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O povo cigano e o degredo: contributo povoador para o Brasil colônia

Elisa Maria Lopes da Costa de Letras da Universidade de Lisboa

Licenciada

em História pela Faculdade

"Um Cigano a outro Cigano muita saúde e muita vida" Domenico Capaci para Martinho de Mendonça Pina e Proença (ANTT, Manuscritos do Brasil, L " 15:88) A o introduzirmos este texto com uma saudação datada de S ã o Sebastião, de 29 de julho de 1734, da pena do famoso m a t e m á t i c o italiano, então no Brasil a serviço da coroa portuguesa, pretendemos partilhar uma afirmação que denota conhecimento dos ciganos e consideração pelo seu correspondente ( t a m b é m u m cigano), pois de outra forma n ã o se compreenderia que iniciasse a sua epístola desta forma. Nosso objetivo, neste artigo, é fornecer informações inéditas ou muito pouco divulgadas a respeito de um assunto que, apesar de sua importância, tem suscitado muito pouco interesse dos pesquisadores: a história do povo cigano e do seu degredo para o Brasil. Os ciganos em Portugal: i n c l u s ã o , e x c l u s ã o e r e c l u s ã o Com origem na índia, é muito possível que a chegada da população cigana ao território situado no extremo ocidental europeu tivesse acontecido ainda no século X V . A travessia fronteiriça era simples, pelo que custa a aceitar o período de quase u m século para passar de Espanha (1425 é a data da mais antiga prova documental para a sua presença no país vizinho) a Portugal. Tratava-se de gente n ô m a d e , deslocando-se em grupos de d i m e n s ã o variável, ligada entre si por laços sociais e culturais bastante fortes. D o m i ,
Revista Textos cie

, História,
Vol. 6 - n
M

1 e 2 -

1998

36

Elisa Maria Lopes da Costa

navam uma língua desconhecida, envergavam vestuário característico e t i nham comportamentos próprios, nitidamente diferentes da restante população portuguesa. A s e m e l h a n ç a do que sucedia um pouco por todo o velho continente, as autoridades portuguesas foram, ao longo dos quinhentos, promulgando legislação a respeito dos ciganos com o intuito de enfrentar a situação então vivida. A o princípio, postularam a sedentarização do povo cigano, tentando dissuadir os ciganos de seus hábitos lingüísticos e de seus trajes e alterar a organização social de que eram portadores e que aparentava ser difícil de transpor. Nas palavras de B i l l Donovan (1992:33) "as autoridades do Antigo Regime classificavam u m segmento substancial da sociedade dos alvores da sociedade Moderna como desviados ( . . . ) e incluíam os ciganos na categoria de desviados sociais e de indesejáveis". O poder tinha, portanto, como objetivo final mudar os comportamentos sociais diferenciadores, a f i m de tornar os ciganos iguais aos restantes habitantes do Reino.
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Todavia, a emenda almejada tardava em chegar, e as penas iam sendo agravadas, em especial pela separação das famílias, tudo o indica com a intenção do seu extermínio (embora esse objetivo n ã o surja explícito nos textos do corpus legislativo, com exceção das duas leis que impuseram a pena m á x i m a ) . Sem dúvida, a integração passou a ser preterida em favor da exclusão e, de certa maneira, da reclusão. O crime de ser cigano E a legislação específica que nos permite conhecer os crimes que são atribuídos aos ciganos. A maioria desses "crimes" referiam-se apenas às formas de e x p r e s s ã o da cultura e tradições ciganas, cuja perpetuação nada tinha a ver (conforme ainda hoje sucede) com a área geográfica em que o povo estava a viver. Surgem-nos, então, como crimes o fato de os ciganos serem n ô m a d e s , de deslocarem-se em grupos, praticarem pequenos furtos, esmolarem sem uma autorização específica, fingirem saber feitiçarias, falarem geringonça (isto é, o dialecto calo, falado na Península Ibérica), usaTodas as citações em línguas estrangeiras foram traduzidas por nós para português. Procedemos à atualização da ortografia nos casos de transcrições de documentos manuscritos ou impressos antigos. Queremos aproveitar esta ocasião para agradecer à professora Janaína Amado a simpatia e amizade com que nos tem distinguido, a todos os amigos que, ao longo dos anos, vão-nos auxiliando, com informações, na construção deste grande puzzle. Bem-hajam.

o certo é que. pese embora não ser acusada de crime algum. temos dificuldade em definir. a 30 de agosto de 1737 partiu de Lisboa (chegado em leva de Aviz). O homicídio surge com bastante raridade. pela m ã o amiga e sempre disponível da professora Helena Flexor. Brasil-Bahia). o cigano J e r ó n i m o Infante. caso tenha sucedido (o que é provável) que esta família se tivesse ficado pelo Rio de Janeiro. ganhando a vida a vender pelas ruas "fazenda da índia" (mercadorias remetidas de Lisboa) solicitavam licença regia para continuarem a desenvolver aquela actividade ( A H U . Esta prova. Julgamos que se trata dos parentes (pais. 1892:230-231). com a idade de 39 anos.O povo cigano e o degredo 37 rem "traje de ciganos". . ao que elas responderam. embora remotamente. com o argumento de "serem ciganas de n a ç ã o " . Jozefa Lobo. mas. Sua mulher. permanece registada até aos nossos dias. serem descendentes. natural de Estremoz (terra alentejana). devido a um furto de gado. com a ida por dois anos. ou avós) a que Catarina aludia. Catarina Lobo e suas filhas. ao punir os naturais do Reino. em 1538. C o m e ç a v a a manifestar-se a intransigência do poder central para com os ciganos. tudo no-lo indica. Na realidade. ou tão-só o serem ciganos. afirmando poder prová-lo. de acordo com o que foi fixado na sua tese de licenciatura por Maria E u g ê n i a Martins Vieira (1966:153). escala anterior à de Luanda. da Bahia. do futuro). t a m b é m cigana. sucedia haver quem as impedisse de o fazer. Degredo de ciganos A idéia de castigar a p o p u l a ç ã o cigana pelo degredo n ã o é imputável a uma pessoa específica. natural do Crato (situado na mesma província do Alentejo) acompanhava-o. que incluímos em Costa (1997: 60-64) e as infrações que lhe estão subjacentes. para cumprir degredo perpétuo em Angola. as mulheres fazerem a "buena-dicha" (leitura da sina. Conselho Ultramarino. do Rio de Janeiro e do Recife. a partir de Lisboa. ciganas naturais da Bahia. à s e m e l h a n ç a do que tantas vezes sucedia. A corroborar o que afirmamos. e n ã o à chegada. de ciganos do Alentejo. A questão de se ser considerado "cigano de n a ç ã o " ('crime' que também aparece referido) ganha novos contornos (os quais. ou seja. de 45 anos. por enquanto. a denominada Lei X X I V das Cortes d á u m passo naquele sentido. veja-se a lista de degredados remetidos (durante um período de cerca de meio século) para Angola. o teor de uma carta de 10 de utubro de 1767. o que implica a hipótese de alguns registos corresponderem à partida. em especial no e s p a ç o colonial) quando nos é dado conhecer. Ora. Nela. para cada u m dos lugares de África (Coelho.

