Nick Shadow

Tradução Rita Lagoeiro Sussekind

Título original: The Midnight Library — The Cat Lady Série criada por Working Partners Limited Ilustração de capa: David Wyatt Direção editorial Soraia Luana Reis Editora Luciana Paixão Editor assistente Thiago Mlaker Assistência editorial Elisa Martins Preparação Wilson Rioji Revisão Ana Cristina Garcia Rebecca Villas-Bôas Cavalcanti Criação e produção gráfica Thiago Sousa Assistente de criação Marcos Gubiotti Juliana Ida

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

S537d Shadow, Nick

A dona dos gatos / Nick Shadow; tradução Rita Lagoeiro Sussekind. — São Paulo: Prumo, 2009. — (Biblioteca da meia-noite). Tradução de: The midnight library: the cat lady ISBN 978-85-7927-017-8 1. Literatura infanto-juvenil inglesa. 2. História de terror. I. Sussekind, Rita. II. Titulo. III. Série. 09-2280. CDD: 028. 5 CDU: 087. 5

Bem-vindo, leitor.
Meu nome é Nick Shadow, curador desta instituição secreta: a Biblioteca da Meianoite. Onde fica a Biblioteca da Meia-noite?, você pergunta. Por que você nunca ouviu falar dela? Para sua própria segurança, é melhor que essas perguntas permaneçam sem resposta. Contudo... desde que você prometa não revelar onde descobriu o que vem a seguir (não importa quem ou o que exija isso de você), eu revelarei o que mantenho nos cofres antigos. Após muitos anos de pesquisa, reuni a mais assustadora coleção de histórias já apresentada ao homem. Elas irão aterrorizá-lo, e fazer com que a carne de seu jovem esqueleto estremeça. Talvez você devesse tomar coragem e virar a página. Afinal de contas, qual a pior coisa que poderia acontecer?...

Volume 4

A mulher dos gatos Quem ousa ganha Não acorde o bebê

A DONA DOS GATOS
— Gatinha medrosa! Gatinha medrosa! As vozes assustadoras ecoavam nos ouvidos de Chloe Forrester, enquanto ela pedalava furiosamente pelo beco que dividia as novas construções da cidade antiga. Suas bochechas estavam queimando, ela acelerou entre as altas grades de madeira até chegar a um monte de grama aberto, conhecido como o “Velho Verde”. Chloe gritou em tom desafiador para Heather e para o resto do pessoal. — Eu não estou com medo! Só não quero fazer! — A Chloe é muito covarde! — gritou Heather. — Covarde! — Maggie e Emma berraram juntas, aproveitando a deixa de Heather. — Calem a boca! — continuou Chloe. — Calem a boca! Hayley e Megan se uniram ao coro. Agora todo o grupo estava gritando: — Covarde! Covarde! Chloe agarrou o guidão da bicicleta, levantando-se do banco para passar por cima de uma mureta e chegar ao gramado. Ela pedalou com força, e teve dificuldades

para sustentar a velocidade no aclive. No topo do monte, freou a bicicleta e virou. Ela tinha 13 anos, era alta e magra, com cabelos dourados e um rosto pálido e sardento — só que agora as bochechas estavam vermelhas e seus olhos azuis ardiam com o vento frio. Tudo começou quando Heather desafiou Chloe a jogar pedras nas janelas da Mulher dos Gatos e depois correr. Ela se recusou. Então Heather a chamou de medrosa e ela foi embora com sua bicicleta, humilhada e irritada. Chloe observou enquanto Heather e o resto do grupo pedalaram até o final do beco. Heather disse alguma coisa às meninas, e todas riram. As bochechas de Chloe enrubesceram de vergonha — sabia que estavam rindo dela, e detestava isso. Enquanto olhava para o grupo, desejou jamais ter brigado com Tina. As coisas eram muito mais simples quando as duas eram as melhores amigas. A desavença acontecera uns meses antes — foi uma discussão tola por causa de uma blusa. Chloe pegou-a emprestada de Tina para ir a uma festa e, quando devolveu, havia uma mancha que não saía de jeito nenhum. Tina disse que a blusa estava em perfeito estado quando a emprestou — mas Chloe tinha certeza de que não tinha

manchado a blusa. Nenhuma das duas deu o braço a torcer. Chloe saiu irritada, dizendo a Tina que nunca mais queria falar com ela. Depois, para provocar ciúmes em Tina, começou a andar com Heather e seu grupo de amigas, em parte porque todos achavam que elas eram legais — mas também sabia que Tina não gostava delas. Ela achava que pareciam ovelhas estúpidas — seguindo Heather por todos os lados. Chloe não gostava muito de Heather: ela era sarcástica, cruel e também muito encrenqueira. Mas Maggie, Megan, Emma e Hayley eram bacanas. Exceto pelo fato de que sempre faziam tudo que Heather mandava. Isso era muito irritante. Chloe olhou para baixo, para o caminho que havia seguido. A parte com as novas construções se alongava, bonita, limpa, organizada e crescendo para o lado esquerdo do Velho Verde. Para o lado direito, espalhava-se a velha parte vitoriana da cidade. Uma estrada dividia o velho do novo. Era pavimentada e tinha cercas em ambos os lados. À esquerda, belas portas de madeira levavam aos jardins da parte nova, e à direita havia um conjunto antigo de cercas — decrépitas e entrelaçadas com vinhas e plantas espinhosas. Na opinião de Chloe, parecia que as pessoas que puseram

as cercas não queriam que ninguém de uma parte da cidade entrasse na outra. Mas isso não freava os gatos! Havia muitos gatos. A maioria deles vinha da casa da senhora Tibbalt, um lugar sujo localizado logo atrás da cerca que limitava as fronteiras da parte antiga da cidade. A senhora Tibbalt era um pouco estranha. Era conhecida como a Mulher dos Gatos. Às vezes Chloe e as meninas olhavam por cima da alta cerca e viam o jardim cheio desses animais. E às vezes Heather balançava a cerca e gritava para assustá-los. Chloe não gostava disso — ela achava maldade. A casa da senhora Tibbalt era um santuário para o que pareciam centenas de gatos. Eles ficavam por todos os lados. Pretos e malhados, machos e fêmeas, velhos e jovens — de filhotes com olhos brilhantes e unhas afiadas a velhos gatos ferozes que sibilavam e exibiam seus dentes amarelos quebrados a qualquer um que se aproximasse. Desde que Chloe se lembrava, corriam histórias assustadoras sobre a mulher. Foi Tina quem contou as primeiras histórias, há anos, quando a família de Chloe se mudou para a cidade. — É verdade, é tudo verdade — disse Tina, com os olhos arregalados, no primeiro

dia de aula. — A Mulher dos Gatos sequestra crianças. Chloe não se convenceu. — Por que ela faria isso? — perguntou. A voz de Tina se tornou um sussurro. — Ela leva as crianças para a adega, e faz picadinho delas para transformar em comida de gato — disse Tina. — Como você acha que consegue alimentar tantos gatos? Chloe encarou Tina, desconfortável. — Eu não acredito! Tina riu. — Pode perguntar a qualquer um! — disse. — Mas é melhor tomar cuidado. Se você se aproximar da casa, ela aparece e oferece doces para convencê-la a entrar. E depois que você entra, ela oferece uma bebida que a deixa fraca e sonolenta. — E depois? — perguntou Chloe, com os olhos arregalados em sinal de alerta. — Depois ela arrasta você para a adega suja e escura — afirmou Tina. — E sua cabeça vai batendo pelos degraus, e você não pode fazer nada. Ela tem uma máquina de moer enorme lá embaixo. E você fica deitada indefesa enquanto a senhora Tibbalt liga a máquina. E o aparelho começa a estalar e fazer barulho, e você vê uma chave enorme girando. E depois a Mulher dos Gatos te coloca na máquina, lentamente, primeiro pelos pés. E a pior

parte é que, apesar de não conseguir se mover, você continua consciente enquanto é esmagada em pedacinhos! Chloe não havia acreditado que a Mulher dos Gatos realmente transformava crianças em comida de gato em sua adega, mas mesmo assim preferiu manter sempre uma distância segura da casa. A senhora Tibbalt não era de se ausentar da casa, mas, quando saía, Chloe a observava com atenção enquanto ela descia a rua com a ajuda de uma bengala, toda enrolada em um casaco pesado e mofado e um cachecol. E mesmo depois de tantos anos, Chloe continuava atravessando a rua para não chegar muito perto da casa. Havia algum tempo ela fizera essa confissão para Heather e o resto do grupo. — Eu sei que é só uma senhora. E essas histórias a seu respeito não são verdadeiras, mas mesmo assim ela me dá arrepios. Heather gozou de Chloe. — Isso é patético — Heather disse. — Quantos anos você tem? Seis? — as outras se juntaram às gargalhadas de Heather, apesar de Chloe ter certeza de que elas também tinham medo da Mulher dos Gatos. — Você precisa crescer um pouco — Heather afirmou. — Eu sei como pode curar o seu medo da Mulher dos Gatos — ela subiu

na bicicleta. — Vem, vamos nos divertir um pouco. — Que tipo de diversão? — perguntou Chloe, rapidamente. — Bem, para começar nós podemos jogar pedras na porta da frente da casa dela — disse Heather. — Isso seria engraçado. — Eu não quero fazer isso — Chloe respondeu. — O que ganharemos com isso? É maldade. — Divirta-se um pouco, medrosa — Heather disse, enquanto pedalava para longe. O resto do grupo foi atrás, deixando-a sozinha. Chloe ficou com raiva de Heather pelas gozações, e irritada com aquelas quatro garotas estúpidas que seguiam os passos de Heather como se fossem zumbis. Ela sabia que Tina tinha razão quanto às meninas, e isso fazia com que sua sensação de isolamento e solidão piorasse ainda mais. Chloe sentiu o estômago embrulhar, e lágrimas quentes se formaram em seus olhos; mas estava determinada a não chorar. E agora se encontrava na mesma posição outra vez, sozinha no topo do Velho Verde enquanto o resto do grupo ria dela. São todas idiotas, disse para si mesma enquanto olhava para baixo. Mas se eu não fizer o que querem, elas vão infernizar a

minha vida. Ela franziu o rosto. Eu vou colocar um fim nisso de uma vez por todas, resolveu Chloe, virando sua bicicleta e descendo novamente pelo monte de grama. — Olhem meninas! A medrosa está de volta — zombou Heather, — O que a medrosa quer? — perguntou Emma. Maggie se intrometeu também. — Você deveria correr para casa, para o colinho da mamãe, Chloe — ela disse. — A Mulher dos Gatos pode pegá-la! — Ah, cale a boca! — irritou-se Chloe. — O que? — disse Hayley, — Você ficou corajosa de repente? Chloe a ignorou. — Eu cumpro esse desafio estúpido — disse ela, olhando para Heather. — Não tenho medo. Eu só acho uma coisa patética, só isso. Heather olhou para ela de forma arteira. — Você tem que passar pelo portão — afirmou. — No jardim da frente. — Que seja — disse Chloe, tentando soar como se não se importasse a mínima com isso. Eu vou fingir que estou dando o meu melhor, mas vou errar a janela e mirar na parede, pensou. — Farei isso — disse ao grupo. — É totalmente patético e imaturo.

Heather olhou para ela, e Chloe a encarou por um instante. — Tudo bem, se você fizer direito — um sorriso se esboçou no rosto de Heather, enquanto olhava para as outras. — Eu já contei sobre a vez em que fui na casa da Mulher dos Gatos? — perguntou. — Não acredito! — engasgou-se Megan. Heather fez que sim com a cabeça. — É verdade — disse. As outras olharam para ela, impressionadas. — Ela tinha saído para fazer compras e deixou a porta da frente aberta. Então eu decidi entrar e dar uma olhada em volta. — Como era? — perguntou Emma, quase sem fôlego. Heather olhou para Chloe. — Nojenta — respondeu. — Era escura, fedorenta, e muito suja. E todos os quartos estavam cheios de montes mofados de jornais e revistas presos por uma corda. E havia sacolas de supermercado lotadas de lixo; e sacos pretos com mais lixo transbordando. E havia latas de comida de gato abertas por todos os lados. E todo o lugar cheirava a xixi de gato. O cheiro dava a impressão de que os animais usavam a casa inteira como um banheiro gigante. Ouviam-se gemidos e sons que indicavam repulsa do resto do grupo, mas

Chloe achava que Heather estava inventando tudo isso para enojar as outras meninas. Heather continuou com sua história assombrosa. — Os tapetes eram todos grudentos e esponjosos embaixo dos pés — disse ela. — E o papel de parede estava todo estragado, porque os gatos afiavam as unhas ali. Havia animais por todos os lados! E eles ficaram me olhando, e alguns deles sibilaram para mim, mas isso não me incomodou. Se algum tivesse tentado me atacar, eu teria dado um belo chute! — Mas a Mulher dos Gatos poderia ter voltado e flagrado você! — engasgou Hayley. Heather olhou para ela. — E daí? — disse. — O que ela iria fazer? Eu não tenho medo dela — olhou para Chloe, como se estivesse esfregando isso na cara dela. — Depois fui lá para cima — continuou. — Eu achei o quarto dela. Só que não tem uma cama, como as pessoas normais. Havia apenas uma enorme cesta redonda de vime no chão, cheia de lençóis sujos. É lá que ela dorme. E havia uma caixa enorme com areia de gato ao lado da cesta — ela deu outra olhada profunda. — E a caixa estava usada! Maggie arregalou os olhos.

— Você está querendo dizer que... Heather fez que sim com a cabeça. — Era a privada dela! Houve gritos de horror liberados por todas, exceto Chloe. — Isso foi tão nojento que virei as costas e saí de lá — disse Heather. — Aquele lugar me deu arrepios. — Eu não acredito que possa ser tão ruim assim — interrompeu Chloe. — Ninguém pode morar assim! E não creio que ela durma numa cesta de gatos! Heather deu de ombros. — Acredite no que quiser — disse. — Eu sei o que vi — ela lançou um olhar de provocação a Chloe. — Então, quando você vai realizar a aposta? Chloe olhou com ar desafiador. — Amanhã, depois da aula. Heather sorriu. — Estaremos esperando. — Estarei lá — disse Chloe. Ela pisou forte no pedal e conduziu a bicicleta pela rua que levava à sua casa. Ela tinha certeza de que Heather deveria estar falando mal dela para as outras nesse instante, dizendo que não iria aparecer. Bem, dessa vez ela estava errada. Mas, mesmo assim, Chloe se sentiu um pouco trêmula enquanto pedalava de volta para casa. Mais do que tudo, por raiva de

Heather e de seu grupo idiota, mas uma parte dela estava nervosa pelo que tinha concordado em fazer no dia seguinte.

Era uma tarde monótona, nublada e chuvosa enquanto Chloe passava pelo cruzamento com sua bicicleta e deixava a parte moderna da cidade, em direção à velha. Dobrou a esquina da rua em que a senhora Tibbalt morava. Ela viu Heather e as outras ali paradas com suas bicicletas no extremo oposto da estrada, esperando. Chloe pedalou até elas e parou. Heather deu um passo à frente. Ela estava segurando alguma coisa na mão. Era uma pedra enorme — quase do tamanho de seu punho. — É isso que você vai atirar na janela da Mulher dos Gatos — disse Heather. Chloe olhou para aquele pedregulho. — Você disse pedras! Heather deu de ombros. — E daí? É uma pedra grande — disse. Ela olhou para as outras, que responderam com um aceno de cabeça. — Todas nós concordamos — começou Heather — que, se quiser que ninguém mais chateie você, essa é a pedra que tem que jogar na janela. Mas

você é quem sabe, é claro. Pode desistir, se quiser. Chloe sabia que uma pedra daquele tamanho destruiria qualquer janela que atingisse. Ela examinou cada um dos rostos. Todos tinham a mesma expressão de ansiedade e petulância. Se se recusasse a jogar a pedra, as provocações começariam outra vez. Se ela concordasse, iriam se divertir um bocado com o ataque à janela da Mulher dos Gatos. De qualquer forma, Chloe soube naquele instante que detestava e desprezava cada uma daquelas pessoas. Mas não podia recuar. Era tarde demais para isso. Ela pegou a pedra da mão de Heather. — Jogue com força — disse Heather, com um brilho maldoso nos olhos. Chloe apoiou a bicicleta na mureta. A pedra parecia enorme e pesada em sua mão. Sem dizer uma palavra, virou-se e caminhou pela rua. Ela só queria acabar logo com isso. As casas eram todas cercadas por altas árvores folhosas e estava sombrio e úmido sob os galhos gotejantes. A residência da senhora Tibbalt ficava atrás de um pátio quebrado, depois de uns arbustos espinhentos muito altos. Chloe olhou entre os galhos de espinhos — tentando enxergar pelas janelas imundas a velha senhora. Mas

estava escuro demais. Ela observou através de seu casaco de capuz; a chuva fria agredia sua pele. Ela podia sentir que estava sendo observada pelas outras enquanto se aproximava do velho muro de ferro, quebrado e gasto. Ele era preso a um pilar de tijolos. Sobre a base de tijolos havia um gato de pedra, quebrado e manchado. E o portão tinha a silhueta de um gato de ferro, com seus contornos destruídos pela ferrugem. Chloe se encolheu e passou pelo portão. Ela respirou fundo e observou o pátio malcuidado até a velha casa. Em um dos lados, notou um galpão caindo aos pedaços, semiescondido sob as árvores. Como sempre, a casa se encontrava sob as sombras da escuridão. Chloe olhou para as janelas cinzentas. Caminhou cuidadosamente pelo pátio, desviando dos espinhos, atenta a tudo. Parou por um instante, olhando para a pedra. Era preta e denticulada — imaginou que deveria pesar um quilo ou mais. Olhou sobre seu ombro. Podia ouvir ruídos distantes vindos das meninas — uma indicação de como se comportariam com ela, caso desistisse do desafio. Ela se voltou para a casa e apertou a pedra que tinha nas mãos. Levantou o braço

e o lançou para trás, preparando-se para o arremesso. E então mirou uma das janelas laterais menores, sentindo-se péssima por isso. A cortina de rede se mexeu. Chloe congelou, seu coração estava acelerado. Através da fresta da janela, viu o rosto de um gato preto, que a encarava com seus luminosos olhos verdes. Um segundo gato se aproximou e sentou ao lado do primeiro; o rosto, malhado, misturava as cores marrom e dourada, e seus olhos eram amarelos. Eles a observavam. Chloe não podia jogar a pedra naquela janela, pois os gatos iriam se machucar com o vidro quebrado. Depois mais felinos apareceram atrás do resto dos vidros das janelas — até que todas as janelas tivessem rostos que observavam através de olhos amarelos, olhos verdes e olhos dourados. Ela ouviu um barulho vindo de trás. Concluiu que deveria ser a turma de meninas, escalando a cerca para observar. Seus pensamentos aceleraram enquanto os gatos olhavam para ela. — Eu não posso! — respirou. Em seguida, ouviu novamente o tom zombeteiro que vinha de trás da cerca. Se ela não jogasse a pedra, as meninas nunca mais a deixariam em paz.

Respirou fundo, tentando acalmar o ritmo acelerado do coração. Os gatos a observavam. Ela engoliu em seco, lançou seu braço para trás e jogou a pedra. Mas ela mirou baixo de propósito, com o objetivo de não acertar nenhuma das janelas. O pedregulho bateu contra as ervas daninhas sob as janelas. Houve um barulho seco e perturbador, seguido de um grito profundo de dor quando a pedra atingiu alguma coisa escondida na planta. Chloe cambaleou para a frente, com seu estômago se contraindo em uma bola de choque apavorado. Ela viu um gato pequeno deitado contra a parede em uma posição estranha, com a cabeça torcida. A pedra estava próxima. Havia sangue manchando o pelo do animal. Chloe sentiu-se tonta e enjoada. Ela estava com medo de se aproximar do pobre animal ferido, mas sabia que precisava fazer isso. Ela se jogou sobre seus joelhos, afastando cuidadosamente as folhas espinhosas do bicho. Trêmula, esticou o braço e tocou no pelo macio, evitando o sangue. O tórax estreito do gato subia e descia rapidamente, liberando cada vez mais sangue através do nariz e da boca.

— Gatinho...? — sussurrou Chloe, com a voz rouca, a garganta apertada e queimando. — Foi sem querer... — um choro doloroso cortou sua garganta como uma pedra afiada. Seus olhos se embaçaram com as lágrimas. A respiração do gatinho ferido perdeu a uniformidade. Chloe sabia que estava morrendo. Já tinha ajoelhado, tremendo, enjoada — extremamente horrorizada com o que tinha feito. Chloe gritou. Ela se levantou cambaleante e correu desordenadamente pelo pátio. Enquanto lutava para sair pelo portão quebrado, pôde ouvir atrás dela os gritos de dúzias de gatos enfurecidos. Chloe estava apavorada. As meninas esperavam por ela, e Heather sorria. — Você matou mesmo — disse. — Foi muito legal! — Saia de perto de mim — Chloe a empurrou com força. Heather perdeu o equilíbrio. Suas pernas se enrolaram com a bicicleta e ela caiu de costas, com um grito de raiva e dor. Chloe sequer notou as outras — que se afastaram, enquanto ela correu pela rua onde havia deixado sua bicicleta. Lançou-se sobre a bicicleta e pedalou para longe

daquele pesadelo horrível o mais rápido que podia — com lágrimas correndo pelo rosto enquanto ia para casa na chuva. Ela conseguiu passar pela porta, subir as escadas e chegar ao banheiro antes de vomitar. Ajoelhou-se com a cabeça sobre a privada, com o corpo inteiramente dominado pelo sentimento de culpa. Ela ouviu sua mãe chamando pelas escadas. Chloe lavou o rosto e secou com uma toalha, e respondeu com a voz mais normal que conseguiu. — Sou eu. — Você está bem? — gritou a mãe. — Estou. Tudo bem — respondeu Chloe. Ela ouviu vagamente alguns comentários sobre guardar a bicicleta direito — e em seguida veio o silêncio. Sentou-se no chão do banheiro, encostando a bochecha na fria bancada de porcelana do lavatório. Chloe fechou os olhos, e então viu novamente aquilo que a deixara apavorada no jardim da Mulher dos Gatos — o que tinha feito com que ela instintivamente corresse para se salvar e escapar com vida daquele lugar horroroso. Levantou-se com dificuldade, puxou a válvula de descarga e se inclinou sobre o lavatório. A imagem do próprio rosto no

espelho a deixou horrorizada. Sua pele estava manchada, marcada pelos traços de lágrimas e suor. O cabelo estava grudado na pele. Ela abriu a torneira e observou enquanto a água enchia a pia. Depois fechou-a e pôs o rosto na água. Erguendo a cabeça, Chloe se olhou no espelho mais uma vez. Agora estava simplesmente pálida — com os cabelos claros parecendo laços em suas bochechas e testa. O olhar assombrado estava começando a desaparecer de seus olhos. Olhos. Como os olhos que tinham... Não! Ela não ia pensar nisso. Uma determinação fria e sólida estava resultando de sua tristeza. Ela não queria mais saber de Heather e do resto do grupo. Definitivamente queria manter distância delas. Ela estremeceu. Sentia-se suada e fria, e suas roupas grudavam de um jeito incômodo no corpo. Suas pernas pareciam mais fortes agora. Ela precisava de um banho. Um longo banho quente para tentar lavar seus sentimentos de dor e perda. E depois resolveria uma coisa muito

importante. Algo que deveria ter feito há muitas semanas.

