1

Disciplina: Psicologia B
Data: Março de 2012





Trabalho realizado por:
Ana Reis nº3 12ºB
Ana Cerdeira nº4 12ºB
André Pereira nº5 12ºB
Pedro Silva nº21 12ºB
Sara Barrocas nº24 12ºB
2

Índice

Introdução .................................................................................................................................... 4
Genética ........................................................................................................................................ 6
ADN, genes e cromossomas...................................................................................................... 6
Hereditariedade específica e individual .................................................................................. 10
Hereditariedade/meio - genética do comportamento ............................................................... 11
Genótipo e fenótipo ................................................................................................................. 11
Filogénese e Ontogénese ......................................................................................................... 11
Preformismo e Epigénese ........................................................................................................ 12
Genoma humano ..................................................................................................................... 13
Clonagem ................................................................................................................................ 15
Gémeos .................................................................................................................................... 19
Sistema Nervoso ........................................................................................................................ 23
Neurónios, sinapses e neurotransmissores .............................................................................. 23
Franz Joseph Gall .................................................................................................................... 24
Função vicariante ou de suplência do cérebro – plasticidade cerebral .................................... 25
Plasticidade sináptica .............................................................................................................. 26
Sistema Nervoso Central (SNC) – espinal medula e cérebro .................................................. 26
Sistema límbico ....................................................................................................................... 30
Hemisférios cerebrais .............................................................................................................. 31
Estudos sobre pacientes com hemisférios cerebrais separados - experiências ........................ 34
Lobos cerebrais ....................................................................................................................... 34
Sistema Nervoso Periférico (SNP) .......................................................................................... 37
Sistema Nervoso Somático (SNS) ........................................................................................... 37
Sistema Nervoso Autónomo (SNA) ........................................................................................ 38
Sistema Nervoso Simpático .................................................................................................... 38
Sistema Nervoso Parassimpático ............................................................................................ 39
3

Áreas Pré-Frontais ................................................................................................................... 39
Marcador somático/importância das emoções nas tomadas de decisão .................................. 40
Resumo do livro “O Erro De Descartes”, de António Damásio ............................................ 42
Bibliografia ................................................................................................................................ 63
Webgrafia................................................................................................................................... 64



















4

Introdução

Este trabalho foi-nos proposto pela professora de Psicologia B, Ana Monteiro,
sendo o tema a Genética e o Sistema Nervoso. Também nos foi indicada a leitura do
livro “O Erro de Descartes”, de António Damásio.
Ao longo do 1º Período realizámos toda a pesquisa acerca destes assuntos e
durante o 2º Período analisámos as informações que foram recolhidas anteriormente e
transcrevemo-las para o computador.
Assim, optámos por dividir o nosso trabalho em três partes: uma primeira
relacionada com a Genética, uma segunda sobre o Sistema Nervoso e por último
fizemos o resumo do livro.
Há várias questões que se podem levantar acerca destes temas. Começando pela
Genética… Qual a importância da identificação dos genes responsáveis por certas
doenças? Esta identificação tem uma importância médica muito grande, porque, para
além de se identificar o erro genético que está na origem de uma doença já declarada,
permite prevenir outras que ainda não se manifestaram. Por outro lado, uma pessoa que
saiba que é portadora dos genes responsáveis pela doença de Alzheimer, ao fazer um
seguro de vida ou de saúde, ao ingressar num emprego, esta informação poderá impedir
ou limitar o exercício dos seus direitos individuais. Será a clonagem algo de bom ou de
mau? Este é outro assunto que levanta muitas questões éticas, havendo pessoas que são
a favor e outras contra. Por exemplo, os que estão contra a clonagem afirmam que a
clonagem terapêutica envolve a destruição de minúsculos embriões, ao serem retiradas
as células embrionárias indiferenciadas. Pelo contrário, os defensores da clonagem
dizem que não devem ser concedidos os mesmos direitos e o mesmo respeito a células
microscópicas do que a um adulto ou a uma pessoa que possam morrer devido à não
utilização da clonagem terapêutica.
Passando ao Sistema Nervoso… Será que o tecido cerebral possui aptidão
regenerativa e que o encéfalo não é determinado geneticamente? As áreas vizinhas de
uma zona afetada do cérebro têm a capacidade de desempenhar em parte as funções da
área afetada. Assim, funções perdidas devido a lesões podem ser recuperadas. Os dois
hemisférios e os quatro lobos cerebrais apresentam funções distintas? A resposta é
obviamente que sim e apesar de isto já se saber há muito tempo atrás, só há alguns anos
5

é que se descobriram quais as funções específicas de cada uma destas zonas e quais as
consequências associadas a lesões nestas áreas.
Por fim, chegamos ao livro “O Erro de Descartes”, de António Damásio… Que
mudanças surgem nos indivíduos com lesões nas áreas pré-frontais? Estes doentes
apesar de apresentarem um discurso coerente, de a sua inteligência não se ter alterado e
terem consciência do que lhes aconteceu, sofrem grandes mudanças nas suas vidas.
Passam a ter dificuldades em agir e em planear o futuro, dão-se alterações bruscas nas
suas personalidades, podem ficar obcecados por estratégias que não resultam ou podem
não conseguir desenvolver uma sequência de ações correta. Quantas são as
possibilidades para a resolução de um dilema? Há duas hipóteses: a primeira é aquela
que nos leva a decidir através da lógica; a segunda é a dos marcadores somáticos. O que
são marcadores somáticos e quais as suas funções? São mecanismos automatizados que
suportam as nossas decisões e que nos permitem reduzir drasticamente o número de
opções que podemos tomar; estes podem não ser suficientes para a tomada de decisão
humana normal, mas aumentam provavelmente a precisão e a eficiência do processo de
decisão. A sua ausência tem o efeito contrário, ou seja, reduz a nossa eficiência de
decisão. Será que Descartes tinha razão ao afirmar que a razão se encontra separada do
corpo? António Damásio não concorda com Descartes e afirma que as emoções
possuem uma grande importância nas tomadas de decisão.
Todas estas questões e muitas outras serão respondidas de uma forma mais
aprofundada nas páginas a seguir apresentadas.








6

Genética
ADN, genes e cromossomas:

Tudo começa quando duas células se encontram: a célula masculina – o
espermatozóide – e a célula feminina – o óvulo. Ao encontro destas duas células dá-se o
nome de fecundação. Quando fecundado, o óvulo transforma-se em ovo ou zigoto.
O núcleo de cada célula humana contém 23 pares de cromossomas, ou seja, 46
cromossomas no total. Um par é composto por dois membros, sendo cada membro
proveniente de cada um dos progenitores. Os cromossomas são porções ou sequências
de ácido desoxirribonucleico (ADN) que contém vários genes. Os primeiros 22 pares de
cromossomas transportam o mesmo tipo de informação genética, enquanto que o par 23
é responsável por determinar o sexo do indivíduo. Na mulher, o par 23 é composto por
dois cromossomas X e no homem por um cromossoma X e um cromossoma Y.
Portanto, quando um óvulo é fecundado por um espermatozóide que contém um
cromossoma do tipo X, nascerá uma rapariga; se o cromossoma for do tipo Y, nascerá
um rapaz.











O ADN é um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas
que coordenam o desenvolvimento e o funcionamento de todos os seres vivos. O seu
papel principal é armazenar as informações necessárias para a formação de uma
proteína. É uma molécula de dupla hélice, composta por 4 bases azotadas que
Fig. 1 – Cariótipo humano
7

estabelecem relações de complementaridade entre si: adenina com timina e guanina com
citosina.













Os genes são os segmentos de ADN que contêm a informação genética. São as
unidades funcionais da hereditariedade e fornecem instruções às células para se
dividirem durante a mitose. Está inscrito nos genes que vamos ter um cérebro, pulmões,
coração, bem como quais irão ser as nossas características físicas e psicológicas.
A mitose é o processo que permite que um núcleo se divida, originando dois
núcleos-filhos, cada um contendo uma cópia de todos os cromossomas do núcleo
original e, consequentemente, de toda a informação genética.
Esta divisão nuclear é geralmente seguida de uma divisão do citoplasma,
designada citocinese. Assim, a partir de uma célula-mãe formam-se duas células-filhas.,
idênticas entre si e idênticas à célula-mãe que lhes deu origem.
Depois de uma célula se dividir, é necessário algum tempo para que essa célula
esteja pronta para uma nova divisão, reiniciando-se todo o processo. A esta alternância
de períodos de divisão e períodos de não-divisão chama-se ciclo celular.
O ciclo celular compreende, assim, a mitose e o tempo que decorre entre duas
mitoses, que toma a designação de interfase.
Durante a interfase a célula procede à síntese de diversos constituintes, o que
conduz ao crescimento e à maturação. A interfase compreende três períodos: G
1
, S e G
2
:

Fig. 2 – Molécula de dupla hélice de
ADN
8

Período G
1
: ocorre uma intensa atividade de síntese de proteínas, lípidos e glícidos.
Período S: ocorre a replicação do ADN (cada molécula de ADN origina, por replicação
semiconservativa, duas moléculas-filhas idênticas).
Período G
2
: verifica-se a síntese de mais proteínas, bem como a produção de estruturas
membranares, a partir das moléculas sintetizadas em G
1
, que serão utilizadas nas
células-filhas.

No final do período G
2
inicia-se a mitose, que é composta por quatro fases:

Profase - os cromossomas enrolam-se, tornando-se progressivamente mais condensados,
curtos e grossos. Forma-se o fuso acromático e o invólucro nuclear desagrega-se.
Metafase - os cromossomas apresentam a sua máxima condensação. Os cromossomas,
ligados ao fuso acromático, dispõem-se no plano equatorial, formando a chamada placa
equatorial.
Anafase - verifica-se o rompimento do centrómero, separando-se os dois cromatídeos
que constituíam cada um dos cromossomas.
Telofase - inicia-se a organização dos núcleos-filhos. Os cromossomas iniciam um
processo de descondensação. A mitose termina e a célula possui dois núcleos.














