Boletim Paulista de Geografia

BPG
DEZEMBRO/2006

85

BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA ISSN 0006-6079
O Boletim Paulista de Geografia é editado pela Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Local São Paulo. Os trabalhos exprimem as opiniões dos respectivos autores e não necessariamente da AGB-SP ou dos editores do BPG. EDITORES: Paulo Miranda Favero e Sonia Maria Vanzella Castellar. CONSELHO EDITORIAL: Alvanir de Figueiredo, Ana Fani Alessandri Carlos, Ana Maria Marques Camargo Marangoni, Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Armen Mamigonian, Eva Alterman Blay, Gil Sodero de Toledo, João José Bigarella, José Pereira de Queiroz Neto, José de Souza Martins, Juergen Richard Langenbuch, Luis Augusto de Queiroz Ablas, Lylian Coltrinari, Manoel Fernando Gonçalves Seabra, Marcelo Martinelli e Pasquale Petrone. DIRETORIA DA AGB-SP (2006-2008): Diretora: Regina Célia Bega dos Santos; Vice-diretor: Leandro Evangelista Martins; 1º Secretário: Tiago de Castro; 2º Secretário: Luís Fernando de Freitas Camargo; 1º Tesoureiro: Alfredo Pereira de Queiroz Filho; 2º Tesoureiro: Vicente Eudes Lemos Alves; Coordenação de Publicações: Sonia Maria Vanzella Castellar; Coordenação de Biblioteca: Léa Lameirinhas Malina; Coordenação de Intercâmbio: Maíra Bueno Pinheiro; Coordenação de Divulgação: Eliane de Mello Garcia; Bolsistas: Gilberto Américo e Gilvaney Rodrigues Oliveira.

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BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA

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Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi CRB 3608 Boletim Paulista de Geografia / Seção São Paulo - Associação dos Geógrafos Brasileiros. - nº 1 (1949) - São Paulo: AGB, 1949. Irregular Continuação de: Boletim da Associação dos Geógrafos Brasileiros ISSN 0006-6079 1. Geografia 2. Espaço Geográfico 3. História do Pensamento Geográfico. I. Associação dos Geógrafos Brasileiros. Seção São Paulo. CDD 910

Projeto da capa: Paulo Favero Impressão: Xamã Editora

BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA
NÚMERO 85 SÃO PAULO – SP DEZ. 2006
EDITORIAL ........................................................... 5 ARTIGOS Antonio Carlos Vitte ................................................ 7 METAFÍSICA, NATUREZA E GEOGRAFIA: APONTAMENTOS PARA O DEBATE SOBRE A GEOGRAFIA FÍSICA MODERNA Dirce Maria Antunes Suertegaray ................................ 29 UM ANTIGO DEBATE (A DIVISÃO E A UNIDADE DA GEOGRAFIA) AINDA ATUAL? Angela Maria Rocha ................................................ 39 A CIDADE E SUAS REPRESENTAÇÕES Rosa Iavelberg ....................................................... 55 CIDADE: VIA DE ACESSO DA ARTE À ESCOLA Regina Célia Bega dos Santos .................................... 71 ALPHAVILLE E TAMBORÉ: CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS MEDIEVAIS NA APROPRIAÇÃO DE TERRAS PARA CONDOMÍNIO DE ALTO PADRÃO Paola Verri de Santana ............................................ 87 DA NECESSIDADE DA FESTA À NECESSIDADE DO ESPETÁCULO Sonia Maria Vanzella Castellar .................................... 95 A CIDADE E A CULTURA URBANA: UM ESTUDO METODOLÓGICO PARA SE ENSINAR GEOGRAFIA ANEXO Instruções e normas para elaboração de originais ............ 113

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permite-nos pensar sobre os rumos que a Geografia vem tomando nos últimos anos e qual o nosso papel diante disso. aquela capa aparecia como uma homenagem à história da Geografia.EDITORIAL MUDAR PARA TRANSFORMAR A Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local São Paulo tem o prazer de publicar o Boletim Paulista de Geografia número 85. O preto também é. para muitos. em junho de 1976. No nosso caso. Mas o nosso importante periódico não poderia ficar apático diante de tudo isso. Mas coloca-se então o questionamento de que retomar a capa antiga pode simbolizar 5 . até o número 84. a cor que simboliza a sabedoria. 30 anos depois. a ciência geográfica parece ter desacelerado seu processo de mudança. nesse contexto. cor que tem o significado de introspecção e favorece a auto-análise. mas nossa intenção é destacar apenas aquelas que têm a ver com o novo projeto e apenas isso. que surgiu em 1949. mais moderno. O que deve chamar a atenção de todos é o novo projeto visual do tradicional periódico. Claro que existem tantas outras interpretações para essa cor. Apesar da maturidade da publicação. foi retomada a primeira capa do boletim – era uma edição histórica sobre os 70 anos da Geografia brasileira e. num momento em que a Geografia brasileira também se transformava. No BPG 81. Agora. A primeira mudança do BPG havia ocorrido na edição 51. principalmente nas culturas orientais. Era uma mudança visual e conceitual. o novo projeto gráfico rejuvenesce e dá um novo gás para que o boletim tenha mais 85 edições de qualidade. com a capa preta. Essa capa acabou sendo utilizada nos boletins posteriores.

pela arte. esta nova capa – como também se propunha a capa do número 51 – simboliza não a rejeição de toda a história do BPG. Mas o BPG 85 é feito principalmente pelo seu conteúdo. Cada um do seu jeito ajuda a explicar um pouco mais o mundo que vivemos e as transformações que ocorrem (e não ocorrem) a nossa volta. Assim. buscando sempre ir além. mas. o conhecimento produzido é aquele no qual nos apoiamos para superá-lo. Esta edição tem uma variedade de textos que passam por uma perspectiva crítica sobre a Geografia Física. pela educação. 6 .uma pura reverência a essa Geografia anterior à década de 70. A AGB-São Paulo está de portas abertas a todos aqueles que querem construir uma Geografia para além dos muros que nos cercam cada vez mais. Assim. esperamos que façam uma boa leitura e nos enviem críticas e sugestões sobre o Boletim Paulista de Geografia. pelo contrário. Num movimento dialético. pelo urbano. a proposta de uma transformação que se produz a partir daquilo que já foi erigido. pela cultura e pelo ensino de Geografia.

Modernidade. UNICAMP. NATUREZA E GEOGRAFIA: APONTAMENTOS PARA O DEBATE SOBRE A GEOGRAFIA FÍSICA MODERNA METAPHYSIC. Na seqüência.br. o trabalho analisa os impactos da racionalidade instrumental no rompimento da concepção transcendental de natureza e procura mostrar como a racionalidade instrumental exerceu forte influência na reflexão e na teoria geográfica. 7 . 1 Departamento de Geografia. A proposta do trabalho para romper com esta perspectiva instrumental e reificada na Geografia física é a volta do diálogo com a metafísica e a incorporação da concepção de co-produtividade da natureza. discutindo a instrumentalização da natureza e a morfologia. Geografia Física. CEP 13087-970. Campinas (SP). E-mail: vitte@uol. O trabalho procura demonstrar a importância do conceito kantiano de natureza e da concepção kantiana de Geografia Física na Modernidade (ou a influência kantiana na geografia física na Modernidade). o trabalho resgata a influência da naturphilosophie na concepção de natureza na Geografia Física moderna. CP 6152. Por fim. Palavras-Chave: Metafísica da Natureza.com. Meio Ambiente. que passa a ser concebida como coisa/objeto. NATURE AND GEOGRAPHY: NOTES FOR THE DEBATE ON THE MODERN PHYSICAL GEOGRAPHY Antonio Carlos Vitte1 RESUMO O objetivo deste trabalho é discutir as relações entre a metafísica da natureza e a Geografia. Esta racionalidade reificou a natureza.ARTIGOS METAFÍSICA. Racionalidade Instrumental.

Modernity. mais particularmente as relações da metafísica da natureza com a geografia física moderna. Key Words: Metaphysical of the Nature.NOTA INTRODUTÓRIA Este trabalho tem por objetivo apresentar uma discussão sobre as relações entre a metafísica da natureza e Geografia. Instrumental racionality. É nesta riqueza cultural e filosófica que são estruturados e instrumentalizados muitos conceitos da geografia física como morfologia. 8 .ANTONIO CARLOS VITTE ABSTRACT The goal of this article is to argue the relations between nature metaphysics and the Geography. In the sequence. O princípio norteador desta reflexão é que a Geografia. Environment. that raisin the conceived being as objects. arguing for instrumentation of nature and the morphology. Mas se a Ciência Geográfica “nasce” a partir de um “livre jogo” (Kant. georelevo. a Ciência Geográfica é uma forte herdeira das reflexões kantianas e da naturphilosophie. The work proposal to break with this instrumental perspective and in the reification in the physical Geography is the dialog return with the metaphysics and the conception incorporation of co-productivity of nature. é moderna por refletir e instrumentalizar as discussões em torno da metafísica da natureza e da metafísica do belo e que portanto. I . relação processo-forma e onde inclusive se organiza a cartografia temática. Physical geography. The work search demonstrate the importance of kantian nature’s concept and of the conception kantian of Physical Geography in the Modernity (or the influence kantian in the physical geography in the Modernity). the work analyzes the impacts of the instrumental rationality in nature and search transcendental conception breaking show as the instrumental rationality exercised strong influence in the reflection and in the geographical theory. This rationality reification of the nature. enquanto ciência moderna. the work redemption the naturphilosophie influence in nature conception in the modern Physical Geography. muito embora tenha uma história institucional recente. Finally. 1974) entre a imaginação e o conhecimento do mundo.

a do metabolismo entre sociedade e natureza de Marx (1973. resgatando e ao mesmo tempo desenvolvendo conceitos e instrumentos de análise da natureza no contexto da teoria geográfica. esta reificação. Técnica. Tecnologia e Teoria e permitem romper com os rígidos cânones da racionalidade instrumental moderna. 2006 a partir de um intercruzamento entre a teleologia da natureza e a estética kantiana. cada qual com impactos filosóficos e teóricos bem definidos. A nossa proposta. no tratamento da problemática ambiental em sua complexidade e em sua diferenciação escalar de espaço e tempo. na teoria geográfica como um todo e mesmo na organização curricular dos cursos de geografia. duas propostas. 9 . uma vez que é o produto da mobilização da livre legalidade da imaginação (Kant. que também é social e cultural. emergem para dar suporte a esta relação contemporânea entre Ciência. para que seja construída uma nova forma de abordagem da natureza na Geografia. não pode tratar a natureza apenas como uma coisa. de que a geografia constituiu-se modernamente como uma ciência sui generis . II – CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA A PARTIR DA REFLEXÃO KANTIANA Pode-se dizer que o processo de constituição da moderna ciência geográfica obedeceu a um dos preceitos de Immanuel Kant. o desenvolvimento do modo de produção capitalista e a organização de uma racionalidade técnica e instrumental acarretaram uma desontologização da natureza. mediada pela contemplação. Neste sentido. com influências nefastas na reflexão geográfica. seja no tratamento da questão ambiental ou na edificação da teoria geográfica. 1974) no conhecimento e na apresentação desse conhecimento. SÃO PAULO. A geografia. refere-se a uma retomada das discussões e relacionamentos da Geografia com a Metafísica. 7-27. retira a riqueza da teoria geográfica com sérias conseqüências na análise geográfica e na formulação de propostas para a resolução e mesmo superação deste modo de produção excludente e segregador. 1983) e a da co-produção da natureza de Ernest Bloch (1996). como nas obras de Alexander von Humboldt. mas complementares. p. nº 85.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA.

todos os objetos empíricos devem ser ajuizados teleologicamente. 1998). a concepção de natureza não está mais associada às rígidas regras da matemática e da física. Esse ajuizamento deve ser para determinar as condições a priori das mudanças de estado. que na Crítica da Faculdade de Juízo (1995) será fundamentada pelo chamado nexo teleológico. sendo ao mesmo tempo causa e efeito 10 . Para a constituição de uma unidade sistemática da natureza. um nexo teleológico. Fisicamente. o que lhe confere um nexo teleológico. só sendo possível mediante uma experiência determinada.ANTONIO CARLOS VITTE A geografia moderna nasce a partir de um vínculo e ao mesmo tempo de uma inseparabilidade e complementariedade entre ciência. Isto significa dizer que a unidade sistemática da razão funda-se num outro tipo de vínculo entre os fenômenos. para Kant. determiná-los em sua totalidade como seres organizados. Assim. mas estrutura-se a partir da noção de organismo. Na Crítica da Faculdade de Juízo (1999a). pensar é um ato transcendental que permite estabelecer a essência e a unidade de um objeto. A partir da Crítica da Faculdade de Juízo (1999a). Esta experiência não é apenas determinada pelos princípios internos. o conceito de natureza é pensado metafisicamente e completamente a priori. pois os seres da natureza são organizados. ele é pensado a posteriori. Os nexos teleológicos entre as coisas não devem determinar o modo como as coisas existem ou de seus estados. que é uma faculdade de aplicação dos conceitos aos objetos empíricos. Assim. 1993. que conferem aos objetos da natureza um nexo causal. cujo centro de discussão esta ligado à metafísica da natureza e às reflexões de Kant sobre a natureza e a geografia. como pelo entendimento. Para Kant. Campos. mas devem apenas permitir pensar a causa porque existem ou os fins para os quais foram produzidos. como totalidade com uma finalidade técnica no mundo (Lebrun. Há uma disposição natural da razão em se considerar que a natureza tem um fim útil e cabe à razão descobrir os fins transcendentais desta disposição. ou seja. teleologia da natureza e estética. a unidade sistemática da natureza é construída por meio da intervenção da razão. mas também para determiná-los em sua produção ou origem e. esta situação é inevitável. A finalidade natural existiria apenas quando as partes se relacionam com um todo. além da razão participa também a imaginação. mas também por princípios transcendentais. por intermédio disto.

a finalidade natural existiria apenas quando as partes se relacionam com um todo e que ao mesmo tempo sejam causa e efeito de sua forma. Kant percebe que os fenômenos do organismo vivo. Mas este princípio de finalidade está necessariamente associado à faculdade de conhecer. 2001). Assim. cabendo ao Juízo apreendê-la. Assume. 1998). ou seja. então. 1999a) fundamentando-se na noção de organismo. para Kant. Kant percebe que somente o uso do entendimento para se conhecer a natureza como sistema não é viável. toda reflexão kantiana. Portanto. o todo. a natureza viva parece produzir uma harmonia racional presente nas partes do organismo entre si e no acordo entre as suas partes. o todo. nº 85. O organismo e os órgãos que o compõem devem ser concebidos segundo uma teleologia. 2006 de sua forma. Marques Filho. Na Crítica da Faculdade do Juízo (Kant. 1999a). assim como a possibilidade de vincular a diversidade de espécies a alguns conceitos de gênero (Keinert. mesmo que atue segundo leis físico-químicas causais e mecânicas e não podem ser reduzidas a estas leis. 7-27. SÃO PAULO. a origem do conceito de finalidade da natureza em Kant surge a partir do desenvolvimento da Biologia e. nos Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza (1990) e 11 . a necessidade de uma pressuposição transcendental subjetivamente necessária (Kant. a harmonia do todo seria destruída. Para Campos (1998). pois se assim fosse. 1993. Assim. portanto. p. está necessariamente associado à faculdade de conhecer. de tal maneira que a idéia de organismo seja determinante da forma e da ligação de todas as partes em uma unidade sistemática. a idéia de organismo é determinante da forma e da ligação de todas as partes em uma unidade sistemática. embora sigam leis determinísticas. como exposta na Crítica da Faculdade do Juízo (Kant. ou seja. a natureza física animada. que prescreve uma lei para a natureza.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a natureza tem uma unidade. 1995. portanto. conforme enunciado na Crítica da Razão Pura (1989). Lebrun. não podem ser regulados por leis da física e necessitariam ser tratados como se guiados por uma finalidade (Santos. por sua vez. Concomitantemente. Para Kant. que prescreve uma lei para a natureza. um princípio transcendental. que concorrem cada qual em sua função determinada para formar um todo vivo e complexo. Este princípio de finalidade. sendo. 1987) que permita qualificar a natureza como um sistema. apesar da heterogeneidade e da multiplicidade das leis empíricas.

o que permitiria construir uma metafísica do mundo (Barra. enquanto fenômeno constituidor de uma totalidade que poderia ser divisível e representada. o espaço. única e exclusivamente como sendo a melhor representação do espaço. o princípio metafísico é o único capaz de oferecer as bases para uma autêntica ciência da natureza.ANTONIO CARLOS VITTE na Crítica da Faculdade de Juízo (1999a). levando à constituição de uma metodologia sólida para um sistemamundo que será construído em torno da gravitação universal. não havendo preocupação com os porquês desta reflexão e principalmente com o papel da geografia no sistema kantiano. Se o espaço estrutura-se no pensamento kantiano de 1770. a arquitetônica da razão poderia reunir em um mesmo corpus doutrinário os princípios transcendentais heterogêneos da natureza formal e da natureza material. particularmente no seu intento de tornar a metafísica uma ciência. Afinal. posteriormente. isto é possível a partir da idéia de um sistema da natureza que obedece a uma arquitetônica capaz de reunir num mesmo corpus doutrinário os princípios transcendentais da natureza formal e material. assim como para a justificação da matemática e de sua aplicabilidade nos estudos da natureza. segundo as leis da matemática e da física. porque Kant lecionou Geografia Física? Há alguma relação entre o seu interesse particular por Geografia Física e o seu sistema filosófico? Qual a função da Geografia Física no sistema filosófico kantiano? Para Kant. 12 . 1993). em um empirismo tacanho (Gomes. assim como o tempo. infelizmente alguns geógrafos tomaram apressadamente as reflexões kantianas expostas na Estética Transcendental sobre o espaço e tempo e elegeram a forma. Assim. Na geografia moderna. lembrando que Kant foi professor de Geografia Física de 1756 a 1796 em Königsberg (Livingstone. III – A GEOGRAFIA FÍSICA SEGUNDO KANT Para Lebrun (1993) a noção de espaço é fundamental para o desenvolvimento do pensamento kantiano. 1997). atrelando-se assim. 2000). Em Kant. uma ciência da natureza auxiliaria na construção de um sistema e de uma autêntica metafísica da natureza. passam a ser categorias necessárias à construção do conhecimento. na Crítica da Razão Pura (1989).

estava afeito ao papel da ciência que então se constituía e que se espraiava também para a epistemologia. Gomes. nº 85. 2006 É neste contexto que se insere a Geografia Física que. No caso do pensamento kantiano. 7-27. Kant compreende a natureza como um sistema empírico. a Geografia trabalharia tanto com a descrição simultânea das ocorrências no presente sob o aspecto do espaço. Para Kant. Para o filósofo de Königsberg. o mundo visível. A preocupação da Geografia Física seria a de definir uma história da natureza através do tempo. 13 . em contraste com a antropologia. a Geografia Física trabalharia com a descrição da natureza. relação esta que está materializada nas diferenciações do espaço (Capel. associada ao conceito de finalidade (Duflo. 1999a). possui uma função clara no seu sistema de pensamento. mas forneceria também elementos e argumentos empiricamente fundamentados para as reflexões sobre a teleologia da natureza desenvolvidas na Crítica da Faculdade do Juízo (Kant. para Kant. a Geografia Física é uma ciência empírica que é proveniente de relatos do conhecimento da natureza. ou seja. pois a caracterização sistemática da natureza não é deduzida de princípios a priori da natureza em geral. o mundo dos objetos. a Geografia Física forneceria os elementos analíticos e comprobatórios não apenas de uma física ou de uma mecânica da natureza. ou a experiência consciente do homem por meio de suas percepções (Kant. 1996). está confinada ao estudo dos fenômenos da natureza que ocorrem próximos à superfície da Terra. assim como os eventos do passado. necessariamente. 1978. o terremoto de Lisboa de 1755 foi o marco em que a Geografia Física passou a assumir uma importância de destaque de sua reflexão e estava. Segundo May (1974). esta concepção de Kant sobre a Geografia Física insere-se em um contexto maior e. 1978. em uma relação temporal. p. 1999). no qual apenas o particular é dado e o universal tem que ser encontrado. Ainda para Kant (1999). para a estética. para a teologia. ao mesmo tempo. Hartshorne. 1999). O debate sobre a finalidade da natureza. desenvolvido ao longo dos séculos XVII e XVIII. SÃO PAULO. que trabalharia com o fenômeno mental. 1997. sendo necessário o uso de um princípio do julgamento reflexivo. preocupando-se com a relação entre o particular e o concreto. Moraes.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA.

O sistema físico da natureza procura detalhar as características do fenômeno exibindo a conformidade universal das leis a priori da razão. aparecendo tanto no nível empírico quanto no sistemático. 1995). assim. estaria de acordo e justificava empiricamente suas reflexões filosóficas (Bowen. muito embora os casos semelhantes não pudessem ser deduzidos de leis especiais. A Geografia Física passou a ser conhecida como um sistema empírico da natureza. O problema que se colocou para Kant foi o de estabelecer a diferenciação das formas naturais uma vez que a natureza não poderia ser diferenciada apenas por um princípio lógico. Concepção esta que. Para Kant. Kant. possa ser concebida a idéia de todo. a partir de um princípio a priori. obra de 1790 (Kant. em sua diferenciação espacial. manifestando-se no arranjo empírico das classes dos fenômenos. envolvendo assim a criação do sistema empírico da natureza. 2005). A diferença entre um sistema físico da natureza e um sistema empírico da natureza. a Geografia Física estudaria a natureza em sua heterogeneidade e diversidade. devendo-se começar pela observação de porções do espaço e do tempo. ou seja. para que. Kant apresentou a Geografia Física como um “sistema empírico da natureza”. Para Kant. antecipou a necessidade de uma distinção entre a divisão lógica e a divisão física da natureza. mas sim descobertos na própria natureza. um sistema da natureza deve estar fundamentado em uma ordem lógica. Entre 1772 e 1773. o sistema empírico da natureza procura trabalhar como a natureza foi diferenciada. em uma das inúmeras vezes em que reescreveu a introdução de sua Geografia Física. mas sim a partir de uma relação entre o sistema físico da natureza e o sistema empírico da natureza. Por outro lado. assumindo que a natureza apresenta uma diferenciação espacial exibindo uma qualidade ideográfica. pelo julgamento reflexivo (Vitte. apontando-se para uma visão integrada do mundo a partir de leis empíricas.ANTONIO CARLOS VITTE Neste contexto. O sistema empírico da natureza não era concebido unicamente como a totalidade da heterogeneidade. 1990). cuja preocupação era a experiência no mundo. 1981. em 1765. 14 . sendo condizente com a heterogeneidade e diversidade da natureza. sem dúvida. além de procurar descobrir as similaridades. Kant enfatizou que esta concepção provinha de uma geografia da natureza. proposta que gerou um grau de unidade no nível empírico e que foi retomada na Primeira Introdução à Crítica do Juízo.

a geografia seria uma descrição da natureza.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Para Kant. 2. 2006 Enquanto a física é uma teoria da natureza. na qual a possibilidade de uma classificação dos objetos da natureza como pré-estabelecido pelo julgamento aparece como um requisito necessário ou propedêutico 15 . 7-27. embora para a descrição da natureza possam ser utilizadas as proposições matemáticas. um dos principais objetivos da Geografia é produzir uma ordem hierárquica da natureza. muito embora procure trabalhar com o nível de integração na visão do mundo. com um sistema constituído de acordo com os conceitos teleológicos. o de promover um arranjo hierárquico de todas as leis empíricas da natureza e a subsunção de muitas leis particulares a este arranjo. talvez porque o que ele chama na Primeira Introdução à Crítica do Juízo (Kant. conforme demonstrou em inúmeras ocasiões em que a geografia é. é uma ciência empírica da natureza. O sistema empírico da natureza ou qualquer descrição da natureza não pode ser representado na forma de um sistema matemático. A Geografia. p. Uma das diferenças centrais entre a teoria da natureza e a descrição da natureza é que teoria deve apresentar proposição em forma matemática e deve ser logicamente integrada ou deduzida de um sistema matemático. formando assim. a Geografia ocupava hierarquicamente o menor nível do sistema da natureza. Assim. Um outro aspecto a ser considerado é que as leis físicas semelhantes às geográficas atentam para uma visão sistemática do mundo estritamente no nível empírico. nº 85. o sistema lógico da natureza teria dois objetivos: 1. assim. Kant não se preocupa em mostrar uma divisão lógica e física da natureza. estritamente falando. o de classificação dos vários objetos da natureza. que são a priori uma pressuposição necessária para a possibilidade de uma ciência sistemática que se requer no nível empírico. Isto porque as leis geográficas são mais específicas. SÃO PAULO. um campo reservado para a geografia. Para Kant (1999). um sistema empírico da natureza. particulares e contingentes que as da física e estão concernentes com a diversidade da natureza. a natureza entendida como experiência da diferenciação espacial. Isto significa que certos postulados geográficos requerem os princípios de julgamento. 1995) de um “sistema empírico da natureza” fosse mais razoável chamar de um sistema lógico da natureza. pois trabalha com objetos físicos em sua particularidade.

