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Dax Peres Goulart

O

DESENVOLVIMENTO

LOCAL

SOB

A

ÓTICA

DO

COMPLEXO AGROINDUSTRIAL DA SOJA EM MATO GROSSO DO SUL

UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO LOCAL –MESTRADO ACADÊMICO–
CAMPO GRANDE – MS 2006

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Dax Peres Goulart

O

DESENVOLVIMENTO

LOCAL

SOB

A

ÓTICA

DO

COMPLEXO AGROINDUSTRIAL DA SOJA EM MATO GROSSO DO SUL

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Desenvolvimento Local – Mestrado Acadêmico – sob a orientação da profª. Drª. Antonia Railda Roel.

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UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO LOCAL –MESTRADO ACADÊMICO–
CAMPO GRANDE – MS 2006

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________________ Orientadora - Profª. Drª. Antonia Railda Roel Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)

__________________________________________________ Prof. Dr. Instituição

__________________________________________________ Prof. Dr. Instituição

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DEDICATÓRIA

Aos meus filhos, Daniel e Sophia. Eles são mais que especiais.

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AGRADECIMENTO
A meus pais, Assis José Goulart in memoriam e Regina Rita Peres Goulart, pela vida e amor.

À professora Antonia Railda Roel, pela inestimável colaboração para com a realização deste trabalho. Ao Centro Universitário de Campo Grande – UNAES, em especial ao professor João Leopoldo Samways Filho, pela bolsa de capacitação de docentes, sem a qual não seria possível a realização deste sonho.

Aos professores do Programa de Mestrado da UCDB, que no decorrer do curso indicaram os caminhos para o desenvolvimento local.

Aos meus amigos de Campo Grande - MS, que de diversas formas contribuíram para minha formação, tanto acadêmica como pessoal.

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RESUMO
Neste trabalho procurou-se apontar que a partir do conceito, delimitação e constituição do Complexo Agroindustial (CAI) da Soja em São Gabriel do Oeste foi possível aventar que a chamada “agricultura moderna local” encontra-se subordinada aos interesses do capital e dependente do processo de industrialização. Os capitais industrial e financeiro revestidos de diversas formas e roupagens suscitam um novo padrão de acumulação e reprodução, concentrando-se a jusante e, principalmente, a montante da agricultura. Assim, a consolidação do CAI implica em uma nova dinâmica para o desenvolvimento da agricultura moderna, estando esta condicionada à lógica dos capitais industrial e financeiro. A partir do conceito de CAI articulado com a noção de território foi possível compreender a dinâmica do processo de desenvolvimento local e territorial em Mato Grosso do Sul. A análise do processo de desenvolvimento local e de construção do território, bem como o entendimento das relações capitalistas e a participação do Estado, foram os focos deste trabalho. A definição do conceito de território, utilizado como instrumental analítico para entendimento da escala espacial de reprodução e acumulação capitalista possibilitou compreender as relações de interdependência entre agricultura e os demais atores do mundo globalizado. O estudo permitiu ainda, evidenciar o conceito de desenvolvimento local a partir da concepção e visão de um mundo competitivo, forjado numa relação de dependência em escala vertical entre territórios desenvolvidos e demais localidades sub-desenvolvidas.

PALAVRAS-CHAVES: Complexo Agroindustrial; Desenvolvimento Local;Território.

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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1: DELIMITAÇÃO DO ESPAÇO ANALÍTICO E DO ENCADEAMENTO ADOTADO..... Figura 2: Articulação no interior do CAI.......................................................................... FIGURA 3: RELAÇÃO ENTRE OS PLAYERS QUE INTEGRAM O CAI.............................................

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LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 1: COMPOSIÇÃO DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS – 1968-1980, SEGUNDO IBGE.................................................................................................................................... GRÁFICO 2: PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL DA REGIÃO CENTRO-OESTE NA PRODUÇÃO AGRÍCOLA (VBP) E NO CRÉDITO (VTC) – 1973-1977, SEGUNDO O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E O BANCO CENTRAL DO BRASIL.................. GRÁFICO 3: PRODUÇÃO DE SOJA, ARROZ E MILHO EM MATO GROSSO DO SUL NO PERÍODO DE 1970-1990, SEGUNDO A IBGE, SECAP E CONAB............................... GRÁFICO 4: ÁREA DE PLANTIO DE SOJA EM MATO GROSSO DO SUL – 1990-2005, SEGUNDO A CONAB....................................................................................................... GRÁFICO 5: ÁREA DE PLANTIO DE SOJA E DOS PRINCIPAIS GRÃO NO BRASIL – 19902005, SEGUNDO A CONAB............................................................................................. GRÁFICO 6: PRODUÇÃO DE SEMENTES DE SOJA EM MATO GROSSO DO SUL – 1990/912004/05, SEGUNDO A APROSSUL.................................................................................. GRÁFICO 7: PRODUTIVIDADE DA SOJA NO BRASIL E EM MATO GROSSO DO SUL – 19902005, SEGUNDO A CONAB............................................................................................. GRÁFICO 8: PRODUÇÃO DA SOJA EM MATO GROSSO DO SUL - 1990-2005, SEGUNDO A CONAB............................................................................................................................... 100 99 97 95 94 84 70 53

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LISTA DE TABELAS

TABELA 1: PRODUÇÃO DE MÁQUINAS AGRÍCOLAS AUTOMOTRIZES - 1960-1980..................... 63 TABELA 2: IGP-DI ANUAL MÉDIO E TAXAS MÉDIAS DE JUROS DO CRÉDITO RURAL NO BRASIL – 1970-1980............................................................................................................... 67 TABELA 3: PARTICIPAÇÃO PERCENTAL NO VALOR BRUTO DA PRODUÇÃO (VBP) E NO VALOR TOTAL DO CRÉDITO (VTC) DE SOJA E FEIJÃO NO BRASIL – 19731977.... TABELA 4: PARTICIPAÇÃO DAS PRINCIPAIS CULTURAS NO CRÉDITO TOTAL 69

SUBORDINADO À POLÍTICA DE GARANTIA DE PREÇOS MÍNIMOS – 1967-68 1975-76...................................................................................................................................... 76 TABELA 5: PRINCIPAIS CULTURAS EM ÁREA E PRODUÇÃO EM MATO GROSSO DO SUL NOS ANOS DE 1970-1975-1980-1985-1990.......................................................................... TABELA 6: INDICADORES DE MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA EM MATO GROSSO DO SUL – 1970-1985...................................................................................................................... 92 TABELA 7: PRODUÇÃO DE SEMENTES DAS PRINCIPAIS CULTURAS BRASILEIRAS EM MIL TONELADAS – 1990-2002...................................................................................................... 96 TABELA 8: PRODUÇÃO DE SOJA NOS MAIORES MUNICÍPIOS PRODUTORES DE MATO GROSSO DO SUL – 1990-2005 (MIL TONELADAS).......................................................... 101 TABELA 9: CAPACIDADE DE PRODUÇÃO DAS UNIDADES AGROINDUSTRIAIS 79

ESMAGADORAS DE SOJA LOCALIZADAS EM MATO GROSSO DO SUL................... 107

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.............................................................................................................................................. 11

CAPÍTULO I METODOLOGIA............................................................................................................................................ 14

O

DESDOBRAMENTO

CAPÍTULO II TERRITORIAL E A NOVA

DINÂMICA

DA

AGRICULTURA 16

MODERNA..............................................................................................................................

2.1. DESENVOLVIMENTO LOCAL E TERRITORIAL.............................................................................. 16 2.2. A CONSTITUIÇÃO CONCEITUAL DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL (CAI).......................... 26

CAPÍTULO III A CONSTITUIÇÃO DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL E O PAPEL DO ESTADO.......................... 48 2.1. AGRICULTURA MODERNA: A PARTICIPAÇÃO DO ESTADO NO BRASIL E NO CENTROOESTE...................................................................................................................................... 48

2.2. A CONSTITUIÇÃO DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL NO BRASIL......................................... 58 2.3. A CONSTITUIÇÃO DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL EM MATO GROSSO DO SUL.......................................................................................................................... ................. 77

CAPÍTULO IV O COMPLEXO AGROINDUSTRIAL DA SOJA EM MATO GROSSO DO

SUL.................................................................................................................................................................. 91

CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................................................ 112

REFERÊNCIAS............................................................................................................................................. 114

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INTRODUÇÃO

Com o advento da globalização as estruturas verticalmente integradas por operações lineares capazes de integrar numa única unidade produtiva todos os processos necessários para disponibilizar aos consumidores um produto final cederam lugar a uma nova e significativa alteração na configuração estrutural da produção. A fragmentação da produção em economias de escopo e o foco das empresas voltado para o seu “core business” ou carro-chefe suscitou a completa integração e interação entre clientes e fornecedores. Destas relações surgiram novos conceitos como arranjos empresariais, cadeias produtivas, cadeias de suprimentos, complexos agroindustriais, dentre outros, para tentar explicar suas interligações, relações de interdependência e conexões em diversas dimensões espaciais. O presente estudo é relevante porque busca analisar o desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul a partir do processo de modernização e da industrialização da agricultura e de consolidação do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS). Pretende-se demonstrar que, com o desenrolar do processo de modernização concebido no pós-guerra, a nova dinâmica da agricultura torna-se subordinada aos interesses do capital e dependente do processo de industrialização. Os capitais industrial e financeiro apresentam-se concentrados a jusante e, principalmente, a montante da agricultura. A consolidação de um referencial teórico e conceitual permitirá estabelecer a definição de Complexo Agroindustrial (CAI), possibilitando ainda ampliar o debate em torno das questões que envolvem a nova dinâmica da agricultura moderna e suas relações com o desenvolvimento local, bem como a participação do Estado neste processo de acumulação capitalista. O entendimento de questões relacionadas com o desenvolvimento local e territorial nas diversas dimensões (escalas espaciais) é o foco principal deste trabalho, pois a definição do conceito de Complexo Agroindustrial (CAI) e, por conseguinte, o entendimento da noção de Território, tornar-se-ão os principais instrumentos de cunho analítico utilizados para compreender as relações de interdependência entre a agricultura local desempenhada em MS e a indústria nacional e transnacional, bem como demonstrar a parcela de participação do Estado no processo de acumulação capitalista. Por outro lado, o principal corolário pressupõe

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a agricultura condicionada à lógica dos capitais industrial e financeiro. Ou seja, o objetivo do sistema são a reprodução e a valorização do capital. Tendo em vista a realidade de um mundo complexo foi elaborado o seguinte problema de pesquisa para este trabalho: como analisar o desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul a partir do conceito de Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS), forjado pelo processo de modernização e de industrialização da agricultura, considerando-se ainda a marcante participação do Estado? O objetivo do autor é analisar o processo de desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul a partir da modernização da agricultura e sob a ótica da constituição do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS). Os objetivos específicos são: 1. constituir e delimitar o conceito de Complexo Agroindustrial (CAI); 2. analisar a participação do Estado como agente promotor da industrialização brasileira e da consolidação do Complexo Agroindustrial (CAI); 3. evidenciar os desdobramentos territorial, econômico, social e histórico da chamada “modernização da agricultura” em Mato Grosso do Sul, como produtor da matériaprima pertencente ao Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS); Este estudo, além da Metodologia, foi dividido em mais três capítulos básicos que podem ser resumidos da seguinte maneira: a) conceituação de desenvolvimento local e território com ênfase na integração espacial do CAI; c) constituição de Complexo Agroindustrial; d) participação do Estado no processo de modernização e industrialização da agricultura; e) consolidação do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) em Mato Grosso do Sul. No Capítulo I têm-se o método de abordagem, os procedimentos metodológicos empregados, os procedimentos técnicos e o tipo da pesquisa. No Capítulo II pretendeu-se estabelecer a conceituação teórica de

desenvolvimento local e também de território, pois a constituição do CAI em Mato Grosso do Sul e seu encadeamento, tanto a jusante, como principalmente a montante, pressupõe uma investigação entre territórios em escalas de integração vertical pertencentes a espaços distintos e distantes, mas alinhados e articulados entre si. Na seqüência, preocupou-se em estabelecer um conceitual analítico acerca da constituição, delimitação e definição do Complexo Agroindustrial (CAI).

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No Capítulo III foi analisada a participação do Estado no processo de modernização e industrialização da agricultura no Brasil e no Centro-Oeste, bem como protagonista na consolidação do Complexo Agroindustrial (CAI) no Brasil e no Estado de Mato Grosso do Sul. Compreender a participação do capital industrial e financeiro sob a égide do Estado como agente promotor da industrialização brasileira e da modernização da agricultura foi fundamental para estabelecer as interligações e a interdependência da produção de soja em Mato Grosso do Sul, tanto a jusante, como a montante desta principal matéria-prima. No Capítulo IV verifica-se que a presença maciça do Estado, nas esferas federal e estadual, suscitou compreender o processo de industrialização no país e também a consolidação do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) em Mato Grosso do Sul como um novo viés de reprodução e acumulação do capital industrial.

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CAPÍTULO I

METODOLOGIA O método de abordagem1 adotado neste trabalho e utilizado para analisar o processo de desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul a partir da modernização da agricultura e sob a ótica da constituição do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) será o método dedutivo. Esse método possibilitará interpretar a dinâmica da realidade a partir da participação do Estado no processo de modernização da agricultura, da constituição do Complexo Agroindustrial (CAI) no Brasil, no Centro-Oeste e, por fim, a consolidação do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) em Mato Grosso do Sul. Os procedimentos metodológicos estão organizados em quatro etapas: a) construir um arcabouço teórico sobre Complexo Agroindustrial (CAI), Desenvolvimento Local e Território; b) descrever a participação do Estado no processo de modernização e industrialização da agricultura; c) constituir o Complexo Agroindustrial (CAI) no Brasil e no Centro-Oeste; d) constituir o Complexo Agroindustrial da Soja (CAI) em Mato Grosso do Sul, tendo em vista os conceitos de desenvolvimento local e de território. Os procedimentos metodológicos específicos praticados em cada etapa da pesquisa auxiliarão a descrever e explicar as desigualdades e as relações de interdependência presentes no processo de desenvolvimento local vigente em Mato Grosso do Sul. O ápice metodológico do estudo da agricultura moderna será concebido a partir do aprofundamento de questões relacionadas com o caráter periférico do Estado de Mato Grosso do Sul e, sobretudo, potencializadas pelas relações antagônicas evidenciadas no âmbito da evolução do processo de verticalização e integração agricultura-indústria. Neste caso, o local é o Estado de Mato Grosso do Sul, o objeto é a soja, o CAI como instrumento e a escala espacial é o território. Esta dissertação pode ser classificada como uma pesquisa básica, pois pretende analisar o desenvolvimento local existente em Mato Grosso do Sul a partir do aprofundamento de questões relacionadas com a industrialização da agricultura, sobretudo, potencializadas pela participação do Estado e compreendidas a partir das inter-relações

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Ver ANDRADE, Maria Margarida. Introdução à Metodologia do Trabalho Científico. 4ª. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
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evidenciadas no âmbito da evolução do processo de interação e integração agriculturaindústria. Quanto à maneira de abordar o problema, e tomando-se como base os preceitos defendidos por Merrian (1998), esta pesquisa apresenta, dentre outras características, uma investigação que busca analisar, compreender, descrever, constituir, delimitar, evidenciar, contextualizar de forma flexível, os fenômenos que emergem no CAI da soja. Quanto aos objetivos, esta pesquisa pode ser classificada como: descritiva, pois procura descrever o processo de modernização da agricultura, culminando com a constituição do CAIS em Mato Grosso do Sul. Os procedimentos empregados para explorar a realidade são: pesquisa bibliográfica visando a identificar as características dos agentes envolvidos no Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) e demais informações de fontes secundárias. Esta pesquisa possui os seguintes procedimentos técnicos: Pesquisa bibliográfica: a partir do tema proposto, buscou-se fontes bibliográficas, com consulta a livros, artigos em periódicos nacionais e internacionais, dissertações e teses defendidas, periódicos nacionais e internacionais e informações disponíveis na internet. Levantamento: a pesquisa demandou um levantamento de dados em instituições públicas e privadas relacionadas com a agricultura e indústria. O objetivo desse levantamento foi extrair dados pertinentes ao tema para subsidiar e enriquecer a análise; Documental: além de bibliografia e dados de fontes secundárias, a pesquisa necessitou de documentos públicos, tais como: programas de governo, leis municipais, estaduais e federais, dentre outros.

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CAPÍTULO II O DESDOBRAMENTO TERRITORIAL E A NOVA DINÂMICA DA AGRICULTURA MODERNA 2.1. DESENVOLVIMENTO LOCAL E TERRITORIAL Para compreender o desenvolvimento local torna-se necessário inserir o conceito de educação como um fator fundamental da dinâmica deste processo. Nos atuais cenários, a qualidade do conhecimento de um país constitui, sem dúvida, um elemento diferenciador e estratégico. A possibilidade de ter uma formação educacional imbricada para o desenvolvimento surge como um pré-requisito para uma inserção sócio-econômica. Análises recentes indicam correlações entre as sociedades, os graus de educação e o tipo de inserção coletiva. Contar com pessoas melhor formadas abre caminho, por exemplo, para a incorporação de processos coletivos cooperativos, permitindo inovações e mudanças de atitudes, gerando transformações duradouras. Todavia, inovações, mudanças e transformações suscitam a formação. Ou seja, em Lothellier (1974) apud Ávila (2000) a formação permite a percepção das formas de existência. Assumir a forma é dar sentido a tudo que é aparentemente incerto e impessoal. Assim, a formação é “[...] a busca, decifração, discernimento e incorporação de sentidos e valores de determinada realidade” (ÁVILA, 2000, p. 63). Ipso facto, educação pressupõe a formação enquanto capacidade cognitiva de compreensão da realidade. Aqui, a realidade é o desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul e suas interações com o mundo moderno e competitivo. Ou seja, a industrialização da agricultura, as transformações decorrentes deste processo e a conseqüente consolidação dos CAI. Em Ávila (2000), incorporar sentidos e valores depende do caminho a ser seguido para alcançar o desenvolvimento humano em seus aspectos físico, moral, intelectual e social. A educação permite traduzir a realidade e indicar o rumo em direção ao desenvolvimento das capacidades humanas. Com efeito, compreender o conceito de desenvolvimento local é dar forma para esta realidade. Para Ávila (2003), compreender a realidade sobre desenvolvimento é expor a relação de dependência existente entre países desenvolvidos e países sub-desenvolvidos. Tal compreensão pode ser remetida às relações espaciais em escalas verticais distintas, mas
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intimamente articuladas sob o ponto de vista da constituição de territórios. Esta relação de dependência ocorre em dois prismas intimamente articulados, convergentes e alinhados. Ou seja, nos âmbitos interno e externo concernentes aos territórios sub-desenvolvidos os grandes centros desenvolvidos se alimentam, tiram proveitos e cultivam a manutenção da relação de dependência à guisa da premente e permanente sustentação dos seus próprios interesses. No tocante às relações existentes entre agricultura e indústria, percebe-se em Mato Grosso do Sul a transferência de matérias-primas eminentemente agrícolas em direção aos centros industrializados. Estas matérias-primas agrícolas serão processadas e transformadas pelas agroindústrias localizadas no centro industrial de expansão capitalista e distribuídas, tanto no centro, como também nesta periferia (retorno da matéria-prima com maior valor agregado). Além do retorno dos produtos finais derivados das matérias-primas agrícolas, a disjunção espacial produtiva, caracterizada pela migração de unidades indústrias fragmentadas, buscam a periferia e utilizam uma mão-de-obra desqualificada para realizarem atividades banalizadas a partir de uma integração comandada pelo centro. Estas migrações do capital industrial para a periferia também podem ser consideradas como estratégias de reprodução e acumulação do capital em decorrência de uma nova divisão espacial do trabalho. Em Mato Grosso do Sul, principalmente em Campo Grande, pode-se constatar a instalação de agroindústrias processadoras e transformadoras de matéria-prima, bem como indústrias responsáveis pela confecção de silos para armazenagem de grãos. Porém, quando é retomado o conceito de CAI utilizado neste trabalho percebe-se a inexistência da internalização de uma indústria de bens de produção voltada para a agricultura local (produção de máquinas, equipamentos e insumos modernos). Nesse sentido, a integração dos capitais industrial e financeiro situados a montante da matéria-prima agrícola não permite a delimitação local de um CAI para a soja colhida em Mato Grosso do Sul situado num único território. Percebe-se a sobreposição de escalas de visualização articuladas entre em si, onde territórios dissociados por fronteiras espaciais, mas intimamente conectados e integrados pela força do interesse industrial, possibilitam a definição do CAI da soja no âmbito territorial numa escala vertical de reprodução e acumulação capitalista. Logo, pode-se aventar que o sub-desenvolvimento é relativo quando se percebe que ele não é retroalimentado por si só e involuntariamente. A relação de desigualdade é o êmbolo do sub-desenvolvimento, pois aquela mantêm-se em razão da exploração constante que se reproduz nos diferentes prismas e “o que de fato interessa é cultivá-la enquanto

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eficiente dinamismo de sustentação e permanente alimentação de seus próprios interesses e „riquezas‟” (ÁVILA, 2003, p. 14 e 15). Diante desse contexto o desenvolvimento local surge no território subdesenvolvido como um novo viés ideológico e de cunho político, permeado de ações assistenciais que visam a perpetuar a cultura submissa e dependente imposta pelos territórios chamados centros capitalistas desenvolvidos aos demais espaços periféricos subdesenvolvidos. No entanto faz-se mister descortinar tal estratégia imposta pelo capitalismo globalizador e definir, de fato, o que é realmente desenvolvimento local. Para tanto, segundo Ávila (2003, p. 17) para introduzir ao debate o que vem a ser desenvolvimento local deve-se primar pela observação das seguintes questões infrarelacionadas.
   a da relação do mundo desenvolvido com suas próprias periferias, carências e pobrezas internas e socioeconomicamente desequilibradoras; a da atual relação de dependência e subjugo do mundo subdesenvolvido ao mundo desenvolvido; a da relação do mundo subdesenvolvido com as suas próprias chances de efetiva e emancipadamente se desenvolver [...] a partir de comunidades-localidades concretas e bem definidas.

Quando se observa que o conceito de formação concorre para a consolidação da educação como fenômeno ontológico deve-se atentar para a predominância da relação de dependência existente entre desenvolvimento e sub-desenvolvimento presente na terceira questão, uma vez que esta tem caráter revolucionário e constitui-se no principal axioma do sub-desenvolvimento, pois ao remeter o desenvolvimento local autóctone ao seu próprio destino, condiciona a chance de tornar-se desenvolvido ao poder de rompimento das amarras que impedem a sua emancipação. Esta emancipação pressupõe, segundo Ávila (2003), a alteração da forma de interação que as comunidades locais têm com o paradigma de desenvolvimento cultivado e difundido pelo mundo capitalista globalizante. Assim, subdesenvolvimento supõe a incapacidade de ditar uma nova ordem, dar uma nova forma à realidade e estabelecer uma cultura focada em suas próprias potencialidades.
[...] sensibilizar-se, mobilizar-se e organizar-se para a gradativamente cooperativa de seu próprio bem-estar de base, desvelamento de auto-estima, o cultivo da auto-confiança e o capaz, competente e hábil para discernir e buscar tanto suas geração como o tornar-se próprias
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alternativas de rumos sócio-pessoais futuros quanto soluções possíveis, no seu âmbito ou fora dele, para seus mais imediatos problemas, necessidades e aspirações. E isso sempre a partir daquilo que estiver ao seu alcance (principalmente o conhecimento e o aproveitamento de suas peculiaridades e potencialidades), bem como do simples para o complexo e do mais para o menos comunitariamente necessário (ÁVILA, 2003, p. 19).

Além da capacidade (saber discernir, decifrar e incorporar a realidade), competência e habilidade constituem as principais virtudes que compõem o tripé necessário ao empoderamento de uma comunidade na geração de um espiral de causação circular positiva como forma de superação dos gargalos que aprisionam o desenvolvimento. Ou seja, (des)envolver localmente é desvendar as capacidades, competências e habilidades de uma comunidade que passa, por um lado, a assumir e promover o seu desenvolvimento interno e, por outro, a digerir e metabolizar as influências externas de maneira a aproveitar seus benefícios e descartar os efeitos negativos. Segundo Martin (1999), o desenvolvimento local é o processo reativador da economia e dinamizador da sociedade local, mediante o aproveitamento eficiente dos recursos endógenos existentes numa determinada região, capaz de estimular e diversificar seu crescimento econômico, criar emprego e melhorar a qualidade de vida da comunidade local, sendo o resultado de um compromisso pelo qual se entende o espaço como lugar de solidariedade ativa, o que implica mudanças de atitudes e comportamentos de grupos e indivíduos. Seguindo os preceitos do prof. Carpio Martín, Ávila (2000, p. 68) afirma que o “núcleo conceitual” do desenvolvimento local pode ser definido como o “efetivo desabrochamento das capacidades, competências e habilidades de uma „comunidade definida‟ (portanto com interesses comuns e situada em determinado território ou local com identidade social e histórica), no sentido de ela mesma se tornar paulatinamente apta a agenciar e gerenciar (diagnosticar, tomar decisões, planejar, agir, avaliar, controlar, etc.) o aproveitamento dos potenciais próprios, assim como a „metabolização‟ comunitária de insumos e investimentos públicos e privados externos, visando à processual busca de soluções para os problemas, necessidades e aspirações, de toda ordem e natureza, que mais direta e cotidianamente lhe dizem respeito”. Para Ávila (2000) apesar desta definição deve-se estabelecer a diferença entre os significados de “desenvolvimento local” e de “desenvolvimento no local”, considerando-se ainda a participação da comunidade. Para Ávila (2000, p. 69), desenvolvimento no local,
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“quaisquer agentes externos se dirigem à „comunidade localizada‟ para promover as melhorias de suas condições e qualidade de vida, com a „participação ativa‟ da mesma” e desenvolvimento local, “a comunidade mesma desabrocha suas capacidades, competências e habilidades de agenciamento e gestão das próprias condições e qualidade de vida, „metabolizando‟ comunitariamente as participações efetivamente contributivas de quaisquer agentes externos”. Ainda em Ávila (2000), no primeiro caso, os agentes externos são os únicos promotores do desenvolvimento e a comunidade apenas se envolve participando. No segundo, a própria comunidade é a protagonista do seu desenvolvimento e os agentes externos são os que se envolvem participando. A busca pela extinção da relação de dependência está condicionada ao aumento significativo da capacidade cinética (gerar capacidades, competências e habilidades) do capital humano pertencente à comunidade e do seu poder de externalizar os efeitos positivos do processo de conhecimento para um processo de desenvolvimento resolúvel. Torna-se visível a percepção aparente que a reestruturação do capitalismo contemporâneo e da sociedade, ocorrida a partir do pós-guerra, propiciou o surgimento de novas relações e mediações entre as diversas escalas espaciais, ou seja, as mudanças decorrentes do novo paradigma econômico interferiram em âmbitos locais, regionais e nacionais. Para Buarque (2000, p. 11), sob os auspícios da globalização, entende-se como desenvolvimento local “como uma resultante direta da capacidade dos atores e da sociedade local se estruturarem e se mobilizarem, com base nas suas potencialidades e sua matriz cultural, para definir e explorar suas prioridades e especificidades, buscando a competitividades num contexto de rápidas e profundas transformações. Desta forma, o desenvolvimento de uma localidade – município, microrregião, bacia, ou mesmo espaço urbano – deve ter um claro componente endógeno, principalmente no que se refere ao papel dos atores sociais, mas também em relação às potencialidades locais”. Para Coelho (2001) apud Martinelli et al. (2004), a partir da constituição de fluxos produtivos a globalização da economia atua entre territórios fragmentados e muitos destes alijados do processo produtivo, outros incluídos, enfim, a desestruturação e a reestruturação dos espaços produtivos representam os movimentos do capital, ou seja, os territórios são os locais de ocorrência das transformações nas formas de produzir e de reproduzir o capital em escalas regional e local. Aqui reside a real possibilidade de
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implementação de estratégias no nível local relacionadas com os aspectos econômicos, primando sempre pela eficiência (melhores formas de produzir) e eficácia (atingir os resultados esperados) do processo produtivo para garantir a competitividade frente ao mundo globalizado e em constante mutação.

[...] a globalização, ao contrário daquilo que se poderia pensar à primeira vista, vem justamente reforçar a importância do desenvolvimento local, visto que cria a necessidade de formação de identidades de diferenciação entre regiões e comunidades, para que possam enfrentar um mundo de extrema competitividade (MARTINELLI et al., 2004, p. 2).

Segundo Max-Neef et al. (1986), quando o desenvolvimento é remetido à escala humana tem-se um conjunto de satisfatores que correspondem às necessidades vitais de cada indivíduo ou sociedade. Ou seja, necessidades são carências individuais ou coletivas e satisfatores são as formas incorporadas por um indivíduo ou pela comunidade, relativas à existência humana, utilizadas para satisfazer suas necessidades. Uma comunidade que visa a compreender suas necessidades e potencialidades tem como instrumento para decifrar a realidade a classificação dos diversos satisfatores relacionados com as suas carências individuais e coletivas. A elaboração de uma matriz de necessidades e satisfatores, estando estas necessidades divididas em duas categorias (existenciais e axiológicas) e seus respectivos satisfatores, nasce de uma tentativa de sistematizar as diversas nuances de um desenvolvimento possível. O desenvolvimento à escala humana considera o fator econômico como forma de medir a carência material (aquisição de bens) e potencialidade (possibilidades de progresso material) de uma comunidade. De acordo com Harvey (1998) reduzir o desenvolvimento ao progresso material caracteriza uma análise positivista desagregada de uma proposta de desenvolvimento mais humanista, pois conceber um desenvolvimento comprometido com a satisfação das necessidades básicas do ser humano é atribuir ao aspecto econômico a tarefa de reduzir as mazelas que afligem e impedem o caminhar de uma sociedade. O crescimento econômico é visto como um meio, um veículo de condução rumo ao desenvolvimento, ou seja, o progresso material, por si só, não tem condições de garantir a continuidade do processo de desenvolvimento (sustentabiliadde). Sen (2000) avança nesta questão quando propõe um modelo de desenvolvimento resultante não só do progresso material, mas de um conjunto de variáveis que propiciam ao
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indivíduo as mínimas condições para exercer seus direitos e ter a sua liberdade. Para tanto, este conjunto de variáveis deve estar representado pelos seguintes elementos: industrialização; crescimento do PIB; crescimento da renda; acesso à educação e saúde; aumento da expectativa de vida; diminuição da mortalidade infantil; respeito aos direitos humanos; participação política; etc.), ou seja, variáveis econômicas, sociais e políticas. Para Sen (2000), a expansão de uma economia de mercado aliada à livre iniciativa privada, suplementada pela participação do Estado, seria indispensável para atingir as metas de desenvolvimento. Para Borba (2000) apud Martinelli et al. (2004), o desenvolvimento pode ser concebido como um processo de aperfeiçoamento em curso a ser comparado com um conjunto condições e/ou situações desejadas pela sociedade como forma de avaliar de a condição humana. Porém, para Martinelli et al. (2004), o termo desenvolvimento não pode ser usado isoladamente para retratar todas as dimensões da evolução humana, pois em alguns momentos há a necessidade de priorizar os aspectos econômicos e, em outros, enfatizar as questões sociais e, assim, sucessivamente. Nesse sentido, faz-se necessário encarar o desenvolvimento sob uma visão sistêmica para abranger todas as dimensões da vida, bem como retratar as diversas nuances da evolução de uma sociedade.