Fig. 3 – Fases da mitose
9

Outro dos processos que está relacionado com os cromossomas é a meiose. É na
meiose que é originada uma célula diplóide (2n) através de um processo de divisão
celular que, por sua vez, irá formar quatro células haplóides (n). As células-mãe
apresentam o dobro do número de cromossomas das células-filhas.
São duas as divisões mitóticas que fazem parte da meiose: divisão I e divisão II.
Na divisão I da meiose ocorre a formação de dois núcleos haplóides (n) a partir de um
núcleo diplóide (2n). A divisão I é intitulada de divisão reducional, visto que nesta fase
existe uma redução do número de cromossomas. Por sua vez, na divisão II existe a
separação de cromatídeos que vão dar origem a quatro núcleos haplóides (n), contendo
os cromossomas destes um cromatídeo. A divisão II é também conhecida por divisão
equacional, já que o número de cromossomas não se altera durante todos estes
processos.
A divisão I e a divisão II que constituem o processo da meiose são antecedidas
por uma única replicação do ADN. Os cromossomas são duplicados no período S,
apresentando depois dois cromatídeos unidos pelo centrómero.

Divisão I da meiose:

Profase I - Os cromossomas tornam-se mais grossos, curtos e visíveis (condensação dos
cromossomas). Os cromossomas homólogos (cromossomas que possuem o mesmo
tamanho, forma e que são responsáveis pelas mesmas características) emparelham.
Nesta fase ocorre troca de informação genética, designando-se este fenómeno por
crossing-over. O invólucro nuclear desagrega-se.
Metafase I – Os cromossomas homólogos distribuem-se aleatoriamente na placa
equatorial.
Anafase I - Os cromossomos homólogos separam-se e afastam-se para pólos opostos.
Telofase I – Os cromossomas tornam-se mais finos e longos (descondensação dos
cromossomas). O citoplasma divide-se e formam-se duas células-filhas com n
cromossomos cada uma.




10

Divisão II da meiose:

Profase II – Os cromossomas com dois cromatídeos condensam-se. Forma-se um novo
fuso acromático e os cromossomas dirigem-se para a placa equatorial.
Metafase II - Os cromossomas dispõem-se na placa equatorial.
Anafase II - Os centrómeros dividem-se e os cromatídeos do mesmo cromossoma
separam-se para pólos opostos (ascensão polar).
Telofase II – Os cromossomas atingem os pólos e tornam-se finos e longos.
Desorganiza-se o fuso acromático e o citoplasma divide-se, formando-se quatro núcleos
haplóides.









Hereditariedade específica e individual:

A hereditariedade específica é a informação genética responsável pelas
características comuns a todos os indivíduos da mesma espécie; determina a
constituição física e alguns comportamentos. Todos temos a mesma hereditariedade
específica, o que nos torna humanos (por exemplo, a estrutura do esqueleto e do
cérebro).
A hereditariedade individual é a informação genética responsável pelas
características de um indivíduo e que o distingue de todos os outros membros da sua
espécie. Todos temos diferente hereditariedade individual, é o que nos torna únicos (por
exemplo, a cor e forma dos olhos ou a configuração do rosto).
Fig. 4 – Fases da meiose
11

Hereditariedade/meio - genética do comportamento:

São os genes os principais responsáveis pelas nossas características físicas e até
psicológicas, mas é o ambiente em que vivemos que molda a nossa personalidade e até
algumas características físicas. As nossas experiências de vida irão determinar se somos
pessoas confiantes, envergonhadas, …

Genótipo e fenótipo:

Genótipo é a constituição genética de um indivíduo, o seu conjunto de genes
(genoma) ou um pequeno número deles. É o conjunto de caracteres tal como são
definidos pelos genes.
Fenótipo é o genótipo mais a influência do meio ambiente e do homem. É a
manifestação do genótipo e pode, dependendo da característica em questão, mudar ao
longo da vida de um indivíduo. Resulta, assim, da interacção entre os genes e o meio
ambiente.

Filogénese e Ontogénese:

Filogénese estuda a evolução da espécie, onde os seres humanos apresentavam
características diferentes e isso devia-se à selecção natural.
Ontogénese estuda a evolução de cada indivíduo desde a fecundação até à morte.
Esta teoria defende que a capacidade do ser humano para raciocinar resulta de um
processo que ocorre ao longo da vida, no qual aprendemos através das nossas
experiências.



12













Preformismo e Epigénese:

Preformismo e Epigénese são duas teorias utilizadas para explicar como se
processa a transmissão da informação genética de pais para filhos e de que forma o
genótipo define física e intelectualmente cada um de nós.
A primeira teoria diz que o ovo continha, no seu interior, um ser em miniatura,
completamente formado quer fisicamente, quer a nível das suas capacidades cerebrais.
Deste modo, a sua evolução enquanto ser humano limitava-se ao mero crescimento do
seu corpo.
A segunda teoria é precisamente o oposto, já que defende que não existe um ser
pré-formado no ovo, mas sim um ser inacabado que se vai desenvolvendo lenta e
gradualmente e cujas características físicas e mentais são construídas a partir da
informação presente no genótipo e da sua envolvência com o meio que o rodeia.


Fig. 5 – Filogénese (A) e Ontogénese (B)
13

Genoma humano:

Cronologia – os passos até ao genoma:
1859 – Publicação de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin;
1866 – Gregor Mendel publica os seus estudos sobre fatores hereditários em ervilhas;
1869 – Friedrich Miescher isola o ADN pela primeira vez, ao qual dá o nome de
nucleína;
1879 – Walter Flemming descobre o comportamento dos cromossomas durante a
divisão celular;
1909 – Cria-se o termo gene para descrever as unidades mendelianas de hereditariedade;
1911 – Experiências com moscas da fruta confirmam a hereditariedade de mutações
específicas;
1944 – Oswald Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty demonstram que o ADN é
hereditário;
1953 – James Watson e Francis Crick descrevem pela primeira vez a estrutura de dupla-
hélice da molécula de ADN;
1972 – Stanley Cohen e Herbert Boyer fazem a primeira manipulação de ADN em
laboratório e criam o ADN recombinante;
1977 – Frederick Sanger, Allan Maxam e Walter Gilbert desenvolvem método de
sequenciamento de ADN;
1972 – O Genbank – o banco de dados genético dos Estados Unidos – é estabelecido;
1983 – Primeiro gene de doença humana – o da doença de Huntington – é mapeado;
1990 – Lançamento do Projeto do Genoma Humano;
1995 – Duas bactérias têm os seus genomas sequenciados: Haemophilus influenzae e
Mycoplasma genitalium;
1996 – Começa o projeto piloto do sequenciamento do genoma humano;
14

1997 – Genoma da bactéria Escherichia coli é sequenciado;
1997 – A ovelha Dolly é clonada;
1998 – A empresa Celera anuncia que completaria o sequenciamento do genoma
humano em três anos;
1998 – Genoma da lombriga (Caenorhabditis elegans) é sequenciado – é o primeiro de
um organismo multicelular;
2000 – O rascunho do genoma humano é concluído;
2001 – Os dados do genoma humano são publicados. Ele só viria a ser completamente
concluído em 2003;
2007 – James D. Watson e J. Craig Venter são os primeiros indivíduos a terem os seus
genomas individuais completamente sequenciados;
2010 – Cientistas criam célula a partir de genoma sintético.

O grande objetivo do Projeto do Genoma Humano é interpretar o genoma,
identificando os genes e definindo as suas funções, bem como o modo como se
relacionam entre si. É, portanto, decifrar o código do ADN.
O conhecimento da forma como se organiza o conjunto do património genético
permite compreender melhor o funcionamento do nosso organismo.
Desiludiram-se aqueles que pensavam poder identificar-se o gene da
inteligência, da agressividade ou a vocação para a música, do mesmo modo que se
reconheceram os genes que definem a cor dos olhos ou do cabelo. É um jogo de
influências que ativam e desativam os genes, possibilitando que o mesmo gene dê
origem a proteínas diferentes conforme a célula ou o ambiente. Conhecer a sequência do
ADN, não permite, portanto, definir o que é que uma pessoa vai ser. O que faz a
diferença entre as pessoas não são propriamente os genes, mas o que resulta da
complexidade das suas relações.
A identificação dos genes responsáveis por doenças tem uma importância
médica muito grande, porque, para além de identificar o erro genético que está na
origem de uma doença já declarada, permite prevenir outras que ainda não se
15

manifestaram. Possibilita ainda um melhor conhecimento da História da Humanidade e
da evolução da vida na Terra.

Questões éticas:

São muitas as questões de ordem ética e social que se colocam à identificação do
genoma individual. Que consequências poderão ter para a vida de uma pessoa conhecer,
por exemplo, que é portadora de genes que propiciam a doença de Alzheimer? Ao fazer
um seguro de vida ou de saúde, ao ingressar num emprego, esta informação poderá
impedir ou limitar o exercício dos direitos individuais.
A Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos limita a
atividade profissional, determinando ser necessário o domínio da pesquisa científica,
para se preverem meios de reparação de danos ao paciente, meio ambiente ou
humanidade. Confere-se ao pesquisador a responsabilidade de cuidado, cautela,
honestidade intelectual e integridade na realização das suas pesquisas.
O mapeamento e o sequenciamento do genoma humano irão beneficiar a saúde e
o bem-estar de todos; deve ser adotado como princípio geral que a informação genética
sobre a pessoa só pode ser obtida ou revelada a terceiros com a sua autorização ou do
seu representante legal.
A diversidade genética deve ser entendida como um atributo dos seres humanos
livres, a ideia de perfeição genética e a utilização de meios genéticos para a eliminação
da sua variedade são socialmente repulsivas e representam um risco à espécie humana
que tem o seu desenvolvimento baseado na própria diversidade genética.
É necessário impor limites entre o que é cientificamente possível fazer e o que é
moralmente desejável realizar.