1984). 1974) na reflexão geográfica marcou o desenvolvimento da cartografia. representada pela obra de arte e a construção de um juízo estético. porque mediada pelo juízo reflexivo. preocupando-se com a diferenciação espacial e com o sublime da natureza. É neste momento. O papel do juízo estético (May.ANTONIO CARLOS VITTE para a Geografia enquanto uma física empírica. mas uma natureza representada. a Geografia Física ao produzir uma hierarquia ou ordem da natureza apareceria mais como produto final do conhecimento. na qual haveria uma unidade ecológica do inorgânico com o orgânico. propunha trabalhar a Geografia como uma experiência do mundo sensível. em que buscava justificar sua teoria da natureza. ao mesmo tempo. e acabaram por produzir uma nova cognição do fato observado. que a Europa é despertada para a variedade geográfica da superfície da Terra. por exemplo. além de fornecer argumentos empíricos em prol de uma finalidade da natureza. a Geografia Física foi classificada como um sistema empírico da natureza. que poderiam ser ordenados segundo leis necessárias e universais. o nascimento do conceito de paisagem na geografia moderna (Stafford. mas era um 16 . não mais mecânica. a Geografia Física como um sistema empírico da natureza permitiria a delimitação do território da experiência humana e. que era concebida muito mais como uma teoria do conhecimento da natureza. inserida em seu sistema filosófico. permitindo. particularmente a partir dos trabalhos dos artistas que acompanhavam as expedições dos naturalistas e que trabalhavam nas ilustrações científicas. Portanto. sendo que esta variedade deveria ser retratada pictórica e cientificamente. forneceria dados empíricos. gerando uma individualidade fenomênica que deveria ser teorizada. assim. As reflexões kantianas sobre a Geografia Física e a inserção dela no sistema kantiano como um todo revelam o quanto ela participou do processo de mediação entre o homem e a natureza e que culminou na Terceira Crítica. Assim. A concepção que se desenvolveu foi a de uma visão cósmica do mundo. feitas de uma maneira prática na qual ressaltavam e documentavam as atividades e os objetos de interesse da expedição. Para Kant. A obra Geografia Física de Kant (1999). Na interpretação de Capel (1978). procurando com isto destacar o papel do homem enquanto sujeito do conhecimento. a relação transcendental-empírico não seria apenas retratada nas pinturas de paisagens. os fenômenos.

cujo objetivo maior é a dominação social. na modernidade a máquina enquanto símbolo tecnológico tem a propriedade de retirar todo que qualquer dom natural dado no fenômeno. os ideais deste processo emancipador foram capturados e submetidos à órbita do mundo burguês e de sua temporalidade. SÃO PAULO. 17 . como trabalhada na filosofia kantiana e Schellingiana. no modo de produção capitalista. isto é. nº 85. IV – DA SAUDADE TRANSCENDENTAL AO PROCESSO DE REIFICAÇÃO: A RACIONALIDADE INSTRUMENTAL E A DOMINAÇÃO DA NATUREZA Na concepção kantiana. Na sociedade moderna. pois segundo Horkheimer (1937) a dominação racional da natureza significa a subordinação dos processos sociais à planificação. p. a geografia tinha uma função especial. Segundo Horkheimer (1937).BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 2006 dever localizá-las na superfície da Terra. E esta dominação está fortemente relacionada com o manejo instrumental da natureza. onde a noção de gênio. a dominação é uma categoria crucial e que possui na ciência um de seus pilares fundamentais. a racionalidade capaz de eliminar o funcionamento meramente caótico do aparato social. Para Stafford (1984). No entanto. a melhor expressão para designar o período é a de cientista explorador-artista-escritor. 7-27. com o desenvolvimento de ferramentas e de modos de produção. Se o jovem Marx (2003) considerava o trabalho como um processo de progressiva humanização da natureza e ao mesmo tempo. a própria emancipação da humanidade. Segundo Ernst Bloch (1996). materializada pela troca econômica. o domínio técnico da natureza envolve o conhecimento das leis naturais. sendo esta diversidade a materialização do noumeno kantiano. acabou acontecendo o contrário. banindo do horizonte da civilização uma totalidade harmoniosa como aspiravam os filósofos da naturphilosophie. Neste período devia-se criar uma nova representação do mundo e era a arte quem deveria estruturar as referências científicas e normativas do mundo. o estabelecimento de uma organização social mais racional dos homens entre si e com a própria natureza. foi melhor visualizada pela humanidade. pois fundamentava uma visão de mundo iluminista e auxiliava na manutenção da modernidade.

As relações com a natureza passaram a ser vistas como que marcadas do começo ao fim pela dissensão. Esta premissa. 18 . A civilização originou-se e evoluiu mediante a opressão violenta da natureza. que para Horkheimer (1937) está desprendida do sujeito no processo histórico e distanciada do mundo. permitindo a dominação do mundo animado e do inanimado. uma vez que cada vez mais as ciências se especializam e ao mesmo tempo são identificadas com a sua utilização tecnológica e produtiva. A razão instrumental moderna constitui-se mediante a ordenação sistemática dos fatos de nossa consciência. a razão passou a ser na modernidade um instrumento de reificação. Seu requisito é o da identidade com a natureza de modo que os fatos possam ser sempre previstos a partir do sistema científico que por sua vez deve ser confirmado a partir dos fatos. Cada vez mais o mundo e os sujeitos são dominados por uma razão subjetiva. onde a dominação progressiva tanto da natureza interior quanto da exterior permite o triunfo do modo de produção sobre a natureza exterior. Para Horkheimer & Adorno (1985) o sistema científico é capaz de lidar eficientemente com os fatos. O problema que se coloca ao cientista social é a organização social do domínio técnico da natureza. porém este domínio é simultaneamente o controle e a subjugação de sua natureza interior. abandonando as potencialidades a filosofia e da arte na compreensão do mundo. pois na modernidade a auto-conservação é o fundamento de todo o projeto civilizacional. sendo apenas um mero material. tudo aquilo dotado e desígnios próprios e que escapa de nossa determinação conceitual e material.ANTONIO CARLOS VITTE Para Horkheimer (1937). Horkheimer & Adorno (1985) acreditam que se efetiva para além da consciência humana. mas ao mesmo tempo perdendo a capacidade de compreender e determinar os próprios fins. na modernidade. 1985). levando a um constante processo de desencantamento do mundo. se faz ao preço da crescente supressão da própria natureza humana. Assim. Segundo a Teoria Crítica. mediante seu recalcamento. a natureza é condição transcendental do processo civilizador. O Homem emancipou-se da condição natural no curso da civilização pelo domínio da natureza. onde o progressivo desenvolvimento das forças produtivas ao mesmo tempo que garantiram um crescente triunfo do sujeito sobre a natureza externa. a natureza é tudo aquilo que nos domina. (Horkheimer & Adorno.

acarretando a ilusão de não há fronteira entre a humanidade e a natureza. dando a impressão que as duas esferas estão fundidas em um único movimento. significando dizer que a mesma razão que o liberta. pois ao mesmo tempo em que a razão instrumental permite uma maior liberdade do Homem frente às forças da natureza. Mas o paradoxo se instala na sociedade moderna. p. pois a razão se refere agora exclusivamente a um objeto ou a um conceito em relação a um dado e não a uma particularidade do objeto ou do conceito. conduzindo a reificação do ser vivo. por outro lado a transformação da natureza que atualmente não tem limites volta-se contra o homem. 2000) em que a natureza era vista como alteridade que é superada pelo espírito através da energia da razão. 1985). a ponto de poder ter controle sobre alguns fenômenos. cujo programa era liberar o mundo da magia (Horkheimer & Adorno. por meio da razão instrumental o homem desejou a natureza como diferente e necessário para a sua realização e autoafirmação. nº 85. Este processo de inversão do significado da razão. pois por ser diferente e contrária ao homem inspirava o medo e a necessidade de sua superação. mas podemos situar a problemática relativa à natureza na filosofia hegeliana (Hegel. Pois atualmente o desenvolvimento da racionalidade econômica confunde-se cada vez mais com o desenvolvimento da racionalidade tecnocientífica. a mediatização do mundo através de uma razão que o instrumentaliza para a dominação constante do Homem sobre a Natureza produz a catástrofe. também o condena.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. que implicava na compreensão e na determinação dos fins. acarretando uma instrumentalização universal do próprio mundo. 7-27. Assim. acaba por gerar e solidificar a reificação da sociedade e da natureza. pois a racionalidade é concebida como adaptação. onde o ato de pensar já não serve para discernir a validade de um objetivo. esta razão pragmática preocupa-se em definir o uso correto e os meios necessários para conseguir um fim. cuja regra prática foi a de conhecer para dominar. transforma-se em natureza “desnaturalizada”. Assim. 19 . por meio da racionalidade científica. Pois o mundo agora é aquele onde tudo serve para algo e tem que ser útil para ser reconhecido como real. como coincidência com a realidade estudada. SÃO PAULO. provocando a catástrofe. A base mais uma vez está no Iluminismo. A tecnologia permite cada vez mais a apreensão intelectual das leis e dos processos naturais que. Atualmente. 2006 Este tipo de razão acarretou uma série de transformações na maneira como se compreendia a realidade.

A multiplicidade de fatos e fenômenos. 1993). particularmente da metafísica da natureza. No entanto. E é dentro deste contexto que Kant concebe a geografia física. é a partir da filosofia kantiana. particularmente as obras de Alexander von Humboldt. pois enquanto domínio da razão especulativa. sendo necessário um novo conceito e uma nova figura de natureza. segundo Kant. a mesma passa a ter uma consistência ontológica e concebida enquanto sistema. Assim. havendo uma autêntica ciência da natureza somente se houver correspondentemente uma metafísica da natureza que lhe dê suporte. não resolvia o problema da multiplicidade das leis empíricas. V – A GEOGRAFIA E A CO-PRODUÇÃO DA NATUREZA Como visto até agora. o desenvolvimento do modo de produção capitalista e de uma nova racionalidade. enquanto um sistema empírico da natureza. de tal maneira que a imagem de natureza preservasse o saber científico e eliminasse. mais do que nunca. a natureza deve ser pensada sob o prisma da metafísica. mais particularmente a partir dos Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza (1990) e da Crítica da Faculdade do Juízo (1999a) que a natureza passa a ser pensada metafisicamente e que fundamentará o nascimento da geografia física moderna.ANTONIO CARLOS VITTE Hoje. que fundamentado no juízo teleológico e estético reflexionante (Vitte. agora técnico-científica e 20 . a imperfeição da chamada multiplicidade não totalizante das leis empíricas (Kant. para Kant. assim como as especificidades e as contingências da natureza. no final de sua reflexão. 1999a). 2006) permitiria a descrição e a explicação da natureza a partir de seus processos e de suas formas (Livingstone. a natureza e os seus processos visualizados de maneira paradoxal pelas recentes catástrofes e desastres passaram a exigir da sociedade um posicionamento e também respostas filosóficas sobre o seu ser e o seu estar. Se no início das reflexões kantianas a natureza ainda é concebida a partir de rígidos conceitos derivados da matemática e da física. 1995. obrigou Kant a repensar muitos fundamentos da metafísica. perguntas que remetem a uma reflexão sobre as relações da sociedade com a natureza e exigem das ciências uma outra postura filosófica e social. já na Terceira Crítica.

atribuindo ao homem a potência de criação. Segundo Martin Heidegger (1971. de humanos e nãohumanos. por onde flui a situação angustiante do homem. subsumindo nelas as relações entre a natureza e a cultura. onde a natureza passa a ser vista como uma reserva de matéria-prima. Outra implicação da concepção de natureza enquanto objeto é que esta consideração. 7-27. SÃO PAULO. ao mesmo tempo em que a ciência moderna substitui a metafísica. Quando na realidade a ciência geográfica constitui-se enquanto corpo explicativo e justificador de uma nova cosmologia agora moderna (Gomes. a partir da constituição da metafísica da natureza e de sua interlocução com a ontologia e com a estética moderna. são capazes de problematizar as relações entre o mundo humano e o não-humano. misturas em vários graus de natureza e cultura.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 1993). isto é. que a natureza vem sendo compreendida dentro da geografia como um objeto (Santos. num trabalho incessante de mediação. compreendidas como híbridos. nº 85. esta situação é dada porque na modernidade o homem especializou-se em criar híbridos. 2006 instrumental. Para Bruno Latour (1994). por outro lado. em cada vez mais a subjetividade humana se desvencilha e se põe fora da natureza. cujo valor reside somente em atender aos desejos humanos. não considera para efeitos de análise a morfodinâmica. assim como a de que a natureza trabalha com tempo longo. Para Michel Serres (2000). se desenvolve concomitante ao processo de compressão espaço-temporal (Harvey. 1973). pois ao mesmo tempo em que transgride. 1997). abrindo canais. pelas próteses informacionais. entre o humano e o divino. que como diz Bataille (1973). tanto a técnica quanto a tecnologia favorecem a saída de si. concepção que é uma herança goethiana e que 21 . 1992). a dessubjetivação e a desteleoligização do objeto da ciência natural moderna estão ligadas à técnica moderna. A nosso ver. constitui um ultraje e uma transgressão. p. pois se o desenvolvimento das próteses informacionais. 1978). criando uma situação ao mesmo tempo dialética de totem e tragédia (Freud. a compreensão da natureza como objeto retira da mesma toda a historicidade e mais é como se na história da constituição da ciência geográfica e na formulação da teoria geográfica não houvesse a participação da natureza. criando um paradoxo. esta cultura contemporânea permanece ligada a hybris do período arcaico grego. É dentro do contexto da modernidade. marcado pela aceleração espaço-temporal.

que segundo Schopenhauer (2005) tem a propriedade 22 . mediada pela descrição e contemplação e cujo produto final redunda na pintura de paisagem. cit.) caracteriza-se por apresentar uma unidade. Vale destacar que a Geografia é uma das primeiras ciências a incorporar o novo conceito de matéria que passou a perdurar a partir de meados do século XIX e que foi incorporada na obra Kosmos de Alexander von Humboldt (Vitte. é ignorar a ação processual que dá vida e governa os objetos naturais e muitas vezes é responsável pela modelagem e funcionamento da paisagem atual. 2006). que segundo Ricotta (2003) esta explicação em Alexander von Humboldt é construída a partir de um “livre jogo” entre a imaginação e a linguagem. que possui um passado natural indeterminado e que se realiza em formas. a matéria que pode ser empiricamente transformada no espaço e no tempo. A matéria passou a ser concebida como materie. uma identidade marcada por uma polaridade entre o ideal e o real e que se realiza materialmente por uma produtividade geradora de processos e formas em várias escalas e cujo produto é a multiplicidade e a diversidade de seres e formas. uma das grandes propriedades da naturphilosophie e particularmente as reflexões de Schelling foi a de dar visibilidade fenomênica à natura naturata. ou seja. um processo. a materie transforma-se em Stoff. ou seja. permitindo um grande avanço na metafísica da natureza desenvolvida pela naturphilosphie (Schopenhauer. em morfologias que possui uma história determinada pelo sujeito humano (Vitte. As reflexões de Schelling (1856/1861) em sua filosofia-danatureza e a partir de sua interlocução com Goethe e Alexander von Humboldt foi a de abordar a natureza como um vir-a-ser. Caberia então ao geógrafo-naturalista explicar esta multiplicidade e diversidade de fenômenos e de sua espacialidade. Segundo Schopenhauer (2005) e Horkheimer (1990). portanto geradora de formas e estando sujeita à causalidade e às condições do conhecimento (Schopenhauer. 2001.ANTONIO CARLOS VITTE Humboldt irá concebê-la como sendo o produto da dialética da geoesfera. sujeito puro da representação e livre de toda e qualquer causalidade determinante da ligação entre o espaço e o tempo. 2005). Quando intuída e trabalhada pela Vontade. 2005). 2005). É da Stoff que se origina a forma. caracterizadas por apresentarem uma espacialidade. A natureza para Schelling (op.

como a geomorfologia. 23 . Um dos problemas que se coloca hoje para os geógrafos é como tratar a questão da temporalidade dos processos naturais e dos processos sociais. na concepção de georelevo. está relacionada às determinações e contradições do modo de produção capitalista. 2006 metafísica de estabelecer as ligações entre o espaço e o tempo e que pode ser intuída e representada na pintura de paisagens. realçada pela questão ambiental.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 2001). a questão ambiental. dentro das estruturas curriculares dos cursos de geografia. como a abordada pela ciência geográfica. que a discussão sobre a natureza e a implementação prática de muitas disciplinas. têm sua gênese na filosofia-da-natureza e na estética. p. particularmente. na jardinagem e na arquitetura (Barboza. A nosso ver. nº 85. é a partir deste contexto que as reflexões de Alexander von Humboldt irão convergir e ao mesmo tempo instrumentalizar estas discussões da metafísica da natureza. seja a de edificar uma teoria geográfica que mantenha uma base e uma interlocução constante com a filosofia. SÃO PAULO. Compreendemos que uma das tarefas neste novo século. atentem-se para o fato. Schpenhauer. pode potencializar a construção de uma nova utopia social-natural. 2001. A nosso ver. 7-27. perfis horizontais e verticais. mais do que uma demonstração do processo de reificação. em que o Sujeito é hipertrofiado e para a problematização desta temática faz-se necessário uma retomada de categorias e conceitos e suas interconexões com a filosofia e as análises devem estar fundamentadas em uma concepção Metafísica. isolinhas e na cartografia temática como veículo de representação da espacialidade da materie. Para Leff (1986) a natureza deve ser incluída como uma categoria importante e fundamental para o desenvolvimento social e das forças produtivas e que o fato de a mesma ser encarada como sendo apenas um objeto colocou a sociedade contemporânea frente a uma grande contradição. onde a questão ambiental. Para Schopenhauer (1993) a obra Kosmos de Alexander von Humboldt demonstrava empiricamente que o espaço era a forma essencial da materie enquanto substância e que o conteúdo de Kosmos demonstrava a interlocução entre a metafísica da natureza e a metafísica do belo podendo ser cientificamente representada pela cartografia. as disciplinas ligadas à geografia física. de tal maneira que a natureza e os processos naturais possam ser incorporados no contexto da dialética social.

ANTONIO CARLOS VITTE Mais do que uma volta ao idealismo alemão e à naturphilosophie. tem implicação direta na constituição da geografia física moderna. inorgânicas. identificou uma relação metabólica entre a sociedade e a natureza. com a pressuposição de uma suposta harmonia homem-natureza. São Paulo: FFLCH-USP. com a libertação de ambos frente ao modo de produção capitalista. 2000. ou é o resultado de um processo histórico. que foi reificada com a separação campo-cidade no modo de produção capitalista levando à alienação da natureza. A Metafísica do Belo de Arthur Schopenhauer. a premissa que partimos é a de que a harmonia deve ser uma construção e portanto urge a reconstrução filosófico-geográfica do que entendemos por natureza e por suas relações com a sociedade. Jair. assim expressa nos Grundrisses: “Não é a unidade da humanidade viva e ativa com as condições naturais. e daí a sua apropriação da natureza. p. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOZA. mas a separação entre estas condições inorgânicas da existência humana e esta existência ativa. Uma vez que uma relação social é uma relação dos homens para com os homens e para com a natureza. São Paulo: Humanitas/Fapesp. uma separação que é integralmente postulada apenas na relação do trabalho assalariado com o capital” (Marx. Eduardo Salles de Oliveira. 1973. Para Ernest Bloch (1996). 2001. De Newton a Kant: a metafísica e o método da ciência da natureza. em que seria formada por uma nova aliança técnica entre a natureza e o sujeito. da sua troca metabólica com a natureza. por exemplo. Tese de Doutoramento em Filosofia. deve-se compreender a processualidade do mundo e do ser onde não há sistema acabado. que requer explicação. que a nosso ver. Marx (1973). 24 . uma das possibilidades de se reconstruir esta falha metabólica entre a sociedade e a natureza é por meio da noção de co-produtividade da sociedade para com a natureza. 489). Para tanto. sendo necessário a reconstrução de uma filosofia da natureza. BARRA.

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28 .

Dividir. quando do advento da revolução Industrial (séc. predominante nesse momento. Os ritmos da natureza se articulavam aos ritmos da produção da vida. emerge uma construção. ou seja. Trata-se de refletir sobre os fenômenos geográficos de forma a contribuir para sua visão não compartimentada entre as duas dimensões presentes na construção destes mesmos fenômenos: a natureza e a sociedade. considerando-se que um mundo em transformação exigia que a natureza fosse pensada em separado da natureza humana e onde o homem fosse pensado como um ser central catalisador dos benefícios provenientes daquela. Muito já se escreveu para informar que a ciência e a filosofia desde o Renascimento acalentaram um debate cuja intenção dizia respeito à necessidade da época. Esta visão gradativamente deixa de interessar. explorando ou manipulando. aquela que fundamenta a construção científica desde então. a separação da natureza do homem e do próprio homem em corpo/natureza alma/divindade desde Descartes. Não é preciso dizer que esta construção alicerçou nossa forma de pensar o mundo e de construir conhecimento e resultou num outro momento.UM ANTIGO DEBATE (A DIVISÃO E A UNIDADE DA GEOGRAFIA) AINDA ATUAL? Dirce Maria Antunes Suertegaray1 O tema que nos solicitaram abordar em caráter de ensaio é tão antigo quanto a própria geografia e tão atual quanto sua necessidade de reflexão. 29 .UFRGS. 1 Professora do departamento de Geografia . Esta apresentava na sua cosmovisão uma construção onde espaço e tempo eram indissociáveis. na perspectiva de ampliar o processo de produção e descoberta de novos mundos. analisar para explicar fenômenos e ou processos e na continuidade intervir. qual seja desconstruir a visão orgânica de mundo. Desta necessidade material. Tratava-se do ponto de vista filosófico e científico de dividir para dominar.

Entretanto. desde sua origem. teria sido para permanecer no contexto. originariamente. da lógica globalizante a partir da construção do conceito de geossistema. construído pelos russos (Sotchava 1977) e. deparam-se os geógrafos com questões. mas com certeza relevantes. Esta divisão não teria sido para dominar?! Aparentemente. que esta ao não dispor de uma teoria e de um forte paradigma. em nosso entendimento. Para este autor o conceito de ecologia formulado por Haeckel em 1866 permanece o mesmo. como ciências de conexão. dividida em Geografia Física e Geografia Humana. em particular. em particular a Geografia Física. a Geografia coloca-se. Nenhuma delas teve seu espaço plenamente assegurado nesse momento. particularmente na França. na França por Bertrand (1972). nesse momento histórico. Ao considerar-se a ciência do estudo das relações entre os seres vivos e o meio. pelo menos. duas ciências se colocaram para o conjunto científico. indica. e em particular no momento de sua autonomia (séc. só ganha espaço nos anos 60/70 do século XX. Na segunda metade do século XX aproxima-se. Observa-se que quando da autonomia da Geografia. Contrariando. torna-se um conhecimento eclético. Conceito. Diante desta realidade desde o século XVIII/XIX. Este contribuiu com a fragmentação/compartimentação do conhecimento desde o momento em que propôs uma classificação científica e indicou a necessidade de cada ciência definir seu objeto de estudo ou o fenômeno natural ou social de seu interesse. Estamos nos referindo. Embora tenha sistematizado esse conceito e proposto uma Geografia Física unitária e o próprio Bertrand (1982) que afirma “a geografia física 30 . ao positivismo. a ecologia se pensa unitária e global. A ecologia para Dollfus (1982). esse autor. A Geografia. historicamente. como uma ciência de interação entre natureza e sociedade. postulante desta perspectiva e a nascente Ecologia. a doutrina científica que gradativamente tornava-se hegemônica.DIRCE MARIA ANTUNES SUERTEGARAY XVIII). Uma dessas questões diz respeito à compreensão geográfica ou ao entendimento de seu campo de estudo. Na prática ela se construiu a partir daí. A Geografia manteve-se a partir de sua própria divisão. numa construção científica que efetiva esta forma de pensar. XIX). aqui. aparentemente banais. Acrescentando que a utilização da teoria dos sistemas parece fornecer à ecologia os instrumentos conceituais necessários.

desde meados do século XIX até a segunda metade do século XX. as que dizem respeito à espacialidade e às intervenções humanas. são resgatadas para veicular uma compreensão mais totalizante dos fenômenos contemporâneos. recentemente. entretanto. Ao resgatar o conceito de paisagem. e da Geografia que se mantém a partir da divisão em dois campos (Geografia Humana e Geografia Física) ao longo deste mesmo século. São. Nesse sentido pode se dizer que estes dois campos do conhecimento não conseguiram uma afirmação no conjunto das ciências puras durante o século XX. Entretanto. paradoxalmente. Paradoxalmente. No Brasil temos em Monteiro (2000) a expressão máxima da geografia brasileira na constituição de uma perspectiva Geossistêmica diferenciada de Bertrand e articuladora dos constituintes naturais e sociais no tempo e espaço. Afirma na continuidade de sua análise que a Geografia Física não constitui um todo e também não é parte de um todo. p. expressam uma posição contrária ao caráter da ciência dominante. purificar seu objeto. A Geografia como ciência das conexões entre natureza e sociedade e Ecologia como ciência das conexões entre os organismos vivos e seu meio. respondendo pela emergência da variável espacial na identificação 31 . SÃO PAULO. na intenção de construir um conhecimento articulador baseou-se no conceito de sistema. a Geografia. a Ecologia se propõe a incorporar dimensões não tratadas em suas abordagens clássicas.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 1984). Geografia e Ecologia se colocaram como ciência das conexões. essas duas ciências que mais. Este por sua vez proveniente da Biologia. De um lado a Ecologia respondendo em parte pela demanda atual da sociedade: a questão ambiental. nº 85. conforme Latour (1984). 2006 não existe enquanto corpo científico constituído”. Esta buscou ao longo da modernidade. Esta tem na sua origem a construção do conceito de clássicos da Geografia a exemplo do conceito de paisagem com base em Troll (1982). Nesse particular cabe ressaltar um novo campo da Ecologia. 29-38. no quadro científico. Sua indicação encaminha a discussão sobre a possibilidade do uso do conceito de Geossistema como passível de articulação dos elementos da natureza ao mesmo tempo em que aborda os limites deste conceito no campo da análise social. entre elas. As dificuldades de percurso vivenciadas pela Ecologia que não se fortaleceu. a denominada Ecologia de Paisagem (Zimmerer. a Geografia como ciência de valorização do espaço e das conexões entre os fenômenos.