Em termos de desenvolvimento, certas premissas devem ser aceitas, para que o termo realmente possa representar toda a expressão da capacidade de evolução da humanidade. Isso talvez seja possível, se for levado em consideração que o desenvolvimento deve refletir o progresso da sociedade como um todo, em suas múltiplas dimensões e não apenas na dimensão econômica. Aqui, mais uma vez, deve-se empregar o enfoque sistêmico, para uma visão mais abrangente (MARTINELLI et al., 2004, p. 52).

Segundo Silveira (2001) apud Martinelli et al. (2004), o desenvolvimento econômico local coloca-se na condição de dar uma resposta alternativa aos reflexos da globalização e da reestruturação produtiva, ou seja, construir novas possibilidades a partir de suas próprias capacidades e potencialidade endógenas para transformar a localidade. O local torna-se estratégico, do ponto de vista das oportunidades econômicas, e detentor de vantagens competitivas diante deste cenário imposto pela globalização e caracterizado por uma forte reestruturação produtiva, fragmentação dos territórios e descentralização das unidades industriais. Tais características são definidas por Lins (1988) como “disjunção espacial produtiva” e por Lipietz (1987) como “fordismo periférico”, ou seja, quando estes deslocamentos partem dos centros dinâmicos do capitalismo para as demais regiões periféricas e influenciam na organização espacial da mão-de-obra.
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Dessa forma, o desenvolvimento econômico local pode ser definido como aquele processo reativador da economia e dinamizador da sociedade local que, mediante aproveitamento eficiente dos recursos endógenos disponíveis em uma zona determinada, é capaz de estimular seu crescimento econômico, criar empregos e melhorar a qualidade de vida de uma comunidade local (ALBUQUERQUE, 1998 apud MARTINELLI et al., 2004, p. 56)

O mundo globalizado está condicionado à capacidade do capital em ajustar-se e moldar-se conforme as diversas escalas espaciais a partir das relações de interdependência entre o capital industrial descentralizador e o capital financeiro integrado, superando as barreiras físicas do tempo e do espaço, tendo em vista a perpetuação do processo de produção de mercadorias que são lançadas no mercado, sobretudo e, neste caso, voltadas para o comércio agroindustrial. Além disso, não se deve perder de vista a fragmentação espacial da produção e a concentração territorial das indústrias de bens de produção localizadas nos centros capitalistas. Tem-se ainda uma clara evolução da concepção fordista do desenvolvimento capitalista, ou seja, o aumento da produtividade dos fatores de produção, a intensificação do uso da tecnologia e o aparato regulatório do Estado estão cedendo espaço para um novo modelo baseado em processos de produção flexíveis, descentralizado, informal e de pouca participação e influência do Estado e de suas instituições regulatórias. Segundo Ploeg et al. (2000) apud Schneider (2004) o desenvolvimento no campo tende a alongar as suas interações e alterar a relação do homem com o capital a partir da superação da sua dependência com o processo de modernização técnico-produtiva, desenvolver estratégias autônomas representadas por unidades familiares, sem perder de vista a concepção capitalista do seu negócio, bem como considerar os viéses econômicos, sociais e ambientais que, por sua vez, necessitariam de uma reconstrução conceitual diferente do paradigma produtivista vigente. No momento, esta tendência está em movimento contrário aos interesses do capital industrial territorialmente descentralizado, mas fortemente conectado entre si, e do capital financeiro altamente concentrador de riquezas. Ou seja, no presente trabalho pode-se aventar que a tendência defendida por Ploeg (2000) está mostrando-se às avessas da realidade aparente em Mato Grosso do Sul. A integração do CAI da Soja é territorialmente descentralizada, apesar de boa parte da produção da soja estar altamente concentrada em grandes propriedades rurais ou representada por cooperativas constituídas por pequenos produtores, dependente de máquinas, equipamentos e insumos modernos e
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financiada por um capital específico que visa a atender as suas necessidades em busca de uma maior valorização. De acordo com Santos (1994) é a partir dessa constatação que a abordagem do território vem responder as atuais perguntas. Ou seja, o novo ordenamento do espaço suscita novos contornos para construção e funcionamento do território, integrado tanto verticalmente como horizontalmente. A escala horizontal representa o espaço contíguo, próximo, vizinho e territorialmente reunido, enquanto que a escala vertical é forjada por pontos distantes e socialmente conectados. Ou seja, percebe-se na escala vertical a relação situada a montante da produção de soja (matéria-prima) quando tem-se a dependência total do local na aquisição de máquinas, equipamentos e insumos modernos produzidos em territórios distantes, mas articulados entre si. Por outro lado, as agroindústrias situadas a montante da matéria-prima (soja) dividem com os demais territórios a produção da soja colhida em Mato Grosso do Sul. Na constituição do CAI da soja em Mato Grosso do Sul percebe-se a existência de territórios espacialmente isolados, mas altamente articulados em prol do desenvolvimento capitalista. Em Santos (1994) apud Schneider (2004), o “retorno ao território” reflete a adoção de uma análise baseada em mudanças sócio-econômicas, espaciais, institucionais, políticas e ambientais oriundas da reestruturação do capitalismo da era pós-fordismo, globalizante, fragmentado e ao mesmo tempo descentralizado e que se recompõe, atua e interage no âmbito dos próprios territórios. Para Santos (1994), os controles horizontal e vertical impõem uma dialética ao conceito de território. Ou seja, para o autor existem dois controles: um controle "local" da chamada parte "técnica" da produção e um controle remoto, à distância, da parte política da produção. No âmbito técnico da produção as cidades locais ou regionais e de espaços contíguos controlam o espaço no entorno do território. O controle distante, que acontece de forma política, é concebido nas cidades do centro do capitalismo global. Suas interferências encontram-se espalhadas e são difundidas no território local. Em Santos (1994), esta tendência contribui para alienação dos homens com seus espaços a partir de uma mobilidade iminente. Por outro lado, o território global e transnacional torna-se alicerçado no lugar, ou seja, o próprio local passa a ficar unido verticalmente, porém, do ponto de vista horizontal, as relações humanas são reconstruídas e fortalecidas localmente, de acordo com os interesse exclusivos do capital e impulsionadas para garantir a sobrevivência dos mercados. Aí está a contradição. A verticalização modernizante, vista aqui como a integração do CAI da Soja, principalmente das atividades situadas a montante da produção da matéria-prima, corrompe a
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coesão da integração horizontal, pois o capital (mercado) se contrapõe à coesão horizontal que surge a partir dos interesses da sociedade civil.
[...] a nova etapa do processo secular de racionalização é essencialmente devida à emergência de um meio técnico-científico-informacional, que busca substituir o meio natural e o próprio meio técnico, produz os espaços da racionalidade e constitui o suporte das principais ações globalizadas [...] empresas regulam as suas necessidades produtivas segundo regras que estabelecem, e tanto vigoram no interior da firma como em suas relações verticais e horizontais. Mas o fato de que a norma se tornou indispensável ao processo produtivo, conduz, ao mesmo tempo, à sua proliferação e leva, naturalmente, a um conflito de normas que o mercado não basta para resolver (SANTOS, 1999, p. 266 e 270).

Em Santos (1994), quando se depara com o enfraquecimento do Estado Territorial, a parte técnica e a parte política do território estavam entrelaçadas. Atualmente não há como deixar de observar a completa distinção entre as partes. As contradições do mundo globalizado acontecem no território. Ou seja, na escala vertical, caracterizada pela fragmentação do espaço de atuação parcial dos atores, é definida a regra do jogo, enquanto na escala horizontal a totalidade expressa pela sociedade civil perde terreno e ao mesmo tempo operacionaliza os interesses do mercado global. O campo de batalha entre o mercado e a sociedade civil é o território. Segundo o sociólogo Schneider (2004, p. 108 e 109), o conceito de território deve ser entendido como o reflexo “das relações dos indivíduos com o espaço em que transcorre sua sociabilidade e suas atividades produtivas e nas formas de apropriação e dominação que decorrem destas relações”. Ou seja, um processo em construção, fruto da relação e interação humana que acontece no espaço entendido como expressão das relações que envolvem qualquer tipo de influência de um indivíduo ou grupo de indivíduos sobre os demais integrantes de um determinado local. Neste mesmo sentido, vários autores, como Guy Di Méo (1998), Raffestin (1993), Soja (1993), Sack (1986), definem o território como um espaço de intensa interação social marcada por relações de poder e dominação. O espaço torna-se território a partir das relações sociais que acontecem de forma simbólica, concentrada, vivenciada, contextualizada, temporizada e que expressam uma dinâmica de poder e controle. Assim, o “território [...] é fundamentalmente um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder” (SOUZA, 1995, p. 78). Neste caso, as relações de poder podem ser compreendidas pela constituição e a completa integração do CAI da Soja a partir
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da subordinação da agricultura de Mato Grosso do Sul aos interesses do capital industrial territorialmente isolado, situado a montante do processo produtivo, financeiramente concentrado e, alinhado, conectado e articulado em escala vertical com a produção da matéria-prima (soja), situada a jusante e espacialmente delimitada. Do ponto de vista local, Reis (1992) apud Schneider (2004, p. 114), encara a questão da territorialidade local permeada de interações, mediações e articulada com o nãolocal. Ou seja, “o território como o centro de articulações e mediações entre a diversidade e heterogeneidade da sociedade local com o ambiente externo [...] não seria, portanto, autônomo e tão pouco inteiramente dependente do exterior, mas o resultado concreto e material do processo de articulação e mediação”.

2.2. A CONSTITUIÇÃO CONCEITUAL DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL (CAI) A partir do pós-guerra o processo de modernização da agricultura brasileira pode ser entendido como a ampliação da utilização da base técnica decorrente da capacidade de importação de máquinas, equipamentos e insumos industriais modernos (tratores, semeadeiras, ceifadeiras, debulhadores, fertilizantes, adubos, defensivos químicos, sementes certificadas, rações, etc.) com o objetivo de aumentar a produtividade da agricultura, ao passo que, de acordo com Serra (1981), esta mesma importação de máquinas e equipamentos ocorrida no início dos anos 50 permitiu uma ampliação significativa da capacidade instalada do parque industrial brasileiro nos setores de produção de bens de capital, bens de consumo duráveis e bens intermediários, o que possibilitou o surgimento das condições iniciais para o crescimento subseqüente e início da industrialização nacional. Ou seja, em 1951/52 os efeitos aceleradores das importações brasileiras, no que tange a aquisição de máquinas e equipamentos para os sub-setores de bens de capital/capital e capital/consumo, repercutiram positivamente no processo de internalização da indústria. Esta composição de um estoque inicial de capital contribuiu para a expansão do mercado interno industrial e influenciou a política de substituição de importações intensificada pelo Plano de Metas do governo Kubitschek. De 1956 a 1960 o governo federal priorizou o processo de internacionalização do setor de bens de capital (D1) e proporcionou a instalação das indústrias automobilísticas e de máquinas e equipamentos, sobretudo, voltados para a agricultura. Assim, pode-se ainda destacar que a expansão das indústrias básicas no ramo da química pesada, petróleo, papel e celulose, foram essenciais para fomentar o processo de modernização da agricultura.

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De acordo com Alves et al. (1988), tendo em vista as dificuldades de financiamento das atividades agrícolas nas décadas de 50 e 60, muitos pesquisadores, governos e agricultores optaram pela expansão da fronteira agrícola como a melhor alternativa para viabilizar o crescimento da produção deste setor. Nesse sentido, Paraná e Mato Grosso do Sul tiveram uma ampla participação nesta ocupação de novos territórios férteis. Portanto, apesar dos primeiros impactos positivos advindos do processo de modernização da agricultura, a produção agrícola permaneceu montada no binômio trabalho e terra, sendo estes os principais fatores determinantes na promoção do crescimento da oferta. Destarte, no início da década de 60 a expansão da fronteira agrícola perde a sua capacidade imediata de abastecimento frente às necessidades de consumo impostas pelos grandes centros urbanos. Assim, para suprir a demanda gerada no mercado interno a alternativa seria concentrar os esforços no crescimento e intensificação da produtividade, ou, através da importação de alimentos. Esta última hipótese foi descartada na época, pois existia a necessidade de expandir as fronteiras nacionais, diminuir os riscos da prática agrícola pela ocupação de novas áreas de cultivo, reduzindo, portanto, as pressões internas nas áreas das regiões já cultivadas, tendo em vista as possibilidades de lucros futuros pela diferenciação de produtos a partir da ocupação da região amazônica. A perda da capacidade de exportar e as crises de abastecimento evidenciadas a partir dos anos 50 tiveram como solução a inauguração de uma política de investimentos públicos voltada para a geração de conhecimento e difusão de tecnologia. Tais crises – perda de competitividade no mercado internacional e aumento dos custos endógenos em função da relação trabalho versus terra – poderiam ser evitadas caso os governos estaduais e federal tivessem, a priori, conhecimento dos entraves e gargalos do modelo adotado (expansão da fronteira agrícola) como condicionantes básicos das limitações nos ganhos de competitividade dos produtos agrícolas e no aumento da produtividade da terra. Ipso facto, diante da iminente incapacidade do poder de coerção do atual modelo de expansão das fronteiras agrícolas, diversas iniciativas dos governos estaduais e federal foram engendradas e institucionalizadas com o propósito de criar as condições mínimas para estabelecer a infra-estrutura básica que permitiria a ampla geração e difusão do conhecimento em todo país. Aumentar a produtividade da agricultura sob a égide da universalização do conhecimento e investimentos em tecnologia foi a dinâmica que prevaleceu após a década de 60. Neste contexto, a criação de universidades, cursos de pós-graduação, programas de extensão rural e do Sistema Nacional de Pesquisa (EMBRAPA) aliada ao desenvolvimento da
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indústria de insumos modernos e da agroindústria favoreceram em grande escala o crescimento da produtividade da terra e do trabalho. Em 1950 a tratorização da agricultura brasileira medida em função da razão entre a quantidade de hectares cultivados e o número de tratores era de 2.281 ha/trator; em 1960 esta relação passou para 468 ha/trator. No tocante da estrutura de produção na indústria de transformação brasileira de 1949 a 1959 os setores de bens de produção e de bens de consumo duráveis tiveram, respectivamente, um aumento de 419,29% e 713,91%, enquanto que a produção total referente a todos os setores industriais cresceu neste período apenas 111,34%. Para Kageyama (1987), Kageyama et al. (1988) e Silva (1991 e 1998), as

transformações da agricultura brasileira e a constituição dos diversos CAI tiveram a sua origem nos Complexos Rurais. Os Complexos Agroindustriais da atualidade são decorrências do processo de modernização da agricultura brasileira, o que contribuiu decisivamente com a perda da capacidade de decisão das comunidades rurais. Ou seja, a agricultura propriamente dita perde o seu antigo caráter autônomo, setorizado e independente. Para estes autores as transformações ocorridas na dinâmica da agricultura brasileira podem ser observadas dentro de uma perspectiva histórica na qual constata-se a passagem do "complexo rural" para os "complexos agroindustriais" (CAI). Segundo estes, o complexo rural pode ser identificado no período compreendido entre o Brasil Colonial e o final da primeira metade do século XIX, ou seja, até 1850. Este complexo rural caracterizava-se pelas simples relações de troca e estava condicionado às flutuações da demanda externa. A produção estava baseada na monocultura voltada para atender o mercado externo, enquanto no interior das fazendas eram confeccionados os equipamentos necessários para a produção. Ou seja, neste período a economia tem característica agro-exportadora, mas também produzia os alimentos destinados à subsistência. A decadência deste modelo ocorre nos anos entre 1850 e 1955. Com o trabalho livre e assalariado e a formação de um mercado interno, impulsionado pelo processo de substituição de importações e pelo surgimento da economia cafeeira paulista, o complexo rural perde fôlego. Para Kageyama et al.. (1988) a internalização das indústrias produtoras de bens de capital consolidou o processo de transição entre o complexo rural e o complexo agroindustrial. [...] a decomposição do complexo rural inicia-se em 1850, com a lei de
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terras e a proibição do tráfico, terminando em 1955, com a implantação do D1 em bases industriais modernas (KAGEYAMA, 1987, p.5).

A consolidação da indústria nacional, em especial a internacionalização da indústria produtora de bens de produção (D1), bem como o surgimento de mercados nacionais para produtos industriais voltados para a agricultura e produtos agroindustriais já processados, foram os principais elementos que forjaram o processo de industrialização da agricultura brasileira. Torna-se importante descortinar a falsa compreensão correlata existente entre o processo de modernização da agricultura, a industrialização desta e a conseqüente formação dos Complexos Agroindustriais no país. No processo de modernização são constatadas apenas alterações e mudanças na base técnica da produção agrícola. Ao passo que, diferentemente da modernização, no processo de industrialização a agricultura transformou-se em um ramo de produção dominado pela indústria e conectado a outros ramos de produção. Ou seja, a modernização da agricultura deve ser encarada como a simples importação de máquinas e insumos modernos e etapa que antecede a industrialização. Já o processo de industrialização, quando observa-se a internalização definitiva do setor industrial produtor de máquinas e insumos modernos, tem-se nestas transformações, conciliadas às mudanças da organização e divisão internacional do trabalho, a constituição do Complexo Agroindustrial no Brasil a partir da década de 70. Para Silva (1998) nos anos 70 esta nova dinâmica de acumulação capitalista industrial conduz o processo de industrialização da agricultura no sentido de uma integração vertical a partir da expansão da indústria de insumos modernos. Este novo padrão agrícola baseado na acumulação industrial fica concebido como Complexo Agroindustrial (CAI). Portanto, a implementação do D1 no país até a metade dos anos 60 e, consecutivamente, a internalização definitiva voltada para a agricultura como desdobramento do processo de industrialização, estabelecem o marco referencial entre: a dependência da capacidade de importar máquinas, equipamentos e insumos modernos como limites impostos à modernização da agricultura e a internalização definitiva da produção destas máquinas, equipamentos e insumos modernos. Desta forma, a constituição do Complexo Agroindustrial (CAI) deve ser entendida, ex-post, a integração entre as indústrias que produzem para a agricultura, possibilitada, ex-ante, pela internalização da produção de máquinas e insumos para atender a agricultura. Neste novo estágio de acumulação capitalista a modernização da agricultura passa ser determinada pela dinâmica da indústria, apesar da própria
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industrialização da agricultura e a constituição do CAI expressarem a dinâmica agrícola. Neste ponto, observa-se uma clara mudança de paradigma, impondo limites na análise setorizada da agricultura como meio de explicar a sua dinâmica, pois a consolidação do CAI pressupõe a integração vertical (agricultura-indústria), não apenas do processo produtivo baseado em novas tecnologias à la Schumpeter2, mas a integração de capitais industrial e financeiro e suas relações com o Estado. No final da década de 60 constata-se no Brasil a existência de um setor industrial produtor de bens de produção voltado para a agricultura. Em decorrência desta implantação tem-se a primeira noção de modernização e de desenvolvimento, em escala nacional, configurando-se um mercado para produtos industriais integrados à agroindústria. A implantação (internalização) de um setor industrial produtor de bens de produção voltado para a agricultura ficou conhecida como "modernização da agricultura", deslocando o atual paradigma em termos de produção industrial. Por outro lado, Castanho Filho (1988) relata que, tomando-se como base os censos agropecuários de 1970 e 1975, observaram-se disparidades regionais, pois 60% da frota de tratores agrícolas estavam concentrados nas regiões Sudeste e Sul. Outras desigualdades regionais foram observadas quanto ao emprego de fertilizantes nas propriedades agrícolas, acesso ao crédito e investimentos na produção industrial. Para realizar uma análise da dinâmica do desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul, deve-se considerar a evolução do processo de modernização e industrialização da agricultura, a posição periférica da região Centro-Oeste em função da sua fraca integração com o mercado externo no período agro-exportador, o atraso comparativo do padrão de acumulação capitalista já estabelecido no Centro-Sul e o relativo distanciamento dos efeitos positivos do progresso técnico proporcionado pelo avanço do complexo cafeeiro paulista como pólo propagador da industrialização brasileira. No entanto, durante todo o processo de industrialização o Estado de Mato Grosso do Sul manteve-se atrasado, pois não possuía as condições históricas que permitiram São Paulo e Sul do país a incorporarem os avanços tecnológicos da época, apesar dos investimentos em pesquisa e utilização de máquinas, equipamentos e insumos modernos atualmente encontrados nas lavouras de Mato Grosso do Sul.

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Ver SCHUMPETER, J. A. Capitalism, socialism and democracy. Allen & Unwin, 1943. Schumpeter afirma que os estágios de desenvolvimento estão atrelados e associados ao processo de inovação tecnológica adotado pelos empresários empreendedores. 41

A partir do conceito de Complexo Agroindustrial (CAI) será possível focalizar os aspectos que facilitam o entendimento da dinâmica agroindustrial integrada internamente, bem como conectada em escala vertical, tendo em vista a articulação entre diversos territórios localizados tanto a jusante, mas principalmente, a montante do processo produtivo. Ou seja, a análise do CAI constitui-se no marco teórico-metodológico necessário para a compreensão desses aspectos e demais visões inerentes à agroindústria e suas interações com o mundo contemporâneo e globalizado. No final da década de 50 a discussão sobre agribusiness ganha ímpeto e a noção de CAI é consolidada em 1957 quando os pesquisadores Goldberg e Davis, ambos da Universidade de Harvard, EUA, divulgaram os resultados de suas pesquisas. Os autores constataram a mudança do eixo e o novo lugar de supremacia que a indústria passara a assumir em relação à agricultura. Ou seja, observaram o encadeamento a montante da produção agrícola oriunda das fazendas a partir das indústrias que forneciam insumos, máquinas e equipamentos. Observaram ainda que as fazendas produziam matérias-primas destinadas à transformação industrial, o que convencionou-se localizá-las a jusante. Vale lembrar que montante e jusante são alusões derivadas dos rios. Quando o processo está a montante, o termo refere-se ao lado da nascente do rio. Por outro lado, o termo jusante é utilizado para identificar o desaguadouro, ou seja, do outro lado do rio. Nessa nova perspectiva está implícito que a agroindústria passa a integrar o processo de transformação. Os produtos da fazenda ganham um destino intermediário antes de chegar ao consumidor final. Para Silva (1991) a visão estática e inicial acerca da conceituação do CAI foi possível de visualização a partir da agregação de atividades que possuíssem um elevado grau de afinidade entre si. Tal visão é derivada dos conceitos de agribusiness estudados por Goldberg e Davis (1957) e de filière desenvolvido na década de 60 pela escola industrial francesa. Para Goldberg e Davis (1957, p. 2), a definição de agribusiness pode ser entendida como [...] a soma de todas as operações envolvidas no processamento e distribuição de insumos agropecuários, as operações de produção na fazenda, e o armazenamento, processamento e a distribuição dos produtos agrícolas derivados. Como já foi dito anteriormente, esta definição explica a crescente interdependência e a completa integração setorial entre a agricultura e a indústria, atualmente indissociável e com um alto grau de complexidade, onde seria impossível apontar em qualquer etapa do processo de
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transformação agroindustrial a distinção entre uma atividade eminentemente agrícola e outra estritamente industrial. Na tradução francesa o termo agribusiness passa a ser entendido como filière, ou seja, cadeias. Em Malassis (1973) filière representa a interpretação de uma cadeia agroindustrial como sendo um setor agrícola composto por um conjunto de empresas integradas por processos agrícolas e industriais. Nesta concepção o encadeamento se dá a partir de sub-setores industriais a montante e que fornecem os bens de produção e, na outra ponta, a jusante, sub-setores agrícolas e sub-setores responsáveis pela transformação da matéria-prima e pela distribuição dos produtos finais. Utilizando-se das definições de Batalha (1997) uma Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA) está sub-dividida em três macrossegmentos: comercialização, industrialização e produção de matérias-primas. A partir do conceito de Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA) pode-se estabelecer que o foco principal da análise de todos os macrossegmentos tem ênfase no mercado consumidor final. Para Michels (2004) uma cadeia de produção pode ser entendida como um conjunto de operações técnicas. Esse conceito, amplamente difundido, reside na descrição das operações produtivas que concorrem para a transformação da matéria-prima em um produto final. Diante disso, a cadeia de produção deve ser compreendida por uma [...] sucessão linear de operações técnicas de produção e distribuição (MICHELS, 2004, p. 31). O enfoque de cadeia supera as análises ditas tradicionais, baseadas em setores da economia (primário, secundário e terciário), e são utilizadas no Brasil e no mundo na tentativa de retratar a realidade diante das relações de complexidade que emergem no processo produtivo, principalmente, na produção agroindustrial. Para uma visão mais detalhada de cadeia de produção deve-se inserir ao fluxo produtivo, os fluxos financeiros e de informações, bem como as relações comerciais que acontecem de jusante a montante.

A cadeia de produção é uma sucessão de operações de transformação dissociáveis, capazes de ser separadas e ligadas entre si por um encadeamento técnico [...] é também um conjunto de relações comerciais e financeiras que estabelecem, entre os estados de transformação, um fluxo de troca, situado de montante a jusante, entre fornecedores e clientes [...] é um conjunto de ações econômicas que presidem a valoração dos meios de produção e asseguram a articulação das operações (MORVAN, 1988 apud BATALHA, 1997, p. 26).

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Malassis (1973) reconhece que o desenvolvimento tecnológico é o fator mais dinâmico e presente nas cadeias agroindustriais. Ou seja, as mudanças na agricultura estão condicionadas a uma base tecnológica em constante evolução. Malassis (1973), apesar de incorporar na sua concepção de cadeia agroindustrial a indústria a montante, voltada para a agricultura e produtora de máquinas, equipamentos e insumos industriais modernos, o autor focaliza com maior ênfase os sub-setores a jusante, ou seja, a indústria de transformação e as empresas responsáveis pela distribuição do produto final. Ainda em Malassis (1973), uma cadeia agroindustrial (filière) está agrupada em três dimensões, ou seja, a indústria que fica a montante da matéria-prima; a produção da própria matéria-prima; e a indústria transformadora a jusante. Já o conceito de agribusiness concentra o foco principal na indústria a jusante, ou seja, a indústria de transformação da matéria-prima. Porém, ambos os enfoques (agribusiness e filière) têm a eminente preocupação em explicar a inter-relação e a interdependência entre a agricultura e a indústria. Para Kliemann Neto (2003), uma filière pode ser definida como um encadeamento seqüencial de setores e atividades empresariais associados a um contínuo fluxo de transformação da matéria-prima (estado bruto do bem) até o produto final (estado acabado do bem). Para Malheiros (1991) a cadeia produtiva pode ser identificada a partir de matériaprima principal que é sucedida por diversas transformações, originando um produto final. Por outro lado, Batalha (1997) e Pires et al. (2001) concebem uma cadeia produtiva focalizando um determinado produto final, e a partir deste produto acabado faz-se o encadeamento de montante a jusante para as diversas operações técnicas, comerciais e logísticas existentes no processo produtivo. Por definição, uma cadeia produtiva pode ser constituída sob a ótica da matériaprima, bem como a partir de um produto final. Ressalta-se que qualquer cadeia produtiva deve ser intermediada de jusante a montante por mercados localizados entre os elos. A quantidade de mercados pode variar dependendo da abrangência prática de cada cadeia. Além disso, segundo Michels (2004), os limites dessa divisão podem variar conforme o produto e o objetivo da análise e, ainda, não ser facilmente identificáveis.
A existência destes mercados permite a „articulação‟ dos vários macrossegmentos, bem como das etapas intermediárias de produção que os compõem. Dentro de uma cadeia de produção agroindustrial típica podem
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ser visualizados no mínimo quatro mercados com diferentes características: mercado entre os produtores de insumos e os produtores rurais, mercado entre produtores rurais e agroindústria, mercado entre agroindústria e distribuidores e, finalmente, mercado entre distribuidores e consumidores finais. O estudo das características destes mercados representa uma ferramenta poderosa para compreender a dinâmica de funcionamento da CPA (BATALHA, 1997, p. 27).

A concepção de Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA) privilegia o comportamento do mercado, ou seja, o macrossegmento denominado de comercialização (ponta da cadeia produtiva). Nesse sentido, o enfoque de Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA) visa a enfatizar o produto final, no caso específico, a comercialização da margarina, creme vegetal ou qualquer outro produto situado na ponta do processo tecno-produtivo que se inicia com a produção da matéria-prima, no caso, a soja. Torna-se importante ressaltar a diferenciação conceitual existente entre Complexo Agroindustrial (CAI) e Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA). Uma Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA) deve ser entendida como um conjunto de operações de transformação (industriais, logísticas, comerciais e financeiras) sucessivas, encadeadas entre si e situadas a montante e a jusante, tendo como foco central, geralmente, o produto final. Quando o produto final a ser visualizado é identificado deve-se encadear, da montante a jusante, as várias operações técnicas, comerciais e logísticas, necessárias a sua produção para que seja estabelecida a Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA). Assim, é válido analisar a Cadeia Produtiva da Margarina, quando este produto final é derivado da soja (matéria-prima), principal foco de uma análise baseada em qualquer conceito de CAI citado neste trabalho. Guimarães (1979), Araújo et al. (1992) e Lauschner (1993) utilizaram as primeiras noções de agribusiness e filière para propor uma articulação da agricultura com as indústrias a montante e a jusante. Para estes autores, a discussão acerca do conceito de Complexo Agroindustrial permanece vinculada ao enfoque dado aos pontos extremos do encadeamento dominados pela atividade industrial (a montante e a jusante da matéria-prima agrícola). Seguindo os preceitos de agribusiness, Müller (1981) passa a conceber o Complexo Agroindustrial como referencial analítico para explicar o processo de evolução e de industrialização da agricultura. E ainda, com base no trabalho de Vigoritto (1978) e na sua definição de CAI pautada no conceito de filière (cadeia agroalimentar), este autor considera a

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participação das empresas multinacionais e alimentícias na formação de um complexo industrial e ponto de partida para a definição do conceito de complexo agroindustrial.

Todo espaço econômico pode ser dividido em um conjunto de complexos interrelacionados e em um conjunto de atividades produtivas relativamente autônomas do espaço econômico em seu conjunto, e, assim, complexo seria um conjunto composto por uma ou várias sucessões de atividades integradas verticalmente [...] é um conjunto econômico composto pela sucessão de etapas produtivas vinculadas à transformação de uma ou mais matériasprimas, cuja produção tem por base o controle do potencial biológico e do espaço físico (VIGORITTO, 1978, p. 3).

Para Müller (1982a, p. 47) a industrialização da agricultura é um novo marco e condicionante da acumulação capitalista, principalmente no tocante da parcela da indústria produtora de bens de capital. A interdependência entre a agricultura-indústria, baseada no processo de industrialização da agricultura, consolidou-se no país de forma concentrada e oligopolizada, tanto a montante como a jusante. Para este autor, existe uma clara distinção entre todos os elos que compõem o Complexo Agroindustrial, ou seja, a indústria a montante – a agricultura – a indústria a jusante, e as demais atividades satélites como: financiamento, comercialização e serviços. Portanto, a indústria para a agricultura deve ser entendida como o elemento cinético do Complexo Agroindustrial. A indústria é a chave para entender as transformações na agricultura. A partir deste entendimento tem-se a agricultura subordinada ao capital industrial e financeiro e as próprias transformações advindas da indústria e que permeiam o campo são utilizadas como objeto de análise em detrimento da agricultura que passa a não ser mais utilizada isoladamente como referencial teórico para explicar os processos econômicos, sociais e políticos. Já em Haguenauer et al. (1984), o conceito de Complexo Agroindustrial não pressupõe o encadeamento das indústrias de máquinas e implementos. Ou seja, na visão de Haguenauer, o conceito de Complexo Agroindustrial desconsidera a indústria para a agricultura. Por outro lado, Müller (1989) considera o Complexo Agroindustrial como um espaço de representação das relações entre as atividades principais (comércio, indústria e agricultura) e atividades secundárias (serviços). Porém, do ponto de vista do Complexo Agroindustrial como unidade de análise, Müller passa a vincular as atividades do campo às atividades industriais de acordo com dois pontos extremos: a montante, com as máquinas e
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insumos para a agricultura e a jusante, com as empresas de beneficiamento/processamento e as empresas que comercializam os produtos finais. Nesta seqüência, as atividades eminentemente agrícolas são partes integrante da dinâmica, mas quem define o padrão inovativo-tecnológico no interior do Complexo Agroindustrial são as atividades industriais voltadas para a agricultura. Do ponto de vista de uma cadeia de produção o consumidor final tem papel fundamental, pois este é capaz de ditar os avanços para trás da cadeia a partir de suas decisões quanto ao preço e à qualidade do produto ofertado.
[...] a lógica de encadeamento das operações, como forma de definir a estrutura de uma CPA, deve situar-se sempre de jusante a montante. Esta lógica assume implicitamente que as condicionantes impostas pelo consumidor final são os principais indutores de mudanças no status quo do sistema. Evidentemente, esta é uma visão simplificadora e de caráter geral, visto que as unidades produtivas do sistema também são responsáveis, por exemplo, pela introdução de inovações tecnológicas que eventualmente aportam mudanças consideráveis na dinâmica de funcionamento das cadeias agroindustriais. No entanto, estas mudanças somente são sustentáveis quando reconhecidas pelo consumidor como portadoras de alguma diferenciação em relação à situação de equilíbrio anterior (BATALHA, 1997, p. 27).