Clonagem:

Clonar quer dizer fazer cópias de um ser vivo copiando o seu ADN. Isto é, em
vez de um ser resultar da combinação do ADN do pai e da mãe, o novo ser resulta de
um só progenitor. A clonagem não se resume só à criação de novos indivíduos, mas
também pode ser usada no tratamento de doenças.
16

Clonagem reprodutiva – visa a implantação dos embriões no útero de fêmeas, para obter
crias (criação de cópias de um indivíduo ou animal).







Exemplo de clonagem reprodutiva:
 Clonagem da ovelha Dolly (1997): primeiro mamífero a nascer sendo um clone
de uma célula mamária de uma ovelha adulta. Tal como nos gémeos
univitelinos, as duas ovelhas eram geneticamente idênticas. Neste processo
estiveram envolvidas 3 ovelhas: pegaram num óvulo de uma ovelha adulta e
retiraram-lhe o núcleo. Entretanto, extraíram células mamárias de uma outra
ovelha. Implantaram o embrião no útero da ovelha portadora, que deu à luz a
Dolly. Este processo é complexo, com uma elevada taxa de insucesso. Para se
produzir a Dolly foram necessárias 277 tentativas, só 2% chegaram a nascer e só
a Dolly conseguiu viver, ainda que morresse precocemente com artrite.






Fig. 6 – Etapas da clonagem reprodutiva
Fig. 7 – Dolly
17

Clonagem terapêutica – consiste em obter CEE (células estaminais embrionárias) a
partir de embriões clonados que são a seguir descartados (produção de órgãos
sobresselentes tendo em vista a substituição de tecidos e órgãos de pessoas doentes;
tratamento das doenças: diabetes, doença de Parkinson, artrite, lesões na coluna).








Exemplos de clonagem terapêutica:
 Uma pessoa que apresenta insuficiência renal pode ser tratada através da
clonagem de porcos, cujos órgãos (rins) poderão vir a ser transplantados em
pessoas. Não é possível retirar um órgão a um porco e colocá-lo numa pessoa,
devido à existência de sacarose em volta dos órgãos dos porcos. Objetivo:
destruir o gene responsável pela presença de sacarose à superfície dessas células
dos porcos. Desta forma, o órgão já pode ser transplantado para um ser humano.
 Clonagem do macaco Semos (2007) e cujas células cutâneas serviram para
clonar, pela primeira vez, embriões de macacos. A partir desses embriões, foram
geradas duas linhas de CEE, que são capazes de originar todos os tecidos do
organismo e cujas potencialidades terapêuticas podem ser imensas.
Para se criar um clone retiram-se os genes, de maneira a remover as informações
existentes. Posteriormente, coloca-se o novo conjunto de informações junto de genes de
um animal adulto que se queira reproduzir. É necessário alterar as novas instruções.
Fig. 8 – Etapas da clonagem terapêutica
18

No que diz respeito à clonagem humana, tem de se conseguir escolher e usar o
embrião que pareça mais perfeito. Há problemas que são impossíveis de prever. Existe
uma percentagem de 4% de erro.












Família do Futuro: Casal + 2 filhos, um com os genes do pai e o outro com os
genes da mãe. Não há nenhuma relação genética entre o pai e a filha e entre a mãe e o
filho; filha igual à mãe e filho igual ao pai.

Objetivo para o futuro: dar uma injeção a um paciente e ele recuperar não só o
seu sistema imunitário, como também restabelecer qualquer tecido gasto. Isto já foi
testado numa vaca e a experiência teve sucesso.
Questões éticas:
Será a clonagem algo de bom ou de mau?
A favor da clonagem Contra a clonagem
Deverão ser concedidos os mesmos
direitos e os mesmo respeito a células
microscópicas, do tamanho de uma
cabeça de alfinete, do que a um adulto
ou a uma pessoa que possam morrer
devido à não utilização da clonagem
A clonagem terapêutica envolve a
destruição de minúsculos embriões, ao
serem retiradas as células embrionárias
indiferenciadas.
Fig. 9 – Clonagem reprodutiva humana
19

terapêutica?
O embrião ao qual são retiradas as
células indiferenciadas não possui
qualquer sistema de células nervosas,
logo não pode sentir dor; só quando
colocado no útero é que há a
possibilidade de vir a desenvolver-se um
ser humano.
Isto só será possível para os mais ricos e
para os que estão dispostos a vender
tudo, no fundo, para prolongarem as suas
vidas.
Cada célula do organismo tem o
potencial de se transformar num
embrião. Será que isso significa que
cada vez que lavamos as mãos e
libertamos milhares de células, estamos
a matar seres vivos?
Se pensarmos que é sempre possível
recuperar as espécies ameaçadas, então
iremos continuar a destruir ainda mais o
seu habitat – principal causa da
existência de espécies em vias de
extinção.
Trata-se apenas da combinação de uma
célula da pele com um óvulo, ao qual foi
retirado o seu material genético. Não se
processa da mesma forma que para a
criação de um bebé.
Há grandes incertezas acerca das
capacidades dos clones. Até que ponto o
clone seria igual ao ser que o originou?
Se não possuirmos material genético das
espécies ameaçadas, elas simplesmente
acabarão por desaparecer.
Deixaria de haver relação entre mulher e
homem.
Criança clonada objeto
Começa a pensar-se no que Hitler fez em
relação à raça ariana.

Gémeos:

Gravidez gemelar ou múltipla – gravidez que apresenta dois ou mais fetos,
simultaneamente.


20












A probabilidade de ocorrência de gravidez gemelar aumenta com:

 a idade, dos 35 aos 40 anos, e diminui após os 40;
 a paridade ( número de filhos de uma mulher);
 a história familiar materna: filhas de mães com historial de gémeos, têm mais
probabilidades de terem gémeos também;
 a nutrição;
 os níveis altos de hormonas: às vezes até por indução em tratamentos para a
infertilidade;
 o número de coitos;
 drogas indutoras da ovulação, nos tratamentos para engravidar.

Os gémeos podem ser:

 Bivitelinos, dizigóticos, multivitelinos (falsos): são formados a partir de dois
óvulos. Neste caso, são produzidos dois oócitos II e estes são fecundados por
dois espermatozoides, formando-se, assim, dois embriões. Quase sempre são
formados em placentas diferentes e não dividem o saco amniótico. Não se
assemelham muito entre si, podem ter, ou não, o mesmo fator sanguíneo e
podem ser do mesmo sexo ou não. Na verdade, são dois irmãos comuns que
tiveram gestação coincidente. Resultam normalmente de tratamentos de
Fig. 10 – Gémeos
21

infertilidade, IMC (Índice de Massa Corporal) elevado, hereditariedade,
interrupção recente da pílula e de mulheres que decidem ter filhos mais tarde.
 Univitelinos, monozigóticos, idênticos (verdadeiros): um óvulo é produzido e
fecundado por um só espermatozoide, que se divide em duas culturas de células
completas. Possuem sempre o mesmo sexo, têm o mesmo genoma e são clones
um do outro. Apesar de serem considerados clones, os gémeos univitelinos não
possuem as mesmas impressões digitais. Isto deve-se ao facto de que num
pequeno espaço do útero materno, os gémeos têm contacto com diferentes partes
desse ambiente, o que confere pequenas variações nas impressões digitais dos
mesmos, tornando-os únicos. Resultam de um evento aleatório, não sendo
influenciado pela idade ou pela herança genética.
 Xifópagos, siameses: são monozigóticos, ou seja, são formados a partir do
mesmo zigoto. Porém, neste caso, o disco embrionário não chega a dividir-se
por completo, formando-se gémeos que estarão ligados por uma parte do corpo,
ou que têm uma parte do corpo comum aos dois. O embrião de gémeos
xifópagos é, então, constituído apenas por uma massa celular, sendo
desenvolvido na mesma placenta, com o mesmo saco amniótico. Estima-se que
dentro de 40 gestações gemelares monozigóticas, uma resulta em gémeos
interligados por não separação completa. No outro tipo de gémeos xifópagos a
união acontece depois, ou seja, são gémeos idênticos separados que se unem
nalguma fase da gestação por partes semelhantes: cabeça com cabeça, abdómen
com abdómen, …

Complicações das gravidezes gemelares:

Estas gravidezes predispõem uma série de riscos para a mãe e para o feto. São
consideradas sempre gestações de alto risco. Há alta incidência de baixo peso ao nascer,
com aumento da mortalidade em gémeos, devido ao parto prematuro e atraso do
crescimento intra-uterino. Muitos óbitos ocorrem no período neonatal e intra-útero, por
dificuldade respiratória, hemorragia intracerebral, … Bem mais raro, porém encontrado,
há fetos que trazem anemia profunda minutos antes de nascer, por transfusão total de
sangue de um feto para o outro através da placenta que se fundiu, levando muitas vezes
a óbito o “transfusor”. O rápido crescimento uterino leva à distensão das fibras
22

musculares uterinas, que quando chegam a uma grande distensão, desencadeiam o
trabalho de parto prematuro. Recomenda-se repouso absoluto a partir do 6º mês para
que a mãe não entre em trabalho de parto prematuro. É preciso ter muito repouso para
que os bebés adquiram peso adequado e cuidados redobrados no pré-natal, para que haja
segurança até ao parto. Na grande maioria das vezes, o obstetra opta por cesariana,
devido às complicações possíveis neste tipo de parto.

