtenção do sistema
resolvente para as constantes
i
o .

Seja, então, a busca de uma solução aproximada que satisfaça as condições de
contorno essenciais, para um P.V.C. expresso, genericamente, na forma
indicada pela (11). Considere-se, em primeiro lugar, a substituição naquela
relação da aproximação (17) para o campo de deslocamentos virtuais,
resultando em:

( ) ( )
, 0 / 1, ,
j j j j
B u f F f c j n | | ÷ = =  (18)

Nota-se que na expressão anterior suprimiram-se os símbolos de somatória,
sendo que a mesma fica implícita pela repetição de índices; tal notação é
denominada notação indicial.

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
52
Tomando-se partido das propriedades das formas lineares e bilineares, resulta:

( ) ( )
, 0 , / 1, ,
j j j j
B u f F f c j n | |
(
÷ = ¬ =
¸ ¸
 (19)

A última relação representa uma soma de n parcelas cujo resultado deve ser
nulo para quaisquer que sejam os valores dos coeficientes
j
| (evidentemente,
não todos nulos). Garante-se que tal condição seja sempre satisfeita se forem
nulos os termos entre colchetes em cada uma das parcelas, ou seja:

( ) ( )
, / 1, ,
j j
B u f F f c j n = =  (20)

A relação anterior exprime, portanto, um conjunto de n equações.

No passo seguinte, introduzindo-se na (20) a aproximação para o campo
solução, obtém-se:

( ) ( )
, ( , ) / , 1, ,
i i j j j
B f F f B f c i j n o | ¢ = ÷ =  (21)

representando, agora, um sistema de n equações, cada uma delas com n termos
à esquerda da igualdade. Observa-se que ¢ é uma função fixa e, portanto,
( )
*
( , )
j j
B f F f ¢ = representa uma forma linear em f
j
.

Denotando-se:

( )
,
i j i j
K B f | =

( )
( , )
j j j
F F f B f ¢ = ÷ , (22 a,b)

e interpretando-se os
ij
K como componentes posicionados nas linhas i e
colunas j de uma matriz, e também os
j
F como componentes posicionados nas
linhas j de um vetor coluna, resulta que o sistema resolvente (21) pode ser
colocado na forma:

T
K F o = (23)

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
53
aonde reuniram-se os coeficientes
i
o no vetor o .

A matriz K apresenta características distintas a depender dos conjuntos de
funções adotados para compor as bases de aproximação da função-teste e da
função-peso. Em princípio, no caso geral, essa matriz resulta cheia e sem
simetria. Porém, com oportunas escolhas das bases, podem ser obtidas
matrizes simétricas e esparsas (caracterizadas pela presença de muitos zeros
entre suas componentes), viabilizando o emprego de procedimentos
computacionais menos custosos e mais expeditos para a resolução do sistema.

Apenas para exemplificar a obtenção de uma solução aproximada, retoma-se o
problema da barra sob carga axial, ilustrado na Figura 5 do capítulo I,
expresso em forma fraca (P.T.V.). Considere-se, por simplificação, que a força
P aplicada na extremidade livre tenha valor nulo. Neste caso, o P.V.C.
consiste em encontrar uma solução u(x), tal que (0) 0 u = e a condição:

L L
o o
ES u w d x q wd x ' ' =
} }


seja obedecida para qualquer w compatível e homogêneo em x = 0, isto é:
(0) 0 w = . Portanto:

( ) ,
L
o
B u w ES u w d x ' ' =
}
e ( )
L
o
F w q wd x =
}
.

Adotando-se para o campo solução em todo o domínio uma aproximação dada
por um polinômio completo do segundo grau
2
1 2 3
( ( ) ) u x x x o o o = + +  , e já
atendendo à condição de contorno essencial, obtém-se a seguinte relação:

( )
2
1 2
/ 1,2
i i
u x x x
c i
o o
o |
= +
= =

(24)

Tem-se, portanto: ( )
2
1
x x | = e ( )
2
x x | = .