Para Pinazza et al. (1999), os desejos e as preferências dos consumidores funcionam como fios condutores para ações e inovações desencadeadas nos elos da cadeia, ou seja, as manifestações na ponta da cadeia são repassadas entre clientes e fornecedores que estão interligados por relações interdependentes. Em Pires (2004) é apresentada uma abordagem que diferencia da definição de cadeia produtiva entendida por Batalha (1997), Kliemann Neto (2003), Malheiros (1991) e Morvan (1985, 1988). Para este autor a cadeia de produção é um conjunto representativo de atividades que integram um determinado setor industrial. Assim, pode-se falar da cadeia produtiva da indústria de calçados, da indústria de automóveis, da indústria de softwares, etc. Em Müller (1989), o cerne da sua idéia acerca da constituição do Complexo Agroindustrial gravita em torno das articulações setoriais entre a indústria e a agricultura, onde esta última perdera o seu caráter autônomo. A proposta de Complexo Agroindustrial em Müller deriva de uma configuração construída a partir das noções de agribusiness, filière e de complexo industrial. O ponto de partida deste trabalho emerge da existência de relações entre agricultura-indústria, analisada sob a perspectiva do advento inovador tecnológico que passa a
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permear a agricultura. Ou seja, o setor agrícola estaria sendo absorvido por setores industriais localizados nas extremidades do encadeamento técnico-produtivo: numa ponta temos a indústria para a agricultura - fornecedora de bens de capital e insumos modernos (denominado de setor a montante da agricultura); e na outra ponta a indústria da agricultura - processadora da matéria-prima agrícola - agroindústria (denominado de setor a jusante da agricultura). Segundo Silva (1991, p. 6), as denominações a montante e a jusante estão associadas à idéia de "que os investimentos realizados em determinadas atividades tinham o poder de induzir o surgimento de outras atividades naqueles ramos que estivessem imediatamente em contato". Diante de tais articulações entre a indústria a montante, a agricultura e a agroindústria a jusante pode-se identificar o fio condutor que permite visualizar a complexidade deste sistema. Para Kageyama et al. (1988) apud Silva (1989), com a consolidação dos CAI a dinâmica da agricultura brasileira passa a ser determinada pela interdependência entre os setores industriais fornecedores de máquinas e insumos modernos e suas interligações com as agroindústrias. O deslocamento do eixo determinante da dinâmica setorial agricultura-indústria implica na superação do enfoque analítico que buscava explicar a agricultura como um setor primário da economia, retroalimentada pelos seus próprios recursos e insumos internos disponíveis que eram utilizados na produção de bens de consumo finais. A partir dos CAI, as agroindústrias tornaram-se processadoras de alimentos dependentes e encadeadas a jusante das indústrias produtoras de máquinas, equipamentos e insumos modernos. Por outro lado, em Silva (1989) a consolidação dos CAI implica na integração de capitais (financeiro, industrial e agrícola) que são utilizados para financiar a indústria, o comércio, os bancos, as propriedades rurais, as companhias de transporte e demais ramos industriais que se apresentarem como atividades eminentemente lucrativas e necessárias à acumulação e reprodução capitalista. Portanto, o conceito de CAI representa a emancipação da estrutura intersetorial (agricultura-indústria) utilizada como referencial analítico para explicar a própria dinâmica da agricultura. O CAI pressupõe a completa integração da agricultura com a indústria, constituindo-se como um novo padrão produtivo emergente, heterogêneo e multideterminado. Para Castanho Filho (1988) à medida que a agricultura passa gradativamente da condição de auto-suficiência para uma condição de integração e interdependência com os

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diversos setores da indústria fica caracterizada a concepção de CAI em detrimento do referencial analítico que utilizava o termo “agricultura” para explicar a sua própria dinâmica. Segundo Kautsky (1980), no final do século XIX já existia claros sinais de transformação no campo e uma estreita ligação entre agricultura e indústria. Este autor sugere que “[...] a razão dessa mudança deve ser procurada, como a de qualquer outra grande modificação na agricultura moderna, no desenvolvimento da indústria, que põe o campo sob a sua dependência”. Para Kautsky (1980), buscando subsídios em Marx (1986), ambos concordam que a transformação da agricultura converge para a constituição de um novo ramo da indústria, completamente dominado pelo capital, pois esta transformação é ditada pelo ramo mais avançado da economia. Neste ponto de partida, a compreensão da agricultura torna-se relativa, pois sugere o deslocamento do eixo desta para a indústria, desdobrando-se num conceito mais amplo e dinâmico, ou seja, a instituição do Complexo Agroindustrial (CAI). Nesse processo pode-se ainda afirmar que a agricultura perde a sua autonomia, bem como a sua capacidade de traçar os próprios rumos, deixando os grupos sociais rurais a mercê do interesse do capital industrial e financeiro. Partindo desta premissa, Kautsky (1980) analisa o surgimento da relação entre agricultura e indústria deixando clara esta subordinação e dependência, o que resultará na industrialização da agricultura.

O camponês deixa de ser, pois, o senhor na sua exploração agrícola. Esta se torna um apêndice da exploração industrial por cujas conveniências deve orientar-se [...] Freqüentemente, também cai sob a dependência técnica da exploração industrial [...] Como nos demais setores da sociedade capitalista, a indústria acaba por vencer a agricultura [...]. A indústria constitui a mola não apenas de sua evolução, mas ainda da evolução agrícola. Vimos que foi a manufatura urbana que dissociou, no campo, a indústria e a agricultura, que fez do rural um lavrador puro, um produtor dependente dos caprichos do mercado, que criou a possibilidade de sua proletarização [...] Foram criadas assim as condições técnicas e científicas da agricultura racional e moderna, a qual surgiu com o emprego de máquinas e deu-lhe, pois, superioridade da grande exploração capitalista sobre a pequena exploração camponesa (KAUTSKY 1980, p. 281-318).

Ainda em Kautsky (1980), a especialização da produção capitalista vis-à-vis com o aperfeiçoamento da mão-de-obra, das máquinas, equipamentos, sementes e raças de animais ampliou consideravelmente a dependência entre a produção e o mercado, tornando proprietários e trabalhadores rurais reféns do comércio para garantir a própria sobrevivência.
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Também em Kautsky (1980), o primeiro pressuposto básico para o sucesso da implementação de máquinas e equipamentos no campo foi decorrente da elevação do nível de produção, já alcançado com a nova divisão do trabalho e com a especialização, pois a mecanização no campo envolve um alto grau de ociosidade e para compensar o período de não utilização das máquinas seria necessário que estas tivessem um ótimo aproveitamento nos poucos meses que realizassem trabalho. Ou seja, com a especialização do trabalho, em função do modo de produção capitalista, o agricultor passa a concentrar-se na monocultura, deixando de produzir a maioria dos alimentos necessários à subsistência, como também passa a depender das ferramentas, equipamentos e fertilizantes agora produzidos pelas indústrias e ofertados no mercado.

O produtor rural produz apenas uma parte do que consome ou, às vezes, nem isso, por ter se tornado um “especialista” em produzir determinada cultura ou criação. As demais funções são executadas por inúmeros outros agentes econômicos. O armazenamento, a transformação, o processamento e embalagem, a distribuição dos produtos se encontra hoje nas mãos de entidades que se situam fora da unidade produtiva. Da mesma forma, outros tipos de atividades antes desempenhadas no contexto do mundo rural vão para “fora” dos limites das “fazendas”: a fabricação de equipamentos e implementos agrícolas; de maquinários; dos chamados insumos modernos, como agrotóxicos, fertilizantes químicos, rações, medicamentos, etc. (CASTANHO FILHO, 1988, p. 2).

Castanho Filho (1988) enfatiza que o CAI está articulado com outros agentes econômicos, tais como: Estado, instituições financeiras e empresários que instalam suas atividades industriais na órbita de todo o processo visando ao fornecimento de energia, transporte, metalurgia, química, entre outras atividades. Assim, a concepção de CAI está intrinsecamente relacionada com o processo de modernização da agricultura a partir das inovações e adaptações tecnológicas que desenvolvem-se no âmbito das indústrias. Ou seja, o avanço da industrialização implica na subordinação da agricultura ao capital e sua completa integração com a produção industrial. De fato, a agricultura torna-se um novo viés de acumulação, valorização e reprodução do capital em geral, pois as diversas atividades eminentemente agrícolas e agropecuárias passam a depender, a montante, da compra de equipamentos, máquinas e insumos modernos e da venda de seus produtos intermediários (matérias-primas) que serão utilizados a jusante do processo produtivo.
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Portanto, a dinâmica do CAI pressupõe a industrialização da agricultura, que por sua vez, representa a subordinação da própria agricultura aos interesses do capital, sobretudo do capital industrial. Ou seja, a “auto-suficiência” produtiva no campo é substituída pela “industrialização”. Os agricultores e pecuaristas consomem a montante, as máquinas, equipamentos e insumos industrializados e produzem a jusante, as matérias-primas necessárias às outras indústrias de transformação. Todo esse processo é facilitado pelo fluxo de capitais que se articulam entre as fases do processo produtivo. O termo Complexo Agroindustrial (CAI) tem sido usualmente utilizado para identificar as articulações existentes entre setores da economia, sobretudo o setor agrícola com o setor industrial. Ou seja, a dinâmica do processo de industrialização da agricultura e, conseqüentemente, a consolidação do Complexo Agroindustrial no Brasil. Porém, a interdependência e a inter-relação entre os setores sugerem a definição de CAI como uma estrutura peculiar e desprovida de qualquer tipo de fragmentação setorizada da economia. Por outro lado, pode-se dividir em duas vertentes a teoria que cerca o termo CAI, concebido a partir das estreitas relações entre agricultura e indústria: a) que define o CAI como parte dos complexos industriais já existentes na economia e composto por vários sistemas e cadeias agroindustriais, conforme postula Machado Filho et al. (1996) ou complexos particulares, visão predominante em Müller (1982a); b) que define o CAI de forma limitada e de fácil identificação de seus encadeamentos, abordagem defendida por Kageyama (1987), ou seja, os denominados Complexos Agroindustriais propriamente ditos, também defendida por Silva (1991) e adotada neste trabalho. Por outro lado, para Litschitz e Prochnik (1991) torna-se possível compreender a dinâmica agroindustrial a partir da intensidade dos fluxos de compra e venda que ocorrem entre os setores agregados ao próprio CAI ou entre os setores de outros CAI.

Assim, um complexo é constituído por um conjunto de setores escolhidos de tal forma que (i) para cada setor do complexo, os fluxos de compra e venda mais intensos são com outros setores do mesmo complexo e (ii) os fluxos de compra e venda, de cada setor do complexo, com setores de outros complexos são, consequentemente, menos significativos (LITSCHITZ E

PROCHNIK, 1991, p. 1).

Para Litschitz e Prochnik (1991) no CAI ocorre a interligação entre os setores que juntos formam um conjunto de cadeias produtivas que se ramificam, a jusante, a partir da
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matéria-prima principal. Assim, o CAI caracteriza-se pela forte integração entre os setores envolvidos, pois a relação de dependência entre os próprios setores delimita cada complexo existente na economia. Todavia, mesmo existindo relações intersetoriais entre dois complexos distintos as cadeias produtivas podem ser facilmente identificadas, pois a fraca integração entre os conjuntos permite a delimitação e a distinção entre ambos. Para estabelecer uma análise mais ampla do processo produtivo deve-se adotar o ponto de vista teórico a partir do enfoque que possibilitará o conhecimento de todos os agentes dinamizadores da produção agroindustrial, principalmente a montante. Ou seja, uma análise do processo de integração, interdependência, articulação, interligação e inter-relação entre e intersetorial da economia a partir do viés de Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA) deve ser apenas utilizado para delimitar o espaço de abrangência de cada CAI, pois é a fraca interação entre os elos das diversas CPA que permitem a identificação e distinção de cada CPA. Já a forte integração entre os diversos elos das cadeias produtivas é a essência da constituição de cada CAI. Para tanto, a utilização da concepção de Complexo Agroindustrial (CAI) em detrimento do viés de Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA) para explicar as transformações ocorridas a partir do processo de industrialização da agricultura justifica-se, pois o conceito de CAI possibilita a utilização de ferramentas fundamentais para interpretar a realidade. A partir do CAI pode-se identificar a distribuição do poder ao longo do encadeamento que se dá da jusante a montante, pois além de enfatizar a matéria-prima possibilita agregar à análise a inter-relação entre D1 – Agricultura – Indústrias de Transformação. Portanto, no âmbito do conceito de CAI fica evidenciada a inter-relação e a interdependência entre os setores industriais que produzem, a montante, máquinas e equipamentos e insumos modernos para atender a agricultura (indústria para a agricultura) e outros setores também industriais que consomem, a jusante, as matérias-primas necessárias para a transformação destas em produtos finais. Na abordagem de Litschitz e Prochnik (1991) o foco principal da análise do CAI situa-se a jusante das matérias-primas principais. Por outro lado, a montante dessas matériasprimas principais tem-se os setores produtores de insumos, principalmente adubos e, a jusante destes todas as demais etapas intermediárias, até a fase de distribuição do produto final. No entanto, o conceito de CAI defendido por Litschitz e Prochnik (1991) não agrega, a montante das indústrias produtoras de adubos, o setor de produção de bens de capital voltados para
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atender as necessidades da agricultura moderna, ou seja, as chamadas “indústrias para agricultura”, produtoras de máquinas, equipamentos e insumos modernos. Assim, para Litschitz e Prochnik (1991) as matérias-primas principais originam cadeias produtivas distintas e que juntas delimitam e compõem o CAI. Para este autor, essas matérias-primas “especializadas” são: café; cana-de-açúcar; trigo, soja e pecuária. Em Müller (1982) apud Litschitz e Prochnik (1991) na delimitação do CAI devese incluir, a montante das matérias-primas, as chamadas indústrias que produzem para a agricultura, ou seja, os setores industriais responsáveis pela implementação de máquinas, equipamentos e insumos modernos no seio da agricultura. De fato, Müller (1982) observa que a partir da década de 70 intensificaram-se no campo os avanços tecnológicos. Com o crescente fluxo de máquinas, equipamentos e insumos modernos entre os setores a montante dos produtores das principais matérias-primas a agricultura tornou-se refém dos avanços e estancamentos das indústrias de bens de capital. Neste período da história brasileira é que se formam os Complexos Agroindustriais, definidos num primeiro momento como o conjunto de processos econômicos e técnico-produtivos, que passam a interferir nas relações sociais e políticas que norteiam não só a produção, beneficiamento e transformação da matéria-prima, mas também a produção de bens de produção voltados para a agricultura e os aportes financeiros dela decorrente (MÜLLER, 1982a, p. 48). Dessa forma, fica evidenciada a perda do caráter autônomo da agricultura. A interdependência da agricultura, não apenas com os setores que se apresentam a jusante do processo produtivo, mas, sobretudo, com o setor de bens de capital situado a montante, caracterizam o CAI. Este se reproduz condicionado a uma base técnica industrial, homogênea e determinante da dinâmica da agricultura moderna. Cabe ressaltar que Müller, Litschitz e Prochnik concordam no ponto quando expressam a subordinação da agricultura ao capital industrial e financeiro.

A dinâmica da agricultura não estaria mais sujeita à lógica do capital fundiário e sim a do capital industrial e financeiro, que teria erguido um espaço unificado de valorização (LITSCHITZ E PROCHNIK, 1991, p. 6).

Para Müller (1982) o Complexo Agroindustrial caracteriza-se como um conjunto de ramificações oriundas de uma determinada matéria-prima. Dessa forma, pode-se denominar de Complexo Agroindustrial todos os processos industriais e comerciais ocorridos
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a partir da matéria-prima até a consolidação de produtos finais. Dessa forma, tem-se uma limitação do encadeamento na definição de CAI quando não são consideradas as indústrias que produzem para a agricultura. Na definição de Complexo Agroindustrial (CAI) concebida por Silva (1998) e Müller (1989) é defendida a internalização da produção de máquinas, equipamentos e insumos modernos voltados para atender as atividades agroindustriais como pressuposto conceitual da existência do CAI. A concepção do Complexo Agroindustrial pressupõe a delimitação de sua área de abrangência. A delimitação não só espacial, mas do processo técnico-produtivo, permite visualizar um conjunto de atividades inter-relacionadas e interdependentes e que facilitariam a identificação de cadeias produtivas relativamente isoladas. A partir deste isolamento teríamos diversos complexos independentes. Ou seja, dentro desta perspectiva o CAI pode ser definido a partir da forte interação como “[...] conjuntos de atividades fortemente relacionadas entre si (por compras e vendas) e fracamente relacionadas com o resto das atividades” (KAGEYAMA, 1987, p.2). Para Silva (1998), no processo de industrialização da agricultura a indústria passa a ditar as mudanças no campo, e possibilitada a partir da internalização da indústria voltada para a agricultura dentro do próprio país. Assim, a produção agrícola constitui-se num elo da cadeia, dando origem aos Complexos Agroindustriais. Esta nova dinâmica entre agricultura e indústria, ou seja, a ação conjunta e integrada entre a indústria para a agricultura/agricultura/agroindústria, “remete ao domínio do capital industrial e financeiro e ao sistema global de acumulação” (KAGEYAMA,1987, p.11). Para Kageyama (1987), o estreitamento das relações intersetoriais, a fraca visibilidade na distinção dos setores agrícola e industrial, a predominância de técnicas produtivas convergentes e a consistência dos fluxos econômicos entre a agricultura e a indústria, resultaram na subordinação da agricultura à dinâmica industrial. Desta forma, para Kageyama et al. (1988) estas eminentes relações permitem a definição de um tipo de complexo agroindustrial completo e integrado, ou seja, onde pode-se constatar uma forte integração com a indústria de insumos industriais necessários à produção situada a montante e também com a indústria processadora a jusante de todo o encadeamento. Em Kageyama et al. (1988) são citados como exemplos de Complexo Agroindustrial Completo e Integrado os complexos avícola, açúcar e álcool, carne e soja (objeto deste estudo). Já os Complexos

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Agroindustriais Incompletos são caracterizados por uma fraca integração com a indústria a montante. Estes complexos encontram-se na produção de laranja, milho e laticínios. Por outro lado, vários produtos agrícolas podem não estar inseridos nos Complexos Agroindustriais, mas tiveram suas atividades modernizadas com o passar do tempo. Essas atividades modernizadas e sem vinculações específicas, mas que dependem de máquinas e insumos, e ainda não apresentam a forma de complexos, são o feijão, o arroz e o café. Além disso, a produção artesanal não modernizada e que não apresenta estreitas ligações intersetoriais como a banana, mandioca e outros alimentos básicos, são também excluídos da concepção de CAI. Torna-se importante enfatizar que a articulação estabelecida entre a agricultura e a indústria, bem como o caráter histórico utilizado para delimitar os Complexos Agroindustriais, ainda são elementos de um processo em curso. Por outro lado, uma análise do CAI balizada no conceito de complexo industrial e na utilização da matriz insumo-produto deve ser complementada pelo processo histórico. Ou seja, a delimitação de um espaço econômico caracterizado pela homogeneidade da base técnica, onde configuram-se sistemas ou cadeias agroindustriais integradas tanto a montante (setor mais dinâmico) como a jusante do setor agrícola, devem ter como premissas as transformações ocorridas no setor agropecuário, considerando-se a existência dos Complexos Rurais e a sua decomposição, os processos de modernização (entendida como etapa da industrialização da agricultura e da formação dos CAI) e industrialização da agricultura até a consolidação dos Complexos Agroindustriais. Independentemente das diversas definições conceituais de Complexo

Agroindustrial (CAI) abordadas por inúmeros autores como Müller, Batalha, Araújo, Guimarães, Lifschitz, Prochhnik, Lauschner, Graziano da Silva, Kageyama, etc. o ponto de decolagem da análise destes mesmos autores está fixado numa matéria-prima, encadeada tanto a montante, como a jusante. Por outro lado, nesta dissertação adotou-se a definição conceitual de CAI defendida por Graziano da Silva e Ângela Kageyama por entender que os processos de modernização e internalização das indústrias de bens de capital voltadas para a agricultura (D1 da Agricultura) possibilitaram compreender a sua completa subordinação aos interesses do capital industrial, bem como a participação marcante do Estado na consolidação dos encadeamentos situados nos flancos da produção agrícola. Para analisar o desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul tem-se como foco a ótica do CAI, mas sem perder de vista as
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interações com o ambiente externo, bem como as inter-relações que acontecem no interior do próprio CAI. Neste ponto, torna-se de fundamental importância delimitar logo de início o encadeamento técnico e produtivo entre as partes que constituem o CAI em análise. A determinação do espaço analítico delimitado tem como foco central a produção da soja em grãos como matéria-prima e ponto de partida da análise. Dessa forma, o limite do encadeamento de jusante a montante, como visto anteriormente, está restrito, para trás, com a produção de máquinas equipamentos e insumos modernos e, para frente, com a agroindustrialização a partir do esmagamento dos grãos de soja. Ou seja, o espaço analítico está delimitado entre três sistemas (indústrias, propriedades agrícolas e agroindústrias) intimamente associados entre si, inter-relacionados por três segmentos (industrialização, produção de matéria-prima e agroindustrialização) e dois mercados: mercado entre os produtores de máquinas, equipamentos e insumos modernos e os produtores rurais; mercado entre produtores rurais e agroindústrias esmagadoras de soja. Vale ressaltar que diante de uma concepção tridimensional, um terceiro mercado surge entre os produtores de máquinas e equipamentos e agroindústrias. Nesta divisão não será considerado o segmento denominado de comercialização, ou seja, empresas que estão no final do encadeamento e que viabilizam a distribuição, o comércio e o consumo de produtos finais. Os diversos fatores que têm influência sobre a estrutura também devem ser considerados, pois os limites do sistema permitem relações com o meio ambiente (Figura 2).
PRODUÇÃO DE MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E INSUMOS MODERNOS
FATORES LEGAIS FATORES ECONÔMICOS AGROINDUSTRIALIZAÇÃO

INDUSTRIALIZAÇÃO

PRODUÇÃO DE MP

FLUXO DE INFORMAÇÃO

FLUXO FINANCEIRO

FLUXO FÍSICO

MERCADO

MECANISMOS DE COORDENAÇÃO FATORES DE INFRA-ESTRUTURA FATORES INSTITUCIONAIS FATORES TECNOLÓGICOS FATORES AMBIENTAIS

PRODUÇÃO DE MATÉRIA-PRIMA

MERCADO

AGROINDÚSTRIA

Fonte: Adaptado de BATALHA, Mario Otávio, et al., 1999. FIGURA 1: DELIMITAÇÃO DO ESPAÇO ANALÍTICO E DO ENCADEAMENTO ADOTADO.
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Este estudo não tem a pretensão de aprofundar as questões conceituais entre a definição de Agribusiness introduzida em 1957 por John Davis e Gay Goldberg como forma de integrar as diversas operações (produção nas unidades agrícolas, armazenamento, processamento e distribuição de mercadorias) que estavam associadas a outros setores da economia e não somente à agricultura a partir da matriz e insumo-produto de Leontieff. Também não foi alvo deste estudo a noção de Commodity System Approach (CSA) ou Enfoque Sistêmico de Produto utilizado por Goldberg em 1968 para estudar os sistemas de produção de laranja, trigo ou soja nos Estados Unidos, tendo como ponto de partida o paradigma de estrutura-conduta-desempenho da organização industrial, onde cada sistema é estudado em termos da sua lucratividade, estabilidade de preços, estratégia das corporações e adaptabilidade (ZYLBERSZTAJN, 1995, p. 121). Da mesma forma, a Analyse de Filières ou Análise de Cadeia, utilizada como ferramenta pela escola francesa de economia industrial, estando esta sistematizada por Morvan (1988, p. 247) apud Batalha (1997, p. 26) como “uma sucessão de operações de transformação dissociáveis, capazes de ser separadas e ligadas entre si por um encadeamento técnico [...] conjunto de relações comerciais e financeiras que estabelecem, entre todos os estados de transformação, um fluxo de troca, situado de montante a jusante, entre fornecedores e clientes [...] conjunto de ações econômicas que presidem a valoração dos meios de produção e asseguram a articulação das operações”, bem como os conceitos de Cadeia de Produto e de Cadeia de Produção Agroindustrial (CPA), utilizados por Batalha (1997) como sinônimos e delimitados a partir de um produto final e a definição de Cadeia de Produção definida a partir da identificação de uma determinada matéria-prima, estando também associada à concepção de Complexo Agroindustrial (CAI), só foram consideradas para exemplificar o fluxo produtivo da soja. Nesse sentido, não é abordada neste presente estudo a idéia de Supply Chain Management (SCM) ou Gestão da Cadeia de Suprimentos (abordagem que se aproxima dos conceitos de CSA e Filière) e que de acordo com os argumentos de Bowersox et al. (1996), o compartilhamento de informações é visto como forma de melhorar a eficiência nos canais de distribuição estabelecidos entre os agentes econômicos e são maneiras utilizadas para traçar o caminho seguido pela soja em grão até chegar à mesa do consumidor final na forma de um produto acabado, como por exemplo, a margarina. Apesar destas distinções e tendo como ênfase o processo estabelecido a partir da interdependência entre os elementos que constituem o CAI, este não pode ser visto como a
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simples soma individual das partes que integram os fluxos tecnológico, produtivo, financeiro e de informações. Deve-se considerar também os diversos agentes, arranjos institucionais e a articulação entre vários mercados localizados entre as partes e que cumprem um papel significativo de intermediação. As inter-relações entre as partes do CAI são facilitadas pelo mercado, gerando mecanismos de propagação e retroalimentação num ciclo constante de causa-efeito que impossibilitaria uma análise baseada na fragmentação e segmentação dos encadeamentos de jusante a montante. Com efeito, segundo Batalha (1997), a lógica de todo encadeamento de uma cadeia deve iniciar-se de jusante a montante, pois neste sentido, e só neste, o consumidor final apresenta-se como o indutor das mudanças que acontecem no sistema. Todavia, Batalha (1997) admite que esta convenção simplifica a análise do sistema, mas reconhece que unidades industriais também podem ser consideradas, por si só, como agentes inovadores pela introdução de novas tecnologias e promotores de mudanças. Tais mudanças só serão sustentáveis ao longo prazo quando forem reconhecidas pelo consumidor a partir de alguma diferenciação relevante. No próximo capítulo será enfatizado a participação do Estado na consolidação do Complexo Agroindustrial (CAI) no Brasil, no Centro-Oeste e em Mato Grosso do Sul. Neste capítulo procura-se evidenciar que a industrialização voltada para a agricultura, a modernização no campo e a integração dos capitais industrial e financeiro foram comandadas pelo Estado.

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CAPÍTULO III A CONSTITUIÇÃO DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL E O PAPEL DO ESTADO 3.1. AGRICULTURA MODERNA: A PARTICIPAÇÃO DO ESTADO NO BRASIL E NO CENTRO-OESTE Para Serra (1981), a partir da segunda metade da década de 50 até o início da década de 60 o Brasil passou por um período decisivo de industrialização da sua estrutura produtiva. Neste relativo curto espaço de tempo instalou-se no país indústrias automotivas, de construção naval, material elétrico pesado e, sobretudo, indústrias de máquinas e equipamentos. Ou seja, impulsionada pelo Plano de Metas (1956-1960) do Governo Federal a industrialização ampliou significativamente os setores de produção de bens de capital. Em consonância com o processo de industrialização em curso, o Estado envidou esforços para complementar a estrutura industrial produtiva realizando investimentos em infra-estrutura e na produção direta de insumos modernos. Este processo de industrialização e de infra-estrutura de base, ainda que articulado pelo Estado, esteve sustentado sob o seguinte tripé: capital estrangeiro; empresas públicas; capital privado nacional. Este último recebeu a proteção direta do Estado sob a forma de incentivos que beneficiariam as indústrias dos setores de bens de capital e demais fornecedores das empresas multinacionais aqui instaladas. A participação direta do Estado pode ser observada na ampliação da produção de aço, petróleo e de energia elétrica.

Entre 1949 e 1959, a formação bruta de capital fixo das empresas com participação do governo federal quadruplicou como proporção do PIB, passando, por outro lado, de 3,1 para 8,2 por cento do total da Formação Bruta de Capital Fixo. Por sua vez, o investimento governamental total [...] aumentou entre 1956 e 1960 a uma taxa aproximada de 15 por cento ao ano em termos reais; os gastos governamentais como proporção do PIB elevaram-se de 15,3 para 17,8 por cento entre 1955 e 1960/61 (SERRA, 1981, p. 76).

