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ANTES QUE ANOITE A

Reinaldo Arenas

Tradução de IRENE CUBRIC

2# EDIÇÃO

RECORD EDITORA RECORD # CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Arenas, Reinaldo,1943- 1990 A726a Antes que anoiteça / Reinaldo Arenas. - 2"ed. - Rio de Janeiro : Record, 1945. Tradução de: Antes que anochezca I. Arenas, Reinaldo.1943-1990. - Biografia. 2. Escritores cubanos - Biografia. I. Título. 94- I 3 I 3 CDD - 928.61 CDU - 42 (Arenas, R.)

Título original espanhol ANTES QUE ANOCHEZCA (AUTOBIOGRAFÍA) Copyright O State of Reinaldo Arenas,1992 Copyright O 'Ilisquets Editores,1993

,usow Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171- 20921-380 Rio de Janeiro, RJ - Tel.: 585-2000 que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil ISBN 85-O1-04189-0 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 - Rio de Janeíro, RJ - 20922-970 # Sumário

Introdução:OFim ..... ... .................. . ... As Pedras ........................ ............ ... O Bosque .. .... ..... ............ .. ........... O Rio........................ .................. . A Escola ....................... ............... .. O Centro .......................................... O Poço ......................... . ............. . ACeiadeNatal........................ . .......... AColheita............... ... .. ................ . O Temporal........................... ........ ... OEspetáculo.............. ... ................. .. OErotismo.............................. ......... A Violência. . . .. . .................. .. ....... A Neblina .......... ............. . .............. ANoite,MinhaAvó .. ....................... . .... A Terra .. . ... . .. . ........................ .. O Mar ............. .............................. APolítica ............. ... . ..................... Holguín ............... .................. ........ 9 # O Roça-Roça................................ ...... 59 Natal .. ... .............. . . ................... 63 Rebelde .................. .............. ......... 65 A Revolução .......... .................. ... .. ... 70 Um Estudante .. .............................. .... 72 Havana ....................................... ... 77 Fidel Castro...................................... .79 Hinos.................................... ........ 8l A Chama .. . .. . ..... ......................... 85 O Teatro e a Granja..................................88 Raúl..................................... .... ... 91 Adeus,Granja ..... ................... . .......... 94 A Biblioteca ........... ...........................100 O Instituto do Livro.................. .............. 06

As Quatro Categorias de Gays................ ........107 Virgilio Pinera......................... ............109 Lezama Lima ................. ... . ..............113 Minha Geração ...... ..............................118 Uma Viagem .......................................122 O Erotismo............................... ........125 Jorge e Margarita...................................147 Santa Maricas. .. .......................... . ....I50 Os irmãos Abreu...................... .............154 O Superstalinismo... ...............................156 A Central Açucareira ....... .. .....................160 Olga Andreu. ....... . .. .. ....................167 O"Caso"Padilla ...... . . . . ...................169 Uma Visita a Holguín .. .... . . ....................175 Nelson Rodríguez...................................180 O Casamento.... .. . ..... . .... ...............184 A Detenção ........... .. .... ..... ..............188 # A Fuga....... ........... ............ . .........192 A Captura ..... .......... .......... .............208 O Presídio ....... .......... .......... ...........210 Villa Marista. ....... .......... ........ .........233 Outra Vez El Morro ..... ........ ........ .........239 Uma Prisão"Aberta".......... ...... ....... ......249 Na Rua ... ..... . ...... . ...... ....... .......257 Hotel Monserrate ...... ...... . .......... ........271 Adeus a Virgilio ..... ....... ........ ......... ...302 Mariel ..... . .. ......... ...... . ......... ....306 Key West. ...... ...... .......... ....... .......315 Miami. ........ ......... ....... .. . .. .......317 O Exílio. ..... ......... ....... .. ..............319 As Bruxas ......... ......... . ..... . ......... .325 A Revista Mariel....... .......... ............ . .329 Viagens ... ........ ........... ..................334 A Loucura .. . ...... .......... .......... .......339 Despejo .... ....... ......... ........ ...........342 O Anúncio.... ........ ........ ........... . ....344 Os Sonhos.... ........ . ....... .......... ......345 Carta de Despedida..... ........ ............. .....351 # Introdução O Fim

u pensava que ia morrer no inverno de 1987. Durante meses, vinha tendo febres altíssimas. Consultei um médico e o diagnóstico foi AIDS. Como a cada dia eu me sentia pior, comprei uma passagem para Miami e resolvi morrer perto do mar. Não em Miami especificamente, mas na praia. No entanto, parece que tudo o que a gente deseja, por uma espécie de burocracia diabólica, custa muito a chegar, inclusive a própria morte. Na verdade, não posso afirmar que quisesse morrer, mas considero que quando não existe outra opção a não ser o sofrimento e a dor sem esperança, a morte é mil vezes melhor. Por outro lado,

uns meses atrás, eu havia entrado num mictório público e não experimentei aquela sensação de expectativa e cumplicidade que costumava ocorrer. Ninguém ligou para mim, e os que ali se encontravam continuaram com seus jogos eróticos. Eu já não existia. Não era jovem. Naquele lugar, pensei que a morte era o melhor que pudesse me acontecer. Sempre considerei o fato de mendigar como um ato miserável e a vida como um favor. Ou se vive conforme se deseja, ou é melhor acabar com a vida. Em Cuba, eu tinha suportado inúmeros sofrimentos, pois a esperança de fuga e a possibilidade de salvar meus manuscritos sempre me deram um grande estímulo. Agora, a única fuga que me restava era a morte. 9 # Quase todos os manuscritos, enviados para fora de Cuba, haviam sido corrigidos por mim e se encontravam nas mãos de amigos, ou então já tinham sido publicados. Durante seis anos de exílio, eu também havia escrito um livro de ensaios sobre a realidade cubana, Netesidad de libertad; seis peças de teatro publicadas com o título de Persecución; e tinha colocado um ponto-final em El portero, embora já me sentisse doente ao escrever tal obra. No entanto, lamentava morrer sem haver terminado minha Pentalogia, um ciclo de cinco novelas, das quais já havia publicado Celestino antes del alba, El palacio de las blanquisimas mofetas e Otra vez el mac Lamentava também ter de deixar alguns amigos, como Lázaro, Jorge e Margarita. Lamentava a dor que minha morte iria causar a todos eles e à minha mãe. A morte, porém, aí estava, e não havia outra atitude a tomar. Ao saber que eu estava muito mal, Lázaro foi de avião até Miami e me trouxe inconsciente ao New York Hospital. Foi o maior problema, segundo ele mesmo me contou, para que me aceitassem no hospital, pois eu não tinha nenhum seguro-saúde. A única coisa que trazia comigo era a cópia do testamento que havia enviado a Jorge e Margarita em Paris. Enquanto eu me encontrava em estado pré-agonizante, os médicos negavam minha entrada, já que não tinha como pagar. Felizmente, havia um médico francês que Jorge e Margarita conheciam e que ajudou na minha internação. De qualquer maneira, conforme me disse outro médico, o Dr. Gilman, eu tinha apenas dez por cento de chances de sobreviver. Fui colocado na sala de emergências, onde todos estávamos em estado de agonia. De todas as partes de meu corpo, saiam tubos: do nariz, da boca, dos braços. Na verdade, eu parecia mais um ser de outro planeta do que um doente. Não vou contar todas as peripécias pelas quais passei no hospital. O fato é que não morri naquele momento, como todos esperávamos. O mesmo médico francês, aliás excelente compositor, chamado Dr. Olivier Ameisen, propôs que eu escrevesse as letras de umas canções para ele compor a melodia. Mesmo com todos aqueles tubos e um aparelho de respiração artificial, rascunhei o texto de duas canções. A toda hora, 10 # Olivier vinha até o quarto do hospital onde estávamos morrendo para cantar as canções de nossa parceria. Trazia sempre um sintetizador eletrônico, instrumento musical que produzia todo tipo de notas e imitava qualquer outro instrumento. A sala de emergências passou a ecoar com as notas do sintetizador. Acho que Olivier era

fiquei sozinho. eu mexia os tubos colocados em meu corpo e ele lia outro. eu só conseguia balbuciar minhas respostas. pelo menos. pois eu havia sido convidado a participar do programa Apostrophe na televisão francesa. Depois. Considerei essa tarefa como uma obrigação. o estímulo dos meus amigos Jorge e Margarita foi de . Com muito esforço consegui chegar. transmitido ao vivo para toda a Europa. Logo em seguida chegou René Cifuentes. minha autobiografia em Cuba. comecei a tirar a poeira que cobria tudo. a noite se aproximava novamente de uma forma mais iminente. ali tinha um pouco de paz. pois era óbvio que alguém havia colocado aquele veneno para que eu o tomasse. abria o livro ao acaso e lia uns poemas para mim. consegui escrever num bloquinho minha opinião a respeito das composições de Olivier. Chegava com uma antologia poética. recebi alta. que infelizmente situava-se no sexto andar de um prédio sem elevador. Depois. Elportero saiu publicado na França. na verdade.muito mais talentoso como músico do que como médico. pois precisava escrever antes que escurecesse. e Lázaro ajudou-me a subir até o meu apartamento. Tratavase do programa cultural de maior audiência na França. O título era Antes que anoiteça. Após três meses e meio. Foi assim que a tradução de El portero chegou ao fim. Lázaro vinha sempre me visitar. agora já podia falar. 11 # As dores eram terríveis e o cansaço imenso. No início. para que a transcrevesse. Eu já tinha gravado mais de vinte fitas e ainda não anoitecera. E foi assim que continuei trabalhando em minhas memórias. Lázaro retirou-se na mais profunda tristeza. quando o poema não me agradava. descansava e recomeçava. como o tubo havia sido retirado de minha boca. Eu já havia iniciado. Não podia dar tamanho prazer a quem havia deixado o envelope no meu quarto. já que eu me encontrava escondido num bosque. com certo esforço. Estava traduzindo EI portero para o francês. junto com mais dois. No entanto. que me ajudou a limpar o apartamento e a fazer compras para ter o que comer. e me pedia conselhos sobre certas palavras mais difíceis. Agora. Antonio Valle. Foi um sucesso de crítica e público. Como não tinha forças para me sentar à máquina. Era a noite da morte. Agora tornava-se imperativo que eu concluísse minha autobiografia antes que anoitecesse. Falava durante certo tempo. Mal conseguia andar. Himno. para o prêmio Medici Internacional. Aceitei o convite sem saber se eu seria capaz de descer as escadas da minha casa e chegar até o avião. como veremos adiante. Tropecei então na mesinha-de-cabeceira e pisei num envelope onde havia um veneno contra ratos chamado Troquemichel. Logo em seguida. continuava vivo porque aquela máquina respirava por mim. Claro que eu não podia falar. O fato me encheu de fúria. Na primavera de 1988. tendo na boca um tubo conectado aos pulmões. Eu gostava muito daquelas canções: uma chamava-se Unaflor en la memoria e a outra. melhorei um pouco e fui levado para um quarto particular. Além disso. Gravava uma fita e a entregava a um amigo. comecei a registrar num gravador a história da minha própria vida. A editora me mandou uma passagem de avião. Decidi na mesma hora que o suicídio que eu planejara tinha de ser adiado. Embora não pudesse me mexer. era ótimo estar num quarto. Jorge Camacho me telefonava de Paris toda semana. O livro ficara entre os finalistas. no entanto.

minha mãe chegou de Cuba. Consegui sair e segui para a Espanha. Em seguida. de Cirilo Villaverde. O mesmo médico que me tratava. Não tive outra opção e viajei para Miami. naquela ocasião sobrevivi a todas essas doenças. Ninguém sabia que enquanto me apresentava naquele programa. comecei a escrever El color del verano. Minha mãe não percebeu que eu estava morrendo e fui com ela fazer todas as suas compras. de modo a ser mandado para fora do país. Chegando a Nova York.toquei no assunto. onde meus textos podem ser consultados. O que aconteceu foi bem diferente. flebite e algo ainda mais horrivel chamado toxoplasmose. La loma del Ángel. com uma daquelas licenças concedidas por Castro a certas pessoas para arrecadar dólares. muito pelo contrário. tratava-se de um manuscrito escrito em Cuba às pressas. a mesma que já tivera anteriormente. No hospital. Dr. mas resolvi chegar até onde fosse possível. eu também fazia a revisão da excelente tradução de Liliane Hasson de um texto meu. solicitando-lhe um plebiscito. que consiste no envenenamento do sangue no cérebro. e continuei redigindo a El color del verano. com mais de uma hora de duração. inclusive as de oito . uma paródia sarcástica e amorosa de Cecilia Valdés. pelo menos. O que Roberto e María fizeram foi um verdadeiro trabalho de tradução para o espanhol de uma língua quase ininteligível. ou. Nada comentei a respeito da minha doença. Não comecei esse texto (para mim fundamental dentro do ciclo) por uma questão de princípio. Sobrevivi à pneumonia. mais ou menos no estilo do 13 # que fizera Pinochet. Eu trabalhava também com Roberto Valero e María Badías na revisão da quinta novela da Pentalogia. olhava-me com tanta pena que. conseguimos inúmeras assinaturas. Agora. a carta seria enviada assim mesmo. Ao sair do hospital. Tinha enfiadas nas mãos várias agulhas com soro. peguei outra pneumonia. avançavam a passos largos. o que me dificultavaescrever. tivemos a idéia de redigir uma carta aberta para Fidel Castro. Cheguei a Paris e me apresentei no programa. tais como câncer (sarcoma de Kaposi). ao estado de perigo maior. Ha inan. Passei uns dias em Paris e voltei para minha autobiografia. Eu precisava terminar minha Pentalogia. O fato é que a novela foi passada a limpo e aumentou bastante meu texto original na biblioteca Firestone da Universidade de Princeton. com nossos dois modestos nomes.grande ajuda. Enquanto me encontrava na casa de Jorge (estávamos no outono de 1988).segundo semestre de 1990 . mas no próprio hospital contraí outras doenças terríveis. pois o meu corpo estava mais debilitado. era eu quem o consolava. Jorge me disse que iria datilografar a carta e ambos iniciamos essa tarefa. é claro. assinamos. De qualquer forma. Ao mesmo tempo. El asalto. para respirar ar puro na casa de campo de Jorge e Margarita. desta introdução). Mesmo se não conseguíssemos outras assinaturas. terminei minha autobiografia (com exceção. Tive novamente umaespécie de pneumoniachamada FCP. mas sim por causa de um capítulo intitulado As "tortiguaguas". eu estava à beira da morte. eles não diminuíam. Quanto aos meus problemas de ordem física. fui direto para o hospital. as possibilidades de escapar com 12 # vida eram menores. Na realidade. às vezes. Naquele período. Em Miami. e nem naquela êpoca .

a Castro só resta agora uma saída: o diálogo com o exílio para continuar no poder. finalmente. Obviamente. Tivemos um trabalho enorme. O mais incrível é que vários exilados. com toda a sua generosidade. sabendo (como todós sabem) que Castro não largará o poder de livre e espontânea vontade. demagogos e covardes. eu mal podia falar. o povo derrubará Castro e a primeira coisa que deverá ser cumprida será acusar todos aqueles que colaboraram impunemente com o tirano. ninguém consegue se entender quanto ao rumo e . irá enforcá-los. tudo escrito de uma forma imaginativa e informal. os ambiciosos com desejo de aparecer. Além do mais. tive que aparecer na televisão. A obra se desenvolve em meio a um grande carnaval. estão os agentes de Castro fora e dentro de Cuba. especialmente minha juventude. Algum dia. ainda não havia terminado El color del verano. pois meu apartamento ficou lotado de fotógrafos e jornalistas. estão a favor do diálogo. e. os canalhas que pensam "arrancar alguma migalha" com esse negócio de diálogo. considerados intelectuais. Voltando ao plebiscito. são tão culpadas quanto os carrascos que torturam e assassinam o povo. Todos esses figurões que sonham em aparecer nas telas de televisão de mãos dadas com Fidel Castro. pois necessita apenas de uma trégua e de ajuda econômica para se fortalecer. As pessoas que promovem um diálogo com Castro. Conta também a história de um ditador velho e senil. numa relação desproporcional à sua população. talvez até mais. também assinaram vários presidentes constitucionais e inúmeros intelectuais de todas as tendências políticas. devem ter sonhos mais realistas: devem 14 # sonhar com uma corda na qual ficarão pendurados no parque Central de Havana. Em alto-mar. não terá havido nenhum derramamento de sangue. naquela casa onde não havia nem água corrente nem luz elétrica. finalmente. trabalhando a seu favor. mesmo assim. que resume grande parte da minha vida. e seus membros se fazem passar até por presidentes de comitês de direitos humanos. É assim que vão morrer e. durante o qual o povo consegue soltar a ilha de sua plataforma insular e vai embora com ela como se fosse um barco. e depois de "filhos da puta".personalidades agraciadas com o prêmio Nobel. Este tema representa um tabu para quase todos os cubanos e para quase todo o gênero humano. ingenuamente. pois o povo de Cuba. Acarta foi publicada nosjornais e representou um golpe terrível para Castro: revelou que sua ditadura era ainda pior que a de Pinochet e ele jamais permitiria que se realizassem eleições livres. pois o câncer já se espalhara pela minha garganta. pois Cuba é um país que produz canalhas. marginais. Tudo isso me trouxe mais problemas de natureza prática. pelo menos em relação a eles. É claro que Castro criou comitês pró-diálogo. pretendem manter um diálogo com Castro. De um lado. ao chegar o momento da verdade. mas no exterior pode-se optar por uma certa dignidade política. tornando-se assim figuras políticas relevantes. do outro. e aborda o tema do homossexualismo. Todos aqueles que. em Cuba vive-se num clima de absoluto terror. Talvez esse ato de justiça sirva de exemplo para o futuro. deveriam lembrar-se de sua reação diante da carta: primeiro chamou todos os signatários de "agentes da CIA" . Isso significa desconhecer completamente a personalidade de Castro e suas ambições. de fato.

Eu lhe disse o seguinte: . pois não sei o que é. Quando voltei do hospital para meu apartamento. Já se passaram quase três anos desde aquele pedido desesperado. preciso de mais três anos de vida para terminar minha obra. Percebo que estou quase chegando ao fim dessa apresentação. Por outro lado. com toda a certeza. não pode ser destruída assim tão facilmente. Acho que o rosto de Virgilio assumiu um arde profundaseriedade. que na verdade é o meu fim. Quanto à humanidade. por não ter plataforma. fui me arrastando até uma fotografia de Virgilio Pinera que está na parede. e não falei da AIDS.Ouça bem o que vou lhe dizer. Valeu a pena ter sofrido tanto. a classe reacionária que está sempre no poder. Meu fim é iminente. afunda no mar. Realmente. Ninguém sabe. a pobre humanidade. que sairá em breve. Enquanto escrevia essa obra de mais de seiscentas páginas. ele morreu em 1979. os governantes do mundo inteiro. nunca se conheceu uma calamidade tão invulnerável. e a Ilha. devem sentir-se muito satisfeitos com essa história de AIDS: uma grande parte da população marginal que deseja apenas viver e. mas a AIDS em si parece um verdadeiro segredo de Estado. Obrigado. como todo o natural não é perfeito. e os poderosos em qualquer tipo de sistema. que está sendo impressa. Há mais uma coisa: vou embora sem ter que passar primeiro pelo insulto da velhice. podem ser combatidas e até mesmo eliminadas. Nova York. em meio àquele tumulto todo. A AIDS é um mal perfeito porque está fora da natureza humana. Espero manter a lucidez até o último instante. Tamanha perfeição diabólica nos faz pensar na possibilidade de algum tipo de intervenção do homem em sua invenção. As doenças são produto da natureza e. como se o que eu estava pedindo fosse algo extraordinário. irá desaparecer com essa calamidade.1990 16 # As Pedras . Não posso fazer isso. Ocorre então a maior confusão no estilo cubano. representa um enigma.quanto ao tipo de governo que vão instituir. Virgilio. por isso mesmo. que representa minha vingança contra quase todo o gênero humano. também fiz a revisão da trilogia poética chamada Leprosorio. O que posso assegurar é que não se trata de uma doença no estilo de todas as outras já conhecidas. Koch. passa a ser inimiga de todo dogma e da hipocrisia política. por isso mesmo. de El portero. o império stalinista. Tratam 15 # das doenças relativas à AIDS. pois pude testemunhar a queda de um dos impérios mais sinistros da história. e da excelente tradução para o inglês de Dolores M. e a sua função é acabar com o ser humano da maneira mais cruel e sistemática possível. Visitei inúmeros médicos e para todos eles.

vacas. A primeira coisa que saiu foi uma enorme lombriga. era um homem alto e louro. enfiou a mão numa sacolinha. este. Fiquei com muito medo daquela lombriga. apesar das pedras. continuou andando. nem tive tempo de ir até a casinha que ficava do lado de fora e usei o urinol que se encontrava debaixo da cama onde eu dormia com minha mãe. Minha avó e todos em casa sempre me educaram com um ódio enorme para com meu pai. Só desfrutou do seu amor durante poucos meses. e quando chegamos à casa da minha tia entendi que aquele homem era meu pai. minha avó. fiquei com uma terrivel dor de barriga.i u tinha dois anos. inclinava-me e lambia a terra do chão. este. e que pulava dentro do urinol. Alguém ralhava com a gente porque comíamos terra. Quando eu tinha três meses. porcos. a roça era o lugar onde dormiam os animais: cavalos. como uma centopéia. por causa das lombrigas que cresciam em meu estômago. três meses depois. vimos um homem que vinha em nossa direção. Lembro que me ensinaram uma música que contava a história de um filho. cada vez mais perto de nós. A canção terminava assim: O e e É menino cresceu eficou homem na guerra foi lutar por vingança matou o pai. apaixonou-se por minha mãe. ovelhas. Nunca mais o . que também tinha dois anos. estava furiosa por ter sido expulsa do seu elemento de maneira tão violenta. mas acredito que esse lugar ficava ao norte da província de Oriente. Naquela época. a deixou. comigo. De repente. 17 # Minha mãe passou a morar na casa dos sogros. deu-me dois pesos. minha mãe voltou para a casa dos meus avós. A roça ficava pertinho da casa. O primeiro sabor do qual me lembro é o sabor da terra. Minha mãe era uma mulher muito bonita e solitária.era essa a palavra . Meu pai era um aventureiro. minha mãe e eu estávamos andando até a casa de uma das minhas tias. de tanto comer terra. Eu cantava essa canção na presença de toda a família. porque ele tinha enganado . minha mãe ficou furiosa. foi lá que esperou durante um ano. Eu comia terra com minha prima Dulce María. tentando entrar na minha barriga. no campo. mas com uma barriga enorme. acariciou meus cabelos e saiu correndo. assim que fazem osfilhos que sabem amar Um dia. Conheceu apenas um homem: meu pai. Perto do rio. começou a apanhar pedras no rio e atirá-las na cabeça daquele homem. de pé. que eu via agora todas as noites. galinhas. fruto do seu fracasso. Comíamos a terra na roça da casa. Quem seria essa pessoa? Minha mãe. logo depois de engravidá-la. que ouvia encantada. Chegou até onde eu me encontrava. Não me lembro do lugar onde nasci. uma das minhas tias. Durante o resto do caminho. era um bicho roxo com muitas patas. "pediu-a" à minha avó e. meu avô? Um dia. tinha desaparecido. a canção era muito popular e contava as peripécias de uma mulher ultrajada pelo amante. enquanto eu abraçava minha mãe. mas meu pai nunca voltou. nunca conheci a família do meu pai.minha mãe. Eu era um menino fraco. esse filho matava o pai para vingar a mãe abandonada. Estava nu. minha mãe chorou. com certeza. antes que uma pedra o machucasse.

e que não morava sozinha. para "abusar dela". com um filho. Quando um homem a convidava para dançar. era minha avó quem "segurava o leme da casa". por sorte. antinatural e cruel. outras consideradas solteironas. Naquela época. ela me carregava no colo. lembro-me de que. já na cama. para usar suas próprias palavras. obviamente. percebi que minha mãe pensava em se suicidar e fui eu quem frustrou seu plano. Minha mãe talvez pensasse encontrar naqueles bailes um homem sério. mas sempre agia com tanta violência que eu pulava por trás dos seus ombros e caía de cabeça para baixo. Quando alguém convidava minha mãe para tomar cerveja. eu não bebia. Uma noite. Também morava uma nora. Mais tarde. mas seus 19 # movimentos eram tão rápidos para dar impulso à rede que eu acabava sempre caindo no chão. ou talvez naquela hora mesmo. Não podia tomar nenhuma decisão. porque já tinham mais de trinta anos. Às vezes me balançava numa rede de pano. uma castidade amarga e. nem mesmo a seu respeito. tão jovens quanto minha mãe. A castidade da minha mãe era pior do que a de uma virgem. naquela época. a todas aquelas quedas. não encontrou ou não quis encontrar. Não sei se minha mãe gostava de mím. como se dizia naquela época. As tias casadas também vinham passar longas tem- . era. minha tia pediu aquele dinheiro emprestado à minha mãe e não acredito que o tenha devolvido. Quando um homem se aproximava. porque já experimentara o prazer durante alguns meses e desistira desse prazer para o resto da vida. minha mãe só podia ser muito desconfiada. Nós nos abraçamos e comecei a chorar. Nessa casa moravam também outras mulheres: tias solteiras. ao fim da dança. como chamavam os sorvetes feitos de gelo raspado com xarope de groselha. que se casasse com ela. era esta quem exercia as funções de dona da casa. ela sempre me levava.encontrei. essa mulher era a mãe de Dulce María. eu ficava sentado num banco. minha mãe voltava e se sentava a meu lado. Acho que minha mãe foi sempre fel à infidelidade do meu pai e escolheu a castidade. como costumavam dizer. sem experiência e morando na casa da minha avó. sobrevivi. abandonada por um filho dos meus avós. Minha mãe era uma mulher "abandonada". Íamos juntos aos bailes. mas o pretendente da minha mãe tinha que pagar muitos rayados. Tudo isso provocou-lhe uma grande frustração. o casamento era para as mocinhas e ela havia sido enganada. 18 # Portanto. porém. acho que ela também chorou e me disse para esquecer aquela pergunta. barrigudo e com a cabeça muito grande. uma cabana típica de Cuba. pois naquela época tinha apenas vinte anos. jovem. era de terra. o piso da casa. Ela me perguntou se eu ficaria muito triste caso ela morresse. Minha mãe era uma mulher solteira. Acredito ser esse o motivo pelo qual minha cabeça ficou cheia de galos. e nem os dois pesos. Eu continuava sendo um menino feio. não acho que minha mãe tivesse muita prática para cuidar de um filho. embora eu só tivesse uns quatro anos. minha mãe me fez uma pergunta que me deixou muito perturbado naquele momento. ela também me levava. Dificilmente encontraria outro marido. quando eu chorava.

poradas lá em casa; vinham com os filhos, mais velhos que eu, que sentia muita inveja deles porque tinham um pai conhecido, o que lhes dava uma desenvoltura e uma segurança que nunca consegui experimentar. Quase todos esses parentes moravam perto da casa da minha avó. Às vezes, vinham de visita e minha avó preparava um bolo; e tudo virava festa. Na mesmacasa também morava minha bisavó, uma anciã que mal se mexia e passava a maior parte do tempo recostada num banquinho, ao lado de um rádio que nunca ouvia. O centro da casa era minha avó, que urinava em pé e falava com Deus; sempre acertava as contas com Deus e a Virgem a respeito de todas as desgraças que tínhamos de agüentar: as secas; os raios que fulminavam uma árvore ou matavam um cavalo; as vacas que morriam de alguma doença contra a qual não se podia fazer nada; as bebedeiras do meu avô, que chegava e a espancava. Minha avó tinha onze filhas solteiras e três filhos casados; com o tempo, aquelas filhas foram encontrando maridos provisórios que as levavam embora e, exatamente como aconteceu com minha mãe, poucos meses depois as abandonavam. Eram mulheres atraentes, mas, por alguma razão fatal, não conseguiam segurar homem nenhum. A casa dos meus avós ficava repleta de filhas barrigudas ou de crianças choronas como eu. Minha infância foi um mundo povoado de mulheres abandonadas; o único homemdacasaera meu avô. Ele tinha sido um conquistador, mas agora estava velho e calvo. Ao contrário da minha avó, meu avô não falava com Deus, mas falava sozinho; no entanto, às vezes, olhava para o céu e 20 # proferia alguma maldição. Ele tivera vários filhos com outras mulheres do lugar que, com o tempo, também vieram morar na casa. Foi quando minha avó resolveu não dormir mais com meu avô; assim, ela praticava também a abstinência e sentia-se tão desesperada quanto as filhas. Meu avô tinha seus acessos de raiva; deixava de falar com todo mundo, desaparecia de casa e ia para a montanha, onde passava semanas inteiras dormindo debaixo das árvores. Dizia que era ateu e, às vezes, ficava xingando o nome da mãe de Deus. Talvez fizesse tudo isso para aborrecer minha avó; quanto a ela, estava sempre ajoelhada em pleno campo, suplicando aos céus para lhe concederem alguma graça; o que, geralmente, nunca acontecia.

21 # O Bosque

Creio que o esplendor da minha infância tenha sido único pois se desenvolveu na mais absoluta miséria, mas também na mais absoluta liberdade; em campo aberto, cercado de árvores, bichos, aparições e pessoas que eram indiferentes em relação a mim. Minha existência não era sequerjustificada e ninguém se importava. Isso

facilitava enormemente minhas fugas sem que ninguém se preocupasse com o local do meu esconderijo ou com a hora da minha volta. Eu andava por cima das árvores; de lá, as coisas pareciam muito mais belas e a realidade tornava-se muito mais íntima; percebia-se uma harmonia impossível de se desfrutar quando eu me encontrava embaixo, em meio à algazarra das minhas tias, os berros do meu avô e o cacarejar das galinhas... As árvores têm uma vida secreta que só pode ser decifrada por aqueles que conseguem subir até o topo; trepar numa árvore significa ir descobrindo todo um mundo único, rítmico, mágico e harmonioso; lagartixas, insetos, pássaros, todos eles seres aparentemente insignificantes, que vão nos comunicando seus segredos. Uma vez, caminhando entre aquelas árvores, descobri o feto de uma criança; com toda a certeza, havia sido jogado no meio do mato por uma das minhas tias que abortara, ou que, simplesmente, não queria ter mais filhos. Agora tenho minhas dúvidas a respeito e não sei se aquele corpinho coberto de moscas era realmente um feto ou o cadáver de uma criança recém-nascida. De qualquer maneira, 22 # acho que se tratava de um primo meu com quem não ia poder brincar. A casa da minha avó se enchia de primos, que vinham com as mães para as festas de fim de ano. Em outras ocasiões, uma das tias aparecia fugida do marido, após ter levado uma surra descomunal; depois, quando voltava para o marido, deixava um dos filhos aos cuidados de minha avó. Quase sempre costumava haver um primo da minha idade na casa. Havia sempre uma atividade incessante: minhas tias lavavam a roupa, varriam o chão, sacudiam a poeira, passavam a ferro, em meio a uma gritaria constante. Minha avó reinava na cozinha; nenhuma das minhas tias jamais aprendeu a cozinhar; minha avó nunca permitiu. A cozinha era o lugar sagrado onde ela atuava diante do fogão alimentado com lenha seca que eu ajudava a catar. Embora a casa estivesse sempre repleta, eu sempre me oferecia para buscar lenha a fim de ficar sozinho na montanha, no bosque ou no rio. Acho que a época mais fecunda da minha criação foi a infância; foi um mundo dacriatividade. Para preencher aquela solidão tão profunda que eu experimentava em meio a tanto ruído, povoei todo o campo, aliás bastante raquítico, com personagens e aparições quase míticas e sobrenaturais. Uma das personagens que eu via com enorme clareza todas as noites era um velho que rolava um aro, debaixo da imensa mata que crescia em frente à casa. Quem era aquele velho? Por que ficava rolando aquele aro i que parecia uma roda de bicicleta? Era o horror que me aguardava? ; O horror que aguardava toda a vida humana? Era a morte? A morte sempre esteve muito próxima de mim; tem sido uma companheira tão fiel que às vezes lamento ter de morrer, pois então talvez a morte me abandone. Aos cinco anos, contraí uma doença mortal: meningite. Quase ninguém conseguia sobreviver a essa doença; os gânglios da cabeça incharam, eu não podia mexer o pescoço e tinha febre altíssima. Como curar, ou pelo menos combater aquela doença no campo, sem cuidado médico, sem nenhum tipo de medidas sanitárias? Minha avó levou-me a um centro onde atendia um espírita famoso de uma aldeia chamada Guayacán; o homem chamava-se Arcadio Reyes. Ele fez uns despachos e me deu um frasco de água chamada Água 23

# Medicinal, benzida por ele; receitou também remédios que foram comprados na aldeia. Enquanto me benzia, ele me dava uns tapinhas nas costas e em todo o corpo com umas plantas; fez também uma espécie de xarope com as mesmas ervas, dizendo que era preciso tomá-lo emjejum. Fiquei bom. Também fiquei bom quando o galho mais alto da árvore na qual eu estava trepado se quebrou e caí no chão em meio aos gritos da minha mãe, quejá me considerava morto. Também escapei são e salvo quando caí do potro selvagem que estava tentando domar e bati com a cabeça nas pedras; e também fui salvo quando caí no fundo do poço, o qual, por sorte, estava cheio de água. Meu mundo continuava sendo o do bosque e do telhado dacasa, onde eu vivia trepado, correndo o risco de quebrar o pescoço; mais adiante, estava o rio, mas para chegar até lá não era fácil; era preciso atravessar toda a montanha e aventurar-se por lugares completamente desconhecidos para mim. Eu sempre ficava com medo, não dos animais selvagens nem dos perigos reais que pudessem me ferir, mas sim dos fantasmas que apareciam a toda hora: aquele velho com o aro na mata e outras inúmeras aparições, como uma velha com um enorme chapéu e dentes gigantescos que vinha chegando, não sei como, pelos dois lados, enquanto eu permanecia no centro. Costumavam contar que, de um lado do rio, saía um cão branco, e quem o visse morreria.

24 # O Rio

Com o tempo, o rio se transformou para mim no lugar dos maiores mistérios. Aquelas águas fluíam atravessando as mais intrincadas curvas, despenhando-se e formando charcos escuros que chegavam até o mar; aquelas águas não voltavam. Quando chovia e havia um temporal, o rio retumbavae seu estrondo chegava até a casa; era um rio enfurecido e extremamente rápido que arrastava tudo. Mais tarde, consegui chegar mais perto e nadar em suas águas; chamava-se rio Lírio, embora eu nunca tivesse visto um único lírio em suas margens. Foi esse rio que me ofereceu uma imagem que jamais esquecerei; era dia de São João, festa em que todos no campo costumam tomar banho no rio. A antiga cerimônia do batismo transformava-se numa festa para os nadadores. Eu caminhava pela margem, junto com minha avó e outros primos da minha idade, quando enxerguei mais de trinta homens tomando banho completamente nus. Todos osjovens do lugarencontravamse ali, pulando na água. Ver aqueles corpos, aqueles sexos, foi para mim uma revelação: eu gostava de homens, sem dúvida nenhuma; gostava de vê-los sair da água, correr entre os troncos, subir nas pedras e pular; gostava de ver aqueles corpos escorrendo, ensopados, com o sexo brilhando. Aqueles jovens afundavam na água e voltavam à tona, atirando-se despreocupados nas águas do rio. Com

meus seis anos, eu os contemplava, encantado, e permanecia extático diante do mistério glorioso da beleza. No dia seguinte, descobri 25 # o "mistério" da masturbação; de início, com seis anos, era óbvio que eu não conseguia ejacular; no entanto, pensando naqueles rapazes nus, comecei a esfregar meu sexo até o espasmo. O gozo e a surpresa foram tão intensos que pensei que fosse morrer; eu desconhecia a masturbação e pensava que tudo aquilo não fosse normal. Apesar de achar que pudesse morrer a qualquer momento, continuei me esfregando, faltando pouco para desmaiar. Naquela época, uma das minhas brincadeiras solitárias era a dos objetos: um grupo de garrafas vazias de todos os tamanhos representava uma família, ou seja, minha mãe, minhas tias, meus avós. Aqueles objetos transformaram-se subitamente em jovens nadadores que se atiravam no rio enquanto eu me masturbava; no fim, um daqueles rapazes me via, apaixonava-se por mim e me levava até o mato; o paraíso era completo e meus espasmos tornaram-se tão frequentes que acabei ficando com enormes olheiras, extremamente pálido, e minha tia Mercedes temia que eu estivesse novamente com meningite.

26 # A Escola

Aos seis anos, comecei a ir à escola; era a escola rural número 91 da aldeia chamada Perronales, onde morávamos. Por toda a aldeia, cheia de planícies e colinas, passava uma rua principal, simples esplanada de terra, que terminava na aldeia de Holguín, situada a umas quatro ou cinco léguas de distância. Perronales ficava entre Holguín e Gibara, um porto marítimo que eu ainda não havia visitado. A escola ficava longe de casa e eu tinha que chegar até lá a cavalo. Foi minha mãe quem me levou quando fui pela primeira vez. A escola era uma construção de folhas de palmeiras com teto de sapé, exatamente como a cabana onde morávamos. A professora era de Holguín; ela tinha que pegar um ônibus, ou guagua, como se diz em Cuba, e depois andar a pé vários quilômetros; logo no início do rio Lírio, um dos alunos mais velhos vinha buscá-la a cavalo e a levava até a escola. Era uma mulher dotada de uma sabedoria e de uma candura inatas; tinha o dom, e nem sei se ainda existe nas professoras de hoje em dia, de se comunicar com cada aluno, ensinando em todas as turmas do primeiro ao sexto grau. As aulas duravam mais de seis horas e nos fins de semana havia uma espécie de noitada literária que se chamava "O Beijo à Pátria". Ao saudar a bandeira, cada aluno devia recitar um poema que havia decorado. Eu me esforçava muito para recitar meu poema, embora sempre errasse. Uma vez, a turma morreu de rir: ao recitar o poema "Os dois príncipes", de José Martí, ao invés de

O ato consumado. jogos típicos da infância atrás dos quais oculta-se o desejo. que comia terra como eu. ou se a verdadeira excitação provinha de ver os outros atuando. O sexo de Orlando me fascinava e ele revelava o maior prazer em mostrá-lo para mim sempre que possível. o capricho e até mesmo o amor. a penetração recíproca. A seriedade daquele poema. as porcas. as éguas. de tamanho considerável. as cabras. montado em seu cavalo. nem consumamos o ato. Eu tinha uns oito anos e ele doze. mas nunca chegamos a praticar a penetração. exibindo aquela maravilha a quem quisesse admirá-la. pelo menos a amizade deles me serviu para entender que as masturbações solitárias que eu praticava não eram tão insólitas e nem iam provocar a minha morte. Devo esclarecer que comer terra não representa nenhum fato literário nem sensacional. quando fui ficando um pouco mais velho. minha prima. no campo. Guillermo. para todos nós. Naquele período. agitado. aquelas brincadeiras prolongaram-se durante meses. Depois. Minha prima e eu brincávamos de médico atrás da cama e não me lembro por qual estranha prescrição acabávamos sempre nus e abraçados. Logo me apaixonei por alguns colegas meus. eu falei: "entra e sai um cão magro". na prática. minha primeira relação sexual com outra pessoa 28 # não foi com um daqueles rapazes. Talvez tudo fosse provocado pela curiosidade obscena devida à nossa precocidade. O mais atrevido era Darío. os garotos da escola. era algo grande. violento. realizouse com meu primo Orlando.27 # dizer o verso "entra e sai um cão triste". o cachorro magro e pulguento da nossa casa. Nunca chegamos a ter relações eróticas. apenas olhares e brincadeiras com as mãos. era preciso comer alguma coisa e como o que havia era terra. Apesar de não ter tido relações com aqueles garotos. o máximo que chegávamos a fazer era ensinar sexo um ao outro. tratava-se de um buraco quente e. Primeiro. Todos os garotos viviam falando da sua última "punheta" e todos gozavam da mais perfeita saúde. é claro que foi meu subconsciente que me traiu e acabei trocando o cão de Martí por Vigilante. O fato é que todos nós. Lembro-me de um. isso não pertence às categorias do realismo mágico. . entretanto. ele colocava para fora seu membro. orgulhoso. ou a algum tipo de estilo. transar com uma égua representava um ato geralmente coletivo. que falava dos funerais de dois príncipes. nesse caso. No entanto.. minhas relações sexuais se deram com bichos. quando voltávamos da escola. escuro. as galinhas. Todos os garotos subiam numa pedra para alcançar a altura do animal e curtiam aquele prazer. alguns dos meus primos e até mesmo certos jovens que tomavam banho nus nas águas do rio. bonito. por simples casualidade. mas sim com Dulce María. um garoto de doze anos. enquanto urinávamos. fazíamos amor com a égua. que se sentava atrás de mim e me cutucava com o lápis. Não sei se o verdadeiro prazer consistia em fazer o ato sexual com a égua. infinito.. todos os garotos agiam assim. não admitia um cão magro. talvez fosse por essa razão que comíamos.

em tudo aquilo que. condenava-me para o resto da vida. enquanto estávamos deitados no mato. possuída por um espírito que iria revelar. também queriam participar da festa. entre as árvores. Soltei-me às pressas de Orlando e fui correndo para casa. ao que tudo indica. dentre as quais se encontrava uma das minhas onze tias. Apesar de não deixar de me sentir culpado. Orlando mostroume seu lindo membro e seu chapéu caiu. ou imagino ter pensado. Na verdade. diante de todos os presentes. experimentava um medo enorme e tinha a impressão de termos feito algo terrível. para ser acariciada. nenhum de nós havia ejaculado. e enquanto os médiuns comandados por Arcadio nos "despossuíam". pensei. Enquanto Orlando introduzia seu membro. eu me sentia profundamente culpado. eu pensava em minha mãe. No entanto. a pedido dele. Peguei o chapéu dele. mas não completamente satisfeito. e depois. Orlando se deitou na grama e em seguida estávamos novamente abraçados. abaixamos as calças e começamos a nos masturbar.cuja pele. Quando terminamos. 30 # / O Centro No dia seguinte fomos ao centro de Arcadio Reyes. tudo em meio a uma nuvem de moscas e outros insetos. ou que queimava a todos nós. minha tia não revelou nada daquilo que tanto me preocupava. enrugava-se e expunha uma glande rosada que pedia. foi ele quem introduziu o membro dentro de mim. fosse cair. fiquei mais tran- . depois de ereto. "Agora mesmo é que não tenho escapatória". comecei a correr e me escondi atrás de uma planta. era de madeira. exceto que ela estava rodeada de chamas e pedia muitas orações para que aquele fogo que a queimava. ela deu várias cabeçadas contra a parede do centro. Primeiro. os quais. Certa vez. Então. eu fiz o mesmo. durante anos. me agarrava por trás. minha tia Mercedita recebeu um santo e achei que eu iria morrer. ao alcance de sua voz que me chamava para ir comer. a mim e à minha mãe. senti um medo terrível. elajamais fizera com um homem 29 # e eu estava fazendo ali mesmo. de certa forma. enquanto Orlando. com pequenos espasmos. ali mesmo. agachado. que. por sorte. desaparecesse. girando em torno de nós. Acho que a única coisa que consegui então foi satisfazer minha curiosidade. que. Ao cair. Pensei que uma daquelas mulheres. o que Orlando e eu tínhamos feito no matagal. nós todos tínhamos muito ciúme do nosso chapéu. Talvez fosse um espírito discreto e não quisesse fazer alusões muito diretas às minhas relações com Orlando. Orlando entendeu exatamente o que eu queria. bem afastado.

aliás. Orlando tornou-se um rapaz bonito e chegou a ter uma bicicleta. preparavam-se tabuleiros cheios de doce de laranja. que eu desejava profundamente continuar cometendo. abriam-se garrafas de vinho. Nunca entendi por que no campo as casas não são construídas perto dos poços. Toda a família se reunia na casa do meu avô. nu. fiquei sabendo que meu avô ficara impotente. que ficava um pouco distante da nossa casa. sanfona e tambores. estava tomando banho. eu nunca tinha visto nada igual. 31 # O Poço Certa tarde. Eu também tinha ciúmes das minhas tias. talvez fossem ciúmes múltiplos. Atrás do poço encontrava-se meu avô. improvisava-se até uma orquestra com um órgão bastante rústico. Uma delas a ceia de Natal. a cena do meu avô nu me perturbou. Ele se casou e agora tem muitos filhos e netos. descascavam-se nozes e avelãs. Com o tempo. que para mim deviam vir do fim do mundo. tomar banho. tinha mais direito do que ninguém de desfrutar aqueles bagos. para buscar água. Durante muito tempo. riam e dançavam. para os animais. eu não sabia se tinha ciúme da minha mãe ou do meu avô. os baldes e as tinas. faziam-se torrões. eu a via possuída por ele.qüilo. fui até o poço. 32 # A Ceia de Natal Havia outras cerimônias que me enchiam de alegria e faziam com que eu esquecesse minhas obsessões eróticas. eu o via violentando-a com seu enorme sexo e seus testículos imensos. Às vezes.jogando água nacabeça. Era um homem com o sexo proeminente e. em minha imaginação. Na verdade. pecado esse. tive ciúme da minha mãe com meu avô. queria fazer alguma coisa. Assavam-se leitões. e todos se embebedavam. Imediatamente meu avô ficou de costas e percebi que ele tinhatestículos enormes. O fato é que uma das minhas tarefas consistia em buscar sempre água no poço: para regar as plantas do jardim. aquele campo se transformava num lugar . desenrolavam-se folhas de papel com cores brilhantes e enfeitados com maçãs. Voltei para casa sem a água. mas era impossível. sem falar do ciúme em relação à minha avó: embora ela dormisse numa cama separada. Mais tarde. principalmente. fato bastante incomum naquele lugar onde morávamos. durante muito tempo a imagem do meu avô foi para mim uma grande obsessão. os espíritos não haviam revelado claramente meu pecado. Apesar de tudo aquilo ter sido produto da minha imaginação. com aqueles testículos gigantescos e peludos.

minha mãe e eu também trabalhávamos para colher o milho. Minha avó comandava toda aquela cerimô33 # nia. era o símbolo mais glorioso de que naquele lugar estávamos celebrando o Natal. chamava-se toda a vizinhança para desfolhar e debulhar o milho. era outra festa. atrás da casa. esse gelo. Como se comia durante horas a fio. tratava-se de uma cabana. Todos estavam satisfeitos e mesmo quando discutiam. cortando a carne. foi a da colheita. colocadas na mesa junto com legumes fervidos e grandes quantidades de alface. que tinha um perfume todo especial. Por isso mesmo. tudo acabava sempre da melhor maneira possível. traziam-se velas e candelabros. Para obter aquele produto tão estranho. era preciso transportar as espigas em carroças até a despensa (ou prensa. Para colher aquilo tudo era preciso chamar quase toda a vizinhança. subia numa colina que ficava em frente à casa e descia a toda velocidade. No meio da festa. Em seguida. O leitão era servido em bandejas enormes. freando ou caindo aos trambolhões e juntando-me ao barulho da festança. minha avó. em várias mesas reunidas. eu rolava pelo chão como se estivesse na praia. começava-se a servir a comida. outra plenitude que marcou minha infância. . ele trouxera um enorme pedaço de gelo da fábrica de Holguín. Naquelas noites. minha avó fazia um doce. fabricava sorvetes amarelos num barril com uma manivela. o que costumava acontecer com frequência. debaixo de todas aquelas luzes. Vidal. e eu rolando no meio de tudo aquilo. feito de açúcar mascavo e coco ralado. ainda nem conhecia. minhas tias. o qual nunca mais voltei a sentir. 34 # A Colheita Outra cerimônia. um dos meus tios que era um verdadeiro inventor. que se transformava depois em neve amarela e deliciosa. Na casa. enQuanto as lonas continuavam se enchendo de grãos. Esse era um dos momentos que eu mais curtia. oferecendo garrafas de vinho. trepado numa árvore e olhando para todos que se divertiam nos pátios ou andavam entre as árvores. Uma noite. como dizíamos). Enormes lonas cobriam todo o piso. praia que. tomando conta para que todos fossem bem servidos. Cortava-se o doce à meia-noite.mágico. Eu descia das árvores quando. eu pegava a bicicleta de Orlando. Meu avô plantava e colhia principalmente milho. naquele período. a festa adquiria um brilho de lenda.

A força daquela corrente transbordando arrastava-o quase todo. chegava até o poço e via a água caindo sobre a água. casas. relâmpagos que traçam riscos loucos. pedras. la até o rio que urrava. águas poderosas e solitárias. e por fim. um passo a mais e o turbilhão me engoliria. sempre fui covarde. Eu não sabia exatamente até onde ia aquele rio. era um temporal de primavera tropical que se faz anunciar com grande estrondo. aquela natureza que me havia acolhido e que agora me chamava no momento exato de sua apoteose. Abraçava as árvores. chegava até ajanel a. . Chegava até a margem onde as águas urravam. Logo em seguida. completamente sem roupa. entrava na sala. Por que não me atirar nessas águas? Por que não me perder. eu me lançava para fora da casa e deixava que a chuva fosse me acalmando. Quantas coisas poderiam ter sido evitadas se tivesse agido daquela maneira! Eram águas amarelas e furiosas. sozinho com o temporal. a água se transformava num concerto de tambores de tons diferentes e repiques estranhos. olhava para o céu e via bandos de pássaros verdes que 36 # também celebravam a chegada do temporal. da vida. naqueles pequenos tanques. eu iria encontrar um pouco de paz. aquele rio. construía pequenas represas de lama que detinham a água e. mas algo me dizia para ir embora com aquele estrondo. chamando-me. já de noite. Eu só tinha aquelas águas. ia para a cozinha e via os pinheiros do pátio ensopados e assobian do como loucos. levando árvores. com golpes orquestrais cósmicos. e caía sobre os barris como uma verdadeira cascata.35 # O Temporal Talvez o acontecimento mais extraordinário de toda a minha infância tenha sido o que vinha do céu: o temporal. chegava a chuva como um imenso exército caminhando sobre as árvores. a água ecoava como um tambor. até onde chegaria aquela corrida frenética. voltava para casa ensopado. a água corria pelos canos com um estrondo de rios transbordando. era o mistério da lei da destruição e. fundir-me com elas e encontrar apaz em meio àquele estrondo que tanto amava? Que felicidade teria sido! Entretanto. possuído pelo feitiço incontrolável da violência. rolava na grama. sempre à frente. palmas subitamente fulminadas pelos raios e que pegavam fogo como fósforos. Pelo corredor coberto de zinco. trovões que repercutem por todo o campo. bichos. Não era um temporal comum. atirar-me naquelas águas e me perder. Eu não queria apenas rolar na grama. sobre o teto de sapé da sala era como se muita gente estivesse pisando n a minha cabeça. Mas não me atrevia a pular. eu me molhava e chafurdava. ao mesmo tempo. só junto àquela corrente. era um conjunto de sons estrondosos. elevar-me como aqueles pássaros. nas árvores do pátio. queria subir. das folhas mais altas até o chão. Eu corria d e uma ponta a outra do corredor.

comecei sozinho a oferecer para mim mesmo espetáculos totalmente diferentes daqueles que presenciava no dia-a-dia. Com toda certeza. eu experimentava uma sensação de paz e podia voltar para casa. entre outros. no entanto. dormia um tio que tivera várias mulheres e finalmente ficara sozinho. Sempre achei que minha família. considerava-me um ser estranho. além do mais. eu as interpretava como peças teatrais em meio àqueles cenários solitários. compartilhando aquele espaço com minha bisavó. no outro quarto. maldições. tinham toda a razão. No início. Esses espetáculos consistiram. que desejava representar um papel importante para satisfazer se a si própria. 38 # A casa tinha cinco quartos. chutes nas pedras. paus e folhas secas pelos ares. um solteirão que acabou se enforcando com um cipó. inútil. depois de realizar aquela "cantata" tão estranha. o escândalo que provoquei foi tão grande que minha própria mãe e minha avó. Com certeza. Num outro quarto. dormiam os porcos que grunhiam a noite toda. que estavam limpando um milharal. E tudo isso no meio daquelas canções que. saíram correndo sem conseguir entender a origem de tantos gritos. música e voz eram horríveis. Eu concebia espontaneamente essas canções operísticas (ou quem sabe o que era) e as interpretava ao ar livre. dormia meu tio-avô. meio doido ou louco. praticamente. letra. completamente fora do contexto de suas vidas. Essas atuações consistiam em saltos. passava a noite inteira esfregando os pés na cama. eu não escrevia os textos daqueles cantos. socos no peito. 37 # O Espetáculo Talvez por causa da minha condição solitária e estranha. Certa vez. dormiam umas tias minhas abandonadas pelos maridos e vários primos. numa série infinita de canções que eu inventava e encenava pelos campos. Minha mãe e eu dormíamos naquele pequeno quarto que dava para um corredor.Minha avó preparava a comida. corridas entre as árvores. . não terminavam nunca e afugentavam todos aqueles que as ouviam. elas tinham uma letra sempre muito delirante e. Eu tremia de frio enquanto minhas tias e minha mãe colocavam os pratos na mesa sem ligar para mim. num outro cômodo. no quarto menor daquela casa destrambelhada. estava mais calmo em relação ao meu mundo e me deitava cedo perto de minha mãe. gritos. aliás. incluindo minha mãe. mal sabia escrever. por causa dos percevejos. Quando eu não conseguia dormir. junto à parede. Do outro lado do corredor. A chuva tinha parado. Minha avó e meu avô ocupavam um quarto onde havia duas enormes camas de ferro e um imenso armário que chegava até o teto.

Incluía a natureza em geral. na verdade. impõe-se. as pombas. com o tempo ele se acostumou. como já disse. incluía quase tudo.39 # O Erotismo Acho que sempre tive uma grande voracidade sexual. os pássaros trepam no ar. abóboras e anonas. raros são os homens que não tenham tido relações com outros homens. Nas árvores de tronco com casca macia. A teoria defendida por certas pessoas a respeito da inocência sexual dos camponeses é completamente falsa. por exemplo. depois de um forte ruído e grandes revoadas. o qual. as galinhas ou as peruas. Um dia. as lagartixas esfregam-se horas a fio umas com as outras. Não apenas as éguas. com melões. a porca com o porco. é preciso levar em conta que quando se mora no campo mantém-se um contato direto com a natureza e. quando cruzam. O mundo dos bichos é um mundo incessan40 # temente dominado pelo erotismo e pelos desejos sexuais. com o mundo erótico. acho que o coitado do galo morreu de vergonha por ter sido enrabado. dos sete aos dez anos. os desejos do corpo estão acima de todos os sentimentos machistas que nossos pais se encarregaram de inculcar em cada um de nós. a força da natureza. Essa força. Sentir tesão com uma árvore me dava o maior prazer. Devia ter uns oito anos e ia sentado . as moscas fornicam constantemente na mesa onde comemos. as éguas com o cavalo. eu abria um buraco onde introduzia o pênis. o mais velho de todos eles. as cadelas. Um exemplo típico é o caso do meu tio Rigoberto. e acabou fazendo o que eu queria por livre e espontânea vontade. o galo apareceu morto. no campo. Seja como for. as repressões e os castigos. acabam se acasalando com certa violência. As galinhas passam o dia todo com o galo trepado em cima delas. quando era ele que trepava com todas as galinhas do terreiro. lá mesmo. até mesmo as árvores. não acho que tenha sido por causa do tamanho do sexo do meu primo. era muito pequeno. entre eles. eu obrigava o cão a me chupar. Tinha um cachorro que me proporcionava um grande prazer. existe uma força erótica que. foi de um grande erotismo para mim. Acho que. incluindo os cães. mas quase todos os bichos foram objeto de minha paixão sexual. de uma voracidade sexual que. entre eles. meus primos também faziam isso.. as gatas no cio miam pela noite adentro com tal veemência que despertam os desejos eróticos mais ocultos. homem casado e muito sério. as porcas. Aquele período. Às vezes. eu me escondia com ele atrás do jardim onde minhas tias trabalhavam e. geralmente. os roedores costumam parir todos os meses.. fazem tamanha algazarra que são capazes de excitar até as mais fervorosas freiras. portanto. um dos meus primos me confessou ter experimentado o maior tesão com um galo. supera todos os danos. eu ia até a aldeia com meu tio Rigoberto.

era também um mundo ameaçado por uma violência incessante. os cavalos davam-se patadas ferozes ao verem ou sentirem o cheiro de uma égua. onde as moscas também participavam da festança. assim como os cavalos. os testículos ficavam pendurados. mas ele não conseguia evitar. o sexo do meu tio começava a crescer e ficar duro. enfiava-se uma lança enorme em sua cabeça para que a morte fosse instantânea. Tudo acontecia desde o início como se nenhum de nós percebesse. e com um martelo ou um machado começavam a dar pancada até arrebentar os tendões e as ligações com o resto do corpo. Certamente uma parte do meu tio não queria que isso acontecesse. porque os dentes dos touros ficavam frouxos. levantava-me e colocava as nádegas em cima do seu sexo. Coralina. Creio que. amarravam-se os testículos do touro com um arame bem grosso. e durante uma viagem que levava mais de uma hora. e eram logo esquartejadas. assim que montávamos. estendia-se por todo aquele mundo no qual me criei. os touros que não tinham sido castrados feriam-se com os chifres para impor sua primazia sexual entre o rebanho. Naquele instante. sua esposa. mas outros sobreviviam e deixavam de ser touros para ser bois. jogava-se álcool em cima deles e eram queimados para eliminar todos os pêlos antes de serem assados. todos nós estávamos muito felizes. Castrar um touro foi um dos atos mais violentos e cruéis que pude presenciar. e assim os touros se consumiam. A carne era cortada em fatias debaixo de uma árvore ou no rancho da casa. esses testículos eram colocados sobre uma espécie de bigorna feita de pedra. a mesma cerimônia se repetia. 41 # A Violência O contexto campesino no qual passei minha infância não era apenas o mundo das relações sexuais. o recebia de braços abertos e lhe dava um beijo. Os porcos eram apunhalados com um facão que atravessava seu coração. Rigoberto acabava ejaculando. quando voltávamos da aldeia à tarde. Quanto às novilhas. ou seja animais 42 # mansos e castrados cuja tarefa consistia em puxar um arado. enquanto meu avô vinha por trás. Os touros destinados ao trabalho eram castrados. cavalgando e viajando como se estivesse sendo transportado por dois animais ao mesmo tempo. acompanhando o trote do cavalo. ainda antes que morressem. ele assobiava ou fungava enquanto o cavalo continuava trotando. A violência. logo em seguida tiravam-lhes o sangue e. eu ia pulando sobre aquele enorme sexo. porém.com ele na mesma sela. eram esquartejadas. As dores daqueles animais eram tão intensas que se sabia quando os testículos haviam sido extirpados. as . xingando e amaldiçoando. As ovelhas vivas eram penduradas pelas patas e degoladas. minha mãe e eu estávamos indo para o centro espírita de Arcadio Reyes numa égua pertencente à minha tia Olga. muitos morriam. Ao chegarmos em casa. ainda com um resto de vida. finalmente. eu me ajeitava da melhor maneira. Uma vez.

mas esta não deu um passo à frente. minha mãe e eu cavalgamos em silêncio até o centro. ato sexual poderoso. veio por trás. porém. e realmente tão belo que excitaria qualquer pessoa. Minha Avó A noite. uma das mais inesquecíveis era a chegada da neblina matinal. talvez fosse mais impressionante e misterio- . ouvia-se o ruído de um rato sendo devorado por uma ave de rapina. eram normais no campo onde eu morava. Não existiam figuras. tanto ela quanto eu gostaríamos de ter sido aquela égua que trotava agora. que caminhava à minha frente rumo ao curral para ordenhar as vacas. violento. esses esperneares abafados. Minha mãe chicoteava a égua. Estávamos montados na égua quando o cavalo quis possuí-la. bastante decrépita e desolada. Esses ruídos. alegre.mulheres do campo viajavam montadas em éguas e os homens iam a cavalo. preferia ter a pele do corpo arrebentada para não perder a chance de ser possuída por aquele animal magnífico. com sinais de um erotismo implacável. Certamente. diante de nós. De repente. já estava abrindo as patas e levantando o rabo. até meu avô. ouviam-se os gritos das rãs que eram comidas lentamente pelo sapo. 44 # A Noite. as árvores eram imensas silhuetas brancas. o batuque das patas e os gemidos de um coelho esquartejado no ar por uma coruja. não existiam corpos que pudéssemos distinguir. em que tudo parecia envolto numa grande nuvem branca que ocultava todos os contornos. Dentre essas plenitudes. e os berros de uma ovelha estraçalhada por cães selvagens. A violência manifestava-se também na luta pela vida. 43 # A Neblina Havia também uma dimensão de serenidade e quietude que não encontrei em nenhum outro lugar. Os montes e as colinas transformavam-se em enormes montanhas de neve e toda a terra era uma extensão fumegante e fresca onde a gente parecia flutuar. apareceu um cavalo no meio daquele campo. era um fantasma branco. obviamente. À noite. A neblina cobria de prestígio toda aquela região. Tivemos então que saltar e deixar que ali mesmo. o cacarejo desesperado de uma galinha asfixiada e devorada por uma raposa. diante da propriedade de Arcadio Reyes. se realizasse o ato sexual. porque a ocultava e camuflava. esses estrondos desesperados. Após esse combate.

de acordo com sua posição e seu brilho. A noite não era apenas um espaço infinito que se desenvolvia no alto. porém. fazendo massagens numa das pernas e não na barriga. Percebia que à noite uma reunião familiar tinha uma transcendência que não podia explicar de imediato. uma oração. se a colheita seria boa ou ruim daqui a dois ou três meses. nenhum ensino. Devo isso em grande parte a esse personagem mítico que foi a minha avó. podia prever o tempo e o futuro: se ia chover no dia seguinte. que consistia em doze misteriosos montinhos de sal cuja tampa era retirada no dia 1º de janeiro. a qual interrompia suas tarefas domésticas e atirava um monte de galhos na colina e iniciava sua conversa com Deus.. que é imprescindível para toda formação. mas ela havia instalado um quartel contra as trevas e não parecia disposta a entregar-se facilmente. Para quem nunca viveu as noites no campo. uma descomunal e mágica orquestra que ecoava por toda parte com uma gama infinita de ruídos. tesouros vigiados por . Minha avó conseguia encontrar a qualquer hora da noite as estrelas mais nobres e até mesmo as menos conhecidas. Esses nomes eram. Do ponto de vista do texto escrito. não eram os mesmos utilizados pelos astrônomos. ela previa as épocas de chuva e seca para o ano que se iniciava. quando o mau tempo era iminente. a noite no campo onde me criei (campo esse que já desapareceu e que permanece apenas nestas memórias) eratambém um espaço sonoro. a Cruz de Maio. fazia cruzes no refeitório e perto dos pontos principais da casa. debaixo do círculo de luz da candeia. por exemplo. um café. do seu mistério.familiarmente com nomes que. A noite também entrava nos domínios da minha avó. Lá estavam elas na imensidão da noite. podia mostrar rapidamente a posição daquelas estrelas e sabia chamá-las . Era assim que ela tentava conjurar as potências da natureza. as Sete Cabrinhas. exceto as noitadas chamadas "O Beijo da Pátria". Por puro instinto e pelos anos passados examinando o céu. minha avó comandava o ritual. o Arado. certamente. Minha avó me contava histórias de fantasmas. a infinita noite do campo estendia-se muito além. listras luminosas.. atirava também punhados de cinza pelos ares. não houve nenhuma influência literária na minha infância. ela reinava durante a noite. Minha avó conhecia as propriedades de quase todas as ervas e preparava poções para todo tipo de doenças. do ponto de vista mágico. estrelas que brilhavam e desapareciam (depois de existirem durante milhões de anos) apenas para que ficássemos em êxtase por uns segundos. brilhando para minha avó.. Minha avó tentava conjurar os ciclones com cruzes de cinza. e era por isso mesmo que convidava toda a família a qualquer pretexto: um bolo. é muito difícil ter uma idéia completa do esplendor do mundo e. E o céu não era um esplendor fixo e sim um incessante fulgor de matizes volúveis. homens que andavam com a cabeça debaixo do braço. ela saía com um cubo repleto de cinza que apanhara no fogão e começava a atirá-la pelos quatro cantos da casa. Assim. minha infância representou o momento mais literário de toda minha vida. . que as apontava para mim e não se limitava a enumerá-las como também. do ponto de vista do mistério. Graças a um sistema que ela chamava las cabanuelas.sa que a neblina. se os terríveis ciclones viriam ou não. 45 # se haveria uma chuva de granizo. com um dente de alho ela curava a indigestão estomacal. principalmente. Qual foi a influência literária que tive durante a minha infância? Nenhum livro.

deve ter me visto esfregando-me no traseiro de alguma porca e até mesmo da minha cadela Diana. eu era o produto de um amor frustrado. ela acreditava em bruxas. ao som das fustigadas.mortos que rondavam sem parar o lugar onde eles estavam escondidos. Minha avó. levava a todos para a escola. e eu tinha de escrever por cima com uma letra mais acentuada. quando não queriam. por isso conhecia a noite e não me fazia muitas perguntas. mudando os bichos de lugar para que o sol não os queimasse demais e para que não morressem de fome. talvez porque eu não representava para ela a imagem de uma frustração. O mundo da minha avó era bem mais complexo que o mundo do meu avô. carregando lenha para preparar a comida. Minha avó também sabia umas canções do tempo dos seus ancestrais. sem dúvida nenhuma. todos os seus filhos sabiam ler e escrever. cadela intratável com a qual nunca consegui absolutamente nada. cheio de ofaturas e animais misteriosos que não eram apenas aqueles que se utilizavam para trabalhar ou comer. ela arrancava um galho de uma árvore cheia de espinhos e. algum esquecimento. havia algo além do que nossos olhos pudessem enxergar. cada planta. Quando saía para caminhar. O que lhe teria feito aquela árvore? Alguma traição . suportara as surras e as grosserias de um marido sempre bêbado e infiel. Para minha mãe. Com toda certeza. Foi a minha mãe quem me ensinou a escrever. sempre se levantara para preparar o café da manhã e depois trabalhar o dia inteiro. cada árvore. no entanto. tirando alimento debaixo da terra. por isso mesmo. tinha a sabedoria de uma camponesa que havia parido mais de quatorze filhos. ao mesmo tempo. chegava a lhes dar socos. nem a lembrança de um fracasso. com as letras quase apagadas. e se instalavam no telhado da casa. Minha avó era analfabeta. sentia-se oprimida por esse mesmo Deus. a minha avó. E ela se vingava. sabia que no 47 # campo tudo isso era normal. obrigou todos os filhos a irem à escola. para minha avó. Minha avó acreditava em Deus e. Era muito sábia. às vezes. podia exalar um mistério que ela conhecia. ela podia fazer-me um carinho sem nenhum ressentimento ou vergonha. debaixo de uma tempestade. sabia que ninguém é perfeito. durante mais de cinqüenta anos. era muito sábia. dando-lhe socos. também costumava fazer perguntas às árvores. ela me sentava no seu colo e cantava para mim. elas chegavam à noite 46 # chorando ou amaldiçoando. Na verdade. um conto ou uma canção. talvez seus filhos e até o próprio marido tivessem feito o mesmo. dando socos numa palmeira. em momentos de fúria violenta. ela escrevia frases enormes. estavam pedindo alguma coisa e era preciso dar o que queriam. Mas jamais minha avó me recriminou. não tinha grandes obsessões metafísicas. Ele dizia ser ateu e aparentemente não acreditava em nada. não me lembro de tanta ternura por parte da minha própria mãe. Lembrome da minha avó. era um garoto a mais e era preciso distrair-me com uma aventura. implorava a Ele com perguntas e . Minha avó sabia que a colina era um lugar sagrado. assim como ela havia distraido os próprios filhos. Minha avó podia dar-se ao luxo de ser afetuosa. Minha avó conhecia uma reza para evitar que as bruxas causassem muito dano. e nenhum deles tinha morrido.

todas ficaram mais beatas. meu primeiro berço foi um buraco de terra cavado por minha avó. aquele punhado de terra. para serem descarregados espiritualmente por minhas tias. para outras. E tudo isso se juntava na mesma mulher analfabeta. A cozinha e o fogão representavam também o centro da sua vida. Os pais da minha avó haviam falecido recentemente e os herdeiros travavam uma guerra familiar pela partilha da terra. pisoteava o chão de terra. amassava a terra com água que eu trazia do poço bastante afastado. em meio a uma daquelas sessões espiritas. imediatamente. minhas tias foram se convencendo de que não poderiam atrair nenhum outro homem. Talvez nossas mãos tenham sido o instrumento de algum espírito profético e gozador De qualquer forma. ao mesmo tempo. com o passar do tempo. às vezes. dentro daquele buraco que me cobria até a cintura. de acordo com a minha tia possuida. Naquele instante. ocorreram de fato muitas desgraças e aquelas terras foram perdidas. uma das minhas tias caiu em transe espiritual. talvez até antes das minhas tias. aprendi a ficar em pé. volto a falar na terra: minha infância começou comendo terra. uma das minhas . A casa do meu avô transformou-se numa espécie de filial do centro espírita de Arcadio Reyes. tomávamos o café da manhãjunto ao calor proveniente daquela lenha acesa por ela. o pedido de um espírito que reclamava uma partilha justa entre os herdeiros. as piores desgraças iriam acontecer com toda a família. Depois. que sabia interpretar as estrelas e. para lá vinham vizinhos de todos os bairros da redondeza e de outros mais afastados. tornaram-se médiuns e iam toda semana ao centro de Arcadio Reyes. minha mãe também estava convicta do retorno impossível do seu amante. precisava cavar a terra para encontrar o que comer. e todos nós. 48 # A Terra Com o tempo. Todas elas colocavamse ao redor da pessoa que ia ser descarregada. Assim. essas pessoas ficavam livres do seu mal com apenas uma sessão. era. minha prima Dulce María e eu. apanhamos um punhado de terra que atiramos contra a parede. se não fosse assim. Certa noite.súplicas. o mal era tão terrível que precisavam voltar mais vezes à nossa casa para receber vários despachos. Seu mundo era composto de inquietação e impotência. entretanto. Minha avó utilizara essa mesma técnica com todos os filhos. enfiado naquele buraco. atirava terra na parede e uma das minhas diversões solitárias consistia em construir castelos de lama. ao despertarmos. eu. onde acabavam sendo possuídas por violentos espíritos que as transtornavam. sem dúvida. 49 # minha prima e eu rimos muito das previsões desse espírito.