Chloe abriu o portão e empurrou sua bicicleta pelo caminho. Ela a apoiou contra a parede e subiu à entrada da casa. Respirou fundo e tocou a campainha. Durante o longo período que esperou até que alguém viesse atendê-la, teve tempo para imaginar todas as coisas desagradáveis que poderiam ser ditas a ela quando a porta fosse aberta. Ela ouviu o barulho de um passo por trás da porta que se abria. Sua ex-melhor amiga Tina estava na entrada. Ela era mais baixa do que Chloe, e não tão magra; seus cabelos escuros tinham um corte redondo que contornava a face amigável. Não que a expressão fosse amistosa enquanto encarava Chloe. Ela olhou para a antiga amiga como se fosse alguma coisa nojenta que encontrasse na sola do sapato. — Oi — disse Chloe de forma tímida. — Oi — a voz de Tina era fria e sem expressão. Elas não se falavam há sete semanas e cinco dias. A boca de Chloe estava seca. Ela tentou sorrir.

— Como você está? — perguntou Chloe. A voz de Tina foi dura e breve. — Bem, obrigada — ela se encostou contra a porta, olhando nos olhos da visitante, com um olhar de monotonia satisfatória, como se estivesse esperando que Chloe acabasse logo com isso para que pudesse entrar e voltar às atividades normais. Chloe engoliu em seco. — Eu vim pedir desculpas pela blusa — disse. — Já está um pouco tarde para isso, você não acha? — retrucou Tina. Uma voz chamou de dentro da casa. Era a mãe de Tina. — Quem é? — Ninguém — respondeu Tina. — Chloe Forrester. — Sua mãe não respondeu. Chloe respirou fundo. — Olhe — ela disse. — Eu vim aqui para dizer que compro uma blusa nova para você. Tenho um pouco de dinheiro guardado, e você pode ficar com tudo — seu coração estava acelerado. — Queria voltar a ser sua amiga — ela engoliu em seco. — Mas se você ainda me odiar, e nunca mais quiser a minha amizade, é só falar e saio da sua vida para sempre. Houve uma longa pausa.

Chloe gostaria que o chão se abrisse e a engolisse. Essa tinha sido uma péssima ideia. Tina jamais iria perdoá-la. Depois de um momento, Tina respirou fundo. — Talvez eu estivesse errada quanto à blusa — disse. — Vamos esquecer isso — abriu a porta de maneira receptiva. — A mamãe fez torta de maçã. Quer um pouco?

Chloe e Tina estavam sentadas de pernas cruzadas na cama de Tina, comendo torta de maçã com creme de chantilly. Durante um longo tempo Chloe se sentiu muito feliz por conversar amigavelmente com Tina, descobrindo o que vinha acontecendo nas últimas semanas, e pela facilidade com que a amizade voltou. Parecia até que a briga só tinha durado um dia ou dois. E Chloe se sentia aliviada por poder agir naturalmente — e não precisar parecer descolada o tempo todo a fim de impressionar Heather e as meninas. Mas, gradualmente, Chloe percebeu que estava falando sobre o desafio de Heather. Tina balançou a cabeça. — Às vezes você é tão idiota — ela disse, enquanto Chloe explicava que tinha sucumbido às provocações incessantes de

Heather e aceitara jogar a pedra na janela da Mulher dos Gatos. Chloe olhou para ela. — Eu ainda não contei a pior parte — disse, com a voz derrotada. — Você quebrou a janela? Chloe balançou a cabeça. — Não, eu errei a mira de propósito. Mas acertei um gatinho — ela se encolheu ante o olhar de choque estampado no rosto da amiga. — Eu não o vi — disse Chloe, com lágrimas correndo por suas bochechas. — Ele estava atrás de umas plantas. Tina levantou as mãos para cobrir o rosto. — Ele se machucou muito? — perguntou. Chloe confirmou com a cabeça, e sentiu um nó na garganta, enquanto se lembrava da cena. — Você ligou para a Sociedade Protetora dos Animais? — indagou Tina. Chloe balançou a cabeça. — Já era tarde demais. — Chloe! — exclamou Tina. Chloe mordeu o lábio. Ela não conseguia olhar para o rosto de Tina. Enquanto falava, mal reconhecia a própria voz. — Ele já estava quase morto — disse, quase sem fôlego. — Todo contorcido e

sangrando. Mas depois... virou a cabeça... e... olhou para mim — ela estava tremendo novamente, revivendo o horror daquele momento terrível. Ela encarou os olhos de Tina. — Seus olhos não eram normais — sussurrou, sem coragem de traduzir em palavras o horror que vinha aterrorizando-a desde então. — Como assim? — perguntou Tina, murmurando. Chloe olhou para ela. — Ele não tinha olhos normais de gato — disse Chloe. — Tina, ele tinha olhos humanos!

Naquela noite, Chloe não conseguiu dormir. Seus olhos já estavam acostumados à escuridão, e ela percebia com facilidade as diferentes formas no quarto. A coisa que mais queria na vida era que esse dia horrível acabasse, mas seu cérebro não desligava. Era como se houvesse um farol na cabeça, e sua luz forte e brilhante acendesse os cantos mais sombrios e assustadores de sua mente. Tina tentara convencê-la de que imaginara aquela coisa assustadora dos olhos do gato. Não podia ser real. Devia ter sido um truque da luz ou coisa parecida.

Fosse o que fosse, como Tina havia dito, gatos não têm olhos humanos — simplesmente não têm! E Chloe concordou com ela. Mas mesmo assim não conseguia dormir. Para não parecer fraca na frente de Heather e das outras meninas, ela havia feito uma coisa que resultou na morte de um gatinho. E Heather se impressionara. Ela sorrira. “Você matou mesmo”. Chloe deu de ombros. Ela se lembrou de algo que sua mãe dissera uma vez: “Uma consciência pesada jamais dá sossego até que as coisas sejam consertadas, até que a pessoa corrija seus erros”. É por isso que, não consigo dormir, Chloe pensou consigo mesma. Eu preciso corrigir o meu erro. Mas como a pessoa pode corrigir um erro que matou um animal inocente? O que pode fazer? A resposta veio de maneira muito clara à sua mente. Eu tenho que ir à casa da senhora Tibbalt e assumir a culpa. Devo oferecer alguma espécie de ajuda. Preciso fazer o possível. Chloe decidiu que faria isso no dia seguinte depois da aula. De alguma maneira, iria consertar seu erro.

Heather e as meninas esperavam por ela na porta da escola no dia seguinte. — É Chloe, a assassina de gatos — disse Heather, enquanto Chloe se aproximava. — É assim que vamos chamá-la a partir de agora. Gostou, Assassina? Chloe a ignorou, mas Heather não gostava de ser ignorada. Ela entrou na frente de Chloe. — Saia da minha frente — disse Chloe de forma seca e direta. — Não fique assim — afirmou Heather com um sorriso torto. — Ficamos preocupadas com você, depois que correu daquele jeito. Mas ficamos muito impressionadas. Quer dizer, quebrar a janela é uma coisa. Mas matar um dos gatos da velha, isso foi incrível! — Me deixou com nojo, se você quer saber — disse Chloe. — Ah. Que pena — salientou Heather. — Você já está melhor? Chloe lançou um olhar frio a Heather. — Não — respondeu. Heather sorriu, olhando para as outras. — Dêem a boa notícia a ela agora — disse Heather. — Nós fizemos uma votação — afirmou Emma. — Você é oficialmente parte do nosso grupo.

Chloe olhou para ela, incrédula. — Você acha que ainda quero fazer parte desse grupo patético de vocês? — perguntou, furiosamente. — Qual é o seu problema, Assassina? — indagou Maggie. — Meu problema é que são doentes, todas vocês! — Chloe olhou para elas. — Eu não quero ter vínculo com nenhuma de vocês. Saiam da minha frente! — Nossa... melhor tomarmos cuidado — provocou Hayley. — A Assassina está com raiva da gente. Tomara que não haja nenhuma pedra por perto! Houve muitas risadas. Chloe passou por elas e cruzou o estacionamento dos professores. Heather foi atrás dela. — Que pena que se sinta assim — gritou, em tom de desdém. — Mas pelo menos você nos deu uma ótima ideia para uma nova brincadeira. — Chloe acelerou, tentando se afastar da voz sarcástica. — Chama-se “Jogar Pedras nos Gatos” — gritou Heather. — Nós vamos jogar hoje, depois da aula, caso esteja interessada. Você marca pontos, um ponto se atingir um gato com uma pedra, cinco pontos se o gato se machucar feio, e dez se ele morrer — sua voz levantou. — Ei, Assassina, você já tem dez pontos a mais que todas nós. Caso

mude de ideia, nos vemos na casa da Mulher dos Gatos, hoje à noite, depois da aula — sua voz se encheu de risadas. — E traga muitas pedras.

Chloe pedalava com força enquanto sua bicicleta acelerava pela estrada. As aulas já estavam encerradas por hoje. Ela precisava chegar à casa da senhora Tibbalt antes de Heather e do grupo — precisava alertá-la sobre os planos das meninas. Os gatos tinham de ser levados para o interior da casa, para longe da brincadeira cruel das meninas. Ela parou e desceu da bicicleta. Chloe percebeu que, no local em que o gatinho estava, as ervas daninhas haviam sido cortadas. Imaginou a pobre senhora, sozinha e assustada, saindo de lá, na noite anterior, pegando o corpo do gato e carregando-o para dentro da casa em seus braços. Deixando a bicicleta de lado, ela olhou para cima. Não havia nenhum rosto felino por trás dos vidros agora. Nenhum olhar acusatório. A determinação de alertar a senhora a respeito do grupo era tão forte que Chloe até esqueceu o medo enquanto cruzava o caminho.

Ela viu uma forma escura passar depressa pelo gramado e desaparecer na lateral da casa. Um gato. Outro a observava desconfiado através da sombra do telhado. Seus olhos se cruzaram por um instante, depois o animal se escondeu nas sombras. Chloe respirou fundo e se aproximou da porta da frente, cuja tinta descascava e onde havia uma caixa de correio enferrujada e inutilizada. Ela procurou a campainha, mas não encontrou. A aldrava de ferro era em forma de um gato saltando. Chloe se esticou para alcançá-la. Era pesada e dura, mas se esforçou e conseguiu movê-la. Ela esperou, seu coração batia forte e rápido no peito. Ninguém atendeu à porta. Ela bateu novamente, e depois olhou para suas mãos, que a ferrugem havia sujado de vermelho escuro. De repente, ela ouviu um barulho dentro da casa — o som perturbador de diversos gatos. Mas, mesmo assim, ninguém veio atender à porta. Chloe se encolheu, abrindo a caixa de correio. A entrada da casa era escura, com paredes marrons e uma escadaria marrom no final.

— Senhora Tibbalt? — gritou pela caixa de correio. — Olá! A senhora está aí? Eu preciso falar com você! Ela se levantou novamente, mexendo na aldrava. Havia painéis encardidos de vidros coloridos. Chloe os esfregou com sua manga para limpar um pouco da sujeira. Ela olhou através do vidro, mas não conseguia ver muita coisa — e não havia nenhum sinal de movimento no corredor sombrio. Olhou para o relógio, e a frustração e a ansiedade cresciam. A velha quase não saía de casa — ela tinha de estar lá; então, por que não atendia à porta? Chloe estava ficando agitada — se Heather e as meninas realmente fossem até a casa da senhora Tibbalt para jogar pedras nos gatos, então restavam poucos minutos... elas chegariam a qualquer instante. Ela correu para as janelas da entrada. Esfregou o vidro imundo com as mãos e tentou enxergar através do véu cinza das cortinas de rede. Conseguia ver algumas formas em movimento lá dentro — baixas, no chão. Gatos. Mas será que a senhora Tibbalt estava lá? Ela bateu no vidro. Alguma coisa voou na direção de seu rosto, surpreendendo-a, e fazendo com que cambaleasse para trás — um enorme gato preto, com os olhos em chamas, com a boca vermelha completamente aberta enquanto

sibilava para ela de forma agressiva. Enormes garras afiadas arranharam a janela. Será que era o mesmo gato que havia visto na janela na tarde de ontem? Será que ele reconhecera Chloe? Será que a detestava pelo que havia feito? Ela correu para a lateral da casa. Havia um beco ali, mas era bloqueado por um portão preto trancado com um cadeado que há tempos se tornara permanentemente fechado pela ferrugem. Mas Chloe não podia desistir agora. Ela precisava tentar fazer alguma coisa. A madeira em volta do cadeado estava apodrecida. Ela girou bruscamente o objeto de metal enferrujado. Ele se soltou e o cadeado caiu no chão, provocando um barulho forte ao atingir o piso. Empurrou o portão lentamente, fazendo com que as dobradiças rangessem. Ela entrou pelo longo beco estreito. No final, podia enxergar um pedaço do jardim dos fundos. Estava cheio de gatos. Gatos deitados sob o sol da tarde. Gatos se lambendo. Gatos simplesmente sentados, observando. Gatos brincando uns com os outros. Gatos afiando as unhas. Gatos perambulando. Um mundo inteiro de gatos.

Um instante mais tarde, cada um dos olhos em forma de amêndoa a encarava desconfortavelmente. Chloe engoliu em seco. Havia algo muito perturbador no jeito como a olhavam. Ela começou a caminhar lentamente. Alguns gatos sumiram de vista, foram para os fundos da casa. Outros simplesmente observaram enquanto ela se aproximava do jardim. Uma pequena forma escura silvou e correu para longe dela. Um gato marrom escuro, magro e com o rosto afinado. Ele provavelmente estava deitado escondido na escuridão. — Desculpe, gatinho — disse Chloe. — Eu não queria assustá-lo. Ela saiu no jardim. Mais gatos correram para longe dela, formando uma tempestade colorida em direção à porta dos fundos da casa. Os que não fugiram a olhavam atentamente. Alguns silvavam e arqueavam a coluna, com os rabos erguidos como arbustos espinhosos, expondo os dentes afiados. Chloe movia-se lentamente, determinada a não assustar os animais. Ela foi em direção à porta. — Senhora Tibbalt? — chamou. — A senhora está aí? Continuou sem resposta.

Ela virou e olhou para uma cozinha pequena e desbotada. Boa parte do chão era dominada por fileiras de vasilhas de comida e água. Havia um cheiro forte de comida de gato, mas Chloe percebeu logo que, apesar de o lugar ser ensebado e velho, e precisar desesperadamente de uma nova pintura, não era nada como o que Heather havia descrito. Alguns dos gatos que estavam na cozinha correram pela porta. Outros, mais corajosos, abominavam-na de seus locais privilegiados — sobre a geladeira e em prateleiras altas. A porta da cozinha para o corredor estava entreaberta. Ela alcançou a maçaneta, e engasgou-se assustada quando a porta abriu sozinha. Uma sombra escura preencheu a entrada. Chloe cambaleou para trás e seu pé se prendeu em uma das vasilhas de gato, fazendo com que ela escorregasse e caísse causando um estardalhaço com as vasilhas de comida e de água espalhadas pelo chão. — Meu Deus do céu! — disse uma voz gentil, porém assustada. — Que susto você me deu! Era a senhora Tibbalt. Ela carregava uma caixa de papelão nos braços. — Desculpe — engasgou-se Chloe. — Mil desculpas — ela se levantou

atrapalhada. — Eu bati na porta, e chamei, mas a senhora não ouviu, e precisava falar com você, então entrei pelos fundos — ela olhou a bagunça aos seus pés. — Eu sinto muito, desculpe pela bagunça. — Eu estava na adega — disse a senhora. — Buscando comida para os meus bebês — ela entrou mancando pela cozinha e pôs a caixa na mesa. Era uma caixa de comida enlatada de gato. As histórias assustadoras que ouvia no pátio da escola vieram à mente de Chloe — a enorme máquina de moer. Agora que ela estava frente a frente com a senhora Tibbalt essas histórias pareciam absolutamente ridículas. E eu tive medo dela durante todo esse tempo por causa dessas bobagens, pensou. Eu sou tão idiota! Observando a caixa de comida de gato, ela deu uma risada involuntária, e sufocou-a colocando a mão sobre a boca. Não havia nada a temer ali. A mulher olhou para Chloe. Ela usava saia e blusa. Sem o casaco com capuz, parecia praticamente normal. Mancou de volta para a porta e pegou uma bengala que estava no canto. A senhora Tibbalt se apoiou em sua bengala, franzindo a testa, enquanto observava Chloe.

— Eu conheço o seu rosto — disse. — Sou Chloe Forrester — respondeu a menina. Ela apontou para a porta dos fundos e depois para o jardim. — Eu moro na cidade. A senhora Tibbalt fez um sinal positivo com a cabeça. — Você é uma das meninas que ficam olhando pela minha grade, não é? — seus olhos se encolheram, em sinal de desconfiança. — Você gosta de assustar os meus bebês. Isso não é gentil, sabia? Chloe engoliu em seco e fez que sim com a cabeça. — Sim, eu sei. E peço desculpas. Mas, por favor, me escute, senhora Tibbalt. Existem outras meninas, e elas estão vindo para cá. Elas vão jogar pedras nos seus gatos. É um jogo horrível que inventaram. A senhora tem que trazer os gatos para dentro, senão eles vão se machucar. A velha senhora lançou um olhar a Chloe. — Por que alguém inventaria um jogo tão cruel como esse? — disse. Chloe tinha a estranha impressão de que a senhora Tibbalt sabia exatamente o que ela fizera no dia anterior. Chloe sentiu um remorso muito grande dentro de si.

— Eu estive aqui ontem — disse lentamente. — As meninas me desafiaram a jogar uma pedra na sua janela — sua voz tremeu de vergonha. A mulher a observou sem falar nada. — Eu errei a janela, mas acertei um gatinho — engoliu em seco e olhou nos olhos da senhora. — Eu matei o gatinho. — O nome dela era Sophie — disse a senhora Tibbalt. — Ela tinha seis meses de idade. Eu a ganhei de uma família que não a queria. É assim que ganho a maioria dos meus bebês. Eu dou casa e cuidados a todos eles. Lágrimas se formavam por trás dos olhos de Chloe. — Eu sei que estou pedindo desculpas desde que cheguei — disse com a voz engasgada. — Mas é verdade, estou mais arrependida do que consigo expressar. — Eu acredito em você — disse a senhora Tibbalt. — Agora é melhor nos certificarmos de que suas amigas não façam nenhum mal. — Elas não são minhas amigas — disse Chloe com firmeza. A senhora Tibbalt sorriu. Ela caminhou até a porta dos fundos e assobiou. Segundos depois, os gatos começaram a passar correndo, ignorando Chloe enquanto ocupavam rapidamente o chão da cozinha. Mais gatos vieram

correndo de outros cantos da casa, e logo toda a superfície estava preenchida por gatos, se esfregando nas pernas da senhora Tibbalt e de Chloe, ronronando e miando. A senhora Tibbalt fechou a porta dos fundos. — Pronto — disse. — Todos sãos e salvos — ela olhou para Chloe com um sorriso. — Eles acham que está na hora do jantar, você pode me ajudar a alimentá-los, se quiser. Assim podem começar a perdoá-la pelo que fez. O abridor de lata está na gaveta ao lado do fogão. Chloe retribuiu o sorriso, ela estava gostando muito daquela mulher. — E a senhora vai me perdoar também? — perguntou. — Claro que vou — respondeu a senhora Tibbalt. — Vamos, temos muitas bocas para alimentar. — Claro — disse Chloe. Ela caminhou pelo mar de corpos peludos. Durante os caóticos minutos seguintes, ela ajudou a senhora Tibbalt a servir a comida dos gatos. Logo, cada uma das vasilhas era ocupada por uma ou duas cabeças peludas, e toda a cozinha estava dominada por ronronados satisfeitos. — Agora é hora de nós ganharmos alguma coisa — disse a senhora Tibbalt. — Eu geralmente faço chocolate quente a essa

hora — sorriu para Chloe. — Você gosta de chocolate quente? Chloe confirmou com um aceno de cabeça. — É uma delícia — disse a senhora Tibbalt. Chloe observou enquanto os gatos comiam e a senhora Tibbalt fazia o chocolate quente em uma panelinha no fogão. Ela serviu duas canecas. — Nada como um chocolate quente em uma tarde fria — disse a senhora Tibbalt. — Venha, vamos nos sentar. Ela levou Chloe por um longo corredor até a sala. A decoração era bastante antiquada, com papel de parede escuro, um sofá e poltronas cobertos por estampas florais desgastadas. As paredes eram cobertas por fotos de gatos. Gatos de porcelana encontravam-se no consolo da lareira e fotos e desenhos de gatos estavam dispostos em diversos porta-retratos antigos. A senhora Tibbalt sentou-se em uma poltrona e Chloe acomodou-se no canto do enorme sofá. Ela sentia-se confortável e muito à vontade com a amigável senhora. Tomando um gole de chocolate quente, olhou para a senhora Tibbalt. — Está delicioso — disse a menina. A senhora Tibbalt sorriu.