em parte parece devido à aplicação daquela pena. irrecuperáveis. Assim. que. a título de mero exemplo registe-se que por volta de 1690 devia contar com cerca de 1. O povoamento era t a m b é m um fator n ã o negligenciável. as autoridades foram-na impondo ao longo do tempo. se bem que em n ú m e r o variável dependendo das c o n d i ç õ e s e das é p o c a s . apesar de surgirem. N ã o dispiciendo o fato de a sua aplicação cumprir várias funções. enquanto para África podia ser inferior. Tanto quanto sabemos. ao mesmo tempo. Emigrantes interessados em partir. numa sociedade bastante complexa. a c o m e ç a r pela própria vida. 2 A centúria de Quinhentos ainda veria ganhar forma a lei de 28 de agosto de 1592. sempre os houve. sendo um mínimo de cinco anos para o Brasil. antes de mais. ficaram submetidas. com freqüência. seguras do seu direito e confiantes nos seus ideais de ordem. Ora.38 Elisa Maria Lopes da Costa De notar que o elevado n ú m e r o de leis e disposições diversas acerca do degredo para África e para o Brasil decorre. a f i m de que os territórios dominados pela Coroa lhe pudessem render o m á x i m o . optassem por partir). na impossibilidade de recrutar voluntários livres (ou alguns que. em geral. apesar de condenados. em regra pela força das armas. até porque o Reino era então fracamente povoado. dispostas a arriscar tudo. segundo o continente de destino. desde o início. dependendo do critério seguido pelo juiz.5 m i l h ã o de habitantes. com destaque para a de assim se libertar a M e t r ó p o l e de gentes indesejáveis. mas. numa palavra que n ã o cabiam dentro dos parâmetros tidos como normalizadores e. recorreu-se. desconhece-se o papel exato que o povo cigano desempenhou na colonização. em povoar as terras descobertas ou que. Note-se que a duração da pena aplicada variava. sentenças por toda a vida. o que implicava redução do tempo a cumprir. tendo havido casos em que alguns puderam escolher a troca voluntária de Colônia. ao sistema de envio de degredados. uma vez que pouco indulgentes. era preciso encontrar gentes destemidas. porém n ã o na quantidade necessária às colonizações. j á que os reis portugueses preocuparam-se. labor e conquista. a Portugal. reguladores da vida em comunidade. com certa freqüência. aventureiras e audazes. da importância de regular os comportamentos das pessoas punidas com tal condenação. tornando-o numa presença constante nas terras da colonização portuguesa. dominadas por outros povos. . havendo voluntários suficientes para acorrer às necessidades em determinada Colônia o rumo dos degredados a ela destinados era alterado. além de impor a pena de morte (punição renovada 2 Todavia.

.. 4 3 A 2 de julho do mesmo ano.... ou se avizinharão no Reino pela maneira acima declarada. e os enviareis presos. ou em qualquer outro deste Reino em que estiverem.Portugal e Espanha soluções diversas?" in Mare Liberum. em 1694) aos ciganos que infringissem as medidas integradoras nela inseridas.) E esta gente com haver tantos centos de anos que Espanha os agasalhou (. Temos também em 4 . ou. a sua opinião sobre como tratar o povo cigano. não buscam remédio a coisa tão importante como fora não estar Portugal e Espanha toda criando em suas entranhas. estipulava: (. após mandar prender todos os varões: "(•••) os degradareis para as galés que tenho dado ordem se façam no Brasil. E pudera isso ter muito bom remédio. e degredadas para sempre para o Brasil (..) as mulheres dos ciganos que estiverem presos nas galés que estão no porto desta cidade [Lisboa].. qual confirmação e inspiração dos textos que iam sendo lavrados pelos legisladores: (.. "O Povo Cigano e a Colonização . e os que governam as Repúblicas desvelando-se tanto em novas pragmáticas sobre ninharias... 1997:30 e 86). 1995.. deixando o dito hábito e língua dos ciganos: e não o fazendo assim serão publicamente açoitadas com baraço e pregão. 1892:234)..O povo cigano e o degredo 39 mais uma vez..)..) não sei como os conselheiros dos Reis..)" (Costa. conforme parece inferir-se do seu texto) em direcção às Colônias foi M i g u e l Leitão de Andrade. estas lombrigas ou digo Víboras que o estão roendo de contínuo por todas as partes do seu todo (. Para se avaliar da diferença de atitudes entre Portugal e Espanha veja-se Elisa Maria Lopes da Costa.) (Coelho. fora redigido mas não publicado um alvará que previa. embarcando-os divididos para o Brasil e Angola e outras nossas conquistas. e se iriam acabando de sair do Reino ou deles estes maus costumes (. se sairão dele dentro dos ditos quatro meses.. 3 U m dos defensores da saída dos ciganos do espaço metropolitano (quiçá mesmo da Península Ibérica. em alternativa. pp. 1892: 267). a bom recato à cadeia da Corte desta cidade de Lisboa para serem embarcados para ele nos primeiros navios que houverem de ir e pela dita maneira procedereis contra as mulheres ciganas condenando-as com a pena de açoites que a lei lhes dá e degredando-as para o Brasil (.) (Coelho. n ã o abandonassem o país num máximo de quatro meses. 173-185. e agora para a nova povoação do Maranhão poucos a poucos em cada navio que fosse. cerca de 1622.) Devoto: (. quando manifestou às autoridades.

1892:251 -252). eram excluídas de uma completa participação no império. além do Brasil. estipulava que os "que j á são naturais. Outras terras de degredo.surgiam agora. Por meados do século X V I I . Logo a 27 de agosto. As mulheres desobedientes seguiriam sem os filhos (ausentes da lei anterior) para Angola. igual matéria. ambos por toda a vida. . os homens para as galés. quando o soberano ressalvava os casos dos que serviam nos exércitos e dos detentores de "cartas de naturalidade". com hábito. resultante da preparação. cumpririam o degredo no M a r a n h ã o (Coelho. ciganos e pessoas de d e s c e n d ê n c i a africana ( . qual reforço da ordem anterior. ) " . De resto. raciais ou outras. na tentativa de lhes impedir os movimentos. Recuperáveis e irrecuperáveis A q u i c o m e ç a a verificar-se tendência para uma m u d a n ç a de estratégia. tais como cristãos-novos. de Espanha e de Inglaterra.)" (Coelho. 1892: 241243). tal como dos que se encontravam avizinhados de lugares e vilas do Reino.. Paris). a provisão de 20 de julho de 1686 destinada ao Corregedor el vense (na província do Alentejo. que se acentuaria na d é c a d a de 80. se não passassem a viver da mesma maneira que a restante população. ou para o arquipélago de Cabo Verde e.) nas conquistas deste Reino. por razões culturais. Na verdade. uma obra colectiva sobre a prática de degredo de Portugal. inequívoco. Pelo contrário. e respeitando aos dois sexos.40 Elisa Maria Lopes da Costa É sintomática a intenção de banir em definitivo os ciganos do reino de Portugal. . para onde deveriam ir viver dez ciganos presos na cadeia do Limoeiro. ficava contemplada em decreto. no âmbito da colecção "Interface" (Centre de recherches tsiganes... fronteira com Espanha) mandava expulsar os estrangeiros. E. a intenção era mais ampla. g ê n e r o e vida de ciganos)".. determinava-se: "(. proibindo-lhes insistirem em viver de acordo com os seus usos e costumes. . passava a distinguir-se entre os recuperáveis (nascidos em Portugal) e os irrecuperáveis (os restantes). ou seja. de que antes viviam (. onde se publicará para que se n ã o consinta aos ciganos que forem degredados o eles usarem desonestos tratos e embustes. de acordo com Russel-Wood (1998: 185B): "Os territórios ultramarinos portugueses contavam com grupos de pessoas que. filhos e netos de Portugueses (porém. o alvará de 24 de outubro de 1647 iria especificar os lugares afastados da Corte e das fronteiras (trata-se de terras de desterro).