Curiosidades:

 As ocorrências de gravidezes gemelares aumentaram significativamente nos
últimos 20 anos. 1/85 gravidezes é gemelar;
 Muitos sangramentos que ocorrem no início da gravidez são, na verdade,
consequentes à perda de um dos embriões de gestação gemelar. Se não foi feito
um ultrassom anteriormente, não se tem diagnóstico.














23

Sistema Nervoso

Neurónios, sinapses e neurotransmissores:

Para perceber o cérebro temos primeiro de perceber como se processa a
informação e isso leva-nos à célula cerebral – o neurónio. O neurónio é constituído por
três partes: corpo celular, dendrites e axónio.
O corpo celular é a zona estrutural do neurónio e está normalmente localizado
em áreas restritas do sistema nervoso central. É responsável por receber a informação
proveniente das dendrites.
As dendrites são numerosos prolongamentos dos neurónios. Têm como função a
recepção dos estímulos nervosos, que podem ser do meio ambiente ou de outros
neurónios.
O axónio é uma parte do neurónio responsável pela condução dos impulsos
eléctricos que têm origem no corpo celular. Depois de receber estes impulsos conduze-
os até outro local mais distante, como um músculo ou outro neurónio. À parte final dos
axónios dá-se o nome de telodendrites.











O espaço entre a dendrite de um neurónio e as telodendrites de outro neurónio
denomina-se fenda sináptica. Nesta, os sinais são transportados através das sinapses por
umas substâncias químicas chamadas neurotransmissores.


Fig. 11 – Constituição de um neurónio
24










Existem dois tipos de sinapses: sinapses eléctricas e sinapses químicas. Nas
sinapses eléctricas, o potencial de ação ocorre diretamente de uma membrana para a
outra, sem haver intervenção de substâncias químicas. Esta sinapse é utilizada pelos
músculos. Nas sinapses químicas, o potencial de ação é transmitido através de proteínas
especiais chamadas neurotransmissores. Este tipo de sinapse é encontrada em todo o
sistema nervoso.

Franz Joseph Gall:

Franz Joseph Gall (1758-1828) foi um médico e anatomista alemão. Foi o
fundador da frenologia, ou seja, uma teoria que afirma ser possível determinar-se o
carácter e as características psicológicas de um indivíduo através da observação da
forma da cabeça. Ele considerava que as “bossas” do crânio se relacionavam com
capacidades e características da personalidade; acreditava que o crânio se modelava de
acordo com as circunvoluções cerebrais. Esta interpretação, sem qualquer fundamento
científico, colocou a possibilidade de se identificar, em diferentes zonas do cérebro,
determinadas funções psíquicas.






Fig. 12 – Sinapse
Fig. 13 – Franz Joseph Gall
25

Este frenologista produziu um mapa onde localizava características como o
amor, o prazer, a arrogância, a vaidade, o amor maternal, o sentido dos lugares e das
relações no espaço, … Localizou, assim, vinte e sete capacidades fundamentais que
seriam inatas.











Hoje em dia sabe-se que não há nenhuma relação entre as protuberâncias do
crânio com as nossas faculdades e aptidões.

Função vicariante ou de suplência do cérebro – plasticidade cerebral:

Função vicariante ou de suplência do cérebro (plasticidade cerebral) é o nome
dado a uma reacção em que as áreas vizinhas de uma zona afetada desempenham em
parte as funções da área afetada. Assim, funções perdidas devido a lesões podem ser
recuperadas.
Há algum tempo atrás, afirmava-se que o tecido cerebral não possuía aptidão
regenerativa e que o encéfalo era determinado geneticamente, ou seja, adquiria um
plano genético imóvel. Porém, era impossível esclarecer o facto de doentes com lesões
graves obterem, com métodos de terapia, a reaquisição da sua função anterior.
No entanto, a ampliação do conhecimento sobre o cérebro indicou o quão este é
mais flexível do que era pensado até àquela altura, alterando-se sob o resultado da
prática, das perceções, dos atos e das atitudes.
Fig. 14 – Mapa de capacidades e características da
personalidade elaborado por Franz Joseph Gall
26

Assim, podemos concluir que a ligação que o Homem institui com o meio gera
grandes alterações no seu cérebro, possibilitando uma persistente adaptação e
aprendizagem durante a vida. Deste modo, o procedimento da plasticidade cerebral faz
com que o ser humano se torne mais eficiente.
A plasticidade cerebral esclarece o facto de algumas zonas do encéfalo
conseguirem alterar as funções atingidas por lesões cerebrais. Assim sendo, uma função
perdida devido a uma lesão cerebral pode ser retomada por uma zona vizinha da área
afetada. Todavia, a recuperação de algumas funções depende de certos factores, como a
área da lesão, a idade da pessoa, a quantidade de tecidos afetados, o tempo de exposição
aos danos, a natureza da lesão, os mecanismos de reorganização cerebral que envolve,
entre outros.

Plasticidade sináptica:

A plasticidade sináptica consiste na capacidade de rearranjo por parte das redes
neuronais. Ou seja, devido a novas experiências por parte dos indivíduos, as sinapses
são reforçadas, permitindo a aquisição de novas respostas ao meio ambiente.
Portanto, a plasticidade sináptica constitui um dos mecanismos mais importantes
da plasticidade cerebral. Permite também que uma lesão ao nível da transmissão de
informação neuronal seja recuperada através da criação de outras redes neuronais que
possam substituir os danos causados pela lesão.

Sistema Nervoso Central (SNC) – espinal medula e cérebro:

O cérebro e a espinal medula são as duas estruturas que fazem parte do Sistema
Nervoso Central.






Fig. 15 – Espinal medula e encéfalo
27

A espinal medula é formada por um tubo cilíndrico constituído por um conjunto
de nervos localizados ao longo da coluna, estando protegida por um conjunto de
vértebras. Tem cerca de 1cm de diâmetro e entre 45-50cm de comprimento
(dependendo do sexo e da altura da pessoa).











Esta estrutura tem como principais funções a receção e a coordenação:

Receção: recebe os sinais dos órgãos, dos sentidos e dos músculos transmitindo-os ao
cérebro. Assim, uma lesão na espinal medula pode causar a incapacidade de controlar o
funcionamento dos membros do nosso corpo. Se a lesão ocorrer na parte inferior da
espinal medula, a pessoa deixa de conseguir andar; se a lesão ocorrer na parte superior
da medula, a pessoa deixa de conseguir controlar os braços.
Coordenação: designa-se por ser um processo que possibilita uma resposta motora, não
consciente a um estímulo. Por exemplo, no caso de um estímulo que cause dor, é a
espinal medula que permite que retiremos rapidamente a mão. A este processo dá-se o
nome de reflexo, sendo este uma resposta rápida, involuntária e automática.

O cérebro ou encéfalo divide-se em três estruturas que funcionam de uma forma
interligada: cérebro posterior ou metencéfalo, cérebro médio ou mesencéfalo e cérebro
anterior ou protencéfalo.



Fig. 16 – Espinal medula
28








Bolbo raquidiano

Cérebro posterior Cerebelo

Protuberância


Cérebro médio Formação reticular

Tálamo

Hipotálamo
Cérebro anterior
Córtex cerebral

Sistema límbico
Fig. 17 – Cérebro
29



Bolbo raquidiano: é um prolongamento da espinal medula e tem como função fazer
chegar a informação até ao encéfalo, controlando assim alguns dos movimentos que
provêm da cabeça (visão, audição, gosto) e é responsável pelos batimentos cardíacos,
pressão sanguínea e ritmo respiratório.
Cerebelo: é constituído por dois hemisférios, que têm como principal função controlar o
nosso equilíbrio/postura corporal e os nossos movimentos (correr, saltar, escrever). Uma
lesão no cerebelo provoca desequilíbrio e descoordenação motora.
Protuberância: é uma saliência inclinada que se situa acima do bolbo raquidiano e é
onde estão presentes as fibras nervosas que ligam as diferentes estruturas do SNC.

Formação reticular: regula a nossa vontade de dormir e a nossa concentração.

Tálamo: é responsável por encaminhar os nossos sentidos (audição, tato, visão e
paladar) para o córtex cerebral.
Hipotálamo: estabelece a ligação entre o sistema nervoso e o sistema endócrino. É
responsável pela regulação de hormonas e da nossa temperatura corporal, da sensação
de fome e sede e do impulso sexual.
Córtex cerebral: está dividido em dois hemisférios (esquerdo e direito), estando estes
ligados por um feixe de fibras nervosas designado corpo caloso. É graças a ele que nós
Fig. 18 – Constituintes do cérebro
30

conseguimos pensar, sentir, ouvir, saborear e ver os objectos. É também nesta estrutura
que estão presentes as nossas memórias mais antigas.
Sistema Límbico: é responsável pela nossa motivação e emoção. A amígdala e o
hipocampo são duas estruturas fundamentais que fazem parte do sistema límbico. A
amígdala desempenha um papel importante nas manifestações de agressão e medo. O
hipocampo é responsável por reter as informações, sendo muito importante no processo
da memória. É uma das zonas mais afetadas pela doença de Alzheimer. O hipocampo e
a amígdala têm funções complementares do ponto de vista emocional.
Sistema límbico:

Algumas pesquisas feitas mostram que o sistema límbico possui interconexões
profusas com o sistema olfactório, hipotálamo e tálamo e uma menor extensão com a
área do neocórtex. Ele domina a integração superior de informação visceral, olfactória,
somática e de elementos subjetivos e expressivos em respostas emocionais.
O sistema límbico está agrupado em duas áreas: cortical e subcortical.

Componentes corticais:

Giro do cíngulo: é um fragmento do cérebro. Recebe informações do núcleo anterior do
tálamo e do neocórtex, assim como das áreas somatossensoriais do córtex cerebral.
Hipocampo: é constituído pelo arquicortéx.
Giro para-hipocampal: estabelece relações com várias regiões do cérebro.

