O povo cigano e o degredo: contributo povoador para o Brasil colônia

Elisa Maria Lopes da Costa de Letras da Universidade de Lisboa

Licenciada

em História pela Faculdade

"Um Cigano a outro Cigano muita saúde e muita vida" Domenico Capaci para Martinho de Mendonça Pina e Proença (ANTT, Manuscritos do Brasil, L " 15:88) A o introduzirmos este texto com uma saudação datada de S ã o Sebastião, de 29 de julho de 1734, da pena do famoso m a t e m á t i c o italiano, então no Brasil a serviço da coroa portuguesa, pretendemos partilhar uma afirmação que denota conhecimento dos ciganos e consideração pelo seu correspondente ( t a m b é m u m cigano), pois de outra forma n ã o se compreenderia que iniciasse a sua epístola desta forma. Nosso objetivo, neste artigo, é fornecer informações inéditas ou muito pouco divulgadas a respeito de um assunto que, apesar de sua importância, tem suscitado muito pouco interesse dos pesquisadores: a história do povo cigano e do seu degredo para o Brasil. Os ciganos em Portugal: i n c l u s ã o , e x c l u s ã o e r e c l u s ã o Com origem na índia, é muito possível que a chegada da população cigana ao território situado no extremo ocidental europeu tivesse acontecido ainda no século X V . A travessia fronteiriça era simples, pelo que custa a aceitar o período de quase u m século para passar de Espanha (1425 é a data da mais antiga prova documental para a sua presença no país vizinho) a Portugal. Tratava-se de gente n ô m a d e , deslocando-se em grupos de d i m e n s ã o variável, ligada entre si por laços sociais e culturais bastante fortes. D o m i ,
Revista Textos cie

, História,
Vol. 6 - n
M

1 e 2 -

1998

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Elisa Maria Lopes da Costa

navam uma língua desconhecida, envergavam vestuário característico e t i nham comportamentos próprios, nitidamente diferentes da restante população portuguesa. A s e m e l h a n ç a do que sucedia um pouco por todo o velho continente, as autoridades portuguesas foram, ao longo dos quinhentos, promulgando legislação a respeito dos ciganos com o intuito de enfrentar a situação então vivida. A o princípio, postularam a sedentarização do povo cigano, tentando dissuadir os ciganos de seus hábitos lingüísticos e de seus trajes e alterar a organização social de que eram portadores e que aparentava ser difícil de transpor. Nas palavras de B i l l Donovan (1992:33) "as autoridades do Antigo Regime classificavam u m segmento substancial da sociedade dos alvores da sociedade Moderna como desviados ( . . . ) e incluíam os ciganos na categoria de desviados sociais e de indesejáveis". O poder tinha, portanto, como objetivo final mudar os comportamentos sociais diferenciadores, a f i m de tornar os ciganos iguais aos restantes habitantes do Reino.
1

Todavia, a emenda almejada tardava em chegar, e as penas iam sendo agravadas, em especial pela separação das famílias, tudo o indica com a intenção do seu extermínio (embora esse objetivo n ã o surja explícito nos textos do corpus legislativo, com exceção das duas leis que impuseram a pena m á x i m a ) . Sem dúvida, a integração passou a ser preterida em favor da exclusão e, de certa maneira, da reclusão. O crime de ser cigano E a legislação específica que nos permite conhecer os crimes que são atribuídos aos ciganos. A maioria desses "crimes" referiam-se apenas às formas de e x p r e s s ã o da cultura e tradições ciganas, cuja perpetuação nada tinha a ver (conforme ainda hoje sucede) com a área geográfica em que o povo estava a viver. Surgem-nos, então, como crimes o fato de os ciganos serem n ô m a d e s , de deslocarem-se em grupos, praticarem pequenos furtos, esmolarem sem uma autorização específica, fingirem saber feitiçarias, falarem geringonça (isto é, o dialecto calo, falado na Península Ibérica), usaTodas as citações em línguas estrangeiras foram traduzidas por nós para português. Procedemos à atualização da ortografia nos casos de transcrições de documentos manuscritos ou impressos antigos. Queremos aproveitar esta ocasião para agradecer à professora Janaína Amado a simpatia e amizade com que nos tem distinguido, a todos os amigos que, ao longo dos anos, vão-nos auxiliando, com informações, na construção deste grande puzzle. Bem-hajam.

veja-se a lista de degredados remetidos (durante um período de cerca de meio século) para Angola. pese embora não ser acusada de crime algum. ao punir os naturais do Reino. à s e m e l h a n ç a do que tantas vezes sucedia. permanece registada até aos nossos dias. caso tenha sucedido (o que é provável) que esta família se tivesse ficado pelo Rio de Janeiro. ou tão-só o serem ciganos. ou avós) a que Catarina aludia. pela m ã o amiga e sempre disponível da professora Helena Flexor. para cada u m dos lugares de África (Coelho. temos dificuldade em definir. O homicídio surge com bastante raridade. serem descendentes. de 45 anos. Esta prova. por enquanto. tudo no-lo indica. em especial no e s p a ç o colonial) quando nos é dado conhecer. . Catarina Lobo e suas filhas.O povo cigano e o degredo 37 rem "traje de ciganos". afirmando poder prová-lo. Sua mulher. o que implica a hipótese de alguns registos corresponderem à partida. com o argumento de "serem ciganas de n a ç ã o " . Degredo de ciganos A idéia de castigar a p o p u l a ç ã o cigana pelo degredo n ã o é imputável a uma pessoa específica. ao que elas responderam. da Bahia. de acordo com o que foi fixado na sua tese de licenciatura por Maria E u g ê n i a Martins Vieira (1966:153). Conselho Ultramarino. com a idade de 39 anos. sucedia haver quem as impedisse de o fazer. Nela. Jozefa Lobo. mas. o teor de uma carta de 10 de utubro de 1767. escala anterior à de Luanda. que incluímos em Costa (1997: 60-64) e as infrações que lhe estão subjacentes. ciganas naturais da Bahia. 1892:230-231). Brasil-Bahia). A questão de se ser considerado "cigano de n a ç ã o " ('crime' que também aparece referido) ganha novos contornos (os quais. ou seja. e n ã o à chegada. natural de Estremoz (terra alentejana). as mulheres fazerem a "buena-dicha" (leitura da sina. A corroborar o que afirmamos. C o m e ç a v a a manifestar-se a intransigência do poder central para com os ciganos. do futuro). em 1538. a partir de Lisboa. Julgamos que se trata dos parentes (pais. natural do Crato (situado na mesma província do Alentejo) acompanhava-o. para cumprir degredo perpétuo em Angola. o cigano J e r ó n i m o Infante. Ora. a denominada Lei X X I V das Cortes d á u m passo naquele sentido. t a m b é m cigana. embora remotamente. de ciganos do Alentejo. com a ida por dois anos. ganhando a vida a vender pelas ruas "fazenda da índia" (mercadorias remetidas de Lisboa) solicitavam licença regia para continuarem a desenvolver aquela actividade ( A H U . Na realidade. o certo é que. do Rio de Janeiro e do Recife. a 30 de agosto de 1737 partiu de Lisboa (chegado em leva de Aviz). devido a um furto de gado.