Como a função-peso, na forma fraca, precisa apresentar a mesma regularidade
da função-teste, e como a base de funções ( )
i
x | também verifica
homogeneidade na condição de contorno essencial, nada impede que se
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
54
adotem as mesmas funções para a base da função-peso, isto é:
( ) ( ) / 1,2
j j
f x x c j | = = . Nota-se que não há impedimento teórico para essa
escolha, tendo ela a vantagem de proporcionar simetria para a matriz dos
coeficientes do sistema.

Assim sendo, para fins de obtenção de uma solução aproximada as
componentes da matriz K e do vetor F , que aparecem na (23), podem ser
obtidas das seguintes integrais:

L
ij i j
o
K ES d x | | ' ' =
}
e
L
j j
o
F q d x | =
}
(25 a,b)

No caso, as componentes da matriz K e do vetor F resultam:

3
2
11
4
4
3
L
o
ES L
K ES x d x = =
}

2
12 21
2
L
o
K K ES xd x ES L = = =
}

22
L
o
K ES d x ES L = =
}
(26)
3
2
1
3
L
o
q L
F q x d x = =
}

2
2
2
L
o
q L
F q xd x = =
}


Montando o sistema indicado pela (23) e resolvendo-o, obtém-se a solução:

1 2
;
2
q q L
ES ES
o o = ÷ = (27 a,b)

Segue daí a resposta para o campo de deslocamentos:

( ) ( )
2
2
2
2
i i
q L x x
u x x
ES L L
o |
(
| | | |
= = ÷
( | |
\ . \ .
¸ ¸
 (28)

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
55
Nota-se que essa resposta coincide com a solução exata, confirmando que a
forma fraca pode recuperar a solução exata quando ela pertencer ao espaço de
aproximação adotado.

Um caso um pouco mais geral do que o anterior contempla a situação de
deslocamento imposto numa das extremidades. A Figura 1 exibe uma barra
simples com deslocamento imposto igual à u na extremidade inferior.

A forma fraca explicitada pelo P.T.V. continua tendo o significado de
condição de equilíbrio entre a distribuição interna de tensões e as forças
aplicadas:

L L
o o
ES u w d x q wd x ' ' =
} }
(29)


u

Figura 1 – Barra com deslocamento imposto

Naturalmente w é uma função suficientemente regular e homogênea nas
condições de contorno essenciais. Assim, se essas condições de contorno em
deslocamento forem: 0 ) 0 ( = u e u L u = ) ( , à partida a função aproximativa
deve satisfazê-las e a função ponderadora deve ser tal que: 0 ) 0 ( = w e
0 ) ( = L w .

Porém, em lugar de impor ‘em forma forte’ que u L u = ) ( , é possível relaxar
essa condição, introduzindo-a na formulação mediante a seguinte ponderação:

| | 0 ) ( ) ( = ÷ L r u L u (30)
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
56

onde r é, em princípio, uma outra função ponderadora.

As condições (29) podem ser combinadas somando a (30) ao P.T.V.,
resultando na seguinte forma:

| | ( ) ( )
L L
o o
ES u w d x u L u r L q wd x ' ' + ÷ =
} }
(31)

Nessa condição, a exigência sobre w passa a ser de homogeneidade apenas em
x=0. Por outro lado, as duas funções ponderadoras podem ser relacionadas
entendendo que cada parcela do P.T.V. deva exprimir um trabalho virtual.
Assim sendo, dando à r a interpretação de uma ‘força virtual’, sua relação com
a função w pode ser expressa na forma:

( ) ( ) r L w L q = (32)

Na relação anterior, η desempenha o papel de uma constante que transforma a
dimensão de deslocamento para a dimensão de força (conceitualmente uma
‘rigidez’). Segue, finalmente, a seguinte expressão para a forma fraca:

| | ( ) ( )
L L
o o
ES u w d x u L u w L q wd x q ' ' + ÷ =
} }
(33)

