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PRINCIPIOS E PARAMETROS: UM COMENTARIO A L'EXERCICE DE LA PARENTE

Eduardo Viveiros de Castro (Museu Nacional - Rio de Janeiro)

Paris, outubro 1989

2 I. AS LEIS FUNDAMENTAIS DO PARENTESCO (*)

Introdu•‹o

L'exercice de la parentŽ

(HŽritier, 1981) Ž uma contribui•‹o fundamental para a

antropologia do parentesco. ƒ com surpresa, portanto, que se constata que este livro nunca foi objeto de uma discuss‹o sŽria. Na Fran•a, somente um perspicaz artigo de E.TŽrray (1986) veio romper o sil•ncio. A iminente publica•‹o de uma sŽrie de ensaios que tomam como ponto de partida as idŽias de L'exercice de la parentŽ (1) ir‡ certamente corrigir este estado de coisas, ao menos na cena local, onde o livro de HŽritier parecia desfrutar do estatuto amb’guo de um cl‡ssico: a cita•‹o ritual e a aus•ncia respeitosa de discuss‹o. No exterior o problema Ž outro. A antropologia anglo-sax‹ passa por uma fase onde a empresa de HŽritier n‹o Ž de molde a encontrar grande eco. Seu livro trata "des sujets en dehors de la mode" (p.10), e que continuaram assim nestes oito anos. O clima n‹o andou prop’cio a empresas do g•nero, e L'exercice da la parentŽ n‹o tinha por que esperar tratamento melhor que o atualmente votado ˆ obra que criou a antropologia estrutural do parentesco: Les

structures ŽlŽmentaires de la parentŽ , depois de terem provocado uma revolu•‹o
te—rica, foram pouco a pouco sufocadas por uma selva de distin•›es escol‡sticas, e mais tarde sofreram algumas tentativas de auto-da-fŽ. Assim, nos meios angl—fonos, o livro de HŽritier mereceu umas poucas resenhas, e refer•ncias r‡pidas em manuais (2) . A monografia de R.H. Barnes (1984), uma an‡lise hist—rico-te—rica da sociologia dos Omaha, trata as teses de HŽritier com seriedade, mas as rejeita em nome de um ceticismo nominalista de inspira•‹o oxfordiana. *** O livro de F. HŽritier parece, ˆ primeira vista, propor uma extens‹o da teoria apresentada em Les structures ŽlŽmentaires de la parentŽ , sendo aquele complemento ˆs SEP que seu autor desistiu de escrever, sobre as estruturas "n‹oelementares". Mas tal impress‹o se desfaz ao atentarmos um m’nimo para a organiza•‹o de L'exercice de la parentŽ e para seus argumentos principais; ele est‡ longe de ser uma mera elabora•‹o das intui•›es de LŽvi-Strauss sobre os sistemas "crow-omaha" de alian•a, levada a cabo por um disc’pulo fiel dotado de paci•ncia estat’stica. HŽritier faz uma releitura radical deliberadamente consequ•ncias: n‹o-pol•mico, a autora das SEP faz dois seu livro Ž menos uma de profundas continua•‹o que uma retomada cr’tica destas. Com efeito, sempre guardando um tom movimentos

3 (1) Distingue as estruturas elementares de parentesco das estruturas elementares de alian•a. Recusa-se a fundar as primeiras sobre a teoria da troca matrimonial de LŽviStrauss, e defende a anterioridade l—gica das primeiras sobre as segundas: o princ’pio de reciprocidade se v• exclu’do das "leis fundamentais do parentesco". Este movimento Ž realizado no Cap’tulo I de L'exercice de la parentŽ, que responde assim criticamente aos primeiros 10 cap’tulos das SEP. (2) Constr—i uma tipologia que p›e os sistemas elementares, semi-complexos e complexos de alian•a no mesmo plano, definidos como combina•›es espec’ficas de um mesmo conjunto de regras simples. Recusa, portanto, qualquer heterogeneidade essencial entre os SE, SSC e SC. Em particular, circunscreve rigidamente as conota•›es meramente negativas da idŽia de complexidade ("semi-" ou inteira). Este movimento conclui as an‡lises realizadas nos Cap’tulos II (SSC) e III (SC). *** A primeira tese de HŽritier equivale a relegar a um plano secund‡rio aquele aspecto das

SEP que Louis Dumont chamou de "thŽorie structuraliste de la parentŽ, centrŽe sur
une interprŽtation structurale de la prohibition de l'inceste" (1971: 91), e que ele tambŽm encarava com reservas. Contra esta "teoria geral", Dumont valorizava a "teoria restrita" presente nas SEP, ou "teoria da alian•a de casamento" - aquela que trata dos sistemas elementares de alian•a. Mas, ˆ diferen•a de Dumont, HŽritier n‹o se limita a acolher e desenvolver esta teoria restrita; ela prop›e uma outra teoria geral. O segundo movimento de L'exercice de la parentŽ , por seu lado, estende a teoria lŽvistraussiana dos sistemas de alian•a, avan•ando uma solu•‹o elegante e poderosa para os "sistemas semi-complexos", potencialmente aplic‡vel aos sistemas "complexos" (3) . Ao proceder ˆ redu•‹o anal’tica dos SSC e dos SC a casos particulares de uma combinat—ria que inclui os SE, pode-se dizer que HŽritier define aqui as bases de uma teoria unificada dos sistemas de alian•a.

L'exercice de la parentŽ

contŽm assim duas teorias gerais, uma sobre as "leis

fundamentais" do parentesco, outra sobre os princ’pios b‡sicos de todo sistema de alian•a. A autora acredita que estas duas teorias se encadeiam: os princ’pios cuja combina•‹o define os SE, SSC e SC se explicariam a partir das "leis fundamentais do parentesco". Minha impress‹o Ž o exato oposto. N‹o s— elas s‹o completamente independentes, como coabitam muito mal. Acho que a "teoria geral do parentesco" de HŽritier n‹o d‡ conta dos fatos que pretende explicar, e Ž irrelevante para sua an‡lise dos sistemas semi-complexos. A teoria dos sistemas de alian•a, que Ž a contribui•‹o

permitindo. a "domin‰ncia do masculino sobre o feminino". a retomada sob uma nova luz de um problema cŽlebre das SEP : o estatuto do casamento patrilateral. Se o primeiro pode ser contestado por uma cr’tica interna. e a tipologia dos sistemas de alian•a que coroa uma an‡lise sofisticada do funcionamento matrimonial dos sistemas semi-complexos. 11). A caracteriza•‹o estrutural dos sistemas semi-complexos de alian•a Ž o outro objetivo do livro. Examinaremos estes dois aspectos do livro de F. Se Ž preciso dar-lhe um fundamento. um SSC se define por interditar a repeti•‹o de alian•a por consangu’neos de mesmo sexo e permitir a repeti•‹o por consangu’neos de sexo oposto.4 decisiva do livro. HŽritier nos oferece uma teoria omaha dos sistemas de parentesco. A explica•‹o residiria em um princ’pio universal. Ž dif’cil imaginar outro que aquele posto por LŽviStrauss: a reciprocidade como condi•‹o de possibilidade da vida social. mas apenas a diferen•a sexual. Constate-se de imediato o problema central: a defini•‹o dos mecanismos fundamentais da alian•a. Um dos objetivos anunciados do livro Ž explicar as equival•ncias formais estabelecidas por Lounsbury como caracter’sticas das terminologias crow e omaha. a equival•ncia estrutural) de germanos de mesmo sexo e o do tratamento diferencial de germanos de sexo oposto. HŽritier: as "leis fundamentais do parentesco" ali propostas. a troca como o nexo social instituinte. Com efeito. pode ser tomada sem problemas como uma teoria descritiva. n‹o faz absolutamente intervir a "domin‰ncia do masculino sobre o feminino". a partir do caso dos Samo (Alto Volta). que estariam na origem dos "mecanismos fundamentais da alian•a": os sistemas de alian•a podem ser distinguidos conforme admitam ou n‹o a repeti•‹o de alian•as anteriormente contra’das por consangu’neos de mesmo sexo ou de sexo oposto (p. a autora jamais diz que o princ’pio de domin‰ncia masculina explica as . As "leis fundamentais do parentesco" Nossa cr’tica ao Cap’tulo I de L'exercice de la parentŽ pode ser resumida numa frase: em lugar de uma teoria dos sistemas de parentesco omaha. o segundo Ž rico em possibilidades de desenvolvimento. De acordo com os critŽrios acima. que naquele autor se querem meramente descritivas (p. Este princ’pio Ž dito "implicar" o da identidade (isto Ž. 12). tanto aqui quanto na Conclus‹o. em particular.

volens nolens . A assimetria l—gica "universal" homem > mulher n‹o desempenha qualquer papel nas an‡lises dos sistemas matrimoniais semi-complexos e complexos ao longo do livro. Mas HŽritier. Barnes). contra a maioria dos antrop—logos anglo-sax›es. teriam um funcionamento matrimonial de tipo semi-complexo (pp. Mas as no•›es de "terminologias crow/omaha" e de "sistemas semi-complexos de alian•a" n‹o s‹o coextensivas. e a segunda parte do presente ensaio).ver Rouville. na verdade. tal princ’pio universal explicaria? . povos com terminologias "havaianas" e "iroquesas" exibem SSC de alian•a. sendo meramente um princ’pio de ordem e simplifica•‹o (p.12. Qual ent‹o a rela•‹o entre os dois fen™menos? ƒ que todos os sistemas com terminologia crow/omaha "completa". (Os Lobi. que classificam juntos os sistemas com equa•›es obl’quas de tipo matrilateral e aqueles crow/omaha. conceito proposto por LŽvi-Strauss a partir dos interditos matrimoniais caracter’sticos das sociedades com nomenclaturas crow/omaha. com termos espec’ficos de afinidade. Por outro lado. assim como a organiza•‹o linhageira n‹o Ž nem necess‡ria nem suficiente para explicar as proibi•›es "crow/omaha" e os SSC .5 diferentes modalidades de alian•a. visto que a "extens‹o" do conceito de SSC contŽm mais que aqueles sistemas com terminologia crow/omaha.6). O que. e est‡ longe de ser o œnico. 1987. De fato. HŽritier segue-o aqui.esta Ž uma conclus‹o fundamental de HŽritier -. visto que o tipo terminol—gico n‹o corresponde ao tipo matrimonial (R. a defini•‹o estruturalista Ž essencialmente matrimonial: a restri•‹o do r—tulo "crow/omaha" aos sistemas "completos" visa associar esta fam’lia de sistemas a um regime matrimonial espec’fico (inverso. d‡ certa raz‹o aos que separam tipo terminol—gico e tipo matrimonial. isto Ž. A defini•‹o anglo-sax‹ de "crow/omaha" Ž terminol—gica. tampouco est‡ completamente estabelecido que todos os sistemas com nomenclatura crow/omaha "completa" relevem dos SSC . s‹o um claro exemplo de sistema patrilateral semicomplexo . para em seguida negarem a exist•ncia de um sistema de alian•a de tipo crow/omaha. ali‡s. do regime matrilateral). indica-nos a autora.o exemplo dos Lobi. ent‹o. e em especial as terminologias omaha. Ora. este tipo terminol—gico estaria estreitamente associado aos "sistemas semi-complexos".as terminologias de parentesco.H. que praticariam o casamento de primos cruzados ambilaterais dentro de uma moldura crow "quase-completa".132-3 n. podemos igualmente concluir que as equa•›es terminol—gicas crow/omaha n‹o s‹o o acompanhamento . ela interp›e entre o enunciado de tal princ’pio e a formula•‹o dos mecanismos de alian•a a idŽia mais simples de que a diferen•a de sexos Ž um par‰metro pertinente para distinguir as modalidades de alian•a (p.127). 75-6). Ž efetivamente inc™modo (p.11-12).