2 A centúria de Quinhentos ainda veria ganhar forma a lei de 28 de agosto de 1592. Assim. a f i m de que os territórios dominados pela Coroa lhe pudessem render o m á x i m o . apesar de condenados. até porque o Reino era então fracamente povoado. as autoridades foram-na impondo ao longo do tempo. a título de mero exemplo registe-se que por volta de 1690 devia contar com cerca de 1. Emigrantes interessados em partir. desconhece-se o papel exato que o povo cigano desempenhou na colonização. tornando-o numa presença constante nas terras da colonização portuguesa. Ora. seguras do seu direito e confiantes nos seus ideais de ordem. o que implicava redução do tempo a cumprir. dispostas a arriscar tudo. Tanto quanto sabemos. dependendo do critério seguido pelo juiz.5 m i l h ã o de habitantes. sempre os houve. labor e conquista. uma vez que pouco indulgentes. ao sistema de envio de degredados. recorreu-se. sentenças por toda a vida. com certa freqüência. ao mesmo tempo. a c o m e ç a r pela própria vida. dominadas por outros povos.38 Elisa Maria Lopes da Costa De notar que o elevado n ú m e r o de leis e disposições diversas acerca do degredo para África e para o Brasil decorre. porém n ã o na quantidade necessária às colonizações. tendo havido casos em que alguns puderam escolher a troca voluntária de Colônia. numa palavra que n ã o cabiam dentro dos parâmetros tidos como normalizadores e. em regra pela força das armas. na impossibilidade de recrutar voluntários livres (ou alguns que. . com destaque para a de assim se libertar a M e t r ó p o l e de gentes indesejáveis. ficaram submetidas. era preciso encontrar gentes destemidas. segundo o continente de destino. com freqüência. apesar de surgirem. antes de mais. optassem por partir). havendo voluntários suficientes para acorrer às necessidades em determinada Colônia o rumo dos degredados a ela destinados era alterado. O povoamento era t a m b é m um fator n ã o negligenciável. em parte parece devido à aplicação daquela pena. da importância de regular os comportamentos das pessoas punidas com tal condenação. N ã o dispiciendo o fato de a sua aplicação cumprir várias funções. Note-se que a duração da pena aplicada variava. j á que os reis portugueses preocuparam-se. desde o início. a Portugal. em povoar as terras descobertas ou que. mas. em geral. sendo um mínimo de cinco anos para o Brasil. reguladores da vida em comunidade. numa sociedade bastante complexa. irrecuperáveis. se bem que em n ú m e r o variável dependendo das c o n d i ç õ e s e das é p o c a s . aventureiras e audazes. que. além de impor a pena de morte (punição renovada 2 Todavia. enquanto para África podia ser inferior.

se sairão dele dentro dos ditos quatro meses. ou se avizinharão no Reino pela maneira acima declarada. após mandar prender todos os varões: "(•••) os degradareis para as galés que tenho dado ordem se façam no Brasil..O povo cigano e o degredo 39 mais uma vez... quando manifestou às autoridades. 1995. 1997:30 e 86). pp.) E esta gente com haver tantos centos de anos que Espanha os agasalhou (.. 1892: 267).)" (Costa. deixando o dito hábito e língua dos ciganos: e não o fazendo assim serão publicamente açoitadas com baraço e pregão..) (Coelho.. e agora para a nova povoação do Maranhão poucos a poucos em cada navio que fosse. fora redigido mas não publicado um alvará que previa. a bom recato à cadeia da Corte desta cidade de Lisboa para serem embarcados para ele nos primeiros navios que houverem de ir e pela dita maneira procedereis contra as mulheres ciganas condenando-as com a pena de açoites que a lei lhes dá e degredando-as para o Brasil (.) (Coelho.. cerca de 1622.. e os enviareis presos.. "O Povo Cigano e a Colonização . a sua opinião sobre como tratar o povo cigano. 3 U m dos defensores da saída dos ciganos do espaço metropolitano (quiçá mesmo da Península Ibérica.. E pudera isso ter muito bom remédio. 4 3 A 2 de julho do mesmo ano.) não sei como os conselheiros dos Reis.) Devoto: (. e degredadas para sempre para o Brasil (.. 173-185. em alternativa. 1892:234). embarcando-os divididos para o Brasil e Angola e outras nossas conquistas.) as mulheres dos ciganos que estiverem presos nas galés que estão no porto desta cidade [Lisboa]. ou. Temos também em 4 ... Para se avaliar da diferença de atitudes entre Portugal e Espanha veja-se Elisa Maria Lopes da Costa.Portugal e Espanha soluções diversas?" in Mare Liberum. conforme parece inferir-se do seu texto) em direcção às Colônias foi M i g u e l Leitão de Andrade.). estas lombrigas ou digo Víboras que o estão roendo de contínuo por todas as partes do seu todo (.. ou em qualquer outro deste Reino em que estiverem. não buscam remédio a coisa tão importante como fora não estar Portugal e Espanha toda criando em suas entranhas. e se iriam acabando de sair do Reino ou deles estes maus costumes (.. qual confirmação e inspiração dos textos que iam sendo lavrados pelos legisladores: (. e os que governam as Repúblicas desvelando-se tanto em novas pragmáticas sobre ninharias. n ã o abandonassem o país num máximo de quatro meses. em 1694) aos ciganos que infringissem as medidas integradoras nela inseridas.. estipulava: (.