Ainda em Serra (1981), o ciclo de expansão capitalista vivenciado no período de 1955-1962, denominado de Ciclo I de Expansão, estivera liderado pelas indústrias pertencentes aos setores de bens de capital e de bens de consumo duráveis. Esta liderança pode ser expressa nas altas taxas de crescimento industrial observadas no período de 19551962. Ou seja, neste período os setores de bens de capital e de bens de consumo duráveis tiveram, respectivamente, taxas médias de crescimento de 26,4% e 23,9%.
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Apesar das elevadas taxas de crescimento do setor de bens de capital, sobretudo nos ramos de máquinas e equipamentos, Serra (1981) afirma que tal setor da indústria não se completa. Ou seja, o processo de internalização do chamado Departamento I (D1) da economia não chega a completar-se totalmente. Todavia, o significativo crescimento do setor de bens de capital, mesmo incompleto, cria mecanismos endógenos capazes de imprimir um caráter cíclico no processo de acumulação de capital e determinar os períodos de aceleração e estancamento da economia. Diante deste ponto de vista a internalização já estaria concluída. Ressalta-se ainda que a agricultura manteve a sua taxa de crescimento constante, não acompanhando a expansão industrial. Durante o Plano de Metas a agricultura foi precedida pela indústria, ficando alijada dos investimentos estatais ocorridos no período. Desde o pós-guerra até o início dos anos 60 a taxa de crescimento da agricultura manteve-se por volta de 4,5% ao ano. Por outro lado, não foi observada qualquer modificação do padrão de produção vigente na época; a agricultura continua a produzir de forma extensiva. Tampouco ocorreu a incorporação de progresso técnico ou alteração na base técnica de produção agrícola. Para Serra (1981), entre os anos de 1962-1967 a economia do país passou por um período de desaceleração, pois a taxa média de crescimento do PIB reduziu-se mais que a metade. Tal fato deve-se a conclusão do “pacote” de investimentos públicos e de capital estrangeiro realizados nos anos de 1956/57. Concomitantemente, o fim da demanda reprimida por bens de consumo duráveis e o excesso de capacidade instalada, o que reduziu o ritmo de crescimento da formação de capital, repercutiram negativamente em todos os setores da indústria de transformação. O grande volume de investimento concentrado no tempo, em projetos específicos e de relevância relativa proporcionaram uma dissipação das forças que impulsionavam a expansão. Sob a ótica da tendência cíclica da economia, a desaceleração subseqüente à expansão ocorrida nos anos de 1955-62 seria inevitável. No entanto, deve-se considerar o contexto histórico da época: implementação em 1963 do Plano Trienal, concebido a partir de uma política de estabilização monetária com forte viés contracionista; instabilidade política; arrochos salariais; inflação. Esta última, impulsionada pela diminuição do prazo para reajustes dos salários, resistência sindical contra o achatamento do salário real e queda da produção agrícola decorrente de fatores climáticos ocorridos, principalmente, no centro-sul do país. Por outro lado, a participação do Estado no processo de modernização e industrialização da agricultura em Mato Grosso do Sul inicia-se, sobretudo, a partir da metade
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da década de 60, quando foram instituídos fundos de financiamento e políticas públicas que ensejaram a constituição do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS), demais culturas, bem como produtos de origem animal. Apesar da desaceleração industrial, a modernização da agroindústria e da agropecuária foi defendida como prioridade a partir dos governos militares. Deve-se atentar que esta definição de prioridades estava intimamente relacionada com a necessidade de estabelecer um fluxo de divisas para o interior da nação a partir da exportação de produtos primários e outros produtos manufaturados como forma de compensar as transferências de lucros das empresas de capital estrangeiro recentemente instaladas, bem como as expressivas importações de bens de produção realizada que, juntas, depredavam o equilíbrio da Balança de Pagamentos brasileira. Ressalta-se que até 1965 a atividade agrícola na região de Mato Grosso do Sul (ainda Estado de Mato Grosso) tinha uma posição secundária, quando comparada à pecuária. O fraco mercado consumidor interno, o relativo atraso tecnológico e a precariedade da infraestrutura voltada para ampliação, armazenagem e escoamento da produção apresentavam-se como os principais fatores inibidores de investimentos nesta atividade no Estado (uno na época). As lavouras de arroz, mandioca, feijão e milho, produtos característicos da pequena produção em Mato Grosso do Sul, estavam presentes e associados ao cultivo tradicional que era praticado nas áreas de colônia e em solos de matas, recentemente abertos, que por serem mais férteis, permitiam uma produção extensiva, transitória e ainda muito restrita. A prática da lavoura não tinha como característica a utilização de grandes propriedades. Estas eram destinadas à pecuária. Geralmente, as lavouras eram utilizadas em áreas novas, como forma de baratear os custos das pastagens. Diante de tal contexto, diversos fundos de fomento foram instituídos em 1964 e 65 tendo como objetivo captar recursos no exterior para incentivar programas e projetos de modernização agropecuária coordenados pelo Estado. Dentre os principais fundos de fomento criados em 1964 pode-se citar: Fundo Nacional de Refinanciamento Rural (FNRR); Fundo de Democratização do Capital de Empresas (FUNDECE); Fundo de Financiamento para Aquisição de Máquinas e Equipamentos Industriais (FFAMEI); Fundo de Financiamento à Importação de Bens de Capital (FIBEP). Em Serra (1981), torna-se importante enfatizar que a internalização da produção de bens de capital (1955-1962), mesmo que incompleta, não só atenuou parcialmente os efeitos da desaceleração econômica, transferindo para o exterior parte dos
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reflexos da crise, mas também remeteu às indústrias que produziriam para a agricultura a necessidade de estabelecer um novo momento de expansão produtiva direcionada para o campo. Segundo Tavares et al. (1981), no período de 1965-1973 a participação dos setores agropecuário e da indústria era, respectivamente, 2,5% e 97,5%. Já no período de 1973-1977, a agropecuária passa a representar 6,4%, ou seja, um aumento relativo de 156%. Para Mantega et al. (1979), os principais produtos primários e também manufaturados contribuíram, no período de 1968-73, com o crescimento das exportações na ordem de 27% ao ano, o que permitiu um equilíbrio na balança comercial em virtude da crescente importação de bens de produção. O PIB neste mesmo período cresceu em média 12% ao ano. Em 1965 foi regulamentado o Fundo Geral para Agricultura e Indústria (FUNAGRI) que apesar de estar destinado tanto à indústria como à agricultura, financiou esta última em quase a totalidade dos recursos disponíveis. O FUNAGRI englobava divisas de três fundos: FUNDECE, FIBEP e FNRR. No final deste mesmo ano foi criado o Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR). Em 1967 o FUNAGRI passou a integrar o SNCR, consolidando o sistema de crédito rural no Brasil. Para Tavares et al. (1981), a industrialização pesada no país ocorreu nos anos de 1959 e 1960 e foi liderada pelos setores de bens de consumo duráveis e de bens de capital. Dessa forma, observa-se que os fundos criados em 1964-65 estavam atrelados à formação de capital fixo (bens de capital, máquinas, equipamentos e insumos modernos voltados para a agricultura) como pressuposto e condição fundamental para modernização agrícola e agroindustrial. Tal tendência já havia se configurado com a presença das indústrias pertencentes ao setor de bens de consumo duráveis. Todavia, os resultados aparentes e que constataram a modernização e industrialização da agricultura só foram visíveis a partir da segunda metade da década de 70. Nos anos do “milagre econômico” ou Ciclo II da Expansão, processo de aceleração ocorrido no período de 1968-73, verificou-se aumento da taxa de investimento nos setores de bens de capital e de bens de consumo duráveis, bem como investimentos em infraestrutura voltados para a agricultura do Centro-Oeste do país. Em 1971, no Governo do General Médice, por intermédio do Decreto-Lei de nº. 1.192, foi criado o Programa de Desenvolvimento do Centro-Oeste, denominado de PRODOESTE. Este programa priorizou investimentos em infra-estrutura de transporte, armazenagem e beneficiamento de grãos, frigoríficos, obras de saneamento, irrigação e recuperação de terras degradadas.

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Embora a liderança dos setores de bens de capital e bens de consumo duráveis determinasse a lógica da acumulação industrial (estruturação e ampliação da capacidade industrial produtiva) e repercutisse diretamente sobre o futuro da agroindústria e da economia como um todo, percebeu-se que o efeito esperado apresentou-se de forma reduzida, quando comparado à produção industrial da época. Em Tavares et al. (1981) os setores de bens de capital e de insumos pesados têm como alicerces de sua expansão e acumulação o ritmo estabelecido pela economia e a capacidade de consumo do parque industrial instalado e internacionalizado. Ou seja, a aceleração e o crescimento dos setores de bens de capital e de insumos pesados dependiam das relações capitalistas dentro do mercado comum globalizado, bem como da capacidade do setor público em investir diretamente em suas empresas estatais ou em infra-estrutura (energia elétrica e transportes). Tal cenário configurou-se durante o Plano de Metas. Dessa forma, verificou-se que os setores de bens de capital e de insumos pesados estiveram a reboque da demanda global (nacional e internacional) e da participação do Estado a partir de encomendas às empresas estatais. Ou seja, o desenvolvimento destes setores a partir da década de 60 até a metade da década de 70 estivera muito mais atrelado ao sub-setor de bens de capital/capital que ao sub-setor de bens de capital/consumo. Por outro lado, o setor de bens de consumo não-duráveis (têxtil e no caso específico as agroindústrias processadoras de matérias-primas e produtoras de alimentos destinados ao consumo final), apesar de participar e aproveitar do período de auge da expansão, principalmente no segundo ciclo, para aumentar a taxa de acumulação do capital, sua aceleração não surte reflexos sustentáveis a montante, ou seja, sobre a expansão e modernização do setor de bens de capital e, sobretudo, no sub-setor de bens de capital/consumo. O aumento da taxa de acumulação agroindustrial não garante a sustentação das altas taxas de valorização do capital, pois não tem capacidade de retroalimentar o processo de expansão e de modernização das indústrias situadas a montante da matéria-prima. De fato, percebe-se que nos períodos de 1951-52, 1960-62 e 1971-73 o processo de modernização do parque industrial e a capacidade produtiva estavam direcionados para a importação de máquinas, equipamentos e insumos modernos, integrados às indústrias têxtil e alimentar, confirmando o padrão de concorrência internacional vigente. No período de 1968-73 o setor de bens de consumo não-duráveis representou 41% da produção em toda indústria de transformação do país. Tal relevância deve ser precedida pela considerável presença das máquinas, equipamentos e insumos modernos no processo de produção, como principal componente na função de produção e variável primordial para
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explicar as elevadas taxas de crescimento deste setor. Por outro lado, tornava-se imprescindível equilibrar as contas nacionais frente aos vastos volumes de capital financeiro que deixavam o país.
Para viabilizar acumulação de capital em escala ampliada, sob a égide do capital estrangeiro (operando principalmente no setor de bens de consumo duráveis), e com parte substancial do setor de bens de produção localizado fora das fronteiras nacionais, foi preciso estabelecer um fluxo de divisas para dentro do país, de modo a contrabalançar as remessas das empresas estrangeiras mais as vultuosas importações de bens de produção (MANTEGA et al., 1979, p. 55)

Para Mantega et al. (1979) a saída encontrada para os problemas da Balança de Pagamentos foi a implementação de um eficaz programa de exportações baseado em produtos primários como açúcar, soja, café e minério de ferro. O sucesso deste programa estendeu-se até o ano de 1973 sustentado por uma política de taxa de juros negativa, isenções de impostos e demais subvenções concedidas aos exportadores. Segundo Serra (1981), no período de 1968-1980 as exportações de produtos primários em relação à exportação de produtos industrializados e demais transações especiais teve uma participação média de 61,65% na composição das exportações totais brasileiras. Nos anos de 1968, 1969 e 1970 a participação dos produtos primários no total das exportações foi, respectivamente, 79,3%, 77,7% e 74,8%. Diante de tal composição pode-se dizer que o Governo Militar buscava na expansão da atividade agrícola voltada para a exportação como componente de uma equação deficitária na balança comercial em função das crescentes importações de máquinas e equipamentos e demais bens de produção (Gráfico 1).
CULTURA ALGODÃO1 ARROZ2 FEIJÃO MILHO CANA3 SOJA TRIGO TOTAL4 1970 1975 1980 1985 1990 ÁREA (Ha) PRODUÇÃO (Ton.) ÁREA (Ha) PRODUÇÃO (Ton.) ÁREA (Ha) PRODUÇÃO (Ton.) ÁREA (Ha) PRODUÇÃO (Ton.) ÁREA (Ha) PRODUÇÃO (Ton.) 45,0 49,0 76,0 82,0 45,0 69,0 67,0 106,0 44,0 73,0 179,0 181,0 561,0 567,0 501,0 504,0 242,0 324,0 117,0 182,0 24,0 11,0 28,0 25,0 50,0 23,0 46,0 30,0 52,0 34,0 119,0 138,0 155,0 233,0 108,0 188,0 143,0 327,0 256,0 596,0 1,7 30,0 3,6 141,0 11,6 606,0 50,0 3.170,0 67,0 4.193,0 15,0 14,0 194,0 272,0 806,0 1.322,0 1.307,0 2.558,0 1.013,1 2.299,7 2,5 1,7 41,0 9,0 122,0 110,0 201,0 318,0 184,0 204,0 359,7 412,0 989,6 1.295,0 1.471,6 2.689,0 1.809,0 6.485,0 1.497,1 7.343,7

Fonte: IBGE, SECAP e CONAB. (1) Algodão Herbáceo. (2) Arroz (Sequeiro, Várzeas e Irrigado) (3) Cana-de-açúcar (4) No total não estão computados os valores para o trigo e feijão, por serem consideradas culturas de inverno em sucessão às culturas de verão, ocupando a mesma área.
GRÁFICO 1: COMPOSIÇÃO DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS – 1968-1980, SEGUNDO IBGE.

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O auge do ciclo de expansão e do processo de acumulação capitalista ocorre no período de 1968-73. Neste período é evidenciado pesados e vultuosos investimentos e gastos do governo em infra-estrutura. Os investimentos estatais concentraram-se nas áreas de siderurgia, petroquímica, hidroelétrica e mineração, indispensáveis para a garantia e manutenção do processo de acumulação privada, pois apesar da supremacia monopolista, as empresas produtivas estatais chegavam a praticar preços menores que o necessário. Estas empresas estatais canalizavam boa parte de seus investimentos em aquisições de máquinas e equipamentos produzidos no exterior, tornando o Estado o maior importador de bens de produção. A partir de 1970-71 o parque industrial começa a apresentar sinais de ociosidade, por um lado, em função da internalização, montagem ou instalação dos setores de bens de capital e de bens de consumo não-duráveis ocorrida no período de 1959-60 e, por outro, em função da sua utilização no período de recuperação (1967-70). Segundo Oliveira (2003) no período de 1968 a 1974 o setor D1 da indústria (bens de capital) registrou elevados níveis de investimentos, sobretudo e principalmente, com a importação de máquinas e equipamentos. Em 1968, 1974 e 1980, o volume de recursos investidos na aquisição de máquinas e equipamentos foram, respectivamente, US$ 604 milhões, US$ 3,1 bilhões e US$ 3,6 bilhões. Ou seja, a partir de 1974 as importações de máquinas e equipamentos ficaram estagnadas na casa dos 3,5 bilhões de dólares. Nestes mesmos anos, a importação de produtos químicos, fertilizantes, metais, materiais plásticos, borracha e papel, corresponderam respectivamente a US$ 484 milhões, US$ 4,3 bilhões e a US$ 3,1 bilhões. Este volume de importações ocorrido no período de 1968 a 1974 e destinado à consolidar o parque industrial nacional retrata o que convencionou-se chamar por “milagre brasileiro”. A partir de 1974 é interrompida a capacidade de sustentação do setor de bens de capital em retroalimentar a demanda interna oriunda dos demais setores industriais. O Estado perde fôlego, o endividamento do país inviabiliza a manutenção dos investimentos e as altas transferências de lucros ao exterior, propiciadas pela promíscua relação estabelecida com os grandes conglomerados monopolistas internacionais que tinham como objetivo expropriar da parcela crescente do excedente do país, acabam por decretar o período de crise. Percebe-se que a participação ativa do Estado no processo de modernização e industrialização da agricultura do Centro-Oeste ocorre com maior ênfase durante as Fases de Crescimento da economia do país (entre 1955 e 1974), forjada pela internalização dos setores

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de bens de produção (indústrias de transformação) em bases nacionais e a partir de investimentos públicos e privados (estrangeiros e nacionais). O PRODOESTE, criado em 1971, tinha como objetivos acelerar o desenvolvimento da região Centro-Oeste, bem como comportar os fluxos migratórios advindos de áreas densamente povoadas, reduzir o êxodo rural em direção aos grandes centros e com isso, equilibrar a distribuição demográfica. Para tanto, tornou-se indispensável interligar o Centro-Oeste ao norte e sul do país a partir da construção de rodovias, garantindo a integração político-administrativa, aumentando a segurança nas áreas de fronteira com os países vizinhos e dinamizando o potencial da economia local. Para atingir seus objetivos, o PRODOESTE conseguiu alocar recursos da ordem de Cr$ 650 milhões (moeda da época) que atualizados para o ano de 2005, em valores constantes, estariam por volta de R$ 500 milhões. Para a construção de rodovias e estradas vicinais foram consumidos cerca de 80% do total dos recursos disponíveis. Os demais 20% foram alocados na construção de armazéns, silos, usinas, frigoríficos e saneamento. O PRODOESTE abrangeu os Estados de Mato Grosso (uno à época), Goiás (também uno à época) e o Distrito Federal. No sul do Mato Grosso, atual Estado de Mato Grosso do Sul, foram contemplados os municípios de Campo Grande (atual Capital do Estado), Dourados, Rio Brilhante, Porto Murtinho, Aquidauana, Corumbá, Miranda e Coxim. Ainda visando o desenvolvimento de áreas específicas e estratégicas do CentroOeste do país, o Governo do General Geisel institucionalizou em 1974 o Programa de Desenvolvimento do Pantanal (PRODEPAN). O PRODEPAN, segundo a EMBRAPA (1977), apresentou dificuldades após a sua institucionalização e foi realmente implementado em 1975, vigorando até 1978. Este programa foi coordenado pela Superintendência de

Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO) e teve a participação executiva de vários ministérios. O PRODEPAN tinha como objetivo gerar um pólo de desenvolvimento na região do Pantanal e seu entorno. Para que a região pudesse conceber as características de um pólo de desenvolvimento regional foram realizados diversos estudos, pesquisas, assistência técnica e projetos de infra-estrutura, tendo em vista a construção de rodovias, saneamento, instalação de energia elétrica, industrialização e crescimento das atividades relacionadas com a pecuária O PRODEPAN disponibilizou mais de Cr$ 600 milhões (moeda da época), ou seja, aproximadamente R$ 200 milhões, atualizados para 2005 em valores constantes. Os financiamentos apresentavam juros de 7% a 15% ao ano, com prazo de amortização máxima
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de 12 anos. Com os recursos foram implantados e modernizados vários frigoríficos de bovinos, ampliaram-se as estradas de acesso, os municípios da região foram beneficiados com saneamento básico e expansão da rede elétrica. A pesquisa também foi impulsionada, gerando como resultado a criação da EMBRAPA-UEPAE Corumbá, bem como a ampliação do programa de assistência técnica do Sistema ABCAR. Ainda na década de 70, com o objetivo de desenvolver a região Centro-Oeste do país, bem como promover a modernização das atividades agropecuárias, sobretudo, na estruturação e fortalecimento das médias e grandes propriedades e empresas agroindustriais, foi institucionalizado por força do Decreto-Lei nº. 73.320, de 29 de janeiro de 1975, o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados, denominado de POLOCENTRO.

Em 1975, com o apoio do Programa de Desenvolvimento de Cerrado POLOCENTRO, a região Centro-Oeste foi objeto de uma acelerada ocupação. Os incentivos contidos naquele programa proporcionaram a viabilização, em condições favoráveis, da exploração de uma agricultura moderna e competitiva. Esses benefícios foram importantes para alavancar a produção, principalmente da soja cuja área plantada apresentou um crescimento de cerca de 84% e a produção da soja de 106%, segundo dados do Censo Agropecuário 1970/80-IBGE (ASSIS et al., 2003, p. 25).

O POLOCENTRO tinha como finalidade incorporar ao cerrado, num período de 4 anos, 3 milhões de hectares voltados para a produção agropecuária. Ou seja, a meta seria distribuir 3 milhões de hectares produtivos destinando 60% às lavouras e os demais 40% a serem utilizados com pastagens. As áreas incorporadas abrangeriam o Oeste de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso (uno á época). Tal programa representou a primeira intervenção direta do Governo Federal na exploração agrícola, em bases capitalistas, do cerrado brasileiro.

[...] o Polocentro atendeu, principalmente, a médios e grandes agricultores, 81% dos beneficiados operavam fazendas de mais de 200 ha, absorvendo cerca de 88% do crédito concedido. O Polocentro propiciou a incorporação de 2,1 milhões de hectares à agropecuária do Centro-Oeste entre 1975 e 1980, só em Mato Grosso do Sul corresponderam a 30,5% desse montante (MÜLLER, 1989, p. 122).

Os recursos do POLOCENTRO abrangeram os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em Mato Grosso do Sul, uma faixa de terra de 500 mil hectares ao longo da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e situada no eixo Campo Grande – Três Lagoas, foi inicialmente contemplada e, logo em seguida, a região da Bodoquena, com
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150 mil hectares, ao longo da rodovia de ligação entre Aquidauana e Bonito, foi também beneficiada pelo POLOCENTRO. O POLOCENTRO contemplou ainda áreas secundárias do cerrado como os chapadões de São Gabriel do Oeste, das Emas e, finalmente, o chapadão do rio Corrente. Nestas áreas pode-se afirmar que os impactos do POLOCENTRO deram origem a pólos de lavoura altamente mecanizados, apesar de não terem sido contemplados com investimentos em infra-estrutura, mas basicamente em serviços. Os recursos alocados no programa no período de 1975-1977 foram da ordem de Cr$ 2 bilhões, a preços de 1975. Torna-se profícuo salientar que em consonância com os objetivos propostos, os recursos do POLOCENTRO estiveram concentrados em áreas com solos de baixo potencial produtivo (elevada acidez e baixa fertilidade natural). Esperava-se com isso atingir as metas apregoadas ao programa. Dessa forma, o POLOCENTRO esteve sustentado pelo seguinte tripé: infraestrutura, serviços e crédito rural. Os serviços englobavam assistência técnica e pesquisas. Esta última esteve voltada para experimentação agropecuária. Do ponto de vista da modernização, pode-se dizer que o POLOCENTRO possibilitou a mecanização agrícola, eletrificação rural, projetos de reflorestamento, construção de estradas vicinais e de acesso a propriedades, beneficiamento e industrialização da produção agrícola, estímulo à prospecção de calcário e outros insumos agrícolas, aquisição de veículos, embarcações e aeronaves, organização de sistemas de comercialização e de produção, bem como regularização fundiária. Por outro lado, pode-se aventar que o sucesso do POLOCENTRO poderia ser ampliado caso os recursos aplicados estivessem destinados às áreas com maior potencialidade produtiva. O programa perde seus efeitos aceleradores a partir do início dos anos 80, pois a relação custo versus benefício ficou prejudicada em função da ineficiência produtiva apresentada em algumas áreas que receberam expressivos investimentos. Apesar dos bons resultados apresentados pelo POLOCENTRO, o desempenho relativo do programa frustrou as expectativas dos técnicos. Esta deficiência deve ser atribuída ao baixo potencial de fertilidade natural das terras contempladas, fiscalização deficiente e correção monetária dos recursos inferior ao processo inflacionário verificado na época. Verifica-se ainda que o Governo Militar apostou num modelo produtivista, baseado no fortalecimento das médias e grandes propriedades rurais, tendo em vista a geração de um excedente destinado para a exportação como forma de compensar as transferências de lucros e as importações de bens de produção. Tal modelo concentrou o capital (industrial e rural) em
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detrimento do trabalho e ainda ajudou a consolidar nos cerrados uma estrutura fundiária baseada nas médias e grandes porções de terra.

3.2. A CONSTITUIÇÃO DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL NO BRASIL Para Kageyama et al. (1988), a mudança da base técnica da produção agrícola no Brasil inicia-se a partir dos anos 70. Em Silva (1989), o período de 1930-65 antecede esta mudança, pois durante esses anos dar-se-á a integração dos mercados domésticos de alimentos, trabalho e matérias-primas, concomitantemente com a constituição da indústria pesada brasileira acelerada em 1955. Neste período, 1930-65, a supremacia do capital cafeeiro, possibilitada pelo processo de substituição de importações e sobrevalorização da moeda, visualiza a oportunidade de diversificar a sua reprodução utilizando o excedente gerado nas operações de câmbio para investir na industrialização nascente no país. Para Delgado (1985) apud Silva (1989), o regime de taxas múltiplas de câmbio instaurado no país em 1953, o mecanismo de transferências das cambiais de exportação agrícola (na maioria decorrente da exportação do café) para a importação de bens de produção, máquinas, equipamentos e insumos modernos e a proteção tarifária (favorecida pela política de licenças cambiais) para incentivar a recente industrialização são características da política macroeconômica vigente no período de 1946 a 1957, utilizada para garantir a rentabilidade perdida pela elite do café em função da crise de 1930. Ou seja, com o processo de substituição de importações e o surgimento de atividades urbanas e industriais no seio da economia, o capital agrário cafeeiro e exportador vislumbra uma nova chance de continuar a sua ávida reprodução, sobretudo, facilitada pela intervenção do Estado no âmbito macroeconômico. Do ponto de vista da produção, com a constituição dos CAI em substituição aos Complexos Rurais (produção agrícola sem o uso de máquinas e equipamentos, a produção de sementes e insumos, bem como a integração agricultura-pecuária acontecia no interior da própria propriedade rural) a dinâmica da agricultura sofre uma mudança significativa. As análises compartimentada e setorizada da agricultura não conseguem mais explicar os diversos determinantes que constituem a sua nova dinâmica. A complexidade do sistema produtor agrícola, articulado para trás e para frente com os variados setores industriais, impõe ao Estado novas implicações decorrentes deste novo estágio da acumulação capitalista.

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Numa perspectiva histórica, a milenar prática da agricultura, antes do término da 2ª Guerra Mundial, sempre foi conduzida sem o recurso a insumos químicos e a maquinarias pesadas com tração mecânica, pois os equipamentos funcionavam à tração animal. O sistema agrícola era diversificado e havia integração entre agricultura e pecuária. O agricultor produzia sua própria semente e insumos necessários (ROEL, 2002, p. 57).

Para Silva (1989), os Complexos Rurais tinham características endógenas por estarem delimitados de forma setorizada e voltados para si próprios, ou seja, os produtores de matérias-primas utilizavam os insumos naturais disponíveis, como a terra e a água, produziam suas próprias sementes, fertilizantes e adubos orgânicos, não possuíam máquinas e equipamentos modernos, bem como distribuíam seus produtos finais para o consumo direto. Este corte setorial analítico primava pela disjunção agricultura-indústria, entendidas como compartimentos isolados, mas pertencentes à economia como um todo, ou seja, os setores primário (agricultura), secundário (indústria) e terciário (serviços) apresentavam-se como agregados macroeconômicos separados uns dos outros, mas homogêneos internamente.
Os clássicos modelos a dois setores – agrícola e não-agrícola – ou a três setores – primário, secundário e terciário – acabam não dando conta da dinâmica geral da economia, ou seja, do movimento concreto de acumulação de capital e da inserção e subordinação da agricultura a esse movimento, dentro de uma perspectiva histórica [...]é reducionista a análise que coloca a agricultura em um setor estanque da economia, imputando-lhe funções ditas clássicas: „produção de alimentos e matérias primas‟; liberação de mão-deobra e capitais para outros setores‟; „geração de excedente exportável, para o equilíbrio do balanço de pagamentos‟ [...] a análise funcionalista da agricultura mascara o entendimento dessa dinâmica mais geral [...] não apreende as especificidades históricas verificadas no processo de desenvolvimento capitalista e, dessa forma, não capta as mudanças nele ocorridas, não apenas na base técnica de produção, como também nas novas relações sociais que engendram (CASTANHO FILHO, 1988, p. 3-4).

Segundo Silva (1989), com o surgimento dos CAI os interesses distintos entre os capitalistas industriais de um lado e os grandes produtores agrícolas de outro tornam-se convergentes em virtude da integração de capitais. No passado, a oligarquia cafeeira, a partir dos excedentes gerados pela monocultura predominante, financiava os bancos, investimentos em infra-estrutura, logística, vias de acesso e indústrias. Com a constituição dos CAI os grandes fazendeiros e produtores de soja, laranja, cana, café, passam a financiar qualquer ramo da atividade produtiva (bancos, companhias de transporte, indústrias) que apresentasse lucratividade. A agricultura é transformada num ramo de aplicação a comando do capital
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integral e, na essência do CAI, do capital industrial, que de um lado vende-lhe insumos (montante) e de outro (jusante) compra a matéria-prima a ser industrializada. Observa-se que com o advento da integração de capitais, a agricultura, a indústria e o mercado financeiro tornam-se facetas do grande capital. Neste momento, o mercado de terras representa mais uma alternativa de valorização deste capital ora integrado. Com a desarticulação dos Complexos Rurais e constituição dos CAI a agricultura perde seu caráter regulatório que se dava entre a produção para os mercados interno e externo. A nova dinâmica dos CAI, sobrepondo-se e solapando a moribunda estrutura agrícola setorizada e autônoma, força o Estado a intervir nos diversos CAI já constituídos, na tentativa de regular o mercado e formular políticas específicas para limitar a rentabilidade dos capitais envolvidos nos diversos ramos interligados, bem como fixar preços e margens de lucro para os produtos intermediários, definir cotas para exportação e ainda fiscalizar um novo mercado com marcantes características monopolistas. Diante desta necessidade de intervenção Estatal, o discurso das lideranças econômicas do país (principalmente a parcela rural) indicava que as forças do mercado já seriam suficientes para garantir a eficiência econômica na alocação das decisões privadas. As políticas públicas lançadas no interior dos CAI começam a sofrer pressões de todos os lados. Os diversos capitais (agrário, agrícola, industrial, financeiro) acabam por capturar importantes segmentos do Estado. Esta feudalização3 do Estado tem como resultado o direcionamento das políticas públicas em benefício do capital. O que deveria ser uma intervenção do Estado keynesiano com o propósito de regular e corrigir as imperfeições do mercado, refletindo no aumento do emprego e da renda, consolida-se como um novo território capturado pelas burguesias agrária, agrícola e agroindustrial, tornando-o num espaço fragmentado, setorizado e indutor da reprodução do capital e dos múltiplos interesses privados. Segundo Silva (1998), a unidade do sistema, reunida por diversas atividades presentes no CAI, reside na seguinte condição: todos os elos do complexo são instrumentos de valorização do capital e possuem algum tipo de regulamentação macroeconômica. Esta complexa realidade desemboca numa intrincada rede de relações de interesses, que segundo Delgado (1985) e Lamounier (1994), prevalece a participação do capital industrial, do Estado e dos grandes agricultores. Os diversos setores que integram os CAI submetem o Estado à consecução dos seus objetivos.