au noyau dur structural ˆ partir duquel se constituent toute organisation sociale et toute idŽologie" universais "ideol—gicos" sobre universais (p. Isto implicar‡: (1) uma subordina•‹o da alian•a ˆ consanguinidade. N‹o haveria portanto raz‹o para falar em "sistemas crow/omaha de alian•a". que HŽritier eleva ˆ dignidade de princ’pio transcendental: "em um n’vel superior" (p. a oposi•‹o entre rela•›es paralelas e . e regras sociol—gicas de alian•a.74. para cuja defini•‹o estrutural considera•›es terminol—gicas n‹o s‹o pertinentes. E tudo segue-se da’: "Avec la diffŽrence des sexes. marque ŽlŽmentaire de l'alteritŽ dont la nŽgation absolue est impossible. N‹o obstante. De fato. Tal aus•ncia manifestaria a primeira lei fundamental do parentesco. mas o signo de uma lei fundamental: "uma rela•‹o cruzada entre indiv’duos ou conjuntos [de germanos. de idade dentro de uma gera•‹o . Mas o mais problem‡tico Ž que HŽritier pretende derivar as segundas das primeiras. e as "leis fundamentais" que ali se prop›em dizem respeito essencialmente a propriedades terminol—gicas. que desempenha outros papŽis em outros sistemas de alian•a. mas simplesmente em sistemas semicomplexos. nas tipologias de Lowie e Murdock. Assim. *** A determina•‹o das leis do parentesco come•a pela afirma•‹o de um "dado biol—gico de base" .e pela constata•‹o de que certas possibilidades classificat—rias das terminologias de parentesco n‹o foram jamais registradas. de gera•›es. Este œltimo n‹o Ž sen‹o o vener‡vel par‰metro do "cruzamento".).38-9). 77) . ele n‹o Ž apenas mais um dos critŽrios eventualmente utilizados pelas terminologias de parentesco. ali‡s.. de um lado. de consangu’neos] n‹o Ž nunca o suporte impl’cito da equival•ncia ou da identidade" (loc. como o faz ˆs vezes a autora (pp. Esta primeira lei . Esta lei parte do princ’pio da unidade do grupo de germanos (Radcliffe-Brown). HŽritier dedica o Cap’tulo I de seu livro a uma an‡lise das terminologias de parentesco. de outro. (2) o privilŽgio de sociol—gicos. a autora observa a aus•ncia de men•‹o. O resultado Ž uma separa•‹o entre leis terminol—gicas do parentesco consangu’neo.6 obrigat—rio dos SSC. on touche.diferen•a de sexos. seja por fidelidade a LŽvi-Strauss -. a segunda . nem te—rica nem etnograficamente. A comunidade e a diferen•a de sexos s‹o determinadas como arquŽtipos da identidade e da diferen•a.se manifesta assim na inexist•ncia emp’rica de um caso logicamente poss’vel (5) .como.cit. acrescentando-lhe o princ’pio do tratamento diferencial dos germanos conforme o sexo relativo.38). de classifica•›es do tipo F=MB!FB ou G=X!P (4) .seja porque os Samo t•m uma terminologia omaha. mas igualmente um princ’pio poss’vel de "ordem e simplifica•‹o"..

para a segunda "lei fundamental". o fundamento da oposi•‹o entre parentes paralelos e cruzados. que a "no•‹o global do diferente" Ž uma abstra•‹o que parte da diferen•a de sexos. A teoria estruturalista da alian•a de casamento deu uma interpreta•‹o global a uma quantidade de fen™menos aparentemente heterog•neos: a organiza•‹o dualista. As formas classificat—rias que n‹o levam em conta o cruzamento. como se sabe. HŽritier considera que esta an‡lise lŽvi-straussiana Ž "basicamente justa" . visto que n‹o explicaria as classifica•›es "sudanesa" (F!FB!MB).) A quest‹o.7 cruzadas pode ser negada (f—rmulas "havaiana".uma metaf’sica da consanguinidade cruzada. aquelas onde Ž relevante o fato de que "l'on change ou non de sexe pour passer de la ligne directe ˆ la ligne collatŽrale" (SEP : 150). t‹o comum nas terminologias de parentesco? LŽvi-Strauss. admite HŽritier. "eskimo" (F!FB=MB). Leis do parentesco e teoria da alian•a Qual. Infelizmente elas perfazem uma boa parte das terminologias conhecidas. de modo ainda mais sŽrio. Mas ele explica perfeitamente. conquanto n‹o infirmem a lei fundamental .cuja curiosa formula•‹o negativa n‹o tem uma tradu•‹o positiva evidente -. mas n‹o pode ser embaralhada. deriva necessariamente de rela•›es de parentesco. ait ŽtŽ bat”e sur le primat absolut de la similitude des parents croisŽs" (p. O princ’pio da identidade do grupo de germanos n‹o Ž suficiente. ou "havaiana" (F=FB=MB). enquanto "categoria ideol—gica global". Como veremos. de fato -.isto Ž. (A autora parece assumir que a "no•‹o do id•ntico". e portanto. "Il n'y a pas d'exemple o• la notion d'identique. "sudanesa " e "eskimo") ou afirmada (f—rmulas "iroquesa" e "crow/omaha"). os sistemas de tipo crow colocam o mesmo problema. portanto. o casamento de primos cruzados. Ž a de saber por que "l'Žquivalence n'existe jamais qu'entre parents parall•les et ne peut exister entre parents croisŽs" (6) . que Ž tambŽm a œnica coisa que a "lei fundamental" da autora Ž capaz de explicar. a forma "iroquesa" (F=FB!MB) e a impossibilidade de F=MB!FB.de .43-4). explicou-a como um dos efeitos do imperativo da troca. Constr—i-se aqui uma ontologia do g•nero . far-lhe-iam um favor se n‹o existissem. em suma. que vai substituir a proibi•‹o do incesto como condi•‹o de possibilidade do parentesco. as terminologias "classificat—rias" . comme catŽgorie idŽologique globale.

filia•‹o ou consanguinidade. da "necessidade da troca". que tem como "‡tomo" a rela•‹o B/Z. alliance. elle est grosse du reste. Tudo est‡. O argumento de que se deve introduzir um "princ’pio suplementar" para compreender as implica•›es do cruzamento "em todos os planos" coloca a alian•a no mesmo plano que filia•‹o.... a partir de uma oposi•‹o "cognitiva" entre os sexos. A "necessidade da troca entre grupos humanos" se adapta ˆ diferen•a paralelo/cruzado quando para LŽvi-Strauss ela produz tal diferen•a. digamos) do "dado biol—gico de base".. que consiste em postular que o parentesco humano se funda na nega•‹o (na Aufhebung.a œnica "dada" . isto Ž. HŽritier subordina o imperativo socialmente instituinte da troca ao fato bio-ideol—gico da consanguinidade cruzada. sans en •tre cependant la cause ou la raison d'•tre.47)."(p. Entre a diferen•a macho/f•mea . (. Il faut ajouter un ŽlŽment de plus si on veut comprendre sur tous les plans (nomenclature. A estrutura elementar de parentesco. resid•ncia e terminologia.) nul doute que la necessitŽ de l'Žchange entre les groupes humains est particuli•rement bien adaptŽe au traitement diffŽrent des germains de m•me sexe et de sexe opposŽ.. les effets gŽnŽraux du traitement diffŽrent de la relation asymŽtrique capitale fr•re/sÏur. Cet ŽlŽment suplŽmentaire. que a . aqui. n‹o Ž mais uma estrutura elementar de alian•a. Na verdade. pois Ž sua condi•‹o. ela Ž mais que uma estrutura elementar de alian•a. A autora n‹o parece se perturbar com o fato de que "irm‹o" e "irm‹" s‹o no•›es que s— t•m sentido a partir da proibi•‹o do incesto. de fato.8 fato.fr•re/sÏur n'est pas. HŽritier neutraliza o gesto inaugural das SEP. s‹o privilegiadas frente ao casamento: as regras de alian•a investem a posteriori uma terminologia que se esquematiza antes e fora da troca matrimonial..e a diferen•a irm‹o/irm‹ passa algo de bastante import‰ncia: a necessidade da troca.. suplementado por uma assimetria universal. que funda a diferen•a entre irm‹ e esposa. irm‹o e cunhado. et subsŽquemment des cousins parall•les et des cousins croisŽs. opposŽe aux relations symŽtriques fr•re/fr•re et sÏur/sÏur. que n‹o existe como propriedade objetiva da natureza. La relation asymŽtrique fr•re/sÏur est l'ŽlŽment de base de toute structure de parentŽ car tout s'y trouve inclus et pas seulement la simple diffŽrence de sexe. ne peut pas •tre toujours uniment identique ˆ la relation sÏur/fr•re. filiation) et non pas seulement dans leurs rapports avec les structures ŽlŽmentaires de l'alliance. nous le voyons dans le fait que la relation. mas que ela "traduit seulement une expression particuli•re d'une encombrante realitŽ. justamente. rŽsidence. a domin‰ncia masculina. de fato. as terminologias.. na medida que exprimem as leis fundamentais do parentesco. imediatamente apreendida como irm‹o/irm‹. ela tambŽm d‡ perfeitamente conta da inexist•ncia de classifica•›es que assimilassem colaterais cruzados distinguindo ao mesmo tempo paralelos -.

HŽritier separa o simb—lico da regra. e ent‹o ela nos apresenta a raz‹o da exist•ncia desta regra: ela exprime uma rela•‹o orientada de domin‰ncia sexual.36). Os estudiosos dos sistemas de .ou reca’mos numa teoria ad‰mica (p—sed•nica) do parentesco. Aqui h‡ uma certa injusti•a: creio que Ž bastante —bvio para Lounsbury. cuja caracter’stica b‡sica Ž a fus‹o bifurcada. como para todos que se debru•aram sobre os sistemas crow/omaha. O problema Ž que esta celebra•‹o da riqueza potencial da rela•‹o B/Z n‹o acarreta de modo irresist’vel o "ŽlŽment de plus". Por fim. o cruzamento. onde os sistemas omaha desempenham o papel de tipo-ideal. Nos sistemas crow e omaha. as terminologias desta fam’lia s‹o normalmente classificadas como sub-tipos daquelas "dakota-iroquesas".48). naturalizando o fundamento. como quer nos convencer a autora. uma rela•‹o colateral cruzada equivale a uma rela•‹o de filia•‹o (p. precisar‡ introduzir um universal ideol—gico. isto Ž. Afirmar que a rela•‹o B/Z "est grosse du reste" Ž esquecer que c'est de la grossesse prŽcisement qu'elle ne peut pas •tre grosse .35) hip—tese sucessionista de Lounsbury para explicar as regras de equival•ncia. e para n‹o regredir demasiado bruscamente a dados biol—gicos que s‹o comuns a todos os animais sexuados. que a skewing rule Ž uma aplica•‹o do princ’pio de cruzamento. e Ž preciso dizer que sua explica•‹o para as terminologias crow/omaha Ž bem menos sociol—gica que a de Lounsbury (7) . A sugest‹o lounsburyana n‹o faz sen‹o vestir em linguagem "jural" (certamente inadequada) uma idŽia b‡sica: posi•›es assimiladas terminologicamente devem ter alguma propriedade comum. Nossa autora afirma que este antrop—logo n‹o v• que a sua regra de proje•‹o obl’qua "Ž uma maneira de tratar a diferen•a entre germanos de sexo oposto" (p. o princ’pio da domin‰ncia masculina.9 diferen•a de sexos Ž um dado natural investido e limitado pelo imperativo da troca. Parece-me igualmente r‡pido o modo como Ž afastada a "decepcionante" (p. Ela n‹o se reduz de modo algum a uma reca’da na teoria da unidade da linhagem. HŽritier n‹o Ž a primeira a ter observado que o tra•o caracter’stico dos sistemas crow/omaha Ž a "proje•‹o" da diferen•a de sexos sobre a diferen•a de gera•›es. O "princ’pio da domin‰ncia masculina" Voltamos assim ˆs regras de Lounsbury. o princ’pio de domin‰ncia do "masculino" sobre o "feminino". As raz›es para postul‡-lo recorrem mais uma vez aos fatos terminol—gicos.

j‡ haviam formulado claramente tal princ’pio (8) . h‡ pelo menos um caso que n‹o deixa de evocar a sociedade imagin‡ria de HŽritier... e sobretudo mesmo naquelas de tipo crow. Este Ž o elemento suplementar.diga-se de passagem.. Tratam-se dos Bororo. Seja como for. supra ) era "impens‡vel" justamente por dar "estabilidade residencial e superioridade" ao princ’pio feminino dentro de uma sociedade patrilinear . Mas a rela•‹o entre as duas formas de assimetria sexual n‹o Ž ela mesma simŽtrica: um sistema crow n‹o deve ser o simŽtrico de um sistema omaha. a raridade de uma figura n‹o me parece poder servir de prova da universalidade do princ’pio postulado para explicar a maior frequ•ncia de seu inverso. a "primeira lei" de HŽritier n‹o fazia sen‹o repetir o princ’pio do cruzamento: as rela•›es B/B e Z/Z s‹o equivalentes (para efeitos terminol—gicos). mas veremos adiante porque n‹o poderiam t•-lo feito. Em primeiro lugar. tambŽm ele passavelmente —bvio -.invertendo aparentemente a domin‰ncia l—gica universal do "masculino" sobre o "feminino". O restante do cap’tulo Ž dedicado a mostrar que tal domin‰ncia se manifesta mesmo ali onde as terminologias n‹o s‹o de tipo obl’quo.. matrilineares e uxorilocais.. ou. a domin‰ncia do princ’pio masculino sobre o princ’pio feminino (p.que aquelas classifica•›es onde B e Z s‹o equivalentes (tipos havaiano e eskimo) ou onde o cruzamento Ž simŽtrico (casos sudan•s e iroqu•s). por compensarem a filia•‹o em linha feminina por uma estabilidade residencial masculina. pelo menos. As sociedades do Brasil Central. que fazem equivaler uma rela•‹o Z/B a uma rela•‹o M/S .50).49).. A domin‰ncia masculina. o resultado Ž uma situa•‹o "amitalocal"(9) . os sistemas crow/omaha trazem ent‹o a marca de uma "rela•‹o desigual entre os sexos" (p. Se o exemplo amitalocal da autora Ž "impens‡vel".10 parentesco do Brasil Central. mais geralmente. O "biais massif de la domination masculine (dont l'exemple omaha est la forme institutionelle extr•me)" responde assim pela segunda lei fundamental do parentesco: a "val•ncia diferencial dos sexos. com efeito. e revela que seu exemplo amitalocal imagin‡rio (ver nota 5. problema espinhoso.ao passo que os sistemas matrilineares e avunculocais s‹o vi‡veis. e se op›em ˆs rela•›es tambŽm equivalentes B/Z e Z/B (SEP: 149). HŽritier se socorre das observa•›es de LŽvi-Strauss sobre a raridade dos regimes matrilineares e matrilocais. justamente porque a rela•‹o Z/B n‹o Ž equivalente ˆ rela•‹o B/Z. que manifestam uma prefer•ncia de casamento com a FZD. que foram o objeto . e nisto seriam por assim dizer mais transparentes visto que revelam um universal .. que dizer ent‹o dos casos reais de matrilinearidade com matrilocalidade? Ali‡s. sem tirar Ž verdade disto as implica•›es transcendentes de HŽritier.