Componentes subcorticais:

Corpo amigdalóide: é também chamado de núcleo amigdalóide e é um dos núcleos da
base.
Área septal: Desenvolve-se a partir do telencéfalo e é a lâmina de substância cinzenta
que é atravessada por muitas fibras nervosas.
Fórnix: liga-se ao corpo mamilar através das colunas que cruzam a parede lateral do
ventrículo.
31

Núcleos mamilares: recebem fibras do hipocampo através do fórnix e projetam parte
delas para a formação reticular e para os núcleos anteriores do tálamo.
Núcleos habenulares: recebem fibras pela estria medular e projectam-nas para o núcleo
interpeduncular do mesencéfalo através do fascículo retroflexo.
Núcleos anteriores do tálamo: recebem fibras dos núcleos mamilares e projectam-nas
para o giro do cíngulo.

Conexões do sistema límbico:

Conexões intrínsecas: os componentes do sistema límbico estabelecem relações
complexas entre si.
Conexões extrínsecas: para executar as funções a ele atribuídas, o sistema límbico
precisa de ter acesso a informações sensoriais (aferentes) e aos mecanismos
efectuadores (eferentes).
Conexões aferentes: são as emoções originadas pela entrada no sistema nervoso central
de determinadas informações sensoriais. Os impulsos olfactórios passam directamente
da área cortical de projeção para o giro para-hipocampal e para o corpo amigdalóide.
Conexões eferentes: o sistema límbico a partir dessas conexões entra nos mecanismos
efectuadores que origina o componente periférico e expressivo dos processos
emocionais e que controlam a atividade do sistema nervoso autónomo. As principais
conexões são as do sistema límbico com o hipotálamo e com a formação reticular do
mesencéfalo.

Hemisférios cerebrais:

O ser humano apresenta um cérebro dividido em dois hemisférios (direito e
esquerdo), sendo cada um deles especializado em várias funções. Isto designa-se por
lateralização hemisférica.
Os hemisférios estão cobertos por uma camada cinzenta, o córtex cerebral,
separados por uma fissura longitudinal e ligados por um sistema de fibras nervosas,
chamado por corpo caloso.
32











O hemisfério direito controla a formação de imagens, as relações espaciais, a
percepção das formas, das cores, das tonalidades afectivas e o pensamento concreto; o
hemisfério esquerdo é responsável pelo pensamento lógico, pela linguagem verbal, pelo
discurso, pelo cálculo e pela memória.
1
Pessoas com lesões no hemisfério esquerdo têm dificuldade em reconhecer
rostos, enquanto se a lesão for no hemisfério direito é frequente as pessoas terem
dificuldade em orientar-se.
As emoções também parecem estar lateralizadas, sendo que o hemisfério direito
processa as emoções negativas e o hemisfério esquerdo as positivas e optimistas.
Nenhum dos hemisférios trabalha sozinho. Quase nada é regulado só pelo
hemisfério direito ou só pelo hemisfério esquerdo; eles complementam-se um ao outro.
Os conflitos de funções ocorrem quando os hemisférios tentam trabalhar ao mesmo
tempo em atividades que lhes são próprias e isso acaba por gerar confusão. Por exemplo
a gaguez, já que a fala é do domínio do hemisfério esquerdo e quando o direito tenta
“entrar na conversa” isso produz a gaguez.
Alguns médicos e cientistas notaram que pacientes com derrame no hemisfério
esquerdo perdiam a fala mas conseguiam cantar. Por outro lado, pessoas que tiveram
derrame no hemisfério direito perdiam a orientação espacial, não conseguindo acertar,
por exemplo, onde ficavam as portas das suas próprias casas ou compreender relações
de distância e profundidade entre os objetos. Também apresentavam dificuldades para
reconhecer rostos de pessoas familiares e identificar pessoas num grupo.

1
MONTEIRO, M. ; FERREIRA, P., Psicologia B 12 Ser Humano 1ª Parte , Porto Editora, p. 62
Fig. 19 – Hemisférios cerebrais
33

O hemisfério esquerdo faz cálculos, dá nomes às coisas, separa por categorias e
funções os mais variados aspetos. O hemisfério direito não consegue realizar essa tarefa
e cada objeto ou estímulo é visto como se apresenta no próprio instante. Por exemplo: o
desenho de duas circunferências. Para o lado esquerdo podem representar dois olhos, já
para o direito não passam de duas simples circunferências.
O lado esquerdo do cérebro reconhece letras e palavras, enquanto o lado direito
reconhece faces e padrões geométricos. O nosso alfabeto estimula o lado esquerdo; os
alfabetos dos povos orientais que utilizam símbolos desenvolvem o lado direito. No
idioma japonês, por exemplo, onde são usados símbolos e sílabas, os dois hemisférios
são estimulados no ato da leitura.

Funções de cada um dos hemisférios cerebrais:

Hemisfério esquerdo Hemisfério direito
Gravador: absorve, analisa, grava ou
apaga informações lógicas e referências
de dados que já possui.
Receptor
Comunicador verbal: usa palavras para
nomear, descrever e definir.
Comunicador visual
Analítico: encaminha questões de uma
forma sequencial e organizada.
Sintético: une as várias partes para formar
um todo.
Temporal: é objetivo e prático. Intemporal: abstrai-se do tempo, vendo as
coisas como se apresentam no momento.
Lógico: extrai conclusões baseadas na
ordem lógica.
Intuitivo: realiza avanços de
reconhecimento, em geral sob padrões
incompletos, intuições, sentimentos e
imagens visuais.
Crítico: é autocrítico. Não crítico: as suas avaliações são
subjetivas.
Abstrato: extrai uma informação pequena
de informação e utiliza-a para representar
um todo.
Analógico: encontra uma semelhança
entre diferentes aspetos.

34

Estudos sobre pacientes com hemisférios cerebrais separados - experiências:

Os neurocirurgiões Joseph Bogen e Philip Vogel descobriram que os pacientes
que sofriam de ataques epiléticos podiam ser ajudados com uma cirurgia que consistia
em seccionar o corpo caloso. Separavam-se, assim, os dois hemisférios cerebrais e os
ataques epiléticos ficavam limitados a um dos hemisférios, poupando-se o outro. Esta
operação deixa os pacientes com os hemisférios a funcionarem de forma independente,
não havendo transferência de informação de um para o outro, como se os dois
hemisférios fossem dois cérebros distintos. Pacientes com o corpo caloso seccionado só
conseguem reconhecer um objeto pelo tato se for feito com a mão direita.
Roger Sperry, num dos seus estudos com uma paciente, chegou à conclusão de
que quando um objeto é colocado no lado esquerdo do campo visual de uma pessoa cujo
corpo caloso foi cortado, esta não consegue dizer o que vê porque a imagem é projetada
no hemisfério direito, já que este não está equipado com centros que permitam produzir
a fala.
Lobos cerebrais:

Cada hemisfério é constituído por quatro lobos: lobo frontal, lobo occipital, lobo
parietal e lobo temporal. O lobo frontal situa-se na zona da testa, o occipital na área da
nuca, o parietal localiza-se na parte superior central da cabeça e o temporal encontra-se
na região lateral, sobre a orelha.











Fig. 20 – Lobos cerebrais
35

Cada uma destas zonas desempenha funções específicas. Os lobos parietais,
temporais e occipitais participam na produção das perceções que resultam das
informações obtidas pelos nossos órgãos sensoriais. Estão envolvidos na relação entre o
meio ambiente e o nosso corpo. O lobo frontal é responsável pelo planeamento de
acções e movimentos.

Lobo frontal: é constituído pelo córtex motor e pré-motor e pelo córtex pré-frontal. O
córtex motor é responsável por controlar e coordenar os nossos movimentos. O córtex
motor do hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo, enquanto que o do
hemisfério esquerdo é responsável pelos movimentos do lado direito. O córtex pré-
motor desempenha funções como a aprendizagem motora e movimentos de precisão. O
córtex pré-frontal participa no pensamento abstrato e criativo e na fluência do
pensamento e da linguagem. A atividade do lobo frontal de uma pessoa depende da
tarefa a desempenhar, sendo ele responsável por descobrir um conjunto de ações que
reduza o número de manipulações necessárias para resolvê-la. Lesões nesta região
podem causar: fraqueza muscular, paralisia, diminuição da velocidade de movimentos
automáticos (falar e gesticular), dificuldade em agir e planear o futuro e obsessão por
estratégias que não resultam ou que não consigam desenvolver uma sequência de ações
correta.

Lobo occipital: é responsável por processar os estímulos visuais. É composto por várias
áreas, sendo cada uma delas especializada numa determinada função, tais como: a visão
da cor, do movimento, da profundidade e da distância. O significado do que vemos
resulta da relação entre estas áreas (áreas visuais primárias) e outras áreas do cérebro
(áreas visuais secundárias). Nesta relação são consideradas as nossas experiências
vividas no passado e as nossas expetativas. Daí resulta que o mesmo objeto não seja
visto da mesma forma por diferentes pessoas. Uma lesão nesta área provoca a
impossibilidade de reconhecer pessoas, objetos e palavras (agnosia).

Lobo temporal: é responsável por processar os estímulos auditivos. Como acontece no
lobo occipital, as informações são processadas por duas áreas, a primária e a secundária.
Quando a área auditiva primária é estimulada, os sons são produzidos e enviados à
36

área auditiva secundária, que interage com outras zonas do cérebro, atribuindo o
significado e permitindo ao indivíduo reconhecer o que está a ouvir.
2

A inatividade dos lobos temporais provoca a síndrome de Klüver-Bucy, que é um
distúrbio comportamental. As pessoas que sofrem desta doença perdem a capacidade de
avaliar uma situação de perigo, não apresentam sinais de medo e tornam-se mais dóceis.

