Ana|s do II Sem|nár|o Nac|ona| L|teratura e Cu|tura

vol. 2, São CrlsLóvão: CLLlC, 2010. lSSn 2173-4128
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A LITERATURA HISTORIOGRÁFICA DE FERNÃO LOPES: O COMPROMISSO COM A
VERDADE
Caio César Costa Santos (graduando/UFS)
1 INTRODUÇÃO
Com ênfase principalmente, ao elemento histórico, a fim de elucidar os alicerces da
historiografia do século XV, destacar-se-ão a seguir, os principais pontos que levaram ao
foco da pesquisa: o estudo sobre Fernão Lopes (1418?-1459?). Sua biobibliografia; a
evolução do homem vinculado ao tempo (Humanismo) e suas influências; as características
de sua prosa veiculadas pelo uso de sua linguagem; e uma análise de trechos dos seus
principais escritos: D. Pedro I e D. João I discorridos por Spina (1991) e Almeida e Basto
(1990) respectivamente.
Correlacionar história, literatura e verdade não é tarefa para qualquer escritor. Muito
menos, quando se trata de uma literatura do século XV. Poucos escritores tiveram este
privilégio de unir estas três esferas. Dentre eles, destacou-se Fernão Lopes. A preocupação
em fazer uma história calcada, sobretudo, na valorização de todas as identidades culturais,
fez de Fernão um autor profundamente conhecido e renomado.
2 BIOBIBLIOGRAFIA
Pouco se sabe quanto à data de nascimento de Fernão Lopes. Deduz-se que ele
tenha morrido por volta de 1459, em local desconhecido. Seus escritos mais antigos são de
1418-1419 (MOÌSES, 1972, p. 38-39).
Profissionalmente, Fernão era tabelião, de origem viloa e mesteiral, pois contava um
sapateiro na família da mulher. Fernão começa a adentrar no mundo historiógrafo quando é
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nomeado "guarda-mor¨ da Torre de Tombo, no reinado de D. João Ì. Mais precisamente em
1434, ele dá início à produção de suas crônicas, colocando em cheque a vida dos reis de
Portugal, D. Pedro Ì, D. Fernando e D. João Ì. Como prêmio dos seus serviços como
cronista, recebe o título de vassalo d'el-reis ÷ carta da nobreza concebida às classes menos
abastadas oferecendo certa munificência. Enfim, eis que surge a historiografia portuguesa.
Já em atividade, Fernão atravessara por vários reinados de D. João Ì, D. Afonso V,
D. Pedro Ì e D. Duarte. Nesse tempo começara a conhecer as mudanças políticas,
econômicas e sociais como também até as vidas pessoais da realeza. Viu suceder ao trono
o rei D. João Ì, este dominado pela aristocracia. Concomitante ao crescer dos filhos de D.
João Ì, viu a concentração da nobreza sendo abalada pela crise de independência. Assistiu
de perto à guerra civil ulterior à morte de D. Duarte. Subsequentemente assistiu a eleição e
morte de D. Pedro Ì (CÌDADE, 1972, p. 23).
À luz destas informações, de imediato, pode-se dizer que Fernão viveu e resistiu a
um período de bastantes revoluções, porém, por outro lado, obteve grandes princípios e
ensinamentos.
Como resultado dessa longa experiência ao investigar de perto os acontecimentos
da época medieval, produziu e documentou as crônicas: d' El-Rei D. Pedro Ì, d' El-Rei D.
Fernando e d' El-Rei D. João Ì (1 e 2 partes) - a primeira que trata do interregno entre a
morte de D. Fernando e a eleição de D. João Ì e a segunda que concerne o reinado de D.
João Ì à esperada paz em Castela em 1411.
Caracterizado ainda como "escrivão da puridade¨; suas narrativas costumavam
revelar as ações do povo como também suas aspirações. Ìnexistiam concepções míticas,
descrições fantasiosas ou sobrenaturais como fora o momento literário anterior a este ÷
como exemplo, as novelas de cavalaria.