Lembro-me da minha tia Coralina. obviamente. existe apenas uma palavra: o mar. que chegou um dia chorando na casa da minha avó e disse: "Sabem que já estou com quarenta anos e nunca vi o mar? Vou acabar morrendo de velhice sem nunca ter visto ! " Desde então. a parteira que nos cortava o cordão umbilical tinha por costume esfregá-lo com terra. tomando parte vital em seu enriquecimento. 50 # O Mar Foi minha avó quem me fez conhecer o mar. apesar de morarem a uns trinta ou quarenta quilômetros do porto. O cadáver renascia como árvore. enquanto todos os seus odores enchem o ar e nos transmitem uma ansiedade germinativa. Minha avó e o resto da família não conheciam o mar. Quando nascíamos.brincadeiras favoritas com meus primos era atirar terra uns nos outros. Estava presente na hora do nosso nascimento. não podíamos prescindir dela. caminhar na terra depois de um temporal significa colocar-nos em contato com a plenitude absoluta. satisfeita. muitas crianças morriam de infecção. descobríamos tesouros estranhos como frasquinhos coloridos. no trabalho e. era jogado diretamente na terra. a terra. impregna-nos com sua alegria. ao cavar a terra. também era a primeira vez. Experimentei então uma necessidade irresistível de chegar até o mar. mas. ou algum tipo de planta que talvez uma pessoa como minha avó pudesse cheirar um dia e reconhecer suas propriedades medicinais. em nossas brincadeiras. meu único pensamento era o mar. O cadáver. Fomos a Gibara. certamente. 51 # . ele apodrecia rapidamente e o corpo tinha o privilégio de se diluir naquela terra. com seus sessenta anos. No campo. como flor. caracóis. tornando-se capazes de suportar quase todas as desgraças futuras. num caixão de madeira. dizia minha avó. cacos de cerâmica. para minha avó. o porto marítimo mais perto de onde morávamos. Como expressar a primeira vez que me vi diante do mar! Seria impossível descrever aquele instante. Uma das suas filhas tinha conseguido encontrar um marido fixo que trabalhava em Gibara. os que se salvavam haviam aprendido a aceitar a terra. "O mar engole um homem todos os dias". Regar a terra e ver como ela absorve a água que lhe oferecemos também representa um ato de grande beleza. acho que. estávamos unidos à terra de uma maneira ancestral. Pela primeira vez peguei um ônibus. na hora da morte.

atingida por um raio. por volta do Natal. aquele cartaz era tão grande que foi a única coisa que saiu na foto. Naquela época. era um grande privilégio. Ele pertencia ao Partido Ortodoxo. e sim por causa da morte de Chibás. naquele universo campesino. Os motivos do suicídio. Meu avô era anti-religioso. É claro que as causas da morte da minha bisavó estavam. Por que meu avô tinha aquela intuição de que o comunismo não iria resolver os problemas de Cuba. por esse motivo. No mesmo dia em que morreu Chibás. nunca havia vivido sob esse regime. alguém quis tirar uma fotografia de toda a familia. o qual. o que. era uma espécie de ilustração política para todos nós. padecendo entretanto de todos os males do capitalismo? Eu diria que era graças a sua intuição de camponês. na verdade. incluindo obviamente as ditaduras comunistas. 52 # Imagino também que as reportagens em que se viam os fuzilamentos dos camponeses nos países comunistas influenciaram meu avô. se alguém achasse graça. morreu minha bisavó. embora os políticos não lhe dessem muita atenção. os raios eram muito freqüentes. O herói do meu avô não chegou a ser presidente da república. Aproximei-me de minha mãe. chamado Aureliano Sánchez Arango. naquela época. fazendo com que recusasse o comunismo. Naquela região onde morávamos. dirigida por Miguel Angel Quevedo. tínhamos sofrido e continuaríamos sofrendo por muitos anos. abordava todos os assuntos: literatura. sentia um grande respeito por Chibás. que denunciava a corrupção e tinha como lema: "Vergonha Contra o Dinheiro". Certa vez. meu avô havia instalado em casa um rádio de galena para poder ouvir os . vinculadas à morte de Chibás. estavam relacionados com o fato de que Chibás denunciara a corrupção de um alto funcionário do governo. esportes. essa revista era uma das melhores da América Latina. politica. liberal e anticomunista. era dirigido por Eduardo Chibás. Ele ia toda semana a Holguin e comprava a revista Bohemia. poucos meses antes das eleições.A Politica Meu avô tinha aspirações politicas (pelo menos pretendia participar da política). todos os governantes anteriores a Batista eram safados. matou-se com um tiro. Anos atrás. No velório todo mundo chorava a cântaros. já que. Diziam que era porque a terra continha uma enorme quantidade de níquel. Era um homem que sabia ler correntemente." Acho que o resto da minha família chorava pela mesma razão. meu avô fazia um escândalo tão grande que até os bichos permaneciam em silêncio quando ele abria a famosa revista. era contra todas as ditaduras. e ela me disse: "Não estou chorando por causa da morte da minha avó. segundo vários comentaristas. notícias gerais. meu avô pegou um enorme cartaz com a figura de Chibás. que chorava agachada na cozinha perto do fogão. ao mesmo tempo em que odiava violentamente a ditadura de direita na qual vivíamos e sofríamos. de alguma forma. mas não foi possível apresentar as provas definitivas no momento oportuno. morreu subitamente. Meu avô sentava-se num canto da casa e começava a ler a revista em voz alta. Para meu avô.

enquanto a minha tia contava as cenas eróticas Que ouvia. que mantivera relações sexuais com uma camponesa menor de idade. eram diatribes 53 # contra as mulheres e insultos que minha avó ouvia em silêncio. de fato. que também servia de pára-raios. houve o golpe militar de Fulgencio Batista. descobri que tudo aquilo não passava de um truque. segundo o narrador no início da novela. Minha tia resumia as aventuras amorosas da mulher de uma novela que era transmitida ao meio-dia. e ficamos chorando não por causa das paredes que podiam ser reconstruídas. resolveu emigrar para os Estados Unidos. Meu tio foi preso e levado para a cadeia. Em 1952. Uma parte da casa pegou fogo com o raio que matou minha bisavó. pudesse ganhar as eleições. com o mar igual- . têm controlado a ilha de Cuba. suspensa em vara de bambu. as pernas da minha mãe estremeciam. Após a morte de Chibás. sentado no colo da minha mãe. aquele aparelho tinha uma antena enorme que saía da casa. descobriu-se que a tal mocinha tivera vários amantes antes do meu tio e este foi solto. Ficamos apavorados. O título e a história em geral tinham muito a ver com as vidas das minhas tias e da minha mãe. A ditadura de Batista desde o início se caracterizou por uma violenta repressão que tinha não apenas caráter político. Meu tio foi para os Estados Unidos e de lá mandava-nos fotografias nas quais aparecia dirigindo uma lancha luxuosa. Lembro-me que. embora a lancha parecesse estar voando sobre a água. Certo dia. e sim por causa da morte do homem que tinha prometido "a Vergonha Contra o Dinheiro". jovem e certamente muito ansiosa por uma relação sexual. como também um caráter moral. ele acrescentava frases que o rádio não transmitia. ou qualquer outro. impedindo assim que o Partido Ortodoxo. quando vimos chegar dois guardas. pensando que saíssem do rádio. finalmente. naquele instante. Às vezes. no entanto. nenhum guarda viria visitar-nos por um motivo amigável. me transmitia. encontrava-se perto do rádio onde todos ficávamos reunidos. o aparelho tinha apenas uma saída de som e era o meu avô que ficava ouvindo. no seu colo. quando meu avô estava zangado com minha avó. a pessoa ia até um estúdio montado para esse tipo de situação. Essa antena. o sonho de todos aqueles que morriam de fome em 54 # Cuba era ir embora para trabalhar no norte. e que se chamava "Divorciada". que. Muitos anos depois. de uma forma ou de outra.discursos de Chibás. quanto a mim. recebia aqueles reflexos eróticos que a minha mãe. como já pensava antes. Naquela época de grande miséria. estávamos cortando inhame para servir de sementes que seriam plantadas na fazenda. ia contando para suas irmãs. fulminou minha bisavó. todas elas mulheres abandonadas Que. transmitindo-nos as notícias ao mesmo tempo em que as ouvia. enquanto ouvia. Estavam vindo prender meu tio Argelio. Uma das minhas tias tinha o privilégio de poder ouvir uma novela radiofônica. "sonhavam com um casamento ideal ou já tinham vivido momentos de felicidade". sentava-se numa lancha de cartolina. tudo foi mais fácil para os políticos safados que sempre. com os cabelos impecavelmente penteados. e o pai da moça o denunciara.

tomando conta de crianças choronas e talvez muito mais chatas do que eu. que já não encontravam mais trabalho nas refinarias de açúcar ou como cortadores de cana. após todo esse tempo. Finalmente. durante os anos cinquenta. Em seguida. A situação econômica foi se tornando tão difícil que meu avô resolveu vender o sítio . Com o tempo. Finalmente. onde pensava abrir uma vendinha de alimentos e frutas. Em Cuba. Imagino minha mãe morando em algum apartamento bem pobre de Miami. Imagino-a também tentando consolar aquelas crianças. minhas tias. que na ocasião era adepto de Batista e tinha boa situação financeira. Minha tia Mercedita fez mais de vinte viagens até o consulado de Santiago de Cuba. Ia aparentemente como turista e sem autorização para trabalhar. solicitando um visto negado durante anos. ele voltou sem um centavo e com acessos de febre altíssima. Minha avó o curou com uma das suas poções.uns três hectares de terra . e tirava uma foto. foi a vez de minha mãe. 55 # Holguín . ou que talvez tivesse vergonha de demonstrar. Como choravam minha avó. cadeiras da sala. Chegou um caminhão do povoado e nele foram colocadas todas as coisas: mesas. banquinhos. dando-lhes carinho e amor que ela nunca teve tempo de demonstrar para comigo. pelo menos para os camponeses pobres como meu avô ou meus tios. e conseguir um visto era muito difícil. 56 . meu avô.e mudar-se para Holguín. Fazia anos que meu avô e minha avó queriam vender o sítio. todos pensavam que meu tio estava dirigindo sua própria lancha a motor. talvez estivesse acabando uma época de absoluta miséria e isolamento. Meu tio Rigoberto passou mais de quatro meses fora de casa e todos pensávamos que havia encontrado trabalho. e nossas brincadeiras de médico atrás da cama chegaram ao fim. venderam o sítio a um dos genros do meu avô. A medida que a ditadura de Batista se perpetuava. mas conseguiu arranjar uma ocupação clandestina: tomava conta dos filhos das pessoas que tinham o privilégio de poder trabalharnuma fábrica. alguns dos meus familiares resolveram pedir a meu tio que os ajudasse a emigrar para os Estados Unidos. masjamais conseguiam chegar a um acordo. também havíamos vivido os melhores momentos de nossas vidas. minha mãe. e até eu ! Sem dúvida. naquela casa de barro onde havíamos passado tanta fome. perambulara por quase toda a província de Oriente sem encontrar qualquer lugar onde pudessem contratá-lo como cortador de cana. havia milhares de pessoas querendo emigrar.mente de cartolina. ela conseguiu viajar com Dulce María. a situação econômica tornava-se cada vez pior. Isso não era fácil.

exercia uma certa atração fatal. levantava-me de manhã cedo e começava a fazer caixas de madeira onde a goiabada fervente era colocada. sem rios. ou um lugar onde se pudesse dar asas à imaginação. pagando apenas um peso. Era um prazer enorme ver toda aquela gente cavalgando por campos imensos. que era o lugar mais barato. absolutamente carente de mistério e personalidade. comecei a escrever novelas. As caixas que eu fazia iam ficando cada vez piores e eu escrevia novelas . eram caixotes de cimento. Eu me sentava no poleiro. que era o único lugar onde a gente podia entrar e fugir da cidade.o tédio absoluto.então adolescente . Holguín. embora menores. ou quem sabe por que razão. Holguín. achatados e sem qualquer enfeite. e da máquina de escrever . No dia do pagamento eu ia ao cinema. suas casas baixas lembravam túmulos castigados pelo sol. quase sempre norte-americanos ou mexicanos. Eu via Holguín como uma imensa tumba. Eu ia sozinho ao cinema. o que não iríamos encontrar em nenhum outro lugar e muito menos num povoado como Holguín. mistério e liberdade. por simples tédio. Certa vez. que nos obrigava a trabalhar até doze horas por dia. descobri que era uma réplica de toda a cidade. pois gostava de curtir aquele espetáculo sem ter de compartilhá-lo com ninguém. Holguín representava para mim . Pensei em todos os habitantes da cidade e na minha própria família. naquele lugar. vivendo tantos anos naquelas casas-caixões para depois ficar para sempre em caixões menores. parecia um cemitério. nem nada que pudesse oferecer algum interesse para mim. a colina tem vários degraus que levam até a cruz. assim ficava até de madrugada. fui até o cemitério de Holguín. enquanto eu morria de chateação naquela cidade sem mar. martelava meus próprios dedos e não tinha outra saída a não ser voltar à realidade. como todo lugar sinistro.# mas também de encanto. e às vezes chegava a ver três filmes por cinco centavos.comprada do meu primo Renán por dezessete pesos . prometi a mim mesmo ir embora tão logo conseguisse e. ia para casa e. dominada por essa cruz. Para onde ir sem dinheiro? Por outro lado. Talvez por influência desses filmes. erguia-se uma enorme cruz de concreto. A cidade se localiza no meio de uma planície desoladora. naquela cruz apareceu certa vez um homem enforcado. comercial. ela endurecia rapidamente e formava aquelas barras que ganhavam um rótulo onde se lia "Goiabada La Caridad". se possível. com uma colina totalmente árida chamada colina da Cruz. meu sonho era morrer bem longe dali. nunca mais voltar. quente e sem nenhum recanto onde se pudesse encontrar uma sombra. expansão. nem bosques. Não creio que existisse muita caridade por parte do dono da fábrica. continuava pensando nas minhas novelas. quadrada. Acho que. porque. mergulhando em rios profundos e matando-se a tiros. mas não era um sonho fácil de realizar. nem pradarias. Cidade chata. enquanto fazia as caixas de madeira. às vezes. no topo. começava a escrever. com uma imagem da Virgem da Caridade. Quando não ia ao cinema. ao som dos roncos dos meus avós. pelo menos por umas 57 # horas. transmitia um certo desânimo e uma resignação que impedia as pessoas de partir. lá. os túmulos eram iguais às casas. Eu trabalhava numa fábrica de doces de goiaba.seguia para a fábrica de goiabada.

mundo cruel". talvez pela influência do ambiente da cidade: Irene.imensas e horriveis. uma vez terminada a dança. Visitar aquele lugar foi uma grande revelação e uma indiscutível atração para mim. com o tempo. Lourdes. foi ele quem me levou ao Roça-Roça da Eufrasia. na casa que ficava bem em . ambos havíamos sido abandonados pelo pai e éramos filhos únicos muito apegados à mãe. a namorada que eu tinha "roubado" . inclusive uma certa semelhança física. que me acertou um tremendo soco na cara. assim. o sexo da mulher atracava o sexo do homem e. neste caso. como se fosse por acaso. um rapaz da fábrica com quem tinha muitas coisas em comum. quase todas as pessoas que moravam lá eram marginais e prostitutas. Eu também tinha namoradas. no entanto. eu não deixava de sentir atração por Carlos. "Adeus. nossas relações limitavam-se a ficarmos sentados lado a lado no cinema e juntar nossos joelhos. todas juntas. ou com os noivos cuja garota eu roubava. por dois ou três pesos. que era um enorme bordel com um grande salão de baile. Era chamado Roça-Roça porque as mulheres que dançavam rebolavam de maneira a roçar-se contra o sexo do homem. Certamente minha mãe ainda guarda essas novelas em Holguín. com os joelhos grudados. com títulos como esses: "Como a vida é dura!". Enquanto tudo isso acontecia. o nome era 59 # muito apropriado: assim que se atravessava o bairro. um tanto ambíguos. talvez para me mortificar. em Holguín. num movimento circular que vai entrando num ritmo envolvente. a mesma novela que ouviam no campo. e deve achar que são a melhor coisa que escrevi. Agora. conseguiram um rádio e agora podiam ouvir. que eu também ouvia. víamos um desfile de índios ferozes ou Pedro Infante cantando por horas a fio. Situava-se no topo da colina de terra vermelha chamada A Fronteira. 58 # O Roça-Roça Em Holguín. lembro-me de uma briga feia com um rapaz lindíssimo chamado Pombo. Minhas tias e minha mãe. Costumava brigar com os namorados de todas elas. Aos treze anos. eu ia ao cinema com Carlos. ficando depois muito dificil parar. Irma. Acho que essas novelas radiofônicas. o que se realizava. apesar de tudo. influenciaram as novelas que escrevi aos meus treze anos. Marlene. Eu me apaixonei por Carlos. ele convidava a mulher para fazer amor. deixava-se para trás a barreira da civilização e da hipocrisia e qualquer coisa podia acontecer. meus amores eram. creio que acabei ficando mais apaixonado por Pombo do que por Lourdes. respirava-se um ambiente machista que minha família compartilhava e no qual eu havia sido educado. continuei namorando com ela.

com todos os pontos e vírgulas. uma jovem mulata com coxas poderosíssimas. Na verdade. aquela era a caixa da contabilidade. durante seus combates sexuais que eram bastante escandalosos. com o passar do tempo. numa das poucas e decrépitas praças da cidade. quem não conseguisse decorar o texto. foi a primeira vez que gozei dentro de uma mulher. foi ficando cada vez mais infeliz. Certas vezes. e pensei em minha mãe no campo.frente. e por isso. no campo. eu conseguia ouvi-los na cama. às vezes. que nunca havia olhado para mim. a proprietária do bordel. Dessa quantia. Renán. enquanto escrevia. . que usava uma enorme bolsa branca e um vestido vermelho. A casa continuava pequena para todos nós. talvez esperasse que. acho até que o ajudava. Eu não achava. Eu dancei com Lolín. um homem de uns setenta anos. A casa dos meus avós nem lhes pertencia. Quando tinha tempo.um verdadeiro conquistador. de certa forma. seu marido. Mas na maioria das vezes eu ia dormir na casa da minha tia e dividia a cama com meu primo Renán. dentre os quais Carlos. o homem tinha que pagar cinco centavos para dançar com a mulher que o atracava. adolescente de uns dezesseis anos . fui levado até a tal casa em frente para trepar com Lolín. quem sabe. não passava no curso. eu curtia aquelas masturbações e. podiam dormir separados e odiar-se a certa distância e com certo respeito. onde havia uma professora de anatomia que nos obrigava a recitar. meus amores platônicos daquela época dividiam-se entre Carlos. o órgão começava a tocar e Eufrasia. dava um tapinha no ombro de cada bailarino para que ele pagasse os cinco centavos. Ela pensava em partir para os Estados Unidos com seu marido. às vezes. comprara a metade. eu estava nervoso e não conseguia nada. Lembro-me que fizemos tudo à luz de um lampião. o texto de um livro horrível de anatomia. eu fazia o mesmo pensando no professor de gramática. Assim. Ninguém podia ter o privilégio de dormir sozinho. embora os alunos dissessem que era homossexual. cada dança custava cinco centavos. Florentino. e o velho professor de setenta. fingindo estar dormindo. segundo todos diziam. dois centavos pertenciam à mulher. que tinha uns quatorze anos. tinha sempre que dividir espaço com mais duas ou três pessoas. Ozaida. Eufrasia guardava de cabeça o total de danças efetuadas por cada prostituta e dava-lhe a sua parte. chegava em casa e se masturbava na mesma cama onde eu estava deitado. talvez por e sa razão voltaram a ter relações sexuais. mas Lolín deu um jeito e finalmente consegui a ereção. em meio à solidão e ao horror dos pântanos de Miami. eu aproveitava-me daquelas circunstâncias para deslizar debaixo da cama onde eles trepavam e roubar algum dinheiro da caixa de madeira que meu avô guardava toda noite ali. Dessa forma. eu ia dormir na casa da minha tia Ofelia. quando meu primo se masturbava pensando numa das moças que ele beijara. Meus avós. após algumas aventuras eróticas incompletas. agora. fisiologia e higiene. havia apenas dois 60 quartos para dez pessoas. graças a alguns amigos. Ou será que foi pensando no rosto de Carlos. indo para o norte. finalmente. Lá também me apaixonei por meu professor de gramática. precisavam dormir juntos. eu ia a uma escola chamada Primeira Superior. que me esperava lá fora? De qualquer maneira. uma das filhas. e muitos até se gabassem de ter transado com ele. ela pudesse sentir-se melhor. Haviam perdido uma filha e Ozaida nunca se recuperara plenamente do choque. Ozaida.

e suas palavras continham toda a alegria do mundo. ele me traíra e eu não tinha nada a lhe dizer. Era justamente o período em que 61 # minha amizade com Carlos estava no auge. Quando pronunciava a saudação ele dava uma risada muito rara. O romance durou um mês. Na escola. fiquei mais bonito e o número de minhas namoradas aumentou. Carlos sentava-se no portão e começava a conversar com meus avós. acho que eu mesmo cheguei a pensar que uma de todas aquelas moças pudesse gostar de mim. As coisas mudaram muito para mim. em sua maioria. O terror passara a ser uma coisa cotidiana. quase toda a provincia de Oriente estava contra Batista e havia rebeldes nas montanhas. enquanto a professora de anatomia repetia sua ladainha. meu avô não falou "Boas Festas". eles atacavam o exército de Batista. que acabava fugindo. Reinaldo. eram gente muito pobre e faminta que não queria perder a vida por tão pouco. havia começado a escrever outra novela horrível. minha prima fazia agora na minha frente. comigo ali "estrelando" . porém. ele entendeu. minha prima Dulce María e sua mãe chegaram de Miami para passar uma temporada em Holguín. Sabe o que é um entendido? É um homem que gosta de outros homens. Nunca mais fui ao cinema com Carlos. Carlos tentou novamente sair comigo. É isso que você é. porque os soldados. mas eu me trancava na cozinha. todas as noites íamos juntos ao cinema. O canibal. namorava com todas as alunas e tinha muito medo do que pudessem pensar a meu respeito: que as mulheres não me atraíam. esperando que eu saísse. No entanto. Mais ou menos naquela época. conforme a orientação da minha avó. ouviam-se tiroteios por toda parte. Dulce transformara-se numa moça lindíssima. um colega da minha turma sentou-se na carteira junto à minha e. Um dia. a qual felizmente perdeu-se. Ele pronunciava com tamanha sonoridade que parecia que a gente já estava na noite de Natal. como disse a revista Bohemia. mas eu não quis mais saber dele.Em 1957. sentavam-se perto de mim no cinema e eu via os dois beijando-se. disse:" Olha. em se tratando dele. quando era garoto. talvez por essa razão. minha voz engrossou. com uma sinceridade absolutamente diabólica. Minha prima logo captou algo estranho naquele relacionamento e. às vezes. você é um entendido. e sim eles dois. quem ia ao cinema não éramos mais eu e Carlos. O que tantas vezes eu havia desejado fazer com Carlos." 62 Natal Uma das minhas maiores alegrias. não se pode falar de uma guerra aberta entre os . e eu tinha que tomar conta para que não acontecesse nada de "errado". O que houve foram as Festas Sangrentas. até quando minha prima voltou para Miami. não houve Natal. secretamente. era ouvir o meu avô dizer "Boas Festas". No Natal de 1957. apaixonou-se por Carlos. devido à quantidade de assassinatos políticos cometidos pelo governo naquele mês.

a vida em Holguín foi se tornando cada vez mais insuportável quase sem comida. fiquei segurando uma dessas bandeiras. Antes de renunciar e deixar definitivamente o país. em todo lugar aparecia uma bandeira do 26 de Julho. Quando a Revolução triunfou. assim como também não houve no exército de 63 # Batista. O New York Times apoiou Fidel Castro desde o início e. na noite antes de sua partida. quase todos os mortos foram pessoas assassinadas pelos tiras de Batista: estudantes. Alguns anos mais tarde. Castro falou em vinte mil mortos. eu mesmo. principalmente. membros do Movimento 26 de Julho ou simples simpatizantes de Castro. No entanto. sem eletricidade. apoiava Castro. certa vez. aúnicacoisaque havia por toda parte era o desprezo pelo regime de Batista e. e o que mais queria era salvar todos os seus milhões. a burguesia cubana também detestava Batista. presos nas cidades. em Paris." 64 # Rebelde Por volta de1958. diz-se que afirmou o seguinte: "Entrei pelaporta. saí pela pista e deixei a peste. por isso mesmo. salvou a vida de Fidel Castro. em geral. era nos Estados Unidos que Castro e quase todos os seus agentes podiam conspirar livremente. a qual. Batista era um ditador torpe que não exercia o controle absoluto. e sim a reação quase unânime de um povo contra um ditador. Era um vigarista. e nunca serão. número que passou a representar uma espécie de mito simbólico. às vezes. torturados e assassinados. eram logo atirados numa vala para assustar a população e. que era negro. apesarde tudo. nunca foram publicados os nomes desses vinte mil mortos. Batistajá estava desmoralizado. nem houve guerra. era veiculada pelos meios de comunicação. A revista Bohemia publicava fotografias e entrevistas dos rebeldes em Sierra Maestra e publicava também as fotos dos jovens assassinados por Batista. e foi perdendo o poder por causa da corrupção constante entre seus próprios aliados e as deserções dos mais honestos. Além do mais. filho de um rico espanhol que tinha estudado numa escola de jesuítas. certa vez. Além do mais. principalmente. o povo se encarregava de cometer atos de sabotagem e. Foi justamente o bispo mais importante de toda Cuba que. não houve muitas baixas entre os soldados de Castro. ofereceu uma festa no cabaré Tropicana. espalhar a notícia de que havia milhares de rebeldes por toda parte. os conspiradores. Batista fez declarações contundentes e muito irônicas a respeito dos seus últimos anos no poder em Cuba. o branco. se . porque não existiram nessa guerra. É preciso reconhecer que havia uma campanha popular contra Batista. Na realidade.guerrilheiros de Fidel Castro e as tropas de Batista.

um homem que ficara me observando aproximou-se e perguntou se eu tinha vindo alistar-me. como se eu precisasse assumir a responsabilidade de vingar sua balança quebrada. a esposa estava transtornada. fui até a casa de Carlos e o chamei várias vezes diante dajanela do seu quarto. Ao entar65 # decer. fomos até o quartel dos rebeldes em Sierra de Gibara. chamava-se Eddy Sunol e estava ferido. conforme ele mesmo me explicou. A mãe de Cuco Sánchez queria que eu ficasse com eles. talvez pudesse ir embora com Carlos para participarmos juntos de uma batalha e perder a vida. Precisava me alistar. mas tinha de fazer alguma coisa. . Os irmãos de Cuco Sánchez encontravam-se naquela região. Cuco tinha como tarefa fabricar balas para os rebeldes. Sosa Blanco. e eles também precisavam comer. que me receberiam com alegria. eu era muito jovem e não tinha arma. O capitão dos rebeldes teve uma conversa comigo. "Veja só o que fizeram comigo". envergonhado. passara por lá um dos mais importantes tiras de Batista. e para Cuco não seria difícil levar-me ao encontro deles. e Cuco também me ajudou. obviamente não queria responder. como eu já estava resolvido a largar tudo. na opinião dela. Levantei-me de madrugada. Comprei umas bolachas tipicas do lugar. Fiquei horas sentado naquele banco. onde os rebeldes se encontravam. eu tinha que me alistar. Fazia tempo que eu queria ir embora ejuntar-me aos rebeldes. não tinha a menor vontade de voltar a Holguín e nem forças para fazer a mesma caminhada. devia ter uns quarenta anos. Fiz todo o possível para ficar. assim. Eu possuía apenas 47 centavos. Respondi que sim e ele me disse que se chamava Cuco Sánchez. Há uma semana. e nem soldados de Batista. comecei a andar na direção de Velasco. conforme os boatos. composta em sua maioria de mulheres. "O que temos de sobra são guerrilheiros. Aquele homem era um camponês de Velasco. o que nos falta são armas". agora era simplesmente impossível. levara um tiro à chegada de Sosa Blanco.sete . Dei a sugestão a Carlos e ele me respondeu afirmativamente. acabara com o povoado. mas não me aceitou. enquanto permaneci em sua casa. ou ganhá-la.morar lá antes já era muito chato. furiosa e aterrorizada. apenas ele ficara no povoado para cuidar da mãe e da esposa. talvez porque só tivesse um prato de feijão para me oferecer. único objeto que ainda restava. disse a Cuco que devia levar-me até a Sierra de Gíbara. ajudei a fabricar aquelas munições. já se encontrava nas mãos dos rebeldes. olhou-me com certa admiração. Finalmente. mas com muito apetite. Pensei que fosse encontrar muitos rebeldes. Todos os seus irmãos . e o pouco que ainda restava na lojinha da mãe de Cuco Sánchez tinha sido roubado.já estavam alistados. disse ele. um homem havia sido queimado vivo. primeiro pelos rebeldes e em seguida pelos soldados de Batista. iríamos juntos até um povoado chamado Velasco. sentei-me num banco e comi tudo. o soldado de Batista atirara na vitrine e uma balança. Levou-me até sua casa. mas em Velasco não havia rebeldes. No entanto. comi. eu deveria despertá-lo de madrugada. mas Carlos não respondeu. ficara completamente destruída. Ela tinha uma lojinha que havia sido saQueada. estava com quatorze anos e não tinha outra solução. Também tinha um curativo enorme e bastante rústico de um lado do corpo. passei o dia todo caminhando até chegar ao povoado. acho que uma das suas costelas estava quebrada. dizia a mãe de Cuco. o qual. em seguida. havia gente morrendo de fome. Sim.

explicando que eu não podia andar por aí sem arma. De qualquer maneira. fiquei escondido até o anoitecer. vão matá-lo na hora e levar a gente presa". . a polícia de Batista andava atrás de mim. ela sempre me dava algo para comer e. será aceito na hora". quando atravessava as montanhas. disse-me Sunol. despedimo-nos. Aos gritos. se descobrissem que eu era um dos alistados ou que não pertencia àquela região. "Se você trouxer uma arma. Eu não podia mais ficar. Agora eu me encontrava num caminhão com várias pessoas que tinham autorização para viajar até Aguas Claras. aproximei-me de um policial. deu-me de presente sua única faca. chegamos a Aguas Claras sem nenhum problema. era conveniente que justamente eu. Talvez tenha falado para me dar coragem. o chofer já me dissera que corria um grande risco pelo fato de me levar. não podiam deixar que retornasse a Holguín. um lugarejo perto de Holguín. chegaram de lá 45 homens e sete mulheres que Sunol havia mandado como guerrilheiros. Um dos rebeldes. mas ninguém podia saber. carregando água. fiquei ajudando em tudo o que me pediam. olhei para ele. no entanto. se lá iriam aceitar-me ou não. um grupo iria para a Sierra Maestra e me levariajunto. um jovem de dezoito anos aproximadamente. como não tinham armas. Afasteime o mais rápido possível daquele lugar. Mas eu podia ficar por uma semana. e assim voltei para Holguín. devia enfiar a faca nas costas de um guarda de Batista e voltar. que também olhou para mim. tinha de voltar para Holguín. na verdade. Agora. indo buscar lenha. foram expulsos porque Castro não precisava deles. mas eu não. matar um guarda. Voltei a Velasco andando por dentro do matagal.acabamos convencendo Sunol que disse que eu podia permanecer 66 # com eles por uma semana. Eu tinha que voltar a Velasco e. bati na porta e minha avó abriu. Assim. a uns dez quilômetros de Holguín. "Vou ficar à sua espera aqui". Finalmente. Cheguei em casa à meia-noite. às vezes eu a visitava. pegar seu fuzil e retornar. rebelde. para que eu tivesse alguma ilusão. todos seriam mortos. aquelas dez mulheres que havia na casa divulgaram a notícia por toda a vizinhança. ali. Cometi a imprudência de deixar um recado na cama. Ao fin de dez dias esperando a ordem de partir para Sierra Maestra. 67 # obviamente. Essas pessoas eram conhecidas dos soldados de Batista. A umas léguas de lá. e então comecei a andar rumo ao povoado. depois. onde estava escrito que eu ia embora com os rebeldes. na noite em que estava indo embora. disse ele. meu avô fez com que ela se calasse imediatamente : "Se encontrarem você aqui. dando um grito. como seu marido não simpatizava com os rebeldes. e o único gesto que fez foi segurar os bagos que eram quase tão grandes quanto os do meu avô. os visitasse. enquanto ele continuava sacudindo seus magníficos testículos. nem em sonho conseguiria matar algum tira com uma facada nas costas. já não era mais da sua responsabilidade. ajudando em tudo o que fosse preciso: cozinhando. disse o rapaz. morava aquela tia que comprara o sítio do meu avô. cheguei ao acampamento e tiveram que me aceitar.

quinze anos mais tarde. e ainda é.ou então velhas espingardas. Seu filho havia sido denunciado como chivato. que ordenava os fuzilamentos naquela região. pelo menos. Castro tinha que agradecer a Batista. antes de Fidel Castro tomar o poder. A maioria das pessoas alistadas não acreditava que a ditadura de Batista fosse cair tão rapidamente. Além do mais. esses combates foram mais míticos do que reais. os rebeldes eram bonitos. Toda a imprensa mundial ficou fascinada por aqueles lindos barbudos. na verdade. deixando-lhe a ilha intacta. Por outro lado. Quando correu a notícia de que Batista fugira. ele chegou a Havana cercado por uma tropa enorme que o considerava vitorioso e pelo povo já cansado de Batista. que morreram no local. A imprensa e quase todo o povo diziam que o campo estava repleto de milhares de rebeldes armados até os dentes. vi atos de injustiça sendo cometidos e que. Os rebeldes não paravam de chegar com crucifixos e correntes feitos de sementes. depois. e os que se salvaram nunca chegaram ao poder sob o domínio de Castro. 68 # A morte de Sunol não passou de mais um suicídio em nossa história política.Nunca participei de nenhum combate. o ditador havia fugido. Embora Batista tivesse fugido em 31 de dezembro de 1958. dentre os quais muitos tinham uma bela cabeleira. que é a história do suicídio incessante. eram chamadas de traidores. as poucas armas que tinham eram as que haviam sido roubadas dos casquitos . os hinos ecoavam e toda a cidade saíra para a rua. ele havia vencido uma guerra sem que esta chegasse ao fim. apenas alguns dentre eles haviam-se alistado há quatro ou cinco meses. Era mentira. Na realidade. Foi uma guerra de palavras. amarradas com arame. O próprio Castro foi um dos que ficaram mais surpresos. Enquanto fiquei com os rebeldes. já começaram os fuzilamentos das pessoas contrárias ao regime ou conspirando contra. matando-se com um tiro nacabeça.jovens e viris.os soldados de Batista. Eddy Sunol. aparentemente. como delator. mas havia muita alegria. isto é. as mulheres e muitos homens d cidade também ficavam loucos por aqueles rebeldes. ela dava gritos horríveis. apenas isso. nem de longe pude ver um combate durante todo o tempo em que permaneci com os rebeldes. todos queriam levar um desses barbudos para casa. um ministro. Quanto a mim. fabricadas no século passado e utilizadas pelos mambises. a palavra utilizada. eram os heróis. Levaram-no e foi fuzilado. um grupo de rebeldes foi prender um camponês que morava com a mãe. É bom lembrar também que o cunhado de Castro era um adepto de Batista dos mais conhecidos. veio a lenda. Senti-me um tanto ridículo. até certo ponto. Castro levou muitos dias para descer de Sierra Maestra e chegar até Havana. no meu bairro em Holguín. Descemos das colinas e éramos recebidos como heróis. essa era. acabou. quem o fez foi um grupo de estudantes quase desarmados. muita gente nem acreditou. Certa vez. e sem que Castro sofresse um único arranhão. Fidel Castro jamais pensou em executar algum tipo de atentado contra Batista. os soldados cubanos da guerra de independência. minha barba ainda não havia crescido. fizeram com que eu desconfiasse da boa vontade daquelas pessoas. pois eu só tinha quinze anos. Protegido por enormes tanques de guerra que não lhe pertenciam. de forma geral. . deram-me uma bandeira do 26 de Julho e fiquei correndo pelo quarteirão com aquela enorme bandeira na mão.

Os julgamentos eram verdadeiros espetáculos teatrais onde o público se divertia. os julgamentos tinham lugar no auditório de La Pantoja. termos que se confundem. Fidel Castro continua celebrando esse tipo de julgamentos teatrais. vez por outra. Os fuzilamentos eram realizados em nome da justiça e da liberdade. e que chegara a hora da vingança. mas que não o matassem. Teve início o surto de entusiasmo. aos supostos delatores. Iniciou-se uma verdadeira caça aos soldados de Batista. não se cometiam apenas injustiças. Nos primeiros dias. tentando abandonar a cidade. Lembro-me particularmente da imagem seguinte: um homem estava sendo levado ao paredón por ter matado um jovem revolucionário. ou dentro das casas ou na colina da Cruz. . seus próprios generais. Além do mais. quase todos os seus soldados foram massacrados no meio da rua. os quais impediam que a multidão o linchasse para que 70 # ele chegasse vivo ao paredón. mas o entusiasmo de saber que vivíamos agora numa revolução. morriam inocentes e culpados. aos militares do regime caído em desgraça e aos "tigres" de Masferrer. fuzila sim seus próprios soldados e. bastava uma simples delação diante de um juiz improvisado pelo novo regime. os quais. espetaculares e fulminantes. Eram julgamentos apenas falados. Não deram a menor atenção àquela mulher. também são televisionados. Este era um político cubano e ao mesmo tempo um gângster. o homem andava pela estrada escoltado por soldados rebeldes. Nos últimos anos. principalmente em nome do povo. vendo ser condenado ao paredón um pobre coitado que talvez só tivesse dado uma bofetada em alguém que agora aproveitava o momento para se vingar. Apesar de toda a euforia. todos esses sentimentos eram superiores às injustiças e aos crimes que estavam sendo cometidos. havia formado seu próprio exército. apareceu na rua uma mulher vestida de preto e deteve a manifestação. Trinta anos já se passaram e. o homem foi levado para fora da cidade e fuzilado. Em seguida. para onde subiam desesperados. era a mãe do jovem assassinado. muito mais gente do que morreu naquela guerra que nunca aconteceu. muitas pessoas foram assassinadas sem direito a qualquerjulgamento. Tudo isso aconteceu enquanto Masferrer fugia de barco para os Estados Unidos. agora Castro não fuzila mais os tiras de Batista. uma escola militar imensa criada por Batista e que agora estava em poder dos rebeldes.69 # A Revolução A revolução castrista começou depois de 1959. seu pedido de clemência de nada valia diante da nova ordem e da necessidade de vingança por tanto tempo reprimida. De repente. apesar de tudo. Esses fuzilamentos eram diários. ainda mais sangrenta que a anterior? Talvez nos déssemos conta sim. a qual havia derrubado uma ditadura. muitas vezes transmitidos pela televisão. No entanto. Começou a gritar que o castigassem. às vezes. a grande ostentação e um novo terror. Por que a imensa maioria do povo e os intelectuais não se deram conta de que começava outra vez uma nova tirania. Em Holguín. muitos eram contra tantos fuzilamentos. foram criados os chamados "tribunais revolucionários" e as pessoas eram fuziladas sumariamente.

chegando inclusive a dar cadeia. eu voltava a ouvir a voz do meu colega de turma na escola secundária. entre aqueles jovens praticou-se com certeza o homossexualismo. "Entendido. é isso que você é". onde. que. mas a grande maioria da população. do seu objetivo fundamental. de mais de um milhão de pessoas. No entanto. começar outra vida. antes o acampamento militar de Batista e agora transformado numa escola politécnica. e percebia que ser "entendido" em Cuba representava uma das maiores desgraças . Naquele período. Muitos dentre aqueles jovens que passavam com suas camas nas costas pareciam bastante viris. não parecia haver espaço para o homossexualismo que. em meio a toda aquela euforia. por ordem da direção.o Estado já estava começando a exercer um controle sobre absolutamente tudo. Ao ver aquele espetáculo. continuavam sendo fuzilados os chamados "tiras". Era uma expulsão sinistra. os outros colegas tinham que sair dos alojamentos para apedrejá-los e enchê-los de socos. é preciso reconhecê-lo. sair da minha casa em Holguin. Fomos "captados" por toda a ilha de Cuba. não tinha nada a perder. Não é possível esquecer essas multidões exaltadas. com toda a certeza. Tratava-se de uma nova disciplina criada pelo governo.que aquele período era o mais apropriado para que eu desenvolvesse minhas tendências homossexuais e tivesse inúmeras relações eróticas. era um curso após o qual estaríamos graduados como contadores agrícolas. pois existia um documento que iria perseguir aquele jovem durante toda a sua vida e impedi-lo de estudar em outra escola do Estado . exaltados pela Revolução. não tive nenhuma.O ano de 1960 foi de fato um ano de imensa alegria coletiva. ainda apoiava os fuzilamentos. Acho que foi uma das primeiras bolsas de estudo que o governo de Castro criou. gritando a palavraparedón. embora de forma bastante velada. podia estudar. Sofria então de todos os danos típicos de uma sociedade machista. Seria possível pensareu mesmo penso assim agora . deviam devolver tudo. Eu estava com dezesseis anos quando as aulas começaram. aliás parecia que tinha tudo a ganhar. eu me sentia envergonhado e aterrorizado. 71 # Um Estudante Consegui uma bolsa em La Pantoja. Os rapazes que eram apanhados em pleno ato tinham que desfilar com 72 # suas camas e todos os pertences até o almoxarifado. proibidos de sair à rua. Eu era um adolescente trancado num acampamento com mais de dois mil jovens. eu estava integrado no movimento da Revolução. porque era um centro para formarjovens comunistas. A maioria dos que entraram nesse curso não se deu conta. o qual já tinha planos de confiscar todas as terras. no primeiro momento. já nesse período. não havia sido construída pela Revolução e sim pela tirania derrubada. desfilando diante da praça da Revolução. naquela escola marcada por uma virilidade militante. era severamente punido.

subir aqueles montes junto com todos aqueles rapazes. O diretor da escola era Alfredo Sarabia. e sim a vanguarda da Revolução. Além das depurações de caráter moral. era considerado um frouxo que não podia formar-se. outros se suicidaram. jovens comunistas e soldados do exército. Quando subíamos as montanhas cantando. Poucos meses depois.que podem acontecer a um ser humano. o estudante precisava subir seis vezes até o pico Turquino. Na realidade. em Sierra Maestra. religioso e até mesmo físico. pois éramos obrigados a cantar A Internacional e outros hinos comunistas. pois não possuía grandes dotes como alpinista. representava uma aventura. era um privilégio subir apenas seis vezes até o pico Turquino para se formar contador agrícola. Seríamos encarregados de levar a contabilidade e a administração para as fazendas do povo. mas era assim mesmo. Lembro-me de um dos meus amigos de Holguín que disparou a metralhadora na própria cabeça. Para conseguir formar-se em contador agrícola. Os que não desistiam eram os mais novos. Tínhamos também aulas de contabilidade e. Durante as últimas excursões. um velho militante do Partido Comunista. e Os fundamentos do socialismo em Cuba. além de ter que passar por todas as provas técnicas. por algum impedimento físico ou outra razão qualquer. de Blas Roca. em 1960. porque jamais pertenceram ao povo. as fazendas estatais. ou seja. assim. nós e os professores voluntários que se encontravam em Sierra Maestra representávamos os primeiros "líderes da Revolução". Sierra Maestra havia sido o lugar onde Fidel Castro se escondera até a fuga de Batista. e creio que continua sendo assim. encontrei certa vez um rapaz que andava rastejando. tinha que escalar o pico Turquino 25 vezes. Um dos professores compôs um hino aos contadores agrIcolas que começava dizendo que éramos "a vanguarda da Revolução". como parte do curso. o Manual de economia politica. ninguém desconfiava que por detrás daquelas excursões ocultavam-se planos sórdidos. Tínhamos que decorar o Manual da Academia de Ciências da URSS. dormir em redes ao relento e tomar banho de rio. Dos dois mil alunos que . 73 # Quanto a mim. como se costumava dizer. devíamos subirperiodicamente até o pico Turquino. disseram-nos que não éramos simples estudantes. ou seja. Não era fácil sobreviver a todas aquelas depurações que tinham um caráter moral. pois tínhamos também aulas práticas nas quais aprendíamos a utilizar armas de longo alcance. Sierra Maestra era como um santuário onde tínhamos de efetuar uma peregrinação de tempos em tempos. político. lembro-me que. garoto criado entre os matagais e as colinas. era. já não cantávamos o que queríamos. Na realidade. enquanto Castro assegurava ao mundo que não era comunista e que a Revolução Cubana era "tão verde quanto as palmeiras". uma das aulas mais importantes era a de marxismoleninismo. como uma espécie de manifestação até Meca ou ao Santo Sepulcro. e quem não conseguisse subir. Não sei se chegou a ser um bom diplomata. por isso mesmo. e para se formar. estava estudando para seguir a carreira diplomática. os jovens comunistas que controlariam a economia do pais. em Cuba estavam preparando a juventude dentro da doutrina comunista e dando-lhe instruções militares. todos os professores eram comunistas e. enquanto estava subindo. de Nikitin. realizavam-se também depurações políticas. Muitos daqueles companheiros chegaram depois a ser dirigentes do regime de Castro.

Quem protestou era um rapaz de origem chinesa. se não a maioria. em sua opinião. Para eles. Sarabia reuniu todos os estudantes no teatro e pronunciou um discurso enorme cheio de censuras e ameaças. famoso por possuir um dos falos mais desenvolvidos de toda a escola. 76 # Havana Em 1960. Em seguida. Entretanto. o veado era o passivo. o governo nos vestia. chamado Juan. isto é. com o exército dos seus professores mais fiéis. também comíamos muita carne russa. Durante uma assembléia no grande teatro da escolao mesmo onde ocorriam os julgamentos para fuzilar os contra-revolucionários -. os bolsistas. tudo isso eu mesmo vi. educava-nos à sua maneira e era dono do nosso destino. Além do mais. Às vezes. Quando Sarabia chegou. muitos alunos homossexuais deram um jeito para conseguir sobreviver. transar com outro rapaz não era sinal de homossexualidade. mas também nos alimentavam e estudávamos de graça. fui a Havana. atender seus pretendentes. um dos meus colegas. Quase todas as noites. éramos doutrinados. havia um. íamos ao teatro para 75 # assistir a um filme russo. outros simplesmente negaram sua própria condição. houve um escândalo enorme ao se descobrir que mais de cem bolsistas pulavam o muro da escola para transar com um veado que vinha todas as noites. que tivera relações com mais de cem estudantes.iniciaram o curso. contou-me que era um dos preferidos daquele professor de marxismo. Nessa noite. Os anticomunistas 74 # como eu recitavam de cor os manuais de marxismo. os estudantes faziam fila diante do seu quarto para transar com ele. tivemos desde logo que aprender a esconder nossos desejos e engolir qualquer tipo de protesto. andando desde Holguín. alguém disse ao diretor que entre os grãos de arroz havia minhocas e vermes. voltaram para os alojamentos. é preciso reconhecer que o entusiasmo suplantava a decepção. As expulsões. sobraram menos de mil. Acredito que muitos dos jovens que se encontravam na escola com bolsa de estudos eram óugarrones. mantinham relações sexuais com os alunos. Certa vez. assistimos à projeção de um filme russo que era simplesmente A vida de Lenin. também tinham um caráter seletivo e certas pessoas eram intocáveis. espírito de sacrifício. o rapaz sem roupa começou a correr e se perdeu entre as colinas de Holguín. No dia 26 de julho Fidel Castro pronunciava um enorme discurso e precisava de público para . não fui o único a ocultar sua homossexualidade e a repulsa ao comunismo. Sarabia terminou seu discurso dizendo que em breve teríamos que aprender a comer as minhocas e esquecer o arroz. porém. que foi expulso da escola. Alguns professores. homossexuais ativos. o diretor ficou vermelho de raiva e chamou de frouxo e contra-revolucionário aquele rapaz a quem faltava. aproveitando-se da escuridão. Sem sombra de dúvida.

embora tivesse certas relações platônicas com outros rapazes. quejá era minha namorada tradicional. entusiasmados até certo ponto. Em sua última carta ela se mostrava ofendida e dizia que viria me buscar na escola. e assim desfilamos diante da praça da Revolução durante um dia inteiro. uma cidade pela primeira vez em minha vida. uma garota de Havana. chegou a fazer uma pequena fortuna durante sua estada. Percebi que aquela cidade era a minha cidade e. Depois. com medo das represálias e dos danos. dia de visita. há mais de vinte anos. O fato é que aquela primeira viagem a Havana representou meu primeiro contato com outro mundo. Ele era um homem muito bonito e simpático. me disse que numa só noite transou com mais de vinte bichas. os corpos suados e colados uns aos outros. 78 # Fidel Castro Falando de Fidel Castro. Eu era muito "macho" . louca de vontade de conquistar um estudante bolsista. repentinamente batizado "Havana Livre". De qualquer forma. onde a gente podia perder-se. que passavam uns seis meses sem ternenhuma relação sexual e que. Chegamos a Havana. Um amigo meu. Ela me dizia que estava grávida e ia ter um filho meu. mas continuava teimando em meu absurdo machismo ao qual era muito difícil renunciar. esse filho podia ser tanto meu quanto de Fidel Castro. de certa forma. ela me mandou várias cartas às quais nunca respondi. eu precisava dar umjeito para poder voltar. Eu também sentia-me excitado. uma cidade onde ninguém se conhecia. dormiam seis ou sete rapazes. Em cada quarto. Arranjei mais uma namorada. A cidade me fascinou. nossa função foi desfilar. Elas se revezavam e vinham me ver aos domingos. chamado Monzón. mas eu estava apavorado só em pensar que aquela mulher pudesse aparecer e fazer um escândalo. um rebelde ou até mesmo um camponês. Nessa época eu tinha duas namoradas: Irene. eram relações viris. Todos nós. de repente. relações de força: simulacros de lutas e quedas-de-braço. fascinante. por causa daquela manifestação revolucionária. executando as ordens daquele momento. e Marlene. encontrei-o na rua. fomos colocados num trem de transporte de cana e chegamos a Havana após uma viagem que durou mais de três dias. Mostrei a carta a vários amigos que morreram de rir. fato muito estranho já que a única coisa que havíamos feito fora esfregar nossos sexos em plena praça pública. fazia tudo para ser assim e. aplaudindo. um mundo até certo ponto multitudinário. isto é o Havana Hilton. que havia conhecido antes de receber a bolsa de estudos. durante o pouco tempo em que estivemos lá. e ele me disse que estava dirigindo não sei qual empresa e que viajava quase sempre para a Bulgária e outros países socialistas.encher a praça da Revolução. Quase todos estávamos excitados naquele trem. Ficamos no hotel Habana Libre. mais de mil jovens. naquela noite depois da manifesta- . As bichas-loucas de Havana fizeram um verdadeiro banquete 77 # com aqueles bolsistas. chegavam ao centro de Havana. onde até certo ponto ninguém ligava para ninguém. imenso. Certa vez. que mais tarde chegou a ocupar vários cargos durante a Revolução. a dez pesos por cabeça.

aquele perfume dos pinheiros. a terra fresca. Éramos nobres. um projeto. jovens. e não tínhamos nenhum peso na consciência. com a minha namorada Irene. Também escapei quando estava com os rebeldes e as tropas de Sosa Blanco rondavam aquela região. Até certo ponto. entoando os hinos que havíamos cantado na praça da Revolução. tínhamos um plano. Alguns dentre nós com cartas ou fotografias das namoradas que tínhamos arranjado. encontráramos um sentido para a vida. muitos morreram em combate. Alguns desses discursos tinham a finalidade de conclamar jovens para lutar na República Dominicana contra a ditadura de Trujillo. ele veio falar conosco no hotel Havana Livre. onde estudávamos contabilidade agrícola.ção. obviamente. De qualquer maneira. ou na noite seguinte. foi coçar os testículos. e descíamos correndo como cabritos na montanha. Mas Trujillo matou quase todos aqueles que foram para lá com essa intenção. puros. Era extremamente gratificante respirar aquele ar das montanhas. Indiscutivelmente. também bati palmas. Era um acampamento para formar professores voluntários. E recomeçamos a subir para Sierra Maestra com nossa rede. alegres e felizes. ele estava esperando na praia e lá mesmo acabou com quase toda a expedição. assim como havia escapado da possibilidade de me tornar um assassino quando me aproximei de um guarda com um facão. grandes promessas. Escapei 79 # dessa morte. naquela manifestação. a comida preparada ao ar livre. nossas mochilas. como eu poderia pensar na morte se tinha apenas dezesseis anos e estava cercado de mil rapazes tão saudáveis e simpáticos quanto eu. o que o homem fez. para nós quase polar. até agora sempre escapei da morte. nossos hinos. eu tinha entrado. Aqueles jovens queriam . Estávamos numa espécie de seminário político. um futuro. como costumava fazer. Tomávamos banho no rio perto do pico Turquino. Depois percebi que ele repetia esses mesmos discursos todos os dias. Acho que foi um dos poucos acampamentos de recrutamento comunista criado antes do acampamento de La Pantoja. ou muito mais? 80 # Hinos Voltamos mais uma vez a Holguín. de repente. Quase sempre parávamos para descansar num acampamento chamado Minas del Frío. Disse que tínhamos de sentir muita honra e ser absolutamente politizados e revolucionários. Antes de iniciar meu curso com a bolsa de estudos. nossas barras de chocolate. num dos maiores salões do hotel e ele chegou em meio a uma salva de palmas. uns amigos meus de Holguín tiveram de suportar discursos semelhantes feitos por Fidel Castro ou por outros líderes enviados por ele. uma imensa tarefa a cumprir. O discurso terminou com aplausos fortíssimos. digamos que por alguns milímetros. Apareceu de repente. mas agora a coisa é outra. então. porque íamos dirigir as primeiras fazendas do povo. curtíamos aquela temperatura. belas amizades. era uma honra que o comandante-em-chefe viesse visitar uns simples contadores agricolas. Todos estávamos extremamente entusiasmados com sua presença. numa dessas expedições a São Domingos para matar Trujillo. Ele nos disse que representávamos a vanguarda da Revolução. que nossa responsabilidade era enorme.

Foi sem dúvida um golpe político magistral. cansada de tomar conta dos filhos dos outros. na realidade. onde me encontrava. recolhia-se praticamente todo o poder que o dinheiro exercia em mãos alheias à Revolução. eu o vi uma vez quando desceram de Sierra e ficaram alojados em La Pantoja. cantava os hinos da Revolução e. consequentemente. sozinho. ou queria acreditar. Ele me disse que. alguém me disse que ele estava preso.ser professores voluntários. e alguns já estavam em armas contra Fidel Castro. e quanto ao resto. que a lojinha da família fora confiscada 82 # e que quase todos os seus filhos foram considerados "inimigos" do regime. e não dei muita atenção às queixas de minha mãe. Quando voltou para Holguín. não estava 81 # aprendendo nenhuma matéria pedagógica. Eu tinha uma bolsa de estudos e usava um uniforme que o governo revolucionário me dava. Eu tinha dezesseis anos. entre elas a minha própria mãe. Pensava que certamente . incluíam-se homens como Cuco Sánchez. continuava praticando a mais absoluta castidade. Não tive mais notícias dele. tinha medo de se "lascar". Além do mais. já tínhamos aprendido algumas noções de contabilidade e o governo de Fidel Castro resolveu fazer uma mudança na moeda: toda a moeda cunhada até aquela data foi desvalorizada e foram impressas novas notas. Entre essas pessoas. não precisava de outra roupa. um jovem comunista. Quanto a mim. Acreditava. e entregava-se ao mercado outros papéis com um valor limitado. Não podia imaginar que aquela Revolução que me dava uma educação gratuita pudesse ser tão sinistra. consequentemente. Naquele período. mas comecei a notar uma certa decepção em algumas pessoas. Naturalmente. Lascar-se significava não reunir as condições básicas para suportar o clima ou o tratamento aplicado naquele lugar e. ao recolher toda a moeda antiga. a quem tivesse muito dinheiro entregava-se apenas uma pequena quantidade. Minha mãe voltara de Miami. por uma dessas razões que poderíamos chamar de maldades do destino. Ela foi me visitar na escola e me contou que praticamente todos os produtos tinham desaparecido do mercado: não havia sabão. não havia comida. não havia roupa. Lembro-me de um rapaz que chorava. ser expulso do acampamento. a primeira coisa que fiz ao chegar foi perguntar por Cuco Sánchez e sua família. que a Revolução era algo nobre e belo. sem qualquer discussão. Mas ele não se lascou. cheguei a ser um dos diretores dos centros de estudos marxistas e. finalmente. de fato. naquela montanha. estava sendo doutrinado. fui escolhido como um dos empregados que deviam trocar o dinheiro velho por notas novas num banco do povoado de Velasco. usava uma longa barba. estudava o marxismo. estavacom frio e com medo. As pessoas não queriam tocar nesse assunto até que. dava-se um bônus ou um comprovante de que seria supostamente reembolsado mensalmente. minha mãe ainda era jovem e muito bonita. Pensava que aqueles que se sublevavam contra Fidel Castro estavam profundamente equivocados ou loucos. inúteis para câmbios internacionais. Era início de 1960 e já havia gente sublevada. mas na realidade o que recebiam era um doutrinamento comunista. cagões e chorões.

embora não fosse oficialmente declarado. No entanto. avante. toda a escola não passava de um centro marxista. ou não queríamos pensar nisso. talvez do tempo. disse ele com a maioralegria. éramos socialistas. Ele dizia sempre que o comunismo era o fim da civilização. Não chegamos a partirporque. continuava sendo aquele rapaz solitário que passeava pelo campo. e as verdadeiras agressões dos Estados Unidos nem haviam começado. da chuva ou da neblina. porque fui uma das pessoas a quem foram entregues textos comunistas para estudo e divulgação. Escrevia longos poemas. No fundo." . O dia mais feliz da sua vida foi o da morte de Stalin. consegui formar-me como contador agrícola. nesse meio-tempo. aos poucos. Foi ali que ouvi a afirmação negada por ele anteriormente. não sei em nome de quem. Mas estávamos tão entusiasmados que não podíamos imaginar que coisas tão graves fossem ocorrer. Agora escrevia tudo em cadernos que depois perdi. assim como acontecia com o centro de professores voluntários de Minas del Frío. 84 # A Chama Em abril de 1961. abusos incessantes. Eu não esquecera minhas pretensões literárias. Mas antes da minha formatura aconteceu algo que me deixou profundamente triste e que me fez recordar as palavras do meu avô. Os mil rapazes. aquela revolução foi comunista desde o princípio. na Baía dos Porcos. Grande parte das propriedades privadasjá tinha sido desapropriada. até os textos de alfabetização dos camponeses também eram de teor comunista. Subitamente. absolutamente todos. frequentes atropelos por parte dos poderosos e agora chegara a nossa hora. Preciso confessá-lo. a hora dos humildes. exibiram na TV a imagem de Fidel Castro em discurso. Finalmente. mandaramnos subir em caminhões para irmos lutar ao lado de Fidel Castro. ouvi Castro dizendo que tinhamos feito uma revolução socialista. "Finalmente aquele safado morreu". No grande teatro onde eram realizados todos os eventos e assistíamos todas as noites a um filme soviético. que éramos socialistas. cantando imensas 83 # canções como se fossem óperas. mas todos os professores e os quadros de comando eram comunistas. os invasores já tinham sido repelidos. É quase impossível para o ser humano conceber tantas desgraças. o fato concreto era que havíamos sido doutrinados. fomos imediatamente convocados. quando aparecia ou quando eu me lembrava dela. O que mais me impressionou foi a reação dos presentes. os cem professores e empregados daquele lugar. que era algo monstruoso. seminu. o comunismo ia sendo implementado. vínhamos de ditaduras constantes. éramos simplesmente comunistas. avante/ e quem não gostar que tome purgante. tudo aquilo que fora ocultado durante dois anos revelava-se sem o menor escrúpulo. O mais popular era: "Somos socialistas. Voltamos então para nossa escola. quando houve o ataque à Playa Girón. saíram para o pátio central da escola e começaram a gritar slogans comunistas.seriam realizadas eleições e que Fidel Castro seria reeleito por via democrática. apesar de me encontrar naquele ambiente tão pouco literário e tão profundamente politizado. enquanto éramos convocados e os caminhões chegavam. ou seja.

ou seja: os velhos comunistas queriam tirar Castro e se tornarem os lideres. arrastado. iríamos espalhar essa nova religião por toda a ilha. consequentemente. girava e cantava. os reeducadores. isto é. presentes nessas organizações. em menos de um minuto. mas também não protestei. 85 # marchando e cantando como todos os outros. Mas se Fidel Castro foi fiel a alguém. Castro declarou-se marxista e afirmou que sempre fora comunista. Este fanatismo chegou ao apogeu com o desenvolvimento do que se chamou ORI. Organizações Revolucionárias Integradas. Haviamos sido doutrinados para uma nova religião e. tudo aquilo vinha sendo planejado quase desde o início da Revolução. elementos estimulados pela Revolução.(o chefe de todas as "organizações integradas". estiveram. Tudo aquilo. O clima da Revolução não permitia discrepâncias. além de suapolicia secreta. passáramos um ano trancados como se num mosteiro onde imperavam novas idéias religiosas e. pouco a pouco. na realidade." Ao som daquelas canções. Na realidade. e contra não sei quantos milhares de inimigos recém-descobertos. como repetiam incessantemente seus líderes. mas nada falamos. os guias ideológicos e Alfredo Sarabia. diga chama. éramos os guias ideológicos de uma nova forma de repressão. . por trás das ORIs estava o Partido Comunista. Em poucos minutos. enquanto rebolavam. A ironia e a vulgaridade. num carnaval grotesco onde todos. imperavam o fanatismo e a fé num futuro "luminoso". esse alguém foi sem dúvida 86 # Fidel Castro. Concluí meu curso de contador agrícola. o momento mais propício para lançar publicamente a declaração do caráter comunista da Revolução. De maneira estranha. não diga ORI. Logo em seguida. todo mundo rebolava.Sem dúvida nenhuma. houve julgamentos e alguns desses senhores foram condenados a trinta anos de cadeia. como era de se esperar. os textos comunistas. Creio que certos amigos meus de Holguín também tinham no rosto a mesma angústia ou a mesma decepção. depois de formados. sua formação tinha sido marxista-leninista. daqueles gritos. os slogans. no extremo sul da província de Oriente. À frente de todos nós iam os professores. seríamos os padres que disseminariam por todas as fazendas estatais da ilha a nova ideologia oficial. E de repente. Compreendi então que. a William Soler. do socialismo ao comunismo. e antes de ir para a granja para a qual tinha sido designado. logicamente. passou a ser as ORIs. e Fidel Castro percebeu que as tais "organizações integradas" queriam eliminá-lo e tomar o poder. perto de Manzanillo. e ele passou a ser "a chama". novas idéias fanáticas. No inicio. não fiz nada. eu me vi cercado. já nos encontrávamos no meio da manifestação. em meio à onda de jovens que gritavam aqueles slogans. toda aquela multidão passara. A nova igreja teri a em nós seus novos monges e sacerdotes. Havia uma frase que dizia: "As ORIs são a chama. repetindo aqueles slogans que se tornavam cada vez mais vulgares e ofensivos contra o "imperialismo norte-americano". faziam os gestos mais eróticos e grosseiros. transformouse numa espécie de conga. fui passar uns dias na casa do meu avô.

Vivíamos outra vez na época de Nero. era patético ver os camponeses trabalhando agora numa terra que deixara de lhes pertencer. eram diaristas a quem pouco importava o rendimento e a qualidade do trabalho executado. um desses jovens covardes ou esperançosos. principalmente para os covardes. durante todo o julgamento. Nesse julgamento. nem de onde provinham todas aquelas propriedades. que foram assassinados pela polícia de Batista. listar as novas propriedades que o Estado confiscara e executar uma contabilidade onde nunca se sabia o preço de nada. Tudo isso já nos dava a medida exata do que seria o novo regime. um rapaz que. Eu era um deles. No fim de 1961. Ojuiz barbudo que havia declarado a inocência deles suicidou-se. Um dos acontecimentos mais monstruosos que ocorreu naquela época foi o famoso processo contra Marcos Rodríguez. Osjulgamentos onde se condenava umapessoa à morte eram realmente espetáculos teatrais. Não lia mais jornal. atacaram violentamente Marcos Rodriguez. sempre resta uma esperança. os quais ainda acreditavam que aquele governo tivesse algo a lhes oferecer. nem a revista Bohemia. Fidel apresentou-se como promotor e os condenou a uns trinta anos de cadeia. havia liberdade para dizer que havia liberdade ou para enaltecer o regime.87 # O Teatro e a Granja Já haviam tomado a lojinha que era o ganha-pão do meu avô. em meio às galinhas poedeiras e o cantar incessante dos galos. o que nunca fizeram. a época em que as multidões satisfaziam-se vendo como 88 # se condenava à morte ou se assassinava um ser humano na frente de todos. para salvar a pele. mas ela não era exercida. A granja era um vasto território enfadonho onde. os roubos constantes cometidos pelos próprios funcionários da granja tornavam impossível atualizar os livros onde os números nunca conferiam e que refletiam apenas uma coisa: as perdas eram muito maiores que os ganhos. mas nunca para criticá-lo. estiveram envolvidos vários dirigentes da Revolução que. Até certo ponto. fui para minha primeira granja com a tarefa de contar os frangos. E agora ele passava todo o tempo sentado num banquinho junto à venda fechada. imperava o tédio das pessoas que trabalhavam por um salário miserável. A liberdade era uma coisa a respeito da qual falava-se quase sem parar. A imprensa estava quase toda sob o seu controle. falando sozinho. viu-se acusado de ter sido delator no tempo de Batista. Entretanto. Naquele período. ainda restava uma certa esperança. como também o diretor da promotoria pública. que meu avô lia para nós tempos atrás. Fidel Castro não apenas era (e ainda é) o líder máximo. não eram mais camponeses e muito menos proprietários. O que ficou claro foi a grandiloqüência e a teatralidade. Numa certa ocasião em que um tribunal honesto não quis condenar uma série de aviadores acusados de bombardear a cidade de Santiago de Cuba. características de Fidel Castro. agradável. crítica. Por outro lado. a revista era mais um instrumento nas mãos de Fidel Castro e de seu novo regime. Vinham também . de repente. Nunca saberemos se Marcos delatou ou não alguns estudantes da Universidade de Havana. que já deixara de ser aquela revista liberal.

pois a granja ficava num local isolado de Sierra Maestra. embora trabalhasse em Bayamo. eu voltava para Holguín." Sua língua estava horrível. Acredíto que fosse de trinta pesos por mês. Mas era impossível realizar um trabalho agrícola ou a criação de animais com pessoas alheias a essa espécie de mistério que é a reprodução ou o cultivo das plantas. que amam a natureza e conhecem seus segredos. eu estava excitadíssimo e ele começou a esfregar meu sexo. Não sei se as pessoas percebiam e apreciavam 91 . fazendo-a deslizar até meu sexo. tinham prometido que ele receberia uma indenização. No entanto. ali mesmo. quando estávamos chegando a Holguín. Acho que o chefe da granja vendeu-lhe dois frangos. No carro. ou qualquer outro veículo. é uma ação lendária. Naquela granja. A situação econômica na minha casa continuava bastante grave. deixou de olhar para mim e não me dirigiu mais a palavra durante toda a viagem. Novamente. gigantesca e roxa. pegar uma estrada mais importante e esperar que algum veículo passasse e levasse a gente até Bayamo.operários que. Raúl sentou-se a meu lado. Certa vez chegou um homem de carro. lá. já havia um rapaz bastante simpático que começou a falar comigo enquanto o táxi procurava mais passageiros. dizendo que eles representavam a negação do socialismo. 89 # Cultivar a terra é um ato de amor. Fidel Castro condenou os "boteiros" num discurso imenso. Acho que ele ficou bastante surpreso. Apenas as pessoas com vivência do campo. pois uma fazenda "do povo" não podia vender para particulares. 90 # Raúl Nos fins de semana. A planta sabe perfeitamente quem a ama ou quem a desconhece. que ganhavam milhares de pesos por dia e iam transformar-se em milionários e contra-revolucionários). possuem a capacidade de cultivar a terra. davam o nome de "botes" aos táxis particulares que ainda existiam naquela época (logo depois. consegui tomar um "bote". A viagem até Holguín era bastante complicada. voltavam de caminhão até os povoados onde moravam. talvez aterrorizado pelo escândalo que eu poderia fazer. abriu a boca e disse: "Estou com câncer aqui. ainda mais agora com a intervenção estatal na loja do meu avô. até Holguín. a planta e a semente exigem uma cumplicidade tácita com quem as cultiva. Disse-me que se chamava Raúl e morava em Holguín. não cresce nem frutifica quando é tratada por uma pessoa inexperiente. Raúl pôs a mão sobre a minha perna. no meio do carro cheio de gente. depois do trabalho. Quando o táxi ficou lotado. eu ganhava 79 pesos e dava uma parte desse salário à minha mãe. perto do parque. As pessoas chegavam à granja implorando para que lhes vendessem ovos e frangos. Por sorte. mas a venda era negada. e quando recusaram-se a vender a mercadoria para ele. tomava-se um ônibus. a nossa companheira mais íntima era a fome. mas era necessário preencher uma quantidade infinita de documentos e esperar não sei por quanto tempo. Estava escurecendo. eu mesmo peguei a mão de Raúl e a levei até meu sexo. Afastei-lhe a mão violentamente e ele. aceitando até pagar o preço absurdo que se pedia por um frango. Era preciso andar bastante.

Marisela. Minhas aventuras eróticas com Raúl aconteciam todos os fins de semana nos hotéis locais. Naqueles dias ainda era permitido que dois homens reservassem um quarto de hotel para passar a noite juntos. à tarde. eu não passava de um capricho. uns muito machos. na rua Libertad. Ele tentou falar comigo para me dar o número do seu telefone. até no meu rosto percebia-se uma certa transformação. mas o ambiente era simpático e de absoluta cumplicidade. saltei e o mesmo fez Raúl. Cheguei a me apaixonar por Raúl. muito distantes da ejaculação e de todos os mistérios do erotismo. Afinal. tinha chegado o momento tão desejado e reprimido por mim. depois de umas três voltas pelo parque. era porque algo estranho estava acontecendo. Eu temia que percebessem em meu rosto o que tinha acontecido. meus avós. aquele bar foi uma verdadeira descoberta. estava mais suave. Minha alegria era como uma ofensa para aquela casa. Tauler e Expreso foram o cenário da nossa paixão adolescente. arredores de Holguín. No dia seguinte. Ao chegar no parque Calixto García. no bairro de Vista Alegre. Quanto a mim. típica das estradas cubanas onde não há luz elétrica. acabei encontrando-o. mas não existia nenhuma prova. pois tratava-se de um bar para homossexuais. Naquela época ainda existiam lugares assim em Holguín. mas nossa paixão não ligava para essas coisas. sentia-me satisfeito por ter alcançado uma plenitude até então nunca experimentada. eu não tinha nenhum motivo para estar alegre. Logo depois desapareceriam. se levarmos em conta que minhas relações de criança com meu primo Orlando não passavam de simples brincadeiras. foi uma sensação de libertação. mas virei as costas e saí correndo sem parar até a minha casa. 92 # A família começou a perceber que minhas ausências eram um tanto misteriosas. Para mim. Raúl acabou se enjoando de mim e acho que. outros extremamente efeminados. o ponto final do táxi. tudo isso no carro e na maior escuridão. devo confessar. ou algo assim. um rapazinho que ele havia praticamente iniciado no sexo. ficava num lugar bastante afastado. os hotéis Patayo. minha prima inválida. Acredito que foi então que começaram a suspeitar das minhas relações com outro homem. fui ao parque Central de Holguín. Cheguei em casa. Ele me cumprimentou como se nada tivesse acontecido e me convidou para beber num bar das proximidades. cheia de mulheres abandonadas e de dois velhos bastante amargurados. Havia um grande número de homens. Ejaculei antes de chegar a Holguín. naquele momento. já que eu vinha apenas uma vez por semana a Holguín e passava a noite fora. ou pelo . muitas vezes com lençóis bem sujos. mas ele não teve o mesmo sentimento em relação a mim. Talvez o que mais aborrecesse minha mãe fosse a minha alegria quando eu voltava para casa. estava muito bem-humorado e com muita fome.# aquele espetáculo. uma alegria que minha mãe notou. mas já estava muito escuro. minhas tias. pensando bem. e lá estavam minha mãe. de fato. uma noite absolutamente negra. de fato. Gozávamos naquelas camas rangentes. e em todas as partes da ilha. num certo momento. chegou a falar a esse respeito. ponto de encontro de todos os jovens. Imaginei que Raúl também aparecesse por lá e. Mas. Na verdade. Havia uma sensação de felicidade. vivia intensamente à noite e não conseguia ocultar minha felicidade. Lembro-me de que Raúl limpou-me com seu lenço.

Quando cheguei ao Hotel Nacional. tinha perdido meu amante e sentia-me profundamente decepcionado. Mas não foi assim. ele representava meu primeiro amante e tudo terminou após três ou quatro meses. Naquele tempo. e agora sem a ilusão de me encontrar com Raúl e fazer amor. tanto espirit ual quanto arquitetônica. amava uma pessoa. minha estada naquela granja tornava-se cada vez mais chata. pois deviam-lhes horas de trabalho. e nem acho que possa ser possível. queria o que talvez minha mãe sempre quisera. Com certeza. na maioria dos casos. no caso de aprovação. existe uma tendência para a dispersão. Nos dias de pagamento sempre havia enorme confusão. aqueles russos tornaram-se chefes dos pobres . Ia deixar para trás uma granja cheia de galinhas escan dalosas. o governo revolucionário convocou os contadores agrícolas através da imprensa. todos os que quisessem podiam apresentar-se para um curso de planificação na Universidade de Havana. os peões diziam que o salário não estava certo. Granja Naquela ocasião. mandariam um telegrama com a resposta afirmativa. O mundo homossexual não é monogâmico. pelo menos no mundo homossexual. eu tinha um conceito diferente a respeito das relações sexuais. aqueles lugares eram horríveis. era normal que eu pensasse diferente. Além do mais. e o funcionário encarregado das listas de nomes sempre cometia enganos. absolutamente casto.menos foi o que sugeriu. mal vestida e mal paga. Não imaginava que pudesse encontrar outro amante. mas era o dirigente ideológico do lugar. alheio a tudo o que representasse a beleza. nós não passávamos de instrumentos que realizavam uma tarefa secundária e os russos determinavam o que devia ou não ser feito. talvez pela própria natureza. um amigo. por instinto. Na verdade. creio eu. todos tinham resolvido estudar planificação na esperança de conseguir sair das fazendas onde se encontravam como contadores ou administradores. verifiquei que quase todos os rapazes que se haviam formado em contadores agrícolas estavam ali. 93 # Adeus. Para mim. em todas aquelas granjas havia algum técnico soviético. morava com outros russos num chalé. malcheirosa. Sem saber sequer falar espanhol. um mundo repleto de gente mal-humorada. Vladimir era. Não era para menos. uns amores frustrados e um povoado como Holguín. alguém a quem pertencesse e pertencesse a mim. desejava que essa pessoa me amasse e não imaginava que tivéssemos que buscar incessantemente em outros corpos o que já tínhamos encontrado em um só. e nem era isso o que eu queria. Recebi um telegrama dizendo que eu devia me apresentar no Hotel Nacional dentro de uma semana. e muitas vezes a promiscuidade. os amores múltiplos. isto é: um homem. eu queria um amor fixo. Não pensei duas vezes. toda aquela engrenagem de Fazendas do Povo era dirigida pelos soviéticos. o técnico da minha granja chamava-se Vladimir e era o típico camponês russo: não sei se entendia 94 # de frangos ou não. o golpe foi duro. Era muito simples. Naquele período. bastava enviar uma solicitação e depois.

matemática. Mais tarde.camponeses cubanos. como tentara montar um camelo que se recusava a sair do lugar. Falava das suas experiências amorosas em Paris. diziam que era agente da CIA. Lá discutíamos Sartre. continuou vivendo desse modo e me contou suas aventuras com os bailarinos do Balé Nacional. Felizmente. eram aulas de economia política. naquele período. creio. sem sucesso. as aulas na universidade tomavam o dia todo. e por isso tolerava esses namoros. Procedia de uma familia milionária e era um dos líderes da Revolução. Não foi preciso suicidar-se. falava de literatura. Finalmente. encontrou uma moça que se apaixonou por ele. todos aguardávamos pelas provas seletivas. creio que o amava. e que alguns agiam abertamente. Hilton nunca poderia imaginar que um dia aquele hotel luxuoso ficaria cheio de camponeses humildes. pois havia apenas cinquenta vagas para estudar planificação. um especialista em viver à custa de homossexuais. Tivemos um excelente professor de geografia econômica que falava de tudo. e com Monzón. sobrinho ou irmão de Juan Marinello. ser pago pelo imenso prazer que experimentava. Sua esposa. embora ali. No Hotel Nacional. e receava que descobrissem minha condição de homossexual em Havana. Chamava-se Juan Pérez de la Riva. fui um dos cinqüenta aprovados para o curso na Universidade de Havana. não houvesse ainda uma vigilância excessiva. menos da sua matéria. trigonometria. . Era um homem sempre apaixonado por suas alunas e sem sorte com elas. planificação. subitamente. Pedro Marinello desapareceu. O governo de Fidel Castro descobriu que não era rentável manter-nos no Hotel Havana Livre. O Sr. pelo deserto. ou como usar água fria e quente ao mesmo tempo. um homem com profundo senso artístico. Fomos levados para albergues em Rancho Boyeros. aquilo era uma surpresa para ele. Aire frio. Sara. e então. que nem sabiam como funcionavam os chuveiros. Além do mais. os pisos transformaramse em piscinas no antigo Havana Hilton. Mais tarde caiu em desgraça e tentou suicídio por várias 95 # vezes. Não queria mais morrer. também era professora e bibliotecária da universidade. muito simpático. Tive de compartilhar um quarto com Pedro Morejón. O diretor do curso era Pedro Marinello. que lhe pagavam até trinta pesos para chupar-lhe o pau . de Virgilio Pinera. Lá pude comprovar que muitos dos meus colegas mantinham relações sexuais entre si. atirava-se de uma ponte na esperança de se suicidar. das mulheres que o amaram. Pérez de la Riva apareceu com um câncer na garganta. Era um humanista. a maioria dos estudantes compunha-se de camponeses que nem sabiam como fechar uma torneira. recostado no beliche. Contava-nos acerca de suas viagens pelo mundo. e foi lá também que li pela primeira vez. a cada vez que viajava. Quanto ao resto. existia uma espécie de tolerância secreta por parte dos outros. pois havia hóspedes muito mais distintos para ocuparem aqueles quartos. e todos os selecionados foram morar no Hotel Havana Livre. mas foi assim que faleceu. Foi um dos poucos da sua família que aceitou a mudança social e permaneceu em Cuba. Eu me mantinha fiel à lembrança de Raúl. Podia ir a Paris para visitar a família. um estudante meio disforme e absolutamente extremista. citava-nos os grandes escritores. e de lá transferidos de caminhão até a Universidade de Havana. alguns quartos ficaram inundados. pois era assim que chamavam a qualquer pessoa que discordasse do regime de Fidel Castro. pela África. mas.

. Fui trabalhar como contador num dos escritórios do INRA. lembro-me de ter mudado onze vezes. filho de Nancy Bolívar. Bolívar confessou-me abertamente ser homossexual e me contava suas aventuras com os jovens em Rancho Boyeros. ouvindo os estertores e os espasmos de Rafael e seu parceiro. me masturbava. Por isso. mas na noite seguinte voltei. num edifício construído por Batista. no entanto. não era um homossexual assumido. Um dia. A situação econômica também nos obrigava a mudar de casa com bastante freqüência. lembrava uma novela picaresca de Quevedo ou Cervantes. como também nos fazia trabalhar para que. O governo revolucionário não só queria que estudássemos planificação. a Biblioteca Nacional e todos os edifícios que circundavam a praça da Revolução. até o seu quarto. onde Castro proferia seus discursos. Cusa era uma velha enorme. enquanto eu. Logo ela percebeu nossos roubos e colocou um cadeado. todos homossexuais. que no início foi dirigido por Carlos Rafael Rodríguez e que. a dona da casa de hóspedes. Assim. profundamente ofendido. passou a ser dirigido pelo próprio Castro. convidando-me a participar. recusei firmemente. No departamento de música ele me apresentou aos seus amigos.Um dos meus melhores amigos era Rafael Bolívar. em um ano. era essa a palavra que utilizava para argumentar que era portador de um defeito e que precisava acabar com ele. amantes fortuitos que qualquer um de nós arranjava na esquina e trazia para passar a noite. não queria ter uma vida homossexual pública. de alguma maneira. Cusa pôs rodízios na geladeira e passou a arrastá-la para seu próprio quarto. mas demos um jeito para abrir esse cadeado e comer tudo o que havia. Às vezes não se conseguia dormir com os ruídos eróticos de Bolivar na cama ao lado da minha. fui com Bolívar à Biblioteca Nacional. porque com 79 pesos não tínhamos como pagar um almoço razoável todos os dias. Finalmente. que conseguia facilmente arrastar aquela geladeira gigantesca. solitário. Havia um movimento incessante de entra e sai. muitos amigos de Rafael Bolivar já tinham estado em campos de concentração das UMAP (Unidades Militares para Auxilio à Produção). Em cada quarto dormiam de três a quatro homens. todas as noites. levaram-me para trabalhar no INRA. pois ainda acreditava que pudesse "regenerar me" . pagássemos nossas aulas. antiga militante socialista que desde o inicio esteve muito integrada ao movimento da revolução castrista. A fome era grande. mais tarde. a 96 # natureza e minha autenticidade estavam acima dos meus próprios preconceitos. branca e corpulenta. ele sempre achava um sujeito qualquer perto de casa e passava a noite dando gemidos realmente alucinantes. à noite. Estávamos no ano de 1963 e as perseguições aos 97 # homossexuais tornavam-se mais intensas. Eu. nos levantávamos e saqueávamos a geladeira de Cusa. o Instituto Nacional da Reforma Agrária. Uns fizeram-me propostas e recusei. Rafael Bolívar e eu alugamos um quarto numa casa de hóspedes perto daquele local. assim como o Palácio da Revolução. No entanto. Não mantinha relações de nenhum tipo e vivia constantemente reprimido.