A produção do espaço urbano. SÍTIO E PRODUÇÃO DA CIDADE O sítio urbano constitui um conceito clássico da geografia urbana. portanto. ele pode ser resignificado e ser compreendido como o espaço fisicamente produzido. no caso da Geografia. o local onde se assenta a cidade. entretanto. Independentemente desta configuração ou da necessidade premente. não é harmônica. portanto. de um retorno à sua origem. em grande parcela. pela materialidade construída. como o exemplo. Por longo tempo estudamos através deste conceito os elementos naturais sobre o qual uma cidade era produzida. o setor privado. Hoje poderíamos dizer que este conceito é pouco valorizado. Essas 32 . as formas criadas e ser interpretado através dos processos envolvidos na produção da cidade. O esforço de unificação. por sua vez. a Geografia ainda se expressa dicotomizada. seja na sua perspectiva clássica. a realidade científica ainda se coloca compartimentada. é contraditória. seja na sua perspectiva mais recente. está tão atual como sempre esteve no debate geográfico. As conexões são possíveis. sem agenciamento público ou privado.DIRCE MARIA ANTUNES SUERTEGARAY dos problemas sociais e ambientais tem na sua análise um diferencial em relação ao ecológico. As formas criadas a que nos referimos decorrem de processos de ordem natural e econômico-social. Os processos naturais são relativos à dinâmica da natureza modificada ou intensificada. resulta de demandas específicas em conflito. diferentes agentes: o setor público. Entende-se na sua construção original como o receptáculo. destacando-se os pobres e os excluídos como agentes de apropriação e construção do espaço urbano. e a população representada pelas diferentes classes sociais. Em que pese toda a discussão contemporânea sobre a necessidade de valorização do espaço. A dinâmica econômico-social é relativa aos processos que possibilitam a origem de novas formas de interface com a dinâmica da natureza. de resgate das conexões e da articulação sociedade – natureza – cultura. são tangíveis. alterando-a. em especial os agentes imobiliários. trazemos um tema derivado de nossa experiência de pesquisa: o exemplo da Geomorfologia Urbana. nas cidades. A produção da cidade envolve.

cultural etc. Neste caso. . nº 85. constituído de túneis. as modificações em orlas lacustres ou marinhas. são muitos.O setor público. Estas demandas e conflitos geram espaços de produção urbana diferenciados e recriam o sítio com a produção da cidade. a canalização/retilinização de arroios e rios. 33 . 29-38. Os exemplos. Apenas para citar alguns lembramos: a construção de aterros. expansão de áreas planas por aterramento ou aplainamento. soterramentos de cabeceiras fluviais. Estas formas ainda são pouco estudadas no campo das Geociências. entre outros. 2006 demandas. o aplainamento de áreas de dunas. formas criadas a partir da relação entre poder público e setor privado estão associadas a interesses relativos à melhoria da infra-estrutura urbana e/ou produção de espaços de residência. p.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. comércio. os desvios de arroios e ou rios. entre outras. a quem cabe o planejamento da cidade sob os aspectos de infra-estrutura e serviços entre outros. produção industrial. feição geomorfológica elevada construída no interior da planície do rio Gravataí).Os agentes imobiliários. a construção de túneis. para classes altas e médias. de forma generalizada. por iniciativa própria e de acordo com suas condições. também ocorrem ocupações irregulares. SÃO PAULO. expressos na literatura e em particular nos estudos geográficos. de baixa renda e de excluídos. consumo e circulação. a quem cabe produzir o espaço de moradia. Hoje estas formas vêm sendo denominadas de tecnogênicas. mudança na forma dos canais fluviais. a quem cabe a produção dos espaços de moradia (aos segmentos com poder aquisitivo alto e médio e os realizam de acordo com suas demandas). São formas e ou depósitos resultantes da interação da dinâmica da natureza com a dinâmica social. Constituem ao que se referiu Santos (1997) como próteses ou artificialidades. no âmbito da apropriação e acumulação de capital. . o “engordamento” de praias. como os morros (morretes) derivados da acumulação de lixo (a exemplo do Aterro da Zona Norte/ Porto Alegre. podem ser indicadas como: .. Ao mesmo tempo em que esses espaços se produzem. geralmente em áreas de planície de inundação e ou áreas de morros. constituição de novas formas de relevo.A população pobre. cada vez mais são observáveis e cada vez mais exercem rugosidades na produção do espaço. Disto resulta um novo sítio urbano. As chamadas áreas de risco. Mas.

Trata-se de novas formas de promover a organização do território. Propõem tomadas de decisão partilhada entre os diferentes segmentos sociais participantes dos comitês de gestão e ou orçamentos participativos.. à propriedade. Os 34 . e mais representativa. por exemplo. aos serviços. Diz respeito à valorização do conhecimento técnico-científico como mediador das políticas de ordenação territorial. Gestão pode ser entendida como uma dimensão do planejamento que deriva da desconstrução da idéia de planejamento centralizado. Estas poderão se constituir em formas de planejamento democrático ou poderão ser a expressão das políticas de continuidade do poder instituído. Laudos Periciais Ambientais. Implicam em considerar os impactos ambientais e suas conseqüências à população envolvida. Por desconstrução do planejamento centralizado entende-se a busca de uma forma de planejar ampliada. Diagnósticos Ambientais. à cidade. a exemplo de suas atuações nos EIAs/RIMAS. em relação aos diferentes agentes sociais. considerando as demandas das populações envolvidas. Nesse contexto a gestão se utiliza de estratégias técnico-científicas. à qualidade ambiental e ao bem estar social. Este caminho. Estes instrumentos constituem hoje fundamentos da gestão territorial. diminuição da insolação nas residências. é o mais controvertido e na maioria dos casos não temos necessariamente a população envolvida nas diferentes fases de implantação de um empreendimento. deslizamentos ou quedas de blocos etc. revestimento/impermeabilização de superfícies (asfaltamento) e em conseqüência alagamentos e ou sob outras intervenções os desmoronamentos. onde a estrutura de poder se estrutura de forma mais ampliada (relações de poder). posto que constituem documentos com vistas a subsidiar tecnicamente a discussão política. temos impactos ambientais significativos como: ilhas de calor. à infraestrutura.. o da participação. Indicam a necessidade de permitir o acesso. Aqui tem-se a possibilidade do trabalho do profissional da Geografia. Essa forma de gestão demanda conhecimento prévio do problema. Esta realidade exige estudos. Portanto cabe fazer referência ao significado de gestão. Pareceres Ambientais.DIRCE MARIA ANTUNES SUERTEGARAY Associados a estas formas e às alterações daí decorrente dos processos naturais. que poderá atingir um consenso em termos políticos a partir de uma construção mais alargada das relações de poder. compreensão/explicação e gestão. poluição do ar. sustentado em diagnósticos técnico-científicos.

daí acreditarmos na necessidade de re-ligação da Geografia. na grande maioria das vezes. O exemplo das transformações do sítio não quer dizer que o único caminho de entendimento da cidade na busca de articulação seja este. desde os diagnósticos. p. de remoção de pessoas de uma área para outra. Sob qualquer perspectiva. p.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. passando pelos monitoramentos e indicação de medidas mitigadoras. tratamos de natureza artificializada. em que fica evidente a busca de articulação de diferentes constituintes do espaço geográfico. das desapropriações de terrenos. 29-38. Ao atentarmos para nossas práticas veremos que grande parte do conhecimento da natureza feita hoje se articula com a dinâmica social na busca da explicação dos impactos ambientais. resgatamos algumas reflexões para o conjunto da construção do conhecimento. contribuiu para a verticalização do conhecimento. quando das análises ambientais estamos trabalhando a partir de uma artificialização. Está é expressão do nosso tempo. portanto. os balizadores. das revitalizações. POR QUE É NECESSÁRIO UNIR? Tentando responder esta pergunta. Resulta.em que o Modo de Produção Capitalista e por extensão a cultura ocidental. Este exemplo diz respeito ao campo ambiental e expressa uma das formas. . ao separar o homem/sociedade da natureza e buscar purificar os objetos científicos. 2005. 15-16). Este é também um indicativo da demanda contemporânea em pesquisa. 35 .onde o descolamento da concepção de tempo em relação ao espaço promoveu a subordinação da natureza à lógica da reprodução do capital além da crença no desenvolvimento técnico-científico como possibilidade de recriação da natureza. necessário assumirmos esta discussão.. promoveu a cegueira no âmbito das conexões. nº 85. Em meu entendimento sob qualquer perspectiva. é necessário unir porque vivemos um momento histórico: . (Suertegaray. hoje. portanto.. mas. SÃO PAULO. ao mesmo tempo. 2006 instrumentos técnicos são. por exemplo. Refletindo sobre nossa atividade tenho compreendido e neste sentido acompanho as idéias de Milton Santos.

onde a reinvenção técnica da natureza. E ainda.DIRCE MARIA ANTUNES SUERTEGARAY . O CAMINHO DA UNIFICAÇÃO A reunião dos fragmentos do ponto de vista científico vem sendo proposta em termos operacionais através de conceitos como interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Esta evidência vem sendo resignificada sob a perspectiva de valorização das diferenças culturais. ou seja. ou a segunda natureza. que. ou melhor dizendo. sobre a produção social da “natureza”. A transdisciplinaridade. em meu entendimento. desde que entendida de forma diferente da forma concebida mais normalmente. apresentando-se sob as mais variadas escalas indicam a necessidade de discussão sobre a relação natureza–sociedade. No contexto atual este debate diz respeito à epistemologia científica. pela sua história e construção. seria um caminho possível. 36 . não constitui esta a única forma de reflexão e ação do homem em seu viver com a natureza. A experiência interdisciplinar é algo complexo de realizar e internamente na geografia não é diferente. aceitando-se um pensar que relacione natureza e cultura. Neste sentido. considerando-se que a separação entre homem e natureza constitui fundamento filosófico da filosofia judaico-cristã que sustenta o pensar e o agir do mundo ocidental. como possibilidade de cada um colocar-se no lugar do outro na busca da compreensão ampliada de sua disciplina. ou os múltiplos olhares sobre um mesmo objeto. os chamados objetos artificiais (a exemplo dos sítios urbanos). objetivando desvendar as articulações não reveladas entre a natureza e a sociedade. como transcendência. que se manifesta nas sucessivas próteses construídas pelo mundo. deve estar presente nesse debate. A transdisciplinaridade a que me refiro significa mais do que o horizonte para além das disciplinas. A transdisciplinaridade que acredito ser possível trilhar na perspectiva de busca de articulação é por mim entendida como capacidade de trânsito. a Geografia. Mas não só ao debate lhe cabe uma parcela. inúmeros são os intelectuais e cientistas que indicam a necessidade dessa conjunção. Sua tarefa maior é sem dúvida reunir seus fragmentos e construir-se unitária. ou a construção do objeto único.

que resulta do longo processo de socialização da natureza pelo homem. Entretanto. não nos libertamos. p. entre os fragmentos geográficos. 2005. lhe cabe uma posição diferente daquela da modernidade. entre outros. SÃO PAULO. como já afirmou Leff (2001). Portanto. Processo este que. Não é por outra razão que os geógrafos devem ser estimulados à reflexão. Ou seja. Sob uma perspectiva conceitual. O saber ambiental no âmbito geográfico nos permite. nesse momento histórico. mas não é o único. sob uma determinada perspectiva. enquanto uma tecitura de constituintes naturais e humanos. Ele propõe recriar um saber ambiental que responda pelas necessidades atuais. transforma. ao propor restaurações. mais particularmente. a crise ambiental é uma crise do pensamento. ao mesmo tempo em que transforma a natureza. como o exemplo dado pelo conceito de sítio urbano. (Suertegaray. promover a análise complexa. dado que o espaço geográfico pode se manifestar pela ótica de outros conceitos como paisagem. embora a busca de articulação. esta é em nosso entendimento a questão central.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Pensar o ambiente em Geografia é considerar a relação natureza/sociedade. da filosofia norteadora de nossa cultura. mais próxima da fronteira. posto que é na fronteira do conhecimento que os fenômenos se tornam híbridos. O fato de buscarmos a articulação não nos isenta de. ou seja. almejarmos o domínio da natureza. qual seja o centro de seu campo específico. Costumo dizer que. reconstituições e ou recuperações. uma conjunção complexa e conflituosa. também. aquela que pensa a natureza como externalidade. território. promover as conexões. ao investigador. temos capacitação para realizar algumas conexões. É condição para a construção do diálogo entre disciplinas e. 37 . a natureza humana. A experiência de construção ambiental tem demonstrado a possibilidade de pensarmos o espaço geográfico através do conceito de ambiente. 2006 a capacidade de transitar pelos diferentes campos é algo a ser buscado. 29-38. as exigências de nosso mundo exigem uma posição diferente. Este constitui um conceito capaz de desvendar articulações. internamente à geografia. pensar o ambiente na Geografia e pensá-lo enquanto um processo de complexas mediações com significativas implicações na vida das pessoas em relação a suas condições fundamentais de existência. nº 85. inédito).

L’ecologie est morte. SOTCHAVA.V. MONTEIRO. 9-19. Métodos em Questão nº 16. B. 51. São Paulo. nº 13. 38 . USP. Écologies/ Géographie. 240 p. F. p. Paisagem e Geografia Física Global: um esboço metodológico. 2005. p. São Paulo: Cortez Editora. JIMENEZ. 2000. ZIMMERER. LATOUR. Rio de janeiro: Editora 34. 2º Edição. A Natureza do Espaço. vive L’écologie . R. G. s/ data. 91-116. Annals of Association of American Geographers. Jamais Fomos Modernos. K. Paris. DOLLFUS. 23-39. para. CONTERO. São Paulo: Hermus Editora Ltda. H. Madrid: Alianza Editorial. J. Poética do espaço geográfico: em comemoração aos 70 anos da AGB. Estudio interpretativo y antologia de textos (De Humboldt a las tendências atuales). Human Geography and The “New Ecology”: the prospect and promise of integration. C. Razão e Emoção. 3º trimestre de 1982. M. 1977. O. M. S. G. El pensamiento geográfico. B. Hérodote . El paisage geográfico y su investigación. l997. SANTOS. 136 p. Cadernos de Ciências da Terra. J. 3º trimestre de 1982. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERTRAND. March of 1984. Departamento de Geografia. A. SUERTEGARAY. C. sem negá-lo. In: MENDONZA. Técnica e Tempo. Paris. São Paulo: IG/USP. na sua multiplicidade. Geossistemas a história de uma procura. vol. 1994. G. nº 26. São Paulo: Editora Contexto. Instituto de Geografia.Pensar o ambiente hoje é ir além do domínio técnico de intervenção. France. repensá-lo no âmbito de novas lógicas que se estruturam e dão suporte a uma visão de resgate do entendimento de espaço geográfico na sua unidade e nas suas diferentes variantes conceituais. 308 p. São Paulo: Editora Hucitec. 2001. 84. (orgs). BERTRAND. TROLL. São Paulo. Écologies/ Géographie. A. 1972. Construire la geographie physique. LEFF. N. Discurso Sobre o Método. nº 18. n° 1. 149 p. DESCARTES. Espaço e Tempo. M. Epistemologia Ambiental . Hérodote. 1982. France. p.. USP. p. 127 p. D. GEOUSP . O Estudo de Geossistemas.

abordando os conceitos de representações e de imagens. images. ABSTRACT Knowing that representations don’t make out to represent the world and that they are not identified with it. city 1 Arquiteta e professora doutora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. and that the image of reality that we may have configured is not in it and is not with it confounded. there is a need to investigate and try to comprehend the genesis and use of concepts referring to the city. imagem. The present work intends to offer a contribution in this direction. o que resta é saber que a cidade é produto de um fazer. by the means of understanding we have available. e que a imagem que podemos ter configurado da realidade não está nela e com ela não se confunde. 39 . In the midst of as many reflectiveness. approaching the concepts of representations and images. Palavras-chave: representação.A CIDADE E SUAS REPRESENTAÇÕES Angela Maria Rocha1 RESUMO Sabendo-se que as representações não dão conta de representar o mundo e não se identificam com ele. onde é orientadora no mestrado. Em meio a tantas reflexividades. Key words: representation. what remains to understand is that the city is a product of a making of that creates itself a citizen to its measure. cidade. há necessidade de investigar e procurar compreender a gênese e a aplicação de conceitos referentes à cidade. com os instrumentos de conhecimento da cidade de que dispomos. que cria também um sujeito à sua medida. O presente trabalho pretende oferecer uma contribuição nesse sentido.

o mundo moderno parece ter encontrado na cidade o lugar da revelação da diversidade e da realização de possíveis ou impossíveis: cidade como obra. como todos os vocábulos. nesse sentido. esse lugar em que se estruturam e se organizam diversas classes de representações que orientam a apreensão do fenômeno urbano. como quando falamos de uma imagem ou escultura de Apolo ou da Virgem. como exemplifica através de algumas figuras de heróis trágicos. símbolos. 38. diversas significações. Neste sentido. Octavio. fábulas etc. 1996. O termo imagem tornou-se aparentemente muito apropriado 2 “A palavra imagem possui. a capacidade conceitual e científica pode reconduzi-la a abstrações que a descrevam em sua complexidade sem o risco de desmanchar ou fracionar essa percepção que a designa também como uma singularidade através de um nome próprio. possui valor psicológico. o vocábulo possui um valor psicológico: as imagens são produtos imaginários. p. despedaçada entre a piedade divina e as leis humanas” ou Édipo. Todos esses termos preservam a “pluralidade de significados da palavra sem quebrar a unidade sintática da frase ou do conjunto de frases”. cit. a palavra imagem. opostas. Como poeta. Se na Antigüidade clássica a tragédia podia carregar consigo a imagem capaz de refletir sobre as angústias. Signos em rotação. comenta as diversas significações da palavra. 3 40 . 37. esperanças e contradições de um tempo e de um povo. Octavio PAZ. entre elas a figura de “Antígona.” PAZ.ANGELA MARIA ROCHA IMAGENS E REPRESENTAÇÕES Para dizer da cidade. Nesse caso as imagens são. contraditórias e é o que tem sido feito. Octavio. metáforas. há necessidade de situar inicialmente o terreno das imagens. “entre a liberdade e o destino”. alegorias. Op. Ou figura real ou irreal que evocamos ou produzimos com a imaginação. segundo ele. São Paulo: Perspectiva..3 A cidade poderia hoje ser considerada como imagem do confronto e aproximação de realidades diversas. está o autor interessado no termo imagem enquanto expressões verbais que se configuram em poema e que são classificadas pela retórica como comparações. Quando referidas a “uma figura real ou irreal que evocamos ou produzimos com a imaginação”2. p. Por exemplo: vulto. PAZ. E conclui: “A imagem é cifra da condição humana”. Com dificuldade. representação. em texto que tem justamente como título o termo imagem. produtos imaginários.

mas diferentemente de Octavio PAZ. p.. mas também em seus textos. segundo observações do autor. procurando entender e explicitar o fenômeno das imagens e das representações sobre as quais refletiu em suas investigações sobre o cinema. nº 85. procurou desenvolver. 41 . Não se trata aqui de enfrentar a discussão sobre o valor psicológico. por ele lembrada como “figura real ou irreal que evocamos ou produzimos com a imaginação”. como quando falamos de uma imagem ou escultura de Apolo ou da Virgem”4. Suas intuições e explanações sobre o tema podem estabelecer um importante patamar para a elaboração dessa sumária consideração aqui apresentada através das palavras de Paz a respeito da significação desse termo imagem. 39-53. p. 1969. Tendo criado uma linguagem cinematográfica nova. Eisenstein estudou engenharia e atribuiu o “gosto pelo pensamento racional” 6 à clareza e exatidão que encontrou na matemática. investigar e apresentar o seu processo. São trabalhos fundados no relato de suas experiências e freqüentados pela vida. rememora uma experiência comum a muitos de nós. a exploração do vínculo dramático que a imagem pode conter.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. 12. 2006 para se referir à cidade. Eisenstein5. interessa aqui aquela significação da representação. Octavio. também atribuído à palavra imagem. procura transferi-las a algum material e compartilhar as descobertas que o atravessam. É assim que. Sergei. e de outro. por um lado. Reflexões de um cineasta. segundo suas palavras. Pretende-se investigar nesse trabalho o que é possível dizer sobre processos de representações que têm a cidade como referência. condensa em sua obra o que seria a objetividade do registro material. como artista. Apolo é referência em ambas. cit. Op. p. não só em sua obra. ao ver-se 4 5 6 PAZ. quando assume o sentido acima que ele exemplifica assim: “vulto. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 37. o mestre das imagens em movimento produzidas no cinema. quando considerada como figura real ou irreal evocada ou produzida com a imaginação. EISENSTEIN. representação. SÃO PAULO. Pode ser diverso o registro material da figura de Apolo em uma escultura ou o nome próprio Apolo. Sergei Eisenstein nasceu em Riga em 1898 e faleceu em Moscou em 1948. Para isso é preciso diferenciar os termos representação e imagem. Neles manifesta-se a vivacidade daquele que observa o mundo com interesse e curiosidade e.

investigando suas possibilidades narrativas como recurso para o cinema. Para os recém chegados. Elas são designadas por números: Quinta Avenida. os ideogramas. para a qual se tornou importante discriminar entre representação e imagem. A novidade desse novo meio de representação da realidade também estava a exigir maiores reflexões quanto às suas possibilidades simbólicas e significativas. Seu primeiro contato com a arte e que o deixou apaixonado foi através de uma montagem teatral que assistiu em 1913. e com essa finalidade retoma-se aqui a sua contribuição. O objetivo de seu texto é o de desenvolver e expor com clareza o seu processo de montagem no cinema. Octavio. quando tinha 15 anos. 37. fundamentando-o na experiência da percepção humana. quando se inscreveu em um curso da Academia de Moscou. Em Nova York. e acredita que isso também contribuiu para o rumo tomado nas suas investigações sobre a linguagem do cinema. propiciando a explicitação da diferença que atribui aos dois sentidos que estão. submetidos ao mesmo termo: “figura”7. por outro. e não como mero registro visual.ANGELA MARIA ROCHA obrigado a se localizar em uma cidade desconhecida. A especificidade da encenação no teatro é a representação de atores. o autor pôde pensar e conceituar a imagem e refletir sobre seu processo de produção. A genealogia de sua formação visa explicitar as contribuições concretas com as quais foi desenvolvendo a sua teorização sobre a montagem para o cinema. que corporificam e objetivam o sentido do texto. de início. Cit. depois que a guerra civil interrompeu seus estudos de engenharia. 42 . Familiarizou-se com línguas orientais. Op. constituindo-se como arte. p. a maior parte das ruas não tem nome. É no teatro que posteriormente inicia a sua formação na arte. Estamos habituados a dar nome às ruas. esse modo de designação oferece. e isso facilita a tarefa. introduzindo uma maneira de representação da cidade identificada por ele e que oferecerá um suporte concreto à diferenciação entre os dois processos que reconhece presidirem a formação da representação por um lado e a imagem. Numa época em que o cinema era mudo. em Paz. problemas difíceis para a memória. o nome logo evocando a imagem e o 7 PAZ. Rua Quarenta e dois etc. Vale a pena apresentar agora esse trecho em que Eisenstein descreve sua experiência ao conhecer Nova York.

Sua imagem começa a surgir. ao enunciado do número. com a imagem. cit. engrenando todo o rosário de elementos característicos daquela rua. a partir de seus elementos. Designadas por números neutros – 42 ou 45 – elas não me evocavam a imagem. os elementos não combinavam. p. uma imagem una e total que nunca mais esquecemos. mas como um todo único. para conhecê-las. Tive muita dificuldade para lembrarme da imagem das ruas de Nova York e. colecionava em minha memória os teatros. nº 85. p. A operação para os reter de cor se fazia por etapas. Pude distinguir duas. as lojas. os prédios característicos etc. no momento. Para cada rua que eu queria reter. Op.8 8 EISENSTEIN. todo um grupo de sensações. Somente na segunda etapa é que eles se fundiam em uma imagem única. 2006 seu enunciado fazendo afluir.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. coleção que se apresentava a meu espírito em resposta ao sinal “quarenta e dois”. 43 . Nos dois casos. como uma visão integral da rua. Para chegar a esse resultado foi-me necessário lembrar uma coleção de índices concretos característicos de tal ou qual rua. 78-79. cinemas. concentrando a sensação do aspecto característico de tal ou qual artéria. na consciência e na sensibilidade. à designação verbal “Rua Quarenta e dois” a memória reagia com grandes dificuldades. Sergei. exatamente da mesma maneira que na obra de arte se destaca pouco a pouco. o sinal “quarenta e cinco” suscitando outra. 39-53. mas não havia ainda a verdadeira sensação daquela rua. Somente a partir desse momento é que se pode dizer que a rua está verdadeiramente registrada pela memória. a mesma lei permanece verdadeira: a parte penetra na consciência e na sensibilidade por intermédio do todo e por intermédio da imagem (Nota: Destaques do autor). a viver. como sua imagem integral. por conseguinte. quer se trate do processo de registro pela memória ou da percepção estética. SÃO PAULO. Na primeira. em imagem. levantava-se todo um conjunto de seus elementos constitutivos. não mais como um encadeamento.

se realizaria entre elas e ele: a imagem. as cenas gravadas. ocorrendo na “consciência e na sensibilidade” 9. cit. afina-se sob muitos aspectos com aquele empregado por Paz para a literatura. cit. Poderia aqui também ser complementado: “produzidas pela imaginação”10. entendeu que o enlace procurado por ele estava na dependência de algo além das representações proporcionadas pelo filme e também além do espectador.ANGELA MARIA ROCHA A CIDADE COMO MONTAGEM E A PRODUÇÃO DA IMAGEM O significado atribuído ao termo imagem. e a outra. 44 . acaba por desenvolver os atributos referentes à imagem de modo bem próximo ao apresentado por Eisenstein. tinha ao seu alcance apenas a produção objetiva de figuras alcançadas pela captura da filmadora. é integradora. os objetos. Nesse horizonte. Paz lança uma ponte para retomar aquela diferenciação que Eisenstein assinalou entre a representação e a imagem. fragmentária. p. mas de qualquer modo produzidos pela imaginação. Op. cenas. de certa maneira. quer sejam representações. em Eisenstein. e isso. 79 PAZ. Op. impalpáveis e por vezes paradoxais. sendo esse o meio com o qual contou para produzir o sentido dramático. paisagens: representações da realidade. Algo que. Trata a montagem como possibilidade de conferir. Mesmo atribuindo interesse e privilegiando a locução verbal. Com o intuito de conferir o potencial dramático da locução verbal às imagens mudas é que Eisenstein desvenda o poder das representações quando justapostas. é o que diz respeito à imagem. Assim também as figuras. despertar para o sentido e produzir imagens a partir de representações. podem também configurar-se em imagens através da montagem. S. tais como as pessoas. palpáveis. irreais. Uma é objetiva. quer sejam imagens – figuras reais. considerando-as quer como reais ou como irreais. porque sem os recursos da locução verbal. Palavras e frases desenvolvem-se em imagens quando as diz o poeta. 9 10 EISENSTEIN. e que é designado como montagem. mostra Eisenstein. Desvendar a diferença entre representação e imagem foi significativo para ele. Octavio. afirma Octavio Paz. objetivas no caso das representações. Considerando os sentidos atribuídos à figura.

ou ainda relembra a figura do tabuleiro de um jogo. SÃO PAULO. em que se trabalha ou em que se morre. É um olhar que se debruça perpendicularmente ao solo sobre o 45 . Eisenstein faz uso do termo cidade para com ela realizar uma mediação entre coisas e homens. entre abstrações. como números. no qual se ocupa na implicação do espectador no processo da arte. cada localização no espaço é única. E também aqui se encontra a descrição de um processo que é vital para o homem. Essa descrição aponta para uma das representações das mais elementares para o mundo ocidental. 2006 A distinção entre representação e imagem é importante quando se trata do seu emprego para o conhecimento. o traçado da malha viária que permite o acesso fornece a base para a representação da cidade. p. e coisas. a sua orientação e a sua localização no mundo. e o lugar torna-se identitário. No desenho. singular. Supõem um olhar que não é o que temos na nossa experiência em transitar pela cidade. identificado como atributo a acompanhá-la. as ruas são trajetórias nomeadas. o endereço estabelecido pelo nome (ou número) de uma rua em uma determinada cidade e país. REPRESENTAÇÕES DA CIDADE: ALCANCES E LIMITES Neste texto. e é possível que a relevância atribuída por Eisenstein à sua formação em uma escola de engenharia seja para ele em um suporte a ampará-lo no campo da arte. submetendo e colocando ao alcance do entendimento humano muitos fenômenos que dependem do campo sensorial e interpretativo para apreendê-los. E é a rua. Pode ser o lugar em que se mora. De fato. mas o vôo de pássaro que tudo vê de lá de cima e em dimensão reduzida. Aqui também é necessário trazer para o campo da objetividade os termos empregados que qualificam essas produções para a apreensão sensorial e intelectual e procurar entender a sua abrangência e os seus limites. Cada vez mais as representações produzidas através de meios técnicos ou por intermédio do desenho têm servido de apoio às ciências e à técnica em todos os campos do conhecimento. A possibilidade de localização através do endereço sugere caminhos e assim. aquele que comparece na historicidade do desenrolar da vida humana. 39-53. essa possibilidade de irmos e virmos que acaba por caracterizar a maioria das representações da cidade com as quais se habituam os que as habitam.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. nº 85.

tornase a indicação lembrada e registrada por Eisenstein para referir-se à rua que quer identificar. exigirem 46 . vínculos entre cada um e a cidade. é possível que se recorra a algum movimento. Um vínculo corpóreo. o tempo aprisionado nesse ir e vir das práticas cotidianas parceladas em inúmeras atividades. de nada adianta essa representação da cidade. identificando o que está. capaz de identificar os edifícios. podese procurar um lugar adequado para o tempo livre. afetam. na representação ou na realidade. e que se estende no plano horizontal. Supõe também a presença corpórea a orientar os passos com que se simulam os possíveis percursos pelas ruas. O que nos mostra e o que esconde esse desenho. a dicotomia entre aquele em que se circula e aqueles em que se desenvolvem as outras atividades. à esquerda ou à direita. Se não for assim. que não dizem nem mostram nada de suas especificidades locacionais. E é esse vínculo corpóreo que estabelece relações com essa forma de representação: aonde nos encontramos? Para a localização de cada um no mapa. Criam os horizontes e a paisagem para o olhar humano e podem. tal como é apontado. indiferentes e equivalentes entre si. De um lado. em confronto com os limites espaciais configurados nesses edifícios. essa representação da cidade que se faz através de uma superfície bidimensional por meio dessas linhas traçadas em que ruas e quadras definem o solo público do solo privado? De imediato. Trata-se da condição de cada um. De outro. Um número é uma abstração de igual gênero que o desenho dos traçados das ruas – e aqui o termo abstração parece estar referido particularmente à ausência da subjetividade capaz de criar espontaneamente um vínculo com qualquer uma delas. É assim que essa preocupação com o olhar. sentidos. Os edifícios. à frente. uma localização na cidade também pode revelar outras implicações. configurando-se efetivamente como verticalidades. Um endereço. Edifícios como prisões. criam vínculos. o que está à frente dos olhos. hospícios e hospitais criam lugares incomuns e contribuem para identificar como liberdade esse ir e vir da vida urbana. no texto. uma presença que a representação das ruas no desenho não pode contemplar. particularizam e definem o local em que se encontram e “conversam” com sua vizinhança edificada. Supõe interesses. a paisagem urbana. Os lugares dos fazeres humanos são tantos quantas são as atividades humanas socialmente reconhecidas e estabelecidas.ANGELA MARIA ROCHA qual se caminha. da presença corpórea que é o fenômeno capaz de desencadear essa consulta à representação da cidade. fora da cidade.