"impens‡vel".18). econ™mico. os Mundurucu. Ela acrescenta que a teoria lŽvi-straussiana da troca. a maioria das terminologias do planeta n‹o a leva em conta? Mas voltemos ao dado biol—gico de base. dada a domin‰ncia masculina.para n‹o falar de "domin‰ncia masculina".entendendo-se por isto as terminologias e as atitudes (p. 51. est‡ falando de domin‰ncia l—gica. Talvez por isto ela recorra ˆs express›es "princ’pio masculino" e "princ’pio feminino". ali‡s. "harmonia" e "desarmonia" . n‹o Ž capaz de explicar este universal (p. como diria Mary Douglas.11 privilegiado das an‡lises de LŽvi-Strauss.. A autora. O "par‰metro" (termo empregado alternativamente a "lei") da domin‰ncia masculina deve portanto se exprimir nos sistemas de parentesco . 53) tal par‰metro. justamente. sua exig•ncia de compreens‹o "em todos os planos" vai transportar considera•›es de ordem institucional (modos de filia•‹o. sempre. HŽritier prop›e ent‹o que examinemos o modo como tais sistemas utilizam ou n‹o (pp. evocam uma concep•‹o substantiva e pol’tica da domin‰ncia masculina. HŽritier n‹o precisaria imaginar situa•›es que violam as leis fundamentais: a exist•ncia dos sistemas crow j‡ Ž suficientemente dif’cil de explicar.o princ’pio universal de "domin‰ncia" vai-se fundar sorrateiramente no fato geral da domina•‹o.50-1)..(p. etc. de resid•ncia) para a ordem terminol—gica . dada sua teoria "omaha" dos sistemas de parentesco.50 n. HŽritier se ap—ia no fato de que o œnico tipo de sistema "desarm™nico" que LŽvi-Strauss cr• existir Ž aquele matrilinear e patrilocal: um sistema patrilinear e matrilocal seria.visto que eles s‹o recortes culturais espec’ficos do "dado biol—gico elementar". "matrilocalidade". mesmo assumindo que s‹o as mulheres. ele serve aqui de explica•‹o. de um princ’pio de hierarquia conceitual interno ˆs classifica•›es de parentesco. Contudo. isto Ž. Realmente. entre as gera•›es consecutivas. de pitoresco sabor prŽ-socr‡tico. 51: n‹o as regras de alian•a. muitos Tupi-Guarani. sua argumenta•‹o sobre a impensabilidade de um sistema que conferisse estabilidade residencial ao "princ’pio feminino". entre seniores e juniores . e o recurso indireto ˆs no•›es de harmonia e desarmonia. s‹o pr—digas em contra-argumentos a este cap’tulo de L'exercice de la parentŽ . naturalmente. Isto Ž para deixar perplexo: como Ž poss’vel que uma lei fundamental do parentesco n‹o seja utilizada? Por que. Mas os Xavante. ao contr‡rio. os valores trocados entre os homens. Assim. Este Ž dividido em tr•s componentes: rela•›es entre os sexos. n‹o de um estado de coisas pol’tico. mas ele tampouco Ž explicado em L'exercice de la parentŽ . de fato. note-se bem) . N‹o se trata aqui de "Bongo-Bongo’smo". mas de chamar a aten•‹o para a fragilidade de argumentos sobre universais baseados em conceitos t‹o vagos como "patrilinearidade". Finalmente.

Mas o importante s‹o os casos rhad•s . o caso romano.. parece-me. afirma HŽritier. a "pesanteur structurale" (p. wB->wS. FFZ=yZ. onde MB Ž sempre MeB. com terminologia iroquesa (na verdade.12 dentro de uma gera•‹o. ou mais precisamente a trat‡-los como isomorfos. A classifica•‹o gonja. Com efeito. a rela•‹o homem/mulher (B/Z ou H/W) Ž projetada sobre a rela•‹o "a”nŽ/cadet(te)". Os exemplos "havaiano" (Dogon) e "iroqu•s" (Gonja) s‹o.64) dos sistemas omaha n‹o chega a agredir o bom senso. apenas MyBch s‹o ch. um tanto at’picos. o princ’pio estrutural crow. isto Ž. N‹o conhe•o nenhum sistema omaha que fa•a. Nos Rhad•s encontramos equa•›es obviamente indicativas de uma assimetria Z > B (eZ=M. uma equa•‹o completamente crow). Mas h‡ um "reequil’brio em favor do princ’pio masculino". Assim. HŽritier vai ent‹o passar em revista alguns sistemas concretos. O caso mnong gar n‹o me parece suficiente para justificar a afirma•‹o de que "h‡ fortes probabilidades" de que o tipo matrilinear crow n‹o ofere•a nunca uma imagem . e FZ sempre FyZ Ž decididamente pouco usual em terminologias iroquesas. Assim. de tal forma que todas as mulheres do grupo de Ego s‹o estruturalmente equivalentes a filhas (10) . mZ->mD. se um MMB fosse terminologicamente identificado a um yB. Seu objetivo Ž mostrar que o par‰metro da domin‰ncia masculina Ž onipresente: ou se exprime plenamente (omaha).e. De toda forma. a equa•‹o MMB=eB (visto que MM=eZ) recebe o coment‡rio: "um homem Ž de fato um irm‹o para as mulheres de sua linhagem de gera•‹o inferior ˆ sua.e mnong gar. "matrimatri" com terminologia crow. por exemplo. da W definida legalmente como D. a rela•‹o senior/junior pode ser concebida como an‡loga ˆ entre pai e filho.g. O exemplo dos Mnong Gar serve a HŽritier para mostrar que a domin‰ncia feminina implicada nas terminologias crow nunca Ž levada atŽ seus limites l—gicos: apenas FeZch s‹o F e M (o que n‹o Ž. os casos omaha levariam todos atŽ o fim o princ’pio inverso. ou inflete as terminologias simŽtricas (havaianas e iroquesas). parece tratar-se de uma variante kariera) . Ž a rela•‹o homem/mulher (B/Z ou H/W) que Ž concebida como an‡loga ˆ rela•‹o senior/junior ou entre gera•›es consecutivas . ou impede o "acabamento" das solu•›es crow. mais frequentemente ainda. mas Ž um irm‹o mais velho" (p.matrilineares e matrilocais. ter’amos um sistema deveras peculiar. s— funciona plenamente para yB e eZ. a idade relativa n‹o introduz nenhuma modula•‹o na implac‡vel l—gica omaha.. O argumento Ž inane. ali‡s. HŽritier usa estes casos para mostrar que em ambos. etc. Em troca. ZSch=ch). A "manipula•‹o ideol—gica" que intervŽm sobre o dado biol—gico de base consiste em afirmar uma interdepend•ncia destes componentes.61).

Ž preciso explicar por que n‹o temos todos terminologias omaha. O problema Ž explicar por que os sistemas crow n‹o s‹o "impens‡veis". ou em geral. *** O Cap’tulo I de L'exercice de la parentŽ se encerra com a hip—tese geral: dadas as tr•s "rela•›es de base".66). e sim: dada a condi•‹o de "lei fundamental" do par‰metro da domin‰ncia masculina. achamos as terminologias crow no contexto da "segunda lei". os sistemas terminol—gicos disp›em de alternativas "ideol—gicas". Mas este n‹o Ž o problema. et/ou [Cadets/A”nŽs] = et/ou [A”nŽs/Cadets] = transcrever integralmente a oposi•‹o dos sexos e de idade relativa em termos da oposi•‹o de gera•›es . ou seja. ou eles podem consecutivas. se de fato n‹o se conhece um sistema onde F=MB!FB. para usarmos o estilo negativo das "leis" de HŽritier. O fato eventual de que n‹o existam sistemas crow onde esta invers‹o seja completa pode confirmar a vaga idŽia geral de uma "domin‰ncia masculina" na organiza•‹o da sociedade humana. por que a domin‰ncia do princ’pio masculino n‹o se exprime sempre nas terminologias. terminologias onde o par‰metro da domin‰ncia masculina Ž invertido (isto se aceitarmos a que a skewing rule exprime domin‰ncia sexual Ñ ver adiante). por que eles n‹o inexistem? A "segunda lei fundamental" Ž dita ser a condi•‹o da exist•ncia da primeira (p. porque os sistemas crow existem? Ou. "cette transcription intŽgrale serait toujours orientŽe de telle sorte qu'on pourrait Žcrire l'Žquivalence logique suivante: [Hommes/Femmes] [Parents/Enfants] mais jamais l'Žquivalence suivante: [Femmes/Hommes] [Parents/Enfants]" . Mas neste caso (p. Como todo o argumento de HŽritier depende de n‹o-simetria entre crow e omaha Ñ ou a "segunda lei fundamental" desmorona Ñ. e n‹o pela mera evoca•‹o de um exemplo etnogr‡fico de "inacabamento" crow.13 simŽtrica completa do tipo omaha (p. mas certamente n‹o estabelece uma lei fundamental do parentesco. onde posi•›es "cruzadas" sejam assimiladas em detrimento de posi•›es "paralelas" (primeira lei). dada a fundamentalidade de uma assimetria sexual irrevers’vel posta como absoluto. Entretanto.67). Eles podem isolar as tr•s rela•›es. do ponto de vista estritamente terminol—gico.50) (11) . Em seguida. seria razo‡vel esperar que a quest‹o fosse examinada com um pouco mais de minœcia.

nos sistemas omaha. mas de HŽritier.e ele n‹o Ž a œnica explica•‹o poss’vel para equa•›es omaha. onde "M"=W. na AmŽrica do Sul) onde equa•›es omaha do tipo MBD=M n‹o impedem que a prima matrilateral seja considerada esposa preferencial. œnico tipo terminol—gico onde se pode admit’-lo como princ’pio estrutural . nas f—rmulas acima. Ou os sistemas crow. e outros que fazem H/W = F/D (romano. do ponto de vista da estrutura terminol—gica.e que se possam ainda descrever muitos casos uxorilocais como uma "troca de homens por homens. Admito a evid•ncia de que os sistemas matrilineares n‹o s‹o jamais uma invers‹o especular dos regimes patrilineares. do ponto de vista da estrutura terminol—gica). Do mesmo modo. E fazem mais uma confus‹o.devido ao fato objetivo muito geral da domina•‹o pol’tica masculina. conhecem-se casos (na Africa. agravada por uma interpreta•‹o "romana" da assimetria sexual. ƒ com efeito dificilmente conceb’vel um sistema onde a rela•‹o "Cadets/A”nŽs" seja an‡loga ˆ entre "Parents/Enfants". o princ’pio da domin‰ncia masculina me parece de pouqu’ssimo rendimento exatamente no dom’nio onde HŽritier pretende que ele seja uma lei fundamental: na explica•‹o das terminologias de parentesco. esposas est‹o para maridos como m‹es para filhos. e a constata•‹o de que solu•›es matrilineares e matrilocais s‹o mais raras que aquelas patrilineares e patrilocais.. Em contrapartida. Mas da’ n‹o se segue que uma rela•‹o sempre implique a outra. uso dos termos de parentesco. h‡ sistemas que fazem B/Z = F/D (omaha. do ponto de vista do uso terminol—gico). Mais uma vez. seriam por acaso uma ilus‹o etnogr‡fica(12) ? H‡ uma outra manipula•‹o ideol—gica. mas como. dogon. No dom’nio das regras formais e . maridos est‹o para esposas como pais para filhas. como veremos -. se dificilmente podem haver sistemas que fa•am W/H = M/S do ponto de vista ideol—gico-jur’dico.. mas isto n‹o torna inconceb’vel a analogia "[Femmes/Hommes] = [A”nŽs/Cadets] et/ou [Parents/Enfants]". do ponto de vista jur’dico. E mesmo os sistemas omaha. os sistemas crow fariam um enorme favor ˆs leis fundamentais do parentesco se n‹o existissem. Que devemos pensar? Aqui. ent‹o m‹es = filhas. O par sexuado pertinente para determinar os tipos crow e omaha Ž B/Z. pais = filhos? N‹o estou pondo em dœvida o fato da domin‰ncia masculina. Ali. isto n‹o implica que n‹o possam haver sistemas que fa•am Z/B = M/S. A oposi•‹o "Hommes/Femmes" amalgama deliberadamente B/Z e H/W. ele Ž uma extrapola•‹o etnoc•ntrica do caso omaha. onde H > W -. Ora. mesmo "inacabados". e ao fato bastante comum de uma diferen•a de idade entre c™njuges. Elas confundem n’veis distintos: estrutura terminol—gica. concep•›es jur’dicas das rela•›es entre os sexos. ou seja. Por fim. atravŽs das mulheres".14 Esta œltima equival•ncia Ž um sofisma. aceito que a maioria dos sistemas matrimoniais possam ser descritos como uma "troca de mulheres" pelos homens .