Identificando e reunindo convenientemente os termos, no sentido de colocar
em cada lado da igualdade as formas do tipo bilinear e linear, a relação
anterior passa a ser escrita como:

( ) ( ) ( )
L L
o o
ES u w d x u L w L q wd x u w L q q ' ' + = +
} }
(34)

Nota-se que a forma fraca indicada acima também poderia ser obtida mediante
um Princípio Variacional Restrito envolvendo a técnica de penalização. Nesse
caso, o funcional da energia potencial total seria dado por:

| | ( ) | |
2 2 1 1
; ( )
2 2
L L
o o
u ES u d x u L u q ud x q q ' H = + ÷ ÷
} }
(35)

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
57
A primeira variação do funcional seria deduzida a partir de um acréscimo
( ) ( ) u x w x o = arbitrário dado à função deslocamento e apresentaria a seguinte
forma:
( ) ( ) ( )
L L
o o
ES u w d x u L w L q wd x u w L o q q ' ' H = + ÷ ÷
} }
(36)

A imposição de nulidade da primeira variação leva à forma fraca indicada na
(34).

Adotando-se para o campo solução em todo o domínio a mesma aproximação
do exemplo anterior, dada por um polinômio completo do segundo grau
2
1 2 3
( ( ) ) u x x x o o o = + +  , e de imediato impondo a condição de contorno
essencial, obtém-se:

( )
2
1 2
/ 1,2
i i
u x x x
c i
o o
o |
= +
= =

(37)

e, portanto: ( )
2
1
x x | = e ( )
2
x x | = .

Analogamente ao que já foi comentado no exemplo anterior, podem ser
adotadas as mesmas funções para a base da função-peso, isto é:
( ) ( ) / 1,2
j j
f x x c j | = = .

Assim sendo, as componentes da matriz K e do vetor F , que aparecem nas
(25), podem agora ser obtidas calculando-se as seguintes integrais:

( ) ( )
L
ij i j i j
o
K ES d x L L | | q| | ' ' = +
}
e ( )
L
j j j
o
F q d x u L | q | = +
}
(38 a,b)

No caso, as componentes da matriz K e do vetor F resultam:

3
2 2 2 4
11
4
4
3
L
o
ES L
K ES x d x L L L q q = + = +
}

2 2 3
12 21
2
L
o
K K ES xd x LL ES L L q q = = + = +
}

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
58
2
22
L
o
K ES d x LL ES L L q q = + = +
}
(39)
3
2 2 2
1
3
L
o
q L
F q x d x u L u L q q = + = +
}

2
2
2
L
o
q L
F q xd x u L u L q q = + = +
}


O sistema resolvente, indicado pela (23), apresenta o seguinte aspecto:

( )
( ) ( )
3 3
4 2 3 2
1 2
2
2 3 2
1 2
4
3 3
2
ES L q L
L ES L L u L
q L
ES L L ES L L u L
o q o q q
o q o q q
| |
+ + + = +
|
\ .
+ + + = +


Resolvendo-o, obtém-se a solução:

1
;
2
q
ES
o = ÷
2
2 2
1 1
2
ES q L ES ES u
L ES L LqL
o
q q
| | | |
+ = + +
| |
\ . \ .
(40 a,b)

Respostas que melhor atendem à condição u L u = ) ( são recuperadas na
medida em que q assume valores arbitrariamente elevados. De fato, no caso
limite desse fator tender a um valor infinito, as relações (40) fornecem:

1 2
; .
2 2
q q L u
ES ES L
o o = ÷ = +

Segue daí a seguinte resposta para o campo de deslocamentos:

( ) ( )
2
2
2
i i
q L x x u
u x x x
ES L L L
o |
(
| | | |
= = ÷ +
( | |
\ . \ .
¸ ¸
 (41)

Por outro lado, analisando a consistência dimensional do termo entre
parênteses à esquerda da igualdade na (40a), pode-se estabelecer uma relação
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
59
entre aquele fator e a rigidez da estrutura. Porque seu valor deve ser elevado,
q pode verificar, por exemplo, a seguinte condição:
6
10
ES
L
q >> .