Em Havana. eu sempre assumira o papel de ativo. literatura. eu me sentia bem de qualquer maneira quando gostava do parceiro. um dia de São Lázaro. Havana Livre ou Riviera. com tal maestria que gozei e experimentei o maior prazer com esse gozo. À noite. Passou a ser meu amante e voltei a assumir o papel ativo no sexo. Quando fazíamos amor às pressas. A bailarina Alicia Alonso esteve presente e tocou a enorme imagem de São Lázaro brilhantemente iluminada. Miguel era muito conhecido naquele meio. nem mesmo no exílio tive notícias dele. Cantoras famosas. andava-se umas quadras e um rapaz vinha andando atrás. penso que o mataram no campo de concentração. as grandes prostitutas que dançavam no Tropicana ou no cabaré Nocturno. na casa de uma dessas mulheres. fazíamos amor a poucos passos de Haydée Santamaría. por outro lado. Miguel era genioso. nas poucas relações que tivera. Era um jovem bonito. mostrou-se muito amável e levou-me até sua casa. o tempo. Até aquele momento. Chamava-se Néstor Bardo. e nos dias seguintes passamos a nos encontrar freqüentemente." Coitado: ele achava que era demais.Em Cuba. À meia-noite. Luis era uma espécie de pai para mim. a hora. depois voltava-se a andar e o rapaz continuava seguindo atrás. Passamos juntos o dia 31 de dezembro de 1963. ele tinha até um carro. onde hoje fica a sorveteria Coppelia. e podiam dar-se ao luxo de morar perto do Malecón ou em Miramar. de uns dezoito a vinte anos. Com a perda de Miguel. inclusive o Tropicana ou qualquer das boates dos hotéis Capri. onde eu ia também. como Elena 98 # Burke. que talvez existisse em qualquer outro lugar do mundo. parava-se na esquina e ele parava também. tinham ligações com comandantes ou altos dirigentes do governo. à qual compareceram diversas pessoas do mundo artistico. íamos a algum cabaré. Chamava-se Miguel. conseqüentemente. Miguel sempre me possuía. o fósforo. também vieram. Acabou preso e foi levado para um campo de concentração das UMAP Nunca mais o vi. o que me satisfazia plenamente. Eu costumava ficar na casa de Luis e Néstor. Lembro-me de uma festa. Íamos para a casa de uns amigos ou saíamos pelos arredores da cidade. Um dia. Martha Estrada era a maior estrela do momento e. Aquelas mulheres. mas o rapaz não aceitou esse tipo de situação. e lá. voltei a perambular pelas ruas de Havana. Foi assim que conheci um rapaz que levei para meu quarto. e eu me sentia um tanto estranho por ser o amante daquele sujeito. realizava-se esse tipo de "flerte" típico. pintura. Às vezes. finalmente. conheci a vida noturna de Havana. e passei assim de ativo a passivo. ensinava-me coisas que eu desconhecia em arte. conheci um homem de certa idade. isso agradava a Luis e. não era fácil dois homens reservarem um quarto de hotel. com mais experiência que eu. que . Era pintor e se chamava Luis Gómez. indisciplinado e amante da vida. a pergunta comum a respeito do endereço. Miguel me abraçou chorando e me disse: "É duro de crer que Fidel Castro tenha ficado quatro anos no poder. Miguel era seu amigo. o que era muito difícil naquela época. Foi uma festa concorrida. algumas muito bonitas. Com Miguel. Morava com um homem que tinha sido seu amante e agora eram apenas amigos: um dramaturgo de segunda categoria que gozava de certa fama na ocasião porque escrevera umas peças mais ou menos elogiosas a respeito do regime. Luis tinha um estúdio na Casa das Américas. queria me possuir e foi o que fez. entre as telas.

mais tarde acabou suicidando-se com um tiro na cabeça; naquele período, ela reinava nesse mesmo edifício. 99 # A Biblioteca Eu continuava redigindo poemas, aproveitando-me das máquinas de escrever do INRA e do tempo ocioso que existe em toda atividade burocrática; enchia páginas e páginas com poemas que eram realmente muito ruins. Mostrei-os a Luis, que tinha conhecimentos literários, e ele me confessou que eram francamente horri veis; mas eu continuava escrevendo. Em 1963, a Biblioteca Nacional promoveu um concurso de contos. Eu sempre aproveitava a hora do almoço para ler um livro na Biblioteca Nacional, que ficava muito perto do INRA, e vi o edital. Quem quisesse apresentar-se no concurso precisavadecorar um conto de algum escritor conhecido e recitá-lo. De acordo com seus dotes de narrador, o candidato seria ou não escolhido pela comissão de seleção. Procurei um conto que durasse uns cinco minutos, tempo máximo reservado à narração. Não encontrei nada e resolvi escrever um. Dei o título de "Los zapatos vacíos". Tinha apenas duas páginas e sua leitura levava três minutos e meio. Apresentei-me diante da comissão, composta de cinco homens de aparência muito respeitável e uma velhinha que piscava o tempo todo, e narrei meu conto. Ficaram todos impressionados; não pela minha maneira de narrar, e sim pelo próprio conto. Perguntaram-me quem era o autor. Respondi que era eu; que o escrevera na véspera; depois tirei do bolso o conto e entreguei-o a uma pessoa da comissão. 100 # No dia seguinte, recebi um telegrama onde diziam que estavam muito interessados em falar comigo e pediam para que eu passasse na Biblioteca Nacional. O telegrama era assinado por um senhor chamado Eliseo Diego. Apresentei-me no lugar combinado e conheci Eliseo Diego. Conheci também a velhinha que piscava, María Teresa Freyre de Andrade, que era a diretora da Biblioteca Nacional; estavam presentes também Cintio Vitier e sua esposa Fina García Marruz. Formavam uma espécie de aristocracia culta. Naquele período, todos eles (inclusive Salvador Bueno) eram pessoas consideradas um tanto inimigas do regime, e María Teresa, que era uma mulher generosa, oferecera a cada um deles um cargo na Biblioteca, onde trabalhavam, ou fingiam trabalhar, enquanto ganhavam um salário e podiam escrever seus poemas. Maria Teresa mandou que a subdiretora da Biblioteca Nacional, uma mulher enorme e masculinizada chamada Maruja Iglesias Tauler, falasse com o diretor do meu setor no INRA e conseguisse minha transferência para a Biblioteca Nacional. Transferir um funcionário de setor, mesmo naquele tempo, envolvia intermináveis trâmites burocráticos; mas Maruja Iglesias, por sorte, sempre fora muito ativa nessa espécie de formalidades; creio que hoje pertence ao alto escalão do Ministério das Relações Exteriores. Esta mulher, por falar nisso, tinha sido a proprietária daquele Hotel Tauler, onde Raúl e eu costumávamos fazer amor, completamente à vontade, em Holguín. A transferência foi conseguida e eu, de repente, deixei os

prédios de Fidel Castro, as contas, os números, as máquinas de somar e aquela incessante ladainha de nomes e números que tinha de repetir e corrigir; entrosei-me naquele mundo mágico da Biblioteca Nacional, que ainda gozava de certo esplendor sob a direção única de María Teresa Freyre de Andrade. Ela pertencia a uma família aristocrática de tradição revolucionária. Tinha sido educadaem Paris e fundara a Biblioteca Nacional, que funcionava às mil maravilhas sob sua direção. Trabalhar naquele lugar foi decisivo para minha formação literária. Meu trabalho consistia em procurar os livros que as pessoas solicitavam, mas sempre sobrava tempo para ler. Por outro lado, nas noites em que 101 # ficava de plantão, o que estava sendo imposto em todos os centros de trabalho, tinha o prazer mágico de poder escolher qualquer livro ao acaso. Enquanto ia caminhando ao longo de todas aquelas estantes, eu via como cada livro cintilava a promessade um mistério sem igual. Eliseo Diego tentava orientar minhas leituras infantis e Cintio Vitier me recomendava evitar obras como as de Virgilio Pínera e autores similares, por causa do estilo; faziam sempre uma censura culta e delicada. Naquela época eles não aprovavam o regime e falavam horrores de Fidel Castro e da tirania que fora imposta; queriam deixar o país, mas ou tinham muitos filhos ou outra razão os impedia. Eliseo Diego costumava dizer: "No dia em que tiver de escrever um poema elogiando Fidel Castro, ou essa Revolução, vou deixar de ser escritor. " Mais tarde, porém, tanto Cintio quanto Eliseo passaram a ser porta-vozes do regime castrista. Eliseo não escreveu apenas um, mas sim dezenas de poemas em homenagem a Fidel Castro e sua revolução. Cintio fez o mesmo, ou até coisas piores. Talvez por isso tenham deixado de ser escritores. Mas naquele período eram homens sensíveis e, com toda certeza, tiveram uma grande influência na minha formação literária. Eliseo me presenteou com seu livro, En la calzada de Jescis del Monte, que considero um dos melhores da poesia cubana. Cintio fazia crítica, sempre com características religiosas, mas era um homem culto e sempre valia a pena conversar com ele. A poesia de Fina era muito superior à do marido, mas ela sempre ficava em segundo plano, de acordo com a tradição espanhola e católica que ela representava; era uma mulher paciente, submissa, resignada, casta; quem brilhava era Cintio, e ela parecia ser apenas uma esposa obediente. Eu me aproveitava ao máximo da Biblioteca. María Teresa tivera o bom senso de fazer com que trabalhássemos apenas cinco horas. Eu começava a trabalhar à uma hora, mas chegava às oito da manhã para aproveitar me da sala vazia e escrever; foi lá que escrevi Celestino antes del alba. Li quase todos os livros que povoavam aquela imensa biblioteca. Depois, tudo mudou; para pior, é claro. Diziam que a Biblioteca 102 # era um centro de corrupção ideológica, que María Teresa não era forte e que havia enchido o local de lésbicas; não sei se era verdade ou não, mas também afirmavam que a própria María Teresa era lésbica, bem como todas as mulheres que lá trabalhavam. Umas eram realmente bastante masculinizadas, mas acho que praticavam

apenas uma especie de lesbianismo platônico. Reuniam-se no apartamento bastante luxuoso de Maruja Iglesias ou na residência de María Elena Ross, casada com um parente de Fidel Castro; mas era apenas para beber refrescos, tomar banhos de piscina ou falar do ídolo literário da época, Alejo Carpentier, com sua obra El siglo de las luces. Certa vez, houve um escândalo em plena biblioteca. Duas bibliotecárias bem conhecidas tinham sido descobertas no banheiro, nuas e fazendo amor. Foram levadas até María Teresa que as perdoou, dizendo que não era problema dela e sim dos maridos das duas, e que nada podia fazer a respeito. Exatamente por ela ser uma pessoa tão nobre, o lugar foi se enchendo de inimigos de María Teresa; gente magoada que nunca a perdoou por ter dado um bom exemplo. Uma dessas pessoas foi María Luísa Gil, inimiga mortal de María Teresa simplesmente porque desejava chegar ao cargo de diretora. Era uma espanhola stalinista, casada com um velho militante do Partido Comunista, uma mulher cheia de ressentimentos, o que soube ocultar sob uma suavidade aparente. Pouco a pouco, os inimigos começaram a avançar, dizendo que María Teresa era lésbica, aristocrata e contra-revolucionária. Com isso acabaram conseguindo sua destituição. Foi Lisandro Otero quem comunicou a María Teresa que havia sido exonerada; como todo bom policial e inimigo da cultura, sentiu imenso prazer em destituir a criadora daquela instituição. O diretor, em seguida, passou a ser nada menos que um capitão da polícia de Fidel Castro; o capitão Sidroc Ramos. María Teresa deixou a Biblioteca em lágrimas. Poucos dias depois, também resolvi não mais ficar naquele lugar. Os livros que podiam ser considerados como "diversionismo ideológico" desapareceram de repente. Conseqüentemente, desapareceram também os livros que abordassem qualquer assunto relacionado com desvios sexuais. Além do mais, implantaram um 103 # horário de trabalho de oito horas, que depois passaram a dez, porque havia duas horas de almoço, só que não existia nenhum lugar para se fazer as refeições. Felizmente, nessa época recebi um prêmio literário com Celestino antes del alba, que eu apresentara para o Concurso da UNEAC e que foi publicado um ano depois. Um dos membros da UNEAC veio entrevistar me; ele gostara muito da novela e não apenas fez a entrevista comigo como convidou-me também a compartilhar a sua cama. Não gostei do oferecimento; ele não fazia o meu tipo, mas naquele momento eu já deixara de ser monogâmico ou exclusivista. Ele se chamava Rafael Arnés e morava no Vedado, elegante bairro de Havana. Passei uns meses morando com ele. Rafael tinha um grande senso de humor, não era um poeta medíocre, mas bastante rebelde. Isso aconteceu entre 1964 e 1966, época em que os jovens eram perseguidos por usar cabelos compridos ou calças muito justas. Rafael tinha uma farta cabeleira e escreveu um poema dedicado aos meus cabelos, no qual criticava essa espécie de atitude inquisitória contra os rapazes que usavam cabelos compridos. Em 1966, apresentei minha segunda novela, El mundo Alucinante, no concurso da UNEAC, onde Celestino antes del alba obtivera o primeiro lugar; a novela ficou novamente em primeiro lugar; os jurados eram Virgilio Pinera, Alejo Carpentier, José Antonio Portuondo e Félix Pita Rodríguez, mais ou menos os mesmos que julgaram o meu prêmio anterior, com uma exceção: no primeiro júri estava Camila Henríquez Urena, que também era uma mulher

maravilhosa e que lutou, naquela ocasião, para premiar Celestino; enquanto isso, Alejo Carpentier e o velho militante do Partido Comunista, José Antonio Portuondo, queriam premiar Vivir en Candonga, de Ezequiel Vieta, que era uma espécie de apologia sobre a luta de Fidel em Sierra Maestra e uma crítica aos chamados escritores escapistas que, segundo o autor, passavam a vida caçando borboletas com seus chapéus pelos campos de Bayamo e arredores. Neste segundo concurso, Carpentier e Portuondo recusaram-se novamente a premiar El mundo alucinante. Aparentemente, não havia nenhuma obra que merecesse o prêmio, e resolveram não concedê-lo, dando uma menção honrosa ao meu texto. 104 # Na entrega do prêmio, conheci Virgilio Pinera e ele me disse textualmente: "Tiraram-lhe o prêmio; os culpados foram Portuondo e Alejo Carpentier. Votei a favor do seu livro. Anote o meu telefone e ligue para mim; temos que trabalharjuntos nessa novela; parece que você escreveu numa única noite." Era quase verdade o prazo do concurso estava quase vencido e eu, com o expediente de oito horas na Biblioteca, mal tinha tempo de escrever; trancavame no quarto e redigia de um só fôlego de trinta a quarenta páginas. 105 # O Instituto do Livro Com esses dois trabalhos premiados, embora ainda inéditos naquela época, passei a trabalhar, graças às influências do meu amante, Rafael Arnés, no Instituto Cubano do Livro, dirigido por Armando Rodríguez. Com toda certeza, nunca conheci um homem mais bonito do que o amante de Armando Rodríguez; chamava-se Héctor. Era o tipo de criatura única, que irradiava uma beleza tão imponente que era, impossível continuar escrevendo depois de vê-lo passar pelos corredores. Não sei que jeito Armando fez para manter um amante tão bonito, sem que a inveja dos que tinham acesso a Héctor prejudicasse aquelas relações ou provocasse sua destituição do cargo que ocupava, como alto funcionário do governo. O fato é que Armando era amigo de Fidel Castro, assim como Alberto Guevara, cuja vida homossexual escandalosa é conhecida em toda Cuba, especialmente em Havana; ele nunca foi punido em consequência das suas atitudes, ao contrário de outros que pagaram muito caro. Héctor morreu em pleno esplendor num acidente de motocicleta. 106 # As quatro categorias de Gays Prestando atenção nas diferenças marcantes entre os diversos homossexuais, estabeleci algumas categorias que os distinguem. Em primeiro lugar, vinha a bicha de coleira; este era o tipo de homossexual escandaloso que constantemente era preso numa sauna ou praia. O sistema fazia com que ele usasse, conforme pude verificar, uma coleira que estava permanentemente no seu pescoço; a polícia o prendia com uma espécie de gancho e ele era levado assim para os campos de trabalho forçado. O exemplo máximo deste tipo de bicha era Tomasito La Goyesca, um rapaz que trabalhava na Biblioteca Nacional e a quem dei esse apelido porque

de onde. elas próprias condenavam os homossexuais. mas há algumas coisas que precisamos acertar. num ato de desespero. Ele foi preso no início da Revolução e levado para El Morro. é por pura honestidade intelectual. e quando . cobrir-se de jóias e roupas. usando no dedo a aliança de casamento. Trata-se do tipo de homossexual que tem seus compromissos. jamais corre grandes riscos e se dedica a tomar chá na casa dos amigos. graças à intervenção de altas personalidades (dentre as quais creio que estava Carlos Franqui). ou seja: teve de pagar um preço muito alto por ser homossexual. Casa-se. muitas vezes. Era um homem de uma incrível capacidade de trabalho. acabou introduzindo uma lâmpada no ânus. que certa vez. A bicha régia é aquela que. Um exemplo típico dessa bicha era meu amigo daquela época. vinha a bicha comum. depois frequenta as saunas clandestinamente. Reinaldo Gómez Ramos. não conseguiu explicar como a lâmpada fora parar nessa parte de sua anatomia. era um sujeito extremamente autêntico e sabia enfrentar o ônus de tal autenticidade. foi sempre olhado com suspeição e sofreu constantes censuras e perseguições. andava como uma aranha e tinha uma voracidade sexual incontrolável. levantavase às seis. goza do privilégio de poder ser bicha publicamente. anão. conseguiu sair. Este homem. A bicha enrustida é aquele 107 # tipo de homossexual de quem quase ninguém desconfia. O exemplo máximo desse tipo de bicha é Alberto Guevara. ter inclusive um chofer particular. havia a bicha régia. entrava sem dúvida na categoria da bicha de coleira. militante da Juventude Comunista. Depois." Virgilio. Depois da bicha de coleira. Como bicha de coleira. Sentávamo-nos frente a frente. por vínculos muito diretos junto ao líder máximo. Eu ia visitar Virgilio Pinera em sua casa às sete horas da manhã. 108 # Virgilio Pinera Virgilio Pinera. porém um dos mais típicos é o dramaturgo Nicolás Diaz. As relações dessas bichas comuns geralmente se dão com outras da mesma espécie e nunca chegam a conhecer um homem de verdade. Você escreveu uma boa novela. A primeira coisa que me disse quando começamos foi o seguinte: "Não pense que estou fazendo isso por algum tipo de interesse sexual. ao mesmo tempo. pode manter uma vida escandalosa e. Em seguida. ou de uma tarefa extraordinária quanto à segurança do Estado. Era difícil reconhecer as bichas enrustidas. entrar e sair do país. Os exemplos deste tipo de bicha existem aos montes. sentado à minha frente. tomava café e já naquela hora ele me ajudava a trabalhar na minha novela El mundo alucinante.parecia um personagem de Goya. um tipo específico dos países comunistas. escreve de vez em quando algum poema. ou ainda por coisas semelhantes. À bicha comum segue-se a enrustida. grotesco. apesar de sua obra extraordinária já publicada e de toda a sua fama. tem filhos. lia uma cópia da novela. vai à cinemateca. ocupar altos cargos. Foi expulso da sua organização após o maior escândalo. viajar.

Virgilio viu a Ilha em toda a sua terrível claridade desoladora. Não participava de típicas hipocrisias literárias ao estilo de Vitier. magro. Em Ciclón. ele emigrou para a Argentina e ficou lá por mais de dez anos. Serei sempre profundamente grato pelas aulas de Virgilio Pinera. por causa da confusão cultural reinante em Cuba -. por problemas econômicos . Virgilio escrevia incessantemente. fez o que quis. exercendo pequenos trabalhos burocráticos. ele havia publicado um conto de uma lucidez anticomunista realmente premonitória. me avisava. segundo Virgilio. Certa vez encontrou-se com um argentino que tinha um falo enorme. Detestava qualquer elogio à sua obra. era um homem muito bonito. sob um tom religioso. mas Virgilio contou que Gombrowicz chegou em casa com o ânus todo ensangüentado. ele tivera o atrevimento de fazer a apologia da poesia completa de Emilio Ballagas. para aliviar suas dores. para sobreviver. Era homossexual. sistematicamente. detestava profundamente Alejo Carpentier. um conto que mais tarde. A primeira coisa que Virgilio fez na revista Ciclón foi publicar Os cento e vinte dias de Sodoma e Gomorra. uma revista praticamente homossexual. eram aulas que iam além da literatura. durante a ditadura reacionária e burguesa de Batista. Virgilio entra no novo regime já marcado por sua condição de homossexual e também por sua tradição anticomunista. Virgilio rompeu com a revista Origenes por volta do ano de 1957 e. despiu o amigo e o colocou na banheira. detestava também a pura retórica. além de meu amigo. desajeitado. essencialmente sensual e erótica. Durante a República. onde a realidade sempre está envolta numa espécie de nuvem violácea. embora não parecesse levar a literatura muito a sério. Virgilio era também feio. Talvez essa influência tenha sido mútua. Virgilio encheu a banheira de água quente. Gombrowicz. "La Isla en peso". Vitier nunca o perdoou por essa atitude tão franca. junto com José Rodríguez Feo. que dava um jeito de camuflar aquela poesia. Ele foi meu professor universitário. Ambos emigrados. tivera o atrevimento de contestar o prólogo de Cintio Vitier. Na época da República. tornaram-se amigos e companheiros de flerte e 110 # aventuras eróticas. Acredito que essa amizade tenha exercido uma influência marcante na ironia e na irreverência de Virgilio. Gombrowicz passou dois dias na banheira até curar as feridas.e. chegou a exercer a prostituição masculina nas termas de Buenos Aires e transava em troca de algum dinheiro. o homem pagou e exigiu possui-lo. Viviam a mesma vida isolada e estranha. a quem faltava uma boa formação universitária. segundo Virgilio. Foi muito importante para um escritor delirante como 109 # sempre fui. uma poesia eminentemente homossexual. eram de redação. o governo de Fidel Castro suprimiu de todas as antologias ou dos livros de contos publicados por Virgilio Pinera. anti-romântico. ateu e anticomunista. fundou outra revista muito mais irreverente. não . Foi lá que conheceu o polonês Witold Gombrowicz. seu poema. do marquês de Sade. ê uma das obras-primas da literatura cubana.achava que era preciso acrescentar uma vírgula ou trocar uma palavra. intitulado "El Muneco". Virgilio afirmou tudo muito claramente. uma espécie de Kafka subdesenvolvido.

nem na cultura levada muito a sério. Ele entregou suas propriedades à Revolução e permaneceu em Cuba. de fato. como Pinera caíra em desgraça com o regime de Castro. tornou-se informante da Segurança do Estado. comprou todos os limões e depois fizeram amor. conforme os pedidos do freguês. Mas acho que não. ao mesmo tempo. Segundo Guillermo Cabrera Infante. colheres. ele foi Virgilio Pinera. alguém perguntou se aquele era Virgilio Pinera e Rodríguez Feo respondeu: "Não. como fazia Jorge Luis Borges. Quando Gombrowicz deixou definitivamente a Argentina para se estabelecer na Europa e alguém lhe perguntou que conselho daria aos argentinos ele respondeu: "Matar Borges. pensando talvez ser considerado uma pessoa importante. mas havia também generosidade. mas tinham seus motivos. Acho que o negro voltava sempre com o pretexto de trazer limões e Virgilio levava-o para o seu quarto. antes da Revolução. medíocre e desprezível. são raros os que conseguem escapar dessa maldade delirante e envolvente. tinha uma casa em Guanabo e freqüentava o prostíbulo masculino de José Rodríguez Feo. Virgilio gostava de homens negros. Dizem que certa vez havia muita gente na casa de Rodríguez Feo e Virgilio apareceu na varanda. Rodríguez Feo e Virgilio partilhavam a mesma varanda. era uma espécie de mecenas e foi ele quem financiou Cuentos frios. nos sistemas políticos de esquerda. O maior prazer de Virgilio era ser penetrado por aquele cozinheiro enquanto ele mexia com 111 # panelas. Virgilio já levava uma vida sexual intensa. como contava Virgilio.acreditavam na cultura institucionalizada. acaba falecendo. Antes da Revolução em Cuba. que naquele período era a figura máxima da literatura argentina. e quando alguém consegue. um policial da cultura. Virgilio era um homem infeliz no amor. e continuava cozinhando com Virgilio agarrado a seu membro. naquela cidade. muitas pessoas passam a ser de esquerda. Foi lá também que trabalhou Tomasito La Goyesca. outros milionários cubanos nunca se preocuparam em custear revistas. e tinha um pequeno apartamento ao lado do de Virgilio. e também as revistas Origenes e Ciclón. Na verdade. Era um prostíbulo onde homens robustos trabalhavam como garçons e. de uma resposta sarcástica." Por isso. nem em ajudar escritores. tratava-se de um cozinheiro que. com a morte de Borges. É claro que existiam interesses de ordem pessoal e pequenas vaidades da sua parte. deixou de lhe dirigir a palavra e nem foi ao seu enterro quando Virgilio caiu em desgraça. realizavam outras atividades. tinha um pênis enorme. embora esse tipo de comércio já fosse clandestino. Zombavam de Borges. mas a sua resposta era antes uma vingança por tudo que ele sofrera na Argentina. ele o considerava morto. Rodríguez Feo. Certa vez. talvez até com certa crueldade. Virgilio era realmente uma bicha frágil que conseguia ser empalado e sustentado pelo falo poderoso daquele negro. obviamente. não foi ao seu enterro. Tais coisas ocorrem porque." Tratava-se. viu passar um negro com um carrinho cheio de limões que ele apregoava em voz alta. Houve outro negro com quem Virgilio manteve relações sexuais muito profundas. Virgilio chamou-o até o seu apartamento. . e sou testemunha de que ele pôde transar com negros maravilhosos. a Argentina deixou de existir. Rodríguez Feo. Rodríguez Feo pertencia a uma família rica que emigrara para os Estados Unidos com o triunfo da Revolução.

iluminava quem estivesse ao seu lado. Podia também dignificar as coisas mais s imples. Lezama possuía o estranho privilégio de irradiar uma vitalidade criadora. Por isso mesmo. Ele passava das conversas mais esotér icas às banalidades circunstanciais.112 # Lezama Lima Além de Virgilio. podia interromper seu discurso sobre a cultura grega para perguntar se era verdade que José Tria na não praticava sodomia. do ponto de vista literário. contagiante. A primeira paixão de Lezama era a leitura. diante de uma das pessoas mais cultas que jamais conheci. era impossível ouvir aquele homem 113 # e não ficar inspirado. algo a que se agarrava para não morrer. Meu encontro com Lezama foi completamente diferente. e sempre se negaram a fazer p ropaganda do regime. eu nunca ousaria procurá-lo. da brincadeira. Virgilio e Lezama tinham muitas coisas diferentes. Havia conhecido Alejo Carpentier e passara por uma experiência muito dolorosa por causa daquele homem que manipulava dados. Fina García Marruz disse-me que Lezama queria me conhecer. principalmente. era certamente uma provocação. mas que não fazia da cultura um meio de ostentação. conversar com ele significava voltar para casa e sentar-se diante da máquina de escrever. com um grande crucifixo preso numa corrente que saía sempre de um dos seus bolsos laterais. e sim. estava diante de um homem que fizera da literatura sua própria vida. Em 1966. datas. Já o tinha visto na UNEAC. a publicação de Paradiso foi simplesment e um acontecimento heróico. pois ficava apavorado diante de um homem tão culto. honestos com sua obra. foram. Além do mais. era um homem corpulento. enorme. Tinha o dom de dar um sentido à vida dos outros. Aquele crucifixo que ele exibia no centro de propaganda comunista. honestos com eles mesmos. outro escritor cubano com quem mantive grande amizade foi José Lezama Lima. a sabedoria associav a-se à inocência. estilos e números como um computador muito avançado mas totalmente desumano. Nele. Conheci-o quando da publicação da minha novela Celestino antes del alba. algo vital que o iluminava e que. por sua vez. Nenhum dos dois era capaz de dar preferência a um livro por oportunismo político ou por covardia. Acho que nunca . transformando-as em algo grandioso. a risada de Lezama era algo inesquecível. mas havia algo que os unia: era sua honestidade intelectual. que não deixava nin guém sentir se infeliz. tinha o dom crioulo da boa risada. muito simplesmente. a UNEAC.

que provocou a impugnação oficial do regime e a censura de toda a sua obra posterior (incluindo a própria novela Paradiso. especialmente francesa. Assim. amava as sabatinas literárias fora da sua casa. tão latino-americana. Lezama e Virgilio encontraram-se por acaso numa espécie de prostíbulo para homens. houve certo distanciamento entre Lezama e Virgilio. Virgilio preferia espalhar sua vitalidade por toda a cidade de Havana. aos adolescentes. mas a grandeza de ambos era superior a qualquer discrepância de caráter. as conversas no bar da esquina." A formação de ambos era européia. pois até já fora preso. "A maldita circunstância da água por toda parte" exercia uma atração da qual esses dois homens não conseguiam escapar. que se tornava quase impossível para eles afastarem-se da cidade. também realizou o ato heróico de apresentar. nas conduções. negros. Naturalmente. quando Lezama publicou Paradiso. na parte velha de Havana. ficava 114 # completamente transtornado. talvez por ter vivido tantos anos com a mãe. Uma vez. crioula e. no ano de 1968. tinha um culto extremo em relação à beleza grega e. enquanto Lezama tinha preferências helênicas. Conversava. Lezama tinha seu centro vital na própria casa. foram ambos condenados ao ostracismo. caminhoneiros. ao mesmo tempo tão estranha. e quem o ouvisse. até a morte. Certa vez. tão extraordinariamente complexa e rica em imagens. mas nenhum deles amargurou sua vida com ressentimento. Lezama praticava um humanismo católico e Virgilio era ateu. Virgilio. reflexo supremo do terror e do medo que imperam sob o regime de Fidel Castro. Virgilio pôde ficar fora da Ilha. Seus gostos sexuais eram mais populares que os de Lezama. No início da Revolução. como um estranho sacerdote. Mas os dois sentiam tamanho amor para com a Ilha e. No entanto. Os dois cultuavam a literatura francesa. para o Concurso Casa das Américas. sua obra teatral Dos viejos pánicos. querendo ou não. e nunca mais foi publicada). estava a par das perseguições contra os homossexuais.164. foram censurados e passaram a viver numa espécie de exílio interior. Lezama era muito mais retraído. lá. só vim para foder com um negro. Virgilio gostava de homens rudes. Tive o privilégio de gozar da amizade de ambos simultaneamente. suas produções iriam parar nas mãos da Segurança do Estado. Virgilio colocava em prática com assiduidade suas realizações sexuais. nenhum deles deixou de escrever. e Lezama disse a Virgilio: "Você deve estar aqui para caçarjavali. entretanto. conseqüentemente. voltou. mesmo sabendo que. que circulou em Cuba quase que clandestinamente. suas diferenças eram múltiplas. atuava como um mago. Lezama conseguiu um trabalho na cidade de Santa Clara. principalmente." E Virgilio respondeu: "Não. no dia seguinte voltou.se publicou em Cuba uma novela tão violentamente homossexual . tão cubana. porque era-lhe impossível permanecer longe de Havana. continuaram trabalhando. que não era amigo íntimo de Lezama 115 . e que talvez a única pessoa a ler seus textos fosse o policial encarregado de arquivá-los ou destruí-los. onde só tinha que dar uma conferência de caráter provisório. por Havana. na rua Trocadero. na maioria das vezes. A partir do afastamento de Rodríguez Feo da revista Origenes e da fundação da revista Ciclón. Quanto a Virgilio Pinera.

Essa mulher amou profundamente Lezama. "Virgilio Pinera faz sessenta anos". Quando María Luisa voltava. que se casara com María Luisa Bautista. o que provocava às vezes violentas ereções.a mãe de Lezama pediu que a aceitasse como esposa. Além do mais. que na verdade agora já eram muito mais platônicas. um iogurte. A própria beleza é perigosa em si. tinha um caráter simbólico. era o fim de uma época. Lezama também soube reconhecer em Virgilio o grande poeta e dramaturgo que este havia sido. Quando Virgilio fez sessenta anos. para juntar-se e brindar a um apoio imprescindível para ambos. Um dia. Virgilio lembrava: "María Luisa. textualmente: "Virgilio Pinera é o diabo. por exemplo. Eliseo olhou para mim apavorado e disse. culta e que não tinha papas na língua. ia visitá-lo e sentava-se no seu colo. passava a limpo as obras escritas a mão por Lezama pois este nunca chegou a bater a máquina. Lezama. você se esqueceu do chá. Ele dizia: "Lá vai a corça desgrenhada. María Luisa preparava o chá. uma amiga da família. Por fim. discriminação e censura que ambos sofriam. compreendi que talvez houvesse em Cuba apenas um intelectual que pudesse superar Virgilio Pinera em inocência. talvez motivados pela perseguição." Ela voltava sempre com algum pedaço de queijo. Às nove da noite. foi o primeiro a reconhecer os valores literários da obra e o primeiro a elogiá-la publicamente. pouco tempo antes de falecer. Quando María Luisa ia para a cozinha preparar o chá. apesar de nunca terem mantido relações sexuais. era como uma espécie de conspiração secreta. esse homem era Lezama Lima. xingava os funcionários que vinham pedir informações sobre Lezama. esses dois homens foram se unindo. Virgilio contava a Lezama que um dos atores negros de Electra Garrigó fazia amor com ele. Reafirmava a tarefa criadora. María Luisa. algo para satisfazer o apetite voraz daquele homem. Quando o chá atrasava um minuto. Em 1969. da devoção entre duas pessoas. confessava a Virgilio que Manuel Pereira. da solidão partilhada. a conversa era interrompida. de um estilo de vida. Virgilio 116 # e Lezama falavam a respeito das suas aventuras mais ou menos eróticas. a luta pela imagem contra todos os que se opunham a ela." A reunião daqueles três personagens. Toda semana. de uma maneira de ver a realidade e superá-la através da criação artística. pelo mistério da amizade. Lezama leu na Biblioteca Nacional um dos ensaios mais extraordinários da literatura cubana. falei com Eliseo Diego da minha admiração pela obra de Virgilio Pinera. costumava sair com uma velha bolsa de náilon branco para ficar nas filas de Havana e conseguir comida para Lezama. valente. o novelista amante de Alberto Guevara. conflitiva para toda ditadura. Lezama escreveu um dos seus poemas mais profundos. de uma fidelidade à obra de arte acima de qualquer circunstância. até mesmo antes do famoso artigo de Julio Cortázar. que costumava ficar inundada. sempre dava um jeito para conseguir um pouco." Quando passei a ser seu amigo. naquela casa um tanto desmantelada. Maria Luisa era uma mulher extraordinária. porque implica um âmbito que vai além dos limites em que essa ditadura submete os . da sobrevivência em tempos terríveis. não se sabe de onde. o amor à palavra. Virgilio visitava Lezama. intitulado "Confluências".# naquele período.

que acabava de sair de um campo de concentração. não pode reinar. José Hernández (Pepe : o Louco). Por isso mesmo. autor do livro El regalo. José Mario. a geração nascida nos anos quarenta. Luis Rogelio Nogueras. e recitávamos de cor os poemas de Octavio Paz. Escrevíamos incessantemente e líamos em qualquer local. proibidos pelo regime de Fidel Castro. um dos melhores poetas da minha geração. não era desejável aos olhos de tão proeminentes convidados. enquanto andávamos nos penhascos. deveriam vir muitas personalidades estrangeiras e nossa presença. na luta constante para conseguir uma calça pequena demais ou um par de sapatos. porque toda ditadura é por si mesma antiestética. 117 # Minha Geração Paralelamente à minha amizade com Lezama e Virgilio. destruída pelo regime comunista. talentoso e diabólico. Coco Salas. de corpo e alma disformes. Pepe o Louco. o narrador exagerado. de Jorge Luis Borges. Por essa razão. ao chegarmos à praia.seres humanos. Organizávamos encontros culturais mais ou menos clandestinos onde líamos os últimos textos que acabáramos de escrever. poeta de talento. portanto. ao que parece. Percebera que não eram poetas e sim vulgares policiais que queriam arrancar-lhe alguma informação em troca de uma pequena viagem para o exterior. eu também mantinha relações com muitos escritores da minha geração. acabou completamente alcoólatra e desprezível. uma atitude escapista ou reacionária. um pouco desvairado. por exemplo. Minha geração lia os poemas. praticá-la representa. Líamos nossos textos. praias. em tentar burlar as leis repressivas. Líamos em voz alta para a satisfação de todos. Luis Rogelio Nogueras. O próprio Lezama proibiu que Miguel Barniz e Pablo Armando Femández fossem visitá-lo. que querem destruí-la de qualquer maneira. Nossa geração. irrita todos os ditadores. tem sido uma geração perdida. com um talento tão grande e excessivo quanto a sua própria demência. Participavam daquelas leituras Delfín Prats. no desejo de poder alugar uma casa na praia para ler 118 # poesia ou ter nossas aventuras eróticas. parques. embora não tanto quanto agora. O que foi feito de quase todos os jovens de talento da minha geração? Nelson Rodríguez. para o ditador e seus agentes. Guillermo Rosales e muitos outros. morreu recentemente em condições bastante estranhas: não se sabe se de AIDS ou se nas mãos da polícia . assistência a discursos infinitos (onde sempre se repetia a mesma ladainha). é um território que escapa ao controle da polícia política e onde. na luta para escapar da eterna perseguição da polícia e suas prisões. durante um dos Festivais da Canção de Varadero. René Ariza. Delfín Prats. tanto Lezama quanto Virgilio acabaram sua vida no mais completo ostracismo e abandonados pelos amigos. fomos imediatamente presos pela polícia e mandados de volta a Havana. vigias inúteis. A maior parte de nossa geração perdeu-se em cortes de cana. acabou suicidando-se. grotesca. mas também os dos grandes escritores. foi fuzilado. A beleza sob um sistema ditatorial é sempre dissidente. Lembro-me de que. em casas abandonadas.

pior ainda. depois de descobrir toda a América. um excelente romancista. sempre os mesmos discursos. Sim. mas para morrer. está definhando lentamente numa clínica em Miami. Aqueles que não se ajustavam à norma de mediocridade foram hostilizados ou colocados no pelourinho: José Martí teve de fugir para o exílio e mesmo lá foi perseguido e acossado por grande parte dos próprios exilados. alistamentos. conspirações. uma das figuras mais importantes do século XIX cubano. Guillermo Rosales. em sua terceira viagem. contista. e a dos oportunistas e demagogos. duas personalidades parecem sempre estar em conflito na nossa história: a dos rebeldes constantes. Os ditadores e os regimes autoritários podem destruir os escritores de duas maneiras: perseguindo-os ou oferecendo-lhes cargos oficiais. E o que foi feito de mim? Depois de ter vivido 37 anos em Cuba. sempre a mesma retórica. voltou para a Espanha acorrentado. sempre o estrondo e o aparato militar asfixiando o ritmo da poesia ou da vida.castrista. Duas atitudes. tudo dominado pela infinita ambição. amantes da liberdade e. Fidel Castro contra Lezama Lima ou Virgilio Pinera. Cirilo Villaverde foi condenado à morte em Cuba e teve de fugir da cadeia para salvar-se. Até Cristóvão Colombo. Essas atitudes têm se repetido ao longo do tempo: o general Tacão contra Heredia. amantes do poder e. abuso. golpes de Estado. motins. desespero. embora sempre um pouco reacionários. Lezama e Pinera morreram também de uma forma estranha e reprimidos pela mais absoluta censura. toda essa obra tornou-se prescindível. os que optaram por esses cargos também faleceram e de uma maneira ainda mais lamentável e indigna. Em Cuba. Heredia também foi exilado e faleceu com 36 anos. nunca puderam tolerar a grandeza nem a dissidência. e também grande parte do nosso povo e da nossa tradição. Voltou a Cuba não apenas para lutar. moralmente destruído. estou agora no exílio. orgulho e inveja. no exílio. pessoas de talento indiscutível. Norberto Fuentes. tornou-se absolutamente lamentável. quiseram reduzir tudo ao nível mais chulo. O próprio Félix Varela. portanto. O que foi feito dos ensaios brilhantes. da criação e da experiência. Nossa história é uma história de traições. O que houve com a obra de Alejo Carpentier. depois de escrever El siglo de las luces? Bobagens incríveis. sempre temos sido vítimas de um ditador. agora caiu em desgraça. teve de viver no exílio o resto da sua vida. portanto. de Cintio Vitier dos anos cinqüenta? Onde está agora a grande poesia de Eliseo Diego escrita nos anos quarenta? . jamais voltaram a escrever nada que tivesse valor. foi primeiro perseguido e depois transformado em agente da Segurança do Estado. depois de aceitarem a nova ditadura. tentou reconstruir a Ilha com seu romance Ceciliu Valdés. praticantes do dogma. mais vulgar. deserções. Martínez Campos contra José Martí. e talvez isso represente uma parte da tradição cubana e também da tradição latino-americana. do crime e das ambições mais mesquinhas. Por que tanta fúria contra todos nós que um dia quisemos romper com a tradição trivial e com a monotonia cotidiana que têm caracterizado nossa Ilha? Creio que nossos governantes. depois de solicitar uma 119 # licença especial ao ditador para poder visitar a Ilha. impossíveis de se ler até o final. O que aconteceu com a poesia de Nicolás Guillén? A partir dos anos sessenta. padecendo de todas as desgraças dessa situação e esperando uma morte iminente. isto é: da herança hispânica que nos coube padecer.

Houve um momento em que se desenvolveu. continuávamos a nos reunir nas praias ou em casas de amigos. de maneira bastante complicada. ouviam os Beatles e falavam de liberdade sexual. esse rio de águas violentas foi aniquilando. para a UNEAC e para eles mesmos. em Santiago de Cuba. uma viagem por toda a Ilha e chegamos até Guantánamo. Todo mundo estava excitadíssimo e os atos sexuais ocorriam nos banheiros. para comer aquelas frutas e não morrer de fome. nós jovens nos reuníamos na Coppelia. O trem estava repleto de recrutas. todo o mundo queria transar desesperadamente e os rapazes ostentavam imensas cabeleiras (as quais. resolvemos dormir no ônibus de um terminal intermunicipal. Hiram masturbava com o pé um recruta que parecia estar dormindo no chão. na cafeteria do Capri ou no Malecón. nos esgotos. foi uma verdadeira guerra. debaixo dos assentos. Em grupos enormes. no dia seguinte. desesperados. Agora vejo a história do meu país como aquele rio da minha infância que arrastava tudo com seu estrondo ensurdecedor. Certa noite. Estávamos num trem desengonçado. Seja como for. pensando que aqueles ônibus fossem permanecer pelo menos dois ou três dias. dormíamos debaixo das pontes. ajuventude dos anos sessenta deu umjeito não para conspirar contra o regime. e curtíamos a noite apesar das ruidosas perseguições policiais. em qualquer lugar. caídas talvez de um caminhão de carga. e sim para atuar em prol da vida. a todos nós. dava marcha à ré e voltava para o ponto de partida. num lugar onde vimos uma quantidade enorme de laranjas. 121 # Uma Viagem Hiram Prado e eu iniciamos. eu tinha a sorte de poder usar as duas mãos. naturalmente. ajeitamo-nos nos assentos de trás. Foi uma viagem extraordinária. estávamos em Caney. Clandestinamente. apesar de 120 # continuarem vivos. já que todos os passageiros do trem se atiraram com o mesmo ímpeto sobre as laranjas. morreram. uma grande liberdade sexual em todo o país. a . quando despertamos. que parava em todas as cidades e que. infelizmente. saltamos pela janela do trem. às vezes. ou simplesmente desfrutávamos de uma noite de amor com algum recruta de passagem ou com um estudante bolsista. eram perseguidas por mulheres na menopausa munidas de grandes tesouras). Pelo caminho. usavam roupajusta e adesivos. pouco a pouco. ou com um adolescente desesperado que procurava uma forma de escapar da repressão. copiando a moda ocidental.Nenhum deles voltou a ser o que era. às escondidas.

pois a cada minuto podia chegar um policial para nos prender. Lembro-me de um discurso de Fidel Castro no qual achava-se no direito de informar como os homens deviam se vestir. 123 toda manifestação de vida representa. obviamente ereto. Chegar a uma praia era como chegar a uma espécie de lugar paradisíaco. não nos deixasse fornicar e tentasse eliminar qualquer manifestação pública de vida. enquanto passavam a toda velocidade veículos que nos iluminavam. onde conseguimos transar com regimentos inteiros. vinham ao nosso encontro. Nas cabanas da praia de La Concha. e tinham de aproveitar ao máximo essa liberdade. era todo mundo: os recrutas que passavam por longos meses de abstinência e toda aquela gente. despertaram todo o acampamento à nossa chegada. havia sempre dezenas deles dispostos a transar nos matagais. ele criticava os rapazinhos de cabelo comprido e que andavam pelas ruas tocando violão. Hiram Prado saiu de Santiago de Cuba na carroceria de um caminhão onde se encontrava um negro. 124 O Erotismo Às vezes. já fizera vários sinais com a mão e tocara o próprio pênis. O rapaz. em poucos minutos já estava chupando o pau do negro. Da mesma forma. começamos a fazer uma lista de todos os homens com quem tínhamos transado naquela época. Toda ditadura é casta e contra a vida. com um jovem recruta igualmente nu. Nus ou enrolados em lençóis. o . como se aquele instante talvez fosse único. nós nos escondíamos em tanques abandonados e fazíamos um barulho infernal. nossas aventuras não terminavam como gostaríamos. estávamos em 1968. procurávamos homens por toda parte e os encontrávamos. Hiram alcançava mais ou menos a mesma cifra. Na realidade. todos os rapazes queriam fazer amor. Posso imaginar o espanto dos camponeses quando viam aquela cena à passagem do caminhão. muitos rapazes me possuíram com uma espécie de desespero. sobre a braguilha de um rapaz bastante atraente. não apenas nós estávamos perturbados por aquela fúria erótica. um inimigo de qualquer regime dogmático. na verdade. Hiram e eu continuamos nossa aventura erótica até a ilha de Pinos. Lembro-me de que Tomasito La Goyesca certa vez atirou-se. Nossa juventude possuía uma espécie de rebeldia erótica. Quando Tomasito o agarrou. Vejo122 # me completamente nu debaixo de uma ponte de Santiago. Após complicadíssimos cálculos matemáticos. Na verdade. concluí ter feito amor com uns cinco mil homens. Era lógico que Fidel Castro nos perseguisse. enquanto o caminhao corria a toda velocidade pela estrada. loucos de vontade de fornicar.muitos quilômetros de Santiago e sem saber como voltar para a cidade. Um dia. em pleno ônibus. os que não estavam num campo de concentração eram privilegiados. os recrutas. em si.

Em meio à confusão. Acrescentou ainda que faria o possível para que fôssemos expulsos da Biblioteca Nacional. não tivemos coragem de estender a mão e tocar aquela região maravilhosa. Depois de me possuir com intensa paixão e gozar. O motorista abriu as portas do ônibus e tivemos que saltar e começar a correr por toda a praça da Revolução. pegou um bloquinho do Departamento da Ordem Pública e me disse: "Venha comigo. e ficamos no escritório de María Teresa Freyre de Andrade.rapaz reagiu de maneira violenta. e disse que se não chegássemos na hora certa com a carteira seríamos presos. espancando-o e chamando-o. de bicha. assim como a todos nós. dei o meu endereço. Olhávamos atônitos e loucos de desejo de tocar naquele volume tão promissor. ao mesmo tempo. entrando pela porta dos fundos. chupando-o ali mesmo. Algum tempo mais tarde. Talvez fosse uma aberração existente em todo sistema repressivo. Quando soube que eu era escritor. Pensamos que podia ser uma armadilha e que a casa estivesse cheia de policiais para nos prender com a mão "na massa" . vestiu-se calmamente. Como Tomasito recusou-se a sair do seu esconderijo. está preso. olhou-me indignado. fez uma espécie de interrogatório e ficou sabendo que Hiram já estivera na União Soviética. pois nos banheiros da Coppelia ele já havia revelado sinais de uma excitação inadiável. preso por ser veado. Marcou um encontro conosco em sua casa à meia-noite. Lembro-me também de uma aventura com outro jovem militar. o homem chegou furioso na Biblioteca. Não precisamos falar muito. Enquanto assinávamos e líamos aquele documento ele começou a tocar seu pênis. Obrigou-nos a assinar uma folha de papel onde constava que estávamos devolvendo todos os seus documentos. A toalha dava sinais cada vez mais evidentes da excitação daquele homem. Buscamos refúgio na Biblioteca Nacional. Tomasito estava com o rosto inchado e Hiram Prado percebeu que ele segurava uma carteira que não lhe pertencia. ambos sabíamos o que queríamos. Finalmente. pediu que nos sentássemos e contássemos nossa vida. Tomasito perdera sua carteira. enxugando-se com uma toalha que amarrou na cintura. Mas seu pênis continuava cada vez mais duro e ereto. aquele homem que nos perseguira por sermos veados no fundo queria que agarrássemos seu sexo e o esfregássemos. ele estava tomando banho e saiu completamente nu. que novamente ficou duro. os três tremendo de medo. Ao chegarmos à sua casa. mas ela pertencia ao rapaz que o tinha surrado e que era simplesmente um oficial do Ministério do Interior. Hiram e eu fomos falar com ele. perguntou-lhe então como era possível alguém ser bicha após ter estado naquele país. e ele os nossos. Por volta das quatro da manhã saímos de lá e o homem despediu-se de nós com o membro ereto por debaixo da toalha. Depois. procurando por Tomasito." Fomos até a delegacia. e sua mão não parava de acariciá-lo. Nós nos conhecemos em frente à UNEAC. insultava-nos. mas certamente não era nada disso. 125 # À meia-noite em ponto chegamos. trocada pela do homem excitado que batera nele. pegara a carteira pensando que fosse a sua. Entregamo-nos a um combate sexual bastante notável. chamando-nos de imorais. ele foi à minha casa e sentou-se na única cadeira que havia. enquanto uma multidão de homens e mulheres "castos" nos perseguia e insultava. Todos lá eram rapazes como aquele que me havia 126 .

porque eu. Isso provocou uma discussão. ouvindo carros da polícia me procurando. fiquei no hotel Monte Barreto. conseguiu chegar ao Malecón. ou. Como ele era o ativo. com um soldado. dei um grito e me atirei no matagal. seu veado. achava não ter cometido nenhum delito. ambos estávamos excitados. enquanto corria. que o seguia de perto. Ao amanhecer. Acabaram dizendo que era uma vergonha um policial fazer tais coisas. mas não me encontrou. Mas aí se excitavam e 127 # acabavam transando. Acho que houve um processo contra ele. de roupa mesmo. assim como fizera no matagal enquanto estava sendo perseguido pelo militar. . ao entrar. Na verdade. naquele banheiro. Fiquei ali um dia inteiro. Ficara esperando por mim a noite toda. o militar que perdera toda a sua excitação devia estar me perseguindo. Desde o início. voltei para o meu quarto em Miramar. mãos que o tocavam em todo o corpo. era incrível ver aquela bicha cheia de merda dos pés à cabeçaem pleno bulevar do Prado. Durante um dos carnavais mais alucinantes de Havana. foi quando percebeu que alguém. e. Lá encontrei um rapaz muito lindo à minha espera. Havia dezenas de homens em pé. outros eram enrabados ali mesmo. Nadou até depois de El Morro. porque o fedor que exalava era tão violento que. pensando bem. mas sem fedor de merda. subimos até o meu quarto e procurei abrigo entre as suas pernas. Expliquei a verdade e disse que ainda devia haver uma certa quantidade do seu sêmen dentro do meu corpo. não foi muito difícil abrir caminho no meio daquela multidão.# enrabado. Tive problemas desse tipo com outros militares. ou talvez só fossem os que tinham bebido e queriam se aliviar. mas para ele. Eu. não agüentando mais e completamente satisfeito. mas ele levou minha mão mais para cima. ficou nadando horas em mar aberto e voltou de madrugada. pelo menos. saiu para a rua. Assim. que já estava fora da calça. Os policiais ficaram perplexos diante dessa confissão. transferido. Tomasito. enquanto outros chupavam-lhes as picas. Ele pegou o revólver e disse: "Vou te matar. O fato é que ele havia realmente gozado e agora queria me meter em cana. Ou talvez se visse como uma virgem violentada por algum depravado. que era macho de verdade. havia apanhado um monte de merda do chão e lambuzara todo o seu corpo. A princípio não se via nada. que acabou sendo expulso da polícia. Ele afirmou então que eu era veado e que tinha chupado sua pica. Com toda certeza. depois dava para enxergar falos reluzentes e bocas chupando. ele me disse: "Abaixe-se e segure-me aqui. sentiu que acariciavam suas nádegas e pernas. era um dos meus inúmeros amantes que sempre voltava. Meus amigos também sofriam inúmeras decepções amorosas ou eróticas. atirou-se na água. o fato de se meter com um veado era realmente imperdoável. tinha minha fraqueza. Finalmente. ensopado. falamos claramente. cercado de milhares de pessoas. até o cinto e o que senti foi um revólver." Apontou para sua barriga. Tomasito La Goyesca entrou num dos mictórios improvisados no bulevar do Prado. " Comecei a correr. ouvi uns tiros. o escândalo era demasiadamente óbvio. abria-se uma brecha no meio daquela gente toda. Segurei-lhe o membro. vi quando se afastou e temi que fosse devorado pelos tubarões. Quando chegamos ao local em questão. Certa vez. em Miramar. em pleno carnaval. Ninguém ia ali para urinar.

arranjamos dois marinheiros fabulosos e os levamos para a casa de Tomasito. Ele passou toda a madrugada assim. quando tentava pôr em prática suas inquietações eróticas. a cortina se abriu por completo e apareceu no palco aquele espetáculo. Hiram foi preso e rasparam-lhe a cabeça. Ele levou um vagabundo para seu quarto. Por algum tempo mantivemos uma longa correspondência. devia ter uns dezesseis anos. O vagabundo mandou Pepe tirar a roupa. assim como eles conosco. Numa outra ocasião. na rua Monserrate. onde tinha ido estudar como jovem comunista. Tempos depois. vi Hiram escoltado por vários guardas.Ao voltarmos ao bulevar. Ele foi deportado da cidade de Havana e mandado para uma fazenda agrícola na província de Oriente. Pepe Malas também tinha constantes aventuras trágicas. o vagabundo o empurrou até a varanda. enquanto do outro lado o farmacêutico roncava. que não se incomodava quando o filho trazia homens em casa. a aventura foi um pouco mais complicada. cansado de ser acordado por aquele veado. Chamar a polícia seria ridículo. que morava com a mãe. Às vezes. trancou por dentro a porta do quarto e deixou-o completamente nu na varanda. nu e de frente para a rua Monserrate. Pepe. não tinhacomo explicar por que deixara aquele vagabundo tão maravilhoso tirar a sua roupa e roubá-lo. Não foi exatamente com aplausos que o público se manifestou. chupando a pica daquele rapaz por trás de uma cortina do teatro. andei por toda a ilha de Pinos tentando saber em que cadeia ele se encontrava. ficava no quinto andar de um velho prédio. não sabia o que fazer. nos separamos. vinha o belo rapaz. subitamente. quando. um belo exemplar masculino. porque. houve um rugido ensurdecedor. Certa noite. onde tinha nascido. Hiram ligou-se a um rapaz que trabalhava nas brigadas que colhiam frutas. com uma varanda que dava para a rua. Atrás. que trabalhava no turno da noite. sendo conduzido para o barco. com a condição de não fazerem barulho. Durante uma semana. Hiram Prado sempre teve problemas nos teatros. Ele estava num momento de excitação máxima. As pessoas que passavam na rua ficavam um 128 # tanto espantadas de ver aquele homem preso najanelinha. gritou que não tinha mais aspirina e fechou a janela com tamanha força que a cabeça de Pepe ficou presa. O rapaz. Fora expulso da União Soviética. Uma vez apaixonou-se por um farmacêutico. uma mulher velha e tolerante. em plena apresentação do balé Bolshoi. Gozamos com aqueles jovens rapazes. foi descoberto chupando o pau de um jovem russo. Ele obedeceu. quando já ia pegar o barco que me levaria de volta para Havana. cujo pau Hiram estava chupando. como numa espécie de guilhotina travada no último segundo. igualmente preso. finalmente. os amantes que arranjávamos tinham intenções criminosas ou complexos que os levavam a manifestar uma violência 129 # . Colocou numa maleta todos os pertences da bicha e foi embora. em uma de nossas aventuras eróticas e literárias na ilha de Pinos. O prazer de Pepe consistia em enfiar a cabeça pela janelinha que ficava aberta durante a noite e comprar aspirina enquanto ficava olhando fixamente para a braguilha do belo farmacêutico.

nome de guerrade Amando García. pediu que o recruta lhe introduzisse no ânus um taco de beisebol que ele guardava para esse uso específico. Amando. mas o recruta foi longe demais e introduziu todo o taco no ânus de Amando. era demais. a uns dois ou três quilômetros de La Concha. conhecia um recruta. Foi quase um milagre. E assim. a natureza me ajudou: de repente. A chuva tinha parado e três rapazes pulavam do trampolim. Rapidamente. O caso de Amando García foi bastante significativo. na verdade. Além disso. Lembro-me de uma vez em que o apresentei a um dos recrutas que vinham me visitar. Costumávamos também ser vítimas do ciúme por parte daqueles homens ou bagarrones. uma bicha muito forte. com a mão aberta. "Agora. Mas aquele rapaz. Apresentei esse recruta a Amando. mas o temporal era tão forte que me perderam de vista. e Amando. Durante muito tempo. como que em pleno êxtase. antes que a polícia pudesse me prender. não tinham a menor justificativa diante da polícia. trancados numa cabine. Na frente deles. nus e ensopados de suor. Desnecessário dizer que toda atividade homossexual era ilegal e reprimida. subi no . esperava louco de desejo. Eu tinha uma espécie de exército particular. eu podia ver a polícia me procurando num barco-patrulha. Encontrou um belo rapaz que praticava judô e o levou para casa. soltou um grito e todos os vizinhos da casa de família onde ele alugava um quarto acorreram em sua ajuda. Gluglu mudou de apelido: passou a ser conhecido por Bicu. Tudo levava a crer que não haveria escapatória: dois homens completamente nus e excitados. O rapaz desapareceu. foi preciso que ele usasse um ânus artificial. instalei um rapaz muito bonito numa cabine na praia de La Concha e um outro. Às vezes. "Estique-o mais um pouco". mas tinha um pênis menor do que Amando esperava. e podia nos custar muitos anos de cadeia. tratava-se de um rapaz belíssimo. dei um grito e comecei a correr escadas abaixo de La Concha. seguida de peritonite. às vezes havia de quinze a vinte recrutas no meu quarto. xingando-o com os piores palavrões. chamou a polícia e disse que havia dois homens trepando na cabine. Exigiram que abríssemos a porta. como costumavam se chamar. havia ciúme entre eles também. levaram-no rapidamente para o hospital. deu-lhe um soco no pescoço. apaixonado 130 # pelo rapaz. eles também sentiam-se estimulados pelo fato de conhecer novas pessoas. Insatisfeito. bem malvado pelo jeito. enrolei todos os pertences na minha camisa. o rapaz soltou um grito horrível. Nesse momento. que por sua vez trazia um outro. feche os olhos".sem justificativa. éramos generosos e compartilhávamos nossos amigos. típico dos que praticam judô. no dia seguinte ele trazia um colega. "Que lindo pescoço você tem". Várias aventuras eróticas de Gluglu terminaram no hospital. disse ojovem. matá-lo instantaneamente. atirou-se contra o corpo de Amando e. acrescentou. atirei-me na água e comecei a nadar. mandou o belo exemplar masculino. O que queria realmente era arrebentar-lhe o pomo-de-adão. pois já nos tinham visto trepando pela parte de cima. completamente nu. Um dia. desabou um aguaceiro tipicamente tropical. Eram rapazes extraordinários. abri a porta e. assim. O rapaz mandou que se deitasse e começou a admirar Gluglu. Nisso. o que provocou uma perfuração intestinal. enquanto cuspia sangue. levou a polícia até a cabine onde estávamos fornicando. cheguei à praia Patrice Lumumba. com o pescoço esticado e os olhos fechados.

Ocasionalmente essa pessoa estava acompanhada. elas eram frondosas e tinham uma densa folhagem. onde tiravam a roupa e tinham suas aventuras eróticas com algum outro rapaz. tomou banho e subiu para se trocar. ver o mar. mas não me fizeram nenhuma pergunta. Chegar até o mar. As vezes. fechava-se a porta e cada um fazia o que bem queria. sempre difícil. acho que lhe pedi um cigarro ou fósforo. de alguma forma. No entanto. Eles me recompensaram por toda a angústia que eu passara em La Concha. Deita131 # va-se. Creio que foi aí que surgiu a idéia de escrever minha novela Otra vez el mar.trampolim e coloquei a sunga. fazíamos amor em cima das amendoeiras que cercavam aquela praia. dirigiu-se ao prédio das cabines. consegui uma máscara de mergulho e pés-de-pato. durante os anos sessenta. um suspiro profundo no momento da ejaculação. onde nunca vi tantos homens dispostos a trepar com outros. Fui atrás dele. fazíamos amor debaixo d'água. e ele convidou-me a entrar. quando todo mundo vinha fornicar naquelas cabines. mas fiquei vários meses sem freqüentar aquela praia. entre os ruídos dos pássaros. vi-o novamente de braço dado com a esposa e o filho. mas quando isto não era possível. todos aqueles homens. por uma semana completa. 132 . levantava as pernas e eu via seus testículos belíssimos. que por sorte não distava muito da praia Patrice Lumumba. Eu me tornei especialista nisso. submerso até o pescoço. tinha que ser uma mulher ou alguêm casado. foi infiel à esposa de uma maneira incrível. ele mesmo não podia alugá-la. às vezes. mas às vezes entravam na cabine. e lá em cima. de vez em quando eu fazia amor no fundo do mar com alguém que também usava máscara. eu chupava-lhe com força o membro até fazê-la gozar. Quase sempre enfrentávamos filas enormes para conseguir cabines em La Concha. mas. como toda planta tropical. onde a gente sabia que haveria sempre um amante anônimo à espera entre as ondas. talvez. quase sempre algum amigo dava um jeito de conseguir uma. de sunga ou nus. depois voltavam para as esposas. Nadamos um pouco e logo em seguida estávamos todos no meu quarto. aquele mar dos trópicos repleto de adolescentes maravilhosos. eram verdadeiramente irresistíveis. erguendo as pernas e exibindo-me os testículos. e enquanto conversava. Lembro-me de um homem particularmente bonito que brincava com a esposa e o filho na areia. Durante uns cinco minutos. conseguíamos a casa por um fim de semana e. de alugar uma casa em Guanabo. uma linda cena familiar. era uma festa. Finalmente. Comecei a conversar com eles e não sei se desconfiaram do que tinha acontecido. Além do mais. Era a maior festa. afastando-me depois a nado com a ajuda dos pés-de-pato. O lugar era famoso neste sentido desde a época da República. Era maravilhoso mergulhar e ver aqueles corpos debaixo d'água. de homens que tomavam banho nus ou com suas sungas mínimas. Depois. Observei-o brincar com o filho durante longo tempo. Alguns homens vinham com as esposas e sentavam-se na praia para relaxar. O interlocutor da pessoa só notava. Nosso maior prazer era a possibilidade. não era difícil para um adolescente subir naquelas árvores. realizávamos manobras eróticas dignas de equilibristas profissionais. porque era realmente o mar o que mais nos excitava.

Nunca pude trabalhar em total abstinência. com apenas um. Muitos daqueles rapazes voltavam depois. respondi: "É você. eu morava no quarto de empregada da minha tia Agata. ainda nu. Certa vez. ele me pediu que o fizesse. Não foi preciso falar muito. mas continuava a me arremessar. que faziam um barulho terrível. Por essa razão. Na verdade. porque luta judô. por sorte. sendo praticante de judô. dez. nunca entravam pela frente da casa e sim pelo pátio. e enquanto eu trepava com um deles. Enquanto María Luisa saía para preparar o chá.# Levávamos nossos cadernos e escrevíamos poemas e capítulos de novelas. mas isso representava um problema. caíam em cima dos gatos da minha tia. falava-se pouco. já que a casa não era minha. provocando o maior escândalo por parte da minha tia. começou a me atirar contra o teto. Lezama apreciava ouvir minhas aventuras. em certas ocasiões. Eu ia muito bem. transávamos com exércitos inteiros de adolescentes. embora tivesse ocasionalmente de suportar as consequências da violência de alguns dos meus amantes. esperando a vez. o erótico e o literário andavam de mãos dadas. por orientação minha. Em seguida. não havia necessidade de falar mais nada. pedia-se um cigarro. Minha tia possuía muitos gatos e meus amantes. e por vezes ficava escrevendo até altas horas da noite. eu também gostava muito de desempenhar essa função. O rapaz aceitou. nem podiam entrar no quarto onde eu os esperava. ele amparava minha queda em seus braços. os rapazes." Felizmente. ele perguntava o que eu tinha feito ou como andavam meus amores. só que extraordinário e que valia por uma dúzia. andava descalço por todas aquelas praias e já tivera aventuras bastante insólitas com belíssimos adolescentes entre os matagais. ao pularem. nem todos os desportistas tinham esse comporta- . de tão apavorados. em várias oportunidades. em outras ocasiões. No meu pequeno quarto de Miramar. eu os esperava no quarto. pois em vez de realizar o papel de ativo. E eu. as 133 # coisas aconteciam com um simples olhar. eu me trancava durante as tardes. infelizmente. ou então desfrutavam da aventura coletiva e então era uma festa fantástica. Quando a pessoa aceitava. Às vezes. principalmente na minha ausência. os outros se masturbavam. "Quem é o homem? Quem é o homem? Quem é o homem?". às vezes doze e." Ele ficou furioso. onze. essa era uma das vantagens do flerte em Cuba. vinham quatro ou cinco juntos. talvez com uma certa crueldade. e ficavam batendo na porta. repetia sem parar Como eu estava com medo de morrer naquela briga. porque o corpo precisa sentir-sesatisfeito para que a mente possa soltar-se. respondi: "Claro que sou eu. pulando um muro que dava para o mar. depois o enrabei e ele gozou como um condenado. era perigoso quando os rapazes voltavam. Ao chegar em casa. Os mais ousados subiam pelo telhado ou escalavam a varanda que dava para a rua. dava-se logo o endereço. quem é o homem aqui?" Referia-se a quem tinha comido quem. O rapaz começou a me chupar. fiquei surpreso. De dia. que era informante da Segurança do Estado. pois fui eu quem te enrabou. perguntou-me: "E se formos apanhados. lembro-me de ter interceptado um adolescente bastante robusto. descendo da condução.

Diversos desses bolsistas passaram pelo meu quarto. ele teve de se alistar como guerrilheiro. em todo o bulevar do Prado. era-lhes incutida a idéia de libertar seu próprio país. que tinha conhecido Fortunato nas guerrilhas. Após seu ingresso nas universidades recebiam doutrinação política e. Quando escrevi EI palacio de las blanquisimas mofetas. Perguntou por mim e identificou-se como amigo de Fortunato. no final. Nessa ocasião o governo revolucionário convidara muitos jovens de toda a América Latina para estudar nas 134 # universidades cubanas.Instituto Nacional de Desportos e Recreação. vítima do imperialismo norte-americano. Milhares de rapazes ali praticavam ciclismo. o estudante não estava. Certa vez bateu à porta de minha tia um rapaz chamado Alfonso. o fato é que continuou me visitando durante anos. Todos esses . nem sei como resolvi isso. formando parte do seu corpo de segurança.mento. finalmente. Perto da casa da minha tia havia uma escola imensa chamada INDER . Minhas aventuras eróticas não se limitavam às praias ou aos quartéis. Continuamos sendo amantes durante um ano e. Talvez tenha sido transferido para outro país em missão oficial. Ele subiu pela varanda. Como se recusara a obedecer. onde centenas de estudantes dormiam. Uma vez conheci um estudante chamado Fortunato Granada. não sei se o mataram. desapareceu. é claro. vinha esporadicamente. Fortunato me contou tudo aquilo enquanto fazíamos amor num colchonete. Havana oferecia também uma outra vida homossexual poderosíssima. De repente. em Coney Island de Marianao. pois nunca mais tive notícias dele. pois estava com o estudante. no sótão do alojamento. Logo percebi o que queria. pulava a janela do quarto de um veado? Na verdade. felizmente. porém muito evidente. às três da manhã. Além da pegação realizada de dia. eu quis render uma pequena homenagem a esse magnífico amante. seu passaporte havia sido confiscado e agora ameaçavam expulsá-lo da universidade. Essa vida era a pegação noturna em La Rampa. deparando com o aluno sem roupa. atletismo e outros esportes. ou talvez o governo nem soubesse. nós nos tornamos bons amigos e excelentes amantes. e quem sabe onde estará atualmente. ocupava cargos oficiais nas representações diplomáticas junto a Fidel Castro. outras vezes apenas um. tinham que voltar na qualidade de guerrilheiros. o herói da minha novela chama-se Fortunato. O professor pertencia à Juventude Comunista e quando bateu na porta não abri. era colombiano e viera para Cuba na esperança de ser médico. às vezes em bando. Estava desesperado e sem saber o que fazer em Cuba. na sorveteria Coppelia. Não queria voltar como guerrilheiro. queria ser médico e para isso viera estudar em Cuba. Talvez tenham ignorado suas tendências homossexuais por ser estrangeiro. Um dia. Naquela noite o professor foi embora e voltou no dia seguinte quando. também ocorriam em alojamentos universitários. Alguns guerrilheiros mais sortudos voltavam a Cuba. clandestina. aconteceu de se encontrarem um professor e um aluno. no Malecón. boxe. expulso da universidade e sem nenhum documento de identificação. Como explicaria àquele estudante por que. e se comportava como um verdadeiro macho. Ele passara pelas guerrilhas e trabalhava agora para o Ministério do Interiorde Cuba. empurrou a janela e entrou. geralmente nas praias.

um mistério. visto apenas de perfil. e gozavam cada instante como se fosse o último ou que lhes podia custar muitos anos de cadeia. instalado em sua poltrona. se introduzissem. um gesto. Quase todos aqueles rapazes que desfilavam na praça da Revolução. mas. uma piscada. Talvez nunca mais voltássemos a encontrar aquele rosto. que infringiam a lei da periculosidade. que queria ser chupado e até . tinha-se a oportunidade de esticar a mão e tocar um pênis ereto. e as pessoas que delas participavam. O chofer apagava as luzes e o carro corria pela estrada cheia de buracos. abaixar as calças. quase todos aqueles soldados de fuzil na mão. Os homens assumindo seu papel de macho ativo. algo que acontecia no escuro ou em plena luz do dia. foi quando o ato sexual virou tabu. enquanto projetavam um velho filme americano. Por outro lado. homens solitários trancados em quartéis e escolas que saíam à noite loucos de vontade de fornicar. e às vezes uma ternura e uma maneira de gozar que dificilmente encontrei em qualquer outro lugar do mundo. no último andar. abrissem o cinto. Entrar num cinema era pensar ao lado de quem sentaríamos. de qualquer forma. Aquelas aventuras. agarravam o primeiro que aparecesse. não havia prostituição e sim o prazer. Eu fazia tudo para ser sempre um dos primeiros a chegar em qualquer um desses lugares. As pessoas ficavam mais excitadas durante as longas viagens entre as províncias. Talvez no íntimo percebessem que estavam fazendo algo proibido. aplaudindo Fidel Castro. teve início uma violenta perseguição contra eles e foram criados os campos de concentração. um peito forte. já representava um prazer. a necessidade de satisfação. mesmo quando não chegava a culminar no corpo desejado. tornavam-se malditos. um sinal eram suficientes para iniciar a seqüência que levaria ao gozo total. Levei uns cem desses rapazes para o meu quarto. e se aquele rapaz. tal esplendor. enquanto se exaltava o "homem novo" e o machismo. porém clandestinamente. o desejo de um corpo por outro. depois das manifestações vinham aninhar-se em nossos quartos e lá. onde se escondia o membro fabuloso. Exatamente quando se promulgaram todas as leis contra os homossexuais. que marchavam com ares marciais. Ali mesmo. O prazer sexual entre dois homens era uma espécie de conspiração. ver como ele ejaculava e depois sair antes do final do filme. uma coxajovem. mostravam sua autenticidade. Acho que nunca se trepou tanto em Cuba quanto nos anos sessenta. às vezes. sem roupa.135 # lugares estavam repletos de recrutas e bolsistas. apalpassem a cintura. podia-se deixar que as mãos percorressem o corpo. cautelosas e ávidas. um olhar. A aventura em si. subir uns lanços de escada e. estenderia a mão lentamente para apalpar uma coxa. exibiam tal plenitude. e depois ousaria um pouco mais e tocaria por cima da calça um pênis 136 # aprisionado e louco de desejo. poder masturbá-lo. eles não queriam ir tão longe e então era preciso aventurar-se pela cidade velha de Havana. tomar os ônibus abarrotados de rapazes e sentar-se ao lado de um deles já representava a certeza de que algum jogo erótico ocorreria durante a viagem. eram maravilhosas. Por isso. a cada pulo do veículo. teria de ser um cara maravilhoso. quando chegava aquele momento. esticaria a perna para tocar a nossa. uma surpresa.

A militância homossexual tem conquistado direitos excelentes 138 . Acho que a revolução sexual em Cuba foi realmente um produto da repressão existente. que. ou é difícil que seja assim. não havia uma parte específica para homossexuais. às vezes. o mais interessante do homossexualismo cubano consistia no fato de que não era necessário ser assumido para manter relações com um homem. Em Cuba. para encontrar e prender os homossexuais. quando se ia a um clube ou a uma praia. Depois. nunca vi um homem gozar tanto. o verdadeiro objeto do seu desejo. Acredito francamente que os campos de concentração para homossexuais e os policiais disfarçados de rapazes obsequiosos. sem dúvida alguma. Como pode haver prazer dessa maneira? Se o que se procura éjustamente o contrário ! A beleza das relações daquela época estava no fato de encontrarmos nossos opostos. mas se gostasse de um macho de verdade. Isso se perdeu nas sociedades mais civilizadas. depois os papéis se invertem. quando uma bicha gostava de outra. Primeiro uma chupa a outra. mais do que com as próprias esposas. casado e pai de vários filhos que dava uma escapada semanal. quando fui para o exílio. sem atrapalhar em nada a atividade heterossexual desse homem. Transávamos debaixo de pontes. um homem podia ter relações com outro como um ato normal. não sei se posso dizer que eram pederastas ativos ou bissexuais. também podia encontrar um que quisesse morar junto ou manter uma relação amistosa. Lembrome de um mulato extraordinário. não havia uma divisão que colocasse o homossexual numa posição de militante. O certo é que tinham namoradas ou esposas. e quando vinham conos137 # co. Por outro lado. e sim procurar um homem que a fodesse e que sentisse tanto prazer com o ato quanto ela ao ser possuída.mesmo trepar no próprio ônibus. podia ficar com ela e morar junto sem nenhum problema. tudo foi regularizado de tal forma que se criaram grupos e sociedades onde é muito complicado para um homossexual encontrar outro homem. onde o homossexual teve que se transformar numa espécie de recluso sexual e separar-se da parte da sociedade supostamente não-homossexual. para trepar comigo na cadeira de ferro do meu quarto. era um excelente pai de família e um marido exemplar. Como não havia essas divisões. Existe uma espécie de categoria ou divisão no mundo homossexual. com homens que queriam satisfação enquanto nos enrabavam. nos matagais. Agora não é assim. trouxeram apenas como resultado um maior desenvolvimento da atividade homossexual. percebi que as relações sexuais podem ser enfadonhas e pouco satisfatórias. Não sei como chamar aquelesjovens rapazes cubanos de então. tudo que ela havia condenado era interpretado como uma atitude positiva pelos dissidentes. No entanto. Da mesma forma. que nos anos sessenta representavam a maioria. a bichalouca junta-se com outra e cada uma faz de tudo. gozavam de uma forma extraordinária. isto é. Todo mundo compartilhava de tudo junto. O normal não era uma bicha transar com outra. encontrávamos aquele homem. pois elas se recusavam a chupá-los ou tinham inibições que tornavam o sexo menos prazeroso. Talvez como um protesto contra o regime as práticas homossexuais começaram a proliferar cada vez mais. também o exclui. em todos os lugares. aquele recruta forte que desejava desesperadamente trepar conosco. como a ditadura era considerada um mal.

então um jovem e simpático escrito r. Foi um roubo sério para mim. Elogiei o caranguejo. Minha máquina era uma velha Underwood de ferro. Ele era. ele ia andando pela areia com o caranguejo. obviamente. às ve zes mais intensos. cometi a imprudência de ir à praia com todo o dinheiro. porque quase nunca se encontra o que se deseja. emprestou-me sua máquina e pude terminar o poema. percebi que tinha sido furtado. Dias depois. Tal qual um pianista eu 139 # me inspirava no ritmo das teclas que me embalavam. que pegara um caranguejo e o segurava amarrado. como todos os homossexuais. pois alguém entrara no quarto pela janela e roubara a minha máquina de escrever. após receber meu salário na Biblioteca Nacional. Alguns dias depois. eram como ondas giga ntescas que cobriam páginas e páginas sem nenhum ponto. em toda relação sexual. fui a pé para casa.# para os homossexuais do mundo livre. veio para minha cabine. O s parágrafos sucediam-se uns aos outros como as ondas do mar. não tinha nem os centavos necessários para pagar a condução de volta para casa. algo extraordinário. ou então. mas era tudo o que eu possuía para viver durante um mês. Eu. e por isso o mundo homossexual de hoje tem algo de estranho e tristonho. tive de interromper esse poema. veio à minha casa um policial mulato. é a busca do oposto. A única coisa que usava era uma sunga mínima. logo em seguida. conheci um rapaz maravilhoso. outras menos. pois a máquina representava meu único bem de valor e era o objeto que eu mais prezava. bastante simpático. . enquanto olhava para as pernas do rapaz. numa das cabines abertas encontrei o caranguejo todo despedaçado. Não sei quejeito deu. também fui roubado e chantageado. Era um poema longo intitulado "Morir en junio y con la lengua afuera". tudo o que restava do caranguejo era sua carapaça. O fato é que. É claro que aquele mundo também oferecia perigos. Disse que minha máquina encontrava-se na dele gacia. O ladrão tinha sido preso quando cometia outro roubo. Guillermo Rosales. noventa pesos. o qual. mas enquanto executava sua ginástica sexual com extrema habilidade. sem que peça para ser possuído também. Nesse dia. O ideal. Sentar-me à máquina de escrever era. mas representava para mim um instrumento mágico. Procurei por ele em toda La Concha. Naquela tarde. como se fosse um cachorro. que não representava muito. e continua sendo. uma pessoa muito violenta. O belo adolescente tinha desaparecido sem deixar sequer mesmo o caranguejo como testemunha do furto. conseguiu roubar todo o dinheiro que eu trazia no bolso da calça e escondeu-o naquela sunguinha. mas quebrou o encanto maravilhoso de se encontrar um hetero ou bissexual que sinta o desejo de possuir outro homem. Cheguei ao meu quarto e retomei um poema já iniciado. Uma vez. depois que foi embora.

olhando para praia como algo remoto. A platafor- . por último. onde a máquina parecia estar soldada. Pude então conhecer o mar. sem que o ritmo da minha produção literária corresse perigo. E sse ritmo era parte de mim. Desde criança. ia mar a dentro e nadava naquelas águas transparentes.revistaram sua casa e encontraram um arsenal de coisas roubadas . diante da qual me sentava como um concertista s e posiciona diante do piano. eu já passara temporadas em Gibara. Várias vezes. Durante os anos sessenta tornei-me um excelente nadador. aquele espetáculo era algo insuperável. entre as quais minha máquina de escrever. mas finalmente embarquei num ônibus lotado carr egando a máquina que parecia pesar uma tonelada. aos 25 anos. e. Na década de sessenta. Parece que o próprio la drão confessou que me pertencia. mesmo nos momentos de maior intens idade amorosa. Mas eu temia q ue fosse novamente roubada. houve três coisas maravilhosas que provocaram em mim um prazer enorme: minha máquina de e screver. e aí meu amigo Aurelio Cortés teve a idéia brilhante de aparafusá-la na mesa de metal onde ela co stumava ficar. Florentino. Era como o auge ou o complemento de todos os outros praz eres. Mas eu era criança e ainda não podia desfrutar da aventura do mar como fiz depois. ou nos momentos de maior perseguição policial. a plena descoberta do mar. assim como de todas as desgraças. Houve uma série de trâmites burocráticos. cujo marido. A partir de então. ajuventude incrível daépoca. por mais que eu tenha viajado e conhecido outros lugares muito interessantes. senti-me mais seguro para continuar com minha vida a morosa. rapazes com quem eu tinha feito amor tentaram em vão roubar a máquina. quando tod o mundo queria romper com as políticas oficiais e seguir um rumo diferente daquele traçado pelo regime e ser livre para fornicar. era impossível levá-lajunto com a m esa de metal. na casa da 140 # minha tia Ozaida. trabalhava como pedreiro naquela cidade. enquanto curtia as ondas que me acariciavam. Era maravilhoso mergulhar e ver o fundo do mar.

