You are on page 1of 7

Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas

Trabalho Final

HZ144 B - Gênero, trabalho e política Profª. Drª. Angela M. Carneiro Araújo

A coexistência de dois preconceitos: As opressões sofridas pelas lésbicas no mercado de trabalho

Mayara Fátima Fantato da Silva

RA: 103538

Ciências Sociais 010/ Noturno

. entre outros.]. mas sim como “categorias” diferenciadas. [. ainda lidam com o fato de possuírem uma sexualidade diferenciada. Vítimas de diversas formas de preconceito. instaurada em torno de uma disputa.. serão utilizadas entrevistas de cinco lésbicas em seus locais de trabalho. A análise tentará mostrar de que forma se manifesta esse tipo especifico de opressão.. a idéia de intersecção. as mulheres lésbicas são parte de uma minoria construída dentro de outra. “a definição [de Crenshaw] das relações sociais como setores de intervenção implica que as mulheres [. diante de configurações históricas em que simboliza culturas e historias especificas moldadas por relações sociais. a interseccionalidade é um instrumento de análise que coloca as relações em posições fixas. Ou seja: Se existe como “mulheres de classes”. Em outros termos. Dialogando com Brah (2006). não se pode ler esse histórico de diferenças “uma a partir de outra” devido ao fato de que essas se articulam constantemente já que cada pessoa concebe um evento a partir da maneira que ela é culturalmente construída. o presente trabalho se propõe a analisar as relações existentes entre o preconceito sofrido pelas mulheres em seus respectivos empregos concomitante à orientação sexual dessas. Esta escolha não é aleatória. sendo aqui escolas e empresas na área de informática. não se existe apenas como “mulher”. as formas de discriminação não são equivalentes a todos os contextos em que se aplicam e nem todas as mulheres lidam com ela da mesma forma. o signo contido dentro de “lésbica” além de trazer a ideia de opressão pelo fato de serem mulheres..] que enfrentam mais do que uma discriminação se acham em setores isolados. o que por si só gera preconceito. já que este último tipo de empresa normalmente possui mais homens em seu corpo de funcionários a fim de demonstrar qual a relação existente. dificulta pensar uma relação de dominação móvel e historicamente determinada [.. exatamente da mesma maneira pela qual o discurso dominante naturaliza e enquadra os sujeitos em identidades previamente definida s” (Kergoat.. Sendo assim. Sendo assim. que se torna ainda maior quando a própria figura da mulher já possui um histórico de sexualidade reprimida já que esta é tida como base reprodutiva. que divide as mobilizações em setores.] O conceito de interseccionalidade e. 2010) . ”mulheres trabalhadoras”. de maneira geral.Resumo: Tendo em vista que segundo Kergoat (2010) Uma relação social é uma relação antagônica entre dois grupos sociais. Para tal. O signo “Mulher” se constrói então. Entretanto.

as relações sociais continuam as mesmas. Nesse caso. o cruzamento privilegiado é entre "raça" e gênero. Como não há um reconhecimento por trabalhos feitos de forma institucionalizada. No entanto. analisa-se a ideia de gênero concomitante a orientação sexual. a divisão sexual do trabalho possui formas extremamente instáveis no tempo e no espaço. no que se refere às interseccionalidades. os homossexuais não possuíam o direito de receber pensão por morte do cônjuge. houve uma mudança entre as “relações intersubjetivas” (aquelas que têm como base o ser ). porém. o Brasil permanece como um dos países onde não se aprovou nenhuma lei contraria a discriminação sexual. usadas como “unidade de substância”. além da precarização do trabalho feminino e de todos os pré-julgamentos que este carrega por si só – que se deve em grande parte ao fato da sociedade ainda conceber o trabalho feminino como sendo complementar ou similar ao trabalho doméstico – o grupo de especificidades do trabalho das lésbicas contempla outros fatores tão opressores quanto os acima citados: Por serem mulheres e não receberem salários compatíveis. Vindo de uma relação histórica. aumentaram sua participação no mercado de trabalho. meninas cuja expressão de gênero não se adapta ao ideal feminino encontram dificuldades no mercado de trabalho. este fato dificulta a independência financeira. Com isso. devido ao não reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. ou seja. dominação e opressão. no que se refere ao mercado de trabalho. neste texto. Ou seja. Ainda assim. o que culmina em uma renda menor na aposentadoria. o gênero cria a classe. e. essas relações se reproduzem e se co-produzem mutuamente gerando assim novas possibilidades. os salários diminuem e as mulheres continuam sendo oprimidas. as relações existentes são “consubstanciais”. Porém.Como citado a priori por Kergoat. as desigualdades de salário ainda persistem. enquanto a referência à classe social não passa muitas vezes de uma citação obrigatória. Para ela. então. isso se justifica pelo fato de que o “o capitalismo tem necessidade de uma mão de obra flexível”. é importante destacar que até 2011. em um mundo cada vez mais dominando pelo culto a beleza. além disso. ainda assim. segundo a autora se manifestam de três formas: exploração. O que faz com que muitas meninas não se assumam criando assim uma ocultação . Além disso. há dois princípios organizadores o princípio da separação (o trabalho do homem é distinto do trabalho da mulher) e o princípio da hierarquia (o trabalho do homem "vale" mais do que o trabalho da mulher). as lésbicas estão mais expostas à pobreza. porém. o que pode ser crucial já que há um histórico social de não aceitação da homossexualidade na família. As mulheres.

