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Humanidades em Foco: Revista de Ciência, Educação e Cultura Page 1 of 4

  

Ano 4 - Nº 7 - Ago/Set/Out de 2006


ISSN 1807-9032 Humanidades - Revista de Ciência, Educação e Cultura
 

Seções Autor
Cultura e Arte
*Nildo Viana é sociólogo,
doutor em sociologia/UNB;
professor da UEG -
Reflexões sobre a Música Popular Brasileira Universidade Estadual de
Goiás
Nildo Viana*
Contato
 

A definição do que é MPB é bastante complexa e depende do


ponto de vista teórico-metodológico de quem a faz, do ponto
de vista do pensamento complexo, ou dos valores e
concepções, do ponto de vista das representações cotidianas.
A MPB não constitui um "gênero musical", tal como o samba,
o jazz, o frevo, etc. Por isso, a MPB é um conjunto de
manifestações musicais (incluindo gêneros ou mesmo mistura
de gêneros) que convencionalmente passou a ser classificada
como tal. Esse processo classificatório é de origem social e os
meios de comunicação de massas, os críticos musicais, os
produtores, as gravadoras, etc., são os principais agentes
deste processo classificador.
A partir desta classificação social podemos definir a MPB, pois
se ela é produto de uma classificação social, então é a partir
disto que podemos entender o que vem a ser MPB. É claro que
a classificação social é re-classificada, principalmente por
indivíduos, mas as idiopatias não são critério para uma
definição de algo abrangente como a música popular
brasileira. Assim, discordamos das definições daqueles que
definem MPB pelo que querem que seja a MPB e não pelo que
ela é efetivamente. Efetivamente, a MPB é um produto de
uma classificação social que se solidificou, tornando-se um
fenômeno social existente de fato a partir dos parâmetros
classificatórios instituídos socialmente.
A Música Popular Brasileira é o conjunto das manifestações
musicais que não são folclóricas (de autores desconhecidos e
repassados oralmente de geração a geração) e nem erudita
(ou clássica) e que é brasileira, isto é, produzida por
compositores/cantores brasileiros, em língua portuguesa, e
que possui abrangência em território nacional, não sendo,
pois, puramente regional (de apenas uma região), embora
possa ter origem regional. A expressão “popular” é utilizada
não no sentido do público em geral, mas no sentido de que
possui ressonância em um determinado público, geralmente o
das camadas mais intelectualizadas da população. Isto
significa que a Música Popular Brasileira é toda e qualquer
música que possui abrangência nacional e produzida por
brasileiros em língua portuguesa e que possui um público
intelectualizado e pertencente prioritariamente às classes
sociais privilegiadas. Assim, ela inclui um conjunto de gêneros,
tal como samba, frevo, rock, bossa-nova, etc.
Assim, podemos perceber que a MPB é uma manifestação
musical que tem sua fonte nas relações sociais, na emergência
da reprodutibilidade técnica da música e do nascimento da
indústria cultural, bem como de classes sociais que se
tornaram o público destas produções. A indústria cultural,
desde o seu nascimento, embora passe de uma forma
rudimentar para uma complexa, sempre constituiu uma
divisão social no mercado consumidor, isto é, cria faixas de
consumidores para determinadas mercadorias, inclusive as
mercadorias culturais. Assim, a MPB se distingue de outras
manifestações musicais, tanto estrangeiras quanto brasileiras.
A distinção em relação à música estrangeira se encontra no
fato de que esta é produzida por pessoas de outra
nacionalidade que não a brasileira e em língua que não a
portuguesa. A distinção entre a MPB e outras manifestações

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portuguesa. A distinção entre a MPB e outras manifestações


musicais brasileiras já é mais complexa, pois ela se distingue
da música regional (ou “folclórica”) por possuir abrangência
nacional, e da música popular regional (que é a música
regional que consegue espaço na indústria cultural em
determinada região, que não são, evidentemente, as nas
quais se concentram a indústria cultural) por sua abrangência
superior. Também se distingue da música nacional, que é toda
música produzida em território nacional. Neste caso tem a
distinção com a chamada “música brega”, que é uma música
comercial temporária produzida para o público composto pelas
classes sociais mais pobres e que tem como característica a
baixa qualidade, no sentido técnico e também no sentido
político, nas letras e melodias.
Sendo assim, não tem muito sentido alguém apresentar uma
“convicção pessoal” do que é a MPB, já que é um fenômeno
social. A visão pessoal de um fenômeno social acaba sendo
arbitrária ao desconhecer este caráter social. Daí a
irrelevância das definições idiopáticas da MPB.
Outra coisa é a avaliação da MPB, isto é, a visão pessoal sobre
a “qualidade”, o que é boa e má MPB. Sem dúvida, muitos
podem considerar que boa MPB é a bossa nova, outros o
samba, ou, ainda, o Rock brasileiro. O gosto é produzido
socialmente, tal como coloca Bourdieu (1) e está relacionado
com o processo de formação social dos indivíduos, incluindo
sua classe social.
Os critérios de qualidade variam de acordo com os valores dos
indivíduos e por isso não cabe aqui discutir a avaliação da
MPB, a não ser a avaliação da MPB como um todo. Para
muitos, a MPB ainda é um fetiche, principalmente para
aqueles que possuem posições elitistas, tal como se pode ver
no último Festival da TV Cultura (2). Isto está presente até
mesmo nos cantores e compositores que povoam os festivais
de MPB e fazem canções para criticar aquilo que eles
consideram com não sendo da MPB ou que, segundo eles,
pode até fazer parte dela mas não possui qualidade. Desde
Rita Lee (veja letras abaixo) passando por Alceu Valença em
festival da década de 80 criticando o Rock Brasileiro, até
chegar ao último festival da TV Cultura, onde o Rock e a
música brega foram atacados, passando por Eduardo Dusek e
suas críticas à música sertaneja e brega em geral nos anos
80. Rita Lee pode ser considerada a iniciadora deste processo:

