Interação Música-Imagem1

Sérgio Basbaum Quase todo o material disponível em português sobre a questão do uso do som no cinema é bastante ingênuo. Esta aula visa mapear o território a partir dos livros de Michel Chion 2(Le son au cinema), Claudia Gorbman3 (Unheard Melodies), Caryl Flinn4 (Strains of Utopia), Noel Burch5 (Práxis do Cinema) e da experiência profissional do professor.

Diegese O conceito de diegese é importante para se definir os modos de uso da música no cinema. Diegese é, em poucas palavras o mundo definido pela narrativa, um espaço-tempo habitado por certas personagens onde acontece uma determinada história. Assim, o som pode ser: Som não diegético: • Não faz parte do contexto da cena, não está sendo executado na cena.

Som diegético: • Faz parte da cena, está sendo executado na cena (ex: uma orquestra).

Texto elaborado a partir de notas de aula da aluna Cristina Ramos a partir de aula por mim proferida em out/2003 2 Chion, Michel: Le son au cinema. Paris: Editions de l´Etoile, 1983. 3 Gorbman, Claudia: Unheard melodies. Indianapolis: Indiana University Press, 1987. 4 Flinn, Caryl: Strains of utopia. Princeton, Princeton University Press: 1992. 5 Burch, Noel: Praxis do cinema. São Paulo, Perspectiva, 1992. Este material é exclusivo para uso dos alunos do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP e do pós-graduação em Design de Hipermídia da Universidade Anhembi Morumbi. Não deve ser utilizado sem autorização dos autores.

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verificar alguns aspectos específicos de cada um destes territórios sonoros. assim. faz sentido sobretudo quando aplicada à música.diegética: • • voz on ─ o emissor está presente na cena voz off ─ o emissor faz parte da cena mas não está aparecendo em quadro naquele momento. distinguir as possibilidades do uso do som no cinema: • • • Voz Ruído Música Pode-se então. que na maior parte das vezes parece surgir sobre a cena vinda de lugar nenhum.A noção de diegético/não diegético. por exemplo). Não deve ser utilizado sem autorização dos autores. . É preciso.não diegética: • voz over ─ uma narração isolada / "voz de Deus" Este material é exclusivo para uso dos alunos do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP e do pós-graduação em Design de Hipermídia da Universidade Anhembi Morumbi. sem entrar em aspectos complexos das formas de significação da voz (expressividade. Voz De um modo simples. . podemos entender a voz como: . I. porém.

No entanto (e Merleau-Ponty não afirma nada de contrário). 7 Cytowic. Não deve ser utilizado sem autorização dos autores.guardadas as inúmeras possibilidades de significação que a música guarda. Richard: The man who tasted Shapes. neste último caso . De modo que é no tratamento do ruído ─ aparentemente objetivo ─ é que se define o que há de mais subjetivo no ambiente sonoro do cinema. A voz sabe-se que é diálogo ou narração. a realidade pode ser percebida de inúmeras maneiras. 2000. que percebemos uma ordenação do mundo que é dada já pela estrutura perceptiva de nosso corpo ─ de modo que. que é ou diegética ou não-diegética. sem data). por diferentes subjetividades. assim como a imagem é sempre um ponto-de-vista. o perceber. sugere que a consciência é um tipo de emoção: um relatório elaborado pela consciência a partir dos dados do mundo. é anterior à representação e/ou à interpretação do mundo6. . Este material é exclusivo para uso dos alunos do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP e do pós-graduação em Design de Hipermídia da Universidade Anhembi Morumbi. inclusive a do discurso subjetivo ─ sabe-se perfeitamente que a música vem de um lugar outro qualquer.II. No entanto. no início do século XX. O neurologista Richard Cytowic7 (2000). sua presença é declaradamente não-realista. já o ruído não: nós o recebemos com a mesma naturalidade com que recebemos a imagem especular e depositamos nela nossa boa-fé. Papirus Editora. Maurice: O primado da percepção e suas consequências filosóficas Campinas. o som é sempre determinação ( e determinante) de uma determinada leitura do real. Nossa consciência constrói uma representação da realidade a partir dos dados da percepção. que são inúmeros. Ruído O ruído é o que há de menos realista no cinema. Tal relevância seria determinada pelo emocional ─ isto é: são nossas emoções que definem quais as informações mais relevantes à nossa interpretação da realidade. A Gestalt já havia mostrado. MIT Press. 6 ver Merleau-Ponty. a percepção. de forma que é preciso decidir quais as informações que devem ter maior relevância. aceitando-a como real. a música. Massachussets. como enfatiza Merleau-Ponty.

