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A QUESTÃO ENERGÉTICA: SUSTENTABILIDADE DO DESENVOLVIMENTO OU DESENVOLVIMENTO DA SUSTENTABILIDADE?

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Laura M. G. Duarte2

Introdução
A relação entre desenvolvimento, sustentabilidade e a questão energética passa por uma discussão paradigmática importante, tendo em vista que traz em seu bojo diferentes visões, em especial diferentes percepções e construções teóricas sobre a relação sociedade e meio ambiente. O conceito de desenvolvimento sustentável, como uma idéia força, adquiriu visibilidade ao longo das últimas quatro décadas, e vem se consolidando e sendo incorporado em praticamente todos os setores, esferas e espaços decisórios. Se durante algum tempo, o processo de emergência e de construção conceitual apontava para uma transição, e até mesmo para uma ruptura paradigmática, hoje a apropriação do conceito pelo campo político, pela mídia, pela indústria e pelos demais setores para os quais o slogam da sustentabilidade passou a agregar valor (monetário e/ou simbólico) aos produtos, nos leva a questionar a possibilidade da ruptura. Isso se coloca de forma emblemática na discussão atual sobre a questão energética. Assim, é no campo da discussão paradigmática e dos fundamentos que alicerçam as interconexões entre o econômico, o social e o ambiental nas políticas brasileiras, que eu gostaria de refletir com vocês nesta Quarta Sustentável.

O conceito de desenvolvimento sustentável e a transição paradigmática – um processo em construção
A partir da gênese iluminista da noção de desenvolvimento, na qual o ambiente natural é visto meramente como provedor de recursos, outras concepções foram sendo construídas, especialmente ao longo das últimas décadas do século XX: a concepção do desenvolvimento como modernização; o desenvolvimento como bemestar social; o desenvolvimento como superação das assimetrias no contexto

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Palestra proferida nas Quartas Sustentáveis em 20.08.2008 Professora e Pesquisadora do CDS/UnB

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internacional; o desenvolvimento como forma de superação das desigualdades socioeconômicas internas aos países. A discussão sobre o desenvolvimento, portanto, não se configura em uma novidade, uma vez que seu conceito emergiu com a modernidade e se consolidou como um dos principais eixos estruturantes do paradigma e das visões de mundo hegemônicas na contemporaneidade. Cabe então perguntar, o que surge de novo na discussão atual sobre o processo de desenvolvimento? Em primeiro lugar, a novidade está na possibilidade de reconhecê-lo possível em tempos e em espaços diferenciados; na possibilidade de reinventá-lo fora dos modelos totalizantes e genéricos até então hegemônicos; e, inclusive, de reconhecê-lo a partir de sua própria negação: o não desenvolvimento. Essas possibilidades têm sido construídas, mais recentemente, a partir de estratégias criadas por diferentes atores sociais, de acordo com as especificidades de cada contexto e a despeito do processo de globalização. Daí surge uma segunda novidade: o desenvolvimento entendido como um processo cuja construção coletiva extrapola os limites governamentais passando para a ação pública, na qual estão envolvidos atores sociais que passam a dividir as responsabilidades pelos resultados alcançados. Neste sentido, o campo de disputas se amplia e se complexifica. Em terceiro lugar, o novo também nos é colocado pela emergência de uma visão da complexidade do desenvolvimento que abarca em todas as dimensões da vida humana e sua relação com o ambiente natural. Impulsionada pela crise ambiental, mais recentemente e pela primeira vez na história, a concepção de desenvolvimento passou a incorporar o adjetivo “sustentável”, trazendo em seu bojo, para além do puramente econômico, a idéia articuladora de diferentes dimensões que até então vinham sendo trabalhadas separadamente ou vinham sendo colocadas nos espaços dos silenciamentos e da invisibilidade: a dimensão social, a político-institucional, a cultural e, em especial, a dimensão ecológica. Assim, podemos hoje pensar o desenvolvimento a partir da ótica da sustentabilidade, ótica que engloba do econômico ao cultural, do político ao social, do institucional ao ambiental. Como apontado por inúmeros trabalhos sobre o tema, tem sido um longo caminho na direção dessa transição paradigmática. A discussão entre “conservacionistas” e “preservacionistas” - os primeiros apregoam o uso racional, adequado e criterioso dos recursos naturais em benefício da maioria dos cidadãos; e os segundos postulam uma reverência à natureza e sua proteção contra os impactos negativos do desenvolvimento das sociedades modernas