— É um receita secreta — afirmou. Chloe se ajeitou no sofá macio. — Quantos gatos a senhora tem? — perguntou. — Eu sempre imaginei, mas não é fácil, contar os gatos. — Eu tenho 67 — respondeu a senhora Tibbalt, observando-a com olhos brilhantes e receptivos sobre sua xícara de chocolate quente. Ela franziu o rosto. — Não, 66, agora. Eu estava esquecendo da Sophie. — Eu faria tudo para que isso não tivesse acontecido — disse Chloe. — O que passou, passou — afirmou a senhora. — Eu fui muito burra. — Foi um acidente — disse a senhora Tibbalt em tom gentil. — Você mesma disse que não teve intenção de machucar Sophie. Chloe balançou a cabeça. — Não foi isso que eu quis dizer — disse a menina. — Eu quis dizer que fui muito burra por ter tido medo da senhora durante todo esse tempo — ela sorriu. — A senhora não é nem um pouco assustadora. — Ora, obrigada, Chloe! — disse a senhora Tibbalt. — Eu sempre quis um gato — disse Chloe. — Mas meu pai é alérgico — olhou para a senhora. — Será que posso vir visitála de vez em quando? Eu adoraria ajudar com os gatos.

— Eu acho uma ótima ideia — respondeu a senhora Tibbalt. — Eu posso vir às vezes depois da aula — disse Chloe. Ela bocejou. — Desculpe! — Deu um sorriso leve, sentindo-se aquecida e confortável, e um pouco sonolenta. — Eu adoraria — afirmou a senhora Tibbalt. — Eu não recebo muitas visitas. — Eu poderia visitar bastante — disse Chloe. Suas pálpebras estavam começando a ficar muito pesadas. Ela piscou com força, tentando lutar contra a sonolência. — Eu estou tão sonolenta. Não é estranho? A senhora Tibbalt e toda a sala estavam saindo de foco. Chloe não conseguia entender por que estava tão sonolenta de repente. Talvez fosse por ter tido uma noite tão agitada — ou porque o sofá era tão confortável, e o chocolate, tão morno e doce. — Eu sei que a senhora já me perdoou — disse Chloe, com a voz quase falhando, os membros pesados e a cabeça começando a fraquejar. — Mas você sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? — Não, querida, diga o que gostaria de fazer. — Eu queria corrigir o meu erro — suspirou Chloe. — Eu gostaria de... compensar... o que... o que... eu fiz...

As palavras da senhora Tibbalt vieram através de uma densa fumaça cinza. — Eu tenho certeza de que você vai conseguir arrumar um modo de pagar a sua dívida. O queixo de Chloe caiu no peito. Seus olhos se fecharam. Ela percebeu vagamente a xícara ser tomada de suas mãos. Ela tentou combater o cansaço. — Eu preciso... ir... para... casa... logo... — murmurou. — Oh, ainda não, minha pobre menininha dorminhoca. Você parece tão boazinha, que acho que vou ficar com você para mim. Com grande esforço, Chloe levantou a cabeça e forçou seus olhos a se abrirem. A senhora Tibbalt estava inclinada sobre ela e, através das rugas em seu rosto, os olhos amarelos e brilhantes de um gato a observavam.

Chloe acordou. Um vento frio soprava sobre seu rosto. Ela estava encolhida no sofá. A senhora Tibbalt não se encontrava mais lá. Ela piscou os olhos, imaginando o que teria acontecido e quanto tempo se passara. Então lembrou-se de ter se sentido muito,

muito cansada. Ela deveria ter caído no sono. Sorriu, ainda sentindo-se cansada e relaxada. Bocejou e tentou levantar-se. Seu corpo não parecia obedecê-la. Tentou levantar-se umas duas ou três vezes, mas ela caiu de quatro em todas elas. Balançando a cabeça para tentar clarear a mente, arrastou-se pelo sofá e de algum jeito conseguiu chegar ao carpete. O ar frio vinha da porta aberta. Ela se arrastou até a entrada. A porta da frente estava aberta. Chloe conseguia ver que estava escurecendo lá fora. Sua mãe deveria estar preocupada. Ela precisava ir para casa. Novamente, Chloe tentou se levantar — mais uma vez, ela caiu de quatro. Ela foi em direção à porta aberta, batendo nas paredes, enquanto se arrastava lentamente pelo chão. Chloe saiu no frio degrau de pedras. Olhou para o jardim cheio de ervas daninhas e espinhos por todos os lados. Tentou imaginar aonde a senhora Tibbalt teria ido — e por que a simpática velhinha a deixara dormindo no sofá. Mas sua principal preocupação era voltar para casa. Ela se arrastou para descer o degrau. O movimento no canto do olho chamou sua atenção. Tudo estava estranhamente

embaçado, mas muito brilhante e tingido com uma luz esverdeada, de maneira que as formas se mexendo destacavam-se com clareza daquele fundo confuso. A Mulher dos Gatos estava empurrando uma bicicleta em direção ao galpão que caía aos pedaços sob as árvores. É a minha bicicleta, pensou Chloe. Ela observou enquanto a senhora Tibbalt abria a porta do balcão e empurrava a bicicleta para dentro. Durante o breve instante em que a porta esteve aberta, Chloe viu muitas outras bicicletas — e uma pilha de bolas e brinquedos, uns por cima dos outros. Alguns pareciam estar ali há anos. Em seguida a porta se fechou. Uma lembrança sinistra veio à sua mente. Algo assustador! A imagem do rosto da velha senhora olhando para ela — encarando-a com olhos de gato! Chloe partiu em direção ao pátio da frente, a cabeça ainda girava, com os membros mal a obedecendo enquanto corria para o portão semiaberto. De algum jeito ela passou sem ser vista. Casa. Tenho que ir para casa, Chloe pensou consigo mesma. Minha casa é segura.

Logo estava no beco, e em seguida no portão dos fundos de sua casa. Mas ela não conseguia alcançar a maçaneta. Vai ver que eu machuquei meu braço, pensou, enquanto tentava novamente. Concentrando-se, ela pulou para alcançar a maçaneta, e, para sua surpresa, chegou ao topo do portão com grande facilidade. A janela da cozinha brilhava — ela podia ver sua mãe no fogão. Ela pulou de cima do portão e correu pelo pátio de entrada. — Mamãe! — chamou. — Mamãe, sou eu! Eu não consigo entrar. Me ajuda! — mas a voz estava estranha e sua mãe não parecia conseguir enxergá-la. A porta abriu de repente. — Mamãe! — Chloe exclamou, aliviada. Sua mãe olhou para baixo e a encarou, surpresa. — O que está fazendo aqui? — perguntou. — O que você quer? — Eu quero entrar — chorou Chloe, frustrada, novamente. Ela não conseguia entender as próprias palavras. — Eu não tenho nada para você — disse a mãe. — Não pode vir aqui pedir comida. Se meu marido o visse, ele iria chutá-lo até a cerca. — Com quem você está falando, senhora Forrester? — Chloe ouviu uma voz

familiar e olhou para a porta da cozinha. Tina estava lá. — É um gato — disse a mãe de Chloe. — Eu o ouvi arranhar a porta e miar. Chloe não entendia o que estava acontecendo. Será que Tina e sua mãe faziam uma brincadeira boba com ela? Braços se esticaram para pegá-la, e ela sentiu que estava sendo suspensa no ar. O cheiro de sua mãe era muito forte. Tina se aproximou e acariciou sua cabeça. — Não é bonito? — disse. — O pelo é praticamente da mesma cor do cabelo de Chloe. Ela tentou falar, mas de sua boca só saíam sons incoerentes. — Nossa Senhora, que criatura mais barulhenta! — disse a mãe de Chloe. — Eu tenho certeza que não é de ninguém da nossa rua. Acho que deve ser um dos gatos da senhora Tibbalt — ela sorriu e acariciou entre as orelhas de Chloe. — É melhor nos livrarmos dele logo, antes que Chloe chegue em casa. Se ela vir, vai querer ficar com o gato — franziu o rosto. — Onde ela está? Já deveria estar em casa. — Mãe, eu estou aqui! — miou Chloe. — Estou bem aqui! — Ela me disse que tinha uma coisa importante para fazer depois da aula —

disse Tina. — Tenho certeza de que já deve estar chegando. A senhora Forrester sorriu. — Estou feliz em ver que vocês duas fizeram as pazes — ela disse. — Tina, será que poderia me fazer o imenso favor de levá-lo à casa da senhora Tibbalt e descobrir se é dela? Chloe se debateu e uivou enquanto Tina retirava-a dos braços de sua mãe. — Você tem razão — disse Tina, segurando Chloe com firmeza. — Ele realmente é barulhento! E se sacode todo. Vou levá-lo de volta agora mesmo. Chloe desistiu de se debater. Já estava tonta de exaustão pelo choque do que estava lhe acontecendo. Ela se pendurou sem ação no colo de Tina enquanto era carregada pelo jardim, e de volta ao beco. — Quem é o gatinho lindo, hein? — brincou Tina, acariciando sua cabeça. — Chloe adoraria ficar com você, sabia? Isso mesmo. Ah, isso mesmo. — Eu sou... a Chloe... — disse Chloe, em tom de tristeza. — Mas como você fala! — disse Tina. — Está com fome? Perdeu-se da sua mãe? Não se preocupe, estou te levando para casa agora mesmo.

Chloe desistiu de tentar falar. Ela precisava de uns instantes de descanso para pensar em um jeito de explicar tudo a Tina. Carregando Chloe cuidadosamente em um dos braços, Tina esticou o outro e bateu na porta com a aldrava em forma de um gato pulando; a porta se abriu quase imediatamente. — Olá — disse a senhora Tibbalt. — Nós encontramos esse gato, é um dos seus? — perguntou Tina. A senhora Tibbalt sorriu. — Sim, é minha! — ela respondeu. — É a minha pequena Sophie. Já estava preocupada com ela — ela esticou os braços e pegou Chloe do colo de Tina. Só mais alguns segundos, Chloe pensou, depois já vou estar melhor e poderei explicar a elas quem eu sou. — Obrigada por trazê-la de volta — afirmou a senhora Tibbalt. — Foi muito gentil de sua parte. — Sem problemas — disse Tina. Ela virou de costas e caminhou pelo pátio. — Sophie sua fujona levada! — repreendeu a Mulher dos Gatos, enquanto fechava a porta. — Já dá para perceber que terei que mantê-la trancada em segurança durante um tempo... você não pode fugir o tempo todo, pode?

Ela carregou Chloe para uma porta debaixo das escadas. Abriu-a e jogou Chloe numa sala escura. A porta se fechou e tudo ficou preto. Chloe se sentiu assustada e perdida. Ela podia ouvir a senhora Tibbalt se afastando da porta — e escutava o barulho de todos os outros gatos na casa: garras estalando no piso de madeira; ronronados de contentamento; gatos falando mal da senhora Tibbalt, enquanto ela se movia entre eles. Seus olhos logo se acostumaram à escuridão. Uma sequencia de degraus de madeira levava até a adega. Chloe desceu a escada correndo, esperando desesperadamente encontrar uma saída. O chão de concreto era frio sob os seus pés. Ela olhou cuidadosamente em volta, cheirando, com as orelhas apontadas para a frente, com seus bigodes tremendo. Alguma coisa fora feita com ela — devia aceitar isso agora. Algo monstruoso. Algo inacreditável. Ela correu distraidamente pela adega, buscando um jeito de se livrar — de voltar para casa. Tinha certeza de que, se conseguisse escapar, poderia encontrar um modo de contar a sua mãe o que havia acontecido. Então tudo ficaria bem outra vez. Sua mãe saberia o que fazer.

Ela viu uma janela alta e estreita. Estava coberta por uma camada de papelão, mas havia um pequeno feixe de luz no canto superior onde o papelão começara a se soltar. Chloe pulou para a janela. Ela conseguiu se equilibrar no parapeito fino, enquanto arranhava o papelão. Preciso ir para casa. Preciso da minha mãe, pensou freneticamente. Podia ouviu os gatos miando e arranhando a porta da adega — como se todos, de alguma forma, soubessem que ela estava tentando escapar. Suas unhas rasgaram o papelão. Ele se soltou e caiu. O desespero tomou conta de Chloe — podia enxergar as plantas, mas elas estavam na frente de uma cerca de arame. Empurrou o arame com força. Ele cedeu um pouco e um buraco se abriu em um dos lados — mas não era largo o suficiente para que ela passasse. Ela ouviu os passos da senhora Tibbalt se aproximando da porta da adega. A porta se abriu. Os gatos estavam vindo pegá-la — ela só tinha mais alguns segundos para escapar. Ela lutou bravamente contra o arame — ignorando a dor quando era arranhada, e

sua pele, perfurada. Fez um esforço final para se livrar. Ofegando e fraca depois de tanta luta, ela se viu nos fundos da casa. Respirando aliviada, correu pelo jardim em direção à cerca de trás.

Heather estava decepcionada e irritada. Ela olhou sobre a cerca, com os bolsos cheios de pedra. Não havia um único gato pulguento no jardim da Mulher dos Gatos. Parecia que seu novo jogo teria de ser adiado para outro dia. De repente, ela viu uma única gata pequena correndo pelo jardim, para longe da casa — vinha bem em direção à cerca. — Eu vou acertar em cheio! — disse, lançando a mão para trás. A pedra em sua mão era do tamanho de um punho fechado. Lançou o braço para a frente e a pedra voou. — Isso! — disse Heather, triunfante. — Dez pontos!

QUEM OUSA GANHA
— Iáááá! Mark Trent rodava o joystick e apertava os botões do controle do videogame. A figura de samurai na tela pulava e rodava num emaranhado de cores. Ouvia-se barulho de algo sendo cortado, um grito e um rugido eletrônico. O samurai descansou. Seu último oponente, o Mestre Ronin, o bravo, estava deitado, decapitado em uma piscina vermelha de sangue que se espalhava. A tela explodiu em uma massa de fogos e o fliperama começou a tocar uma música de triunfo. Mark sorriu ao lado de seu melhor amigo, Anil Jaffrey, e ficara mais satisfeito quando seu recorde subiu para 27 — igualando mais uma vez o de Anil. — Que legal! — disse um dos meninos da multidão que se formara em torno dos dois amigos. Ele olhou para Anil. — Vai, faz mais um pouco — disse. Mark se afastou do jogo e Anil tomou o seu lugar. Ele olhou para todos aqueles rostos reunidos. — Qual é o maior recorde de todos? — perguntou.

— Um amigo nosso disse que o Conor fez 30 — respondeu um dos meninos. Anil ergueu uma sobrancelha. — Moleza — disse, convencido. Mark sorriu enquanto se encostava a um dos lados da máquina do jogo. Ele olhou para uma máquina próxima, na qual uma garota que jamais havia visto estava entretida num jogo do qual ele e Anil não gostavam muito. Ela estava jogando há algum tempo, e parecia estar indo muito bem — pelo que Mark podia perceber, ainda estava na sua primeira vida. Ela se virou para observar enquanto Anil apertava o start e começava a jogar. A tela iniciou produzindo cores e sons, enquanto o samurai de Anil atacava os soldados de Ronin. Anil sempre entrava rápido — como se estivesse tentando surpreender o jogo. Soco — chute — golpe fatal! Rápido e feroz. Mark preferia uma aproximação mais lenta e calculada. Ele usava estratégia. Gostava de ser mais inteligente do que seus adversários. Mark morava a duas ruas de Anil desde que nascera. Eles eram grandes amigos e rivais desde sempre. Se Mark fosse bom em alguma coisa, Anil tentava ser melhor. E se este fosse bem-sucedido em algo, naturalmente Mark se esforçaria para

superá-lo. Agiam assim com esportes, jogos ou tarefas escolares. Para Mark, a competitividade não atrapalhava a amizade dos dois — só trazia um aspecto interessante. Mark olhou para o amigo enquanto este jogava, seu corpo forte e de baixa estatura inclinado sobre os controles do jogo, e o cabelo de cuia caía sobre os olhos. Anil parecia um Buli Temer — destemido, determinado e sempre buscando vencer. Mark não era tão agressivo; tendia a pensar antes de agir. Ele era mais alto do que Anil, magro e esguio, tinha cabelos castanhos claros e olhos cor de mel. Mais pessoas começavam a entrar no fliperama e, do lado de fora, o dia prometia ser claro e bonito. Fazia duas semanas que as férias de verão haviam começado. O tempo permanecia ótimo, e o próximo ano escolar estava tão longe que nem valia a pena se preocupar com isso. O fliperama ficava de frente para a praia. Do outro lado da rua, além das cercas, viam-se muitas pedrinhas na areia, misturando-se à espuma das ondas que subiam com a maré. Mark observava atentamente enquanto o samurai de Anil abria caminho chacinando todos no palácio de Ronin.

Ele sofrera três ferimentos — morreria com seis — e ainda havia muitos adversários se posicionando no corredor que levava ao santuário de Ronin. — Cuidado com o cara que joga estrelas ninjas — alertou Mark. — Eu estou vendo — disse Anil, girando e balançando o joystick. Seu samurai pulou e rodou, com a longa espada curvilínea cortando e matando. Um instante mais tarde fez-se um barulho, quando o guerreiro de Anil foi atingido por uma estrela no peito. — Você se machucou outra vez — disse Mark, sorrindo. — Eu não vou ser o único se você não ficar quieto! — rosnou Anil, com um olhar de absoluta concentração no rosto enquanto lutava com o joystick. — Só estou tentando ajudar — ironizou Mark, com uma risada. — Não leve tão a sério. — Não levar a sério? — protestou Anil. — É você que sempre quer ser o melhor em tudo. — Não mesmo — afirmou Mark. — Eu só sou naturalmente bom em tudo; é você que sempre transforma tudo em uma competição. — Há! — exclamou Anil. — Então por que ficou tão irritado quando marquei o

mesmo número de gols que você na última temporada? — Porque o seu sétimo gol foi roubado, por isso — retrucou Mark, rindo. — Cuidado com aquele cara com o gancho e as correntes. — Já sei. Mark observou silenciosamente enquanto o samurai de Anil cortava a cabeça dos últimos guardas e se aproximava do santuário do castelo. Quinze segundos mais tarde houve um grito de aprovação dos meninos que estavam em volta quando Anil decapitou o Mestre Ronin. — Vinte e oito a vinte sete — disse um dos meninos, olhando para Mark. — Sua vez. A pressão estava em cima de Mark novamente. Ele sabia que Anil observava cada jogada — esperando que o adversário errasse ou perdesse a concentração. Mas Mark não deixaria isso acontecer. Seu samurai rodou, girou e decapitou soldados até que não houvesse mais nenhum. Ele sorriu para Anil. — Acho que estamos empatados novamente, certo? — perguntou, saindo do caminho. — Não por muito tempo — respondeu Anil.

Mark olhou novamente para a menina na máquina próxima da deles. Supôs que deveria ser da idade dele e de Anil — 13 anos. Ela era alta, magra e estava vestida de preto — camiseta, jeans, sapatos, tudo. Ela tinha cabelos legais, pretos, na altura dos ombros, com uma franja comprida que caía sobre os olhos. Estava jogando Spidershadow Havia uma arma a laser no painel de comandos, mas não era um simples jogo de tiros. Havia um joystick com oito direções e seis botões de comando, além da arma. O objetivo do jogo era seguir uma gangue de soldados traidores das forças especiais por diversos cenários e eliminá-los a tiros. O problema era que os soldados trabalhavam em dois grupos de três — e, a não ser que fosse muito ágil com o joystick, com os botões e com a arma, algum deles iria atirar em você antes que tivesse tempo de acertar todos. Mark e Anil desistiram daquele jogo depois de uma manhã frustrante em que foram mortos diversas vezes. Era impossível vencer; eles resolveram que não valia a pena jogá-lo. Mas o desempenho da menina parecia ser muito bom. Mark observou, enquanto ela manejava o joystick, com seus dedos passando rapidamente sobre os botões.

Mark ficou intrigado. Alguma coisa o fascinava na maneira como ela estava lá — parecendo descolada e relaxada — enquanto seus longos dedos controlavam os botões. Então, com uma velocidade súbita que o impressionou, ela pegou a arma. Três tiros soaram. A tela brilhou e explodiu, enquanto os três corpos caíam mortos. Ela agarrou o joystick e saiu novamente, em busca do segundo trio de soldados. Mark estava impressionado e intrigado. Como ela tinha conseguido fazer aquilo? Havia alguma coisa escrito em branco na frente da camiseta da menina, mas Mark só conseguia ver as palavras Estou acordada e O que mais. Os dedos velozes passearam pelos botões novamente, e o joystick balançou e rodou. Pela segunda vez, ela pegou a arma. Houve três rápidos tiros, enquanto girava a arma. Crack-crack-crack. Mais três soldados mortos. O jogo estava encerrado. Mark não conseguia acreditar. A menina havia acabado de chegar e zerou em menos de meia hora — um jogo no qual muitas outras crianças gastaram toda a mesada e não conseguiram ganhar nem uma única vez. Ela era muito legal! Ela se afastou do jogo e virou de frente para eles. Tinha um rosto muito bonito — e

os olhos mais incríveis que Mark já vira. Eles pareciam prateados. Jamais havia visto alguém com olhos prateados. Mark não conseguia parar de olhar para ela. Ela deu um passo em direção ao grupo de meninos, cruzou os braços e observou sem nenhuma expressão, enquanto Anil jogava. Agora Mark conseguia enxergar o que estava escrito na camiseta. Estou acordada e vestida. O que mais você quer? Ele sorriu. Era muito legal — ele gostou. Imaginou onde teria comprado. De repente, ela virou a cabeça e aqueles olhos prateados maravilhosos olharam diretamente para Mark. Um sorriso se formou em um dos lados de seu rosto. Era um sorriso estranho — entretido e um pouco zombeteiro, muito descolado e controlado. Mark desviou o olhar depressa, percebendo que estivera encarando a menina. Não era o tipo de coisa que fazia. Gostava de meninas, e se dava bem com elas na escola — mas jamais havia conhecido alguma garota que fizesse com que não conseguisse parar de encarar. Era estranho. — Você vai jogar ou não? Um dedo o cutucou no braço. Ele olhou para Anil, com a boca semiaberta. Ele se

sentia como se tivesse acabado de ser arrastado para fora de uma água intensamente negra. — O quê? — Você quer tentar empatar comigo ou vai desistir? — perguntou Anil, sorrindo. Mark olhou em volta. Enquanto ele esteve distraído com a menina, Anil havia subido seu recorde para 29. — Você pode admitir a derrota agora mesmo, se preferir — disse Anil. — No fim das contas vou ganhar mesmo. — Vai sonhando — disse Mark, voltando-se para a máquina. Mas sua concentração estava inteiramente quebrada. Mesmo enquanto acionava o botão start, olhou para trás, para o local onde a menina estava. Ela tinha ido embora. Mark franziu o rosto, olhando em torno de todo o fliperama, esperando vê-la novamente. Mas havia muitas pessoas ali agora — muita coisa acontecendo. A máquina produziu um som musical. Mark olhou para a tela. Seu samurai guerreiro estava no chão do jardim com a cabeça cortada. — Patético! — disse Anil, empurrando-o com os cotovelos e assumindo os controles do jogo. — Você tem que se concentrar. No que estava pensando?