E. Outras terras de degredo. . fronteira com Espanha) mandava expulsar os estrangeiros. filhos e netos de Portugueses (porém.. a provisão de 20 de julho de 1686 destinada ao Corregedor el vense (na província do Alentejo. cumpririam o degredo no M a r a n h ã o (Coelho. além do Brasil. ciganos e pessoas de d e s c e n d ê n c i a africana ( . no âmbito da colecção "Interface" (Centre de recherches tsiganes. 1892:251 -252).. por razões culturais. 1892: 241243). quando o soberano ressalvava os casos dos que serviam nos exércitos e dos detentores de "cartas de naturalidade". de acordo com Russel-Wood (1998: 185B): "Os territórios ultramarinos portugueses contavam com grupos de pessoas que. resultante da preparação. os homens para as galés. Por meados do século X V I I . tais como cristãos-novos. Pelo contrário. para onde deveriam ir viver dez ciganos presos na cadeia do Limoeiro. eram excluídas de uma completa participação no império. onde se publicará para que se n ã o consinta aos ciganos que forem degredados o eles usarem desonestos tratos e embustes. . de que antes viviam (. Recuperáveis e irrecuperáveis A q u i c o m e ç a a verificar-se tendência para uma m u d a n ç a de estratégia. ) " . de Espanha e de Inglaterra. igual matéria. .. Paris). na tentativa de lhes impedir os movimentos. qual reforço da ordem anterior. se não passassem a viver da mesma maneira que a restante população. Logo a 27 de agosto. que se acentuaria na d é c a d a de 80. o alvará de 24 de outubro de 1647 iria especificar os lugares afastados da Corte e das fronteiras (trata-se de terras de desterro). a intenção era mais ampla. tal como dos que se encontravam avizinhados de lugares e vilas do Reino. estipulava que os "que j á são naturais. g ê n e r o e vida de ciganos)".surgiam agora.. passava a distinguir-se entre os recuperáveis (nascidos em Portugal) e os irrecuperáveis (os restantes). De resto.) nas conquistas deste Reino. inequívoco. ou para o arquipélago de Cabo Verde e. uma obra colectiva sobre a prática de degredo de Portugal. Na verdade. As mulheres desobedientes seguiriam sem os filhos (ausentes da lei anterior) para Angola. com hábito. ficava contemplada em decreto. raciais ou outras.40 Elisa Maria Lopes da Costa É sintomática a intenção de banir em definitivo os ciganos do reino de Portugal. ambos por toda a vida. e respeitando aos dois sexos. ou seja. determinava-se: "(.)" (Coelho. proibindo-lhes insistirem em viver de acordo com os seus usos e costumes.

quando extravasamos dos dois grupos a que o autor alude — os jovens. o Poder prosseguia no seu incessante labor. etc.O povo cigano e o degredo 41 negligência.. nada está investigado. Paraíba. de quem devia aplicar a justiça. seria interessante saber-se qual a quantidade de pessoas degredadas que. Maranhão. conforme fixa o próprio texto: "(. que voltavam à Europa para estudar e as jovens cujo retorno ao Reino visava ao ingressar em u m convento — e pretendemos conhecer melhor a questão do regresso dos degredados (pois.) os degredos que para o Brasil se proferirem. ou para as capitanias de Pernambuco. 1815: 290-291). Assim e ainda devido à falta constante de povoadores. argumentando-se que o degredo era para o Brasil e não para lugar especificado. A 10 de novembro de . contudo. os quais irão com ordem ao governador da parle para onde for o degredo. conforme ao dolo.. e se lhes faça o seu assento do dia cm que chegaram. sejam com distinção: ou para a Baía.. Era o reconhecimento oficial da sua renovada liberdade! Todavia. apesar dos castigos em que incorriam os prevaricadores! Cumprida a pena. Concordamos com esta opinião. Degredos. povoamento e controle De acordo com o investigador Russel-Wood (1998:124B-125A). o que sucedia. fora promulgado um decreto a 18 de janeiro de 1677.)" (Coelho. declarando-se nele os anos por que vão. regressava às origens. na realidade..) e que os Ministros que assim o não executarem. ao que sabemos. parece que o território devia ser rapidamente abandonado. m i g r a ç õ e s . ou o Capitão General deviam emitir um documento (sendo-lhe entregue aquando da libertação) comprovativo não só do seu bom comportamento durante o degredo. e omissão que sobre este particular tiverem (. Quem sabe se tidas por exageradas as medidas previstas caíam no esquecimento. com relativa freqüência. com particular incidência na população cigana. o tema da " m i g r a ç ã o inversa" tem sido pouco estudado. lhes seja dado em culpa para serem castigados.. 1892:253).) (Thomaz. para nesse tempo se lhes dar certidão (. no qual se fixava: (. se não mesmo antes.. mas t a m b é m de estar cumprido o tempo na íntegra. Rio de Janeiro. Que para a "questão cigana" continuava sem se entrever um final é nítido e. a C â m a r a . tratase t a m b é m de uma m i g r a ç ã o inversa). de certa maneira. ou descuido.. Dependendo da região.. aliás. c a era em que lhes findam.

P o r é m . aí se introduziam problemas antes desconhecidos... em especial pelo trabalho. delitos graves e excessos que com freqüência cometiam. quer se tratasse de homens degredados ou livres. Na d é c a d a seguinte. 1815: 291). tinham de ser controlados. De resto. todos os que haviam sido presos por ordem dos governadores das Armas das Fronteiras (da Metrópole) para a índia. havia muito por onde escolher. se por ventura n ã o corrigissem o seu modus vivendi (Coelho. qual p a n a c é i a para o mal e n d ê m i c o . O alvará régio de 20 de setembro de 1760 pretendeu ser o remédio. reconhecendo-se embora que "esta gente tinha sido útil ao Estado com a m u l t i p l i c a ç ã o " (ontem como hoje era freqüente que as famílias tivessem grande d e s c e n d ê n c i a ) .42 Elisa Maria Lopes da Costa 1708 nova lei destinava as mulheres ao Brasil. a 28 de fevereiro de 1718. como veremos (Coelho.. u m decreto de 15 de setembro anterior ordenara a c o m u t a ç ã o do degredo de África para as capitanias brasileiras do M a r a n h ã o . repartidos. o Brasil era também considerado u m destino. São Tome. situação agravada pela dificuldade em sedentarizá-los e pela impossibilidade de lhes alterar o modo de vida. 1892:257-258).. donde surgirem queixas. Com o intuito de inverter a situação e dado o recrudescimento das suas atividades (segundo algumas fontes) verificou-se u m amplo debate entre as autoridades baianas e o Conselho Ultramarino.. desde 1755 a 1758. argumentando com os furtos. uma vez que. assim como os homens ao serviço das galés. nele se referia: (. Ilha do Príncipe. apesar de chegados às novas terras as atitudes e práticas mantinham-se. 1892:256-257). os ciganos. Angola. do Ceará e do Rio Grande (Thomaz. pois.) no Estado do Brasil causam intolerável incômodo aos moradores cometendo continuados furtos de cavalos. em boa verdade. e escravos. logo ao abrir. as medidas punitivas pouco conseguiram mudar e. Argumentava-se que ao serem enviados para outra terra. Apesar de omisso. e fazendo-se formidáveis por andarem sempre incorporados e carregados de armas de fogo pelas estradas (. a coesão familiar e social reforçava-se até.). u m decreto mandou remeter.. Numa palavra. pelo que tudo isto lhes iria ficar vedado e.) para correcção de gente tão inútil e mal educada se faz preciso obrigá-los pelos termos mais fortes e eficazes a tomara vida civil (. Foi nesse sentido que. as autoridades ordenaram a diversificação dos territórios para onde os condenados deveriam ser degredados. . ambos por 10 anos e isto. Benguela e Cabo Verde.