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industriais (DIEGUES, 1998:30) - teve início no século XIX e se fez presente nos vários enfoques que ganharam vulto no decorrer dos séculos XX e XXI. Dessa discussão, cuja base está na dualidade entre a visão biocêntrica ou ecocêntrica (para a qual “o mundo natural tem um valor em si mesmo independente da utilidade que possa ter para os humanos” e no qual “o homem está inserido como qualquer ser vivo”) e a antropocêntrica (para a qual “a natureza não tem valor em si, mas se constitui numa reserva de recursos naturais a ser explorada pelo homem” (DIEGUES, 1998:42)), emergiram e se consolidaram várias correntes de pensamento sobre a relação homem/natureza (ecologia profunda; ecologia transpessoal, ecologia social, ecosocialismo, ecocapitalismo, economia ecológica, economia ambiental, socioambientalismo, etc.), muitas das quais já foram citadas por vários palestrantes das Quartas Sustentáveis no semestre passado. Também emergiram, já nas últimas décadas do Século XX, os conceitos de ecodesenvolvimento e de desenvolvimento sustentável. Ao longo dessa trajetória, cresce a discussão sobre os impactos do crescimento desmesurado da sociedade industrial moderna (capitalista ou socialista) sobre o meio ambiente, um crescimento refletido seja na esfera da produção, seja na esfera do consumo. A complexidade e riqueza das diferentes abordagens sobre esse tema são apontadas por Portilho (2005). A autora chama a atenção para a “profusão de discursos e práticas que emergem de diferentes lugares e atores, expressando diferentes ideologias e orientando a definição do que significa a questão ambiental, bem como as propostas e agendas políticas visando o enfrentamento da mesma” (p.24). Cabe ressaltar que a questão energética se fez presente e foi um dos fatores unificadores dos movimentos ambientalistas (DIEGUES, 1998), como é o caso da luta contra as centrais nucleares na Europa nos anos 60, nos Estados Unidos nos anos 70 e no Brasil no final dos anos 80, com os protestos contra as Usinas Nucleares de Angra. Os acidentes nucleares ocorridos ao longo do Século XX, em especial o acidente na Usina de Chernobyl em 1986 reforçaram a luta dos movimentos sociais e a discussão sobre as formas de produção de energia sustentadoras do modelo de desenvolvimento hegemônico. A relação entre crescimento e degradação ambiental foi levada a público pela primeira vez no Relatório Meadows - Os Limites do Crescimento, preparado para o Clube de Roma e publicado em 1972. A partir de uma visão ecocêntrica esse documento definia que o grande problema estava na pressão da população sobre o meio ambiente. Neste sentido, apregoava a inviabilidade do modelo de crescimento