No capítulo 2 também foi apresentada a possibilidade do emprego de
multiplicador de Lagrange para a construção do Princípio Variacional
Restrito. Segundo essa possibilidade, para o exemplo em estudo o funcional
da Energia Potencial Total assume a forma:

| | ( ) | |
2
2
L L
o o
ES
u( x ), ( x ) u d x ( L ) u( L ) u qud x H ì ì ' = + ÷ ÷
} }
(42)

Como cada parcela do funcional corresponde à determinada quantidade de
energia, claramente o multiplicador de Lagrange possui a dimensão de força.

No sentido de determinar a primeira variação do funcional, impõem-se
acréscimos u o e o ì às funções independentes, obtendo-se:

| | ( )
| || | ( )
2
2
L
o
L
o
ES
u( x ) u( x ), ( x ) ( x ) u u d x
( L ) ( L ) u( L ) u( L ) u q u u d x
H o ì o ì o
ì o ì o o
' ' + + = +
+ + + ÷ ÷ +
}
}
(43)

Desenvolvendo a expressão anterior com o objetivo de identificar as parcelas
lineares nos acréscimos, conclui-se que a primeira variação do funcional é
dada por:

| |
L L
o o
ES u u d x ( L ) u( L ) u ( L ) u( L ) q ud x oH o o ì ì o o ' ' = + ÷ + ÷
} }
(44)

A forma fraca resulta, então, da seguinte condição:

0 , ( ) u L o H o oì = ¬ (45)

observando que u o deve ser compatível e homogêneo na condição de
contorno essencial.

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
60
Nota-se que a forma fraca tem correspondência com uma proposição, por
assim dizer, mista para o P.T.V., combinando condição de equilíbrio de forças
e compatibilidade do deslocamento na extremidade da barra. De fato, se entre
o conjunto de variações admissíveis for adotado o par: 0 0 , ( ) u L o oì = = , a
forma fraca reproduz a expressão do P.T.V. que representa condição de
equilíbrio da barra sob força normal na qual o vínculo de imposição do
deslocamento u é retirado e substituído por uma força de reação, simbolizada
por ( ) L ì . Por outro lado, adotando-se o par de funções: 0 0 , ( ) u L o oì = = a
forma fraca assume o significado de condição de compatibilidade para o
deslocamento na extremidade livre, que reproduz a restrição original do
problema.

Uma vez estabelecida a forma fraca com multiplicador de Lagrange, em
termos gerais as aproximações para os campos independentes envolvidos, e
suas variações, podem ser indicadas nas formas:

1
( ) ( ); ( ) ( )
( ) ( ); ( ) ( ) / , , ,
i i j j
i i j j
u x x u x x
u x x u x x c i j n
o | o | |
o | o | |
= =
' ' ' ' = = = 
(46)

1 ( ) ( ); ( ) ( ) / , , ,
k k s s
x x x x c k s m ì ¸ ¢ oì ou ¢ = = =  (47)

O desenvolvimento para a dedução do sistema resolvente segue a mesma
metodologia para o caso de uma única variável. Assim sendo, considerem-se,
inicialmente, as substituições para os campos virtuais na relação (45):

| |
0
L
j j s s j j
o
L
j j j s
o
ES u ( x )d x ( L ) u( L ) u ( L ) ( L )
q ( x )d x ,
| o| ¢ ou ì | o|
| o| o| ou
| |
' ' + ÷ +
|
\ .
| |
÷ = ¬
|
\ .
}
}
(48)

De modo a satisfazer a condição anterior, considere-se que: 0 0 ,
j s
o| ou = = .
Segue daí o seguinte conjunto de relações:

-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
61
0 1
L
j j
o
L
j
o
ES u ( x )d x ( L ) ( L )
q ( x )d x j , ,n
| ì |
|
' ' +
÷ = =
}
}