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O termo feudalização ou balcanização sugere o controle, a captura de parte do aparato e demais instrumentos do Estado por grupos de interesses privados em função da reprodução do capital, direcionando as políticas públicas em prol de determinações particulares. 71

Na verdade, esta baucanização do Estado realizada por setores industriais tinha como estratégia incentivar a industrialização de mercadorias interligadas a jusante da produção de matérias-primas oriundas do campo. Por outro lado, os setores agrícolas/agrários e os próprios setores industriais gritavam pela modernização da agricultura sob os auspícios da expansão da indústria de máquinas, equipamentos e insumos modernos (D1 da agricultura) situada a montante da produção de matéria-prima agrícola/agrária. As pressões exercidas sobre o Estado decorriam da preocupação dos setores industrial e agrícola em aumentar a oferta de matérias-primas. A indústria de bens de produção voltada para a agricultura deveria receber os mesmos investimentos concentrados na internalização do D1 industrial. O caráter complementar da internalização do D1 industrial favoreceu a própria internalização do D1 da agricultura, ocorrida nos anos 60. O capital internacional, industrial e oligopolista ligado à indústria de tratores, máquinas e insumos modernos aproveitou as condições conjunturais da época e dos crescentes incentivos fiscais e transferiu suas plantas industriais para o país. Para Kageyama et al. (1983), a modernização da agricultura no Brasil, ocorrida na década de 70, esteve sustentada sobre dois pilares fundamentais: utilização de fertilizantes e defensivos químicos (quimificação) e adoção de tratores (mecanização). Vale enfatizar que segundo Müller (1981) apud Castanho Filho (1988), o CAI não existia no país até 1970, pois os setores industriais que produziam para a agricultura não estavam consolidados enquanto indústrias internalizadas em bases nacionais. No que se refere ao número de tratores utilizados nas propriedades agrícolas na década de 70, este multiplicou-se por três, passando de 166 mil para 531 mil unidades. Enquanto que o uso de defensivos agrícolas registrou uma taxa de crescimento de 7,2% ao ano. O consumo de fertilizantes cresceu quatro vezes mais, mantendo uma taxa geométrica real média de 15,5% ao ano. Para o MCT (1993) o processo de modernização da agricultura impulsionou a indústria de defensivos agrícolas, principalmente, no período de 1970 a 1984. A internalização desta indústria foi resultado da implantação do Plano Nacional de Defensivos (PNDA) durante os anos de 1975-79. Com o advento do PNDA, investimentos diretos, realizados por empresas de capital estrangeiro e líderes no mercado mundial de defensivos, possibilitaram a internalização completa da indústria química no país a partir da produção local de ingredientes ativos indispensáveis à elaboração de inseticidas, fungicidas e herbicidas. Segundo o MCT (1993) o sucesso da internalização da indústria de defensivos é decorrente do tamanho das propriedades produtivas e incentivos à produção (tarifas
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alfandegárias e câmbio favoráveis às importações). Até 1980, a internalização contou com investimentos da ordem de US$ 200 milhões, sobretudo com experimentos e demais pesquisas. A forma de internalização, voltada para a produção dos chamados “princípios ativos”, estimulou a vinda de empresas líderes no mercado internacional. Estas empresas, ao se instalarem no país, tiveram a oportunidade de definir o segmento de maior lucratividade. Por outro lado, a segmentação do mercado, apesar de fomentar uma base produtiva relativamente estável, acirrou a competição. Muitas empresas aumentaram as importações de novos produtos, geralmente protegidos por patentes. Atualmente, a estrutura do mercado revela que as empresas da capital multinacional detêm 80% de todo o faturamento do setor, enquanto que as empresas nacionais disputam os 20% restantes, pois ofertam produtos genéricos e banalizados, passíveis de fácil produção e de livre concorrência. Segundo Kageyama et al. (1983), tomando-se o ano de 1970 como ano base (base: 1970=100), no período de 1971 a 1980 os índices de consumo de inseticidas, fungicidas, herbicidas e fertilizantes no Brasil foram, respectivamente, 96 e 114; 149 e 472; 147 e 829; 117 e 421. Conforme estudo do MIC (1993), entre 1970 e 1984, período áureo da industria química no país, a taxa média de crescimento anual, em dólares constantes, ficou em torno de 10%. Destaca-se o segmento de herbicidas que cresceu 13,5% ao ano. Entre 1983 e 1987 o mercado cresceu, em média, 9,4% ao ano, com aumento da dispersão entre as taxas de aceleração verificadas dentre os diversos segmentos. Apesar da crescente evolução do consumo, a sua utilização estava concentrada nas maiores propriedades. De acordo com Paschoal (1983) apud Roel (2002), de 1964 a 1979 o consumo de fertilizantes minerais solúveis aumentou em 1.243% e de pesticidas 421%. Seguindo esta mesma tendência, a utilização de máquinas agrícolas aumentou no mesmo período 389%. Ressalta-se que apesar do exorbitante aumento no consumo de fertilizantes, inseticidas e máquinas agrícolas, a produtividade agrícola, aferida pela média de 15 culturas, ficou em 4,9%. A tratorização também seguiu esta tendência, pois na metade da década de 70 menos de 5% das propriedades possuíam tratores. Além disso, a concentração regional também apresentava-se como uma característica da modernização. Para Castanho Filho (1988), o uso de tratores na agricultura multiplicou-se por três entre 1970 e 1980, ou seja, passou de 165.870 unidades utilizadas em 1970 para 528.000 em 1980, reduzindo a área cultivada por trator. Por outro lado, tomando-se como base os dados dos Censos
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Agropercuários de 1970 e 1975, Castanho Filho (1988) afirma que a concentração no uso de tratores também aumentou, pois em 1975 os estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro possuíam 60% da frota nacional. Pode-se ainda afirmar, segundo os dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA, 2005) para as décadas de 60 e 70, que a produção de máquinas automotivas no país voltadas para a agricultura teve uma taxa de crescimento médio de 28,23%. Nas duas décadas foram produzidas 698.795 unidades, sendo 560.416 de Tratores de Rodas (80%), 68.359 de Cultivadores Motorizados (10%), 29.818 de Tratores de Esteiras (4%), 24.673 de Colheitadeiras (4%) e 15.529 de Retroescavadeiras (2%). Em 1976 foi atingido o pico produtivo com 82.632 unidades. Neste ano a produção de Tratores de Rodas representou 78% do total de unidades. O período de aceleração ficou compreendido entre os anos de 1969 e 1976 (pico). Quando comparada a produção entre estes dois anos pode-se verificar que a taxa de crescimento ficou em 593,28%, ou seja, passando de 11.919 unidades produzidas em 1969 para 82.632 em 1976. Ressalta-se que em 1960 o país produzia apenas Tratores de Rodas (37 unidades), passando a produzir em 1961 Cultivadores Motorizados. Em 1966 foi adicionada à produção Tratores Esteiras, em 1969 Retroescavadeiras e seis anos mais tarde, unidades de Colheitadeiras, refletindo não só o pico da produção, mas também a internalização completa do D1 para a agricultura (Tabela 1). TABELA 1: PRODUÇÃO DE MÁQUINAS AGRÍCOLAS AUTOMOTRIZES - 19601980.
Ano 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 TOTAL Algodão 41 40 30 27 24 25 13 8 8 13 15 10 10 263 Arroz 117 136 160 132 181 164 96 123 97 129 163 110 84 1.691 Feijão 29 30 24 17 29 25 14 23 20 24 14 11 15 274 Milho 157 144 133 144 138 129 169 166 148 170 177 172 233 2.078 Soja 967 897 820 937 1.128 867 743 911 805 962 795 824 829 11.484 Trigo 524 377 329 272 267 232 219 246 187 211 212 196 270 3.543 Total 1.835 1.622 1.496 1.529 1.768 1.442 1.255 1.476 1.264 1.509 1.376 1.323 1.439 19.334 Soja/Total 52,73% 55,28% 54,80% 61,26% 63,83% 60,12% 59,19% 61,71% 63,67% 63,74% 57,78% 62,28% 57,58% 59,40%

Fonte: ABRASEM – Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (www.abrasem.com.br).

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O uso de defensivos, fertilizantes químicos e tratores em grandes propriedades pode ser explicado pelo aumento da concentração da estrutura fundiária. Para Hoffmann (1986) apud Buainain et al. (1987) o Índice de Gini de distribuição fundiária cresceu de 0,84 em 1970 para 0,857 em 1980 e o número de pequenos estabelecimentos caiu de 2,9% para 2,4% neste mesmo período em relação à participação na área total recenseada. Para Buainain et al. (1987), ao longo da década de 70 a modernização da agricultura aumentou em taxas crescentes, pois a quantidade de tratores por 1.000 pessoas ocupadas subiu de 8,9 em 1970 para 23,8 em 1980, a área cultivada por trator diminuiu de 1.483 para 572 ha e o consumo de fertilizantes passou de 999 mil toneladas/ano para 4.066 mil toneladas/ano. Por outro lado, esta visível modernização esteve associada à concentração fundiária e à produção monopolista voltada para a exportação, deslocando e inibindo a produção de alimentos tradicionais que abasteceriam o mercado interno, acelerando o cultivo de lavouras tecnologicamente mais modernas, destinadas ao mercado externo e atreladas a jusante, ou seja, vinculadas às agroindústrias beneficiadoras. No período de 1970-79 verificase um acelerado crescimento da produção de culturas destinadas à exportação em detrimento dos produtos consumidos no mercado interno. As produções de soja e laranja cresceram ditadas por um ritmo elevadíssimo; a primeira apresentou uma taxa de crescimento de 22,47% ao ano e a segunda 12,57%. As lavouras de feijão e mandioca tiveram taxas negativas de crescimento ao longo de todo o período, respectivamente, -1,9% e -2,9%. O arroz (1,46%), milho (1,75%), batata (3,73%), cebola (9,27%) e trigo (6,89%) tiveram um crescimento relativo muito inferior às taxas alcançadas pelos produtos exportáveis.

A produção agropecuária na década de 70 teve seu desempenho marcado por três características principais: um crescimento muito pequeno ou mesmo negativo dos produtos tecnologicamente tradicionais ou para o mercado interno, notadamente os alimentos básicos, como arroz, feijão, mandioca e milho; um crescimento acelerado das culturas modernas, geralmente exportadoras e vinculadas às agroindústrias (soja, laranja, cana-de-açúcar, e da produção de suínos, aves e leites, ou seja, dos setores da pecuária que também se modernizaram rapidamente [...]; um crescimento da proporção da produção exportada em relação à produção total (KAGEYAMA et al., 1983, p. 541-542).

Ainda em Kageyama et al. (1983), a dinâmica modernização da produção agrícola ocorrida na década de 70 esteve condicionada aos interesses do capital. Este, por sua vez, atuou em três vertentes básicas: disponibilizando o acesso à tecnologia na produção da
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matéria-prima, no processamento e beneficiamento agroindustrial e na exportação de ambos os produtos. O descompasso entre produção de alimentos voltados para o mercado interno e os exportáveis, os benefícios dos avanços tecnológicos (novos insumos e mecanização do processo produtivo) privilegiando somente os grandes produtores, concentração de investimentos em grandes empresas e propriedades agrícolas, a estrutura fundiária também concentrada em grandes porções de terra e intensificação do complexo agroindustrial visando às culturas de exportação são características da “modernização conservadora” ocorrida nos anos 70. A agricultura moderniza-se, mas a estrutura produtiva rural continua conservada. Os capitais, nacional e internacional, industriais, agrícolas e agrários, público e privado, concentrados, articulados e interligados numa mesma base de reprodução, multideterminada, heterogênea e complexa, característica interna do CAI, criariam o seu próprio ciclo de acumulação capitalista, sustentada por uma política de crédito rural fortemente subsidiada.

Do lado da indústria, criava-se um mercado cativo para as máquinas, equipamentos e insumos produzidos. Do lado dos produtores rurais, financiavam-se, a prazos relativamente longos e juros reais negativos, os elementos necessários à transformação na base técnica da produção agropecuária (capital fixo e circulante), bem como as próprias necessidades monetárias criadas pela modernização das relações necessárias para que a incipiente política de modernização agropecuária, impulsionada no pósguerra com a importação de máquinas, equipamentos e insumos químicos, desembocasse na própria industrialização da agricultura (SILVA, 1989, p. 316-317).

Com a internalização definitiva do D1 da agricultura os interesses privados foram deslocados para um novo momento de valorização do capital. A articulação dos novos interesses dava-se em torno do estancamento das importações de máquinas, equipamentos e insumos modernos pelos agricultores, viabilizadas por uma política cambial seletiva, e do rápido fortalecimento de um mercado interno cativo para os iminentes produtos ofertados no país pelos recentes oligopólios internacionais instalados em base nacional. Para conciliar a necessidade dos agricultores na aquisição de máquinas, equipamentos e insumos modernos, a consolidação do mercado interno para estes bens de consumo duráveis e o retorno do poder regulador macroeconômico do Estado, institucionalizou-se no país, com a aprovação da Lei nº. 4.829, de 5 de novembro de 1965, regulamentada pelo Decreto nº. 58.380, de 10 de maio daquele mesmo ano, o Sistema
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Nacional de Crédito Rural (SNCR), dando início a uma política monetário-financeira expansionista. Com o SNCR a modernização da agricultura foi financiada a taxas de juros subsidiadas e a prazos longos. Esta expansão financeira foi possibilitada pela transferência compulsória de uma percentagem sobre os depósitos à vista dos bancos. Segundo as Resoluções de nºs. 69/67 e 260/73, do Banco Central do Brasil (BC), os bancos comerciais estariam obrigados a aplicar, respectivamente, 10% e 15% dos depósitos à vista no crédito rural, sob pena de recolhimento compulsório caso o percentual mínimo exigido durante a vigência das resoluções não fosse atingido.

Na institucionalização do sistema nacional de crédito rural, em 1965, foram definidos os seguintes objetivos: a) estimular o incremento ordenado da produção e a comercialização de produtos agropecuários; b) possibilitar o fortalecimento econômico dos produtores rurais, notadamente pequenos e médios; e c) incentivar a introdução de métodos racionais de produção (GOMES, 1986, p 36).

A parte dos recursos não utilizados pela agricultura foi canalizada para o Banco Central do Brasil na conta do FUNAGRI e destinado às agroindústrias. Com estes recursos o BC repassava aos bancos recursos obtidos em variadas fontes. Com o FUNAGRI os agentes financeiros favorecidos obtiveram ganhos mínimos de 5% ao ano. Em Pinto (1981), em 1969 foram aplicados pelo SNCR na agricultura e na agropecuária 6,5 bilhões de cruzeiros. Em 1979 foram investidos nestas atividades, em valores constantes de 1969, 33 bilhões de cruzeiros. Ou seja, em 10 anos observa-se um aumento de mais de 500% nos investimentos. O volume de recursos justifica-se em razão das crescentes transformações ocorridas na economia do país, sobretudo, a internacionalização da produção; concentração de renda e da terra; concentração e centralização do capital; reforma do sistema financeiro; processo de urbanização. Por outro lado, estas transformações irão exigir da agricultura uma reorganização produtiva e um novo momento histórico para assegurar a reprodução do capital. Para tanto, a agricultura deveria atender aos seguintes interesses: deslocar a produção para o mercado externo em detrimento do mercado interno; produzir insumos para as agroindústrias a jusante do encadeamento e consolidar o mercado cativo; agregar valor aos produtos tendo em vista atender uma fatia do mercado concentrador de renda.

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Ainda em Pinto (1981), além de ter apresentado no período de 1969-1979 uma significativa variação positiva na alocação dos recursos, o crédito rural no país foi concedido a taxas de juros inferiores à inflação (Tabela 2). Enquanto o comportamento médio do IGP-DI no período 1970-1980 foi de 40,06% a taxa média de juros do crédito rural neste mesmo período esteve em 13%. Ou seja, os financiamentos realizados no período apresentaram taxas médias de juros reais negativas de 27,5%, caracterizando uma transferência dos recursos da sociedade em benefício de um grupo relativamente pequeno quando comparado ao Censo Agropecuário de 1975, que registrava neste mesmo ano um total de 5 milhões de estabelecimentos rurais no país e, em contrapartida, o número de contratos firmados no SNCR ficava em torno de 2 milhões. TABELA 2: IGP-DI ANUAL MÉDIO E TAXAS MÉDIAS DE JUROS DO CRÉDITO RURAL NO BRASIL – 1970-1980
ANO 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 IGP-DI (%) 19,3% 19,5% 15,7% 15,5% 34,5% 29,5% 45,3% 38,8% 40,8% 77,2% 110,2% TAXA MÉDIA DE JUROS (%) 11,3% 11,3% 12,1% 12,1% 10,8% 10,8% 10,7% 11,2% 15,0% 18,0% 20,0% VARIAÇÃO ABSOLUTA -8,00 -8,20 -3,60 -3,40 -23,70 -18,70 -34,60 -27,60 -25,80 -59,20 -90,20 RELAÇÃO PERCENTUAL 58,55 57,95 77,07 78,06 31,30 36,61 23,62 28,87 36,76 23,32 18,15

Fonte: FGV/BACEN

Percebe-se que em 1980 a taxa média de inflação, medida pelo IGP-DI, chegou a 110,20% ao ano e a taxa média de juros 20%. Esta diferença de 90,20 pontos seria equivalente ao subsídio apropriado pelo grande produtor rural e financiado pela sociedade como um todo. Por outro lado, a justificativa do governo baseava-se na crença que os pesados tributos oneravam sobremaneira o setor rural, o que comprometeria o retorno esperado do investimento. O crédito rural deveria ser subsidiado para compensar o baixo retorno dos investimentos impostos às atividades agrícolas. Em busca de maiores facilidades, os agricultores aderiram aos chamados “pacotes tecnológicos” que vinculavam a adoção de novos equipamentos, máquinas e insumos modernos aos empréstimos subsidiados. Os preços dos tratores, equipamentos e insumos modernos foram artificialmente reduzidos quando atrelados aos créditos altamente subsidiados.
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Os financiamentos tinham naturezas diversas e contemplavam recursos para despesas de custeio, instalações, máquinas, equipamentos e comercialização. Porém, verificou-se que um único estabelecimento tinha vários contratos, principalmente as grandes propriedades, que firmaram mais de vinte contratos com o SNCR. Para Pinto (1981), cerca de 20% dos agricultores brasileiros foram beneficiados com o crédito rural e destes a participação em relação à quantidade de contratos e ao valor concedido também esteve concentrada na grande propriedade.

Os pequenos produtores, no caso dos financiamentos para a agricultura, diminuíram sua participação de 90,05% no número e 34,13% no valor, em 1966, para 73,73% e 11,38%, respectivamente, em 1976. Ao mesmo tempo, os granes produtores passaram de 0,44% no número e 20,27% no valor dos contratos, em 19666, para 3,34% e 53,53%, em 1976 (PINTO, 1981, p. 69).

A política de crédito no período de 1973-1977 também apresentou como característica marcante a concentração do crédito por produtos. Esta análise da concentração do crédito rural por produtos pode ser verificada em função da relação entre o valor bruto da produção (VBP) e o valor total de créditos (VTC) concedidos para custeio agrícola. No caso da soja, cana e trigo, o volume de crédito concedido é superior a sua participação no valor da produção. Já a mandioca, o milho e o feijão, receberam um montante de crédito rural muito inferior ao valor da produção total. Em termos absolutos, verifica-se ainda que o segundo grupo de culturas recebeu 30% a menos do valor destinado ao primeiro grupo. Sobejam informações no Banco do Brasil e outras reveladas pelo Censo Agropecuário de 1975 indicando que os grandes proprietários e terras, entre estes, os maiores mutuários do SNCR, não utilizavam os recursos nas atividades produtivas e aplicavam o capital no mercado financeiro, bem como na aquisição de novas porções de terra. Tal ilegalidade contribuiu para que o valor total da produção estivesse sempre menor que o volume de crédito investido. O crédito destinado à agricultura foi desviado para outros setores não-produtivos e voltados para a especulação imobiliária e, sobretudo, aplicados em ativos disponíveis no mercado financeiro, como letras de câmbio, caderneta de poupança, etc. Ou seja, ativos financeiros e aplicações de baixo risco, mas de retorno, embora pequeno, mas relativamente seguras e de maiores liquidez quando comparadas à aplicação na agricultura, que pode gerar altos retornos impregnados por elevados riscos de prejuízo e cercada por incertezas.

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À medida que as taxas de juros praticadas pelo SNCR tornam-se ainda mais inferiores às do mercado, a demanda por crédito aumenta em proporções nunca imaginadas, superando a oferta e obrigando o Estado a intervir no mercado financeiro para evitar a restrição do crédito. Os bancos foram judicialmente obrigados a destinar parte dos seus próprios depósitos à vista para atender as necessidades financeiras do setor agrícola. Por outro lado, os bancos comerciais passaram a exigir dos seus clientes algumas garantias, ou seja, a posse da terra, o tipo de produção (agrícola ou pecuária), o grau de tecnificação e a produtividade a ser alcançada. Mais uma vez os grandes proprietários foram privilegiados, pois possuíam as melhores garantias. Por outro lado, os custos administrativos do banco seriam reduzidos concedendo grandes volumes de empréstimo por contrato celebrado. Para Pinto (1981) e segundo os dados disponíveis no Ministério da Agricultura e no Banco Central do Brasil para os anos de 1973-1977, a soja e o feijão, quando comparados, apresentam profundas desigualdades na relação entre valor bruto da produção e o valor total de créditos. No caso do feijão o valor bruto da produção é em média 1,4 vezes maior que o valor total de créditos absorvidos. Para a soja a relação é inversa, pois esta tem, em média, um valor total de créditos recebido 3,2 vezes maior que o valor bruto da produção (Tabela 3). TABELA 3: PARTICIPAÇÃO PERCENTAL NO VALOR BRUTO DA PRODUÇÃO (VBP) E NO VALOR TOTAL DO CRÉDITO (VTC) DE SOJA E FEIJÃO NO BRASIL – 1973-1977
PRODUTO SOJA FEIJÃO 1973 VBP VTC 7,93 7,64 14,56 2,59 1974 VBP VTC 10,96 6,7 16,88 1,89 1975 VBP VTC 13,52 6,61 17,39 1,4 1976 VBP VTC 15,41 5,38 19,18 1,85 1977 VBP VTC 16,05 6,26 19,12 3,2

Fonte: Ministério da Agricultura e Banco Central do Brasil. Adaptado de Pinto (1981, p. 73).

Nos anos de 1974, 1975 e 1976 a participação da região Centro-Oeste na geração do produto agrícola e no total de créditos rurais recebidos manteve-se numa proporção média equilibrada, pois para cada valor recebido na forma de crédito era gerado um valor um pouco menor em termos de produção. Nos anos de 1973 e 1977 o inverso tornou-se também verdadeiro (Gráfico 2). Nas regiões Sul e Sudeste o desequilíbrio configurou-se como uma constante. Ao longo dos 5 anos o montante de recursos de crédito rural investido foi superior a valor bruto da produção. Já as regiões Norte e Nordeste tiveram ao longo de todo o período uma situação contrária, ou seja, o valor da produção foi maior que o volume de crédito recebido. Ressalta-se ainda que 80% do crédito e 90% da produção estiveram concentrados nas regiões Sul e Sudeste do país.
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12 10 8 6 6,22 4 2 0 1973 1974 1975 VBP VTC 1976 1977 7,59 6,73 6,78 6,52 8,47 8,19 10,19 8,33 8,6

GRÁFICO 2: PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL DA REGIÃO CENTRO-OESTE NA PRODUÇÃO AGRÍCOLA (VBP) E NO CRÉDITO (VTC) – 1973-1977, SEGUNDO O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E O BANCO CENTRAL DO BRASIL.

Pinto (1981) revela que em relação ao montante de recursos oriundos do crédito rural destinado às regiões do Brasil no ano de 1979, a região Centro-Oeste foi a maior beneficiada percebendo em média Cr$ 367.085,00 (moeda da época) por contrato firmado, quando a média no país foi de Cr$ 195.690,00. Na década de 70 a região Centro-Oeste confirmou a sua hegemonia creditícia em função da instalação de grandes empresas agroindustriais e às facilidades de financiamento em virtude da institucionalização dos programas de desenvolvimento, principalmente o POLOCENTRO. Em 1980 o volume total de crédito no país chegou a 880 bilhões de cruzeiros. No final da década de 70 o SNCR consolida-se como a principal fonte de recursos utilizada para aquisição de insumos modernos, máquinas e tratores. No tocante das empresas de capital internacional e detentoras do mercado de fertilizantes e defensivos químicos a dependência ao crédito rural era quase que total. No final desta mesma década as vendas de máquinas e tratores também despontaram. De acordo com Pinto (1981), no ano de 1979 foram investidos no Brasil cerca de 195 bilhões de cruzeiros na forma de crédito rural para custeio agrícola. Em contrapartida, 26% deste montante foi utilizado para aquisição de fertilizantes (50 bilhões) e 7% para defensivos (13 bilhões), ou seja, a indústria química recebeu dos grandes produtores rurais 1/3 de todo o recurso destinado para o custeio da atividade agrícola. Do outro lado, neste mesmo ano, a indústria de máquinas e tratores para agricultura recebeu do total de recursos do SNCR destinado para investimentos (58 bilhões), cerca de 60%, ou seja, 34 bilhões de cruzeiros.
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Em 1979 o mercado cativo para as indústrias a montante da produção agrícola estava consolidado, pois o país despontava no âmbito mundial como o terceiro maior mercado de defensivos agrícolas, tendo movimentado neste ano cerca de 670 milhões de dólares (7% do total movimentado no mundo), configurando-se ainda como um dos mercados mais promissores dos próximos cinco anos. Em relação ao mercado de máquinas e tratores agrícolas o Brasil já era o terceiro maior parque industrial em capacidade instalada do mundo voltado para a mecanização da agricultura. Essas empresas, localizadas a montante da matéria-prima (soja), apresentavam como característica fundamental a competição oligopolista/oligopsônica. Dessa forma, a dinamização da agricultura dependia muito mais da disponibilidade de crédito aos grandes produtores ao invés da redução dos preços das máquinas, tratores e insumos modernos. Qualquer redução do nível de recursos destinados a custeio e/ou investimentos na agricultura refletiriam negativamente nas vendas dos setores a montante do CAI. Deve-se considerar ainda, segundo Roel (2002), que na “agricultura convencional”, caracterizada pela industrialização voltada para o campo, a menor parcela do lucro gerado (11%) fica nas mãos dos produtores rurais. A maior parte, ou seja, 89% do lucro, é dividida pelas indústrias a montante da matéria-prima cultivada e comerciantes de produtos finais. Aproximadamente 66% dos lucros são para a indústria de máquinas e insumos modernos e os demais 19% ficam no comércio. O crédito rural, visto como uma variável exógena e longe da atuação dos produtores rurais, induzia as vendas a montante enquanto que a oscilação do preço real dos bens e insumos não representava qualquer incentivo à sua aquisição. O Estado exercia sua função reguladora sem interferir no mercado produtivo, mas praticando uma política de financiamento concentradora de capital e de terra à guisa das pressões e dos interesses privados. De um lado, um pequeno grupo, representado pelos maiores produtores rurais, bradava pelo aumento dos recursos destinados ao SNCR e, do outro, tornava-se refém das empresas de capital internacional e seus poderosos lobbys. Vale ressaltar que nesta fase de constituição do CAI os interesses não são conflitantes, mas sim convergentes entre os agricultores, industriais e banqueiros. Ou seja, uma integração completa do capital.

Sem dúvida, há uma associação entre estes interesses, sendo que, muitas vezes, uma mesma pessoa ou empresa representa os três setores, tornando-se impossível separá-los. Como conseqüência, o que se verifica, na realidade, é a existência de um conjunto bastante complexo de interesses, o que se vai
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refletir, necessariamente, na política de crédito rural (PINTO, 1981, p. 83). Grifo do autor.

Para Silva (1989), as políticas governamentais de “modernização conservadora” assimiladas na década de 70 culminaram com a constituição dos CAI, estruturado, integrado e articulado sob o seguinte tripé: D1 para a agricultura; grandes produtores de matéria-prima (monoculturas fortemente modernizadas); oligopólios agroindustriais (Figura 2).
Produtores

Articulação a Montante

Articulação a Jusante

CAI
D1 para a agricultura Agroindústrias

Articulação Inter-Industrial FIGURA 2: ARTICULAÇÃO NO INTERIOR DO CAI.

Por falta de sustentação política e por situações conjunturais e financeiras adversas, no final dos anos 70 o SNCR perde a sua capacidade de financiar a agricultura. De um lado, o espiral inflacionário aumentou os subsídios das taxas nominais pré-fixados e, de outro, reduziu o montante de depósitos à vista dos bancos. A necessidade de combater o déficit público via política recessiva imposta pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) forçou o Estado a reduzir os subsídios, substituindo as taxas nominais pré-fixadas por taxas pós-fixadas. Ou seja, a restrição ao crédito e a perda do diferencial em suas transações com o mercado financeiro resultaram na crise do padrão de financiamento da agricultura ocorrida no final da década de 70. Para Müller (1982b) apud Silva (1989), o novo padrão produtivo emergente não apresentava apenas características agrícolas, agroindustriais ou industriais, mas sim uma completa articulação intersetorial, sobretudo, interindustrial. Neste ponto, pode-se visualizar na Figura 1 que o capital industrial encontra-se localizado nos dois pontos de articulação como a produção agrícola, ou seja, tanto a montante, como a jusante. Porém, quando
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deixamos de visualizar o complexo de forma linear e passamos a observá-lo no formato de tríade (Figura 3), percebe-se claramente a articulação interindustrial num dos lados da pirâmide. Dessa forma, pode-se concluir que os relacionamentos do capital industrial condicionam a produção agrícola ao sabor dos seus interesses, avanços e limitações, tanto a montante como a jusante da agricultura.

Hoje, não se pode mais compreender a estrutura e a dinâmica da agricultura sem levar em conta a estrutura e a dinâmica dos setores industriais com ela interrelacionadas, bem como as formas e as características próprias das ligações que se estabelecem entre si (SILVA, 1989, p. 319).

Ainda em Silva (1989) não devemos deixar de considerar a função do Estado como agente aglutinador e que exerce a sua influência a partir das políticas públicas modernizantes e conservadoras, ou seja, funde-se D1 para a agricultura – grandes produtores rurais – agroindústrias por intermédio do crédito rural subsidiado e dos fundos destinados à agroindústria em geral, ou seja, “[...] valendo-se para isso de todo um arcabouço institucional e financeiro que intermedia essas relações” (CASTANHO FILHO, 1988, p. 5).

[...] a agricultura utilizadora desse processo se torna cada vez mais dependente da indústria, dominada em vários de seus ramos por empresas transnacionais, que se instalam com plantas e tecnologias oriundas dos países desenvolvidos. Como resultado, o produtor rural vê-se „espremido‟ entre uma estrutura produtora de insumos e maquinários e uma outra de compra; transformação; comercialização e exportação de produtos agrícolas, fortemente oligopolizadas e no mais das vezes com seus centros de decisão fora do país (CASTANHO FILHO, 1988, p. 13).

A fusão existente no CAI entre D1 para a agricultura – grandes produtores rurais – agroindústrias, apesar de determinar a própria concepção deste emergente padrão de produção, também surge como a principal contradição do sistema quando agrega-se a jusante das agroindústrias o mercado de produtos finais. As matérias-primas, geralmente monoculturas (plantations), produzidas nas grandes propriedades tornam-se insumos produtivos para atender a agroindústria processadora e intermediária dos produtos finais: D1 para a agricultura – grandes produtores rurais – agroindústrias – mercado de produto final. Ou seja, os produtos agrícolas são transformados em insumos e seus preços são repassados a jusante de todo o encadeamento até o produto transformado chegar nas mãos do consumidor final.
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Para Kageyama et al. (1990), a agricultura, ao fazer parte deste encadeamento, passou a depender dos insumos que recebe das indústrias a montante e não produz mais apenas bens de consumo final, mas, basicamente, bens intermediários ou matérias-primas para outras indústrias. As agroindústrias intermediárias e processadoras de matéria-prima sofrem pressões de redução dos seus custos quando os preços finais de seus produtos extrapolam a linha de restrição orçamentária da demanda do consumidor e tendem a repassar para trás, via redução dos preços dos insumos e matérias-primas, estas pressões de custos que acabariam por reduzir suas vendas e consequentemente seus lucros. Estas pressões de custos afetam por completo as propriedades agrícolas, pois o mercado a jusante encontra-se dominado por empresas oligopolizadas, monopsônicas ou oligopsônicas (Figura 3). Por outro lado, os grandes produtores rurais não são capazes de repassar para o elo traseiro seguinte estas mesmas pressões, pois o mercado é dominado por grandes oligopólios/oligipsônicos. Assim, os produtores rurais absorvem as pressões do Complexo que resultam na compressão de suas rendas.

Estado
Oligopólio Fornecedor Consumidor Fornecedor Oligopsônio Consumidor

Setor a montante

AGRICULTURA (players

Setor a jusante

diferenciados)
Setor financeiro

Fonte: adaptado de ALENCAR, E. Complexos Agroindustriais. 2.ed. Lavras: UFLA/FAEPE, 2000, p. 79. FIGURA 3: RELAÇÃO ENTRE OS PLAYERS QUE INTEGRAM O CAI.