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De acordo com Cidade (1972, p.23), "o nosso cronista bem parece exprimir em suas
crônicas vaga e discreta reacção anti-aristocrática, no relevo que o povo assume em seus
grandiosos quadros históricos.¨
Para Fernão, a história deveria ser baseada em testemunhos fidedignos e originais,
com intuito de obter uma realidade exclusivamente empírica. Enfim, era preciso ser
puramente objetivo e verdadeiro como Abdala (2007) afirma:
(...) porque a história há de ser luz da verdade e testemunha dos antigos
tempos e nós, posto que as não víssemos, de muito resolver livros com
grande trabalho e diligências, juntamos ás mais chegadas a razão em que
os mais dos autores pela maior parte consentem; (...) (ABDALA, 2007, pág.
35)
3 O HUMANISMO EM FERNÃO LOPES
O surgimento do Humanismo em Portugal começara no ano de 1418, quando
D.Duarte nomeia Fernão Lopes como guarda-mor da Torre do Tombo e termina quando Sá
de Miranda retorna da Ìtália, em 1527, trazendo a Portugal uma grande quantidade de
poemas de cultura clássica (MOÌSES, 1972, p. 38).
Concomitantemente ao progredir, suscita do homem uma força criadora capaz de
implicar nos destinos da humanidade, desvendando, difundindo e transformando o Universo.
Uma época em que o homem se conhece a si mesmo, autodidata, percebe os efeitos dos
seus pensamentos tanto para si como para sociedade, enfim.
Por conseguinte, o homem vai de encontro à sua própria imagem. O conceito de que
o destino estivera traçado por forças maiores, nas quais caracteriza a homem como ser
inativo, vai sendo suprida pela crença de que ele é o agente de seu próprio destino.
Quando se fala de Fernão Lopes à luz dos pensamentos humanistas, pensa-se
numa trajetória extremamente objetiva e linear, posto que a grande preocupação fosse
enfim, retratar com maior fidelidade os costumes, as vicissitudes e transformações da época
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medieval. Para Cidade (1957, p. 24), Fernão Lopes é um grande exemplo de cronista, ao
investigar a realidade de uma nação, "um humanista, sensível a quanto pode revelar o
Homem, ao mesmo tempo que um pintor que se compraz em fixar para a posteridade
retratos-individuais, tanto como grandes composições históricas, o movimento e a vida.¨
Fernão afastou-se de ser caracterizado como hipócrita ao descrever a história das
classes. Ao contrário, sua obra continha alta dose de realismo e intensa pitada de
objetividade. Ao passo que, quando os acontecimentos se tornavam presentes, os
relatavam com olhar detalhista e fidedigno.
Fernão fazia uso de referências de contemporâneos e notas de tabeliães,
correlacionando os assuntos políticos aos econômicos e recriando, na medida do possível,
personagens históricos, a fim de garantir extrema vivacidade à narrativa. Com tais
subsídios, as crônicas ficavam mais próximas do real. Era uma combinação de competência
e verdade.
Ao ver e investigar de perto os acontecimentos da corte, procurava transcrever tudo
aquilo para o papel, com uma linguagem fixa, precisa e analítica, sem ser muito erudito, pois
a pretensão mesmo era de informar à sociedade, os fatos ali convividos cotidianamente, até
porque seu cargo já facilitava tal ação. Como guarda-mor, estava ao seu alcance elucidar
qualquer conflito, qualquer êxito e repercuti-los via crônica.