Mark saiu de lado. Estava levemente impressionado, e sentia-se um tanto idiota. Ele olhou para a pequena multidão, tentando encontrá-la. Mas ela havia ido embora, e mal percebeu quando Anil ganhou o jogo seguinte.

Mark e Anil saíram do fliperama lotado e foram para a rua. Anil acabou ganhando de 31 a 29. As ruas estavam lotadas de turistas. Era hora de sair de lá. — Bem, você certamente se aniquilou lá dentro — disse Anil. — O que houve? Mark deu de ombros. — Cansei do jogo — respondeu. — Ah tá! — divertiu-se Anil, respirando o ar marinho. — Então, quais são os planos? — Eu não sei — disse Mark. — Quais são os planos? — ele estava olhando para a rua em frente à praia. Anil olhou para ele. — O que houve com você? — Nada — Mark franziu o rosto. — Tinha uma menina — disse. — Ela estava jogando Spidershadow. Anil soltou uma gargalhada. — Boa sorte pra ela. Esse jogo é impossível.

— Ela ganhou — disse Mark. Anil olhou para ele. — Impossível. Mark concordou com um aceno de cabeça. — Ela ganhou. Eu também não consegui acreditar. — Foi pura sorte — disse Anil, ignorando o feito. — Acho que não — afirmou Mark. — Você tem que derrubar dois times de soldados das forças especiais para ganhar. Um pode ser sorte, mas ela acabou com os dois. Eu estava vendo. Ela foi incrível. Anil franziu os olhos. — Incrível como? — perguntou. Naquela hora — quando já perdera as esperanças de encontrá-la novamente — Mark viu a menina sobre os ombros de Anil. Ela estava sentada na mureta que passava ao lado do fliperama. A mureta ficava em frente a um bar com uma larga varanda cheia de bancos de madeira que estavam lotados de pessoas barulhentas. — Lá está ela — disse Mark, apontando para a menina com a cabeça. — Não olha agora — sibilou, porém tarde demais. Anil já havia virado de costas. A garota estava olhando para o mar, com fones no ouvido. Anil foi em direção a

ela, e Mark caminhou constrangido ao seu lado. — O que você está ouvindo? — indagou Anil. Ela olhou para ele. — O quê? — perguntou. Anil apontou para os fones de ouvido. — Qual é a música? A menina tirou os fones e os colocou apoiados no pescoço. — Nada que você conheça — ela disse. — Seagulls Screaming Kiss Her Kiss Her. Eles são japoneses. São brilhantes. — Meu amigo aqui disse que você zerou o Spidershadow — disse Anil. Mark deu um sorriso leve — sentindose extremamente envergonhado agora que Anil havia deixado claro que ele estivera observando a garota. A menina se inclinou para a frente, com as pernas balançando. — Isso mesmo — ela disse. — Você já tinha jogado antes, certo? — perguntou Anil. Ela balançou a cabeça, seus cabelos negros e sedosos se moviam como se fossem água em ambos os lados de sua face. — Não foi difícil. É só uma máquina, sempre dá para descobrir o que as máquinas vão fazer. Anil sorriu.

— Estou impressionado. Meu nome é Anil — e apontou por cima do ombro. — Este é Mark. — Meu nome é Chrissie — respondeu a menina. — Você está aqui de férias? — perguntou Anil. — Na verdade, não — ela disse vagamente. Mark se sentiu enrubescer. Chrissie era completamente descolada, e Anil estava parecendo um bobão de 8 anos de idade. — Gostei da sua blusa — disse, louco para se inserir na conversa. — Onde você comprou? Ela olhou para baixo. — Em uma loja — disse. — Não fica por aqui. Vendem muitas coisas legais lá. — Então, você gosta de videogames? — perguntou Anil. Mark franziu o rosto. Ele queria que Anil ficasse quieto de uma vez por todas. — Não muito — respondeu Chrissie. — Eles são um pouco chatos. Como aquele lá no fliperama, o tal do Spidershadow. Quer dizer, é divertido por um tempo, mas depois que você joga é como se fosse “e aí, qual a novidade?”. — Quanto mais você joga, melhor fica — disse Anil. Ele apontou com a cabeça para o fliperama. — Eu acabei de quebrar o maior

recorde do Ronin, o bravo. Marquei 31, o recorde antigo era 30. Mark sorriu — Chrissie não parecia o tipo de menina que se impressionaria com essas coisas. — Bom pra você — disse Chrissie, com um tom levemente gozador. Anil franziu o rosto para ela, sem saber direito o que pensar a seu respeito. — Então, como você é tão boa no Spidershadow? — perguntou Mark. Ela sorriu. — Quer saber o truque? — ela perguntou. — Você fica apertando os botões “localizar” e “esconder” até dar o primeiro tiro. Assim eles não podem chegar por trás. — Como você sabia disso? — perguntou Anil. — Eu descobri — disse Chrissie. Ela se levantou de repente. — Onde é bom comer por aqui? — perguntou. — Estou morrendo de fome. — Têm umas lanchonetes e pizzarias lá na frente — disse Mark, antes que Anil tivesse a chance de dizer alguma coisa estúpida. — Mas geralmente nós vamos a um lugar ali nos fundos, lá não fica muito cheio. — Parece bom — afirmou Chrissie. — Onde é?

— Nós podemos mostrar a você — disse Mark. — Não é muito longe. Sentiu-se nervoso quando ela falou, mas havia alguma coisa nela que ele gostava — e queria conhecê-la melhor.

O restaurante retro americano tinha uma mesa alta e estreita que percorria toda a extensão da janela. O lugar estava mais cheio do que Mark esperava, e eles demoraram um pouco para encontrar três bancos juntos e continuar conversando. Eles se sentaram enfileirados: Anil, Chrissie no meio e Mark no canto, sobre bancos altos, enquanto comiam. — Então — Anil perguntou. — Você está aqui de férias ou não? Chrissie balançou a cabeça, mastigando e engolindo. — Estou aqui com o meu pai. Ele está trabalhando em uma grande construção em Links Road. — Eu sei onde é — disse Mark, acenando com a cabeça. — Fica no centro da cidade. — O que o seu pai faz? — perguntou Mark.

Chrissie pegou uma batata e molhou em uma piscina de ketchup que havia derrubado em seu prato. — Ele é construtor — ela disse. — Então você está morando na cidade? — perguntou Mark. Esperava que ela respondesse afirmativamente. — Nós estamos em uma casa perto da construção — respondeu Chrissie. — É um pouco ruim, e lá estão as pessoas mais malucas — ela sorriu. — Tem um cara que mora em um porão. Eu falei com ele algumas vezes. Ele adora répteis. Tem cobras, lagartos e coisas assim. Ele mostrou pra mim outro dia: deixa-os em aquários enormes, e os alimenta com animais vivos: ratos, insetos e minhocas. Mark deu de ombros. — Eu não gosto de cobras — disse. Chrissie deu uma mordida na batata. — Ah, cobras não me incomodam não — afirmou. — Elas são bonitinhas. — Então, se você não tiver planos pode ficar com a gente, se quiser — disse Anil. Mark se irritou um pouco — ele estava prestes a falar a mesma coisa. Chrissie olhou para ele. Ela franziu o nariz. — Jogando videogames? — perguntou, em tom de dúvida.

— Do jeito que você joga? — afirmou Mark, com um sorriso. — Acho que não. Nós com certeza iríamos perder! Ela sorriu para ele. Não de modo zombeteiro dessa vez, mas um largo sorriso impressionante que fez com que Mark se sentisse como se o sol tivesse aparecido de repente em um dia nublado. — Já que detesta videogames, o que você gosta de fazer? — perguntou Anil. — Ah, aprecio jogos — respondeu. — Só não gosto desses videogames tolos — ela afogou outra batata no ketchup. — Eles são para os tolos. — De que tipo de jogo você gosta, então? — perguntou Mark, quase recuperado do efeito do sorriso. — Ah, só de um tipo de jogo — Chrissie balançou a cabeça —, mas vocês não iam gostar — disse. — Por que não nos diz e descobre? — indagou Anil. — Não adianta nada — respondeu Chrissie. — Mesmo que eu dissesse, vocês não se interessariam. Iriam se assustar. — É uma coisa perigosa? — perguntou Mark. Chrissie inclinou a cabeça. — Não — falou lentamente. Ela sorriu outra vez, apontando para a cabeça. — Só aqui. — Mark não entendeu o que ela quis dizer. Anil balançou a cabeça.

— Ela está blefando — dirigindo-se a Mark. — Só está brincando com a gente. — O nome é “Quem Ousa Ganha” — disse Chrissie. Seus penetrantes olhos prateados estavam fixados no rosto de Anil. — Qual é a coisa de que você mais tem medo na vida? — perguntou. Anil contraiu os lábios, pensativo. — De ser beijado pela minha tia — respondeu com um sorriso. — É nojento. Mark gargalhou. Ele conhecia a tia de Anil — entendia direitinho o que o amigo estava querendo dizer. Mas Chrissie virou os olhos. — Ora, cresçam! — disse, com ar cansado. Ela olhou para a janela. — Vamos esquecer isso — afirmou. — Não — disse Mark, ansioso para que ela continuasse. — Fale mais sobre o jogo, quais são as regras? O que você tem que fazer? — Você precisa encarar as coisas que o assustam — respondeu Chrissie. — Eu aprendi com um cara que conheci quando estava morando na cidade com o meu pai no ano passado. — Que tipo de coisas? — perguntou Mark. — Coisas diferentes para pessoas diversas — disse Chrissie. — Por exemplo, detesto quando pássaros voam perto do

meu rosto, me incomoda muito, por algum motivo. Parece que eles vão bicar os meus olhos, ou coisa do tipo — ela tremeu. — Então, tive que ficar trancada em uma sala com um periquito solto — sorriu. — Não parece tão ruim, mas foi muito difícil. Mas eu fiz, e ganhei — olhou para Anil novamente. — Então, além de ser beijado pela sua tia, do que você não gosta? — Eu não sei — disse Anil. — Não tem nada que eu deteste assim. — Ah, tá bom — disse Mark com um sorriso. — Que tal aranhas? Anil fechou o rosto. — Tudo bem, eu não gosto muito de aranhas, mas também não morro de medo delas — ele pôs o dedo no rosto de Mark. — E você, com os tomates enlatados? Chrissie riu. — Tomates enlatados? — ela disse. — Você só pode estar brincando! Mark deu de ombros. — Eu sei que é estranho ter problemas com isso — afirmou —, mas detesto, especialmente as latas que vêm com tomates inteiros. Eles são muito nojentos, parecem corações de animais cobertos de sangue. — Isso é a coisa mais doida que já ouvi — afirmou Chrissie. — Que tipo de pessoa tem medo de tomates?

— Ele sabe disso — disse Anil. — Mas é como eu com as aranhas. Não há nada que se possa fazer. — Há sim, se você jogar “Quem Ousa Ganha” — disse Chrissie. — O objetivo é este: enfrentar as coisas que o assustam e vencê-las — ela apontou para Mark. — Você teria que comer um tomate diretamente saído da lata — voltou o olhar para Anil. — E você deveria enfrentar uma aranha andando ao seu redor. A reação inicial de Mark foi de dizer-lhe que esquecesse isso — ele realmente detestava esses tomates. E percebeu pela expressão que Anil não gostara da ideia da aranha. Ele olhou para Chrissie, tentando decidir o que fazer. Topar o jogo ou dar para trás? — E você? — perguntou a ela. — O que teria que fazer? — Já ganhei nesse jogo — disse Chrissie. — Então, seria a Mestra do jogo. Eu criaria as regras e me certificaria de que vocês jogassem direito. E porque estariam competindo um contra o outro, nós teríamos que criar um sistema de derrota, para o jogo ficar mais interessante. Por exemplo, se um dos dois desistir, então deveria dar alguma coisa para o outro. Mark olhou para Anil. — Quer jogar? — perguntou ele.

— Por que não? — respondeu Anil, com um sorriso se formando no lado do seu rosto. — Se perder, você me dá seus tênis Nike novos. — E se você perder, fico com a sua blusa de futebol — disse Mark, com os olhos brilhando. — Então, quando a gente começa? — perguntou Anil. — E quem é o primeiro? — Podemos começar agora mesmo — disse Chrissie. Ela pôs a mão no bolso e pegou uma moeda. — Mark, cara ou coroa? — perguntou, lançando a moeda para o ar, e tapando-a com uma mão assim que ela caiu na outra. Mark respirou fundo. — Cara — ele disse. Chrissie levantou a mão. Era coroa. — Tomates enlatados, aqui vamos nós — disse Anil, com uma risada. Ele sorriu para Mark. — Você já perdeu seus tênis novos!

Eles estavam na cozinha da casa de Mark. Não havia mais ninguém; os pais dele trabalhavam, e não iam voltar tão cedo. Mark olhou para Chrissie, sentada sobre a mesa, balançando as pernas. Ele estava numa cadeira com um prato vazio,

uma faca e um garfo à frente. Anil permanecia de pé, no lado oposto, com um abridor de latas, levantando a tampa da lata de tomates que tinham acabado de comprar. Anil entornou a lata sobre o prato e os pedaços macios e vermelhos caíram do suco grosso. Mark olhou para aquela bagunça horrorosa no prato. Os tomates pareciam muito nojentos, naquela piscina de líquido vermelho, macios e molengos, e totalmente crus. Anil sorriu para ele. — Você pode desistir agora, se quiser — disse. — Eca! — falou. — Corações boiando no próprio sangue. Eu acho que alguns deles ainda estão batendo! Mark lançou um olhar irritado e balançou a cabeça. — Você não vai me fazer desistir. Anil riu. — Tudo bem — afirmou. — Chega de truques. Mark olhou para o prato na sua frente e não conseguia evitar a sensação de nojo. — Vá em frente — incentivou Anil. — Eu detestaria ter que ficar com seus... — ele se inclinou para a frente, encorajando Mark. — Vamos, são apenas tomates. Mark pegou o garfo e a faca.

— Eu preciso comer todos? — perguntou hesitante. — Precisa! — disse Chrissie. — Pode comer tudo, Mark. Ele olhou para ela, que parecia estar se divertindo muito com isso tudo. Anil franziu o rosto. — Não — ele retrucou. — Só precisa comer um. Chrissie deu de ombros. — Tudo bem — ela disse. — Mas terá que comer com os dedos. Mark achava que cortá-los em pedaços pequenos com o garfo e a faca pudesse facilitar as coisas. A ideia de pegar um tomate com a mão e morder tornava o desafio muito pior. Ele repousou os talheres na mesa e olhou para o prato. — Você consegue — afirmou Anil. Mark respirou fundo. Ele clareou a mente, pensar a respeito só dificultava a tarefa. Pegou um dos tomates do prato, ele mal conseguia segurar, já que escorregava por seus dedos, com o suco grosso pingando. Fechou os olhos e abriu a boca. Ele pôs aquela massa grossa e nauseante na boca. Inclinou-se para trás, com os olhos cerrados, fechando os dentes em torno do tomate. Suas mãos estavam agarrando a ponta da mesa. Mark mastigou,

sentindo o tecido macio virar uma coisa nojenta na boca. Ele engoliu umas três ou quatro vezes. O tomate acabou. Ele abriu os olhos e soltou uma risada. — Isso aí, Mark! — gritou Anil. Mark respirou fundo. — Isso foi a pior coisa que já comi na vida — disse. Seu estômago tremeu. Levantou-se cambaleante. — Vou vomitar! — engasgou-se, correndo para a pia. — Você não vai passar mal — falou Chrissie. — Basta tomar um pouco de água. Vai ficar bem. Mark se apoiou na pia. Não — ele não ia passar mal. Recusava-se a vomitar na frente de uma pessoa tão descolada e fascinante quanto Chrissie. Não queria que pensasse que ele era um fraco. Mark pegou um copo de água e tomou tudo em um só gole. Ele se afastou da pia, olhando para Anil. Depois sorriu. — Você ainda acha que vai ficar com o meu tênis? — perguntou. — Agora vamos ver como se sai com as aranhas. Sei que há umas bem gordas e grandes atrás do galpão no jardim. Anil o encarou com um olhar relaxado.

— Sem problemas — disse. — Você pode colocar uma dúzia delas em mim se quiser. — Não — disse Chrissie, descendo da mesa. — Só uma, mas você tem que comêla. Mark riu, imaginado que Chrissie estivesse apenas brincando com Anil. Mas a expressão em seu rosto não sugeria brincadeira. Anil estava olhando para ela — ele tinha ficado pálido. — Você não pode obrigá-lo a comer uma aranha — censurou Mark. — Eu sou a Mestra do jogo — disse Chrissie. — Decido as regras — ela olhou para Mark. — Você teve que comer o tomate, uma coisa com a qual tem problemas. Anil deverá comer uma aranha, algo repelente para ele. Qual é o problema? — seus olhos estavam brilhantes e afiados. — Ou nós podemos esquecer a brincadeira — ela deu de ombros, com um olhar levemente desdenhoso dominando sua expressão. — A decisão é de vocês. — Esse jogo é estúpido — disse Anil. — Isso é exatamente o que dizem os fracos — falou Chrissie. Então sua voz se tornou macia e extremamente persuasiva. — Ora, vamos, Anil. Não desista. Mark venceu o jogo. Se não enfrentar o medo de

aranhas, ele vai ganhar a sua camisa de futebol, e, além disso, vai se sentir patético. Você não quer isso, quer? Mark olhou para o seu amigo, tentando pensar em um modo de persuadi-lo a jogar. Ele comeu um daqueles tomates, e queria que Anil ao menos tentasse comer a aranha antes de desistir. — Você não precisa comer uma daquelas grandes que ficam no jardim — disse a Anil. — Que tal uma das magrinhas que ficam penduradas de cabeça para baixo no galpão do meu pai? E você pode enrolá-la em um pedaço de pão; desse jeito nem ia notar — ele olhou para Chrissie. — Assim pode, não pode? Chrissie sorriu. — Eu preferia uma bem grande que estourasse na boca quando ele mordesse — disse. — Mas aranha é aranha — ela deu de ombros. — Tudo bem. Ele passa no teste se comer um sanduíche de aranha. Mark olhou para Anil. — Vai encarar? Anil fez que sim com a cabeça; seu rosto ainda estava um pouco pálido, mas a expressão mostrava determinação. Mark pegou uma fatia de pão. Ele destrancou a porta dos fundos e os guiou pelo jardim até o galpão. Abriu o cadeado e entrou, sentindo uma súbita ansiedade. Ele

realmente ficava incomodado em lugares pequenos e fechados. Mark não demorou mais de um segundo para localizar uma das aranhas penduradas no telhado. Anil e Chrissie esperaram na porta enquanto Mark levantou a fatia de pão e a colocou embaixo da aranha, dando um peteleco com os dedos. A aranha foi surpreendida e acabou caindo em cima do pão. Ele dobrou a fatia rapidamente. Em seguida, saiu do galpão e entregou o sanduíche a Anil. — É difícil para a aranha — disse Mark. — Uma hora ela está quieta, cuidando da própria vida; em seguida vira o almoço de alguém. — Se Anil comê-la depressa, ela nem vai ver o que está acontecendo — disse Chrissie. — Além disso, muitos bichos comem aranhas. — Pessoas não se alimentam de aranhas — retrucou Anil com um sussurro seco. Por um instante ele ficou parado olhando para o pedaço de pão. — Se você passar no teste será recompensado — ela disse. Anil olhou para Chrissie. — O quê? Ela deu aquele sorriso largo, doce e luminoso.

— Você vai poder passar mais tempo comigo. Mark sentiu uma ponta de ciúme quando a viu sorrindo para Anil. Mas logo depois a sensação passou, ofuscada pelo fato de que Anil deveria comer uma aranha. Anil se mostrou satisfeito. Logo depois, ele levou o sanduíche até a boca. Hesitou por um segundo e pôs todo o pão na boca de uma vez só. Mark mal conseguia olhar enquanto ele mastigava a fatia. — Tem que engolir tudo, tem que engolir tudo! — exclamou Chrissie. Anil engoliu. Ele olhou para Mark com um sorriso triunfante no rosto. — Eu não senti gosto nenhum — disse. Ele riu, fingindo secar suor da testa. — Até que não foi tão ruim. Chrissie franziu o rosto. — Eu facilitei muito para você — afirmou. — Agora que estou pensando melhor, eu não sei se valeu. Acho que você deveria comer uma sem pão. — Nem pensar — disse Anil. — Eu fiz o que mandou. Você não pode mudar as regras depois. — Eu sou a Mestra do jogo — falou Chrissie. — Eu faço as regras. — Ele comeu a aranha — intrometeu-se Mark. — Isso significa que venceu o jogo.

Chrissie olhou para um e depois para o outro. — Isso foi muito bobo — disse. — Essas coisas foram patéticas. Nem um pouco assustadoras, não de verdade. Vocês não sabem como se brinca esse jogo direito — ela virou de costas, com os braços cruzados, e caminhou pelo jardim. Mark e Anil se entreolharam, completamente surpresos. — Ei! — exclamou Anil. — Qual é o problema? Chrissie virou-se ao chegar à porta do jardim. — Problema nenhum — respondeu. — Eu tenho coisas para fazer. — Você quer nos encontrar mais tarde em algum lugar? — convidou Mark. — É o seguinte — ela disse. — Se vocês conseguirem pensar em alguns medos melhores para enfrentar, nós podemos jogar outra vez. Eu vou estar perto do fliperama amanhã de manhã, por volta das dez. Se não, esqueçam. E então ela foi embora. Mark ouviu a porta da frente bater. — Mas que garota maluca — disse Anil. Ele olhou para Mark. — Você acredita nesse ataque que ela deu? Mas Mark só pensava no seu sorriso e em seus olhos prateados — e ficou

imaginando no que teria que pensar para mantê-la interessada em jogar com ele.

