Direitos Reais

Época de recurso 03-07-2013
Duração do exame: 2h30m

NOTA: Todas as respostas devem ser legal e doutrinalmente fundamentadas.
As perguntas I e II devem ser respondidas num grupo de folhas separado das
perguntas III e IV
I
Etelvina celebrou um contrato com Gertrudes, segundo o qual a primeira se
comprometia a deixar a segunda pescar no lago da quinta em Trás-os-Montes de que é
proprietária, todos os fins-de-semana, por um período de 10 anos. As partes
pretenderam atribuir a este contrato eficácia real. Dois anos depois da celebração deste
contrato, Etelvina vendeu a quinta a Helena, observando o negócio todas as
formalidades legais. Helena impede Gertrudes de pescar no lago, desse momento em
diante. Esta reage, invocando contra Helena o direito que Etelvina tinha constituído a
seu favor.
- Pronuncie-se sobre a pretensão de Gertrudes, não deixando se referir às
características dos direitos reais que considerar diretamente implicadas na sua
resposta. (3 valores).

II
Joaquim e Daniel constituíram, por contrato, a favor de Anastácia, um direito real de
gozar temporariamente uma moradia, enquanto viver, sem alterar a sua forma ou
substância. O negócio observou todas as formalidades legais. Um ano depois, Anastácia
cedeu o seu direito a Maria. Maria falece dois anos depois, sucedendo-lhe a sua filha
Beatriz. O que acontecerá, neste caso, a este direito? (3 valores)

III
A Sociedade Auto-Prata celebrou com a sociedade X, em Janeiro de 2006, um contrato
de compra e venda, por documento particular, de uma faixa de terreno com 480 m2 de
parque de estacionamento ao ar livre, tendo pago o preço de € 20,000. Nesse terreno,
construiu a expensas suas, um edifício destinado à comercialização e distribuição de
pneus, jantes e outros acessórios auto e a prestação de outros serviços. Como o local não
dispunha de qualquer infra-estrutura, foi a sociedade Auto-Prata que suportou o custo
das mesmas, incluindo a obtenção das licenças, nele construindo um edifício, que dotou
com todos os equipamentos necessários ao exercício da sua actividade, com o que
despendeu a quantia de € 250,000.
Em Junho de 2013, a sociedade X pede a nulidade do contrato, por falta de forma, o
reconhecimento do seu direito de propriedade e a entrega do imóvel. António alega que
a nulidade coloca em risco a sua própria sobrevivência e dos seus 17 trabalhadores, e,
sustenta que adquiriu o direito de propriedade devido ao avultado valor das obras
realizadas, as quais alteraram substancialmente o prédio.

a) A quem pertence o imóvel? (6valores)

IV
Por escritura de 19 de Abril de 1996, lavrada no Cartório Notarial de Ourém, Alberto e
Mariana, casados, declararam doar a seus filhos, Maria e Carlos, o prédio misto
composto de mato e uma casa destinada a indústria de artigos religiosos, com a área de
100 m2, sito em Outeiro Gordo, limite de Moita Redonda, freguesia de Fátima. O
prédio não foi, contudo, registado em nome dos donatários, na Conservatória do Registo
Predial. Desde então, Maria e Carlos utilizam este prédio à vista de todos, com a
convicção de que são os seus legítimos proprietários. No 4º Juízo do Tribunal Judicial
de S. João da Madeira correu termos execução ordinária, instaurada em 2 de Junho de
2011, em que foi exequente o Banco X, e executados, Alberto e Mariana, em cujo nome
o imóvel permanecia inscrito no registo predial. Este prédio foi penhorado, em Maio de
2012, na acção executiva, tendo nela sido adquirido, por arrematação, por Ernesto, em 5
de Junho de 2013. Tal aquisição encontra-se registada, em nome de Ernesto, desde 28
de Junho de 2013. O mandatário de Maria e Carlos esteve presente na venda judicial e,
tendo-se oposto à mesma, juntou a escritura de doação.
Na comarca de Ourém, Maria e Carlos instauraram acção declarativa, em processo
ordinário, contra Ernesto, pedindo em síntese, que o réu seja condenado a reconhecer
que eles, autores, são os proprietários e possuidores de tal prédio, que seja declarada
nula a venda executiva e cancelado o registo feito a favor de Ernesto.
Ernesto defende a sua posição, invocando ter registado a aquisição em primeiro lugar.
- Diga a quem pertence o imóvel, de acordo com as regras do registo e da posse,
referindo a posição da jurisprudência (8 valores).






