“A condição humana” de Hannah Arendt Por Thiago Rodrigues Braga

Ao começar sua obra, “A condição humana”, Hannah Arendt alerta: condição humana não é a mesma coisa que natureza humana. A condição humana diz respeito às formas de ida que o homem imp!e a si mesmo para sobre i er. "ão condiç!es que tendem a suprir a e#ist$ncia do homem. As condiç!es ariam de acordo com o lu%ar e o momento hist&rico do qual o homem é parte. 'esse sentido todos os homens são condicionados, até mesmo aqueles que condicionam o comportamento de outros tornam(se condicionados pelo pr&prio mo imento de condicionar. "endo assim, somos condicionados por duas maneiras: ). *elos nossos pr&prios atos, aquilo que pensamos nossos sentimentos, em suma os aspectos internos do condicionamento. +. *elo conte#to hist&rico que i emos a cultura, os ami%os, a fam,lia- são os elementos e#ternos do condicionamento. Hannah Arendt or%aniza, sistematiza a condição humana em tr$s aspectos: • • • .abor /rabalho Ação

0 “labor” é processo biol&%ico necess1rio para a sobre i $ncia do indi ,duo e da espécie humana. 0 “trabalho” é ati idade de transformar coisas naturais em coisas artificias, por e#emplo, retiramos madeira da 1r ore para construir casas, camas, arm1rios, ob2etos em %eral. 3 pertinente dizer, ( ainda que sedo (, para a autora, o trabalho não é intr,nseco, constituti o, da espécie humana, em outras pala ras, o trabalho não é a ess$ncia do homem. 0 trabalho é uma ati idade que o homem imp4s à sua pr&pria espécie, ou se2a, é o resultado de um processo cultural. 0 trabalho não é ontol&%ico como ima%inado por 5ar#. *or 6ltimo a “ação”. A ação é a necessidade do homem em i er entre seus semelhantes, sua natureza é eminentemente social. 0 homem quando nasce precisa de cuidados, precisa aprender e apreender, para sobre i er. 7ualquer criança recém nascida abandonada no mato morrer1 em questão de horas. *or isso dizemos que assim como outros animais o homem é um animal doméstico, porque precisa aprender e apreender para sobre i er. A mesma coisa não acontece com aqueles animais que ao nascer 21 conse%uem sobre i er por conta pr&pria, sem a2uda. A qualidade da ação sup!e seu car1ter social ou como escre e Hannah, sua pluralidade. /anto ação, labor e trabalho estão relacionados com o conceito de “8ita Acti a”. *ara os anti%os, a “8ita Acti a” é ocupação, inquietude, desassosse%o. 0 homem, no sentido dado pelos %re%os anti%os, s& é capaz de tornar(se homem quando se distancia da “ ida acti a” e se apro#ima da ida refle#i a, contemplati a. 3 2ustamente nessa isão de mundo %re%a que os escra os não são considerados homens. 0 escra o ao ocupar a maior parte de seu tempo em tarefas que isam somente à sobre i $ncia de si e de outros, é destitu,do do conceito %re%o de homem, mas por outro lado ele não dei#a de ser humano. *ortanto, dentro dessa l&%ica s& é homem aquele que tem tempo para pensar, refletir, contemplar. 'ietzsche afirma em seu “Humano, desmasiado humano” que, aquele que não reser a, pelo menos, 9 do dia para si é um escra o. A base disso encontramos em "&crates: se é apenas para comer, dormir, fazer se#o, que o homem e#iste, então, ele não é homem, é um animal. *ois assim era isto o