desde sempre pareceu vantajoso degredar os jovens. que funcionou na cidade do Salvador. no decurso do século X V I . Ciganos no Brasil A o contrário do que alguns autores t ê m afirmado. E. por andar perdido o registo de embarque. a "Primeira Visitação do Santo Ofício" (que o mesmo é dizer a Inquisição) a terras brasílicas. impunha-se que os jovens fossem entregues a mestres para aprender um ofício. se bem que em alguns casos tivesse sido voluntária. na circunstância a terras baianas. está documentalmente comprovado que a pena de degredo levou ciganos até ao território brasileiro. 5 Na verdade. como fica demonstrado. pela procriação. Durante o tempo da graça confessaram-se: aos 20 de Agosto de Há a tendência para aludir a João de Torres e sua família como o mais antigo cigano degredado presente na Colônia. pagando-se-lhes um justo salário e. ao passo que os adultos. 1892: 262-263). homens deveriam assentar praça ou trabalhar nas obras públicas. saliente-se o fato de a legislação promulgada ao longo dos séculos visar separar os homens das mulheres. observemos em traços largos a riqueza da informação que nos é facultada. na maioria foi imposta. Sem sermos exaustivos. Por outro lado. A mais leve transgressão. reincidente. as mulheres deveriam viver recolhidas. pomos-lhe reservas. para se não poder alegar ignorância. Estamos a reportar-nos a uma fonte eclesiástica a qual nos dá a conhecer presenças ciganas ainda durante o último quartel de Quinhentos. Tome ou do Príncipe. uma vez que aumentariam. ouviu várias ciganas. embora jamais tenha alcançado tal objetivo. cuja deslocação a partir da Metrópole. porém. ou qualquer documento que ateste a sua presença no território. embora a data da 'Carta de Perdão' (que lhe comutou a pena para o Brasil) seja de 1574. para as ilhas de S. a publicação t a m b é m se faria nas capitanias de todo o Estado. custaria aos infratores o degredo por toda a vida. A profusão de leis respeitantes ao povo cigano denota à sociedade a inoperância de que se revestiam. E. ocupando-se nos trabalhos que as restantes faziam (Coelho. capitania da Bahia-de-todos-os-Santos. .O povo cigano e o degredo 43 mais do que isso. o n ú m e r o de habitantes. dada a probabilidade de se casarem com os indígenas (de notar que tanto a Coroa portuguesa quanto as autoridades eclesiásticas não se manifestavam contrárias à união com as mulheres ameríndias) das zonas para onde fossem.

De notar neste passo que as autoridades do Reino não hesitaram em degredar para as colônias ciganos que não eram portugueses. 1925: 388). uma Angelina e outra Teresa Rodrigues. Tratada como "mulher do mundo". Foi confessar que havia cerca de 10 anos. contava cerca de 50 anos e morava na cidade. 1922: 74-75). esta mulher denunciava a anterior por um roubo que aquela alegadamente cometera a par de um cigano. Numa outra d e n ú n c i a ( t a m b é m de dia 21) a impender sobre a referida Violante. Maria Fernandes. uma vez no Brasil reincidiu. fora excomungada havia mais de 3 anos por furto de u m fato. na rua do Chocalho. Mulher de cerca de 40 anos de idade. fora degredada do Reino por ter furtado burros. adela de profissão. moradora como as restantes na cidade ( M e n d o n ç a . Esta última contava 50 anos. na rua do Barbudo da mesma cidade. quando esta era casada com Baltasar cigano. 1925:400-401). da responsabilidade de um meirinho da correição eclesiástica. ciganos espanhóis foram engrossar as fileiras dos povoadores reinóis. são nomeadas duas ciganas. 1922: 57-58). Ainda nesse dia. viúva do ferreiro cigano Francisco Fernandes. outra cigana. ou de outra. Francisco de seu nome. No que respeita a esta Maria Fernandes. filha de Maria Violante. Natural de Lisboa. natural de Lisboa e viúva do cigano Álvaro da R i beira. matéria que tantos e q u í v o c o s gerou e continua a gerar). "veio do reino por sua vontade sem ser degredada". 1925:385-386). Está neste caso uma outra denunciante da mesma Violante. adela. cigana. Quer dizer que. Filha de Francisco Alvares e de Maria Fernandes. ciganos defuntos.44 Elisa Maria Lopes da Costa 1591. que ficou nas galés do reino. As razões da sua presença na colônia não estão explicitadas. os processos vão-na chamando de uma forma. conforme iria suceder com outros condenados. vestida de homem. tendo ambas vivido na mesma casa várias vezes a ouvira renegar Deus. havia blasfemado contra Deus. era casada com Rodrigo Solis. e a denúncia que fez da mesma Maria Fernandes reportava-se a seis anos antes. compareceu no tribunal por iniciativa própria. No dia seguinte. várias vezes. razão pela qual. Brianda Fernandes. . e. ou tratarse do apelido — nome que identifica o indivíduo apenas no seio do grupo. e de Francisco Escudeiro. estando omissa a data de chegada ( M e n d o n ç a . conforme parece fariam as testemunhas. apesar de degredada de Portugal por ter roubado. "e por ela ser muito costumada a dizer estas blasfêmias a lançou fora de casa" (Mendonça. Mais aludiu a uma outra cigana de nome Paula "dos olhos grandes" ( M e n d o n ç a . tinha blasfemado contra Deus ( M e n d o n ç a . ou Violante. ou Violante (cremos que por ser filha de.