Em suma, segundo Cidade (1972, p. 38) a crônica de Fernão Lopes " contava as
efeméridades que nobilitavam as famílias ou os feitos dos reis e suas hostes.¨ A história
compilava todos os espaços sociais, desde "a figura do povo meúdo à realidade abstrata de
uma Nação concretizada em personalidade viva.¨ (idem, ibdem)
4 CARACTERÍSTICAS DA PROSA FERNAONIANA
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Ao folhear as páginas que compõem a obra de Fernão Lopes, é notável o quão sua
linguagem nos permite crer que não há nenhuma alegoria na sua forma de tratar dos
assuntos da corte, principalmente quando o leitor tem a seu favor uma literatura calcada na
historiografia, ou seja, em provas documentais. Fernão Lopes nos oferece minúcia e
vivacidade nas movimentações de massas e outros acontecimentos através de diálogos,
fazendo-os até com testemunhos fidedignos, bem como com contribuições de sua
capacidade de manejar a linguagem, à mercê da veracidade.
Suas crônicas concentram-se na família real, cujo autor obteve a graça de investigá-
la, por assim dizer, com auxílio de uma lupa. Por ocupar um alto cargo na Torre do Tombo,
pôde fundamentar suas ideias com importantes documentos portugueses. Por exemplo, a
descrição abaixo sobre o d' El Rei D. Pedro Ì demonstra tal característica comum a Fernão ÷
a veracidade junto à preocupação com a informação especulada até mesmo em se tratando
das ações pessoais do Rei: "Este Rei D. Pedro era muito gago, e foi sempre grande caçador
e monteiro. [...]Ele era muito viandeiro. [...] era em dar mui ledo; e tanto, que muitas vezes
dizia que lhe afrouxassem a cinta, que então usava não mui apertada, para que se lhe
alargassem o corpo (..)¨ (SPÌNA, 1991, 98-99).
Grosso modo, as principais características de suas obras, além da fundamentação
histórica, é a crítica à sociedade portuguesa, posto que, Fernão Lopes foi sensato ao evitar
a "heroicisação¨ das suas personagens, o que evidencia uma análise objetiva e racional dos
documentos históricos, bem como cautela em determinar a verdade histórica, ao confrontar
textos e versões sobre um mesmo assunto.
Em poucas palavras, Coelho (2007) afirma o pacto de veracidade que Fernão tinha
para com seus escritos: "Todos os documentos, escritos ou orais, foram examinados, atenta
e pacientemente, com olhos inteligentes e críticos, de tal modo que tudo quanto escreveu se
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pode considerar a 'clara certidão da verdade', até hoje não desmentida em pontos
essenciais.¨
Assim, quando se pensa em fazer história, é preciso transcrever tudo o que se
apresentara na realidade. Para isso, o certificado de autenticidade respondia, uma vez que
tudo o que era revelado fora vivido. Logo, sem fato não haverá razão por que existir história.
Sob tal ótica, o historiador Coelho (2007), afirma veemente que, quando os acontecimentos
dramáticos escasseiam-se, não temos mais o que contar, veiculando em si, a relevante
importância da historiografia à formação social.
5 LINGUAGEM
Extrema liberdade ao fazer uso da linguagem. Suas atitudes revelam uma atmosfera
de assuntos nacionais. A ideia de ufanismo é comum em seus escritos, principalmente
quanto à forma como trata a organização política do Estado assim como as reações do povo
ao manifesto da burguesia ascendente. Mesmo na ausência do rebuscamento linguístico,
Fernão manipulava com perfeita exatidão e autonomia a historicidade de cada momento, de
cada camada. O belo não se fazia presente mesmo porque a preocupação não era esta.