. 1815: 290-291). e se lhes faça o seu assento do dia cm que chegaram. nada está investigado. ou para as capitanias de Pernambuco. fora promulgado um decreto a 18 de janeiro de 1677.) e que os Ministros que assim o não executarem. Que para a "questão cigana" continuava sem se entrever um final é nítido e. tratase t a m b é m de uma m i g r a ç ã o inversa).O povo cigano e o degredo 41 negligência. Maranhão. regressava às origens. argumentando-se que o degredo era para o Brasil e não para lugar especificado.)" (Coelho. no qual se fixava: (. Degredos. apesar dos castigos em que incorriam os prevaricadores! Cumprida a pena. e omissão que sobre este particular tiverem (. conforme fixa o próprio texto: "(. a C â m a r a . o que sucedia. para nesse tempo se lhes dar certidão (..) (Thomaz. o Poder prosseguia no seu incessante labor. contudo. Quem sabe se tidas por exageradas as medidas previstas caíam no esquecimento.. declarando-se nele os anos por que vão. 1892:253). povoamento e controle De acordo com o investigador Russel-Wood (1998:124B-125A). ou descuido.. Era o reconhecimento oficial da sua renovada liberdade! Todavia. conforme ao dolo. aliás. mas t a m b é m de estar cumprido o tempo na íntegra. c a era em que lhes findam. ao que sabemos. de certa maneira. parece que o território devia ser rapidamente abandonado. etc. com relativa freqüência. com particular incidência na população cigana. A 10 de novembro de . Dependendo da região. m i g r a ç õ e s . lhes seja dado em culpa para serem castigados. na realidade. quando extravasamos dos dois grupos a que o autor alude — os jovens. que voltavam à Europa para estudar e as jovens cujo retorno ao Reino visava ao ingressar em u m convento — e pretendemos conhecer melhor a questão do regresso dos degredados (pois.) os degredos que para o Brasil se proferirem.. sejam com distinção: ou para a Baía.. Paraíba. seria interessante saber-se qual a quantidade de pessoas degredadas que. se não mesmo antes. Assim e ainda devido à falta constante de povoadores. os quais irão com ordem ao governador da parle para onde for o degredo. ou o Capitão General deviam emitir um documento (sendo-lhe entregue aquando da libertação) comprovativo não só do seu bom comportamento durante o degredo. o tema da " m i g r a ç ã o inversa" tem sido pouco estudado. de quem devia aplicar a justiça. Concordamos com esta opinião... Rio de Janeiro.

. qual p a n a c é i a para o mal e n d ê m i c o . tinham de ser controlados.. ambos por 10 anos e isto. os ciganos. nele se referia: (. repartidos. delitos graves e excessos que com freqüência cometiam. u m decreto de 15 de setembro anterior ordenara a c o m u t a ç ã o do degredo de África para as capitanias brasileiras do M a r a n h ã o . do Ceará e do Rio Grande (Thomaz. pelo que tudo isto lhes iria ficar vedado e. Numa palavra. P o r é m . aí se introduziam problemas antes desconhecidos. São Tome. Com o intuito de inverter a situação e dado o recrudescimento das suas atividades (segundo algumas fontes) verificou-se u m amplo debate entre as autoridades baianas e o Conselho Ultramarino. apesar de chegados às novas terras as atitudes e práticas mantinham-se. todos os que haviam sido presos por ordem dos governadores das Armas das Fronteiras (da Metrópole) para a índia. Angola. Argumentava-se que ao serem enviados para outra terra. e fazendo-se formidáveis por andarem sempre incorporados e carregados de armas de fogo pelas estradas (. assim como os homens ao serviço das galés.) para correcção de gente tão inútil e mal educada se faz preciso obrigá-los pelos termos mais fortes e eficazes a tomara vida civil (. O alvará régio de 20 de setembro de 1760 pretendeu ser o remédio. u m decreto mandou remeter. Apesar de omisso. em boa verdade. situação agravada pela dificuldade em sedentarizá-los e pela impossibilidade de lhes alterar o modo de vida. Ilha do Príncipe. pois. De resto. havia muito por onde escolher. 1892:256-257).. uma vez que. desde 1755 a 1758.42 Elisa Maria Lopes da Costa 1708 nova lei destinava as mulheres ao Brasil. as autoridades ordenaram a diversificação dos territórios para onde os condenados deveriam ser degredados. a 28 de fevereiro de 1718. 1892:257-258). Foi nesse sentido que.. .). as medidas punitivas pouco conseguiram mudar e. como veremos (Coelho. se por ventura n ã o corrigissem o seu modus vivendi (Coelho. a coesão familiar e social reforçava-se até. logo ao abrir. reconhecendo-se embora que "esta gente tinha sido útil ao Estado com a m u l t i p l i c a ç ã o " (ontem como hoje era freqüente que as famílias tivessem grande d e s c e n d ê n c i a ) . o Brasil era também considerado u m destino. quer se tratasse de homens degredados ou livres. donde surgirem queixas.. em especial pelo trabalho.) no Estado do Brasil causam intolerável incômodo aos moradores cometendo continuados furtos de cavalos. Benguela e Cabo Verde.. e escravos. Na d é c a d a seguinte. argumentando com os furtos. 1815: 291).