dava ao imaginário status de realidade. e. de modo geral ─ sobretudo no chamado cinema clássico ─ empregam as técnicas da música tonal européia do século XIX. III. os ruídos são escolhas. e.Quanto a isso. Este material é exclusivo para uso dos alunos do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP e do pós-graduação em Design de Hipermídia da Universidade Anhembi Morumbi. Não deve ser utilizado sem autorização dos autores. é bom lembrar que o cinema nasce e evolúi ligado a uma proposição de realismo . surpreendentemente. Música x Cinema Que funções a música exerce no cinema? A música está no cinema desde sempre. É por este motivo que Michel Chion afirma que não há música de cinema. mesmo que pudesse ser suporte de fantasia. São Paulo. Neste filme. ópera. 1988) de seu uso do som em Os Pássaros (1963). porém. que. Brasiliense. e pode ser verificado em qualquer filme. Escolhas que contribuem à construção de um mundo diegético e do sentido de uma narrativa. de forma geral. é sugestivo ler a descrição que Hitchcock faz a François Truffaut (Entrevistas. As primeiras projeções públicas já contavam com acompanhamento de piano. . somente música no cinema: todas as formas de composição empregadas nos filmes já eram empregadas nestas modalidades de espetáculos. melodrama. todos os sons são minunciosamente escolhidos. No entanto. aquilo que se realiza de maneira mais transparente em Os Pássaros se realiza sistematicamente em todo a cinematografia comercial. dispensa o uso da música. como tudo mais num filme. é possível pensar que a música sempre esteve ligada a todas as formas de espetáculo existentes na Europa antes do cinema: ballet. distorcidos e editados de modo a contribuir à atmosfera de suspense sufocante que se pretende criar. À parte esta constatação.sempre se entendeu (fora de suas modalidades mais experimentais) como fotografia em movimento e. circo ou espetáculos de variedades.

em preto-e-branco.a questão da música é novamente problematizada. . cortes. À medida. porém. quais as funções que ela assume em conjunto com a imagem. criando um sentido de um espaço acúsitico (ver McLuhan. No mesmo sentido.: um linguagem visual que se faz "aos saltos". Não deve ser utilizado sem autorização dos autores. quase fantasmáticas do início do cinema). ao preencher toda a dimensão da sala. que a narrativa se desenvolve. etc. essencialmente descontínua). no texto que disponibilizei em pdf). Mais ainda. Pergunta-se. • "dá vida" (a personagens sem carne). a música adquire papéis mais especificamente narrativos: • auxilia a continuidade (entre planos distintos. As análises do contexto musical do cinema mudo sugerem que a música: • • abafa o ruído do projetor (daí favorecendo a imersão na narrativa imagética). ao final da década de 1920 . e o cinema aprende a contar histórias. acrescenta tridimensionalidade (às imagens planas.que se radicaliza com a chegada do som. ou mais decididamente semióticos: • • confere emoção. clima define tema Este material é exclusivo para uso dos alunos do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP e do pós-graduação em Design de Hipermídia da Universidade Anhembi Morumbi. então.. cumpre uma função ancestral da música em todos os rituais coletivos de muitas culturas. • aspecto coletivo / ritual.Diante deste estatuto especular .

a música nas perseguições entre gato e rato nos filmes de Tom & Jerry. o leitmotif torna-se uma ferramente fundamental no arsenal de truques do compositor de cinema (ver. para alguns casos deste tipo. De tal forma que situações onde música e imagem trazem significados conflitantes (um bom exemplo é o uso da canção Singin´in the rain em Laranja Mecânica. implica na total sincronia entre ação e narração : por exemplo. de Kubrick) geram as sínteses talvez mais poderosas em termos de força expressiva (caberia aqui ler o texto de Eisenstein O princípio cinematográfico e o ideograma. Chion também sugere. É bom também citar algumas técnicas tradicionais de composição e de uso da música em narrativas cinematográficas: • leitmotif (motivo): a associação de uma música ou fragmento musical ou melódico a determinado personagem ou situiação. Técnica introduzida por Wagner no século XIX. por exemplo No tempo das diligências. uma notícia trágica dada a uma pessoa durante um baile onde a música (diegética) sugere tudo. e a noção eiseinsteiniana de conflito na montagem)8. completamente distinta: a música re-significa a imagem e esta re-significa a música.• • caráter enunciativo e funcional define cultura (época. a noção de musica indiferente: por exemplo. menos o impacto de uma tragédia. Este material é exclusivo para uso dos alunos do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP e do pós-graduação em Design de Hipermídia da Universidade Anhembi Morumbi. • "mickeymousing" .desenvolvida sobretudo nos desenhos animados. mas numa nova significação. Não deve ser utilizado sem autorização dos autores. lugar) Neste sentido. dirigido por John Ford em 1939 com trilha de Max Steiner). 8 . é bom lembrar que a síntese de música e imagem não resulta em nada que seja a soma de um significado intrínseco da imagem ao significado intrínseco da música.

parecia sustentar a continuidade por si mesma). . nos shopping-centers. cabe lembrar que o acirramento do código realista em função da chegada do som em 1929 chega mesmo a eliminar o uso da música nos filmes (já que a continuidade da montagem clássica. chama a música de cinema de Unheard Melodies ("melodias não ouvidas"). cumpre um papel não muito diverso daquele da música que escuta no elevador. supermercados ou mesmo no ambiente de trabalho). De tal modo que Claudia Gorbman. lojas de departamento.Finalmente. sua capacidade de prover um estado de a-criticidade do sujeito. Esta música funcional.e. Esta permanece não apenas por seu papel semiótico. além de já ter instituído um código de "leitura" da narrativa cinematográfica e criado um espectador de cinema. talvez até mesmo sobretudo . num trabalho clássico sobre a música no cinema hollywoodiano. Não deve ser utilizado sem autorização dos autores. (21-22 nov/2003) Este material é exclusivo para uso dos alunos do curso de Tecnologia e Mídias Digitais da PUC-SP e do pós-graduação em Design de Hipermídia da Universidade Anhembi Morumbi.por seu poder emocional. que não se percebe conscientemente. praticamente um estado regressivo. onde a racionalidade fica em suspenso. no dentista. mas também .

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