Lobo parietal: é constituído por duas subdivisões, a anterior (córtex somatossensorial) e
a posterior (área secundária). A região anterior possibilita a perceção de sensações como
o tato, a dor e o calor. É a zona mais sensível e ocupa mais espaço do que a zona
posterior, visto que tem mais dados que precisam de ser interpretados. A zona posterior
interpreta as informações recebidas pela anterior, permitindo ao indivíduo localizar-se
no espaço e reconhecer objetos através do tato. Um pequeno défice na parte anterior dos
lobos parietais produz dormência no lado oposto do corpo. Os indivíduos com lesões
maiores podem perder a capacidade de realizar tarefas sequenciais (apraxia) e a
consciência do sentido direito – esquerdo. Um défice importante pode afetar a
capacidade do indivíduo em reconhecer as partes do corpo ou o espaço que o circunda
ou pode inclusive interferir na memória.

No cérebro, para além dos lobos, temos também duas zonas que desempenham
funções muito importantes: a área de Broca e a área de Wernicke.
Área de Broca: foi descoberta em 1861 pelo cientista francês Paul Broca. É a parte do
cérebro humano responsável pelo processamento da linguagem, produção da fala e
compreensão.
Área de Wernicke: esta área recebe este nome em homenagem a Karl Wernicke, um
neurologista e psiquiatra alemão. É responsável pelo conhecimento, interpretação e
associação das informações. Graves danos nesta zona podem fazer com que uma pessoa
que escute perfeitamente e que reconheça bem as palavras seja incapaz de agrupar estas
palavras para formar um pensamento coerente (afasia de Wernicke).


2
http://www.infoescola.com/anatomia-humana/lobos-cerebrais/ (visitado no dia 22/10/2011)
37
















Sistema Nervoso Periférico (SNP):

O sistema nervoso periférico é constituído por nervos, gânglios nervosos e
órgãos terminais. Existem três tipos de nervos:

Nervos sensitivos: têm como função encaminhar os impulsos nervosos de um órgão
recetor (visão, audição, olfato, paladar e tato) até ao sistema nervoso central (SNC).
Nervos motores: transmitem o impulso codificado no encéfalo até aos órgãos efetores
(músculos e glândulas).
Nervos mistos: desempenham simultaneamente as funções dos nervos sensitivos e dos
nervos motores.

É-nos permitido reagir a vários acontecimentos, quer sejam de origem externa
ou interna, graças a este sistema.
O sistema nervoso periférico é composto pelo sistema nervoso somático (SNS) e
pelo sistema nervoso autónomo (SNA).

Fig. 21 – Áreas do cérebro
38

Sistema Nervoso Somático (SNS):

À parte do sistema nervoso periférico que se relaciona com o meio externo, dá-
se o nome de sistema nervoso somático. Este é constituído por nervos aferentes
(sensitivos) e eferentes (motores).

Sistema Nervoso Autónomo (SNA):

O sistema nervoso autónomo participa na regulação do meio interno. É
responsável por controlar a respiração, a temperatura corporal, a circulação sanguínea, o
batimento cardíaco, a digestão e as glândulas exócrinas. Permite, assim, o aumento da
pressão arterial e da frequência respiratória. Os movimentos peristálticos e a excreção
de determinadas substâncias também são da responsabilidade desta parte do sistema
nervoso.
Este sistema divide-se em sistema nervoso simpático e sistema nervoso
parassimpático.

Sistema Nervoso Simpático:

Este controla as glândulas sudoríparas, medula supra-renal, músculos
piloeretores e a maioria dos vasos sanguíneos.
É formado por dois grupos de neurónios:

Neurónios pré-ganglionares: estão situados na medula espinal, sendo o principal
neurotransmissor a acetilcolina.
Neurónios pós-ganglionares: situam-se junto à coluna vertebral, sendo o principal
neurotransmissor noradrenalina.

O sistema nervoso simpático é um sistema de excitação que suporta situações de
perigo, de esforço, de stress físico e psíquico.


39

Sistema Nervoso Parassimpático:

Os neurónios do sistema nervoso parassimpático localizam-se no tronco cerebral
(porção situada entre a medula espinal e o cérebro).
Este sistema é responsável por ativar ações como: diminuição da pressão
arterial, da adrenalina, do açúcar no sangue e o abrandamento dos batimentos cardíacos.
À semelhança do sistema nervoso simpático, também o parassimpático é formado por
dois grupos de neurónios: neurónios pré-ganglionares e neurónios pós-ganglionares.
Contudo, estes localizam-se junto dos órgãos-alvo, ou até mesmo dentro destes.

Diferenças entre o sistema nervoso simpático e o parassimpático:

Geralmente estes dois sistemas têm funções contrárias (antagónicas); um corrige
os excessos do outro. Por exemplo, se o sistema simpático acelera demasiadamente o
batimento do coração, o sistema parassimpático entra em ação, diminuindo o ritmo
cardíaco. Se o sistema simpático acelera o trabalho do estômago e dos intestinos, o
parassimpático entra em ação para diminuir as contrações desses órgãos.















Fig. 22 – Diferenças entre o sistema nervoso
parassimpático e o sistema nervoso parassimpático
40

Áreas Pré-Frontais:

É no ser humano que as áreas pré-frontais se encontram mais desenvolvidas,
ocupando cerca de 40 a 45% do volume total do cérebro. Estas áreas têm determinadas
funções que distinguem a espécie humana das outras espécies.
É graças a estas áreas que somos capazes de planear algo, tomar decisões, de
refletir, entre outras. Esta porção do cérebro está também relacionada com a memória.
De acordo com António Damásio, se estas áreas forem lesionadas, provocam a
incapacidade de tomar decisões e alterações na personalidade, podendo manter em
alguns casos a consciência e algumas funções cognitivas, como por exemplo a
linguagem.
António Damásio, no seu livro “O Erro de Descartes”, fala sobre as
consequências das lesões pré-frontais, descrevendo, por exemplo, o caso de Elliot que
tinha a capacidade de sentir emoções seriamente danificada. Nos doze casos em que
analisou, António Damásio verificou que existia uma conexão entre as deficiências na
tomada de decisões e na perda de emoções.

Marcador somático/importância das emoções nas tomadas de decisão:

Damásio defende que existem, nas pessoas comuns sem prolemas neurológicos,
mecanismos automatizados de decisão que evitam o exercício inútil do seu doente.
Assim, é nos possível evitar estar tanto tempo a analisar uma determinada questão. Para
ele, ao considerarmos uma situação como sendo uma perda de tempo, acabamos por
marcá-la como negativa. Surge assim o conceito de marcador somático: mecanismo
automatizado que suporta as nossas decisões.
Por mais simples que a decisão seja, existe sempre uma emoção associada à
escolha feita, sendo o córtex cerebral o responsável por se apoiar nas emoções para
poder decidir. Sem emoção, ficaríamos impossibilitados de fazer as escolhas mais
simples.
É nas áreas pré-frontais que se faz a associação entre uma situação complexa (os
elementos que a compõem, as opções de resposta possíveis, as consequências de cada
uma delas, …) e o estado emocional associado a esse tipo de situações, vivido em
experiências pessoais anteriores.
41

Quando ocorre a necessidade de decidir, o estado somático (estado do corpo)
pode atuar como um sinal de alarme (perigo) e conduzir à rejeição de uma opção, ou
como um sinal de incentivo e levar à sua adoção. Os marcadores somáticos informam o
córtex cerebral sobre as decisões a tomar. O nosso pensamento tem necessidade das
emoções para ser eficaz.




Tanto o tema das áreas pré-frontais como o dos marcadores somáticos
(importância das emoções nas tomadas de decisão) são abordados no livro “O Erro
de Descartes”, de António Damásio. Assim sendo, mais detalhes e informações
acerca destes assuntos figuram no resumo a seguir apresentado.



















42

Resumo do livro “O Erro De Descartes”, de António Damásio















Este livro foi escrito em 1993 e trata do funcionamento do cérebro, em geral, e,
em particular, do modo como o cérebro processa emoções e decisões. Assenta numa
hipótese científica fundamentada em observações e reflexões que partiram de doentes
neurológicos.
António Damásio tem alguns arrependimentos sobre este livro, como a
transformação de frases escritas em inglês em frases de língua portuguesa. Na sua
opinião, embora o português seja uma língua rica e um notável instrumento para a
literatura, é um instrumento incompleto para a expressão científica.
Desde pequeno que tinha sido ensinado a Damásio que as decisões sensatas
provinham de uma cabeça fria, que as emoções e a razão, tal como o azeite e a água,
não se podiam misturar; pensava-se que os mecanismos da razão existiam num
compartimento isolado da mente, onde a emoção não podia entrar.
A ausência de emoções e sentimentos emocionais é prejudicial, sendo capaz de
comprometer a racionalidade que nos torna distintamente humanos e nos permite
decidir de acordo com convenções sociais e princípios éticos. A emoção ajuda-nos na
tarefa de prever um futuro incerto e a planear os nossos actos em conformidade.
Fig. 23 – António Damásio Fig. 24 – Livro: O Erro de Descartes,
de António Damásio
43