impunha-se que os jovens fossem entregues a mestres para aprender um ofício. embora jamais tenha alcançado tal objetivo. uma vez que aumentariam. ocupando-se nos trabalhos que as restantes faziam (Coelho. ouviu várias ciganas. dada a probabilidade de se casarem com os indígenas (de notar que tanto a Coroa portuguesa quanto as autoridades eclesiásticas não se manifestavam contrárias à união com as mulheres ameríndias) das zonas para onde fossem. Estamos a reportar-nos a uma fonte eclesiástica a qual nos dá a conhecer presenças ciganas ainda durante o último quartel de Quinhentos. reincidente. 1892: 262-263). E. 5 Na verdade. no decurso do século X V I . para se não poder alegar ignorância. a "Primeira Visitação do Santo Ofício" (que o mesmo é dizer a Inquisição) a terras brasílicas. se bem que em alguns casos tivesse sido voluntária. custaria aos infratores o degredo por toda a vida. o n ú m e r o de habitantes. está documentalmente comprovado que a pena de degredo levou ciganos até ao território brasileiro. cuja deslocação a partir da Metrópole. pela procriação. desde sempre pareceu vantajoso degredar os jovens. Tome ou do Príncipe. por andar perdido o registo de embarque. pagando-se-lhes um justo salário e. na circunstância a terras baianas. saliente-se o fato de a legislação promulgada ao longo dos séculos visar separar os homens das mulheres. Sem sermos exaustivos. pomos-lhe reservas. observemos em traços largos a riqueza da informação que nos é facultada. ou qualquer documento que ateste a sua presença no território. E. na maioria foi imposta. a publicação t a m b é m se faria nas capitanias de todo o Estado.O povo cigano e o degredo 43 mais do que isso. homens deveriam assentar praça ou trabalhar nas obras públicas. porém. . ao passo que os adultos. as mulheres deveriam viver recolhidas. A mais leve transgressão. A profusão de leis respeitantes ao povo cigano denota à sociedade a inoperância de que se revestiam. embora a data da 'Carta de Perdão' (que lhe comutou a pena para o Brasil) seja de 1574. como fica demonstrado. capitania da Bahia-de-todos-os-Santos. Durante o tempo da graça confessaram-se: aos 20 de Agosto de Há a tendência para aludir a João de Torres e sua família como o mais antigo cigano degredado presente na Colônia. Ciganos no Brasil A o contrário do que alguns autores t ê m afirmado. Por outro lado. que funcionou na cidade do Salvador. para as ilhas de S.

uma Angelina e outra Teresa Rodrigues. uma vez no Brasil reincidiu. Tratada como "mulher do mundo". "e por ela ser muito costumada a dizer estas blasfêmias a lançou fora de casa" (Mendonça. que ficou nas galés do reino. Mais aludiu a uma outra cigana de nome Paula "dos olhos grandes" ( M e n d o n ç a . conforme parece fariam as testemunhas. Filha de Francisco Alvares e de Maria Fernandes. De notar neste passo que as autoridades do Reino não hesitaram em degredar para as colônias ciganos que não eram portugueses. No dia seguinte. compareceu no tribunal por iniciativa própria. fora excomungada havia mais de 3 anos por furto de u m fato. ou de outra. Natural de Lisboa. conforme iria suceder com outros condenados. fora degredada do Reino por ter furtado burros. 1925:400-401). cigana. e a denúncia que fez da mesma Maria Fernandes reportava-se a seis anos antes. ou tratarse do apelido — nome que identifica o indivíduo apenas no seio do grupo. Brianda Fernandes. Esta última contava 50 anos. era casada com Rodrigo Solis. matéria que tantos e q u í v o c o s gerou e continua a gerar). Ainda nesse dia. filha de Maria Violante.44 Elisa Maria Lopes da Costa 1591. quando esta era casada com Baltasar cigano. e de Francisco Escudeiro. várias vezes. havia blasfemado contra Deus. apesar de degredada de Portugal por ter roubado. vestida de homem. na rua do Chocalho. ciganos defuntos. contava cerca de 50 anos e morava na cidade. natural de Lisboa e viúva do cigano Álvaro da R i beira. 1925: 388). No que respeita a esta Maria Fernandes. tendo ambas vivido na mesma casa várias vezes a ouvira renegar Deus. Foi confessar que havia cerca de 10 anos. da responsabilidade de um meirinho da correição eclesiástica. Quer dizer que. "veio do reino por sua vontade sem ser degredada". estando omissa a data de chegada ( M e n d o n ç a . adela de profissão. tinha blasfemado contra Deus ( M e n d o n ç a . Está neste caso uma outra denunciante da mesma Violante. 1925:385-386). os processos vão-na chamando de uma forma. As razões da sua presença na colônia não estão explicitadas. Maria Fernandes. outra cigana. e. ou Violante (cremos que por ser filha de. na rua do Barbudo da mesma cidade. 1922: 74-75). esta mulher denunciava a anterior por um roubo que aquela alegadamente cometera a par de um cigano. razão pela qual. moradora como as restantes na cidade ( M e n d o n ç a . . viúva do ferreiro cigano Francisco Fernandes. ou Violante. 1922: 57-58). adela. Numa outra d e n ú n c i a ( t a m b é m de dia 21) a impender sobre a referida Violante. Mulher de cerca de 40 anos de idade. são nomeadas duas ciganas. ciganos espanhóis foram engrossar as fileiras dos povoadores reinóis. Francisco de seu nome.

através do Alentejo e da Andaluzia. natural de Évora e que contava então cerca de 30 anos. era filho de ciganos viajantes. de Angola. Morador em Sergipe. de Pernambuco. 1925:398). haver uma mulher que vendesse. mas. uma vez que a C â m a r a Paulista.O povo cigano e o degredo 45 t a m b é m de 21 de agosto. deliberou sobre a necessidade de. casada com o cigano Vicente da Silva e moradora na cidade (Mendonça. 1922. muitas vezes. somente quando o conde dos ciganos a repreendia ela se calava". dado abranger o Brasil. Processo da Inquisição de Lisboa: n" 11. uns solteiros e outros casados ( A N T T . na cidade. Está visto. no limiar de seiscentos surge-nos a primeira mulher cigana a exercer atividade pública. Sebastião da Silva cigano solteiro. E. A escolha recaiu sobre Francisca Rodrigues. durante sete anos. nada sabemos! (China. sem dúvida. confessou perante o tribunal que havia aproximadamente catorze anos tinha andado amancebada. a qual fora degredada do Reino por furto. No ano imediato. seria por cada tostão dez réis. cigana. com honestidade. Voltamos à lei de 28 de fevereiro de 1718. de Cabo Verde e de S. que jurou perante "os santos evangelhos" servir de vendedeira. e a paga. a quem chefiava os grupos. da seguinte forma: 6 6 Equivocava-se Bill M . Donovan (1992: 38. trata-se de Angelina da Costa. blasfemara "e contudo ela n ã o se desdizia nem deixava de blasfemar. e tinha vários irmãos.166-167). j á os havia. com um cigano de nome Francisco Coutinho e que. Acrescentou que haveria seis ou sete anos tinha chegado degredada e que então se casara.50 n 30) na informação sobre o afastamento desta população dos maiores portos. Por último. em 1603. natural da Andaluzia. a 30 de janeiro. mas que. natural do Faial (de Portugal ou do Brasil?). figura mítica que respeita. até ao presente. ciganos sedentarizados. há referência a um homem do qual pouco sabemos. foi ouvido. de 50 anos. de Paraíba. Entre 18 de novembro e 5 de dezembro de 1592.210). "a qual o fará muito bem". na seqüência de uma denúncia. o Conselho Ultramarino oficiava o governador da Bahia (o registo do expediente dá conta de cartas iguais para os governadores do Rio de Janeiro. A p o l ô n i a de Brustamante. Com efeito. da atividade por ela desenvolvida. S ó no decurso do século X V I I I viremos a lograr encontrar notícias regulares do povo cigano na colônia. 1937:536). Torne) . continuara a blasfemar (Mendonça. u . Curiosa esta alusão (rara para a d o c u m e n t a ç ã o da época que conhecemos) ao "conde dos ciganos". a 11 de Abril imediato. no dia 9 de agosto. Queremos agradecer à professora Alexandra Lousada o ter-nos facultado cópia do texto deste autor.