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industrial e colocava o crescimento zero como forma de interromper as disparidades dos padrões de desenvolvimento e de seus impactos sobre o meio ambiente. No ano de 1972 foi realizada em Estocolmo a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano. Nessa Conferência o foco recaiu sobre a relação entre o ambiente e o desenvolvimento; surgindo o conceito de um novo tipo de desenvolvimento: o ecodesenvolvimento. Esse conceito foi aos poucos sendo substituído pelo conceito de desenvolvimento sustentável, cujo emprego tem origem em documento elaborado em 1980 pela União Internacional para a Conservação da Natureza-UICN. Observa-se em Estocolmo o redirecionamento da questão original (crescer ou não crescer) para a questão de como crescer degradando o menos possível o meio ambiente. Esse deslocamento contou com a efetiva participação dos países não desenvolvidos ou em desenvolvimento que advogaram em prol de seu direito ao desenvolvimento e ao crescimento econômico. Ao priorizar a questão da pobreza e da grande desigualdade social, assim como a do direito ao crescimento, os países pobres do chamado Terceiro Mundo fizeram uma clara opção pelo desenvolvimento econômico e tecnológico; ou seja, esses países, mobilizaram-se no sentido de encaminhar a discussão da necessidade da proteção ambiental, de maneira que as alternativas a serem propostas ou construídas durante a Conferência não trouxessem prejuízos ao seu crescimento econômico (MACHADO, 2005). Por outro lado, observa-se, igualmente, o deslocamento do foco da discussão neomalthusiana sobre a questão ambiental, que até os anos 70 do Século XX recaia sobre o aumento populacional dos países pobres ou em desenvolvimento, para os estilos de produção dos países industrializados ricos, demandantes de enormes quantidades de recursos e energia. Com isso, criou-se um campo em que proliferaram alternativas de redução de impactos ambientais baseadas e limitadas, na maioria das vezes, à mudanças nos padrões tecnológicos e produtivos, assim como na criação de instrumentos legais (inovações tecnológicas, tecnologias limpas, produtos verdes, ISOs, etc.) para melhor gerir a crise ambiental, dentro do que se cunhou de “visão ecocapitalista” (PORTILHO, 2005:48). O debate sobre a questão ambiental cresce no contexto internacional e, em 1983, foi constituída a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Em 1987, foi publicado o livro Nosso Futuro Comum, também conhecido como Relatório Brundtland, com foco na problemática da pobreza e na necessidade de melhor distribuição da riqueza com a aceleração do crescimento econômico dos

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países pobres com o devido cuidado com o meio ambiente. O conceito de desenvolvimento sustentável passou a constituir-se, a partir de então, como base para a discussão e reorientação das políticas públicas em grande parte dos países (DUARTE & WEHRMANN, 2002). Segundo Portilho, o Relatório Brundtland estimula uma “virada no discurso político dominante”, uma vez que relaciona os “diferentes estilos de vida à degradação ambiental” (pg. 49). Entretanto, segundo essa autora, o relatório não estimula a redução e tampouco um teto máximo para o consumo nos países ricos; pelo contrário, propõe “que se eleve o piso de consumo da população mundial”. A alternativa tecnológica e o fortalecimento das organizações sociais no sentido de “abrir caminho para uma nova era de crescimento econômico, através do aumento no fluxo de riquezas geradas pela indústria” (pg. 50), dão o tom das recomendações do Relatório. Foi somente a partir dos anos 90 do Século XX, mais especificamente nas reuniões preparatórias e nos documentos produzidos na Rio92, que a crise ambiental passa de “um problema relacionado ao modelo produtivo” para “um problema relacionado aos estilos de vida e consumo das sociedades contemporâneas” (PORTILHO, 2005:26), colocando em pauta a necessidade de mudança nos padrões de produção e de consumo (MPPC) das sociedades contemporâneas. A Agenda 21 - programa de ação resultante da Rio92 - propõe em seus 40 capítulos um novo padrão de desenvolvimento, com base na proteção ambiental, na justiça social e na eficiência econômica. Dois aspectos da Agenda 21 merecem ser aqui destacados. Primeiro, a relação entre a pobreza, os padrões de consumo e produção, e a degradação ambiental. Segundo, a ênfase à necessidade da promoção do crescimento econômico nos países em desenvolvimento e à necessidade de políticas e ações públicas voltadas simultaneamente ao crescimento econômico, ao manejo sustentável dos recursos naturais e à erradicação da pobreza. Outro importante documento resultante da Rio92 foi a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, protocolo que deu origem ao Tratado de Quioto, adotado na 3ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas em Quioto no Japão, em 1997, com o objetivo de redução da emissão dos gases que provocam o efeito estufa em pelo menos 5% em relação aos níveis de 1990 até o período entre 2008 e 2012. Algumas das diretrizes de seu Artigo 2 (Políticas e Medidas), estão diretamente relacionadas com nossa discussão de hoje, tais como: o aumento da eficiência energética em setores relevantes da economia nacional; a promoção de formas sustentáveis de agricultura à luz das considerações sobre a mudança do clima; a