redunda em hipostasiar a consanguinidade.e a primeira Ž universalmente subordinada ˆ segunda. C'est le langage idŽologique de la dominance masculine qui s'exprime dans ces rŽductions". Com efeito. na argumenta•‹o de HŽritier. Ž ideologicamente hierarquizada ao ser projetada sobre as rela•›es "naturalmente" hier‡rquicas de idade relativa ou de filia•‹o. O parentesco (kinship) dificilmente pode ser compatibilizada com uma teoria da alian•a. est‡ exprimindo uma rela•‹o de "domin‰ncia" entre os sexos. senior/junior) Ž absorvida pela filia•‹o ("parents/enfants"). O racioc’nio parece ser mais ou menos o seguinte: a oposi•‹o sexual. ao fazer equivaler uma rela•‹o colateral cruzada a uma rela•‹o entre gera•›es consecutivas. a diferen•a de gera•‹o como a matriz da hierarquia (e da igualdade) . como j‡ observamos. *** Voltando ˆ skewing rule enquanto express‹o de uma "rela•‹o desigual" entre os Ž absorvido pela parentalidade (parenthood). e que Ž isto que est‡ sendo manifestado na skewing rule . a prova mais eloquente disto Ž que.15 mecanismos fundamentais da alian•a. "naturalmente" equipolente. A autora nos esclarece que "il n'est pas dans la nature des choses que soeur ou Žpouse = cadette ou fille. Hip—teses demasiado fortes. para dizer o m’nimo. V•-se como tal concep•‹o Ñ t’pica de um africanista ? Ñ sexos. consiste em assumir como evidente que a skewing rule . esta proje•‹o Ž uma tend•ncia universal (mas apenas os sistemas crow/omaha a exprimiram de modo estrutural). Mas ela parece supor que est‡ na "natureza das coisas" conceber a rela•‹o de filia•‹o como exprimindo uma domin‰ncia. Uma dupla evacua•‹o da alian•a? A dimens‹o geracional Ž concebida como o eixo universal de rebatimento das demais oposi•›es biol—gicas de base. (2) a exist•ncia de sistemas crow. depois de brilhar no Cap’tulo I. esta œltima dimens‹o era fixada de um lado das rela•›es de equival•ncia.Ž ineg‡vel . e pour mŽmoire. Admitamos dois fatos dificilmente contest‡veis: (1) a exist•ncia do "biais massif de la domination masculine" nas sociedades humanas. A diferen•a de sexos Ž posta como matriz "biol—gicocognitiva" do conceito de diferen•a (e de identidade). e Ž universalmente unidirecional (mas apenas os sistemas omaha manifestariam isto claramente). O privilŽgio transcendental conferido ao par B/Z. e assim a consanguinidade (irm‹o/irm‹. tal princ’pio Ž inœtil.que os sistemas crow exprimem uma . Admitamos ainda . A proje•‹o da diferen•a sexual sobre a rela•‹o entre gera•›es consecutivas significa uma hipostasia da filia•‹o como "atrator ideol—gico" universal do parentesco. Mas a manipula•‹o ideol—gica efetivamente crucial. ele s— vai reaparecer em L'exercice de la parentŽ na œltima p‡gina. nas f—rmulas acima.

a possibilidade de se conceber a rela•‹o entre gera•›es da domina•‹o consecutivas como modelo de domin‰ncia hier‡rquica.16 assimetria sexual onde a irm‹ "funciona" terminologicamente como se estivesse em uma gera•‹o acima ˆ do irm‹o. e por que os sistemas crow manifestariam uma tend•ncia ao "inacabamento". pode explicar por que h‡ mais sistemas omaha que crow. mas a de uma proje•‹o da primeira dimens‹o sobre a segunda. nem terminologia crow s‹o ’ndices de "matriarcado". conceitual). A idŽia de que o sexo "promovido" ˆ gera•‹o ascendente desfruta por isto de preemin•ncia Ž arbitr‡ria. Isto significa que nas sociedades de tipo crow as mulheres dominam os homens? Certamente n‹o . nada tem a ver com "domina•‹o". pois ela sup›e que a rela•‹o entre gera•›es consecutivas Ž de domin‰ncia l—gica. que se torna assim o "valor cardinal" do parentesco (hipostasia da filia•‹o). Mas nenhum destes fatos explica o critŽrio de cruzamento. e o fato masculina podem ser mobilizados conjuntamente com o princ’pio do cruzamento. N‹o h‡ porque formular a heterogeneidade geracional entre germanos de sexo oposto em termos de "domin‰ncia sexual". nem a regra de fus‹o obl’qua . somado ˆ possibilidade de conceber a rela•‹o pais/filhos como exprimindo domin‰ncia e subordina•‹o. Isto basta para nos fazer suspeitar que a skewing rule . de leis fundamentais das terminologias de parentesco. O fato da domina•‹o masculina pode explicar porque existem mais sociedades patrilineares que matrilineares. em primeiro lugar. Em segundo lugar. cosmol—gica. Em troca. e em particular.n‹o podem assim servir de leis fundamentais do parentesco. finalmente. nos sistemas crow e nos sistemas omaha. que contradiz posi•›es assumidas corretamente pela autora. que Ž como HŽritier v• as . Assim. Isto. e a’ temos figuras como a filializa•‹o da esposa em Roma. ou com seu equivalente eufem’stico "domin‰ncia" (l—gica. Sua leitura da skewing rule n‹o Ž a de uma simples equival•ncia entre mudan•a de sexo (germanidade cruzada) e mudan•a de gera•‹o terminol—gica. isto.) masculina parece-me suficiente para demonstrar que a regra de proje•‹o obl’qua n‹o possui uma rela•‹o intr’nseca com a "segunda lei fundamental" de HŽritier. para "explicar" os sistemas crow/omaha. HŽritier. O princ’pio estrutural de proje•‹o obl’qua n‹o confere necessariamente prioridade l—gica a nenhum sexo. Ž uma leitura "unilinear" das terminologias crow/omaha. e talvez seja mesmo necess‡rio. raciocina como se o "vetor orientado" entre irm‹o e irm‹ ordenasse tambŽm a rela•‹o entre a oposi•‹o dos sexos e a oposi•‹o das gera•›es. ou o enquadramento patrilinear e patriarcal de um sistema omaha (Samo).nem matrilinearidade. mas tampouco h‡ pais sem filhos. Ž perfeitamente poss’vel inverter a proje•‹o sexo -> gera•‹o. o que n‹o Ž o caso: n‹o h‡ filhos sem pais. a exist•ncia de sistemas crow no contexto geral de domina•‹o (pol’tica. etc. A proje•‹o da diferen•a sexual sobre a diferen•a geracional.

isto Ž. a no•‹o de linhagem n‹o desempenha grande papel na classifica•‹o terminol—gica. o efeito de sobredetermina•‹o que ela exerce sobre as demais dimens›es sem‰nticas. adotam solu•›es terminol—gicas radicalmente antag™nicas.como. Mas elas exibem as sintom‡ticas equa•›es FZ = FZD = FZDD = FM (=MM). em particular as tribos setentrionais (Timbira e Kayap—). ali‡s. mesma cultura e mesma l’ngua. n‹o s— uma situa•‹o onde tribos com a mesma organiza•‹o social b‡sica. englobando e subordinando o par‰metro geracional: a gera•‹o depende do sexo (para toda rela•‹o "n‹o-prim‡ria"). como se v•. uma classifica•‹o "crow". como a tribo intermedi‡ria realiza a proeza de ser "crow" e "omaha" ao mesmo tempo (13) . neste sentido. A terminologia dos Kayap— mostra uma classifica•‹o "omaha". Um prob lema sul-americano Evoquemos brevemente uma fam’lia de terminologias que p›e alguns problemas para a teoria de HŽritier. Ž ela que Ž projetada sobre a diferen•a sexual. O que distingue os sistemas crow/omaha Ž exatamente isto: a determina•‹o da gera•‹o terminol—gica de Alter depende do sexo (relativo a Ego) do parente de liga•‹o. submetendo esta ˆs exig•ncias daquele. Temos assim. eles s‹o implicitamente caracterizados nas tipologias murdockianas -. Os Timbira ocidentais (ApinayŽ). Os sistemas terminol—gicos crow/omaha s‹o. super-sistemas iroqueses . ou MB = MBS = MBSS = MF . Os povos j• do Brasil Central. situados geograficamente entre os primeiros e os segundos. O princ’pio de preemin•ncia global da oposi•‹o dos sexos nas terminologias crow/omaha. ƒ verdade que as terminologias dos J• n‹o s‹o exemplos impec‡veis dos tipos crow ou omaha. Em particular. de modo bem mais esclarecedor que o "princ’pio da domin‰ncia masculina". que fazem o princ’pio de cruzamento funcionar tambŽm na dimens‹o geracional. Isto significa uma "sexualiza•‹o" integral da terminologia. n‹o sendo portanto um par‰metro absoluto. a terminologia dos Timbira orientais.17 coisas. possuem terminologias de parentesco com equa•›es de fus‹o obl’qua. talvez nos permita fazer a liga•‹o entre esta fam’lia de nomenclaturas e os sistemas semi-complexos de alian•a. FF=MF e FM=MM. teria o paradoxal efeito de tornar irrelevante a diferen•a entre gera•›es consecutivas. para todas as posi•›es afetadas pela regra de proje•‹o obl’qua. t•m equa•›es "crow" e "omaha".

ƒ f‡cil ver que as identifica•›es induzidas por esta regra onom‡stica (que Ž "prescritiva". isto Ž. no caso dos J•. dizem eles. n‹o deixou de acolher a explica•‹o sucessionista. mesmo discordando frontalmente da teoria extensionista e genealogista de Scheffler & Lounsbury. em um estudo famoso. contudo. que determina equival•ncias terminol—gicas a partir da identidade entre nominador e nominado. a rela•‹o entre os sexos Ž igualmente desigual. cujo princ’pio estaria numa regra (impl’cita ou expl’cita) de "transmiss‹o paralela de estatuto".. ƒ interessante notar. mas esta equival•ncia Ž potencialmente simŽtrica. Siriono. autorizando-nos assim a prosseguir. onde se encontram equa•›es "crow" e "omaha" ao mesmo tempo. etc. portanto.18 (=FF). a outra feminina (16) . as equa•›es obl’quas mant•m uma rela•‹o evidente com uma regra de transmiss‹o onom‡stica. da skewing rule. Scheffler & Lounsbury (1971). diria nossa autora (p. Os nomes passam de MB (ou FF/MF) a ZS (ou SS/DS) e de FZ (ou MM/FM) a BD (ou SD/DD). e tem extens‹o classificat—ria) produzem possibilidades "crow" para os homens e "omaha" para as mulheres (15) . Isto porque. De qualquer modo. ter’amos uma transmiss‹o cruzada. seja a fratura da terminologia em duas terminologias n‹o-superpon’veis. etc. no caso geral dos sistemas "crow/omaha". *** Naturalmente. A explica•‹o Scheffler-Lounsbury para estes sistemas aplica a teoria sucessionista. "les variations au sein d'une classe reprŽsentent l'ŽlŽment de pertinence de la classe". sugeriram que os sistemas dos J•. Nambikwara e Inca formariam um novo tipo terminol—gico. vale mesmo se nomes n‹o foram transmitidos. isto Ž. Mas em vez de uma transmiss‹o paralela de estatuto. como se v•.. org. A semelhan•a destes sistemas com os crow e omaha seria meramente superficial. Caem. que o sistema inca foi analisado por HŽritier como um prov‡vel sistema semi-complexo de alian•a. e que a semelhan•a superficial inclui uma forma de skewing rule (14) . O grupo de etn—logos que re-estudou os J• na dŽcada de 60 (ver Maybury-Lewis. Isto significa que uma rela•‹o de germanidade cruzada equivale a uma rela•‹o de filia•‹o cruzada. a assimetria sexual Ž bilateral. simult‰nea e equilibrada desta regra de transmiss‹o cruzada enfrentaria sŽrias dificuldades: seja a quebra da consist•ncia dos rec’procos. a aplica•‹o sistem‡tica. o princ’pio que se manifesta nela) produz Ž um conjunto de virtualidades de . uma masculina.75). O que a regra onom‡stica j• (ou antes. 1979). e recusando a regra de transmiss‹o paralela. que indicam a opera•‹o da equival•ncia entre colateralidade cruzada e mudan•a de n’vel geracional.