Eu voltava à tona. Depois daquelas caminhadas. único. O mar foi então para mim a mais extraordinária fonte de prazer e descoberta. especificamente em Havana. as rochas. eu sofria mais do que ninguém com a rigorosa cota de racionamento imposta por Castro. Eu não podia viver longe do mar. botava a cabeça na varandinha e olhava para aquela imensidão azul. de vida. Segui o rapaz e vi que tinha abaixado a sunga e se masturbava. sentado na praia Patrice Lumumba. Às vezes. sentar-me frente ao mar. mas não passava de um e apareciam peixes de cores inesperadas. dourado. por essa razão. comia mal e pouco. reluzente. eu me levantava à noite para ver o mar. além de vários amantes. já que esta não subia mais até o chuveiro. As ondas. branco. seu estrondo era um consolo e representava a melhor companhia naquele período. em direção ao sol brilhante que se refletia na água. os lugares onde. perdendo-se no infinito. e tem sido sempre assim. o racionamento era terrível e. enquanto tudo vai se transformando. por isso. de trópico. Não podia sentir-me infeliz. cintilante. onde o sol cai como uma bola imensa sobre o mar. para mim. vi um adolescente caminhar ao longo do paredão e desaparecer atrás dele. Certa vez. olhando o mar. cheio de vitalidade. eu ia para a UNEAC sentindo-me tão revitalizado que aquelas horas de trabalho burocrático pareciam suportáveis. eu a ouvi comentar com meu tio: "E u disse-lhe que o frango estava podre para que sobrasse mais pa ra nós. porque ninguém pode sentir-se infeliz diante de tamanha expressão de beleza e vitalidade." Recebíamos frango uma vez por mês e. O entardecer em Cuba é extraordinário. da qual supostamente era editor. Um dia. O mar adquiria. eu voltava para casa e tomava uma ducha. chegando quase aos meus pés. quando a gente está perto do mar. subitamente. as r . os locais onde se er guiam imensos bancos de areia e onde dava para ficar de pé e descans ar. meu nome constava do livro de racionamento de minha tia. ao me levantar. me molhar com um pouco de água. andar da minha casa até a praia e de lá desfrutar o crepúsculo. ela quase não me dava comida ou me dava sempre a pior parte. deixavam um reflexo dourado na areia. minha tia tinha três filhos e um marido. Geralmente. em meio a um mistério único e breve. Quando a noite era muito escura.ma insular que rodeia Cuba é um mundo de rocha e coral. com um cheiro de salitre. depois de tomar uma ducha. Diariamente. aquele luxo de água extraordinariamente brilhante. logicamente. ou melhor. certas ressonâncias eróticas. abri a-se uma depressão ! egiões povoadas de corais roxos. Eu conhecia quase todos os recantos do mar ao longo da costa 141 # de Havana. e ver as ondas revoltas do inverno. No entanto. além do mais. Eu revisava publicações tão horríveis quanto a revista da própria UNEAC.

naquele mar resplandecente que esperaria por mim no dia seguinte.mero revisor. e acho que quase todos. Dias mais tarde. trepou comigo numa relação fora do comum. que segundo Miguel e José era um dos maiores mulherengos que conheciam. desabou uma violenta tempestade e Miguel e dois de seus amigos. Miguel e José Dávila dormiam ou fingiam estar dormindo e o judoca. Miguel afirmava ser heterossexual. mas o fato é que nunca mais o vi. À meia-noite. Jorge Oliva treinou com aquele equipamento inúmeras vezes. Depois do mar. vestia-se e me dizia: "Não faço isso por prazer. a verdadeira vida estava perto da costa. Voltou 143 várias vezes a minha casa com esse tipo de pedido. nem os meus pés-de-pato. esposa de um amigo meu. Não tive escolha. ficava perto de Marianao e era conhecido pelo nome de Coco Solo. mas nada conseguiam. que eu sempre atendia. gostava de homossexuais. e era-lhe impossível ter relações sexuais com um homem que não o fosse. eu nunca tinha visto um homem com um membro tão grande. eu encarava aquilo tudo como algo que não passava de um pesadelo. também treinou com meus pés-de-pato até ficar apta a fugir clandestinamente pela base naval. José Dávila e um belo judoca que devia pertencer à Segurança do Estado. que tinham de ser passivos e que quisessem possuir Olga. o . Só nos restava esperar que Olga viajasse para a França e nos trouxesse outros pés-de-pato. mas conheci muitas mulheres com essas preferências. armados de paus e pedras. uma francesa. sem opinião e sem direito de publicar. No entanto. tiveram que se abrigar em meu quarto. e onde poderia sumir por algumas horas. bichas escancaradas. Miguel veio me visitar e não quis acreditar no que lhe contei. De qualquer maneira. embora seus amigos fossem verdadeiros monumentos masculinos. Seu marido saía constantemente à caça de homossexuais. por uma questão de amizade. namorada de Jorge Oliva. Eu os conseguira graças a Olga. o rapaz ficou tão sem graça que nos pediu que o esperássemos na esquina. Certa tarde. La lVica. apareceu com mais de 25 marginais. Miguel pedia a todos nós que fizéssemos amor com Olga. pois só gostava de ir para a cama com homossexuais passivos. Um dia. Não pensei duas vezes e acompanhei Hiram até um dos bairros mais perigosos de Havana. Olga era uma mulher incrível. que estava comigo e conhecia o rapaz. Não vi nenhum perigo nisso e assenti. na praia. Muitos heteros ficavam loucos por ela. Hiram Prado. disse que precisava ser possuído e insistiu para que eu o fizesse. Tivemos que fugir a toda velocidade. até o dia em que conseguiu alcançar a nado a base naval de Guantánamo e a liberdade. acabamos possuindo sua esposa. uma mulher belíssima. Quando batemos na porta da casa. o judoca deu sinais de uma ereção descomunal. um adolescente lindíssimo pediu-me emprestados os pés-de-pato. disse que podíamos ir até sua casa. Anoiteceu e passaram a noite comigo. Imagino que levava uma vida insatisfeita. Não sei como conseguiu desaparecer daquela maneira: deve ter saído a vários 142 # quilômetros do lugar onde estávamos. Possuir máscara de mergulho e pés-de-pato representava um grande privilégio em Cuba. Os pés-de-pato e a máscara eram motivo de inveja por parte de todos os rapazes que me cercavam na praia. Depois.

os textos não tenham sido destruídos." Novamente. de passar anos em cana. perto das ondas. Um dia. fato praticamente impossível em Cuba. como as próprias ondas.problema é que preciso de massagem prostática. ela começou a lê-los. Quando podíamos. Por fim. porque os originais. mas nossa meta final era sempre o mar O mar era uma festa e nos obrigava a ser felizes. como se fosse mais uma parede do quarto. eu sofria uma perseguição constante por parte da Segurança do Estado. uma enorme prateleira. perdiam-se incessantemente e iam parar. Havia em meu quarto um pequeno closet que podia ser camuflado com papel de parede. Talvez após muitas relações. Talvez. preciso encontrar com minha mina. Uma viagem por mar. Foi Nelly Felipe quem guardou tudo para mim. que é uma das coisas mais importantes para manter o equilíbrio da saúde. Hiram Prado me esperava debaixo de umas árvores. de fato. os que não tinham sido mandados para o exterior . o closet desapareceu. assim como o resto do quarto. e com revistas estrangeiras conseguidas clandestinamente. . tive que voltar a andar pela Quinta Avenida com o saco de cimento cheio de papéis amarrados. Lembro-me de um rapaz bronzeado. acredito que não fosse mentira." De fato. fugíssemos daquela maldita circunstância insular.isto ê. talvez. A burocracia é muito aplicada e só espero que. ou até as praias mais afastadas de Pinar del Río. 144 # Naquela êpoca. mas meu marido ê tenente da Segurança do Estado e não pode descobrir esses manuscritos. aquele período desfrutado frente às ondas do mar foi o que inspirou Otra vez el mar Tive de reescrever (o trabalho) três vezes. meus manuscritos ficaram escondidos em sua casa. Santa. extremamente viril. Tomar a lancha de Regla e atravessar a baía. Assim. representava o prazer maior. Esse rapaz. em 1969. inconscientemente. Pus todos esses originais e os poemas escritos anteriormente . amássemos a água como uma forma de escapar da terra onde éramos reprimidos. Não era fácil encontrar quem aceitasse essa tarefa. Posso imaginar que todas essas versões perdidas preencheram. que sempre vinha a meu quarto querendo ser possuído. se fosse encontrada com meus manuscritos. Durante meses. foi muito honesta comigo e disse: "Gosto muitíssimo da novela. após ser enrabado e gozar muito mais do que eu. Sempre marcávamos nossos encontros de frente para o mar. no Departamento de Segurança do Estado de Cuba." Esses casos eram muito frequentes. Como já disse antes. dentro. encantador. estavam perfeitamente escondidas todas aquelas folhas que eu escrevera ao longo dos anos. mesmo quando não queríamos ser. flutuando no mar. a nossa caravana ia para Guanabo. sem ter para onde levá-los. Confesso que gostava muito de possuir esse tipo de rapazes que pareciam muito machões. mas no início era uma aventura. a pessoa corria o risco. era um belíssimo rapaz e tinha namoradas encantadoras.num saco de cimento vazio e visitava todos os meus amigos a fim de achar alguém que os escondesse sem levantar suspeitas da polícia. nas mãos da polícia. por uma razão ou outra. perto da baía de Matanzas. e temia sempre pelos escritos que eu produzia incessantemente. me dava um forte aperto de mão e dizia: "Já vou indo. por isso mesmo. levei tudo para minha própria casa. vestia-se. só isso já significava uma experiência maravilhosa. aquilo se tornasse enjoado. María e Varadero.

quais os manuscritos que ainda eram inêditos. e continuava dando expediente na Biblioteca Nacional. Quanto a mim. pelo contrário. Oscar Rodríguez trabalhava no Instituto Cubano do Livro e tinha sido procurado pelos órgãos da Segurança do Estado. Celestino antes del alba. diante daquela sua confissão. que pouco conhecia da pintura produzida antes de 1959. apesar de premiado pela UNEAC. mas também um informante da Segurança do Estado. Camacho era . mas também bastante desconfiado. Um dia. El mundo alucinante fora proibido em Cuba. Eu tinha acabado de lançar meu único trabalho publicado em Cuba. era muito respeitada pela imensa maioria dos intelectuais europeus e. se fosse 145 # apanhado praticando relações homossexuais. com a ajuda de quem. levei o saco de cimento para a casa de outro amigo bastante íntimo. de fato. Tinham-lhe prometido também uma viagem a um país socialista e uma possível transferência. em Santos Suárez. recebi um telefonema de alguém chamado Jorge Camacho e que dizia ser pintor. é claro que não ia parar num campo de concentração. Aurelio Cortés. Nada falei. ele disse: "Reinaldo. onde os guardava e quais eram as minhas conexões com o exterior." Na opinião dele. que geralmente acontecia em Paris. Que morava na rua San Bernardino. além do mais. o Dr. Depois de preparar um chá. mas que naquele ano teve lugar em Havana. sou seu amigo. Com essa finalidade. El mundo alucinante. é claro que não contei a Oscar como conseguira contrabandear meus manuscritos para o exterior. e anunciava-se a próxima publicação de Celestino antes del alba. Fidel Castro teve a idéia de exibir algumas vacasjunto com os quadros. no dia seguinte. No ano de 1967. 57. passou a trabalhar mais tarde. o Salão de Maio. Nada me garantia que aquele amigo de tantos anos não fosse um policial tão excelente que tivesse chegado ao ponto de fingir uma traição para com seus chefes a fim de obter as informações desejadas e realizar um trabalho ainda mais eficiente. Talvez. inclusive com obras de Picasso. onde. 146 jorge e Margarita A verdade a respeito de como meus manuscritos saíram de Cuba pode ser contada agora. eu não o conhecia. nem o que estava escrevendo.Na verdade. Eu já tinha publicado uma obra no exterior. As vacas ruminavam pertinho das obras de Picasso ou Wilfredo Lam. organizou-se uma imensa exposição de pintura. A Revolução queria tomar um banho de liberdade ocidental e. Um dia. O fato de ser informante lhe dava certos privilêgios. para o Setor de Interesses Norte-americanos em Cuba. naturalmente. a Segurança queria saber exatamente como eu conseguia enviar meus manuscritos para fora de Cuba. Oscar Rodriguez foi me buscar na UNEAC e me levou atê a sua casa no Vedado. como tradutor. ele esperasse que eu fizesse a minha e lhe contasse onde havia escondido o saco de cimento. todo o cuidado era pouco. na rua H número 17. mais ainda para mim. Ele alegou ter saído de Cuba em 59. FiQuei muito surpreso com todas as perguntas. dos latino-americanos. houve em Cuba um evento bastante badalado e realmente importante. sendo sua obra praticamente desconhecida no país.

convidou-me para tomar uns drinques no hotel e me conhecer. Nunca tive irmãos e mal conhecia o afeto de uma família. em Paris. pois na147 # queles dias os hotéis eram lugares restritos aos estrangeiros. eles sempre se comunicaram comigo semanalmente. era como o encontro de um ser querido de quem estivéssemos afastados há muito tempo e que aparecesse de repente. perseguições. convidaram-no várias vezes parajantar no Hotel Nacional. co-editorda seção latino-americana da mesma editora. senti logo que aquela irmandade seria eterna. junto com Liliane Hasson. de García Márquez. e até das constantes atenções para com eles. de uma forma ou de outra. O fato me surpreendeu bastante. Mais tarde. um livro e centenas de pequenos detalhes que me ajudaram a viver durante esses quinze anos em que permaneci em Cuba depois que nos conhecemos. Camacho e Margarita se sensibilizaram de tal maneira com nossa situação que tiveram inclusive problemas para deixar Cuba. através de um turista. prisões repletas. em três dias.o que não era freqüente. por orientação de Rodríguez Feo. Foram logo visitar José Lezama Lima. Camacho procurou a Editions du Seuil. é um daqueles personagens sinuosos típicos no mundo literário: com ele nunca se chega a nenhuma conclusão. Na verdade. porque. Num outro país isso teria sido muito útil para mim. Nossa amizade foi do tipo daquelas que. uma vez iniciadas. meses antes. Margarita. o que tornava impossível a publicação. pude conhecer Severo pessoalmente. de uma mensagem codificada dentro de uma carta enviada normalmente. El mundo alucinante foi traduzido imediatamente por Didier Coste. eu já 148 # enviara Celestino antes del Alba a Severo Sarduy. um cartãopostal. na verdade. O encontro com Camacho e Margarita marcou uma nova época em minha vida. Camacho ficou espantado diante da quantidade de comida que Lezama conseguia ingerir. pois acabara de comprar e ler Celestino antes del alba. temeroso das conseqüências. e para cada estrangeiro havia pelo menos dez policiais. junto com Cem anos de solidão. e entregou o manuscrito e a novela publicada a Claude Durand. e concluía dizendo que os projetos de produção já estavam preenchidos.um dos expositores no Salão de Maio e estava hospedado no Hotel Nacional com a esposa. parecia um camelo que tinha de se abastecer até receber um novo convite desse tipo. Quando foram embora. responsável pela coleção latino-americana dessa editora. que literalmente morria de fome. O livro fez um grande sucesso na França e obteve o prêmio de melhor novela estrangeira. do qual gostara muito. Virgilio Pinera e eu nos encarregamos de revelar tudo: campos de concentração. Tinham dúvidas em relação à situação real dos artistas em Cuba. a notícia de uma exposição. censura. duram para sempre. Já se passaram mais de vinte anos e. Fui ao Hotel Nacional. um dos melhores tradutores que tive durante anos. Tinham aquela intuição (raríssima entre os convidados oficiais de um evento em país socialista) para enxergar a verdade por trás de um elogio. Ele mandou-me uma carta muito delicada e repleta de elogios à obra. Desiderio Navarro. recebi um telegrama dizendo que queriam publicar o manuscrito imediatamente. permitindo o desenvolvi- . levaram Celestino antes del alba e meu manuscrito de El mundo alucinante.

era dentista. Quando lhe contei minha conv ersa com Oscar. Aurelio era um bom leitor. enfrentávamos filas enormes nos restaurantes de Hav ana para não morrer de fome. sempre fui muito desconfiado e talvez tenha sido isso que me ajudou a manter os novos manuscritos bem escondidos e a não comentar nada a esse respeito com Oscar. p orém naturais. embora lhe faltasse algo que considero fundamen tal em todo cubano: o senso de humor. no entanto. o impacto da crítica de El mundo alucinante em sua versão francesa foi para mim um golpe totalmente negativo do ponto de vista oficial. Em Cuba. quais as minhas ligações no exterior e quais os originais que ainda tinha em meu poder. Era lógico que a Segurança do Estado quisesse saber como eu mandara aqueles manuscritos para fora do país.mento do meu trabalho e transformando-me numa espécie de escritor respeitável. A Segurança do Estado ficou de olho em mim. e tinha dentes muito grandes e de tamanho irregular. Isso não significa que lesse com os dentes. Oscar Rodríguez continuou ocupando vários cargos oficiais. pegou as mais de mil laudas que constituíam o manuscrito da minha novela e levou-ás até Guanabo. iam ficando cada vez mais horrorizada s. continuaram lendo até o trecho em que aparecia o próprio . Também publicara no Uruguai um livro de contos: Con los ojos cerrados. um dos meus grandes amigo s na época. mas também por ter cometido a ousadia de contrabandear aquele manuscrito e publicá-lo sem a permissão de Nicolás Guillén. eu não podia esconder essa história de meus manuscritos de Aurelio Cortés. Depois de me interrogar. Para quem trabalha? Quem sabe? De qualquer maneira. ou algo parecido. e sim. 149 # Santa Maricas Na verdade. as velhas não tiveram o menor escrúpulo em abrir o saco de cimento e ler o manuscrito de Otra vez el mar. à medida que liam. não apenas por ser uma pessoa controvertida que escrevera obras como El mundo alucinante ou Celestino antes del alba. muito religiosas. criticavam-no abertamente. ficou apavorado. Ape sar de Í? toda a sua religiosidade. como todo homem do campo. o nde moravam umas velhas amigas dele. presidente da UNEAC. está exilado e viaja constantemente. Agora. mas er a um leitor voraz. pelo contrário. textos irreverentes que não faziam a apologia do regime.

que disse então que eu devia esquecer o manuscrito. Cortés. naquele momento? Matar Cortés? Desistir da novela? Fiquei completamente atordoado por uns dias. quando perguntei pelo romance. trancá-lo incomunicável em algum quarto e obrigá-lo a dizer onde estava o manuscrito. O que podia eu fazer. Aquilo me pareceu tão absurdo que nem me impressionou. segundo me disse. Ismael Lorenzo. deu ordens às velhas para que destruíssem o manuscrito. Quis 150 # render-lhe aquela homenagem e o canonizei como Santa Maricas. tratava-se de um homem bastante fraco. Esta era uma das i númeras homenagens que prestei a meus amigos através da literatu ra. que talvez pudesse levar o texto para forado país. quando me sentia como quem perdeu um filho. Levara anos para terminar aquela obra. e tudo devia ser executado escondido da polícia. pois em Jibacoa havia um turista. pois ele os havia destruído. e a vingança só se desfruta quando a vítima sofre plenamente as consequências. para ver como poderiam agir. na praia. homenagens maliciosas. confessou que não estava com ele e sim em mãos de outras pessoas que não iriam devolvê-lo. uns dez anos atrás. sua virgindade não fora motivo de preocupação para nenhum rapaz. outro escritor amigo meu. virgem e mártir. que era a mais interessada em obter o manuscrito. não acho que exagerei nessa primeira versão de Otra vez el mar. Tentei recuperar os manuscritos de modo pacífico e vários amigos foram visitar Cortés na Biblioteca Nacional. Um dia. Cortés. começou a sentir-se muito feliz. O plano me pareceu meio louco. Na verdade. mas tudo revelou-se inútil. Ele mesmo me contou um dia. teríamos de arranjar um carro. finalmente. começou a arquitetar todo tipo de planos para poder resgatar o manuscrito. pois eu tinha mexido com a religião católica e com ele mesmo. irônicas talvez. Cortés ficou muito semjeito. amigo de Margarita e Camacho. dizia que o manuscrito encontrava-se aqui ou ali e. o que mais irritava Cortés era o fato de eu tê-lo descrito com uns dentes muito grandes. o mais querido de todos os filhos. Era uma dádiva 151 # do mar e o resultado de dez anos de decepções vividas sob o regime de Fidel Castro. Voltei a conversar com Cortés. magro e fe io. que era um dos meus maiores atos de vingança e um de meus trabalhos mais inspirados. er a virgem. então com setenta anos. pensei no meu livro perdido e resolvi de repente voltar para casa. Esses planos incluíam o sequestro de Aurelio Cortés. tinha chegado o momento da sua vingança. Ali eu havia colocado toda a minha fúria. Ao que parece. mas a ironia e o r iso também fazem parte da amizade. a padroeira das bichas. percebendo que eu estava ficando realmente preocupado com a perda dos originais. que vivera com a mãe até a morte dela. sentar-me novamente à má- . obrigá-lo a embarcar e levá-lo para algum lugar seguro que nem tínhamos.Cortés canonizado como Santa Maricas. isto é. Cortés ficou furioso com aquela canonização e.

turistas. reli para ele os cantos mais furiosos de Otra vez el mar. Dormimos no parque aquela noite. e a polícia nos prendeu. Não havia outro jeito. Era impossível ficar sem aquela parte. pelo menos conservavam a beleza daqueles que eu vira na minha infância. que consistia em semear todos os arredores de Havana com café e transformar a capital numa espécie de cafezal. Naquele período em que éramos perseguidos e vigiados. Peguei todos aqueles papéis e embrulhei em sacos pretos de plástico que roubei quando fui plantar café nos arredores de Havana. no que se chamou "El Cordón" de Havana. No entanto. Enquanto líamos. quando chegasse a oportunidade. era a obra da minha vida e fazia parte de uma pentalogia da qual era o centro. mas felizmente nada aconteceu. 153 # Os Irmãos Abreu Enquanto trabalhava feito um desesperado na segunda versão de Otra vez el mar. mandaria o manuscrito para fora de Cuba. no cais completamente abandonado. e lá. que sacrificaram seus fins de semana para abrir covas e plantar as sementes. A única utilidade que "El Cordón" teve para mim foi a aquisição dos sacos plásticos que agora serviam para embrulhar meu manuscrito e guardá-lo sob o telhado da casa de Agata Fuentes. além do esforço de milhares de trabalhadores. Hiram Prado e eu tivemos o prazer de gozar com eles. Levantei as telhas e escondi meu romance naquele lugar. de onde os rapazes mergulhavam e voltavam para dançar com o corpo reluzente. onde eu morava naquela época. depois de lermos o manuscrito. E comecei tudo de novo. Era muito difícil tirar cópias em Cuba. José e Nicolás). as praias tinham perdido toda a sua areia e agora restavam apenas pedras e ouriços. já não tinha mais amigos confiáveis que escondessem meu texto. mansões e igrejas com vitrais coloridos. uns rapazes se aproximaram de nós. porque todos viviam numa situação tão precária e insegura que não podiam arriscar-se. Nenhuma daquelas sementes deu um só grão de café e foram perdidos milhões de pesos. terminei de reescrevê-la. escrevíamos coisas contra o regime. hotéis. onde não existia copiadoras. Agora. Prometi que toda semana leria para eles um trecho da obra. caminhando por todos os diques de Gibara. conheci os irmãos Abreu (Juan. o porto havia sido invadido pela areia por não ter sido dragado. Costumávamos nos reunir nos lugares mais estranhos do parque Lenin e mantínhamos tertúlias literárias. Foi uma das idéias 152 # delirantes de Castro. Agora pareciam mais esfarrapados e tomavam banho com calças velhas transformadas em calções. não havia mais barcos no porto. cheio de pescadores. com o manuscrito nas mãos. Escrevíamos . Em dois anos. Eu temia pelo meu manuscrito. que muito me estimularam para que reescrevesse a novela. Um dia (assim eu pensava). dançava-se em grandes pistas de dança construídas sobre as rochas.quina e recomeçar tudo. Meu grande triunfo foi quando viajei junto com Hiram Prado até Gibara. O que havia acontecido com esse lugar? Estava completamente destruído e deserto. Escolhi aquele local porque foi lá que vi o mar pela primeira vez. Gibara tinha sido um dos centros mais vitais da Ilha.

isto nos mantinha a salvo da loucura e não nos deixava cair na esterilidade que já acometera outros escritores cubanos. líamos poemas. Mas os altos funcionários de Castro chegavam de carro e comiam naquele lugar. bem pertinho. sendo necessário tomar três ou quatro ônibus lotados. poemas de todo o grupo e um capítulo de uma novela de Juan Abreu. para pessoas privilegiadas que possuíam carro e podiam viajar até lá para comprar queijo e chocolate. e todos os outros cantos reescritos de Otra vez el mar. Evidentemente. Nas tertúlias do parque Lenin. embora só nós mesmos a lêssemos. Chegar ao parque Lenin era uma verdadeira odisséia. era um parque para os altos funcionários do regime. La Marea. E nós. Viajava num ônibus calorento para dar uma conferência numa Casa de Cultura em Pinar del Río que. todos os domingos. Só pudemos fazer dois números da revista. que se prolongaram por mais de quatro anos. lembro-me de ter lido El central. fazendo-as circular apenas entre nós e os poucos amigos de confiança que nos restavam naquele período. novelas e obras de teatro. mas eu estava tranquilo. já que os preços dos pratos eram inacessíveis para a maioria do povo. por mais incrível que pareça. Chamava-se Ah. representava um dos poucos consolos que ainda possuíamos. não havia sentido para eles em levantar as telhas sob as quais eu escondera o manuscrito. um lugar imenso e situado nos arredores de Havana. no entanto. Essas tertúlias. Havia também um luxuoso restaurante chamado Las Ruínas. com toda certeza. Havíamos descartado esta possibilidade anos atrás e acho que estávamos inteicamente certos. Um dia. revistava o meu quarto de vez em quando. obviamente. Tínhamos pouquíssimas esperanças de que aquele sistema pudesse mudar e nossas obras fossem publicadas. nome que caía como uma luva.principalmente poemas. 155 # O Superstalinismo Um dos acontecimentos que me levou a compreender que sob o sistema castri sta nada poderia fazer foi o que ocorreu no ano de 1968. se bem me lembro. Era o único parque com bosques e lagos. e neste primeiro número incluímos umas traduções minhas de Rimbaud. 154 # Luis de la Paz e eu. ou que ocoresse algum tipo de abertura. resolvemos fundar uma revista clandestina. A polícia. tinha como coordenador de palestras meu amigo Beny (Evelio . Batíamos a máquina e tirávamos seis ou sete cópias. Foi. Morir en junio y con la lengua afuera e El leprosorio. pois quem comesse ali ficava totalmente arruinado. um dos momentos de maior intensidade criadora de todo o grupo. eram organizadas pelos irmãos Abreu. que se estenderam até 1974.

Na Casa da Cultura Tchecoslovaca pudemos assistir a filmes produzidos durante a Primavera de Praga. ouvimos o discurso de Fidel Castro: ele não apenas aprovava com veemência a invasão.Cabiedes). e um mero fantoche da União Soviética stalinista. apesar do apoio oficial do governo à invasão soviética. ficamos na maior incógnita. era porque Fidel Castro aguardava as orientações pertinentes da União Soviética para preparar seu discurso. Acho que foi um dos últimos protestos organizados em Havana. e também com a maneira pela qual o Cranma dava a notícia. como bom ator. não sei como conseguiu aquele emprego no Ministério da Cultura. Beny e eu conseguimos fugir por entre os arbustos da Coppelia. pegou o microfone e pronunciou aquele discurso dedicado aos heróicos invasores russos. obviamente. numa colônia despótica que era. Escapamos mais uma vez da cadeia. este. Evidentemente. agora essa hipótese fora descartada. não ficamos indiferentes. como também felicitava a União Soviética e os "heróis" que cruzaram com seus tanques afronteiratcheca. Por dois ou três dias. a Tchecoslováquia já caíra sob o manto da União Soviética. seu histórico erótico e sua vida boêmia não fossem conhecidos. que incluía a passagem e estada de três dias em Pinar del Río. O fato é que Beny me conseguiu um convite. Se antes tínhamos alguma esperança numa possível democratização do sistema. líamos ojornal Granma. sem tomar posição em relação ao problema. Hiram Prado. talvez. eram excelentes. o Granma continuava publicando as notícias sobrc a invasão da Tchecoslová156 # quia. Não havia escapatória. Com toda certeza. limitando-se a reproduzir uma série de opiniões de diferentes jornais. e até num rompimento com a União Soviética. mas o 157 # . foi uma manifestação da qual participou grande parte da juventude de Havana e onde se condenava abertamente o imperialismo soviético. se haviam publicado todas as notícias no Granma sem tomar partido. além do mais. que era talvez uma das poucas coisas que havia em Cuba para se ler. Só nos restava viver num regime despótico. Finalmente. Depois que o embaixador soviético comunicou a Castro o que precisava dizer. Aquele líder que lutara contra Batista era agora um ditador muito pior que o próprio Batista. naquela província. incluindo até a opinião do papa. Aquela estada em Pinar del Río foi deprimente. e não havia nada que se pudesse fazer. Tudo terminou com a intervenção da polícia e a prisão de inúmeras pessoas que tinham participado da manifestação. mas mantinha-se neutro. Quanto a nós. ele pediria que a União Soviética invadisse Cuba. se os Estados Unidos ameaçassem seu regime. Ficamos surpresos com a notícia da invasão soviética da Tchecoslováquia. Durante a viagem de ônibus. em Pinar del Río. assim como sua participação num grupo de hippies. mais despótica ainda do que a matriz de quem recebia as ordens. Uns pensavam que talvez o Granma não tivesse tomado partido porque Fidel Castro iria pronunciar um discurso rompendo com a União Soviética e voltando-se para uma abertura mais humana e democrática. Organizamos uma manifestação de protesto diante da embaixada tcheca.

. os rapazes copiavam os 158 um triunfo. mas vez por outra convidava um escritor controvertido. submetera-o ao concurso da UNEAC e ganhara o primeiro prêmio por unani midade do júri. Ele era ouvido e atendido em tudo pela Segurança Cubana . A invasão ru ssa agora nos privava de um pequeno consolo: o de termos um local para nossas leituras literárias. geralmente com escritores oficiais. O livro foi publicado com uma nota de protes to da UNEAC. O trabalho forçado nos campos já fora criado por volta de 1969. a entidade "decidiu" fechar e mandar todos os escritores aos engenhos de açúcar para cortar cana. o último que lemos foi Lenguaje de mudos. ção. porque os poucos exempl ares da reduzida tiragem foram recolhidos das livrarias. em seguida. personagem estranha. cujo forte. que acusava Padilla de contra-revolucionário e ant i-soviético. certamente. Gustavo E guren e outros. Entre os convites que a UNEAC fez naquele ano. A ilha se transformou n uma enorme plantação de cana que todos nós tínhamos que cortar. A UNEAC organizava leituras. por fim. Era o momento em que todo o país se preparava para a Safra dos Dez Milhões. Padilla era então considerado como o "herói" da nossa geraI. houve um para o poeta Heberto Padilla. Padilla chegou à UNEAC com uma camisa violeta e começou a ler poemas do seu l ivro Provocaciones. escritores cubanos um período de superstalinismo. Mas foi " bora quase ninguém pudesse adquiri-lo.. José Martínez Matos. Escrevera em 1968 Fuera del juego. de Delfín Prats.isto é.. Podíamos igualmente nos reunir la para ler nossos livros.regime comunista os acusava de "diversionist as". tínhamos que participar constantemente de mutirões agrícolas. por Otto Fernández. Encontrava-se presente o adido cultural da e mbaixada da China. O livro tinha sido publicado. o trabalho obrigatório tornou-se ca da vez mais intenso e era impossível conseguir um fim de semana livr e para ler no parque Lenin ou para ir à praia. tomar medidas repressivas. Como ninguém ali possuía gravador. Começou para nós. em . não era a poesia. O que faziam era sondar todo o panorama cultural d a época para. Na UNEAC havi a constantes assembléias para nos obrigar a participar da colhei ta e.

Os oficiais da Segurança do Estado que já controlavam a UNEAC. Nunca mais aqueles adolescentes voltaram a ser o que eram antes. em 1969. Uma das leituras mais indignas e deploráveis efetuadas na UNEAC foi a de Cintio Vitier. Cintio sabia de que lado sopravam os ventos políticos e queria manter-se na melhor posição possível. uma ação brutal da Segurançado Estado. aque e homem que durante tantos anos havia criticado a Revolução. Era o fim de uma época. Essa central. em tempos de paz. não é possível compreender o que significa estar ao meio-dia numa plantação de cana cubana e morar em barracões como os escravos. Tratava-se de uma armadilha do castrismo: transformar o serviço militar obrigatório. pois necessitava-se de braços para o corte da cana. Abandonar aquelas plantações podia representar. naquela mesma noite em que Cintio se declarava castrista. após tanto trabalho e vigilância. 159 # A Central Açucareira Nos anos setenta. na central açucareira Manuel Sanguily. em Pinar del Río. porém carregada de criatividade. A situação era realmente desesperadora. Sem dúvida. Para quem não passou por isso. Era a atitude típica do católico reacionário. de "a conversão de Cintio Vitier". pelo menos em Cuba. Guillén. Raúl Roa. Foi classificada por nós. muitas das quais foram cercadas e transformadas em retiros privados para oficiais do exército castrista ou para turistas estrangeiros. e lia longos poemas inspirados na colheita do café e no corte da cana. na qual milhares dejovens foram presos pela polícia e levados para campos de concentração. mostrava-se agora mais castrista que o próprio Castro. houve em Havana uma das maiores detenções de jovens. Toda a oficialidade cubana estava presente para apoiar Cintio: Retamar.# poemas lidos por Padilla. pegar o facão. De repente. erotismo. recusando-se a publicar sob o regime de Castro. como outrora os índios e os negros escravos. Todos os que participavam do corte de cana eram jovens recrutas forçados a trabalhar nesse local. Ironicamente. A colheita era iminente e aqueles jovens saudáveis e de cabelos longos que se atreviam a bater perna pelas ruas foram todos presos. num tipo de trabalho forçado que abastecia a agricultura de mão-de-obra. sempre do lado dos poderosos e traindo os humildes. clandestina e rebelde. a atitude típica da própria Igreja Católica. lucidez e beleza. de cinco a trinta anos de cadeia. talvez já intuindo que aquele livro nunca seria publicado. mandaram-me cortar cana e escrever um livro elogiando essa odisséia e a safra dos dez milhões. escritores clandestinos. Levantar-se às quatro da madrugada. também fui parar numa plantação de cana. dentre eles o tenebroso tenente Luis Pavón. para qualquer um dos rapazes. nas plantações de açúcar. e um cantil de água e sair de caminhão para trabalhar o dia . transformaram-se em fantasmas escravizados que nem tinham direito às praias. era uma imensa unidade militar. na verdade.

não podia permanecer como testemunha silenciosa de tanto horror. embora clandestinamente. um quê de magia naquele ambien te. completamente cobertos dos pés à cabeça. Talvez fosse mais patético vê-los do que me ver.inteiro. porque já vivera alguns anos de esplendor. com uma . estávamos vivos. que produzem uma coceira insuportável. E tudo aquilo acontecia no país que se proclamava o Primeiro Território Livre da América. eu era o negro escravo." Pondo os testículos para fora. na qualidade de escravos. a paisagem da parte norte de Pinar del Río era uma paisagem vulcânica. a mãe ou a noiva durante um fim de semana. insistiu para que eu lhe desse aulas nas horas livres. ou seja. e nos acampamentos reinava um clima de erotismo. e era lindo vê-los na hora do banho. sob um sol ardente. apesar daquele trabalho extenuante. pelo único fato de terem ido visitar a família. nossos estudos acabavam se pro longando horas seguidas. Agora. A única saída que lhes restava era aceitar o plano de reabilitação. e era a paisagem que nos cercava. agora por tempo indeterminado. não tinham nenhum futuro pela frente e nenhum passado para trás. faziam qualquer barbaridade para serem dispensados do corte da cana. os rapazes tinham direito a três ou quatro horas livres para descansar e lavar o uniforme. Lembro-me de um tenente que. Ali. com altas montanhas de pedras azuis que se erguiam do chão. Agora eu era esse índio. Lá mesmo redigi essas páginas. de mangas compridas. estava junto com centenas de recrutas. Era uma paisagem aére a. tratados como burros de carga. no meio daquelas folhas afiadas dos canaviais. Era um erotismo que se insinuava debaixo de um mosquiteiro. E as aulas começavam quando o tenente me dizia: "Vamos estudar francês. colocava-os na mesa em que eu dava as aulas. A visão de tanta juventude escravizada foi o que inspirou meu poema El central.única maneira de conseguir entrar naqueles lugares infernais -. mas esses rapazes de dezesseis ou dezessete anos. Muitos cortavam a própria perna ou o dedo com facão. Sim. eram lindos os rapazes escravos. Havia. na ostentação evidente de um membro ereto sob o pano grosso do uniforme. voltar à plantação de açúcar. entender por que tantos negros tiravam a própria vida por asfixia. ao saber que eu falava um pouco de francês. mas profundamente excitados. Com aquele membro ereto e os testículos a poucos milímetros do caderno onde eu escrevia para ele 161 # frases em francês. A cada quinze dias. sem dúvida. luvas e chapéu . No entanto. mas não estava só. podíamos entender por que os índios prefe160 # riam o suicídio a continuar trabalhando como escravos. olhando uns para os outros meio apreensivos. Eu tinha visto os julgamentos em que se condenavam a vinte ou trinta anos de cadeia aqueles rapazes. eram julgados por um conselho de guerra como desertores. Entrar num daqueles lugares era como penetrar no último círculo do Inferno.

f eitos de pau e lona. com todo o cuidado. Comecei a escrever um diário. podiam dormir ali os recrutas qu e trabalhavam à noite nos caminhões de transporte da cana. O barracão onde nós. sem q ualquer dúvida. mandaram-me ao jornalista regional todas as centrais tinham seu jornalista local. ou doentes graves que aguardavam transferência para uma clínica ou um hospital. envoltas em neblina azul. escravos. Levantei-me e peguei uma cueca entre as centenas que se encontravam jogadas. o Diário de Ociden te". outro que foi condenado a dez anos de cadeia. Durante as noites. isso podia demorar meses e às vezes nunca acontecia. deixei cair a cueca sobre as pernas do recruta. Um dia.para que o ajudasse a redigir uma informação qualquer. Durante o dia. era uma festa conseguir um pouco de açúcar. Esses pacientes eram pessoas a quem fal tava um braço. o caso de outro que cortou o pé para conseguir cinco dias de folga. o home m que vigiava os outros. para todos os efeitos. apesar de estarmos numa plantação de cana muito pro dutiva. eu ia pegar . ou um chá de folhas de laranja. dormíamos. mas o recruta continuava roncando ritmicamente. queríamos improvisar um café com a borra roubada da co zinha. o barracão parecia uma espécie de hospit al onde só podiam ficar os doentes e o chefe. era um consolo poder olhar para aquelas montanhas aéreas. De dia. um caderno e um lápis eram objetos de luxo. A meu lado dormia um daqueles caminhoneiros. terminamos cedo aquela ta refa e pude ficar à tarde no barracão. tomar banho e em seguida deitar-me debaixo 162 # do mosquiteiro no meu beliche. apesar de tanto horror. Sim. com uma espécie de prateleira onde se guardavam o s poucos pertences do recruta: uma lata de leite condens ado era um privilégio. pouco a pouco. que é um lugar de terra escura e vegetação negra. Esses eram quase privilegiados. isto é. percebi que sua calça começava a levantar-se bem em cima do sexo. encarregado de relatar o cumprimento das metas . Observei seu corpo magnífico. como nunca pude sentir em Or iente. Felizmente. levantei o mosquiteiro para enxergar melhor e. onde contava os acontecimentos do dia: a conversa co m um recruta. era um lugar cheio de beliches colocados uns em cima dos outros. Isto me daria o pretexto para chegar perto dele.brisa leve e fina.

Os recrutas e camponeses comentavam que era impossível alcançar tal cifra. Milhões de aves. Assim. e as possibilidades de alcançar a meta ficavam cada vez mais remotas. todo aquele sacrifício fora inútil. que em sua opinião eram os verdadeiros culpados. houve um temporal terrível que trouxe ainda mais mosquitos. debrucei-me sobre aquele jovem e tivemos um encontro breve. um alto funcionário em seu Alfa Romeo. com as canas já desfolhadas pela ação do fogo. chegava algum visitante ilustre nos fins de semana. Naquela ocasião. cinturões. tecnicamente. em seguida. toda aquela multidão que cortara cana durante um ano devia agora se con- . de qualquer maneira. E começávamos a cortar sobre o solo fumegante. tínhamos que penetrar na plantação recémqueimada. insetos. capacetes com uma espécie de viseira de arame para evitar que a cana queimada ferisse nossos olhos. mas. À noite. absolutamente quebrado. era agora a província mais pobre da União Soviética. e mais uma vez o rapaz. dentre as quais seu ódio para com os Estados Unidos. disse que.aquela roupa. inventou-se a história de que uns pescadores tinham sido sequestrados por agentes da CIA numa ilha do Caribe. era preciso participar da sua queima à noite. saindo apavorados daquelas chamas. Os campos tinham sido devastados. era impossível alcançar a cifra de dez milhões de toneladas. cobertos de novas armaduras: botas. um senhor chamado Borrego. a data limite se aproximava cada vez mais. Como se não bastasse suportar os canaviais durante o dia. recusou-se a reconhecer o erro e tentou desviar a atenção do fracasso da safra para outras áreas. No entanto. como sempre. também estavam arruinadas. Obviamente. por tentarem dobrar sua produtividade. Apanhei a cueca e nada aconteceu. com os corpos suados. No dia seguinte. 163 # Às vezes. Recomecei a mesma manobra. meses antes do fim da colheita. porque. o que tornou a vida naquele lugar ainda mais infernal. Mas quem se atrevesse a dizer tal coisa publicamente era tachado de traidor. por baixo do tecido rústico. Castro. esticou as pernas voluptuosamente e o membro ergueu-se. e assim. até o próprio chefe da indústria açucareira. era necessária uma fortuna para consertar todas aquelas máquinas e reiniciar a produção agrícola. répteis e toda sorte de seres. foi exonerado por Fidel Castro. a ordem oficial era queimar a fim de acelerar o processo de corte. Até mesmo para beber um pouco de água tínhamos que pedir permissão ao tenente. ia embora de cara amarrada. Não havia muitas possibilidades de realizar um ato erótico pleno naquele lugar. A queima de um canavial à noite era um espetáculo horrivel. em todo seu esplendor. ardentes e excitados. e nós tentando controlar o fogo. As centrais. três meses mais tarde. onde ainda havia cana ardendo. o próprio Fidel teve que reconhecer publicamente que não haviam sido produzidos dez milhões de toneladas de açúcar. que fiscalizava os livros e conversava com os chefes do barracão. que continuava roncando. como personagens medievais. milhares de árvores frutíferas e palmeiras-reais podadas para tentar produzir aqueles dez milhões de toneladas de açúcar. O país. porém intenso. Tínhamos que acelerar as metas porque era preciso chegar aos dez milhões de toneladas de açúcar. que nos vigiava como um capataz. De repente. estávamos longe dos dez milhões de toneladas de açúcar.

o povo comparecia para comer batata frita ou outra coisa qualquer. Mas o espetáculo teatral tem sido sempre uma das brincadeiras praticadas por Castro. viam com espanto uma quantidade imensa de homens excitados. ou em frente ao que tinha sido a embaixada americana em Havana.centrar na praça da Revolução. algo como: "Nixon. que haviam devolvido os pescadores. Houve um momento em que a polícia passou a entrar naqueles mictórios públicos. sabíamos que não se repetiria e tínhamos de aproveitar ao máximo. os banheiros eram enor165 # mes centros de fornícação. foi simplesmente porque violaram os limites das águas territoriais de uma ilha. supostamente sequestrados. todo mundo chupava-se e transava. manifestou-se de forma brutal. Por outro lado. se os pescadores tiveram algum problema. que nem pertencia aos Estados Unidos. 166 . Após uma semana. Bonecos representando o presidente Nixon eram queimados ao som dos tambores. depois de tanta repressão. de repente. onde dizia que conseguira intimidar os Estados Unidos." 164 # Aquilo terminou como costumam terminar todas as tragédias cubanas: numa espécie de rumba. descobrindo centenas de homens nus possuindo-se em pleno carnaval. subitamente. devolva nossos pescadores. o povo esqueceu o fracasso da safra. fossem devolvidos. Tudo aquilo era muito patético e ridículo. para protestar pelo suposto seqüestro dos pescadores. Distribuíam-se comida e cerveja. O mais importante agora era conseguir que os pescadores. fugindo das garras do imperialismo norte-americano. pelo menos podíamos rir e nos embebedar. dançando ao som dos tambores. distribuía-se comida em cada esquina. Lembro-me de ter ouvido Alicia Alonso pronunciar as palavras mais grosseiras contra o presidente Nixon. Naquele ano.onde talvez nem se soubesse o motivo de tanta confusão. Era grotesco ver osjovens desfilando e gritando horrores contra os Estados Unidos . Desnecessário dizer que também curtimos aquele carnaval. A festa prolongou-se por um mês e houve cerveja à vontade. as pessoas eram recrutadas por seus comitês de defesa. em meio a milhares de pessoas que. Desfilaram carros gigantescos com animais de todo tipo. embora não fosse permitido usar máscaras nem fantasias. em cima dos quais encontravam-se mulheres seminuas. eles foram devolvidos a Cuba. Era preciso esquecer a qualquer preço o ridículo pelo qual Cuba acabava de passar: todo o esforço daqueles anos fora inútil e éramos um país absolutamente subdesenvolvido. Assim. A luxúria. realizaram-se grandes festejos carnavalescos nos quais foram gastos os poucos recursos econômicos ainda restantes. Dessa maneira. coisas inexistentes no mercado. e sim à Inglaterra. em meio ao cheiro de urina. filho da puta. alguns eram enormes aquários cheios de peixes tropicais. a cada dia mais escravizado. após uma investigação mais detalhada. os pescadores apareceram e Fidel pronunciou um discurso "heróico". aqueles pescadores voltaram como heróis.

outros tornaram-se funcionários do regime castrista. sempre muito correto e justo. há momentos em que o fato de continuar vivendo corresponde a rebaixar-se. Acho que se Virgilio Pinera continuou escrevendo nos últimos anos da sua vida foi graças ao estímulo de Olga Andreu: sabia que naquela casa podia contar com um público que o admirava. Na casa de Olga Andreu podia-se respirar livremente e ser espontâneo. Uma dessas casas foi a de Olga Andreu. era necessário desmoralizá-los para que não se transformassem em símbolo. Entrar naquela casa era como chegar a um lugar que a Revolução de Castro não parecia ter alcançado. A casa de Lezama Lima era outro centro de reunião literária. A perseguição intensificava-se. pelo menos verbalmente. atirando-se da varanda do pequeno apartamento onde morava. comprometer se. Há pouco fiquei sabendo que essa mulher suicidou-se em Havana. ou recomendava um bom livro. O mais perigoso para o regime era a grande quantidade de jovens que seguiam esses escritores dissidentes e. com toda sua jovialidade e dignidade intactas. uma das poucas casas do século XVIII ainda intactas. Virgilio Pinera também frequentava as tertúlias na casa de Olga Andreu. começaram a pedir para sair do país. suicidaram-se na Ilha ou no exílio. ficava à margem de toda crítica implacável e de todo elogio oportunista. ou lia na casa de Jorge Ibánez. como Calvert Casey. e o povo queria cada vez mais conhecer as obras dos escritores proibidos. por essa época. É claro que essas tertúlias foram suspensas em pouco tempo. como não tinha pretensões literárias. onde esse homem. como Pepe el Loco. era o caso de Miguel Barnet. era povoado de fantasmas queridos. Outros ainda. os parâmetros de muitos artistas não estavam ainda bem definidos. enquanto eles tinham que realizar tarefas agrícolas para sobreviver. Pablo Armando Fernández e César López. Sua morte 167 # talvez tenha sido um ato de afirmação. Lezama tornou-se muito popular. O governo sabia que conspiravam. por esta razão. Tudo o que se lia num daqueles lugares. que corria todos esses riscos porque considerava a literatura algo sagrado. neto de Juan Gualberto Gómez. escritores que se transformaram em informantes. como logo descobrimos. O mundo de Olga Andreu. em seus últimos anos. era necessário humilhá-los e diminuí-los. Olga quis penetrar nessa região atemporal. A casa de Ibánez era solitária e ficava nos arredores de Havana. alguns dos participantes deixaram o país. morrer de puro tédio. o que é raro entre os cubanos. Com toda certeza. Olga sabia ouvir. onde a Segurança do Estado não pode mais definir seus parâmetros. . e algumas pessoas sabiam de cor os versos proibidos de Padilla. já havia agentes da Segurança do Estado infiltrados. pedidos esses indefinidamente adiados.# Olga Andreu Muitos intelectuais. dava conselhos sábios. As tertúlias começavam à meia-noite. Naquela época. desaparecidos tragicamente. com enormes jardins e vegetação luxuriante. no dia seguinte já era do conhecimento da Segurança do Estado. As tertúlias clandestinas tornavam-se cada vez mais perigosas e todos os escritores iam em casas particulares onde podiam divulgar fragmentos de suas obras.

renegando-se a si próprio. Todas as pessoas citadas como contra-revolucionárias por Padilla. Foi trancado numa cela. segundo ele. também tiveram uma atitude contra revolucionária. Norberto Fuentes fez o mesmo. pois havia trabalhado duro e. um livro critico intitulado Fuera deljuego. pediu a palavra e voltou ao microfone. ameaçado e surrado. durante o tempo em que estivera preso pela Segurança do Estado. os quais. Belkis Cuza Malé. por intermédio da UNEAC. Padilla não só retratava-se de toda a sua obra anterior. Sucessivamente. assumir sua culpa e reconhecer que eram abjetos traidores do sistema. só que porém. Padilla foi preso com sua esposa. tinham que vir até o microfone perto de Padilla. e ficamos surpresos com sua aparição. Enquanto Padilla continuava citando os escritores "contra-revolucionários". assim como todos os outros intelectuais cubanos que tivessem atitudes semelhantes. No exterior já se tornara uma atração internacional. Ade Pablo Armando Fernández foi extensa e lamentável. que Padilla encontrava-se numa posição muito difícil e que não tinha outro jeito senão fazer aquela confissão. Entre estes estavam Mario Vargas Llosa. Norberto Fuentes. que escrevera lindos poemas. de toda a sua obra anterior. intitulando-se de covarde. e confessou todos os seus erros ideológicos. Padilla dava o nome de todas essas pessoas. saiu daquela cela transformado em farrapo humano. quando tudo parecia concluído tal como previsto pela Segurança do Estado. Norberto. a ouvir Padilla. minuciosamente checada. Mas Lezama recusou-se a assistir àquela retratação. hoje transformado numa das estrelas mais importantes de Fidel Castro. uma por uma: José Yanes. passaram diante do microfone. Juan Rulfo e inclusive o próprio García Márquez. como . Tudo foi filmado pela Segurança do Estado e o filme percorreu todos os meios intelectuais do mundo. Disse não concordar com o que estava acontecendo ali. Quase todos os intelectuais cubanos foram convidados pela Segurança do Estado. César López também estava lá. Aquele homem vital. Virgilio Pinera levantou-se da cadeira e sentou-se no chão para que não o vissem. entre socos no peito e lágrimas nos olhos. Lembro-me de que a UNEAC estava rigorosamente vigiada por policiais em trajes civis. todos aqueles escritores. como 169 # também delatava publicamente todos os seus amigos e até sua esposa. Lezama Lima. Mas ele. só podiam entrar para ouvir Padilla as pessoas que constassem de uma lista. ele se acusava de uma maneira ainda mais violenta que Heberto Padilla. arrependia-se de tudo o que havia feito. entendera a beleza da Revolução e escrevera poemas dedicados à primavera.168 # O "Caso" Padilla A Segurança do Estado escolheu Heberto Padilla como bode expiatório. fazendo sua confissão. trinta dias depois. sendo exibido especialmente a todos aqueles que haviam assinado uma carta em protesto contra a prisão injusta de Padilla. para um concurso oficial. Padilla tinha sido o poeta irreverente que se atrevera a apresentar. miserável e traidor. Em 1971. A noite em que Padilla fez sua confissão foi uma noite sinistra e inesquecível. e era necessário portanto destruí-lo. não pensava assim. Sabíamos que estava preso. Dizia que. Octavio Paz. já no final.

Foram lidos textos rotulando o homossexualismo como um caso patológico e. foi levado para umjulgamento público que aconteceu no mesmo teatro onde ele era diretor. o governo de Castro organizava o I Congresso de 170 # Educação e Cultura. Recomeçaram as prisões e apareceram de novo os lindos rapagões da Segurança do Estado. já era impossível pensar em abandonar o país. Norberto Fuentes foi calado com gritos e ameaças. obviamente. a degradação das pessoas diante de um público sempre disposto a zombar de qualquer fraqueza alheia ou de qualquer . A mais violenta perseguição daquele congresso foi dirigida contra os homossexuais. como Héctor Quesada ou o tenente Pavón. cada dramaturgo homossexual recebia um telegrama informando-o de que não reunia os parâmetros políticos e morais para o bom desempenho do cargo que ocupava e. desde 1970. dizia-se que todo homossexual ocupando um cargo em órgãos culturais seria imediatamente exonerado. Castro proclamara que todos que desejavam sair do país já o tinham feito. Algemado e com a cabeça raspada. Além do mais. eram agora os responsáveis pela caça às bruxas. que fundaram uma das instituições artísticas mais importantes de toda a Ilha. Era evidente que as trevas desciam sobre todos os intelectuais cubanos. Todo artista com um passado homossexual ou algum deslize político corria o risco de perder o cargo. sentiam-se felizes em permanecer. Agentes da Segurança. Um dos escândalos mais badalados daquele período foi a prisão de Roberto Blanco e seu julgamento público. mais importante. e os membros da Segurança presentes se levantaram e vi alguns deles procurando as armas. A humilhação pública tem sido um dos métodos mais utilizados por Castro. Naquele momento. De repente. isto é: cada escritor. que era considerada como uma forma de diversionismo ideológico e uma sutil penetração do imperialismo norte-americano. assim como quase todos os atores que integravam aquele grupo. Terminou dando um soco na mesa. o teatro Guinol. fictícios ou críticos. Ali foram ditadas regras até a respeito da moda. Enquanto acontecia esse vergonhoso espetáculo da confissão de Padilla. disfarçados de bichas obsequiosas para prender qualquer um que olhasse para eles. Trabalhar na agricultura como coveiro eram as ofertas de trabalho feitas aos intelectuais "parametrados". onde executaria outra tarefa. entre os anos sessenta e setenta. Teve início a chamadaparametraje. que tratava exatamente do oposto do que o nome expressava. cada artista. portanto. o que se queria era acabar com toda a cultura cubana.escritor. Castro transformou a Ilha em prisão de segurança máxima. eles foram "parametrados" e o teatro destruído. Ele era um dos 171 # diretores teatrais mais importantes de Cuba. estava morrendo de fome. perdia seu emprego e tinha que ir para um campo de trabalhos forçados. não se considerava um contra-revolucionário só por ter escrito vários livros de contos. Lembro-me do caso dos Camejo. mas cometera a imprudência de olhar para o falo ereto de um daqueles lindos rapazes. onde todos. segundo ele.

tentavam fugir do país. fosse como fosse. Beny também tinha sido preso por corrupção de menores ou algo parecido. que fugiram a nado para a base de Guantánamo. através de algum turista francês. de cabeça raspada e algemados. Jorge Oliva e os irmãos Abreu. li aquele conto para Reinaldo Gómez Ramos. Uns tiveram mais sorte naquela época. Eles sempre deram umjeito para que eu recebesse uma carta de consolo e. como foi o caso de René Ariza. que se atirou do telhado de casa. ou seja. tratava-se também de sairmos do país. e o mais prático para muita gente foi virar polícia. Estes presentes se tornaram um símbolo de vida para mim. apesar de todos os 172 # obstáculos. Esteban Luis Cárdenas tentou atirar-se de um edifício e cair na embaixada argentina. fui embora a nado. tentando atravessar o estreito da Flórida ou. o que era praticamente impossível. infiltrando-nos num avião clandestinamente. Outro premiado também condenado a trinta anos de cadeia foi José Lorenzo Fuentes. Quando soubemos do fato. os acusados tinham que se purificar das fraquezas num campo de cana ou com qualquer outro trabalho agrícola. o suicídio. indo cair em território norte-americano. pouco dispostas a respeitar qualquer tratado diplomático. Comentava-se que Jorge Oliva enviara um telegrama para Jorge Guillén. mandavam-me uma camisa. Quantos jovens não morreram (e continuam morrendo) afogados. mas as autoridades cubanas. no qual dizia: "Você não costumava dizer que eu era piranha? Pois bem. Naquele período. com uma cadeira da sorveteria Coppelia e um ventilador gigantesco. tinham até um cheiro diferente. muitas vezes. um par de sapatos. Vivíamos num Estado policial. era preciso se arrepender. Foi o caso da poetisa Martha Vignier. que formei com os irmãos Abreu. durante todos esses anos. já se encontravam em Nova York. um lenço ou um perfume. Ao . caindo despedaçada sobre a calçada. Depois. caiu no pátio da embaixada. como foi o caso de Jorge Oliva e Nica. Agora não se tratava apenas de esconder os textos e mandá-los para o exterior no momento adequado. Hiram Prado e Oscar Rodríguez subitamente transformaram-se em informantes do regime. minha amizade com Jorge e Margarita Camacho foi indestrutível. talvez sobrassem pouquíssimas opções para os escritores ou para qualquer outra pessoa. entraram e ele acabou sendo preso. naturalmente. Outros. Não bastava ser acusado. baleados pela guarda costeira da Segurança do Estado? Outros optaram por uma forma de fuga mais segura. bater no peito diante do público que ria e aplaudia. é claro. Contava-se que alguém tinha construído." Felizmente. e encontrava-se então num campo de trabalhos forçados. Certa vez. quando ainda era permitido. simplesmente. Alguns. sair a nado. só pelo fato de terem chegado de uma região livre. Escritores agraciados com prêmios nacionais de poesia eram subitamente condenados a oito anos de cadeia por diversionismo ideológico. tive tanta necessidade de ler um conto que alugamos um barco na praia Patrice Lumumba. queriam continuar escrevendo reunidos em pequenos grupos. como o do parque Lenin. Enquanto navegávamos bem perto da praia. uma espécie de helicóptero com o qual conseguira passar sobre a cerca da base de Caimanera. Pepe Malas.pessoa caída em desgraça. atravessando a base naval de Guantánamo. As detenções sucediam-se. já que não podíamos ir muito longe.

de onde podíamos vê-la subindo a escada do avião. varrendo. tinha de continuar utilizando. para nós. 174 # Uma Visita a Holguín Uma das poucas escapadas que eu ainda podia realizar naquele período era visitar minha mãe em Oriente. Quando o avião começava a subir. numa espécie de ser mágico pelo único fato de poder pegar um avião e sair de Cuba. Mesmo agora posso vê-la resignada e triste. 175 # Costumava dizer que eu devia casar. O pesadelo de minha mãe era que eu fosse parar na cadeia. ou pelos estrangeiros que vinham visitar o país. era quando um daqueles turistas. esperando o amante. dizer o que bem quisesse. Sua maneira de varrer era como um símbolo. Talvez quisesse varrer assim o horror que a acompanhara durante toda a vida. E chegar lá era uma verdadeira odisséia. seu único filho. o olhar fixo no horizonte. eu caminhava de modo diferente. até certo ponto. a quem tínhamos contado nossos horrores. ou noivo. eu sempre a imaginava no portão ou na rua. Ela possuía esse dom de varrer com tanta delicadeza. só possível de ser transposta por quem tivesse uma licença especial de saída. mas que. Aquela pessoa transformava-se. em escritor perseguido. tão aérea. e grupos de camponeses dormindo dias seguidos na porta dessas lojas para conseguir comprar um par de sapatos. apesar da passagem comprada com vários meses de antecedência. Seu pedido era tão triste e tão absurdo! Acabei deixando-me convencer por suas palavras. tanta solidão. Antes de entrar na casa onde morava minha mãe. me colocando em contato com um mundo onde ainda era possível respirar. Tinha-se de ficar na fila para pegar o trem permanentemente lotado. por um costume ancestral. porém.usar essas roupas. aquele homem que a seduzira um dia e que nunca mais voltara. e corríamos todos até o terraço. tão frágil. que tivera tão . comprar um par de sapatos novos. como se o que importasse não fosse tirar o lixo e sim passar a vassoura. formando uma imensa fila para pegar a condução que nos levaria para Havana. transformado em homossexual. tanta miséria. não ligar para tudo o que se passava aqui. movimentando-se com aquela vassoura no portal de madeira. voltava para casa. Com que inveja víamos Olga atravessando a barreira de vidro. Era um prazer imenso poder pensar em subir no avião e deixar aquele inferno para trás. E chegando a Holguín. lotado de gente que podia ir embora. com aquela vassoura que não limpava nada. O mais impressionante de tudo. nós o víamos desaparecer entre as nuvens. em desgraça. sempre que ia visitá-la. isso me tornava um pouco mais livre também. Por que não dar àquela mulher. sair daquela 173 # cadeia. olhando para nossas calças de tecido grosseiro e nossa pele ressecada pelo sol e a falta de vitaminas. eu via aquele povoado cheio de lojas fechadas. Mas nós ficávamos ali mesmo. Olga se perdia por trás daquelas vidraças. e eu.

passava informações espantosas à Segu- . que era presidente do Comitê de Defesa e. minha tia roubava as poucas coisas que eu ainda possuía. famoso preso político. sempre achei que era um veado enrustido. eram necessários tantos documentos que durante anos. em Miramar. Minha tia. uma de suas melhores amigas. entrava de noite com os filhos e roubava tudo o que conseguia. sua vizinha. eu precisava deixar o quartinho onde morava naquela casa. pois não tinha outra escolha. A própria polícia estranhou quando encontrou aquele móvel em plena Quinta Avenida. Enquanto minha tia fazia amor com esses homens no quarto. no entanto. permaneceram fechadas. A casa da senhora ficou completamente vazia. era membro do Partido Comunista. como também muito cruel. e queria prendê-lo nessa oportunidade. Seus dois filhos já eram rapazes. Minha tia o traía com todos os homens disponíveis. por exemplo. E eu voltava para Havana ainda mais triste do que antes. meu tio Chucho lavava os pratos na cozinha. a luz voltou e minha tia começou a correr. o marido de Gloria. em sua grande maioria. Com toda certeza. era por causa das minhas amizades. alta informante da Segurança cubana. Essa senhora tinha todos os filhos no exterior e ficara sozinha em casa. estava autorizada a entregar uma dessas casas. aquela pobre senhora nunca poderia ir embora. a primeira coisa que fez foi "limpar" todas as casas vizinhas. um homem gordo e grotesco. Certa noite. O ato mais cruel que ela cometeu não foi comigo. por essa razão. intrigante. e era por isso que ficava furioso cada vez que via um daqueles lindos recrutas ou bolsistas entrando no meu quarto. o governo cortava a luz durante a noite para economizar energia. o maior estava casado e o outro. que também trabalhava para a Segurança do Estado. Seu marido. um velho que tinha sido expropriado. Minha tia não era apenas mexeriqueira. largando o aparador no meio da rua. mas nunca ficou sabendo que tinha sido minhatia aautora daquela façanha. com uma filha retardada. 176 # Minha tia. O governo pensava que Artime fosse voltar algum dia para ver a mãe clandestinamente. Era a mãe de Alfonso Artime. embora homossexual. conseguida graças a um alto funcionário do governo de Castro. enquanto prometia ajudá-la a fugir.poucos prazeres. e sim com uma velha. também queriacasar-se. uma última satisfação? Ela me dizia que tivera um filho para não ter de passar a velhice tão sozinha. ao atravessar a rua com um aparador cheio de louça e copos de cristal. Elas tinham pertencido à burguesia rica que fugira para o exterior. quando se mudou para aquela casa. mas não havia muitos: o dono de uma loja. tirando proveito da situação. luxuriosa. Contava que eu trazia homens para o meu quarto. Aquela área fora declarada "congelada" e só a administradora regional. Minha tia queria expulsar-me a qualquer preço da sua casa e criava todo tipo de problemas com os vizinhos. Minha tia aproveitava-se daqueles blecautes para invadir as residências desertas e apoderarse de tudo que encontrava. prometeu àquela velha senhora que providenciaria sua saída do país em troca de todos os seus móveis. que era contra-revolucionário e que se o quarteirão estava cheio de ladrões. segundo ela mesma afirmava. Noelia Silvia Fonseca. Desta forma. Minha tia. Era como um personagem picaresco. as roupas que Jorge e Margarita me mandavam do exterior. Os blecautes eram comuns em Havana.

meu primo por afinidade e amigo íntimo da minha tia. Quando Hiram Prado foi mandado para um campo de concentração em Oriente. a qual. Eu receava tanto a polícia quanto a vigilância de minha tia. Uma vez. ameaçava chamar a polícia. quando Padilla foi preso.1972 ou 1973. esperando que eu terminasse um capítulo. e nem permitia que as cartas chegassem às suas mãos. ela saía com uma vassoura e. na verdade. então um belo rapaz que escrevera um romance maravilhoso e planejava escrever outros cinqüenta. Freqüentemente. passei da agonia que estava escrevendo à agonia dos meus amigos que estavam desesperados. excelentes. Finalmente. Quando um deles pulava o muro para entrar no meu quarto. Apesar de saber que era absurdo. um tenente da Segurança. eu já era conhecido no exterior pelas minhas obras El mundo alucinante e Celestino antes del alba. Minha tia também exercia rígida vigilância sobre os adolescentes que vinham me visitar. aos berros. para mim. a Segurança do Estado nem lhe dava tempo de realizar sua atividade "heróica". cujos temas eram. Foi demais. Minha tia tomara a liberdade de abri-la. eu também disse que chamaria a polícia e acusaria os dois de violação de correspondência. nos últimos anos em que morei naquela casa. pois nunca a recebera. traduzidas em várias línguas. vestir-se como Nicolás Guillén e tomar um avião. aqui está a prova. A velha morreu em Cuba. foi até meu quarto e disse: "Reinaldo." E me mostrou uma carta de Hiram Prado endereçada a mim. Naquele ano. intercep177 # tava tudo. embora não me devolvesse a carta. todos os seus móveis foram parar na casa da minha tia. Dentre os poetas que me visitavam na ausência de minha tia. Guillermo queria fugir da Ilha. pois ele era 178 # o único escritor cubano que viajava livremente para qualquer país.rança do Estado. numa casa absolutamente vazia. era uma carta que eu nunca havia lido. ele disse que preferia não se meter naquele negócio sujo. encarregada de pegar a correspondência. Vladimir Cid Arias. nem que fosse num balão. fazendo não apenas referência às suas aventuras eróticas como também às minhas. chegamos a pensar no . Dessa forma. Ao terminar o capítulo. ambos escritores. Na verdade. e também por minhas crônicas. as editoras me mandavam cartas que eu nunca recebia. sempre tinha planos incríveis: sair numa balsa conduzida por peixes velozes. que devia pertencer ao romance El palacio de las blanquisimas mofetas. quando chegaram também Nelson Rodríguez e Jesús Castro Villalonga. ler o conteúdo e chamar aquele primo para me expulsar do quarto. acabava sendo muito mais perigosa. Fiquei revoltado e disse que tal fato representava uma violação da minha privacidade. Outras vezes. escreveu-me constantemente. estava Guillermo Rosales. tudo o que eu escrevia durante o dia tinha que ser rapidamente escondido debaixo do telhado. você precisa sair dessa casa porque tem sido completamente imoral. Guillermo sentavase na varanda do meu quartinho. minha tia. Certo dia. para que nunca a deixassem partir.

ficou "doente". Se não atendessem nosso pedido. conseguimos sentar. Num dado momento. mas totalmente descabida num país comunista. Além de ser uma loucura. fiz a carta e depois seguimos até a UNEAC. com a nova onda de perseguições. que seria colocado num avião para o exterior. na qualidade de presidente da UNEAC. de repente. pois queria sair do país. nem me deixavam fazer a revisão dos textos publicados no La Gaceta de Cuba.sequestro de Nicolás Guillén. de fato. Pouco se podia falar num restaurante cubano. O encarregado de dirigir todo aquele teatro sujo foi José Antonio Portuondo. Padilla não nos deu tempo de realizá-la. o temível Bienvenido Suárez. cabia a ele essa tarefa. não me contou de que maneira pensava executar seu plano. num traidor. em troca da liberdade de Padilla. A ajuda que Nelson precisava era do tipo intelectual. ele disse: "O único que poderia nos salvar dessa situação seria São Heberto. no entanto. andava apavorado. não tinha forças para passar novamente por todo aquele horror. Era uma idéia minha. Já não podia escrever para a UNEAC. É o que vou fazer". Tratava-se de um livro extraordinário constituído de vários capítulos. Nelson e Jesús me convidaram para tomar sorvete no El Carmelo da rua Calzada. o . Fui para casa. teve pelo menos a dignidade de não estar presente quando da confissão de Padilla. precisava assinar aquele livro." Ele chamava Heberto Padilla assim enquanto estava preso. mas observei que Nelson queria ficar mais. e internou-se num dos hospitaís oficiais. Disse que precisava da minha ajuda. diante de todo aquele público. queria que eu escr evesse uma carta recomendando um livro de contos seus. onde a gente não sabia quem estava ao nosso lado 180 # e podia ouvir nossa conversa. finalmente. ficamos numa fila imensa e. Nelson estivera num campo de concentração em 1964. Nelson e Jesús convidaram-me para dar um passeio na praia. Depois disso. até o sol. Ele leu rapidamente e foi embora. Andávamos pelas ruas do Vedado criticando tudo. junto com Roberto Fernández Retamar. onde ele narrava fatos ocorridos no campo de concentração onde estivera preso. e agora. reservados para os altos funcionários do governo de Cuba. Agora. tinha-se convertido. 179 # Nelson Rodríguez A inquietação de Guillermo Rosales naquela tarde em minha casa devia-se ao desejo de ler um capítulo de um romance que estava escrevendo. inspirado na personalidade de Stalin. uma das figuras mais sinistras de toda a cultura cubana. como ainda não fora despedido. mandaríamos a cabeça de Guillén ao administrador da UNEAC. Convém deixar claro aqui que Nicolás Guillén. Um mês antes. só nos resta fugir do país. mas Padilla já não era mais santo. certamente a par do que ia acontecer na UNEAC. onde eu tinha de assinar um livro de ponto para poder receber meu salário. Guillén permaneceu trancado e não saiu até que Padilla fizesse aquela famigerada confissão. disse ele ao sairmos.

calor. pois ainda mora em Cuba. mas felizmente o avião fizera um pouso de emergência no aeroporto José Martí. junto com o amigo Angel López. As hélices o feriram e durante um ano ele teve de permanecer hospitalizado em estado grave. mas estava a par do plano. omitindo que se tratava de dois escritores. Nelson corria pelo avião com a granada. que foram prontamente controlados. Nelson estava muito agradecido pela carta que eu escrevera para ele. tinham roubado umas granadas e o plano consistia em ameaçar os pilotos do avião com essas granadas. em direção a Cienfuegos. Talvez a Segurança a tenha guardado para acumular mais provas contra mim. tive a impressão de que Nelson queria me dizer mais alguma coisa. Tomariam o avião com todas suas malas e seus velhos livros. Os passageiros que permaneceram sentados. Finalmente. Quando o avião conseguiu aterrissar. vários agentes da Segurança e a escolta oficial fortemente armada que costuma viajar em todo avião cubano agarraram Nelson para matá-lo. Nelson gritou para Angel jogar a granada. Nelson Rodríguez e Angel López Rabí." A nota dizia que todos os passageiros do avião haviam reagido contra aqueles dissidentes. tudo nos incomodava. Jesús Castro ficou com medo. com o objetivo de ir até os Estados Unidos. Quando este decolou. Quanto à minha carta. Quando os médicos da Segurança conseguiram curá-lo. lia-se a seguinte notícia: "Dois contra-revolucionários homossexuais. mas não teve coragem. contou-me toda a história. que já se encontrava numa altitude considerável. se não desviassem o rumo. os contra-revolucionários seriam condenados por um tribunal militar. Isso era tudo que dizia o jornal. nos abraçamos e despedimos. à noite. Fiquei apavorado. Jesús e Nelson. soubemos como tudo aconteceu. na primeira página do jornal Granma. enquanto seus perseguidores tentavam acertar um tiro nele. cujo nome prefiro não mencionar. Jesús Castro Villalonga. que não tomara o avião. No entanto. Acrescentava também que um dos contra-revolucionários jogara uma granada. A explosão provocou um enorme rombo no avião. Nelson. foram presos como suspeitos e submetidos a uma investigação. Um dos chefes da Segurança atirou-se sobre a granada para abafá-la. colocando-a atrás dos passageiros aterrorizados como forma de ameaça. foi condenado a trinta anos de cadeia. mas não conseguiu. ele as lançaria. Nelson devia ter levado minha carta de recomendação para seu manuscrito sobre os contos da UMAP Depois. Imediatamente. imagino que tenha desaparecido em meio à explosão provocada pela granada e no incêndio que se seguiu. tentaram desviar um avião da companhia aérea Cubana Aviación rumo aos Estados Unidos. Nelson aproveitou-se da confusão e atirou-se pelo buraco. foi condenado à morte e fuzilado. na última hora. Durante a noite inteira. Eles sabiam que podiam me prender a qualquer . sem colaborar com a polícia castrista. arrependeu-se e não pegou o avião. de apenas dezesseis anos. seu amigo Angel López (um poeta de dezesseis anos) e Jesús Castro compraram bilhetes para um vôo doméstico. Dois dias depois. era uma recomendação para meu editor na França. 181 # Nelson pegou as granadas e disse aos passageiros que se o avião não mudasse o rumo. mas este ficou com medo e Nelson jogou a sua. durante o serviço militar. Um dos passageiros. Acho que também queriam que o avião fosse sequestrado. não queriam dar ao fato nenhum tipo de publicidade. obviamente.

com vida particular um tanto liberal. escrevi uma crônica sobre as experiências de Nelson nos campos de concentração. conforme me informou Bienvenido Suárez. Eu precisava procurar uma mulher. assim como seus móveis. estava a par da intenção de Nelson em 182 # fugir da Ilha. A Revolução não daria um quarto a um homossexual para que ele levasse homens para lá. Entretanto. Certa vez. como também estava vinculado a terroristas que desviavam aviões com granadas na mão. Eu não tinha nenhum desses atributos e minha conduta estava longe de ser irrepreensível. Em Cuba. No entanto. De qualquer maneira. Não sei se terão atendido ao meu pedido. Obter uma televisão ou uma geladeira exigia vários anos no corte da cana. peça de José Triana e dirigida por Vicente Revuelta. que Bienvenido Suárez queria me dizer. Noelia Fonseca. e ter uma conduta irrepreensível. com a granada na mão. as quais foram lenta mas minuciosamente destruídas. Pedi o quarto por intermédio da UNEAC. minha tia e eu ouvimos um grande barulho: as estudantes camponesas estavam quebrando todas as janelas de madeira de uma mansão a fim de fazer uma fogueira no pátio para ferver a roupa e desinfetá-la. era preciso que eu saísse daquela casa. Ela gostava de homens. fugindo da Ilha. conseguir um simples apartamento representa um privilégio concedido apenas aos altos funcionários. cuja vida particular não podia ser classificada de imoral pelo fato de ter amantes. Ainda em Cuba. a estrela mais brilhante. ninguém o ocupava. obviamente. Minha tia. havia um quarto em uma das residências abandonadas. escrevi um poema no qual pedia aos deuses que Nelson permanecesse sempre assim.momento. muitas partes mais elegantes daquelas residências. e a dediquei a ele. aquela área estava cheia de residências vazias. quem quer que tivesse morado ali já falecera há muitos anos. no ar. . 183 O Casamento Perto da casa da minha tia. Dizia assim: "A Nelson. na sua opinião. Lucia. de Humberto Solás. Assim. intitulada Arturo." Depois. Também atuara num dos filmes cubanos mais famosos daquele período. não era lésbica. logicamente. mas só podia ser cedido a uma pessoa casada. no exílio. era uma mulher divorciada. às vezes. era isso. a ser gentil e delicado. todas as casas pertencem ao Estado. foram transformadas em combustível. o puritanismo castristadesconfiava igualmente das mulheres solteiras. mas não tinha para onde ir. administradora regional. eu não só era um veado contra-revolucionário. Agora. embora algumas delas estivessem ocupadas por estudantes bolsistas que vinham do campo e ficavam felizes de poder morar naquelas casas luxuosas de Miramar. acumulando méritos no trabalho e na política. Po r essa razão. Ingrávida foi "parametrada" e despedida do emprego. um marginal que chegava. Ingrávida Félix era uma atriz de talento que tivera excelente atuação em La noche de los asesinos. casar e fazer o pedido formal à Sra.

De 185 # qualquer forma. sempre procurava um homossexual para ficar com a esposa. fiz amizade com um deles. com meu salário da UNEAC. eu já tinha um amante. outro extraordinário privilégio dos que se casam é poder alugar uma casa na praia por quatro ou cinco dias. no entanto. ou talvez para a casa onde ele morava com Olga. Naqueles anos. nos encontraríamos na praia. Tivemos uma relação inesquecível. que também sofrera perseguições pela mesma fraqueza: gostar de homens. solicitando o quarto. talvez por eu estar recém-casado. era um rapaz muito viril. mulheres e homossexuais uniram-se. que aliás mostrou-se ciumento diante da beleza da minha esposa. porque tinha um amante vinte ou trinta anos mais jovem que ela. Virgilio Pinera organizava contribuições para que ela e os filhos não morressem de fome. mesmo que apenas para se proteger. e não dava para entender sua atitude. Dessa maneira. Chegou com os filhos. Ela me disse que. enquanto aguardava minha esposa. coitado. Os verdadeiros machos podiam ter várias mulheres e isso era visto como um ato de virilidade. no dia seguinte. ir para a cama com Ingrávida para que eu ficasse com Olga. que nunca tinham brincado perto da praia. adquirimos algumas roupas e coisas essenciais e nos casamos.apesar do seu enorme talento como atriz. se eram esposas de algum militante do Partido Comunista. Miguel. Nesse corte entrou até a cantora Alba Marina. que queria. Assim. o que o excitou ainda mais. Com a autorização para compras que dão em Cuba às pessoas que vão casar. De qualquer forma. Por outro lado. O texto da carta era bastante patético e apelava para a condição de mulher revolucionária de Noelia. Não aceitei porque queria ir descansar na praia. a mulher e o homossexual são considerados no sistema castrista como seres inferiores. Elas sofriam punições e eram até afastadas do emprego. numa assembléia pública. Ali mesmo na praia redigimos a carta para Noelia Silva Fonseca. embora ele. ela aceitou casar se comigo e pedir aquele quarto. aceitou ir com Miguel para um hotel. quando contei toda a minha situação. Ao lado da casa havia um grupo de rapazes e. O padrinho de casamento foi Miguel Figueroa. sob o olhar desconfiado do meu jovem amante. sobretudo quando se tratava de uma mulher como Ingrávida Félix. costumava invadir esses locais para descobrir quais as mulheres que cometiam adultério e. o quarto e todos os nossos planos não passaram . naquela noite mesmo. tornaram-se notórias as prisões de mulheres nas 184 # pousadas. os maridos eram imediatamente informados. A polícia. Corria o boato de que essa mulher era amante de Celia Sánchez. principalmente. eu. Ingrávida. tinha dois filhos e não sabia o que fazer para alimentá-los. Havia uma espécie de playground e passamos o dia brincando com as crianças. Quando Ingrávida chegou. finalmente. resolvesse desempenhar o papel de passivo. Por essa razão. Eram lugares criados pela Revolução onde os heterossexuais podiam alugar um quarto por umas horas e fazer amor. ajudava-a economicamente. Revelei que estava esperando por minha esposa com quem acabara de casar. Ingrávida era uma mulher belíssima.

quando estava escrevendo. para alcançar um barco grego que saía do porto. onde não houvesse nenhum policial para nos ouvir. por exemplo. O mais dramático de tudo foi que muitas pessoas se tornaram vítimas da chantagem e do próprio sistema. ou um negrinho. Eu já desconfiava de muitos amigos meus. fosse para onde fosse. Às vezes. ele nem chegou até a calçada da embaixada. Os gregos ajudaram-na a subir a bordo. era como uma advertência ou uma maneira de me intimidar. a polícia estacionava o carro bem debaixo do meu quarto e ficava ali horas a fio. nem que fosse a nado. em tiras. pelo fato de estarmos casados. pois foi preso antes. Jorge Dávila e eu só nos reuníamos perto da praia. Sentia-me perseguido. fiquei sabendo que uma mulher se atirara ao mar. De quem seria aquela criança? Ingrávida afirmava ser de René de la Nuez. Finalmente.disso: apenas planos. não queria estar comprometido com uma mulher de má fama. no entanto. ou até mesmo um chinesinho. transformá-los em informantes. Agora. e com toda a razão. 186 # obviamente. Certa vez. Nada tinham a ver. tivemos relações sexuais com uns rapazes. fazer com que desconfiássemos dos nossos melhores amigos. Foi o caso. eu teria de assumir aquela criança de acordo com a lei. Passamos . Lá. Continuei morando no quarto de empregada da minha tia. esses amigos eram informantes da Segurança e estimularam-no a se aproximar da embaixada da Argentina. na casa de Lezama. Às vezes. sem saber de quem. do Malecón. no meio dos manguezais. ignorávamos se a criança que ia nascer seria um mulatinho. as pessoas eram presas sem nenhuma prova concreta de que pretendiam fugir do país. é que as desgraças são infinitas. No verão de 1973. 187 # A Detenção Achava que minha situação chegara ao limite. até perderem sua própria condição humana. Olga regressara a Paris e Miguel encomendara pés-de-pato e equipamentos de mergulho para fugir. Ingrávida ficou grávida. fez com que ela redigisse uma carta na qual comunicava oficialmente que o filho não era dele. Pepe Malas e eu estávamos tomando banho na praia de Guanabo. Foi uma das coisas mais horríveis que o castrismo conseguiu: romper os laços de amizade. sempre ameaçado de ir para a rua ou para a cadeia. depois de estar em mar aberto. Miguel Figueroa. que contara a amigos que pretendia pedir asilo numa embaixada latino-americana. com aqueles gregos tão clássicos que travaram a guerra de Tróia. Noelia nunca se preocupou em nos dar uma resposta. de Julián Pontes. conseguiria ser recolhido por um barco qualquer. Sua situação econômica tornou-se desesperadora e. furioso. No final. se existe algo que um sistema totalitário pode nos ensinar. BaStava terem feito um simples comentário ou cultivado certos planos. mas este. Ingrávida deu à luz um menino branco e de olhos bem azuis. Esse homem pertencia ao Partido Comunista e trabalhava como cartunista no Cranma. depois chamaram a polícia cubana para entregá-la.

nem os porteiros me cumprimentavam quando passava. encontravam-se Nicolás Guillén. pois nada de mal iria acontecer. a gente estava vindo à delegacia para devolvê-las. Mas não me lembrei de um artigo da lei castrista que diz que se um homossexual cometer um delito erótico. No entanto. E além de ficarmos detidos. não era nada fácil. e pediu que nos encontrássemos na casa dele. e tudo estava assinado por pessoas que. 188 # Eu pensava. Só pegamos as bolsas porque eles fugiram depois de levarem umas porradas." A história era pouco convincente . já que tudo aquilo era absurdo e não existia provas contra nós. na delegacia. para assinar o livro de ponto e receber o meu salário. eram aparentemente excelentes amigos. Disse-me para não me preocupar. tudo que havia de positivo sobre minha pessoa desapareceu. num pinheiral perto da praia. Escolhi um advogado para cuidar do meu caso. que não possuíamos. Meia hora depois. . que deu as piores informações a meu respeito. com umjulgamento pendente. pois os livros tinham saído do país sem licença da UNEAC. De repente. Fomos soltos sob fiança. De fato. era realmente o fim. dormimos lá mesmo. Assim. Chamaram a UNEAC. vimos os rapazes com nossas bolsas. Lá mostrou-me um comprometedor dossiê a meu respeito. Na verdade. eu não passava de um contra-revolucionário homossexual. Ainda tínhamos alguma esperança de ser soltos. havíamos sido roubados por aqueles amantes recentes. pois na verdade não havia qualquer prova e não podiam me acusar de nenhum delito. seguraram nossa pica. que não tinham provas contra nós e o único fato concreto era o roubo do qual fôramos vítimas. José Martínez Matos e Bienvenido Suárez.realmente horas maravilhosas com eles. era preciso continuar indo à UNEAC. estavam com nossos pertences. mas éramos homossexuais e os rapazes tinham um tio policial lotado na delegacia de Guanabo. inocentemente. que publicara livros no exterior. passamos de acusadores a acusados e ficamos presos. Otto Fernández. Depois de transar com os rapazes. tornei-me invisível. até aquele momento. deixamos as bolsas na areia e voltamos à água. Fomos até a delegacia. Pepe chamou a polícia. basta a denúncia de uma pessoa para que seja preso. bastante nervoso. coisa que eu jamais faria. que agora me acusavam de um trabalho constante como contra-revolucionário. mas a cada dia me olhavam como se eu fosse um leproso e agora. Lembro-me de que Tomasito La Goyesca se encarregou de arranjar o dinheiro. um dia chamoume. O carro-patrulha percorreu a praia para ver se localizávamos os ladrões. o que nunca se deve fazer em semelhante caso. Dentre os assinantes. De repente. que me davam tapinhas nas costas. incluindo os títulos e descrições dos meus textos publicados no exterior. Tudo aquilo representava uma prova de que eu era contra-revolucionário. pois quando se vive numa ditadura o melhor a fazer é evitar qualquer contato com a polícia. Os rapazes chegaram com nossas bolsas. Foram presos pela polícia e o roubo era evidente. embora alguns também fossem homossexuais. cheios de ironia: "São veados que tentaram nos seduzir. Naturalmente. dizendo-me que não me preocupasse. pois a fiança era de quatrocentos pesos. ainda abriram processo contra nós.

ela ia contactar meus amigos. Nesse caso. como disseram no início. O promotor. Havia vários policiais cercando a casa. muito mais do que se fosse numa cama. estava a par de tudo. Em Paris. antes que Olga fosse embora. eu me esconderia em algum lugar e mandaria um telegrama a Olga. Mandariam então um bote inflável. Também fornecera dados ao tribunal. no entanto. No instante em que estava subindo no carro. encontrei-me com Hiram Prado e Pepe Malas. datilografei rapidamente meu poema Morir en junio y con la lengua afuera . Não podia mais serna casa da minha tia porque ela ameaçara chamar a polícia. Bateram em mim. O melhor era não me apresentar no tribunal para poder fugir. relatando minha vida depravada e minha atividade contra-revolucionária. escrito a partir de minha experiência na cadeia de Guanabo. Contei tudo o que estava acontecendo. Trataram-me com violência desnecessária. num dado momento. nu. tudo havia sido montado para trancar me na cadeia. era extremamente excitante.e Leprosorio. Falei a respeito do perigo iminente de ser preso antes do julgamento. Olga levou esses poemas. nascidas do desespero. Tratava-se agora de alguém que fazia uma constante propaganda contra o regime e a publicava fora de Cuba. voltou de Paris naqueles dias. acordou ainda mais cedo do que eu. Minha tia. Fariam alguma coisa para me ajudar a sair do país clandestinamente. mas quase sempre as esperanças são dos desesperados. Olga.eu dera o rascunho para uns amigos ainda residentes em Cuba . minha tia abriu a porta. com as seguintes palavras: Mandem o livro dasflores. Foi a última vez. cheirando à relva. 190 # Contei o que estava acontecendo e ele disse para nos encontrarmos na praia. Comuniquei a Hiram minha decisão de sair do país numa lancha pela base naval de Guantánamo. A polícia. onde me ajudaria a fugir pela base naval. um passaporte falso com minha foto. sem dúvida alguma.189 # Era óbvio que não se tratava mais de um simples delito. Não queria conformar-me com a cadeia. Pepe Malas estava sendo acusado apenas de escândalo público. Eram esperanças muito remotas. disse que a pena que eu merecia correspondia a oito anos de prisão. O fato é que no dia seguinte levantei-me muito cedo. Foi um ato de extrema ingenuidade. Jorge e Margarita Camacho. mandaram que eu me vestisse e me levaram até a patrulhinha. De uma maneira muito estranha. pois também receava que. esposa de Miguel. em Cuba não se pode confiar nenhum segredo. e um equipamento de mergulho . Naquela noite. entraram e fui preso na hora. em suas conclusões. não a deixassem mais sair de Cuba. que me deram em troca algum dinheiro para chegar até Guantánamo. no dia seguinte. Tinha deixado minha máquina de escrever com os irmãos Abreu. vi seu rosto radiante e o olhar . Eu tinha um lindo amante negro com quem fazia amor frequentemente nos matagais do Monte Barreto. de lá iríamos a Guantánamo. Eu não tinha escapatôria. Ouvi quando bateram na porta e fui até a varanda.algo com que eu pudesse sair do país. Seu nome mal aparecia em todo o processo. tiraram-me a roupa para ver se portava arma. de um escândalo público. e meu editor. naturalmente. Ser possuído por aquele homem em pleno campo.