A base da Figura 3 representa o esquema geral de um CAI, formado pelos setores a montante, agricultura e a jusante. Ou seja, a integração da agricultura com outros ramos industriais, configura-se de um lado, as indústrias que fornecem à agricultura insumos, máquinas e equipamentos (setor a montante) e, do outro, as indústrias de classificação, beneficiamento e/ou industrialização da matéria-prima agrícola. A parte da figura pintada em
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amarelo e delimitada por uma linha, envolve setores com fortes tendências à formação de conglomerados empresariais e que controlam outras empresas situadas em diferentes setores, inclusive no próprio seio da agricultura. O processo de “integração de capitais”, entendido como centralização de capitais industriais, financeiros, agrícolas, agrários, etc., dá origem aos conglomerados empresariais. A agricultura não faz-se presente na área da Figura 5 pintada de amarelo, a qual caracteriza o conglomerado, aparecendo dentro de um retângulo circundado por uma linha pontilhada, pois as agroindústrias que necessitam garantir o suprimento e a qualidade da matéria-prima que usam, preferem assegurá-los por meio de contratos com os produtores de insumos e matérias-primas ao invés de realizarem investimentos diretamente na produção. As empresas que atuam tanto a montante como a jusante da agricultura são poucas, organizadas em grupos de interesses e que interagem com um grupo amplo, heterogêneo e disperso de agricultores. Esta assimetria de informações no interior do CAI limita a capacidade de ações coletivas dos players diferenciados4 pertencentes ao setor agrícola. Este fator estrutural confirma a característica de oligopólio a jusante e de oligopsônico a montante da agricultura. Na concepção dos CAI os produtores rurais são os players que possuem o menor poder de barganha para negociar seus interesses, mesmo considerando-se a integração de capitais alocados de forma estratégica. Diante deste cenário, já no final da década de 70, o Estado impulsiona no interior dos CAI uma política de preços mínimos. Ou seja, com a consolidação do mercado cativo, a ausência de uma completa integração de capitais em alguns setores da produção agrícola ameaçava a harmonia da reprodução capitalista e suscita a intervenção do Estado no sentido de garantir uma mínima margem de lucro, principalmente, dos produtos oriundos das pequenas e médias propriedades agrícolas e para todos os demais, inclusive os grandes proprietários que tinham perdido parte de suas rendas em virtude das pressões sobre seus preços exercidas pelas agroindústrias. Assim como no SNCR, a Política de Preços Mínimos (PPM) ou Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) também vigorou de forma específica e concentrada por produto. O poder regulador do Estado passou a limitar os insumos abrangidos por uma política de preços mínimos específica. Ou seja, o Estado não detinha mecanismos macroeconômicos de abrangência nacional, tais como as mudanças nas políticas monetária
O setor agrícola representado na Figura 6 sugere a participação de “players diferenciados”, ou seja, diversos tipos de produtores e de trabalhadores rurais. Essa heterogeneidade está relacionada com o grau de controle que estes atores possuem sobre a terra e com a forma de exploração nela existente. 86
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e/ou cambial. Uma política de preços mínimos por produto acabaria por fracionar o poder regulador do Estado dissipando-o em diversos produtos e interesses internalizados no cerne dos próprios CAI. O Estado perde o seu poder regulador, servindo de forma setorizada e fragmentada aos interesses particulares diversos e em alguns momentos conflitantes. No período de 1967-1976 a PGPM esteve voltada para os principais produtos, ficando marcada pela concentração do crédito em função das culturas de soja, arroz e milho, principais culturas destes anos, bem como intensificada na região Centro-Sul do país. Neste período a região Centro-Sul representava 76,59% do total de crédito disponibilizado. A cultura da soja participava com 39,81% deste montante, seguida pelo arroz com 23,26% e o milho com 23,41% do total do crédito subordinado à PGPM (Tabela 4).

TABELA 4: PARTICIPAÇÃO DAS PRINCIPAIS CULTURAS NO CRÉDITO TOTAL SUBORDINADO À POLÍTICA DE GARANTIA DE PREÇOS MÍNIMOS – 1967-68 1975-76
ANO-SAFRA/PRODUTO ARROZ MILHO 1967-68 67 22 1968-69 105 13 1969-70 171 46 1970-71 160 28 1971-72 287 54 1972-73 434 114 1973-74 486 174 1974-75 1142 556 1975-76 2874 1.296 TOTAIS 5.726 2.303 Fonte: Anuário da Comissão de Financiamento da Produção, 1976. SOJA 12 22 47 135 266 2 892 3264 4050 8.690 (em milhões de cruzeiros correntes) OUTROS TOTAL 52 153 65 205 79 343 148 471 269 876 215 765 874 2.426 1.498 6.460 1.909 10.129 5.109 21.828

Pode-se ainda afirmar que em relação à participação relativa da produção de soja financiada pela PGPM na produção total do país, os resultados foram significativos. No período de 1967 a 1976, com exceção do ano de 1972-73, 20% da produção de soja do Centro-Sul foram financiados pela PGPM e 23% apenas no Estado do Paraná, totalizando 43%. O arroz obteve uma participação de 24% e o milho de apenas 4% da produção financiados pela PGPM. Para Castanho Filho (1988), a simplificação do processo produtivo imbricada para a concentração de terra e geração da monocultura exportadora apresentou-se como um dos principais traços mais marcantes da modernização da agricultura. O uso intensivo de insumos químicos e máquinas modernas, produzidos a custos elevados e que requerem grandes plantas para a sua fabricação, justificam-se enquanto utilizados em larga escala e por grandes propriedades de terra, a serviço da valorização do capital empregado e suas vertentes.
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Esse modelo, como visto, baseado na alta concentração do capital, tem como referência de análise os mercados internacionais e utiliza uma tecnologia que contribui para aumentar essa concentração [...] Na produção agrícola, esse modelo se manifesta na alta concentração da propriedade fundiária, na monocultura de caráter exportador e no uso de tecnologias ditas modernas, estimuladas por créditos tanto indiretos aos produtores de equipamentos e insumos químicos, como disfarçados para aquisição de terras. Dessa forma, a participação do Estado com seu instrumento mais poderoso, o crédito rural tem contribuído decisivamente para que tal estrutura permaneça e se desenvolva (CASTANHO FILHO, 1988, p. 17).

A agricultura foi convertida na condição suprema da acumulação e valorização do setor industrial a montante e produtor de máquinas, equipamentos e insumos modernos. Ficando interdependente a montante e complementarmente a jusante em decorrência do crescimento das agroindústrias, das exportações e, ainda, subordinada aos interesses de um Estado que tem os “pés de barro” frente às pressões dos capitais industrial e financeiro. A agricultura moderna analisada sob a ótica dos CAI “não estaria mais sujeita à lógica do capital fundiário e sim a do capital industrial e financeiro, que teria erguido um espaço unificado de valorização” (MÜLLER, 1981 apud LIFSCHITZ et al., 1991, p. 6). Neste ponto cabe tecer a seguinte conclusão: o Estado, por intermédio dos Programas de Desenvolvimento, do SNCR e da PGPM, principalmente ao longo dos anos 50, 60 e 70, teve participação decisiva na consolidação do CAI a partir da modernização da agricultura, da industrialização desta, da completa e definitiva internalização do D1 da Agricultura, da conservação da estrutura fundiária, da concentração produtiva, da integração dos capitais (industriais e financeiros) e da forte interdependência agricultura-indústria.

3.3. A CONSTITUIÇÃO DO COMPLEXO AGROINDUSTRIAL EM MATO GROSSO DO SUL Apesar do Estado do Mato Grosso do Sul ter sido criado em 11 de outubro de 1977 pela Lei Complementar n° 31, no Governo do Presidente Ernesto Geisel e, instalado em 01/01/79, tendo ainda a cidade de Campo Grande como capital, a integração da economia da região sul do Mato Grosso com os centros dinâmicos do capitalismo (regiões Sul e Sudeste) teve início na década de 70. Atualmente, a base produtiva do Estado tem como carro-chefe a atividade agropecuária, seguida pela prestação de serviços. Na pecuária destaca-se a bovinocultura e na agricultura as principais culturas são: soja, milho, arroz, algodão herbáceo, cana-de-açúcar e mandioca. A partir da metade da década de 80 o Estado fomentou a instalação de
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agroindústrias esmagadoras de soja, de farelo e de ração. Deve-se ainda mencionar a criação do pólo extrativista mineral na produção de calcário, ferro e manganês. A constituição do CAI em Mato Grosso do Sul teve fundamental participação do Estado por intermédio da implementação de suas políticas e incentivos fiscais. A partir da divisão do Estado, as diversas esferas de governo, ora federal, ora estadual, ou concomitantemente, implementaram importantes ações que transformaram a agricultura no Cerrado do Brasil. Tais transformações podem ser verificadas em virtude do sucesso do modelo de produção voltado para a exportação e pela consolidação do complexo agroindustrial. Esse processo de mudança no Cerrado, não difere da estratégia adotada nas outras regiões do país. Ou seja, a “modernização conservadora” continuou concentrando terras, beneficiando os grandes proprietários e ainda garantindo a manutenção e ampliação dos capitais industriais e financeiros. A paisagem natural do Cerrado, sob a égide do capital integrador, transformou-se numa grande máquina produtora de grãos e excluiu da região a tradicional agricultura familiar. A agricultura deixa de ser uma incerteza a mercê das livres forças da natureza para se tornar uma certeza nas mãos do capital. A grande preocupação dos governantes da época encontrava respaldo na adoção de políticas governamentais capazes de amenizar o desequilíbrio entre as regiões brasileiras quando comparava-se o Centro-Oeste com os centros do capitalismo. A alternativa a ser adotada para reduzir estes desequilíbrios passava pela modernização e industrialização da agricultura. Segundo IBGE (1979, p. 159) apud Oliveira (2003, p. 38) na criação do Estado de Mato Grosso do Sul considerou-se na Exposição de Motivos de 24 de agosto de 1977 a localização como a principal condição para o desenvolvimento em razão da proximidade e integração do novo Estado com o escoamento das exportações em direção à São Paulo e, ainda, as potencialidades do setor agropecuário como destacada vantagem competitiva. De fato, Oliveira (2003) ressalta que em 1977 a região sul do Estado do Mato Grosso já refletia uma reprodução do capital nos mesmos moldes das relações capitalistas existentes em São Paulo, bem como já caminhava na mesma direção dos interesses da política externa nacional. Ou seja, no sul do Estado a reprodução do capital via utilização da terra obedecia a tendência da modernização, enquanto o norte, ainda reproduzia um modo de produção praticamente “feudal”. Este diapasão meridional constituía a principal causa do aprisionamento do desenvolvimento entre os dois lados. Tanto o sul como o norte do antigo
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Estado do Mato Grosso vislumbravam a possibilidade da ruptura territorial e a divisão política do Estado para poderem ultrapassar as barreiras que impediam o progresso. Na divisão do Estado, 2/3 da arrecadação do antigo Mato Grosso financiaria o crescimento do Mato Grosso do Sul. Já os programas governamentais de expansão da fronteira e colonização estariam voltados para o Mato Grosso. Essa foi a tônica da divisão. Para tanto, diversos programas governamentais foram implantados e justificados pela retórica do Estado que buscava superar o latifúndio improdutivo e tecnologicamente ultrapassado - suposto gargalo para o desenvolvimento do país - para realizar a modernização e a industrialização da agricultura. Segundo Linhares e Silva (1999), esta visão conservadora tinha sua gênese na concentração da estrutura fundiária do país sob a primazia da lavoura tecnificada. A mudança ocorreria no aumento da produtividade em função da adoção dos aparatos tecnológicos. Esse incremento tecnológico ficou restrito à produção das culturas de exportação (export drive) em detrimento dos produtos que abasteceriam o mercado interno, cultivados em escala reduzida e em pequenas propriedades. Para Oliveira (2003), ao nascer, o papel atribuído ao Mato Grosso do Sul na chamada “divisão nacional do trabalho”, quando comparado aos demais Estados detentores do capital industrial, foi o de abastecer as regiões capitalistas centrais do país com seus produtos primários e/ou destinar sua produção ao mercado externo. Esta proximidade com os centros capitalistas exigiu dos produtores rurais locais uma ampliação da sua capacidade produtiva, possibilitada pela adoção de máquinas, equipamentos e insumos modernos produzidos pelas indústrias (D1 da agricultura) recém instaladas no país. No ano de 1980, a até então Superintendência de Desenvolvimento do CentroOeste (SUDECO), órgão subordinado à época ao Ministério do Interior, elaborou documentos para constatar a viabilidade econômica a região, bem como apresentar as justificativas para ampliação do financiamento das agroindústrias. Dentre os principais documentos pode-se citar o Diagnóstico Sócio-Econômico da Região Centro-Oeste do Brasil e as Justificativas para um Programa de Crédito à Agroindústria no Centro-Oeste. Ambos relatórios técnicos tinham em comum a seguinte interpretação da realidade da época: a existência de problemas decorrentes do rápido crescimento do setor primário, sem agregação de valores decorrentes do processo de transformação industrial. Tanto o diagnóstico como as justificativas da SUDECO para incentivo e fomento de agroindústrias no Centro-Oeste estariam desprovidas de uma análise comparativa entre
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regiões desenvolvidas e periferia. Os relatórios também não previam a subordinação da agricultura ao capital integrado, analisando a agricultura de forma setorizada e não como uma parte de um sistema complexo. Vale lembrar que ocorreu uma visível predominância de interesses das regiões Sul e Sudeste à concentração dos recursos do SNCR e da produção agrícola financiada. Ressalta-se ainda que, mesmo assim, quando é comparado o montante de recursos do SNCR destinado às regiões do Brasil com o total recebido pelo Centro-Oeste, no ano de 1979 esta região foi a maior beneficiada por contrato firmado em relação à média nacional. Ao longo da década de 70 a região Centro-Oeste esteve numa condição de supremacia creditícia e pouco avançou na instalação de empresas agroindustriais quando comparado à produção agrícola. A agricultura no Centro-Oeste crescera em bases concentradoras, ou seja, por um lado as grandes propriedades firmavam mais de 20 contratos com SNCR, utilizavam parte dos recursos altamente subsidiados na aquisição de máquinas, equipamentos e insumos modernos, aplicavam a outra parte no mercado financeiro ou expandiam as suas fronteiras. Por outro lado, tanto as indústrias de bens de capital voltados para agricultura como as agroindústrias também concentraram suas plantas industriais, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste e fomentaram um mercado com fortes características monopolista, oligopolista, monopsônica e/ou oligopsônica. Neste momento histórico, a agricultura tecnificada de Mato Grosso do Sul estabelece a sua interdependência a montante e a jusante do CAI, em obediência ao capital sedimentado em territórios distantes, mas altamente integrado e reticulado. A tentativa de uma política de industrialização no território sul-mato-grossense com ênfase na captação de investimentos industriais produtivos a jusante das culturas tecnificadas (matéria-prima a ser processada) foi o melhor caminho a ser seguido pelos governantes estaduais da época. Esta linha de atuação teve fortes influências do Governo Federal e foi reflexo do novo padrão estatizante da dívida externa do país, em virtude do fracasso do modelo de crescimento econômico associado ao endividamento e com o objetivo de financiar o déficit no Balanço de Pagamentos esperando-se que num futuro não muito distante a aceleração da economia tendesse a diminuir este hiato. Segundo Oliveira (2003), a recessão instaurada no país a partir de 1980 teve reflexos negativos no ritmo de industrialização no centro de expansão capitalista, sobretudo, no Sudeste. Nesta fase de retração da economia nacional, industriais de pequeno porte, na impossibilidade de concentrarem seus investimentos em plantas industriais no Sudeste e Sul
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do país, somados aos comerciantes locais do Estado de Mato Grosso do Sul, ávidos por maiores lucratividades, suscitaram a iminente possibilidade de investirem numa pequena unidade industrial substitutiva de produtos manufaturados e processados no centro do capitalismo nacional. Para Oliveira (2003), as perspectivas dos comerciantes locais e dos pequenos investidores em relação à industrialização tardia, podendo até ser concebida pelo epíteto de “substituição periférica de importações”, estava baseada nos seguintes fatores: criação de uma máquina administrativa estadual capaz de gerar novos empregos e ampliar a renda regional; aumento da população; urbanização; estancamento dos investimentos públicos. Este último fator merece ser analisado mais de perto, pois parece acertado atribuir ao recém criado Estado de Mato Grosso do Sul um papel de fornecedor de produtos agropecuários ao centro dinâmico do capitalismo nacional e também voltados para a exportação, e ainda afirmar que esta proximidade com os setores industrias, impulsionados pelos os padrões de competitividade internacional, exigiu uma contrapartida que garantisse o aumento da produção no campo em bases tecnológicas mais avançadas. Todavia, a incapacidade política e financeira do Estado em investir diretamente numa industrialização “substitutiva de importações” de produtos oriundos do centro do capitalismo regional estava aparente. Do lado político, tal perspectiva não deveria coadunar com os interesses da nova elite burguesa, recém industrializada no Sudeste e Sul do país. Do ponto de vista econômico, o esgotamento do poder de investimento direto do Estado era premente no início dos anos 80. Além disso, uma industrialização nas proximidades de São Paulo e considerando-se ainda as facilidades de escoamento dos produtos primários em direção às indústrias paulistas e ao mercado externo inibia as pretensões de grande parcela de investidores locais. A iniciativa estaria reservada ao capital industrial concebido no centro capitalista, incitado pelos crescentes fluxos circulares de matérias-primas na ida e de mercadorias industrializadas na volta. O deslocamento fragmentado de uma unidade industrial, ou seja, a “disjunção espacial produtiva”, como estratégia dos grandes monopólios industriais, seria a próxima etapa de valorização e reprodução do capital sob os auspícios de uma nova “divisão nacional do trabalho”. A política de incentivos fiscais no âmbito estadual e voltada para atração de novos investimentos em agroindústrias esteve associada à conjuntura econômica da época e ao novo padrão de endividamento externo. Esta necessidade por investimentos agroindustriais estava também atrelada aos fortes subsídios federais concedidos a este setor produtivo privado, por sua vez, propiciada pela avidez do governo militar à industrialização. A industrialização
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forçada no período de desaceleração econômica pós-milagre e a aversão privada ao endividamento foram os principais fatores que incentivaram a crescente estatização do endividamento externo, como forma de manter o mesmo nível de atividade industrial diante da crise. De um lado, o Governo Federal aumentava a sua participação no endividamento do país para completar o D1 industrial e ainda beneficiar as indústrias de transformação a jusante a partir de uma política de subsídio de preços e de tarifas públicas. Do outro lado, somados aos benefícios do Governo Federal, o Estado de Mato Grosso do Sul tentava demonstrar aos investidores as vantagens competitivas do negócio e os incentivos fiscais que seriam concedidos. Para tanto, divulga seus estudos para atrair as agroindústrias processadoras das matérias-primas agrícolas em abundância na região e até mesmo indústrias de bens de capital, como a siderurgia e, ainda, tenta ampliar a matriz energética com a produção de álcool. Esta foi a tônica dos programas de industrialização de Mato Grosso do Sul a partir de 1980. Ou seja, uma política “rent seeking”, que pega carona nos benefícios federais concedidos, oferece incentivos fiscais regulamentados por leis e decretos, o que aumenta ainda mais a participação do setor público na reprodução e valorização do capital industrial privado. Os documentos federais divulgados na década de 80 enfatizavam a necessidade de fomento às agroindústrias no Centro-Oeste, estando estas orientadas a absorver e processar a produção agrícola local como forma de promoção do desenvolvimento. O esgotamento do poder da União em investir diretamente na iniciação industrial do Centro-Oeste remeteu o Governo Federal à condição de coadjuvante, apesar dos fortes subsídios de preços sobre os insumos necessários às indústrias de transformação instaladas no país. Ao Governo Federal restou apenas o papel de referendar à iniciativa privada, por intermédio de seus estudos e diagnósticos, a instalação de plantas agroindustriais, sustentadas pelos subsídios federais e incentivos fiscais estaduais. Para Oliveira (2003) o ano safra de 1983/84 elevou o Estado de Mato Grosso do Sul à condição de um dos principais produtores de grãos do país. Neste ano safra o estado produziu mais de dois milhões de toneladas de soja, mais de 260 mil toneladas de milho e quase 400 mil toneladas de arroz. Diante desta crescente evolução da produção agrícola seria inevitável o processo de industrialização no Estado. Todavia, estar novamente a mercê dos interesses do capital industrial concebido no centro e, neste momento histórico, a jusante da matéria-prima e em processo de articulação em escala espacial nacional, restava aos
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comerciantes locais e outros industriais desalojados do Sudeste e Sul do país o papel de iniciar o processo de industrialização de Mato Grosso do Sul e, ainda, sob a égide dos benefícios que seriam concedidos pelo Estado na forma de incentivos fiscais. Vale ressaltar que nos três primeiros anos da década de 80 ocorreram reduções expressivas dos investimentos industriais, retração do fluxo circular de matéria-prima/mercadorias e aumento da capacidade ociosa no setor industrial. No ano de 1984 inicia-se, ainda que lentamente, um crescimento da atividade industrial no país e a retomada dos investimentos. No entanto, tal euforia não foi capaz de proporcionar o deslocamento de plantas industriais do centro para o interior, uma vez que a capacidade ociosa ainda recrudescia. Os produtos do campo evidenciados pelos estudos acima citados e indicados à agroindustrialização foram o arroz, o milho e o gado. A produção de soja em Mato Grosso do Sul não aparece nos referidos documentos. Há de se estranhar esta omissão, pois a partir da segunda metade da década de 70 a soja começa a superar, tanto em área colhida por ha, como em toneladas de produção, as lavouras de arroz e milho. Em 1980 a produção de soja em Mato Grosso do Sul atinge 1.322 toneladas ocupando uma área plantada de 806 ha. Neste mesmo ano, as culturas de arroz e milho produziram respectivamente 504 e 188 toneladas. Estas culturas ocuparam, respectivamente, uma área de 501 e 108 ha. (Tabela 5). TABELA 5: PRINCIPAIS CULTURAS EM ÁREA E PRODUÇÃO EM MATO GROSSO DO SUL NOS ANOS DE 1970-1975-1980-1985-1990.
CULTURA ALGODÃO1 ARROZ2 FEIJÃO MILHO CANA3 SOJA TRIGO TOTAL4 ÁREA (Ha) 45,0 179,0 24,0 119,0 1,7 15,0 2,5 359,7 1970 PRODUÇÃO (Ton.) 49,0 181,0 11,0 138,0 30,0 14,0 1,7 412,0 ÁREA (Ha) 76,0 561,0 28,0 155,0 3,6 194,0 41,0 989,6 1975 PRODUÇÃO (Ton.) 82,0 567,0 25,0 233,0 141,0 272,0 9,0 1.295,0 ÁREA (Ha) 45,0 501,0 50,0 108,0 11,6 806,0 122,0 1.471,6 1980 PRODUÇÃO (Ton.) 69,0 504,0 23,0 188,0 606,0 1.322,0 110,0 2.689,0 ÁREA (Ha) 67,0 242,0 46,0 143,0 50,0 1.307,0 201,0 1.809,0 1985 PRODUÇÃO (Ton.) 106,0 324,0 30,0 327,0 3.170,0 2.558,0 318,0 6.485,0 ÁREA (Ha) 44,0 117,0 52,0 256,0 67,0 1.013,1 184,0 1.497,1 1990 PRODUÇÃO (Ton.) 73,0 182,0 34,0 596,0 4.193,0 2.299,7 204,0 7.343,7

Fonte: IBGE, SECAP e CONAB. (1) Algodão Herbáceo. (2) Arroz (Sequeiro, Várzeas e Irrigado) (3) Cana-de-açúcar (4) No total não estão computados os valores para o trigo e feijão, por serem consideradas culturas de inverno em sucessão às culturas de verão, ocupando a mesma área.

No período de 1975 a 1980 as culturas de arroz e milho começam a declinar. As áreas colhidas e a produção destas culturas apresentam uma tendência decrescente, enquanto a sojicultura desponta como a principal cultura de Mato Grosso do Sul, ultrapassando a marca de 1.000 toneladas (Gráfico 3).

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1.000,0 900,0

PRODUÇÃO (Toneladas)

800,0 700,0 600,0 500,0 400,0 300,0 200,0 100,0 0,0 1970 1975 1980 1985 1990

ANO

ARROZ

MILHO

SOJA

GRÁFICO 3: PRODUÇÃO DE SOJA, ARROZ E MILHO EM MATO GROSSO DO SUL NO PERÍODO DE 1970-1990, SEGUNDO A IBGE, SECAP E CONAB.

Para Oliveira (2003) a década de 60 foi marcada pela expansão da fronteira agrícola, ampliação dos eixos rodoviários e difusão de máquinas, equipamentos e insumos modernos para as regiões Sul e Nordeste, até então adotados apenas pela agricultura do Sudeste. Este movimento expansionista e modernizante facilitou o transporte de matériasprimas produzidas em todas as regiões do país em direção às indústrias processadoras localizadas, principalmente, em São Paulo e também destinadas à exportação. O processo de modernização da agricultura contribuiu para o crescimento do número de tratores utilizados na região Sul. Do ano de 1960 ao ano de 1970 a quantidade de tratores triplicou, passando de 21.456 registrados no censo de 60 para 60.533 em 1970. As exportações também aumentaram. Até 1964 o maior volume registrado estava em torno de US$ 400 milhões, chegando em 1970 com mais de US$ 1,1 bilhão. Do ponto de vista nacional, a modernização da agricultura exigia do capital maiores inversões e em curtos espaços de tempo. Uma cultura que tivesse a propriedade de diminuir o tempo de manejo, a capacidade de gerar uma boa colheita e em tempo breve e, ainda, permitir uma rotação de diversas culturas, estaria apta a substituir o plantio do café, que por sua natureza leva de três a quatro anos para a primeira colheita sem oferecer garantia de retorno dos investimentos realizados. A soja, consorciada com o milho e o trigo, desalojou o café e outras culturas. Em Mato Grosso do Sul desalojou pecuaristas e ervateiros, mas a principal cultura substituída pela soja foi o arroz de sequeiro, como veremos adiante. Diante de tal exigência imposta pelo capital surge a cultura da soja como a alternativa mais viável. Primeiramente no Sul do país e no segundo momento é transferida para o Centro-Oeste. Com a industrialização no Sudeste aumentando a sua participação em
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relação à agricultura ao passo que nas demais regiões a agricultura despontava como principal atividade econômica, o centro de expansão do capitalismo e berço do processo de industrialização, comandado por São Paulo, transfere às regiões Sul e Nordeste do país a incumbência de produzir produtos primários em troca de produtos industrializados. Para Oliveira (2003), este “repasse” representou uma nova Divisão Nacional do Trabalho. O capital industrial buscaria também o deslocamento do eixo da sua reprodução e acumulação para a diversificação da produção e a modernização da agricultura, tendo a soja como o seu carro-chefe. Em 1981a ação integrada entre as esferas federal e estadual tem como resultado um diagnóstico que representaria com maior exatidão as potencialidades de Mato Grosso do Sul e as áreas passíveis de investimentos com boas perspectivas de retorno. No Diagnóstico Preliminar de Oportunidades de Investimento em Mato Grosso do Sul, elaborado pelo Ministério do Interior, por intermédio da SUDECO, com a participação da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, a atenção estava voltada para o fomento da cultura da soja, produção de álcool e siderurgia. Tais produtos despontavam como os principais veículos para diminuir as disparidades regionais. Em relação à soja (objeto desta dissertação) o supracitado diagnóstico aborda a evolução da sua produção nas décadas de 70 e 80, sua exportação e o armazenamento do grão no Estado. Depois de constatado a tendência promissora da sojicultura ao longo das duas décadas, bem como a expansão da área cultivada, o documento enfatiza a industrialização do grão como uma ótima oportunidade de investimento. Segundo Oliveira (2003), na segunda metade dos anos 80 os números e fatos começam a dar configuração a um quadro desanimador, sinalizando ao capital que a sua reprodução seria inviabilizada pela falta de um mercado interno local capaz de gerar renda e fixar consumidores, pois o mercado externo apresentava forte retração na compra de grãos e, por conseqüência, um aumento substancial da oferta de produtos agropecuários (primários) acarretaria uma acentuada queda das taxas de lucratividade. A alternativa viável para esta situação seria a internalização de uma indústria de médio e grande portes para processar a matéria-prima produzida no campo, ou seja, a agroindústria. Os investimentos no processo de agroindustrialização aconteceram devido à iniciativa dos comerciantes locais e pelo volume de capital disponível em suas mãos. A industrialização de Mato Grosso do Sul, voltada para agricultura, inicia-se de forma incipiente no primeiro Governo Wilson Barbosa Martins (1983-86). A efetiva
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participação do Estado como agente econômico, vem a reboque e de forma mimética à etapa de consolidação do CAI nas regiões Sul e Sudeste ocorrida na década de 70. A principal diferença estava no papel do Estado neste processo de industrialização. O “pacote de investimentos” no D1 da agricultura estava praticamente concluído e internalizado nas regiões Sul e Sudeste, restando às demais regiões periféricas atrair investimentos na agroindustrialização, situada à jusante das suas matérias-primas já abundantes ou em vias de expansão. Os documentos produzidos pelo Governo Estadual no início dos anos 80 têm caráter informativo e pecam numa análise mais consistente e fundamentada das potencialidades e vantagens competitivas que subsidiariam uma tomada de decisão quanto aos investimentos a serem alocados em Mato Grosso do Sul em detrimento de outras regiões. O documento denominado de Mato Grosso do Sul – Uma Opção de Investimentos de Baixo Risco, elaborado em 1983 pela Secretaria de Planejamento e Coordenação Geral, relacionava as principais oportunidades de investimento no Estado nas áreas do extrativismo, minerais metálicos e não metálicos, turismo e da pecuária. A idéia principal deste documento seria demonstrar aos empresários do Brasil e do mundo as potencialidades de setores atrativos de investimentos em Mato Grosso do Sul. Este relatório não aprofunda a análise dos baixos riscos e retornos esperados para os investimentos propostos. Outro estudo elaborado em 1985 por uma comissão interestadual formada pela SECAP, SEPLAN e SIC, batizado com o nome de Projetos Agroindustriais Integrados de Suínos e Aves, estava fundamentado com dados de uma pesquisa de campo e apontava os municípios localizados nas regiões Central, da Grande Dourados, Leste e Sul Fronteira, como os que apresentavam as propícias condições para investimentos em pequenas atividades industriais correlatas à agroindustrialização, tais como: avícolas, suinicolas e de insumos básicos para a produção de rações. Este estudo sinalizava investimentos privados em pequenas unidades produtivas fornecedoras de matérias-primas e insumos básicos para abastecer as agroindústrias a jusante do encadeamento. O estudo mais expressivo e de caráter efetivo, iniciado em 1983 pela Secretaria de Indústria e Comércio de Mato Grosso do Sul e utilizado para dar suporte às ações de industrialização em Mato Grosso do Sul, foi o Programa de Apoio à Industrialização de Mato Grosso do Sul (PRÓ-INDÚSTRIA). Este estudo consolidou-se em 1984 e contou com a participação dos seguintes segmentos líderes: Federação das Indústrias (FIEMS); Federação do Comércio; Associações Comerciais.