Os Kayap—. ou na equa•‹o wFZH=H (aplicada mesmo para os H de FZ n‹o-nominadoras). a conclus‹o natural seria que neste caso Ž a perspectiva feminina que comanda as equa•›es terminol—gicas. Dentre os Timbira orientais. Os Timbira ocidentais (ApinayŽ). Mas ela Ž logicamente insatisfat—ria. as rela•›es MB/ZS seriam menos importantes que entre os Timbira orientais. em troca. conforme a interveni•ncia de outros princ’pios de organiza•‹o social. ora "crow-omaha". Na verdade. Mas talvez porque fosse demasiado escandaloso explicar um sistema omaha de um ponto de vista feminino . que ser‹o exploradas diferencialmente por cada sociedade. Ladeira (1982) demonstrou que todos os Timbira orientais apresentam esta indetermina•‹o estrutural na classifica•‹o dos primos cruzados: as solu•›es "crow" ou "omaha" dependem de estratŽgias individuais (ou familiares) de troca onom‡stica entre germanos de sexo oposto (17) . o "princ’pio feminino" persiste na equa•‹o omaha wFZch=ch (aplicada apenas para os filhos daquela FZ que efetivamente nomeou Ego feminino).a explica•‹o avan•ada pelos J•-—logos manteve o foco na perspectiva masculina (18) . Assim. sem sinal de equa•›es "crow". ora "crow". tendo a mesma regra onom‡stica. ao longo do eixo Timbira/ApinayŽ/Kayap— Ñ. 1979) parece "decidir" pelo foco na perspectiva masculina. entre os Kayap—. as de patrifilia•‹o simb—lica emergem. a terminologia omaha dos Kayap—. .. razoavelmente adequada aos fatos Ñ n‹o resta dœvida que as rela•›es MB/ZS se enfraquecem. E assim se explica sua hesita•‹o terminol—gica (Matta.e esta patrifilia•‹o cerimonial explicaria o perfil omaha da terminologia. ora "omaha". Face ao exposto acima para os Krah—. onde encontrar’amos uma oscila•‹o estrutural na classifica•‹o dos primos cruzados. adotam uma solu•‹o francamente "omaha". a terminologia tende a uma estabiliza•‹o "crow".. O sistema krikati (Lave. 1979).19 classifica•‹o. Assim. devido ˆ import‰ncia crucial das rela•›es entre MB e ZS para a vida cerimonial. em troca. o sistema krah— (Melatti.ao passo que a interpreta•‹o de equa•›es "crow" como resultado da •nfase nas rela•›es masculinas de nomina•‹o tenha sido aceita como evidente. Esta explica•‹o Ž elegante. Se a terminologia crow dos Timbira se explica pela identifica•‹o onom‡stica entre MB/ZS. N‹o obstante. e tem o benef’cio ideol—gico adicional de salvar uma ortodoxia androc•ntrica que Ž tambŽm "•mica". atribuem um papel importante tanto ao MB nominador quanto ao "F adotivo". 1979) parece manter-se em uma situa•‹o de indetermina•‹o: as virtualidades "crow/omaha" s‹o exploradas conforme os "interesses terminol—gicos" dos envolvidos. n‹o decorre de uma •nfase . o personagem respons‡vel pela introdu•‹o de um jovem na vida pœblica seria um "pai adotivo" . de seu lado.

em oposi•‹o ˆ organiza•‹o domŽstica uxorilocal. ƒ certo que.20 "patrifilial". E de fato. O que demonstra.e ent‹o a perspectiva feminina se imp›e. devolvidos ˆ DD da doadora inicial do nome.os Pakaa-Nova. Um princ’pio de economia nos obriga a indagar se as raz›es que explicam as terminologias timbira n‹o s‹o as mesmas que explicam as terminologias kayap— Ñ a transmiss‹o onom‡stica. fortemente identificada ˆs mulheres). uma tese recente (Lea. 1986) apresenta argumentos extremamente fortes em favor de uma interpreta•‹o da terminologia kayap— como derivando da nomina•‹o feminina. "la logique structurale d'un type de syst•me terminologique ne se confond pas avec la pertinence intellectuelle des ses rŽalisations dans des syst•mes culturels donnŽs" (p. e uma assimila•‹o simplista entre "patri-orientado" e "omaha"... os Tupari. Pois se existe esta imbrica•‹o constitutiva entre classifica•‹o terminol—gica e transmiss‹o onom‡stica nos J• setentrionais. n‹o se deve esquecer que h‡ outros sistemas sul-americanos onde outras tantas combina•›es bizarras de tra•os "crow" e "omaha" est‹o presentes .percebemos aqui a reintrodu•‹o subrept’cia de um racioc’nio do tipo "unidade da linhagem" (totalmente impr—prio no caso kayap—). A circula•‹o dos nomes femininos. que a obliquidade geracional n‹o pode ser tomada como exprimindo sempre uma domin‰ncia do sexo que "sobe" sobre aquele que "desce". mas que precisam voltar na pr—xima gera•‹o. a oscila•‹o apinayŽ (essencial para o fechamento do racioc’nio) n‹o precisa ser explicada pela conviv•ncia entre duas rela•›es opostas e igualmente enfatizadas (MB e "F adotivo"). Em primeiro lugar. ao serem transmitidos ˆ filha do irm‹o de uma mulher. sem implica•›es onom‡sticas. Tal explica•‹o para a terminologia "omaha" dos Kayap— n‹o infringe qualquer preemin•ncia pol’tica ou ritual masculina . os Sirion—. que saem da casa de origem. de origem m’tica. e sistemas "omaha" onde Ž o "princ’pio feminino". a patrifilia•‹o cerimonial kayap—.35). Em segundo lugar. cuja totalidade forma a sociedade kayap— ideal) . que n‹o t•m "F adotivo". n‹o imp›e absolutamente as equa•›es omaha . visto que tal oscila•‹o ocorre igualmente entre os Timbira orientais. mas onde n‹o se encontram . Ž a vari‡vel cr’tica do sistema . como nos ensina HŽritier. talvez os Inca -. Ao passo que nos Timbira os nomes s‹o propriedade das metades cerimoniais (essencialmente masculinas. mas simplesmente mostra que uma solu•‹o omaha pode surgir como resultado de uma domin‰ncia l—gica feminina (Ž o "ponto de vista feminino" que faz derivar as virtualidades da classifica•‹o j• na dire•‹o "omaha"). nos Kayap— os nomes seriam um patrim™nio simb—lico essencial das "matri-casas" (segmentos residenciais uxorilocais que se concebem como representantes de "Casas" intemporais. Eis ent‹o que temos sistemas "crow" onde Ž o "princ’pio masculino" que se imp›e.assim como a explica•‹o das equa•›es "crow" dos Timbira n‹o o fazia -. ali‡s.

a "reescrever" a primeira parte de Les structures ŽlŽmentaires de la parentŽ . isto Ž. O ‡tomo de parentesco de LŽvi-Strauss ([1945]1958.o MB (ou um "representante do grupo que cedeu a mulher") passava a ser um elemento estrutural origin‡rio.a teoria da reciprocidade e da troca matrimonial -. temos um sistema de filia•‹o paralela). O gesto decisivo consistiu em completar o modelo familialista de Radcliffe-Brown. alian•a. o tipo terminol—gico dravidiano Ž ignorado. Comecemos por esta œltima caracter’stica. mas de qualquer forma ser‡ sempre . introduzindo a rela•‹o de alian•a no nœcleo do parentesco . Aqui Ž interessante confrontar as duas grandes leituras francesas das SEP : a de HŽritier e a de Louis Dumont (1971. Mas elas t•m certas caracter’sticas em comum: uma aten•‹o especial ˆs terminologias. A escolha do sentido que ser‡ privilegiado em cada sistema terminol—gico (Timbira.ela sim -. a rejei•‹o da teoria da troca e do princ’pio de reciprocidade. e os fatos da India do Sul s‹o erroneamente mencionados num Ap•ndice(19) . uma mulher virtualmente a filha de seu irm‹o (a quem nomear‡). uma "realiza•‹o cultural particular" que n‹o afeta a l—gica estrutural do sistema. nos dois sentidos: um homem Ž virtualmente o filho de sua irm‹ (a quem nomear‡). sua obra Ž meramente evocada na Introdu•‹o. Kayap—) pode ser mais ou menos radical. 1975). Mas parece-me que a l—gica estrutural dos sistemas j• n‹o se confunde com sua regra onom‡stica. Com efeito. 1973) era dito conter as "tr•s rela•›es constitutivas do parentesco": consanguinidade. Nossa autora parece n‹o atribuir grande relev‰ncia te—rica ˆ contribui•‹o de Dumont. . filia•‹o. Duas leituras de LŽvi-Strauss: HŽritier e Dumont Devemos agora indagar dos motivos te—ricos que teriam compelido F. uma deriva "cognitiva" ou "mentalista".HŽritier a elaborar uma teoria do parentesco t‹o divorciada da "teoria estruturalista do parentesco" . partindo das balizas postas por LŽvi-Strauss. Ž dif’cil encontrar duas abordagens globais do parentesco que. Uma rela•‹o de germanidade cruzada vale uma rela•‹o de filia•‹o cruzada. ao que tudo indica. Esta l—gica consiste na afirma•‹o de uma rela•‹o "igualmente desigual" entre os sexos. o privilŽgio de aspectos parciais do modelo lŽvi-straussiano. sejam mais antag™nicas.21 equivalentes imediatos da regra j• de transmiss‹o onom‡stica cruzada (nos Inca.

a œnica que nada tem de biol—gico. A diferen•a sexual se torna meramente diacr’tica: a alian•a e. "para alŽm do n’vel dos primosirm‹os. social.. Notese.175 ).. n‹o h‡ critŽrio simples e universal do que seria o car‡ter objetivamente paralelo e cruzado. isto Ž. Seus tr•s dados biol—gicos de base cont•m apenas duas das tr•s rela•›es constitutivas de LŽvi-Strauss: a diferen•a de sexos. ela subordina todas as demais.p. Dumont ([1953]1975) permanece bastante pr—ximo a LŽvi-Strauss.e portanto s— h‡ "paralelo" e "cruzado" ali onde h‡ casamento prescritivo entre parentes (primos) cruzados. de consanguinidade (i. com efeito. de consanguindade vs. denunciando sua natureza de artefato etnoc•ntrico." (1975: 100). Sem nada de biol—gico. ali‡s. que biologiza uma oposi•‹o sociol—gica ([1953]1975: 88-9): n‹o existem "paralelismo" e "cruzamento".. HŽritier procede a uma redu•‹o oposta.e. por manter a rela•‹o de alian•a como a fundamental. a rigor. na constru•‹o da estrutura terminol—gica dravidiana. Dumont a combate com veem•ncia. transmitindo-se diacronicamente. Dumont e HŽritier subtraem desta estrutura alguns elementos. Um exemplo eloquente da dist‰ncia que separa aqui estas duas leituras das SEP est‡ no tratamento que conferem ˆ oposi•‹o "paralelo/cruzado". de gera•›es. o conceito de consanguinidade ser‡ rebatido sobre o de filia•‹o.. sem dœvida. Ž a mais importante. E Dumont precisa: "a terceira distin•‹o.22 LŽvi-Strauss considera as tr•s rela•›es como igualmente fundamentais. sen‹o enquanto epifen™menos da rela•‹o de alian•a .consanguinidade e filia•‹o. que as "quatro distin•›es" que Dumont via como inerentes ˆs terminologias dravidianas incluem os tr•s componentes do "material biol—gico" de HŽritier: distin•‹o de sexo. isto Ž. De fato. projetada sobre o par B/Z. como ali‡s o conceito de afinidade: consanguinidade e afinidade t•m ambas um aspecto geracional ou "filiativo". a rela•‹o de alian•a naturalmente n‹o comp›e o "dado biol—gico de base" de HŽritier. mas ele reescreve a estrutura de base de modo a cancelar a rela•‹o de consanguinidade cruzada que constitu’a o "‡tomo". Sua estrutura elementar de parentesco Ž constru’da . Enquanto HŽritier a assume como uma propriedade objetiva e fundamental das rela•›es de parentesco." . visto ser a œnica propriamente humana. Para ele. a consanguinidade. (A diferen•a de idade dentro de uma gera•‹o n‹o Ž considerada por LŽvi-Strauss). imanente ˆ distin•‹o de sexos (reconhecendo que. Desnecess‡rio elaborar este ponto: o "‡tomo de parentesco" Ž criado pela troca matrimonial. procedendo a uma redu•‹o. afinidade). de idade relativa. e a diferen•a de gera•›es . n‹o existem sen‹o entre pessoas de mesmo sexo (como j‡ deixam claro as SEP : 135). Mas tambŽm Ž claro que a rela•‹o de alian•a Ž a viga-mestra do modelo. entre aliados (20) .

