Até que ponto as pastilhas de metal duro são aplicáveis?

Com mais e mais fábricas procurando possibilidades de usinar sem refrigerantes, é freqüentemente levantada a questão sobre a capacidade das ferramentas de metal duro suportarem ou não as altas temperaturas do processo. Como a zona de corte excede 1000°C, o uso de refrigerantes parece necessário para que seja atingida uma vida útil razoável das pastilhas. Mas isso está comprovado de fato? Esse é o caso? Staffan Söderberg, Chefe de Desenvolvimento de Metal Duro da Divisão Coromant da Sandvik (Suécia), responde neste artigo sobre as modernas pastilhas revestidas para a usinagem sem refrigeração.

excessiva preocupação com as taxas de remoção de metal durante os últimos cinco anos é resultado, principalmente, das contínuas melhorias das tecnologias de metal duro e de cobertura das ferramentas. Por outro lado, as novas tecnologias de materiais e processos têm permitido que as classes com cobertura também sejam aplicadas ampla e sucessivamente em operações onde se exige tenacidade. Staffan Söderberg, da Sandvik Coromant Não é de estranhar, portanto, que a Sandvik desenvolva classes adicionais, sendo, por isso, otimie geometrias específicas, feitas zadas para aplicações ainda mais sob medida, cujo objetivo é proepcfcs seíia. porcionar a melhor performance As classes de pastilhas assim em cada umas principais áreas de desenvolvidas já provaram ser, de aplicação em usinagem. Tais claslonge, o melhor caminho para que ses também abrangem aquelas deo usuário obtenha reduções signisenvolvidas para usinar materiais ficativas de custos de produção em razão de produtividade mais alta, Este artigo foi produzido pela equipe técnica da AB qualidade melhorada do produto e Sandvik (Suécia), Divisão Coromant. Tradutora: Vera uma vida útil confiável e previsíLúcia Natale. Revisor Técnico: Aldeci Vieira dos Santos, Instrutor Técnico da Sandvik do Brasil, Divisão Coromant. vel das ferramentas.

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Como se chegou a tanto nas duas últimas décadas?
À primeira vista, o rápido desenvolvimento das classes de metal duro com revestimento pode parecer surpreendente, uma vez que as coberturas multicamadas usadas hoje permaneceram as mesmas por mais de uma década. Uma pastilha moderna com cobertura é feita de combinações de óxido de alumínio (Al2O3), carboneto de titânio (TiC), nitreto de titânio (TiN) e carbonitreto de titânio (TiCN). Isso implica novas tecnologias de processo e um contínuo aperfeiçoamento dos métodos de fabricação. É esta a chave para o sucesso das atuais classes. Esse tipo de evolução é o mesmo que tem sido bem sucedido em muitos outros ramos da engenharia, e um bom exemplo disso é o desenvolvimento de um motor de carro standard. O óxido de alumínio, também
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chamado de alumina, é ideal para muitas aplicações dentro da usinagem porque é, como a cerâmica, muito duro, portanto resistente ao desgaste; com baixa condutividade térm c ,o s j ,o e e eb ab r e r t r ia u ea frc o aria ém c ;ea t e t b l d d q í i a n o ia la saiiae umc, ã reagindo prontamente com os mater a sd sp ç s E b r s ar s s ê ii a ea. moa u eitn cia às altas temperaturas seja digna de nota, sua maior vantagem é ser pouco quebradiço em volume. As cerâmicas são por natureza quebradiças e não mostram evidências de deformação plástica antes da quebra. Como cobertura, porém, o óxido de alumínio tem bom desempenho uma vez que é suportado por um tenaz substrato de metal duro. A cobertura de alumina tem sido aplicada em várias gerações de classes tipo GC e também é o principal material da cobertura das classes série GC 4000, que hoje lideram a usinagem em termos de performance.

tenaz para fresamento de aço, com cobertura — a GC 4040 —, é revestida com óxido de alumínio para performance máxima em usinagem tan-

melhor protegido e menos afetado pelo processo de cobertura, ele pode ser mais duro, o que, por sua vez, torna a pastilha menos propensa à

• Tecnologia de processo de cobertura • Propriedades do substrato • Microgeometria da aresta
de corte