era filho de ciganos viajantes. com um cigano de nome Francisco Coutinho e que. u . Sebastião da Silva cigano solteiro. A escolha recaiu sobre Francisca Rodrigues. continuara a blasfemar (Mendonça. seria por cada tostão dez réis. Curiosa esta alusão (rara para a d o c u m e n t a ç ã o da época que conhecemos) ao "conde dos ciganos". 1922.166-167). Por último. há referência a um homem do qual pouco sabemos. "a qual o fará muito bem". dado abranger o Brasil. Acrescentou que haveria seis ou sete anos tinha chegado degredada e que então se casara. a quem chefiava os grupos. haver uma mulher que vendesse. em 1603. na cidade. o Conselho Ultramarino oficiava o governador da Bahia (o registo do expediente dá conta de cartas iguais para os governadores do Rio de Janeiro. E. Processo da Inquisição de Lisboa: n" 11. somente quando o conde dos ciganos a repreendia ela se calava". natural de Évora e que contava então cerca de 30 anos. de Cabo Verde e de S. a qual fora degredada do Reino por furto. e tinha vários irmãos. que jurou perante "os santos evangelhos" servir de vendedeira. Entre 18 de novembro e 5 de dezembro de 1592.O povo cigano e o degredo 45 t a m b é m de 21 de agosto. uma vez que a C â m a r a Paulista. 1925:398). Donovan (1992: 38. ciganos sedentarizados. muitas vezes.50 n 30) na informação sobre o afastamento desta população dos maiores portos. uns solteiros e outros casados ( A N T T . Torne) . confessou perante o tribunal que havia aproximadamente catorze anos tinha andado amancebada. até ao presente.210). j á os havia. sem dúvida. foi ouvido. mas. cigana. No ano imediato. Queremos agradecer à professora Alexandra Lousada o ter-nos facultado cópia do texto deste autor. na seqüência de uma denúncia. Com efeito. da atividade por ela desenvolvida. durante sete anos. trata-se de Angelina da Costa. casada com o cigano Vicente da Silva e moradora na cidade (Mendonça. figura mítica que respeita. de Paraíba. Voltamos à lei de 28 de fevereiro de 1718. mas que. no limiar de seiscentos surge-nos a primeira mulher cigana a exercer atividade pública. deliberou sobre a necessidade de. Está visto. de Angola. de 50 anos. com honestidade. S ó no decurso do século X V I I I viremos a lograr encontrar notícias regulares do povo cigano na colônia. nada sabemos! (China. a 30 de janeiro. A p o l ô n i a de Brustamante. natural da Andaluzia. blasfemara "e contudo ela n ã o se desdizia nem deixava de blasfemar. a 11 de Abril imediato. no dia 9 de agosto. da seguinte forma: 6 6 Equivocava-se Bill M . Morador em Sergipe. através do Alentejo e da Andaluzia. 1937:536). e a paga. natural do Faial (de Portugal ou do Brasil?). de Pernambuco.

sem que logremos poder responder (por agora. . ordenava: (. s Cabe perguntar. 1997:47). Notícias históricas de Portugal e Brasil (1715-1750). Baía. o jornal Gazeta de Lisboa Occidental noticiou. em definitivo. embarcados na frota e que iam destinados à sua capitania... enviou uma carta ao governador e capitão general de Pernambuco..) eu fui servido mandar degradar para essa praça da Bahia vários ciganos c ciganas e seus filhos pelo mau e escandaloso procedimento com que se haviam neste Reino de que havia tão repetidos clamores. esta ordem era remetida ao desembargador geral do crime baiano.. José Alvares do Amaral (1922: 327) refere que teriam alcançado a cidade de Agradecemos à Doutora Antônia Quintão ter-nos dado a conhecer esta missiva. AHU.) não permitindo que a ensinem a seus filhos para que pelo tempo adiante se extinga de todo a prática e uso dela o que vos hei por muito recomendado (.46 Elisa Maria Lopes da Costa (. cf. aguardando a partida para as colônias. p. Na tentativa de extirpar. sem aludir aos crimes. E como pela lei novíssima que aqui mandei promulgar lhes está proibido usarem da sua língua c gíria. 7 De acordo com China (1937:427) em dezembro subsequente.. com as relações dos ciganos degredados.) é Sua Majestade servido que daí sejam mandados para o Ceará e Angola nos navios que houver para aquela Conquista pondo Vossa Senhoria todo o cuidado nessa execução para que nenhum fique nessa Capitania. estarem presas nas duas cadeias do Limoeiro de Lisboa Oriental 101 pessoas ciganas.. Manuel R o l i m de Moura. Coimbra.. pois é matéria a joeirar) se os degredados ciganos completada a expiação da pena seriam sempre impedidos de voltar à M e t r ó p o l e ? A informação daquelas chegadas obtive-mo-la por duas vias. me pareceu ordenar-vos (. faltando a indicação de quem partiu. distribuídas por 50 homens.. Cod. 247:135. A 10 de março de 1718. secretário de Estado. Manuel Lopes de Almeida. 51 mulheres e 43 "rapazes de ambos os sexos". Diogo de M e n d o n ç a Corte Real.) a que hão-de ser remetidos os não deixem voltar para o Reino (. Recomendando aos governadores (. o mal. Acresce que a 15 de abril. cf. 1961. com que se costumam explicar.. e de vários à Bahia e a Pernambuco.). Confirma tais informações a referência de dois navios terem rumado à índia. em abril e 18 de maio imediato. 17-26.) (Costa. e repartidos pelos navios que vão para esse porto.. ..

Leis. Passaram a ocupar-se no trabalho dos metais como caldeireiros. de nome Pinto Noites. A n c i ã o de 89 anos de idade (por volta de 1886).O povo cigano e o degredo 47 Salvador a 31 de julho do mesmo ano. 1922. nas salas repletas. a par da quase inexistência de prisões (em especial fora das zonas urbanas). enorme e inculta praça que se estendia da Rua do Cano até à Barreira do Senado". ao estalo das castanholas.. até à Bahia levar mais 15 dias. e as mulheres liam a sina (Moraes Filho. donde a rebeldia do povo cigano ter percorrido. estendidos em esteiras! e lá dentro ao sereno dos quintaes. idos do Reino. Cá fora vultos de homens e mulheres sentados ao relento. cantigas monótonas. dansas ao pandeiro. para cuja elaboração contou com um informador cigano. consultas e atitudes sobre os ciganos no B r a s i l Recorde-se que vastos espaços inóspitos. "alojaram-se. E Moraes M e l l o Filho legou-nos um livro acerca do povo cigano no Brasil. — eram os ciganos que carpiam nostalgias de além-mar. em barracas no Campo dos Ciganos. latoeiros. a . em geral habitadas por ciganos (. cerca de 60 dias e. se estabelecermos comparação com as atividades que desenvolviam em Portugal. E. E como se fazia a adaptação dos r e c é m . atribuído aos ciganos. dizia que nos alvores dos setecentos teriam chegado ao Rio de Janeiro. eram bailadeiras morenas que quebravam lascivas no fandango.. eram esses párias despertos no exilio que disfarçavam os rigores da sorte e da vida. eis a respectiva ficha bibliográfica: José Alvares do Amaral. toda a época que nos ocupa. na seqüência do desembarque.c h e g a d o s à Colônia dá-nos conta o seguinte trecho compilado por China (1937: 415-416): (. ferreiros ou ourives. a forma de proceder...). Resuma cronológico e noticioso da Província da Bahia desde o seu descobrimento em 1500. os seus avós e parentes por força de um roubo de quintos de ouro. sons de viola. 1981: 26-27). Bahia: Imprensa Oficial do Estado.) casinhas de porta ejanella. Recordava o nome dos seus chefes. 2 ed. Na impossibilidade de rastrear a obra que nos foi dada a conhecer há alguns dias pela professora Helena Flexor. os quais estariam compreendidos no decreto acima indicado e acrescentava que. em regra. em movimento constante. à época. por parte do poder instituído era 9 Atente-se na circunstância de uma viagem por mar entre Lisboa e o Rio de Janeiro durar. Aqui nada de novo. implicavam uma liberdade de movimentos que nenhuma circunstância podia inibir.