De fato. a proje•‹o das oposi•›es B/Z e "a”nŽ/cadet" sobre a dimens‹o geracional. que s‹o reduzidas por um movimento adicional. considerada como express‹o can™nica . criando uma figura complementar ˆ de RadcliffeBrown (que abstra’a o par H/W de seu contexto global). ao passo que HŽritier considera sua d’ade B/Z como a estrutura elementar do parentesco. Dumont ir‡ restringir a no•‹o de alian•a aos sistemas com "regra positiva de casamento". De um modo esquem‡tico. podem-se ver as redu•›es do modelo de LŽvi-Strauss: (Radcliffe-Brown) (LŽvi-Strauss) (Dumont) (HŽritier) Do ponto de vista de sua estrutura. no caso de Dumont. o modelo de Dumont Ž uma mera re-apresenta•‹o do ‡tomo lŽvi-straussiano (onde o tri‰ngulo representando o filho do casal indicava a dimens‹o diacr™nica da troca). o diagrama acima. por subtrair a rela•‹o de alian•a. enquanto o de HŽritier envolve uma efetiva mutila•‹o. negando a universalidade da teoria da troca (21) . Mas.23 apenas sobre este material: diferen•a de sexos e de gera•›es (e de idade). esquematiza a terminologia dravidiana.

termina por defini-las de tal modo que consanguinidade = n‹o-afinidade. o mŽtodo de constru•‹o destas categorias por Dumont. ao mesmo tempo que confere ˆs terminologias o papel de via real para a universalidade. ele reformula a quest‹o da proibi•‹o do incesto demasiado dependente de uma "teoria semi-emp’rica da troca" . assim como nos parece dif’cil conceber a fundamentalidade da rela•‹o B/Z.: 131).24 de um sistema de alian•a simŽtrica de casamento. o que pode ser terminologicamente pertinente.donde o privilŽgio que ele. ƒ verdade que o autor conclui que a terminologia dravidiana exprime uma "teoria sociol—gica da alian•a". (As oposi•›es distintivas da velha fonologia possuem um conteœdo. n‹o h‡ alian•a sem parentesco .sugerindo que esta regra exprime uma "incompatibilidade. Dumont associa intimamente terminologia e alian•a. ˆ primeira vista mais prudente em sua ortodoxia minimalista. Prop›e-nos. n‹o h‡ parentesco sem alian•a mas apenas nos sistemas prescritivos -. no artigo de 1953. HŽritier separa estas duas dimens›es. isto Ž. oferece-nos. A no•‹o de "oposi•‹o distintiva" contorna o problema. fonologizando retoricamente uma oposi•‹o incapaz de se fundar no mero contraste l—gico. Criticando o conceito de reciprocidade. mas Ž sociologicamente vazio. Dumont n‹o faz uma "teoria dravidiana do parentesco". como mais adequada. um suporte objetivo). na falta de uma teoria geral da alian•a. mas ent‹o ela n‹o pode ser uma mera teoria da oposi•‹o diacr’tica entre categorias cujo conteœdo deve primeiro ser . mas restringe esta associa•‹o aos sistemas "prescritivos" (de que os dravidianos s‹o o exemplo mais simples) . tanto quanto HŽritier. logo uma complementaridade.e tratam-se de duas coisas diferentes. vai reprovar a preocupa•‹o das SEP com a "integra•‹o social" posta como telos proibi•‹o do incesto. Especificamente. n‹o deixa de ter problemas. uma teoria cognitiva: a proibi•‹o seria "a marca indelŽvel de uma oposi•‹o distintiva entre consanguinidade e afinidade" (op. para a segunda. tambŽm Ž dif’cil imaginar qual o conteœdo da oposi•‹o entre "consanguinidade" e "afinidade". Para o primeiro. visto que elas s‹o o lugar privilegiado de manifesta•‹o de "leis fundamentais" do parentesco. confere ˆs terminologias -. mas uma teoria do parentesco dravidiano . assim. *** A posi•‹o de Dumont. entre da consanguinidade e afinidade" (1971: 93). uma teoria da "integra•‹o mental" de oposi•›es conceituais . notadamente a oposi•‹o entre consanguinidade e afinidade. Assim. De fato. Ora. afinidade = n‹o-consanguinidade. categorias para cuja defini•‹o mesma Ž preciso postular a proibi•‹o do incesto e a troca matrimonial. na falta de uma teoria da alian•a que explique primeiro como a oposi•‹o macho/f•mea se humaniza e se polariza em B/Z e H/W.cit.ao passo que HŽritier nos oferece uma "teoria omaha do parentesco" a partir de uma teoria do parentesco omaha (22) . n‹o uma estrutura universal.

ali onde LŽviStrauss indicara que estas duas coisas n‹o fazem sen‹o uma (23) . O impasse dumontiano Ž. 158). A troca para LŽvi-Strauss. o modo pelo qual o binarismo psico-fisiol—gico acede ao estatuto de realidade humana. isto Ž. parece-me. isto Ž. se a propriedade de proceder cognitivamente por oposi•›es bin‡rias (de "identificar o id•ntico" opondo-o ao "diferente") Ž uma condi•‹o de exist•ncia da vida social. ao contr‡rio. guardando a centralidade da rela•‹o de alian•a. A leitura dumontiana das SEP afasta a troca como no•‹o "semi-emp’rica" porque Ž Dumont quem entretŽm uma concep•‹o semi-emp’rica desta no•‹o. HŽritier admite a generalidade da troca matrimonial.mas a troca Ž o modo social de realizar as oposi•›es. restringe-a aos sistemas de parentesco onde ela se exprime terminologicamente. mas rejeita sua prioridade l—gica. n‹o uma institui•‹o que pode ou n‹o estar presente nesta ou naquela sociedade. restringindo-a a sistemas matrimoniais de "f—rmula global".25 fornecido. para LŽvi-Strauss. S— assim se pode entender sua idŽia de que h‡ sistemas de parentesco que "ne peuvent pas •tre dits fondŽs sur l'Žchange" (1971: 134).SEP : 98. n‹o Ž menos indubit‡vel que a reciprocidade Ž o modo especificamente social de "resolu•‹o" das oposi•›es conceituais. de filia•‹o. O problema Ž que. HŽritier isola a rela•‹o biol—gica de consanguinidade cruzada. de operadores conceituais de base. Em ambos os casos. Dumont. tornada matriz de tudo o mais: terminologias. Dumont.. A capacidade de opor Ž condi•‹o natural da troca . o que se exprime Ž uma rejei•‹o da teoria lŽvi-straussiana da reciprocidade e da troca matrimonial.. e a s— Ž aplic‡vel para aquelas sociedades providas de tais . Tudo se passa como se a oposi•‹o consanguindade/afinidade desempenhasse em Dumont o mesmo papel que a oposi•‹o irm‹o/irm‹ em HŽritier: o de paradigma arquet’pico do "id•ntico" e do "diferente". passando diretamente do biol—gico ao ideol—gico-conceitual. Dumont transforma a troca e a alian•a em institui•›es. Ž um princ’pio s—ciol—gico (social e conceitual . separa-se aqui o simb—lico do social. ou mesmo aos sistemas de presta•›es totais. fica na posi•‹o um tanto dif’cil de simplesmente afirmar a primazia conceitual de uma oposi•‹o sociol—gica cujos fundamentos foram retirados: ficamos sem saber em que "consanguinidade" e "afinidade" se op›em. portanto: como se pode construir uma teoria da alian•a de casamento de base puramente cognitiva? O que imp›e a alian•a? ƒ leg’timo distinguir o "sociol—gico" e o "conceitual" da forma que ele o faz? Como no caso de HŽritier. em favor de uma perspectiva que cognitiviza e isola aspectos parciais do modelo das SEP. para s— depois fazer intervir o sociol—gico. do "fato da Regra". e em seguida estabelece que a teoria "restrita" das SEP dispositivos (24) . regras de alian•a.

Talvez se possam dispensar as considera•›es das SEP sobre a proibi•‹o do incesto. e assim recai num inatismo ocupado pela alian•a.26 cognitiviza ao redefini-la como pura rela•‹o opositiva. isto Ž. etc. seja diretamente (HŽritier).. ideol—gico que pretende usurpar o lugar de condi•‹o a priori transcendentaliza uma oposi•‹o emp’rica. *** Nossa quest‹o aqui n‹o Ž a de defender a doutrina lŽvi-straussiana contra as "heresias" de Dumont e HŽritier. absurdas. HŽritier. condi•‹o condicionada. V•-se ent‹o como Dumont adota uma perspectiva "leibniziana". isto Ž. ali‡s. seja muito indiretamente (Dumont). mas simplesmente a de registrar o fato de que ambos os autores rejeitam. nem todas. a teoria da reciprocidade e da troca matrimonial como fundamento universal do fen™meno do parentesco. o princ’pio de reciprocidade. a defini•‹o do casamento como troca. quaisquer tentativas de neutraliza•‹o do princ’pio de reciprocidade enquanto condi•‹o de possibilidade da vida social(26) . "Proibi•‹o do incesto" Ž o nome dado por LŽvi-Strauss ˆ condi•‹o propriamente transcendental da sociabilidade: o imperativo da troca Ž um a priori sintŽtico instituinte (o "caract•re synthŽtique du Don". registre-se apenas que elas talvez expliquem a recusa de HŽritier e de Dumont em mant•-la na . reduzindo a reciprocidade a uma oposi•‹o conceitual: ele transforma a rela•‹o entre consanguinidade e afinidade (a alian•a de casamento) em um a priori simplesmente anal’tico.o not‡vel sucesso das empresas de Dumont e HŽritier o demonstra -. A calculada estratŽgia kantiana de LŽvi-Strauss exclui antecipadamente. como empiristas ou como dogm‡ticas. como se sabe. Suas "leis fundamentais do parentesco". que "int•gre l'opposition de moi et d'autrui"). desde que acham necess‡rio colocar neste lugar de fundamento uma outra teoria geral. ao separar a no•‹o de oposi•‹o da no•‹o de reciprocidade(25) . fazendo fatos gerais passarem indevidamente por princ’pios universais. tornada mera "necessidade da troca entre grupos humanos". cada um a seu modo. A explica•‹o da proibi•‹o do incesto das SEP. na descri•‹o e an‡lise dos sistemas de alian•a matrimonial ou das terminologias de parentesco . necessidade a posteriori . mas Ž bastante mais dif’cil colocar em seu lugar outra coisa. de seu lado. s‹o indutivas. ƒ tambŽm a de observar que. um "dado biol—gico de base". nossos autores deixam a desejar. levantou uma tempestade de cr’ticas. a maioria delas traindo uma incompreens‹o total do lugar que este tema ocupa na economia te—rica da concep•‹o lŽvi-straussiana do parentesco. Sua •nfase na inscri•‹o terminol—gica da alian•a Ž reveladora: a no•‹o de "terminologia prescritiva" exprime justamente esta idŽia de que a alian•a de casamento Ž uma propriedade anal’tica do parentesco. N‹o cabe aqui examinarmos estas obje•›es. por fim.

por n‹o admitirem uma interpreta•‹o "afinal" de posi•›es terminol—gicas determin‡veis por deriva•‹o dos termos aplicados aos consangu’neos pr—ximos. cujos princ’pios remontam a um arqui-cl‡ssico artigo de Kroeber (1909) dirigido contra Morgan. que fixa a rela•‹o terminologia-alian•a. .. para separar em seguida a alian•a de suas implica•›es geneal—gicas e sociol—gicas: o regime emp’rico das redes matrimoniais e suas implica•›es pol’ticas. isto Ž. e a quest‹o de deu origem a alguns dos debates mais prefer•ncia. Para falar como Sperber (1968). atŽ chegar ao nada. As terminologias do tipo crow/omaha se caracterizam por n‹o serem prescritivas.1986) terminar‡ por conferir absoluta independ•ncia entre os dois n’veis: o aspecto "c—digo" do parentesco torna-se cada vez mais c—digo e menos parentesco. assim .na verdade. econ™micas. ao contr‡rio dos "categoristas" ingleses.. Needham (1973. Se. categoria. As terminologias crow/omaha foram um dos terrenos de ca•a privilegiados da escola sem‰ntica americana. *** Uma outra caracter’stica comum a HŽritier e Dumont Ž uma focaliza•‹o privilegiada sobre a dimens‹o terminol—gica dos sistemas de parentesco.27 posi•‹o eminente que ocupava nas SEP. genealogia vs. pode-se dizer que este aspecto das SEP conhece atualmente um eclipse(27) . Lounsbury e Scheffler defende uma interpreta•‹o ferozmente geneal—gica das terminologias de parentesco (que tem a simpatia de LŽvi-Strauss). 1971: 116-7). inaugurando a interpreta•‹o prescritivista das SEP. uma deriva espec’fica da teoria estruturalista do parentesco. Dumont vai sublinhar a inscri•‹o terminol—gica dos sistemas com "regra positiva de casamento". o aspecto "c—digo" e o aspecto "rede" do fen™meno do parentesco s‹o separados e hierarquizados: o "c—digo" engloba a "rede". Ele representa. Como estes dois autores s‹o os continuadores mais eminentes da teoria estrutural do parentesco. a escola de Goodenough. a alian•a se torna cada vez mais prescritiva e menos alian•a . saber se o conceito mesmo de "estrutura elementar de parentesco" contŽm prolongados e confusos da hist—ria da antropologia: prescri•‹o vs. HŽritier vai-se defrontar com uma situa•‹o inversa. Ž definido como subordinado ao n’vel "imperativo" da terminologia. Esta dimens‹o recebeu um tratamento bastante incerto nas SEP analiticamente um aspecto terminol—gico (Dumont. etc. ou por n‹o codificarem uma regra de alian•a. ele antecipa -. e a no•‹o de alian•a Ž capturada conceitualmente pelo primeiro.