• Material da cobertura • Propriedades da zona de
superfície do substrato

• Macrogeometria da pastilha

Os processos de fabricação estão mudando muito?
C r a e t .Am i r ad s a c a etmne aoi ess ls ses de pastilhas é revestida com Al2O 3 pelo processo CVD (Chemical Vapour Deposition, ou Deposição Química de Vapor) e é bom lembrar uma antiga desvantagem sua: a alta temperatura durante o processo de revestimento p d r ap e u i a om t ld r .E t oei rjdcr ea uo se problema já foi completamente superado e a cobertura CVD pode ser aplic d c ma t s f s i a ã ,p r i i aa o la oitcço emtn d u c n r l t t ld sp o r e a e o m otoe oa a rpidds da classe. Hoje há também novos processos, como, por exemplo, o CVD por plasma em temperatura ambiente, que pode ser usado para aplicação de coberturas a baixas temperaturas. Atualmente, mesmo nossa classe mais
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to com refrigeração quanto sem ela. O motivo de o desenvolvimento de novas tecnologias de processo ser tão importante para a melhoria da capabilidade de performance das classes com cobertura é que isso permitiu novos graus de controle da est u u a d e t d d t n ã ed si rtr, o sao e eso a n t r a e d l g ç oe t eos b t a o efcs e iaã nr usrt e a cobertura. Com isso, o óxido de alumínio, com todas as suas vantagens, tem sido até mais aplicável enquanto cobertura, já que os antigos efeitos adversos relativos ao substrato e à qualidade da adesão foram superados. Coberturas mais espessas podem, assim, ser aplicadas, gerando maior proteção para a pastilha e possibilitando que ela suporte temperaturas mais elevadas em tempos de corte mais longos. O substrato de metal duro não ficou à margem desses desenvolvimentos tão positivos. Ao contrário, também se beneficiou deles. Sendo

deformação plástica e, consequentemente, mais apropriada para trabalhar sem refrigeração.

De que forma esse desenvolvimento chega às indústrias?
Hoje nós trabalhamos muito pert d sf b i a u u r a p r od s n o a árcs sáis aa eevolvimento de classes, porque esta é a melhor maneira de nos certificarmos de que obtivemos as especificações corretas do produto e de que os r s l a o f n i d sn s o p ó r o eutds ias o oss rpis métodos de testes são confiáveis. As necessidades das fábricas e a d r ç op r aq a e a i ã n f t ieã aa ul ls ro o uu ro são um “input” muito importante. Nossos métodos de testes em laboratório estão em constante evolução, para garantir que o desenvolvimento de nossas classes atenda a essas necessidades. A posição e abrangência global de nossa empresa, como líder de mercado, juntamente

Melhora na topografia da cobertura de Al2O3 pelo controle da estrutura cristalina. São obtidas superfícies mais uniformes nas pastilhas revestidas (à direita), o que lhes confere melhor performance quanto à velocidade de corte e à vida útil

com seus técnicos especializados em diferentes mercados, fundamentam os c s od s et a a h . ues et rblo Muitos usuários finais nos perguntam sobre as classes apropriadas para a usinagem sem refrigeração. E esta pergunta nos dá a oportunidade de falar muito direta e positivamente das nossas novas classes. A vantagem de ter desenvolvido a capacidade de aplicar coberturas de óxido de alumínio mais espessas da melhor maneira em substratos melhores e mais resistentes à deformação plástica nos proporcionou classes idealmente apropriadas também para usinagem sem refrigeração.

desenvolvemos novas tecnologias a serem incluídas nessa gama. Isso é um desafio e tanto, porque a exigência básica para que uma nova classe seja validada é que ela tenha uma performance pelo menos 30% melhor na u i a e q ea c a s sj d s o í e s sngm u s lse á ipnvi. Embora haja a possibilidade de inúmeros materiais de ferramentas e c n e t sn v ss r mi t o u i o n ocio oo ee nrdzds o f t r ,op i c p lm t r a p r f r a uuo rnia aeil aa ermentas de usinagem continuará a ser o metal duro, e é possível refinar as suas propriedades usando novas tecnologias de processo e de pó. A completa inovação nessa área não corre o r s od e t rd s a t d . ic e sa ecraa Um bom exemplo é a broca TwinGrade (Classe Conjugada), em

que dois tipos diferentes de substrato são sinterizados juntos para otimizar a performance em diferentes áreas da face da ferramenta. Est e é apenas um dos casos de inovação da Sandvik, já que ela patenteia a cada ano uma série de conceitos exclusivos e de aplicação imediata. Aliás, este fato a coloca entre as empresas “top” na Suécia também no quesito “número de patentes”.