feitas por outras edilidades. os quais se não sujeitarão nunca. o Rei ou o Conselho Ultramarino exaravam ordens tendentes a modificar hábitos e atitudes como se fossem alteráveis por força de leis. dirigiu-se ao governador pernambucano (na seqüência de mais uma queixa de uma edilidade). mas t a m b é m aplicado na prática. Aliás. . Ilustrativo desta afirmação é o teor da carta de 19 de setembro de 1724. na Metrópole.48 Elisa Maria Lopes da Costa invariável: algumas p o p u l a ç õ e s faziam queixas às C â m a r a s . chamando nós a atenção para a idéia aceite (expressa no final) de que o medo do castigo bastaria para que tais incorrigíveis não infringissem as normas instituídas: (. em nenhuma parte. Na e x p r e s s ã o de Russel-Wood (1981:191): " ( . em diversas ocasiões. em particular para Angola. encomendareis que os sentenciem logo no que poreis o maior cuidado de se lhes dar o castigo competente às suas culpas. foi n ã o só reiterado na letra. ) A descoberta de jazidas minerais na d é c a d a de 1690 acarretou uma onda de criminalidade no .. E. ou seja D . radicando-se nessa terra com algum ofício ou com algum modo de granjearia para sustentarem a vida. Queixas deste tipo continuaram a ecoar pelos tempos adiante.. Tempos passados. De assinalar que o envio para África. estas faziamnas aos governadores e às autoridades centrais.) (Costa. é merecedor de estudo atento a prática do degredo intercolônias que foi relativamente freqüente. na expectativa de uma correcção nunca alcançada. em como para essa Conquista foram deste Reino exterminados os ciganos.) e tendo cometido os ditos ciganos crimes tais que mereçam maiores penas. 1997:49).. a gênero algum de trabalho de que possam sustentar-se. dando aos ditos ciganos distrito a eles proporcionado donde se não desviem nem afastem. de todos os recalcitrantes surge como hipótese derradeira de resolver u m problema quase insolúvel para as autoridades. .. os expulseis logo das terras desse governo e os mandeis para Angola (. Me pareceu dizer-vos que todos os ciganos que viverem como tais c se não reduzirem à vida civil. por meio da qual o rei ' M a g n â n i m o ' . porque o horror dele os moverá a se emendarem c viverem com toda a quietação (.) os oficiais da Câmara da Vila de Santo Antônio do Recife me deram conta em carta de 15 de janeiro do ano passado.. por cuja causa fazem públicos furtos e roubos de gados de que resultam muitas mortes e desgraças sucedidas entre eles e aqueles moradores de quem há duplicadas queixas e que assim devia eu mandar aliviá-los desta opressão. João V..

no seguimento. porque em todas estas Minas se acham quantidade de ciganos e ciganas com grande escândalo e prejuízo destes Povos pelos muitos furtos e insultos que todos os dias andam cometendo. más conselheiras. Entretanto. de u m Bando do ano transacto. então em Vila Rica. L°8:48). ) " . André de Melo de Castro.) (ANTT.) Faço saber aos que este meu Bando virem que. e a população cigana n ã o foi e x c e ç ã o .O povo cigano e o degredo 49 interior. as autoridades. a i m portância do achado revelou-se de uma d i m e n s ã o tal que houve necessidade de se produzir abundante legislação com vista a regular a mineração. logo a 20 de m a r ç o de 1720. C o m efeito. apenas entre janeiro e outubro de 1732. . Lourenço de Almeida.. . não partilhamos das opiniões de diversos investigadores. c como sobre a expulsão desta gente se têm lançado vários bandos e expedidas várias ordens que todas dou por inclusas neste Bando. ordenando que as diversas famílias que ali se encontravam fossem presas e remetidas para o Rio de Janeiro. em 28 de outubro: (. cujas publicações seriam feitas "ao som de caixa". que tenha em contrário. porque umas e outras se publicaram segundo as reais deliberações de Sua Majestade. "' Contudo. Mas. ordeno por este Bando que da publicação deste a três dias. todo o cigano e cigana despeje todo o governo das Minas. aludiam. o seu comércio e tudo quanto. atendo-se tão-só à documentação que os coloca como infratores ou criminosos. 1948:146). quiçá mesmo. em todos os distritos da capitania. que tudo dou porderrogado (. emanava um Bando do qual deveriam extrair-se editais. para daí se transportarem para Angola. Manuscritos do Brasil. datado de Vila Rica. para que ninguém ficasse por avisar. aos ciganos (Dornas Filho. sem embargo de que mostre qualquer licença. generalizando. duas ordens impunham-lhes de novo a expulsão da região aurífera. O problema meramente físico de manter a lei numa vasta área era agravado pela natureza transeunte da p o p u l a ç ã o ( . da lavra do capitão general das Minas do Ouro. cerca de uma d é c a d a passada. dos piores entre os piores. aliás. consideram tratar-se de gente incorrigível. de forma explícita. ou dispensa. D .. merece ser transcrito o documento que manda expulsá-los. capitão de Minas e de Pernambuco. sem dúvida. de uma ou outra forma lhe estava ligado... De resto. Decorridos três anos. . resultante da ocorrência de alguns distúrbios. esta diretiva t a m b é m fracassaria. O predomínio dos estereótipos e das imagens negativas cristalizadas no tempo são. ao proibir a entrada de estrangeiros naquela capitania. quando. " 1 Sem perda de tempo.