Mais tarde, naquele mesmo dia, eles estavam sentados no chão do quarto de Mark, jogando ZOMBEEZ, que ele comprara há menos de uma semana, e ainda estavam se acostumando. Passava-se no século XXX, e eles eram dois policiais enviados em missão a um antigo cemitério para encontrar e destruir a nave espacial escondida de aliens invasores que estavam ocupados ressuscitando os corpos de terráqueos, com a intenção de criar um exército para dominar o planeta. Nem Mark nem Anil tinham conseguido se aproximar do coração da nave espacial antes que sua saúde chegasse a limites críticos e eles acabassem morrendo. — O design desse jogo é o máximo! — exclamou Anil, enquanto seu personagem circulava uma esquina e entrava em uma enorme câmara de docas, cheia de navios de combate. Ele caminhou pelo chão, observando cuidadosamente a amplitude daquela sala silenciosa. Nada se moveu. — Só pode ser uma armadilha — disse Mark.

— Não tem nada aqui — afirmou Anil, franzindo o rosto enquanto se concentrava na tela. — O chão tem umas formas muito estranhas — observou Mark. — Peraí, o que é... — começou Anil. A tela se encheu de chamas brancas. Seu personagem soltou um grito desesperado e o nível de saúde foi a zero. A tela exibiu a mensagem: Game Over. — Nós nunca vamos chegar na sala de controle nesse ritmo — disse Anil. — Tem algum atalho no manual? Mark balançou a cabeça. — Será que a gente consegue achar alguma coisa na internet? — olhou para Anil. — Eu aposto que a Chrissie descobriria. — É claro — disse Anil. — Só que ela só iria nos dizer o quão idiota nós somos por jogarmos videogame. Fez-se um breve silêncio. — Ela é um pouco estranha, não é? — perguntou Mark. — Ela é doida — disse Anil. — Você não viu como ela ficou descontrolada lá embaixo? — Bem, vi, mas... Anil olhou para ele. — Mas o quê?

— Eu gosto dela — respondeu Mark. Ele sorriu levemente e deu de ombros. — Não sei por quê. Mas eu gosto. Ela é diferente. — Ela é diferente mesmo — disse Anil. — Você não gostou dela? — perguntou Mark. — Não sei — respondeu Anil. — Talvez. Mark se levantou. Ele se esticou e foi até a janela. Olhou para o jardim — vendo o rosto dela em sua mente, lembrando-se daquele sorriso. Ele olhou para Anil por cima de seu ombro. — Se a gente fosse brincar aquele jogo outra vez, no que poderíamos pensar que fosse realmente assustador? — Eu contaria para ela que você morre de medo de cobras, para começar — disse Anil. — Ou que tem pavor de ficar trancado em lugares pequenos. Anil tinha razão. Mark detestava cobras — era tão claustrofóbico que mal conseguia entrar em um elevador. Acabara de ficar em um espaço pequeno e fechado e sentiu-se como se não pudesse respirar, como se as paredes estivessem se fechando, tentando sufocá-lo e esmagá-lo. — E eu diria a ela como você se sente a respeito de Ashtead Wood — retrucou Mark. — E o seu medo de altura.

— Ela provavelmente não acharia nada disso interessante o suficiente para o jogo ridículo dela — disse Anil. Mark se virou. — Então nós não vamos encontrá-la amanhã? — Para mim não faz a menor diferença — respondeu Anil, desinteressado. — Nem para mim — Mark olhou de lado para o seu amigo. — Mas talvez devêssemos ir até lá. Que tal? — Tudo bem. Mark sorriu, aliviado com a decisão. Ele não conseguia entender Chrissie muito bem — mas definitivamente queria vê-la outra vez. Tentou fazer com que sua voz soasse o mais casual possível. — Você achou que ela é bonita? — Achei — respondeu Anil, após uma pausa. Seus olhares se encontraram por um instante, e depois se desviaram.

Mark demorou um pouco para dormir naquela noite, pensando em Chrissie, lembrando da sua imagem. E ela foi a primeira coisa que veio à sua cabeça no dia seguinte, ao acordar.

Ele desceu para a cozinha. Seu pai já saíra, mas a mãe ainda estava à mesa, lendo o jornal local enquanto tomava uma xícara de café e ouvia rádio. — Bom dia — cumprimentou Mark, bocejando, enquanto abria a geladeira. Ele pegou uma caixa de suco de laranja e bebeu direto. — Põe no copo — ordenou sua mãe. — Você quer que eu prepare alguma coisa? — Não, eu só vou comer uma torrada — respondeu, indo na direção do armário, ainda bocejando. — Você tem algum plano para hoje? — ela perguntou. — Já começou aquele projeto de férias da escola? Eu o conheço; se não ficar no seu pé, vai deixar para a última hora. Mark pôs o pão na torradeira e procurou o vidro de geleia. — Já estou quase começando — respondeu. — Eu tenho tudo resolvido na cabeça, agora só falta passar para o papel. — Bem, então tá — ela disse. A mãe virou-se, esticando o braço por cima das costas da cadeira. — Lembra-se dos meninos que caíram daqueles penhascos há algumas semanas? Mark fez que sim com a cabeça. Foi notícia durante alguns dias. Três adolescentes caíram dos penhascos que

ficavam na parte leste da cidade. Dois dos corpos foram encontrados, mas o terceiro ainda estava desaparecido. Os guardas costeiros concluíram que havia sido carregado pelo mar. — Saiu um artigo hoje dizendo que as pessoas devem ficar longe dos penhascos até que a prefeitura instale algumas grades de segurança — continuou sua mãe. — Mesmo que coloquem grades, algum idiota com certeza vai escalar de brincadeira — disse Mark. — Você nunca sobe lá, sobe? — ela perguntou, com o rosto sério. Mark soltou um suspiro dramático. — Eu não sou um idiota, mãe. — Eu sei disso. Mesmo assim... — E caso você não se lembre, Anil morre de medo de altura — disse Mark. — Nós nunca subimos nos penhascos. — Ótimo — sua mãe levou a louça para a pia. — Então? — ela perguntou. — Quais são os seus planos? Mark a olhou de lado. — Eu e Anil conhecemos uma menina no fliperama ontem — ele disse. — Talvez a gente se encontre com ela outra vez. — Ela é boazinha? Mark sentiu um sorriso tolo se esticar em seu rosto. Ele recuperou o controle

rapidamente, mas não antes que sua mãe percebesse. — Ela é legal — disse, com ar de desinteresse. A mãe sorriu para ele. — O quê? — reagiu defensivamente. — Nada — ela disse. A mãe caminhou até ele, tomando o rosto do filho entre as mãos antes que pudesse escapar. — Tenha cuidado com as meninas. Elas podem ser perigosas. O Anil gosta dela também? — Eu não sei — respondeu Mark, afastando-se. — Não perguntei a ele. Você não está atrasada para pegar o trem? Sua mãe olhou para o relógio da parede. — Estou sim — ela pegou a bolsa que estava pendurada nas costas da cadeira. Na porta da cozinha, olhou para ele mais uma vez. — Lembre-se da minha recomendação a respeito de meninas. E do que falei sobre os penhascos. — Tchau, mãe — disse Mark. Alguns minutos mais tarde ele estava sentado à mesa comendo torrada e mel e olhando para o relógio da parede. Ainda eram oito e meia. Eles combinaram que Mark passaria na casa de Anil às dez e depois iriam encontrarse com Chrissie — mas ainda faltava uma hora e meia.

Parecia muito tempo. Mark chegou à casa de Anil às nove e meia. Sua irmã mais velha abriu a porta, ainda de camisola e com ar sonolento. Após subir e verificar o quarto de Anil, ela desceu e disse a Mark que seu irmão já havia saído. Isso era estranho. Mark sempre buscava Anil. Então ele pensou em uma coisa. Algo que o irritou. Será que Anil tinha ido encontrar Chrissie sozinho? Ele caminhou depressa em direção ao mar. Logo viu Chrissie e Anil. Eles estavam sentados um ao lado do outro nas cercas que tinham vista para a praia. Mark desviou-se do trânsito para alcançá-los. Inclinou-se na grade que apoiava o cotovelo de Chrissie. — Olá — ele disse. As duas cabeças viraram. — Oi — cumprimentou Chrissie. Anil lançou um olhar culpado a Mark. — Eu passei na sua casa — disse Mark. — Pensei que tínhamos combinado de nos encontrarmos lá. — Eu acordei cedo, então resolvi vir logo para cá — disse Anil. — Sabia que você nos encontraria. Chrissie balançou suas longas pernas sobre a cerca e pulou para o chão. Hoje ela

estava com uma camiseta com um slogan diferente: Eu vou parar de usar preto. Quando inventarem uma cor mais escura. — Eu pensei que íamos nos encontrar às dez — disse Mark. Chrissie olhou para ele com um semissorriso no rosto. — Você virou Capitão da hora ou coisa parecida? — Não — respondeu Mark, de repente sentindo-se pequeno e mesquinho. Mas, por outro lado, foi Anil quem falou que Chrissie era completamente doida; e, no entanto, estava lá, encontrando-se a sós com ela. — Então — Chrissie disse a ele. — Você é claustrofóbico? — Um pouco — disse Mark. — Ele balançou as pernas e pulou para sentar-se ao lado dela. — Mas espaços pequenos não me assustam tanto quanto alturas causam pavor a Anil. Chrissie olhou para Anil. — Você não me disse nada disso — ela censurou. — E ele comentou alguma coisa a respeito de Ashtead Wood? — Mark fez um largo gesto com um dos braços, para indicar a direção do caminho do bosque atrás da cidade. Anil olhou para Chrissie.

— Quando era pequeno, eu tinha uns 5 ou 6 anos, fui andando sozinho e me perdi no bosque. Anoiteceu e eu morri de medo. Fiquei alguns dias sem dormir. Não foi nada de mais. — Até hoje ele não vai lá — disse Mark, divertindo-se com o desconforto do amigo. Chrissie olhou para Anil. — Isso é verdade? — Eu não gosto do lugar — respondeu, cruzando os braços sobre seu peito, defensivamente. — Mas não tenho medo. Mark sorriu para Chrissie. — Para mim isso é medo — disse. — Se nós formos continuar aquele jogo, então acho que o desafio de Anil tem que ser uma visita ao bosque à noite, e ele precisa ficar por lá durante uma hora. — Com os olhos vendados e as mãos amarradas — acrescentou Chrissie, de repente, entusiasmada. — Isso! Isso seria o máximo! — ela olhou para Anil. — Você deve fazer isso. Imagina só como vai se sentir depois, se conseguir. — No verão só escurece tarde — disse Anil. — Meus pais não vão me deixar ir até o bosque durante a noite. Chrissie olhou para ele. — Já ouviu falar em mentira? — disse, de forma sarcástica.

— Você comunica a eles que dormirá na casa do Mark, e ele pode dizer aos pais que vai para a sua casa. Aí vocês dois vêm comigo até o bosque. — E o que a gente vai fazer depois do jogo? — perguntou Mark. — Onde nós vamos dormir? — Ora, vamos — disse Chrissie, com os olhos brilhantes e ansiosos. — Vocês conseguem ou não pensar em alguma coisa? Mark olhou para Anil. — Nós poderíamos entrar de volta na minha casa tranquilamente sem que ninguém ouvisse — afirmou. — Desde que fiquemos quietos até a hora que eles saírem para o trabalho; nunca vão saber de nada. Anil fez um sinal positivo com a cabeça. — É, suponho que sim — afirmou. — Então está tudo certo — disse Chrissie, sorrindo. — Moleza! — ela olhou para Mark. — E eu sei exatamente o que podemos fazer com você — ela se inclinou e sussurrou alguma coisa no ouvido de Anil. Mark morreu de ciúmes quando viu aquele sorriso se estampando no rosto do amigo. — Você consegue arrumar alguma? — ele perguntou. Chrissie fez que sim com a cabeça. — Além de detestar lugares fechados, o Anil me contou que você não gosta de

cobras — disse. — Então, enquanto ele enfrenta o medo do bosque, acho que vou apresentá-lo a uma bela cobra molenga e rastejante. Mark olhou para ela, tentando disfarçar o horror que essa ideia representava. — Ótimo — ele disse, conseguindo dar um sorriso casual. — Contanto que não precise comê-la. — Não — ela disse. — Você não vai comê-la. — Ela sorriu. — Só precisará vesti-la. — E quais são os planos para hoje? — perguntou Anil. — Nós não podemos realizar os desafios até a noite. — Eu achei que fôssemos ficar juntos — disse Mark. — Nós vamos, hoje à noite — respondeu Chrissie, enquanto se afastava deles. Ela levantou o braço e acenou sem sequer olhar. — Aonde vamos nos encontrar? — gritou Mark. — No final da sua rua — respondeu Chrissie. — Às 21 horas. Não se atrasem. E então, antes que qualquer um deles pudesse dizer alguma coisa, Chrissie correu pela rua, em meio aos carros. Mark estivera ansioso para vê-la desde a hora que acordou — e agora ela tinha ido embora. Ele se sentiu estranhamente vazio.

— Alguns dos meninos disseram que iam para a praia jogar Frisbee — sugeriu Anil. — Quer encontrá-los? Mark fez que sim com a cabeça. Afinal, o que mais poderiam fazer?

Algumas nuvens cobriam as estrelas do céu enquanto os três caminhavam até a cidade naquela noite. Chrissie trazia uma bolsa de couro preta. A mãe concordara que Mark dormisse na casa de Anil. Ela confiava tanto no filho que nem telefonou para os pais de Anil para verificar a história. Mark sentia-se mal por mentir; maldade enganar alguém que confiava tanto em você. Anil também não tinha tido problemas. Os amigos frequentemente dormiam um na casa do outro. Não era nada de mais. E depois que o jogo acabasse, eles poderiam voltar para a casa de Mark e entrar pela porta dos fundos, sem que ninguém percebesse. Eles passaram pelas últimas casas e caminharam pelo pátio estreito que passava pelo pé da colina. Ela era cercada por plantas altas — o que deixava apenas um céu sem estrelas sobre suas cabeças.

Mark tinha quase certeza de que Chrissie guardara uma cobra na bolsa, muito bem fechada, e ela estava carregando com cuidado. Mas preferiu não perguntar nada. Seu desafio com a cobra aconteceria em breve. Era melhor não pensar a respeito por enquanto. Mas Anil tinha ideias diferentes. — O que tem na bolsa? — perguntou, enquanto ocupavam o pátio. — O destino de Mark — disse Chrissie, com uma risada. — Você trouxe uma cobra? — indagou Anil. — Sério? Onde arrumou? — Eu suponho que tenha emprestado do vizinho do qual ela nos contou — disse Mark, feliz por não soar tão apreensivo quanto parecia. — O maluco que guarda répteis no porão da casa onde ela mora. — Exatamente — disse Chrissie. — Legal — afirmou Anil. — Que tipo de cobra é? — Uma cobra verde — respondeu Chrissie. — O maluco a chama de Vampira. — É venenosa? — perguntou Anil. Chrissie olhou para Mark com os olhos brilhantes. — Tomara que não, né? — falou, com um sorriso que quase fazia com que o sofrimento valesse a pena. — Você vai se

sentir tão bem quando enfrentar seu medo de cobras. Será um herói! Um silêncio absoluto se abateu sobre eles. — Aqui estamos — disse Mark um tempo depois. — Ashtead Wood — a sequencia de arbustos foi quebrada por um portão lapidado de madeira, fechado com uma corrente enferrujada. Além do portão, havia uma enorme área de grama densamente coberta por árvores. — Certo — disse Chrissie. — Vamos começar logo — ela escalou o portão e pulou para o outro lado. Mark deu uma rápida olhada em Anil, que contemplava as árvores com os olhos franzidos. — Um monte de árvores não chega nem aos pés de uma cobra — suspirou Mark. Ele sorriu. — Talvez nós possamos trocar de fobias. Anil deu uma risada nervosa. — Eu não acho que a Chrissie iria aceitar isso — disse. Eles escalaram o muro. A barra de cima estava podre, e havia farpas e pregos afiados saindo de lá. Chrissie já estava passando pela vegetação, em direção ao limite do bosque. Enormes sombras se formavam sob as árvores. Não ventava. O topo da colina estava silencioso.

O único barulho vinha do movimento de suas pernas quando remexiam na grama. Chrissie parou embaixo da árvore mais próxima. Ela pôs a bolsa no chão com muito cuidado, abriu o compartimento da frente e puxou um pedaço grande de fio e uma tira de pano preto. — Pronto — ela disse. — Quem vai primeiro? Anil se habilitou. Mark notou que ele evitava olhar para a escuridão sob as árvores. Por mais que tivesse tentado convencê-los de que sua cisma com o bosque vinha de um desagradável incidente ocorrido na infância, Mark percebeu que estava sendo muito difícil para Anil. Quisesse admitir ou não, tinha de fato medo daquele bosque. — Muito bem, Anil — disse Chrissie. — E, já que você se ofereceu, o Mark vai primeiro — ela parou novamente, abriu a bolsa, olhou para ela por um instante e em seguida pôs a mão lá dentro. O coração de Mark acelerou. Todos os pelos em seu corpo se arrepiaram. A mão de Chrissie surgiu, segurando a cobra. Mark supôs que ela fosse do comprimento do seu braço, e era mais fina que o seu dedão. Estava enrolada preguiçosa na mão dela, movendo-se em câmera lenta. A cabeça longa e achatada ia

para a frente e para trás sobre seu pescoço. Mark deu um passo involuntário para trás enquanto Chrissie se levantava. Ela segurava a criatura à distância do braço, e um sorriso se desenhou em seu rosto enquanto observava o animal se mexer e se contorcer no ar. — Ela é bonita, não é? — perguntou. Ela caminhou na direção de Mark, que lutou para se segurar. Todos os seus instintos lhe diziam para virar as costas e correr. E o olhar de Chrissie o assustou. Esqueça o jogo — saia daí. Anil pode ficar com o par de tênis. Isso não vale a pena. Mas ele não se moveu. O sangue pulsava em sua cabeça. Os braços estavam completamente rígidos, e as mãos, cerradas em punhos doídos. Chrissie estava na sua frente. A cobra havia dado duas voltas em torno de seu braço. A cabeça levantava e caía. E ela colocava a língua para fora. Os olhos do animal pareciam duas contas negras. Suas curvas brilhantes eram verdes e assustadoras. — Não se preocupe — falou Chrissie, com voz macia e estranhamente gentil. — A cobra não é venenosa, não vai machucá-lo — ela deu um passo à frente e desenrolou-a de seu braço. — Pode confiar em mim — sussurrou.

Mark ficou apavorado, enquanto Chrissie colocava a cobra sobre seus ombros. — Eu sei algumas coisas sobre cobras e, pelo que me lembro, esta não vai fazer nada — falou casualmente. — Ela é gelada, pois cobras têm sangue frio. Provavelmente só vai se ajeitar e dormir — ela esfregou com os dedos as bochechas de Mark. Ele não sabia se tinha sido acidental ou não. Então ela se afastou. — Ótimo — ela disse, num volume mais alto. — Se você encostar na cobra ou fizer alguma coisa para se livrar dela antes da minha autorização, perde o jogo — ela se voltou para Anil. — Agora é a sua vez. Mark ficou ali parado, em um mundo de pesadelos. Ele via o rabo e a cabeça da cobra e podia senti-la se mexendo lentamente em sua nuca — fria, macia e sedosa. Temia o instante em que aquela pequena cabeça iria se voltar para ele e abriria a boca revelando dentes afiados como agulhas. Ele tinha apenas uma vaga percepção de Chrissie amarrando as mãos de Anil em suas costas com o fio e cobrindo os olhos dele com a tira de pano. — Eu vou levá-lo diretamente para o bosque — ela disse. — Em seguida o deixarei lá. Se gritar por socorro, eu vou buscá-lo, mas perde o jogo. O mesmo

acontecerá se tentar tirar a venda. Mark vai ficar com a cobra o mesmo tempo que você permanecer no bosque. Se algum dos dois desistir, o outro ganha. Se ambos aguentarem, eu vou declarar um empate. — Depois de quanto tempo? — perguntou Anil, e Mark sentiu certo alívio ao ouvir que a voz de seu amigo estava trêmula. — Isso só eu sei, vocês vão descobrir — disse Chrissie, com um brilho perigoso nos olhos. Mark percebia que ela se divertia. A garota tinha os dois sob controle e estava adorando isso. E assim ela empurrou Anil para baixo das árvores. Mark perdeu-os de vista em poucos segundos. Durante mais algum tempo conseguiu escutar os passos, depois tudo se calou. Ele sentia a cobra se movendo, as escamas se esfregando contra a pele de sua nuca. A cabeça do animal se esticou, balançando-se, com a língua entrando e saindo da boca. Mark encarou, sem se atrever a mexer um único músculo, com medo de que ela de repente atacasse seu pescoço. Ele praticamente sentia aqueles dentes penetrando sua carne, injetando um veneno mortal. Chrissie havia dito que a cobra não era venenosa, mas e se estivesse enganada?

Uma voz oca e assustada ecoava em sua mente. Tire-a de mim! Tire-a daqui! A cobra se mexia à vontade no pescoço de Mark. Ele ergueu as mãos, pronto para retirá-la se ela começasse a apertar. Chrissie surgiu da escuridão das árvores. — Não pode encostar! — alertou, enquanto se aproximava. — Isso é roubo. — Eu não me importo — disse Mark, com a voz completamente seca. — Não vou permitir que ela me estrangule. — A cobra não vai estrangulá-lo — disse. Chrissie levantou a mão e com o dedo percorreu o corpo do animal. — Você pensa que são escorregadias, não é? Mas não são. Na verdade são bem sedosas. Mark engoliu em seco. — Por quanto tempo você vai nos forçar a ficar assim? — ele perguntou. Ela franziu o rosto. — Eu não estou forçando ninguém a fazer nada — disse. — É uma brincadeira. Pode jogar ou não. É você quem decide. Se não aguenta, é só tirar a cobra, eu não vou impedir. Mark estremeceu; a cobra estava começando a se apertar em torno de seu pescoço. Por enquanto não representava grandes problemas, mas não gostava nem um pouco da sensação.

Chrissie observou por alguns instantes enquanto a cobra deslizava sobre a pele de Mark. Seus olhos brilhavam com estranho fascínio. Mark podia sentir o suor frio escorrendo pelo rosto. Mais um segundo e ia sucumbir! Ele não aguentava mais essa tortura. Em seguida, sem dizer nada, Chrissie esticou o braço e começou a desenrolar a cobra, com muito cuidado. Ela retirou o réptil do pescoço de Mark e o deixou lá, numa mistura de alívio e confusão enquanto aproximava a bolsa para guardar o animal. Ela caminhou de volta para Mark. — Você foi muito bem — disse. — Ela se moveu subitamente para a frente e lhe deu um beijo na bochecha. Mark soltou uma risada sem fôlego, seu rosto esquentou. Ele de repente se sentiu tolo por ter pensado que Chrissie poderia ter deixado uma cobra venenosa passear por seu pescoço. —Talvez as cobras não sejam tão ruins assim — disse, olhando nos olhos prateados da garota. — Mas ainda as odeio. Ela sorriu e olhou sobre o ombro em direção ao bosque. — Será que devo buscar Anil agora? — perguntou, com um tom entretido e malicioso transbordando em sua voz. — Ou devemos deixá-lo lá por mais algum tempo?