. . sem aludir aos crimes. cf.. 1961.. e repartidos pelos navios que vão para esse porto. com as relações dos ciganos degredados. Na tentativa de extirpar. E como pela lei novíssima que aqui mandei promulgar lhes está proibido usarem da sua língua c gíria. Recomendando aos governadores (. .) não permitindo que a ensinem a seus filhos para que pelo tempo adiante se extinga de todo a prática e uso dela o que vos hei por muito recomendado (. s Cabe perguntar. 247:135. pois é matéria a joeirar) se os degredados ciganos completada a expiação da pena seriam sempre impedidos de voltar à M e t r ó p o l e ? A informação daquelas chegadas obtive-mo-la por duas vias. 1997:47).. secretário de Estado. Manuel R o l i m de Moura..46 Elisa Maria Lopes da Costa (. faltando a indicação de quem partiu..) (Costa. ordenava: (. Acresce que a 15 de abril. Manuel Lopes de Almeida. 7 De acordo com China (1937:427) em dezembro subsequente. e de vários à Bahia e a Pernambuco. com que se costumam explicar. distribuídas por 50 homens. 17-26. Coimbra.. 51 mulheres e 43 "rapazes de ambos os sexos". estarem presas nas duas cadeias do Limoeiro de Lisboa Oriental 101 pessoas ciganas. enviou uma carta ao governador e capitão general de Pernambuco. Baía.).. esta ordem era remetida ao desembargador geral do crime baiano.) eu fui servido mandar degradar para essa praça da Bahia vários ciganos c ciganas e seus filhos pelo mau e escandaloso procedimento com que se haviam neste Reino de que havia tão repetidos clamores.. sem que logremos poder responder (por agora.) é Sua Majestade servido que daí sejam mandados para o Ceará e Angola nos navios que houver para aquela Conquista pondo Vossa Senhoria todo o cuidado nessa execução para que nenhum fique nessa Capitania. José Alvares do Amaral (1922: 327) refere que teriam alcançado a cidade de Agradecemos à Doutora Antônia Quintão ter-nos dado a conhecer esta missiva.. embarcados na frota e que iam destinados à sua capitania. Diogo de M e n d o n ç a Corte Real.. Notícias históricas de Portugal e Brasil (1715-1750). A 10 de março de 1718. o mal. Confirma tais informações a referência de dois navios terem rumado à índia. p. em definitivo. Cod. aguardando a partida para as colônias. em abril e 18 de maio imediato.) a que hão-de ser remetidos os não deixem voltar para o Reino (. me pareceu ordenar-vos (. o jornal Gazeta de Lisboa Occidental noticiou. cf. AHU.

"alojaram-se.). Bahia: Imprensa Oficial do Estado. e as mulheres liam a sina (Moraes Filho. 1981: 26-27). consultas e atitudes sobre os ciganos no B r a s i l Recorde-se que vastos espaços inóspitos.) casinhas de porta ejanella. em geral habitadas por ciganos (. se estabelecermos comparação com as atividades que desenvolviam em Portugal. na seqüência do desembarque. donde a rebeldia do povo cigano ter percorrido. eram bailadeiras morenas que quebravam lascivas no fandango. a par da quase inexistência de prisões (em especial fora das zonas urbanas). ao estalo das castanholas. 2 ed. Resuma cronológico e noticioso da Província da Bahia desde o seu descobrimento em 1500. eram esses párias despertos no exilio que disfarçavam os rigores da sorte e da vida. — eram os ciganos que carpiam nostalgias de além-mar. os seus avós e parentes por força de um roubo de quintos de ouro. ferreiros ou ourives... para cuja elaboração contou com um informador cigano. cantigas monótonas. Recordava o nome dos seus chefes. nas salas repletas. Aqui nada de novo. por parte do poder instituído era 9 Atente-se na circunstância de uma viagem por mar entre Lisboa e o Rio de Janeiro durar. a forma de proceder. E Moraes M e l l o Filho legou-nos um livro acerca do povo cigano no Brasil. enorme e inculta praça que se estendia da Rua do Cano até à Barreira do Senado". E como se fazia a adaptação dos r e c é m . E. Na impossibilidade de rastrear a obra que nos foi dada a conhecer há alguns dias pela professora Helena Flexor. latoeiros. até à Bahia levar mais 15 dias. idos do Reino. cerca de 60 dias e. em movimento constante.. A n c i ã o de 89 anos de idade (por volta de 1886). à época. sons de viola.. em barracas no Campo dos Ciganos. atribuído aos ciganos. os quais estariam compreendidos no decreto acima indicado e acrescentava que. eis a respectiva ficha bibliográfica: José Alvares do Amaral. a . em regra.c h e g a d o s à Colônia dá-nos conta o seguinte trecho compilado por China (1937: 415-416): (.O povo cigano e o degredo 47 Salvador a 31 de julho do mesmo ano. estendidos em esteiras! e lá dentro ao sereno dos quintaes. Passaram a ocupar-se no trabalho dos metais como caldeireiros. implicavam uma liberdade de movimentos que nenhuma circunstância podia inibir. toda a época que nos ocupa. de nome Pinto Noites. Cá fora vultos de homens e mulheres sentados ao relento. dizia que nos alvores dos setecentos teriam chegado ao Rio de Janeiro. dansas ao pandeiro. Leis. 1922.