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A partir da publicação da Lei nº. 440, de 21 de março de 1984, que criou o Conselho de Desenvolvimento Industrial do Estado de Mato Grosso do Sul e concedeu incentivos fiscais às indústrias, e da Lei nº. 444, de 13 de abril de 1984, que instaurou o Fundo de Apoio à Industrialização do Estado (FAIMS), o Pró-Indústria nasce com o compromisso de desenvolver os demais setores de uma economia alicerçada e dependente do binômio agricultura-pecuária, e, sobretudo, incentivar a expansão dos setores industriais. Os Decretos de nº. 2.538 e de nº. 2539, ambos de 29 de maio de 1984, regulamentaram a Lei nº. 440, de 21 de março de 1984, estando o primeiro a aprovar o Regimento do Conselho de Desenvolvimento Industrial de Mato Grosso do Sul e o segundo a regulamentar os incentivos fiscais que seriam concedidos. Para incentivar a industrialização de Mato Grosso do Sul o Pró-Indústria fundamentava-se na concessão de incentivos fiscais como o principal instrumento capaz de viabilizar e garantir o sucesso do Programa. Com a vigência da Lei nº. 440/84, as indústrias estariam isentas do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis e Direitos a eles relativos e sobre as Transmissões Imobiliárias acerca da aquisição de terrenos localizados nos núcleos industriais administrados pelo Estado. Para efeito legal destes benefícios previstos, o Estado obrigava os Municípios sedes das indústrias recém instaladas a isenção, por um prazo de cinco anos, do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) e de Taxas de Contribuição de Melhorias. Além disso, um dos principais incentivos concedidos previa a postergação, por trinta e seis meses, para recolhimento do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias (ICMS) às empresas que se instalassem, ampliassem ou transferissem suas unidades para os núcleos industriais pertencentes e administrados pelo Estado ou para zonas industriais

disponibilizadas pelas Prefeituras. Para Oliveira (2003), na época de vigência das Leis nº. 440, de 21 de março de 1984, e de nº. 444, de 13 de abril de 1984, a conjuntura econômica do país sinalizava uma recessão no “centro dinâmico do capitalismo” e uma capacidade industrial ociosa que poderia inviabilizar a transferência de plantas e capital para outras regiões periféricas. No entanto, as supracitadas leis estaduais enveredaram pelo caminho da atração de investimentos exógenos em detrimento da ampla quantia de recursos disponíveis nas mãos da burguesia local (ricos comerciantes). As Leis nº. 440, de 21 de março de 1984, e de nº. 444, de 13 de abril de 1984, foram substituídas pela Lei nº. 701, de 06 de março de 1987. As alterações previam a
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transformação do incentivo de prorrogação para o recebimento e restituição dos impostos, sobretudo a ampliação do prazo de trinta e seis meses, para sessenta meses, da postergação para recolhimento ICMS; a criação do Fundo de Planejamento e Desenvolvimento Industrial (F-PDI) constituído com 8% do ICMS recolhidos pelas empresas. O F-DPI substituiu o Fundo de Apoio à Industrialização do Estado (FAIMS). A Lei nº. 701/87 vigorou durante todo o Governo de Marcelo Miranda Soares, contemplando em quase 100% dos recursos disponíveis e nos prazos de, no mínimo, 52 meses e no máximo 60, as indústrias esmagadores de grãos de soja do Estado. Uma pequena fração dos recursos foi destinada aos projetos industriais, informatização de dados e a implantação de infra-estrutura mínima nos distritos industriais administrados pelo Estado.

Em termos efetivos, a Lei 701 é responsável pelo processo de industrialização do Mato Grosso do Sul. Sob sua tutela, cinco das sete agroindústrias da soja foram instaladas no Estado, assim como a maioria absoluta das unidades industriais beneficiadas pela isenção de parte dos impostos [...] A partir da Lei 701, de 1987, o Estado passou a garantir o seu sucesso de industrialização, passou também a garantir formas outras de ampliação e melhoramento das redes de transmissão de energia elétrica e comunicação telefônica, principalmente para o setor rural, ampliação e melhoramento da produção rural, etc. (OLIVEIRA, 2003, p. 219 e 227).

Já na década de 90, no início do Governo Pedro Pedrossian (1991-94) a Lei nº. 1.239, de 18 de dezembro de 1991, sucede a Lei nº. 701/87 e destina os incentivos fiscais exclusivamente às agroindústrias, às indústrias de transformação de minério e às indústrias produtoras de insumos e implementos. Vale dizer que Mato Grosso do Sul perdera dois momentos históricos, o primeiro relativo ao nascimento das indústrias dinâmicas do capitalismo, ou seja, a internalização das indústrias de Bens de Consumo Duráveis, Bens de Capital e de Insumos Básicos, ocorrida no período de 1955-1961 e, o segundo, chamado de “milagre econômico” (1968-73), comandado pelo setor industrial de Bens de Consumo Duráveis, e de retomada dos investimentos públicos voltados para a criação de empresas estatais, ora permitidos pela existência de uma capacidade ociosa, pela disponibilidade de divisas (exportações e financiamento externo) e pela expansão da liquidez interna. No período do “milagre” o aumento vertiginoso das taxas de lucro das indústrias foi proporcionado pelas seguintes condições: capacidade ociosa herdada do período anterior; concentração de renda; concentração financeira; financiamento externo; estímulo às
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exportações; arrocho salarial. A queda da taxa de lucro e o fim do “milagre” têm a sua origem na atenuação do arrocho salarial, no aumento do preço das matérias-primas (manteve-se a participação do petróleo na pauta de importações) e no fim da capacidade ociosa. Além disso, as transferências do excedente gerado internamente em direção ao exterior continuam existindo sob a forma de importações, remessas de lucros e juros. No período de 1974-78 instaura-se a crise e com ela a restrição externa e o recrudescimento da inflação. Esgota-se a dinâmica do crescimento industrial a partir da desaceleração e manutenção do investimento público conciliada à uma „modernização conservadora”. Na segunda metade da década de 70 o endividamento externo é utilizado como estratégia para reativar o ajuste da economia brasileira às mudanças na economia mundial, ou seja, crescer industrializando viabilizando-se a partir do endividamento externo. É a partir da década de 80 que Mato Grosso do Sul percebe a necessidade de investimentos na industrialização como parte de uma etapa que sucederia à “finalização” da produção agrícola, tendo esta atingida o seu ápice. A industrialização não foi pensada como parte integrante de um sistema complexo, interligado e interdependente, no tempo, mas sim no espaço. Isto quer dizer que o capital industrial esteve integrado e articulado com a produção agrícola do Estado nas décadas de 60, 70 e 80. Ou seja, não esteve representando fisicamente em Mato Grosso do Sul pelas unidades industriais a montante e, minimamente representado, a jusante da matéria-prima. Para Oliveira (2003), de 1960 a 1970, principalmente de 1968 a 1970, apesar da duplicação da quantidade de soja esmagada, passando de 471 toneladas em 1968 para 932 toneladas em 1970, os resultados ainda apresentavam-se longe da capacidade ideal de esmagamento que justificasse a concentração do capital. Esses resultados foram obtidos pelas diversas e pequenas unidades agroindustriais, fixadas em sua grande maioria no Estado de São Paulo, que operavam com tecnologia obsoleta, esmagavam menos que 500 toneladas/dia de soja, em conjunto com a mamona, amendoim e milho e, direcionavam seus produtos para abastecer o mercado interno. Num segundo momento, a partir da década de 70, a soja passa a desempenhar um novo papel, contribuindo com a “Divisão Internacional do Trabalho”. O sistema de crédito totalmente direcionado para a produção de soja, uma política de subsídios, o interesse das autoridades governamentais pelo setor, a estabilidade no consumo interno de óleo de soja, a regularidade e a expansão da produção de grãos de soja são determinantes de destaque no processo de implantação de grandes plantas esmagadoras de soja no país para a produção de
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óleo e farelo. Para Oliveira (2003), em 1970 a Sambra (Bünge e Born), Cargil e Unilever, grupos de capital internacional, com relevante experiência no esmagamento de soja e comercialização de produtos no país, instalaram-se com suas unidades industriais na região Sul do território nacional para extração de óleo e farelo de soja visando o comércio externo. A escolha dos Estados da região Sul obedeceu aos seguintes fatores: proximidade com a matéria-prima principal (soja) e o nível tecnológico das lavouras. A sua localização no mesmo espaço de produção da matéria-prima permitia ao capital industrial interferir diretamente no plantio, na colheita e na comercialização da soja até chegar ao processo de industrialização. Neste momento histórico, percebe-se a criação de um CAI da soja montado no mesmo território e em espaços contíguos de inter-relação e interdependência. Ou seja, as indústrias a montante, matéria-prima e indústrias a jusante articulavam-se a partir de uma proximidade imediata. No caso de Mato Grosso do Sul, a existência do CAI da soja não pode ser concebido no espaço contíguo, pois ao analisarmos o processo de industrialização do Estado, as indústrias de bens de capital voltadas para a agricultura (D1 da agricultura) foram e ainda estão instaladas nas regiões Sul e Sudeste do país desde a década de 60. A agroindustrialização tardia de Mato Grosso do Sul só acontece quando o Estado, representado pelo Governo Federal, perde a sua capacidade e interesse de investir diretamente na agroindústria, por dois motivos: o ciclo industrial de substituição das importações estaria concluído e a internalização do D1 voltado para a agricultura completado. A agroindustrialização de Mato Grosso do Sul iniciada na década de 80 fica condicionada às seguintes políticas públicas: a) de subsídios federais sobre os preços de alguns insumos básicos e tarifas públicas de serviços fornecidos pelas empresas estatais; b) de incentivos fiscais concedidos pelos Governos Estaduais. Por outro lado, uma reserva de capital nas mãos de comerciantes locais fez a diferença no processo de agroindustrialização do Estado. No capítulo seguinte pretende-se demonstrar que a constituição do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) em Mato Grosso do Sul, apesar de tardia, representou um novo ataque do capitalismo na busca pela reprodução e acumulação do capital industrial, considerando-se apenas a variável econômica como pressuposto de desenvolvimento local.

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CAPÍTULO IV

O COMPLEXO AGROINDUSTRIAL DA SOJA (CAIS) EM MATO GROSSO DO SUL

A partir da década de 70 diversos migrantes da região Sul do país instalam-se com suas famílias em Mato Grosso do Sul com o objetivo de implantar lavouras e ampliar a produção agrícola neste Estado. Inicialmente, concentraram-se em áreas de campos limpos situadas nos municípios de Maracaju, Sidrolândia, Rio Brilhante, Dourados e Ponta Porã. O arroz de sequeiro foi principal cultura produzida, pois estas regiões tinham como tradição o cultivo deste cereal. O arroz de sequeiro, por ser uma lavoura que não necessitava do emprego de tecnologia de ponta, conciliada ainda à topografia natural do terreno, permitiu o uso intensivo de máquinas sem exigir uma maior aplicação de recursos financeiros. Os migrantes ampliaram largamente a área de cultivo do cereal, passando a ser cultivado em quase todo o Estado. Esta dinamização da produção suscitou a instalação de uma ampla infra-estrutura capaz de armazenar distribuir a crescente produção. Com os recursos do POLOCENTRO novas estradas foram abertas, estruturas para armazenagem construídas e máquinas e equipamentos adquiridos. Na segunda metade da década de 70 os investimentos realizados forjaram excelentes resultados nos setores agroindustrial e comercial que resultaram na instalação de beneficiadoras de arroz e aceleração do comércio na região. O amplo cultivo do arroz de sequeiro predominou até o ano de 1976. Neste ano a sua produção atinge o ponto mais elevado por área colhida. Fatores climáticos sazonais e adversos, típicos em épocas de verão, como tempestades tropicais, a susceptibilidade desta lavoura à infestação de pragas e doenças e a necessidade da garantia do retorno dos investimentos realizados nos últimos 5 anos, ampliaram os riscos desta lavoura, o que inviabilizou a permanência do cultivo em larga escala do arroz de sequeiro em Mato Grosso do Sul. A lavoura de arroz de sequeiro é substituída por outra cultura mais rústica, capaz de resistir aos fatores climáticos e ainda garantir o retorno dos investimentos. A soja, graças a sua relativa resistência às vicissitudes climáticas quando comparada ao arroz, mas principalmente às atraentes expectativas de ganhos no mercado internacional, em decorrência das promissoras cotações de preços da época, bem como os incentivos governamentais
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destinados à exportação, pesquisa e aquisição de máquinas e insumos modernos, foi a cultura escolhida para substituir o arroz de sequeiro. Mesmo sendo capaz de amenizar os riscos e ampliar a rentabilidade do investimento, a cultura da soja configura-se como ineficaz para envolver economicamente um significativo número de pessoas na sua produção. Conforme dados da Tabela 1, no período de 1975-80, enquanto a quantidade de tratores, colhedeiras e fertilizantes aumenta, respectivamente, em 88,45%, 66,85% e 106,60%, a força de trabalho ocupada na lavoura em Mato Grosso do Sul cai 10,12%. Comparando-se os indicadores da Tabela 1 no período de 1970-75, período de predominância do cultivo de arroz de sequeiro, com os dados de 197580, início da substituição da cultura do arroz pela produção da soja, na primeira metade da década de 70 a quantidade de tratores, colhedeiras e fertilizantes tem expressivo impulso, respectivamente, em 224,64%, 114,49% e 359,13%, por outro lado, a mão-de-obra ocupada na lavoura também aumenta em 14,73%. Vale lembrar que as principais lavouras consumidoras de herbicidas são soja, cana-de-açúcar e também o arroz e, as 10 maiores lavouras consumidoras de defensivos no Brasil são, em ordem de importância, soja, citros, cana de açúcar, hortícolas (hortaliças, batata inglesa e tomate), arroz, algodão, trigo/cevada/aveia/centeio, café, milho e frutas. Por outro lado, aproximadamente 40% do consumo de herbicidas estão associados à cultura da soja. Para os inseticidas, destacam-se novamente a soja, o algodão, hortícolas, citros e café. A modernização da agricultura no Estado pode ser observada segundo os indicadores da Tabela 6. TABELA 6: INDICADORES DE MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA EM MATO GROSSO DO SUL – 1970-1985
INDICADORES/ANO TRATORES¹ COLHEDEIRAS¹ CAMINHÕES E UTILITÁRIOS¹ CONSUMO DE ÓLEO DIESEL² FERTILIZANTES³ CALCÁRIO³ TRATOR/1.000 ha. CULTIVADO PESSOAL OCUPADO (MIL)

1970 3.786 1.042 6.408 10.935 1.194 182 10 224

1975 12.291 2.235 11.366 95.096 5.482 827 11 257

1980 23.162 3.729 16.296 184.677 11.326 1.997 14 231

1985 31.076 4.777 20.140 255.071 15.227 3.620 15 254

Fonte: IBGE/SECAP.
(1) UNIDADES (2) MIL LITROS (3) Nº. DE ESTABELECIMENTOS QUE UTILIZAM INSUMOS

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Observando-se os dados da Tabela 6 pode-se constatar que durante todo o período o uso de tratores e colhedeiras aumentou, respectivamente, em 720,81% e 358,45%. Por outro lado, a quantidade de mão-de-obra utilizada aumentou, no mesmo período, apenas em 13,39%. Dessa forma, a modernização da agricultura em Mato Grosso do Sul, analisada sob a ótica do uso e da intensificação de tratores e colhedeiras, substituiu a utilização de mão-deobra desde o plantio até à colheita. Observa-se ainda entre o início e o fim do período que o consumo de óleo diesel, importante insumo utilizado como combustível nas máquinas, equipamentos e transporte de pessoal e cargas, aumentou em 23,33 vezes. O número de estabelecimentos que utilizavam fertilizantes aumentou em 12,75% e o calcário 19,89 vezes. Além da mudança na base técnica da produção, verifica-se ainda alterações nas relações de trabalho. Junto com a concentração do capital imobilizado a partir da aquisição de máquinas e equipamentos, ocorre a especialização do trabalho e a divisão da mão-de-obra no campo, pois enquanto uns colhem, outros plantam. Muitos postos de trabalho são substituídos pela mecanização e, dependendo do tipo de cultura, como por exemplo, a soja, a relação capital versus trabalho torna-se extremamente elevada e assimétrica. Para Bonato et al. (1987) e Carnielli et al. (1989), a soja foi introduzida em Mato Grosso do Sul no início dos anos 50 trazida por agricultores sulinos. Segundo informações do IBGE, a safra de 1951/52 teve uma área cultivada de 15 hectares e rendimento médio de duas toneladas/ha. Já a difusão da cultura em âmbito estadual é resultante da ação dos órgãos de pesquisa e assistência técnica, bem como pelas ações das tradicionais cooperativas gaúchas junto aos seus cooperados. Ou seja, a Cooperativa Regional Triticola Serrana Ltda. (COOTRIJUÍ) congregou os sojicultores localizados numa linha imaginária ao norte de Campo Grande e a Cooperativa Triticola Regional Santo Ângelo Ltda. (COTRISA) auxiliou as atividades ao sul da atual capital do Estado.

As cooperativas tiveram papel fundamental para o sucesso da cultura da soja no Estado. Atuando mais na região sul, foram grandes sustentáculos do desenvolvimento das lavouras. Estabeleceram-se trazendo armazéns, secadores, fornecimento de insumos, produção de sementes e, principalmente, atuando na comercialização da produção (MICHELS, 2004, p. 85).

Barros (1999), afirma que os primeiros cultivos de soja em Mato Grosso do Sul aconteceram no final da década de 60 na região de Dourados e esta produção foi liderada pela Colônia Agrícola Federal de Dourados e acompanhada pela Empresa Brasileira de Pesquisa
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Agropecuária (EMBRAPA) instalada neste mesmo município. Para Michels (2004) o cultivo da soja em Mato Grosso do Sul é recente e foi introduzido de forma sistematizada a partir dos anos 70 sob os auspícios da modernização e tecnificação da produção. Atualmente, a soja é bastante cultivada no cerrado, pois apesar de apresentar um solo de baixa fertilidade, os avanços tecnológicos viabilizaram a sua produção em larga escala. A partir da década de 90, no ano safra 1990/91 a área de plantio da soja em Mato Grosso do Sul já ultrapassava um milhão de hectares. Deste ano safra até a colheita 2004/05 a área média de plantio esteve em 1.180.700 ha, podendo ser verificada uma tendência de expansão desta área de plantio a partir do início deste século. Em relação ao total do país, a área de plantio da soja em Mato Grosso do Sul no período do ano safra 1990/91 ao ano safra 2004/05 representou, em média, 8,63%. O tamanho médio total da área de plantio da soja no país, no período de 1990 a 2005 é de 13.874.786 ha, chegando no ano safra de 2004/05 a uma área de plantio de 23,14 milhões de hectares. O Estado do Mato Grosso é o detentor da maior área de plantio de soja do Brasil, chegando no ano safra de 2004/05 a uma área de 6.024.100 ha, seguido do Rio Grande do Sul com 4.090.100 ha, do Paraná com 4.081.500 ha, Goiás com 2.662.000 ha e, em 5º lugar, pelo Mato Grosso Sul, com uma área de plantio de 2.030.800 ha. Pode-se ainda verificar que a área de plantio da soja em Mato Grosso do Sul supera a barreira dos 2.000.000 de hectares no ano safra de 2004/2005 (Gráfico 4).
2.500,0

Ár ea em mil hectares

2.000,0 1.500,0 1.000,0 500,0 -

GRÁFICO 4: ÁREA DE PLANTIO DE SOJA EM MATO GROSSO DO SUL – 1990-2005, SEGUNDO A CONAB.

Segundo informações da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), na safra de 2004/2005 a área de plantio em Mato Grosso do Sul foi de 2,03 milhões de hectares.
105

19 90 /9 1 19 91 /9 2 19 92 /9 3 19 93 /9 4 19 94 /9 5 19 95 /9 6 19 96 /9 7 19 97 /9 8 19 98 /9 19 9 99 /2 00 0 20 00 /0 1 20 01 /0 2 20 02 /0 3 20 03 /0 4 20 04 /0 5

Ano

Neste mesmo ano safra, Mato Grosso do Sul representou 8,78% do total da área produzida no restante do país (23,14 milhões de hectares). Em relação aos demais grãos, quando comparado o ano safra 1990/91 ao ano safra 204/05, a área de plantio da soja no país cresceu 137,48%, enquanto a área destinada aos demais grãos (algodão, amendoim, arroz, aveia, centeio, cevada, feijão, girassol, mamona, milho, sorgo, trigo e triticale) cresceu apenas 27,38%. Atualmente a soja (ano safra 2004/05) representa 48% do total da área destinada ao plantio dos principais grãos. No ano safra de 1990/91 esta participação estava em 26%. Ou seja, no ano safra de 2004/05, para cada dois hectares cultivados com os principais grãos, plantava-se, praticamente, um outro hectare apenas com a soja. No ano safra de 2004/05 a área total destinada para produção dos principais grãos no Brasil foi de 48,27 milhões de hectares (Gráfico 5).

Tamanho da Área de Plantio em mil ha

60.000,0 50.000,0 40.000,0 30.000,0 20.000,0 10.000,0 -

GRÁFICO 5: ÁREA DE PLANTIO DE SOJA E DOS PRINCIPAIS GRÃOS NO BRASIL – 1990-2005, SEGUNDO A CONAB.

Pode-se confirmar a relação entre a área destinada para plantio da soja e a área ocupada pelos principais grãos cultivados no país pela quantidade de sementes de arroz, algodão, feijão, milho e trigo produzidas quando comparadas à produção de sementes de soja. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (ABRASEM), no período de 1990 a 2002 foram produzidas 19.334.000 toneladas de sementes de arroz, algodão, feijão, milho, trigo e, inclusive, de soja. O total da produção de soja neste mesmo período de análise chegou a 11.484.000 toneladas, representando 59,40% do total de sementes produzidas no país nos últimos treze anos (Tabela 7).

19 90 /9 1 19 91 /9 2 19 92 /9 3 19 93 /9 4 19 94 /9 5 19 95 /9 6 19 96 /9 7 19 97 /9 8 19 98 /9 9 19 99 /0 0 20 00 /0 1 20 01 /0 2 20 02 /0 3 20 03 /0 4 20 04 /0 51
Ano Safra Soja Principais Grãos no Brasil

106

TABELA 7: PRODUÇÃO DE SEMENTES DAS PRINCIPAIS CULTURAS BRASILEIRAS EM MIL TONELADAS – 1990-2002.
Ano 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 TOTAL Algodão 41 40 30 27 24 25 13 8 8 13 15 10 10 263 Arroz 117 136 160 132 181 164 96 123 97 129 163 110 84 1.691 Feijão 29 30 24 17 29 25 14 23 20 24 14 11 15 274 Milho 157 144 133 144 138 129 169 166 148 170 177 172 233 2.078 Soja 967 897 820 937 1.128 867 743 911 805 962 795 824 829 11.484 Trigo 524 377 329 272 267 232 219 246 187 211 212 196 270 3.543 Total 1.835 1.622 1.496 1.529 1.768 1.442 1.255 1.476 1.264 1.509 1.376 1.323 1.439 19.334 Soja/Total 52,73% 55,28% 54,80% 61,26% 63,83% 60,12% 59,19% 61,71% 63,67% 63,74% 57,78% 62,28% 57,58% 59,40%

Fonte: ABRASEM – Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (www.abrasem.com.br). Elaboração: Secretaria de Política Agrícola / MAPA.

Segundo Michels (2004), em Mato Grosso do Sul existem 32 empresas ocupadas com a produção de sementes5 de soja, sendo 29 produtores de sementes fiscalizadas, 2 produtores de sementes certificadas e apenas 1 produtor de sementes básicas. Atualmente, a indústria de sementes no Estado utiliza 80% da sua capacidade produtiva com um total de 2,64 toneladas de semente de soja por hectare. As sementes plantadas no Estado foram trazidas pelos migrantes da região sul do país, principalmente do Estado do Paraná. Ainda em Michels (2004), a Associação dos Produtores de Sementes e Mudas de Mato Grosso do Sul (APROSSUL) alega que a diminuição da produção de sementes no Estado nos anos safras para o período de 1990/91 a 201/02 pode ser atribuída aos elevados custos dos royalties pagos pelos produtores e, ainda, à concorrência com os demais Estados produtores (Gráfico 6). Ressalta-se que a produção de grãos neste mesmo período tem aumentado, confirmando a participação de sementes vindas de outros Estados.

5

A semente básica é derivada da multiplicação da semente genética (produzida pelo melhorador de plantas que tem a responsabilidade de controlar e manter as suas características de pureza); a semente certificada, produzida em campo específico, é resultado da multiplicação da 107

1.800.000 1.600.000 1.400.000
Quantidade

1.200.000 1.000.000 800.000 600.000 400.000 200.000 0
19 90 /9 1 19 91 /9 2 19 92 /9 3 19 93 /9 4 19 94 /9 5 19 95 /9 6 19 96 /9 7 19 97 /9 8 19 98 /9 9 19 99 /0 0 20 00 /0 1 20 01 /0 2

Ano Safra

Produção de Sementes

GRÁFICO 6: PRODUÇÃO DE SEMENTES DE SOJA EM MATO GROSSO DO SUL – 1990/91-2004/05, SEGUNDO A APROSSUL.

A soja é introduzida no campo como uma cultura de fácil manejo, fortemente mecanizada e consumidora de insumos modernos. Com a soja a integração dos capitais no interior do CAI, tanto a montante, como a jusante desta matéria-prima, estaria completa. De um lado, têm-se as indústrias produtoras de máquinas, equipamentos e insumos modernos e, de outro, a necessidade de implantação de agroindústrias esmagadoras de grãos. Ou seja, a jusante desta matéria-prima surgia a oportunidade de nascimento de uma nova fase substitutiva de importações a partir da instalação de indústrias esmagadoras de grãos de soja. Neste momento histórico, a perspectiva de completar o projeto iniciado com a indústria de bens de capital ganhava corpo. Para Oliveira (2003) a soja cumpriu o seu papel nos cenários nacional e internacional. No âmbito interno, segundo dados colhidos de ABIOVE (1988) apud Oliveira (2003), nos anos safra de 1959/60, 1969/70, 1979/80 e 1989/90, a área plantada por hectares e a produção por toneladas, foram, respectivamente: (171.400, 205.000); (1.318.800, 1.506.600); (8.769.000, 15.153.000); (11.551.000; 20.102.000). Comparando a taxa de crescimento da área plantada e a produção do ano safra de 1959/60 com o ano safra de 1989/90 verificamos que a área de plantio de soja aumentou 97,7 vezes e a produção 67,4 vezes. A correlação entre as duas séries (área plantada e produção) para os anos safras de
semente básica; a semente fiscalizada é decorrente da multiplicação das sementes básica ou certificada, de acordo com as especificações de cada espécie. 108

1959/60, 1969/70, 1979/80 e 1989/90 foi de 99,95%. Ou seja, a expansão da área plantada ocorreu concomitantemente e nas mesmas proporções que o crescimento da produção. Essa rápida evolução teve como esteio a modernização da agricultura e a partir desta a consolidação das relações entre agricultura-indústria. Neste primeiro momento da reprodução do capital a soja impulsionou o consumo de máquinas, equipamentos e insumos modernos produzidos a montante das grandes propriedades. É no sul de Mato Grosso do Sul que a soja tem a sua origem confirmada no Estado. O cultivo do grão iniciou-se nos municípios de Dourados, Ponta Porã, Maracaju, Fátima do Sul e Amambai. Nos anos de 1977-78 os municípios de Dourados e Ponta Porã apresentaram os melhores resultados, ambos com área colhida maior que 100.000 hectares. É também a partir do ano safra agrícola de 1977-78 que as lavouras começam a receber financiamentos de bancos comerciais e novas linhas de crédito. No caso da soja (grãos e sementes), esta lavoura é também beneficiada com a sua inclusão no Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (PROAGRO). Na década de 80, a soja consolidou-se como a cultura predominante nestes municípios, tendo uma área média colhida estabilizada em 100.000 hectares em cada um deles. Nesta década a soja esteve presente em 90% dos municípios de Mato Grosso do Sul. Segundo informações do IBGE, os maiores municípios produtores de soja no Estado são: Chapadão do Sul, Dourados, Maracaju (maior produtor no ano-safra de 2003-04), Sidrolândia, Ponta Porã e São Gabriel do Oeste, maior produtor do ano-safra de 1989-90. Nestas localidades a produção de soja em grãos informada pelo IBGE e correspondente às safras de 1989-90 e 2003-04 foi, respectivamente, 173-240; 210-407; 147-414; 59-205; 221335; e 243-342 mil toneladas. Entre os anos-safras de 1989-90 e 2003-04 o município de Sidrolândia apresentou a maior variação na produção, ou seja, um crescimento de 247,46%. O cultivo da soja está associado a médias e grandes propriedades, característica de qualquer monocultura . Em Mato Grosso do Sul o cultivo pode ser observado em áreas contínuas ao longo das rodovias do sul do Estado, ligando Rio Brilhante até Ponta Porã e, ao norte, em quase toda a extensão de terra dos chapadões de São Gabriel do Oeste, rio Corrente e das Emas. Na década de 80 o aumento da produção de soja esteve condicionado aos seguintes fatores: a) incorporação de novas áreas de plantio; b) incremento da produtividade em decorrência dos avanços em pesquisa, mecanização e assistência técnica. Os investimentos estaduais em pesquisa foram realizados pela Empresa de Pesquisa e Assistência Técnica e
109

Extensão Rural de Mato Grosso do Sul (EMPAER-MS). A EMBRAPA/Centro Nacional de Pesquisa da Soja (CNPSo), por intermédio da EMBRAPA-UEPAE Dourados, também concentrou investimentos federais em Mato Grosso do Sul, seja com recursos próprios ou a partir de convênios firmados com empresas privadas como a SOCEPPAR-Agro-Industrial e, na década de 90, a Exportadora Bataguassu S/A.

Com a criação do estado de Mato Grosso do Sul, foi instalada a empresa de Pesquisa, Assistência Técnica e extensão Rural – EMPAER, em substituição à EMATER, porém, com a responsabilidade de desenvolver pesquisa agropecuária paralelamente ao trabalho em curso junto aos produtores rurais. A EMPAER deu prioridade, de início, ao trabalho de pesquisa com a cultura da soja nas regiões norte e leste do Estado [...] A EMBRAPA, no âmbito nacional, estava representada pelos centros nacionais de produtos. Esses centros, com equipes multidisciplinares de pesquisadores, desenvolviam pesquisas básicas e aplicadas. Inicialmente, devido a dificuldade nos trabalhos dos pesquisadores e a longa distância, foi feito um acordo com alguns centros nacionais, em que a EMPAER desenvolvia pesquisas locais com o apoio científico e material genético fornecido por esses centros (MICHELS, 1994, p. 84-85).

A produtividade média da soja em Mato Grosso do Sul no período do ano safra de 1990/91 ao ano safra de 2004/05 foi de 2,32 toneladas/ha. No Brasil esta produtividade média, neste mesmo período, foi de 2,29 toneladas/ha. Ou seja, a produtividade média da soja em Mato Grosso do Sul, nos últimos 15 anos, foi maior que a produtividade média do país, apesar de estar atualmente abaixo nas últimas duas safras (Gráfico 7).
3.500 3.000

Produtividade em kg/ha

2.500 2.000 1.500 1.000 500 -

GRÁFICO 7: PRODUTIVIDADE DA SOJA NO BRASIL E EM MATO GROSSO DO SUL – 1990-2005, SEGUNDO A CONAB.
110

19 90 /9 1 19 91 /9 2 19 92 /9 3 19 93 /9 4 19 94 /9 5 19 95 /9 6 19 96 /9 7 19 97 /9 8 19 98 /9 9 19 99 /2 00 0 20 00 /0 1 20 01 /0 2 20 02 /0 3 20 03 /0 4 20 04 /0 5
Ano MS BRASIL

Em suma, nos anos 80 a produtividade média passou de 1,87 toneladas/ha para 2,30 toneladas/ha e no ano safra de 1990/91 a soja em Mato Grosso do Sul atingiu uma área colhida de 1,013 milhão de hectares, uma produção de 2,3 milhões de toneladas e uma produtividade de 2,27 toneladas/ha. Segundo os dados disponíveis na CONAB referentes à produção da soja em Mato Grosso do Sul no período de 1990-91 a 2004-05 pode-se afirmar que a média produtiva anual é de 2,696 milhões de toneladas, enquanto que no Brasil, neste mesmo período, a média produtiva anual é de 32,338 milhões de toneladas. A maior produção verificada em Mato Grosso do Sul ocorreu no ano safra de 2002/03, atingindo 4,104 milhões de toneladas (Gráfico 8).