— Ela virou e olhou para ele, seus olhos eram enormes e brilhavam em meio à escuridão. — O que você acha? Mark não sabia o que pensar. O que ela queria dizer com isso? Estava sugerindo que deixassem Anil vendado no bosque até que pedisse socorro? Será que queria ficar mais tempo sozinha com ele? Mas por quê? Ele olhou para o rosto da menina, tentando tirar alguma conclusão. Depois de um instante, disse: — Não podemos deixá-lo lá. Chrissie contraiu os lábios e deu de ombros de um jeito curioso. — Tudo bem — respondeu, e começou a andar sob as árvores. — Ei! Anil! — gritou. — Acabou o jogo! Eu vou buscá-lo! Fez-se silêncio por alguns instantes; em seguida Mark escutou um grito vindo das profundezas do bosque. Era Anil, e parecia apavorado. Ele correu para a frente. Os gritos de Anil preenchiam a noite. Chrissie estava ali parada, olhando para o bosque, sem fazer nada. Mark correu sob as árvores, tentando determinar a direção de onde vinham os gritos. — Anil!

Uma voz distante respondeu ao chamado. — Mark! — Eu estou indo — disse, correndo em direção à voz. — Continue gritando! Ele avançou pela escuridão sob as árvores, empurrando os galhos que o bloqueavam, buscando a origem do som da voz do amigo. — Anil? — Aqui! — a voz continuava assustada, mas pelo menos o pavor maior parecia ter desaparecido. Mark viu uma sombra escura sob a escuridão noturna — caída no chão. Um rosto pálido estava virado em sua direção, os olhos cobertos pelo pano preto. Havia sangue na testa de Anil e seu rosto estava todo sujo. Ele retirou a venda do amigo. Os olhos se encontravam completamente alarmados. — Solte as minhas mãos! — engasgou Anil. Mark logo desamarrou o fio que atava os pulsos. Ele se sentou, ofegando e com as roupas cobertas pelo lixo do chão. Examinou em volta com olhos assustados e arregalados. Ele estava com a respiração pesada, seus olhos não demonstravam nenhuma sensação, além do pânico. Mark jamais havia visto o amigo desse jeito.

— O que aconteceu? — perguntou Mark, enquanto ajudava Anil a se levantar. — Tem alguma coisa aqui — disse Anil. — Eu ouvi algo vindo na minha direção. Vamos embora daqui! — Como você se cortou? — perguntou Mark. — Eu acho que esbarrei em algum galho baixo — respondeu Anil. — Tá muito feio? Mark olhou para o corte. Estava ensanguentado, mas não era fundo. — Acho que você vai sobreviver — disse. Mas estava preocupado com outra coisa agora. Ele havia entrado no bosque correndo, sem pensar, e agora não sabia ao certo o caminho de volta. A escuridão deixava tudo muito confuso. Mark respirou fundo. — Chrissie! — chamou. O silêncio profundo e escuro do bosque tomou conta deles enquanto esperavam ouvir uma resposta. — Chrissie! — ele gritou outra vez, agora mais alto. Nada. Mark franziu o rosto. Ela com certeza tinha escutado — então por que não estava respondendo? Ele olhou para Anil. Seu amigo estava apoiado em um tronco de árvore. Observava

em volta, como se estivesse esperando que alguma coisa viesse atrás deles. — Você está bem? — perguntou Mark. Anil fez que sim com a cabeça. — Estou um pouco tonto, só isso. — Eu acho que consigo encontrar o caminho de volta. Eles partiram na direção que Mark esperava que fosse a certa. Apesar de não se assustar por estar no bosque, o pânico de Anil estava começando a incomodá-lo. — Eu tenho certeza que ouvi alguma coisa — disse Anil. Mark olhou para ele. Isso estava começando a incomodá-lo, ele jamais havia visto Anil tão assustado antes. — Deve ter sido algum bicho — respondeu Mark. — Talvez uma raposa. — Eu acho que não. Parecia grande. Mark olhou para Anil. — Como assim, um cachorro solto ou um... coelho assassino? — Mark perguntou com um ar de brincadeira. Anil soltou uma gargalhada. Mark sorriu. Por volta de um minuto depois eles chegaram à parte aberta. Mark ficou extremamente aliviado. Eles estavam a cerca de 20 metros de distância do portão por onde entraram. — Acho que talvez você tivesse razão, e o barulho lá atrás fosse de um cachorro ou

coisa parecida — disse Anil, com um sorriso envergonhado. — E a cobra? Mark estremeceu. — Tão assustadora quanto o bosque. Anil franziu o rosto. — Onde está a Chrissie? — perguntou. Não havia nenhum sinal dela. Caminharam pelos limites do bosque até encontrarem o lugar onde ela havia deixado a bolsa preta. Não estava mais lá. Mark pôs as mãos nos lados na boca e gritou em direção ao bosque. — Chrissie! Silêncio. Será que ela o havia seguido através da vegetação? Ou ele teria que voltar para procurá-la? — Ei, veja só — disse Anil. Mark virou e olhou na direção para onde seu amigo estava apontando. — Quê? — A parte de cima do portão está quebrada. Mark franziu o rosto. — Ela deve ter escalado de volta para o outro lado — disse. Era a única possibilidade. Aquela parte do portão já estava relativamente solta, mas não podia ter caído sozinha, precisaria da pressão de alguém escalando para quebrar. Anil olhou para ele.

— Ela simplesmente foi embora? — comentou, incrédulo. Ele olhou para Mark. — O que houve? Ela falou alguma coisa? Mark sacudiu a cabeça. — Ela pegou a cobra — disse. — Depois o chamou. Quando ouvi os seus gritos fui atrás. Ela ficou parada. — Mas ela não disse nada? Por algum motivo, decidiu não contar a Anil sobre o beijo — ou a respeito do fato de que ela havia sugerido que o deixassem preso no bosque. — Eu não sei o que ela está aprontando — disse Mark, amargamente. — Pode perder-se que não me importo. Já me cansei dela. Eles voltaram para a casa de Mark para passar o resto da noite. Não era tão tarde quanto esperavam que fosse, e os pais de Mark ainda estavam acordados. Ele disse que tinham desistido de dormir na casa de Anil porque o Playstation, não estava funcionando muito bem. O corte na testa de Anil não passava de um pequeno arranhão. Nem precisou de curativo. Anil foi direto para o banheiro e lavou o rosto sem que os pais de Mark percebessem. Apesar de terem jogado algumas partidas, nenhum dos dois estava com muita vontade de continuar, e não demorou até

que desistissem e fossem dormir. Eles não conversaram sobre Chrissie. Mas Mark ficou deitado sem dormir durante um bom tempo. Ele se lembrou do que sua mãe havia dito: meninas são perigosas. Ele estava começando a acreditar.

Metade da manhã já havia se passado quando finalmente acordaram e desceram para a cozinha. Tinham a casa só para eles. Os pais de Mark estavam no trabalho. Mark pôs alguns pães na torradeira e serviu dois copos de suco de laranja enquanto Anil ligava o Playstation na sala. Lá ficava a televisão grande, de tela plana — bem melhor do que o aparelho no quarto de Mark. E eles podiam espalhar as almofadas do sofá pelo chão e ficar bem confortáveis enquanto jogavam. Nenhum dos dois mencionou Chrissie, apesar de Mark só pensar nela. Anil estava quieto demais, e Mark teve a impressão de que também estava pensando na menina — mas ele não disse nada, então Mark não perguntou. Foi só quando estavam comendo um pacote de salgadinhos e tomando suco de

laranja direto da caixa que Anil finalmente se pronunciou. — Eu preciso te contar uma coisa — disse. — Não ia dizer nada, mas... — sua voz foi desaparecendo. Mark soube instantaneamente que ele ia falar sobre Chrissie. — Pode falar — disse Mark. — Ontem à noite... quando Chrissie me levou para o bosque — começou Anil, sua voz estava hesitante e os olhos desviaram. — Ela me beijou. Mark sentiu uma pancada no estômago. — Na bochecha — Anil acrescentou, depressa. — Mas depois ela disse que se quisesse podia tirar a venda dos olhos. Afirmou que deixaria você com a cobra no pescoço até que entrasse em pânico — franziu o rosto. — Parecia que ela queria que perdesse — finalmente, ele olhou para Mark. — Eu falei que isso não era justo — disse. — Então ela me deixou lá com a venda nos olhos. Fez-se um longo silêncio. Mark não podia acreditar que ela havia feito os dois de bobos. — Ela fez a mesma coisa comigo — Mark disse, finalmente. — Tirou a cobra do meu pescoço, depois me deu um beijo na bochecha e disse que nós podíamos deixá-lo

no bosque durante mais tempo, se quisesse — olhou para Anil. — Disse que não. Uma expressão de raiva e choque tomou conta do rosto de Anil. — Qual é o problema dessa garota? — Ela gosta de jogos — afirmou Mark, irritado. — Estava tentando nos jogar um contra o outro. — Ela está brincando com a nossa cabeça desde o começo — disse Anil. — Na próxima vez que a encontrar, vou dizer exatamente o que penso a respeito dela. — Eu espero não encontrá-la nunca mais — disse Mark. Fez-se outra longa pausa na conversa enquanto os meninos mergulhavam em seus próprios pensamentos. — Eu gostava dela — disse Anil. Finalmente, sua voz era baixa e quieta. — Queria que não fosse desse jeito. — Eu também — disse Mark, pensando em como ela era legal. Então a campainha tocou. Mark se levantou, caminhou pelo corredor e abriu a porta. Era Chrissie. Sua camiseta dizia: Vocês riem de mim porque eu sou diferente. Eu rio de vocês porque vocês são todos iguais.

— O que você quer? — perguntou Mark, com a voz severa e amarga. Chrissie pareceu surpresa. — Eu pensei que fossem para a frente — disse. — Esperei por vocês a manhã inteira — sua voz se elevou a um tom de dúvida. — O que houve? Mark olhou para ela. — Você não sabe? Ela balançou a cabeça. — Não, eu não faço a menor ideia. O que fiz? Anil apareceu atrás dele no corredor. — Nós já cansamos dos seus jogos estúpidos. Por que você não dá o fora? — disse. Chrissie olhou boquiaberta para ele. — Vocês estão malucos? — perguntou. Ela engoliu em seco, com o rosto se enchendo de nervoso. — Eu pensei que fôssemos nos tornar amigos — disse, engasgando. — Acho que estava errada — ela se virou e foi andando pelo caminho que levava até a entrada da casa. — Espere — disse Mark. Ela parou e virou para enxergá-lo. — Por que você desapareceu daquele jeito ontem? — perguntou irritado. Ela pareceu surpresa. — O quê? — virou totalmente, franzindo o rosto. — O jogo acabara. Ambos

ganharam. Não tinha motivo nenhum para continuar ali. Eu estava cansada, então fui para casa. Por quê? Vocês acharam que eu fosse passar a noite inteira lá? — Anil se machucou. Você deve ter ouvido os gritos — disse Mark. Ela voltou lentamente pelo caminho, olhando para Anil. — Machucou-se como? — Ele caiu, e cortou a cabeça. — Mostre-me. — Não foi nada — disse Anil. — Só um cortezinho na testa — olhou para ela. — E o que foi aquilo ontem, beijar os dois e nos tentar jogar um contra o outro? Nem adianta negar! — Eu não ia negar — respondeu. — Era parte do jogo, para ver se vocês se trairiam para vencer — ela sorriu. — Nenhum dos dois traiu. Foi incrível. Eu fiquei impressionada. Mark olhou para ela, desejando que pudesse enxergar a sua mente para saber o que realmente se passava ali. Será que estava mentindo? Era muito difícil ter alguma certeza quanto a ela. Fez-se um silêncio pesado. — Posso entrar? — perguntou Chrissie. — Ou vocês dois me odeiam agora? — então ela sorriu e Mark retribuiu o sorriso, e tudo parecia estar bem outra vez.

Ele deu um passo para o lado, para deixá-la entrar. Ela olhou para Anil. — Estou perdoada? — perguntou. Ele balançou a cabeça. — Você sabe que é completamente louca, não sabe? Ela riu. — Você nem imagina — ela disse. — Nós estávamos brincando com um jogo chamado ZOMBEEZ — afirmou Anil. — Talvez você consiga descobrir por que a gente não consegue ganhar. — Tudo bem — disse Chrissie alegremente. — Como é? Anil levou Chrissie pela sala. Mark fechou a porta e foi atrás. Parecia que ia ficar tudo bem entre eles no final. Ela sentou com as pernas cruzadas sobre um monte de almofadas no chão. Estava inclinada para a frente, olhando para a tela da TV enquanto manipulava o controle do videogame. Anil estava sentado de um lado, relendo o manual de instruções do ZOMBEEZ. Mark observava Chrissie, impressionado com a intensa concentração em seus olhos prateados. O telefone tocou e Mark correu para atender. Era Stuart — um amigo da escola que adorava videogames, tanto quanto Anil e Mark.

— Você já encontrou a fase secreta do ZOMBEEZ? — perguntou Stuart. — Que fase secreta? — disse Mark. — Como se faz para descobrir a senha? Um minuto depois, ele estava na sala com Anil e Chrissie, transmitindo essas informações, quase sem fôlego, enquanto Chrissie manipulava o controle. Ela não demorou muito para desvendar o mistério. Em poucos minutos, os três estavam reunidos em frente ao monitor enquanto se revezavam para jogar o nível secreto do jogo. Chrissie assumiu o controle e conseguiu ganhar deles no final. O jogo ZOMBEEZ estava zerado, o sistema solar se encontrava a salvo novamente e acabara o jogo. Mark teve uma tarde incrível. As coisas pareciam se acertar com Chrissie, como queria que fosse. — Até que não foi tão ruim, para um videogame — falou Chrissie, deitando sobre as almofadas e se esticando. Mark e Anil estavam um de cada lado dela. — Não se compara a Quem Ousa, Ganha, é claro — acrescentou, com um sorriso. — Isso outra vez não! — exclamou Anil, rindo. — Você nunca desiste desse jogo? — Escutem — afirmou, olhando para um e depois para o outro. — Vocês dois gostam de vencer, né? Então por que a

gente não joga uma última rodada? — ela sorriu. — Vocês não querem saber qual dos dois é mais corajoso? Mark olhou desconfiado para ela. Ele sabia como era persuasiva quando queria convencê-los a fazer sua vontade, mas até que tinha razão. Ele e Anil foram longe demais com aquele jogo. Jogaram duas rodadas, e terminaram empatados. Seria bom descobrir se conseguia ou não vencer Anil. Ele olhou para o amigo. — Eu topo se você concordar — disse Mark. Anil ficou quieto de forma pensativa por um instante. Depois sorriu. — Se eu vencer, ganho seus tênis? — perguntou ele. — Desde que eu ganhe sua camisa — concordou Mark. Chrissie bateu palmas, sorrindo de orelha a orelha. — Ótimo! — disse. — Eu já pensei em desafios para vocês dois, e sei exatamente onde devemos fazer — ela se levantou com um salto. — Então, quero que me encontrem no extremo oeste da Links Road às quatro e meia da manhã. Anil olhou para ela. — Mas é no meio da noite! — ele disse. Chrissie confirmou com a cabeça.

— Tem que ser cedo senão não vai dar certo — sorriu para eles. — Vai ser tão legal! — disse. — Mal posso esperar! — ela foi em direção à porta. — Aonde você vai? — perguntou Mark, mal conseguindo acreditar que ela estava correndo outra vez. A garota olhou para ele. — Eu tenho algumas coisas para preparar — disse. — Lembrem-se, quatro e meia da manhã. Não se atrasem! — ela saiu pela porta e alguns segundos depois ouviram a porta da frente fechar. — Eu já disse uma vez — entoou Anil — e vou repetir: essa garota é maluca! Mark balançou a cabeça e sorriu. — Mas, como ela disse, pelo menos vamos descobrir qual de nós dois é mais corajoso. E é claro que sou eu. — Vai sonhando! — divertiu-se Anil. — Não importa o que ela invente, vou fazer picadinho de você! — Até parece! Eu acredito tanto nisso! — disse Mark, olhando para Anil. — Minha casa é mais perto de Links Road do que a sua. Acho que você vai ter que passar aqui de novo. Anil riu. — Suponho que sim — disse. — Espero que você tenha um bom despertador.

Foi na escuridão cinza antes do amanhecer que Anil e Mark foram encontrar Chrissie nos limites de Links Road. De vez em quando passavam alguns carros, e a luz daquela casa estranha brilhava. Mas a cidade estava muito quieta. A impressão de Mark era de que eles eram as únicas pessoas passeando pelas ruas. Chrissie estava sentada em um muro, vestindo uma jaqueta de couro grande demais para ela, apoiada nos braços, balançando as pernas, exatamente como quando a conheceram na praia. Enquanto se aproximavam, ela saltou do muro. Mark percebeu que sua camiseta preta tinha outro slogan, impresso em grandes letras brancas. Fique por perto — ainda vai piorar. — Certo — ela disse. — Nesta rodada, o vencedor leva um prêmio especial. — Que tipo de prêmio? — perguntou Anil. Chrissie retirou dois envelopes do bolso interno da jaqueta de couro. Ela deu um para cada um. Mark virou o dele. Estava selado. O de Anil parecia igual. — Aí dentro diz o que vocês receberão pela vitória e o que vão perder pela derrota

— Chrissie contou a eles. — Mas não podem abri-los enquanto eu não autorizar. — Tudo bem — disse Mark. Ele dobrou o envelope ao meio e guardou-o no bolso da calça. — Mas você ainda não disse o que teremos que fazer. — Vocês já vão descobrir — afirmou Chrissie com um sorriso. — Venham comigo. Eles foram atrás dela pela rua silenciosa. No final, Mark podia ver os grandes painéis amarelos de madeira que formavam uma barreira alta em torno da construção onde ela disse que seu pai trabalhava. Mark supôs que, não importava a intenção dela, tinha alguma coisa a ver com aquele lugar. Chrissie levou-os até dois enormes portões de madeira, fechados por uma corrente e um cadeado. Um painel havia sido moldado para não interferir com a obra que estava sendo feita no asfalto. A pessoa que cortou a madeira deixou um pequeno espaço. Chrissie se abaixou e se infiltrou. Anil hesitou olhando para o pequeno espaço. — O que foi? — perguntou Mark. — Já ouviu falar em invasão de propriedade? — indagou Anil. A cabeça de Chrissie apareceu pelo buraco.

— O que vocês estão esperando? — perguntou ela. — Estes lugares são cheios de câmeras de segurança — disse Anil. — Nós vamos ser vistos. — Duvido — afirmou Chrissie. — Confie em mim — ela olhou para Mark. — Confie em mim — repetiu. Mark olhou para ela. Será que realmente podiam confiar nela? Se quisessem jogar, eles não tinham muita escolha. Ele se agachou ao lado do buraco. A cabeça de Chrissie recuou e Mark se espremeu pelo espaço. Ele se levantou e olhou em volta. Havia materiais de construção espalhados por ali. Canos que pareciam intestinos. Vigas de aço. Sacos de areia empilhados. Pilhas e pilhas de tijolos. Betoneiras. Maquinaria pesada com braços tortos e mandíbulas dentuças que contrastavam com o céu como se fossem dinossauros dormindo. A principal área de construção era um pouco afastada dos escombros e da terra iluminados pela lua. Um molde básico de vigas formava uma rede de aço contra o céu — subindo cerca de dez metros, elevando uma torre corrugada por laterais de ferro. Mark estremeceu. Alguma coisa naquele lugar lhe dava arrepios. Ele sentiu

um toque reconfortante em sua mão. Olhou em volta. Chrissie estava a seu lado, sorrindo para ele, colocando sua mão na dele. — Vai ficar tudo bem — ela disse, com a voz macia. — Você vai ver. Sua mão soltou a dele, enquanto Anil rastejava através do buraco. — Meu pai disse que só existem quatro câmeras de segurança em todo este lugar — disse Chrissie apontando. — Acho que ninguém vai ver nada agora. A câmera mais próxima ficava fixa em um poste de madeira do lado de fora do muro. Tinha um saco plástico amarrado por cima dela. — Eles não verificam os monitores antes das sete e meia — explicou Chrissie. — Até perceberem que alguém cobriu as câmeras já teremos acabado. Ela saiu andando pela área. Mark e Anil foram atrás. Chrissie estava no meio da escuridão. Anil parou, mas Mark foi para o lado dela. Era impossível ter noção exata sob as sombras da escuridão, mas ele imaginou que a área deveria ter uns 40 metros quadrados e dez metros de profundidade. — Meu pai disse que eles vão colocar os alicerces em breve — disse Chrissie. —

Por isso precisamos fazer isso agora. Caso contrário, será tarde demais. — Mas o que exatamente nós vamos fazer? — perguntou Anil. Chrissie sorriu para ele. — Você enfrentará seu medo de altura — disse. — E Mark vai encarar de frente o pavor de espaços confinados. Anil soltou uma gargalhada. — Se você acha que eu vou subir naquelas vigas, pode desistir — afirmou. — Se cair, morro. De jeito nenhum. — Você não vai morrer — disse Chrissie com um sorriso reconfortante. — Usará uma corda de segurança — gesticulou com a mão, apontando para onde as quatro vigas se encontravam. — É lá que vai ter que ficar — salientou. Mark observou-a. Ela estava quase reluzente de tanta empolgação, totalmente envolvida pela adrenalina do jogo. Alguma coisa legal a seu respeito acontecia quando ela estava assim. Ele ficou feliz por ter concordado em jogar a última rodada. Anil olhou por um longo instante para o lugar onde as vigas se encontravam. — E o que o Mark vai ter que fazer? — perguntou. Chrissie virou e apontou para um velho baú de metal. — Ele tem que entrar ali — disse. Depois caminhou até o baú e se agachou.