O primeiro tema a ser analisado neste livro é o caso de Phineas Gage, cujo
comportamento revelou pela primeira vez a ligação existente entre uma racionalidade
perturbada e uma lesão cerebral específica. Dentro deste tema, Damásio analisa outros
casos de doentes neurológicos.
O segundo assunto a ser abordado pelo autor é a emoção; o terceiro é o corpo, tal
como é representado no cérebro.
No século XIX, Phineas P. Gage trabalhava como capataz da construção civil na
Nova Inglaterra.
Os seus patrões definiam-no como sendo “o homem mais eficiente e capaz que
tinham a trabalhar para si”. No seu trabalho era necessária destreza física e
concentração, sobretudo, no momento das detonações, em que primeiro tinha de se abrir
um buraco na rocha, encher-se até ao meio com pólvora, introduzir-se o rastilho e
cobrir-se a pólvora com a areia. Seguidamente, a areia tinha de ser calcada com uma
vara de ferro, acendendo-se depois o rastilho e a explosão ocorreria dentro da rocha.
Num pequeno momento de distração, Gage começou a calcar a pólvora
diretamente com a vara de ferro, a que se seguiu uma violenta explosão. Ao dar-se a
explosão, a vara de ferro atravessou o crânio de Gage entrando pelo maxilar esquerdo e
saindo pelo alto da cabeça, projetando-o para mais de trinta metros de distância. Ele
ficou atordoado, mas consciente, o que causou uma enorme surpresa por parte das
pessoas que lá estavam.
Enquanto relatava como tudo tinha acontecido ao seu médico, este também ficou
muito admirado, visto que Gage conseguia ter um discurso coerente.
A recuperação de Gage foi muito rápida tendo em conta a gravidade do
ferimento. Contudo, deu-se uma mudança extraordinária da sua personalidade (alteração
do temperamento, gostos, aversões, sonhos e aspirações). Passou a ter dificuldade em
agir, planear o futuro e deixou de respeitar as normas sociais e os princípios éticos.
Aos trinta e oito anos acabou por morrer. Tudo o que se sabia acerca da lesão
cerebral de Gage era que estava situada no lobo frontal.
Alguns anos mais tarde, o caixão de Gage foi aberto e procedeu-se à remoção do
seu crânio. Este serviu como objeto de estudo a Hanna Damásio, a qual utilizou técnicas
como a ressonância magnética (IRM) e Brainvox, permitindo elaborar fotografias a 3D
do crânio de Gage. Estes estudos permitiram chegar à conclusão que: apesar da
quantidade de massa encefálica perdida, a barra de ferro não tinha tocado nas regiões
44

cerebrais necessárias às funções motora ou da linguagem. (…) os danos foram mais
extensos no hemisfério esquerdo do que no direito, maiores nos sectores anteriores que
posteriores da região frontal.
3

Outro dos casos analisado por Damásio foi o de Elliot. Elliot era um homem
inteligente e possuía tanto condições físicas como psicológicas que lhe permitissem
viver e trabalhar normalmente. Elliot conseguia elaborar um raciocínio coerente e o seu
conhecimento da área profissional em que trabalhava era sólido.
Apesar de ter conseguido alcançar uma boa posição, quer a nível pessoal,
profissional e social, a sua vida tinha começado a deteriorar-se. Começou a ter
dificuldades de concentração e perdeu o sentido de responsabilidade; Elliot apresentava
um tumor cerebral que tinha de ser removido. A operação foi bem sucedida, mas houve
uma alteração na sua personalidade. Tal como no caso de Gage, a inteligência de Elliot,
a sua capacidade motora e o uso da linguagem estavam intactos.
O fracasso de Elliot era causado pela incapacidade de definir os seus próprios
objetivos (os mais vantajosos para si). Acabou por ser despedido de vários empregos e
gastava todo o dinheiro que tinha. Elliot ficou incapaz de tomar decisões sensatas, não
aprendia com os erros e era incapaz de fazer planos para o futuro.
Através de exames de ressonância magnética chegou-se à conclusão de que a
lesão afetara o lobo frontal. Nestes dois casos (Gage e Elliot), as estruturas cerebrais
afetadas eram as responsáveis por um raciocínio que levasse à tomada das melhores
decisões.
Elliot foi submetido a vários testes, apresentando resultados positivos em todos
eles, à exceção do teste das emoções. Este consistia numa mostra de estímulos visuais
capazes de produzir emoções fortes no interveniente (por exemplo, fotografias de casas
a arder, de prédios a ruírem em terramotos, pessoas feridas em acidentes ou de
inundações). Após ver estas imagens, Elliot declarou sem hesitação que a sua própria
sensibilidade tinha mudado desde que estava doente. Chegou à conclusão de que
assuntos que lhe provocavam emoções fortes anteriormente, na altura já não lhe
causavam grandes reacções.

3
DAMÁSIO, A., O Erro De Descartes, Círculo de Leitores, Setembro de 2011, pp. 62-63
45

Em certas situações, as emoções podem perturbar o raciocínio. Damásio
verificou que em todos os pacientes com lesões pré-frontais, como a de Elliot, havia
uma associação entre a deficiência na tomada de decisões e a perda de emoções.
O caso de Phineas Gage não é o único importante para a compreensão das bases
do raciocínio e da capacidade de decisão. Um exemplo deste caso ocorre no ano de
1932, sendo identificado como o “doente A”, era um corretor da Bolsa, tinha trinta e
nove anos e era pessoal e profissionalmente bem-sucedido. Este doente desenvolveu um
tumor cerebral como o de Elliot que lhe comprimiu os lobos frontais. A remoção do
tumor causou ao doente lesões extensas nos lobos frontais esquerdo e direito. O doente
A possuía uma perceção normal. As suas capacidades linguísticas e motoras não tinham
sido afetadas, a sua inteligência parecia estar intacta e a sua orientação em relação às
pessoas e ao tempo era normal. Contudo, apesar das suas capacidades, o doente A nunca
regressou ao trabalho; fazia planos para voltar a trabalhar mas nunca os conseguia
realizar. A sua personalidade tinha-se alterado, a modéstia e sensatez de outrora tinham
desaparecido. Não existiam sinais de que nutrisse sentimentos notáveis por outros, nem
sinais de vergonha, tristeza ou angústia perante o caminho que a sua vida tomara. O
doente A tinha-se tornado passivo e dependente.
Outro caso ocorreu em 1940. Donald Hebb e Wilder Penfield do Canadá
descreveram um doente que tinha sofrido um acidente grave aos dezasseis anos. Este
caso era diferente dos outros pois os restantes doentes, com o mesmo tipo de problema,
eram adultos e já tinham atingido uma personalidade madura quando sofreram as lesões
nos lobos frontais. O doente de Hebb-Penfield fez uma fratura composta dos ossos
frontais, o que comprimiu e destruiu os córtices frontais em ambos os lados. Tinha sido
uma criança normal, contudo, depois do acidente o seu desenvolvimento social foi
bloqueado e o seu comportamento social deteriorou-se.
O terceiro caso foi descrito em 1948. O doente sofreu uma lesão no lobo frontal
pouco depois do nascimento e por isso ficou desprovido de muitos dos sistemas
cerebrais necessários para o aparecimento de uma personalidade normal. O seu
comportamento foi sempre anormal e ele nunca foi capaz de adquirir um
comportamento social normal. Este doente era incapaz de manter o emprego, era
disciplinado e dócil, mas passado alguns dias perdia o interesse pela sua actividade e
acabava mesmo por roubar ou por se comportar de forma provocadora. A sua memória
falhava quando se esperava que tivesse aprendido e aprendia com bastante sucesso em
46

matérias de menor importância. Não podia ser considerada uma pessoa feliz, nem triste
e tanto o prazer como a dor pareciam ser de pouca dura.
O quarto caso provém da leucotomia pré-frontal, uma operação cirúrgica
desenvolvida em 1936 por Egas Moniz. Esta operação destinava-se a resolver
problemas de ansiedade e agitação ligadas a estados psiquiátricos como os que se
encontram na esquizofrenia. A cirurgia provocava pequenas lesões na massa branca
(localizada por baixo do córtex cerebral e constituída por feixes de axónios) de ambos
os lados frontais. A ideia de Moniz era a de que nos doentes com ansiedade patológica,
as vias de massa branca definiam circuitos anormalmente repetitivos. Moniz
prognosticou que uma separação cirúrgica dessas conexões anularia a ansiedade e a
agitação, sem alterar as capacidades intelectuais. Os resultados das primeiras cirurgias
revelaram uma redução da ansiedade e agitação, enquanto as funções como a linguagem
e a memória convencional permaneceram intatas. Contudo a operação alterou os
doentes noutros aspectos, a ansiedade extrema tinha dado lugar à calma extrema, as
emoções estagnaram e os doentes não pareciam sofrer.
A anosognosia diz respeito à incapacidade de uma pessoa estar consciente da sua
própria doença. Por exemplo, uma vítima de um acidente vascular cerebral que está
paralisada do lado esquerdo do corpo afirma que está tudo bem e que não se passa nada
de errado com ela. Os doentes com anosognosia típica precisam de ser confrontados
com a sua doença para descobrirem que têm um problema. As emoções e os
sentimentos não existem nos doentes anosognósicos e isso talvez seja o único ponto
positivo da doença. Nestes doentes, a tomada de decisões pessoais e sociais estão
bastante diminuídas, não são capazes de construir uma teoria sobre o que lhes está a
acontecer ou o que os outros pensam deles e são negligentes com as consequências da
sua própria doença. Sabe-se que a anosognosia está relacionada com a destruição de um
grupo específico de córtices cerebrais do hemisfério direito, conhecidos por
somatossensoriais (o sistema somatossensorial é responsável pelo tato, temperatura e
dor, o sentido interno da posição das articulações, estado visceral e dor). A lesão
também afeta a massa branca do hemisfério direito. Os doentes com anosognosia são
parecidos em alguns aspetos aos pacientes com lesões pré-frontais. Tanto os
anosognósicos como os doentes pré-frontais são incapazes de tomar decisões
adequadas. Os doentes pré-frontais que têm a capacidade de decisão diminuída são
como os anosognósicos, ou seja, indiferentes ao seu estado e parecem ter uma tolerância
47