É possível que um turista. a simplificar a complexidade dos interesses da cada um. 2006 reconhecimento de um olhar frente a frente: fachadas com suas portas e janelas que se organizam para deixar ver ou ocultar. e revela interesses particulares. é possível que cores. delas está ausente. quem as vê. Nas ruas. abrir passagem ou interditar horizontes. agências de turismo e o imaginário. aproximar-se de alguma trajetória histórica de algumas cidades é penetrar nos mistérios de acontecimentos que eclodem nas ruas e reviram a história. habitantes por área etc. mas esses desenhos do traçado das ruas poderão acolher indiferentes cada um deles. sinônimo de séries de adjetivações que caracterizam um estilo de vida e assim. um eletricista ou um motorista de ônibus sejam levados por diferentes olhares sobre uma cidade. SÃO PAULO. pode ser referência. Se dessas representações. como os da Praça Celestial na China. O que cada um encontra e vê também depende do que faz.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. aquelas que freqüentam os cartões postais. Associações para a memória. árvores. no desenho. de como vive. é um dos meios de criar um vínculo pessoal com um lugar. mapeando estruturas e infra-estruturas e todas as redes a elas correlacionadas. as lutas de rua em 1968 em Paris. entretanto. certamente um lugar se torna o testemunho de um acontecimento que a fotografia corrobora e documenta. Há ainda a cidade como idéia contraposta a campo. As representações da cidade podem abrir-se para aspectos significativos considerados emblemáticos. que o descreve como recurso capaz de superar a abstração numérica para caracterizar uma rua. com os mais diversificados 47 . a queda do muro de Berlim e certamente são muitos os momentos em que a cidade torna-se mais personagem do que palco e. p. o sentido que aponta o norte. consistindo-se na prática como marcas. lojas. as placas nos localizam em consonância com a representação. 39-53. E assim. que fazem de algumas cidades um produto – ou ainda – uma mercadoria. como o procedimento estabelecido por Eisenstein.. peculiaridades de usos ou funções enlacem o interesse de cada um criando relações e imagens que superem de longe as representações consagradas de orientações nas cidades. Cada vez mais. universais. nº 85. como as plantas com o traçado das ruas. Representações técnicas. A essas se agregam todos os demais possíveis e imagináveis levantamentos referentes à tipologia dos edifícios. tem-se como norma aquelas representações da cidade que emanam de processos técnicos e que têm também objetivos de controle do solo e do planejamento.

gratuita e interessada. em confronto com os anéis delimitados das superfícies definidas das quadras que se formam: dicotomia e confronto entre linha e superfície. proporcionando à presença física de cada um a expressão da visibilidade da distinção social. São Paulo: Companhia das Letras. fazendo de cada transeunte um objeto de curiosidade12. proporcionaram à vida na cidade o contato visual entre desconhecidos.ANGELA MARIA ROCHA interesses que certamente hão de justificar os esforços despendidos. Metrópole e Vida mental. referindo-se a elas através da seguinte imagem. atento à percepção sensível da cidade enquanto obra humana: 11 SIMMEL. eletrônicas dessa vez. BERMAN. Em suas representações gráficas. enunciando as usabilidades historicamente constituídas em cada lote.). nas mais surpreendentes categorias. as transformações ocorridas em Paris com a abertura dos boulevares. Rio de Janeiro: Zahar Editores. in O fenômeno urbano. pelo recurso de defesa contra a profusão de estímulos. entre as classes sociais distantes até então dessa possibilidade. reproduzindo a outra dicotomia entre espaço público e privado. É possível que essas janelas que permitiam que as ruas fossem observadas. sublinham aquele aspecto percebido no início do século XX nas grandes cidades por Georg Simmel11. Antes disso. ao detectar a quantificação e o cálculo a predominarem e manifestaremse como sintomas visíveis de um processo mais profundo a afetar a vida mental dos habitantes da grande cidade do mundo moderno. Marshall. aproximando e dando sentido às superfícies que contorna. 12 48 . Esses aspectos que quantificam cada metro quadrado da cidade. ou então as grandes janelas que eram vitrines onde as mercadorias estavam expostas e também os interiores dos restaurantes que podiam ser vistos. p. Releva a oportunidade da experiência de exposição das pessoas aos olhares uns dos outros. Tudo que é sólido se desmancha no ar . vieram sendo expandidas para as outras janelas. sob a direção de Haussmann. Georg. as ruas se expandem como fluxos em circuitos interligados e sem limites. caracterizando o sentido de público dessa porção do espaço urbano em que todos se tornam público uns dos outros em convivência.144-150. Essas diferenças agrupadas foram percebidas e exaltadas por Ruskin no final do século XIX. É ainda toda essa malha dos traçados das ruas que confere unidade ao objeto cidade. destinando prioritariamente as ruas para endereço e circulação apenas. Otávio Guilherme Velho (org.

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... “a arquitetura se distingue particularmente da pintura por ser uma arte de acumulação. Um quadro que se possui, é como a interpretação de peças de música com voz solitária em sua própria casa. Mas a arquitetura seria como se se cantasse em um coro de muitas vozes”... Cúpulas sobre cúpulas, torres, cadeias de montanhas habitadas... “a mais sublime emoção que a arte produziu no coração dos homens. E a mais sublime: porque é uma lei de Deus e da Natureza que vossos prazeres - como vossas virtudes - sejam enaltecidas pela ajuda recíproca”13. Esses paralelos e confrontos entre as artes lembram-nos que os processos de produção e fruição também são diversos em cada uma delas. A valorização maior é conferida por Ruskin àquela que se oferece à apreensão sensível como resultante da “ajuda recíproca”, tendo a arquitetura como seu elemento constituinte, a cidade, aqui figurada como obra a manifestar-se como unidade de “um coro de muitas vozes”. A cidade, segundo a descrição desse autor, é muito semelhante, e poderia ser considerada também aqui como representação do processo manufatureiro, nessa imagem em que a cidade se mostra como excelência de um produto realizado por muitos, parte por parte, para fruição de todos, diferentemente de outros objetos para consumo e uso privado produzidos por máquinas. A cidade, enquanto configuração sensível, poderia até mesmo abrigar muitas imagens, e ser eventualmente vir a ser vista como representação topológica da sociedade. A descrição da imagem da rua memorizada por Eisenstein, que procura dar conta da heterogeneidade constituída pelos fragmentos singularizados em cada uma delas, oferece uma imagem confusa e emaranhada que, entretanto, é considerada suficiente e capaz de abarcar o que interessa à sua identificação. A descontinuidade da imagem descrita traduz a sua conquista, que foi para ele a construção em seu imaginário da singularidade de um lugar, e então confia na rememoração das edificações alinhadas, sabendo que poderá encontrá-las num espaço determinado.

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RUSKIN, John. Arte primitiva y Pintores Modernos. Buenos Aires: Liberaria y Editorial “El Ateneo”, 1944, p. 249.

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O olhar que dá conta da simultaneidade dos objetos à sua frente garante à representação, através de desenhos, figuras ou fotografia, um papel privilegiado que, abstraindo o tempo, realiza um corte na realidade vivida, dela oferecendo a possibilidade do exame atento. Imagem e representação acabam assumindo aqui o mesmo sentido, e ambas referidas também ao mundo imaginário, como já havia indicado Paz. Na realidade o tempo não pára. As palavras, na temporalidade linear da língua, acabam por embaralhar a transmissão do modo de olhar e descrever cada rua. Sabemos que Eisenstein fala de algo que figura já agora em seu imaginário, mas não podemos compartilhar do seu olhar. Descreve edifícios alinhados na rua, referindo-se a seus usos e também para um uso específico: o de proporcionar alguma identidade para a memória capaz de vincular um número a uma localização espacial. Os desenhos que situam as ruas no plano horizontal, um mapa da cidade, por exemplo, possibilitam a simultaneidade da representação das ruas que o olhar domina em um relance. Esse tipo de representação do espaço foi difundido como linguagem para a localização dos endereços na cidade, mas no mesmo movimento, ao homogeneizar ruas e espaços, presta-se também para a atribuição de valores aos terrenos, referenciados a atributos predominantemente locacionais e abstraindo-se de outras particularidades significativas, um fenômeno que é também de imediato observado na realização do parcelamento do solo para comercialização, que a considera uma superfície plana disponível para recortes. As fotos aéreas urbanas hoje acessadas pela internet exigem o exercício do reconhecimento das coisas como não são conhecidas visualmente no cotidiano. Um mapa contém muitas informações, mas não necessariamente aquelas procuradas ou precisadas, mas em compensação expõe ao olhar toda a diversidade da fragmentação do solo, ressaltando a dicotomia entre áreas cobertas e descobertas. O que se evidencia, em todas essas formas de trazer para a representação visual o fenômeno urbano, é que em todas elas se apresenta o abandono, ou o esquecimento voluntário de alguns dos aspectos que eventualmente seriam decisivos para algumas interrogações. Há que se destacar também aspectos como o tempo e o espaço tridimensional, que não podem ser contidos por representações bidimensionais. As operações que visam superar essas limitações exigem, sem dúvida, outros aportes técnicos e

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instrumentais capazes de, por exemplo, apresentar relevos. Com todos elencos de representações que objetivam aspectos da cidade através de olhares e recursos diversificados, é possível retomar a lição de Eisenstein e relembrar que o que interessa em última instância é essa aproximação que é realizada por meio das representações e que resulta em imagem. As representações, cada uma delas, sabemos, é empobrecedora. As imagens configuradas a partir dessas representações contêm lacunas que se tornam depositárias de intenções e afetos, as quais são as contribuições pessoais de cada um à configuração das imagens e exigiriam outros processos de comunicação, eventualmente poéticos ou em outras linguagens. Cada representação, cada desenho ou fotografia produzido e registrado como meio para dispormos da cidade – sejam produzidos tecnicamente ou com aportes de intenção poética, com visadas horizontais ou verticais, todas elas e mais a presença e percurso por qualquer cidade que não aquela, torna-se imagem sobre a qual também projetamos as vozes que habitam nossa memória e que também já nos relataram e descreveram outros cenários urbanos. Apesar de toda a imperfeição e incompletude que se possa reconhecer em cada modelo conhecido de representação da cidade, sabe-se que as muitas e fragmentadas e que fazem parte da trajetória de vida de cada um é que acabam constituindo o mapa da cidade que se carrega na cabeça e no coração, imagem intangível que acontece entre o homem e mundo e que é, aqui no exemplo, a cidade. Como delas falar e delas saber se não se oferecem ao olhar?

CONCEITOS CRÍTICOS PARA O CONHECIMENTO DA CIDADE
O esforço empreendido por Eisenstein em diferenciar entre representação e imagem é compreensível, porque de certa maneira elas acabam por formar “um bloco na percepção de tal modo que se tornam necessárias circunstâncias bem peculiares para separar do conceito de tempo a figura geométrica das agulhas” no caso de alguém que olha em um relógio, em exemplo que oferece citando uma passagem de Ana Karenina, de Leon Tolstói. “No terraço dos Karenina, Vronski olhou o relógio; estava de tal maneira perturbado 51

2005. jan. 14 15 EISENSTEIN. algo que. o sentido de imagem. a partir do chão da cidade. representação e imagem formando um mesmo bloco. além do conhecimento crítico dos que efetivamente informam aquelas que já são conhecidas. possibilitando a visualização de seus conflitos. passa a vigorar como evidência. considera-se como coincidentes. representações das suas especificidades que subsidiem o seu conhecimento enquanto fenômeno espacial. Espaço & Debates. 25. há muito por produzir e desvendar. 77. p. democracia. Atribui-se. contradições e transformações no tempo como produto material realizado pelas relações humanas. Um círculo com mostradores: representa o tempo ou pode desencadear uma imagem do tempo? É possível entender que a idéia implicada na imagem da cidade. E então Eisenstein acrescenta: “A imagem do tempo que os ponteiros do relógio traduziam não lhe produzia mais qualquer reflexo. consista-se de alguma nostalgia a que os termos urbe e polis podem remeter: política. nº 46. urbanidade. à representação objetivamente construída.” Os participantes de uma mesma cultura tendem. por isso. embora constituído subjetivamente. como seria de se esperar. para a contemporaneidade. Ele só via a representação geométrica dos ponteiros no mostrador. São Paulo: v. 11. Há necessidade de um trabalho pedestre e capaz de delinear com maior concretude. Op. À medida que esse consenso não se evidencie como tal. ou “à nossa maneira de viver juntos – com os outros – na cidade”15. com a contribuição e participação do imaginário de cada um. cit. Para a produção das representações da cidade. isto é. Dessa maneira objetiva-se um consenso que não é passível de ser contestado de imediato e que muitas vezes sequer existe. p. mas não podia perceber as horas”14./jul. 52 .ANGELA MARIA ROCHA e voltado para seus próprios pensamentos que via os ponteiros no mostrador. a construir imagens assemelhadas em relação às representações com as quais se defrontam. Rosalyn. Sergei. ou não se apresente exteriorizado e materializado como realidade compartilhada para que possa ser discutido ou contestado. DEUTSCHE. Urbanismo sensato.

nº 85. Arte primitiva y Pintores Modernos. Espaço & Debates. 2005. jan. in O fenômeno urbano. 1996. SÃO PAULO. São Paulo: v. Buenos Aires: Liberaria y Editorial “El Ateneo”. Urbanismo sensato. p. São Paulo: Companhia das Letras. SIMMEL. Otávio Guilherme Velho (org. Metrópole e Vida mental. Marshall. Georg. DEUTSCHE. 53 . 1944. PAZ. John. 1969. 39-53. 25. Sergei./jul. Rosalyn. Reflexões de um cineasta . EISENSTEIN. Tudo que é sólido se desmancha no ar. Signos em rotação. nº 46. 2006 BIBLIOGRAFIA BERMAN. Rio de Janeiro: Zahar Editores.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA.). São Paulo: Perspectiva. Octavio. Rio de Janeiro: Zahar Editores. RUSKIN.

54 .

da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e diretora do Centro Universitário Maria Antonia USP . iniciamos o trabalho de coordenação do setor educativo do Centro Universitário Maria Antonia da Universidade de São Paulo (CEUMA). com base no princípio de que a identidade cultural dos professores dessas regiões demanda ações educativas e culturais que promovam o interesse pela inclusão do ensino da arte na sala de 1 Profa. in routes that connect the cultural institution and the university to the classroom of the public school with cultural mediation work and strategies for teacher education. então diretor daquele centro. A partir de então. Em 2002. o setor educativo orientou suas ações para a formação de professores de arte. Atuamos tanto na capital quanto na periferia da cidade de São Paulo.CIDADE: VIA DE ACESSO DA ARTE À ESCOLA Rosa Iavelberg1 RESUMO O texto trata das questões do ensino da arte contemporânea. em percursos que ligam a instituição cultural e a universidade à sala de aula da escola pública com trabalho de mediação cultural e estratégias para formação de professores. ABSTRACT The text deals with the questions of the contemporary art. 55 . through didactic orientations that initiate new ways of accessing the original works of art in the school space and in the city passages. por intermédio de orientações didáticas que inauguram novos modos de acesso a obras de arte originais no espaço das escolas e em trânsito na cidade. Dra. a convite do professor Lorenzo Mammì. com maior ênfase em artes visuais e arte contemporânea. órgão da Pró-reitoria de Cultura e Extensão da USP . nas diferentes linguagens.

Estes.ROSA IAVELBERG aula. tendo em vista que esses documentos não têm caráter obrigatório nem prescritivo. deve ser mobilizada pelas instituições culturais que fazem interface educativa com as escolas. criamos dois projetos que percorrem a cidade de São Paulo e chegam até o interior. por sua vez. Assim. regional. em torno dos quais se definiram os eixos de aprendizagem significativa. Nossa experiência em cursos de formação inicial e continuada de professores em arte das redes pública e privada. levaram-nos a concluir que a articulação entre o que se ensina na escola e a produção de cultura local. para levar obras de arte originais a alunos de escolas cujos professores. em função das distâncias ou da dificuldade para obter transporte para todos os alunos. como a maioria das pessoas. devem ser articulados entre si. perguntam em face da produção contemporânea: será que isto é arte? Portanto. nacional e universal de arte. pluralidade cultural. 56 . Conceituou-se com precisão nos documentos o significado de cada eixo de aprendizagem significativa para garantir que o 2 A autora fez parte do grupo que elaborou essa seção dos PCNs. A proposta na área de Arte que se lê nos documentos dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Fundamental. dos anos 1990. meio ambiente. orientação sexual.2 tem como ponto de partida o conjunto de princípios que regem a aprendizagem na área de conhecimento. A arte contemporânea não costuma ser estudada na maioria das escolas porque seus conteúdos são estranhos aos professores que. Sendo assim. procedimentais e atitudinais) e temas sociais da atualidade (ética. não conseguem levar os estudantes a mostras de obras de arte da produção contemporânea. incentiva-se e expande-se o gosto dos alunos pelo aprendizado da arte. estudar essas obras na sala de aula é uma proposta que requer encaminhamentos específicos para lidar com a distância dos professores em relação a elas. saúde e trabalho e consumo) escolhidos e planejados pelas equipes de cada escola. associados a conteúdos (conceituais. sobretudo em relação à dificuldade de deslocamento na cidade de São Paulo para visitar museus e exposições com seus alunos. além de ser parte das didáticas atualizadas do ensino da arte. em São Paulo e outros estados do país. com autonomia.

reúne objetos de arte contemporânea. enquanto intervenções. pretendese que o aluno informado por poéticas provenientes de diversas culturas. FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE ARTE A formação de professores de arte precisa se organizar nas mesmas bases epistemológicas e didáticas que se quer efetivadas na sala de aula. pudesse alimentar-se e gerar os próprios trabalhos. as interações com alunos e professores e a avaliação dos resultados na sala de aula precisam compor um todo coerente. um professor se alimenta por meio destes projetos e pode ganhar autonomia se eles forem planejados com este objetivo. 2006 desenvolvimento do percurso de criação de cada estudante não ficasse submisso às poéticas deste ou daquele artista. realizados por 57 . p. arte educadores entre outros profissionais da arte. Lá Vai Maria. portanto. Assim sendo. discorreremos sobre dois projetos de formação que relacionam arte e cidade de modos distintos. Um projeto pode despertar a atenção para temas importantes da atualidade a serem trabalhados na sala de aula. a proposta de ações do projeto. podem ter efeito mobilizador do desejo pela formação continuada. curadores. mas que guardam muitos aspectos semelhantes. Ao contrário. agindo do mesmo modo para atribuir e extrair significados da produção social de arte dos diversos tempos e lugares. A nosso ver. críticos. incluindo a força de sua identidade artística e estética. SOBRE OS PROJETOS DE FORMAÇÃO Agora. montados em um “display”. Assim. Os projetos são ações pontuais.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. espaço onde convivem artistas. ainda mais quando se origina de uma instituição cultural. mas. os materiais de apoio didático confeccionados. um projeto que parte da instituição cultural para a escola não pode prescindir do conjunto de princípios. formulados nos PCNs Arte. não têm como objetivo esgotar a pauta de formação continuada de professores de arte. que regem a aprendizagem na área. O primeiro. 55-70. nº 85. SÃO PAULO. que se soma e colabora com as ações em curso nas escolas.

58 . ao receberem obras de arte originais dentro do espaço da sala de aula. ônibus–obra. ♦ avaliar as ações junto aos alunos e professores participantes. ♦ realizar visita orientada por arte-educadores nos espaços onde os projetos são concretizados. pesquisar e avaliar as ações. são capazes de se aproximarem de seus conteúdos. além disso. O segundo. ♦ documentar. ♦ realizar encontro técnico para planejar as estratégias das ações com os professores e coordenadores da rede púbica. ♦ envolver alunos da Faculdade de Educação da USP em pesquisa e estágio supervisionado nas visitas às escolas públicas da cidade de São Paulo. Ela transformou o ônibus em uma espécie de grande pedaço de CARNE e assim nomeou seu trabalho. que circula da universidade para as escolas públicas e eventos culturais em São Paulo. Arte Passageira. Assim. ou seja. antes de eles receberem a visita destes projetos em suas escolas. 3 O projeto Lá Vai Maria é voltado para estudantes do ensino fundamental até a universidade. visa a garantir o acesso a obras originais aos que não moram perto dos centros expositores e têm dificuldade de transporte. de desconstruírem a idéia e a visão de que é difícil compreender a arte contemporânea. Esses dois projetos têm em comum: ♦ levar obras de arte originais a espaços onde se encontra o público de alunos3 ou de moradores da cidade que freqüentam mostras promovidas ou apoiadas pela Universidade de São Paulo. ♦ incentivar o estudo da arte contemporânea nas escolas. ♦ levar a arte contemporânea por meio de obras originais para distintos públicos.ROSA IAVELBERG vários artistas da cidade de São Paulo. Levar a obra original para a sala de aula para que o aluno possa ter contato direto com a arte contemporânea brasileira é um aspecto central desses projetos. Essa experiência. e o Arte Passageira foi trabalhado também com o segmento de educação infantil. o aluno e o professor. ♦ oferecer material de apoio didático para que os professores possam dar continuidade às ações do projeto em sala de aula. priorizando a escola pública. com intervenção da artista plástica Carmela Gross.

com mais eficácia. como algo simples. Cria-se dessa forma. por um lado. pois. arte é objeto de direito. viável e próxima. observamos que havia o desejo de se levar os alunos a exposições de arte. por incluir os participantes no universo da produção artística. as quais têm com base suas experiências anteriores em arte e autoria nas leituras. nº 85. Cada visita dura cerca de três horas. guarda a característica de uma atividade escolar. esculturas de 59 . por outro. mas não existiam meios ou recursos para isso. Ao visitarmos diversas escolas públicas pelo país. não se trata apenas de propiciar o contato com as obras.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. por ser realizada em sala de aula. mas também de tornar a leitura dessas obras possível. e não como um bicho de sete cabeças. A chegada do “display” (a mala com as obras) é envolvida em um clima de expectativa e festa. poesia visual de Arnaldo Antunes e João Bandeira. Nesse sentido. Trabalhando com formação de professores de arte. ou seja. fotos de Gal Oppido. SÃO PAULO. deslocando as obras de seu sítio original para mostrá-las em outros locais. a possibilidade de gerar o hábito de freqüentação a espaços culturais. o projeto desperta o gosto pela freqüentação. Quando entramos com o “display” em sala de aula. 55-70. O acesso a essas obras na sala de aula valoriza a escola como lugar de estudo da arte contemporânea. Numa geografia afeita à inclusão. 2006 Para o aluno. criados por dois professores da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. tudo é feito para que os alunos interajam. veio-nos essa idéia. Os “displays” são portadores móveis de obras. esse projeto inverte esta ordem e vai do centro à periferia. orientadas por arte-educadoras com experiência no trato com o público escolar e geral. O projeto começou a ser desenvolvido em maio de 2002 e as visitas começaram em agosto. p. Este é o principal ponto de reorientação de idéias. para que os objetos de arte pudessem atravessar a cidade. trata-se de um evento incomum e. e isso realmente acontece. Antonio Carlos Barossi e Helena Ayoub Silva. transportadas em porta-malas de qualquer carro. O projeto cria nova mobilidade entre espaços expositivos e formativos da cidade. além de consagrar o direito de o aluno e o professor da escola pública terem esse contato através de formas de mediação que avalizam suas interpretações. onde muitos professores e alunos têm de muitas dificuldades para se deslocarem da periferia ao centro para irem a exposições de arte. que está na escola. quando são apresentados: tiras de HQ de Laerte.