Isso garante os meios para a usinagem sem refrigeração?
Hoje este tipo de usinagem é uma exigência crescente das indústrias, mas jamais se apresentou como um problema para as nossas classes por-

É possível desenvolver mais os conceitos já existentes?
Dispomos de uma gama de tecnologias de fabricação com as quais podemos trabalhar para otimizar as propriedades de cada classe para uma certa área de usinagem. Partimos delas para refinar os conceitos que já existem ao mesmo tempo em que
Torneamento de aço sem nenhum refrigerante
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que os nossos materiais para ferramentas são apropriados para essa condição. Como permanentemente realizamos testes em nossos laboratórios, por exemplo com pastilhas para torneamento sem refrigeração, e nunca abandonamos o princípio de que nossas principais e mais amplas classes de pastilhas devem ser capazes de usinar tanto em condições com refrigeração quanto sem ela, não vemos necessidade de apontar p s i h se p c f c sp r t r e m n atla seíia aa onaeto sem refrigeração. Nosso desenvolvimento de coberturas de óxido de alumínio trouxe m i o b n f c o n s ec n e t .P r uts eeíis et otxo o exemplo, as pastilhas GC 4000 com cobertura de Al2O3 foram validadas como ideais para o aumento da performance do torneamento sem refrigeração. A difusão do material da pastilha no cavaco, na zona aquecida de corte, é melhor combatida com es tp d cbrua Sfcetmn se io e oetr. uiineete espessa, ela permanece resistente ao desgaste frente a temperaturas mais elevadas e protege o substrato c n r ad f r a ã p á t c .P r o i ota eomço lsia aa tmizar a adesão, aplicamos TiCN como cobertura e também desenvolvemos processos que permitem a formação modificada de substrato-estruturas de superfície para obter a propriedade de maior resistência necess r aaa g m sp s i h s ái lua atla.

A variação na temperatura é mais negativa para o metal duro que uma temperatura alta mas constante

Por que se quer tanto usinar sem refrigeração?
Além de aspectos referentes ao meio ambiente, à saúde humana e ao custo, o uso de refrigerantes na usinagem a altas velocidades (HSM) nas atuais máquinas CNC é questionável também no que se refere à performance. Primeiro, para
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que ocorra o efeito de resfriamento na zona de corte é necessário aplicar uma grande quantidade de líquido, sempre no ponto certo, durante a rápida movimentação da ferramenta. Em segundo lugar, uma zona de corte com temperatura mais baixa não é necessariamente algo vantajoso, tanto do ponto de vista da aresta de corte quanto da formação de cavacos. Um terceiro ponto é que a oscilação da temperatura durante a usinagem não faz bem à aresta de corte, como, por exemplo, no processo de fresamento, em que as pastilhas entram e saem do corte. A maior parte dos materiais das peças pode ser usinada sem refrigeração se as operações forem adaptadas para isso. Inicialmente é possível que os resultados sejam diferentes, mas também é bastante pos-

sível que se obtenha similaridade de resultados. Além da performance significativamente melhorada das classes de metal duro convencionais, houve um desenvolvimento considerável de outros materiais para ferramentas — cermets, cerâmicas, nitreto cúbico de boro e diamante — para a otimização de várias áreas, algumas das quais incluem o torneamento sem refrigeração. Os avanços tecnológicos dos revestimentos também são importantes para essas áreas. Como já tem ocorrido nessas últimas décadas na indústria metalúrgica, novos desafios surgirão, demandando novas soluções mas não necessariamente novos conceitos. A variação da temperatura é mais negativa para o metal duro que a temperatura alta porém constante.