Aquelas posições de profundo nacionalismo são vistas também sob o pensamento
de Saraiva e Lopes (2007), em História da literatura portuguesa, além de discorrer uma
aproximação da obra fernaoniana à epopéia:
A coletividade com que Fernão Lopes se identifica é, conforme o ponto de
vista, a gente miúda que triunfa sobre os opressores (isto é, os senhores
feudais), ou o povo português que repele os castelhanos. Trata-se, de fato,
da mesma entidade, visto que, segundo as crônicas, é no povo miúdo que
se encontra a genuidade nacional, "o amor da terra¨, e os fidalgos
"desnaturados¨ se comprometem com Castela. (2007, pág. 37)
Em outra instância, a partir do momento que o autor pretende, de alguma forma,
espelhar a realidade do cotidiano para o papel, a fim de obter pura verdade, esquece-se de
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qualquer regra gramatical, versificação, métrica etc. Se o objetivo é a veracidade dos fatos,
há porque investir na linguagem natural de cada identidade cultural. Podemos ver essas
características da crônica de D. João Ì a seguir:
Oo quamtas vezes emcomendavom nas missas e preegaçõões que
rrogassem a Deos devotamente por o estado da cidade; e ficados os
geolhos beyjãdo a terra, braadavom a Deos que lhes acorresse, e suas
prezes nõ eram compridas!(ALMEÌDA e BASTO, p. 307-308).
Nos relatos acima, é evidente como se confirma claramente, o louvor ao realismo
descritivo. Fernão é basicamente visualista e tira todo o efeito da adjetivação impressionista,
de valor metafórico, artifício estilístico explorado pelos escritores realistas e característicos
da linguagem literária criada por Eça de Queiroz.
Da linguagem metaforizada à linguagem particularmente natural, a historiografia se
mantinha. Sob fundamentos literários, enquanto o discurso figurado se caracteriza pela sua
opacidade, sendo ele próprio portador de significação, o discurso transparente é um simples
veículo da comunicação/informação no qual é preciso a intervenção da sociedade para a
construção de significados. Logo é este que predominantemente caracteriza as obras
fernaonianas. Explica-se tal recurso, nas marcas da oralidade no nível corrente e popular e
que, são excepcionalmente, empregados ao serviço da clareza do discurso, de acordo com
a função utilitária da linguagem.
Em conseqüência, este repúdio ao discurso figurado se deve a valorizar e prevalecer
à originalidade ao texto já que veicula em si a ideia da "genuidade textual¨, qualidade esta
vista no fragmento abaixo:
E os Castellaãos por vingamça e menemcoria, que lhe nom prestava,
lamçavom os Portugueeses prisuneiros que tragiam, com os que eram
doemtes de tramas por tall que morressem pestellemçiados; e morriam os
Castellaãos doemtes, e dos Portugueeses nehhuu perecia, nem demtro
nem fora em no termo...(ALMEÌDA e BASTO, p. 311).
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Logo, o grau de informatividade presente no texto acima concebe apreciação aos
fatos sociais de todas as culturas; pretende-se, de alguma forma, trazer todos os fatos ali
vividos. Está explicado o valioso desempenho de Fernão, ao tratar-se das ocorrências da
realeza e do comerciante, ou das classes menos abastadas, visto que ele põe à frente a
imaginação em busca do verídico. Pode-se dizer que as leituras das suas crônicas se
aproximam, mesmo superficialmente, dos textos jornalísticos, em que a condição do
informar é precisa.
Enfim, suas crônicas não se reduzem ao relato frio dos acontecimentos. Têm o
dinamismo das novelas, que quebra a monotonia narrativa, bem como seus impressionantes
quadros descritivos dos movimentos populares, da vida da corte e das batalhas que
permitem ao leitor a visualização das cenas. As personagens, por sua vez, ganham vida
com vigorosa caracterização e com a complexidade psicológica que o cronista soube lhes
atribuir.
6 ANÁLISE DE FRAGMENTOS DAS CRÔNICAS DE D. PEDRO I e D. JOÃO I
A concepção histórica fernaoniana ainda é medieval e regiocêntrica, isto é, centrada
na figura do rei e de heróis, como Nuno Álvares, uma das mais belas personagens de sua
obra. Entretanto, certos aspectos originais de suas crônicas o aproximaram de uma
concepção moderna da História. Porém, em muitas fases da crônica, por exemplo, de D.