Havia um fecho na frente da tampa, selado por um enorme prego enferrujado. Ela soltou o prego e abriu a tampa. O baú tinha alguns chapéus de operário, jaquetas fosforescentes e algumas ferramentas manuais. Começou a esvaziar o baú. — Mas não vou conseguir respirar — disse Mark, com uma sensação de medo cruzando seu estômago. — Eu vou resolver isso — disse Chrissie. — Você pode me ajudar? Com a ajuda de ambos, logo o baú estava vazio. Chrissie fechou a tampa. Ela pegou um cinzel pesado e um martelo. Os dois observaram enquanto Chrissie abria uma série de buracos na tampa. Ela se levantou, ofegante, por causa do esforço. — Pronto — disse. — Buracos de ar — sorriu. — Viu só? Eu pensei em tudo — ela olhou para ele. — Então? Vai encarar? Mark olhou para Anil. — Se você for eu vou — disse ao amigo. — Quem Ousa, Ganha — disse Anil, olhando para Mark com um ar desafiador. — Ou seja, eu. — Não mesmo — retrucou Mark. Ele olhou para Chrissie. — Estamos prontos — disse. — Uma última coisa — Chrissie afirmou a eles. — É importante que vocês consigam

se ver, para saber que ninguém está roubando. O baú precisa ficar no buraco — olhou para Mark. — Assim pode ver Anil e ele conseguirá avistá-lo. Certo? — Parece uma boa ideia — disse Mark. Não que achasse que Anil fosse roubar. Mas, se pudesse ver seu amigo sofrendo na viga, talvez fosse mais fácil lidar com o próprio sofrimento. Chrissie sorriu. — Então vamos começar, arrastem o baú e joguem ali. Mark agarrou uma das alças enferrujadas na lateral do baú. Anil pegou a outra. O baú. era pesado, mas dava para carregar. Eles se aproximaram do buraco e jogaram a caixa. Ela caiu do lado certo, mas num ângulo em que os cantos afiados penetraram a terra macia. Uma escada de metal levava até o buraco, presa no topo para que não caíssem. Chrissie desceu primeiro. Ela fez com que os dois amigos colocassem o baú no meio do buraco. Mark olhou em volta. Havia paredes de ferro que lembravam uma construção futurista de um de seus jogos de videogame. Chrissie vestiu sua jaqueta de couro, como se tivesse sentido um frio repentino.

— Certo — começou ela. — As regras são simples. — É um teste de resistência. Se algum dos dois não prosseguir, o jogo acaba. Se nenhum desistir, encerro a brincadeira após 15 minutos e o resultado final será o empate. — E o que acontece se empatar? — perguntou Anil. — Aí vai haver um desempate — disse Chrissie. — Vocês vão descobrir o que é se for preciso — ela levantou a tampa do baú e olhou para Mark. — Pode entrar — afirmou. Ele entrou no baú. Era apertado — mas não era impossível. Deitou-se de lado encolhendo as pernas para cima, posicionando-se sobre o ombro. Chrissie olhou para ele. — É só gritar se quiser — disse. Inclinou-se sobre ele e sussurrou. — Eu aposto que você vai ganhar. Mark olhou nos olhos dela, de repente seguro de que conseguiria. Chrissie se esticou. — Até logo! — ela disse. Ele viu seu rosto sorridente, e depois a tampa pesada de metal se fechou e tudo escureceu. Mark ouviu o barulho enquanto Chrissie fechava o baú com o prego. Mark sentiu o medo dominá-lo quando a realidade do que ele concordou em fazer se apresentou. Estava trancado no baú.

Naqueles primeiros instantes parecia que as laterais da caixa se fechavam em torno dele como um punho esmagador mortal. Mas enquanto estava deitado no metal frio, seus olhos começaram a se acostumar à escuridão. Podia ver pontos de luz acinzentados sobre ele — os buracos que Chrissie tinha aberto na tampa. Levantou-se o máximo que pôde e espiou através de um dos maiores buracos na tampa. Ele podia ver a rede de vigas bem acima: linhas negras contra um céu que estava começando a clarear com uma fria luz metálica. — Ei? — ele chamou. — Tem alguém aí? Mas ninguém respondeu. Ele tremeu, muito assustado, de repente. E se tivesse sido abandonado? Acalme-se! Eles não vão fazer isso! Ele cerrou os olhos nos confins do baú, tentando enxergar melhor o mundo lá fora. Encontrou um buraco que permitia que enxergasse o lado onde estava a escada. Ele viu que Chrissie e Anil já estavam no nível térreo. Chrissie amarrava uma corda na cintura de Anil. Estava muito longe para que pudesse ver sua expressão, mas supôs que Anil estivesse em pânico agora. Mark teve lembranças de quando eram mais novos. Anil com os olhos arregalados e

o rosto pálido com medo da roda-gigante. E de ele se assustando quando se apoiaram em uma janela no topo de um prédio comercial durante um passeio da escola. Surpreendentemente, sentiu-se calmo. Por enquanto. Os buracos de ar permitiam que se concentrasse em coisas fora do baú — elas o ajudavam a se esquecer que estava preso ali. Mas o metal era muito frio, e essa sensação ultrapassava suas roupas. Ele observou enquanto Chrissie caminhou pela viga, com os braços abertos para se equilibrar e com a ponta da corda de Anil em sua mão. Amarrou-a em torno da viga e prendeu a outra ponta na cintura de Anil. Ela chegou ao local onde as quatro vigas se encontravam. Era exatamente acima da cabeça de Mark. Ele mal conseguia enxergá-la agora. Mark podia ouvir a sua voz. — Pronto — ela disse. — Pode vir. Não olhe para baixo. Tome cuidado. Mantenha os olhos em mim. Eu não vou deixar você cair. Pode confiar. Anil subiu na viga. Mark observou enquanto seu amigo caminhava lentamente para a frente, agarrando a corda. — Muito bem — disse Chrissie, enrolando a corda em suas mãos enquanto ele se aproximava dela. — Você está indo muito bem.

— Isso é o que você pensa — Mark podia ouvir o tremor na voz de seu amigo. Agora Anil estava num cruzamento e Mark só conseguia percebê-lo como uma sombra estranha e escura contra o céu cinza. Depois ele viu Chrissie passar por Anil, de uma viga para a outra, e voltar lentamente pelo caminho que havia percorrido, segurando a corda durante o trajeto. Ela se aproximou do buraco. Sentou-se na viga, enrolando a corda. Ela olhou para o relógio. — Pronto — disse. — Está valendo! Apenas 15 minutos e isso iria acabar. Os braços e as pernas de Mark estavam começando a ficar apertados e desconfortáveis. Ele se remexia no baú, tentando se colocar em uma posição em que pudesse enxergar sem torcer o pescoço ou causar nós de tensão nos braços e nas pernas. O medo de estar no baú continuava ali, mas estava equilibrado com a vontade de vencer Anil. Ele desejou ter-se lembrado de trazer um relógio. Era difícil imaginar quanto tempo havia passado. Tentou contar os segundos, mas sempre perdia a conta — sua mente estava distraída demais para isso. O frio começava a incomodar demais, e, à medida que o tempo se arrastava, ele

percebia quão pequeno e escuro era o baú. Não podia esticar nem um pouco as pernas. Nem conseguia sentar-se, e a tampa estava muito bem fechada. A posição menos desconfortável era de lado, abraçando os joelhos. Mas nessa posição os buracos de ar ficavam muito longe. Após um curto período, começou a se sentir sufocado e tonto. Ele levantou a cabeça para perto da tampa novamente e pôs a boca em um dos buracos, respirando ar puro. Ele ouviu Chrissie chamando. — Ei, Mark? Como você está se saindo? — Nada mal! — respondeu, torcendo para parecer mais positivo do que realmente se sentia. — Que bom — disse Chrissie. — Anil? Tudo bem com você? — Na verdade, não — ele parecia realmente muito assustado lá em cima. — Vai ficar tudo bem. É só não olhar para baixo — disse Chrissie, com a voz estimuladora. — Vocês dois estão indo muito bem. Mark espiou por um dos buracos. Ele conseguia identificar a forma escura de Anil no ponto em que as quatro vigas se encontravam. Os braços das vigas estavam esticados, linhas pretas finas contra o seu

braço que agora estava cinza-prateado com o dia que nascia. Mark caiu para trás, o ombro e o cotovelo doíam por causa do esforço de se manter naquela posição desconfortável. A sensação de falta de ar voltou. Ele começou a ofegar, o coração doía no peito. Podia sentir o pânico crescer. Ele se esticou para cima outra vez, com os olhos no buraco. Com certeza uns dez minutos já deviam ter passado. Ou talvez cinco. Ele percebeu que não fazia a menor ideia. O sol já havia nascido, mas a luz clara era fria e triste. Ele precisava se distrair de alguma maneira. Esticou o braço e puxou o envelope do bolso. Ele o segurou próximo ao buraco. O que havia ali dentro? Um prêmio para o vencedor — uma perda para o derrotado. Mas o quê? — Falta pouco, meninos — disse Chrissie. — Segurem firme. Os lados do baú davam a impressão de se fechar ao seu redor — a tampa parecia descer, acabando com todo o ar, sufocandoo. E de repente ele não se importava mais em ganhar — a única coisa que queria no mundo era sair dali. Ele estava prestes a gritar quando ouviu a voz de Anil.

— Chega! Eu desisto. O Mark ganhou. Basta! Mark se esticou novamente, com os olhos no buraco. Podia ver que Anil estava sobre as mãos e os joelhos na viga, e que ele se segurava com força. Chrissie estava se inclinando para a frente, olhando para ele. — Você tem certeza? — perguntou ela. — Tenho! Tire-me daqui! Ela se levantou. Sua voz era alta e aguda enquanto gritava para ele. — Parabéns, Anil! Você é o vencedor! Mark ficou estarrecido. Anil era o vencedor? Como assim? Mas todos os pensamentos foram afastados da mente quando ele viu Chrissie pegar a corda de segurança com ambas as mãos e puxar com força. Mark viu Anil ser arrastado para a frente. Chrissie agarrou a corda com as mãos, contorcendo-se por causa do esforço, inclinando-se para trás até que a corda estivesse esticada. Ela puxou novamente, utilizando todo o seu peso desta vez. Anil estava escorregando do outro lado da viga. — Mark! — gritou Anil, aterrorizado. — Por favor, me ajuda! Mark girou por cima das costas e tentou chutar a tampa do baú com as pernas dobradas. Mas não adiantava nada. A

tampa sequer se mexeu. Ele olhou para cima, para enxergar o buraco novamente, desesperado para ajudar Anil, chutando furiosamente, mas sabendo que não havia nada que pudesse fazer. Assistiu apavorado enquanto seu amigo estava pendurado pelas mãos, diretamente acima dele. Chrissie deu um puxão final na corda e as mãos de Anil se soltaram. Anil soltou um grito. — Maaaaark! — Não! — gritou Mark. Por um segundo, viu seu amigo caindo sobre ele. Fez-se um barulho ensurdecedor quando Anil atingiu a tampa do baú. Mark gritou apavorado quando a tampa o atingiu. Uma dor penetrante surgiu em sua cabeça. Então tudo escureceu. Gradualmente, Mark percebeu duas coisas. Sua cabeça doía profundamente. E uma voz lhe chamava. Tentou mover-se, mas seus pés bateram na parede do baú. Então se recordou de onde estava e do que tinha acontecido a Anil. Foi uma queda e tanto — ele devia ter se machucado muito. A voz alegre de Chrissie falou. — Oi, Mark, você está acordado? A tampa do baú estava afundada e com uma abertura enorme no topo. A luz entrava por cima. Ele lutou para se concentrar. Viu uma larga fatia do rosto de Chrissie

enquanto ela o observava através da rachadura na tampa. — Você está bem? — ela perguntou, parecendo preocupada. — Nossa, por um instante pensei que ele o tivesse esmagado como um inseto. Mark? Você está bem? — O que aconteceu com Anil? — tossiu, distraído demais para conseguir sentir raiva ou medo. Apesar de que, no fundo de sua mente, ambas as emoções começavam a surgir. — Não se preocupe com Anil — disse Chrissie. — Eu cuido dele. Você viu o jeito que ele caiu? Uau! Foi incrível! A voz de Mark estava vazia — espantada. — Ele morreu? — mas ao dizer as palavras, foi atingido pela realidade do que havia acontecido com ele. Começou a socar a tampa do baú. — Você o matou! — gritou. — Você matou Anil! O rosto de Chrissie se aproximou da tampa, e ele podia ver que os olhos prateados olhavam para ele. — Não fique assim, Mark, foi só um jogo — ela sorriu. — Você pode abrir o envelope agora. O jogo acabou. Mark bateu na tampa com o punho. — Tire-me daqui! — gritou. O rosto de Chrissie se afastou enquanto ela se levantou.

— Não, isso eu não posso — disse. — Mas você pode conversar comigo se quiser, vou ficar aqui por um tempo. Mark socou a tampa do baú. Ela tremeu, mas continuou fechada. Ele chutou no final, seus ouvidos buzinavam com o barulho metálico do baú sendo atingido por seus sapatos. Mas as laterais não cederam um único centímetro. — Abra a tampa, Chrissie! — pediu Mark. — Estou ocupada! — respondeu. Mark socou a tampa, gastando energia com um esforço vão para abri-la, tentando forçar a abertura — mas a dor de empurrar as pontas de metal era grande demais e, quando recuou, ele viu o sangue escorrer dos cortes profundos em seus dedos. — O que você fez com Anil? — gritou. — Eu o deixei confortável — respondeu Chrissie. Mark observou por uma abertura estreita na lateral do baú. Ele viu um monte de terra fresca ali perto. Uma mão estava esticada para fora da areia. A mão de Anil. Uma gota de suor frio de terror escorreu por sua testa. Chrissie cavou o chão e uma última pá de terra cobriu a mão. Ela olhou para o baú. Estava rindo consigo mesma, como se achasse graça em

alguma piada que só ela conhecia. Mark sentiu o medo dominá-lo ao olhar para ela. — Chrissie? — chamou. — Você já abriu o envelope? — ela perguntou. — Não — Mark teve que lutar para que sua voz não saísse histérica. — Não, ainda não. Chrissie? Você pode me deixar sair, por favor? — Você deveria abrir o envelope — disse. — Ele explica tudo. — Por favor, Chrissie. Deixe-me sair. Ela foi até o baú e bateu com a pá. O barulho produzido penetrou a cabeça latejante de Mark como se fosse uma faca. — Abra o envelope, ou cale a boca! — gritou Chrissie. — Eu estou ocupada! Contorcendo-se, Mark olhou para ela. A garota estava cavando outra vez. Enquanto ele observava, ela pegou uma pá cheia de terra e voltou para o baú. Jogou a terra na lateral, bloqueando sua visão. Ele afastou a cabeça, cuspindo sujeira. Ele se sentou, tentando pensar. Chrissie era louca. Ondas de pânico percorreram seu corpo. Ele se sentiu como se estivesse vivendo um pesadelo. Ela era louca, e tinha matado seu melhor amigo. Ele ouviu o impacto de outro monte de terra atingindo o baú.

O que ela estava fazendo? Jogando terra em volta do baú — mas por quê? Ele precisava encontrar um modo de convencê-la a deixá-lo sair do baú. — Chrissie? — chamou, com a voz trêmula. — Tudo bem, eu vou abrir o envelope. Talvez, se ele fizesse isso, ela o soltasse. Ele conseguia ouvi-la jogando cada vez mais terra nos contornos do baú. Procurou o envelope. Seus dedos acabaram encontrando-o embaixo da perna. Extremamente desconfortável, conseguiu se ajeitar em uma posição em que podia segurar o envelope próximo à luz. Ele o abriu com as mãos trêmulas. Lá dentro havia dois pedaços de papel. Alguma coisa atingiu a tampa do baú. A luz diminuiu. Caiu um pouco de terra pelos buracos de cima. Chrissie estava jogando terra por cima do baú também. Outra pá cheia de terra atingiu a tampa. — Pronto — ela disse. — Agora eu preciso ir. — Chrissie? Não vá. — Eu preciso — disse. — Os operários vão chegar daqui a pouco. Eles vão jogar cimento em tudo. Eu não posso permitir que

me encontrem aqui, seja realista, Mark! — Sua voz já parecia distante. — Por favor, Chrissie! — Mark gritou desesperado. — Chrissie! Encontrou um buraco de ar que não havia sido coberto pela terra. Ele viu Chrissie subindo a escada e saindo do buraco. Ela estava sorrindo. Depois ela andou e desapareceu. Mark soltou um grito. Com os dedos trêmulos, desdobrou o primeiro pedaço de papel, segurando-o sob a luz. Era uma cópia de um artigo de jornal. Era uma notícia de algumas semanas atrás. O artigo que contava a tragédia de três adolescentes que caíram dos penhascos. Havia fotos dos três — dois meninos e uma menina. A garota tinha longos cabelos louros e olhos grandes. Ela usava uma camisa com um slogan escrito em branco. Eu estou louca. Qual é a sua desculpa? A menina estava sorrindo — e seu sorriso parecia o sol nascente. Era Chrissie. Chrissie com cabelos louros. Alguma coisa havia sido escrita na margem do artigo. Eles não encontraram o meu corpo porque eu não caí — mas Josh e Will caíram direitinho na minha brincadeira! Assim como vocês.

Horrorizado, Mark lutou para abrir o segundo pedaço de papel. Nele havia oito palavras escritas em letras maiúsculas. Oito palavras que quase fizeram o coração de Mark parar. O VENCEDOR MORRE DEPRESSA. O PERDEDOR MORRE DEVAGAR.

NÃO ACORDE O BEBÊ
— Alice! Telefone! Os dedos de Alice Buchanan pararam no teclado. Eram 19h30 e ela estava se apressando para concluir o trabalho de redação para que pudesse descer para a sala e assistir ao seu programa favorito na TV. — Quem é? — gritou. — A senhora Wilkins — berrou a mãe. — Já vou! — Alice salvou o documento e correu para a porta do quarto. A senhora Wilkins havia posto um anúncio no mural de uma loja de revistas há duas semanas: “Precisa-se de babá confiável”. Alice correu pelas escadas e pegou o fone. — Alô? — atendeu, ofegante. — É Alice. — Alô, Alice — disse a voz rouca e didática da senhora Wilkins. — Você ainda está interessada no emprego de babá? — Estou, quando a senhora quer que eu comece? — perguntou Alice, ansiosa. — Eu e o senhor Wilkins gostaríamos de sair na sexta-feira. Você consegue vir? — Sem problemas — respondeu Alice. — Você poderia chegar aqui às 19h30? — perguntou a senhora Wilkins.

— Em ponto! — respondeu Alice, procurando um papel e uma caneta para anotar o endereço dos Wilkins. — Certo, já anotei. — Até lá — disse a senhora Wilkins. — Até logo, Alice. — Até logo — Alice sorriu ao desligar o telefone. Estava muito feliz por conseguir o seu primeiro trabalho como babá. Ela finalmente conseguiria o dinheiro para comprar aqueles jeans que desejava.

O carro parou na frente da casa dos Wilkins. — A que horas eles disseram que iam voltar? — perguntou a mãe de Alice. — Onze e meia da noite. No máximo — disse Alice, olhando-se no espelho retrovisor. Ela queria causar uma boa impressão nos Wilkins. Passou os dedos por seus longos cabelos negros, ajeitando cuidadosamente a franja que caiu sobre os olhos. — E você tem certeza que eles vão levá-la para casa depois? — perguntou a mãe de Alice. — Tenho, mamãe — respondeu Alice, ansiosa. — Vai ficar tudo bem — ela deu uma piscadela para a mãe e sorriu. — E

amanhã de manhã você pode me levar para fazer compras! Alice saiu do carro e observou enquanto sua mãe se afastava. A ideia da noite que se aproximava era empolgante, mas um pouco tensa. Ela esperava que o senhor e a senhora Wilkins gostassem dela. Afinal de contas, não se conheciam pessoalmente. O único contato de Alice com o casal havia sido a conversa por telefone com a senhora Wilkins. Ela esperava que conseguisse lidar com o bebê. Alice respirou fundo e colocou os nervos no fundo de sua mente. Então se concentrou para aparecer como uma pessoa crescida e competente. A residência dos Wilkins era uma das casas de dois andares situadas na colina, atrás de largos jardins frontais. As dobradiças dos portões de madeira rangeram quando Alice entrou, e o caminho até a casa era quebrado e desigual. Ela notou que as plantas no jardim da frente eram um pouco malcuidadas, e os arbustos, cheios de ervas daninhas. A casa em si tinha dois andares, e uma pequena janela cuja moldura precisava ser pintada novamente. Uma luz amarelada nem um pouco convidativa brilhava através da janela do segundo andar até o jardim do lado de fora. A varanda da frente estava

apagada. À primeira vista, parecia um lugar triste e abandonado. Alice subiu os degraus até a porta da frente e tocou a campainha. O som produzido era forte e eletrônico. Após um instante a porta abriu. Um homem alto e magro com óculos grossos foi quem atendeu — Alice concluiu que deveria tratar-se do senhor Wilkins. Ele tinha cabelos curtos e penteados para trás com gel. Seu rosto era longo e fino, e tinha os ombros curvados. Ela imaginou que devia ter uns 35 anos. Possuía uma marca de nascença na bochecha direita, do tamanho de uma moeda de dez centavos. Alice fez o que pôde para não encarar. — Bem na hora! — ele disse, sorrindo. — Entre, por favor — abaixou a voz ao entrar na casa. — A senhora Wilkins está colocando o Ralphie para dormir — disse, pondo o dedo sobre os lábios. A porta se fechou atrás de Alice, surpreendendo-a. Ela nem percebeu que o senhor Wilkins havia encostado. Em seguida Alice notou um cheiro estranho e mofado no corredor, como se a casa precisasse tomar um pouco de ar. Ela tentou não contrair o nariz em sinal de repulsa. O papel de parede era escuro e antiquado, e a entrada da casa era

iluminada por uma luminária que precisava ser limpa para eliminar as teias de aranha. — Por favor, vá na frente — disse o senhor Wilkins, esfregando as mãos e indicando o caminho com um aceno de cabeça. Alice abriu a porta e adentrou a sala. O senhor Wilkins entrou deslizando silenciosamente atrás dela. Uma estranha música orquestral tocava no rádio antiquado de madeira em uma prateleira no canto. Alice analisou a sala com surpresa. Era decorada em estilo retro, com móveis antigos e papel de parede floral. Mesmo as fotos na parede e os ornamentos na lareira se encaixavam perfeitamente ali. Parecia com as fotos dos anos 1950 que ela via nos álbuns da avó. — A senhora Wilkins já vai descer — disse o senhor Wilkins. — Os dentes de Ralphie estão nascendo — continuou. — Às vezes, ele fica enjoado e mal-humorado por isso. Nessas ocasiões é muito difícil colocá-lo para dormir — levantou o dedo, a cabeça se inclinou como se estivesse tentando ouvir alguma coisa, e os olhos se voltaram para cima por trás das grossas lentes dos óculos. — Ouça. Alice ouviu por alguns segundos. — Eu não estou ouvindo nada — ela respondeu.