"Meu irmão. caminhamos por entre os pinheiros até a praia de La Concha. Disse que eu devia me lançar ao mar e ficar escondido atrás de uma bóia. Permaneci ali o dia todo. O amigo que conseguira o short escondeu-me numa das cabines da praia e foi até perto da minha casa para se certificar de que estava sendo vigiada por policiais com cães. tirei o cadeado e fugi às pressas do xadrez. Estava chorando. do lado de fora. minha tia o roubara e precisei pedir com certa violência que o devolvesse. Afastei-me da costa e nadei até a praia Patrice Lumumba. Corri até a praia para encontrar o meu amigo negro. Minha tia ficou espantadíssima ao me ver. Meu amigo e eu nos despedimos. peguei o dinheiro que ainda me sobrava e o escondi na praia. No dia seguinte. Felizmente. pois ali os cães não poderiam me descobrir. Contei-lhe que havia sido um erro rapidamente esclarecido.cúmplice dirigido aos policiais. Ele também conseguira uns pés-de-pato. Foi o bastante para que me enchessem de porradas. Rapidamente. eu tinha apenas de pagar uma multa e viera buscar o dinheiro. minha prisão era ilegal. uma lata de feijão e uma garrafa de rum. Antes de entrar. Vi um amigo com quem tivera umas aventuras eróticas. comprou-me uma pizza com seu próprio dinheiro. tirei a roupa e lancei-me na água. Amarrei a câmara em meu pescoço com uma corda. Antes de atirar-me na água. e a única solução era sair do país naquela bóia. no meio de um monte de pedras. todos os policiais queriam pegar a garrafa térmica. deixando o cadeado aberto na grade. só me deu a metade do que me pertencia. pois o meu estava completamente encharcado. disse ele. Um pouco assustada. os interrogatórios mais longos viriam depois. portanto. contei o que estava acontecendo e ele me conseguiu um short com os salva-vidas da praia. Escondeu-me na cabine dos salva-vidas. significando que eu podia sair da água. era difícil sair do esconderijo. era um bom nadador. 191 # A Fuga Não havia banheiros na cela e os detentos tinham constantemente de pedir licença para poder usá-los. Perguntaram o motivo da minha prisão. claro que procurando por mim. ele tinha . toda a praia estava repleta de policiais à minha procura. Meu amigo conseguiu uma câmara de ar. que estava livre e sob fiança. Meu dinheiro já não estava lá. perto da casa de minha tia. À noite. À noite meu amigo fez um sinal. O que tomava conta de nós também foi até lá. Trancaram-me numa cela com mais vinte homens na delegacia de Miramar. Respondi que não sabia. pois pouco tempo atrás eu fora levado por uma patrulhinha. Num dado momento em que o tira encontrava-se nessa posição. Foi nesses trajes que cheguei em casa. não pensaram em ir até a casa de minha tia e pude pegar o resto do dinheiro e destruir tudo que pudesse me comprometer. mas elajá 192 # estava cheia de policiais. Saí correndo pela porta dos fundos que dava para a praia. fui interrogado rapidamente. Aquela voz provocou uma tremenda algazarra na delegacia. um privilégio em Cuba. chegou outro avisando que trouxera café. boa sorte". O policial ficava na porta vigiando os outros com o cadeado na mão. onde o café está racionado.

Alcancei a costa de Jaimanitas e vi uns prédios vazios. via-se uma linha de luzes: eram a guarda-costeira. e mergulharam-no na água. Percebi que não podia continuar. em plena escuridão. os barcos pesqueiros ou outros areeiros. Só me restava uma possibilidade de escapar: o suicídio. abri a lata de feijão. mais à frente. Devo ter perdido muito sangue. acordei. Passei na frente deles. mas não falaram nada. e minhas pernas e as articulações estavam quase congeladas. Mergulhei fundo e me escondi debaixo da bóia. avançando lentamente. mas. Percebi que a bóia tinha vindo parar ali com as ondas. Estava quase paralisado e meu maior medo era sentir cãibra e me afogar. não podiam pensar . eram as ondas revoltas de novembro. Numa bolsa de lona colocara a garrafa de rum e a lata de feijão. Depois. risadas. eu poderia chegar mais rápido aos Estados Unidos nadando do que usando aquela bóia sem remos e sem leme. surgiu um barco que vinha diretamente em minha direção. Comecei a andar sem rumo pela praia e de repente encontrei um grupo de homens com a cabeça raspada. No início. aos poucos. nem tamanha solidão. De repente. limpei as feridas no mar. A própria bóia representava um obstá culo. pensando que despertara no outro mundo. e a qualquer momento viriam me prender. comi e aquilo me fortaleceu um pouco. presos de uma fazenda do lote Flores. percebi que dificilmente chegaria a algum lugar. porém sem qualquer resultado. quebrei a garrafa de rum e com os cacos de vidro cortei as veias. me dei conta de que aquilo era um absurdo. Tinha de sair dali fugindo por aquela mesma praia onde passara os mais belos anos da minha juventude. que parecia um caranguejo. deitados no chão. Pus tudo no fundo da bóia e entrei no mar. no mesmo lugar onde tentara acabar com tudo. Havia fracassado. que anunciam a chegada do inverno. que formavam uma espécie de muralha no horizonte. Continuei me afastando a noite toda à mercê das ondas. de modo que eu pudesse ficar sentado. Olharam para mim com certo espanto. Mas estava aqui. Por volta das dez horas da manhã seguinte. Parece que era um barco areeiro. Pouco antes do amanhecer. este parou de escorrer. Com os cacos de vidro. o mar ia se tornando mais violento. Em alto-mar também percebi que não havia como abrir aquela garrafa. por isso as mantive fora d'água. As ondas ficavam cada vez mais violentas. fui perdendo os sentidos. A uns cinco ou seis quilômetros da costa. extraindo areia daquele lugar. com a bolsa que continha a garrafa e a lata de feijão amarrada na cintura. pouco a pouco. Era preciso tentar voltar Lembro-me de ter visto algo brilhando no fundo do mar e temi que um tubarão pudesse abocanhar minhas pernas. pensei que chegara ao fim e me deitei num canto daquele prédio vazio. Compreendi que se tratava de condenados ao trabalho forçado. À medida que me afastava da costa. 193 # Estenderam uma espécie de enorme garfo. Livrei-me da bóia e nadei durante mais de três horas até a costa. nunca sentira tanto frio. 194 # descalço. mas ninguém me viu.ajustado um saco de aniagem ao fundo da bóia. O barco parou a uns vinte metros de mim. Pensei que fosse a morte. eu ouvia as vozes. Entrei num deles. com os braços cobertos de feridas.

O negro raspou minha cabeça. De repente. Mas ele deu um jeito. e que talvez. Ele . não fazia sentido. Meu primo disse que iria buscar roupas. Durante toda a viagem. Chegamos em Guantánamo. procurava em vão por mim em todos os lugares por onde eu passava. com uma divisão ao meio. mais rústica. pois conseguira outras ainda mais rústicas. mas eu não podia fazer nada. não me agradou. pudéssemos dar um jeito. lugar que me pareceu horrível. A estupidez da polícia era incrivel. fiquei espantado. lentos e calorentos. convidando a todos. a caminho de Santiago de Cuba. pois era preciso fazer reserva com muita antecedência. Foi um gesto de bondade que me surpreendeu. Encontrei um dos meus primos na praia e contei-lhe que precisava de roupa. fazendo sinais para que me aproximasse. só assim eu poderia chegar até Guantánamo sem ser preso. já que eu ia entrar em território dos Estados Unidos. ele era de lá e conhecia toda a região. Com o dinheiro que eu tinha e o pouco que a avó do meu amigo lhe deu. Realmente. Não era fácil conseguir uma passagem para Santiago de Cuba ou Guantánamo. Vesti-me rapidamente e fui com meu amigo negro até sua casa em Santos Suárez. Pediu também que lhe desse todo o dinheiro. Quando me dirigi ao lugar onde devia estar o dinheiro. ele comprara uma garrafa de rum e começou a beber. O negro disse que era difícil conseguir um hotel em Santiago. resumi tudo o que tinha acontecido e ele disse que podíamos ir imediatamente para Guantánamo. fomos até a estação de trem. Em Santiago. O negro logo fez amizade com todos os passageiros sentados no mesmo banco. a quem subornou com alguns pesos. pois nunca esperara isso da parte dele. uns muito bonitos. o melhor era fazer amizade com todo mundo. Mas antes comemos uns croquetes-do-céu. Segundo explicou. nos momentos de maior perigo eu sempre sentia a necessidade de ter alguém a meu lado. O negro me levou até um local repleto de marginais. cheia de vitrines. Deitados debaixo das árvores. ainda mais chato e provinciano que Holguín. A camisa que meu primo me dera também foi substituída por outra. porque têm a característica de colar no céu da boca e não há jeito de sair. Logo tornou-se íntimo de outros negros. levar comigo dinheiro cubano. ao chegarmos em Guantánamo. quando me olhei no espelho.que eu fosse um simples banhista. Explicou-me que. Eu bem que gostaria de poder saltar e entrar num hotel para fazer amor com o negro. Meu cabelo comprido tinha desaparecido e estava agora curtíssimo. rindo e contando piadas. ele desenhoume toda a região de Caimanera na areia e explicou como fazer para chegar à base naval norte-americana. Era uma casa enorme. Cheguei até La Concha para resgatar o meu dinheiro escondido entre as pedras. combinou tudo com um funcionário. alguém me chamou. Pediu-me que tirasse todas as minhas roupas. como fazíamos no Monte Barreto. como chamam em Cuba aqueles croquetes vendidos nas cafeterias. Deixou a moça com quem estava e logo voltou com uma muda completa de roupa. me vi novamente num daqueles trens. transformando-me em outra pessoa. O mais importante agora era conseguir roupas. continuou bebendo. que durou três dias. tínhamos que pegar um ônibus até Guantánamo. 195 # para passar despercebido. Ele disse que a polícia procurava por mim em todos os lugares. era o meu amigo negro. Na verdade.

eram raios infravermelhos. Continuei andando de quatro. e. enquanto ainda me arrastava por aqueles pântanos selvagens. pois o negro me dissera para não comer até a hora de mergulhar na água. De madrugada. Ao saltar. com toda aquela região em estado de alerta. o negro estava certo quanto à sua idéia de me disfarçar daquela maneira. Ao anoitecer. era uma rajada que passou raspando. vi finalmente as luzes do aeroporto. pensava quejá estivesse morto ou que houvesse fugido 197 # pela base naval. Era o momento de mergulhar. meu amigo não tinha me enganado. foi como uma festa. No dia seguinte de manhã. Naquela hora. Continuei avançando e as luzes verdes se repetiam. limpei como pude a roupa e a cara. e perambulei pelas ruas. entre a folhagem. Continuei caminhando pela margem. ouvi um barulho. era como um chamado. Souberam que alguém queria cruzar a fronteira e tentavam localizar a pessoa. mas não vinham do céu e sim do chão. Continuei andando até encontrar um lugar onde não se ouviam mais os estalos.levou-me até a rodoviária. esperar a noite escondido nos pântanos. virar à direita em direção ao rio. entre os troncos das árvores. o que era muito perigoso no meu caso. As luzes se acendiam apagavam. eu tinha na mão um pedaço de pão. mais ainda. Corri e trepei numa árvore frondosa. Não foi difícil passar despercebido no ônibus. para evitar ser notado. para mim. passar o dia escondido e à noite mergulhar na água e nadar até a base naval. fui até o ponto mais alto que pude. À meia-noite. encontrei o negro. abraçando-me ao tronco. obviamente. Não sei por que. que me olhou assustado. era o rio. eram como relâmpagos. lá estava o 196 # rio. talvez menos perigosa. Carros cheios de soldados levando cães estavam atrás de mim. para chegar até a base naval. Finalmente. de onde saía o ônibus para Caimanera. foram embora. pertinho de onde eu estava. Na estação de trem de Guantánamo. fiquei andando de gatinhas nos pântanos durante horas. estava cansado e precisava reunir todas as minhas forças para voltar a Guantánamo e planejar uma fuga por outra rota. Em poucos instantes. Fiquei na árvore a noite toda e o dia seguinte também. assustadas com o barulho. Mais tarde. ouvira uns ruídos que pareciam estalos. mas tive a impressão de que a lua me dizia para não entrar naquelas águas. Eu já tinha todas as informações pertinentes: descer na primeira parada de controle. Senti também uma imensa alegria ao ver aquelas águas. apareceram nos matagais estranhas luzes verdes. matála também. Não tinha dinheiro. ouviu-se o ruído de uma metralhadora. andar ao longo da costa até enxergar as luzes. as codornas e outras aves saíam. Arrastei-me na lama e adormeci perto da estrada. e mergulhei. obviamente. Cheguei à cidade sem saber como encontrar meu amigo negro. Era dificil descer sem ser visto e. passaram a noite inteira à minha procura. Durante toda a minha caminhada pela margem do rio. onde tomei o ônibus para Guantánamo. Disse que era impossível recomeçar o plano de . e não quis viajar comigo. De repente. o lugar era todo pantanoso. percebi que aquelas luzes verdes eram um sinal. e voltei à estação de controle número um. desci da árvore. atravessar o rio a nado e continuar andando pela outra margem até chegar no mar.

Explicaram-me que tudo consistia em entrar no banheiro cada vez que o cobrador passasse. perseguido. que aquele lugar era o melhor. Não tinha um centavo e continuava dormindo na estação. frustrado. Com certeza. . Nunca mais vi o negro. Cheguei em casa de madrugada. Minha mãe trouxe um pedaço de frango e disse que estava muito triste por me ver assim. comendo escondido como um cão. Começou então a chorar baixinho e minha avó se ajoelhou e rezou. eu não me dava por vencido. ela sabia que só um milagre me salvaria. o motorista do ônibus pensou que eu devia ser um oficial da guarda-costeira da Segurança do Estado. suplicando a Deus para me ajudar. Nunca me senti tão ligado à minha avó. pude falar com ela. meu corpo teria voado em mil pedaços. e seus amigos tinham avisado que a vigilância estava muito mais rígida. Agora a vigilância era muito maior. No entanto. Quanto a eles. Contei-lhes que era um fugitivo do serviço militar obrigatório e que estava tentando voltar para casa em Havana. Adrián. Tomamos o trem e todos entramos no banheiro quando o cobrador passou. Depois. debaixo da cama. Consegui carona num caminhão de operários. embora não comesse nada há vários dias. Passei então a me chamar Adrián Faustino Sotolongo. ela o amara muito. Voltava para casa sozinho. pude ver o que eram aqueles estalos: todo o rio estava infestado de jacarés. mais ou menos de quatro em quatro horas. mas esse tipo de fotografia é sempre tão opaco e impessoal que qualquer pessoa pode se fazer passar por outra. nem sabia o que lhe dizer. Numa das paradas. à luz da lua. me deu sua carteira de identidade. eram de fato insubmissos e queriam ir para Havana. disse que tinha outra e que aquela 198 # me seria útil. um longo trajeto. mas eu não tinha nada a perder. Mais uma vez. um dos rapazes. Foi minha mãe quem abriu a porta. voltar representava um fracasso. eles sempre se excitavam e meu corpo deslizava por entre aquelas pernas tão lindas. fiz amizade com dois rapazes que queriam ir para Havana de trem sem pagar. e deu um grito quando me viu. que não me fizeram qualquer pergunta. não tinha outra solução e optei por viajar dessa maneira. pedindo a Deus para me salvar. transferido para aquela região. Minha avó continuava ajoelhada no chão. Começaria tudo de novo. Minhas outras tias achavam que o melhor era me esconder debaixo da cama. Saltei do trem em Cacocún e comecei a andar rumo a Holguín. Lá mesmo. sua cidade natal. Era absurdo ter confiado na lua. voltei a Guantánamo coberto de lama. Não a via desde a morte de meu avô. Os rapazes logo ficaram excitados. voltávamos ao banheiro. Perambulei durante três dias em Guantánamo. porque as caixas que eu dizia ter visto eram minas e se tivesse pisado numa delas. Era uma carteira com sua foto. Afirmou também que eu tivera muita sorte. Aquilo me deixou tão aflito que nem consegui provar a comida. Num dado momento. Era impossível atravessar o rio. Pedi que se calasse.fuga. e assim pude me satisfazer com eles enquanto o trem percorria as colinas de Oriente. Na segunda vez em que entrei na água. Estavam esperando que eu entrasse na água para me devorar. nunca vi tantos animais ferozes e sinistros num espaço de água tão pequeno. apesar de viver apanhando o tempo todo. achando que lá passariam mais despercebidos do que em Guantánamo. Parava em todas as estações e eu saltava. continuávamos a viagem e cada vez que o cobrador passava.

Minha avó envelhecera de repente. por isso soltaram-me após tirarem a medida do meu pescoço. Peguei suas mãos tão magras entre as minhas. com quem deixara o endereço dos irmãos Abreu. tivesse feito algum contato com alguém no exterior. Eu tinha a esperança de que Olga. Pensei como seria bom poder desfrutar aquela paisagem. ela podia voltar para a estação. se não fosse um fugitivo. passava todos os dias cantando diante de casa. talvez o embaixador pudesse esconder-me em sua própria casa e conseguir 200 # um visto. Eu avisara. onde nos encontraríamos para tentar um outro plano. Tinha a esperança de que. foi conosco até a estação e nos emprestou algum dinheiro. Quanto a mim. seu corpo fraco tremendo violentamente. mas naquele momento estava certa. Ela sabia o que aquilo significava: que me tirassem dali o quanto antes. minha mãe e eu fomos para Havana. de uma forma cada vez mais patética. condenado a trinta anos de cadeia. Minha resposta era lógica. deixando o telefone soar apenas uma vez. no telegrama. que nada de mal iria me acontecer. No dia seguinte. esse destino. disse que era o melhor que tinha a fazer. saí do esconderijo e nos abraçamos. Choramos juntos. e o lógico seria a pessoa tentar sair da cidade ao invés de entrar.Quando ela entrou no quarto. Eu não conseguia me imaginar cantando diante da casa da minha mãe depois de dez anos de cadeia. As coisas mais simples adquiriam para mim um valor extraordinário. Queria fugir daquele inferno. Ela disse: "Que pena que uma viagem tão bonita tenha 199 # de ser feita nessas condições ! " Minha mãe sempre se lamentava a respeito de tudo. Expliquei que não podíamos continuar viajando juntos. Ela disse que não conseguia viver sem meu avô Antonio. Evidentemente. Contou que um vizinho dela. mas mesmo assim viveram cinquenta anosjuntos. a qualquer preço. Se recebesse este sinal. pois eu estavachegando. que morava em Havana do Leste. como seria agradável viajar ao lado de minha mãe se não estivesse naquela situação. tentaria me esconder na casa de um amigo. livre. Na verdade. pedi que esperasse por mim. Nunca viajara com minha mãe num vagão-leito. existia entre os dois um grande amor. Respondi que vinha de Oriente e exibi minha passagem e a carteira de Adrián Faustino Sotolongo. chamado Vidal. se alguém falasse com o embaixador francês. minha mãe pediu que me entregasse à polícia. cumprira apenas dez anos da pena e agora. fui preso por dois policiais em trajes civis. todos os meus livros eram publicados na . Disseram então que eu era muito parecido com uma pessoa que estavam procurando e que fugira de uma delegacia em Havana. na verdade. Os policiais me levaram para um quartinho e começaram a fazer perguntas. Durante toda a viagem. Consegui dormir no trem. sabe-se lá para quê. Ao chegar à estação de Havana. não era nada promissor. respondi que não fazia sentido. qual era a nossa senha: Mandem o livro dasflores. Minha mãe continuava tremendo. eu tinha mostrado outra identidade. eu ligaria para ela. meu avô batia nela quase toda semana. Minha mãe ficou profundamente abatida. era melhor que ela fosse para a casa da minha tia Mercedita. um homem tão bom. Um tio por afinidade. talvez eu conseguisse asilo naembaixada da França.

fui embora e me dirigi à casa de Reinaldo Gómez Ramos. dizendo que trazia um recado de Olga sobre o "livro das flores". Meu tio Carlos chegara de Oriente e já estava a par de tudo. Tinham visto o professor. seria fácil para ele falar com o embaixador. Passei na casa da sua tia e quase acabei preso. Voltaram em pouco tempo. Era um absurdo permanecer na rodoviária. Mostrou-se gentil comigo e disse que podia ficar. Saíramos de Holguín com uma carta dirigida ao embaixador. a única vantagem desses raios. Foi com minha mãe para falar com o professor de francês e entregar-lhe minha carta. Redigi uma breve mensagem para Juan Abreu. chegou há três dias. Ele achava que eu escapara por milagre. A casa dos Abreu era estreitamente vigiada. Talvez tivessem pensado que fosse um animal. embora ficasse com a carta. sabia da minha fuga e disse que não existia a menor possibilidade de me esconder. e por esse motivo pararam as buscas. havíamos planejado juntos nossa fuga. e talvez o último lugar onde a polícia fosse procurar um fugitivo político. Dei à minha mãe e a Carlos o endereço dos irmãos Abreu. Tomei então a decisão de me esconder no parque Lenin. tomara três ou quatro ônibus diferen- . pois quando os raios infravermelhos aparecem. A casa de Lorenzo era vigiada porque ele já apresentara um requerimento de saída do país. Não precisei explicar muito a Juan sobre meus planos de fuga com a ajuda de Olga. que morava com a esposa. Estávamos desesperados à sua procura. Toquei a campainha na casa de Ismael Lorenzo. marcando o encontro na rodoviária. que ficou apavorado ao me ver. Também esperava que minha mãe fosse à casa de um francês que tinha sido meu professor e com quem estabelecera certa amizade." Acrescentou que no dia seguinte iria encontrar-se com o emissário. que era cercado de arbustos onde eu podia passar despercebido. Em várias ocasiões. que parecia ser um francês inteligente com perfeito domínio do espanhol. que era o centro das ações 201 # policiais. mas talvez funcionasse. pensei que todas tinham a ver com a minha procura. À noite. todos sabiam que eram meus melhores amigos. Depois de passar uma noite em sua casa. é que aparecem com o calor e afonte de calor pode ser qualquercriatura viva perto dos detectores. segundo me explicou. era uma idéia muito loucá. eu tinha que ir embora imediatamente. O francês chegara com um frasco de perfume. Conseguira iludir a vigilância da polícia do hotel e. Abreu olhou para mim e disse: "A pessoa já está aqui. sem conhecer a cidade de Havana. onde pediam a carteira de todos os passageiros. que se mostrara muito acessível e em duas horas os levara até o embaixador. Voltei à rodoviária e liguei para minha mãe. Logicamente. mas para ele a família vinha em primeiro lugar e agiu muito bem em relação a mim. A resposta do embaixador foi negativa: não podia fazer absolutamente nada por mim. Eu não queria comprometê-lo. tratava-se de um local usado para muitos eventos oficiais. pensando sempre na base naval de Guantánamo. supostamente de maneira amigável. Carlos era do Partido Comunista.França. o Comitê de Defesa vinha freqüentemente visitá-lo. Disse que talvez Olga mandasse alguém da França para tirar-me do país. marcando um encontro do lado esquerdo do anfiteatro do parque. quando vi a polícia dando batidas. o exército não descansa até encontrar o fugitivo.

Jorge e Margarita compraram um barco a vela. já percorrera toda a América do Sul e a América Central em busca de tesouros." Continuei enumerando a censura. o duro tratamento dado aos intelectuais. Apenas altos funcionários podiam velejar. dia 15 de novembro de 1974. Este lhe contou a verdade: que eu era um fugitivo e meu paradeiro desconhecido. Contactaram o jovem Joris Lagarde. dirigido à Cruz Vermelha Internacional. esperando que algum mergulhador 202 # habilidoso o encontrasse. ele estava chateado por me abandonar naquela situação e disse que nos veríamos de novo dentro de quatro dias. ao saberem por Olga da minha situação. Sua teoria era que diversos galeões haviam naufragado perto da costa de Maracaibo e que todo o ouro encontrava-se no fundo daquele mar. a pessoa indicada para vir me resgatar. antes da sua partida. No dia seguinte. a incomunicabilidade a . começava dizendo. mas as autoridades do aeroporto disseram que ele tinha permissão para visitar Cuba. e Olga me enviou comprimidos alucinógenos para me manter eufórico. parque Lenin. por isso levava um bote. Em Paris. Mais uma vez. Compraram para Lagarde uma passagem até o México com escala em Cuba. Joris Lagarde me deu de presente um isqueiro e todos os cigarros estrangeiros que tinha. Lagarde chegara a Havana ao mesmo tempo em que eu tentava fugir pela base naval de Guantánamo. de uma forma ou de outra. supostamente enterrados pelos espanhóis ou que jaziam no fundo do mar. minhas esperanças de deixar Cuba iam por água abaixo. Era realmente um jovem intrépido e fizera o possível para entrar com o barco. resolveram que era preciso encontrar imediatamente alguém desconhecido do governo castrista para entrar em Cuba e me tirar de lá. para ssimular suas intenções. a bússola e a vela do barco. mas o barco ficaria sob custódia até sua partida para o México.tes até chegar finalmente ao ponto de encontro com Juan Abreu. Juan me trouxe um barbeador. A Iliada de Homero e um bloquinho para escrever. à UNESCO e aos povos que ainda tinham o privilégio de poder saber a verdade. claro. prometeu ir para a França e voltar por mim. textualmente: "Faz muito tempo que estou sendo vítima de uma perseguição sinistra por parte do regime cubano. os escritores fuzilados. um pequeno espelho. Lagarde explicaria às autoridades cubanas que ia participar de uma competição de iatismo no México e que necessitava praticar nas costas de Cuba. o exemplo de 203 # Nelson Rodríguez. á ONU. Eu denunciava toda a perseguição a que vinha sendo submetido. uma bússola. O francês só dispunha de mais alguns dias de permissão para permanecer em Havana. a prisão de René Ariza. filho de amigos deles. ele era um excelente nadador e especialista em velejar. Conversamos juntos a noite inteira." Tratava-se de um comunicado desesperado. Lagarde e Juan chegaram ao parque Lenin. À meia-noite. Escrevi logo uma mensagem que começava assim: "Havana. que era um aventureiro e falava um perfeito espanhol. Um barco. meus amigos Jorge e Margarita. Eu chegara no momento oportuno. era um meio de transporte proibido em Cuba. e mesmo alguns deles tinham fugido para os Estados Unidos.

Sob o título bastante apropriado de "Antes que anoiteça".cerca de uns doze livros. perceberam que eu não tinha fugido e começaram a vigiar meus amigos de perto.que era submetido o poeta Manuel Ballagas. Finalmente. Tal manuscrito. Isso os deixou confusos durante uma semana. Numa parte. de uma forma ou de outra. um deles foi Hiram Prado. se perdeu. Lagarde chegou para me ver na hora e dia combinados. Uma vez. era uma maneira de permanecer com os meus amigos quando não estivesse mais entre eles. onde denunciava abertamente o regime cubano. Entreguei-lhe minha mensagem para que fosse publicada em todos os órgãos possíveis da imprensa. Reinaldo. escrevia até que a noite caísse. e todos os meus amigos fizeram uma campanha a meu favor O documento foi publicado em Paris. deixava alguma comida. nojornal Le Figaro. e disse que seu escritor preferido era Reinaldo Arenas. depois. Nicolás e José sentiam-se pressionados e vigiados. Nicolás Guillén recebeu um telegrama onde estava escrito o seguinte: "Cheguei bem. Mas era um consolo contar tudo. à espera da outra noite que me aguardava quando fosse encontrado pela polícia. Lagarde chegou à França com a notícia da minha situação. Graças à sua ajuda. Assim. Quando a vigilância se tornou mais intensa. nos cadernos que José me trazia. é claro. Escrevi igualmente uma carta para Jorge e Margarita. pedindo que publicassem todos os manuscritos quejá mandara. eu redigia clandestinamente aquelas linhas. mesmo se as torturas me obrigarem depois a dizer o contrário. Resolvemos que eu resistiria o quanto fosse possível. Eu tivera a idéia de pedir a Olga e a Margarita para mandarem vários telegramas a diversos funcionários cubanos. O homem que comandava o grupo encarregado da minha captura era um tenente chamado Víctor. agora delatores. José limitou-se a trocar de lugar. um policial à paisana sentou-se no ônibus onde viajava José Abreu. Não podia perder tempo e redigia antes da escuridão instalar-se definitivamente em minha vida. Antes de ir parar numa cela. enquanto as perseguições se multiplicavam. abordei minha situação desesperadora. assinados por mim. sem dizer uma palavra. e por essa razão nem foram me ver no parque. com os aparelhos de tortura mais sórdidos e criminosos. " O telegrama havia sido mandado de Viena. Juan ia até o nosso ponto de encontro e. até que ele pudesse vir me buscar. tinham ido visitar Nicolás Abreu no cinema onde trabalhava como projecionista. Foi quando comecei a escrever as minhas memórias. esperando o fim a qualquer momento. assim como no México. Sabia perfeitamente o que era uma cadeia. mostrei como. A casa dos irmãos Abreu foi cercada e o pavor fez com que queimassem os manuscritos dos meus romances e todas as obras inéditas escritas por eles . René Ariza tinha . Começou a conversar com ele a respeito das maravilhas dos Estados Unidos. ao invés de me esperar. Vários amigos meus. assim como quase todos os que eu escrevera sem conseguir mandá-los para fora do país. indagando a meu respeito. declarei: Volto a afirmar que tudo isso é verdade. porém. enquanto eu dormia na relva do parque Lenin. Os irmãos Abreu também aproveitaram para mandar com ele tudo o que podiam. onde afirmava ter chegado muito bem. A polícia não só 204 # vigiava José como também ameaçava prendê-lo se não revelasse onde eu me encontrava.

mas para mim era uma espécie de talismã. Eram maravilhosos. era como um símbolo. Às vezes. em seguida. A Segurança do Estado estava alarmada. era muito mais difícil ser encontrado Mesmo naQuela situação tão perigosa. não poderia mais escrever. na mesma árvore em Que eu ficara escondido. uma foto e um título enorme que dizia: PROCURADO. A bússola. vi Juan andando entre as árvores. onde estava dançando a famosa Alicia Alonso. pois num país onde a vigilância funcionava à perfeição. por mais deprimido que me sentisse. cantava e subia nas árvores. Estranhamente. Segundo a descrição da polícia. Após esses três dias escondido. eu continuava redigindo documentos Que mandava para o exterior. tive minhas aventuras eróticas com jovens pescadores. Depois. fi Quei sabendo que tinha uma mancha debaixo da orelha esQuerda. sem me atrever a descer. Um homem me seguia de perto com um revólver. Fidel Castro dera ordem para me encontrarem imediatamente. não importava a distância em relação à Ilha. Três dias depois. uma vez preso. ser fuzilado. durante a noite. sob o efeito daqueles comprimidos. para o norte. Por outro lado. Que para despistar a polícia ele passara o dia mudando inúmeras vezes de ônibus para chegar ao parQue. e o escândalo internacional a respeito da minha fuga era tremendo. sob o efeito da euforia. era impossível Que a polícia não me encontrasse depois de dois meses. Atravessei o palco improvisado em cima da água. Assim. Certa noite. Nelson Rodríguez tivera de confessar tudo o que lhe mandaram dizer para. minha descrição. sempre dispostos a passar momentos 206 # agradáveis com alguém que olhasse para sua braguilha como se . Ocultando-me nos arbustos. eu sabia que. tinha que ir para lá. Guardava comigo a bússola e não queria perdê-la. Tivera a coragem de vir ao parQue. bastava tomar um e experimentava um forte desejo de dançar e cantar. desci da árvore. vi Alicia dançar o famoso segundo ato de Giselle. Assava os peixes numa fogueira improvisada perto da represa e procurava ficar na água a maior parte do tempo. Quanto a mim. como se estivesse alegre por não me delatar. mergulhei e saí do outro lado do parque. enquanto todos os policiais procuravam inutilmente por mim com seus cães. tudo indicava que não haveria escapatória. corria pelo bosque do parque e dançava. Estava esfomeado. mergulhado na água até os ombros. onde permaneci escondido durante vários dias. além do mais. um cachorrinho de caça parou bem debaixo da árvore e ficou me olhando sem latir. Disse Que minha situação era realmente das piores.enlouquecido numa delas. um carro freou de repente na minha frente e percebi que fora descoberto. Comecei a correr e subi numa árvore. era muito difícil entrar em contato com Juan naQuele momento. Quando cheguei na alameda. Recordo Que. embora soubesse do perigo que representava. sempre fugindo. apontando sempre para o norte. Jesús Castro encontrava-se numa cela horrenda de La Cabana. não recebera notícia nenhuma da França. ousei chegar até o anfiteatro 205 # do parque. pescava com um anzol trazido por Juan. Ainda tinha alguns dos alucinógenos enviados por Olga. mas era preciso ir para o norte. havia um cartaz com meu nome.

justamente no trecho em que Aquiles se comove e acaba entregando o cadáver de Heitor a Príamo. Um deles fez questão de me levar até a sua casa. No início. naquele momento. com A Iliada debaixo do braço. Eu possuía uma espécie de biblioteca ambulante. assumi uma atitude suicida. Não se mexa ou lhe meto uma bala na cabeça. baratas e ratos. Era muito estranho que. segundo a polícia. eu tinha que dormir ao ar livre. às vezes. amanhecia todo molhado." Imediatamente. pois era perigoso demais ficar sempre no mesmo. a represa secou por completo e pude então esconder-me entre suas enormes paredes. O pior era à noite. 207 # A Captura Eu quase não comera nos últimos dez dias e. Juan e eu tínhamos vários pontos de encontro. sob aquele regime de ditadura. A montanha mágica. Ele estava apavorado com o excesso de vigilância no local. Foi o que disse alguém que encontrei no parque. precisa mudar de esconderijo. Emocionado com a leitura. perguntou. Para mim. dizendo: "Aqui você está se entregando de bandeja. chamou os outros que estavam por . Enquanto me escondia no parque. eu lia A Iliada à luz do isqueiro. Juan trouxera mais livros: Do Orenoco ao Amazonas. Morava por lá e estava a par de tudo o que se passava. O castelo. mas não era nada disso. comprei um sorvete e voltei rapidamente para o parque. durante a noite. trecho sem igual em toda a literatura. "Você não me engana. nem percebi que um homem se aproximara de mim. Chamava-se Justo Luis e era pintor. pensei que agia assim por causa do relógio que Lagarde me dera de presente. voltamos para o parque. Faz tempo que estamos procurando você em todo o parque. é Reinaldo Arenas. ainda não tivessem conseguido me prender. Contou-me que. que ficava muito perto. e todos deviam avisar se vissem uma pessoa suspeita. havia um agente da CIA escondido na região. em Calabazar. Escondia-me em valas cheias de grilos. A seguir. Comemos e passamos momentos muito agradáveis. Respondi que me chamava Adrián Faustino Sotolongo e mostrei a carteira. até então. acho que foi a única coisa que se conseguiu produzir em abundância. Em dezembro. "Vou ser promovido. para conhecer seus pais. com um revólver apontado para a minha cabeça. continuava me encontrando com o jovem pescador. Às vezes. "Qual o seu nome?". Também me informou que outros pescadores e a Segurança do Estado divulgaram inúmeras versões diferentes para alarmar a população. Fiz um buraco numa das paredes da represa e foi lá que escondi tudo. Deu-me cigarros e dinheiro. aventurei-me por um caminho até uma lojinha que ficava em Calabazar. Nunca dormia no mesmo lugar. começou a dar pulos de alegria. todo tipo de crimes repulsivos que pudessem incitar qualquer um a denunciar os suspeitos. vou ser promovido ! Eu peguei você! " Cheguei a desejar partilhar a alegria daquele pobre soldado. Estávamos em dezembro e fazia frio. Estava acabando de ler A Iliada. depois. Diziam tratar-se de alguém que havia assassinado uma anciã e violentado uma menina. Trouxe comida para mim na mesma noite. Coloquei-os em bolsas de polietileno que proliferavam em toda a Ilha.fosse um convite. aqueles livros representavam um grande tesouro." Aquele dia. Acho que. um amigo meu daquele tempo. Queria simplesmente apresentarme à sua família.

encravado num promontório. naquela hora. 209 # O Presídio Castillo del Morro é uma fortaleza colonial construída pelos espanhóis para defenderem o porto de Havana dos ataques de corsários e piratas. outros por acidentes de trânsito e outros por moti- . com a bússola no bolso. assim. era perigoso tirar-me dali. agora o preso. Naquele momento. jogavam pedras e qualquer outro objeto que encontrassem. atravessamos um enorme túnel escuro. Foi muito estranho. A construção tem um estilo medieval com uma ponte levadiça. Depois. todos os habitantes do lugarconcentravam-se diante da delegacia. O policial que me prendeu gritou que a justiça revolucionária cuidaria do meu caso e conseguiu conter um pouco aquela ira. Fui levado para o posto de triagem. e sentia uma profunda inveja de toda essa gente. o assassino da velhinha. o preso que ia cumprir sua sentença. o relógio e todos os comprimidos alucinógenos. pela qual passamos para entrar. fora capturado pela polícia revolucionária. e que foi transformado em prisão. Apesar de entender que estava preso meu corpo resistia em aceitar a situação e queria continuar correndo e pulando por entre as árvores. É um lugar úmido. com a carteira e o nome de Adrián Fausto Sotolongo.208 # perto e todos me cercaram. Talvez. a bússola. eu podia ver as pessoas caminhando normalmente. estavam à paisana. Além do mais. já sabiam que o agente da CIA. As mulheres eram as mais furiosas. no entanto. Na cela da triagem havia uns cinqüenta presos. Eu era o fugitivo. pulando pelos matagais. Todos queriam inclusive invadir a delegacia. idade e preferências sexuais antes de serem conduzidos para o interior daquele castelo medieval para cumprir a sentença. segurando-me pelos braços. Foi quando conheci Víctor. que estivera interrogando todos os meus amigos. Lá estava toda aquela gente pedindo o paredón. acabaram me levando com uma escolta de elite. mas nem o agente da Segurança do Estado que me prendera e que esperava ser promovido nem o oficial superior chamado Víctor puderam ultrapassar a grade levadiça. uma espécie de cela onde os presos são classificados pelo delito cometido. O policial me deixara ficar com a Iliada e tomara minha autobiografia. Em pouco tempo. Pouco antes de me levar. cruzamos o portão de ferro e penetramos na prisão. talvez pelo estupro da anciã. O soldado que me prendeu mostrava-se tão agradecido que procurou me pôr na cela mais confortável. o estuprador. estivessem tão nervosos quanto eu e não souberam impor sua presença. alguns por delitos comuns. como era hábito no início da Revolução. e algumas pessoas já subiam pelo telhado. fui levado até a delegacia de Calabazar. livres para tomar um sorvete ou ir ao cinema ver um filme russo. Lá estava eu metido naquela cela. Víctor recebera uma ordem superior dizendo que eu tinha de ser imediatamente transferido para a cadeia de Castillo del Morro. apesar de todos permanecerem na rua. O fato é que entrei em meio à maior confusão. Enquanto andávamos pelas ruas.

disse para esconder o relógio o quanto antes.disse que. . Eu tinha pavor de tortura e não queria comprometer meus amigos. ou porque. teria sido rebaixar-me. pareciam estranhos mons210 # tros. alguns marginais. em alguns casos. estava morrendo de tédio. O barulho sempre se impôs em minha vida. Para lá iam os piores marginais. desde a infância. que gritavam entre si e se cumprimentavam. tomados em dose excessiva. têm que incomodar os outros. tomei um punhado daquelas pílulas com um pouco de água e deitei-me perto de um caminhoneiro rude mas bem-apessoado que cometera um delito qualquer de trânsito. todos achavam que eu não iria me refazer e morreria de enfarte. O que mais me impressionou ao chegarfoi o barulho: centenas de presos estavam indo comer. com exceção de um pequeno galpão reservado para os presos políticos à espera do julgamento ou da sentença. embora alguns deles. que talvez me escolhesse como objeto erótico porque não existia nada melhor a seu alcance. Além do mais. Não havia nenhuma grandeza naquele ato. ao menos de longe. e o escondi na cueca. da chantagem e da violência. toda a minha energia de outrora. Recusava-me a fazer amor com os presidiários. Eu queria conservar o relógio a qualquer preço para dar à minha mãe. fossem bastante atraentes. assim como recusava as propostas eróticas dos presos. Além disso. Não sabem se divertir ou sofrer em silêncio. sem qualquer influên211 # cia para poder chegar mais perto daquelas grades e ver o mar. certas pessoas chegaram até a pegar oito anos só por possuírem uma bússola. do crime. Os comprimidos alucinógenos. Quando mostrei-lhe a bússola. três dias mais tarde recuperei os sentidos na enfermaria da prisão: uma ala enorme lotada de gente com doenças infecciosas. De agora em diante. Pensava nunca mais despertar. Aquela prisão talvez fosse a pior de toda a cidade de Havana. achou incrível eu ter conseguido entrar com o objeto. em muitos casos. é como uma condição inata neles e faz parte também da sua condição exibicionista. Eduardoeste era o seu nome . e que já tinha experiência de várias outras cadeias. simplesmente. Acho que os cubanos se caracterizam por produzirem barulho. O médico disse que eu não tinha morrido por milagre.vos políticos. tudo que tenho escrito sempre foi contra o barulho dos outros. Por esta razão. iria permanecer trancada naquela prisão com outros 250 criminosos. Na prisão as relações sexuais transformam-se em algo sórdido que se realiza sob o signo da submissão e do desdém. sentem-se donos dessa pessoa e dos seus poucos pertences. já nem queria vê-lo. visto por detrás de uma grade dupla. Não era a mesma coisa fazer amor com alguém livre. toda a cadeia destinava-se a presos comuns. com a qual eu desfrutara centenas de adolescentes. formando uma espécie de rugido unânime. Eu não passava de um preso comum. podiam provocar a morte. O mar parecia muito remoto. Um preso com quem logo fiz amizade. depois de possuírem um preso. era precisojogá-la imediatamente na privada para que ninguém pudesse provar que era minha. e fazê-lo com um corpo escravizado atrás de uma grade. alguns dos quais se haviam arriscado muito por minha causa. até mesmo. era muito perigoso. apesar da fome e dos maus-tratos.

e descarregavam sua fúria nos homossexuais. O corpo sofre mais que a alma. O sol era um privilégio racionado para os presos. Tudo isso me cobriu com uma aura de respeitabilidade. era impossível chegar até lá sem sujar de merda os pés. onde eu era obrigado a ouvi-los. sem não poder mais correr pelos campos. autodenominados de "combatentes". Eu não era classificado como preso político ou como escritor. e sim dos presos que cometeram os mais diversos crimes. o que me manteve vivo em meio a todos aqueles assassinos. o banheiro não passava de um buraco onde todo mundo defecava. meu corpo se negava a aceitar o confinamento. não perdiam o senso de humor. mas era difícil. um lugar asfixiante e sem banheiro. pediam graxa de sapato aos seus familiares e com isso se maquiavam. a alma não podia fazer nada por ele. estivessem reunidos em um só naquele lugar. Apesar da minha inteligência tentar explicar a situação. pois esta encontra sempre algo a que se apegar: uma lembrança. Às vezes. fazendo sombras nos olhos. 212 # A cadeia era também o império do barulho. Na cadeia. em meio àquele calor horrível. precisamente pela minha condição de preso: pelo fato de não poder fugir. só dormi no chão na primeira noite. naquelas circunstâncias. apesar de tudo. Os soldados que tomavam conta de nós. não era certamente o lugar dos homossexuais. ainda tinha A Iliada de Homero. Queria lê-lo e esquecer de tudo o que me cercava. Pobre corpo. Ir ao banheiro representava uma verdadeira odisséia. e sim como estuprador.O belo na relação sexual está na espontaneidade da conquista e do sigilo em que esta se realiza. uma esperança. A galeria das bichas-loucas era realmente o último círculo do Inferno. e depois não havia água para se limpar. e qualquer forma de sexo é sempre algo humilhante. de bichas-loucas. Ali não eram chamados de homossexuais. e. quando saíam para tomar sol no terraço. era como se todos os ruídos que sempre me perseguiram. eram recrutas mandados para lá como punição. Entrei em El Morro cercado por uma fama horrível que foi. mesmo entre os assassinos de verdade. é preciso lembrar que muitos daqueles homossexuais eram criaturas destroçadas que a discriminação e a miséria transformaram em criminosos comuns. Usavam até a própria cal das paredes para se pintar. Por essa razão. e sim de veados. ou. tudo é óbvio e mesquinho. na melhor das hipóteses. na verdade. Entretanto. assassino e agente da CIA. o próprio sistema carcerário faz com que o preso se sinta como um animal. Os homossexuais não eram tratados como seres humanos e sim como animais. tínhamos permissão para sair uma vez por mês ou de quinze em quinze dias. Com os próprios lençóis faziam saias. durante toda a minha vida. As bichas-loucas aguardavam este acontecimento como se fosse um dos mais extraordinários da sua vida. durante uma hora. Quando cheguei a El Morro. os tornozelos. Os homossexuais ocupavam as piores galerias de El Morro: as galerias subterrâneas que ficavam inundadas quando a maré subia. Eram sempre os últimos a comer e por causa de uma besteira qualquer apanhavam cruelmente. davam um verdadeiro espetáculo. naquela galeria número sete onde me confinaram. acabava . não aceitava ter de permanecer meses ou anos num leito cheio de percevejos. faltava ler o último canto. O mau cheiro e o calor eram insuportáveis.

As aulas chegavam a ter um certo horário fixo. Isso. e às vezes se prolongavam até duas horas. às vezes conseguíamos até manter um pequeno diálogo em francês. tratava-se . podiam dar se ao luxo de ser autênticas. Havia. trinta anos ou a pena de morte. vendidos no mercado negro a preços altíssimos. e até mesmo expressar admiração pelos combatentes. nem todos eram assassinos. maquiavam-se e colocavam saltos altos feitos de pedaços de madeira. mas aos poucos conseguimos papel. por isso mesmo. claro. mas que parecia agora um verdadeiro paraíso. assim como entrava a luz do farol de El Morro. Há sempre alguém interessado em aprender algo numa prisão. não deixando ninguém dormir. Meu catre era o último da fila. As bichas-loucas se embelezavam para a ocasião: usavam perucas feitas de corda obtida sabe Deus como. aliás. cheirando as páginas. já que sol matava os piolhos e os carrapatos que penetram debaixo da pele. Para manter-me ocupado. Eu dormia abraçado com A Iliada. Havia também outros presos que mataram vacas alheias para vender a carne no mercado negro. que nunca se apagavam. mas pelo menos aprenderam umas poucas frases. encontrava-se preso comigo um homem que. Para estes o promotor tinha pedido pena de morte. Sentia muito frio e quando chovia a água entrava. depois das refeições. assim como a cidade de Havana. Eu ditava as aulas do meu catre e era difícil pronunciar e me fazer entender em francês em meio àquela gritaria. até mesmo através dos próprios guardas. era difícil dormir com aquela enorme luz girando na minha cara. infernizando a vida. Os presos sempre davam um jeito de saber qual o delito dos outros. algo que as leis de Castro não permitiam. não tinham nada a perder. Muitos presos nem sabiam qual a extensão de sua pena. batendo no meu rosto. no meu caso calculava-se de oito a quinze anos. organizei umas aulas de francês. Do terraço via-se o sol e também o mar. lápis e outras coisas mais. outros. talvez nunca tivessem tido nada a perder e. Havia um rapaz que entrara numa casa em traje militar. o pior que poderia acontecer a um preso. como chamavam o estupro de mulheres ou menores. mas a fome em Cuba era tão grande que as pessoas 214 # brigavam desesperadamente por aqueles pedaços de carne. a cada três minutos. fora visto por umas velhas que o denunciaram. roubando tudo. mas acabaram pegando trinta anos de cadeia.213 # sendo. de acordo com o pedido do promotor. fazer piadas. Na minha ala havia muita gente presa por "picacídio". desmunhecar. Na verdade. por exemplo. por exemplo. além do barulho dos presos e das luzes internas da própria prisão. Por outro lado. podia lhes custar uns três meses sem pegar sol. e até mesmo os assassinos podem gostar da língua francesa. ao tomar banho em sua casa. Havia outros que realmente tinham praticado estupro com espancamento e deformações faciais. onde tanto sofrêramos. junto à clarabóia. Mas o picacídio incluía qualquer outra coisa. condenados a cinco anos de cadeia por terem matado uma das suas vacas para comer. não havia livros. um pobre pai de família com todos os Filhos.

Às vezes. zumbindo à nossa volta o tempo todo. pelo fato de ter usado um uniforme do exército de Fidel Castro para roubar. e passar diante dos tanques. do meu catre. das irmãs e da noiva do rapaz. e sim em pedacinhos a cada três horas. mas não foi assim. onde os "xerifes" enchiam uma vasilha de água ejogavam sobre nós. O fedorjá impregnava nossos corpos. se o preso não guardasse o pão. Eu não recebia ninguém. mas os gritos eram horríveis. a primeira coisa para suportar aquele lugar era não morrer de fome. e sim porque com suas páginas servia para enrolar "cigarros" feitos com enchimento de colchões ou almofadas. às vezes. com um pouco de água. Conseguir açúcar era uma proeza. Uma vez por mês. ele tentava consolá-las. e sim guardá-lo para comer depois. Meus amigos. Trinta anos. formaram uma cooperativa para a qual eu não precisava levar nada. quando recebíamos visita. Os livros tinham muita procura. nem mesmo almofadas e colchas para dormir. onde jogavam . mas fui aceito como sócio. por motivos inexplicáveis. não pelos seus valores literários. nus. pois minha mãe estava em Holguín e eu também não queria visitas. um pedaço de pão. O almoço era às dez da manhã e não se dava mais nada até as seis ou as sete da noite. pois sabia o quanto representava para os presos. Chamava-se Antonio Cordero e conhecia todos os truques. Aconselhou-me a não comer o pão nas refeições. um pouco de água com açúcar em El Morro era um dos maiores prazeres. pois o ato de tomar banho era uma coisa apenas teórica. nos ensaboando até passarmos outra vez na frente dos tanques. deixavam passar meio ou um quilo de açúcar nas sacolas trazidas pelas visitas. o negócio era levar o que os familiares traziam nas visitas e fazer uma espécie de cesta comum para uma merenda coletiva.de um delito grave. Não consigo esquecer os gritos da mãe. aqueles homens soltando peidos terríveis e constantes. morreria de fome com a ínfima quanti215 # dade de comida que serviam. A família daquele rapaz pensava que sua pena seria curta. os alunos de francês. como também o barulho dos ventres se aliviando. Minha galeria ficava perto dos banheiros. continuávamos a andar. e eu tinha de suportar não só aquele fedor. distraía-me olhando para os outros presos recebendo seus parentes. enchiam de água alguns tanques e tínhamos que entrar em fila. Não era nada fácil guardar água ou açúcar. Eu não largava A Ilíada. Certas ocasiões colocavam na comida algum tipo de condimento que provocava diarréia. sendo utilizados como papel higiênico naqueles banheiros cheios de merda e moscas que se nutriam dela. Os presos comiam suas minguadas rações com a maior gula: um pouco de arroz. macarrão sem sal e um pedaço de pão. como parte de nós mesmos. era horrível ouvir. então aquele pedaço de pão dormido era um verdadeiro tesouro. tínhamos direito a uma hora para receber visitas. Os presos mais perigosos e o "xerife" da ala roubavam tudo. não havia jantar e era insuportável ficar tantas horas sem comer nada. um pouco de açúcar e até a própria almofada. excrementos caindo sobre excrementos ao lado da minha galeria cheia de moscas. era preciso comer o pouco que pertencia aos outros. de quinze em quinze dias. ele pegou trinta anos. Certas vezes. Um preso que já estivera na cadeia por motivos políticos e encontrava-se lá agora por um delito comum ajudou-me um pouco a sobreviver naquelas circunstâncias. que não devia ser comido de uma só vez.

. era difícil escapar. havia sempre um clima de violência que era descarregada sobre o mais infeliz e desprotegido. sempre davam um jeito de feri-los no rosto.216 # outra vasilha para nos enxaguar. Primeiro. Mas as bichas preferiam as lanças com gilete. punhal ou algum tipo de estilete. Além disso. mas era a mais infernal de todas. cuidar das suas coisas. aqueles presos eram mais ferozes e desumanos. em qualquer lugar. Quando esses rapazes queixavam-se à direção ou aos combatentes a respeito dos abusos a que eram submetidos. a contragosto. tinha que chupar o pau e deixar-se possuir por eles. e quando um rapaz os repelia. A vítima dessas lanças ficava cheia de feridas não muito profundas. não seriam violentados. ainda era obrigado a lavar a roupa de todos aqueles homens. as brigas entre bichas-loucas eram terríveis. aqueles delinqüentes os estupravam. entregarlhes parte da sua própria comida. e nem sei como não morreu. falou com um dos guardas e explicou o que estava acontecendo. as bichas. por qualquer razão. mas o guarda não deu a menor atenção à sua história. Um dia. Um rapaz que eu conhecia atirou-se. como se fossem escravos daqueles criminosos. quem se atirasse de lá de cima se arrebentava sobre as pedras de El Morro. odiavam os que acabavam de ser enrabados e sentiam uma certa inveja. Os criminosos que não eram bichas utilizavam paus com pregos na ponta. Durante um desses banhos vi todos os "xerifes"enrabando um pobre adolescente que nem era bicha. As bichas-loucas preparavam uma arma muito eficaz: paus com lâminas de barbear. pois com isso era difícil matar. Este era o nosso banho. Foram muitos os que se atiraram. e se alguém tentasse passar duas vezes tomava porrada. Cada vez que chegavam rapazes novos. mas alguns presos aproveitavam a hora do banho de sol no terraço do castelo. Essas pobres bichas ou adolescentes forçados tinham que abaná-los e espantar as moscas. fraturou as duas pernas e ficou paralítico. Como se não bastasse. chegou de volta numa cadeira de rodas. e ele teve de continuar a dar o rabo. Os "xerifes" ficavam na parte superior do tanque com porretes. levava com os pregos nas pernas. chamados de "carne fresca". No entanto. o rapaz pediu para ser transferido. Havia uma cela reservada aos adolescentes. feriam qualquer pessoa. a uma boa altitude. 217 # Rapazes heterossexuais constantemente estuprados por aqueles homens acabavam confessando que eram bichas-loucas só para passarem à galeria dos veados. lá. a toda aquela gente. mas conseguiam acabar com o rosto de quem quisessem. O suicídio também não era fácil lá dentro. Alguns que não agüentavam tudo isso suicidavam-se. ou então tinha uma bicha que se encontrava naquele lugar com seu macho. furavam-lhe as pernas com esses pregos. Um mês depois.Entre eles havia fanchonos que ficavam de olho nos rapazes de corpo bonito e depois tentavam cantá-los. não lhes davam a menor atenção. nem lá tinham sossego. mas o simples fato de tomar esse banho representava enorme consolo. com tais armas. se recusasse. navalha. Era impossível alguém ficar limpo assim. Os "xerifes" tinham paus com pregos na ponta. pelo menos.

pois alguns presos ficam apaixonados e. inclusive que era alcagüete dos combatentes.para as namoradas ou familiares. essa pessoa podia pensar que se tratava de uma ofensa e simplesmente matar a outra. alguém pisasse na mão ou no rosto de quem estivesse dormindo embaixo. acabaram sabendo que eu era escritor. Eu era chamado de "doidão". Além do mais. onde o amor se transforma em bestialidade. Tais cenas ocorriam sempre antes das refeições. delatando os presidiários. casualmente. que inventava todo tipo de intrigas a seu respeito. não passava de retardados mentais. e também um agente da CIA. desculpando-me junto àquelas mulheres. todo o cuidado ainda era pouco para não pisar alguém. o amor é algo livre e a cadeia é algo monstruoso. como também porque não fazia sentido. Não sei o que a palavra "escritor" significava para presos comuns. o objetivo de cada uma delas era atingir o rosto da outra. divertiam-se bastante com toda aquela desgraça. por isso manifestavam tanta violência gratuita. Quando as mulheres chegavam de visita e abraçavam os maridos ou namorados eu me sentia gratificado. quem fosse considerado homem era objeto de chantagem e tinha que se deixar enrabar por todos. talvez porque lá houvesse mais espaço. No entanto. mas muitos vieram me pedir que escrevesse cartas de amor. Passei a ser o namorado ou o marido literário de todos os presos de El Morro. Mas para o governo não interessava interná-los num hospício. eu também era um marginal que estuprara uma anciã e assassinara não sei quantas pessoas. Nas celas. porque durante semanas fiquei cambaleando pelo refeitório. eu ia para a frente e para trás. quando me davam a bandeja com a comida. levando a sério o menor detalhe insignificante. Concluí que a maioria daqueles homens. Não tive relações sexuais na cadeia. Os outros presos nunca imaginaram que eu tentara me suicidar. Como nada se esconde para sempre. não apenas por precaução. sem tocar em ninguém. e para lá vinham todos para que eu redigisse suas cartas. chegavam duas ou três namoradas ao mesmo tempo. já no chão. ou porque alguém lhe ofereceu um gole de café.mas que deixavam cicatrizes permanentes. chegara num estado de euforia provocado pelos comprimidos alucinógenos. corriam um risco enorme. e sim que havia tomado todos os comprimidos na esperança de fugir daquela realidade. Os combatentes não tomavam partido nessas batalhas. ou porque cumprimentou outro "macho" da cadeia. por uma questão de "machismo". Alguns tinham o seguinte problema: a cada visita. eu me segurava com todo o cuidado no pau da cabeceira. 218 # Havia bichas-loucas que. o espaço era muito reduzido e às vezes corria-se riscos mortais ao descerdo beliche se. Para descer. apesar de tudo. se divertiam transando com todos naquela ala. ao contrário. De qualquer maneira. Acabavam sempre em meio a poças de sangue. incluindo os assassinos. Corria igualmente o risco de ser atacado por uma bicha enciumada. no pátio. e a bandeja acabava caindo. e eu tinha então que bolar duas ou três explicações diferentes. Além do mais. acabam sempre cortando a cara da bicha simplesmente por ter olhado para outro. pois aquela reconcilia219 . O fato é que improvisei uma espécie de escrivaninha na minha ala. provocando marcas profundas. pois ali costumava dormir gente que nem tinha leito. Quando duas bichasloucas brigavam com lanças. depois.

Antes e depois das visitas éramos submetidos. uma bicha chamada La Macantaya recusou-se a entregar um maço de cigarros que transportara para uns presos. era o que faziam umas bichas-loucas muito habilidosas.e armou o maior escândalo. via-se o corpo de La Macantaya. comprimidos. Os combatentes não entram na cela dos castigos e. Sempre me perguntei por que muitos soldados usavam óculos escuros. sendo mandada para a cela dos castigos. Naturalmente. crucifixos. e com óculos escuros podiam admirar os corpos nus dos presos sem que eles ou os outros guardas percebessem. A bicha conseguiu impor-se aos presos graças a seu pau com pregos. a revista era extremamente minuciosa e não sei por que nos mandavam ficar de quatro e abrir as nádegas. pois só deixavam passar um maço a cada quinze dias. centenas de comprimidos. dinheiro. mas o dinheiro na prisão não tinha o menor sentido e nem era permitido possuí-lo. Era muito difícil obtê-los. um verdadeiro privilégio ali. existia uma forma de burlar a revista. porque em El Morro não se . um comprimido ou qualquer tipo de objeto proibido. No entanto. chamadas de "maleteiras". Quase sempre esse tipo de revista era feito com presos mais jovens e de boa aparência. É claro que. Simularam uma briga. nada podia passar. por mais que se revistasse uma maleteira. Aquele grupo de presos jurou que se vingaria da bicha. levantando os testículos e o pênis. que parecia estar dormindo. Os presos comuns costumam ter uma espécie de memória que não perdoa uma ofensa. Muitos presos queriam me pagar poresses favores. ou seja. O corpo sem cabeça foi descoberto três dias mais tarde por causa do fedor. e era também muito difícil obter qualquer coisa não permitida pelo regulamento. iam até o banheiro e enfiavam tudo no cu. Os presos davam às maleteiras o que seus familiares tinham trazido: maços de cigarros. introduziam tudo lá no fundo e quando voltavam à sua ala. correntes de ouro e inúmeros outros objetos. era impossível descobrir o que estava guardado em seu cu. As maleteiras colocavam tudo numa sacola de náilon. só descobri o motivo mais tarde: alguns deles se excitavam. fazendo aqueles jovens másculos exibirem as nádegas daquela maneira. Devia ser um enorme prazer para aqueles homens ver-nos desfilar à sua frente. e praticam a ética da vingança. Algumas tinham uma capacidade realmente surpreendente. Queriam revistá-los mas também humilhá-los. a melhor forma de pagamento era com cigarros. a primeira coisa que faziam era ir correndo para o banheiro e descarregar a mercadoria. chegando até a transportar cinco ou seis maços de cigarros.# ção devia-se à minha interferência. A confusão ficou ainda maior quando a La Macantaya furou a cara de um dos donos da mercadoria. muito menos dinheiro. foi decapitada. completamente nus. naquela mesma noite. deram-se socos leves e foram parar na cela dos castigos com La Macantaya. ou até vinte ou cinqüenta por cento 220 # da mercadoria que transportavam. Todos aqueles presos foram levados para a prisão de La Cabana e fuzilados. Uma vez. cortaram-lhe a cabeça. a uma rigorosa revista. anéis. mas tratava-se de um meio seguro. Tudo indica que temiam que conseguíssemos fazer passar algum recado. cobravam dez por cento pelo transporte. de longe. Às vezes.

quando me encontrava na galeria dos trabalhadores. Tudo aconteceu tão depressa que mal percebi o que ocorria. Era muito difícil alguém se enforcar numa ala com mais de duzentas pessoas. perseguiam algum preso específico. não diferiam de um preso comum que dava uma estocada em outro. quando alguém era levado para a cela dos castigos. com o gancho nas mãos. talvez até por problemas sexuais. imóvel. Mais tarde. uma bicha negra que esticava o cabelo ali mesmo na prisão. Obviamente. havia agentes da Segurança do Estado. inclinou-se para a frente e caiu morto. Disseram que tinha problemas políticos e que ficara louco. e nunca mais os víamos. e não era para menos. pois às vezes passavam um ano apanhando como o resto de nós. o preso que jurara vingança dava um jeito para continuar vigiando o outro e esperava uma oportunidade . mas na verdade eram informantes da Segurança infiltrados entre nós para delatar qualquer atividade política dos presos. repleta de presos comuns. tinha uma cara horrível. com um estilete ou uma navalha. amanheceu em minha cela um jovem enforcado. pegou um gancho enorme e o enfiou no peito do preso ao meu lado. tinham uma espécie de puritanismo exagerado. ficava apavorado de ser transferido depois para La Cabana. e matava sua vítima na primeira oportunidade. parecia em transe. Esses ajustes de contas eram constantes em El Morro. Num dia de visita. eles não dormiam na galeria e os guardas fingiam não perceber. talvez o tivessem matado e depois passado a corda para simular suicídio. Mas havia também suicídios de verdade. também acho que era meio louco. era difícil conseguir descobri-los. ficou estático. caso um preso em perigo pedisse transferência para outra ala. pois era um rapaz de boa aparência. Estranhamente. Chegou outro preso. pálido. Juravam matar o ofensor. pelo único fato de se encontrar nesse lugar. O que mais me surpreendeu foi o rosto do assassino e a sua atitude depois de cumprida a vingança.durante a visita. Eram homens sinistros. Imagino que depois o fuzilaram. Em nossa galeria. freqüentemente acusados de vários crimes sérios. Foi o caso de La Maléfica. que fora colocado na galeria dos presos comuns mas que na verdade era um preso político como eu. por isso. Os delinqüentes. no terraço enquanto tomavam sol. eu me encontrava na fila e trocava umas palavras com um prisioneiro. e geralmente era o que faziam. certa vez. Às vezes.fuzilava mais. o que me levou a deduzir que tinham uma licença especial para visitar a família. Um guarda se aproximou e o desarmou sem que ele demonstrasse o menor sinal de resistência. 222 . supostamente parajulgamento. deviam ter sido promovidos. acho que um grupo de presos rivais acabou enforcando-o. o Estado também costumava se envolver. nunca perdoavam quem tivesse tocado uma das suas nádegas ou xingado a sua mãe. As vezes. podiam matar qualquer um ali e ninguém saberia que eram agentes da Segurança do Estado. os atos de violência dos presos eram dirigidos contra eles próprios. Diziam que matara várias pessoas. vivendo em meio aos excrementos. no refeitório. depois de cometido um crime eles eram retirados. descobri alguns desses agentes. Nesses casos de suicídio aparente. Este pôs a mão 221 # no peito. e finalmente executado.

estávamos moídos de dor. continuava girando a faca e o pau. porque só se dava essa função a quem tivesse um .# zombava de todo mundo e não respeitava nem os próprios guardas. enquanto sangrava. os combatentes exigiam que os presos dissessem a quem pertencia. Os combatentes divertiram-se e riram bastante com a cena. Quando encontravam uma arma numa das galerias. La Maléfica. com toda a certeza. Depois daqueles castigos era o único momento em que se podia dormir na ala. por isso mesmo era tratada a patadas e socos. como já disse anteriormente. Adoravam nos maltratar. sendo sempre recapturado. Uma autodegolação. pois ninguém tinha ânimo para falar. mas era tão evidente que ele chegava a agarrar o pênis. provavelmente para enterrá-lo. na hora da refeição. Apesar de não ter tido relações sexuais com ninguém no cárcere. Então. todo mundo pensou que fosse matar alguém. Eu desfrutava o prazer de tomar suas sopas. morta. que lançava com bolinhas de pão pela clarabóia. pescava um toti ou uma andorinha. Os guardas eram tipos sádicos. acho até que ejaculava. Logicamente. Camagüey tinha um dom especial para se dar bem com todo mundo e ser respeitado. Era impressionante ver aquele falo enorme erguendo-se por debaixo do pano da calça comprida. era um pescador de pássaros que pescava no ar ao invés de no mar. O oriental da pica grande ficava excitado vendo aquilo. girou o facão e cortou a própria garganta. eramos levados para o pátio e obrigados a abaixar a calça. um assassino. Tinha tato para sobreviver e senso de humor. o castigo era coletivo e realmente draconiano. arrastaram o corpo ensanguentado e levaram-no. depois. mas as bichas-loucas berravam enquanto apanhavam. Sixto se afeiçoou a mim e quando terminava a faxina na cozinha convidava-me para comer. gritando para que ninguém se aproximasse. nem mesmo os "xerifes". Os homens se continham e não gritavam. O fato é que preparava uma sopa deliciosa com aqueles pássaros e ninguém o incomodava. havia um descendente de asiático de uns vinte anos que ficava excitado ao bater nos presos. um guarda começava então a bater nas nossas nádegas até não aguentar mais de cansaço. Um preso chamado Camagüey conseguiu improvisar uma espécie de anzol. pois aquilo podia custar-lhe a própria vida. até acabar caindo. aliás enorme. ninguém dizia uma palavra. enquanto as outras bichas faziam o maior escândalo. E 223 # pegava uns passarinhos que pareciam tão famintos que ás vezes. que me ajudaram muito. um negro da província de Oriente que era o nosso cozinheiro. ou talvez tivessem se tornado sádicos naquele ambiente. La Maléfica pegou um pau com uma faca na ponta. mas outros afirmavam que só tinha matado vacas clandestinamente. Acho que ele era. nunca mais quero ver um ato como aquele. que talvez tivessem sido escolhidos a dedo para trabalhar ali. talvez porque tivesse tentado fugir de Cuba mais de cinco vezes. que tinha afiado durante um mês no chão de cimento. mas ela pediu que ninguém se aproximasse. Alguns diziam que era um assassino. Ela ficou sangrando no pátio da cadeia. mantive um romance platonico com Sixto. Um dia. enquanto um preso era espancado.

ao contrário. passamos depois anos de sofrimento.já era velho. que era uma espécie de relação sexual. estava preso por deserção do serviço militar. e não dava um grão de arroz a mais para ninguém. a quem Sixto negara outra concha de sopa. situado a uma certa distância. Isto lhe custou caro. talvez por causa da sua pele clara. acho que estava preso por ter estuprado vários 224 # meninos. Martí dizia que aquele que traz a luz permanece sozinho. Com certeza era o que ele fazia. mas outros afirmavam que traficara com drogas ou que estuprara a namorada. fiquei sabendo que tinha sido morto com um facão de cozinha durante uma briga com outro preso. Não participava de nenhuma ativida225 # . por cada minuto de prazer que vivemos. Seu único prazer era olhar os homens no banheiro e se masturbar. conversava comigo a respeito da esposa. O belo.temperamento forte. nem mesmo um "disparo". mas tinha uma picaenorme. Alguns se queixavam que Cara de Boi se masturbava enquanto se lavavam. o passivo abaixava as calças no leito. sempre foi perigoso. ele era implacável e honesto. pois outro preso o surpreendeu enquanto se masturbava e o matou na cozinha. até para autorizar a morte de alguém. mesmo se ameaçado de morte. Sixto sentava-se no meu beliche e falava a respeito de qualquer besteira. Por falar em beleza. para que não se queixassem aos pais. e o ativo. Sixto nunca me pediu para fazê-lo. o horror da feiúra avança cada dia a passos acelerados. O "disparo" consistia em algo misterioso. lembro-me de um rapaz em El Morro que representava a beleza levada à perfeição. mas o fato é que o prazer sexual se paga quase sempre muito caro. masturbava-se e quando ejaculava o passivo cobria as nádegas. o que era absurdo. mas ninguém vinha visitá-lo. duas pessoas ficavam de acordo para realizar o "disparo". ao olhar para as nádegas dos outros homens enquanto se masturbava. Parece que Cara de Boi esperava a sentença de morte. pois aquele rapaz não tinha necessidade de estuprar ninguém. segundo ele próprio. Não vi a morte de Sixto. mas nunca me fez qualquer tipo de proposta. inimigo de tudo que é belo. A humanidade não tolera a beleza. mas vi a de Cara de Boi. um assassino com várias mortes nas costas era a pessoa ideal para racionar a comida na cozinha. pude vê-lo certa vez. colocava-se por trás de uma parede na hora em que os presos iam tomar banho e ficava espiando-os. um fanchono famoso em El Morro. era ele que incitava os outros ao estupro. El Nino. Não era violento. muito comum na cadeia. começou a sentir afeto por mim e era mútuo. do cabelo ondulado e do rosto. mas os julgamentos em Cuba são muito demorados. Depois que saí de El Morro. Cara de Boi sempre me respeitou. era como o chamavam. quase impossível de se descobrir. Dizia-se que após violentar os meninos os colocara em tanques de cal. talvez porque não possa viver sem ela. porém. Tinha uns dezoito anos e. Isso lhe custou a vida. é a vingança do Diabo. Nunca falou de assassinatos ou de crimes de nenhum tipo. mais cedo ou mais tarde. onde o terror ainda não deixara nenhum vestigio. completamente destruído. enfiando-lhe uma faca nas costas. mais cedo ou mais tarde. Como ele era um dos presos respeitados na cadeia. mandava na cozinha e nos banheiros. não se trata da vingança de Deus. eu diria que aquele que pratica certa beleza é. que se realizava por telepatia mútua. seu único momento de exaltação era no banheiro.