informadas sempre por fontes teóricas e referenciais de qualidade. A biografia. as duas pequenas esculturas que são manuseadas e tatilizadas pelos alunos. perfazendo um total de nove trabalhos. para apoiá-lo nas aulas seguintes.ROSA IAVELBERG Laura Vinci e Alex Cerveny. orientações para leitura de imagem (transparência em acetado com as obras contidas em encarte anexo). portanto. texto sobre os artistas. Assim. passamos a contextualizar o artista e sua obra usando o viés biográfico apenas no que ele tem de correspondência com a poética do autor. em conexões com outras do próprio artista e da história da arte. não é usada como fato anedótico. a fim de expandir o universo dos professores na construção de projetos de trabalho em arte com seleção de conteúdos. 60 . ampliando o processo de interação e apresentação da arte contemporânea. principal objetivo do material de apoio didático. orientações para discussão e reflexão com os estudantes. O professor recebe um material de apoio didático com um folhetim sobre cada artista da mala. o que desviaria o foco do estudo do objeto artístico. Fornecemos oito folhetins de artistas com obras de linguagens diferentes. sim. ações interdisciplinares e inclusão dos temas transversais. para a construção do conhecimento em arte. modo por meio do qual é possível interpretar e compreender um trabalho artístico. ou como mera curiosidade. Nele estão contidas informações sobre arte contemporânea. pinturas de Sergio Sister e gravura de Nuno Ramos. Os artistas escolhidos são representativos das poéticas geradas na cidade de São Paulo e a seleção teve orientação curatorial de Lorenzo Mammì. já que o projeto é orientado aos alunos do Ensino Médio e também a algumas classes de jovens e adultos (segmento de EJA). O material de apoio é redigido mediante pesquisa e entrevista com os artistas e estão abertos às suas intervenções. Na interlocução entre o educativo e a curadoria. caso deseje dar continuidade à visita. fornecendo as bases para discussões futuras. Com material na mão. O objetivo deste material é promover a liberdade criativa do educador. As obras são estudadas. propõem-se reflexão e discussão dos professores junto aos estudantes para promover a construção de idéias próprias sobre arte. orientações para oficinas práticas e um glossário que atende a todos os folhetins. Além das obras expostas nas superfícies brancas do “display”. história de vida. priorizamos a diversidade de linguagens entre as obras para ensinar sobre a diversidade de meios e suportes nas formas artísticas e selecionamos alguns temas afeitos à cultura jovem.

incorporando competências e habilidades. costuma ser reconhecida pela maioria dos estudantes jovens. cultivando o próprio repertório por intermédio das propostas dos folhetins. Essas obras visam a colocar a arte contemporânea em conexão direta com o cotidiano dos alunos. rapper assassinado. que. 55-70. p. marca de nosso tempo e da realidade da cidade de São Paulo. assim como a inclusão da poesia da Arnaldo Antunes e das tiras de Laerte. um glossário com verbetes do universo da arte e uma bibliografia que inclui sites para os professores e transparências em acetato das imagens dos artistas estudados foram pensados para otimizar o uso do material de apoio didático. sem pretender substituir as oficinas de percurso de criação pessoal. Esta imagem de Gal Oppido é. A primeira versão foi criada por Carmela Gross. efeito obtido com insufilme nos vidros e adesivagem em 61 . ou seja. 2006 A sugestão de oficinas práticas tem como objetivo a assimilação dos conteúdos em jogo. Propostas de avaliação para o professor. muitas vezes cheia de percalços nas periferias da cidade. ressaltando temas ligados ao protagonismo juvenil. de Gal Oppido. Estas oficinas orientadas à aprendizagem de conteúdos específicos por meio do fazer ampliam. da instituição cultural às escolas. ao invés de serem pouco acessíveis aos não iniciados. Tudo isso com marca pessoal. ARTE PASSAGEIRA Outro projeto pensado na mesma perspectiva de travessia da cidade do centro às periferias. como a luta pelo direito à cultura jovem e à ética. A foto de Sabotage. representante da estética contemporânea. Entre os materiais incluídos. Trata-se do Projeto Arte Passageira. chegam de forma fácil. que transformou o circular em um grande pedaço de carne por fora e por dentro. descritos em cada folhetim. O trabalho vincula a vida cotidiana. nas oficinas nas quais fazem arte. escolhendo temas e técnicas para se expressarem e construírem seus trabalhos em arte. SÃO PAULO. ao mesmo tempo. estão a foto do rapper Sabotage na Galeria do Rock. as possibilidades criativas dos estudantes em outros momentos. assim. sai da garagem da prefeitura da USP Oeste para as escolas públicas da cidade de São Paulo. a nosso ver. às imagens da arte. nº 85. intervenção artística em ônibus da Universidade de São Paulo que terá outras edições.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA.

Este processo de formação do pedagogo para ensinar a dar aula de arte. não serve para transporte.4 CARNE. causa estranhamento. inclui estágios supervisionados nas escolas do projeto Lá Vai Maria e colabora sobremaneira ao incentivo do ensino de arte contemporânea nas escolas desde a formação inicial. atende principalmente as escolas públicas da Zona Leste. Assim. O ônibus corta a cidade e já é apreciado no percurso às escolas. no recorte contemporaneidade. não passa despercebido. em espaço aberto. V. O estudo prévio dos folhetins faz os estudantes de pedagogia familiarizarem-se com o projeto. Eles ministram e assistem aulas 4 São autoras: Ernesta Zamboni. além de deslocar o espaço expositivo do centro à periferia. mas transporta arte-educadoras que atendem seus públicos. o aluno da universidade desloca-se pela cidade para conhecer a realidade das escolas públicas e novas formas do ensino de arte. na disciplina básica da graduação por nós ministrada: Arte e Educação do Movimento. 62 . acompanhando os arte-educadores do Maria Antônia. Isto aconteceu depois de terem estudado os folhetins dos artistas do projeto e dado aulas sobre eles para seus pares durante o curso.ROSA IAVELBERG todas suas superfícies em diversos tons de vermelho. A obra. Castellar e Rosa Iavelberg. história e geografia para ser distribuído aos professores. feita para circular ou estacionar e ser visitada. mostra em movimento. alunos do curso de pedagogia da Faculdade de Educação da USP realizaram estágio supervisionado nas escolas. Feito em parceria com a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão. ou da Zona Oeste da cidade às periferias. como o iluminado letreiro o anuncia. O ônibus feito obra deixa de ser ônibus. sem ponto fixo na cidade remete-nos às categorias de obra itinerante. intervenção que atravessa a cidade e dinamiza o conceito de arte contemporânea ao ativar sua presença na escola. foi feito um material de apoio didático interdisciplinar de arte. Sonia M. Para o CARNE. prefeitura do Campus Oeste e Nasce usp/leste. PESQUISA No projeto Lá Vai Maria. CARNE visa primordialmente a atender os alunos com menos oportunidades de educação em arte e arte contemporânea.

♦ possibilita verificar como poderei articular na prática a teoria vista na faculdade em uma sala de aula 7. 5 cujas questões visavam à reflexão sobre os diferentes conteúdos envolvidos na situação de aprendizagem do estágio. 5 O questionário foi ordenado e aplicado com minha supervisão pela mestranda Elizabeth Camargo e posteriormente interpretado e tabulado por mim. 2006 sobre os folhetins. do 1o semestre de 2005 da Faculdade de Educação da USP. orientando leituras. na escola. trabalhando informações e temas já estudados por eles. p. cultural (fc) e gerencial (fg) do professor criadas por nós (Iavelberg. Como o estágio influenciará em sua prática pedagógica? ♦ contribuirá para pensar sobre a qualidade das perguntas direcionadas aos alunos 7. 55-70. que acompanharam duas visitas às escolas junto com os arte-educadores do CEUMA.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. pois a carga didática da disciplina básica do curso de Pedagogia. Estes alunos responderam a um questionário. ministrada pelo professor Marcos Neira –. 63 . buscamos agilizar estratégias de impacto que dinamizem a aprendizagem por meio de projetos mobilizadores que viabilizam o contato com arte contemporânea e objetos de arte originais e promovem o ingresso do jovem professor em formação no universo da arte. 2003) para o professor de arte a partir de conceitos sugeridos por Antonio Nóvoa (1997).1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. Puderam se inscrever no estágio vinte alunos da disciplina Arte e Educação do Movimento. Tais âmbitos da formação do arte-educador foram enunciados por Ferraz & Fusari (1992). para depois. proximidade e desejo de atualização. Como complemento a essa experiência formativa – no breve tempo didático que dispomos na graduação. ministrando oficinas de práticas artísticas. por adesão e por ordem de procura. Destacamos abaixo algumas perguntas para realizar a tabulação em dois âmbitos: aprendizagem sobre arte e sobre dar aula de arte. observar o arte-educador do Maria Antônia. SÃO PAULO. divide a carga didática com Educação do Movimento. Arte. Os resultados dentro destes âmbitos foram classificados nos recortes Formação educacional (fe). Projetos que envolvem poéticas contemporâneas que tocam o jovem professor por meio da identidade. nº 85.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA.

1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fc e fe.1% (aprendizagem sobre arte) fc. ao mesmo tempo sua curiosidade pelas oficinas. 7. neste contexto específico de formação.1% (aprendizagem sobre arte) fc. 14.3% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe.8% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fc. ♦ a relação positiva entre a arte-educadora e os alunos. ♦ pude perceber a importância que a arte tem para a sociedade. 7. ♦ contribuirá para refletir sobre práticas pedagógicas em arte. ♦ contribuirá para uma atenção na forma como os conteúdos são mediados 14. 14.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe.3% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe.3% Aprendizagem sobre dar aula de arte 78. ♦ o fato da maioria dos alunos não ter tido aula de artes este ano.ROSA IAVELBERG ♦ terei mais coragem de trabalhar com os alunos sobre arte 7. sobre conceito de artes. 7.3% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. ♦ o desinteresse dos alunos.3% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fc. ♦ o interesse dos alunos por uma aula diferente. 7. ♦ contribuirá para a maneira de abordar a linguagem estudada e a postura durante a aula 28.1% (aprendizagem sobre arte) fc. ♦ possibilita ter menos preconceito em relação às várias linguagens que nos cercam 7. primordialmente como propiciador de competências para dar aulas.7% O resultado aponta que os alunos compreendem o estágio. ♦ usarei um olhar mais atento às diferentes linguagens artísticas visando a um trabalho interdisciplinar 7. 64 . ♦ o pouco conhecimento dos alunos. Aprendizagem sobre arte 21. 21.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe.4% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. 14. O que mais chamou sua atenção na visita? ♦ a rapidez com que os jovens puderam entender uma nova linguagem.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe.

♦ possibilitou verificar de que forma eu poderia trabalhar com esses conceitos em sala de aula (aprendizagem sobre dar aula de arte) e (aprendizagem sobre arte) 29% fe e fc. 7. 7. 65 .1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fc.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fc. dentro de seu próprio ambiente. Aprendizagem sobre dar aula de arte 100% Na visita concentraram-se na observação da situação didática e não se referiram aos conteúdos específicos das obras ou da arte. ♦ percebi a importância de ensinar arte de forma progressiva. Como a abordagem e o desenvolvimento da visita contribuíram para sua formação pedagógica? ♦ estimulou a mostrar coisas novas para os alunos.8% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fc. 2006 ♦ o interesse dos alunos pelas obras apresentadas. 21.1%(aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. ♦ percebi a importância para os alunos de trabalhos diferenciados. ♦ pelo fato de ver como ocorre uma oficina de artes com uma arte-educadora. ♦ para ser bom professor é necessário ter domínio deste conteúdo e ser bem preparado. 7. 55-70. 7. 7.1%(aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fc. ♦ percebi que podemos trabalhar com mais linguagens que não somente a escrita em sala de aula. p.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. 7. 28.4% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fc.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fc. 7. ♦ foi a desmistificação de que trabalhar arte com tema para adolescentes de baixa renda seria complicado. ♦ perceber que o diálogo com os alunos numa apresentação de uma atividade é essencial. nº 85.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. SÃO PAULO.

7. ♦ montar exposições esporádicas.9% 7.ROSA IAVELBERG Aprendizagem sobre dar aula de arte e aprendizagem sobre arte Aprendizagem sobre dar aula de arte 29% 71% Importância da arte na formação e na transformação da sociedade ♦ observou novas formas de analisar e comparar as linguagens artísticas. 7.1% (aprendizagem sobre arte) fc e fe. plástica. que possibilidade educacionais você pôde deslumbrar? Explique. Aprendizagem sobre arte Aprendizagem sobre dar aula e arte 92.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fg e fe. 66 .1% (aprendizagem sobre arte) fc. ♦ realizar visitas a museus de arte contemporânea.3% (aprendizagem sobre arte). novos conceitos no trabalho artístico. ♦ percebeu que os alunos não consideram a fotografia uma expressão artística 7. ♦ oferecer espaços da cidade para serem visitados pelos alunos. 7. 7. 7.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fc e fe. 50% (aprendizagem sobre arte) fc.1%(aprendizagem sobre arte) fc. literatura.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. ♦ não mudou o conceito que tinha 14. ♦ levar arte-educação para a sala de aula. seguido de uma visita na escola. 7. 7. ♦ percebeu como é importante oferecer oportunidades para os alunos se expressarem. ♦ mudou a visão de arte contemporânea.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe.1%(aprendizagem sobre dar aula de arte) fg e fe.1% A partir da visita. ♦ conheceu um vocabulário específico. ♦ descobriu que existem várias formas de expressar arte: visual. 7.

p.5% Aprendizagem sobre dar aula de arte 70. nº 85.5% 10.4% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe. 2006 ♦ criar nas escolas um núcleo permanente de arte-educação. Formação educacional Formação cultural Formação cultural e educacional Formação gerencial e educacional Formação gerencial 42. ainda. cultural e gerencial.4% CONCLUSÕES Entre os que responderam realizamos a tabulação nos recortes Educacional.4% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fe e fg.6% Não respondeu 14. 14.5% 17.0% 2. disponível na 67 .5% 27. ♦ criar projeto interdisciplinar com arte e educação do movimento.1% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fg. aprendizagem sobre dar aula de arte e sobre arte. ♦ aprender outras formas de ensinar arte aos alunos.2% (aprendizagem sobre dar aula de arte) fg e fe. Aprendizagem sobre dar aula de arte 85.0% Os alunos da pedagogia trabalharam com os folhetins do Material de Apoio Didático do projeto Lá Vai Maria.5% Aprendizagem sobre arte e sobre dar aula de arte 6. 55-70.5% Entre os que responderam realizamos a tabulação nos recortes aprendizagem sobre arte. 14. 14. aprendizagem sobre dar aula de arte e.4%. SÃO PAULO. Aprendizagem sobre arte 23. 7. 14. ♦ propor mais momentos de produção e fazer uma exposição dos trabalhos para apreciá-los.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. ♦ não respondeu.

5%. Outro aspecto importante da experiência formativa apresentada é a associação entre a simulação de aula. não têm hábito de freqüentar instituições culturais e são particularmente distantes. cujas informações retratam o caminho de cada artista produzido por historiador. Entre os professores.ROSA IAVELBERG biblioteca da Faculdade de Educação da USP.5% ou 10. vivida como prática didática. alcançando 80% dos indicadores formativos. que se relacionam de forma direta com os 76. que não conhecem história da arte. Isto se deve à não abertura 68 . como a maioria das pessoas. O que traduz a eficácia da didática formativa criada para o contexto educacional deste curso de Pedagogia na formação inicial.5% dos participantes. associada ao âmbito gerencial. perfazendo 76.5% afirmaram que a experiência colaborou em sua formação educacional que. Nas porcentagens indicadoras dos tipos de aprendizagem e âmbitos da formação alcançados. Isto se explica pela formação anterior da maioria destes alunos.5% e ainda mais 6.5% dos indicadores de aprendizagem sobre saber dar aula.5%. curador ou crítico de arte e a transposição didática realizada por arteeducadores experientes. A formação em relação à aprendizagem sobre arte foi mencionada por 23. 42. da arte contemporânea. Como recurso didático. em 27. alcançando 70. orientamos o uso das tecnologias de comunicação e informação (TIC) como forma de integração de recursos tecnológicos contemporâneos na didática da arte. se traduz em 10% e ao cultural. os resultados seguem coerentes na relação com os dados sobre aprendizagem encontrados. O vínculo entre sala de aula e as práticas sociais da arte está contemplado tanto na leitura dos folhetins como na ida à escola com um profissional de instituição cultural que trabalha com obras originais. com base em um folhetim de artista escolhido e na vivência como aluno destas aulas. alcançando 17% e 27. Ao todo estudaram seis folhetins depois que apresentamos a proposta na primeira aula. ministrada em subgrupos. aula ministrada. por todos os participantes aos pares. Outro aspecto da formação é o gerencial.0% em combinação com aprendizagem sobre arte. completando 12. No que se refere aos âmbitos de formação. associados à formação educacional. Na formação cultural os indicadores são menos expressivos. observamos que a aprendizagem sobre dar aulas de arte teve maior evidência.5% dos indicadores de aprendizagem.0% associado ao âmbito educacional.5% entre os indicadores. que expressa apenas 2.

nº 85. São Paulo: Iluminuras. 2005. Sonia & IAVELBERG.5 aula e 20 horas de estágio –.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Ernesta. 2000. São Paulo: Cortez. Montserrat. Cadernos do Cedes. “Educação geográfica: a psicogenética e o conhecimento escolar”. da pequena formação anterior em arte entre os alunos da pedagogia no que se refere aos aspectos aqui destacados: aprendizagem para saber dar aulas de arte e sobre arte e. p. 1991. gerencial e cultural destes alunos. São Paulo: CosacNaify. A gestão efetiva para dar aulas de arte ocorre no cotidiano do professor quando ele tem que lidar com as questões de gestão da escola. mai. No caso da simulação. A organização do currículo por projetos de trabalho . 1992. A experiência nos leva a concluir que a criação didática do formador em arte dos alunos de pedagogia é a alternativa viável para solucionar o contexto da formação inicial em face da reduzida carga didática disponível. n. Material de apoio didático Arte Passageira. Arte na educação escolar. 209-27. a partir da observação de profissionais habilitados ministrando aulas de arte – com concentração da carga didática em 24. Sonia Maria Vanzella. CASTELLAR.T. vol. devido à seleção das atividades que ordenaram a experiência como um todo. Hernandez & VENTURA. FERRAZ. PSIA. Maria F. CASTELLAR. Maria Heloisa C. Carmela Gross. tais aspectos estavam facilitados pela proposta. Campinas.-ago. SÃO PAULO. porque o material de apoio didático é aberto à leitura e à recriação. resulta em aprendizagens importantes aos alunos da formação inicial. 66. São Paulo: CEUMA/Pró-reitoria de Cultura e Extensão da USP. A associação entre simulação de aula no curso de pedagogia e estágio supervisionado na escola pública. & FUSARI. Rosa & ZAMBONI. Ana Maria. R. Porto Alegre: Artes Médicas. 2006 da experiência para os alunos ministrarem aulas reais e ao fato de a pesquisa para dar aulas na situação de simulação estar a meio caminho entre as fontes bibliográficas de arte e um material didático pronto. 55-70. 69 . 2006 (fotocópia). BIBLIOGRAFIA ANTUNES. BELUZZO. também. FERNANDO. 1998. 25. Arnaldo. formação educacional. p.

IAVELBERG. 2003. Sérgio Sister . Para gostar de aprender arte: sala de aula e formação de professores. Lá Vai Maria. António (org. 2003.). 1999 (convite). Alex Cerveny . Nuno Ramos. 2002. São Paulo. Pinacoteca do Estado. SÃO PAULO (estado). et al. Rosa. Gal Oppido. Prata sobre pele sobre prata. 2002 (fotocópia). 1997. 1999 (catálogo). IAVELBERG. et al. Rosa (org. 2003 (catálogo). Curitiba: Editora Casa da Imagem. RIO DE JANEIRO (município) Secretaria Municipal de Cultura. L. NÓVOA. Laura Vinci. Alemanha. São Paulo: Edusp–Imesp. Galerie Ruta Correa. Porto Alegre: Artmed. Centro de Arte Hélio Oiticica. Rio de Janeiro. NAVES. São Paulo: CEUMA. MAMMÌ. Material de apoio didático. Os professores e a sua formação.FREIBURG.). R. Secretaria de Estado da Cultura. 70 . Lisboa: Dom Quixote.

)2 Examinada em globo.. extraordinária valorização do solo e das edificações. (Relatório da Comissão de Saneamento das Várzeas de São Paulo. para as americanas. grandes espaços desocupados ou muito irregularmente utilizados. apud Frúgoli Jr. a simples passagem dos anos é uma degradação (. Biblioteca Municipal de São Paulo. São Paulo: Cortez: EDUSP. 1890-91. conflitos e negociações na metrópole. Heitor. pp 1-2. 71 . Muito commércio. FRÚGOLI JÚNIOR.. nunca são. São Paulo é uma cidade moderna com os defeitos e qualidades enherentes ãs cidades que se desenvolvem muito rapidamente.ALPHAVILLE E TAMBORÉ: CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS MEDIEVAIS NA APROPRIAÇÃO DE TERRAS PARA CONDOMÍNIO DE ALTO PADRÃO Regina Célia Bega dos Santos1 A passagem dos séculos representa uma promoção para as cidades européias. largas superfícies habitadas sem os indispensáveis melhoramentos reclamados pela hygiene.) são construídas para poderem renovar-se com a mesma velocidade com que foram erguidas. (LéviStrauss. 7 de novembro de 1891.) Não são cidades novas contrastando com cidades antigas. todavia saudáveis.. Dra. 2000..... 198.) irregularidades nas construções realizads em plano premeditado. grande movimento.) 1 2 Profa. as do Novo Mundo vivem febrilmente uma doença crônica: eternamente jovens. isto é mal (. p. UNICAMP. Certas cidades da Europa adormecem suavemente na morte.. e a par de tudo isso uma população que triplicou em dez annos. Desigualdades nas edificações e nos arruamentos. Centralidade em São Paulo: trajetórias. (. aposentada do Departamento de Geografia do IG. mas sim cidades com um ciclo evolutivo muito rápido comparadas com cidades de ciclo lento.

ocupantes. As articulações entre os detentores de poder público e do capital imobiliário imprimem determinadas tendências na estruturação do espaço urbano. Reconstituímos a história da posse das terras que deram origem aos loteamentos pesquisados. a forma como esta comercialização se realizava. nas “franjas” da área metropolitana. no transcurso da história da ocupação da cidade. os empresários do setor imobiliário e o poder público. em função da nova dinâmica imposta pelo mercado imobiliário. serviu para demonstrar como o direito à moradia se tornou um privilégio usufruído por poucos. A pesquisa histórica de como o capital imobiliário se beneficiou das possibilidades dadas pelo poder público para se apropriar. definiram as características do mercado imobiliário quanto à quantidade e à qualidade de terras e de moradias disponíveis para a comercialização. parcelar e valorizar as terras urbanas permitiu explicar alguns aspectos da expansão metropolitana e da segregação sócio-espacial. de postos chaves do sistema estatal. com o surgimento de novos loteamentos. Historicamente. As possibilidades de manutenção do monopólio da terra tal como definido historicamente. que cresce e muda numa velocidade 72 . Novos usos foram definidos ou redefinidos para estes lugares. que também atua para a verticalização da metrópole. relacionam-se com a forma como a sociedade se organiza e atua politicamente. As relações entre a elite paulista. bem como.REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS O recurso à pesquisa histórica contribui para esclarecer importantes questões relacionadas ao desenvolvimento das cidades. partindo da hipótese de que esta história se relacionava com as possibilidades restritivas socialmente falando de acesso à terra urbana. estas articulações ocorreram com a ampliação da ação do Estado no auxílio às oligarquias financeiras. Neste caso específico. O processo de expansão urbana. através da ação política dos grupos hegemônicos. por sua vez. se deu com a anexação de terras de uso agrícola. A forma de acesso à terra e à moradia e a definição de qual ou quais parcelas da população teve e continua tendo acesso ao mercado imobiliário foram definidos pelos interesses político-econômicos dos grupos hegemônicos que têm se mantido no poder.

além do Alphaville E n p r e s a r i a l . a velocidade das cidades do novo Mundo. continuam a surgir junto à Alphaville e Tamboré ou no seu entorno. filha de Beatriz. uma transformação no estilo de morar e viver. Atualmente são 17 residênciais que procuraram se espelhar no conceito das edge-cities norteamericanas (cidade contorno). onde trabalho. pagam aforamento à União. 2006 surpreendente. como se verifica nas informações constantes do site da Tamboré S. nº 85. q u e p e r m a n e c e u c o m o s a n t i g o s donatários. 71-85. neta do Cacique Tibiriçá3 ). Alphaville. Os residenciais de 0 a 4 de Alphaville e os 7 condomínios de Tamboré‚ além do seu Centro Empresarial. para abrigar e catequizar os índios apresados pelo bandeirantismo. ainda no século XVII. Parte destas terras foi aforada. 73 . desde 1982 tem colocado novos residenciais à venda. a uma das famílias fundadoras de Parnaíba (estas terras foram concedidas para as filhas de Suzana Dias. da década de 70. Uma delas. chamados de “residenciais” e numerados de 0 a 12. Inúmeros novos empreendimentos. Constituem3 O índio Tibiriçá casou muitas de suas filhas com cidadãos portugueses. na Região Metropolitana de São Paulo) são loteamentos de alto-padrão. Bartira ou Isabel casou-se com João Ramalho e uma outra. Alphaville e Tamboré (localizados nos municípios de Barueri e Santana do Parnaíba. tanto empresariais como residenciais. representados hoje pela família Álvares Penteado. A vitalidade desta área para o capital imobiliário parece inesgotável. fixou residência em Parnaíba desde praticamente o início do povoado. é formada por 13 condomínios.A. Faziam parte de uma sesmaria destinada à Aldeia de Barueri. p. seguindo o sucesso do empreendimento anterior. inicialmente sob a administração da Companhia de Jesus. O que singulariza estes empreendimentos imobiliários é o fato de estarem localizados em terras da União.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. no eixo oeste da expansão metropolitana. lazer e segurança coexistem no mesmo local. Ta m b o r é . como ressaltado por Lévi-Strauss. em condomínios fechados. Beatriz com Lopo Dias. SÃO PAULO. instalados parcialmente em terras da União e localizados a partir do km 21 da Rodovia Castello Branco. entretenimento. Suzana Dias. no final do século VXI e início do XVII.