o Rei ou o Conselho Ultramarino exaravam ordens tendentes a modificar hábitos e atitudes como se fossem alteráveis por força de leis. por meio da qual o rei ' M a g n â n i m o ' . João V. foi n ã o só reiterado na letra. a gênero algum de trabalho de que possam sustentar-se. Aliás. De assinalar que o envio para África. ou seja D . . estas faziamnas aos governadores e às autoridades centrais.. 1997:49). E. em diversas ocasiões. Ilustrativo desta afirmação é o teor da carta de 19 de setembro de 1724. em como para essa Conquista foram deste Reino exterminados os ciganos. os expulseis logo das terras desse governo e os mandeis para Angola (. dirigiu-se ao governador pernambucano (na seqüência de mais uma queixa de uma edilidade). de todos os recalcitrantes surge como hipótese derradeira de resolver u m problema quase insolúvel para as autoridades. em nenhuma parte. na Metrópole. radicando-se nessa terra com algum ofício ou com algum modo de granjearia para sustentarem a vida. . mas t a m b é m aplicado na prática.. dando aos ditos ciganos distrito a eles proporcionado donde se não desviem nem afastem. Tempos passados. é merecedor de estudo atento a prática do degredo intercolônias que foi relativamente freqüente. em particular para Angola.) e tendo cometido os ditos ciganos crimes tais que mereçam maiores penas..48 Elisa Maria Lopes da Costa invariável: algumas p o p u l a ç õ e s faziam queixas às C â m a r a s .) os oficiais da Câmara da Vila de Santo Antônio do Recife me deram conta em carta de 15 de janeiro do ano passado. na expectativa de uma correcção nunca alcançada.. os quais se não sujeitarão nunca. Queixas deste tipo continuaram a ecoar pelos tempos adiante. chamando nós a atenção para a idéia aceite (expressa no final) de que o medo do castigo bastaria para que tais incorrigíveis não infringissem as normas instituídas: (. porque o horror dele os moverá a se emendarem c viverem com toda a quietação (. Me pareceu dizer-vos que todos os ciganos que viverem como tais c se não reduzirem à vida civil. feitas por outras edilidades. por cuja causa fazem públicos furtos e roubos de gados de que resultam muitas mortes e desgraças sucedidas entre eles e aqueles moradores de quem há duplicadas queixas e que assim devia eu mandar aliviá-los desta opressão. ) A descoberta de jazidas minerais na d é c a d a de 1690 acarretou uma onda de criminalidade no .) (Costa... encomendareis que os sentenciem logo no que poreis o maior cuidado de se lhes dar o castigo competente às suas culpas. Na e x p r e s s ã o de Russel-Wood (1981:191): " ( .

Decorridos três anos. atendo-se tão-só à documentação que os coloca como infratores ou criminosos. datado de Vila Rica. que tenha em contrário. C o m efeito. ao proibir a entrada de estrangeiros naquela capitania. as autoridades. resultante da ocorrência de alguns distúrbios. sem dúvida. ordeno por este Bando que da publicação deste a três dias. de u m Bando do ano transacto. cujas publicações seriam feitas "ao som de caixa".. e a população cigana n ã o foi e x c e ç ã o . de uma ou outra forma lhe estava ligado. ordenando que as diversas famílias que ali se encontravam fossem presas e remetidas para o Rio de Janeiro. . " 1 Sem perda de tempo. generalizando. da lavra do capitão general das Minas do Ouro. . emanava um Bando do qual deveriam extrair-se editais. Mas. em todos os distritos da capitania. L°8:48). a i m portância do achado revelou-se de uma d i m e n s ã o tal que houve necessidade de se produzir abundante legislação com vista a regular a mineração. De resto. duas ordens impunham-lhes de novo a expulsão da região aurífera. quando.. Lourenço de Almeida.. aludiam. cerca de uma d é c a d a passada.) Faço saber aos que este meu Bando virem que. em 28 de outubro: (. aliás. más conselheiras. porque em todas estas Minas se acham quantidade de ciganos e ciganas com grande escândalo e prejuízo destes Povos pelos muitos furtos e insultos que todos os dias andam cometendo. para que ninguém ficasse por avisar. "' Contudo. Entretanto. então em Vila Rica.O povo cigano e o degredo 49 interior. todo o cigano e cigana despeje todo o governo das Minas. Manuscritos do Brasil. ) " . ou dispensa. quiçá mesmo. no seguimento. capitão de Minas e de Pernambuco. O predomínio dos estereótipos e das imagens negativas cristalizadas no tempo são. André de Melo de Castro. sem embargo de que mostre qualquer licença. que tudo dou porderrogado (. de forma explícita. 1948:146). apenas entre janeiro e outubro de 1732. consideram tratar-se de gente incorrigível. não partilhamos das opiniões de diversos investigadores. O problema meramente físico de manter a lei numa vasta área era agravado pela natureza transeunte da p o p u l a ç ã o ( .) (ANTT. porque umas e outras se publicaram segundo as reais deliberações de Sua Majestade. esta diretiva t a m b é m fracassaria. . dos piores entre os piores. D . merece ser transcrito o documento que manda expulsá-los.. o seu comércio e tudo quanto. para daí se transportarem para Angola. aos ciganos (Dornas Filho. logo a 20 de m a r ç o de 1720. c como sobre a expulsão desta gente se têm lançado vários bandos e expedidas várias ordens que todas dou por inclusas neste Bando.

1997:52-53).. pois lhe não faltam peças de ouro. o comandante do Destacamento dos Dragões. Manuscritos do Brasil. na mesma hora c tempo. as dificuldades sentidas pelas autoridades em encontrar a forma ideal de lidar com as situações que se lhes colocavam fica patente nos documentos produzidos ao longo do tempo. ou então no país vizinho ou num país bem distante (. que os expulsa para a Bahia. . utilitária.) (Costa.. Nenhuma das medidas coercivas surtia efeito junto àquela população. que os expulsa para Espirito Santo. etc. E. Sobre a atitude predominante.50 Elisa Maria Lopes da Costa A tentativa de regular u m assunto de contornos assaz complexos deu azo a que fosse preconizada uma solução definitiva. as autoridades coloniais aludem à população cigana. porque aliás estas Minas. . acima de tudo.). no sentido de deles poder obter algo de que viver. de onde são expulsos para Minas Gerais. pelas ordenanças prender cm todas as comarcas a quantidade e multidão de ciganos c conduzir ao Rio de Janeiro pelos seus bens. Contudo. o investigador Frans Moonen (1996:126) p õ e o dedo na ferida quando afirma: (. que consistia na constante tentativa de expulsão. por conseguinte. u m modelo copiado de Portugal e de Espanha). e cavalos.. a propósito de uns ciganos fugitivos escrevia mesmo: " ( . que se vendam e dêem para a Leva. . aproximadamente. entendendo que a prisão de dez ou doze não valia a perda de um cavalo que andasse no alcance. Por sua vez.. consubstanciada na forma de perseguição simultânea (aliás. ) " ( A N T T . ainda que furtados. em lugar de resolvê-los em definitivo. pois nenhum tinha mais crime que a desgraça de ser como cigano costumado a uma vida irregular ( .) trata-se da velha política de 'mantenha-os em movimento': Minas Gerais expulsa seus ciganos para São Paulo. o melhor lugar para os ciganos sempre c no município ou no Estado vizinho. por mais de uma vez. conforme ficou inscrito numa epístola de 7 de maio de 1737. Ou seja. em 1 de j u l h o de 1737.. cuja relação com os não-ciganos era. . desta forma: "Pelo que toca a ciganos as queixas que há são só por serem ciganos. que os expulsa para o Rio de Janeiro. dirigida ao governador Martinho de M e n d o n ç a : (. padecem grande dano havendo pessoas a quem têm levado cinco c seis cavalos (..) e lhe peço pelas Chagas de Cristo mande exterminar fazendo. sem que se aponte culpa individual". L " 4: 96). . mais não logravam as medidas coercivas do que um permanente alijar dos problemas.. ) os não mandei seguir pelos D r a g õ e s ..