Mas quando se está numa cadeia marinha. Essas mortes eram quase sempre resultado de alguma vingança. El Nino dormia na fileira de beliches opostos ao meu. sem saber por que estavam me chamando. mas o único delito daquele rapaz era saber sorrir com sua boca tão perfeita. cujas paredes têm um metro ou mais de largura. com mú226 # sica de tambores confeccionados com pedaços de madeira ou ferro. uma morte traidora que era praticada durante o sono. sem nenhuma ventilação. Lá fora. um combatente me chamou e me mandou passar pelas grades. que dizia chamar-se Yma Sumac. As bichas-loucas organizaram seu próprio carnaval. poderia ter sido a estrela de qualquer zarzuela. e parece que El Nino morreu no ato. dizem que uma bicha invejosa. era como um deus. celebrava-se o carnaval de 1974. quando os combatentes irrompiam na ala das bichas-loucas e as faziam calar aos berros e socos.. Os estoques eram varetas de metal fabricadas pelos presos. Por essa razão. pegajoso. essa era a maior felicidade que aqueles homens podiam desejar. foi o que fiz. e com mais de 250 pessoas trancadas no mesmo recinto. outros estavam ali há mais de um ano e também não foram convocados. o qual chegava a sair pelo estômago. Todos nós queríamos sair da cadeia e tomar cerveja. que não passava de uma lona. ao mesmo tempo.de sexual. ou comédia musical. que também queria representar Cecilia. na hora da chamada. o calor se torna inconcebível. a festa que Fidel transformara em sua própria homenagem e que ocorria por volta do dia 26 de julho. Ninguém ouviu grito algum. Uma vez. isso representava um risco. ter um corpo maravilhoso e um olhar quase inocente. dançar ao som dos tambores. quando se deitava. Para mim. muitos ali não poderiam jamais desfrutá-la. as pernas tão bem moldadas. Aquela cantoria durava até de madrugada. era um imenso prazer poder contemplar aquela figura. Gonzalo Roig teria ficado orgulhoso de ter uma intérprete dessa importância. Eu já estava há seis meses em El Morro e ainda não fora a julgamento. as moscas enegreciam o ar e o fedor de merda tornava-se ainda mais pungente. El Nino não se levantou. cantava muito bem e sua voz de soprano ecoava na cadeia com as palavras: "Sim. Alguém deve ter vindo por baixo do catre. Os "xerifes" tentaram conquistá-lo e não conseguiram. Yma Sumac foi retirada toda ensangüentada. O que os presos mais temiam era esse tipo de morte. Um dia. Um dia. Dançavam rumba dentro daquela cela calorenta. e pelas costas. úmido. e enfiou a arma. O verão chegou e começou aquele calor insuportável. Nunca mais a vimos. permanecia à distância e. ao longo do dique de Havana. com fios de arame grosso. Os presos ficavam impressionados ouvindo aquela bichalouca." Na verdade. os percevejos e as baratas se reproduziam com uma velocidade incrível. embora não tivesse voz para tanto. amável. dera-lhe uma estocada. Imagino que ele sabia quanto perigo representava ser tão bonito num lugar como aquele. os presos não podiam admitir tanta beleza em meio àquele horror.. e uma delas encerrava o espetáculo cantando Cecilia Valdés. no entanto. tinham cravado um estoque em suas costas enquanto dormia. Levaram-me escoltado até um quartinho . Eu sou Cecilia Valdés. O calor em Cuba é sempre insuportável.

era inútil tentar procurá-lo. queriam que eu repartisse o pouco que possuía: a almofada. outros gritavam que iam me mandar para trabalhar numa fazenda. eu nem tiverajulgamento. Era um homem sábio. que conseguira uma autorização para me ver. Despedi-me dos conhecidos e dividi todas as minhas coisas. pois com certeza Homero já devia ter virado fumaça. as mães sempre têm esse encanto secreto de tratar a gente como criança. Quando se levantou. Eu não podia lhe contar como era aquele lugar. Na verdade. no meu caso. querendo realizar nossas próprias aspirações. Toda minha vida foi uma constante fuga da minha mãe. porque é muito provável que nunca mais se veja a pessoa que vai embora. Sempre pensei que. aproveitei para lhe pedir que fosse ver meus amigos e os avisasse para tomar cuidado com meus manuscritos que mantinham guardados. levaram-me escoltado até uma cela 228 # . Mas eu só podia abandonar a minha mãe ou tornar-me igual a ela . experimentei a maior solidão de toda a minha vida. eram. percebi o quanto havia envelhecido naqueles seis meses. que não viesse mais me visitar e esperasse minha saída. querendo fugir de Havana para o exterior. tocou meu uniforme de presidiário e disse: "Que tecido grosso! Que calor você deve estar sentindo!" Aquilo me comoveu mais do que qualquer outra observação. Na manhã seguinte gritaram meu nome na grade e disseram que eu tinha cinco minutos para me apresentar com todos os meus pertences. com uma grande frustração e sem qualquer instinto de rebeldia. ao entrar na ala. prometeu ir visitá-los. Em momentos como esses. Todos os presos se acercaram do meu catre. na cadeia.onde estava a minha mãe. do campo para Holguín. só disse que estava muito bem e que. são dois egoísmos em luta: o da mãe querendo que vivamos de acordo com seus desejos e o nosso. fazendo mil conjecturas. Eu não queria ver o rosto decepcionado da minha mãe por causa do modo de vida que eu levava. de Holguín para Havana. Ela se aproximou e me abraçou. muito sábios. os presos começaram a me pedir cigarros. porque geralmente levam vários presos juntos. mas notaram que eu estava tão perturbado que os próprios criminosos permaneceram em silêncio. sempre há um certo estado de euforia e tristeza. Sem qualquer explicação. teria que afogar meus desejos fundamentais. um pobre ser resignado. Quando cheguei ao meu beliche. Camagüey aproximou-se e disse que. seu corpo tinha desmoronado e a pele perdera a consistência. e principalmente. uns diziam que ia ser solto. além do mais. era melhor viver longe da minha mãe para não fazê-la sofrer. quando minha mãe foi embora. em seguida. numa hora dessa. logo sairia daquela cela. não chamavam ninguém para libertá-lo. com certeza. disse que eu seria levado para a Segurança do Estado. seus conselhos. Na verdade. percebi que alguém havia roubado o volume de A Iliada. talvez todo filho devesse deixar 227 # a mãe e viver a própria vida. Naquele dia. Nós nos abraçamos em silêncio e choramos juntos. apesar de práticos e elementares. outros ainda achavam que iam me levar para uma prisão aberta ou para La Cabana. com toda certeza. chorando. o jarro ou a garrafa de água. nesse momento.isto é. não achava que fossem me levar para uma fazenda.

ao mesmo tempo. Após uma semana. eu não estava disposto a isso. o oficial que me escoltava empurrou-me para dentro e foi embora. não havia muito interesse em alimentá-los. o que isto significava: torturas. a cama não passava de uma espécie de estrado de ferro sem colchão. ninguém podia fugir de lá. Nem era possível fazer queixa. o mesmo oficial que me trouxera até aquela cela de castigos abriu a porta e mandou que o acompanhasse. por amigos meus que já haviam passado pela Segurança. Aquelas canções tão tristes tinham sido como hinos para o povo de Cuba. Aquele lugar era como o centro de abastecimento de pulgas e percevejos. onde eu nem conseguia ficar em pé porque não tinha mais que um metro de altura. Ao entrar ali. ia ser submetido aos interrogatórios da Segurança do Estado. esfregando os testículos. Era o pior lugar de toda a prisão. Percebi então que toda aquela história de me levar para El Morro não passava de uma grande encenação. . no paredón de fuzilamento. tinha que fazê-las num buraco. mas. resolvi que de agora em diante teria mais cuidado com o que fosse escrever. como diziam os presos a respeito do poste. havia a mais total falta de comunicação e o desespero absoluto. eu falava de um frade que tinha passado por várias prisões sórdidas (incluindo El Morro). os que ali ficavam esperavam apenas pelo "pauzinho". aqueles insetos atiraram-se sobre meu corpo para me dar as boas-vindas. Disse que viera para me ajudar e que.de castigos. Havia um preso que cantava noite e dia. Percorremos o mesmo caminho de uma semana atrás e ele me levou até um escritório onde se encontrava um tenente chamado Víctor. ninguém veio me visitar ou me trazer algum tipo de alimento. pois me fariam uma série de perguntas e achavam melhor eu permanecer incomunicável para não chamar a atenção dos presos. sempre num tom amável. e esfregar os testículos na minha frente devia ser uma prova da sua virilidade. Sabia. Levantou-se e ficou andando pelo recinto. Durante todo o primeiro dia. imitando a voz de Roberto Carlos à perfeição. Aquela cela era um lugar sórdido. E aquele preso cantava essas canções com mais autenticidade e com dor mais profunda que o próprio Roberto Carlos. Dois dias depois. trouxeram algo para comer e fizeram uma revista. interrogatórios constantes até que a gente acabasse delatando os amigos . O oficial continuou falando. com chão de terra. ao qual eram amarrados. transformaram-se em gritos pessoais para cada um de nós. o qual ficou de pé e me estendeu a mão. minha estada na cela de castigos iria se prolongar ou não. Imagino que soubesse que eu era homossexual. como quase todos ali destinavam-se ao paredón. eracompletamente absurdo naquelas celas tão seguras. de certa forma. de acordo com meu comportamento. pois parecia estar condenado a experimentar em meu próprio corpo tudo o que eu escrevia. transformando-me em preso comum. mas era melhor ficar isolado. onde vinham pararos assassinos irrecuperáveis antes de serem fuzilados. Em El mundo alucinante. Disse que lamentava muito 229 # pelo fato de eu me encontrar naquela cela. humilhações de todo tipo. quanto às necessidades fisiológicas. ao chegar lá. e não havia nem vasilha para tomar água. queriam apenas confundir a opinião pública estrangeira.

diziam que qualquer um podia se aproveitar daquelas nádegas indefesas. Possuir um objeto flutuante era uma prova de querer fugir do país. Durante uma semana. mas o organismo resiste infinitamente. o mesmo que me atendera seis meses antes por causa dos comprimidos alucinógenos. a ONU e a UNESCO. A Segurança do Estado queria saber como eu conseguira enviar meus manuscritos e o meu comunicado para a Cruz Vermelha Internacional." Fui carregado de maca. iria delatar mais de quinze ou vinte amigos que se tinham sacrificado por mim. Por fim. Le Figaro relatou 230 # que eu estava desaparecido há cinco meses. levando-se em conta que eu estava há mais de seis meses sem realizar nenhuma atividade sexual. Segundo Víctor. todos foram ficando eufóricos. Se eu confessasse. e não consegui morrer. Meu caso era complexo. tentei novamente o suicídio. numa cela em frente à deles. perdi os sentidos. havia explodido uma mina e um rapaz morrera. era muito agradável vê-lo andando. quais eram meus amigos em Cuba e no exterior. Os soldados me acharam. Víctor veio todos os dias a El Morro para interrogar-me. numa noite em que eu estava fugindo. enquanto agarrava os próprios testículos. e disse que eu não ficaria em El Morro por muitos 231 # . Fiquei assim umas quatro ou cinco horas. dormi como um anjo. deitado. Por essa razão. não conseguiu. Naquela noite. onde não havia nem talheres e nem cordões de sapato. Eu tinha pneus em meu quarto. me deram soro e remédios. alguém estava mostrando o rabo. rasguei o uniforme e fiz uma espécie de corda com a qual me pendurei pelo pescoço no ferro da cama. e continuava a esfregar os testículos. com a mão nos testículos. No dia seguinte.era como se me dissesse que o macho ali era ele. minha tia me denunciou quando revistaram meu quarto. abriram a cela. despedaçado. Quando me levaram de volta à cela. acreditavam que a culpa fosse minha. apesar da minha fraqueza. a Segurança queria saber quem passara essa notícia ao jornal. se aproximava de mim. Era um homem bastante cruel. nu. eram todos fanchonos e acariciavam minhas nádegas enquanto os presos no corredor da morte riam. o que podia representar uns oito anos de cadeia. depois de uma semana de interrogatórios. Estavam a par da minha viagem a Guantánamo e queriam que eu revelasse quem me ajudara a chegar lá. mas parece que não tinha muita prática para me enforcar. Parei de comer. levaram-me para o hospital. Certa noite. de boa aparência. Víctor devia ter uns trinta anos. Disse: "Você não teve sorte. era uma verdadeira homenagem. abria a braguilha. me tiraram daquela posição e me deixaram no chão. Fiquei umas duas horas no chão em frente à ala dos condenados à morte. Aos poucos. era alto. ainda pude masturbar-me com uma agradável fantasia: Víctor. aqueles soldados não eram de se desprezar. Estava sem roupa e os soldados faziam piadas. Meus amigos Margarita e Jorge se tinham empenhado numa grande campanhajunto à imprensa francesa para denunciar a situação em que eu me encontrava. e eu começava a chupar seu pau. o médico da prisão veio me ver. Na verdade. e muitas vezes acaba triunfando. não era fácil naquelas celas de castigos. não podia fazer tal coisa. assim como câmaras de ar. para mim. o mesmo médico veio me ver. na verdade.

tudo era controlado pelo KGB. Levaram-me até um escritório. tiraram toda a minha roupa e me deram um macacão amarelo. como se fossem generais. 232 # Vila Marista Chegamos a Villa Marista. enquanto ia andando. cheia de correias nos braços e nos pés. e talvez fossem mesmo. respondi que estava na Segurança do Estado. Ali. furioso. Fui fotografado e tiraram minhas impressões digitais. na verdade. devidamente escoltado por soldados armados. perguntando se eu sabia onde estava. Depois. por que não tinha sido trazido diretamen te para a Segurança do Estado. logo em seguida voltavam e me levavam outra vez diante do oficial. no entanto. às vezes. ainda mais terrível que a própria Inquisição. o banheiro era um simples buraco no chão. a Segurança não passava de uma de suas dependências. 233 # compreendi. Aquele homem não acreditava numa única palavra minha. a quem intencionalmente tinham dado permissão para me ver. levaram minhas sandálias e me deram outras. Agora. eu nunca soube quando era dia ou noite. No terceiro dia. sim. outras vezes. atravessamos toda a cidade de Havana. e sim levado para El Morro. onde me mandaram entrar. se me assassinassem." Entendi logo o que estava querendo dizer. compreendi então que aquele lugar era. a opinião pública pensaria qu e tinha sido morto nas mãos de algum marginal em El Morro. podemos acabar com você e ninguém nunca vai saber. No quarto dia. . todo mundo pensa que está em El Morro e é muito fácil morrer por lá.dias. podia ver as pequenas celas com uma luzinha que permanecia acesa dia e noite sobre a cabeça do prisioneiro. aquela luzinha permanecia acesa o tempo todo. A pequena janelinha que dava para o corredor ficou fechada. de uma simples estocada ou de qualquer outra forma. a Segurança do Estado não queria suicídios antes de confissões. levaram-me para o segundo andar. mandaram que me sentasse numa cadeira que parecia uma cadeira elétrica. sede principal da Segurança do Estado. rapidamente. inclusive para minh a própria mãe. ia embora e eu ficava sozinho naquela sala. Os oficiais soviéticos eram os mais respeitados e temidos. mandaram que eu ficasse de pé e fosse com eles. naquela hora. Havia muitos russos na Segurança do Estado. era uma espécie de cadeira elétrica tropical. ou então aparecia outro oficial para continuar as perguntas. Era muito difícil não me confundir em meio àquelas inúmeras perguntas que constituíam o interrogatório. todos faziam continência na sua frente. Às vezes. Cheguei à cela número 21. começava de madrugada e podia se prolongar durante todo o dia. fui retirado da cela e levado para um interrogatório. de fato. Víctor veio com mais dois oficiais. já que nunca estivera no prédio da Segurança do Estado. deixavam de me interrogar durante uma semana e pareciam ter esquecido de mim. Então ele disse: "Você sabe o que isso significa? Significa que aqui podemos sumir com você. Tiraram-me de El Morro e lá fora subimos num carro da G-2. de fato. eu ainda estava em El Morro para todos os meus amigos. Um tenente chamado Gamboa começou seu interrogatório.

Começou perguntando como estava meu amante. perguntou-me um dia aquele oficial. uma prática de tortura parecida com o fogo. eu aprendera a entender como a condição humana vai desaparecendo aos poucos entre os homens e o próprio ser humano acaba se deteriorando para sobreviver. a delação é algo que a imensa maioria dos cubanos pratica diariamente. O tenente estava a par das nossas reuniões no parque Lenin. voltei à minha cela bastante deprimido.O tenente Gamboa insistia muito sobre o fato da minha solidão. Naquele momento. a qual. tinha ido visitar quase todos os meus amigos tentando saber onde eu estava escondido. Então. os banhos cessaram. que ia morrer. Na noite em que fiquei sabendo que Prado era delator. pois todos os meus amigos tinham me abandonado e ninguém se interessava por mim. tiravam-no da cela e o levavam para mais um interrogatório. na verdade. para poder utilizá-los quando ela cair em desgraça. comecei a ouvir um estranho ruído na cela ao lado. Injetar o vapor era. Compreendi então o que significava aquele tubo instalado perto do banheiro da minha cela. Ao sair da cadeia. sob a pressão da Segurança do Estado. mesmo sendo sua aliada. eu dava umas batidas na parede e ele me respondia. assim como da nossa amizade. Após 235 # algum tempo. e que. Dizia então: "Podem continuar mais um pouco. até então. ou quando quiserem eliminá-la. se transformava em verdadeira sauna. Era um cano através do qual injetavam vapor na cela dos presos. inclusive detalhes bastante íntimos. A Segurança do Estado sempre quer ter todos os elementos possíveis sobre qualquer pessoa. depois de viver tantos anos sob aquele regime. estava sendo assassinado. na verdade. depois de uma hora comecei a ouvir gritos horríveis. não tinha absolutamente nada a dizer a respeito de Arnés. Isso aconteceu com meu vizinho durante mais de um mês. tornava-se mais forte. Na verdade. "E as irmãs Bronte?". o homem tinha um sotaque uruguaio e berrava que não aguentava mais. eu nem sabia a quem estava se referindo porque. completamente trancada. e apenas Hiram Prado sabia que eu os chamava carinhosamente daquela maneira. as irmãs Bronte eram os irmãos Abreu. Vez por outra entrava um médico para verificar a pressão e a frequência cardíaca do preso. Um dia. tivera tantos que não conseguia saber de qual se tratava." O vapor recomeçava. era como se algum pistão estivesse soltando vapor. constituía um enigma para mim. Também foi ver a minha mãe. na época em que era fugitivo. soube que Hiram Prado. e quando o preso já estava a ponto de enfartar. Naquele momento. percebi que uma das pessoas que dera informa234 # ções a meu respeito. Insistia também sobre as minhas relações sexuais com Rafael Arnés. Não fiquei muito surpreso com o fato de Hiram Prado ter sido um delator. aquele lugar trancado e cheio de vapor era capaz de matar por asfixia. pensei que talvez tivesse confessado ou simplesmente morrido. . que parassem o vapor. durante muitos anos. tinha sido Hiram Prado. pois não há organismo que resista àquela alimentação tão deficiente e aos constantes banhos de vapor. disseram-me que se tratava de Arnés e perguntaram várias coisas a seu respeito.

e que agora se arrependia e prometia nunca mais ter . Era evidente que tinha sido muito pressionado pelos superiores para que eu assinasse logo a confissão e saísse daquele lugar. contando as piores coisas que sabia a seu respeito.Transferiram-me para uma cela pior que a anterior. Eu pedia. escrevera no meu comunicado para a Cruz Vermelha Internacional. num certo período da minha vida. e me comprometia a trabalhar para o governo e escrever novelas otimistas. parecia eufórico. Tecia elogios aos delatores que me tinham denunciado. veio até minha cela e me cumprimentou. Ou seja. Entretanto. fazia quatro meses que era mantido incomunicável. o tenente a leu com calma. Três dias mais tarde. sentia-me reconfortado em saber que. estava na hora da Segurança do Estado me tirar dali e me levar de volta a El Morro. tanto nos meios intelectuais como no submundo de Havana. das minhas fraquezas ideológicas e dos meus livros malditos. esse fato vem apenas comprovar a minha covardia. Claro que não iam me tirar da cela. Minha Confissão foi longa. Pavón. a reabilitação. a certeza de que não tenho fibra de herói e que o medo. logicamente. Obviamente. Após eu ter redigido a confissão. salvando apenas a possibilidade futura de pegar o trem da Revolução e trabalhar para ela dia e noite. No final. Fiquei sabendo mais tarde que jornais estrangeiros publicaram que eu estava desaparecido e que meu nome não constava em nenhuma prisão de Havana. depois de três meses na Segurança do Estado. renegava toda a minha vida. quando disse ao oficial que estava disposto a redigir minha confissão. No entanto. ele mesmo me deu papel e lápis. nem dos meus amigos no exterior. mas. a ONU. Assim. temiam a opinião pública estrangeira. Eu não queria me retratar. as denúncias feitas por meus amigos no exterior estavam surtindo efeito. está acima dos princípios morais. a UNESCO e muitas outras organizações que nunca publicaram nada. obviamente. que eu nunca voltaria a escrever. não citei o nome de ninguém que pudesse ser prejudicado em Cuba. sabia que a hora da minha retratação haveria de chegar. enquanto estava no parque Lenin. Na confissão. minha fraqueza. Queriam é que eu fizesse uma confissão dizendo ser contra-revolucionário. que me arrependia da fraqueza ideológica que demonstrara em meus livros já publicados. publicara tudo. em meu caso. renegando-a. uma confissão que representasse uma conversão e. assinei a confissão. porém. que eram pessoas importantes a quem deveria ter obedecido sempre: Portuondo. Guillén. o que ficou de tudo aquilo foi o seguinte: eu era um contrarevolucionário que mandara os manuscritos para fora de Cuba. eles eram heróis. que as denúncias que fazia contra o regime de Fidel Castro eram absolutamente verídicas. Deram-me uma semana para refletir. não acreditava que fosse preciso me retratar em nada. falava do fato de ter me transformado num contra-revolucionário. mas não ligaram muito. pois sua tarefa como informante era fundamental. mesmo quando tive de negar. que a Revolução dera provas de uma justiça extraordinária em relação à minha pessoa. que tudo aquilo era verdade. um compromisso de trabalhar para eles e escrever livros otimistas. Aproveitei também para falar a respeito de Hiram Prado. embora continuassem a me ameaçar. isto é: ir para um campo de 236 # trabalho. Senti que era um castigo por causa da minha falta de sinceridade para com o tenente que me interrogava. falava da minha vida e da minha condição de homossexual. na verdade.

um dos soldados de guarda no corredor abria a janelinha e ficava conver sando comigo. claro que não era permitido ter fósforos naquele lugar. pois era informante da 237 # Segurança do Estado. após a confissão. nossos papos duraram até minha transferência. enquanto dormia. explicou quem era na delegacia de polícia e saiu livremente. Agora estava só com a minha desgraça. Antes da confissão. eu tinha uma grande companhia: meu orgulho. Desde aquelanoite eu sonhava que ele entrava em minha cela e fazíamos amor. Uma vez. Uma noite. nenhum dos dois podia acreditar que aquela confissão fosse autêntica. Falava-se até de estupro. Aliás. O pior era continuar vivendo apesar de tudo. assumira um compromisso com o tenente de colaborar no que fosse possível. ele entrou e me pediu fósforos. Pepe Malas nunca esteve na cadeia. muitas vezes. Fiquei lá mais uns quinze dias antes de ser novamente transferido para El Morro e tive outra entrevista com o tenente Gamboa. para evitar um escândalo internacional. que parecia furioso e amável ao mesmo tempo. Talvez fosse uma maneira de me deixar desconcertado. Por outro lado. imagino que fazia isso sob a orientação do tenente Gamboa. Perdera minha dignidade e minha rebeldia. mas também não podiam esperar uma confissão autêntica numa cela de torturas. assim. Assim. enquanto fiquei preso. estariam me destruindo e me afastando completamente do mundo literário. já não tinha mais nada. Aquele mulato boa-pinta abria a janelinha e batia papo comigo por mais de uma hora. ficava esfregando os testículos e me excitava. e podiam perfeitamente me pedir para fazer uma aparição pública na qual teria de ler toda a minha confissão.contato com o mundo ocidental. nem escrever uma só linha contra a Revolução. Enquanto eu redigia a confissão tinham insistido para que eu declarasse ter corrompido dois menores. Poucas vezes me senti tão infeliz. que não eram outros senão os pivetes que roubaram a minha roupa e a de Pepe Malas na praia. Deixando-me preso. levaram-me de volta para a cela. Depois da confissão. Falou comigo durante uns cinco minutos e depois foi embora. de qualquer forma. depois de ter traído a mim mesmo e de ter sido traído por quase todos. mas. Prometia também corrigir me sexualmente. Além disso. ninguém podia contemplar minha infelicidade naquela cela. podiam até me eliminar físicamente. Eu deveria ser julgado por um grave delito comum: corrupção de menores. estava presente o tenente Víctor. pelo menos durante uns oito anos. 238 Outra Vez El Morro . Na realidade. às vezes. Depois de assinar a confissão. Talvez soubesse que me masturbava olhando para ele e talvez se divertisse com isso. eu me masturbava enquanto ele caminhava diante da minha porta. seria condenado por um delito comum. Nos dias que se seguiram à minha confissão.

quando esta chegou ao fim. Não havia cadeira de rodas. Pelo menos. colocaram-me na galeria número 10. Havia pouca sensibilidade humana entre aqueles presos irrecuperáveis. havia um homem que fora tenente e que estava condenado a 24 anos de cadeia por ter assassinado a esposa e o amante desta." Com um lençol. Naquela galeria. levaram-me de volta a El Morro. vimos um preso amarrar uma corda na cerca de arame farpado e descer a encosta. Lembro-me de uma bicha negra que disse: "É preciso começar a foder aqui. Foi descendo pela corda e. autores de inúmeros crimes. Parece que os presos tinham antigas relações com os guardas e sabiam como arranjar drogas com eles. o clima também não era de camaradagem e sim de delação. quase todos ali eram alcagüetes e podiam denunciar outro preso por qualquer motivo. Fui posto na lavanderia com mais dez ou doze presos. Naquela galeria havia pessoas que. como eu. mas depois comecei a sentir uma profunda saudade daquela outra cadeia onde pelo menos era possível andar e ver gente sem estar de cabeça raspada e com uniforme azul. ou eram militares de Fidel Castro que haviam cometido algum crime. fez uma espécie de tenda em seu catre e inaugurou um local para transas. Havana não passava de outra cadeia. mas. A roupa dos presos nunca era lavada. afinal de contas. Os homens ficavam na fila para enrabar a bicha. em enormes tanques de água. eu olhava para a cidade com ressentimento e pensava que. um guarda se aproximou e começou a cair de porrada nele. também entravam maconha e cocaína com a maior facilidade. ficando apenas de cueca. do terraço. tínhamos de lavar a roupa de todos os oficiais e dos soldados. Como prometera me reabilitar. Às vezes. Essa galeria tinha pouquissima ventilação e abrigava 239 # centenas de presos. aproveitávamos e lavávamos nossas roupas. Um dia. mas havia também um privilégio: podíamos realizar trabalhos no pátio ou nas varandas de El Morro. comandados por um guarda chamado Rafael que era implacável conosco. Na galeria dos trabalhadores. acabou sendo solto. que abrigava assassinos de quarenta ou cinqüenta anos. de modo que permanecia deitado. podíamos ver Havana e o porto. as relações sexuais eram mais óbvias. ainda faltavam cem metros de altura para chegar à costa. em troca de cigarros. apenas para obter algum privilégio.Finalmente. Um dia. sendo tudo pago na hora da visita. alugava o seu "apartamento" feito de lençóis. Não sei que fim levou. depois. O caçador de pássaros também se encontrava lá. como manter relações homossexuais. Íamos até o terraço de El Morro e lá. por receber de fora qualquer produto proibido ou fumar maconha. o preso já estava velho e andava muito devagar. a galeria número 6. Delatavam sem nenhum escrúpulo. isto é. um belo dia tiraram-me daquela galeria e me levaram para a dos trabalhadores. pois quando saí ele continuava lá. tentando fugir. Como aqueles presos nada mais tinham a perder. mas naquele dia ficou paralitico. ou se arrastava com um banquinho até o banheiro. o que era o sonho de quase todos. quando Rafael parecia não estar olhando. o ambiente era menos pesado. Por exemplo. No início. e não arriscávamos tanto a vida. enquanto íamos para a área de visita. Ele pulou e teve as duas pernas . De lá. tinham assinado sua retratação.

Quando começou a falar. supostamente corrompidos por mim. aquele jovem era a testemunha mais importante contra mim. Houve um momento em que ojuiz. o rapaz olhou para mim e disse que não. O juiz lhe perguntou quem fizera tal proposta e o jovem. Interrogaram um dos rapazes que eu supostamente estuprara. Certa vez. O tribunal repetiu a pergunta. rumo aos Estados Unidos. Faltava a declaração da segunda testemunha. Mas quando lhe perguntaram se mantivera relações sexuais comigo. parecia um verdadeiro anjo. voltou-se e apontou para Pepe Malas. mas ele respondeu que era melhor deixar para lá. Quando chegou o dia do meu julgamento. era de se esperar. mas o fato é que nada disso 241 aconteceu. veio usando o uniforme de colegial e com o cabelo repartido ao meio. O juiz olhou-me com um ódio que eu nunca havia testemunhado antes. mataram-no a tiros. Mais tarde soubemos que o preso havia sido capturado. não eram menores. Apesar de tudo. Outros pensavam em se vestir com trajes civis e escapar. brutalmente espancado. que não tinha ido a lugar . Havia um preso que sonhava que a familia lhe traria um balão. mas você o chupou ou não?" O rapaz respondeu que não. já que aquele homem não tinha a menor chance de escapar. com o qual Pepe Malas e eu mantivéramos relações sexuais. Assim mesmo. logicamente. e obrigaram-no a passar diante das nossas celas. até se descobrir quem havia trazido a corda. Os guardas. ficou de pé e disse: "Bem. com todos os sistemas de vigilância criados no país. de maneira bastante estranha. Tudo isso aconteceu 240 # durante a visita e todos os familiares tiveram que permanecer horas a fio. Não sei o que aconteceu com o rapaz para ter reagido daquela maneira. furioso. Para os guardas a fuga de um preso constituía uma ofensa terrível. um rapaz mais jovem ainda. Houve várias tentativas de fuga em El Morro. um prisioneiro conseguiu e fomos todos castigados durante um mês. talvez. por puro sadismo. O rapaz se limitou a dizer que tinha recebido uma proposta para passar algumas horas numa casa. coisa absolutamente impossível. tinham físico de atletas. Queriam dar um exemplo do que podia nos acontecer se tentássemos a fuga. às vezes de uma maneira delirante. Trouxeram o homem de volta. respondeu que não. além do mais. queriam me condenar. a socos e pontapés. o sonho de todo preso é fugir da cadeia. continuávamos sonhando com a fuga. medo ou compaixão. que seu amigo o convidara. pois não é nada fácil permanecer em Cuba como fugitivo. O promotor e o presidente do tribunal. a primeira coisa que surpreendeu os jurados foi que aqueles rapazes. Desnecessário dizer que um preso condenado que tenta fugir ganha uma sentença adicional. na última hora. continuou arrastando-se na direção do mar. sem sombra de dúvida. que ele inflaria e partiria para o norte. Imaginava-se que a Segurança do Estado tivesse feito a sua cabeça para que me inculpasse. disse que não sabia de nada. foi ainda mais reservado que o anterior. talvez agisse assim por simples machismo e para que toda essa história não constasse de sua ficha. dizendo que dois veados haviam feito uma proposta. experimentasse uma certa dignidade.quebradas.

diziam que eu seria solto e deixaria tudo o que possuía. no terraço de El Morro. em meio à maior algazarra. por precaução. A partir daquele período. amedrontado pelas ameaças da Segurança do Estado. mas. fui chamado para o "portão". estavam presos por insubmissão ao serviço militar obrigatório. Consistiam em uma leitura monótona dos discursos de Fidel Castro 242 # e estar de acordo com tudo o que dizia. disseram que estava louco de pedra e foi levado para um manicômio. Lembro-me de umjovem negro que ficou gritando no pátio da prisão durante mais de uma semana: "Abaixo Fidel Castro. o tribunal pronunciou um longo discurso. na barriga e nas costas. Os soldados não sabiam o que fazer. filho da puta. argumentando que sua religião não permitia ler aquilo. Além das testemunhas de Jeová. recebi muitas ofertas na ala dos trabalhadores. desde então. e assim mesmo ejaculou. Nos terraços realizavam-se também os círculos de estudo. Fidel Castro assassino. olhando para o mar. e que devia ser condenado por corrupção de menores. um jovem ruivo de uns vinte anos pôs o pau para fora e começou a se masturbar. De qualquer modo. Sim. mas não tive coragem. O oficial deu um exemplar do Grama com o discurso de Fidel a um daqueles rapazes para que o lesse. não havia nenhum contratempo nessa rotina. mas ele se recusou. foi minha sentença: tinha sido condenado a dois anos de cadeia por abusos lascivos. o rapaz tremia e chorava sem parar. os presos começaram a dar palpites. A Segurança do Estado levou uma semana para decidir o que fazer com aquele negro. com o ódio típico do cubano. Quinze anos já se passaram e não consigo esquecer esse rapaz. fez um sinal para que me aproximasse. dizendo que eu era um contra-revolucionário e um imoral. Ele foi amarrado mas continuou gritando contra Fidel Castro todos os xingamentos possíveis. outros também enfrentaram as injustiças. sempre recusei." Os guardas chegaram. deramlhe uma injeção. Um dia. O advogado de defesa. fiquei apenas olhando e ele também olhou para mim. Então o oficial entregou o jornal a outro daqueles jovens e mandou-o ler Enquanto lia. pois saía de volta às ruas. ficou pisando no rapaz enquanto lhe batia com o fuzil na cabeça. chutando e batendo nele com as armas.nenhum. entregando toda a sua vitalidade às ondas. O oficial golpeou-o com a arma e o jogou no chão. novamente. O que ganhei. não conseguiram me condenar por corrupção de . Bateu-lhe tanto que outros oficiais acorreram e pediram-lhe para parar. O julgamento foi suspenso à espera da sentença. Um dia. traidor. a valentia é uma loucura. além de lhe dar porrada. os jovens foram chamados de mentirosos e ameaçados com a possibilidade de condenação por perjúrio. mal falou. até que o amarraram numa maca. isto é. o tribunal ficou ainda mais irado. Os mesmos guardas que me escoltaram no julgamento encarregaram-se de contar a todo mundo na prisão que eu estava sendo acusado por corrupção de menores e por ter mamado o pau daqueles rapazes. Até que um dia subiu ao terraço um grupo de jovens testemunhas de Jeová. geralmente. mas cheia de grandeza. Pepe Malas ficou em liberdade e eu fui novamente levado para El Morro. mas os rapazes não se abalaram. na verdade. passaram a me chamar de A Bezerra. Nunca vi ninguém tão furioso contra o ditador. Com isso. que começa mencionando a mãe e termina chamando o outro de veado. pois mataria ojovem se continuasse. a porta de entrada de El Morro.

no fundo. nem com a lista de contra-revolucionários que eu entregara. dizendo que não era a sentença definitiva. os policiais tinham de obedecer às leis feitas por eles mesmos. Mesmo num país como Cuba. três dias depois. mandaram-me de novo para El Morro. vi novamente pela janelinha o mulato de Oriente que tanto conversava comigo. não puderam me condenar a vinte ou trinta anos. No dia seguinte." Peguei a sentença. nesta lista eu podia perfeitamente juntar os nomes de Pepe Malas. cumprimentaram-me sorridentes e extremamente gentis. e também porque eu ia colaborar com eles no plano de reabilitação. Às vezes. o que me pareceu um mau presságio. De volta à cela. respondi que era um prazer fazer o que estavam pedindo. Naquela galeria. Foi um verdadeiro triunfo para mim. mas não fiz nada disso. eu chegava a . com a promessa de que. A cólera de Víctor . em pouco tempo. Deram-me uma folha de papel e escrevi os nomes de todos os agentes da Segurança do Estado que me tinham delatado. não fiquei muito tempo na Segurança do Estado. por essa 243 # razão. Víctor e Gamboa me chamaram outra vez. que tinha sido condenado a dois anos de cadeia. só podiam me condenar alegando motivos políticos.menores. 244 # assim como o tenente do quarteirão onde eu morava e a administradora regional. José Martínez Matos. este último parecia furioso. enquanto admirava suas lindas pernas. Distraiu-se batendo papo comigo. a fome era muito grande. mandaram-me outra vez para a galeria número 10. Agora. se tornava cada vez mais evidente. Dessa vez. disseram ter ficado muito contentes ao saber que minha sentença fora de dois anos apenas. quando viram aquele papel fino onde estava escrita minha sentença. nomes esses que eu lera na lista que o advogado me mostrara: Bienvenido Suárez. A primeira coisa que eu devia fazer era entregar uma lista de gente inimiga da Revolução. Depois de fazer a lista. os agentes da Segurança não tinham ficado convencidos com minha confissão. Gamboa tentava conciliar. Obviamente. Voltei para minha cela. talvez para dar tempo de eu me masturbar. Ao chegar em El Morro. se não aceitassem minha sentença. era apenas uma provisória. Lá me aguardavam os tenentes Gamboa e Víctor. Estavam agora com uma expressão completamente diferente. e afirmei que era realmente essa a minha sentença. que sabia sim. Hiram Prado e minha tia. naquele período. Perguntou-me se já sabia qual era a minha sentença e respondi. seria levado para uma fazenda de reabilitação. cumprimentou-me com muita amabilidade. Não deixei que falasse mais nada. Otto Fernández e muitos outros que se dedicavam à delação por pura maldade. os presos pularam de alegria e disseram: "Dá logo esse papel pra gente fazer cigarro. a Segurança do Estado veio me buscar para me levar à Villa Marista. rasguei-a em tiras e naquela tarde eles fumaram guimbas feitas com o papel oficial do Ministério da Justiça. lá dormia um cozinheiro que tinha uma bolsa cheia de pão. Assim. com vontade de rir. eles também tinham sido vítimas do regime.

e faziam tamanha algazarra que o poeta parava sua leitura para observar as brincadeiras daqueles bichos. era ler para mim seus poemas. que infelizmente eram muito ruins. como alguns presidiários saíam de diversas celas. nem tão grandes. Então me soltava. conheci um preso chamado Rogelio Martínez. e isso os deixava irados. ele dava um jeito para conseguir um prat de comida. que escrevia poemas. Ele tinha uma salinha improvisada e podia andar pelo pátio da cadeia. O que queria. metidos a românticos e melosos. eu podia ver. Mas na última hora apareciam com um certo documento e provavam que eu não podia sair de El Morro.que minha obra El palacio de las blanquisimas mofetas fora publicada na França e na Alemanha. embora não mantivesse relações sexuais com nenhum preso. muito furioso . mostrou-me um exemplar da publicação sem deixar que eu tocasse no livro. Em várias oportunidades. meu apelido passou de A Bezerra para A Bezerra Desdentada. promovendo uma campanha sobre a situação de incomunicabilidade na qual eu me encontrava. que crimes e delitos que haviam cometido e por quê. soube que eu era escritor e passou a me olhar com certa admiração. onde afirmava estar em perfeito estado de saúde. porque. um verdadeiro lixo. e um dia a oportunidade se apresentou: roubei um pedaço e o mordi com tanta força que quebrei meus dois dentes postiços. Agora. pelo menos pretendia ser um homem bonito aos olhos dos outros. mas não podia tocá-lo. O tenente Víctor me visitava esporadicamente. nem podia mais sorrir. foi por seu intermédio que fiquei sabendo .sonhar com aquele pão. era só começar a falar e caíam novamente. com aqueles dois dentes quebrados bem no meio da boca. Mas era um prazer poder sair daquela galeria e ficar com o pobre coitado que necessitava de alguém que ouvisse seus poemas. Aquelas centenas de ratos brigavam e roíam tudo. nunca vi tantos ratos juntos. havia uns maiores que cotias. Era meu. minha fama piorou ainda mais. embora não fosse nadadisso. No meio daquela situação. Nós nos distraíamos observando os ratos que durante a noite se aglomeravam perto da grade onde ele improvisara seu escritório. falavam sempre de mulheres que eram como sereias que o traíam. me chamavam ao portão e obriga vam-me ajuntar meus pertences e ficar numa fila imensajunto com os presos. e nos alimentávamos juntos durante nossas sessões literárias. Tinha que manter uma lista atualizada dos presos em todas as galerias. Meus amigos tinham feito o necessário na Europa. Às vezes. 245 # Não passavam de uma mistura de erotismo com pieguice rimada. na verdade. Claro que em dois ou três dias a galeria voltava a ficar povoada de recém-chegados. podendo voltar para casa dentro em breve. Da minha galeria. agora. Víctor me obrigou a redigir uma carta endereçada ao meu editor na França. à noite. depois da hora da revista. Foi um dos momentos de maior tristeza que tive naquele lugar. eram os agentes da . sob o pretexto de que eu organizasse para ele uma espécie de fichário. A publicação daquele livro era uma prova de minha existência. quando conseguia. e poder sorrir.conforme ele me comunicou. sem dentes. usava uma bata de enfermeiro. passava o dia tentando colocar os dentes no lugar. junto com os dois ou três presos irrecuperáveis que permaneciam lá. voltava então para a galeria 10.

manifestando mais uma vez o desejo de não perder o "trem" da Revolução. ironicamente "Olha só. o combatente de serviço mandou que me apresentasse com meus pertences no portão de entrada. sem nenhuma ilusão." Fomos até o carro de Torres.Segurança que se faziam passar por presos. escolheram um grupo de presos para trabalhar no Combinado del Este. fiquei mais uns meses em El Morro. de vez em quando. Lá. Nunca passei por tamanha solidão em toda a minha vida. ia sentar-mi atrás. Fitou-me com seus olhos de víbora e disse que ele mesmo me levaria para uma fazenda de reabilitação. subterrânea. irmãos. a gente tinha que se sentar na urina dos outros presidiários. projetavam filmes russos para os presos. um mulato gordinho com a cara cheia de espinhas. bem em cima das celas dos castigos. entre aquelas árvores 248 . era a imagem personificada da destruição. já acontecera tantas outras vezes que obedeci mecanicamente. mas ele disse que podia ficar na frente. quando a maré subia. ao seu lado. No portão. era muito conhecido por sua maldade. um verdadeiro facínora que se comprazia em humilhar os presos. Torres disse. Ele também tinha sido "reabilitado" agora. pois só os parentes próximos podiam vir nos ver: mãe. pálido. você ficou rico. à margem de qualquer estímulo para continuar vivendo. e agora vai sair com todo esse enxoval. chamaram todos os presos da galeria 10 para serem 246 # transferidos imediatamente para a galeria 1. eu sabia que Norberto trabalhava para a Segurança do Estado e que a visita não passava de um contato tramado pela própria Segurança. talvez pensassem que eu confessaria a Norberto minha intenção de fugir do país. era muito estranho. em Mirama r. Quando chegamos à rua 20 com Quinta Avenida. Deu a partida e atravessamos a cidade de Havana. filhos. Claro que fiz exatamente o contrário. encontrei o tenente Torres. Tudo brilhava aos meus olhos depois de passar tanto tempo trancado nas celas de El Morro a cidade me pareceu mais limpa e luminosa. Na verdade. com toda a certeza. haveria grandes mudanças na política cultural cubana. Mas fiquei lá mesmo. mas o fato é que nos colocaram na parte mais úmida de El Morro. Norberto me abraçou e disse que. Um dia. Certa noite. chegou aqui sem nada. Um dia. estava passeando como um fantasma. embora preferisse qualquer outra coisa a permanecer naquela masmorra. Norberto me disse que conseguira um passe através de um parente que trabalhava em El Morro. Agora. seria solto a qualquer momento. gorducho e tristonho. em meio às árvores imensas que lá se encontram. Eu tinha uma sacola cheia de roupas da prisão que juntara na 247 # época em que trabalhara na lavanderia. a água chegava aos nossos pés. vi Heberto Padill a andando pela calçada. Não sei por que fizeram isso. A cela onde passavam esses filmes era um local sórdido e os presos urinavam no chão. trouxe-me um pacote de biscoito e uma novela de Lisandro Otero. Norberto Fuentes veio me visitar. eram realmente horríveis. Contudo. uma prisão moderna de segurança máxima.

com certeza. comecei a ler o último canto. e de quinze em quinze dias recebíamos visita. No dia seguinte. que consistia em construir casas para os soviéticos. Quando voltou. Rodolfo. mas minha busca era sempre inútil. após a alvorada e a revista habitual. chegou Norberto Fuentes. Apesar de tudo. afirmou que tudo estava correndo bem e com certeza eu só ficaria ali poucos meses. Fiquei como ajudante de um pedreiro chamado Rodolfo. também me mostrei otimista e prometi que depois de sair dessa cadeia. meus dentes postiços foram parar no mar. só escreveria elogios a respeito da Revolução de Fidel Castro. Havia muitos presos condenados a trinta anos. chorei como não chorava desde que estava preso. Certa tarde. Só descansávamos aos domingos à tarde. perto de Miramar. Durante uma dessas visitas. Torres fez um sinal e falou no ouvido do guarda. Toda a vida daqueles homens havia sido destruída pelo sistema. eu seria solto em breve. entraram na cadeia aos dezoito anos. Disse para não me preocupar. Pediu-me também que escrevesse uma carta para meus editores na França. ao me ver de uniforme e com a cabeça raspada. Todos os dias. situada no bairro de Flores.# Uma Prisão "Aberta" Chegamos a uma chamada prisão aberta. procurava no fundo da água. Entrei e lá estava Víctor. era um homem de uns quarenta anos. fora condenado à morte. Após a sua saída. e já se encontravam ali há uns quinze. com certeza minha mãe viria na próxima visita. e não podia entender que eu estivesse chorando por causa de um livro. para que eu pudesse acabar de ler o que faltava. Trabalhávamos desde a madrugada até oito ou nove horas da noite. tinham cumprido apenas a metade da sentença. que servia de intermediário entre os guardas e os presos. levantou-se e me cumprimentou efusivamente. as coisas estavam indo muito bem e. deu-me parabéns e acrescentou que estava a par do meu bom comportamento na cadeia. Abri bem a boca para que a água penetrasse dentro de mim e me purificasse. otimista. pois logo estaria em liberdade. Juan Abreu 249 # apareceu. Pude tomar banho de chuveiro. que não terminara por causa da minha prisão no parque Lenin. Juan Abreu me trouxe A Iliada. não tinha por que chorar. depois. seu envelhecimento era fruto do trabalho forçado. que dormia no leito ao lado do meu. me chamou. ia fazer tudo para que me dessem algum tipo de trabalho burocrático. Quanto a mim. dizendo quejá estava praticamente em liberdade . sua sentença foi modificada para trinta anos de prisão. um dos detentos. Entramos e me deram um colchonete e um uniforme novos. fazia uma grande diferença. por isso mesmo. Disse que alguém me esperava no escritório. fomos levados para o trabalho. tentei consolá-lo e pedi que na próxima visita me trouxesse um exemplar de A Iliada. não conseguiu conter as lágrimas. e que era uma pena eu continuar carregando tanta terra. tentando achar meus dentes. e muitos já estavam com quase quarenta. que ficava num tablado acima do mar. Ao terminar. na hora do banho. que ajudara os rebeldes que lutavam contra Castro no início da Revolução. obviamente. Quando Abreu estava saindo. tentou me consolar. A prisão ficava à beira-mar e tinha até um pequeno dique onde a gente podia andar e sentar se.

e foi por isso 250 # que pedi a Juan paranão mais voltar. Xionara Fernández. e que depois caíra em desgraça política. se for esperar que te soltem. vinha freqüentemente. contando a verdadeira situação em que me encontrava e pedindo que fizessem o possível para me tirar do pais. mas seu nome não era perigoso para a Segurança do Estado. eu olhava para ele do meu leito. sentavam-se de pernas cruzadas e sem calcinhas. e via seu pênis erguendo-se enquanto conversava comigo a respeito da russa. especialmente uma ruiva de coxas rijas e mamas descomunais. Sabia perfeitamente que me vigiavam. Lembro-me de outro preso jovem que eu conhecera em El Morro e que me fizera certas propostas. Geralmente. e. nunca me atrevi a desempenhar na prática o papel daquela russa. o mestrede-obra escolhia um dos presos como ajudante e este acabava sendo seu amante. Era uma provocação. pois corria sérios riscos. como também pela traição política. vai ficar de rabo enferrujado. e continuamos trabalhando juntos como bons amigos. Todos aqueles homens. eu mandara recados aos meus amigos na França. Todos os dias saía para cortar rosas no seu jardim e. esposas dos consultores soviéticos. Os presos podiam ficar em certas moradias das construções pertencentes aos soviéticos e ter relações sexuais. pois fazia parte dela. não apenas pela fuga. diariamente. o que era dígno de elogios. masturbavam-se. ajeitavam-se com as pernas ainda mais levantadas. Quanto a Norberto. condenados a trinta anos de cadeia. Os presos. O que ele não sabia era que.e ia todos os fins de semana para casa. Também era servente e. a cada vez que passávamos. para que os presos pudessem admirá-las. e não era de se estranhar que ficassem trancados numa das casas ou que fizessem serão à noite. Fiquei sabendo mais tarde que alguns presos fugiam da cadeia à noite e faziam sexo com aquelas russas. por intermédio de Juan Abreu. com a intenção de nos provocar quando passávamos. Nunca mais vi Juan enquanto fiquei na cadeia. isso era severamente punido. às dez da manhã. desta forma. . enquanto estávamos virando massa. inclinava-se de modo a mostrar as nádegas aos presos. 251 # Nosso local de trabalho dava para o pátio de uma mulher que tinha sido uma artista famosa. Nunca ousei esticar a mão e tocar aquele promontório." Não lhe dei a menor atenção. Rodolfo me contava como aquelas russas o excitavam. conseguira outra vitória. No entanto. dizia que não agüentava mais. ele me disse: "Rapaz. as relações podiam ocorrer com maior facilidade. aquilo divertia bastante as russas. já que o mestre e o ajudante trabalhavam juntos. era o típico exemplar feminino que dominava a mente dos homens cubanos. Víctor voltava com frequência e sempre me perguntava quem me visitara. É verdade que muitas russas. Rodolfojá tinha em mente seus planos eróticos. Fiz a carta e Víctor foi embora todo animado. celebrava-se a cerimônia das rosas. era uma linda homenagem que ela recebia com extrema satisfação. já prontos para aquele momento. propositadamente. dispunham de pouquíssimas possibilidades de ter relações sexuais com uma mulher. Ao escolher me como servente.

quando o motorista deu uma ré bruscamente. e sim participar dos preparativos para fazer a comida. as pequenas brigas. à noite. Para muita gente naquele lugar era engraçado ver um vergalhão trespassar um corpo tão volumoso. Tinha a inteligência peculiar que faz com que se sobreviva em qualquer circunstância. matando-o no ato. e com uma escumadeira. e sempre dava um jeito para me trazer um pouco mais de comida. tínhamos que construir uma escola. Um dia. um dos vergalhões atravessou o corpo enorme de Lavagem. estávamos mais felizes aqui. Era homossexual. segundo os presos. quando me dava mais um pouco. mas não era problema nosso. Lavagem se afeiçoou a mim assim que cheguei. senti que mãos tocavam meu peito e ouvi a pessoa dizendo: "Sou Rodolfo. Chegamos a um enorme bananal onde. e o fazia com tanta paixão que parecia ser a alma do refeitório. Apesar do trabalho incessante." . uma dentre as inúmeras escolas secundárias básicas construídas em Cuba com mão-de-obra escrava . Em meio àquela escuridão. Trabalhava-se dia e noite. Era fácil perceber os corpos que se insinuavam entre as árvores para ter suas aventuras eróticas. Pesava uns cem quilos. Lava252 # gem estava de pé. seu verdadeiro nome. com quem não devia trocar nem uma única palavra. sua maior preocupação era preparar aquela comida. Lavagem nos trazia o almoço no lugar onde estávamos trabalhando. as pequenas intrigas do nosso contexto. talvez o chofer nem fizesse aquilo por antipatia pessoal. tocava-se tambor e dançava-se. a comida que preparava era um verdadeiro banquete para porcos. podíamos fazer nossas refeições ao ar livre e. uma irmandade tácita. naqueles dias houve uma mobilização geral e todos os que lá trabalhavam foram transferidos para o campo. olhando para uma carreta cheia de vergalhões que iam ser descarregados perto do prédio onde estávamos trabalhando. porque. Nossa amizade foi sempre platônica. havia um riacho e a gente podia tomar banho nos raros momentos de folga. era porque tinha sobrado. Estava condenado a quinze anos. também por problemas políticos.isto é. com os presidiários. Ao meio-dia. embora todos os presos o tratassem pelo apelido pejorativo. muitas daquelas escolas eram construídas com tanta rapidez e com recursos tão limitados que após um ou dois meses tudo desabava. a fim de construir uma escola. encontrei meus dentes postiços perto dos chuveiros. Talvez tenha sido a pessoa mais nobre que conheci naquela prisão. e sim apenas para se divertir. habilitando-o a suportar as pequenas tarefas diárias. mas nunca tocou no assunto. Certa noite. o negócio era construir a escola o mais breve possível.Durante todo esse tempo. e conhecia a história de quase todos os presidiários. em quinze dias. trabalhando de graça para o governo. sem a menor sombra de dúvida. meu melhor amigo foi novamente um cozinheiro conhecido por Lavagem. Era imparcial ao dividir a comida. Felizmente para mim. Nunca mais se falou de Lavagem. Sua verdadeira paixão não era a gula. eu o chamava de Gustavo. e a especial sabedoria desenvolvida pelo preso a fim de esquecer que existe algo além das paredes da cadeia. um balão humano. Era quase agradável mudar de lugar e poder estar no campo e cheirar as plantas. avisava-me com quem precisava tomar cuidado. Os estudantes logo chegariam e limpariam aquele bananal. Não sei se foi um simples acidente. alguém sentou-se em meu leito. pensei que a pessoa tivesse errado de lugar. Com a ajuda de Lavagem.

Mas um homossexual sempre infiltra- . após recuperar os sentidos. cercado de mais de quinhentos presos. esses deviam ficar em El Morro. Alguns domingos. Graças a amigos no exterior. voltou a me aplicar a dose de penicilina necessária para a doença. Na minha paranóia. Nunca vi ninguém tão feliz depois de ejacular. continuamos nosso trabalho sem mencionar o 253 # que tinha acontecido. misteriosamente. podíamos tomar banho de mar. voltará à prisão de segurança máxima. foi que tivera sífilis até o ano de 1973. caso algum guarda aparecesse. mas achei melhor permanecer na cadeia até ganhar minha liberdade total. A primeira coisa que disse ao médico em El Morro. de fato. é claro que só podíamos fazer isso sem que os guardas soubessem. queriam me dar uma pós licença. e tínhamos que deixar um preso de vigia para nos avisar. No dia seguinte. porque tudo era controlado pelo governo e os remédios necessários estavam em poder do Estado. não conseguiu conter um gemido de prazer. falando da sua namorada hipotética e de tudo o que iria gozar quando saísse de licença. o médico. Quando voltamos para Flores. fiquei masturbando Rodolfo. Ele aproximou-se de mim com o pênis ereto e. em todos os exames que fiz. Quanto a mim. De qualquer forma. no outro dia. aliás. Havia sido uma grande tragédia para me curar. se o fizer. aquele mulato foi transferido. chegou um mulato imponente. alguns até conseguiam licença para visitar a família. pensei que tinha sido mandado para a prisão para verificar se eu continuava com minhas práticas sexuais. deitou-se no catre que mal dava para um e tentando não fazer barulho. depois do meio-dia. Teoricamente. Lá mesmo. dava pulos sobre o tablado e dizia estar muito contente em me conhecer. nunca fizemos aquilo novamente. pude conseguir penicilina e. De qualquer maneira. era uma imensa alegria poder mergulhar naquelas águas e afastar-me da costa. no último instante. Eu tinha uma grande preocupação: não sabia se ainda estava com sífilis. embora me afirmasse que estava curado. Outro terror era que. Ele andava atrás de mim. consegui que minha mão ensaboada o acariciasse várias vezes para que ejaculasse.Em seguida. Respondi que sim. na minha retratação. ou eram levados para uma espécie de campos de concentração. e um médico me disse que a sífilis podia provocar uma recidiva da meningite. Norberto Fuentes me oferecera sua casa. felizmente. clandestinamente. quando um preso já conseguiu chegar a 254 # uma fazenda aberta nem pensa em fugir. mesmo que fosse apenas cinco ou seis metros. foi só entrar debaixo do chuveiro e seu sexo ergueu-se de maneira impressionante. eu prometera não manter mais contatos homossexuais. na infância. pois sabe perfeitamente que. Sempre fui muito sensível a esse tipo de homem. assim que saí da Segurança do Estado. onde eu estava não podia haver homossexuais. de onde não há escapatória. a sífilis tinha praticamente desaparecido. apesar de não pensar o mesmo. Era um privilégio estar ali. Também disse que precisávamos nos ver no dia seguinte. mas recusei pois não tinha nenhum lugar para ficar. Naturalmente. o qual. enquanto eu tomava banho. abaixou as calças. em pleno barracão. tivera meningite.

um memorial horrível sobre Hemingway. Obviamente. falei que se tratava de um livro contra-revolucionário. chamada A Condessa . nem de onde iria morar. No fim do ano de 1975. Emprestou-me um livro de Cabrera Infante que acabava de ser publicado na Europa. os policiais. A primeira coisa que queria era recuperar o manuscri . me hospedava por ordem da Segurança do Estado. ameaçando denunciá-los. como Héctor era muito conhecido por sua vida homossexual. voltaram atrás em sua decisão quanto à expulsão: "Senhores. Eu não tinha a menor idéia do que fazer com a minha liberdade. Quando os homens souberam. um dia aconteceu o esperado: os homens lhe disseram que não podia mais ficar. pôde terminar sua reeducação. Os outros. assim. podíamos ler livros e sempre havia algo interessante para comentar. ofereciam uma ajuda bastante duvidosa. Pediu que o lesse para saber minha opinião. havia também uma bicha-louca muito extrovertida. pois era veado. e a Segurança do Estado escolheu os presos que teriam uma entrevista com os senadores norte-americanos. aquilo representava um enorme dilema. a não ser para um funcionário de Fidel Castro. e fui morar por dois ou três dias na casa de Norberto Fuentes. Norberto. aliás. aqui há homens casados e isso vai nos comprometer". mas fazia chá. falava sobre balé. já se comentava a possibilidade de negociações entre funcionários de Fidel Castro e os Estados Unidos a respeito de anistia para os presos políticos e sua ida para os Estados Unidos. um dos homens mais sinistros de todo o aparato inquisitorial de Fidel Castro. Víctor veio me visitar e disse que eu estava prestes a sair e que podiam me conseguir algum tipo de trabalho. Não sei como conseguia. ele me emprestou toda uma série de literatura impossível de se adquirir em Cuba. qu e havia perseguido todos os escritores e destruído o teatro cubano. esses senhores não levaram uma impressão muito ruim das prisões cubanas. Assim. a ameaça funcionou e impediu que Héctor fosse expulso pelos mesmos homens com os quais tinha trepado. mas não sabia para onde ir. reeducando também certos homens nos banheiros enquanto os outros dormiam. 255 # Naquela ocasião.va-se nas fazendas para homens. O fato é que. Meus verdadeiros amigos eram pouquíssimos. dedicado simplesmente ao tenente Luis Pavón. Vista del amanecer en el trópico. começaram a dizer. minha permanência em sua casa era uma espécie de interrogatório sutil. Pediu meu conselho e respondi que fizesse uma lista de todos os homens com quem transara. embora fosse excelente. além do meu caso. Alguns senadores dos EUA vieram a Cuba. 256 # Na Rua A liberdade chegou para mim no início de 1976.mas seu nome verdadeiro era Héctor. Ele me leu a obra que estava escrevendo. Lá. Recebia "visitas" às noites no pátio da fazenda. poesia e outros assuntos de caráter artístico. Por fim. o que significava voltar para El Morro. Obviamente. sempre são poucos quando a gente está em maus lençóis. A lista era enorme. acabem com isso. Eu precisava sair do apartamento do Norberto.

conversei com os irmãos Abreu para ver se podíamos recuperar o manuscrito de meu romance.to da minha novela Otra vez el mar." Foi Rodríguez Feo quem me recomendou este médico. e aquele senhor de mais de oitenta anos me respondeu: "A única coisa que quero é que não se esqueça de pedir a Rodríguez Feo para me trazer a revista Playboy que me prometeu há meses. que para mim não apresentava o menor valor. Disse que eu não tinha sido totalmente sincero. queria 257 # ir a Oriente para ver minha mãe e procurar um dentista que consertasse e prendesse os meus dois dentes postiços. em frente à Universidade de Havana. em resposta. Mostrei surpresa e ele. eu queria mais que sumisse com aquilo. que por milagre ainda tinha seu consultório. Eu perambulava pela cidade de Havana com seis ampolas de penicilina. após me examinar. Os outros cômodos da casa estavam quase todos vazios. mas não tinha máquina. que se encontrava debaixo do telhado. foi quem me ajudou. Num deles morava uma francesa chamada Julie Amado. ele mesmo conseguiu as injeções de penicilina e me deu de presente. Oscar Rodríguez também. nem papel e nem lugar onde pudesse trabalhar. Amando García. Norberto Fuentes estava a par de todos os meus passos. de apetite sexual incontrolável. onde havia passado os momentos mais felizes de minha juventude. Certa noite. Agora eu precisava recomeçar a escrever a novela. a polícia era extremamente eficiente. Castro Palomino foi o médico que consultei para me curar da sífilis. subi no telhado e levantei as telhas. A minha segunda meta era curar-me da sífilis e a terceira chegar até o mar. Perguntei como podia pagar por tudo o que estava fazendo. Era um médico à antiga. assim como a mãe dos irmãos Abreu. o Gluglu. disse que não me preocupasse porque não era contagioso e fácil de se tratar. que dava para a cozinha da casa de uma senhora chamada Elia del Calvo. em companhia de 26 gatos. tirou da pasta o manuscrito que eu escondera debaixo do telhado. fosse como fosse. recebeu-me atrás de uma enorme mesa. Essa mulher tinha sido esposa de um comandante do exército revolucionário que morreu numa das inúmeras guerrilhas de Fidel no exterior. Tudo que pude dizer foi que nem me lembrava do local onde tinha deixado aquele texto. Víctor surgiu no hotel trazendo uma pasta debaixo do braço. ainda mais exagerado que o meu ou do próprio . ao chegar. que devia estar escondido sob o telhado da casa onde morara antes. Chamavam-no Pichilingo. O pessoal da UNEAC fez uma vaquinha e assim consegui sobreviver alguns dias no Hotel Colina. 258 # Amando García levou-me para dormir em seu quarto. procurando alguém que me aplicasse as injeções. Eles ficaram na esquina. encontre i um cadeado na porta e não pude entrar. não encontrei nada. Fiquei apavorado. Ter de deixar meu manuscrito em poder da Segurança do Estado me deixou tão furioso que prometi a mim mesmo voltar a escrever. Elia passava o dia inteiro falando de Pichilingo e de como vivia só naquela casa tão grande. No entanto. Em seguida. de fato.

só podiam ir à praia os trabalhadores sindicalizados com a mensalidade em dia. Era uma . Nessas ocasiões. Uma noite. em que Amando passava com um de seus marginais diante da cama de Elia. Ao ver aquele homem na sua frente. acho que Elia tinha ciúmes deles. Pensando bem. ele pisou numa gata. tentando talvez suicidar-se. Elia recolhia todos os gatos perdidos nas ruas. Elia deu um grito e fez o maior escândalo. o número de bichos chegou a cinqüenta. para entrar em casa com um homem. Por sorte. que chego a pensar que mais valeria a pena arquivá-las sem nenhum outro processo de investigação. Consegui demovê-la da idéia. enquanto eu 259 # passava a limpo suas memórias. Elia tinha uma máquina de escrever e. alguns gatos se atiravam da varanda. Queria expulsar Amando da sua casa. A francesa também tinha problemas com os homens que trazia para o quarto. ou ficar naquelas filas intermináveis e trazer peixe para seus gatos. havia enormes muros que iam pelo mar adentro. a burocracia tinha chegado até mesmo ao mar. pois era proibido entrar na água. Mesmo assim. Elia me acolheu em sua casa com a condição de que eu conseguisse peixe para seus 26 gatos e escrevesse suas memórias. nem podia aproximar-me de nenhuma das praias. trazendo-os de volta para casa. contando-me sua vida. entre pratos de peixe semi-apodrecidos. e eu ia anotando tudo num caderninho. era preciso passar primeiro pelo quarto de Elia. Lembro-me de que Amando ficava vigiando o momento em que Elia cochilasse um pouco.Amando García. dizendo que íamos fazer uma leitura juntos. o próprio Fidel Castro era generoso demais e sofria de fraquezas ideológicas. mostrou-me um extenso relatório sobre a conduta depravada e anti-social de Amando García. Para separá-las. descia correndo e fazia um escândalo terrível. só me restava sentar no dique em frente ao . andava atrás de mim por toda a casa. Um dia. Finalmente. que passava o dia falando mal deles e dizendo que eram um bando de vagabundos desocupados. tinha de agir com muito cuidado. Sentava-se numa cadeira e colocava os pés na cama. Tentei intervir. Para ir ao quarto da francesa ou de Amando. esses trabalhadores não podiam escolher a praia de sua preferência. queria passar aquela informação a um dos seus amigos da Segurança do Estado. dizendo que. Elia não dormia. Eu era uma espécie de confessor de Elia. aproveitava para reescrever pela terceira vez Otra vez el mar. apenas vê-lo. pois Elia era uma stalinista convicta. Por ordem do governo. ela amava a literatura e Amando conseguiu passar aquela noite com o amante de serviço. tinham de freqüentar aquela à qual o sindicato fosse filiado. verdadeira casa de doidos. onde abria-se uma gaveta para pegar uma toalha e saía uma gata miando. Não sei o que era mais difícil para mim: escrever a história ridícula e meio louca de Elia. São tantas as informações que os agentes trazem sobre os próprios agentes. na melhor das hipóteses. era a mais pura verdade. em sua opinião. A situação naquela casa era realmente insuportável. Amando talvez fosse um agente superior da Segurança do Estado. com todos aqueles gatos dormindo perto dos seus pés. Como eu não possuía emprego. sua cama enorme ficava ocupada pelos gatos. eu dormia na sala ou ficava esperando do lado de fora da casa. mas Elia não os deixava morrer. A única coisa boa na casa era que eu podia ver o mar.

mas não consegui. varrendo como sempre. lá. entrar na água e nadar. com a maior naturalidade. Não fez qualquer pergunta sobre o tempo passado na cadeia. desaparecia uma sabedoria. tirar a roupa no matagal e ficar com ela. não falava com ele desde antes de ir para a cadeia. parecia que nada mudara desde os anos cinquenta. com ele sumia toda a minha infância. sempre sob uma vigilância das mais severas. na volta. aquilo passava a ser uma espécie de tormento. tinha-se perdido o sentido de gozar a vida. Virgilio me disse que estava fazendo traduções de poetas africanos. que devia chegar a qualquer momento. fazer as coisas sem nenhum sacrifício. pudesse parar de falar e começasse a invocar Deus. que havia sido a melhor parte da minha vida. pois não havia lugar para guardá-la. Eu gostaria de ter chorado ao olhar para aquele rosto. para conseguir chegar à praia muito depois do meio-dia. enquanto eu escrevesse. em frente à casa do meu avô. era quase impossível chegar a Guanabo vindo de Havana. enquanto Maria Luisa preparava o chá. foi-se para mim também todo um universo. as filas começavam de madrugada. Quando cheguei no meu bairro. quando perguntei pela minha avó. sem encontrar um único lugar onde tomar um simples copo de água. Virgilio Pinera também apareceu e leu um poema chamado "A fotografia".mar. uma maneira de olhar a vida completamente diferente. Além do mais. mas seu nome não podia constar dos créditos. mas afirmou que as avós nunca morrem. e sim uma penitência. ela permaneceria ao meu lado. no meio de uma simples conversa. a morte da minha avó era iminente. fui ver minha mãe em Holguín. fantasmas e duendes. era preciso ficar outra vez na fila durante horas para chegar em casa de madrugada. Mais que um passeio. Lezama recebera um convite para viajar ao exterior por inter- . Em pleno verão. Lezama se animou e também leu uns poemas do livro que estava escrevendo. Era igualmente proibido tomar banho no dique. com ela. tinham-lhe dito que havia uma certa possibilidade de o governo permitir que deixasse o país. só falou de literatura. desaparecia qualquer possibilidade de contar com alguém que. com o qual sumia todo um passado de bruxas. encontrava-se minha mãe. Cumprimentou-me alegremente e me convidou para visitá-lo. Ficou muito impressionado com a morte da minha avó. era preciso ficar numa fila imensa e tomar um 260 # ônibus até Guanabo. faltando apenas minha tia Agata. Quando minha avó morreu. Para ir à praia. 261 # Naquela noite. precisamente porque tiveram netos. Minha mãe disse. toda a família se achava em casa. dedicado a Olga Andreu. Poucos dias depois. fui vê-lo na mesma noite. Como viver numa ilha sem ter acesso ao mar? Eu sempre pensara que a única coisa que nos mantinha a salvo da loucura absoluta era a possibilidade de chegar até o mar. apesar de tudo. voltei a Havana e liguei para Lezama. que estava muito mal no hospital. quem fosse apanhado no mar era preso imediatamente. Aliás. Aquilo não era um passeio.

Amando e Julio aproximaram-se sem entender o que estava acontecendo. eu tinha direito ao meu quarto por ter morado na casa da minha tia durante mais de quinze ." María Luisa. Quanto a Eliseo Diego. A partir de então. mas voltar é impossível. contrariada. foi para o quarto e nós três começamos a bater papo sobre assuntos locais e a respeito da mesquinharia de alguns escritores da UNEAC. a qual. nunca veria essas obras. Julio e a todos aqueles rapazes saltitantes e seminus ao meu redor que depois dessas mortes eu nunca mais seria a mesma pessoa? Elia del Calvo insistia que. por lei. com muita raiva: "Aquele canalha. Cintio Vitier e Fina. publicadas na Espanha pela editora Aguilar." E acrescentou com entusiasmo que estava esperando suas obras completas. À meia-noite. Como explicar a Amando. na qual disseram maravilhas de Castro. a realidade tornava-se cada vez mais evidente. Lezama disse que proibira Rafael Arnés e Pablo Armando Fernández de frequentarem sua casa. Naquela noite." Depois da confissão de Padilla. talvez eles até pudessem viver de uma forma mais tranqüila." Não anunciaram seu falecimento. mas na última hora recusou. e que deviam estar chegando. quase sempre marginais. Enquanto isso. Contou como Cintio e Fina foram a Porto Rico fazer uma conferência. apesar de toda a depuração ocorrida no teatro. Foi para evitar que seus inúmeros fãs se reunissem no velório. em seguida. Amando García aproximou-se de mim. Julio era um sujeito um tanto disforme. que acabavam sempre por roubá-lo. Amando García dava umjeito para levar à sua casa todo tipo dejovens. Lezama se limitava a dizer. Embora o governo não tivesse dado autorização para a viagem. pois não passavam de tiras." Mostrou-me então uma pequena nota. comecei a gritar. Lezama terminou a conversa dizendo: "Ir para Paris e ficar lá é deprimente. tinha esperanças secretas de não voltar a Cuba. Lezama dizia que eram uns pobres coitados. Estava com medo do frio. parece que trabalhava para a Segurança do Estado. uma espécie de tartaruga erguida sobre as patas traseiras. fui visitá-lo e encontrei a casa cheia de adolescentes de sunga. 262 # e disse: "Joseíto se foi!" Quando lhe perguntei: "Qual Joseíto?". aquele canalha. onde costumavam se reunir belos adolescentes. nos despedimos e Lezama me disse: "Lembre-se de que nossa única salvação é através da palavra. anunciava o fato de forma muito sucinta: "Sepultado José Lezama Lima. Na noite em que Lezama foi enterrado. escreva. num dado momento. sentia-se cansado. e sim seu funeral. respondeu: "Você não sabia? Lezama Lima morreu ontem. fui à casa de Julio Gómez. certo dia. Quase toda a sua família encontrava-se nos Estados Unidos e Paradiso e tinha uma obra reconhecida internacionalmente. Homossexual assumidíssimo. Lezama e Maria Luisa reduziram seu círculo de amizades. María Luisa ansiava partir. Quanto a Heberto Padilla. este homem nunca foi afastado. de um país estranho. no meio de várias notícias insignificantes. eu gritava: "Hoje Lezama Lima foi enterrado ! Hoje Lezama Lima foi enterrado ! " Perder Lezama e minha avó no mesmo ano lançou-me no maior desamparo que um ser humano pode suportar. Cheguei até o portão da casa e. percor reram todo o país comprando sapatos para revendê-los no mercado negro em Havana. todos prontos a transar com qualquer um de nós. Enquanto eu alimentava as gatas de Elia. No entanto.médio da UNESCO.

Agora. nunca chegou ao fim. mas que iria continuar em outra instância. e sim para prejudicar minha tia. um delator. suspenso em várias ocasiões. . Elia acreditou na nossa história e Amando tratou dos seus machucados. eu tinha o direito de morar naquele quarto. Estávamos na ponte acima da represa quando recomecei a gritar que não podia aceitar a morte de Lezama.anos. Mais uma vez. Estava todo machucado. agora cheia de água. caíram justo na cara de Hiram Prado. que estava a par de suas atividades eróticas. Para seu dissabor. mas também um excelente poeta. Dissemos a ela que fôramos assaltados por marginais. o juiz declarou que o julgamento estava suspenso. Resolvemos nos encontrar no dia seguinte no parque Lenin. eles começaram a nos apedrejar. mas o que saiu da minha boca naquele momento foram meus dentes postiços. testemunhou a meu favor. Aquele ato de exorcismo me fez voltar à realidade. com as mãos feridas por causa do arame farpado. entramos em acordo com um bando de adolescentes para transar nos matagais próximos. Não o fez porque gostava de mim. Corremos em direções diferentes e cheguei em casa de madrugada. ficamos na fila para comprar queijo e chocolate. em menos de cinco minutos. que pareceu feliz em me ver. Tive ganas de insultá-lo. onde tivéramos tantas aventuras eróticas. que tinha sido meu esconderijo quando fugitivo. atirei-me na represa. apesar de todos os amigos da Segurança do Estado que levou ao tribunal. porque. Hiram apareceu na casa de Elia. quando a porta de um ônibus se abriu e desceu Hiram Prado. continuava utilizando-o para suas relações sexuais com o dono da mercearia ou com o homem que limpava ojardim. Também não agüentei e nos abraçamos. com os rapazes atrás de nós. percorremos todo o parque. continuei gritando enquanto Hiram me chicoteava. Minha tia ficou preocupada com todo aquele alvoroço. nadei até o fundo e saí do outro lado. Elia era uma mulher que ainda acreditava nas leis e me obrigou a falar com um juiz para iniciar um processo contra minha tia Agata a fim de obter meu quarto de volta. Trepamos com todo aquele pequeno exército e. Hiram colheu uns galhos de arbustos e começou a me chicotear. que começou a dar gargalhadas. Por fim. Eu sabia perfeitamente que estava abraçando um tira. O lugar se encheu de gente. Lá. com quem eu passara momentos maravilhosos no decorrer da minha vida. ao acabarmos. diante da represa. Minha tia temia 261 # que eu voltasse a ocupar aquele cômodo. mas meu tio ocupava um cargo político bastante alto e o processo. em meio à maior algazarra. Pensando bem. Corremos 264 # desesperados por aqueles matagais. Depois. eu estava comprando peixe para os gatos de Elia. perseguindo-nos por todo o parque. nossa administradora regional. de todos os seus negócios irregulares e dos roubos que seus filhos cometiam no bairro. e tive de apresentá-lo a Elia naquelas péssimas condições. fomos até a represa. Certa ocasião. fora daquela região. Eu tinha direito. apesar dos seus sessenta anos. subimos numa grade com arame farpado de mais de três metros. minha tia corria realmente o risco de perder o quarto. Hiram trouxe minha roupa e lá mesmo. No dia seguinte. tirei toda a roupa e.

embora seu consumo mensal não ultrapassasse alguns poucos pesos. procurando o seu livrinho de racionamento. disse que estava vendendo um e que eu já podia me mudar para lá e pagar depois. enquanto dormiam. Era muito fácil. cortada há mais de um mês. pois o comprador jamais aparece como proprietário do imóvel. cobrava. apenas uma vela. até que. conheci o tal rapaz. mostrou-me um longo poema de sua autoria. ê preciso confiar na boa-fé de quem está vendendo. o avô o possuiu. Era maconheiro convicto e gostava muito de literatura. o avô fazia o mesmo todas as noites e. Certa noite. repletos até a boca. Na verdade. por fim. um velho de aproximadamente oitenta anos que morava em Havana com as tias de Hiram. Depois que sua família fugira para o exterior. O lugar me pareceu tétrico. Esse sujeito tinha dois quartos no antigo Hotel Monserrate. A casa era muito pequena e Hiram dormia com o avô. mas achei que entre 265 # morar com Elia e seus gatos ou ficar aqui era melhor ocupar um daqueles quartos. que admirava muito meus livros e que talvez pudesse resolver o nosso problema de moradia. Hiram resolveu que Elia precisava conhecer Rubén o quanto antes. magro. Para me provar que era realmente dono daqueles quartos. Não havia luz elétrica. passando assim a fazer parte do núcleo familiar. " Assim. Hiram agarrou o pênis do avô e começou a chupá-lo. não havia móvel algum. Rubén começou a remexer num monte de documentos. fomos ver o lugar. À noite. queria me apresentar um cara completamente porra-louca. confessou-me que suas últimas aventuras eróticas. os pais moravam no exterior. a vida erótica irrefreada que Hiram despertou naquele ancião matou-o naquele ano mesmo. pois ele não tinha dinheiro para pagar a conta de luz. pode vender qualquer objeto da casa e conseguir os mil pesos que Rubên está pedindo pelo quarto. apresentamos Rubén como um rapaz sêrio que queria me ajudar. Rubén já aplicara o golpe inúmeras vezes. Naquela mesma noite. de olhos esbugalhados e uma cara de mafioso. depois expulsava do quarto quem tinha pago e recomeçava tudo com outra pessoa. mas que precisava de mil pesos para poder sanar suas dificuldades financeiras. exceto uma cama de ferro dobrável que afundava até o chão quando a gente sentava nela. Dessa vez. aconteciam atualmente com o avô. Ele disse: "A velha tem dinheiro. ele tinha caido numa espécie de degradação progressiva. na cafeteria da Radiocentro. Para me mudar. Hiram. ele era um canalha que em várias oportunidades já vendera aquele mesmo quarto. as mais completas e satisfatórias. Havia urinóis em cada canto. pois o avô já não tinha muitos anos de vida. à noite.Enquanto cuidávamos dele. Resolvi ficar e dormi no chão. As baratas tomavam conta do lugar e havia uma enorme lixeira num canto. a última foi com outro delinqüen- . enquanto ele soltava gritos horríveis no parque Lenin. não existia banheiro porque Rubén vendera o vaso sanitário e restara apenas um buraco no chão. Eu disse que esse amor não duraria. fui eu quem chicoteou Hiram com grandes galhos de arbusto. agora ele só sentia o orgasmo completo quando era possuído pelo avô. Como em Cuba a venda de casas é ilegal. Acabou encontrando. Desde então. sentiu o avô se masturbando a seu lado. era só pôr meu nome naquele livrinho. me fez companhia. segundo Hiram. que tambêm levava uma vida de nômade. Foi o que aconteceu. Amando me disse que. Chamava-se Rubén Díaz e disse ter lido todos os meus livros publicados fora de Cuba.