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pesquisa, a promoção, o desenvolvimento e o aumento do uso de formas novas e renováveis de energia, de tecnologias de seqüestro de dióxido de carbono e de tecnologias ambientalmente seguras, que sejam avançadas e inovadoras. Mais recentemente, os resultados do Relatório Stern (2007) e do Relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas-IPCC da ONU (2007) sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global vieram corroborar e ampliar as preocupações já colocadas no Tratado de Quioto, assim como reforçar a discussão sobre a questão energética.

Da

sustentabilidade

do

desenvolvimento

ao

desenvolvimento

da

sustentabilidade – um caminho possível?

Conforme apontam Vianna et al (2007; 2008a; 2008b;), desde Quioto a literatura científica e de divulgação internacional especializada tem colocado ênfase na discussão sobre a produção agroenergética como forma de redução das emissões de gases de efeito estufa, particularmente das emissões veiculares. A discussão recente sobre a produção dos agroenergéticos, em especial dos biocombustíveis, está centrada em um conjunto de argumentos (pós e contras) que cobrem desde as dimensões da inclusão social e da segurança alimentar, até manifestações implícitas de interesses corporativistas setoriais nacionais e internacionais, passando pelas questões ambientais propriamente ditas. A controvérsia se instala e se acirra na medida em que alguns estudos mais recentes apontam tanto para um campo de incertezas, no que se refere ao rendimento energético dos biocombustíveis em relação ao combustível fóssil e aos ganhos efetivos no balanço de gases de efeito estufa; quanto para a possibilidade de expansão da fronteira agrícola sobre a biodiversidade e para a redução de áreas agricultáveis, na qual a produção de alimentos deverá competir com as áreas de monocultura para a produção das bioenergia. A crítica no âmbito nacional incorpora, ainda, a possibilidade do Brasil vir a fornecer energia barata para países ricos, caracterizando, assim uma nova fase: a da neocolonização, uma vez que As atuais políticas para o setor são sustentadas nos mesmos elementos que marcaram a colonização brasileira: apropriação de território, de bens naturais e de trabalho, o que representa maior concentração de terra, água, renda e poder (PINTO et al, 2008:03).

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No caso brasileiro da produção do biodiesel oriundo do complexo da soja, os resultados de algumas avaliações mostram que o aumento da produção poderá levar à incorporação de novas áreas à produção agrícola, com impactos sobre o atual equilíbrio socioeconômico e ambiental nas regiões produtoras. Igual expectativa se coloca em relação à produção do etanol derivado da cana. Dados da Embrapa indicam que, apenas na região dos Cerrados brasileiros, mais de 20 milhões de hectares estarão disponíveis para plantio de grãos nos próximos anos. Entretanto, essa disponibilidade deverá ser disputada entre a cultura de grãos e a de cana para a produção de biocombustíveis, uma vez que se observa o aumento da produção de cana e de seus derivados nas tradicionais regiões produtoras de grãos, assim como sua expansão em regiões que representam novas fronteiras agrícolas para o setor sucroalcooleiro. Belini et al (2008:14), informam que Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), hoje são 6,6 milhões de hectares (86,5% localizados na região Centro-Sul), utilizados para o cultivo da cana-de-açúcar – 7,4% superiores a safra de 2006. Em 2007 a produção foi superior a 14,54%... Destes, 91,2% proveniente da região Centro-Sul. ... No entanto, o desafio é expandir a tecnologia de produção da cana-deaçúcar aos demais estados do Brasil, os quais não são tradicionalmente produtores, ou em regiões onde se apresentam baixa produtividade ou a sua produção requer custos muito altos.