.) Os ciganos vêm vindo bastantes a querer tomar vida regulada. do primeiro de agosto. Na qualidade de governador interino. mas muito raros. 1997:53-54). chegaram até Sebastião José de Carvalho e Melo. [De passagem alente-se na circunstância deste traço cultural. desde que não tivessem infringido a legislação em vigor. não se querem servir com brancas e menos com filhas de ciganos. c de alguns índios que poderão coadunar. na Baía. subscreveu.).. tais como eles. o Marquês de Pombal. deixando totalmente o ilícito comércio e o modo libertino que tinham de vida. ocupando-se com suas mulheres em lavoiras e em abrir terras de novo. com o seu colega Gonçalo de Barros.) As filhas será mais difícil acomodá-las porque. sobre os prisioneiros. e vão vivendo com quietação e grande temor (. Trata-se de duas missivas de 1761. com raízes profundas. acomodando-se distante uns dos outros uma a duas léguas.) (Costa. permite-nos verificar como estavam j á instalados alguns estereótipos e apreender as sugestões feitas para contornar os problemas que se colocavam: (.. notícias provenientes da Bahia. contendo mais esclarecimentos e deixando entrever uma certa tendência para a sedentarização: (.O povo cigano e o degredo 51 Só que.. fiquemos com a idéia de que. De relance . em regra. outra missiva em 5 de outubro. Por isso lhes temos proposto aos que nos falam que deles se não procura outra coisa mais do que viver como portugueses. Andrade. escritas com um intervalo de dois meses. temendo que alguma noite se ajuntem com os pais para roubar as casas e sobretudo querem só servir-se com mulatas e pretas (.. contendo a descrição da situação e indiciando o relativo cumprimento do que fora legislado... este reconhecimento não era suficiente para que os ciganos fossem deixados em paz. acerca dos ciganos na região.... e os adultos alguns assentaram praças. vassalos de Sua Majestade (.) (Costa... as autoridades viram-se até na necessidade de p ô r cobro a sevícias cometidas. se são de idade competente. porque por todas as partes os prendiam (..) Eles se se juntarem serão alguns mil em toda a capitania alem dos escravos que possuem. Na seqüência das directrizes constantes do alvará de setembro de 1760. em várias ocasiões. por não aparecerem ou porque esta gente casa logo nestas terras de muito pouca idade. 1997:53). permanecer incólume até à actualidade] Os que vão arrendando terras. Os casados entregam os filhos solteiros aos ofícios mecânicos. A que foi assinada pelo chanceler José Carvalho de Andrade. a que aludimos supra. durante o período de encarceramento.

. registra ao referir-se ao Ceará: "(•••) as terras cearenses foram das que mais receberam ciganos deportados de Portugal". Uns seriam proprietários escravagistas. pela mesma época. e dos vários despachos (que se prolongam até dezembro de 1764): (. com a data de 27 de março de 1762. prende-se ao tráfico de escravos. teriam sido co- . Atente-se no fato do relacionamento familiar bastante estreito não passar despercebido ao Poder. Minas Gerais. para esta época. sem que nos faculte as fontes de confirmação indelével. quais peralvilhos. ou maltratados. 80. uma situação similar e... para alguns. Ciganos e escravos Uma actividade desenvolvida por alguns ciganos e descrita por certas fontes. traçando o panorama evolutivo da permanência de gentes ciganas nos diversos Estados do Brasil. encontrar d o c u m e n t a ç ã o . conforme relata entre outros autores China (1937: 431 -474).) Costumam andar dispersos por todos estes continentes uns meramente ladrões disfarçados com o titulo de ciganos tendo só por vida o viajarem com toda a sua família de umas para outras comarcas furtando cavalos c tudo o que podem por ser ofício próprio de semelhante casta de gente passando os furtos que fazem a uns e a outros para melhor encobrirem a sua maldade e indo seus donos no alcance de tirarem o que lhes levam os maltratam e muitas vezes matam (. ter-lhe sido impossível conseguir.52 Elisa Maria Lopes da Costa E são conhecidos documentos que registam o fato de ter havido ciganos sedentarizados que foram alvo de medidas excepcionais para n ã o serem perseguidos. ressalvando.) (AHU.) porque com os transportes que fazem para outros distritos lhes fica comutada a pena cm degredo da própria vontade. Cx. conforme consta de uma carta (da qual damos alguns excertos) remetida ao monarca pela edilidade. sendo para utilidade do bem comum é preciso que residam em paragem certa com penas rigorosas para os que se acharem com semelhante modo de vida (. as quais se prolongaram pelo tempo adiante. ao que parece. o que se preconizava era a fixação de todos os que andassem. Acresce que. de terra em terra. doe. volta a haver notícias de prisioneiros ciganos e das vicissitudes por que passaram. 19).. todavia.. A coincidir com os alvores da independência brasileira. enquanto outros. A região de Minas Gerais conhecia..

a tão propalada globalização. 1987. Na época da minha viagem. no seu quotidiano. possuíam escravos e grande n ú m e r o de cavalos e de animais de carga. ) todos tinham boa aparência. Destaquemos t a m b é m a circunstância de um dos povos que mais cedo realizou. queremos facultar a informação bibl iográfíca: Mary Karasch. ) n ã o se pode compreender a cultura brasileira na sua totalidade sem ter em conta os contributos dos ciganos para as artes. queremos reforçar o fato de as políticas postas em prática pelas autoridades. . ) " . . . Por sua vez. no entanto. 50-54. Parafraseemos um autor brasileiro. deixou escrito (1940:138-139): " ( . que no Rio de Janeiro. a toponímia.46) quando "menciona um Joaquim José Rodrigues suspeito de ter roubado e vendido mais de m i l escravos em Minas e em S ã o Paulo". . Frans Moonen (1996:129130) regista que o viajante francês Gendrin. numa palavra para a vida tradicional do país". chegado ao Brasil em 1816 e regressado a F r a n ç a em 1822. se refere a 'vendedoras ambulantes de escravos africanos. eram os ciganos. de escravos roubados. no decurso do tempo. que habitou: "no Rio de Janeiro entre 1816 e 1821. Outro viajante coevo do anterior e seu conterrâneo. não terem levado nem à integração nem sequer à serena coexistência das comunidades cigana e não-cigana. sofrer ainda hoje tantos revezes. faziam. em segunda m ã o . . estudioso do povo cigano. as letras. em parte devido ao seu sentido de liberdade e de independência. Mota (1984:33) ao escrever: " ( . . principalmente. acrescentando ainda que Karasch "discute a importância dos ciganos enquanto comissários e a sua reputação de l a d r õ e s " . " Conclusão Antes de terminarmos. Na impossibilidade de compulsar a obra referida em Donovan. N ã o se tratava. o trajar. o c o m é r c i o de escravos. Princeton: pp. Auguste de SaintHilaire. tendo para vender quarenta a cinqüenta negros. porque o seu companheiro Gabert (1818) informa que ricos traficantes vendiam "carregações inteiras de negros a ciganos revendedores que negociam os cativos com particulares". a investigadora Mary Karasch é referida por B i l l Donovan (1992:52 n. .O povo cigano e o degredo 53 missários de determinados donos de escravos. as quais percorriam as ruas da cidade. Slave Life in Rio de Janeiro. negras e crianças de oito a quinze anos'". e entre os mesmos encontravam-se homens muito ricos ( .