pois nenhum tinha mais crime que a desgraça de ser como cigano costumado a uma vida irregular ( . de onde são expulsos para Minas Gerais. Sobre a atitude predominante. pelas ordenanças prender cm todas as comarcas a quantidade e multidão de ciganos c conduzir ao Rio de Janeiro pelos seus bens. que os expulsa para Espirito Santo. que consistia na constante tentativa de expulsão. conforme ficou inscrito numa epístola de 7 de maio de 1737. entendendo que a prisão de dez ou doze não valia a perda de um cavalo que andasse no alcance. em 1 de j u l h o de 1737. por conseguinte. consubstanciada na forma de perseguição simultânea (aliás. ) os não mandei seguir pelos D r a g õ e s . Por sua vez. sem que se aponte culpa individual". 1997:52-53). o comandante do Destacamento dos Dragões. padecem grande dano havendo pessoas a quem têm levado cinco c seis cavalos (. desta forma: "Pelo que toca a ciganos as queixas que há são só por serem ciganos... porque aliás estas Minas.) trata-se da velha política de 'mantenha-os em movimento': Minas Gerais expulsa seus ciganos para São Paulo..50 Elisa Maria Lopes da Costa A tentativa de regular u m assunto de contornos assaz complexos deu azo a que fosse preconizada uma solução definitiva. a propósito de uns ciganos fugitivos escrevia mesmo: " ( .. em lugar de resolvê-los em definitivo. na mesma hora c tempo. utilitária. mais não logravam as medidas coercivas do que um permanente alijar dos problemas.. o investigador Frans Moonen (1996:126) p õ e o dedo na ferida quando afirma: (. dirigida ao governador Martinho de M e n d o n ç a : (. que se vendam e dêem para a Leva. . por mais de uma vez. . ainda que furtados.. aproximadamente. u m modelo copiado de Portugal e de Espanha). que os expulsa para a Bahia. Ou seja. o melhor lugar para os ciganos sempre c no município ou no Estado vizinho. . . Contudo. cuja relação com os não-ciganos era. as dificuldades sentidas pelas autoridades em encontrar a forma ideal de lidar com as situações que se lhes colocavam fica patente nos documentos produzidos ao longo do tempo. ) " ( A N T T .) e lhe peço pelas Chagas de Cristo mande exterminar fazendo. no sentido de deles poder obter algo de que viver. as autoridades coloniais aludem à população cigana. Manuscritos do Brasil.). e cavalos. que os expulsa para o Rio de Janeiro. Nenhuma das medidas coercivas surtia efeito junto àquela população. pois lhe não faltam peças de ouro. ou então no país vizinho ou num país bem distante (. E. etc.) (Costa. L " 4: 96).. . acima de tudo..

e os adultos alguns assentaram praças. ocupando-se com suas mulheres em lavoiras e em abrir terras de novo. as autoridades viram-se até na necessidade de p ô r cobro a sevícias cometidas.. o Marquês de Pombal... Por isso lhes temos proposto aos que nos falam que deles se não procura outra coisa mais do que viver como portugueses. outra missiva em 5 de outubro. a que aludimos supra.) As filhas será mais difícil acomodá-las porque. vassalos de Sua Majestade (. mas muito raros. em regra. contendo a descrição da situação e indiciando o relativo cumprimento do que fora legislado. contendo mais esclarecimentos e deixando entrever uma certa tendência para a sedentarização: (. não se querem servir com brancas e menos com filhas de ciganos. [De passagem alente-se na circunstância deste traço cultural.O povo cigano e o degredo 51 Só que. desde que não tivessem infringido a legislação em vigor. escritas com um intervalo de dois meses. Trata-se de duas missivas de 1761. este reconhecimento não era suficiente para que os ciganos fossem deixados em paz. . 1997:53-54).. durante o período de encarceramento. acomodando-se distante uns dos outros uma a duas léguas. e vão vivendo com quietação e grande temor (.) (Costa... se são de idade competente. sobre os prisioneiros. fiquemos com a idéia de que. porque por todas as partes os prendiam (. permanecer incólume até à actualidade] Os que vão arrendando terras.) (Costa. permite-nos verificar como estavam j á instalados alguns estereótipos e apreender as sugestões feitas para contornar os problemas que se colocavam: (. 1997:53). subscreveu.). na Baía... em várias ocasiões.. notícias provenientes da Bahia. Andrade. tais como eles. chegaram até Sebastião José de Carvalho e Melo.. Na qualidade de governador interino. deixando totalmente o ilícito comércio e o modo libertino que tinham de vida. Os casados entregam os filhos solteiros aos ofícios mecânicos. Na seqüência das directrizes constantes do alvará de setembro de 1760. com raízes profundas. temendo que alguma noite se ajuntem com os pais para roubar as casas e sobretudo querem só servir-se com mulatas e pretas (.) Os ciganos vêm vindo bastantes a querer tomar vida regulada. por não aparecerem ou porque esta gente casa logo nestas terras de muito pouca idade... De relance .) Eles se se juntarem serão alguns mil em toda a capitania alem dos escravos que possuem. do primeiro de agosto. acerca dos ciganos na região. A que foi assinada pelo chanceler José Carvalho de Andrade. com o seu colega Gonçalo de Barros. c de alguns índios que poderão coadunar.

o que se preconizava era a fixação de todos os que andassem. sem que nos faculte as fontes de confirmação indelével. enquanto outros. conforme relata entre outros autores China (1937: 431 -474). para esta época. uma situação similar e. ter-lhe sido impossível conseguir. todavia. ressalvando. volta a haver notícias de prisioneiros ciganos e das vicissitudes por que passaram. Acresce que. conforme consta de uma carta (da qual damos alguns excertos) remetida ao monarca pela edilidade. e dos vários despachos (que se prolongam até dezembro de 1764): (.) (AHU. A coincidir com os alvores da independência brasileira. Minas Gerais. Atente-se no fato do relacionamento familiar bastante estreito não passar despercebido ao Poder. Cx. prende-se ao tráfico de escravos. de terra em terra. pela mesma época. sendo para utilidade do bem comum é preciso que residam em paragem certa com penas rigorosas para os que se acharem com semelhante modo de vida (. as quais se prolongaram pelo tempo adiante. teriam sido co- . para alguns. Uns seriam proprietários escravagistas. traçando o panorama evolutivo da permanência de gentes ciganas nos diversos Estados do Brasil. 19). 80... encontrar d o c u m e n t a ç ã o . ou maltratados.. registra ao referir-se ao Ceará: "(•••) as terras cearenses foram das que mais receberam ciganos deportados de Portugal". ao que parece. com a data de 27 de março de 1762.) porque com os transportes que fazem para outros distritos lhes fica comutada a pena cm degredo da própria vontade.52 Elisa Maria Lopes da Costa E são conhecidos documentos que registam o fato de ter havido ciganos sedentarizados que foram alvo de medidas excepcionais para n ã o serem perseguidos... doe. Ciganos e escravos Uma actividade desenvolvida por alguns ciganos e descrita por certas fontes..) Costumam andar dispersos por todos estes continentes uns meramente ladrões disfarçados com o titulo de ciganos tendo só por vida o viajarem com toda a sua família de umas para outras comarcas furtando cavalos c tudo o que podem por ser ofício próprio de semelhante casta de gente passando os furtos que fazem a uns e a outros para melhor encobrirem a sua maldade e indo seus donos no alcance de tirarem o que lhes levam os maltratam e muitas vezes matam (. A região de Minas Gerais conhecia. quais peralvilhos.