Com isso. O mercado de trabalho que cria oportunidades também é responsável por construir ou reproduzir outras opressões vivenciadas socialmente como será explicitado abaixo. a discriminação contra as lésbicas aumenta na medida em que outras diferenças são somadas. Entretanto. Há diversos relatos de meninas que não foram aceitas em determinados empregos por não possuir o “ideal de feminilidade” esperado para aquele trabalho. elas são maioria em locais que podem se esconder. mas também um aparelho semiótico. enquanto no quadro de professores. Entrevistas: A fim de exemplificar os dados citados. assim como meninas que trabalham em locais públicos escondem sua sexualidade. Ela afirma não ter sentido nenhuma forma de preconceito claro quanto a sua orientação sexual (Flora é assumida e namora há mais de um ano). sobretudo naqueles empregos que lidam diretamente com o público. uma matriz de sentido. Com isso. uma vez uma funcionária comentou sobre o fato de um rapaz que foi até a escola ser afeminado. há uma predominância feminina. serão expostos alguns relatos de meninas lésbicas1 em seus determinados grupos de trabalho mostrando as similaridades e as diferenças entre determinados mercados: Flora trabalha há cinco meses no setor administrativo de uma escola de idiomas. uma das estratégias de venda é utilizar o “charme feminino”).está geralmente ligada à ideia de sexo e/ou promiscuidade. considerando “não necessário” ser histérico ou tão espalhafatoso (sic). as mulheres também sejam julgadas por seu modelo de gênero. 1 Os nomes contidos nesse trabalho foram modificados a fim de preservar a identidade das entrevistadas .” Evocando Saffioti (2004) o gênero não é somente uma construção cultural. sendo elas criadas ou pré-concebidas. O gênero participa da construção do sujeito.da identidade já que no imaginário a homossexualidade – feminina ou masculina . da mesma forma que a raça/etnia e a classe social. não parece aleatório que da mesma forma que o “rapaz” citado na entrevista. Flora demonstra de que forma a expectativa de uma conduta de gênero se reflete de forma intrínseca em nossa sociedade: “Apesar de não ser nenhum problema os vários funcionários homossexuais. em parte do seu relato. sendo assim. segundo a entrevistada. Esse setor é composto unicamente por mulheres (já que.

na área de computação há uma disparidade entre empresas específicas: Em uma empresa norte-americana situada na cidade de Hortolândia. nenhuma das meninas entrevistadas assumiu sua homossexualidade em seu ambiente de trabalho. No mesmo campo. vindo. Neste contexto. Inclusive. . em outra empresa da mesma área. não há relatos de preconceito. sobretudo de alunos adolescentes. entretanto. Sobretudo porque a cultura desta empresa prega inclusões que preveem inclusive o uso optativo de crachás coloridos para homossexuais. as mulheres continuam sendo valorizadas apesar da ideia intrínseca de que “mulheres são menos capazes”. Entretanto. Segundo a entrevistada. quem apresentou a proposta aos gerentes – e também levou o nome como autor do modelo – foi um homem. penso que isso já fala por si só”. Este fato vai de encontro à ideia de que a discriminação sofrida por esse grupo é intrínseca à sociedade e. as profissões ligadas à área de computação continuam sendo majoritariamente masculinas.Cria-se então mais uma nova forma de diferença dentro de uma opressão que já é por si só intrínseca ao preconceito existente contra as mulheres. segundo o gerente da empresa. Em contra partida. estou no mercado há cinco anos e até hoje não trabalhei. relatou já ter presenciado discursos homofóbicos em sala de aula. se subentende a figura da mulher como parte de seu estado civil: Casadas são mais confiáveis (dependendo do cargo) ou solteiras são mais atraentes (prima rentabilidade) e juventude. Este momento nunca chegou. Porém. quando questionou o fato. a ocultação é utilizada. além disso. Ela relata não ter sentido nenhuma forma de discriminação por parte da escola em que trabalha. segundo algumas entrevistas. ela ainda teria oportunidade de apresentar seus outros modelos em outro momento. o estado civil de uma pessoa não deve ser critério para sua contratação. a maioria delas por medo. De acordo com argumentos legais. de forma geral. ela desenvolveu um piloto de uma ferramenta para um cliente. acaba sendo reproduzida em contextos familiares e escolares. Verônica foi enfática: “Bem. Verônica relata já ter sofrido uma discriminação bastante comum no que se refere ao tratamento dado as mulheres nesses ambientes de trabalho. não vi e nem conheci uma lésbica assumida na minha área. Sarah é professora de inglês há um ano. entretanto. entretanto. Quando perguntada sobre o preconceito sofrido sobre sua sexualidade. em alguns cargos. Entretanto.