O foro deve ser pago anualmente. in. inciso h) do Decreto Lei nº 9. ou por venda. com a obrigação de pagar o foro anualmente e o laudêmio. por se tratar de terras dos índios de Barueri. nas zonas onde não mais subsistam os motivos determinantes da aplicação do regime enfitêutico. 103 versa sobre a remissão do foro. que será anualmente atualizado (art. 42ª edição.6% do valor do respectivo domínio pleno. neste caso a União. O parágrafo 2o. Saraiva. a critério do Presidente da República e por proposta do Ministro da Fazenda.760 de 5 de setembro de 1946. também descendentes de Suzana Dias. ficando sujeitos ao foro de 0. Municípios ou particulares. concedido pela Câmara de São Paulo em aforamento a particulares. qualquer que seja a sua natureza ser alugados. ao longo de todos estes séculos. organizado por Juarez de Oliveira. correspondendo a 0. os terrenos dos antigos aldeamentos de índios e das colônias militares que não tenham passado.5 A situação jurídica destas terras alertou-nos para a sua peculiaridade. atribui a outrem (o enfiteuta) o domínio útil de um imóvel mediante o pagamento de uma pensão anual chamada foro. ficando o adquirente como foreiro. aforados ou cedidos. para o domínio dos Estados. SP. somente quando transferir o domínio útil. No caso de venda do domínio útil. quando a União é a proprietária das terras ela pode outorgá-las a outrem com a cobrança do foro. detém a coisa. em um dos raros casos de enfiteuse 4 em território brasileiro. 101). O enfiteuta passa o domínio útil de 83% da área por hereditariedade. loteando e vendendo unidades residenciais em Tamboré.05 do valor da transação que é feita da seguinte forma: o transmitente vende apenas o domínio útil do imóvel com a concordância do titular do domínio pleno (ou direto). mas não a possui. assim. legalmente. Código Civil brasileiro. A enfiteuse. o restante continua sendo da União. a União cobra o laudêmio: 0. Ainda hoje é esta família que atua no mercado imobiliário. Pelo artigo 64 desse mesmo Decreto-lei. os bens da União não utilizados em serviço público poderão. de acordo com o direito romano ocorre quando a propriedade pertence a outrem (a União .no caso presente). Ocorre quando o proprietário por contrato ou disposição de última vontade. do art. O parágrafo 2º estabelece que o aforamento se dará quando existir a conveniência de radicar-se o indivíduo ao solo e de manterse o vínculo da propriedade pública. 1992. o enfiteuta exerce o poder de fato. 5 74 . Por que e como continuaram. como patrimônio da União? O que as diferenciam dos outros loteamentos urbanos que também se originaram do parcelamento 4 De acordo com o artigo 1º. edição atualizada até 15/12/1991. Em uma outra parte foi instalado o sítio ou Fazenda Tamboré.REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS se.6% sobre o chão (domínio pleno). No Brasil. incluem-se entre os bens imóveis da União. que será facultada.

As aldeias indígenas eram também utilizadas para a catequese . Cresceu muito porque a sua localização era estratégica: na boca do sertão e nas margens do Rio Tietê que era o mais importante eixo fluvial leste-oeste. referindo-se neste caso. Em Portugal. como nos lembra Pasquale Petrone. P .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. já no Brasil colonial designava a aldeia indígena. correspondendo ao termo francês village. habitados pelos brancos. de Geografia. 64-65. aos aglomerados indígenas não espontâneos. Barueri foi a maior aldeia de São Paulo. mantendo a relação jurídica original quanto à posse da terra? Os aldeamentos indígenas tiveram um importante papel no processo de colonização e de conquistas de terras no Brasil. abrigando cerca de 5000 índios. reservatórios de mão-de-obra escrava. que nada mais era do que a concentração de ocas. USP . ainda. faz parte dos aldeamentos indígenas sob a administração direta de sua majestade. 71-85. O comércio de índios escravizados era o principal negócio da Província de São Paulo. p. A Aldeia de Barueri. o termo aldeia era utilizado em relação ao habitat rural concentrado. morada dos índios e os bairros rurais ou povoados. 75 . 2006 de sesmarias e foram aforados. em 1640. eram colocados nas aldeias paulistanas para depois serem vendidos para os engenhos açucareiros do nordeste. Livre-Docência. p. 1964. Para os portugueses a aldeia era a “não-cidade”. criada no início do século XVII. principalmente. nos séculos XVI e XVII em expedições organizadas pelos moradores da Província de São Paulo (os bandeirantes).a conversão ao cristianismo . Os aldeamentos paulistas e sua função na valorização da região paulistana. A decadência dos aldeamentos indígenas começou quando Portugal conseguiu livrar-se do domínio espanhol e extinguiu a 6 PETRONE. no período colonial. Os índios aprisionados no centro-sul do país. uma sesmaria seiscentista transformou-se em um empreendimento imobiliário altamente lucrativo. mas puderam ser transacionados livremente no mercado de terras? Como uma aldeia indígena.6 Os aldeamentos indígenas eram.feita pelos padres missionários da Companhia de Jesus. criados dentro do processo de colonização. nº 85. No Brasil fazia-se. Dpto. pois o tráfico do indígena escravizado dificultava o trabalho de sua conquista para a Igreja. a distinção entre a aldeia. SÃO PAULO. FFCL. que freqüentemente entravam em conflito com os apresadores e com os governantes. Petrone faz ainda uma distinção entre os termos aldeia e aldeamento.

filho de Suzana Dias foi um dos principais. A política de aldeamento e seu aspecto interiorizante organizou a ocupação e a exploração do planalto de Piratininga. 7 Atas da Câmara de São Paulo. praticando uma agricultura itinerante. o próprio Fernão Dias. não foi o que ocorreu. “protegida” pelo poder público.REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS Companhia de Jesus.7 Este problema com as terras dos índios já ocorria há mais tempo. Além disso. já havia autorizado que alguns moradores de Parnaíba se instalassem em terras da aldeia. vol. Fernão Dias Paes. Em decorrência. o “rateio” das terras era realizado entre os próprios vereadores. contra a invasão indiscriminada de suas terras pelos brancos. p.e os indígenas trabalhavam a intervalos irregulares para os senhores de terras. Porém. procuradores de índios etc. Nas aldeias poderiam morar. Os jesuítas foram expulsos do Brasil e. a Aldeia passou a perder terras para foreiros. com isso os aldeamentos foram perdendo a importância. então capitãomór e procurador dos índios. a população indígena remanescente ficaria ali abrigada. com o início do tráfico negreiro foi definitivamente proibido o comércio de índios escravizados. permanecendo apenas como reservas indígenas. As terras dos aldeamentos foram gradativamente invadidas e ocupadas pelos brancos. capitães mores da aldeia. 76 . cultivar a terra e viver em segurança. Não raro. 121-122. houve uma expressiva redução na quantidade de índios vivendo em Barueri (cerca de 500 índios apenas em 1660). A dispersão também advinha do modo de vida preservado pelos indígenas. Anos depois. sendo dele a sugestão para que estas terras fossem aforadas. pede terras. os índios da Aldeia de Barueri dispersaram-se por vários lugares. ocorreu principalmente a partir da segunda metade do século XVIII. O confisco de terras foi se tornando normal: os ouvidores autorizavam os arrendamentos que deveriam ser pagos à Câmara Municipal. que sempre moraram fora dos aldeamentos. IV. que obtinham concessões na Câmara de São Paulo. Cerca de 40 anos antes. Os aldeamentos foram definidos nas terras dos apresadores – André Fernandes. porém. juízes. isto é. argumentando que não as tem! Entretanto. juntamente com João Leite e Pedro do Prado. conhecido como o corsário do sertão . a intensificação da prática de aforamento das terras indígenas a particulares. levando ao surgimento de inúmeras outras povoações ao redor de Barueri. Com a expulsão dos jesuítas.

o Diretor da Aldeia dos Pinheiros aforou terras dos índios de Barueri em razão da não demarcação das terras dos aldeamentos. 2006 O itinerantismo inclusive era o que justificava a grande extensão das aldeias. Os moradores deveriam ter autorização para roçar ou derrubar matos. Em 1788. no entanto. invadindo os limites das aldeias. eram indispensáveis para a manutenção de tal prática. Quanto à urbanização que se iniciava. José Leite Penteado. p. SÃO PAULO. aparentemente na defesa dos índios. A Câmara. Quando se concediam aforamentos em locais mais distantes. Para Petrone. definindo ainda o que seria terra devoluta e proibindo a aquisição das mesmas por outro título que não fosse o da compra. como o da Fazenda Itamboré.8 As terras desta e das demais aldeias foram incorporadas aos bens patrimoniais da Coroa Real. Para que os índios pudessem viver der acordo com os seus costumes. como as olarias. Seria considerada terra devoluta aquela que não se achasse no domínio 8 Livro de Tombo número 1 da Cúria Metropolitana. para o desenvolvimento das atividades urbanas típicas da época. era preciso que as aldeias fossem extensas. Na realidade. 71-85. continuou a conceder as cartas de data. a partir da década de 30 do século XIX aforadas e não mais entregues por Carde de data. sempre mencionadas nos pedidos de aforamento. já que Barueri era refúgio par aos índios de outras aldeias e aldeamentos. mas a população indígena ali abrigada não parou de crescer. defendia os interesses de sua família detentora de outros aforamentos de terras da Aldeia. A Lei de Terras de 1850 exigia que as sesmarias e os aforamentos fossem registrados. várias medidas importantes foram tomadas para normatizá-la. nº 85. foi este caráter disperso do habitat dos aldeamentos e a não delimitação de suas terras que propiciaram a definição embrionária dos bairros rurais que viriam a ser ocupados pelos brancos. o Diretor da Aldeia de Barueri se colocou contra este aforamento. Para isso a Câmara deveria informar ao presidente da Província sobre as terras disponíveis para aforamento.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. como se praticava até então. As terras do município deveriam ser. No início do século XIX a cidade de São Paulo crescia incorporando as terras dos antigos aldeamentos. As chamadas terras e matas fora da aldeia. As terras estavam dentro do rocio da cidade e das freguesias e seriam aquelas que teriam caído em comisso ou não tivessem título legítimo. mas as disputas por elas continuavam ocorrendo. A Aldeia de Barueri foi oficialmente extinta em 1759. 77 . estes podiam facilmente invadir os limites dos aldeamentos.

1987. O conceito de terra devoluta. Silva. 9 Lei de Terras de 1850 procurou demarcar as terras devolutas e normalizar o acesso à terra por parte dos particulares. AGB. causou muita confusão na história posterior da apropriação territorial. op. Lígia Maria Osório. Os próprios nacionais continuavam de domínio da União e entre estes estavam as áreas remanescentes de sesmarias concedidas aos jesuítas. Osório. Com esta lei temos a passagem do ordenamento jurídico colonial para a forma moderna de propriedade. O sentido original do termo devoluto era “devolvido ao senhor original”. nem arrendasse as terras. para que as lavrasse e aproveitasse. 1990. Nem mesmo o pagamento do foro – como se exigira anteriormente para as terras dos aldeamentos – era mais exigido. o cinturão caipira guardou as marcas da presença dos aldeamentos e da população mestiça. São Paulo. 199 e 205. Toda a terra doada ou apropriada não sendo aproveitada. No decorrer do século XX. nem estivessem reservadas para o serviço público ou incorporadas.11 No entanto. remanescente do sistema de sesmarias.9 A constituição de 1891. 231. 10 11 78 . A falta de clareza e a incapacidade de fiscalização por parte do poder público permitiram a abertura das portas para a “grilagem”. na linguagem oficial e extra-oficial.REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS particular por qualquer título legítimo. ignorando-se a Lei de Terras. Assim. In. p. devoluto ficou como sinônimo de vago. utilizado deste os tempos coloniais. Com o passar do tempo. cit. retornava ao senhor de origem. Lígia. os aldeamentos vão perdendo as características de núcleos indígenas. passaram a chamar toda e qualquer terra desocupada de devoluta. isto é.10 Na Província de São Paulo. in BPG. nº 65.C. como ressaltado por Petrone. Ele perderia o direito às mesmas e as terras devolutas deveriam ser distribuídas a outrem. punia o senhorio que não cultivasse. passando a se identificar com o cinturão caipira de população predominantemente mestiça. O uso do termo devoluto como sinônimo de vago. As poucas terras devolutas passaram a ser aquelas em que não houvesse nenhum uso público nacional. PETRONE. PUC. e Jahnel. do Governo de Prudente de Moraes considerava terras devolutas as que não tivessem nenhum uso público. as terras continuaram sendo concedidas gratuitamente. e aquelas que não estavam no domínio particular através de título legítimo. à Coroa portuguesa. as cartas de doação. doutoramento. São Paulo. totalmente integrada no universo cultural caipira. nem fosse havida por sesmaria ou outra concessão do Governo Geral ou Provincial. T. estadual ou municipal. p. A Lei de Terra (Um estudo sobre a história da propriedade da terra no Brasil). “As leis de terra no Brasil”.

para explicar o processo de ocupação recente de Barueri e Carapicuíba. optou por 79 . passaram a cinturão da especulação imobiliária. por si. podem ser considerados como instrumentos significativos para a valorização e organização espacial de planalto paulistano como um todo. nº 85. De cinturão caipira ao redor de São Paulo. quando parte do mesmo foi comprado. como interpretado por Petrone. 2006 Convém ressaltar que no século XIX o Vale do Tietê converteuse no principal eixo de expansão do povoamento paulistano. O sítio Tamboré (com mais de mil alqueires) permaneceu nesta situação – de área reserva da especulação imobiliária . Parte das terras do cinturão caipira se urbanizou rapidamente e perdeu estas características. Os aldeamentos vinculados à evolução de um sistema de povoamento. a partir de meados desta década. definindose os bairros periféricos operários – as chamadas vilas. é importante que se ressalte que a antiga condição de aldeamento é insuficiente. Mas. começaram a surgir os subúrbios residenciais de luxo. utilizando as palavras de Petrone. Como os aldeamentos nunca foram demarcados. acabaram por se sobrepor. as terras dos aldeamentos transformaram-se em cinturão verde – com a finalidade de suprir a metrópole em crescimento com produtos hortigranjeiros. em parte porque os seus solos já se encontravam depauperados pelo sistema de roças desenvolvido por quatro séculos. Posteriormente. Estas terras foram usadas para a formação de loteamentos. para a produção de terras urbanas para a moradia. p.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a não ser nas das edificações da Aldeia de Carapicuíba que permanecem razoavelmente conservadas. as áreas de recreio.até a década de 70. tendo sido tombadas pelo patrimônio Histórico e nas terras aforadas de Barueri e de Carapicuíba que originalmente pertencia à Aldeia dos Pinheiros. 71-85. através da venda do título de aforamento para a construtora Albuquerque Takaoka. Durante a maior parte do século XX. constituindo-se mais tarde no chamado cinturão da especulação imobiliária. O seu parcelamento para uso urbano iniciou-se quando o mercado imobiliário em crise. mantiveram-se como área pioneira. isto é. SÃO PAULO. com as suas grandes extensões de terras provenientes dos aldeamentos ali localizados. as zonas industriais. A partir do desenvolvimento da indústria automobilística. As demais. Hoje. as áreas dos antigos aldeamentos situavam-se à margem do processo de valorização do solo em relação às lavouras comerciais rentáveis. as chácaras de fim de semana etc. não se vislumbra qualquer vestígio dos mesmos.

As terras que deram origem a estes condomínios não faziam parte do mercado de terras urbano. Esta restrição quanto à abrangência do usucapião. o pagamento do foro estava em dia junto à Receita Federal. a execução de um projeto de alto-padrão poderia possibilitar uma valorização extraordinária.12 Isto é. não-urbano. significa. As famílias Penteado e Prado. que começava a se desenhar com a falência do chamado “milagre econômico”. Sendo terras desvalorizadas.A.REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS desenvolver projetos visando conquistar um segmento de alto padrão. Nelson. detinham o título de aforamento do Sítio Tamboré desde os tempos coloniais. Takaoka S. Entretanto. Só isso já era suficiente para torná-las atrativas ao capital imobiliário. como pelo fato de pertencerem à União. Takaoka realizou o projeto de um Centro Empresarial. Para desenvolver os projetos pretendidos. sob o regime de enfiteuse. na prática. contudo. o fato de serem terras aforadas tornava-as mais baratas ainda. Eram posseiros que praticavam uma agricultura de subsistência. Entretanto. Essas terras não estavam sendo utilizadas pelos detentores do título de aforamento. as 12 SAULE Jr. Rio de Janeiro. estavam interessadas em “vendê-lo”. 1993. assim as construtoras Albuquerque.Engenharia. eram muito grandes. as perspectivas de lucratividade com a valorização. das terras dos índios da extinta aldeia de Barueri. Comércio e Indústria adquiriram através do Serviço do Patrimônio da União (SPU) o direito de utilização de uma parte destas terras através do pagamento de foro. a partir da transformação do uso do solo. após ter tido acesso às informações sobre a disponibilidade para negócios. promover um tratamento jurídico desigual para as pessoas que estão de fato na mesma condição econômica e social. Estavam. p. não afetado pela crise econômica. A Construtora Albuquerque. “Direito e Reforma Urbana”. Anais do 3º Simpósio Nacional de Geografia Urbana. já que poderiam ser adquiridas por um valor inferior determinado pelo seu uso anterior. produzindo uma renda diferencial para os loteadores que adquiriram os direitos de uso a baixo preço. 80 . tanto pela localização. muitos há mais de 30 anos. e Jubran . Usucapião é um instrumento jurídico somente para imóveis urbanos particulares. pois além das terras pertencerem a União. estocadas. impedidos de reivindicar o direito de usucapião destas terras. ali moravam muitas famílias. que como vimos. 127. Além disso. tinha que haver terras disponíveis.

Um deles alegava que só deixaria suas terras se recebesse 300 mil cruzeiros! Muitos dos moradores expulsos chegaram a pagar por 20 anos impostos indevidos pelas terras que ocupavam. Segundo a notícia do jornal. 2006 terras passíveis de usucapião são aquelas que foram “abandonadas” por seus proprietários e. dava vôos rasantes sobre suas casas. apresentando-se como capitão. nº 85. já que as mesmas pertenciam à União e estavam.Engenharia. que utilizavam esse método para desalojá-los das terras em que vivem. O desalojamento destes posseiros foi realizado com o uso clandestino de força policial e muita violência. assim relatava este acontecimento: Um helicóptero com sirenes ligadas. integrante da ROTA (RONDAS OSTENSIVAS TOBIAS AGUIAR) arregimentou as forças policiais contra os mesmos. alguns posseiros receberam 3 mil cruzeiros da época para deixarem suas terras.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. negavam a sua participação nestes acontecimentos. um era cabo. com o pagamento dos foros atualizados. Comércio e Indústria. o outro. os advogados da Jubran. outros recusavam-se a sair pela oferta de 70 mil. no município de Barueri. de acordo com as declarações do delegado de SPU. Foram indiciados em inquérito dois policiais militares. finalmente. o drama vivido pelos posseiros da Fazenda Tamboré. SÃO PAULO. p. dos quais. 71-85. Ontem. 81 . por isso. foi encerrado com o inquérito policial contra os empregados da JUBRAN . Os posseiros perderam as terras que ocupavam desde a década de 30. para intimidar os posseiros. pois além de todas as violências físicas e psicológicas a que foram submetidos. e de um grupo de policiais contratados pelos pretendentes de suas terras recebiam ameaças e espancamentos. O Jornal O Estado de São Paulo de 8 de julho de 1973. já os ocupantes de terras públicas (devolutas) não podem desfrutar do mesmo direito. passaram a ter seus barracos incendiados. Muitos assinaram a concordância para a saída movidos pelo medo. Para termos uma pálida idéia a respeito de como muitos foram ludibriados. com o uso da violência e da truculência que se tornaram mais fortes e mais rotineiras depois da instalação da ditadura militar. ocupadas por posseiros que depois de alguns anos conseguem o direito sobre as mesmas ou o título de posse.

1996. numa relação de descompasso e desencontro. “A noção de formação econômico-social (. Depois da mudança.REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS Mais de 100 famílias foram desalojadas da parcela da Fazenda Tamboré adquirida pelas construtoras Jubran e Takaoka. coexistindo relações sociais com datas diferentes. As temporalidades da História na dialética de Lefebvre. Se fossem terras devolutas. 82 . in Henri Lefebvre e o Retorno da Dialética. São Paulo: Hucitec. José de Souza. Sobrevivem de diferentes maneiras e circunstâncias históricas. pois somente a primeira prestação destes barracos estava paga. por serem patrimônio da União. que lá estavam há mais de 30 anos. justamente por serem terras da União. sob a alegação de que eram antigos aforamentos. poderiam ter adquirido o direito sobre as mesmas. Foram oferecidos gratuitamente barracos em outro local. 15. Estes fatos permitem-nos refletir sobre as possibilidades de apropriação privada das terras públicas. Trabalhamos com a hipótese de que algumas destas áreas pretensamente livres despertaram interesse. A apropriação destas terras da forma como ocorreu pelas construtoras só foi possível porque elas permaneceram como patrimônio público. tornando-se legítimos proprietários. ainda nos anos 70.. o trabalho sujo foi feito apenas pela Jubran. desde a década de 70. Entretanto. os desalojados descobriram que foram enganados. que as concede a particulares. 13 MARTINS.. como engloba a de sobrevivência na estrutura capitalista de formações e estruturas anteriores”13 As pesquisas que fizemos na Receita Federal forneceram indícios de que possivelmente os demais condomínios de Alphaville também ocupam terras outrora aforadas. os posseiros. p. Estes loteamentos exemplificam a indicação de Lefebvre de que as relações sociais não são uniformes e nem têm a mesma idade. a legislação em vigor impediu que se invocasse o usucapião sobre elas. através de aforamento. Foi muito atrativo para o capital imobiliário a existência. que depois desaparece como co-propietária do empreendimento. um processo para a União reaver as terras da antiga fazenda Itahim e do sítio Mutinga (vizinhos de Alphaville e Tamboré). Daí decorre a importância da noção marxista de formação econômico-social. Descobrimos que existe.) engloba a de desenvolvimento desigual. de uma grande quantidade de “áreas desocupadas” em uma localização tão privilegiada. Entretanto.

o que foi precariamente alcançado. único. a tendência de descentralização urbano-industrial já se apresentava com bastante nitidez. surge como uma possibilidade de empreendimento altamente lucrativo. num primeiro momento. e que não necessitavam do sistema oficial de crédito. produzindo-se. preferencialmente. Os investidores do setor procuraram sempre dirigir o programa e os seus investimentos para este segmento da sociedade. depois. assim. justamente por serem desvalorizadas. são objeto de interesse dos loteadores. No entanto. quando o mesmo passa a encontrar dificuldades para realizar seu capital através do Sistema Financeiro de Habitação (SFH).BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. permitiu que se realizasse a concentração e a monopolização fundiária pelo capital imobiliário. transformando-as num espaço privilegiado. Os lucros adviriam da mudança no uso da terra e das transformações promovidas pela sofisticada urbanização produzida pelo construtor. evidenciar como a manutenção destas terras como patrimônio da União. portanto baratas. garantindo-lhe um necessário e “barato” estoque de terras para futuras e valorizadas operações imobiliárias. criado pós-1964. SÃO PAULO. Alphaville. as diversas camadas da classe média. O fato de pertencerem à União pode. p. Os empreendimentos imobiliários realizados valorizaram-nas. cobra essa 83 . com o objetivo de atendimento das camadas populares da sociedade. No processo de incorporação destas terras pelo capital imobiliário para empreendimento de alto-padrão. o empreendedor beneficia-se das relações com o poder público. A maioria dos projetos e investimentos atingiu. A partir do momento em que as camadas médias empobrecidas não estavam mais adquirindo as unidades habitacionais financiadas pelo Sistema. dificultar a sua comercialização. apesar de dispensá-lo para a realização da urbanização da área. assim. 71-85. dotado de “qualidades” que superararam a desvantagem inicial. o “sobrelucro” esperado pelo investidor. em terras “aforadas”. que lhe possibilitaria os chamados “sobrelucros de inovação”. alguns empreendedores passaram a dirigir seus investimentos para os setores com maior poder aquisitivo. Mas. 2006 Procuramos. Alphaville surge como opção para o mercado imobiliário. neste trabalho. nº 85. mantendo-se desvalorizadas. Estes dois empreendimentos exemplificam como a atuação do poder público e do capital imobiliário promoveu a anexação privada de terras públicas. Além disso.

uma moto. repleta de pulsar.. um espaço homogêneo apenas no “intra-murus”. o sistema de segurança tenta proteger dos perigos. mas altamente segregador. a fortaleza foi edificada para servir de refúgio. ainda.. os não-cidadãos. Pirenne. de 14 de março de 1993. em relação aos que vivem fora dela. justamente ali.REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS dispensa. diz: “Aqui você pode andar sem medo. na cidade verdadeira. Osasco. exibia a seguinte manchete: “Para sair do que chamam ‘gaiola dourada’. mesmo porque se esta não existisse e não “agredisse” tão violentamente este segmento de alta renda da sociedade. 1966.15 Poderíamos também dizer que em Alphaville tal como no castelo medieval.. É como se o capital investido na urbanização fosse “capital morto”. em que “todo mundo tem um tênis bom. isto é. São Paulo: Ed. no clássico. É do girar deste caleidoscópio que surge Alphaville. substituindo a aldeia de índios de Barueri. onde habitavam os “vilões”. produto da miséria urbana. substituindo o poder público na realização de investimentos sociais. Um fragmento de “Ilha da Fantasia”. adolescentes paulistanos da classe A pensam em fugir de casa.. acordar e ir para o jardim. É como se o construtor-investidor estivesse. porém. Considera. Alphaville é a anti-cidade. positivo. não haveria porque o isolar-se no “intra-murus”. temos o socialismo Beverlly Hills: todos somos iguais. Henri. Como diz uma moradora: aqui dentro. É desta contradição que nasce a “aldeia pós-moderna”. 15 84 . demonstra que a cidade moderna surgiu. De certo modo podemos comparála às cidades européias da Idade Média.” A mãe de um deles que manifestou tal desejo. Carapicuiba. História Econômica e Social da Idade Média. de contradições e perigos.14 Mas este espaço homogêneo e sofisticado só pode existir porque temos Barueri. A homogeneidade de Alphaville tenta eliminar as contradições. o fato de seus filhos conviverem com gente da mesma classe social. Não existe desigualdade nos condomínios. que não retorna acrescido de valor para as mãos do investidor. um carro. As crianças vivem como se estivessem morando no interior”. Mestre Jou. parar o carro sem olhar para os lados. benemeritamente. A contradição é 14 Talvez por isso os adolescentes de Alphaville não gostem de morar ali. protegidas por altos muros e por um sistema de segurança que impedia a entrada dos “vilões” que viviam fora dela.” PIRENNE. do lado de fora dos muros da cidadela medieval. Acha saudável esta espécie de ‘socialismo Beverly Hills’. Uma reportagem do jornal Folha de São Paulo. História Econômica e Social da Idade Média.

os moradores dos condomínios. BIBLIOGRAFIA FRÚGOLI JÚNIOR. USP. conflitos e negociações na metrópole. apesar de tudo. Dpto de Geografia. Mestre Jou. edição atualizada até 15/ 12/1991. 1992. Regina Bega. São Paulo: Ed. PUC. Rio de Janeiro. USP. Os aldeamentos paulistas e sua função na valorização da região paulistana. 1964. São Paulo. PIRENNE. 1966. “Direito e Reforma Urbana”. 2006 eliminada apenas na aparência asséptica dos conjuntos residências. Doutoramento. nº 85. Anais do 3º Simpósio Nacional de Geografia Urbana. São Paulo: Hucitec. 85 . OSÓRIO. Lígia. in Henri Lefebvre e o Retorno da Dialética. 1996. José de Souza. História Econômica e Social da Idade Média. que dê conta da eliminação dos perigos e da violência que também atinge. OLIVEIRA. nº 65. AGB.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. SÃO PAULO. FFCL. Nelson. Heitor. p. Livre-Docência. 71-85. Henri. As temporalidades da História na dialética de Lefebvre. 1994. 42ª edição. São Paulo: Cortez: EDUSP. JAHNEL. SAULE JR. Doutoramento. 2000 . SANTOS. Código Civil brasileiro. PETRONE. Rochdale e Alphaville: Formas diferenciadas de apropriação e ocupação da terra na metrópole paulistana. Centralidade em São Paulo: trajetórias. 1993. FFLCH. T. 1987. MARTINS. e talvez por isso não haja sistema de segurança eficiente. C. Juarez. São Paulo: Saraiva. in BPG. São Paulo. A Lei de Terra (Um estudo sobre a história da propriedade da terra no Brasil). P. “As leis de terra no Brasil”. 1990.