<ssa é 6nica forma que o cristianismo encontra para con encer os homens a rezar. e desconsidera as diferenças sub2eti as. A ideolo%ia que atra essa os tempos modernos é a se%uinte: 7ualquer coisa que se faça tem que ser necessariamente produti o. :m animal necess1rio para à formação de “homens”.récia anti%a a ida contemplati a era destinada aos fil&sofos. =omo a intenção da autora é mostrar a fraqueza do pensamento de >arl 5ar#. 0 intelectual precisa das mãos para escre er seu pensamento. isto é. nem o deficiente f. até mesmo aqueles que são fisicamente mais fracos. A di%nidade humana s& é conquistada atra és da ida contemplati a.cito do conceito “força de trabalho” em 5ar#? =ompreende que todos tem a mesma força de trabalho. nasceu o trabalho intelectual em contraposição ao trabalho manual. e de e i er. e assim. os fil&sofos. ou se2a. 5ar# não e#plica como ele conse%ue calcular o tempo médio abstrato. Assim. ( os pr&prios fil&sofos da época ( sal a o homem de sua pr&pria animalidade.duo pode. todos os trabalhadores de em se adequar. 'a anti%uidade a escra idão é um meio de permitir que al%uns. trabalho que produz ob2etos. conse%uir maior lucro. uma ida contemplati a. faz uso das mãos. *ara os %re%os. <m suma.escra o: um animal. <nquanto na . quando colocados em pr1tica. "e%undo a autora esse conceito de trabalho produti o. na era moderna a escra idão é um meio de baratear a mão(de(obra. 7ual é o car1ter ob2eti o impl.eclodiu das mãos dos fisiocratas. ti essem o controle do corpo. ele.récia anti%a é bem diferente da escra idão dos tempos modernos. 3 ob io que uma criança não tem a mesma força de trabalho de um adulto. das necessidades biol&%icas. o valor de troca tem a 6ltima pala ra. pressup!e que todos de em ter a mesma força de trabalho. A%ora qualquer indi . 5ar# pensa a . esta a em moda na época. por e#emplos. ela diz que o conceito de trabalho usado por 5ar#. refle#i a: uma ida sem compromisso com fins pra%m1ticos. tudo de e ser transformado em mercadoria. 3 muito importante salientar que a escra idão da .a temperança. 'ecess1rio para quem? *ara todos. 5ar# conse%ue formar o conceito de “ alor de troca”. "e o tempo médio da produção de um sapato é @ horas. e não lhe prende às tarefas pra%m1ticas. sem falar nas diferenças mais minuciosas. é um conceito comum de sua época: trabalho é trabalho produti o. tempo de trabalho necess1rio dispendido para produzir um ob2eto. *ois. o tempo social? *ortanto. matéria. a escra idão. 3 dessa forma que o trabalho intelectual é inte%rado dentro do conceito “trabalho” da re olução industrial. 'esse sentido o trabalho intelectual também é trabalho manual. da. do ponto de ista de quem se beneficia dela. no cristianismo ela é destinada a todos. Hannah Arendt identifica tr$s forma dicot4micas de trabalho: • • • improduti o e produti o qualificado e não qualificado intelectual e manual. /anto um como outro.sico ter1 a mesma força. =om o a anço do processo de industrialização ha eria de desi%nar al%um nome para todo aquele trabalho que não esta a li%ado ao trabalho industrial. e ul%ariza a di%nidade humana. A reli%ião cristã toma emprestado a concepção de mundo %re%a. A escolha de 5ar# pelo uso do termo trabalho como trabalho que produz que %era. que cria.

quer dizer que eles não produzem valor de troca. ArendtD Arendt d1 al%uns e#emplos que nos pode a2udar entender o conceito de labor. não h1 valor de troca. <le quer encontrar al%uma forma para sair da ilha. 0 primeiro permite a ida. porque esse foi o lu%ar onde ele foi mais mal interpretado. 0 labor é a força dispendida para produzir o pão.o se%undo é necess1rio aos relacionamentos humanos. 8amos ima%inar aquela elha est&ria do homem que se encontra isolado. ocidental que é constituti o do capitalismo. “0 labor não dei#a atr1s de si est. não faz sentido dizer que os . 5esa: ob2eto material produzido para o uso cotidiano e ocupa lu%ar no espaço. portanto. A força de trabalho é aquilo que o homem possui por natureza. o homem se torna dependente daquilo que produz. < para a autora. A pala ra trabalho é um termo. torna(se dependente é torna(se condicionado. aquilo que Ereud chama de controle do superego sobre o id. conceito. 7uais são as condiç!es que o homem se imp!e e se submete para permanecer em sociedade. o impalp1 el no pap1 el. Aiferente do produto. < este conceito não pode ser aplicado nas sociedades não ocidentalizadas. onde o capitalismo não e#iste. sozinho numa ilha. é importante entender isso.%io permanente”. os ob2etos de uso são para o mundo do homem”. <les não trabalham. 5as não podemos esquecer que o nosso fim neste trabalho é perscrutar al%uns aspectos e ertentes que o trabalho tem na obra da escritora alemã. *eço que esqueçam do conceito valor de troca por um momento. na se%unda. <stamos num ponto delicado do nosso trabalho. Ao er um barco pela primeira ez. 0 trabalho é força %asta para produzir a mesa. ir1 trabalhar. BArendtD 0 bem de consumo é o pão e o ob2eto de uso é a mesa. "endo assim. ele forma o conceito de barco. *ortanto. 7uando 5ar# pensa que o trabalho pode ser constituti o do homem. dois dias. encontramos a 2ustificati a do nome do li ro: “A condição humana”. como entender uma realidade que tem como pedra de toque o que chamamos trabalho? *ara que o mundo d$ curso à ida é preciso transformar o abstrato em matéria. a força de trabalho não acaba quando o produto termina de ser produzido. das sociedades ocidentalizadas. como muito. Aa. B)C). .ndios não trabalham. “0 que os bens de consumo são para a ida humana. Fsso é uma necessidade humana.ndios trabalham. < para isso ele de er1 construir um barco. isto é. 7ual é a diferença entre um pão e uma mesa? A mesa pode durar anos e o pão dura. <ntão. < é isso que ser1 e#i%ido pelos propriet1rios dos meios de produção. "ociedades ocidentais e não(ocidentaisB tribaisD realizam esse processo de maneiras diferentes. cria a ima%em na mente. e#iste o valor de troca. :m ponto que é i%norado por %rande parte de estudiosos das ci$ncias. A afirmação: os . isto que durante a di%estão o pão é transformado em ener%ia do corpo.que todos de em ter a capacidade de produzir um mesmo ob2eto num tanto “#” de horas.(lo. *ão: elemento material produzido para à sobre i $ncia de seres i os e não ocupa lu%ar no espaço. <m suma. 'a primeira. a força de trabalho é aquilo que Hannah Arendt entende por “labor”. *ortanto. ele não est1 usando como pressuposto o conceito valor de troca. s& cessa com a morte. <. ima%ina um barco. ele 21 iu um barco pelo contato direto. Antes de construir o barco o homem tem a idéia do que se2a um barco. para i er em coleti idade? "e fossemos analisar essa questão mais pormenorizadamente teriamos necessariamente de falar sobre auto(repressão do prazer. apenas realizam ati idades. não realizam trabalho. para depois constru. não quer dizer que eles são pre%uiçosos.