Para seus objetivos usava velhas vestidas de preto e com bengalas. aliás. A única mulher presente. prometendo um emprego em troca de uma literatura revolucionária e socialista. para isso. estava respondendo a outro processo e minha tia tinha problemas com a administradora regional. ela abraçou-me em prantos. dizendo que sempre me estimara e queria o melhor para mim. continuei morando na casa de Elia. era melhor não mais voltar. pois não tinha emprego. Seu objetivo era fazer com que eu começasse a escrever novelas. Uma vez. quando bateram na porta. Mandei a carta e no dia marcado . reescrevendo Otra vez el mar. e Elia foi até a cozinha buscar um copo." Percebi que se referia a sua preferência pessoal. Cumprimentou-nos como se nada tivesse acontecido e disse: "Tenho um plano para você conseguir o quarto. tinha muitos conhecidos no Partido Comunista e era cheia de truques. Rubén estava muito assustado e ansioso para conseguir o meu dinheiro. agora. onde se reuniam muitos agentes da Segurança do Estado. Por causa disso. em dia e hora marcados. mas. ou seja.te. levaram-me até uma casa no Vedado. quando cheguei na casa da minha tia e fiz a minha proposta. que inspiravam um profundo respeito. continuava na casa de Elia. Minha tia disse que faria todo o possível para conseguir o dinheiro num prazo de quinze dias. as mulheres são muito mais atraentes que os homens. Elia ficou furiosa. Elia estava tomando um trago de rum e Rubén disse: "A senhora poderia me vender um pouco de 266 # rum?" Elia respondeu: "Não trabalho em nenhum botequim para lhe vender bebida. Minha situação era precária. do alto escalão 267 # da Segurança. mas nada comentei naquela hora. Rubén aproveitou-se daquele instante para virar a garrafa toda. que ele denunciou à polícia depois de cobrar dele mil dólares. eu apareceria por lá para assinar o livro de presença. a entrevista foi rápida. Amando García disse que eu tinha direito de pedir de volta meu emprego na UNEAC. Meu tio. Vestindo a sua melhor roupa. era Elia del Calvo com duas bengalas. já estava completamente bêbado. me disse: "Rapaz. apresentou-se na casa de Elia del Calvo. Enquanto isso. todos os meus problemas ali foram sempre provocados por ela. pedindo o seu dinheiro de volta e ameaçando atirar em Rubén a qualquer momento. e quando ela voltou. mandava que outros telefonassem com voz disfarçada. Vá à casa da sua tia e diga que você desiste do cômodo se ela der mil pesos. e também que desistisse da minha vida homossexual. Fazia três dias que eu morava no quarto." Acho que mandou uns homens falarem com minha tia. contos e artigos elogiando a Revolução e Fidel Castro. como se fossem meu advogado. Hiram também tinha bebido muito. Prometi me regenerar por completo e escrever a grande novela épica da revolução castrista. e como eu já tivera tantos problemas naquele quarto. Enquanto isso. ambos estavam em maus lençóis. tem que terminar minhas memórias. e muitas outras coisas no gênero. chamou-nos a todos de ladrões e mandou que saíssemos da sua casa imediatamente. o safado rondava a casa. Na verdade. O sinistro Víctor conseguira o telefone de Elia del Calvo e me ligava constantemente." Rubén pediu então que lhe desse um trago de graça. e escreveu uma carta dizendo que.

pois era neles que havia depositado minha confiança. em contrapartida. Dizia o seguinte : . embora tivéssemos compartilhado uma longa amizade. Ismael sonhou com aquele barco imaginário que nunca chegou. essas mesmas pessoas não aceitavam ficar com meus manuscritos. Era uma casa enorme na parte velha de Havana. todos recusaramse a me cumprimentar. Ele aproximou-se de mim um dia para contar que havia manuscritos meus em sua casa. no último quarto. Chateado com todos aqueles amigos que me faltavam no momento em que eu mais precisava.me apresentei na UNEAC. Nicolás Guillén fechou a porta de sua sala. embora eu não confiasse em ninguém e achasse que ele podia perfeitamente ser um informante da Segurança do Estado. Durante anos. Sua esposajá tinha fugido. Antonio Benítez Rojo. quem se ausentasse do emprego por um período superior a seis meses e um dia. deixou de me cumprimentar. A atitude de muitos daqueles amigos era simplesmente lamentável. dedicava-se a escrever novelas com a mais rigorosa disciplina. Marcamos um encontro na esquina da sua casa para pegar os manuscritos. e que não podia mais ficar com eles. Tratava-se de um amigo com quem podia falar abertamente a respeito do nosso terror e planejar uma nova maneira de fugir do país. tornei-me subitamente invisível. A atitude de Ismael foi completamente contrária à de quase todos os escritores da UNEAC e dos meus amigos anteriores. Rafael Arnés me viu e virou as costas. os Hidalgo. Isto me traria terríveis conseqüências. e disse que lamentava muito não poder me devolver o emprego. Reinaldo chegou obviamente transtornado e me entregou os textos. não podia reassumi-lo. da Casa das Américas. agora. Como era muito difícil dormir na casa de Elia. não haveria como me delatar. chamada Notificação de Rompimento de Amizade. um escritor que nunca publicara nada em Cuba. Outros. Mas mesmo que não fosse informante. Os funcionários me olhavam como se eu fosse um ser de outro planeta. tinha que destruí-los ou devolvê-los. por simples covardia. mas. foi difícil entrar. Era preciso continuar procurando peixe para os gatos. inclusive. peguei tudo ejoguei fora no bueiro. que devolvera os manuscritos. redigi uma nota um tanto irônica. um doente contagioso. de acordo com a nova legislação socialista. As 268 # pessoas da UNEAC foram especialmente abjetas. freqüentemente passava a noite na casa de Ismael Lorenzo. Queria sair clandestinamente. podia considerar-me incluído nessa fuga. se ele fosse um informante. nesse período em que nem tinha onde morar. eu podia dormir e muitas vezes encontrar um pouco de tranqüilidade. que planejava arranjar um barco e eu. pois. esqueceram-se da minha presença. mas ele ainda não conseguira. já que quem ficasse preso por mais de um ano não podia retomar seu posto. talvez ao próprio Pepe Malas. é claro. Era o melhor que podia fazer naquela situação. aconteceu o mesmo com quase todos. por falta de provas. como gostava muito de fofocas. Assim. apavorado. podia muito bem contar aos seus amigos. mas consegui falar com Bienvenido Suárez. e muitas vezes eu também comia desse peixe. nem me via quando eu passava. como foi o caso de Reinaldo Gómez Ramos. Bienvenido Suárez me recebeu com seu sorriso hipócrita. havia uma família.

Mas era uma maneira de obrigar Rubén a manter seu compromisso. tornaram-se proprietá- . Durante o ano de 1977. fez mais de cem cópias e as mandou. essa era uma das minhas armas contra quem me prejudicasse. Reinaldo Gómez. as ditaduras são pudicas. Sim. Utilizavam o hotel para realizar seus negócios. pois pessoas como Ismael Lorenzo. que Rubén me vendia aquele quarto de forma definitiva. De acordo com o balanço de liquidação de amizades. eu podia mostrar o documento. Por vingança. com seu jeito diabólico.Sr. mas. Atenciosamente. durante muito tempo deixamos de nos falar. e ele aproveitou para continuar enviando a nota a todas as pessoas que tinham me prestado algum tipo de favor. Roberto Fernández Retamar. Rafael Arnés. esses quebra-línguas tornaram-se famosos em toda a cidade de Havana. ao lhe tirarem o riso. venho comunicar que o senhor passou a engrossar esta lista. tiraram-lhe também o mais profundo sentido das coisas. Entretanto. porque a venda de um imóvel era proibida por lei. O primeiro que recebeu o recado foi Nicolás Guillén. fiz a seu respeito uns quebra-línguas irônicos. Historicamente. com minha tia e seus dois filhos marginais como testemunhas. Hiram Prado. O Hotel Monserrate já fora antes um lugar muito bom. Otto Fernández. apesar de irmos ambos para a cadeia. Aquilo criou uma enorme confusão. os cubanos sempre fugiram da realidade através da sátira e da zombaria. metidas a importantes e absolutamente enfadonhas. Amando García e a própria Elia del Calvo receberam essa comunicação. em seguida. 269 # Fiz inúmeras cópias dessa nota e enviei-as a todas as pessoas que tiveram uma atitude incorreta em relação a mim. com a Revolução de Castro. logicamente. só em caso extremo aquele documento podia ser exibido às autoridades cubanas. minha tia conseguiu os mil pesos e pude me mudar para o quarto de Rubén. e baseado em rigorosas constatações. Fizemos uma espécie de contrato clandestino no qual se estipulava. incluíam mais de trinta pessoas conhecidas no mundo da dança cubana e no mundo literário. redigi então uma Notificação de Rompimento de Amizade para ele. imitando minha assinatura. Uma das características mais lamentáveis das tiranias é que levam tudo a sério e fazem desaparecer o senso de humor. Percebi logo que se tratava de uma brincadeira de Hicam Prado. a quase todos os meus verdadeiros amigos. realizado a cada fim de ano. se tentasse tirar o quarto. mas com o advento de Fidel Castro o senso de humor foi desaparecendo até ser totalmente proibido. assim. totalmente habitado por prostitutas. o povo cubano perdeu uma de suas poucas possibilidades de sobrevivência. 270 # Hotel Monserrate Finalmente. mas agora não passava de um edifício de quinta categoria. Reinaldo Arenas. e que aceitava a soma de mil pesos.

que desabafava comigo e com Bebita e sua amiga. que viviam do mercado negro e do jogo. o quarto ficou cheio de sangue e todo mundo veio correndo para tentar salvá-lo. simplesmente colocava uma grade de ferro na porta do 271 # edifício . e ocupavam agora vários cômodos com dois ou três filhos.único meio de entrar e sair . era uma família de irmãos. Sua mãe. Esses ramos de flores de tamanho descomunal tinham um certo brilho e um resplendor incríveis para Cuba. se a polícia chegasse. outras. esse quarto era uma estranha combinação. tinham-se reabilitado. imagino que isso se deva às suas relações com os novos oficiais do Exército Rebelde. armava uma confusão que sacudia todo o prédio. dizendo que nenhum dos homens que o filho trazia para casa prestava. No primeiro andar. O homem caiu fora e Maomé foi hospitalizado por uma 272 # semana. morreu poucas semanas depois. quando esta despertava. morava Maomé. cheia de portas falsas e simuladas por trás daquele papel que cobria as paredes. Maomé passava o tempo fazendo enormes ramos de flores de um gosto extremamente duvidoso. uma velha de uns noventa anos. que não era gente séria. e uma irmã. tínhamos que estar sempre atentos para enchê-los. que o agrediam e roubavam seu dinheiro. enfeitava o quarto com flores de papel encerado e cobria as paredes com capas de revistas estrangeiras. pratos e copos eram quebrados em mil pedaços durante esses escândalos. Aconteceu no início da Revolução. na casa de Teresa. Bebita tinha outras amigas e costumava levá-las para o quarto. Morava com a mãe. mas com certo encanto versalhesco. Ao lado de Bebita. Era preciso juntar água em tanques velhos que eu mesmo limpei. moravam "Branca de Neve e os sete anões" . sacudindo o edifício inteiro com seus escândalos. havia apenas poucas mulheres aposentadas ou semi-aposentadas. No segundo andar. que tinha um marido que partilhava com a irmã. fugindo pela sacada em meio aos gritos da bicha. todos anões. Um dia. amante de Maomé e que morava no mesmo prédio com a esposa e o filho. pois a .rias do quarto onde moravam. e vendia tudo no edifício e em toda a cidade de Havana. apareceu no quarto da bicha com um pau e começou a dar-lhe porradas na cabeça. ali guardava dinheiro e garrafas de bebidas alcoólicas. Conseguia algum dinheiro vendendo aquelas flores horrendas. onde não existiam os mais elementares materiais para fazer flores artificiais. Maomé sempre enchia seu quarto de fanchonos violentos. um desses homens. conforme tudo levava a crer. quando me mudei para lá. eram duas mulheres que tocavam tambor e diariamente trocavam socos. as duas irmãs brigavam o tempo todo. moravam Bebita e sua amiga. por exemplo.e todo mundo poderia considerar-se preso. onde eu morava. Ali residia uma verdadeira fauna à margem da lei. Em frente à Branca de Neve e os sete anões. que levara as sobras da luta. por problemas de ciúmes. enquanto a outra dormia. também ocorriam batalhas freqüentes. uma bicha-louca de uns sessenta anos que pesava mais de cem quilos. com a velhice.

mostraramlhe um par de calças mais modernas. Perto da parede. comecei a mostrar como se fazia. Certa vez. Finalmente. juntaram dinheiro para pagar um rapaz que cobrava vinte pesos para trepar com todos eles. Era bissexual e quando me mudei para aquele lugar tive que fazer grandes esforços para mantê-lo afastado. Pepe e eu não nos falávamos. tive que entijolar a porta do meu quarto que dava para o de Rubén. Às vezes. aviões e outros equipamentosum completo parque de diversões para os filhos. assim. encontrava-o em minha cama. esperando por ele. com tinta vermelha. mas ambos estávamos a par das nossas vidas e. coloquei na porta do meu quarto um cartaz com as seguintes palavras: AGRADECEMOS AS VISITAS MAS NÃO RECEBEMOS NINGUÉM. paramos no meu andar. não tinha forças para trabalhar e nem queria fazê-lo. toda a sua família passava o dia martelando o chão com aqueles tamancos artesanais. cada vez mais excitados. Nunca faltava água para ele. Como o rapaz não sabia usar o elevador. fez perguntas a respeito das minhas novas amizades e. Aquelas bichas-loucas estavam todas reunidas na varanda de Pepe Malas. ele pagou e deram-lhe um pacote que só abriu quando chegou no meu quarto.como umajaula suspensa . comemos o abacaxi e depois fizemos amor. Um dia. de vez em quando. dentro. prometeu me arranjar um emprego. Esse "não" era meu protesto em relação a qualquer tira disfarçado de amigo que quisesse me visitar. mais uma vez. Rubén escrevia um poema e vinha bater na minha porta para lê-lo. fazia um par de tamancos. Para evitar aos meus 273 # verdadeiros amigos qualquer tipo de complicação. criara uma espécie de canais aéreos por cima dos telhados de zinco permitindo que a água da chuva se acumulasse em tanques dentro de casa. eu não tinha outro remédio a não ser ouvi-lo. . Pepe e um grupo de amigos. chegou a me convidar para ir ao restaurante Moscou. Tentei contornar a situação. Obviamente. O rapaz trouxera abacaxi e propus que fôssemos comê-lo juntos em meu quarto. ficamos subindo e descendo inúmeras vezes do primeiro ao quinto andar. Pepe ficou com o quarto. em geral. entre os quais Hiram Prado. em Guanabacoa.sem parar no andar onde estavam. Ele tinha sido enganado. a mulher resolveu voltar para a França. pois já estava cheia de tanta miséria. um dos mais sofisticados de Havana naquela época.água chegava de dois em dois dias. Pepe Malas e seu bando viram o elevador subindo e descendo . Quando o rapaz entrou no edifício eu me encontrava no elevador. o vendedor disse que custavam duzentos pesos a mais. mas era difícil. assim. de fato. agora que eu tinha pago os mil pesos. Rubén literalmente morria de fome e. portanto. Finalmente. A dona do quarto era uma prostituta francesa que vivia fazendo escândalos terríveis porque os homens que trazia não queriam pagar ou porque ela queria roubar suas carteiras. às três horas da manhã. o sonho da sua vida era comprar uma calçajeans. No terceiro andar daquele prédio morava Pepe Malas. Víctor conseguiu meu endereço e veio me visitar. que tinha uma imaginação bastante estranha: em sua casa. Chamei para o trabalho um pedreiro chamado Ludgardo. Rubén era muito generoso com os amigos e vivia convidando todo mundo para comer. coloquei a palavra: NÃO. tentávamos torná-las ainda mais difíceis. Com latões cheios de buracos fabricara também rodas-gigantes. só havia jornais velhos. Com qualquer pedaço de madeira. Rubén era um caso perdido.

morríamos de tanto rir. pois a qualquer momento podiam me revistar. Apessoa começou a rir e eu também. enormes buracos na parede. nem dava para ficar em pé. sentado em cima de um tablado. e no mercado negro obtive a madeira necessária para fazer um jirau. lá estava ele. quando comecei a tocá-lo. Pepe podia me denunciar. no entanto. parei ali mesmo e comentei com um ouvinte que o conferencista não falava mais espanhol. terminara a nova versão de Otra vez el mar. Chamava-se Antonio Téllez. cabeças de pombo. como não podia dar nenhum endereço. 274 # i na pois ela era muito favorável à Revolução. gutural. Na data combinada. para isso. Os jiraus eram proibidos pelo governo e tinham de ser construídos clandestinamente. entretanto. pedaços de madeira e velhas tábuas. bem como umas prostitutas reabilitadas ali residentes. que ficava escondida numa gaveta na casa de Elia. em meu quarto. muitas vezes. isto é. no entanto. Interrompi sua conferência. Alejo Carpentier dava uma conferência na mesma rua. Era uma verdadeira odisséia trazer as tábuas para dentro do prédio. louco de raiva. Bebita e sua amiga. trabalhávamos à noite. Justamente no dia em que andava carregando uma tábua imensa. Precisava abrir. era preciso cobrir os martelos com panos a fim de abafar o barulho. tinha que ser no maior silêncio para que a administradora não ouvisse. nesses jiraus. nus. Finalmente. Fomos para o meu quarto e. riu. era preciso andar agachado. a construção de um andar de madeira nos quartos. até Branca de Neve e os sete anões tiveram um. ia de um andar a outro chamando pelo rapaz. tão marcado que parecia um estrangeiro. no entanto. Quando estive em Oriente para ver minha mãe. não conseguia excitar-se e estava muito nervoso. Eu quis ser igual a todos. terminamos sendo apenas bons amigos. que eram militantes do Partido Comunista. fui até o lugar marcado sem a menor esperança de encontrar o recruta. atrás da rodoviária de Havana. Maomé e eu procurávamos. conheci um bonito recruta de Palma Soriano com quem mantive um certo flerte. Nicolás Abreu trouxe uma quantidade enorme de pequenas . enquanto nós dois. passando bem no meio do público e do escritor com minha tábua no ombro. aquele rapaz nunca mantivera relação homossexual. Pepe nunca me perdoou. em todas as lixeiras da parte velha da cidade. mas preferi o apelido de Tony. Naquele período. Foram Tony e Ludgardo que fizeram meujirau. estava em moda o jirau. começaram a aparecer vários despachos: pés de galinha. o que era perigoso. A partir de então. tinha adquirido um profundo sotaque francês. estranhamente. marcamos um encontro para três meses depois. e outras coisas mais. na porta do meu quarto.Pepe. mais perigoso era ficar com o texto no meu quarto. e além do mais. com martelo e pedaços de ferro. o que fez com que a ponta da minha tábua batesse na mesa onde Alejo apresentava a palestra. era um trabalho 275 # pesado. O objetivo era conseguir um pouco mais de espaço naqueles cômodos. Quanto a mim. para o qual se subia por uma escadinha. percebia-se que era um novato.

porque tinha uma voz ainda melhor que a própria artista. Conheci La Gallega bem na hora em que estava tentando fugir com um dos seus amantes. A partir daquele dia. eu não tinha absolutamente nada disso. chamada La Gallega. O outro também era um belo rapaz que eu sempre via no elevador. havia tanta gente por lá que era difícil não se ligar em alguém. Ali se reuniam. um ponto de referência. imitava quase todos os artistas famosos de Cuba e seu maior sucesso era uma paródia de Rosita Fornés. às vezes no Tropicana ou em algum outro cabaré de menor vulto. Tinha sido muito famoso nos anos quarenta e possuía uma quantidade de perucas de todas as cores. Por outro lado.tábuas encontradas em diversas lixeiras. saiu de lá disfarçado de uma linda mulher. mas os acompanhantes dele lhe deram uma boa surra. a bicha-louca mandou esperar um instante para ir buscar o dinheiro e se trancou num closet. bateram na porta. não nutria muitas ilusões. Dizem que certa vez Alderete levou um marginal para casa e este tentou roubá-lo. colocar os dentes tornara-se quase impossível. recuperei o sorriso graças a Alderete. revestimos todo o jirau. todas as bichas-loucas que queriam flertar. ameaçando-o com uma faca. e talvez nunca fosse ter. Hiram não podia acreditar que estivéssemos morando juntos. o safado apaixonou-se pelo personagem que Alderete representava. com elas. Havia perto do prédio um ponto de ônibus chamado jocosamente de Ponto do Sucesso ou A Última Esperança. era Marta perseguindo La Gallega para que esta não fugisse. Entre as vigas e esse revestimento ficou um enorme buraco onde pude colocar os originais de Otra vez el mar. Quanto a mim. gritando palavrões contra mim. Marta era também mãe-de-santo e recebia muita gente para se consultar. uma carteira de trabalhador. onde confirmava ter me vendido o quarto por mil pesos. porque minha correspondência ia para ele e muitas visitas minhas iam bater à sua porta. acompanhado de uma mulher. vi uma enorme mala amarrada com corda descendo diante 276 # da minha janela. . era um adolescente de uns quinze anos. Pepe saiu e tentou acertar Hiram com um cabo de vassoura. pois sabia que Pepe era um tira. Hiram ficou espantado. Durante meses. o marginal ficou completamente fascinado e Alderete acabou chupando seu pau e roubando-lhe a carteira. ele perguntou onde eu morava e respondi que estava junto com Pepe. um dos quais já tivera relações sexuais com Rubén. e certa noite foi à casa de Pepe com um grupo de amigos marginais. responsável por minha prisão. em frente ao Quarteirão de Gómez. em seguida. que nem dentes tinha. No mesmo andar de Pepe morava Marta Carriles com sua família e uma "escrava". Foi aí que encontrei novamente Hiram Prado. perto da sua casa em Arroyo Apolo. Após uma troca de cumprimentos. e o documento assinado por Rubén Díaz. algum tipo de autorização de um clínico geral. Mais tarde. o rapaz nem percebeu que aquela mulher era a bicha velha que pretendia assaltar. começou a espalhar por toda a cidade que eu morava com Pepe Malas. Tinha dois filhos lindissimos. ouvi um barulho enorme no terceiro andar. na ocasiáo um inimigo mortal de Pepe Malas. e ele colocava seus melhores enfeites para esperá-lo. pois era necessário o pedido de um médico. Apesar de tudo. O marido de Marta Carriles era caminhoneiro e trazia alimentos que Marta vendia rapidamente na vizinhança. Pepe ficou louco de raiva. um homem de seus sessenta anos que trabalhava como travesti.

mas o banheiro era dele. mas pedi que entrasse e fechasse a porta. Estava em pleno trabalho quando dois franceses bateram na porta: um rapaz e uma moça que vinham da parte de Margarita e Jorge Camacho. como ele se referia ao fato. Eu não tinha. Agora podia abrir a boca sem que meus dentes caíssem pelo chão. Ele conhecia um dentista que o apreciava muito e não me cobrou um só centavo para fazer uma nova prótese. em pouco tempo conseguiu reaver todas as roupas e adereços e voltou a imitar Rosita Fornés. não tinha o menor interesse em falar de literatura. durante os quais nossa amizade deveria manter-se rompida. o qual. Felizmente. estava agora reduzida a seis meses. pedindo-me um cigarro. Entreguei-lhe o documento e Hiram se foi. Completamente calvo e enro277 # lado num lençol. arrancando pregos de um monte de paus naquele quarto. nesse dia. comecei a dar saltos no jirau. No entanto. da qual eu precisava tanto. quando apareceu na minha porta um rapaz lindíssimo. Os franceses ficaram muito surpresos quando me viram: eu usava um short feito de uma calça velha. onde dizia que a sentença de dois anos. Os franceses se foram e passei uma semana apavorado. não podiam imaginar que um escritor vivesse em tais condições. redigi uma espécie de documento burocrático. era com toda a certeza um ser tão horrível quanto Pepe Malas. O fato de poder sorrir de novo me animou a fazer exercícios físicos. mas o fato é que. ficou furioso e resolveu vingar-se e tirar da bicha velha tudo o que possuía. Rubén decidiu me cobrar cinqüenta centavos por cada vez que eu usasse o seu banheiro. um indulto. estava sem camisa. Conheci-o em plena crise depressiva. Passei uma semana arrancando pregos para desmontar o jirau. resultado do "grande roubo". Eu estava cercado de tábuas e pregos quando ouvi Hiram Prado andando pelo corredor. quando lhe 278 # daria as condições da nossa futura amizade. Não sabia se tinham conseguido sair do país com os manuscritos. inclusive sua coleção de perucas. conseguiram. Maomé me . Foi graças a Alderete que pude colocar meus dentes postiços. e já nem tinha onde cair morto. o homem percebeu que por trás de todos aqueles panos e maquiagem havia apenas um horrivel veado. cortada com faca. Ele disse saber que eu era escritor. talvez soubesse disso desde o início. chamado Lázaro. ou se estes tinham ido parar nas mãos de Víctor. ele já descobrira que eu não morava mais com Pepe Malas. descalço e sem camisa. Minha situação tornava-se a cada dia mais difícil. até conseguir colocar novas vigas. não sendo muito resistente. Rapidamente. era uma terrível chantagem. desabou comigo junto. ele teria que voltar nesse prazo. muito menos depois de lerem meus livros na França.Um dia. mas as autoridades não me deixaram entrar na praia. Convidaram-me a comer no restaurante e queriam que eu fosse a Jibacoa. pus a cabeça para fora e pedi que me esperasse na rua. Encontravam-se como turistas em Jibacoa e iriam permanecer em Havana por toda uma semana. esperando a visita da Segurança do Estado. quanto a mim. Fiquei sabendo que se tratava do fílho mais velho de Marta Carriles. foi assim que minha terceira versão de Otra vez el mar saiu do país.

avisou que se tratava de um rapaz excelente, embora o ascensorista afirmasse que era um porra-louca. Sua mãe, Marta, era uma verdadeira bruxa que vivia se indispondo com as vizinhas, chegando às vias de fato com elas e todos os seus filhos. Mas o próprio Lázaro me contou horrores sobre sua casa, e fui percebendo aos poucos que era diferente do resto da família; tinha problemas mentais evidentes, mas tratava-se de alguém completamente diferente de toda a família, composta de gente safada. Lázaro ansiava por paz e queria ser capaz de ler boa literatura. Fizemos várias excursões fora da cidade; fomos a Guanabo e nadamos no Malecón, embora fosse proibido, e nadamos também perto de La Concha. Um dia, observei nele uma necessidade de violência muito perigosa; estávamos brincando, quando me deu um soco no meio da cara com tamanha brutalidade que receei ter quebrado os dentes. Furioso, corri atrás dele com um porrete. Creio que depois deste incidente emocional nossa amizade tornou-se ainda mais profunda; ele sabia que precisava ter mais cuidado comigo. Quanto a mim, fiquei sabendo que já estivera internado no Hospital Psiquiátrico de Mazorra, o que fez crescer minha afeição por ele. Com a finalidade de ter menos uma boca para alimentar, a família o internara naquele manicômio, o mais horrível da cidade de Havana. Lá, recebeu inúmeros tratamentos com eletrochoques. Ele contou-me que certa vez foi dormir em casa e não abriram a 279 # porta, porque sua mãe ganhara de um criador um pedaço de carne de porco, que os pais estavam comendo naquele momento, trancados, para não ter que dividir com ele, que acabou passando a noite fora. Após ouvir sua história, disse-lhe que meu quarto estava à disposição e até dei-lhe uma chave. Nosso maior prazer era ficar andando pela cidade; às vezes, pulávamos as cercas e tomávamos banho de mar nas praias proibidas. Por intermédio de Rubén, conhecemos outro sujeito fascinante que estava sempre inventando as maneiras mais esquisitas de fugir da Ilha. Segundo ele, era possível fugir numa balsa plástica, depois de pescar peixes bem grandes, inclusive tubarões; bastava amarrálos à balsa e ir em direção ao norte; dessa maneira, em três dias poderíamos chegar a Miami. Dizia chamar-se Raúl, embora nunca se soubesse com certeza os nomes verdadeiros dos amigos de Rubén. No teatro Payret havia sempre filas enormes porque passavam filmes franceses e norte-americanos. Raúl calculava que a bilheteria deveria arrecadar uns dez mil pesos por dia, e elaborou um plano de assalto bastante estranho. Consistia em se aproximar da bilheteria com um enorme balão de gás comprimido, deixar o gás escapar e provocar uma imensa nuvem, para então roubar o dinheiro e desaparecer no meio da multidão. Ou também podia-se chegar perto da bilheteira com uma garrafa de clorofórmio, obrigá-la a cheirar até cair desmaiada, e pegar o dinheiro. Rubén e seus cupinchas chegaram a inventar uma máquina para fabricar dinheiro falso, mas certa noite todos foram presos. A máquina ficava escondida na casa de Julio Gómez, muito amigo de Pepe Malas. O mais estranho, porém, foi que Raúl desapareceu para sempre, enquanto Julio e Rubén permaneceram em liberdade. Um dia, no entanto, compreendi por quê: vi o tenente Victor saindo da casa de Rubén.

Havia também uma pintora que visitava Rubén e que aparentemente caíra em desgraça; chamava-se Blanca Romero. Tinha sido casada com Sigmundo Bonheur, que ocupara certos cargos diplomáticos na África e depois fora mandado por Castro para um campo de concentração em Camagüey. Um dia, Rubén entrou no meu 280 # quarto queixando-se de que Blanca roubara toda a sua roupa enquanto ele estava tomando banho. Fui com Rubén e Lázaro até a casa de Blanca, uma espécie de cortiço na rua Monserrate; não tinha janela, e a porta era mínima. Blanca tinha muitos filhos de pais diferentes: negros, árabes, chineses. Praticava um certo internacionalismo sexual. Depois da prisão do marido, fizera da prostituição um meio de vida, pois ninguém comprava seus quadros, embora fossem extraordinários. Naqueles dias, ela e seu marido atual, Theodosio Tapiez, visitavam pintores conhecidos como Raúl Martínez, Carmelo González e outros. Enquanto o marido elogiava os quadros, Blanca roubava os pincéis e tintas que precisava para pintar; comprava clandestinamente sacos de farinha e recolhia pedaços de tela encontrados nas lixeiras. Assim, pintava aqueles quadros imensos que ocupavam paredes inteiras do seu apartamento. Quando chegamos, Blanca nos mostrou com o maior orgulho uma de suas obras-primas e esquecemos de pedir as roupas. Desde então, passei a visitar Blanca com certa regularidade; ela sempre dava um jeito de ter em casa um pouco de chá, um ovo cozido. Era disso que todos viviamos, em Havana; os ovos não eram racionados, e podia-se comprar chá russo no mercado, embora com alguma dificuldade. Um dia, Blanca chamou todos os amigos e filhos para uma reunião naquele quarto mínimo, onde quase morríamos asfixiados. Ela disse: "Chamei a todos vocês para dar uma notícia horrível: minhas mamas murcharam e caíram." Levantou a blusa e mostrou duas mamas pretas, caídas sobre a barriga. Aquilo representava uma verdadeira tragédia, pois já não podia mais exercer a prostituição, graças à qual mantinha os filhos, a mãe e Theodosio, que cursava a universidade e não podia trabalhar. Lembro-me que todos os filhos ficaram chorando à sua volta, por causa daquela desgraça. Todos tentamos consolar Blanca, inclusive sua mãe, que disse: "Não se preocupe, vamos achar um jeito de te ajudar, mas agora vê se lava os pés, que estão cheios de gordura." De fato, os pés de Blanca estavam tão imundos que sua mãe pegou uma faca e começou a raspá-los. 281 # Fazia um calor insuportável e Blanca se queixou da falta de janela; na mesma hora, começamos a abrir um buraco na parede para fazer uma janela. A parede tinha mais de um metro de espessura e, ao alcançarmos o outro lado, percebemos que não dava para a rua, e sim para um imenso convento, o convento de Santa Clara, abandonado pelas freiras com o triunfo de Castro. O convento estava praticamente intacto e cheio de móveis, baús, vitrais e todo tipo de objetos. Com disciplina de formigas, nos dedicamos a desmontar todo o convento e vender tudo o que havia dentro. De repente, naquele quarto minúsculo onde Blanca morava e onde só havia espaço para

poucas cadeiras, apareceriam vinte ou trinta cadeiras de balanço ou quatro ou cinco baús, que vendíamos em toda a cidade de Havana; certa vez, chegamos a encher um caminhão. Um dia, a administradora regional bateu na porta de Blanca e disse que não entendia como conseguira tudo o que havia no quarto. O buraco que dava para o convento estava tampado por um dos quadros de Blanca. Não havia outro jeito a não ser subornar a administradora, e assim foi feito. Ela escolheu o que bem quis e não nos denunciou. Instalei no meu quarto um banheiro, uma cozinha de mármore, um jirau de puro cedro, e minha pequena sala de estar ficou cheia de móveis do século XVIII. Depois, Lázaro e eu arrancamos toda a madeira do teto artesanal do convento; meu jirau era uma espécie de mostruário para a venda daquela madeira. Blanca, é claro, cobrava uma comissão por tudo o que saía de lá. Os mármores vermelhos tiveram um sucesso todo especial; até a própria Elia e Pepe compraram alguns. Uma noite, um policial nos deteve quando transportávamos uma grande quantidade de crucifixos, cálices de prata e outros objetos valiosos. Perguntou de onde vinha toda aquela merda; dissemos que tínhamos encontrado tudo num edifício demolido na cidade velha, e queríamos apenas enfeitar nossas casas. Como ele ignorava o valor daqueles objetos, deixou que levássemos todo o carregamento. Ludgardo montou uma fábrica de tamancos de cedro graças ao 282 # buraco de Blanca. Para nós, aquele buraco representou um verdadeiro tesouro; até os ladrilhos foram vendidos por toda a cidade. Por fim, Bebita deu a idéia de fazermos varandas e outros jiraus no nosso prédio, e assim fizemos com a madeira e os ladrilhos do buraco de Blanca. Meu quarto foi transformado num apartamento que tinha inclusive uma varanda com grades medievais. Até a administradora teve o seu jirau. Quando viu a nova aparência do meu quarto, Rubén disse que qualquer dia desses iria reclamar sua posse, já que eu não era o proprietário legal. Olhei para ele com toda a calma e afirmei que tinha a posse daquele lugar. Pediu que lhe mostrasse algum documento. Aí fui até a cozinha, peguei um facão que trouxera do convento e falei: "Aqui está, pode ver que esse quarto me pertence." Depois disso, nunca mais tocou no assunto. Blanca resolveu dar uma festa no buraco depois de quase tudo ter sido vendido; compramos velas no mercado negro e enfeitamos todo o convento. A festa começou à meia-noite; tínhamos apenas ovos cozidos e chá, mas Blanca convidara quase todos os velhos amigos: prostitutas aposentadas, cafetões elegantíssimos, travestis que só saíam à noite. Hiram Prado apareceu também. Nessa noite, Blanca e eu bolamos um documento no qual dizíamos que, tendo em vista a natureza diabólica de Hiram Prado, só podíamos nos encontrar em lugares como aquele buraco, na copa das árvores ou no fundo do mar; estava definitivamente perdoado por nós. Hiram estava escrevendo sua autobiografia e nessa noite leunos alguns trechos. Falava de Blanca como uma das mulheres mais cultas e como uma das maiores pintoras do século; dizia que eu era o José Martí de nossa geração. Depois, fiquei sabendo que Hiram mudava o texto daquela autobiografia conforme o lugar onde se encontrava. Em outras versões, eu aparecia como um marginal,e Blanca como uma prostituta vulgar.

Outro convidado era Bruno García Leiva, um porra-louca que estava sempre imitando alguém, talvez porque ele mesmo não existisse. Naquela noite, estava disfarçado de padre, com escapulário e hábito preto; parecia um padre de verdade e muitas prosti283 # tutas pediram-lhe para se confessar, o que ele aceitou fazer solenemente. Às vezes, ele se disfarçava de médico e entrávamos no hospital Calixto García. Enquanto eu ficava dando gemidos de dor, Bruno me levava até uma das salas de emergência; roubava atestados, carimbos e receitas do hospital, o que representava um verdadeiro tesouro. Bruno vendia os atestados a preço de ouro para quem não quisesse ir trabalhar nas fazendas. Os alcoólatras compravam receitas para poder comprar álcool nas farmácias. Hiram Prado, alcoólatra crônico, pagava qualquer preço por uma daquelas receitas. Na festa daquela noite também compareceram Amando García, Sekuntala e Ludgardo. Este era um mulato gigantesco, cujos pênis e bagos imensos destacavam-se, como que desenhados na calça. Lembro-me de que cada pessoa tinha de representar um número artístico; Amando deitou-se no chão, coberto por um dos quadros de Blanca, e de uma maneira cada vez mais ardente, começou a cantar uma espécie de ode a Ludgardo que dizia o seguinte: "Ai Ludgardo, vem logo que estou ardendo, não demore, não se atrase, vou te morder, me dê seu dardo, me dê seu dardo, meu Ludgardo." Ludgardo, na verdade, nem era chegado, mas se divertia muito. Recitei alguns dos meus pensamentos; havia um que dizia o seguinte: "Sinto-me feliz como se Minerva, depois do trabalho voluntário, em troca dos seus celestes honorários, recebesse uma Materva gelada do Partido." Alderete levou sua coleção de perucas e, entre as velas, ecoou sua voz de Rosita Fornés. Por último, Ludgardo declarou que devia existir um tesouro enterrado no convento e que iria encontrá-lo. Então, Blanca nos fez assinar um documento no qual jurávamos que se fosse encontrado algum tesouro ali, receberia uma comissão de cinquenta por cento. Assim, a festa se transformou numa espécie de excursão para descobrirmos algo. Cavamos muito, mas só achamos uma cisterna, que em Havana era quase um tesouro. A partir de então, passamos a vender até duzentas latas de água por dia; formavam-se filas imensas diante do buraco de Blanca. Blanca e Amando García decidiram deixar Hiram Prado tran284 # cado no buraco. Quando perguntei o motivo, disseram-me ter descoberto o que Hiram realmente escrevera sobre Blanca em sua autobiografia. Blanca tinha-se apoderado dessa autobiografia, na qual era descrita como uma bruxa de setenta anos que espalhara sífilis por toda a cidade de Havana e que trepara com todos os marinheiros gregos; que era uma lésbica que transava até com as próprias filhas, além de ser informante da Segurança do Estado. Blanca decidiu que Hiram ficaria preso naquela caverna até que acabasse de escrever outra autobiografia; quanto à primeira, nunca a devolveria. Três dias mais tarde, Lázaro e eu soltamos Hiram Prado. Nada mais havia a ser vendido no convento exceto as paredes; foi exatamente o que Lázaro e eu decidimos fazer: derrubar as paredes internas do convento, limpar cada tijolo e vender tudo,o

onde havia quatro cofres trancados. em meio a um pavoroso estrondo. cuja tarefa era uma "ofensiva de limpeza". Um dia. quando estava quase caindo. Ao que parecia. o que costumava acontecer frequentemente. na qual dizia que iria denunciar às autoridades superiores todos os delitos e as orgias cometidas no buraco de Blanca. nem mesmo a mim. e sim uma espécie de maldição. Ao tentarmos derrubar uma parede. mas antes eu queria arrancar o que ainda restava do teto e vender as tábuas restantes. dizendo que a doença era causada pela grande quantidade de lixo acumulado. houve uma terrível epidemia de tifo na cidade velha de Havana. os prédios eram derrubados e o local tornara-se um verdadeiro paraíso para os ratos e todo tipo de bichos que transmitem doenças infecciosas. A cidade se encheu de caminhões militares. Ele queria que eu lhe ensinasse a escrever. Foi sem surpresa que recebemos uma carta "anônima" de Hiram. em 24 horas. Eu lhe dizia que continuaria sendo escritor. mas o estado em que seus nervos se encontravam impedia que escrevesse. Ele queria escrever. sumiu tudo o que restava do convento de Santa Clara. e isto o consolava. falando sozinho. era incrível como aqueles livros despertavam cada vez mais sua sensibilidade. levamos uma semana tentando abri-los a marretadas. mas escrever não é uma profissão. Emprestava-lhe livros que acreditava úteis em sua formação literária. largava a folha de papel e chorava. Poucos dias depois. Era extremamente agradável olhar lá de cima para a velha Havana. era por essa razão que o local fora abandonado. Sentava-se na escada do prédio. impotente. o mais terrível era que ele havia sido tocado por essa maldição. não reconhecia ninguém. Obviamente. Como não tínhamos o segredo dos cofres. Semanas depois. Na verdade. mas não conseguia. podíamos pegar trinta anos de 285 # cadeia por apropriação indébita. Destruímos rapidamente a parede que sustentava o restante da estrutura do convento que continuava de pé. Se fôssemos acusados daquele roubo. olhando para o teto. as freiras tinham feito aquela parede falsa para esconder o verdadeiro tesouro.que representava um grande negócio. assim. até que tudo veio abaixo. queriam saber se Blanca vendia ilegalmente madeira e água. Ludgardo amarrou uma corda e ficamos puxando com toda a força. dizendo coisas incoerentes. Lázaro voltou a ficar doente dos nervos. Nessas ocasiões. Nunca o apreciei tanto como no dia em que o vi. fazia mais de três anos que não se recolhia o lixo dessa parte da cidade. só para descobrir que não havia nada dentro. A mulher sugeriu que ela suspendesse imediatamente todas as suas vendas. de fato. os oficiais de Castro tinham passado por lá e saqueado aqueles cofres e quiseram encobrir o roubo. Fidel Castro ficou andando por todo o bairro. chorando de impotência por não conseguir escrever. a administradora regional mandou chamar Blanca e disse que uns policiais tinham feito perguntas. fazendo-o descobrir coisas que muitos . descobrimos a existência de outro recinto. A única coisa que podíamos fazer para apagar nossos rastros era não deixar pedra sobre pedra no convento. em Cuba. depois de duas ou três linhas. ninguém conseguia comprar um só tijolo. sentado diante da folha de papel em branco. mesmo que não conseguisse escrever uma única página.

vim com ele porque sei que assim você terá mais prestígio no edifício. já que o padrasto da noiva era bem relacionado junto ao governo. uma moça muito agradável que já fora sua namorada durante anos. Portanto. O recruta ficou lá embaixo. veio uniformizado e com o revólver na cintura. o que nenhum vizinho podia imaginar era o tipo de arma que o tal policial estivera apontando para mim. quando tínhamos essas tertúlias. "Chegou frango. e nunca exigi que rompesse com elas. A lua-de-mel seria em Santa María del Mar. Às vezes. mas acho que as pessoas que sofrem desse mal são como uma espécie de anjos que não conseguem . ficara completamente louco por causa da esposa. essas leituras acabavam com pedras atiradas pelos vizinhos. Uma hora mais tarde. ele o faria por amor a um amigo e não por compromisso. pelo contrário. veio até meu quarto com um primo.críticos nunca haviam imaginado. ele era a pessoa de quem eu gostava mesmo. Sempre entendi o amor como coisa diferente da relação sexual. Lázaro tinha relações sexuais com mulheres. queria ser amigo desse homem. por exemplo. O verdadeiro amor envolve uma cumplicidade e uma intimidade que não existem nas simples relações sexuais. Uma noite. uma discussão entre duas mulheres. o recruta de Palma Soriano. os outros eram simples passatempo. como uma espécie de ladainha. casando-se. mas só para crianças com menos de seis anos" . e outras coisas no gênero. mas não sua esposa. tinha sido arrais e amava a literatura. que era tira. Assim. quando subi com ele para mostrar o jirau. conseguiriam uma casa. ao me possuir. encorajava-o a continuar. ele ficava o dia todo repetindo o que as mulheres disseram. Assim. Repetia tudo que seus ouvidos enlouquecidos captavam. Outras vezes. Achavam que. chamava-se Turcio. Havia um débil mental que também participava de nossas tertúlias. pôs para fora o seu membro maravilhoso. em certas oca286 # siões. nos despedimos amigavelmente. me chamava do banheiro e começava a ler trechos do Don Quixote. Eu preferia 287 # ter relações com um homem que também fizesse sexo com mulheres. tirou a cartucheira com o revólver. fiquei feliz com a notícia de que Lázaro ia se casar com Mayra. Turcio falava sem parar e quando acontecia. Às vezes. ficava no corredor e começava a gritar todas as notícias que ouvira: "Não haverá carne o ano todo" . Nunca pude entender muito bem a loucura. Lázaro tinha verdadeiras crises de ciúmes. cozinhando para ele e atendendo-o em tudo o que fosse preciso. e mal chegou no meu quarto. Um dia. Turcio ficou gritando que havia um policial na minha casa. O casamento ocorreu no Palácio dos Matrimônios e fui padrinho. achava que assim chegaríamos a um entendimento melhor. e Lázaro insistiu para que eu fosse com eles. Mayra bateu em minha porta e disse que Lázaro estava se sentindo mal e queria que eu fosse até o seu quarto. "O ônibus 32 não passará mais por aqui". O recruta disse: "Não se preocupe. porque não os deixávamos dormir." O tira era um fanchono de Oriente. e ninguém o incomodará. quando o recruta ou o policial vinham me visitar. que continuava sendo meu amigo. Eu sempre lhe falava a verdade. lá estava ele com uma das suas crises. O tempo todo. louco de raiva. durante o resto do dia Turcio repetia os trechos da nossa leitura.

quebrou também a de Marta Carriles e a de uma família de testemunhas de Jeová. Ela 288 # foi rejeitada pela família e Marta Carriles a acolheu em sua casa com a condição de ser sua criada. chamado Nonito. Durante as noites. tentavam pôr ordem naquele caos. gritava Turcio. Marta já fizera outro jirau na sala. com vozes fortes de macho. com vários filhos. O padrasto de Mayra acabou não conseguindo o apartamento e eles tiveram que ir morar na casa de Marta Carriles. Lázaro e eu fomos juntos a Pinar del Río. Lázaro me chamou pela janelinha. "Uma guerra civil foi declarada no Hotel Monserrate". Quando me aproximei. Mayra se comportou de forma muito inteligente. além da porta de Pepe. e.suportar a realidade que os cerca. munido dessas armas. pois trabalhava sem descanso. que nem a deixavam ver a criança. mais do que criada. No dia seguinte. (Todas as portas do Monserrate eram de vidro. pensando que fosse uma explosão. necessitam partir para um outro mundo. De pazes já feitas com Pepe. enquanto eles. O jirau de Lázaro era tão pequeno que não conseguiam ficar de pé. prometendo-lhe várias calças jeans e camisas. eu temia que arrebentassem minha porta. La Gallega tinha uma filha. foi entre Hiram Prado e Pepe Malas. Toda aquela gente quis acabar com Hiram. Tivera um noivo com quem fugira de casa. a cama que nos deram para dormir rangia furiosamente. escondidos no meu quarto. a administradora regional. que veio se esconder no meu quarto. Hiram comentou com ele sobre as qualidades físicas daquele adolescente. Uma vez. Pepe tomou o trem para Holguín e trouxe Nonito para Havana. seguida por Victoria. apareci na varanda improvisada e fiz um sinal com a mão. Em meio àquela loucura. Lázaro estava muito melhor e fomos todos à praia. Sem pensar duas vezes.) Pepe e Nonito saíram com uma vassoura e o escândalo foi tal que Hiram. ao que tudo indica. grávida. andamos a cavalo e desfrutamos a natureza. de quem gostava muito. Um belo dia. aconteceu um dos escândalos mais famosos de toda a sua história. Teresa e sua irmã voltaram a arrancar os cabelos uma da outra. por isso chamei Bebita. Enquanto isso. sabia o que estava acontecendo entre eles e também me divertia. Quando voltei ao antigo Hotel Monserrate. Construímos um jirau em cima da cozinha. Hiram Prado tinha um amante de Holguín. alguns meses depois. morrendo de rir. uma verdadeira escrava. Caridad González. criada no campo pelos sogros. Hiram e eu ouvíamos os fragores da batalha. que apareceu com um facão. o ascensorista foi chutado por uma das testemunhas de Jeová. Maomé foi atacado por Branca de Neve e os sete anões. ele a abandonou. Hiram ficou profundamente perturbado. foi esbofeteada por Marta Carriles. Nadamos nus nos riachos. Todos os vizinhos saíram correndo. Bebita e Victoria. subiu até o quarto de Pepe e destruiu em mil pedaços a porta de vidro. . como minha mãe. embora eu tivesse reforçado a minha com uma placa de ferro. Lázaro pediume que ficasse ali e pousou a cabeça em minhas mãos. a panela de pressão explodiu no teto e ecoou como uma bomba. Enquanto permanecemos numa daquelas casas de campo. de alguma forma. fiquei sabendo da história de La Gallega. completamente nu. continuavam fazendo amor no jirau. foi me procurar e pediu um martelo e outros objetos de carpintaria. todos saíram para resolver rixas passadas. Hiram bateu à porta de Pepe e quem abriu foi o próprio Nonito.

invadida pelas plantas silvestres. Nunca pude viver em total abstinência. Quando abrimos a porta. por isso disse a Urbino que assumia os riscos. Sua filosofia era que amor e sexo não passavam de uma fonte de amargura. Lázaro começou a berrar e ficou louco de raiva. chegou a colheita e Lázaro teve que ir cortar cana em Camaguey. Lembro-me que Lázaro levantou-se à meia-noite e desceu do jirau. Permanecemos juntos uma semana. recebi uma carta onde me perguntava o que eu estava fazendo e me pedia para ir visitá-lo. ele voltou. ela amava seu marido acima de tudo. Hiram e eu passeamos pelo parque Calixto García. Gioconda Carrelero. Mais uma vez. deixava Mayra no jirau e vinha dormir no meu quarto. De volta a Holguín. com quinze quilos a menos. Corri para fora. ele caiu no chão. tomamos um ônibus e fomos parar em Gibara. ao me verem daquele jeito. Seu irmão Pepe e eu tomamos um daqueles trens infernais e. Enquanto estávamos lá. lá. não pense que te enrabei por prazer. uma pobre camponesa. fomos enrabados por uns doze rapazinhos e. estive junto ao mar da minha infância. pegou um facão que trouxera do campo. Desci correndo para tirar o facão das suas mãos e ele tentou me agredir. quero o par de sapatos que me prometeu." O escândalo foi tão grande que Gioconda saiu de casa e entregou um par de sapatos de Armando ao adolescente. fomos até o acampamento. chegamos a um lugar chamado Manga Larga. e vi quando quis enfiá-lo na barriga. No dia seguinte. dentre as quais. que tivera uma de suas crises nervosas e estava incapaz de trabalhar nos canaviais. Morava numa casa enorme. seu veado. onde encontramos 290 # Lázaro. em seguida. 289 # partimos para Holguín. fomos à colheita com ele. Este aproveitou para me apresentar a uma série de pessoas famosas no município. e o próprio porto fora invadido pela areia. tomamos o trem de volta para Havana. discreta porém a par de quase todas as aventuras eróticas do filho. um rapazinho chamou da rua o marido de Gioconda. Tive a sensação de ter entrado no inferno mal pisei naquele canavial. Durante uma semana. completamente nu. teve uma das . mas aquela cidade já parecia uma cidade fantasma. casada com uma bicha terrível. Muitas vezes. mas quando viu que estávamos de partida. lá. Um mês mais tarde. no dia seguinte. que era um homossexual reprimido. desmaiado. Lázaro trabalhava agora como torneiro numa fábrica. triunfantes e rejuvenescidos. e chamei os pais de Lázaro. poucos dias depois. depois de uma semana de viagem. de lá. o que fez com que seus nervos ficassem novamente abalados. gritando: "Armando. sua doença nervosa se agravara e sua mãe ainda queria ficar com a pequena quantia que ele recebera pela colheita. encontramos um bando de adolescentes e fomos juntos para a colina da Cruz como última homenagem à cidade de Holguín. mas este era louco por adolescentes. comemos na casa da mãe de Hiram.O escândalo foi tão grande que Hiram e eu. Levantava cedo e dava plantões nos finais de semana. Lá. vieram correndo. Mais tarde. perto da cruz no topo. depois de enfrentarmos uma fila imensa. Conheci também Beby Urbino.

situada no Vedado. com o cabelo liso caído na testa. Era a imagem personificada de uma das bruxas de Macbeth ou dos desenhos de Disney. Por volta da meia-noite. Na verdade. para seguirem remando até Grande Caimã. Ele disse que conhecia uma pessoa em Matanzas que. com o objetivo de chegar à ilha Grande Caimã. costumava cair uma chuva de pedras. embora sua mãe. pois não tinham ferramentas para abrilo. Roberto Valero. o motor não passava de um estorvo que jogaram no mar. A mãe de Lázaro bateu na minha porta. Segundo ele próprio. vestia-se de preto. por uma boa soma em dinheiro. mais do que um simples local de meditação religiosa. Samuel circulava por Trinidad naqueles trajes sob uma temperatura de mais de quarenta graus. Héctor Angulo. eu e outros amigos nos reuníamos diariamente. Amando García. Algum tempo atrás. e tomava chá na companhia de alguns amigos. atravessar todos aqueles corredores e subir uma escada imensa para chegar finalmente aos seus aposentos. ainda morasse na sua própria casa em Trinidad. reuniam-se ali mais de quinze pessoas. olhos esbugalhados. tratava-se também de uma das mais extravagantes criaturas: alto. com cartola e luvas pretas. Quando o conheci. foi quando descobriram que as ferramentas estiveram debaixo do 291 # motor.piores crises. e muito difícil conseguir comida para eles. Hiram Prado tinha me apresentado a um estranho personagem. havia uma mesinha onde Samuel Toca se sentava todas as tardes. Em pleno mar. no quarto de Samuel Toca. além das mãos muito grandes e ossudas. Samuel Toca se "reabilitou" e cumpriu apenas dois anos e meio. seria imediatamente levado à presença da rainha Elizabeth. pude ver uma foto enorme da rainha Elizabeth da Inglaterra. ainda mantinha os hábitos de seminarista. só comiam carne ou peixe. chamava-se Samuel Toca e morava num aposento da catedral episcopal. Foram presos imediatamente por soldados da milícia e condenados a oito anos de cadeia. eram pessoas da . Samuel Toca já tentara fugir numa lancha com outros amigos pelo sul do país. chegando àquela ilha. com câncer. Naquelas circunstâncias. Quando estávamos a sós. pois estivera estudando para a carreira religiosa em Matanzas. O aposento de Samuel Toca. pois me dariam sorte. desajeitado. que dizia ser um ex-preso político que estava tentando a todo custo fugir do país num barco. Sob a fotografia. religiosamente às cinco horas. Era preciso pular uma cerca bastante alta. dentes gigantescos e a cara cheia de espinhas. nariz proeminente e adunco. transferindo-se depois para a igreja episcopal em Havana. por quem experimentava uma adoração compulsiva. podia nos tirar da Ilha. Aceitei. trazendo um balde com duas tartarugas dentro. era principalmente um centro de encontros literários. Não era só pela estranha roupa que vestia. estava saindo da cadeia e morava na catedral episcopal. Samuel tinha profunda paixão pela Inglaterra e achava que. Embora levasse uma vida erótica bastante evidente. Durante uma das visitas que fiz a Trinidad. Samuel e eu falávamos da possibilidade de deixar o país clandestinamente. todas as noites. boca imensa. bem no meio da sala. até que viram terra firme e começaram a gritar saudações para a rainha. Continuaram mais um pouco à deriva. Disse que São Lázaro lhe pedira para que eu ficasse com elas. embora fosse muito triste ver os dois bichinhos presos. o motor da lancha quebrou e não houve jeito de consertá-lo.

aqueles ataques duravam sempre uma meia hora e depois tudo voltava à tranqüilidade anterior. De volta a Havana. A partir de então. A carta anônima que mais chocou Pepe foi a que se escreveu a respeito de Samuel Toca. Samuel servia o chá com a maior cerimônia. ao invés de levá-lo à delegacia. pediam seus documentos e depois simulavam prendê-lo para averiguações. aquele sujeito totalmente desajeitado. quando subi à tonaque horror! -. Nunca esquecerei a cena de Samuel de short. baixavam a calça do rapaz e chupavam . ficamos na casa de Roberto Valero. em protesto contra sua atividade religiosa. Pediu os nomes das pessoas que iriam no barco. pois Samuel deixava entrar na igreja qualquer pessoa que encontrasse. dirigido a todas as almas respeitáveis da cidade. estava ao lado de um barco russo. que porém se afastou rapidamente. Pepe Malas dissera a Samuel que seus poemas eram realmente pavorosos e este deixou de falar com ele. Nessa hora. a qualquer momento. inclusive um tira que acabou se revelando uma bicha-louca. sempre invocando sua majestade britânica. com quem percorremos toda a cidade de Matanzas e chegamos até a baía.292 # administração regional. Víctor acusou-me de contra-revolucionário. pois 293 # quando ia paquerar nos mictórios. Depois. pela condenação das orgias que ocorriam na igreja episcopal. Hiram e eu redigimos uma nota que espalhamos por toda a cidade. que tinha inclusive assassinado um adolescente. atiravam pedras. Mas não deixei passar. fui visitar Víctor que disse: "Bem o que foi que aconteceu com o barco no qual queria fugir?" Eu não sabia o que responder. era simplesmente arriscado permanecer ao lado de uma pessoa tão horripilante. No entanto. e começava a ler alguns dos seus poemas horríveis. Na realidade. Fomos finalmente a Matanzas. onde contactamos uma mulher que disse poder nos tirar do país. comecei a ficar com medo de todo mundo. escrevi nas paredes de todos os mictórios da cidade as piores difamações a respeito de Pepe Malas: que era o mais aveadado de todos os veados. eu não queria dar o meu nome nem o de Lázaro. onde tomamos banho. era preciso fechar todas as janelas do quarto. iam para o mato. Mergulhei e nadei submerso. principalmente de Samuel Toca. que não merecia a benevolência que a Revolução tinha para comigo e. Conheci aquele tira antes de Samuel. Várias me foram enviadas. Lembro-me do que me contava: quando ele ou seu parceiro estavam de ronda e viam algum rapaz bem-apessoado. o próprio Pepe ficou horrorizado. poderia voltar para a prisão. com seu corpo foi alvo das pedras lançadas pelos garotos da praia. um dedo-duro da Segurança do Estado. saía correndo ao ver aqueles grafitos. ele estava a par de tudo. referindo-se a mim como a um sujeito desprezível. a nota não mentia. Naquele período começou o que poderíamos chamar A Guerra das Cartas Anônimas. todo mundo recebia esse tipo de cartas ofensivas. ou a outras pessoas. tratava-se de um apelo moral e patriótico. tenho certeza de que foi Pepe o autor de várias delas. Samuel Toca foi muito explícito e falou com ela como se a conhecesse de longa data.

Pepe teve vários dentes quebrados. vestida de homem em plena catedral. o bispo levantou de madrugada e encontrou Marisol completamente nu. havia outro personagem dantesco chamado Marisol Lagunos. Cristina Fernández. as pessoas apareciam com um epíteto que as caracterizava. Marta Carriles saiu em defesa de Pepe e começou a trocar socos com Cristina. Este dizia que estavam estudando o livro intitulado A oração comum.seu membro. Quando Amando se mudou para lá. e encontrava dez ou doze rapazes nos aposentos de Samuel. Nós também nos incluíamos na lista para despistar. 295 . como também eróticas. A nota elaborada por nós dois falava de todas essas orgias e as descrevia com cores ainda mais sombrias. Na carta. às vezes. ficava na porta da igreja e entregava a cada participante um exemplar do livro A oração comum. que seria espalhada portoda a cidade. contou-lhe que Pepe estava preparando uma carta anônima contra ele. para que todos pudessem lê-la. mais conhecida como Hércules de Trinidad. Quase todas as pessoas que liam a carta acrescentavam algum detalhe. Como se não bastasse. Samuel ficou louco de ódio e o bispo o chamou para esclarecer o caso. o bispo o expulsou da igreja e avisou a Samuel que tinha apenas trinta dias para abandonar o local. Samuel chegou à casa de Pepe Malas com seu guarda-chuva preto e Cristina. são ouvidos no interior das sacras paredes os gemidos mais estranhos. a qual passou a agredir Pepe enquanto este ameaçava chamar a polícia. num dia de missa a carta apareceu colada na porta da igreja. nosjardins da igreja. por exemplo. textualmente: "À meia-noite. Nessa lista. e a coisa acabou se transformando numa espécie de novela. matrona licenciosa. ex-fugitiva e bandoleira. aquela casa era como uma grande gaiola de loucas. resultado dos atos sexuais mais estranhos. que na ocasião fingia ser amigo íntimo de Samuel. Hiram. Amando García se mudara para um quarto na casa do pintor Eduardo Michelson. Manuel Baldín. Rafael Arnés. sendo enrabado por um negro imenso atrás do altar-mor. Aristóteles Pumariega: sátiro inveterado. constava que Samuel Toca. De qualquer forma. e que aparecia com o epíteto de "marafona clandestina"." Em seguida. o próprio bispo saía da sua residência. vestindo traje religioso. Certa noite. bicha dengosa. dávamos uma lista de todos os participantes dessas orgias. As tertúlias de Samuel Toca não eram apenas literárias. à meia-noite. e Samuel continuou morando na igreja. faz uma paródia de 294 # "Sóngoro Cosongo". No fim da carta. anti-social. Reinaldo Arenas. de Nicolás Guillén. Esta carta circulou por toda a cidade de Havana e uma das primeiras pessoas a recebê-la foi o bispo da igreja episcopal. uma espécie de catecismo utilizado naquela igreja. jurando não ser autor daquela carta. sapatão boca-suja que. Dizia. Hiram Prado: travesti. Nancy Padregón. uma espécie de missa negra na igreja episcopal. mas Samuel também acabou levando umas boas bofetadas de Marta Carriles. ajudante ou coroinha da igreja. ninguém levou aquela carta a sério. pediu-me que fosse morar com ele por uns dias para fazer uma série de consertos. bicha-louca.

armou um escândalo tão violento que expulsou todo mundo da sua casa. O amante de Carilda. Temendo que a polícia aparecesse a qualquer momento. pois essa chuva de pedras acontecia diariamente e era assim que os vizinhos manifestavam sua desaprovação. resolveu se disfarçar de homem e saiu vestido de miliciano. parodiava os versos daquela mulher com sua voz grossa de barítono. Michelson tinha guardado um galão de aguardente.# Certa noite. Michelson disse para ninguém se preocupar. Fora cantor de ópera e depois. ou mandada por Jorge e Margarita. por essa razão. 296 # que atuava como intermediário. Enquanto lia. Ela não tinha o senso do limite e. A festa se prolongou até o dia seguinte. uma chuva de pedras se abateu sobre a casa. por ter ficado doente dos nervos. outro inquilino de Michelson. passei a manter com Valero relações amigáveis. tomara 35 copos de água. muito mais jovem que ela e completamente doido. naquela noite. Pedro Juan. não tivemos notícias dele. e quando foi apanhá-lo encontrou em seu lugar um galão de água. que eu vendia depois na cidade de Havana. mas ninguém se atreveu a ir para a rua. fazia frequentemente um papel ridículo. Carilda. os comitês de defesa vigiavam todas as esquinas para que nenhum contra-revolucionário fosse visto pelos estrangeiros convidados para o Festival. Durante dois dias. Michelson resolveu fazer um minifestival em sua própria casa. que estava oferecendo uma das suas tertúlias clandestinas em sua casa de Matanzas. e vendia tudo em Matanzas com a ajuda de Roberto. facas. levei Maomé e Hiram Prado. os gatos pulavam. Se ele desse um grito. quebrando as vidraças que ainda restavam. revistaram a casa e. Carilda nos contou em segredo que estava muito nervosa porque seu marido. Cozinhamos o macarrão numa tina. Eu levava roupa comprada no mercado negro. aliás voavam. Colhíamos também todo tipo de frutas em Matanzas. até o Festival terminar. felizmente. um marginal da pior espécie. estava esperando um amante. alguns de péssimo gosto e ao mesmo tempo muito bonitos. não houve grito nenhum. lia poemas imensos. machados. como convidados especiais. assim como financeiras. Valero tinha sido preso pela Segurança do Estado. Quando cheguei a Matanzas. ficou numa fila imensa e comprou pacotes de macarrão. Depois que Blanca teve de fechar seu buraco. para a casa de Roberto Valero. também possuía muitos gatos. apresentei as quatro grandes categorias em que se dividem as bichas cubanas. Durante aquelas reuniões. todos nós tínhamos que correr para ajudá-lo com essas armas. tratava-se de um evento clandestino. estávamos morrendo de fome. Durante o Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. teve de largar a profissão. O problema era que. Michelson entregou a cada um de seus inquilinos todo tipo de ferramentas: martelos. para o qual seriam chamadas apenas pessoas de confiança. Por fim. Naquela hora. e sua esposa estava aterrorizada. obviamente. assim como Elia del Calvo. Todos nós tínhamos que apresentar algum número. não encontraram nada realmente comprometedor. naquela noite. Na noite em que o libertaram fomos à casa de Carilda. e com a ajuda de Maomé e Hiram Prado. à sua volta. ele . resolvi ir para Matanzas. Felizmente. que faziam o coro. inclusive os que pagavam aluguel.

abri ajanelinha e dei um golpe tão violento com o pau que ele ficou completamente tonto. e ele jurava que uma delas pertencera ao general Martínez Campos. ele brandiu o sabre várias vezes no ar e acabou atingindo um dos gatos. tirei os cadeados. recebi meus lucros com a venda das roupas efetuada por Valero entre seus amigos. Como a porta tinha uma espécie de janelinha que dava para o jirau. para não ler esse poema. dei outra porrada. Voltei para Havana. quem sabe pensou que os golpes viessem de alguma força diabólica e invisível que só eu possuía. Além da sua paixão por água. meu amor. sua puta. me trazia comida que roubava de Marta. Peguei-o desprevenido e ele não conseguiu entender de onde viera a paulada. O marido brandia a arma cada vez mais perto de Carilda. foi quando Carilda perdeu a paciência e disse: "Eu lhe permito tudo . No dia seguinte. às vezes. Apenas Lázaro sabia que eu estava no quarto e. ele estava tentando abrir a porta à força. tirou o vestido e ficou de calcinha. peguei um pau debaixo da cama para me defender em caso de agressão. marido e mulher perderam-se pelas ruas de Matanzas em meio àquele espetáculo. Quando acabou o Festival. morro de anseios. sua puta!" Carilda suplicava: "Por favor. Amanhecia e Carilda continuava lendo seus infinitos poemas. Um dos poemas tinha um tom nitidamente pornográfico e o marido de Carilda apareceu de repente com o sabre de Martínez Campos. esta casa é minha e faço tudo o que 297 # tiver vontade. eu podia fechar a porta com três ou quatro cadeados ao mesmo tempo. ela deu um grito e saiu correndo de calcinha pelas ruas de Matanzas. mas não faça escândalo na minha cidade." No entanto. avisou que se tratava de uma estréia mundial. Deixou para o final os mais eróticos. morro de anseios." Carilda não perdeu a pose e continuou lendo. achando que não havia ninguém em casa. gritando: "Eu te avisei. tinha mais uma fraqueza: a de colecionar sabres. e quando cheguei no meu quarto tranquei-me com cadeado. até que a feriu nas costas. Nunca mais voltou. ele nem quis saber de onde veio e começou a correr. porque o Festival arruinara o país por completo e não havia absolutamente 298 . e colocar um cartaz avisando que não estava em casa. menos machucar meus gatos. era uma técnica que praticava há muito tempo para despistar a polícia e os visitantes importunos. havia na casa um quarto cheio dessas armas. Com muito cuidado. berrando: "Pare. e depois contou-me que o tecido estava podre. Ninguém podia imaginar que estivesse no quarto. O negro se refez e voltei a abrir a janela." Para mostrar que não estava brincando. porque fechei a janela logo em seguida. naquela manhãem Matanzas. como um que dizia: "Quando te toco com o bico de meus seios. olhei com muito cuidado pela janelinha e vi um negro gigantesco que fora um dos meus amantes nos últimos meses. agora a situação ficara ainda mais difícil. dessa vez. ele mesmo comprou um camisão hindu que ia até os joelhos. ouvi alguém forçando a porta. depois. De madrugada." Depois de ler tudo o que escrevera recentemente. enquanto o marido vinha atrás. me mate.tinha um desequilíbrio qualquer na próstata e tomava água constantemente. saía pela janela e ia dar exatamente nojirau.

as duas tartarugas de Marta Carriles me fizeram companhia. Houve um evento importante na igreja onde todos os noviços e aspirantes a sacerdotes podiam vestir suas roupas mais luxuosas. no entanto. Não sei como conseguiu prolongar sua estada na igreja por mais três meses. sempre foi muito exibicionista. avisou naquela mesma tarde que ele deveria desocupar seus aposentos. pretendendo deixá-las no lago das tartarugas. embora a freira insistisse em tocar sua melodia. quase voaram de tanta felicidade. Não sei se agia assim por estar em pleno êxtase ou por o pênis do negro ser tão gigantesco que o obrigava a socar os tubos daquela maneira. estava sendo enrabado pelo jardineiro negro. porém. eram quase o simbolo da minha própria vida. o que saía daquele instrumento era um som realmente infernal. ao chegar. Hiram dava porradas nos tubos do órgão. Nunca vi dois bichos tão contentes e com tanta energia. enquanto eu corria feliz debaixo daquela chuva. Samuel Toca foi um dos primeiros a ganhar . a fome era tão violenta que frequentemente as pessoas roubavam animais do zoológico para ter o que comer. a música do órgão começou a fluir por todo o templo. Em meio àquela crise. foi Quando percebemos o que estava acontecendo. de repente. que. consegui colocar as tartarugas no chão. o coro parou de cantar. aconteceu outro escândalo parecido com o de Marisol. Logo em seguida. A cerimônia teve início e Samuel fez questão de ostentar todos os seus paramentos. Há muito tempo que olhava com pena para aqueles bichos morrendo de fome. Hiram Prado. parecia um fantasma saído de um pesadelo escandinavo. já estávamos no ano de 1979 e Fidel Castro resolveu se livrar de alguns ex-presos políticos. sabendo que Samuel convidara Hiram. Toca se vestiu de branco e pôs uma espécie de carapuça verde. O bispo. subiram até o 299 # recinto no qual se encontravam os tubos do órgão. não lhe pertencia. percebi que se fosse apanhado pelos guardas com as tartarugas. Ficou famoso o caso de pessoas que mataram o leão do zoológico de Havana e o comeram. tudo era mais complicado pelo fato de não ter emprego. desabou um temporal que inundou as ruas de Havana. inclusive o bispo. obviamente. Samuel pedira a todos os amigos que viessem vê-lo em todo o seu esplendor. o instrumento não emitia os sons habituais. Foram até a água e desapareceram no lago. O fato é que em toda a história da igreja episcopal nunca houvera algo semelhante. Felizmente. e enquanto se realizava a conjunção daqueles dois corpos. Quase todos os presentes. os quais não tinham a menor relevância. Senti então uma imensa sensação de alívio. eles pensariam que eu as estava roubando e me mandariam para a cadeia.# nada para comer. Para aquela ocasião. Subitamente. Quanto a mim. apesar da freira continuar tocando com todo o seu profissionalismo. Hiram e o negro fugiram nus pelos jardins da igreja. os bichos correram. Samuel pediu um mês e ameaçou apelar para a Reforma Urbana. Peguei uma sacola e levei-as para o Jardim Zoológico. Finalmente. De fato. e sim ruídos muito estranhos. Na igreja episcopal. completamente nu. o bispo iniciou o sermão e.

Desde então. divulgou na imprensa tudo o que eu pedira que mantivesse em segredo. dizia: "Espero que continuem se encontrando na igreja episcopal ou em algum outro lugar. minha amiga francesa. Quanto a mim. pedindo-lhe que desse aos meus amigos Jorge e Margarita o seguinte recado: por favor. como já sabiam com quem estavam lidando. 300 # com muito tato. avisei para dizer aos dois que agissem com a maior discrição. ao perceberem que nem pensava em sair. Naquela ocasião. Uma semana após a partida de Samuel. o que fez com que perdesse o emprego e fosse internado num manicômio. para tentar me tirar clandestinamente num navio mercante. ele foi insultado. Víctor apareceu no meu quarto. que fizessem todo o possível para me tirar do país clandestinamente. perguntaram-lhe. respondi que não estava a par de nada e que Samuel fizera tudo aquilo para me prejudicar. a vigilância sobre mim aumentou e Víctor me avisou que se aquilo voltasse a acontecer não teriam pena de mim. Valero foi expulso da universidade e mandado para a cadeia. chegou a enviar as cartas para os locais de trabalho ou para a universidade. escreveu dizendo que fizera tudo para me tirar de Cuba. Samuel respondeu que ficaria talvez até o fim do ano. mais uma vez. Quem delatou as leituras de Virgilio como sendo contra-revolucionárias foi Rafael Arnés. a mim e a todos nós. ele se trancou numa espécie de angústia silenciosa e no terror. para certas pessoas. atualmente exilado. 301 . falara com Olga. Margarita e Jorge o hospedaram por mais de um mês. simplesmente utilizou-se da minha amizade para chegar aos órgãos da imprensa espanhola e francesa. Aproveitei para falar a sós com ele. Samuel começou a mandar cartas muito estranhas. eu mesmo pude confirmar isto mais tarde através do amigo René Cifuentes. sabia que toda a nossa correspondênciaera censurada pela Segurança do Estado. Só escrevia para nos prejudicar. Assim que chegou à Europa. no entanto. mas ainda assim deram-lhe dinheiro para procurar um hotel. até quando ia ficar. Numa carta para Valero. Uma vez. pegaram todos os seus manuscritos e proibiram-no de voltar a organizar qualquer tipo de leitura pública. naquelas tertúlias contra-revolucionárias que costumávamos celebrar juntos. onde se lia. Imediatamente. a Segurança do Estado fez uma visita à casa de Virgilio Pinera. mandaram-no embora. Até o próprio bispo ofereceu uma pequena festa de despedida em sua homenagem. ele assumiu ares de importância. Naturalmente. Em outubro." Mandou uma carta igual a Juan Penate. Escrevi para Jorge e Margarita contandolhes tudo que Samuel tinha feito.permissão de saída. fomos todos até a igreja para dizer adeus a Samuel. da Espanha. em grandes manchetes : REINALDO ARENAS PEDE PARA SAIR DE CUBA OU AVISA QUE VAI SE SUICIDAR. não tinham de onde me expulsar e se me prendessem de novo isso causaria um escândalo maior. Samuel fez exatamente o contrário: tão logo chegou à Europa. trazia um exemplar de Cambio 16. era ele quem ia embora para o mundo livre. Foi assim que Samuel guardou segredo de tudo o que eu tinha pedido.

o ódio era ainda mais profundo. Lá estavam também María Luisa.Adeus a Virgilio Virgilio também concluiu que a única salvação possível era fugir da Ilha. seguiram bem antes para o cemitério. que se formasse uma aglomeração por causa daquela morte. Fidel Castro sempre odiou os escritores. Virgilio caiu na mais completa desgraça junto a Fidel Castro. talvez por se tratar de um homossexual. Finalmente. e também porque sua ironia era corrosiva. disse o seguinte: "Você já sabe que vão permitir a saída de Padilla? Veja só. Abri a porta e Pepe me disse: "Virgilio Pinera morreu. . Uma semana depois. isto é. faltava o principal: o corpo de Virgilio Pinera. embora eu tivesse minhas dúvidas a respeito dessa morte. vão nos soltar também. A Segurança do Estado tentou evitar. a novela era simbólica demais. mas. uma multidão composta de jovens. já que sempre se faz a autópsia antes de levar o corpo para o velório. e quando estava em companhia da faxineira semanal. eu nem podia ir ao enterro de um amigo meu. Pouco tempo atrás. O carro fúnebre de Virgilio corria a toda velocidade. Quando cheguei ao velório e não vi o corpo de Virgilio. seu corpo está na capela Rivero. Era praticamente impossível acompanhá-lo. A Segurança do Estado queria saber quando Virgilio estava em casa sozinho. Pepe Malas apareceu na minha porta. Víctor chegou para me dar a notícia e avisou que era melhor não aparecer. e outros amigos. fato esse muito estranho. no caso de Virgilio. Um sujeito tão estranho e maldoso como Víctor nunca faria tais perguntas por mera curiosidade. já fazia algum tempo que voltara a falar comigo. no entanto. Um dia. Com sua novela Presiones y diamantes. anticomunista e anticatólica. como Guillén e Retamar. na qual descobre-se que um famoso diamante é falso e o jogam na latrina. por todos os meios. Era o cúmulo. naquele enterro. um anagrama do nome de Fidel. No momento exato em que estava sendo levado. Víctor me perguntara se eu via Virgilio com muita 302 # freqüência e quem era a pessoa que fazia a faxina em sua casa. Ele representava o eterno dissidente. enquanto andávamos pela cidade velha de Havana. de patins ou bicicletas. No entanto. mais espertos. Assim que Víctor foi embora. não foi bem assim. Virgilio jamais conseguiu partir." Infelizmente. compreendi que ele desempenhara sua tarefa à perfeição. vi no rosto de Víctor um ar de satisfação e prazer. desconfiei logo que aquela morte pudesse ter sido um crime. certamente por ordem da Segurança do Estado. o constante inconformado. sob o pretexto de que era preciso fazer uma autópsia. muitos não tiveram coragem de ir." Meia hora mais tarde. seguia o corpo. o corpo foi trazido apenas algumas horas antes do enterro e levado até o cemitério. O cadáver fora retirado pela Segurança do Estado. Outros. o eterno rebelde. O diamante chamava-se Delfi. vesti-me e fui ao velório. inclusive os que estavam a favor do governo. As autoridades cubanas informaram que ele falecera de enfarte. e ficaram esperando o corpo lá mesmo. se estão soltando Padilla. a viúva de Lezama.

duvido que alguém que tenha sido preso consiga. estava à minha espera o meu próprio cadáver. Parece que. porém. jamais seria um verdadeiro ser humano. Acho que a minha atitude durante o enterro de Virgilio chamou a atenção da Segurança do Estado. Na memória de todos nós. no sentido mais completo da palavra. olhando-me no espelho. uma das mais importantes agentes da Segurança do Estado. Em primeiro lugar. Quando voltei ao meu quarto. ou desse sua última gargalhada irônica contra o regime. Assim era minha vida no início de 1980. e a vigilância sobre mim só fez aumentar. e o recruta contou tudo. para poder seduzi-las e obter algum tipo de informação. Vivia aterrorizado e com a esperança de algum dia poder fugir do país. zelando 303 # para que o cadáver fosse realmente enterrado. estava a cena de um grupo inteiro de jovens cubanos. desobedecera às ordens de Víctor. Olivares foi se insinuando junto ao recruta. Toda ajuventude cubana não pensava em outracoisa. Vários policiais das unidades militares mais próximas vieram ver o que estava acontecendo. ou talvez já o fosse. Carlos Olivares era sobrinho do embaixador cubano na União Soviética. eu tinha sido a única pessoa a fazer algum tipo de manifestação a favor de Virgilio. assim como seus inimigos. fez um enorme escândalo no Bosque de Havana. como uma imensa aranha. que foram metralhados pelas tropas cubanas ao tentarem passar pela cerca eletrificada da base naval de ." O recruta ficou nervoso e passou a andar mais rápido. Lógico! foi por isso que não o deixaram sair do país. estavam presentes: Marcia Leiseca. 304 # Devo confessar que nunca me recuperei por completo da minha experiência na cadeia. Até o último momento. convidara um simpático recruta para andarem juntos pelo bosque. dizendo que tudo aquilo era realmente deplorável. com muita diplomacia. Agora. Pablo Armando leu um pequeno discurso onde dizia que se tratava de um escritor cubano. pareciam temer que Virgilio conseguisse fugir. mas Olivares começou a dar berros que ecoaram por todo o bosque. Um dia. Era freqüente alguns jovens tentarem entrar à força nas embaixadas. parece que também fora chantageado pela polícia cubana. Minha infância e minha adolescência transcorreram sob a ditadura de Batista e o resto da minha vida sob a ditadura ainda mais feroz de Fidel Castro. mas este se fez de desentendido. Depois. ninguém mais acreditava na farsa da minha reabilitação. indo ao funeral. era uma bicha mulata que se fingia de homem entre as outras bichas. Era um dos inúmeros delatores que agora visitavam minha casa com certa frequência. ou começo já a gritar. nascido e falecido em Cuba. toda vestida de preto. por ordem da Segurança do Estado. Olivares parou de repente e disse: "Ou me fode. Seus amigos. Olivares passou a ser delator.Antes que o corpo de Virgilio baixasse à cova. por pura maldade. a partir daquele incidente. cercado de espiões e percebendo como minhajuventude se esvaía sem nunca ter conseguido ser uma pessoa livre. Olivares insistiu e implorou para que o outro o enrabasse já que ninguém ficaria sabendo. Como o recruta insistia em querer ir embora.

por isso. assim como proibiram a entrada em Miramar de quem não fosse morador do bairro. atirou-se com todos os passageiros contra a porta da embaixada do Peru. Dias mais tarde. Cortaram a água e a luz dos que estavam na embaixada. sempre sinuoso e imoral. da linha 32. depois que todas as pessoas estivessem lá dentro. Os arredores da embaixada do Peru estavam cheios de carteiras da Juventude Comunista e do Partido. Além diss. submetidos. pertencentes a pessoas que já se encontravam asiladas. dessa vez o tiro saiu pela culatra. chegaram a declarar que havia apenas setecentas pessoas asiladas na embaixada. apesar de muito ferido. mas foi levado num . havia apenas oitocentas rações de comida. fecharam a embaixada. tentando talvez prejudicar o embaixador. estavam em território mexicano. Uma das primeiras pessoas foi meu amigo Lázaro. solicitando asilo político. Julio Cortázar e Pablo Armando Fernández. Fidel Castro percebeu que 306 # cometera um grave erro ao retirar a escolta da embaixada do Peru. para que precisasse ceder e mandasse sair todas as pessoas da embaixada. o governo mexicano. de fato. um chofer de ônibus. O governo tentou abafar o escândalo. o próprio jornal Granma publicara a notícia. Castro poderia perfeitamente prender todo mundo. mas toda a imprensa mundial veiculou a notícia. porém. quando souberam que a embaixada estava sem escolta. No entanto. mas não acreditei na possibilidade de tal asilo. mantinha todos eles na embaixada. Lázaro despediu-se de mim antes de ir para a embaixada. ainda tentou sair do táxi e entrar na embaixada. ninguém quis sair da embaixada. de fato. pensei que se tratasse de uma armadilha. De todas as partes do país não paravam de chegar caminhões lotados dejovens querendo entrar naquela embaixada. e outras cem mil querendo entrar. Um chofer de táxi tentou entrar de carro a toda velocidade. E lá acabavam morrendo de fome. 305 # Mariel Durante os primeiros dias de 1980. talvez por ordem direta de Fidel Castro. para 10. havia mais de dez mil pessoas lá dentro. mas foi metralhado pela Segurança do Estado. Fidel Castro resolveu retirar a escolta cubana da embaixada do Peru.800 pessoas. testas-de-ferro de Castro que se encontravam em Nova York naquela ocasião. as portas já estavam fechadas. Era praticamente impossível entrar numa embaixada. Fidel Castro chamou de volta todas aquelas pessoas. No dia seguinte. que chegaram a assassinar pessoas que tivessem ocupado cargos importantes no governo e que também se encontravam na embaixada. O mais estranho foi que os passageiros também resolveram pedir asilo político. mas o embaixador respondeu que estavam em território peruano. o governo infiltrou numerosos agentes da Segurança do Estado. milhares de pessoas entraram para pedir asilo político. e pelas leis internacionais tinham direito a asilo político. Na embaixada do México havia exilados cubanos que permaneciam por lá anos a fio. embora fosse o sonho de todos os jovens. à chantagem de Castro.Guantánamo.