O senhor Wilkins fez um sinal positivo com a cabeça, sorrindo e esfregando as mãos alegremente outra vez. — Acho que ele finalmente dormiu. A senhora Wilkins vai descer logo. O senhor Wilkins foi até o rádio e se inclinou para a frente, para ouvir mais de perto. Cantarolou por um instante e fez alguns movimentos com o braço, como se estivesse conduzindo uma orquestra. Ele sorriu. — Você gosta de música, Alice? Ela fez que sim com a cabeça, decidindo que não seria boa ideia lhe dizer o que achava daquele tipo de música. — Todo mundo gosta de música — disse uma voz que fez com que Alice desse um pulo. A senhora Wilkins havia entrado na sala sem fazer nenhum barulho, e estava em pé ao seu lado. Era quase da altura do marido, e talvez até mais magra, com as bochechas ocas e olhos penetrantes. Ela estava usando um vestido de flores e um casaco amarelo, e seus cabelos escuros estavam firmes com laquê. — Alice, é um prazer conhecê-la — disse a senhora Wilkins. — Eu espero que o senhor Wilkins a tenha deixado à vontade. Nós gostamos muito de receber visitas em casa.

— Sim, muito obrigada — afirmou Alice, tentando se acalmar após o choque da aparição repentina da senhora Wilkins. — Essa sala é incrível! — disse, esperando parecer calma e capaz. — Vocês devem ter levado um tempão para conseguir todas essas coisas. — Desculpe, Alice, como assim? — perguntou a senhora Wilkins, franzindo o rosto. — Essa decoração dos anos 1950 — respondeu Alice, nervosa. — É bem... diferente. O senhor e a senhora Wilkins olharam intrigados para ela. — Desculpe, Alice, não entendi — disse o senhor Wilkins. — Oh, desculpe. Não tem importância — afirmou Alice. Ela sentiu uma manifestação de constrangimento enrubescer seu rosto. Então a aparência “retro” não era uma decoração diferente; mas o jeito que a sala era mesmo. Foi quando Alice percebeu que o senhor e a senhora Wilkins tinham investido completamente no estilo retro. Não apenas os móveis e a decoração eram de outro tempo — as roupas, os cabelos, tudo a respeito deles era característico de 50 anos atrás.

Muito bem, Alice, ela pensou consigo mesma. Continue assim, e você vai ser demitida antes de começar. — O bebê está dormindo? — perguntou o senhor Wilkins à esposa. Ela sorriu. — Como um anjo. — O que faço se ele acordar? — perguntou Alice. — Tem alguma mamadeira ou devo dar umas voltas com ele? — Ah, ele não vai acordar — respondeu a senhora Wilkins. — Não dará um pio, desde que não faça nenhum barulho — franziu o rosto. — Você não vai fazer barulho, vai, Alice? — Nenhum barulhinho — respondeu. — Vou ficar aqui quieta, assistindo à televisão, com o volume bem baixinho — olhou ao redor da sala, procurando a TV. — Sinto muito, mas não temos televisor — disse o senhor Wilkins. — A radiotelegrafia oferece todo o entretenimento de que precisamos. Alice olhou para ele. A o quê? Ele estava olhando para o velho rádio. — Ah — ela disse. — Tudo bem. Não tem problema. Vou ficar ouvindo o... bem... rádio, então — o estranho casal estava começando a ser registrado pelo detector de esquisitices de Alice. Radiotelegrafia? Quem usa palavras como radiotelegrafia?

A senhora Wilkins apontou para uma porta. — Ali temos jogos, quebra-cabeças e revista, se você ficar entediada — ela disse. — Eu vou ficar bem — respondeu Alice, forçando um sorriso, e desejando ter levado seu aparelho de mp3 ou um livro. — Bem, querida — disse o senhor Wilkins para sua esposa, puxando as mangas do paletó e olhando para o relógio. — Está na hora de irmos. — Vocês vão a algum lugar especial? — perguntou Alice. — Estaremos de volta às 23h30 — afirmou a senhora Wilkins, parecendo não tê-la escutado. — Tudo bem — disse Alice. — Mas ainda não sei o que fazer se Ralphie acordar — ela sentiu um frio na barriga. — Ele não vai acordar — retrucou a senhora Wilkins. — Basta você ficar quietinha aqui embaixo — olhou para Alice. — Bem, isso é muito importante. Não pode subir de jeito nenhum. Ralphie tem o sono muito leve, e qualquer barulhinho faz com que ele acorde. — Mas... e se acordar sozinho? — insistiu Alice, preocupada com o aviso. — E se ele começar a chorar? — Ele não vai — repetiu a senhora Wilkins. Ela apontou para uma enorme babá

eletrônica que estava na estante. — Vamos ouvir. Alice ouviu. Ela escutou o barulho leve e pacífico através do aparelho. — Tudo bem, então — ela disse, sentindo-se derrotada. — Voltaremos às 23h30 — reiterou a senhora Wilkins. — A cozinha é no final do corredor. Prepare alguma coisa para você comer. Tem pão e queijo se ficar com fome. — Ótimo, obrigada — pão e queijo! Ela pensou. Nossa! — O número do lugar para onde vamos está ao lado do telefone, caso precise falar conosco — disse o senhor Wilkins. Eles foram até o corredor e pararam por um instante. Havia um cabide de casacos na parede, e Alice esperou para que os Wilkins vestissem os casacos. Mas eles não se mexeram. Depois de um longo tempo, o senhor Wilkins falou. — A porta da frente, Alice — ele disse, apontando para a entrada. — Por favor. Ela lhe lançou um olhar confuso. — Oh, certo. É claro — foi até a porta e abriu. Ela concluiu que eram daqueles tipos de pessoas que acham que a boa educação manda os mais jovens abrirem e fecharem as portas para eles.

Os Wilkins passaram por ela, de braços dados, e caminharam pelo jardim. No portão a senhora Wilkins virou e acenou. Alice retribuiu o aceno, e em seguida fechou a porta. Eles tinham ido embora. Alice encheu as bochechas e respirou aliviada. Mas como são estranhos, pensou. Ela olhou para o corredor mal-iluminado. A casa não parecia mais tão fria agora que estava sozinha. Alice ouviu atentamente. Não havia nenhum barulho lá em cima. Ela subiu os primeiros três ou quatro degraus e escutou novamente, com a cabeça no corrimão. A casa estava absolutamente silenciosa. Alice voltou para a sala. Ela pegou a bolsa e catou o telefone celular. Havia prometido ligar para Emily, sua melhor amiga, para contar como estavam as coisas. Tinha que lhe contar sobre esse lugar — e sobre essas pessoas inacreditáveis! Isso é viver em seu próprio mundo! Alice desligou aquela música horrorosa do rádio e apertou os botões de discagem rápida no celular e depois o botão verde de chamada. Ela pôs o telefone no ouvido, mas não ouviu nenhum barulho. Com o rosto franzido, tentou novamente, mas o telefone estava apagado.

— Ah, ótimo — suspirou Alice. — Eu esqueci de carregar a bateria. Isso é simplesmente perfeito — olhou para o telefone da casa. — Tenho certeza de que eles não vão se incomodar com uma ligação rápida — ela disse para si mesma. — É só dar o número daqui pra Emily que ela retorna a ligação. Ela levantou o fone pesado e colocou na orelha. O barulho era estranho e diferente, não era como o tom de discagem normal. Alice mexeu no disco de plástico algumas vezes. O barulho vinha e voltava — mas nada de tom de discagem. Ela olhou para o pedacinho de papel que estava ao lado do telefone. Havia umas coisas um pouco apagadas escritas nele e três letras, em maiúsculas — e depois quatro números. E o pedaço de papel era desbotado e enrolado. Dava a impressão de ser muito velho, e a tinta parecia apagada. Alice franziu o rosto. O senhor Wilkins dissera que eles tinham deixado um número de telefone para ela — mas não podia ser esse, certamente... Confusa, olhou novamente para o telefone. Ao lado dos buracos havia tanto letras quanto números. O 1 tinha ABC escrito ao lado, o 2 tinha DEF... e assim por diante por todo o círculo. O aparelho em si era muito pesado e

antiquado, e parecia se encaixar muito bem com o resto da casa. — Não que faça alguma diferença — murmurou para si mesma. — Moderno ou retro, esta porcaria está quebrada! — então parou. E se os Wilkins pensassem que ela havia quebrado o telefone? Talvez fosse uma antiguidade! Alice correu para o hall de entrada. Tinha que tentar alcançar os Wilkins antes que saíssem — Precisava avisar que o telefone não estava funcionando. Ela abriu a porta e foi até a varanda. Na escuridão da noite, as lâmpadas permitiam que enxergasse toda a extensão. Os Wilkins não estavam em lugar nenhum. — Ótimo! — resmungou Alice. Começava a ventar e esfriava. A noite estava caindo sobre as árvores e sobre as portas antigas. Ela tremeu, pensando no que deveria fazer. Não entre em pânico, pensou, isso não é nenhuma catástrofe. Ela virou de costas e voltou para a casa, fechando a porta cuidadosamente. Olhou para o relógio. Oito horas. Desde que Ralphie continuasse dormindo durante as próximas três horas e meia, não teria problemas. Mas ela estava com um pensamento perturbador no fundo da mente.

E se ele não continuasse dormindo? Certamente tinha que haver uma mamadeira ou alguma coisa na cozinha — algo que pudesse dar-lhe caso acontecesse alguma emergência e ele começasse a berrar. Ela caminhou pelo corredor, ao lado da escada. — Eu não acredito nisso — suspirou Alice, ao entrar na cozinha. Se é que era possível, tinha cara de mais antiga do que a sala. Havia um enorme armário escuro de madeira com prateleiras que guardavam pratos, e uma pia antiga de porcelana no canto, sob uma coisa que ela reconheceu ser um antigo aquecedor de água cor de cobre. A geladeira era minúscula. Não viu uma máquina de lavar, ou uma lava-louças, ou um forno de micro-ondas. Era como um museu estranho. A esquisitice da casa começou a intrigá-la. — Eles devem dar alguma coisa normal para o bebê — disse para si mesma. Ela achou algumas coisas em um armário embaixo de uma bancada de madeira. Havia um pacote de biscoitos. Alice o pegou. Ao abri-lo, foi surpreendida por um cheiro desagradável. Os biscoitos estavam verdes de mofo.

Alice pôs o pacote no lixo ao lado da porta e foi até a geladeira. Ela teve que forçar para conseguir abrir. O que viu foi uma selva de comida velha e mofada. — Que coisa mais nojenta! — disse em voz alta, tapando o nariz enquanto examinava o leite coalhado, o queijo verde e o presunto que parecia um papel. Os legumes na parte de baixo mal podiam ser reconhecidos. Ao fechar a geladeira ela olhou para a cesta dos pães, só para ver um pão de forma inteiro, mais duro que um tijolo. Alice deu de ombros, decidindo que não faria nenhum sanduíche. Ela havia se imaginado com uma geladeira cheia para passar a noite. A falta de qualquer coisa decente — ou de algo que não fosse mofado ou nojento — para comer era inacreditável! Qual era o problema dessas pessoas? — O que eles dão para Ralphie? — Alice pensou em voz alta. — Ele deve comer alguma coisa — ela abriu mais armários, e não havia nenhum sinal de comida de bebê. Sentiu um desconforto subir pela espinha. Talvez os Wilkins guardassem as coisas de Ralphie lá em cima? Ainda imaginando, ela voltou para a sala. Precisava arrumar alguma coisa para passar o tempo até as 23h30, para esquecer o quanto a noite estava estranha.

Ela ligou o rádio. Alguns segundos depois, mais música orquestral detestável soou através da caixa de som. — Não, obrigada — disse, girando o botão. Fez-se um barulho estranho, como se alguma coisa estivesse arranhando, mas não conseguiu encontrar mais nenhuma estação. Tentou voltar para a primeira emissora, mas esta também parecia ter desaparecido. Ela ouviu o barulho eletrônico irritante por mais alguns segundos e depois desligou o aparelho. Foi até a janela e abriu o canto da cortina. Sem TV, sem computador, sem rádio que pudesse escutar, sem telefone que funcionasse, sem aparelho de som, sem comida — nada. A residência dos Wilkins fazia Alice se lembrar de casas em exposição — não parecia haver nada que funcionasse. Alice foi até o armário e abriu a porta. Havia duas prateleiras — a de cima estava cheia de jornais e revistas; a de baixo, repleta de jogos em caixas velhas e desbotadas. Ela pegou os jogos e os examinou. Banco Imobiliário. Ludo. Xadrez. Cobras e Escadas. Uma coisa chamada Turfe, da qual jamais ouvira falar, mas que parecia envolver corridas de cavalo. Também encontrou alguns quebra-cabeças e um jogo

de baralho. Nas sombras do fundo da prateleira, notou um livro guardado entre outras coisas. Era de capa dura, com acabamento de couro. Na capa, com letras douradas, estava o título: Memórias felizes. Era um álbum de fotografias. Intrigada, Alice abriu o livro. As primeiras fotos pareciam antigas; retratavam pessoas com roupas esquisitas, que viviam em um mundo estranho e monocromático. Ela virou as páginas cuidadosamente. Encontrou algumas fotos de bebê em uma manta. Na página seguinte havia diversos retratos de uma criança com um bebê. Havia uma legenda escrita em caligrafia antiga sob uma das fotos: “Nossos Dois Pequenos Tesouros — Ralphie e Barbara. Maio, 1931”. Dois pequenos tesouros? Irmãos, pensou Alice. Havia fotos de outras pessoas e diversos lugares — de feriados e ocasiões especiais. Ela encontrou algumas fotos natalinas. Uma delas mostrava uma árvore decorada, e fitas de papel e balões — e duas crianças sentadas em meio a monte de papéis de embrulho. O menino parecia ter uns 4 anos de idade, e segurava um trenzinho. Alice virou a página. Viu a foto do garoto trajando um uniforme escolar. Ele tinha cerca de 11 anos de idade, segundo supôs, e usava uns óculos estranhos. Então

Alice notou uma coisa que fez seu sangue gelar. Primeiro, achou que fosse mancha de caneta em uma velha foto, mas, ao ver mais de perto, percebeu que não era. Tratava-se de marca de nascença que parecia uma moeda. Era a mesma que havia visto na bochecha do senhor Wilkins! O menino tinha que ser o senhor Wilkins. Mas não podia ser. Alice virou as páginas, assustando-se ao perceber que o menino tinha a marca de nascença em todas as fotos — só que elas eram tão velhas e sujas que não havia percebido nada antes. Mas não pode ser ele, pensou. Essas fotos são muito antigas! Ela voltou para a primeira página, onde havia a foto da criança e do bebê, e a legenda “Nossos Dois Pequenos Tesouros — Ralph e Barbara. Maio, 1931”. 1931? Ou a data estava errada, ou o senhor Wilkins tinha mais de 70 anos, e ele não parecia nem perto disso! A sensação de desconforto que sentiu na cozinha voltou. Alice tentou racionalizar o que tinha visto, mas não conseguia deixar de se sentir cada vez mais assustada. Ela se levantou, e o álbum de fotos caiu no chão. Precisava achar um telefone e ligar para casa. Ao correr pela entrada, Alice ouviu a babá eletrônica voltar à vida na sala.

Ela parou, ouvindo os choros soluçantes. Ralphie estava acordado. Tudo o que Alice queria era sair, de lá o quanto antes — mas não podia abandonar um bebê chorando. Ela não podia. — Volte a dormir! — disse, ofegante, olhando para o andar de cima. — Não faça isso comigo! Por favor, Ralphie, volte a dormir! Mas o choro não parou. Tornou-se mais alto, mais insistente e mais contínuo. Alice correu e pegou o telefone, rezando para que estivesse funcionando. O mesmo barulho inútil era produzido pelo fone. Agitada, verificou o celular outra vez. Continuava desligado. Ela começou a ser dominada pelo pânico. O que deveria fazer? O choro de Ralphie estava tão alto que mal conseguia pensar. Os gritos penetrantes pareciam estar invadindo a sua mente, confundindo os pensamentos. Alice tomou uma decisão. Ela ia subir e buscá-lo — depois sairia da casa com o bebê no colo e iria até o vizinho pedir ajuda. Ela respirou fundo e correu para o andar de cima através da escuridão. O choro vinha de uma porta no final do corredor. Alice fez o percurso depressa e, através das sombras, conseguiu identificar

um banheiro à sua esquerda. Um horror, com um cheiro extremamente desagradável saindo de lá. Alice alcançou a porta de onde vinha o barulho. — Tudo bem, Ralphie, já estou chegando — anunciou. Um ar frio e seco atingiu o seu rosto enquanto abria a porta do quarto escuro. Naquele instante seu medo foi ofuscado pelo choque de ver as condições em que Ralphie era mantido. Como podiam deixar um bebê dormir em um quarto frio como esse? Alice procurou um interruptor, e de repente o cômodo foi tomado por uma luz amarelada. O quarto era vazio, e não tinha carpete, nada além de um grande berço de madeira no meio do chão, exatamente embaixo da lâmpada. Alice entrou. Ralphie já estava berrando a essa altura, seus gritos faziam com que ela se encolhesse enquanto caminhava em direção ao berço. A porta se fechou atrás, as dobradiças enferrujadas produziram um som que parecia o de unhas arranhando um quadro-negro. — Não chore, Ralphie! — ela disse, sua voz estava um pouco trêmula. — A Alice está aqui. Não chore. Bom menino. Então ela viu uma coisa saindo do berço. Era um fio. Alice seguiu o fio com os olhos pelo chão, até uma tomada.

Que pais colocariam um artefato elétrico num bebê? Pensou Alice. Para que seria? Ela se inclinou sobre o berço. Ralphie estava embrulhado nas cobertas — ela só conseguia ver os cabelos, ralos e castanhos. O choro aumentava cada vez mais, e Alice começou a se sentir extremamente assustada. Ralphie não se mexia, e ela sabia que alguma coisa estava muito errada. Ela esticou a mão para acariciar sua cabeça. Mas o que tocou era macio e esponjoso. Alice recolheu o braço, alarmada, chocada pela sensação nada humana da cabeça do neném. Com a mão tremendo, ela esticou o braço para dentro do berço novamente, para tirar a coberta. A cabeça caiu para o lado e rolou para fora do travesseiro. O coração de Alice batia forte em suas costelas. Ela ficou ali parada, sem conseguir se mexer, mal conseguindo respirar. O suor começou a fazer com que o cabelo grudasse em suas têmporas. Em seguida, por um instante, ficou aliviada. Ela viu que se tratava apenas da cabeça de uma velha boneca de plástico — e não de um bebê. Ela devolveu as cobertas e ficou olhando, incrédula.

As cobertas protegiam uma espécie de máquina. Alice olhou mais de perto, e percebeu que se tratava de um antigo gravador. Um rolo de fitas passava de um lado para o outro. O choro vinha de um velho alto-falante de metal no topo da máquina. Não havia nenhum bebê. Chocada e estarrecida, Alice pôs a mão no berço e apertou o botão stop. O choro parou subitamente, mas Alice achou o silêncio mais aterrorizante do que qualquer outra coisa. Onde estava Ralphie? Será que existia um Ralphie? Ela tentou aceitar o que havia acabado de descobrir. Tinha sido contratada pelos Wilkins para cuidar de um bebê que sequer existia. De repente, o estranho casal não era apenas excêntrico. Alice teve a terrível sensação de que era muito pior do que isso. Um vento gelado atingiu-a por trás, fazendo com que sentisse calafrios na nuca e nos braços. Ela girou e viu a senhora Wilkins deslizar pela porta aberta. Alice gritou. Os pés da senhora Wilkins flutuavam logo acima do chão. — Oh, Alice — disse a senhora Wilkins. — Nós a avisamos que não podia subir aqui. Alertamos que estava proibida de acordar o bebê. Vocês jovens nunca dão ouvidos. Nós

só queríamos companhia, um pouco de vida nesta velha casa, e agora você estragou tudo. A senhora Wilkins ergueu o braço, com a mão esticando como se fosse uma garra em direção a Alice. — Não encoste em mim! — gritou Alice, afastando-se para o lado, escapando da garra da senhora Wilkins por uma leve fração. Desesperadamente, correu pelo corredor, com o coração na boca e o cérebro rodando. O senhor Wilkins estava sentado no topo da escada, bloqueando o caminho. Um sorriso se alargou em seu rosto enquanto assinalava para ela com seu longo dedo. Alice se atirou contra uma porta fechada naquele andar. Por favor, esteja destrancada! A porta se abriu com o barulho das antigas dobradiças, e ela passou correndo, batendo a porta logo atrás. Imediatamente, engasgou e não conseguiu esperar. O ar no quarto era dominado por um cheiro horrível e nauseante. Alice procurou um interruptor. — Não... — ela começou quando a velha lâmpada iluminou a cena diante de seus olhos. Era um quarto cheio de móveis antigos. Mas foi a cama que chamou sua

atenção. Ela levou a mão à boca enquanto engasgava em sinal de repulsa, todo o seu corpo tremeu ao avistar a cena. Deitados lado a lado estavam dois esqueletos, seus ossos branco-acinzentados eram cobertos por pedaços e tiras de roupas apodrecidas. Milhares de gritos soaram na sua mente quando percebeu o que estava vendo. Os panos decadentes eram as mesmas roupas que o senhor e a senhora Wilkins vestiam. Naquele instante, ela sentiu um arrepio tomar conta de todo o corpo. Sob aquela luz, assistiu horrorizada enquanto o senhor e a senhora Wilkins passaram através da porta fechada e entraram no quarto. Alice caiu para trás — seu corpo e seus sentidos estavam dormentes de pavor. Ela gritou com todas as suas forças. O senhor Wilkins levou o dedo aos seus lábios sorridentes. — Shhhhh! — sussurrou. — Não acorde o bebê.

Digitalização: villie Revisão: Yuna