Arendt ima%inara um trabalho industrial. enquanto o labor e#i%e o consumo r1pido ou imediato. "& assim ele poder1 trabalhar. durante a produção os homens encontram(se isolados uns dos outros. e. todos os fins tendem a ser de curta duração e a transformar(se em meios para outros fins. 8amos oltar um pouco na distinção entre trabalho e labor. o trabalho não. o alicate é usado na produção de autom& eis. )GID. 7uando o assalariado não percebe que o uso que ele faz do instrumento. “"em isolamento nenhum trabalho pode ser produzido” BArendt. /odo ob2eto antes de ser constru. e num se%undo momento temos o autom& el como meio. 0utra distinção entre trabalho e labor consiste em que. 0 que quer dizer isso? 'ão é poss. e#istir trabalho sem labor. colocar no papel uma idéiaD. é o que mantem a sa6de do indi . )GID. "e acrescentamos o valor de troca. sabe para que ser1 usado. )@GD 'enhum instrumento é produzido a bel(prazer. instrumento e ob2eto.valia. <le é um fim em relação ao alicate.duo. "ua durabilidade permite a acumulação e estoque dos ob2etos. é um meio em relação ao homem. 0 trabalhador da f1brica sabe de antemão qual ob2eto ir1 produzir. A princ. %era mais.A construção do barco dependente necessariamente do conceito barco. H1 foi dito que o labor é trabalho %asto para produção de alimentos. el. :ma ez acabada a produção do autom& el. o instrumento é apenas o meio. 3 por meio da troca de produtos. temos o trabalho capitalista. 'esse aspecto entre o meio Brecurso usado para obter um fimD e o fim. *or isso dizemos que os meios de produção são instrumentos usados para %erar mais-valia.do tem sua finalidade. isto que. em relação ao homem temos um instrumento. Bdentro dos termos de ArendtD. *ortanto. 0 homem ima%ina e depois faz. 0 instrumento é usado para produzir o ob2eto. é produzido para atender ao tipo de ob2eto dese2ado. e depois. por e#emplo. "e em relação ao alicate temos um ob2eto. Ao passo que o labor produz a matéria para incorpor1(la ao or%anismo. dizemos que ele se encontra num estado de alienação. sua utilidade. o trabalho a produz para que esta se2a usada na produção de outros ob2etos e na materialização do abstrato Be#emplo. 3 nesse sentido que Arendt fala que e#iste um processo circular entre meio e fim. 'esse sentido de trabalho.em que todo fim se torna meio e todo meio se torna fim. 0 que realmente importa ao empre%ador é o ob2eto final acabado. :sados por quem? *elo trabalhador assalariado. ( seu trabalho (. 'esse aspecto o labor é pré(requisito do trabalho. <sse e#erc. este ser e como meio de transporte.cio de ima%inar e depois construir é pr&prio do ser humano.” BArendt. temos a distinção entre ob2eto e instrumento. é nesse sentido que 5ar# diz que o homem é o 6nico animal que trabalha. que se d1 as relaç!es humanas. ( troca intermediada pelo valor de troca-. .pio temos o autom& el como fim. “"omente quando p1ra de trabalhar e quando o produto est1 acabado é que o trabalhador pode sair do isolamento” BArendt. ainda que se2a poss. A l&%ica do trabalho é a durabilidade dos ob2etos. el o in erso. Assim nos e#plica Hannah Arendt: “'um mundo estritamente utilit1rio.

* Sobre o autor /hia%o Modri%ues Nra%a é estudante de =i$ncias humanas da :ni ersidade Eederal de .htm. /endo em ista que muitos ser iços são realizados no contato direto entre os homens.mos os ser iços. . Eonte: http:JJKKK.brJa(condicao(humana(hannah(arendtt."e inclu.com.mundodosfilosofos. nem uma das afirmaç!es anteriores se sustentam. Acesso )LJC)J+C)I.oi1s.