a alian•a em chave institucional. a rela•‹o entre estas duas ordens de fen™menos? Leis como a da "domin‰ncia masculina" n‹o s‹o certamente suficientes para compatibilizar uma abordagem lounsburyana e uma lŽvi-straussiana. Pelo fato de que as terminologias de consanguinidade crow/omaha n‹o t•m conteœdo "afinal" positivo. irm‹o/irm‹. Como as primeiras em nada esclarecem os segundos. por fim. como se a consanguinidade se organizasse segundo princ’pios anteriores ˆs injun•›es da reciprocidade. anti-sociol—gica. unifilia•‹o. Seja dito. O resultado. Ela cauciona assim a interpreta•‹o restritiva das SEP.elas s‹o taxonomias redut’veis a critŽrios de tipo psico-sem‰ntico -. Isto Ž o que se chama o "extensionismo". e tambŽm as obje•›es que este te—rico acertadamente levantara contra as tentativas de explica•‹o sociol—gica das terminologias em quest‹o: casamento com WBD ou MBW. de um lado. Se a alian•a n‹o est‡ codificada diretamente nas terminologias crow/omaha. n‹o obstante.). que nossa autora acrescenta pouco ao que sabemos sobre as terminologias . que s‹o c—digos que classificam uma rede geneal—gica ideal. ficamos com um sistema dividido em dois pares "c—digo/rede": uma terminologia de consanguidade que exprime uma rede biol—gica arquet’pica (pais/filhos. ou pelo menos n‹o Ž mais imanente ˆ sua constitui•‹o. HŽritier vai tentar explicar as regras lounsburyanas por leis do parentesco que n‹o envolvam a alian•a. N‹o s— as terminologias de parentesco n‹o refletem necessariamente (se Ž que alguma vez o fazem) formas de casamento ou outras institui•›es sociais . e sai-se com uma teoria ao mesmo tempo naturalista e mentalista. Ela cai assim na armadilha. como j‡ observamos. Ž a posi•‹o de um conjunto de "leis fundamentais do parentesco" de natureza terminol—gica. e de um conjunto de mecanismos fundamentais da alian•a. qual.ela Ž posta fora do "c—digo". a autora passa a trabalhar como se a teoria da alian•a n‹o fosse suficiente para explicar o parentesco enquanto fen™meno humano... determinando um campo classificat—rio prŽvio ˆs regras de casamento. do outro.28 sustenta tambŽm uma posi•‹o anti-aliancista ou. onde universais ideol—gicos refletem diretamente os dados biol—gicos de base. Diante do peso desta escola para a problem‡tica crow/omaha. em geral. HŽritier come•a por fazer suas as regras de equival•ncia lounsburyanas. lendo a no•‹o de troca em chave "prescritiva". etc. Na aus•ncia de uma regra de alian•a associada aos sistemas crow/omaha. como se organizam primariamente em torno da classifica•‹o dos parentes consangu’neos: a consanguinidade genealogicamente definida Ž o "noyau dur" das terminologias. ent‹o "a necessidade da troca entre grupos humanos" n‹o pode explicar os princ’pios do parentesco . uma terminologia de afinidade e um conjunto de princ’pios de alian•a que geram e gerem uma rede de troca matrimonial. HŽritier parece ter dividido a dificuldade para melhor n‹o resolv•-la: uma vez que a no•‹o de "terminologia crow/omaha" n‹o Ž mais coextensiva ˆ a de SSC.

N‹o se trata portanto de um componente do material biol—gico de base. Observamos que ela tampouco o explicava.).29 crow/omaha. . mas apenas que cada sexo apreenda o outro imediatamente como rela•‹o. LŽvi-Strauss. n‹o importando a tipo de organiza•‹o social (se patri." acima). mesmo assumindo a idŽia da "troca de mulheres pelos homens". A domin‰ncia masculina e outros assuntos pendentes HŽritier nos dizia que a domin‰ncia masculina. A no•‹o de troca matrimonial n‹o exige que homens troquem mulheres (em contrapartida. Ela est‡ para as formas de classifica•‹o terminol—gica no EP assim como a injun•‹o de reciprocidade est‡ para as estruturas de alian•a nas SEP . A domin‰ncia masculina vai ocupar na teoria de HŽritier o lugar estratŽgico da proibi•‹o do incesto em LŽviStrauss (note-se o "il n'est pas dans la nature. Mas. 1979a) onde seriam aduzidas as raz›es conceituais deste fen™meno.n‹o sem nos enviar a um artigo (HŽritier. tomando-a ao contr‡rio como um explicans . respondeu ˆs cr’ticas feministas dizendo que suas estruturas de alian•a funcionariam do mesmo modo se fossem as mulheres a trocarem os homens. "n'est pas dans la nature des choses". implicam asser•›es deste tipo).. N‹o me consta haver nenhum mŽtodo simples de comprova•‹o de tal tese.ou seja. Vimos tambŽm que a autora comentava que a teoria da alian•a n‹o explicava por que s‹o sempre os homens que trocam as mulheres. A oposi•‹o estrutural que mas Ž de se estranhar que a autora n‹o tenha achado necess‡rio repetir sua argumenta•‹o aqui.ou matrilinear. sua contribui•‹o ˆ teoria dos sistemas de alian•a ser‡ fundamental. seria uma espŽcie de "dado ideol—gico de base". na teoria das SEP . dada a centralidade do problema. na sua qualidade de lei fundamental do parentesco. Isto n‹o Ž uma mera concess‹o defensiva.. em troca. entre o que pertence ao geral e o que pertence ao universal. matrilocalidade etc. as considera•›es sobre a frequ•ncia da patrilinearidade. mas uma distin•‹o fundamental entre o que releva do fato contingente ou extr’nseco e o que releva de princ’pios estruturais. e exemplos supostamente negativos n‹o faltam.. etc. que faz equivaler irm‹ ou esposa a irm‹ menor ou filha. *** ƒ certamente muito arriscada a afirmativa que s‹o "sempre" os homens que trocam as mulheres.

Mas o essencial Ž que. Mas a determina•‹o de uma perpectiva dominante Ž complexa. em geral. e de situa•›es onde ela se imp›e. as mulheres na de rela•‹o. por confundirem a oposi•‹o termo/rela•‹o com uma domin‰ncia substantiva dos homens sobre as mulheres. n‹o Ž aquela meramente zool—gica entre os sexos. Mas justamente. parece-me que o que distingue a situa•‹o humana. substancializa e absolutiza uma oposi•‹o entre termo e rela•‹o (que investe a diferen•a sexual para sobre esta base estabelecer estruturas de troca social). e por defini•‹o sup›e a perspectiva complementar. Tentativas que levaram n‹o poucas vezes a uma recusa dos postulados da teoria da alian•a. traduz-se quase sempre na estabiliza•‹o de uma perspectiva sexual dominante. em suma. e por ela a sociedade. HŽritier. mas aquela sociol—gica entre termo e rela•‹o: o par sexuado Ž o suporte de uma rela•‹o a um terceiro termo. fen™meno de ordem l—gica. a œnica pertinente de um ponto de vista interno ˆ teoria da troca. A leitura formal das estruturas de alian•a como "troca de pessoas de um sexo pelo outro" (29) .mas uma oposi•‹o que n‹o se esgota . econ™mica e jur’dica devem naturalmente intervir para a determina•‹o de como se devem "ler" as estruturas de troca em cada sociedade concreta. O que releva propriamente do universal.30 funda e organiza a alian•a. n‹o Ž a pura emana•‹o de uma rela•‹o substantiva e imut‡vel de domina•‹o . uma hierarquia. reduzindo-a indevidamente. etc. Sem estar muito informado sobre o que t•m os primat—logos a dizer sobre o assunto. a uma domina•‹o substantiva dos homens sobre as mulheres (30) .e por isto h‡ sociedades onde a maneira mais adequada de descrever o que se passa Ž em termos de uma "troca de homens pelas mulheres" (sem implicar com isto que ali as mulheres "dominam" os homens). Considera•›es de ordem pol’tica. que disp›e de contextos espec’ficos de opera•‹o. qualquer sistema pode ser descrito indiferentemente como troca de homens pelas mulheres ou de mulheres pelos homens. (H <Ñ W Ñ> WB). instaurada pelo imperativo da troca matrimonial enquanto dispositivo sociogenŽtico. n‹o resta dœvida que a perspectiva dominante mais comum Ž aquela onde os homens se "congelam" na fun•‹o de termo. etc. do ponto de vista das estruturas de alian•a. Ž que a diferen•a entre os sexos Ž imediatamente concebida como uma oposi•‹o . sob todos os pontos de vista. ou como as duas coisas ao mesmo tempo (28) . Ž que uma eventual domin‰ncia masculina de base etol—gica transforma-se aqui em uma hierarquia entre termo e rela•‹o. assim que se consideram as sociedades concretas em seu aspecto global. que o constitui como par humano: (B Ñ> Z <Ñ ZH). A afirma•‹o bruta de uma "domin‰ncia masculina" Ž t‹o simplista e inœtil para o problema em causa quanto as tentativas feministas de encontrar uma "igualdade sexual" nas sociedades de ca•adores-coletores.

Desta forma. esta oposi•‹o assimŽtrica n‹o pode ser substantivada e reduzida a uma oposi•‹o entre os sexos tomados como termos. mas uma mais complexa entre termo e rela•‹o. *** Assim. como diz t‹o bem a autora. Ž ali onde a "l'identitŽ des germains bascule dans la diffŽrence" (p. H/W. justamente. Z/Z e B/Z.cada sexo se torna para o outro um signo. em suma. a "proibi•‹o do incesto" -. da rela•‹o oposta. a diferen•a sexual precisa ser ela mesma diferenciada e dessubstancializada. se Ž preciso dispor de uma irm‹ para obter uma esposa. Z/B s‹o fun•‹o da oposi•‹o estrutural entre as . parece-nos que a hipostasia do par B/Z na teoria de HŽritier n‹o s— envolve um paralogismo . aquilo que faz da complementaridade natural dos sexos uma oposi•‹o s—cio-l—gica entre termo e rela•‹o. a "proibi•‹o do incesto" se imp›e como condi•‹o necess‡ria e suficiente para a determina•‹o transcendental do parentesco. uma esposa. Ž porque ela Ž o lugar onde a diferen•a se transforma em rela•‹o necess‡ria a outrem. Ž porque a rela•‹o B/Z Ž insepar‡vel.e dela apenas -. O "paralelismo" e o "cruzamento" s‹o assumidos como efeitos da diferen•a sexual . As oposi•›es "paralelas" e cruzadas" de tipo B/B. e n‹o mais apenas. Ž porque a irm‹ n‹o Ž. que sup›e o de conjugalidade. Mas o car‡ter "paralelo" ou "cruzado" das rela•›es consangu’neas exprime antes de mais nada uma diferen•a nas rela•›es estabelecidas com terceiros por estas vias.171) . Para efetivamente se transformar em oposi•‹o. para sua defini•‹o. Tornado assimŽtrico e relacional. conjuntos de atributos biol—gicos objetivos. o par sexuado se torna incompleto e potencial . isto Ž. Como cada sexo Ž simultaneamente termo (para si) e rela•‹o (para o outro). um estimulante natural. Uma teoria lŽvi-straussiana da "identidade e da diferen•a" poria as oposi•›es correlativas B/B e WB/ZH como paradigmas do "id•ntico" e do "diferente" (SEP: 5545) . "relativizando" os termos. Ela n‹o Ž uma mera oposi•‹o entre termos. Se "l'envie de femme commence avec la soeur". Enfim. Se a rela•‹o irm‹o/irm‹. e tomados como arquŽtipos do "id•ntico" e do "diferente". O conceito lŽvi-straussiano de "proibi•‹o do incesto" deve ser interpretado rigorosamente neste sentido: a proibi•‹o do incesto Ž aquilo que transforma a diferen•a sexual numa rela•‹o entre rela•›es. como diria LŽvi-Strauss. como trai uma concep•‹o est‡tica da estrutura do parentesco.31 nela mesma. Z e W. conforme um provŽrbio chin•s citado em algum lugar por LŽvi-Strauss. Ž porque Ž antes preciso obter uma esposa que n‹o seja uma irm‹. estabelecidas por meio de uma oposi•‹o entre categorias de pessoas do sexo oposto.pois a defini•‹o mesma da germanidade cruzada sup›e o conceito de germanidade.oposi•›es entre pessoas do mesmo sexo.