Os autores alertam, ainda, para o fato de que o aumento da matéria prima no mercado nacional está sendo possível graças ao emprego de técnicas não convencionais, tais como a transgenia e o uso de enzimas para a produção de açúcares (p. 12). O sul do estado de Goiás, tradicional produtor de grãos, pode ser um exemplo desse processo expansionista. Alguns municípios já registram a substituição paulatina da soja e de propriedades agropecuárias pela lavoura de cana, e já sentem fortemente os efeitos do crescimento do setor socroalcooleiro nas dinâmicas territoriais, assim como o acirramento crescente dos conflitos sóciopolíticos locais no que se refere à gestão e ao uso dos recursos naturais disponíveis, como desmonstrado por Valarie et al (2008) em trabalho sobre o município de Rio Verde. Mais recentemente, a relação entre o uso de terras agricultáveis para cultivo de agroenergéticos e a diminuição da produção, alta de preços e escassez de alimentos vem estimulando a discussão sobre a produção de biocombustíveis em todo o mundo. A principal questão colocada está diretamente ligada à preservação da segurança

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alimentar mundial, como forma de conter a fome que assola grande parte da população dos paises pobres. Esse debate ganhou fôlego na 30ª. Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) para a América Latina e Caribe, realizada em Brasília em abril de 2008. Em seu discurso, o Diretor Geral da FAO salienta a complexidade da questão: El auge actual de los biocombustibles es objeto de un amplio debate en el mundo. La FAO reconoce que estos nuevos productos podrían desarrollarse en respuesta a consideraciones al tiempo comerciales, energéticas y agrícolas. En esta fase, podemos todavía organizar este sector a fin de que beneficie a los más pobres mediante la mejora de sus ingresos y un acceso más fácil a la energía en el plano local. Se trata de una cuestión muy compleja. El carácter positivo o negativo de la incidencia del desarrollo de las bioenergías en la seguridad alimentaria dependerá de las políticas que se adopten a escala nacional e internacional sobre la producción y la distribución nacionales, así como sobre los factores que afectan al comercio internacional, especialmente las subvenciones y los derechos de importación (FAO, 2008: 05).

Por sua vez, o Presidente Lula marcou a posição do Governo brasileiro em relação às críticas internacionais sobre as possíveis ameaças da política de biocombustíveis à segurança alimentar: É com crescente espanto que vejo, portanto, tentativas de criar uma relação de causa e efeito entre o desenvolvimento dos biocombustíveis e a escassez de alimentos ou o aumento de seus preços. Meu espanto é maior quando constato que são poucos os que mencionam o impacto negativo do aumento dos preços do petróleo sobre os custos de produção e transporte dos alimentos, sobre os custos de produção de fertilizantes. Que poucos se revoltam contra o impacto nocivo e duradouro dos subsídios e do protecionismo. Que muitos criticam, em vez de celebrar, o aumento do consumo de alimentos nos países em desenvolvimento mais dinâmicos. A produção brasileira de etanol à base de cana-de-açúcar ocupa uma parte ínfima das terras agricultáveis, não reduz a área de produção de alimentos, nem as utiliza para sua produção. Sua expansão tem sido feita com base em ganhos de produtividade e no melhor aproveitamento de terras usadas para pastagens. Não há riscos de produção na Amazônia, nem de deslocamento de produções. O mesmo se aplica ao biodiesel, que estamos crescentemente ancorando na agricultura familiar (BRASIL, Presidência da República, Secretaria de Imprensa, 2008a. http://www.imprensa.planalto.gov.br). O fato é que a literatura recente se divide em posições antagônicas e que a discussão está longe de chegar a um denominador comum. Em palestra recente, Vianna (2008b:182-183) discute a produção do biodiesel no Brasil, apontando para três grandes riscos:

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O primeiro risco é o social, é o agronegócio arrebatar toda produção e excluir a agricultura familiar. Outro é o aumento dos preços dos alimentos. ... No que diz respeito aos riscos ambientais, o primeiro grande risco é a monocultura. O segundo é a pressão sobre biomas frágeis e a biodiversidade. E o terceiro é a emissão de gases de efeito estufa pelo uso da terra. ... Dentre os riscos econômicos, o maior deles é oriundo da própria natureza desse produto. Energia é fonte de poder; e poder não se dá, poder se conquista. Então, qual é o grande risco econômico? É o controle do setor pela indústria do petróleo, pela indústria da tecnologia genética e pela indústria de grãos. Esse é o maior risco econômico. E os riscos dos custos de produção, o risco da competitividade. Segundo Vianna, esses riscos podem ser minimizados por meio de políticas públicas e de instrumentos técnicos, legais e normativos que permitam a proteção da biodiversidade e do capital ambiental, assim como o fortalecimento da organização e inclusão da agricultura familiar. Em certa medida, algumas das alternativas apontadas por Vianna encontramse delineadas no documento Diretrizes de Política de Agroenergia do Governo brasileiro. Esse documento estabelece direcionamentos às políticas, programas e ações públicas voltadas à produção agroenergética, que, sob parâmetros de competitividade, sustentabilidade e equidade social e regional, devem estar aderentes à política ambiental brasileira e em perfeita integração com as disposições do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Quioto. (BRASIL, 2005:6). As diretrizes estipuladas no referido documento para o período de 2006/2011 foram: o desenvolvimento da agroenergia e produção de alimentos; a autonomia energética comunitária; a geração de emprego e renda; a otimização do aproveitamento de áreas antropizadas; a otimização das vocações regionais; a liderança no comércio internacional de biocombustíveis e a aderência à política ambiental. Essas diretrizes estão em consonância com as colocadas pelo Tratado de Quioto, mas apresentam uma clara discrepância em relação as previsões de investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC) para os anos de 2007 a 2010, ou seja, para o mesmo período referido nas Diretrizes da Política Agroenergética. Esse Programa apresenta uma perspectiva claramente desenvolvimentista e evidencia a desconexão existente entre as diversas políticas e propostas governamentais na direção do desenvolvimento sustentável. Conforme documento oficial (BRASIL, 2008b), o PAC é um conjunto de medidas que visa a incentivar o investimento privado, a aumentar o investimento público em infra-estrutura e a remover obstáculos ao crescimento tendo como principal

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objetivo a aceleração do crescimento econômico. O Programa não esclarece o que é considerado como “obstáculos ao crescimento econômico”, deixando em aberto um espaço de disputas políticas e econômicas na definição do que deve ou não ser eliminado durante o processo. Vilani et al (2008) chamam a atenção para a ausência de premissas voltadas para a qualidade do meio ambiente e apontam para a discrepância entre as previsões de investimentos do Programa para o petróleo e gás natural (133,8 bilhões de reais) e para os combustíveis renováveis (17,4 bilhões de reais), afirmando que Os crescentes investimentos em petróleo e gás natural tendem a conduzir, desde que mantida uma inércia nos incentivos estatais, à estagnação o desenvolvimento das fontes alternativas de energia. A questão não é apenas garantir o suprimento de energia, mas que haja distribuição eqüitativa, atendendo a população como um todo, eliminados os desperdícios e os privilégios dos grandes centros consumidores. Ainda assim, o temor de um novo apagão e de uma crise energética, que atingiria fortemente a grande produção privada, comanda e subverte a destinação das verbas do Programa de Aceleração do Crescimento Econômico, a qualquer custo social e ambiental. Somados os investimentos destinados às áreas de “saneamento básico”, “habitação” e “recursos hídricos” verifica-se um valor inferior a 40% do total destinado à “geração e transmissão de energia elétrica”. (p.11-12)