1892 Os Ciganos de Portugal. Actas do I I Congresso LusoEspanhol sobre Descobrimentos e E x p a n s ã o Colonial. Fundação Calouste Gulbenkian. DONOVAN. I I I . Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para a C o m e m o r a ç ã o dos Descobrimentos Portugueses. 4 a 6 de Novembro de 1998 (Actas no prelo). Belo Horizonte. assim surjam investigadores. Francisco Adolpho. Lisboa. Lisboa. pp.. Revista do Museu Paulista. COATES.l. Mare Liberum. C o m i s s ã o Nacional para as C o m e m o r a ç õ e s dos Descobrimentos Portugueses. Fali 1992 "Changing perceptions of social deviance: Gypsies in early modem Portugal and Brazil". Com um estudo do calão. n'^ 10. Elisa Maria Lopes da. Elisa Maria Lopes da. t. 323-669. . 1995 "O Povo Cigano e a Colonização — Portugal e Espanha soluções diversas?". Journal of Social History. 1998 Degredados e Órfãs: Colonização dirigida pela Coroa no Império Português 1580-1755. Bill M . José B. etnográficos e lingüísticos)". São Paulo. pp. João. vol.TimothyJoel. 173-185. 1937 "Os Ciganos do Brasil ( S u b s í d i o s históricos. X X I .137-186. ano 3. Lisboa: Imprensa Nacional (Há 2 edição de 1996). Família e Religião na Colonização do Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. C o m u n i c a ç ã o ao Colóquio Internacional Sexualidade. d'01iveira. Lisboa: C o m i s s ã o Nacional para as C o m e m o r a ç õ e s dos Descobrimentos Portugueses. pp. com bornal disponível! Bibliografia C H I N A . " A família cigana e o povoamento do Brasil — uma história singular". a COSTA. COSTA. p. 33-53. C O E L H O . Elisa Maria Lopes da.54 Elisa Maria Lopes da Costa Na sua esteira t a m b é m nós defendemos que importa fazer estudos aprofundados neste d o m í n i o . s. COSTA. de cá e de lá. 1948 "Os Ciganos em Minas Gerais". de preferência que possam ser complementares. DORNAS FILHO. 1997 O Povo Cigano entre Portugal e terras de além-mar (séculos XVI-XIX).

. Paris: (texto inédito).W O O D .O povo cigano c o degredo 55 M E L O . 1981 Os Ciganos no Brasil e Cancioneiro dos Ciganos. pp. A . n 10. 1998 Grupos Sociais in Francisco Bethencourt e K i r t i Chaudhuri. Courrier de 1'Unesco. J. 1981 Fidalgos e Filantropos. via electrônica).77-115. M O O N E N . 1996 " A História esquecida dos Ciganos no Brasil".os ciganos portugueses degredados no Brasil. A . 1940 "O Degredo". pp. Saeculum — Revista de História. I I Do a a u u . M O T A .W O O D . Paris.vol. J.. I I Do Índico ao Atlântico (1570-1697). Alexandre José de M e l l o . Frans. pp. p p . M E N D O N Ç A . J o ã o Pessoa. Belo Horizonte: Ed. J.R. l 31-200. 1922 Primeira Visitação do Santo Officio às Partes do Brasil (. Brasília: E D U n B . S ã o Paulo: Ed. M O R A E S F I L H O . n " 6 .32-33. 1998 Ritmos e destinos de e m i g r a ç ã o in Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri. R U S S E L L . 1982 "Contribuição à História da Ciganologia no Brasil". 2 ed.2..W O O D . Ático Vilas-Boas da. R U S S E L L . Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. 1997 "Ciganos na Europa e no Brasil". Geraldo. R. Frans. 1925 Primeira Visitação do Santo Officio ás Partes do Brasil (. ano I X . Itatitaia. Lisboa. Lisboa: Circulo de Leitores. 1984 " L e chemin des A m é r i q u e s " . A . A Santa Casa da Misericórdia da Bahia 1550-1755. Paulo Prado. n 10. 1993 Detestáveis na Metrópole e receados na Colônia . S ã o Paulo: Ed. R U S S E L L . História da Expansão Portuguesa .. Recife ( 2 edição estudantil.v o l . PIERONI. Vasco Marinho H . Heitor Furtado de. Ático Vilas-Boas da. de. R.. História da Expansão Portuguesa . Paulo Prado.) Confissões da Bahia 1591-92.pp.) Denunciações da Bahia 1591-93. M E N D O N Ç A . 123-138. M O O N E N . G o i â n i a . 169-191. Heitor Furtado de. M O T A . Boletim dos Institutos de Criminologia. n..

Revista de Ciências Históricas.pp. Through the analysis of the Portuguese laws about the gipsies (which included banishment). S ã o Paulo: Livraria Martins.). a u RESUMO Baseado em documentação inédita literalmente "garimpada" entre diversos fundos documentais de arquivos portugueses c cm bibliografia especializada. pp. Lisboa. C o i m b r a : Real Imprensa da Universidade.. A partir da análise da legislação portuguesa referente aos ciganos (que incluía o degredo). Cod. 1940 Viagem à Província de S. Manoel Fernandes..desde sua chegada (provavelmente no século XV) até o século X V I I I . 290-291. vol.1. 2 ed. Porto. n 499 do A r q u i v o M u n i c i p a l de Luanda integrado sob a forma de fotocópias). 1966 Registo das Cartas de Guia de Degredados para Angola 1714-1757. both subjects not yet well studied by the historiography. and also analyses the banishmcnt of the gipsies to Brazil.). 187-210. Paulo (. the article studies many aspects of the life.. 1991 "Linhas de força da legislação Ultramarina Portuguesa no século X V I I (1640-1699)". 1815 Repertório Geral ou índice Alphabetico das Leis Extravagantes do Reino de Portugal (. Francisco Ribeiro da. Faculdade de Letras de Lisboa (texto policopiado..since thcir arrival there (probably in the sixtecnth ccntury) until the eighteenth century . 1.H I L A I R E .. history and social representations of one of the minorities that have been the most severely persecuted in Portugal and Spain. SILVA. da história e das representações sociais de uma das minorais mais perseguidas da península ibérica. V I E I R A . Auguste de. ABSTRACT This article is based on unpublished documents literally prospected into many Portuguese archives and librarics. S A I N T . T H O M A Z . Maria E u g ê n i a Martins.114-125. Lisboa: Círculo de Leitores. It analyses aspects of the presence of the gipsies in Portugal . temas ainda muito pouco trabalhados pela historiografia. pp. . este artigo analisa aspectos da presença do povo cigano em Portugal . o artigo aborda diversos aspectos da vida..56 Elisa Maria Lopes da Costa Índico ao Atlântico (1570-1697). 6.e do degredo de ciganos para o Brasil.