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Certain areas are well-defined for tourism. encontraram na periferia um meio de escapar aos estranhamentos do cotidiano.br ou pvsantana@yahoo. 87 . They move to poor areas where others have made their living through crime. assim o espetáculo econômico se realiza. Doutora e Mestre em Geografia Humana pelo Depto. E-mail: psantana@usp.DA NECESSIDADE DA FESTA À NECESSIDADE DO ESPETÁCULO1 Paola Verri de Santana* RESUMO A prática social-espacial do maracatu oferece justificativa suficiente para uma pesquisa na área de Geografia Urbana. uma nova geração parece produzir o espaço de modo a manter o sentido de festa do maracatu. Eles se deslocam em direção aos lugares pobres. Contraditoriamente. ABSTRACT The social-spatial practice of Maracatu provides justification for research in this area. Palavras-chave: Periferia.Brasil. Estes movimentos transformam os espaços periféricos e os indivíduos quando a periferia ganha centralidade. so that the economic spectacle may take place. de Geografia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. SP. Maracatu.br. onde outros têm o crime como meio de vida. Muitos jovens. Certas áreas são definidas para o turismo. and particularly a greater effort to study its urban geographical aspects. Recife – Pernambuco . habitantes do centro. These movements change 1 Texto elaborado em outubro de 2006 para a defesa da tese diante da banca examinadora. Many innercity youth have found in the periphery a way to escape from the trials of their everyday lives.com. * Economista pela UFPE. Centralidade.

O espaço-tempo da festa. A necessidade de viver estes espaços faz do maracatu e da periferia mediações para a realização do mito que envolve a festa. em o Direito à Cidade2.Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. assim como os estranhamentos da vida moderna geram a necessidade da festa no cotidiano urbano. 1969. o mito 2 LEFEBVRE. 3 4 88 . Recife – Pernambuco – Brazil. 24. Maracatu. e teve o apoio do CNPq . Mas. p. 1992. segundo Maria Isaura Queiroz4 . historicamente perseguido e estigmatizado. É com esta preocupação que a tese “Maracatu: a centralidade da periferia”3 se propôs a explicar como o maracatu nação.PAOLA VERRI DE SANTANA spaces on the periphery and start changing people when the periphery gains centrality. Key words: Periphery. O principal direito do homem. escreve que “novos usos” tendem a ser “revitalizados” após a vida urbana ter se perdido por completo. Centrality. com a concessão da Bolsa de Formação de Pesquisador de Doutorado. com projeto de pesquisa intitulada Lugares da Cultura Popular Recifense: Turísticos ou Espoliantes? QUEIROZ. Carnaval brasileiro: o vivido e o mito. O fenômeno urbano: sentido e finalidade da industrialização. do uso e do encontro nas ruas é vivido através das nações de maracatu. The contradiction: a new generation seems to produce the space so as to maintain the spirit of the celebration of Maracatu. A alegria de viver e a sensação de liberdade parecem preservadas ali porque o cantar e o dançar resistem como elementos intrínsecos à cultura africana. O sentido de comunidade que pobres e negros parecem ter na periferia está presente no momento da festa. A tese foi orientada pela Professora Titular Ana Fani Alessandri Carlos. Henri. São Paulo: Documentos. mas é o instinto animal que transparecia como incivilidade. ganha respeito e reconhecimento no Recife e fora dele. O direito à cidade. São Paulo: Brasiliense. Henri Lefebvre. O maracatu passa a representar o lugar da festa. Esta necessidade de gastar energia é vital. Maria Isaura Pereira de. Pensar a cidade enquanto prática sócio-espacial foi uma hipótese possível.

SÃO PAULO. A periferia 89 . p. produto. mão-de-obra etc. a produção fonográfica – que se apropriam do maracatu como capital. No entanto. cultural e. A imagem da cidade em festa entra na reprodução capitalista quando políticas públicas a promovem como atrativo turístico. a festa que se realiza enquanto mercadoria tende a se reproduzir no centro enquanto simulacro. ainda. mas seu espaço na periferia parece excluído dos roteiros turísticos concebidos nos planos urbanísticos. A cidade também se realiza como mercadoria porque tem o maracatu que torna o Recife tão “africano” quanto Salvador e Rio de Janeiro. O maracatu atravessa esta cadeia produtiva. vira mediação no processo de produção e reprodução do espaço. A cidade do carnaval é concebida como valor de troca. tomada como mercadoria. nº 85. O vivido e exibido no centro tende a se perder em meio às representações e re-significações do que seja maracatu. Mas o maracatu se transforma na parte da vida urbana recifense a ser ofertada como atrativo turístico e cultural pernambucano. Idealizam uma periferia onde o uso exista independentemente do valor de troca. A urbanização é indutora do turismo e da indústria cultural – os festivais. por isso também constituem resistência. O mundo da mercadoria entra na vida cotidiana e a cidade induz o maracatu a entrar neste circuito. o concebido e o percebido. mas as nações continuam subjugadas às relações sociais de produção capitalista. A necessidade do centro ter a festa implica no interesse pela periferia. O lugar da cultura popular está na periferia. É nesta perspectiva que o maracatu faz a mediação para a realização do espetáculo. 87-93. A festa. nos centros históricos. O maracatu permaneceu nos núcleos de pobreza e descendência escrava africana sob as bases de uma estrutura urbana segregada.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. A crítica à vida cotidiana passa por uma análise das contradições entre o vivido. mas a requalificação urbana coloca os Centros Culturais próximos aos sítios arquitetônicos. 2006 da liberdade esconde intencionalidades que a concebem como espetáculo para o poder e o capital. Na realidade. Imaginam uma vida pouco mediada pela mercadoria. A prática sócio-espacial dá forma e sentido de festa aos lugares. os usos passam a ser mediados pela troca. Desta vez. Os maracatus são usados na representação do espaço recifense. Acreditam estar com pobres e negros a vida que lhes parece faltar. os maracatus se deixam cooptar como estratégia de sobrevivência. como ação social com fins eleitorais. matéria-prima.

Ao contrário. 90 . há controvérsias quanto à participação de ricos e brancos no batuque das nações tidas tradicionais. as casas-sedes dos maracatus se encontram na periferia.PAOLA VERRI DE SANTANA como lugar da pobreza e violência urbana do mundo atual é evitada por quem pretende ser identificado com a riqueza. mas os aspectos que parecem perceptíveis são as diferenças de classe e cor. Contraditoriamente. Não obstante. A delimitação entre os “de fora” e os “de dentro” pode se dar através do pertencimento ou não ao culto nagô. a limpeza. A periferia se transforma. Os gastos com infra-estrutura e serviços urbanos são concebidos para consumidores. por isso há tratamento diferenciado entre centro e periferia. sua memória permanece na periferia com os mais velhos. Por esta razão. a presença do maracatu está nas ruas do centro durante os desfiles de carnaval. a periferia começa a ser vivida pelos “de fora”. Isso compreende na necessidade da periferia ter o espetáculo. em festivais e turnês nacionais e internacionais. o desemprego e a baixa remuneração e autoestima na periferia fazem outros passarem a ver o maracatu como meio de profissionalização e formação de trabalho e renda. Por outro lado. O estigma da violência e pobreza não mais inibe os “de fora” de freqüentá-la. Assim. nem negligenciar possibilidades de transformação da sociedade em prol de novas formas de sociabilidade. O saber sobre a religiosidade e sobre a história das nações de maracatu constitui riqueza que atrai turistas e jovens alternativos que buscam a dança e a musicalidade. Mestres de batuque aceitam viagens pelo Brasil e Mundo para transmitirem seus conhecimentos através de oficinas de dança e percussão ou mesmo para apresentação de seus maracatus centenários. A necessidade de diferenciar os “de dentro” dos “de fora” não implica em reforçar a segregação através do discurso. Os “de fora” parecem brincar com a seita africana por ignorar o modo de vida dos “de dentro” e porque não se envolvem por completo na preparação do maracatu. a ordem. a periferia conquista centralidade entre jovens e na mídia que capta imagens da cultura popular. Turistas e residentes de bairros nobres encontram nos ensaios e preparativos das centenárias nações de maracatu um lugar para o lazer e aprendizado de percussão. O centro é visto como campo de oportunidades e a periferia como problema.

A tese apresentou a possibilidade de ruptura da segregação através de novas regras de sociabilidade quando mestres das nações seculares aceitam batuqueiros “de fora” entrarem na vida cotidiana de suas nações de maracatu. na coroação dos Reis Negros. 87-93. 2006 A tese trabalhou com a diferenciação entre quem seja “de dentro” e quem seja “de fora” das centenárias nações de maracatu. dividida por gênero. nº 85. Negar a diferença seria negar a existência de desigualdade sócio-espacial no Recife. SÃO PAULO. Isso porque negar que haja diferença seria negar a história da formação social brasileira. Recife: Editora Universitária da UFPE. Isso implicou em achar o espetáculo político contido nas festas coloniais e. A separação entre casa-grande e senzala se reproduziu. O culto a Nossa Senhora do Rosário se organizava através das irmandades de homens pretos e homens brancos. 2002. 5 Em entrevista feita por Rita de Cássia Barbosa de Araújo. Por isso. no Brasil e no mundo.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. corporação de ofício etc. mesmo que de forma segregada. A regressão histórica feita no trabalho mostrou a necessidade de ir até a gênese do maracatu para encontrar seus fundamentos. A mediação da Igreja Católica favorecia a manutenção da ordem social ao mesmo tempo permitia a apropriação. cor. In: O fio e a trama : depoimento de Manuel Correia de Andrade. seria negar o escravismo colonial que fundamentou o maracatu nação. Manuel Correa de Andrade5 disse haver duas festas simultâneas nos engenhos em que viveu. A tese mostrou que as antigas nações de maracatu se deixam cooptar pelo mundo da mercadoria e que mesmo espetacularizadas conseguem manter o sentido da festa. 91 . dos espaços da cidade em festa. em particular. cidades como Recife e Ouro Preto tinham igrejas distintas em homenagem à mesma santa adorada pelos escravos que vinham da África. As agremiações carnavalescas também estavam organizadas conforme estrutura da sociedade. p.

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94 .

This analysis is centered in the study of the city and the urban culture as possibility to structuralize an interdisciplinary educative project. A compreensão de aspectos significativos da realidade pode mudar alguns parâmetros do processo de ensino e da aprendizagem de Geografia. articulating that with the conceptions based on the learning theories and in the field of the scholar’s classes epistemology. ABSTRACT The goal of this article is to deal with the relevance of knowing what it is taught. articulando-o com as concepções fundamentadas nas teorias de aprendizagem e no campo da epistemologia das disciplinas escolares. o aluno poderá não só compreender o conteúdo trabalhado pelo professor. como também se apropriar do sentido de identidade e pertencimento em relação ao lugar em que vive. 95 . da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo smvc@usp. o porquê e o como se ensina.A CIDADE E A CULTURA URBANA: UM ESTUDO METODOLÓGICO PARA SE ENSINAR GEOGRAFIA CITY AND URBAN CULTURE: A METHODOLOGYCAL STUDY TO TEACH GEOGRAPHY Sonia Maria Vanzella Castellar1 RESUMO Este artigo tem como objetivo tratar da relevância do saber o que se ensina. Nesse contexto. the reason and how it teaches. The understanding of significant aspects of the reality can change some parameters of the education process and the learning 1 Profa. Essa análise está focada no estudo da cidade e da cultura urbana como possibilidade de estruturar um projeto educativo interdisciplinar. Dra.br.

2002. os atores da comunidade escolar. 2005a. podem-se destacar: Callai (1996. por serem fundamentais para o estudo geográfico: mesmo que nas discussões acadêmicas apareçam concepções diferenciadas. que as propostas de alterações da Geografia escolar só ganham vida na prática realizada por professores e alunos. Dentre eles. Foram feitos diagnósticos. Braga (2000). Considerando. Para esse estudo. Cavalcanti (1998. 2000. 2001. a 96 . Nas últimas décadas. the student will be able to not only understand the content used by the teacher. 2001). 1999. Os sujeitos dessa ação são todos os envolvidos na prática escolar. Pontuschka e Oliveira (2002). percebe-se cada vez mais a incorporação dessa temática – assim como nas pesquisas acadêmicas. but also to assume the identity and belonging in relation to the place where he lives. Castellar (1996. e que essa prática se inscreve em determinados recortes culturais. é possível verificar importantes mudanças no trabalho de alguns professores de Geografia e na aprendizagem de muitos alunos.2005b). então. 2002 a. predominantemente voltados para as problemáticas da formação do professor e da metodologia do ensino de Geografia. elaboradas propostas. ou seja. torna-se importante conhecer os sujeitos dessa prática para entender os limites e as possibilidades de que as propostas atuais se realizem de fato. Investiu-se bastante nesses anos em pesquisas sobre o ensino e a metodologia de ensino de Geografia. Pinheiro (2003) entre outros. colheram-se depoimentos.SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR of Geography. In this context. 2000. inclusive em dissertações e teses. Simielli (1996. o conjunto de geógrafos ligados ao ensino e especificamente à metodologia do ensino de Geografia no Brasil tem procurado produzir teorias e práticas voltadas para as tarefas sociais que essa área profissional deve cumprir. 2001. 2003. 2002 b. 2003). 2003). os autores desse projeto contribuíram com trabalhos específicos. Como resultante desse estudo. Destacamos os conceitos de lugar. Porém essas mudanças têm sido pontuais e não se têm notado resultados significativos e alterações nas representações que a sociedade possui em relação ao ensino de Geografia e a sua importância no cotidiano. foram analisados materiais. Nas discussões entre os geógrafos que atuam como professores de Geografia. cidade e de cultura urbana. com destaque para os professores e alunos.

expressam em suas dinâmicas um modo de vida.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. vale considerar as percepções e as concepções que temos delas. é que muito embora se assuma que a metodologia de ensino deve ter fundamentos teóricos. Em função dos saberes escolares e do como desenvolvê-los em sala de aula. para não dizer freqüentemente. nº 85. SÃO PAULO. Para entendermos a complexidade das cidades. o que ocorre é uma preocupação com o conteúdo ou com a informação sem que. Esses estudos mostram que as cidades têm suas especificidades. Obter conhecimento não é acumular conteúdos. percebe-se que existe um certo desconhecimento sobre as concepções e o sentido da aprendizagem na prática docente. Pierre Deffontaines .1934. recorrente. nos diversos campos do conhecimento. A questão que se coloca é: como o sujeito que aprende constrói seu conhecimento? Às vezes. Portanto a falta de clareza nos fundamentos teóricos e metodológicos leva a um aligeiramento do processo de aquisição de conhecimento. A crítica. como a obra “A Geografia em São Paulo e sua evolução”. entretanto. As atividades educacionais e pedagógicas que realizamos no dia-a-dia deveriam ser enquadradas numa concepção construtivista da aquisição do conhecimento. e Emanuelle de Martonne . o professor Aroldo de Azevedo também possui vários estudos sobre a cidade de São Paulo. a cidade e o urbano é preocupação dos geógrafos desde a criação do curso de Geografia. 95-111. elementos da espacialidade urbana que são comuns às cidades brasileiras e mundiais contemporâneas e à cultura. no início da década de 1934. retomando ao velho discurso da superação de um ensino memorístico e sem significado para o aluno. Contudo notamos que o conhecimento formalizado e adquirido na escola acaba diminuindo a capacidade de construção do aluno. na medida em que os estudantes não são depósitos de informações. 2006 investigação sobre o lugar. se saiba como fazer para que o aluno realmente aprenda e não simplesmente memorize. Programar e organizar um currículo de Geografia implica em se ter 97 .1936). suas histórias. o porquê e como está no fato de se ter concepções fundamentadas nas teorias de aprendizagem e no campo da epistemologia das disciplinas escolares. p. Além dos geógrafos franceses. A relevância do saber o que se ensina. Na produção acadêmica desses professores podemos destacar os estudos de Monbeig “Aspectos Geográficos do crescimento da cidade de São Paulo”. estruturado a partir da chegada dos professores franceses na Universidade de São Paulo (como os professores Pierre Monbeig 1934.

em qualquer idade. o simbolismo lúdico e a própria inteligência representativa. a noção construída é substituída por outro significado mais elaborado processo este que acaba por levar à formação dos verdadeiros conceitos. Os conceitos espontâneos têm como ponto de partida as representações sociais que estão articuladas com a imagem imitativa. nem sempre só das séries iniciais. É dessa maneira que entendemos que um conceito cotidiano pode ser desenvolvido em sala de aula. faz distinção entre um texto e um desenho indicando que o desenho serve “para olhar”. enquanto o texto “para ler”. deve-se considerar a intervenção da linguagem. à medida que o pensamento da criança se estrutura. Um exemplo desse processo é o início da alfabetização: a maioria dos alunos. o conceito elaborado pelo sujeito deve representar um ato de generalização. porém várias indicaram ao mesmo tempo texto e imagem.SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR clareza de em qual modelo educativo estamos situando e planejando as atividades de aprendizagem. Nesse processo. como se fossem complementares para proceder a um ato de leitura. do tipo mais primitivo. Sabemos que o significado das palavras evolui: por exemplo.isso significa que. A compreensão que temos sobre a aprendizagem passa pela construção conceitual . A construção dos conceitos ou dos significados das palavras pressupõe o desenvolvimento de muitas funções intelectuais: atenção deliberada. quando a criança aprende uma nova palavra está iniciando um processo de generalização.” 98 . requalificando as hipóteses conceituais que os sujeitos têm dos objetos e fenômenos cotidianos. possibilitando um caminho para o desenvolvimento. memória. Segundo pesquisa desenvolvida por Ferreiro & Teberosky (1986: 47) “nenhuma criança indicou somente as imagens como sendo para ler. dos signos verbais coletivos na construção de noções ou conceitos. abstração. ou seja. lógica. a evolução do conceito espontâneo em conceito científico. Para isso é necessário conhecer e interpretar os objetivos em relação aos critérios didáticos que devem ser estudados. capacidade para comparar e diferenciar.

Por quê? . . 95-111. . . na Geografia os alunos lêem as paisagens dos vários lugares em que vivem e. . mico. Por quê são parecidas? .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA.Bolo. nº 85.A palavra maior é boi.A palavra menor é telefone. .Porque o bolo é redondo e a bola 99 . não generalizam e não superaram o realismo nominal. . Qualquer coisa que os alunos queiram representar está relacionada com a capacidade que terão para diferenciar o significante (nomes) do significado (representações/objetos). 2006 Traçando um paralelo entre o processo descrito por Ferreiro e o ensino de Geografia. psicológicos e ideológicos. Ao confundirem o nome com o objeto. . os nomes vinculados pertencem aos sujeitos ou aos objetos. moda. pode-se dizer que eles. p.5ª série) . observamos que a criança vive em um lugar e consegue muitas vezes descrevê-lo. Porém todas as capacidades cognitivas e superação dos desafios fazem parte do processo de processo da aprendizagem. boi ou aranha? . abundância. Da mesma maneira que a criança lê através das figuras ou desenhos. trem ou telefone? . Para os sujeitos.Por quê? . . . algumas confusões entre o significado e o significante. . mas pode acontecer da lua aparecer de dia.Datilógrafo. como mostram os exemplos a seguir: Pat (13 anos .Poderíamos chamar o sol de lua e a lua de sol? .Escreva três palavras pequenas.Porque a mesa a gente coloca os objetos e a cadeira é para sentar. . poderão superar uma leitura superficial e estruturar os conceitos passando para uma percepção mais complexa da realidade. ainda.Não . Na fala dos alunos encontramos.Mala. .Por quê? . bexiga. Diante dessa situação o nível do desafio para o aluno é elevado.Escreva três palavras grandes.Não.Porque telefone é pequeno e o trem é grande.Porque o boi é grande e a aranha é pequena. porém não consegue perceber as relações sociais existentes nele.Porque o sol aparece de dia e a lua de noite.Qual a palavra menor. desenhos e relacioná-los com a realidade. liquidificador.Poderíamos chamar a mesa de cadeira e a cadeira de mesa? . A leitura que a criança faz da paisagem está sem dúvida carregada de fatores culturais.Escreva duas palavras parecidas com a palavra bola.Por quê? . ainda na 5a série.Qual a palavra maior. . SÃO PAULO. pois os alunos necessitam superar os desafios para ler e compreender textos.

o boi é gordo. .Por que são parecidas? .SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR é redonda e a bexiga também.boi. .5ª série) .porque tem o mesmo significado só muda algumas palavras mas eles são iguais.Nós não podemos. respectivamente.bala. é grande. espuma .Nós não podemos.Escreva duas palavras parecidas com a palavra espaço.Qual a palavra maior. .Poderíamos chamar a mesa de cadeira e a cadeira de mesa? . boi ou aranha? . da dimensão social e cultural. . .Por que são parecidas? . pode acontecer com adultos: Cavalcanti (1998: 130) afirma a dificuldade que os professores de Geografia têm em relação aos conceitos basilares de sua disciplina. o sol tem reflexo. esses alunos deveriam já ter capacidade de generalização e ter superado a relação entre nome e objeto.Poderíamos chamar o sol de lua e a lua de sol? . bala.Por quê? .O sol é uma coisa e a lua é outra. . e ambas as explicações têm referência na forma do objeto e não no significado da palavra. Em função de sua idade e escolaridade. .telefone. .elas são parecidas porque não muda muitas palavras só muda algumas. escola.Escreva três palavras pequenas. geladeira. e o trem é grande. . espelho. e a lua não tem reflexão. o que significa que terão dificuldade em compreender e estruturar conceitos científicos. O que ocorre com os alunos. mas ainda não o fizeram. e a aranha é pequena. Por que são parecidas? . balão. espacinho. e a mesa a gente come em cima dela nós não pode sentar em cima da mesa .Escreva duas palavras parecidas com a palavra espaço.espaçoso. em função da formação.Guarda-roupa. Escreva três palavras grandes. . uma ação didática em sala de aula 100 . boliche. Luc (15 anos . Qual a palavra menor. . ou seja. Escreva duas palavras parecidas com a palavra bola.o telefone ele é pequeno. bola. A falta de compreensão conceitual acaba se refletindo em uma prática pedagógica tradicional. .Por quê? porque a cadeira nós senta.Porque tem espaço grande e tem espaço pequeno. .Espaçoso. trem ou telefone? . .Por quê? . lixo. Nos dois casos os alunos estão na 5ª série e têm 13 e 15 anos. Por quê? .

na expectativa de contribuir para o entendimento das possibilidades latentes e efetivas dessa prática. mas tem como paradigma as ciências que são referências para cada uma das disciplinas escolares. Os conceitos permitem ao aluno. a escola não é uma retransmissora de saberes que foram produzidos fora dela. p. 95-111. pois mediante o tratamento adequado dos conteúdos específicos. 2006 que não avança do ponto de vista da construção conceitual. Tendo em vista o exposto. Assim. das relações estabelecidas com as outras disciplinas escolares e a realidade é que podemos considerar avanços no processo de aprendizagem. Desse modo. localizar e dar significação aos lugares. nº 85. SÃO PAULO. sua função e seu funcionamento. Organizar um currículo de Geografia a partir desses fundamentos permite ao aluno articular os conceitos científicos com as suas hipóteses levantadas com base no cotidiano. esse estudo propõe-se a pesquisar aspectos da cultura de um dos sujeitos do ensino de Geografia – o aluno e o professor –. do professor e do aluno no contexto da aprendizagem. não se tratando de uma mera transposição didática daquilo que é discutido na academia. o que acaba individualizando a organização curricular. Assim. apenas reforça a memorização de informação. há um processo de constituição do currículo (e um currículo. de forma mais ampla para o ensino de Geografia. É preciso ter clareza do papel da escola. no estudo da Geografia. Porém. além da dimensão cultural. que normalmente tem uma trajetória particular. compreendemos que as discussões acerca da metodologia do ensino e da didática em Geografia só terão êxito no sentido social das aprendizagens se estiverem articuladas aos conteúdos que lhe 101 .BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Esse conjunto de relações nos remete ao currículo escolar. porém essa relação não ocorre sem que haja conflitos. É o que propomos fazer ao longo desse trabalho. bem como as relações existentes na gestão escolar. como resultado desse processo) próprio de cada escola. para que se possa mudar a prática docente é preciso inserir nessa análise as concepções e a formação dos professores. Os conteúdos disciplinares não são meras imposições à escola pela sociedade que a rodeia. ou seja. a análise da disciplina escolar que faremos considerará sua gênese. com base nas localidades definidas pelo projeto. pensar nessa significação e no papel que os diferentes lugares têm na vida cotidiana de cada um.

EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA E A CIDADE EDUCADORA A contribuição que trazemos no campo metodológico já vem ocorrendo em algumas escolas de diferentes países. articulam algumas áreas do conhecimento para estudar a cidade. a sua gênese e o processo histórico no qual foi produzida. Fazer da cidade 102 . como a função. suas percepções sobre o lugar de sua vivência e de seus alunos. Nesse sentido. por exemplo. tendo como referência a cidade. na Colômbia. ter a cidade como um projeto de educação geográfica. isto é. Nessa perspectiva. e compreender como essas percepções podem e têm ajudado na formulação das suas propostas de ensino. Trazer para o currículo da Geografia a cidade e a cultura urbana como tema de projeto educativo passa por compreender a sua função. o espaço vivido dos alunos como referência concreta para o encaminhamento do processo. ampliando a compreensão do aluno sobre ela. estudar a cidade passa a ser um ato educativo e ao mesmo tempo um método de análise dos fenômenos e das relações que a estruturam.SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR imprimem o significado. assim o urbano e a cultura urbana têm importância para o método de análise do fenômeno investigado. É por essa razão que temos o interesse de centrar a discussão no conteúdo de lugar. consideramos como fundamental entender as concepções do professor sobre esse cotidiano. com iniciativas de professores que estão se propondo a rever suas ações didáticas. o imaginário de parte da população que considerar a Geografia uma disciplina memorística e sem importância. cidade e da cultura urbana dos professores. Os projetos didáticos coletivos. ou seja. Como conseqüência dessa proposta descontruímos o senso comum. sem perder a objetividade da área de conhecimento e a partir de projetos educativos que representam concretamente reflexões sobre o saber e o fazer Geografia. podendo estabelecer uma nova referência curricular para a Geografia escolar. sobre esse espaço vivido. Uma das recomendações que temos feito para a metodologia do ensino de Geografia é a de se considerar o cotidiano.

os alunos descobrem que o estudo da cidade é mais do que uma decodificação das informações que ela revela na sua aparência. fazendo leituras de cartas e mapas. 95-111. e em diferentes áreas de conhecimento escolar. porque os alunos poderão articular os conceitos científicos em redes de significados. 2006 um objeto de educação geográfica significa superar a superficialidade conceitual e estabelecer uma relação mais eficaz entre o saber formal e o informal. aprender a cidade significa aprender que ela não é estática. No entanto será por meio da vida cotidiana que será possível perceber as diversas cidades que existem em uma cidade. que caracteriza a paisagem com a complexidade dos elementos locais. no qual fluem. por exemplo. observam-se as áreas comerciais. as culturas singulares. SÃO PAULO. nº 85.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. além de organizar instrumentos de pesquisas para descobrir e analisar as várias cidades e itinerários que existem em uma cidade. Em tais contextos. investiga-se o espaço. Nesse sentido. trabalhar o entorno por ele trazer conteúdos de mais fácil entendimento ou simplificar o objeto que se busca conhecer – a relevância dessa proposta está na possibilidade de qualificar o estudo da cidade. Nessa perspectiva torna-se relevante compreender a cidade como um lugar que abriga. Aprender com a cidade é facilitar e socializar o processo de aprendizagem. ampliando a dimensão limitada que às vezes se tem dela. o que requer o uso de escalas de análise que estabelecem o nível de interpretação do que se investiga e das escalas cartográficas para se localizar nos mapas os fenômenos geográficos. p. Não significa retomar as temáticas escolares em relação ao que está próximo ou distante. Ao se estudar a cidade. Essa compreensão da cidade e do espaço urbano permite a construção de um eixo temático de análise: cidade e cultura. informações e cultura. mas um sistema dinâmico. do urbano e da cultura urbana. a exclusão geográfica. a cidade pode ser entendida pela dinâmica do território. ou seja. incluindo as segregações. elaborando roteiros a partir da observação do cotidiano. as áreas residenciais. 103 . e o aluno compreende o valor da cidade e vincula o valor do local e o sítio com o relato dos habitantes. a ocupação irregular. o centro histórico. Desse modo. como modo de vida materializado cotidianamente. produz e reproduz culturas.

A segunda dimensão é a que considera o meio urbano um agente educador. Piaget. Así. A primeira consiste em considerar a cidade como conteúdo de educação. de certa maneira. relações. com suas instituições. A terceira dimensão é a que considera a cidade como conteúdo educativo. de consumir seus e nesses lugares? Como estabelecer uma corrente de pensamento pedagógico que torna a cidade um local onde se materializa a educação geográfica? Nesse contexto. contribui para que os alunos reconheçam a ação social e cultural de diferentes lugares. a expressão que a define é “aprender a cidade”. Essa reflexão pode suscitar algumas questões: em que medida os cidadãos têm tido nas cidades o direito de viver na cidade. experiências. Essa dimensão identifica-se com a fase: “aprender na cidade”. o que implica. recursos.SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR De acordo com Bernet (1993: 194). um emissor de informação e de cultura. Isso porque a vida em sociedade é dinâmica e o espaço geográfico absorve as contradições em relação aos ritmos estabelecidos pelas inovações no campo da informação e da técnica. A Geografia escolar. Bernet (1993: 194) corrobora com essa análise ao afirmar que “La escuela-ciudad constituye también una estrategia pedagógica de tipo propedéutico para formar al ciudadano adulto. alterações no comportamento e na cultura da população dos diferentes lugares. trata-se do “aprender da cidade”. a cidade não terá o papel de substituir a escola na formação educativa do aluno. há três dimensões da relação entre educação e cidade. portanto. comentando favorablemente el self-government. de circular por ela e seus lugares. 104 . está efetivamente muy indicado aprovechar los tanteos del nino en la constitución de la ciudad escolar para informale sobre el mecanismo de la ciudad adulta’” Compreender a cidade nessa dimensão pedagógica configura reconhecê-la como um meio em que a escola está inserida. ela é o objeto de estudo que dinamizará a prática docente e tornará a Geografia mais significativa. escribía: ‘Más que imponerse a los niños um estudio completamente verbal de las instituciones de su país y de sus deberes ciudadanos.

expresso de diferentes formas: na consciência de que somos sujeitos da história. em diferentes escalas. devemos considerar a dimensão temporal como mais um constituinte da cidade: observamos diversos elementos em que o tempo pode ser percebido. transformados ou não. ao observar os elementos que compõem o espaço vivido. clima. hidrografia. Por isso há a necessidade de se estabelecerem relações entre relevo. o que significa conhecer a gênese da dinâmica das placas tectônicas. um tema no qual se inserem as bacias petrolíferas. econômicas. o que leva os alunos a superarem uma visão fragmentada da sua realidade. nº 85. Estudar as mudanças e as permanências que ocorreram nos sítios geográficos e relacioná-los com a forma de ocupação dos lugares em diferentes períodos é explicativo para o aluno. como. Nesse contexto. é necessário fazer um estudo contextualizando o fenômeno. analisado a partir das relações sociais. o aluno perceberá a dinâmica das relações sociais presentes na organização e produção desse espaço. o estudo da Geografia auxilia na formação do conceito de identidade. 95-111. na identificação e comparação entre valores e períodos que explicam a nossa identidade cultural. nele há relações simbólicas e afetivas. No espaço geográfico encontramos objetos técnicos. políticas. nos costumes que resgatam a nossa memória social. a formação dos vales e bacias sedimentares. a origem e as características dos fenômenos. indo além da relação ser humano-natureza. bem como o significado do processo de construção de sua identidade individual e coletiva. as avenidas e ruas. solo. por exemplo. pois o modelado do relevo. 2006 Além disso. o passado e o presente. na medida em que é possível entender as transformações das cidades e do campo e articulá-las com o meio físico e a dinâmica da natureza. que revelam as tradições e os costumes. Tudo isso resulta de um processo na produção e organização do espaço. as indústrias e os campos. culturais e ambientais. p. para que possamos relacioná-lo com a localização dos recursos minerais e os 105 . tanto no que se refere ao cotidiano quanto na natureza. cobertura vegetal. revelam em suas formas. SÃO PAULO. por exemplo.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a disposição dos continentes. simultaneamente. nas relações com lugares vividos (incluindo as relações de produção). e tendo uma maior clareza da ocupação do lugar. Ao destacarmos no ensino da Geografia a localização. Nesse sentido.

. tendo como referência os exemplos citados. como o que ocorreu nos Estados Unidos. superando o senso comum na ordenação concêntrica dos conteúdos geográficos. políticas ambientais. enfim pesquisar dados para que possamos explicar os que acontece no nosso dia-a-dia. Ou seja. idosos e crianças estão morrendo desidratados é importante investigar os motivos: quantidade de habitantes na Terra.SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR conflitos geopolíticos entre países. as transformações.. o olhar geográfico do aluno pode ser estimulado ao comparar diferentes lugares e escalas de análises. a ordenação territorial. possibilitando superar a falsa dicotomia existente entre o local e o global. Essa idéia se reforça. possibilitam a construção do raciocínio geográfico. quantidade de partículas de monóxido de carbono na atmosfera. para que o aluno consiga explicar o processo de generalização dos elementos e 106 . Os conteúdos que são abordados. revelando a questão do tempo social e geológico e suas conseqüências sócio-ambientais. destacamos a importância de se estabelecer relações entre essas escalas. como Callai (2003) e Batllori (2002: 11) chamam a atenção sobre a importância de se eleger uma escala de análise e em seguida outra. além do aumento do número de furacões e ciclones em várias partes do mundo. criando condições para que o aluno ordene os espaços estudados. comparando os fenômenos geográficos. possibilitam compreender o espaço construído. Com esse mesmo raciocínio podemos articular o estudo da dinâmica terrestre com o clima e as suas alterações para entendermos os motivos que levaram a existência das ondas gigantes “tsunamis” e as áreas afetadas. ampliando a idéia de escala. A Geografia estuda o meio e a sua ocupação. Dessa forma. sem ficar em fatos e informações que apenas tratam do tema superficialmente. quando lemos a seguinte notícia: Na Europa o calor é intenso. que acaba gerando um discurso descritivo do espaço geográfico.. Nesse caso. a espacialidade e/ou a territorialidade dos fenômenos. bem como a escala social de análise. emissão de poluentes das indústrias e automóveis. Vale ainda ampliar esta discussão para a possível relação entre o modelo de produção industrial e o agravamento do aquecimento global. pois alguns autores. como os fenômenos se articulam. por isso.

a economia e o processo histórico que operam em múltiplas escalas. aos alunos. apenas definindo lugar e sociedade local. relacionar. com esse espaço. por isso reafirmamos que a leitura de mapas e a elaboração de mapas cognitivos são imprescindíveis para a compreensão do discurso geográfico.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. a cultura dos grupos sociais. entender os mapas como construções sociais que transmitem idéias e conceitos sobre o mundo. para aprender a investigar. que não se trata de ensinar a cidade de modo tradicional. Trata-se de criar espaços de encontros e análises junto com os membros das comunidades. podem ser pontos de partida para iniciar uma discussão e. as relações entre os diferentes lugares. Para que se viabilize. Destaco. Para realizá-lo. é preciso ter em conta todos os aspectos que estabelecem organização da cidade. Isso permite. sintetizar. mobilizar habilidades mentais (classificar. Os mapas e as imagens criados pelos alunos durante as aulas podem ser utilizados como conhecimento prévio ou estratégias para aprendizagem. A cidade é um espaço público por constituir-se no ambiente da vida coletiva. ainda. apesar da pretendida neutralidade e objetividade que os meios técnicos utilizam para confeccioná-los. que despertem a curiosidade para o saber e que superem as práticas pedagógicas que reproduzem esquemas rígidos de aprendizagem. porque em função da escala pode-se perder a noção de conjunto ou de detalhes do que está se estudando. à medida que a relação do sujeito. é preciso tempo suficiente para que os conceitos (geográficos e cartográficos) sejam apropriados e internalizados. também. analisar. do habitante. nº 85. SÃO PAULO. Esse é um projeto lento e de largo alcance.. quando compreende o conceito de território. A interpretação dos fenômenos geográficos ganha significado quando o aluno entende a diversidade da maneira como se dá organização dos lugares. algumas pessoas são responsáveis pela sua gestão e 107 . é de interação ativa e dialética. 95-111. ainda.). 2006 fenômenos de uma área. p.. Todas as cidades educam. estimulando o pensar do espaço. é necessário o entendimento de que a cidade é a expressão de um modo de vida e de que esse modo de vida tem como sustentação um modo de produção. a partir da observação e da comparação das influências culturais existentes nos diferentes lugares.

Mas a cidade não só reúne agentes. à medida que a relação do habitante com esse espaço é de interação ativa. A orientação da vida coletiva nas cidades de diferentes portes acontece em função das ações de vários agentes. Porém falar em cidade educadora no contexto do ensino de Geografia significa destacar a possibilidade de. seu comportamento e seus valores são formados e se realizam com base nessa interação. é importante afirmar que com 450 anos. Com muitas contradições econômicas e sociais é. A cidade é educadora: ela educa. sua participação nessa produção é viável. que possui cerca de 9 milhões de habitantes. com seus sinais. também. Atualmente passa por um decréscimo populacional. ao se estudar a cidade de São Paulo. com destaque para o Município de São Paulo. 108 . sua configuração. realçar seu caráter de agente formador. viabilizar e incentivar essa vida coletiva. com um importante centro financeiro e industrial. sua dimensão educativa. Destaca-se. em si mesmo. que realizam diferentes atividades educativas (agências de trânsito e ambientais. ONGs). dando-lhe uma característica multicultural. Ela também é um conteúdo a ser apreendido por seus habitantes. orientar para a coexistência humana.SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR precisam. Seu arranjo. assim. Po r exemplo. aqui. também. que compreendem os lugares como locais produzidos segundo projetos sociais e políticos determinados e que. suas ações. com suas imagens. a cidade em que vivem. sendo assim. entre outras coisas. pela mediação da escola e do trabalho escolar com a Geografia. que significa. mas continua tendo a sua área urbana em expansão. forma valores. a possibilidade de se efetivar um projeto de cidade educadora. continua sendo um núcleo da região metropolitana da grande São Paulo que conta com uma população aproximada de 17 milhões. com sua escrita. escolas. desejável e pode contribuir para que seja garantida nela a melhor vida coletiva possível. viabilizar esse projeto. ela informa com seu arranjo espacial. é. uma cidade que recebeu muitos migrantes de várias partes do Brasil e do mundo. comportamentos. objetivando com essa mediação a formação de cidadãos que conhecem. Ao mesmo tempo é considerada uma metrópole nacional. Todas as cidades educam. ela mesma é um agente educativo. de fato. um espaço educativo. fundada em 1554.

mas pode-se descobrir sua história. é preciso observar que ela foi no decorrer do tempo adquirindo status econômicos diferenciados. sua formação escolar e profissional. mais recentemente. que lhe permitiu conhecer e analisar espaços urbanos numa perspectiva de totalidade. em espaços urbanos diferentes. São Paulo foi se transformando. por outro lado. 2006 A metrópole de São Paulo. gerando novos processos sócio-espaciais. p. com destaque para o setor terciário e informacional (quaternário). nº 85.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. compreender e até 109 . no entendimento de que são atores do processo de ensino e aprendizagem. 95-111. na medida em que são conteúdos ensinados em Geografia. aquela que concentrava o poder das negociações referentes às exportações e distribuição da produção agrícola do Estado de São Paulo. ou seja. Para compreender esse processo da transformação da cidade de São Paulo em uma metrópole mundializada. sofreu alterações econômicas fundamentais no decorrer de sua história. os alunos descobrem que a cidade é mais do que uma decodificação das informações que ela revela na sua aparência. Posteriormente São Paulo tornou-se a capital industrial e durante muitos anos comandou a produção industrial. SÃO PAULO. A metrópole tem hoje uma estruturação espacial que foi fruto do desenvolvimento produtivo comandado pelos agentes econômicos e políticos. Nessa perspectiva. passando por diversas características econômicas. faz-se necessário eleger algumas escolas que se situam nas cidades citadas e realizar um estudo sobre a compreensão que os professores possuem das categorias de lugar e cultura urbana. Para entendê-los é necessário analisar as transformações técnicas do processo produtivo e das formas gerais de organização da produção. portadores de cultura que sintetiza sua experiência vivida no local. Agora. Para efeitos de comparação. organizando os fluxos produtivos em todo o território nacional. num momento se apresenta como capital agrícola. cujos resultados excedentes foram paulatinamente sendo investidos na indústria nacional. seus valores. vem se tornando a capital dos serviços. A intenção é elaborar um projeto educativo para estudarmos e apreendermos elementos da cidade e da cultura urbana a partir da vivência dos alunos e professores. responsável pela formação de um novo complexo de produção.

a localização e distribuição do comércio e dos serviços como educação e saúde. Outras educaiones: animación sociocultural. exercitando o pensamento. Jaume Trilla. Barcelona: Graó. n. Essas habilidades contribuirão para que ele desenvolva competências que. 32. formación de adultos y ciudade educativa . Assim. assim. existem sim possibilidades de ter êxitos saindo do imobilismo e atuando na perspectiva de utilizar estratégias diversificadas ao abordar conteúdos. Esse artigo é mais uma reflexão que poderá permitir uma análise da situação de aprendizagem e a importância da compreensão que os professores e os alunos têm dos conceitos geográficos e cartográficos. e que há necessidade de se fazer escolhas. repensar o currículo do ensino básico. desenvolva os conceitos científicos. In Las Escalas Geográficas. Incorporar nas ações do cotidiano uma proposta que tenha como objetivo criar condições para que o aluno aprenda. confrontar idéias e tomar posições. confronte hipóteses e resolva problemas. Portanto é preciso descobrir que há outros padrões de aprendizagem. Roser. dialogando e ampliando conhecimentos já adquiridos e construindo. mais uma vez. No entanto. BERNET. 1993. BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA BATLLORI. Provocamos. Barcelona: Anthropos. ampliando a dimensão limitada que às vezes se tem dela. Para ensinar Geografia precisamos avaliar os conteúdos desenvolvidos nas escolas. Íber. 2002. estão relacionadas com a capacidade de aplicar e transferir conhecimentos sistematizados. La escala de análisis: un tema central en didáctica de la geografia. o professor para que possa repensar sua prática e fazer mudanças concretas. No entanto não há fórmulas prontas e acabadas. no nosso entender. 110 . a circulação das pessoas e dos meios de transporte. novas situações de aprendizagem.SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR questionar a organização dos bairros. os procedimentos provocariam o aluno partir de suas hipóteses. a partir de uma rede de significados. será por meio da vida cotidiana que se perceberão as diversas cidades que existem em uma cidade. a oferta de espaços para lazer e cultura.

In: Associação dos Geógrafos Brasileiros Terra Livre . CASTELLAR. 37 jul. escola e construção de conhecimentos. C. Caderno CEDES. “O ensino de Geografia e a formação docente”.1998. CASTROGIOVANNI. Geografia em sala de aula. C. A Percepção do Espaço e a distinção entre o objeto e o seu nome. _____________.).) Geografia em sala de aula. (org./set.). Sônia M. 1998. ORTEGA. JUQUE. práticas e reflexões. 2000. 1998. _______________________. _______________________.. Porto Alegre. Seção Porto Alegre. 2003. H. Campinas: CEDES. _______________________. Barcelona: ICE/Horsori. Emília & TEBEROSKY. nº. 1986. “A formação de professores e o ensino de Geografia”. Porto Alegre.). prática educativa e formação de professores. In: CASTROGIOVANI. CALLAI. Arte Médicas. 2006 CALLAI.88-96. Antoni. J. Geografia. Ijuí: Editora Unijuí. (org. Porto Alegre. Rosario. SÃO PAULO. 39. Papirus. Seção Porto Alegre.). “O ensino de Geografia: recortes espaciais para análise”. C. SOLÉ Isabel. José (org. Associações dos Geógrafos Brasileiros. FERREIRO. “O misterioso mundo que os mapas escondem”. CAVALCANTI. V. 1999. Associações dos Geógrafos Brasileiros. “Concepções construtivistas e prática escolar”. MAURI. A. Rosario & CUBERO. São Paulo: Pioneira Thomson Learning. ano 10 nº. Anna Maria P.BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA. Domínios do conhecimento. Lana de S. A . H. p. 111 . 1998. C. (org. Teresa. (coord. espaço e tempo nas séries iniciais”. Espaços da Escola. In. C. Afonso. 14 . 1998. Ensino de Geografia. São Paulo: Ática. Associações dos Geógrafos Brasileiros. práticas e reflexões. p. Formação continuada de professores . C. 95-111. In. Psicogênese da Língua Escrita. Seção Porto Alegre. nº 85. A. Porto Alegre. CARMEN. 1998. In CARVALHO. Luis del & ZABALA. In ARNAY. Alfabetização em Geografia. Geografia em sala de aula. 1996. El Curriculum en el Centro Educativo. p. & CALLAI. CASTROGIOVANI.29-46. Ana. “Grupo. Campinas: Papirus. práticas e reflexões.

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resumo (máximo 700 caracteres) e palavras-chave (máximo de cinco).000 caracteres e resenhas bibliográficas com até 10. fonte Times New Roman. III) iniciar o texto na segunda folha repetindo apenas o título do trabalho.000 caracteres. de preferência escritos em português. e obedecidas as seguintes normas: 1 . Os resumos e as palavras-chave devem ser incluídos no início do trabalho (folha 2).2 cm cada. sobre assuntos de interesse científico e geográfico.Os artigos devem apresentar em português e em uma língua estrangeira (inglês ou francês): título. telefone(s). II) na primeira folha constar apenas: título do trabalho. margens 2.O BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA publica artigos científicos com até 65.ANEXO INSTRUÇÕES E NORMAS PARA ELABORAÇÃO DE ORIGINAIS O BOLETIM PAULISTA DE GEOGRAFIA publica trabalhos de pesquisa originais e inéditos. 2 . notas que apresentam resultados preliminares de pesquisas. nome do(s) autor(es). 3 . 113 .O trabalho deve ser enviado em disquete (Word for Windows ou compatível) juntamente com cópia impressa.000 caracteres (sem contar os espaços). logo após o título. endereço eletrônico. atividade profissional e instituição a que está vinculado. os quais devem seguir o seguinte roteiro: I) papel A4. comunicações curtas ou outras pequenas contribuições informativas com até 32. corpo 12 e espaçamento duplo. endereço. sejam ou não autores membros da Associação dos Geógrafos Brasileiros.

Salvador: SBG. Instituto Geográfico e Geológico. 2.A. In: GEOusp. SÃO PAULO.000. desenhos. nº 5.. gráficos. 1975.525 CEP 05402-970 São Paulo . SALANON. Indicar no texto a posição de inserção das ilustrações e tabelas. 1982. 1999.Brasil 114 . p. p. 5 .Boletim Paulista de Geografia Caixa Postal 64. revista de pós-graduação do Departamento de Geografia. fotografia em preto e branco etc. p. 6 . Não serão aceitas cópias xerográficas.000. 1982. SCARIN. In: CONGRESSO BRAS. v. S. Ediciones. Mapa Geológico do Estado de São Paulo . LACOSTE. 457) ou (LACOSTE..Os trabalhos para publicação deverão ser remetidos à: ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS .) devem constar com a denominação “figura” e ser numerados com algarismos arábicos tanto no corpo do texto como na legenda. 1973. Kimberlitos. SALONON. 452-464. 1982. A.Seção São Paulo A/C Coordenação de Publicações . Isto permite a referência bibliográfica e a indicação da fonte de citação ao longo do texto. Os originais das ilustrações e tabelas (papel e arquivo) com os respectivos títulos e legendas devem ser enviados separados do texto em papel vegetal ou em papel branco e ter dimensões máxima de 11 x 17 cm. 2ª ed.Solicitamos a seguinte forma para a bibliografia: BIONDI. GEOLOGIA. p. C.escala 1:1. FFLCH-USP São Paulo. Barcelona: Dikos/ Tau. São Paulo: Secretaria da Agricultura. Anais. Biogeografia. Crítica à apologia dos objetos. 86).As ilustrações (mapas.SP . Paulo Cesar. na seguinte forma: (BIONDI. 57-60. 32. R. 271 p. J. Espaço e Tempo. Salvador.4 .. 1973.

· ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS Sede da Seção Local São Paulo Av. propondo medidas para o seu aperfeiçoamento.org.USP – São Paulo – SP – BRASIL Fone: (11) 3091-3758 www. bem como o intercâmbio profissional. exposições. pesquisando e divulgando assuntos geográficos. periódicas ou não. Estimular o estudo e o ensino da Geografia. mantendo contato com entidades congêneres e afins. de modo a favorecer a troca de observações e experiências entre seus associados. culturais ou técnicas. Organizar e manter atualizado um cadastro de seus associados. para defesa e prestígio da classe e da profissão. cursos e debates.br Endereço para correspondência: Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção São Paulo Caixa Postal 64525 . os geógrafos e as instituições de ensino e pesquisa de Geografia. Promover encontros. 338 . Lineu Prestes. Analisar atos dos setores públicos ou privados que interessam e envolvam a ciência geográfica.com. Manter intercâmbio e colaboração com outras entidades dedicadas à pesquisa geográfica ou de interesse correlato. Congregar os geógrafos. conferências.CEP: 05402-970 .br Correio eletrônico: agbsaopaulo@yahoo. Promover e manter publicações de interesse geográfico. Representar o pensamento de seus sócios junto aos poderes públicos e às entidades de classe.Prédio da História/Geografia Cidade Universitária . simpósios.agbsaopaulo.São Paulo – SP – Brasil . congressos. professores. Prof. no Brasil e no exterior. principalmente brasileiros. visando ao conhecimento da realidade brasileira. e manifestar-se a respeito. ou ainda à sua aplicação. com seus currículos e realizações no âmbito da ciência geográfica.ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS · · · · · · · · · A AGB tem por objetivo: Promover o desenvolvimento da Geografia. Propugnar pela maior compreensão e mais estrita colaboração com os profissionais e estudantes de disciplinas afins. estudantes de Geografia e demais interessados.

NATUREZA E GEOGRAFIA: APONTAMENTOS PARA O DEBATE SOBRE A GEOGRAFIA FÍSICA MODERNA DIRCE MARIA ANTUNES SUERTEGARAY UM ANTIGO DEBATE (A DIVISÃO E A UNIDADE DA GEOGRAFIA) AINDA ATUAL? ANGELA MARIA ROCHA A CIDADE E SUAS REPRESENTAÇÕES ROSA IAVELBERG CIDADE: VIA DE ACESSO DA ARTE À ESCOLA REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS ALPHAVILLE E TAMBORÉ: CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS MEDIEVAIS NA APROPRIAÇÃO DE TERRAS PARA CONDOMÍNIO DE ALTO PADRÃO PAOLA VERRI DE SANTANA DA NECESSIDADE DA FESTA À NECESSIDADE DO ESPETÁCULO SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR A CIDADE E A CULTURA URBANA: UM ESTUDO METODOLÓGICO PARA SE ENSINAR GEOGRAFIA .ARTIGOS ANTONIO CARLOS VITTE METAFÍSICA.

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