(49)

Num segundo caso, considere-se que: 0 0 ,
j s
o| ou = = . Obtém-se o seguinte
conjunto de relações:

| | 0 1
s
( L ) u( L ) u c / s , ,m ¢ ÷ = =  (50)

Substituindo-se nas relações (49) e (50) as aproximações para os campos
independentes, resulta o seguinte sistema de equações lineares:

| |
1 1
L L
i j i k j k j
o o
s i i s
ES ( x ) ( x )d x ( L ) ( L ) q ( x )d x
( L ) ( L ) ( L )u
c / i, j , ,n; k,s , ,m
| | o ¢ | ¸ |
¢ | o ¢
| |
' ' ( + =
|
¸ ¸
\ .
=
= =
} }
 
(51)

Pode-se dar ao sistema obtido a seguinte representação matricial:

 
 




1 1
1 1
0
( ) ( )
( ) ( )
( ) ( )
( ) ( )
T
n n
n n n m
u
m m
m n m m
F K L
F
L
o
¸
× ×
× ×
× ×
× ×
(
¦ ¹ ¦ ¹
(
¦ ¦ ¦ ¦
=
(
´ ` ´ `
(
¦ ¦ ¦ ¦
( ¹ ) ¹ )
¸ ¸
(52)

onde as matrizes e vetores indicados possuem as seguintes definições:

;
L
ij i j
o
K ES d x | | ' ' =
}

k j k j
L ( L ) ( L ); ¢ | =
L
j j
o
F q ( x )d x; | =
}
( )
u s
s
F ( L )u ¢ = (53)

Voltando ao exemplo em análise, como a função associada ao multiplicador
na formulação refere-se a um valor na extremidade da barra, e sobre ela não
há qualquer exigência sobre continuidade nas derivadas de ordem superior,
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
62
pode-se perfeitamente adotar uma função aproximativa constante em todo o
domínio da barra e de valor unitário:
1
1 ( ) x ¢ = .

Quanto ao campo de deslocamentos, mantém-se a aproximação por polinômio
do segundo grau completo. A exigência forte sobre ele é que reproduza a
condição de contorno essencial em 0 x = . Valem, portanto:

( )
2
1
x x | = e ( )
2
x x | = . (54)

Assim sendo, os índices que definem a dimensão do sistema passam a ter os
seguintes limites: 2 1 ; n m = = .

Aplicando as definições dadas pelas (53), o sistema resolvente fica expresso
na forma:

3
3 2 2
1
2
2
2
2
1
4
3
3
2
0
q L
ES L ES L L
q L
ES L ES L L
L L
u
o
o
¸
¦ ¹
(
¦ ¦
(
¦ ¹
¦ ¦
(
¦ ¦ ¦ ¦
=
´ ` ´ `
(
¦ ¦ ¦ ¦
(
¹ )
¦ ¦
(
¸ ¸ ¦ ¦
¹ )


A solução do sistema resulta:

1 2 1
; ;
2 2 2
q q L u q L u ES
ES ES L L
o o ¸ = ÷ = + = ÷ . (55)

Observa-se que o valor do multiplicador coincide com a reação de apoio na
extremidade com deslocamento imposto. Segue daí a mesma resposta obtida
para o campo de deslocamentos pelo método da penalização:

( ) ( )
2
2
2
i i
q L x x u
u x x x
ES L L L
o |
(
| | | |
= = ÷ +
( | |
\ . \ .
¸ ¸
 (56)

Nos próximos capítulos serão apresentados métodos numéricos que decorrem
de metodologias específicas para a resolução aproximada das formas
variacional e fraca, e que se apresentam como alternativas mais ou menos
eficientes a depender do tipo de P.V.C. a ser resolvido. Nesse contexto, a
-Soluções aproximativas -
Sergio P.B. Proença
63
técnica dos elementos finitos aparece como recurso para a geração eficiente
das bases de aproximação para as funções teste e peso.