I. Servidão pessoal – noção
- distinguir da servidão predial
- art. 1306.º, n.º 1, 1ª parte – princípio da tipicidade
- negócio real nulo
- negócio obrigacional válido (eficácia inter partes).

II. Direito de usufruto – noção
- trespasse (noção e regime)
- problemática doutrinal em torno dos efeitos da morte de Maria

III. Contrato de compra e venda entre sociedade auto-prata e sociedade X

Contrato nulo por falta de forma: arts 875, 220, 285, 286 e 289 CC
Não produz efeito translativo da propriedade

Construção de edifício: noção de obra para o efeito do regime da acessão industrial imobiliária:
art. 1340.º
Terreno alheio

Noção de acessão: art. 1325.º

Possibilidade de aquisição originária da propriedade (art. 1316.º) caso se verifiquem os
restantes pressupostos da acessão industrial imobiliária – art. 1340.º
- Valor acrescentado;
- Boa fé ( consciência de não estar a lesar direitos alheios – art. 1260.º, n.º 1)


A Sociedade Auto-Prata adquire por acessão industrial imobiliária.

Art. 1317, al. d): Tese da aquisição automática ou tese do direito potestativo (momento da
aquisição da propriedade)

IV. Dupla alienação: Conflito entre adquirente negocial (por doação) e adquirente legal (venda
executiva)
Valor jurídico da doação: negócio válido e eficaz inter partes mas inoponível em relação a
terceiros (arts 4.º, nº 1 e 5.º, n.º 1 do CRPred.) porque não registaram.
Registo condição de oponibilidade, mas não condição de aquisição de direitos.
Princípio da consensualidade – art. 408.º, n.º 1 e art. 954.º, al. a)
A propriedade transmite-se para Maria e Carlos.
Noção de posse
Têm uma posse titulada, de boa fé, pública e pacífica (fundamento legal)

Processo executivo contra Mariana e Alberto: Banco (credor penhorante) não é terceiro para
efeitos de registo, apesar de a penhora ser um acto sujeito a registo (art. 2.º CRPred.). Acórdão
uniformizador 3/1999, que revogou o acórdão unif. 15/97 que aceitou o conceito amplo para
efeitos de registo.
Art. 5.º, n.º 4 do CRPred. Conceito de terceiros para efeitos de registo
Preâmbulo do DL 533/99 – conceito restrito de Manuel de Andrade
Divisão da doutrina:
Carvalho Fernandes, Rui Pinto Duarte e Univ de Coimbra: continuam a defender conceito
amplo.
Clara Sottomayor, Hörster: conceito restrito: exclusão do credor penhorante e do comprador
na venda executiva: trata-se de uma aquisição legal (exercício de publica potestas do tribunal)
e não negocial.
Aceitar em relação à inclusão, ou não, do comprador na venda executiva no conceito de
terceiro qualquer uma das posições.
De qualquer forma, a solução seria sempre favorável aos donatários: uma vez que tinham
posse há mais de 15 anos (art. 1296.º), já adquiriram por usucapião ((arts 1287 e 1288) e esta
forma de aquisição prevalece sempre sobre a aquisição registal (art, 5.º, n.º 2, al. a) do CRPred.)
• Aquisição originária do direito: prevalência sobre todos os registos existentes sobre o
bem (usucapio contra tabulas)
- No nosso sistema jurídico, a forma por excelência de aquisição da propriedade é a usucapião.
- Os proprietários são Maria e Carlos (mesmo sem registo: têm apenas de provar a posse e o
decurso do prazo por usucapião, no processo judcial); registo meramente enunciativo.