Castro acusou todos aqueles coitados que se refugiaram na embaixada do Peru de anti-sociais e depravados sexuais. não era simplesmente quem quisesse sair que podia ir embora. milhares de pessoas honestas conseguiram fugir. dormindo em pé. mas. que batiam palmas. começaram a aparecer cartazes. sobrevivendo em meio aos próprios excrementos. Fidel e Raúl Castro vieram até os portões da embaixada do Peru. a Uníão Soviética mandou para Cuba um alto funcionário do KGB. e sim quem Fidel Castro quisesse deixar sair: os criminosos comuns. O povo não teve outro jeito senão assistir àquela manifestação. Depois. Começaram então a sair. a Segurança do 308 # . diante daquele tiroteio que feriu muita gente. A maioria daquelas famílias em Miami gastou todas as economias para fretar barcos que trariam seus parentes. Por fim. Castro enchia as embarcações de marginais e loucos. que mandaram embarcações para buscar seus familiares.carro da polícia. agentes secretos para se infiltrarem em Miami. muita gente foi com a intenção de ver se conseguia pular a cerca e entrar na embaixada. apoiando o crime contra os pobres prisioneiros. a resposta foi cantar o hino nacional. os doentes mentais. que teve uma série de encontros com Fidel Castro. A partir de então. O acontecimento na embaixada do Peru passou a representar a primeira rebelião em massa do povo cubano contra a ditadura castrista. O Partido e a Segurança do Estado organizaram uma manifestação voluntária. entre aspas. Para chegar ao porto de Mariel as pessoas tinham que deixar a embaixada do Peru com um salvo-conduto expedido pela Segurança do Estado. era como fazer uma sangria num organismo doente. Todos procuravam uma embaixada para se asilar e a perseguição por parte da polícia atingiu níveis alarmantes. dizendo: VÃO EMBORA. milhares de barcos lotados rumo aos Estados Unidos. O porto de Mariel foi aberto e Castro. Imediatamente. junto com García Márquez e Juan Bosch. pois não havia espaço para deitar. Jamais esquecerei seu rosto de rato acossado e furioso. Fidel Cas307 # tro e a União Soviética decidiram que era necessário abrir uma brecha e deixar sair do país um grupo dos mais dissidentes. chamandoo de covarde e criminoso. Castro ouviu o povo xingando. afirmou o que queria exatamente: que toda essa escória fosse embora de Cuba. E tudo isso foi feito à custa dos cubanos no exílio. A PLEBE DEVE IR EMBORA. Num discurso desesperado e irado. os quais nem podiam levar parentes. Foi quando Fidel mandou que fossem metralhadas todas as pessoas quejá estavam há quinze dias sem comer. No início. mas os manifestantes não podiam aproximar-se da cerca. ir para casa e esperar que o próprio governo de Castro desse a permissão de saída. nem os aplausos hipócritas de Gabriel García Márquez e Juan Bosch. Temendo que tivesse início uma revolução popular. contra os refugiados que se encontravam na embaixada. o povo tentou entrar no prédio da representação dos Estados Unidos. Mesmo assim. pois havia uma fila tripla de policiais para protegê-la. quando atracavam em Mariel. Pela primeira vez. que cumpriam pena. pedindo liberdade. do porto de Mariel. depois de declarar que toda aquela gente era anti-social.

enquanto eu permanecia ali. pegou o carro e lançou-o contra algumas pessoas que o atacavam. Ir embora era exatamente o que eu queria. Reinaldo. Muita gente resistiu e não quis abandonar a embaixada. Essas cenas se repetiam diariamente. Um homem. mas estava morto de fome. sendo que. principalmente os que estavam mais comprometidos com o regime de Castro. iria decidir quem sairia do país ou não. na tentativa de não apanhar. jogado na rua. nem os escritores com livros publicados no exterior. pelo fato de ter saído do correio após mandar um telegrama. e não a embaixada do Peru. Quem não fosse agente de Castro corria o maior perigo. em meio àquela cena. matando-o. Todo o terror pelo qual tinhamos passado durante vinte anos alcançava agora o seu píco. Lázaro voltou da embaixada. As multidões organizadas pela Segurança do Estado ficavam do lado de fora da embaixada. ao voltar para casa. no Vedado. vou tirar você daqui. assim. fomos juntos de táxi até o local onde expediam os documentos. o governo cubano insultava-nos e nos mandava embora. houve várias pessoas assassinadas. tinham colocado um cartaz dizendo: QUE OS HOMOSSEXUAIS VÃO EMBORA. Passara por maus pedaços para não apanhar muito. mas também por telegrafarem pedindo que seus parentes em Miami viessem buscá-las em Mariel. entravam em primeiro lugar os homossexuais. As pessoas eram agredidas não só por terem ficado na embaixada do Peru. quase todo mundo queria sair do país. impedia que saíssemos do país. e várias vezes tiravam os documentos das pessoas que tinham conseguido sair. um agente da Segurança do Estado alvejou-o na cabeça. por toda parte. perdiam sua condição de asilados e ainda apanhavam. nessa categoria. sozinho. Vi um rapaz apanhar até ficar completamente inconsciente. seu trato foi exclusivamente deixar sair as pessoas que não pudessem prejudicar a imagem do governo. encontrei um outro tipo de asilo. enquanto ele corria sob uma chuva de pedras e frutas podres. Em nenhum momento. como existia uma ordem de deixar sair todos os indesejáveis. de modo que. como era o meu caso. No dia em que ela chegou. uma imensa quantidade deles pôde deixar a Ilha em 1980. vi a multidão dar-lhe porretadas nas costas. Fidel Castro abriu o porto de Mariel para quem quisesse sair da Ilha. Imediatamente. As casas dos que aguardavam permissão para sair do país eram 309 # cercadas pela multidão e apedrejadas. pois não pesava mais do que quarenta quilos. o fato de alguém ter matado aquele "anti-social" era considerado como um ato heróico. Entretanto. outros se fingiram de bichas-loucas para abandonar o país pelo porto de Mariel. . mas não deixava sair os profissionais com nível universitário. ao mesmo tempo. Os incidentes eram publicados no próprio Granma. tudo se resumia em esperar a permissão de saída do país. Diante da parede do meu quarto. ocorriam coisas terríveis. mas como? Ironicamente. estava quase irreconhecível. Vinte dias mais tarde. e Lázaro disse: "Não se preocupe. Agora. vi Lázaro desaparecer em direção à liberdade. QUE A ESCÓRIA VÁ EMBORA.Estado. No meio dessa guerra civil. enquanto. durante os meses de abril e maio de 1980." Quando ele saiu do táxi. No meu prédio.

quase totalmente inédita em Cuba. Após uma semana sem conseguir pregar olho. respondi que vinham me prender mais uma vez. Passei na prova e o tenente gritou para outro militar: "Esse aí pode mandar direto. no entanto. pai de Lázaro. Minha saída do país fora tratada a nível de bairro. Um amigo tivera negada a licença de saída por ter dito que era ativo. acabei adormecendo. os tiras que me deram a autorização. se não estiver em casa quando a permissão chegar. encontrei Pepe Malas. e não como escritor. trancado naquele quarto onde o calor era insuportável. Enquanto subia a escada correndo. na porta do edifício encontrava-se um policial com um documento. num local chamado Cuatro Ruedas. que Pepe acreditou. sempre querendo saber de tudo. respondi que sim. tem de ser na sua casa. Eu não possuía nada que provasse meu comportamento. mandaram que eu caminhasse na frente delas para provar se era bicha ou não. perguntaram então se era ativo ou passivo. o que será que quer?" Fingindo o maior pavor. Estavam presentes umas psicólogas. Na delegacia perguntaram se eu era homossexual e respondi que sim." Isso significava que não havia necessidade de passar por nenhum outro tipo de investigação política. achei que isso representava uma excelente prova e me dirigi à polícia. de delegacia de polícia. Quando chegou o ônibus." Acho que esse policial teria gostado muito de ir àquela festa de despedida imaginária que sugeriu que eu desse em minha casa. Falei com tal pânico na voz. revelara apenas a verdade. nem podiam conhecer minha obra. chegou sua permissão. Manda310 # ram-me assinar um documento no qual eu afirmava sair do país por problemas estritamente pessoais e por ser indigno de viver em meio a uma Revolução tão maravilhosa quanto a cubana. prometi ao motorista uma corrente de ouro se chegássemos em menos de trinta minutos. Não parou em ponto nenhum e cheguei a tempo. e. A gente sabia que São Lázaro ia ajudar! " Desci correndo de pijama e. do ponto de vista técnico. Deram-me um número e mandaram que não saísse de casa. no meio de tanta confusão. Naqueles dias era muito difícil chegar até Cuatro Ruedas em meia hora. Despedi-me às pressas 311 # de Fernando. e que haveria outro julgamento. que disse: "Lá embaixo tem um tira atrás de você. vai perder a vez. não sabiam absolutamente nada de literatura. o mais baixo que pude. Foi por essa razão que consegui sair sem que a Segurança do Estado Ficasse sabendo. sempre correndo. mas o governo cubano não considerava os ativos como homossexuais. saí como mais uma bicha-louca. Perguntou se eu era Reinaldo Arenas. de fato. cheguei ao local . era Marta Carriles e o pai de Lázaro. onde constava que fora preso por perturbação da ordem pública. já sabe: se quiser dar uma festa de despedida com todo mundo nu. os mecanismos de perseguição em Cuba não estavam ainda tão sofisticados.A melhor maneira de se conseguir permissão de saída era arranjar alguma prova documental da condição de homossexual. mas tinha a carteira de identidade. e tomei todo o cuidado em dizer que era passivo. gritando: "Levante. bateram na porta. ele deu trinta minutos para que me aprontasse e apresentasse para sair do país. temendo que ele já soubesse de tudo. no meio da noite. O policial que preencheu meus documentos avisou: "Agora.

onde aguardava um militar, a quem entreguei meu cartão de racionamento e o documento que o tira me entregara em casa; ali mesmo me deram um passaporte e um salvo-conduto dizendo que eu era um dos exilados da embaixada peruana. Fui no primeiro ônibus do dia para Mariel. Para cúmulo do azar, o ônibus enguiçou no meio do caminho, e tive de esperar duas horas até a chegada de outro. Chegamos a El Mosquito, o campo de concentração situado perto de Mariel; o nome caía bem, tal a quantidade de mosquitos que havia no lugar. Esperamos dois ou três dias até chegar nossa vez de deixar Mariel. Encontrei por lá alguns amigos, e outros que sabia que eram policiais; fiz o possível para não ser notado. Fomos revistados, já que não podíamos levar nenhuma carta, nem o telefone de alguém nos Estados Unidos. Eu sabia de cor o número da minha tia em Miami. Antes de entrarmos no setor das pessoas já autorizadas a deixar o país, tivemos que aguardar numa fila imensa e mostrar o passaporte a um agente da Segurança do Estado, que checava nosso nome num livro gigantesco; lá estavam listadas as pessoas que não podiam deixar o país, e fiquei apavorado. Rapidamente, pedi uma caneta a um vizinho na fila; como meu passaporte tinha sido feito a mão, e o e de Arenas estava muito fechado, transformei a letra em i e meu nome passou a ser Arinas; foi esse nome que o oficial procurou no livro e nunca encontrou. Antes de embarcarmos nos ônibus que nos levariam a Mariel, outro oficial nos reuniu e explicou que estávamos saindo "limpos" , ou seja, em nenhum dos passaportes constava quaisquer registros criminais e, portanto, ao chegarmos aos Estados Unidos só precisaríamos dizer que éramos exilados da embaixada do Peru. Com toda a certeza, por trás disso tudo devia existir algo de muito sujo e desonesto; o que queriam era justamente criar uma grande confusão para as autoridades norte-americanas, para que não conseguissem saber quem era realmente exilado ou não. Antes de subirmos nos barcos, fomos divididos em grupos: um era formado por débeis mentais, em outro iam os assassinos e marginais irrecuperáveis, em outro mais, as prostitutas e os homos312 # sexuais, e, finalmente, um grupo de jovens agentes da Segurança do Estado que seriam infiltrados nos Estados Unidos. Os barcos foram lotados com pessoas dos diferentes grupos. É preciso lembrar que 135 mil pessoas saíram da Ilha naquele êxodo; a maioria constituída de gente como eu, que queria apenas morar num mundo livre, trabalhar e recuperar sua dignidade perdida. Finalmente, na madrugada do dia 4 de maio, chegou a minha vez. Meu barco chamava-se San Lazaro e recordei as palavras de Marta Carriles; era uma hora da manhã. Um militar tirou várias fotos nossas, e em poucos minutos fomos nos afastando da costa. Éramos escoltados por duas lanchas da polícia cubana; tratava-se de uma medida de precaução para evitar que pessoas não-autorizadas pudessem embarcar clandestinamente. Foi então que ocorreu uma cena horrível. Um membro da guarda-costeira, bem na hora em que estávamos saindo, jogou seu fuzil na água e começou a nadar em nossa direção; rapidamente, as outras lanchas aproximaram-se do militar e lá mesmo, com suas baionetas, ele foi assassinado dentro da água. O San Lazaro continuava se afastando da costa; a ilha foi se transformando num conjunto de luzes piscantes e logo tudo não passou de uma enorme sombra. Estávamos em mar aberto.

Para mim, que há anos desejava fugir daquele horror, era fácil não chorar. Mas havia um rapaz de dezessete anos que fora embarcado em Mariel, deixando toda a família em Cuba; ele chorava desesperadamente. Havia também mulheres com crianças, que, assim como eu, não comiam nada há mais de cinco dias. E havia também vários doentes mentais. O capitão do barco era um cubano que fugira para os Estados Unidos vinte anos atrás; agora, voltara para buscar a família. Em vez disso, seu barco ia lotado de gente desconhecida, com a promessa de que poderia levar a família na próxima viagem. Na verdade, fazia aquele trabalho porque não tinha outro jeito; não entendia absolutamente nada de navegação; disse-me que alugara o barco para buscar a família. Para piorar a situação, não havia nada para se comer a bordo. 313 # A viagem de Havana a Key West costumava demorar umas sete horas; entretanto, já estávamos navegando um dia inteiro e não chegávamos nunca ao bendito lugar. Finalmente, o capitão confessou que estava perdido e não sabia exatamente onde nos encontrávamos. Havia um rádio a bordo, e ele estava tentando comunicar-se com outros barcos, mas sem resultado. No segundo dia, acabou a gasolina e ficamos à deriva em meio à correnteza do golfo do México. Estávamos há tantos dias sem comer que nem conseguíamos vomitar; só saía bílis. Um dos loucos fez várias tentativas para se atirar na água e era preciso ficar atento para ele não recomeçar, enquanto alguns ex-condenados gritavam para que se controlasse, para não ir parar em "Yuma"; o pobre louco berrava: "Que Yuma, nada de Yuma, quero ir pra casa." O pobre coitado não fazia idéia de que estávamos indo para os Estados Unidos. Os tubarões nos rodeavam, esperando que caíssemos na água para nos devorar. Finalmente, o capitão conseguiu alcançar outro barco, o qual chamou a guarda-costeira americana, que por sua vez ordenou uma busca de helicóptero. Três dias depois, apareceu o helicóptero norte-americano; desceu quase até o nível do mar, tirou fotos nossas e logo depois partiu. Deu ordem para que fôssemos resgatados, e na mesma noite chegou um barco da guarda-costeira; lançaram cordas e subimos a bordo; amarraram nosso barco à popa deles e partimos. Serviram-nos comida e bebida, e lentamente começamos a recuperar as forças e a sentir uma profunda alegria. Chegamos finalmente a Key West. 314 # Key West Quando estava deixando meu prédio na rua Monserrate, a chefe de vigilância da administração regional aproximou-se e disse: "Não se preocupe, não vou delatar você; só peço o seguinte: se encontrar meu filho, diga que estou bem." Foi estranho, mas a primeira pessoa que encontrei, ao chegar em Key West, foi o filho dela; assim, pude dar-lhe o recado da mãe. Ele me levou até uns armazéns onde os exilados cubanos de Miami estocavam donativos para os recém-chegados de Mariel. Recebi dele um par de sapatos novos, uma calçajeans e uma camisa; deu-me também sabão e uma grande quantidade de comida. Tomei banho, fiz a barba e voltei a parecer um ser humano.

Mais tarde, encontrei um bailarino da companhia de Alicia Alonso, o qual me contou que, assim que saí de Mariel, meu nome passou a ser chamado por todos os alto-falantes da cidade; a polícia estava à minha procura. Depois disso, todas as pessoas tinham que mostrar o passaporte antes de entrar no porto, e todos os ônibus eram parados por policiais à minha procura; a Segurança do Estado e a UNEAC estavam em estado de alerta e, acreditando que ainda me encontrava em El Mosquito, elaboraram um plano para que eu não pudesse fugir do país. Fomos albergados em Key West, até a imigração decidir onde nos colocar. Em meio àquela multidão, encontrei Juan Abreu; finalmente, pudemos nos abraçar fora de Cuba, e em liberdade. 315 # Assim que cheguei a Miami, tentei contactar Lázaro, assim como Jorge e Margarita Camacho, os quais se encontravam na Espanha. Tive sorte de encontrar Lázaro quando chegava na casa do meu tio; estava esperando por mim e parecia incrível que nós dois, com apenas uma semana de diferença, estivéssemos juntos nos Estados Unidos. Escrevi para Jorge e Margarita, quejá estavam a par da minha saída de Cuba através de uma notícia publicada na Espanha. Eu agora queria recuperar meus manuscritos; Jorge e Margarita, que se encontravam na sua casa de campo, não os tinham em seu poder. Telefonei para Severo Sarduy, a quem eles entregaram os manuscritos, em Paris. Severo disse que também não os tinha. Escrevi uma carta desesperada para Jorge e Margarita, os quais me acalmaram dizendo que não me preocupasse, pois possuíam os originais; os que Severo recebera eram apenas cópias. Foi sorte terem tomado tal precaução, pois parecia que Severo Sarduy não tinha a menor intenção de destruir aqueles manuscritos. 316 # Miami A Universidade Internacional da Flórida me convidou para uma conferência no dia 1º de junho de 1980. Intitulei minha palestra de "O mar é nossa selva e nossa esperança", e pela primeira vez falei para um público livre. Comigo estava Heberto Padilla, que falou primeiro. Na verdade, sua apresentação foi lamentável; chegou completamente bêbado e, aos trancos e barrancos, improvisou um discurso incoerente; o público reagiu violentamente. Senti muita pena daquele homem, completamente destruído pelo sistema, incapaz de encarar seu próprio fantasma, com a confissão pública que fizera em Cuba. Na realidade, Heberto nunca se recuperou daquela confissão; o sistema conseguira destruí-lo de uma maneira perfeita, e agora parecia que o estava utilizando em seu benefício. Assim que comecei a denunciar a tirania que sofrera durante vinte anos, até meus próprios editores, que ganharam bastante dinheiro com a venda dos meus livros, declararam-se secretamente meus inimigos. Emmanuel Carballo, que publicara mais de cinco edições de El mundo alucinante (no México) e nunca me pagara um centavo sequer, escreveu uma carta indignada, dizendo que em momento algum eu deveria ter abandonado Cuba, enquanto, ao mesmo tempo, recusava-se a me pagar. Sempre fizera mil promessas, mas o dinheiro nunca chegou: aquela era uma maneira muito

rentável de praticar sua militância comunista. A mesma coisa 317 # aconteceu com Angel Rama, que publicara no Uruguai um livro meu de contos. Ao invés de mandar uma carta saudando-me por ter conseguido sair de Cuba (estava a par da minha situação, pois nos encontramos em Cuba no ano de 1969), publicou um longo artigo no El Universalde Caracas, intitulado "Reinaldo Arenas acaminho do ostracismo", onde dizía que eu não deveria ter saído de Cuba , que fora um erro, pois o problema todo era simplesmente burocrático, e agora eu estava condenado ao ostracismo. Tudo aquilo era extremamente cínico, ridículo, principalmente partíndo de alguém que desde 1967 não publicava nada em Cuba e que passara pela repressão e pela prisão naquele país, onde de fato já fora condenado ao ostracismo. Compreendi que a guerra recomeçava, mas agora sob uma forma muito mais velada; menos terrível que a guerra de Fidel Castro contra os intelectuais de Cuba, mas nem por isso menos sinistra. Só depois de inúmeras chamadas telefônicas para Paris, Sarduy me pagou apenas mil dólares pelas versões francesas; e além disso, ligou para minha tia em Miami, dizendo que eu estava montado no dinheiro; e logo para minha tia, que sempre deve ter achado que eu era milionário. Nada disso me surpreendeu; já sabia que o sistema capitalista também era sórdido e mercantilista. Numa das minhas primeiras declarações, logo depois de sair de Cuba, afirmei: "A diferença entre o sistema comunista e o capitalista é que, embora os dois nos dêem um chute na bunda, no sistema comunista a gente leva o chute e tem que bater palmas; no capitalista, a gente também leva, mas pode gritar. E vim aqui para gritar." 318 # O Exílio Naquele período, viajei por vários países: Venezuela, Suécia, Dinamarca, Espanha, França, Portugal. Em todos, soltei o meu grito; era o meu tesouro; era tudo o que tinha. Estava descobrindo uma fauna que nunca vira em Cuba; os comunistas de luxo. Lembro-me que, no meio de um banquete na Universidade de Harvard, um professor alemão me disse: "De certa forma, entendo que você possa ter sofrido, mas sou um grande admirador de Fidel Castro e estou muito satisfeito com tudo o que fez em Cuba." Enquanto dizia isto, o professor alemão tinha um prato cheio de comida à sua frente. Respondi: "Acho ótimo que admire Fidel Castro, mas, nesse caso, não pode continuar comendo todo esse prato, porque nenhum cubano, exceto o alto comando, pode comer tanto assim." Peguei o prato e o atirei contra a parede. Meus encontros com esta esquerda festiva e fascista foram bastante polêmicos. Em Porto Rico, eram muito teimosos; convidaram-me a falar na universidade e pediram para que não tratasse de política. Li um trabalho sobre Lezama Lima e depois um testa-de-ferro de Castro chamado Eduardo Galeano leu um longo discurso político, atacando-me precisamente pelo fato de adotar uma atitude apolítica.

em edições modestíssimas que quase não circulam fora de Miami. e que considero fundamentais: Lydia Cabrera. sofrendo uma série de problemas econômicos. Era um verdadeiro paradoxo: aqueles grandes escritores saíram de Cuba em busca de liberdade. Era também o caso de Carlos Montenegro. onde preparei e iniciei um curso de poesia cubana. mas de uma forma diferente. e agora se encontravam impossibilitados de publicar suas obras aqui. a maioria dos quais já vivendo no exílio. continua escrevendo e publicando sozinha seus livros. fui ao lançamento de um de seus livros. Quanto a Lydia. a guerra contra os comunistas. sentada a uma mesinha. hipócritas e gente que lucrava com a dor dos cubanos. Certa vez. conheci excelentes estudantes por lá. um dos grandes da novela contemporânea. multimilionários. não valia a pena. este era o preço que tinha de pagar por manter a dignidade. graças à previdência social." Mas ninguém vai comprar os outros autores. "Talvez fosse interessante publicar um livro seu. porque você acaba de vir de Cuba e representa ainda uma notícia fresca". Vi uma mulher idosa. no mais absoluto esquecimento. autografando os seus livros. ou seja. alguém anormal. apesar de ter encontrado uma série de oportunistas. tive a oportunidade de me relacionar com três escritores da nossa história. porque não estávamos em nossa terra. Escrevera suas memórias. era como voltar a ser cubano. o escritor é visto como alguém estranho. todo o seu passado.Evidentemente. . e continua vivendo. os hipócritas e os covardes não terminara só porque eu saíra de Cuba. era o caso de Labrador Ruíz. Dedicava-se à tarefa de reconstruir a Ilha. a literatura não interessava muito aos exilados cubanos. O professor Reinaldo Sánchez me convidou para trabalhar na Universidade Internacional da Flórida. completamente cega. pou320 # quíssima gente se interessa em comprar um livro de Labrador Ruíz. novelista e contista de primeira qualidade. Labrador está agonizando num quartinho de Miami. era Lydia Cabrera. Ao chegar a Miami. Além disso. encontrei-me com pessoas ricas. que vivia igualmente da previdência social. Enrique Labrador Ruíz e Carlos Montenegro. vivia. disseram. e propus que se criasse uma editora para publicar os melhores escritores da literatura cubana. Havia outros escritores vivendo em condições ainda mais penosas. mas não encontrara um único editor. A resposta de todos aqueles senhores. donos de bancos e comerciantes. mas muito pouco. também encontrei pessoas honestas e extraordinárias. Deixara sua casa enorme em Havana. escrevendo sem parar. num pequeno quarto de um bairro pobre de Miami. foi categórica: literatura não dá dinheiro. porém. palavra por palavra. sua gigantesca biblioteca." Montenegro faleceu no ano seguinte num hospital público. e lá estava. com uma enorme quantidade de livros inéditos e tendo que arcar sozinhacom os custos de todos aqueles publicados em Miami. A sabedoria de Lydia fazia com que me sentisse novamente perto de Lezama. Na verdade. muitas das quais me ajudaram bastante. debaixo de uma mangueira. 319 # No exílio. Lydia Cabrera pode ser conhecida e vender alguma coisa em Miami. num pequeno apartamento em Miami.

e chamava Miami de "O Merdal". escrita também por uma poeta local que não queria ser chamada de poeta e sim 321 # poetisa. tentando transformar-se. isto é imperdoável. parecia um fantasma da Ilha. quem conseguisse publicar um livro no exterior e alcançar algum sucesso era considerado quase como um traidor. ao mesmo tempo. direito. Nos poucos meses que passei em Miami. e. em geral. Em Miami. na Ilha. Era uma espécie de paradoxo e. invejoso e mercantilista. do que há de pior em Cuba: o boato. no exílio. em Miami.e agora morava em Miami. e estava muito distante de todas essas poetisas de cabelo puxado para trás e péssimo gosto. além disso. firme. Ela sempre me dizia para não ficar em Miami e ir logo para Nova York. para elas." O que queria dizer era que eu tinha de me transformar num sujeito machista. e andar de modo certo. Lydia Cabrera pertencia a uma tradição mais refinada. não toleram a grandeza. mais profunda. Espanha. conseguiu uma espécie de ímpeto realmente alarmante. Vivi cercado de fofocas constantes e confusões. não suportam que alguém tenha sucesso e querem que todos sejam reduzidos ao mesmo nível de mediocridade geral. em sua grande maioria. graças ao esplendor daquela mulher idosa. Percebi imediatamente que Miami não era o lugar adequado para morar. precisa comprar uma pasta. ao desprezo e ao esquecimento por parte dos próprios exilados. a vontade de ganhar dinheiro e o medo de morrer de fome passaram a substituir a própria vida. a fofoca. cortar o cabelo curtinho. a aventura e a irreverência. Quando vi esta velha dama cega autografando seus livros debaixo de uma mangueira. cercada de gente que não lera nenhum dos seus livros e que procurava apenas aparecer nos jornais. o prazer. principalmente. entendi que ela representava uma grandeza e um espírito de rebeldia que talvez já não existissem em quase nenhum outro escritor. O mais lamentável em Miami é que lá todos querem ser poetas ou escritores. o senso prático. no sonho de uma ilha tropical: arejada e banhada pelo mar e pela brisa tropical. em todas as épocas. Uma das mulheres mais importantes da nossa história relegada ao mais completo ostracismo. Lydia costumava chamar aquelas poetisas de "poetesas". mas aos oitenta anos não tinha mais para onde ir. Lydia nunca se adaptou àquele ambiente enfadonho. nem em Cuba nem no exílio. Naquela bibliografia havia mais de três mil nomes. festas . Existe uma espécie de destruição e inveja entre os cubanos. pois era como se estivesse numa caricatura de Cuba. um exemplo das circunstâncias trágicas que todos os escritores cubanos tiveram de sofrer. fiquei muito surpreso quando vi uma bibliografia dos poetas de Miami. a inveja. uma península arenosa e infecta. A típica tradição machista cubana. mas principalmente poetas. ao ostracismo. Também não suportava a mesmice de uma paisagem que nem tinha a beleza insular. à censura e à cadeia. mande fazer cartões de visita com sua profissão. mais culta. nas quais predominava o desejo de aparecer. Paris. uma gravata. e de uma infinita sucessão de coquetéis. para um milhão de exilados. A primeira coisa que meu tio disse quando cheguei foi o seguinte: "Agora. Eles publicavam seus próprios livros e se intitulavam poetas. não consegui encontrar um só instante de tranquilidade. organizavam grandes tertúlias a que todos tinham de comparecer para não ficarem marginalizados. num modesto apartamento. éramos condenados ao silêncio. Não quis permanecer muito tempo naquele lugar. escritor.

fiz umas declarações que. a mentalidade de um povo que vivia nas ruas. porque aquele com o qual sonhamos. tivemos a primeira aventura amorosa. Todos aqui viviam num estado permanente de paranóia. a quem eu já perdoara. já . Quanto à cidadealiás. de fato afirmei: " Se Cuba é o Inferno Miami é o Purgatório. gente de todo tipo. não me senti como um estrangeiro ao chegar a Nova York. da cidade velha de Havana. a partir de então. já morara nessa cidade. até minha tia. Naquela noite. no início de setembro. falava todas as línguas. 323 # O exilado é aquele tipo de pessoa que. um sistema de transporte que funcionava às mil maravilhas. Por isso mesmo. Era como viver num mostruário. que. em outra vida. Quando cheguei a Miami. uma cidade deteriorada. teatros fabulosos. Sem pensar duas vezes. a sombra de alguém que nunca consegue alcançar sua completa realidade. mas onde era possível andar e entender seu mistério. quando aqui cheguei em 1980. e sim um amontoado de casas espalhadas. mas minhas lembranças ruins foram mais poderosas que qualquer saudade. passados dez anos. comecei a fugir de mim mesmo. sempre trancados. não é uma cidade. Em Miami. Agora. dentre os quais Roberto Valero. onde descobrimos uma paisagem. continua sendo o lugar sonhado. quando a revi depois de vinte anos. não existe nenhum lugar. Pensei ter chegado numa Havana em todo o seu esplendor." Em agosto de 1980. e cuja solidão acabava sendo mais agressiva. com grandes calçadas. estava fugindo para sempre de mim mesmo. encontrava-me num mundo plástico. hoje. em Nova York. carente de mistério. mais de trinta amigos meus. uma estranha criatura 322 # que precisava ser convidada antes de perder o brilho. aceitei um convite para dar uma conferência na Universidade de Columbia. estava fugindo de um lugar que só aumentava minhas angústias e não combinava com minha maneira de ser. continua procurando o rosto querido em cada novo rosto que vê. comecei logo a sentir saudades de Cuba. em outra encarnação. Lázaro teve outra crise de absoluta loucura. antes de chegar um novo personagem que me desbancasse. percebo que para um exilado não existe nenhum lugar onde possa viver. Deixei de existir desde que cheguei no exílio. comecei a andar pela cidade. tive a impressão de que. ela me assustava. está sempre enganando a si mesmo. acredito. preparei a palestra em menos de duas horas e peguei o avião. até mesmo desfrutar esse encanto. Estava acostumado com uma cidade com ruas e calçadas. Não tinha paz para trabalhar e muito menos para escrever. Assim. Sabia que não poderia viver em Miami. achando que o encontrou. não foram do agrado de muita gente. Naquela mesma noite. a cidade me encantou.e convites. Nancy Pérez Crespo e até mesmo Samuel Toca. lemos o nosso primeiro livro. pegamos um carro e atravessamos a Quinta Avenida. ainda pior que as outras. tendo perdido o ser amado. me pareceu ainda mais louca. No exílio ele não passa de um fantasma. Pensei ter encontrado este rosto querido em Nova York. um povoado de cowboys onde o cavalo fora substituído pelo automóvel .

Tal como as bruxas usavam longos mantos pretos. Outras bruxas. recém-chegado a Nova York. talvez fosse a atração do . Esta bruxa. o mundo está povoado 325 # de bruxas. outras mais implacáveis. Uma bruxa como ela indiretamente possibilitou que mais tarde eu deixasse o país como um não-ser. umas mais benignas. disse ela. entre a Oitava e a Nona. mas o reino da fantasia. tal como Elia del Calvo. ao poder misterioso. pois ela certamente tentava apenas preencher a solidão em que vivia num apartamento do West Side de Manhattan. maléfico e sublime das bruxas. forçara-o a ter uma namorada e. eram magras e com o queixo proeminente. sendo bruxa. queria que o marido já bastante idoso morresse logo. Depois. Conseguiu para mim um apartamento vazio no centro de Manhattan. 324 # As Bruxas As bruxas sempre desempenharam uma função muito importante em minha vida. e me levaram. Embora seu filho também fosse homossexual. Por exemplo. a escrever a novela Celestino antes del alba. chamada por todos de Bruxa da Biblioteca. a própria Maruja Iglesias. perfeita em sua maldade. e flertava com qualquer pessoa que fosse à sua casa. María Teresa tinha o hábito de piscar como uma bruxa muito bem caracterizada numa obra de Shakespeare. outra bruxa perfeita. tentando comunicar-se num inglês impossível de se decifrar. aconselhou-me a ficar em Nova York. aquela senhora pintava o cabelo de lilás. embora bem mais sábia e encantadora. de carne e osso. onde conheci outra bruxa. também representaram papéis predominantes em minha vida.começava a ser invadida pela névoa do outono. mais tarde. Bruxa também foi minha tia Agata. espirituais. Ao chegar em Nova York. Aluguei o apartamento imediatamente. Em Miami também encontrei várias bruxas que se dedicavam ao tráfico da palavra. pertence às bruxas. sob o terror e a ameaça constante de ser denunciado à polícia. foi graças a ela que fiquei na Biblioteca Nacional. povoaram as noites da minha infância com seus mistérios e horrores. que vivia cercada de gatos. Primeiro. assim como o da realidade evidente. mais tarde. no centro mais populoso do mundo. a se casar e ter filhos. Dessa maneira. chamada Ana Ribera. porém. "Alugueo agora mesmo". algumas escreviam poemas e. a três quarteirões de Times Square. que reinam no mundo da fantasia. a qual me deu todo o seu amparo e uma série de conhecimentos ancestrais. graças à imaginação da minha avó. e me entreguei de novo. meu sempre terrível destino. essas bruxas. María Teresa Freyre de Andrade. as bruxas que poderíamos considerar como pacíficas. ela. como sempre. Sua figura e sua personalidade foram muito importantes em certa época da minha vida. eu me vi morando num pequeno apartamento na rua 43. morei com ela durante mais de quinze anos. encontrei a bruxa perfeita. mas não posso negar que exerceu sobre mim uma estranha atração. ajudava-me a cumprir meu destino. conheci Elía del Calvo. como um desconhecido. me obrigavam a lê-los. Era um flerte platônico. Realmente. Essa bruxa vivia cercada de homossexuais e portanto me recebeu bem assim que cheguei. E de repente.

a bruxa cheia de saudade e tristeza. o corpo encurvado. as bruxas adquiriam uma forma semimasculina. Mudei-me para Nova York em 31 de dezembro de 1980. sem elevador. graças a quem fui parar na cadeia. a bruxa vestida de preto. Às vezes. e aí tive de subir até o quinto andar. sofrida. a bruxa de queixo pontudo e risada sinistra: Samuel Toca. quando perguntei quanto lhe devia. como esquecer Cortés. como esquecer Pepe Malas. bem na hora em que toda a cidade vivia a euforia do fim de ano. num dos círculos mais dantescos do inferno. como se o que importasse fosse o valor simbólico desse gesto. com seu aspecto realmente sinistro. que considerei como positiva. agora. não porque soubessem voar. voltava a aparecer onde quer que eu estivesse. com luvas e capa preta. que transformou a cidade velha de Havana numa fábrica de buracos e desistiu da prostituição quando suas mamas murcharam. com um perfil perfeito de feiticeira. do perigo. escoltaramme até as próprias portas do inferno.talvez nem exista mais gente assim . os pátios. principalmente em Times Square.mal. uma por uma. onde 327 # havia mais de um milhão de pessoas. Lázaro viera antes e já estava no meu apartamento. olhos arregalados e cabelo ralo. a bruxa nobre. Aquelas bruxas nunca largaram a vassoura. e então podiam tornar-se ainda mais sinistras. Outra bruxa memorável em minha vida foi sem dúvida Blanca Romero. outra bruxa perfeita. bruxa temível que me fez saber o que significava a verdadeira traição e que. ele cobrou quinze dólares. E como esquecer a bruxa clássica.teve a paciência de me ajudar a entrar no carro com todas as vinte malas cheias de livros roupas e manuscritos que trazia de Miami. no decorrer da minha vida. Não encontrei Lázaro ao chegar. Conseguir atravessar a cidade naquele final de ano. passando então a ser uma pintora extraordinária. estávamos passeando pelas ruas de Nova York. Na minha chegada. como se quisessem varrer também as próprias vidas. o motorista de táxi disse para ir subindo com as malas. Dentre essas bruxas que me acompanharam durante tanto tempo. mas porque todas as ânsias. bruxa terrível. As bruxas. dei vinte e então ele disse: "É . as salas. com aquela quantidade de malas e caixas de livros. tendo voltado a Miami para concluir meu curso de literatura. No final de tudo. ambos no mesmo carro. Cheguei à meia-noite. endo sempre. Ela também com sua vassoura. como toda bruxa que se preza. representou uma verdadeira odisséia. por culpa de quem tive de reescrever tantas vezes Otra vez el mar. Ao lado de todas essas bruxas. que parecia estar sempre em constante levitação. As bruxas dominaram minha vida. frustrações e desejos eram exorcizados no ato de varrer: 326 # varriam o corredor. enquanto ficaria esperando com o resto da bagagem até eu acabar. e que marcou a minha vida com profundo horror durante toda a década de setenta. enquanto denunciava seus admiradores para a Segurança do Estado. a bruxa mais amada do mundo: minha mãe. destaca-se a imagem da bruxa maior. minhas companheiras desde a infância. o motorista de táxi .

como Martí e Heredia. René Cifuentes e eu mesmo. Deveria ser uma . em Nova York. resolvemos fundar a revista Mariel. Era realmente um sonho e uma festa incessante. la marea. Nunca contamos com qualquer ajuda oficial. na Oitava Avenida. durante os anos de 1981 e 1982. nem mesmo com a ajuda do espelho. antes que a maldição caísse também sobre a cidade. mas tive a impressão de que a cidade me dava as boas-vindas. Lázaro e eu vivíamos agora a euforia da neve e de uma grande cidade que não parava nunca. Às vezes. que representou um grande acontecimento para nós. como sempre cai sobre todas as coisas realmente extraordinárias." Foi algo muito estranho. A neve tem sido sempre uma espécie de anseio incessante para os cubanos: José Lezama Lima. Juan Abreu e outros amigos que também chegaram no êxodo de Mariel. muito dinheiro. ao passo que outros que a sentiram na pele passaram a vida detestando-a. e que editávamos clandestinamente no parque Lenin. mas nunca Nova York foi tão vital. Julián del Casal. Na verdade. era um sonho e uma esperança que Juan e eu nutríamos há anos. Eliseo Diego. cuja apreensão eu já perdoara. Todos nós "marielitos".muitas delas tropicais . a qualquer hora do dia ou da noite. criticava-se. lia-se. anunciava-se uma festa à fantasia e cada um de nós vinha disfarçado. eu nem sequer sentia frio. talvez nunca volte a ser como naquela época. todos chegados via Mariel. quando estávamos em Cuba. De uma forma ou de outra. que estipulamos uma cota a ser paga religiosamente por cada um de nós. Vivíamos à beira da miséria. a neve tem desempenhado uma função fundamental em nossa literatura. havia sempre tudo o que se pudesse desejar. estava Reinaldo Gómez Ramos. 328 # A Revista Mariel Havia um pequeno grupo de cubanos em Nova York. A assessora literária foi Lydia Cabrera. eu me deleitava ao ver a neve caindo. lá falava-se de qualquer coisa. estudando na universidade de Georgetown. também não tínhamos um centavo. a neve e o inverno representaram uma nova experiência. mas investimos nossos parcos recursos para criar Mariel.que a gente tanto queria comer em Cuba podiam ser conseguidas em plena neve. Costumávamos nos reunir com freqüência e líamos nossos textos. nenhum local fixo nem a menor idéia de como fazer uma revista. era impossível reconhecer quem era quem. é claro. todas as frutas . A revista seria financiada por nós mesmos. que talvez nunca me aconteça de novo. antes que chegasse a praga. Era como o nascimento 329 # daquela revista que chamamos Ah. Essa revista foi elaborada sob um pinheiro. Nova York foi uma verdadeira festa. para mim. que se ofereceu com o maior entusiasmo para nos ajudar. era um dos pontos de encontro. viviam em Miami. era gostoso andar pela rua cheia de flocos de neve. mas me resta o consolo de ter vivido esses últimos anos. Eu trabalhava muito. O primeiro número saiu na primavera de 1983 e foi dedicado a José Lezama. quase todos os poetas que nunca viram a neve sempre ansiaram por ela. em Washington estava Roberto Valero. quando fui visitar Juan em Miami. O apartamento de René Cifuentes. como Carlos Victoria e Luz de la Paz. não tínhamos.muito dinheiro.

e nem pelas "poetisas" de Miami. incluindo entrevistas com pessoas que eram vítimas de preconceito de sociedades conservadoras e reacionárias. Aqueles coitados tinham que desmunhecar diante do público. nem pelos agentes cubanos espalhados em todo o mundo. tratava-se de um filme extrovertido. Todos quejá se haviam estabelecido no país viam-nos como seres estranhos. documentos repressivos. pelos hipócritas dessa esquerda. exceto por um pequeno grupo de intelectuais liberais. ao regressarem a Cuba. A revista não foi bem recebida. em Cuba não havia perseguição aos homossexuais. elas nos devem muito. feito com muito humor. foram obrigadas a guardar suas plumas. como melhor documentário exibido na Europa naquele ano. entrevistas com pessoas que ficaram nesses campos. rendia homenagens aos grandes escritores. O filme preocupou tanto o governo cubano que se formou um grupo de homossexuais. Outro grande sucesso daquele período foi o filme Conducta impropia. morou em Cuba e lá teve de agüentar a ditadura de Batista e. parecendo ainda mais afetados do que já eram. O filme teve grande repercussão internacional. a revista se metia com todo mundo. para provar que. O filme era o primeiro grande documento no qual se denunciava abertamente a perseguição sofrida em Cuba pelos homossexuais e por toda pessoa que não tivesse uma conduta conservadora sob o regime de 330 # Fidel Castro. Trata-se . nem pelos comunistas. a de Castro. não podia ser bem recebida pela esquerda festiva dos Estados Unidos. sem sombra de dúvida. mas a revista continuou a ser publicada durante anos. como as de Miami e de grande parte dos Estados Unidos. especialmente nos Estados Unidos. Irreverente. e nunca mais se ouviu falar daquela delegação oficial de bichas cubanas. integrantes do comitê da revista ou se acovardaram ou se afastaram. desmascarava os hipócritas. Logicamente. apareciam inclusive os campos de concentração das UMAP. mostrava as bichas-loucas que fugiram de Cuba e agora faziam shows de travesti nos cabarés de Nova York. Mais tarde. de Virgilio Pinera. no entanto. O próprio Fidel Castro aparecia em seu uniforme verde. fazendo um papel bastante ridículo. Além do mais. em seguida. ficaram alguns exemplares que constituem um verdadeiro libelo para a literatura do exílio. quase todos do Ministério do Interior. Lembro-me de ter escrito um artigo intitulado "Elogio das Fúrias". Nunca desejei e nem quero me tornar cidadão norte-americano. pois foi graças a nós que puderam fazer aquela viagem à Europa. com o fim de percorrer o mundo dando conferências e declarando que em Cuba os gays não eram perseguidos. e por problemas financeiros também.revista de causar impacto entre os próprios exilados e. tivemos que acabar com a revista. Seja como for. combatia a moral burguesa prevalecente em Miami. Dedicamos um número ao homossexualismo em Cuba. onde afirmavaque as Fúrias eram as únicas deusas que sempre deviam nos inspirar. Não precisávamos manter as aparências nem aspirávamos a nenhum cargo. é claro. Obviamente. Néstor Almendros é um espanhol republicano que fugiu da Espanha durante a ditadura de Franco. Por esta razão. provocou polêmicas violentas e ganhou o Prêmio dos Direitos Humanos. de Néstor Almendros e Orlando Jiménez Leal. surpreender Fidel Castro. baseava minhas idéias numa série de textos que iam desde A Iliada até La isla em peso. assim como para a literatura cubana em geral.

ficar calado diante daqueles crimes. Quando cheguei aos Estados Unidos. A grande maioria dos intelectuais norte-americanos. brigar com a esquerda significava atacar o governo de Castro. no programa de literatura ficaram apenas umas poucas novelas de Alejo Carpentier. Por outro lado. porém. com a superstalinização do regime castrista. fisicamente também. minhas obras eram textos de estudo na Universidade de Nova York. Fez o mesmo com todos os outros cubanos exilados. foi adotada com relação a todos os cubanos exilados. enquanto estive sem poder sair de Cuba. temos um antipaís: a burocracia de Fidel Castro está sempre disposta a todo tipo de intrigas e trapaças para nos destruir intelectualmente e. " Para ele. como no que diz respeito aos meus livros. continuam com seus centros de cultura. para se fingir de progressista e utilizar-se do ressentimento lógico dos povos submetidos a outras desgraças. aliás. Mas era impossível. posso imaginar que certos intelectuais norte-americanos. outras preferem . Essa atitude. sob vários aspectos. apesar de ter sido prejudicado. o que seria até compreensível. Por fim. e sua atitude tem sido sempre decisiva e corajosa. tive muito mais oportunidades de ser publicado. também não quero ser rotulado de político oportunista. suas agências de publicidade. Mas é impossível esquecer a violenta propaganda e as 331 # conexões internacionais do governo de Cuba. por conveniências politicas e econômicas. mantidas durante mais de trinta anos. Em vez de um país. até não sobrar nenhum. Essa atitude. disseminadas pelo mundo todo e. lembro-me de ter ouvido um cubano em Washington que disse o seguinte: "Nunca brigue com a esquerda. certas pessoas não se atrevem mais a assinar um documento criticando a ditadura castrista. lá não me deixavam falar e as editoras estrangeiras com tendências esquerdistas apoiariam um escritor que morava em Havana. Aconteceu isto comigo em várias universidades dos Estados Unidos e no mundo inteiro. posso citar um exemplo: quando saí de Cuba. vivemos por permissão especial. ou qualquer ser humano que tenha olhos para enxergar as coisas exatamente como são: grito. sempre apoiou ou "ignorou" os crimes de Fidel Castro. logo existo. sempre digo a minha verdade. que chega a criticar as revistas soviéticas. onde mais precisam atuar. principalmente.de um exemplo de dignidade intelectual e artística. Agora. sempre correndo o risco de rejeição. Famoso e com uma excelente posição econômica. pois no exílio não temos um país que nos represente. se possível. devam mudar seu modo de pensar. nunca me considerei nem de esquerda nem de direita. poderia perfeitamente deixar de nos ajudar. assim como um judeu que tenha sofrido com o racismo ou um russo que tenha ficado no Gulag. de fato. como que por ironia. a professora de literatura Haydée Vitale também foi eliminando meus livros do currículo. me custou muito caro. 332 # Tais situações acabaram provocando uma certa cautela entre vários intelectuais cubanos Essa cautela politica se fundamenta principalmente no medo de morrer de fome. à medida que fui tomando uma posição radical contra a ditadura castrista. no ocidente. depois de vinte anos de repressão. tanto do ponto de vista econômico.

. me surpreendi que a mulher não o tivesse largado há mais tempo. pois poderia querer ficar em qualquer lugar. amigo pessoal de Castro e oportunista nato. Um refugiado representava sempre um problema. essa senhora representa atualmente quatro ganhadores do prêmio Nobel de Literatura. Aquele documento. que alguém mais tarde identificou com Raúl e Fidel Castro. só por ter escrito um livro sobre uma variedade especial de insetos. plagiador de Falkner. Não sei por que o comitê que nos fizera o convite resolveu que passaríamos a noite lá. Borges é um dos escritores latino-americanos mais importantes do século. é marcada por um populismo barato que não está à altura dos grandes escritores mortos no esquecimento ou relegados a um segundo plano. Sua obra. expedido pela ONU. Com a ajuda dos meus documentos. certa vez. deixou furiosos até os próprios carregadores. na qual. tivemos que ficar num lugar extremamente isolado e triste. a covardia é sempre patética. Com esses documentos atravessamos todo o país em pleno inverno. e escrevem artigos sobre a Bélgica. como não tinha nenhum documento oficial ou passaporte para poder viajar. na companhia de Humberto López. em Cuba. mas. depois de passar por mil peripécias. percorri todo o país em trens gelados. em 1983 pude viajar para Madri. Comecei meu giro pela Suécia e. mas só em 1983 consegui viajar com um documento que provava minha condição de refugiado.mergulhar numa letargia apolítica. na casa de um fazendeiro sueco profundamente deprimido. sendo recebida com toda a pompa por Fidel Castro em pessoa. pois Castro disse que ela estava usando um vestido muito elegante. um estranho e não muito confiável pedaço de papel que quase não era mais aceito por consulados ou departamentos de imigração. mas a injustiça e a estupidez são muito mais irritantes. Lembro-me de que. por causa de sua postura política. chegando quase ao pólo Norte. talvez o mais importante. embora tenha alguns méritos. Ao olhar para aquela casa dilapidada. Um dos mais notórios casos de injustiça intelectual deste século é o de Jorge Luis Borges. Uma agente literária espanhola conhecidíssima esteve recentemente em Cuba. que não recebiam um centavo de gorjeta. e geralmente nunca tinha dinheiro. bem como por funcionários de hotéis. na minha primeira viagem à Europa. a quem negaram sistematicamente o prêmio Nobel. inclusive o veredicto que condenara um poeta à cadeia. Voltou de Cuba encantada. deram o prêmio Nobel a Gabriel Garcia Márquez. tentei falar àquele sueco sobre a solidão e o desespero sofridos pelo povo cubano. Dei uma conferência na Universidade de Estocolmo. Levei comigo inúmeros documentos. Já recebera vários convites desde 1980. De qualquer forma. talvez tenha sido por falta de outro lugar. enquanto seu único pesar no momento era ter sido abandonado pela mulher. não conseguia sair dos Estados Unidos. entretanto. 334 # por ter sido abandonado pela esposa. junto com Gabriel García Márquez. 333 # Viagens Há muitos anos que eu queria ir à Europa e me encontrar com Jorge e Margarita na Espanha.

Também não quis fazer dessas memórias um tratado de literatura ou uma extensão das minhas relações com pessoas supostamente importantes. ali estavam Jorge e Margarita Camacho à minha espera. nunca deixaram de me escrever. na realidade. Sempre pensei que fosse melhor ler sem conhecer os escritores pessoalmente. porque assim terríveis decepções são evitadas. Passei com eles um dos momentos mais memoráveis de minha vida. Durante todos aqueles anos. Uma das figuras que mais me assombrou foi a de Carlos Fuentes. Quase todo o auditório compunha-se de chilenos exilados da ditadura de Pinochet. Agora. estive na residência do reitor de uma famosa universidade norte-americana. depois de tantos anos. o que de fato aconteceu. Aquele . Tratava-se de um encontro entre vários escritores de fama mundial. pelo signo da adversidade ou da maldição. para que Margot caísse. alguns famosíssimos. pretendia somente ler alguns fragmentos do jornal Granma. não me deixaram falar. de repente. Sabiam do caso de Armando Valladares e outros intelectuais presos. ver a guarda real. diziam que tudo o que eu contara era absolutamente falso. mas prefiro não mencioná-los. mas o privilégio de poder fazê-lo com os amigos mais queridos transformava esse fato em algo verdadeiramente inesquecível. De qualquer maneira. parecia um sonho. Quanto a mim. Felizmente. Virgilio Pinera e Lydia Cabrera. foram marcadas. era uma maneira irrefutável de mostrar àquele público o que estava ocorrendo em Cuba. e jamais desistiram de tentar me tirar do país. Armaram um tremendo escândalo e se levantaram para me xingar. passeando pelo Prado de Madri. inclusive. desde 1967 que não nos víamos. acho que acabei esquecendo suas vaidades pessoais. tinham uma outra postura a respeito da ditadura de Fidel Castro. Minhas amizades com Lezama. estava usando um casacão gigantesco. devido à situação em Cuba. Depois. Num dado momento. comprado em Nova York por oitenta dólares. principalmente. as quais nunca mais me deram notícia. formada por adolescentes lindíssimos. em 1983. depois voltavam para os confortáveis apartamentos na Suécia. Minha palestra na universidade foi antecedida pela de Carlos Franqui e sua esposa Margot. que eram de fato pessoas extraordinárias. e íamos nos encontrar agora. Também li relatórios de todos osjornais cubanos. fiquei muito contente em visitar Estocolmo e. onde tinham direito. li várias leis que o próprio governo cubano publicara em Cuba. estávamos juntos. Estavam vivendo muito bem na Suécia. conheci muitos escritores importantes. não tive problema para conversar com essas pessoas. mas não havia como convencê-los. de alguma maneira viável. Descobrir uma cidade já era em si um ato singular. que enfrentaram as mesmas dificuldades para conseguir falar. 335 # Chegar à Espanha foi para mim um grande acontecimento sentimental. descobrindo uma das cidades mais lindas do mundo. aos benefícios da previdência social.para falar a verdade. o que é importante? Por uma dessas armadilhas do destino. Publicaram inclusive várias entrevistas minhas e cheguei a contactar algumas editoras. estive sempre muito mais perto deles lendo seus livros. Depois pegamos o trem e fomos visitar Paris. nem por uma semana. Devo reconhecer que muitos intelectuais suecos me receberam de maneira completamente diferente. Chegaram a colocar uma chave ou algo parecido no chão. iam todo ano ao Chile em férias.

fundado uma revista literária. era um grande leitor. pude pegar um trem local e retornar a Nova York. Como se tivesse tempo de sobra. Jorge Ronet ou Miguel Contreras. uma plaquinha presa no peito com o respectivo nome e título. entre os quais o prêmio Cervantes ou o Nobel. pegar um carro e percorrer todo o país. e sim um computador. uma das minhas grandes aventuras.homem não parecia um escritor. E tinha ouvido Jorge Luis Borges lendo pessoalmente seus poemas. representava o extremo oposto do que considero um verdadeiro escritor. bastava-lhe apertar um botão. no Central Park ou na populosa rua 42. sempre dispostas a passar momentos agradáveis. Era como se eu recuperasse meus bons tempos. Naquela época. ia para as praias nova-iorquinas. conseguido que a minha mãe viesse de Holguín para Nova York.e passasse três meses comigo e levasse de volta uma quantidade enorme de roupa com a qual vestiu quase todo o bairro de Vista Alegre. Saí daquele encontro apavorado. de Jorge Ulla. Felizmente. Em companhia de René Cifuentes. que dão conferências impecáveis. La otra Cuba. onde moravam seus familiares e amigos em Holguín. Ele não era um professor no sentido convencional da palavra. como enfermeiras num hospital. 337 # ligeiramente parecidos com o capim-guiné. Tinha também viajado por grande parte da Europa. tão elegantemente vestido. e possuía a habilidade mágica de instilar nos alunos o amor pela beleza. eu já participara de três filmes: En suspropiaspalabras. e Conducta impropia. Foi o único professor latino-americano nos Estados Unidos que deixou uma escola de pensamento crítico. eu já fora convidado por mais de quarenta universidades e tivera aventuras memoráveis com os negros mais fabulosos no Harlem. nem mesmo de natureza metafísica. com uma intuição que ultrapassava seus méritos acadêmicos. Vivia agora meu tempo perdido e novamente quase reencontrado. eu passava as noites percorrendo os lugares mais alucinantes de Manhattan. Diversos professores universitários americanos estavam presentes e cada um trazia. Aquele homem. era uma verdadeira enciclopédia. amante da grande literatura. Com a diferença de que agora podia contar com a facilidade absoluta para fazer e escrever o que bem quisesse. para mim. Nos finais de semana. entrei para uma academia de ginástica e passava boa parte do dia correndo. tinha uma resposta certa e aparentemente lúcida para qualquer problema ou pergunta que lhe fossem apresentados. nuas e excitadas. Nos três anos após minha saída de Cuba. de Néstor Almendros e Orlando Jiménez Leal. Há muitos escritores agraciados com importantes prêmios literários. Assim. após uma complicada burocracia. para lá acorriam bandos de bichas-loucas. aqueles dias em que corria pelas praias de Havana. que também eram incontáveis. No meio daquela fauna devo destacar a figura de Emir Rodríguez Monegal. Carlos Fuentes expressava-se num inglês perfeito e parecia ser 336 # um homem que nunca tivera qualquer tipo de dúvidas. Algumas dessas praias eram cercadas por imensos matagais. escrito e reescrito seis dos meus livros. o tempo das minhas aventuras submarinas e da euforia de minha criação literária. sumir por uns dias sem precisar explicar nada a ninguém. . talvez apenas um pouco mais encorpada. de Carlos Franqui e Valerio Rivas.

tinha batido numa árvore. regando uma árvore gigantesca com uma enorme mangueira. eu ia vê-lo toda semana nas horas de visita. ele ficou desempregado. quando. Lázaro representou o único laço com o passado. vi uma criança de cabeça raspada. temia-se que fosse preciso amputá-la. Lázaro acabou internado durante meses no setor psiquiátrico do hospital público da cidade. arrastando-se a duras penas escadas acima. Lázaro não estava nada bem. A mãe. e agora sozinho num hospital de alienados. recebi um telefonema de um hospital fora de Nova York. Lázaro não era mais a mesma pessoa. pela primeira vez. mas a companhia faliu e. Para mim. Consegui para ele um quarto na rua 31. Pouco a pouco. eu experimentava um profundo sentimento de mal-estar e ansiedade. comparei aquela criança a Lázaro. também estava muito machucado na cabeça. embora minha situação econômica nunca tenha sido muito boa no exílio. onde passou mais de um mês com uma perna completamente esmagada. por causa do seu estado mental. mas era preciso que lhe dessem alta. engordara e perdera a forma com o tempo passado no hospital. Um dia. contribuiu para agravar seu estado mental. encontravam-se lá todos os tipos de loucos.compartilhada com meu amigo Roberto Valero. o desprezo. sua esposa María Badías. subia a escada bem devagar. Nossa amizade continuava. É difícil esquecer a imagem daquele rapaz. começou a trabalhar numa companhia de aviação e parecia muito feliz. ao sair do hospital. no exílio. que fora tão bonito. o único testemunho cúmplice da minha vida em Cuba. sempre tive a sensação de poder voltar àquele mundo . conseguiu encontrar um emprego de porteiro. Ele sempre tinha planos e uma imaginação muito fértil. a miséria. mas não conseguia levar nada até o fim. era preciso continuar vivendo e enfrentar as novas desgraças por vir. quando souberam que não tinha dinheiro nem seguro. Quase à mesma época em que saiu do hospital. Não era mais o rapaz ágil que corria atrás de mim no Central Park. no meu quarto. Quando saiu do hospital. ele foi posto na rua. a discriminação. uma ambulância o levou para outro hospital. Ao entrar naquele 339 # prédio. Um dia depois do acidente. veio ficar comigo. a satisfação de estar vivos. muito magra. A enfermaria era dantesca no pior sentido da palavra. mais uma vez. Depois de uma série de trâmites burocráticos. De qualquer forma. 338 # A Loucura Em 1983. Não éramos os mesmos. Lázaro sofrera um acidente de carro e seu estado era gravíssimo. e Lázaro. Eu tentava ajudá-lo. gritando dia e noite. Após um certo tempo. Era difícil morarmos juntos. a loucura. respiramos a sensação de liberdade e o gozo de uma aventura sem sermos perseguidos. Ao sair do hospital. com ele. mas com uma árvore enorme junto à janela. tínhamos visto o horror de um hospital em Nova York. sua mãe chegou de Cuba. ao invés de ajudá-lo. transferiram-no para um hospital particular de Manhattan. voltou a se integrar na sociedade. com um sentimento de derrota. ainda menor do que o meu. Tinham colocado um parafuso em sua perna e agora mancava. foi percorrer todo o país de carro. órfão de pai desde menino.

Nos Estados Unidos. A grande maioria da humanidade não consegue nos entender e também não podemos esperar isto. trabalho esse que é um dos melhores do mundo. que sofremos durante vinte anos uma perseguição violenta. queria esvaziar o prédio para reformá-lo e aumentar os aluguéis. a qualquer momento. muito menos compartilhá-los. apesar de continuar trabalhando como porteiro. perdida num bairro de Holguín. Era difícil lutar contra os poderosos. somos pessoas que não podem encontrar tranqüilidade em lugar nenhum. estava acontecendo a mesma coisa. dediquei a Lázaro. Finalmente. E nós. num mundo terrível. entre a loucura e a genialidade. apesar dos seus 32 anos. . vivendo sempre como um nômade. Fui transferido para um velho edifício. Escreveu o livro que se chamou Desertores del Paraiso. não muito longe do anterior. depois. e assim água e neve entravam em meu apartamento. editado por Néstor Almendros e Jorge Ulla. em Nova York. mas em Cuba. mas ele deu um jeito para quebrar o telhado. principalmente quando não se tem o direito de residência no país e não se conhece a linguagem jurídica. o maior problema que tive foi a falta de lugar para morar . quando se vem do futuro. compreender os nossos. de fato. 341 # Despejo Em 1983. tive de abandonar o apartamento. Meu novo mundo não era dominado pelo poder político. ou em outro qualquer. Depois fiquei sabendo que as pessoas que se recusaram a sair conseguiram receber do proprietário até vinte mil dólares para se mudarem. Agora. Lázaro conheceu no prédio uma 340 # americana com quem se casou. o dono do edifício onde eu morava resolveu despejar todo mundo. não tive outra solução a não ser juntar minhas coisas e me mudar para outro cubículo. o sofrimento nos marcou para sempre. todas as pessoas têm seus próprios terrores e não conseguem. deve-se ao fato de saber que meu irmão irá viver numa terrível solidão. É difícil conseguir manter algum tipo de comunicação neste país. nem consigo morrer em paz. extraí a maior parte das idéias de El portero. é claro. que. mas também sinto pena de Jorge e Margarita. como um dos dez mil asilados na embaixada do Peru. Convidou-me então para passar umas férias em Porto Rico. e sim por esse outro poder. convivendo com o terrorde que. sem teto para me abrigar. Seja como for. Na verdade. ainda que queiram. fosse parar na rua. e muito bem recebido pela crítica. cubanos. fez um curso de fotografia e é hoje um excelente fotógrafo. e de minha mãe. Ao conversar com Lázaro na portaria do seu edifício. Faz muitos anos que nossa amizade transformou-se numa espécie de irmandade. realmente. Trabalhando como porteiro. Se algumas vezes tenho pena de deixar esse mundo.irrecuperável. Foi uma verdadeira guerra entre o proprietário e os inquilinos. as pessoas se mudam com freqüência com a maior naturalidade. Foi quando encorajei-o a escrever suas memórias. nunca deixou de ser uma criança. e talvez possamos encontrar certa comunicação com pessoas que tenham sofrido como nôs.

343 # O Anúncio Em 1985. como uma entrega a um mundo absolutamente desconhecido e cheio de promessas. enquanto os dentes avançavam. morreram dois dos meus grandes amigos: Emir Rodríguez Monegal. Os sonhos sempre estiveram presentes em minha vida. Sempre fui para a cama como quem se prepara para uma longa viagem: livros. mas sorridentes. tão deliciosas quanto sinistras. o barulho se tornava mais agudo. e uns dentes enormes me cercavam de ambos os lados. assim como os pesadelos. minhas mãos ficavam suadas. não tem história. para mim. em breve.igualmente sinistro: o poder do dinheiro. ainda ontem. não pode haver 342 # história onde não existem lembranças as quais se apegar. encontrava-me brincando no telhado da casa de campo e. com quem eu tivera grandes aventuras noturnas. lápis. relógios. tudo se transforma em banco. onde. comprimidos. ouvia-se uma música . Depois de viver nesse país durante alguns anos. evidente. Emir morreu de câncer fulminante. transformava-se agora em algo certo. até aquele momento. a queda se prolongava como uma infinita agonia e eu acabava despertando antes de morrer. e Jorge Renut. acabei entendendo que se trata de um país sem alma. de repente. os sonhos eram coloridos e pessoas extraordinárias aproximavam-se. pois tudo está condicionado ao dinheiro. só tinha para mim conotações muito remotas. eu despertava. oferecendo-me uma amizade que eu queria compartilhar. sem lugar onde se possa simplesmente ficar sem pagar em dólares o pouco de ar que se respira. experimentava um violento calafrio. Eu estava numa esplanada avermelhada. ou a cadeira em que se senta para repousar. palpável. hoje existe uma loja de verduras e amanhã será um cinema. o cadáver do meu amigo era a prova de que. preencheram grande parte da minha vida. sem lugar para acolher quem queira descansar. em seguida. quando já estavam quase me devorando. cadernos. pertenciam a uma boca enorme que fazia um barulho estranho. a primeira imagem da minha infância é um sonho. Chegar na cama e apagar a luz tem sido. por causa de um movimento errado. havia um supermercado. Depois. essa cidade está em constante transformação. 344 # Os Sonhos Os sonhos. a pessoa que fizera a melhor interpretação dos meus livros. copos de água. Outras vezes. Outras vezes. para erguer novos prédios. passei a sonhar muito com Lezama. em constante construção. A cidade é uma imensa fábrica desumana. e vinha rolando e caindo num imenso vazio escuro. eu também poderia estar na mesma situação. Jorge morreu de AIDS. eram pessoas gigantescas. Nova York não tem tradição. um sonho terrível. que se encontrava numa espécie de reunião num salão imenso. A praga que.

e agora. Em Nova York. ele é o meu duplo. Em outros sonhos sou um pintor. meu Deus?" Mais tarde. jovem. quando era menino. dizendo: "Por que. era maravilhoso flutuar sobre aquelas águas. insetos e aves cada vez mais gigantescas. Chamo. vai andando até ajanela que dá para a rua e pula. 346 # Levanto-a e olho para seu lindo rosto sujo de terra.talvez por ter seqüestrado um avião. e da minha mão começam a sair pássaros de todas as cores. Em outro sonho. onde fica a casa de minha mãe. lá está Lázaro. cumprimenta-me num tom meio triste. sonhava que voltara para Cuba não sei por que razão . bastava pensar que se pode voar. alguém teria que me apanhar de carro e me levar. eu era menino e me aproximava. que a polícia viria me prender. continuo gritando cada vez mais alto. desejo me aproximar da casa onde estava minha mãe. não os de Lázaro. conto que Lázaro se atirou pelajanela e todas correm para a rua. a pessoa de quem mais gostei é o símbolo da minha destruição. minha mãe e minha tia estão do outro lado da tela e faço sinais. María Luisa. ou porque me disseram que podia ir sem nenhum problema -. Ocasionalmente. e elas olham para mim através da tela. cada vez maiores. e ao ver as paredes deterioradas do meu quarto em Nova York experimentava uma alegria indescritível. morto. e há uma tela de metal diante da porta. começo a gritar e desço a escada. é o azul que predomina. Precisava receber um aviso muito estranho para ir ao aeroporto. entra Lázaro. não era Lázaro que estava morto. mas não consigo passar pela porta. chegava atravessando vários quilômetros. sorrindo. dizendo para María Luisa: "Olha só. era fácil. Já tinha percorrido o mundo e conhecia o significado da liberdade. o mar chegava até minha casa. esbelto. e os bichos continuam saindo da minha mão. Então despertava. tentei interpretar esse sonho de várias maneiras. sabia que não poderia sair. acho que os quadros se relacionam com meus entes queridos. apesar de ter ido para os Estados Unidos. nadava e nadava. para que abram a porta. estava sua esposa. Depois. era eu. mas estou descendo a escada em Holguín. era lógico que as pessoas que foram ver o cadáver fossem os meus familiares. com a cabeça na lama. continuo chamando. lá está minha avó e várias tias. . Mas estava em Cuba e voava sobre as palmeiras. Sonhei que. por circunstâncias estranhas. embora chamem os homossexuais de pájaros (pássaros). começo a gritar para que abram a porta." Naquela época. De repente. que é a rua Dez de Outubro. de onde não podia mais sair. e nessa cor as figuras se dissolvem. o apartamento fica em Nova York. minha avó se aproxima. ele afastava as pernas e me recebia. sentindo o cheiro da água que continuava avançando numa enorme corrente. já falecera. como ele está bem. sonhei certa vez que podia voar. encontrava-me em Cuba e não poderia fugir. diante dele. como ele está bem. olhando para o teto da minha casa inundada. tenho um estúdio bastante espaçoso e pinto quadros enormes. e me via novamente em meu quarto. privilégio impossível para um ser humano. coloco a mão no peito.345 # ao longe e Lezama pegava um enorme relógio de bolso. e todo o pátio ficava inundado. estava condenado a ficar ali para sempre. contempla o rapaz e olha para o céu. Por essa razão.

ainda se encontrava no edifício quando ouvi uma explosão no quarto. Quando cheguei perto da janela. Estávamos em 1986. estava terminando a leitura de As mil e uma noites. durante anos. Algo muito estranho tinha acontecido naquele quarto: o copo de água. e tinha de dormir ali. uns rapazes me revistaram. estavacompletamente estilhaçado. em várias ocasiões. ao chegar em meu apartamento em Nova York. quedas de árvores. encontrei um negro imenso que quebrara a janela e roubara toda a minha roupa. descobria que todos tinham conseguido entrar em minha cabeça e meu cérebro ia ficando gigantesco para poder contê-los. que acabamos fazendo amor e. Agora. O copo cheio de água talvez fosse uma espécie de anjo da guarda. De repente. Estava num imenso mictório público cheio de excrementos. feliz e radiante. pois já fora ameaçado de morte pela Segurança do Estado. que ainda se encontrava no edifício. que já estava vindo naquele momento. Havia centenas de pássaros raros que se moviam com muita dificuldade. uma nova notícia terrível de algo realmente pavoroso que estava por vir. perseguições. despertava molhado de suor. por isso não se tratava de ladrão. ou ajanela que eu deixara fechada encontrava-se aberta.atravessava a Quinta Avenida de Miramar e as palmeiras que a cercam. preparando-me para o pesadelo. com uma arma apontada em minha cabeça. uma premonição. Certa vez. conseguia voar mais alto que a copa das palmeiras. Chamei imediatamente Lázaro. Mas o mistério daquela noite continua sendo totalmente indecifrável para mim. o qual. compreendi que se tratava de um aviso. Peguei um avião de volta para Nova York. e que me ameaçava . tiros no meio da noite. enquanto eu. com a sensação de estar no ar. enquanto isso. Em outra ocasião. meu corpo foi tão tocado por todas aquelas mãos. fui para a cama com uma porção de coisas e um copão de água. ou algum ladrão que tivesse arrebentado as vidraças dajanela que dava para a rua. em outras ocasiões. fui assaltado no Central Park. algo tinha-se encarnado no copo. Pensei que tivessem atirado em mim e acertado o copo. e fizemos uma rigorosa inspeção em todo o apartamento. tive um sonho terrível. assaltos por bandos de marginais armados em Nova York. uma mensagem dos deuses infernais. prisões. Passei várias noites em Miami com o mesmo pesadelo. tinham entrado em meu apartamento e remexido em todos os meus documentos. fora uma proteção. na mesinha-de-cabeceira. Passando umas férias em Miami. toda aquela graça que me salvara de tantos perigos parecia ter chegado ao fim. Pensei que fosse um dos meus amantes ciumentos. Então despertava em Nova York. com tamanha explosão? Uma semana mais tarde. no final. encontrando apenas cinco dólares. O lugar ia ficando cada vez mais cheio daqueles horríveis pássaros. sempre leio pelo menos uma ou duas horas. livrando-me de todos os perigos: doenças horríveis. o barulho foi tão grande que deviam ter quebrado o vidro com uma barra de ferro. o que tornava impossível qualquer tentativa de fuga. pedi que me dessem um dólar para poder voltar para casa. Como sempre. todo o horizonte parecia obstruído pelos pássaros que tinham algo de metálico e faziam um ruído abafado. afogamento no mar. e me deram. eu me tornava cada vez mais velho. Lázaro estivera conversando 347 # comigo e acabava de sair. de talismã. sem que tocasse nele. Como era possível que um copo de vidro se quebrasse daquela maneira. sem que tivessem levado nada. Antes de dormir. era lindo ver toda a paisagem. as vidraças estavam intactas. como um sinal de alerta.

Já estou só. Lázaro e eu estávamos numa praia deserta em Porto Rico. Quando estavam indo embora. tentou me atingir os olhos. fomos revistados e eles levaram o pouco que tínhamos: pés-de-pato. seu filho. foi o mistério que cuidou dos meus terrores. nos lugares mais tenebrosos. era sempre para você que eu olhava. Podíamos ter sido mortos. desde a minha infância. estava certo. aquecendo-me como nunca soubera fazer. mais misterioso e sinistro do que tudo o que acontecera antes. E agora. desfaz-se em mil pedaços diante da minha cama. outra ocasião. mas fiquei bom em uma semana. O copo quebrado era o símbolo da minha total condenação. parecia assumir o controle da situação. mas Lázaro me mandou parar. Quanto a ele. compaixão para comigo. dando pancadas com toda a força. disse um deles. mas meu anjo da guarda nos protegeu. a quem eu perguntara as horas. pois era muito perigoso. o copo estava quebrado. Cortou minha testa. era meu consolo. Acho que também fui muito estúpido com ele. minha verdadeira deusa. amargura. mas outro disse que podíamos ficar com ela. Mais uma vez. Um deles nos apontou uma pistola que mal conseguia ocultar por baixo de um lenço. respondeu com muita grosseria. Oh. subitamente. meu anjo da guarda me protegera. ou a gente vai matar vocês aqui mesmo". Condenação. 349 # O que era aquele copo quebrado? Era o deus que me protegia. era a própria Lua. dentre elas um porto-riquenho com uma escopeta. Ensanguentado. cheguei ao meu apartamento. foi minha própria mãe. com mais de seis homens. Ele abriu um livro e começou a ler quando chegou um bando de assaltantes. . parece que queria me cegar. um dos assaltantes não queria. infelizmente. não havia salvação. pois não tinha qualquer utilidade. era a deusa que sempre me acompanhara. Pude sair correndo e gritar que tinha um ladrão no edifício. lá estava você. junto a mim. que me avisou que o terreno estava minado quando cheguei à base naval de Guantánamo. pegou uma chapa de ferro escondida no guarda-chuva e veio em cima de mim. Deitados no chão. pedi que devolvessem a máscara. iluminando-me nos piores momentos. sempre foi quem me orientou nos momentos mais difíceis. Lua. no mar. Lua! Sempre esteve a meu lado. uma máscara de mergulho. entre os rochedos da minha ilha desolada. o mesmo que me fez sobreviver em El Morro. que me protegeu de tantas desgraças. Mas agora algo muito mais poderoso. deixando todos os meus pertences. em pleno mar. não havia mais salvação. Tínhamos ido para lá porque o lugar lembrava as praias de Cuba. na costa. eu a contemplava.348 # com sua arma. que era minha mãe transformada em Lua. furioso. Ele nos salvara mais uma vez. Agora. porém. em seu rosto. e acabei lhe dando um empurrão. Peguei um pau e quis bater neles. "Deitemse no chão e passem pra cá tudo o que têm. sempre a mesma. foi assim que interpretei o fato poucas semanas mais tarde. É de noite. o que fez com que o negro fugisse. via-se uma expressão de dor. foi o consolo durante as noites de desespero. em pleno bosque. mas não conseguiu. Minha grande deusa. um sujeito de guarda-chuva. várias pessoas apareceram no corredor.

Só há um responsável: Fidel Castro. a seguir lutando pela liberdade. Sinto-me satisfeito por ter contribuído. Deixolhes pois como legado todos os meus terrores. Conclamo o povo cubano. mesmo me sentindo muito doente.certamente não teria sofrido isto se pudesse ter vivido livre em meu país. a dor de ter sido banido. a solidão e as doenças contraídas no desterro . tanto no exílio quanto na Ilha. estou pondo um fim a minha vida. Ponho fim a minha vida voluntariamente porque não posso continuar trabalhando.350 # "Queridos amigos: Devido ao meu precário estado de saúde e à terrível depressão emocional que me impossibilita de continuar a escrever e a lutar pela liberdade de Cuba. mesmo que modestamente. Os sofrimentos do exílio. mas sim de luta e esperança. na qual trabalhei por quase trinta anos. Minha mensagem não é uma mensagem de derrota. (assinado) Reinaldo Arenas PARA SER PUBLICADA . mas também a esperança de que em breve Cuba será livre. Nos últimos anos. pelo triunfo desta liberdade. Nenhuma das pessoas que me cercam estão comprometidas nesta decisão. pude terminar minha obra literária.