e que há. É necessário que aprendamos não apenas a não compartilhar dessas opressões – por vezes de forma velada – mas sim. uma vez que a figura da mulher em um ambiente como este é sempre aquela que necessita “provar algo a alguém”. através do grupo LGBT e suas vertentes. tem pouquíssimas mulheres em cargos de liderança ou. a presença de homossexuais do sexo masculino. sobretudo a ideia desvalorização do trabalho feminino e da própria figura da mulher. percebe-se que em profissões com um grupo misto de funcionários. inclusive. tal fato.Já no que se refere ao seu papel de mulher em um local “dominado” por homens. Importante destacar que os discursos impostos socialmente que pressupunham a mulher como oprimida passaram a ser questionados com o surgimento do feminismo. aprendamos de fato a valorizar o papel da mulher em nossa sociedade. as lésbicas tendem a se assumir. bem como comentários degradantes e indiscretos. ela afirma: “não é incomum ouvir piadas sobre o assunto. Com isso. São parte de um sistema pré-moldado que possui intrínseco novas formas de opressão. Como analisado. em profissões predominantemente masculinas. o preconceito recai principalmente a ideia de que as mulheres são menos capazes. criarmos mecanismos contra elas para que. mulheres em uma posição de "admiração" por conta de seus conhecimentos e capacidades”. . Com isso. criar uma opressão explícita dentro de outra opressão “velada” faria com que o preconceito e a desvalorização pré-estabelecida apenas aumentasse. no mercado de trabalho analisado. com isso. o Brasil tem gradativamente – ainda que de forma lenta e por vezes retrógrada aumentado a aceitação aos grupos homossexuais (sejam eles homens ou mulheres). Entretanto. infere-se que tais opressões não existem por si só. é raro que mulheres lésbicas se assumam. independente de quem ela se relacione. Entretanto. Além disso. na maioria das vezes por medo de serem prejudicadas profissionalmente. está ligado. algumas mulheres ainda necessitam de “esconder” sua sexualidade através. Já no que se refere à sexualidade. da omissão. além da mudança de visão no que se refere a mulheres. ao menos. sobretudo.

diferenciação".scielo. Heleieth I.de/pdf- files/bueros/brasilien/05630. Brasil.2010. Novos estudos no. Bolívia. . Cattrachas (Honduras). Unicamp. Red Nosotras LBT (Colômbia) "A invisibilidade e o ganha-pão: lésbicas e discriminação no trabalho na América Latina. Pagu. 2008.26. pp. diversidade.fes. (homo)sexualidades e diferenças na cidade de São Paulo.) Cadernos da Coordenadoria Especial da Mulher. Disponível em <> http://www. Argentina.B. Na trilha do arco-íris: do movimento homossexual ao LGBT. nº 1 1º semestre de 1994. "Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais".Cad. FACCHINI. Tese de Doutorado. São Paulo. SP: Fundação Perseu Abramo. Disponível em <> http://www. 2004 p. BRAH. 93-100. classe social". "A classe operária tem dois sexos" . p.br/scielo. Helena e KERGOAT. Kergoat. Regina. CEBRAP. 8.86. São Paulo: mar.pdf Acessado em Nov/2013.br/scielo. International Gay and Lesbian Human Rights Commission . SAFFIOTI. no.php?script=sci_arttext&pid=S010483332006000100014&lng=en&nrm=iso Acessado em Nov/2013. raça/etnia. Disponível em <> http://library.Estudos Feministas. Regina.329376. in Tatau Godinho e Maria Lúcia da Silveira (orgs. n.Referências Bibliográficas: HIRATA. com ênfase especial na Colômbia. Avtar. ADEIM-Simbiosis. SIMÕES. Disponível em <> http://www. Jun 2006. Entre umas e outras: mulheres. D.scielo. Danièle. 2006. Artemisa (México). Honduras e México". Buenos Aires.scielo. 2009. Criola (Organização). "Diferença ou indiferença: gênero. "Diferença.php?pid=S0101-33002010000100005&script=sci_arttext Acessado em Nov/2013.php?pid=S0101-33002010000100005&script=sci_arttext Acessado em Nov/2013. Júlio Assis e FACCHINI. 103-111.br/scielo.