Pedro Ì, Fernão faz questão de suscitar para o conhecimento do público a vida pessoal da
realeza, como no seguinte fragmento:
Este Rei D. Pedro era muito gago, e foi sempre grande caçador e monteiro.
[...]Ele era muito viandeiro. [...] era em dar mui ledo; e tanto, que muitas
vezes dizia que lhe afrouxassem a cinta, que então usava não mui
apertada, para que se lhe alargassem o corpo, para mais poder dar,
dizendo que o dia que o rei não dava, não devia ser havido rei.(SPÌNA,
1991, p. 98-99)
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Durante a leitura da prosa fernaoniana o leitor adentra no universo da corte
portuguesa e na vida íntima de quem dela fez parte. Fernão Lopes se sobressai dentre
outros escritores por seu estilo literário denunciador, sempre mantido pelo rigor e pela
verdade dos fatos acontecidos em Portugal no período medieval.
Contudo, as ações individuais dos heróis ou dos reis são combinadas com os
movimentos de massa; o povo é visto como força decisiva nos acontecimentos históricos.
Porém o quadro da sociedade portuguesa não se restringe à vida da corte; em sua obra,
pela primeira vez se apresenta como visto o painel de uma coletividade nacional
portuguesa. Além disso, o cronista considera as causas econômicas e políticas dos fatos,
como na subsequente parte da crônica de D. João Ì:
Andavom os moços de tres e de quatro anos, pedimdo pam pella cidade por
amor de Deos, como lhes emssinavam suas madres; e muitos nom tiinham
outra cousa que lhe dar senom lagrimas que com elles choravom que era
triste cousa de veer; e se lhes davom tamanho pam come hua noz, aviamno
por gramde bem (ALMEÌDA e BASTO, p. 307).
No trecho acima da crônica de D. João Ì, percebem-se características que divergem
um pouco das de costumes nas obras de Fernão Lopes. Nele, o autor não focaliza os
grandes heróis individuais, mas o povo, os mais humildes, que sofriam as consequências da
guerra.
Logo, a condição do povo como mentor das mudanças históricas se faz presente.
Como dito, suas construções distanciavam-se da perspectiva heróica individualizada, pois
não havia a visão de um cavaleiro destinado às aventuras misteriosas. Todavia, se por
algum modo, houvesse, seria algum sujeito em defesa do povo.
Em seguida, o cronista descreve o sofrimento dos mais indefesos habitantes da
cidade (as crianças e suas mães) em: "Andavom os moços de tres e de quatro anos,
pedimdo pam pella cidade por amor de Deos, como lhes emssinavam suas madres; e
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muitos nom tiinham outra cousa que lhe dar senom lagrimas (...)¨ (ALMEÌDA e BASTO,
1990, p. 307). Essas descrições são feitas de tal modo que o leitor tem a impressão de tê-
los vivido.
Desse modo, é lícito compreender que a preocupação do autor em fazer história, não
está concentrada exclusivamente no luxo dos nobres, mas na construção e formação
histórica de ambas as classes sociais. Posto que, a verdadeira história se faz no
entrelaçamento mútuo de acontecimentos, sejam de quais causas naturais ou sociais forem.
7 CONCLUSÃO
Em suma, seja pela simplicidade ilustrada nas crônicas, seja pela autenticidade dos
escritos, o cronista Fernão Lopes é um exemplo de grande intelectual prosador e humanista,
podendo ser até considerado um cânone pelos moldes originais e vivacidade em abordar os
aspectos históricos, econômicos, políticos e sociais da época, um autor assíduo e objetivo
ao criticar e descrever as manifestações da corte e das camadas menos privilegiadas. Dos
talentos aos fracassos, tudo era história, tudo era informação a ser especulada e transcrita
pelas mãos fernaonianas.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SPÌNA, Segismundo. Presença da Iiteratura portuguesa, era medievaI. 9. ed. Rio de
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