ARROMBOU A FESTA
Rita Lee e Paulo Coelho
Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu
Com a música popular brasileira?
Todos falam sério, todos eles levam a sério
Mas esse sério me parece brincadeira
Benito lá de Paula com o amigo Charlie Brown
Revive em nosso tempo o velho e chato Simonal
Martinho vem da Vila lá do fundo do quintal
Tornando diferente aquela coisa sempre igual
Um tal de Raul Seixas vem de disco voador
E Gil vai refazendo seu xodó com muito amor
Dez anos e Roberto não mudou de profissão
Na festa de arromba ainda está com seu carrão
Parei pra pesquisar
Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu
Com a música popular brasileira?
Todos falam sério, todos eles levam a sério
Mas esse sério me parece brincadeira
O Odair José é o terror das empregadas
Distribuindo beijos, arranjando namoradas
Até o Chico Anísio já bateu pra tu batê
Pois faturar em música é mais fácil que em TV
Celly Campello quase foi parar na rua
Pois esperavam dela mais que um banho de lua
E o mano Caetano tá pra lá do Teerã
De olho no sucesso da boutique da irmã
Bilú, bilú, fafá, faró, faró, tetéia
Severina e o filho da véia
A música popular brasileira
A música popular
Sou a garota papo firme que o Roberto falou
Da música popular

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Da música popular
O tico-tico nu, o tico-tico cu, o tico-tico pá rá rá rá
Música popular
Olha que coisa mais linda, mais cheia de...
Música popular
Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero a música popular brasilera
Pega, mata e come!

ARROMBOU A FESTA II
Rita Lee e Paulo Coelho
Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu
Com a música popular brasileira?
Quando a gente fala mal, a turma toda cai de pau
Dizendo que esse papo é besteira
Na onda discoteque da América do Sul
Lenilda é Miss Lene, Zuleide é Lady Zu
Pra defender o samba contrataram Alcione
É boa de piston mas bota a boca no trombone
No meio disso tudo a Fafá vem dar um jeito
Além de muita voz, ela também tem muito peito
E a música parece brincadeira de garoto
Pois quando ligo o rádio ouço até Cauby Peixoto
Cantando: "Conceição!"
Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu
Com a música popular brasileira?
Quando a gente fala mal, a turma toda cai de pau
Dizendo que esse papo é besteira
O Sidney Magal rebola mais que o Matogrosso
Cigano de araque, fabricado até o pescoço
E o Chico na piscina grita logo pro garçon
Afasta esse cálice e me traz Moët Chandon
Com tanto brasileiro por aí metido a bamba
Sucesso no estrangeiro ainda é Carmen Miranda
E a Rita Lee parece que não vai sair mais dessa
Pois pra fazer sucesso arrombou de novo a festa
Ziri, ziriguidum, skindô, skindô, lelê
Sai da frente que eu quero é comer
A música popular brasileira
Lady Laura
A música popular
Parabéns a você, parabéns para a...
Música popular
Música popular
Oh, eu te amo, oh, eu te amo, meu amor
Ai Sandra Rosa Madalena
O meu sangue ferve pela...
Música popular
Oh, fricote, eu fiz xixi
Fricote, eu fiz xixi
Na música popular brasileira
Corre que lá vem os "hôme"!

A Música Popular Brasileira passou por diversas fases, com


altos e baixos. A atualidade da MPB é de decadência. A crítica
de Rita Lee é ao momento dos anos 70, época de música
brega e crise da MPB, que só se recuperou nos anos 80 com a
emergência do rock crítico da segunda metade desta década,
e cai novamente em desgraça dos anos 90 para cá (3). A
explicação deste processo nos remete às transformações
sociais e o contexto histórico. A tendência é de decadência
progressiva da MPB e das manifestações musicais em geral,
pois o desenvolvimento tecnológico é acompanhado pela
queda na criatividade, ou seja, as potencialidades técnicas se
tornam mais amplas ao lado de uma redução da capacidade
humana de utilizá-las. Não é sem motivo que o cinema mudo
com os recursos limitados produziu obras clássicas e de alta
qualidade, enquanto que hoje, com todos os recursos
tecnológicos existentes, existe uma completa pobreza da
produção cinematográfica (sem esquecer as exceções, é
claro). O desenvolvimento tecnológico tem sua fonte na
necessidade da reprodução ampliada do capital e permite a
reprodutibilidade técnica em alta escala, tal como colocou
Walter Benjamin (4). A perda da criatividade também tem
fonte social: a necessidade de reprodução ampliada do

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fonte social: a necessidade de reprodução ampliada do


mercado consumidor e a produção em massa de mercadorias
culturais são os elementos fundamentais.

Notas
1- Bourdieu, P. Gostos de Classe e Estilos de Vida. In: Ortiz,
R. (org.). Pierre Boudieu. 2ª edição, São Paulo, Ática, 1994.
2- Viana, Nildo. O Festival de MPB da TV Cultura. in:
http://nildoviana.multiply.com/recipes/item/3
3 – Viana, N. A Miséria da Música Popular Brasileira.
Em:http://www.lainsignia.org/2005/mayo/cul_017.htm
4 – Benjamin, W. A Obra de Arte na Era de sua
Reprodutibilidade Técnica. In: Obras Escolhidas, vol. 1, São
Paulo, Brasiliense, 1987.

    

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