no seu quotidiano. a toponímia. o trajar. acrescentando ainda que Karasch "discute a importância dos ciganos enquanto comissários e a sua reputação de l a d r õ e s " . se refere a 'vendedoras ambulantes de escravos africanos. Destaquemos t a m b é m a circunstância de um dos povos que mais cedo realizou. queremos reforçar o fato de as políticas postas em prática pelas autoridades. " Conclusão Antes de terminarmos. 1987. . a tão propalada globalização. a investigadora Mary Karasch é referida por B i l l Donovan (1992:52 n. de escravos roubados. Na impossibilidade de compulsar a obra referida em Donovan. o c o m é r c i o de escravos. tendo para vender quarenta a cinqüenta negros. N ã o se tratava. possuíam escravos e grande n ú m e r o de cavalos e de animais de carga. Mota (1984:33) ao escrever: " ( . . deixou escrito (1940:138-139): " ( . principalmente. e entre os mesmos encontravam-se homens muito ricos ( . . . Auguste de SaintHilaire. . porque o seu companheiro Gabert (1818) informa que ricos traficantes vendiam "carregações inteiras de negros a ciganos revendedores que negociam os cativos com particulares". que habitou: "no Rio de Janeiro entre 1816 e 1821. . Frans Moonen (1996:129130) regista que o viajante francês Gendrin. eram os ciganos. Parafraseemos um autor brasileiro. ) n ã o se pode compreender a cultura brasileira na sua totalidade sem ter em conta os contributos dos ciganos para as artes. estudioso do povo cigano.46) quando "menciona um Joaquim José Rodrigues suspeito de ter roubado e vendido mais de m i l escravos em Minas e em S ã o Paulo". que no Rio de Janeiro. no decurso do tempo. em parte devido ao seu sentido de liberdade e de independência. Na época da minha viagem. 50-54. não terem levado nem à integração nem sequer à serena coexistência das comunidades cigana e não-cigana. no entanto. Princeton: pp. ) " . em segunda m ã o . as letras. Por sua vez. . ) todos tinham boa aparência. as quais percorriam as ruas da cidade. Slave Life in Rio de Janeiro. faziam. chegado ao Brasil em 1816 e regressado a F r a n ç a em 1822. negras e crianças de oito a quinze anos'". queremos facultar a informação bibl iográfíca: Mary Karasch. numa palavra para a vida tradicional do país".O povo cigano e o degredo 53 missários de determinados donos de escravos. Outro viajante coevo do anterior e seu conterrâneo. sofrer ainda hoje tantos revezes.

Família e Religião na Colonização do Brasil. 4 a 6 de Novembro de 1998 (Actas no prelo). DONOVAN. ano 3. " A família cigana e o povoamento do Brasil — uma história singular". 1937 "Os Ciganos do Brasil ( S u b s í d i o s históricos. n'^ 10. Lisboa: Imprensa Nacional (Há 2 edição de 1996). Lisboa. com bornal disponível! Bibliografia C H I N A .l. São Paulo. Lisboa: C o m i s s ã o Nacional para as C o m e m o r a ç õ e s dos Descobrimentos Portugueses. 1892 Os Ciganos de Portugal. Lisboa.. t. Elisa Maria Lopes da. DORNAS FILHO. 173-185. . etnográficos e lingüísticos)". C O E L H O . Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. pp. p. 1997 O Povo Cigano entre Portugal e terras de além-mar (séculos XVI-XIX). José B. Com um estudo do calão. Fundação Calouste Gulbenkian. Belo Horizonte. 1995 "O Povo Cigano e a Colonização — Portugal e Espanha soluções diversas?". vol. Elisa Maria Lopes da. COSTA.54 Elisa Maria Lopes da Costa Na sua esteira t a m b é m nós defendemos que importa fazer estudos aprofundados neste d o m í n i o . João. 1948 "Os Ciganos em Minas Gerais". X X I . s. a COSTA. pp. Fali 1992 "Changing perceptions of social deviance: Gypsies in early modem Portugal and Brazil".137-186. I I I . d'01iveira. 1998 Degredados e Órfãs: Colonização dirigida pela Coroa no Império Português 1580-1755. assim surjam investigadores. Elisa Maria Lopes da. C o m u n i c a ç ã o ao Colóquio Internacional Sexualidade. Journal of Social History. C o m i s s ã o Nacional para as C o m e m o r a ç õ e s dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para a C o m e m o r a ç ã o dos Descobrimentos Portugueses. Mare Liberum. Bill M . pp.TimothyJoel. de cá e de lá. Francisco Adolpho. COSTA. COATES. Actas do I I Congresso LusoEspanhol sobre Descobrimentos e E x p a n s ã o Colonial. de preferência que possam ser complementares. 323-669. 33-53. Revista do Museu Paulista.

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. pp. It analyses aspects of the presence of the gipsies in Portugal . 6. 1991 "Linhas de força da legislação Ultramarina Portuguesa no século X V I I (1640-1699)".. the article studies many aspects of the life. T H O M A Z . and also analyses the banishmcnt of the gipsies to Brazil. este artigo analisa aspectos da presença do povo cigano em Portugal . 1966 Registo das Cartas de Guia de Degredados para Angola 1714-1757. 290-291. Revista de Ciências Históricas.pp. 2 ed. o artigo aborda diversos aspectos da vida.. temas ainda muito pouco trabalhados pela historiografia.).. S A I N T . . SILVA. Cod...56 Elisa Maria Lopes da Costa Índico ao Atlântico (1570-1697). 1. n 499 do A r q u i v o M u n i c i p a l de Luanda integrado sob a forma de fotocópias).e do degredo de ciganos para o Brasil. history and social representations of one of the minorities that have been the most severely persecuted in Portugal and Spain. vol. Francisco Ribeiro da.H I L A I R E . Paulo (. Manoel Fernandes.1.114-125. V I E I R A . Porto. Through the analysis of the Portuguese laws about the gipsies (which included banishment). Faculdade de Letras de Lisboa (texto policopiado. 1940 Viagem à Província de S. A partir da análise da legislação portuguesa referente aos ciganos (que incluía o degredo). pp. Lisboa: Círculo de Leitores.). da história e das representações sociais de uma das minorais mais perseguidas da península ibérica. a u RESUMO Baseado em documentação inédita literalmente "garimpada" entre diversos fundos documentais de arquivos portugueses c cm bibliografia especializada.desde sua chegada (provavelmente no século XV) até o século X V I I I . ABSTRACT This article is based on unpublished documents literally prospected into many Portuguese archives and librarics. Lisboa. S ã o Paulo: Livraria Martins. 187-210. Auguste de. 1815 Repertório Geral ou índice Alphabetico das Leis Extravagantes do Reino de Portugal (. C o i m b r a : Real Imprensa da Universidade.since thcir arrival there (probably in the sixtecnth ccntury) until the eighteenth century . both subjects not yet well studied by the historiography. Maria E u g ê n i a Martins.

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