E o tempo se esgota... últimas considerações
Como pode ser observado, apesar dos deslocamentos do foco das discussões ocorridos nas décadas de 70 e 90 do século XX (do aumento populacional dos países pobres ou em desenvolvimento, para os padrões de produção dos países ricos; e dos padrões de produção dos países ricos para os estilos de vida e consumo das sociedades contemporâneas), e da a crescente valorização de outras dimensões da vida humana além da puramente econômica, a contradição entre crescimento econômico e preservação ambiental está longe de ser equacionada, especialmente quando se leva em consideração a assimetria existente entre os países do Norte e do Sul. Concluo afirmando meu ponto de vista de que a ruptura paradigmática, vislumbrada como possível nos anos 70, foi abortada pela apropriação e mercantilização dos pressupostos da noção de sustentabilidade. Os fundamentos antropocêntristas, conservacionistas e desenvolvimentistas tão assíduos na construção do conceito de desenvolvimento sustentável, também se fazem presentes na discussão sobre a questão energética e nas propostas de desenvolvimento que o Governo Brasileiro apresenta para a presente década, o que

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evidencia uma clara opção pela sustentabilidade do desenvolvimento, em detrimento do desenvolvimento da sustentabilidade. Não se trata de um simples jogo ou inversão de palavras; mas de uma inversão de lógicas, uma vez que se deixou de ter como foco as questões relativas à sustentabilidade, para priorizar aquelas relativas ao desenvolvimento. Entretanto, não podemos desconsiderar os avanços ocorridos ao longo das últimas quatro décadas, seja no campo paradigmático, seja no campo das ações; o que me leva a pensar que o processo de transição encontra-se ainda em construção. Essa transição possibilitou dar visibilidade à relação existente entre pobreza, padrões de produção e de consumo, e degradação ambiental; bem como colocar em relevo a dimensão social, ambiental, cultural, política e institucional, nos processos de desenvolvimento. Todavia, é importante ressaltar a necessidade do fortalecimento de programas e de políticas que promovam simultaneamente o crescimento econômico, o uso sustentável dos recursos e a inclusão social, assim como a urgência da promoção de padrões de produção e de consumo sustentáveis, poupadores de recursos e de energia. Voltando à questão original de nossa reflexão sobre a questão energética: se é possível construir um caminho que saia da perspectiva da sustentabilidade do desenvolvimento para a do desenvolvimento da sustentabilidade. Minha resposta é positiva, mas entendo ser fundamental o protagonismo dos diferentes setores da sociedade nesse processo, em especial daqueles que foram historicamente alijados dos espaços decisórios. A opção por uma matriz energética realmente compatível com os fundamentos da sustentabilidade precisa ter como premissa uma opção pela mudança no modelo de desenvolvimento. Sem dúvida, isso implica em decisões políticas importantes, como redirecionar os investimentos e abrir espaço para uma reflexão profunda e honesta sobre quem serão os reais beneficiários do desenvolvimento e das alternativas energéticas em construção. Gostaria de deixar duas questões para nossa reflexão ao longo desse semestre nas Quartas Sustentáveis: Quanto mais de energia será preciso produzir para manter os atuais padrões de desenvolvimento, de produção e de consumo? Quais os impactos que essa produção terá sobre o meio ambiente no médio e longo prazo? Quem efetivamente se beneficiará com a energia produzida e com os resultados do desenvolvimento? Quais são as alternativas possíveis para reverter a lógica do crescimento a qualquer custo? Muitos autores se perguntam se teremos tempo suficiente para promover as mudanças necessárias a fim de evitar o colapso do planeta terra e de suas diferentes

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formas de vida. A resposta a essa questão depende de cada um de nós e de todos nós. Encerro parafraseando Raul Seixas: Sonho que se sonha só É só um sonho que se sonha só Mas sonho que se sonha junto é realidade Espero realmente que o CDS e as Quartas Sustentáveis continuem sendo neste semestre um espaço privilegiado; um espaço no qual possamos sonhar juntos, pensar e, quem sabe, construir caminhos para tornar nossos sonhos realidade.

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