4.500,0 4.000,0

Produção em Mil Toneladas

3.500,0 3.000,0 2.500,0 2.000,0 1.500,0 1.000,0 500,0 -

GRÁFICO 8: PRODUÇÃO DA SOJA EM MATO GROSSO DO SUL - 1990-2005, SEGUNDO A CONAB.

mais se destacaram na produção de soja foram: Sidrolândia, Maracaju e Dourados. Por outro lado, observando-se os dados do IBGE/CONAB pode-se constatar que na década de 90 o município de São Gabriel do Oeste produziu no período 2.616 toneladas, seguido dos municípios de Dourados (2.209 toneladas), Ponta Porã (2.042 toneladas) e Chapadão do Sul (2.032 toneladas). Os municípios de Maracaju e Sidrolândia não atingiram nesta década o patamar de 2.000 toneladas. A maior safra do Estado neste período também foi conquistada pelo município de São Gabriel do Oeste, pois no ano safra de 1998-99 atingiu a marca de 297

19 90 /9 1 19 91 /9 2 19 92 /9 3 19 93 /9 4 19 94 /9 5 19 95 /9 6 19 96 /9 7 19 97 /9 8 19 98 19 /99 99 /2 00 20 0 00 /0 1 20 01 /0 2 20 02 /0 3 20 03 /0 4 20 04 /0 5
Ano

Para Michels (1994), na década de 90 os municípios de Mato Grosso do Sul que

111

mil toneladas. Vale lembrar que ao longo da década de 90 os seis municípios acima citados representaram, em média, 50% do total da produção estadual (Tabela 8). TABELA 8: PRODUÇÃO DE SOJA NOS MAIORES MUNICÍPIOS PRODUTORES DE MATO GROSSO DO SUL – 1990-2000 (mil toneladas)
SAFRA/MUNICÍPIO 1990-91 1991-92 1992-93 1993-94 1994-95 1995-96 1996-97 1997-98 1998-99 1999-2000 TOTAIS Chapadão do Sul 204 204 216 217 179 168 182 216 216 230 2032 Dourados 186 170 215 231 270 230 240 179 275 213 2209 Maracaju 146 124 152 171 200 108 126 178 216 171 1592 Sidrolândia 63 60 109 90 63 63 70 88 103 163 872 São Gabriel 221 277 257 244 187 283 290 283 297 277 2616 Ponta Porã 199 138 185 271 231 168 187 178 257 228 2042

Fonte: IBGE/CONAB.

Corrobora-se com Michels (2004) quando este afirma que a soja está migrando para as regiões centro-norte e leste de Mato Grosso do Sul e que as principais regiões produtoras no ano de 2000 foram as áreas localizadas no sudeste, centro-norte e leste. Vale ressaltar que um volume expressivo da produção é escoado diretamente da propriedade rural para os portos e para as indústrias esmagadoras. Porém, segundo Michels (2004), o Estado de Mato Grosso do Sul possui uma capacidade instalada de armazenamento estimada em 4,5 milhões de toneladas. Os armazéns públicos participam com 6,65% da capacidade instalada, a iniciativa privada com 80,03% e as cooperativas com 13,31% da do total máximo de estocagem. A região sul do Estado (microrregiões de Dourados e Iguatemi) com 42,6% da capacidade de armazenagem do Estado e a região norte/nordeste (microrregiões de Alto Taquari e Cassilândia) com 33,7% concentram em 76,3% toda a capacidade ofertada de estoque. Em termos absolutos, Mato Grosso do Sul possui 632 armazéns cadastrados pela CONAB representando uma capacidade total de armazenamento de 4.857.449 toneladas de grãos, sendo 365 unidades para armazenamento a granel com uma capacidade para estocar 4.050.643 toneladas e 267 unidades para armazenamento convencional (em sacas) com capacidade de 806.806 toneladas. Os armazéns credenciados somam 46 unidades com capacidade total de armazenamento de 723.523 toneladas de grãos, sendo 29 armazéns graneleiros com uma capacidade para estocar 610.207 toneladas e 17 unidades para armazenamento convencional com capacidade de 113.316 toneladas de grãos. A capacidade

112

total de armazenamento6 (armazéns cadastrados e credenciados) é de 5.580.972 toneladas, representada por 678 unidades. Já as agroindústrias esmagadoras, localizadas a jusante de produção de soja, começaram a ser instaladas em Mato Grosso do Sul a partir da segunda metade da década de 80. Todavia, boa parte do fluxo de produtos primários produzidos no Estado era destinada às pequenas agroindústrias localizadas no Sudeste. Deve-se partir do pressuposto que a internalização das indústrias de bens de capital voltadas para a agricultura (D1 da agricultura) é a condição sine qua non para a definição do CAI e ponto de decolagem deste estudo. Neste sentido, e só neste, pode-se afirmar que o Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) em Mato Grosso do Sul já poderia ser concebido a partir das relações de interdependência entre territórios distantes, mas reticulados e articulados para frente e para trás da matéria-prima principal, a soja, muito antes da primeira agroindústria a ser instalada no Estado em 1973. Segundo Thompson (1979) apud Oliveira (2003), no ano de 1977 o país já possuía uma capacidade industrial instalada pronta para esmagar 12,2 milhões de toneladas por ano e unidades individuais capazes de esmagar 1.000 toneladas/dia, cada uma. Esta pungência agroindustrial foi precedida por medidas governamentais, adotadas para garantir a produção interna e a exportação de farelo e óleo de soja: a) no final da década de 60 o governo federal criou um imposto adicional, fixando uma alíquota de 12,5% sobre as exportações de soja, enquanto a alíquota sobre as vendas externas de farelo foi de 5% e para as vendas no mercado interno a alíquota era zero; b) taxas de juros subsidiadas para aquisição de máquinas esmagadoras de grãos; c) a divulgação da Resolução nº. 674/68 permitindo exclusivamente aos exportadores de farelo e óleo de soja receberem um financiamento, com taxas de juros também subsidiadas, equivalente a um certo percentual das exportações registradas no ano imediatamente anterior; d) concessão de subsídio adicional aos exportadores de farelo e óleo de soja com isenção de 30% na alíquota do imposto de renda sobre as exportações; e) em 1974 o governo federal proibiu a exportação de soja em grãos, permitindo a venda externa apenas para os excedentes resultantes da incapacidade de esmagamento instalada no país. Para Müller (1989) apud Oliveira (2003) a agroindústria converte-se no principal eixo da reprodução e acumulação capitalista em virtude da obrigatoriedade da industrialização dos excedentes agrícolas, da expansão no consumo de

6

Os armazéns credenciados são todos aqueles que possuem documentação necessária para estarem aptos a receberem produtos do Governo Federal. Já os armazéns cadastrados pela CONAB são todos aqueles aqueles que possuem algum tipo de irregularidade na documentação e aguardam autorização do Governo Federal para o credenciamento. 113

óleos de soja e margarinas (gorduras vegetais) e da produção de rações para alimentar aves e gados.

O modo de regulação dos fluxo agrícola empregados pelas políticas estatais, a ampliação da capacidade esmagadora e a velocidade com que crescia o consumo urbano e rural de derivados da soja no Brasil, terminaram por designar outro papel à estratégia de acumulação das empresas atuantes no setor de oleaginosas. O eixo da acumulação do setor oleaginoso (soja em primeiríssimo plano), fixado na comercialização até o início dos anos setenta, foi se deslocando voluntariamente para a agroindústria (OLIVEIRA, 2003. p. 88-89).

Diante de uma produção nacional de soja espacialmente dispersa e de volumes nunca vistos antes, os grandes grupos agroindustriais de capital internacional pulverizaram seus escritórios e representações comerciais ao longo das regiões produtoras de matériaprima. Por outro lado, a compra à vista e antecipada da produção, a venda de sementes selecionadas e de alta qualidade e assistência técnica aos produtores de soja foram as estratégias utilizadas pelas agroindústrias de capital internacional para esmagar uma quantidade de soja capaz de assegurar a inversão de seus investimentos no setor, bem como ter poder social, político e econômico para gerar uma interdependência direta a montante do CAI.
[...] em termos sociais, significa instituir uma “segurança” ao mercado interno, atraindo o sojeicultor para esse mercado. Em termos econômicos, assegura-se o abastecimento de matérias-primas, possibilita-se jogar com as oscilações de preços, tanto de soja em grãos quanto do óleo e farelo, nos mercados interno e externo. E, em termos políticos, aumenta imensuravelmente seu poder de barganha, e cria suas “crises”. (OLIVEIRA, 2003, p, 90).

A segunda metade da década de 80 foi marcada pela instalação de novas unidades agroindustriais (esmagadoras de soja) em regiões periféricas do centro dinâmico do capitalismo, ou seja, fora do eixo São Paulo-Sul do país. Segundo dados do IBGE, no ano de 1990 o Nordeste possuía oito unidades agroindustriais e o Centro-Oeste dezessete. Sendo sete em Mato Grosso do Sul, sete em Goiás, duas em Mato Grosso e uma no Distrito Federal. Segundo Oliveira (2003), dessas vinte cinco agroindústrias esmagadoras de soja, quatorze foram instaladas nos meados da década de 80. Tal fato pode ser explicado pelo deslocamento de quase 40% do cultivo de soja para o Centro-Oeste. A proximidade com a matéria-prima reduziria os custos com transportes e impostos e, além disso, as regiões mais ao norte
114

apresentavam outras vantagens que complementavam os aspectos localizacionais, tais como: custo de produção barateado pelo fator mão-de-obra; subsídios e incentivos governamentais de toda natureza; fertilidade da terra que assegurava uma taxa crescente de esmagamento. O conjunto desses fatores aliados ao poder de mercado na comercialização de soja influenciou decisivamente os investimentos dos grupos nacionais emergentes no setor, como a Sadia, Ceval, Perdigão, dentre outros.

A paisagem agroindustrial da soja, composta, até o início da década de oitenta, de pequenas unidades esmagadoras sob a tutela de pequenos grupos empresariais locais, em sua maioria, operando com baixo nível técnico, foi cedendo lugar a uma paisagem povoada por esmagadoras e porte muito superior [...] de conteúdo técnico e operacional mais moderno e avançado, com predomínio de capital nacional (OLIVEIRA, 2003, p. 103).

Em Michels (2004), a agroindústria de transformação é o carro-chefe da industrialização em Mato Grosso do Sul. Para Oliveira (2003), no caso da soja, tanto a produção como a sua agroindustrialização (esmagamento do grão, extração e refino do óleo) são os principais elementos integrantes da paisagem do Estado, onde várias esmagadoras reproduzem o espaço conforme seus interesses. A OLVESUL (Indústria Sul-Matogrossense de Óleos Vegetais Ltda.) constituiuse numa empresa esmagadora de grãos a partir da aquisição, em outubro de 1991, da unidade industrial da JÚNIOR (Indústria e Comércio de Óleos Vegetais Ltda.) localizada no município de Ponta Porã. A venda da JÚNIOR à OLVESUL foi motivada pelo seu distanciamento dos principais portos e, por conseqüência, pela inviabilização das suas exportações, bem como a debilidade gerencial e financeira demonstrada pela sua incapacidade de aproveitamento do potencial doméstico (mercado interno) na venda direta de farelo para os produtores e consumidores da região. Com a aquisição da JÚNIOR, a OLVESUL pretendia ampliar a sua capacidade de esmagamento nos próximos dois anos, passando de 180 mil toneladas/ano para 600 mil toneladas/ano. Atualmente a OLVESUL tem capacidade para esmagar 250 toneladas/dia. A COPAZA foi instalada em Dourados quando já havia representações comerciais de grupos tradicionais e atuantes no mercado mundial de soja, como a Cargill, Granol, SOCEPAR, CEVAL, Sambra, etc. Vale ressaltar que a COPAZA de Dourados foi criada em 1985, período de recuperação da economia do país, auferindo lucros extraordinários até a implantação de outras unidades agroindustriais (CEVAL, SOCEPAR e MATOSUL), que
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passaram a concorrer pela compra da matéria-prima e pela venda de óleo refinado. A proximidade da COPAZA com o local de produção da matéria-prima aumentava as chances desta esmagadora frente à forte competitividade oligopolística do setor. A instalação de unidade agroindustrial aliada à construção de silos na região de Dourados parecia, a priori, uma alternativa viável para fazer frente aos concorrentes. No entanto, o

superdimensionamento no armazenamento de grãos incompatível com o potencial produtivo da região acarretou elevação nos preços dos grãos de soja, inviabilizou a inversão dos seus investimentos e comprometeu o pagamento de seus empréstimos e financiamentos junto aos bancos. A COPAZA entrou em concordata e foi obrigada a vender suas instalações (unidade agroindustrial e silos). Em 1988 a CEVAL implanta em Campo Grande uma unidade esmagadora e refinadora capaz de esmagar 240 mil toneladas de soja/ano e refinar 150 toneladas/dia de óleo bruto. Para tanto, foram investidos aproximadamente US$ 57 milhões na transferência das máquinas da unidade esmagadora de São Miguel D‟Oeste-SC e da unidade refinadora de óleo de Rio Grande-RS. Em 1991, em decorrência dos resultados positivos desta unidade esmagadora e refinadora em Campo Grande, a CEVAL ampliou a capacidade refinadora para 280 toneladas/dia de óleo bruto. Seguindo a estratégia da CEVAL pela ocupação do espaço em função da proximidade com a produção da matéria-prima principal, a SADIA, por intermédio da FRIGOBRRÁS (Cia. Brasileira de Frigoríficos), empresa do grupo, arrendou em 1991 e depois comprou a COPAZA de Campo Grande em 1993. Com o arrendamento e a compra da COPAZA de Campo Grande, o Grupo Sadia aumentou a sua capacidade de esmagamento e refino de óleo bruto, alcançando, respectivamente, 1,68 milhão de toneladas/ano e 230 mil toneladas/ano. Em 1988 a SOCEPPAR (Sociedade Cerealista Exportadora de Produtos Paranaenses), com respaldo na Lei Estadual nº. 701, de 06 de março de 1987, solicitou ao Governo do Estado subsídios (isenção de ICMS) para instalar no município Bataguassu uma unidade agroindustrial para esmagamento de grãos de soja e ao mesmo tempo implementar, no Sudeste do Estado, região de forte tradição pecuária, um sistema de fomento à cultura de soja. O projeto de fomento não consolidou-se, respondendo apenas por uma produção de soja em torno de 10% da capacidade de esmagamento da unidade agroindustrial, obrigando a empresa investir US$ 1,5 milhão na construção de armazéns nos municípios de Nova Andradina e Angélica. Por outro lado, a esmagadora de soja da SOCEPPAR implantada no
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município de Bataguassu em 1990, denominada de Agroindustrial Exportadora Bataguassu Ltda., com capital inicial investido próximo a US$ 6,7 milhões, continua operando e atualmente tem capacidade para esmagar 1.600 toneladas/dia ou 480.000 toneladas/ano, constituindo-se numa agroindústria esmagadora de soja de grande porte. Dentre os principais motivos que justificariam a presença da SOCEPPAR em Mato Grosso Sul pode-se destacar: a) capacidade de esmagamento menor que a produção local; b) proximidade com São Paulo, mercado de óleo bruto; c) subsídios a partir da isenção do ICMS (principal fator motivador). Outras unidades agroindústrias esmagadoras de soja foram implantadas no Estado também motivadas pela proximidade com a matéria-prima e pelos subsídios ofertados pelo governo. Ou seja, no caso da instalação das empresas MATOSUL, FATISUL, PACAEMBU e SOEVER em Mato Grosso do Sul deve-se considerar o binômio Soja-ICMS como determinante na fixação destas esmagadoras em Três Lagoas, Dourados e Fátima do Sul. É mister afirmar que as agroindústrias MATOSUL, FATISUL e SOEVER foram implementadas com financiamentos e incentivos governamentais por serem constituídas por capital local. A indústria de óleos PACAEMBU, implantada em 1973 no município de Fátima do Sul, foi pioneira no esmagamento de soja em Mato Grosso do Sul. Em 1986, com o advento da Lei Estadual nº. 440, de março de 1984, solicitou incentivos de 100% da sua capacidade de esmagamento. Com a aquisição de um novo maquinário em 1987, associado aos equipamentos tecnologicamente superados, em 1988, ou seja, no auge das exportações de soja em grãos, a capacidade produtiva foi redimensionada para 180 mil toneladas/ano. Apesar desta reorganização do processo produtivo a PACAEMBU ainda operava com taxas de ociosidade de 50%, reflexo da falta de capital de giro (ainda que pese os pródigos incentivos concedidos pelo Governo do Estado na forma de isenção do ICMS, chegando a 67%), incapacidade de armazenamento e uma fraca distribuição para compra de grãos capaz de concorrer com os grupos mais sólidos, como SOCEPPAR, CARGILL, CEVAL, SADIA, etc. No ano de 1990 a agroindústria esmagadora entra em concordata e passa a operar em 1991 sob o comando arrendatário da SOEVER, que na época pagou a quantia de US$ 700 mil para esmagar 500 toneladas de soja por dia durante dois anos. O projeto não alcançou o resultado esperado em decorrência dos mesmos motivos que impediram a permanência da PACAEMBU no mercado de farelo e óleo bruto, ou seja, insuficiência de capital de giro e fraca distribuição espacial e suporte para aquisição de matéria-prima. Restando mais de um ano para encerrar o arrendamento, as empresas resolvem optar pelo distrato. Atualmente, a
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PACAEMBU está arrendada pela OLVESUL, mas segundo analistas o seu funcionamento não deverá perdurar. Em 1988, o consócio formado pela MATOSUL e a OURO & PRATA, empresa gaúcha do ramo de transportes, fertilizantes e que também detinha 51 mil hectares em Mato Grosso destinados ao cultivo de soja, com investimentos na faixa de US$ 9,5 milhões deu origem à agroindústria esmagadora chamada de MATOSUL Indústria de Óleos Vegetais Ltda., instalada no município de Três Lagoas, com capacidade para esmagar 360 mil toneladas/ano. Em 1991 nasce a FATISUL (Indústria e Comércio de Óleos Vegetais Ltda.) a partir do arrendamento da unidade agroindustrial da COPAZA de Dourados por um ano pela quantia mensal de Cr$ 11,6 milhões corrigidos pelo IGPM. A fábrica foi adquirida definitivamente em 1993 e possui uma capacidade para esmagar 480.000 toneladas de soja/ano. Considerando-se todas as unidades esmagadoras de soja localizadas em Mato Grosso do Sul pode-se afirmar que o parque agroindustrial instalado tem capacidade para esmagar 2.150.000 toneladas de soja por ano, ou seja, um pouco mais da metade (57,63%) de toda a produção de soja em grãos colhida no Estado no ano safra de 2004/05 (3.730.600 toneladas). Ver Tabela 9. TABELA 9: CAPACIDADE DE PRODUÇÃO DAS UNIDADES AGROINDUSTRIAIS ESMAGADORAS DE SOJA LOCALIZADAS EM MATO GROSSO DO SUL
ESMAGADORAS CEVAL FRIGOBRÁS MATOSUL SOCEPPAR FATISUL OLVESUL OLVESUL Fonte: Elaboração própria. LOCALIZAÇÃO Campo Grande Campo Grande Três Lagoas Bataguassu Dourados Ponta Porã Fátima do Sul ANO DE INSTALAÇÃO 1988 1984 1989 1989 1989 1984 1973/1988 ANO DE OPERAÇÃO 1988 1985 1990 1990 1989 1985 1973/1988 CAPACIDADE (T) 240.000 230.000 360.000 480.000 480.000 180.000 180.000

A decisão pela localização em Mato Grosso do Sul e a concentração dos investimentos no Estado estão intimamente associados com as relações dos empresários com o poder público estatal, principalmente em relação às agroindústrias OLVESUL, FATISUL e MATOSUL. Basicamente, a agroindustrialização voltada para o esmagamento de grãos em Mato Grosso do Sul, em especial a soja, foi possibilitada pelo capital nacional. O capital internacional se ocupou com a comercialização e armazenagem de grãos, enquanto as esmagadoras, forjadas com o “capital local”, produziam o farelo e o óleo de soja (bruto e
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refinado). Vale enfatizar que as máquinas utilizadas no esmagamento, extração e refino são modernas, competitivas no âmbito internacional (redução expressiva dos custos de energia e de manutenção) e de procedência nacional, confirmando a consolidação do D1 da agricultura, a jusante da matéria-prima. Para Oliveira (2003), em relação à localização das agroindústrias em Mato Grosso do Sul pode-se observar uma dispersão, pois mais da metade delas não está fixada nas principais regiões produtoras de soja do Estado. Para a FRIGOBRÁS e CEVAL a estratégia localizacional partiu da ocupação do espaço geográfico tendo em vista dominar o mercado consumidor de óleo refinado. Em Campo Grande, apesar da pequena produção de soja, tem-se a possibilidade de atingir com facilidade, via BR 163, as principais regiões produtoras de soja do Estado, ou seja, São Gabriel do Oeste e Dourados, que juntas correspondem a 70% da produção de grãos de soja em Mato Grosso do Sul. Por outro lado, possibilitou ainda uma proximidade com os seus pontos de compra e armazenagem. As estratégias da OLVESUL (Ponta Porã e Fátima do Sul), FATISUL (Dourados) e MATOSUL (Três Lagoas) estiveram condicionadas à abundância da matéria-prima no próprio município e/ou no seu entorno. No caso da SOCEPPAR, a sua localização no município de Bataguassu foi influenciada pela estrutura de armazenagem pertencente à empresa e situada na região sul do Estado, bem como a facilidade de escoamento de grãos para atender uma outra esmagadora do grupo localizada no município de Marechal Cândido Rondon-PR. Pode-se ainda salientar que a concessão de subsídios atraiu a instalação da SOCEPPAR para Mato Grosso do Sul.

Tirar proveito: das regiões produtoras de soja, do mercado consumidor, das taxas de subsídios, dos transportes, das fontes de energia, etc., para localização das unidades, sempre ligou-se à estratégia “global” das empresas, onde o tamanho, o desempenho no território e o volume de capital, foram decisivos no planejamento industrial de cada uma delas. [...] podemos identificar a CEVAL e a FRIGOBRÁS (SADIA) como, estrategicamente, posicionando-se na preocupação de ocupar espaço geográfico; a OLVESUL (Ponta Porã e Fátima do Sul), a FATISUL e a MATOSUL, definidas em razão da produção locacional de matéria-prima e, a SOCEPPAR ata sua flexibilidade comercial, fixando sua produção agroindustrial subsidiada (OLIVEIRA, 2003, p. 177).

O Estado possui sete unidades para esmagamento do grão de soja, tendo como produtos o farelo e o óleo (bruto e refinado). Destas sete unidades agroindustriais, duas estão
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localizadas no município de Campo Grande (FRIGOBRÁS, ex-COPAZA e CEVAL), uma em Dourados (FATISUL, ex-COPAZA), uma em Três Lagoas (MATOSUL), uma em Ponta Porã (OLVESUL), uma no município de Bataguassu (SOCEPPAR) e uma funcionando no município de Fátima do Sul (OLVESUL, antiga PACAEMBU). Ver Mapa 1.

Significativa Produção de Soja Localização de Agroindústria(s) Esmagadora(s) de Soja
Fonte: OLIVEIRA, T. M. ( 2003). MAPA 1: PRINCIPAIS REGIÕES PRODUTORAS DE SOJA EM MATO GROSSO DO SUL E LOCALIZAÇÃO DAS AGROINDÚSTRIAS ESMAGADORAS.

Para Michels (1994) os insumos modernos como adubos, herbicidas e fungicidas não são produzidos em Mato Grosso do Sul, muito embora estes custos na produção da soja representarem quase 2/3 do total gasto nesta cultura. Os custos mais elevados no plantio da soja são: adubo, representando 30% do total dos custos; herbicidas e fungicidas (27%); mãode-obra (8%).

Os principais fatores que determinam a compra dos adubos, herbicidas e fungicidas são: preço [...], qualidade [...] e o hábito, costume e tradição [...]. Tais produtos não são produzidos no Estado e seus princípios ativos são
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importados de outros países, com preços em dólar, o que explica o fato de que a maior parcela dos custos de produção esteja voltada a eles (MICHELS, 1994, p. 112).

Pode-se dizer que a indústria produtora de máquinas, equipamentos e insumos modernos não está internalizada no Estado de Mato Grosso do Sul. Para Oliveira (2003), o processo de agroindustrialização em Mato Grosso do Sul foi forjado por uma relação de dependência entre Estado e Indústria e resultante de um acordo tácito entre as duas partes. Do lado empresarial, buscou-se a valorização do capital e redução de riscos a partir dos incentivos fiscais e, do lado do Estado, a necessidade de industrializar-se para atingir o desenvolvimento almejado e ainda elevar a arrecadação de impostos no longo prazo, exigiu dos Governos Estaduais, além dos subsídios, o investimento em obras de infraestrutura (pavimentação de estradas, implantação de redes de energia elétrica, construção de um porto fluvial em Porto Murtinho). Além disso, com o término do período de concessão de subsídios às esmagadoras de soja (final do Governo Pedrossian), o Estado introduziu diversos programas com o objetivo de garantir a competitividade das agroindústrias. Dentre as ações mais relevantes pode-se citar: incentivos fiscais voltados para a agricultura, avicultura, suinocultura, bovinocultura, ou seja, fortaleceu a produção da matéria-prima e garantiu um mercado interno subsidiado capaz de absorver a produção de farelo e óleo de soja, tornando as agroindústrias competitivas. Vale ressaltar que até os dias de hoje as agroindústrias recebem incentivos fiscais.

A dependência entre Estado e agroindústrias, torna-se mais visível com relação à arrecadação e à devolução de impostos. Todas as esmagadoras de soja, atuantes no Mato Grosso do Sul, operam com incentivos fiscais provenientes das leis 440, 701 e 1.290. Os dados que possuímos permitemnos avaliar um incentivo na ordem dos US$ 40 milhões – somados neste montante, os incentivos provenientes das leis 440, 701, 1.290, e, Leis e Decretos municipais que isentaram as empresas de recolhimento do ISS, IPTU, etc. – às unidades esmagadoras de soja, desde a implantação da primeira planta em 1984 (OLIVEIRA, 2003, p. 232-233).

A constituição do CAI em Mato Grosso do Sul e seu encadeamento, tanto a jusante, como principalmente a montante, pressupõe uma investigação entre territórios em escalas de integração vertical pertencentes a espaços distintos e distantes, mas alinhados e articulados entre si, pois as indústrias produtoras e fornecedoras de máquinas, equipamentos e insumos modernos estão localizadas em territórios pertencentes ao centro do capitalismo, mas
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exercem poder de influência e condicionam a produção de soja (matéria-prima) em territórios periféricos aos seus gargalos e avanços tecnológicos. Por outro lado, a jusante, as agroindústrias beneficiadoras de grãos de soja integram o CAI, em sua grande maioria, também em escala vertical, apesar de existirem relações de mercado no território contíguo. Torna-se evidente que sob a ótica do CAIS os desdobramentos territorial, econômico, social e histórico da chamada “modernização conservadora” e suas conseqüências em Mato Grosso do Sul influenciam no processo de desenvolvimento local. Ou seja, os eventos ocorridos a montante e a jusante da produção do grão da soja são determinados por agentes externos. Além disso, a produção da matéria-prima local está subordinada aos interesses do capital industrial. O CAIS em MS não está alinhado com conceito de desenvolvimento local. Com a agregação do território como ferramenta de articulação espacial entre os elos do CAI, o poder da comunidade em ditar o seu próprio caminho desloca-se para o centro de expansão do capital. Por fim, as indústrias produtoras e fornecedoras de máquinas, equipamentos e insumos modernos estão localizadas em territórios centrais e de expansão capitalista, mas influenciam a produção de soja (matéria-prima) em territórios periféricos. Esta sobreposição de escalas territorialmente desiguais influencia o desenvolvimento local de uma comunidade, tendo em vista que a sua dinâmica está sendo forjada pelos eventos ocorridos em outros territórios.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No presente trabalho foram retratados temas relativos ao complexo agroindustrial, desenvolvimento local e território. Para compreender o processo de desenvolvimento local em Mato Grosso do Sul tornou-se imprescindível constituir e delimitar o conceito de Complexo Agroindustrial (CAI), suas inter-dependências e interações com o ambiente, considerando-se ainda a modernização e a industrialização da agricultura, bem como a influência do Estado. Para analisar o desenvolvimento local procurou-se estabelecer uma conceituação teórica sobre este processo, sem perder de vista o encadeamento do Complexo Agroindustrial (CAI), tanto a jusante, como principalmente a montante da matéria-prima (soja) e, os desdobramentos territoriais em escalas de integração vertical pertencentes a espaços distintos e distantes, mas alinhados e articulados entre si. Nesse sentido, constatou-se que as indústrias produtoras e fornecedoras de máquinas, equipamentos e insumos modernos, utilizados em Mato Grosso do Sul, estão localizadas em territórios pertencentes ao centro dinâmico de expansão capitalista, mas que influenciam e acabam condicionando a produção de soja no local de análise. Por outro lado, as agroindústrias esmagadoras de soja da região estão instaladas no hemisfério sul do Estado. Dessa forma, o desenvolvimento econômico local, concentrado na produção agrícola de soja, fica a mercê dos interesses do capital industrial, representado por indústrias e agroindústrias situadas nos flancos do CAIS. Estas empresas atuam num mercado de característica oligoplística e estão atreladas ao capital financeiro disponível para viabilizar a valorização e a reprodução de um sistema integrado verticalmente por territórios em escalas espaciais não pertencentes ao local de produção da matéria-prima, no caso a soja. O Estado teve participação decisiva nos processos de modernização e industrialização da agricultura, culminando com a consolidação dos Complexos Agroindustriais (CAI) no Brasil na década de 70 e no Estado de Mato Grosso do Sul na década de 80. A presença marcante do Estado, nas esferas estadual e federal, ficou caracterizada pela sua subordinação aos interesses do capital, que por sua vez, condicionou a agricultura à necessidade de acumulação capitalista. Os incentivos fiscais, as facilidades de acesso ao crédito, as políticas macroeconômicas estimulando a exportação e os programas de desenvolvimento para a região
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Centro-Oeste permitiram o direcionamento a produção agrícola para uma crescente mecanização e altamente dependente de agroquímicos. Com o advento da globalização e a nova divisão nacional do trabalho a região Centro-Oeste do país foi remetida ao papel de produtora agrícola, caracterizando uma estratégia de reprodução e acumulação do capital industrial. Com o aprofundamento das inter-relações no âmbito do Complexo Agroindustrial da Soja (CAIS) encadeado para trás e para frente a partir da produção local de soja constatouse em Mato Grosso do Sul a presença de características que retratam o fenômeno a “modernização conservadora”, ou seja, a estrutura fundiária concentrada em grandes porções de terra, produção de alimentos voltados para o mercado externo e os benefícios dos avanços tecnológicos (novos insumos e mecanização do processo produtivo) privilegiando somente os grandes produtores. A partir dos desdobramentos territorial, econômico, social e histórico da chamada “modernização da agricultura” e suas conseqüências em Mato Grosso do Sul foi possível contextualizar o processo de desenvolvimento. Neste caso, o desenvolvimento local deve ser encarado pela comunidade local como um processo de mudança da situação vigente, principalmente na compreensão das relações que acontecem no âmbito do CAI da Soja, da sua forma de inserção na sociedade e da criação de mecanismos que propiciem as oportunidades de crescimento coletivo. Tal entendimento pode tornar-se um instrumento fundamental para assegurar o desenvolvimento no território sul-mato-grossense. Caso contrário, o desenvolvimento trazido pelo CAIS dificilmente proverá no território um desenvolvimento local; quando muito este conjunto produtivo, continuará suscitando um desenvolvimento no local (Ávila, 2000). Por fim, o entendimento das inter-relações existentes no Complexo Agroindustrial (CAI), a presença do Estado como agente facilitador da reprodução do capital industrial e a agregação do território como espaço de articulação entre os atores participantes foram imprescindíveis para conhecer um pouco mais a realidade agroindustrial de Mato Grosso do Sul.

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