B/Z e H/W. Igualmente. digamos assim? A assimetria sexual no que concerne a procria•‹o Ž objetiva e irrevers’vel.70 n. incesto de filia•‹o. 1967: 31). que diz que um sistema de parentesco Ž "une thŽorie locale ŽlaborŽe pour rendre compte du fait que les femmes mettent au monde des enfants". Tudo que ela sup›e e imp›e Ž que "n‹o se possa fazer qualquer coisa" em matŽria de casamento. Incesto de alian•a.16-7). tomada em si mesma. ƒ interessante observar que HŽritier. N‹o menos banal que os outros fatos. assimetria funcional derivada do imperativo da troca. *** Terminemos esta primeira parte da leitura de L'exercice de la parentŽ com algumas observa•›es meramente indicativas. a assimetria fundamental para LŽvi-Strauss seria aquela que se estabelece entre parceiros de mesmo sexo . que estabelece a diferen•a sexual como oposi•‹o entre termo e rela•‹o. A teoria lŽvi-straussiana da "proibi•‹o do incesto" Ž um modo de fundar o imperativo da troca. Somos tentados a parafrasear: um sistema de parentesco n‹o seria uma "teoria local" elaborada to explain away o fato de que s‹o as mulheres que d‹o ˆ luz. mas omita um dado biol—gico importante: um dos sexos porta e d‡ ˆ luz filhos dos dois sexos. para limitar simbolicamente este fato. sociol—gica e formalmente revers’vel. de outro. mas do interdito universal de alian•as matrimoniais que fa•am valer a consanguinidade biol—gica como direito origin‡rio e ilimitado. pura heterogeneidade. Ela n‹o Ž uma explica•‹o do fato geral da proibi•‹o de rela•›es sexuais entre parentes pr—ximos. ƒ ela justamente que distingue os sistemas simŽtricos e assimŽtricos de alian•a.ver Fox. Nossa autora menciona (p. conforme seja ou n‹o cancelada por uma cess‹o rec’proca de c™njuges. ela Ž de outra ordem que aquela. Ž pena que ela n‹o tire nada da’.aquela instaurada pela cess‹o de um germano de sexo oposto em troca de um c™njuge. Ela Ž igualmente portadora de universais. entre termo e rela•‹o. registre a exist•ncia de dois sexos e a sucess‹o de gera•›es acarretada pela reprodu•‹o sexuada. de um lado. este Ž igualmente fundamental (foi ali‡s premiado com o primeiro lugar em outras listas de princ’pios b‡sicos do parentesco .20) uma f—rmula de Scheffler. e fenomenologicamente evidente.32 oposi•›es B/B e WB/ZH (Z/Z e HZ/BW). A assimetria entre os sexos Ž. resta saber se se tratam de universais do parentesco enquanto sistema de rela•›es sociais extra-familiares (ou supra-biol—gicas). e alvo de "manipula•›es ideol—gicas" b‡sicas. A "proibi•‹o" ou reprova•‹o com que se . ao enunciar os termos do dado biol—gico de base (p. ou se eles relevam de uma outra ordem de fatos.

apesar de tudo). o interdito universal de rela•›es sexuais e a fortiori matrimoniais entre m‹e e filho certamente n‹o releva da mesma ordem explicativa. Malinowski. mas Freud. Lida em chave geneal—gica. Les s‹o um "Anti-Totem e Tabu". a seus maridos potenciais e a seus irm‹os. O incesto sociol—gico (matrimonial) modelar Ž aquele onde a condi•‹o de irm‹. que maximizasse o "aproveitamento" das mulheres cedidas. mas n‹o custa diz•-lo: a obra de LŽvi-Strauss pode ser lida. visto que a mulher Ž aqui duplamente subtra’da. em seus momentos cruciais. e portanto da sociabilidade. Em troca. como um desafio a Freud. diz respeito ˆ parentalidade (parenthood) (32) . o incesto m‹e/filho. Robertson-Smith. funda a condi•‹o de esposa. quero crer que esta situa•‹o Ž propriamente impens‡vel. j‡ o mundo lŽvi- . a quest‹o edipiana Ž a da autoctonia. Pode-se dizer que a "teoria restrita" dos sistemas prescritivos de alian•a nas SEP decorre da teoria geral estruturalista do parentesco (proibi•‹o do incesto). n‹o o "incesto de filia•‹o". mas sempre para uma FW!M).33 encaram as rela•›es sexuais entre parentes pr—ximos Ž sociologicamente irrelevante. Alian•a/parentesco ou filia•‹o/parentalidade: uma escolha cosmol—gica? A teoria da alian•a de LŽvi-Strauss n‹o tem como "outro" os africanistas e sua •nfase na descent (isto Ž a redu•‹o cantabrigiana de um combate bem mais importante). n‹o s— nada impede que pai e filho partilhem sexualmente a mesma mulher (o que ocorre ali‡s em algumas sociedades. e assim s‹o o n‹o structures ŽlŽmentaires de la parentŽ primeiro Anti-Îdipe . O incesto pai-filha Ž uma varia•‹o radical deste paradigma. na verdade. O incesto lŽvi-straussiano diz respeito ao parentesco (kinship) . o paradigma da rela•‹o interdita Ž sem dœvida aquela entre irm‹o e irm‹ (v•-se o quanto HŽritier permanece pr—xima a LŽvi-Strauss. Uma "Eur‡frica" freudiana. Entretanto. assim como se pode ler a "teoria da descend•ncia" inglesa como fruto do casamento entre as ideologias africanas e o imagin‡rio mediterr‰neo (Maine. contra um mundo "circum-Pac’fico" lŽvi-straussiano? Efetivamente. como a uni‹o matrimonial M/S poderia ser assimilada a uma forma de poliandria ou de levirato. e pode ser facilmente assimilada ˆ injun•‹o positiva da alian•a (31) . este Ž um problema que ela parece deliberadamente ignorar: seu conceito b‡sico Ž o "incesto de alian•a". mulher do grupo. ou nega•‹o da paternidade. Ser‡ LŽvi-Strauss. quem vai minar sistematicamente a concep•‹o ocidental da filia•‹o como princ’pio fundamental do parentesco. ƒ —bvio. Pois do ponto de vista da economia da alian•a. que poder’amos chamar de incesto freudiano. Frazer. Freud). Mas a teoria da alian•a n‹o d‡ conta disto.

Por isto. Devaneios ˆ parte. A distin•‹o cr’tica a fazer Ž outra. mas da parentalidade. O dom’nio do parentesco Ž institu’do pelo imperativo da troca. embora reflita conceitualmente os fatos da procria•‹o. como pelos fen™menos que privilegiam: incesto de alian•a.. incesto de filia•‹o. uma teoria antropol—gica do "incesto freudiano" deve necessariamente mobilizar considera•›es fora do escopo da teoria de LŽvi-Strauss. conquanto relacionados. e sua lei fundamental . e onde igualmente se pode tentar dar ˆ idŽia de "domin‰ncia masculina" um conteœdo conceitual pertinente(33) . Isto me parece incompleto. Houseman (1988). fora do parentesco enquanto dom’nio fundado no imperativo da troca. A "segunda lei fundamental do parentesco" refere-se confusamente a fatos que n‹o relevam do parentesco. O autor afirma que o dom’nio do parentesco se organiza segundo uma "logic of substance". ignor‡-los (de resto. soa contradit—rio e inconsistente com o restante do livro porque partimos (a come•ar pela autora) do pressuposto que ele esteja falando de um dom’nio homog•neo ˆquele tratado nos cap’tulos seguintes. fundada na composi•‹o meton’mica de rela•›es de filia•‹o e consanguidade. podendo. qualquer sistema de parentesco n‹o leva em conta sen‹o uma pequena parte destes fatos). onde se prop›e que "kinship" e "parenthood" devem ser tratados como dom’nios conceitualmente distintos. n‹o s— pelos tipos de explica•‹o que mobilizam e pelas consequ•ncias globais que dali extraem. Ž certo que com Freud e LŽvi-Strauss temos duas concep•›es irredut’veis da proibi•‹o do incesto. e tal n‹o Ž o caso. embora "proceda" fisicamente dos fatos da reprodu•‹o sexuada.. justamente. creio agora perceb•-lo. O dom’nio do parentesco.34 straussiano Ñ aquele do cŽlebre mito andaman•s Ñ tem como horizonte imagin‡rio um outro desejo de "contra-ordem". a endogamia ou nega•‹o da afinidade. e ainda demasiado "africano" (redu•‹o do parentesco ˆ consanguinidade e filia•‹o. Mas estamos... no limite. N‹o Ž poss’vel aqui resumir a an‡lise de Houseman. Permito-me apenas glosar um aspecto. ao passo que o dom’nio da "parenthood" se organiza segundo uma "structural logic" de englobamento hier‡rquico recursivo entre "maternidade" e "paternidade". O dom’nio da "parenthood".). O dom’nio da "parenthood" Ž institu’do pela assimetria sexual na procria•‹o. ƒ neste œltimo que a assimetria sexual implicada na procria•‹o funda uma estrutura hier‡rquica complexa entre "maternidade" e "paternidade". e ali a alian•a subordina a filia•‹o e a consanguinidade .a lei fundamental neste dom’nio Ž a proibi•‹o lŽvi-straussiana do incesto. estrutura-se segundo princ’pios heterog•neos a estes. ƒ aqui que tem seu lugar a assimetria dos sexos na procria•‹o. O Cap’tulo I de L'exercice de la parentŽ . Estou-me apoiando aqui em um not‡vel artigo de M. deve se articular ˆs leis do parentesco para ganhar consist•ncia sociol—gica.

35 pode se exprimir na proibi•‹o "freudiana" do incesto: a nega•‹o necess‡ria do englobamento hier‡rquico dos homens pelas mulheres. isto Ž. de sujeitos). Sua interpreta•‹o em termos de rebatimento da diferen•a sexual sobre uma assimetria geracional-filiativa unilateral resultam da coloca•‹o indevida . Resta que as terminologias crow/omaha pertencem ao parentesco. sob pena de uma inexist•ncia do "princ’pio masculino" e do so•obro da sociedade na indiferen•a. assim como no dom’nio do parentesco a consanguinidade n‹o pode servir de fundamento ˆ alian•a. . Mas ela Ž impens‡vel sob uma das interpreta•›es da oposi•‹o "Femmes/Hommes". Para que os homens possam aceder ˆ condi•‹o de termos (isto Ž. aquela que a faz corresponder a W/H. assim. que deve ser simbolicamente limitado.1987). que contŽm em si todos os termos e todas as rela•›es (Moisseeff. mas por que n‹o vemos a equa•‹o ideol—gica "freudiana" H/W = S/M. parentesco dos universais ideol—gicos da pois nas sociedades deste no lugar ocupado continente a "parenthood" parece ocupar um lugar ideol—gico eminente frente ao "parentalitŽ" propriamente pelos universais sociol—gicos da "parentŽ". V•-se como a equa•‹o impens‡vel de HŽritier. a segunda da "parenthood". A primeira releva do parentesco. A "domin‰ncia masculina".e "africana". Ž preciso que neguem sua condi•‹o origin‡ria de pura rela•‹o englobada por uma totalidade "feminina". e sim no da parentalidade. Assim se compreende por que Ž perfeitamente poss’vel existirem sistemas crow. [Femmes/Hommes] = [Parents/Enfants]. onde ela emerge como complexo imagin‡rio b‡sico(35) . Pode-se dizer que esta domin‰ncia assenta numa contradi•‹o fundamental: a de que na ordem do real os homens prov•m das mulheres. Ž impens‡vel exatamente porque corresponde ao dado biol—gico de base. onde o par "lŽvi-straussiano" B/Z funciona terminologicamente como = S/M. equivalente ˆ proibi•‹o lŽvi-straussiana do incesto mas n‹o no dom’nio do parentesco. invertido: a maternidade n‹o pode ser o fundamento œltimo do la•o social(34) . materializado na gesta•‹o e na procria•‹o femininas. onde a domin‰ncia masculina n‹o tem nenhum papel a desempenhar. tanto quanto as mulheres. pode ser talvez vista como um signo freudiano de passagem da Natureza ˆ Cultura.

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