incomum à dor. William O. Douglas, juiz do Supremo Tribunal americano, que sofreu
um acidente vascular no hemisfério direito em 1975 é um exemplo de que as
consequências podem ser péssimas quando se permite que um doente com estas
limitações tenha muita interacção social. Douglas deixou de ser capaz de cumprir as
suas obrigações como juiz, contudo recusava-se a demitir-se e quando foi obrigado a
fazê-lo agiu como se não se tivesse demitido. Doentes anosognósicos deste tipo
possuem algo mais do que uma paralisia do lado esquerdo da qual não estão
conscientes, também têm uma deficiência no raciocínio, na tomada de decisões e nas
emoções.
Parece existir no cérebro um conjunto de sistemas dedicados ao pensamento
orientado para um determinado fim, ao qual se dá o nome de raciocínio, e à escolha de
uma resposta, ao qual chamamos tomada de decisão. Este conjunto de sistemas está
envolvido nas emoções e sentimentos e dedica-se também ao processamento dos sinais
do corpo.
Outra peça do quebra-cabeças a que chamamos sistema límbico é uma
determinada região do cérebro em que sistemas responsáveis pelas
emoções/sentimentos, pela atenção e pela memória de funcionamento interagem de uma
forma tao íntima que constituem uma fonte de energia, tanto de ação externa como
interna.
O estado dos doentes é adequadamente descrito como uma suspensão da
animação mental e externa - a variedade externa de uma limitação de raciocínio e da
expressão emocional. As regiões afetadas pela lesão incluem o córtex cingulado
anterior, a área motora suplementar e a 3ª área motora. Em alguns casos, encontram-se
também envolvidas as áreas pré-frontais adjacentes. No seu todo, as áreas contidas neste
sector do lobo frontal têm sido associadas ao movimento, às emoções e à atenção. A
lesão deste setor não só produz limitações no movimento, nas emoções e na atenção,
como também causa uma suspensão virtual da animação da ação e do processo de
pensamento, de tal forma que a razão deixa de ser viável.
Uma paciente de Damásio, ao qual chamou Senhora T, sofreu um AVC e ficou
com danos externos nas regiões dorsais e mediana do lobo frontal em ambos os
hemisférios. A Senhora T ficou repentinamente imóvel e muda e o seu corpo
apresentava tão pouca animação como o seu rosto. Quando era questionada sobre a sua
situação, permanecia habitualmente em silêncio.
48

Meses mais tarde, à medida que gradualmente emergia deste estado de mudez
começava a responder a algumas perguntas, o que viria a clarificar o mistério acerca do
seu estado de espírito. Contrariamente ao que se poderia ter pensado, a sua mente não
tinha estado encarcerada na prisão da sua imobilidade. Em vez disso, parecia não ter
existido grande atividade mental, nenhum pensamento ou raciocínio.
Elementos adicionais para o argumento que Damásio estava a construir provêm
de estudos em animais. O estudo foi feito com o intuito de compreender a aprendizagem
e a memória. Becky e Lucy, os dois chimpanzés que foram utilizados na experiência,
não eram criaturas amigáveis. No decorrer do estudo danificaram o lobo frontal e
nenhuma alteração se verificou. Logo depois, danificaram outro lobo frontal e aí
aconteceu algo notável: uma alteração da personalidade. Os chimpanzés que antes eram
maldosos tinham ficado destemidos e tranquilos.
A danificação pré-frontal bilateral impede uma apresentação emocional normal
e, de forma não menos importante, provoca anormalidades no comportamento social.
Esta pesquisa conduziu à identificação de uma série de sistemas cerebrais
específicos lesados de forma consistente nesses doentes, e conduziu também à
identificação de um conjunto aparentemente estranho de processos neuro psicológicos
que dependiam da integridade desses sistemas. É altura de perguntar o que une esses
processos entre si: primeiro, chegar a uma decisão sobre um problema pessoal típico,
colocado em ambiente social, que é complexo e cujo resultado final é incerto requer o
amplo conhecimento de generalidades e estratégias de raciocínio que operem sobre esse
conhecimento; segundo, os processos da emoção e dos sentimentos fazem parte
integrante da maquinaria neural para a regulação biológica, sendo constituídos por
controlos homeostáticos, impulsos e instintos; terceiro, devido à estrutura do cérebro, o
conhecimento geral necessário para as decisões depende de vários sistemas localizados,
não apenas numa única região mas em regiões cerebrais relativamente separadas;
quarto, visto que o conhecimento só pode ser recuperado de forma distribuída e
parcelar, a partir de diversos locais em vários sistemas paralelos, a operação das
estratégias de raciocínio requer a manutenção ativa da representação de vários fatos
numa ampla exposição paralela durante um período de vários segundos.
O cérebro e o corpo encontram-se integrados por circuitos bioquímicos e
neurais. Existem duas vias principais de interconexão entre estes dois sistemas. A via
em que normalmente se pensa primeiro é a constituída por nervos motores e sensoriais
49

periféricos que transportam sinais de todas as partes do corpo para o cérebro e do
cérebro para todas as partes do corpo. A outra via, que vem menos facilmente à ideia é a
corrente sanguínea onde são transportados sinais químicos.
Muitos organismos simples, mesmo aqueles com apenas uma única célula e sem
cérebro, executam ações de forma espontânea. Algumas destas ações estão contidas nos
próprios organismos. Mas em alguns organismos simples e em todos os organismos
complexos, as ações são causadas por ordens vindas do cérebro.
Se o corpo e o cérebro interagem intensamente entre si, o organismo que eles
formam interage de forma não menos intensa com o ambiente que os rodeia.
O ambiente deixa a sua marca através da estimulação neural dos olhos, dos
ouvidos e das inúmeras terminações nervosas localizadas na pele, papilas gustativas e
na mucosa nasal.
O organismo, por sua vez, atua no ambiente por meio de movimentos resultantes
de todo o corpo, dos membros e do aparelho vocal, ou seja, tudo aquilo que emite
energia para o exterior.
Podemos adquirir estratégias para raciocinar e tomar decisões e podemos
selecionar uma resposta motora a partir do elenco disponível no nosso cérebro ou
formular uma resposta motora nova, que é uma composição desejada e deliberada de
ações.
A regulação biológica, a memória de estados prévios e a planificação de ações
futuras resultam de uma atividade cooperativa que se desenrola não só nos córtices
sensoriais preliminares e nos córtices motores, mas também nos setores intermédios.
Cada sistema sensorial é capaz de produzir os seus próprios mecanismos locais
de atenção e de memória de trabalho; em relação aos processos de atenção global e de
memória de trabalho o mesmo já não acontece. Neste último caso são os córtices pré-
frontais e alguns componentes do sistema límbico os responsáveis por esta tarefa.
Há dois tipos de imagens: as percetivas e as evocadas. As imagens percetivas
são as que se formam no momento (por exemplo, olhar através da janela para uma
paisagem ou quando nos apercebemos de uma dor no cotovelo), enquanto que as
evocadas são as que ocorrem à medida que recordamos algo do passado. Estas imagens
são construções do cérebro do nosso organismo, sendo que a sua atividade neural ocorre
nos córtices sensoriais preliminares.
50

As imagens percetivas formam-se da seguinte forma: os sinais emitidos pelo
sector do corpo (olho e retina num caso e terminais nervosos da articulação do
cotovelo, no outro) são transportados por neurónios, ao longo dos seus axónios e
através de várias sinapses electroquímicas, para o cérebro. Os sinais são recebidos
pelos córtices sensoriais preliminares. Para os sinais vindos da retina, a receção
acontecerá nos córtices visuais preliminares, localizados na parte posterior do cérebro,
no lobo occipital. (…) Para os sinais vindos da articulação do cotovelo, a receção
acontecerá nos córtices somatossensoriais preliminares, nas regiões parietal e insular,
que são o setor cerebral que se encontra danificado na anosognosia.
4

Os doentes que têm os córtices visuais preliminares afectados não conseguem
ver muita coisa (blindsight ou visão cega).
O conhecimento pode ser inato ou adquirido. O conhecimento inato está baseado
em representações que existem no hipotálamo, no tronco cerebral e no sistema límbico
(por exemplo, o controlo do metabolismo, impulsos e instintos). O conhecimento
adquirido baseia-se em representações que existem nos córtices de alto nível e nos
núcleos de massa cinzenta que se localizam abaixo do córtex (por exemplo, o
movimento, o raciocínio, a planificação e a criatividade).
Os pensamentos são feitos de imagens, símbolos e palavras. Contudo, tanto as
palavras como os símbolos são baseados em representações organizadas, ou seja, em
imagens. Antes de dizermos ou escrevermos uma frase, as palavras já estão na nossa
consciência sob a forma de imagens visuais ou auditivas. Assim, o mais correto é
afirmar-se apenas que o pensamento é feito de imagens.
O genoma humano não especifica toda a estrutura do cérebro; não existem genes
em número suficiente para realizar esta tarefa. Enquanto que temos cerca de vinte cinco
mil genes, possuímos mais de dez triliões de sinapses no nosso cérebro. A maior parte
das especificações estruturais são determinadas apenas pela atividade do ser vivo à
medida que se desenvolve e se vai modificando ao longo do seu tempo de vida.
A sobrevivência de um organismo só é possível através de vários processos
biológicos. Para que estes processos sejam bem sucedidos, são necessárias quantidades
de oxigénio e nutrientes que assentam na respiração e na alimentação. Assim, para
garantir que a alimentação e a respiração decorram de acordo com o que for necessário,

4
DAMÁSIO, A., O Erro De Descartes, Círculo de Leitores, Setembro de 2011, pp. 139-140
51

o cérebro dispõe de vários circuitos neurais inatos. Regra geral, os impulsos podem
atuar diretamente através da geração de um certo comportamento ou através da indução
de estados fisiológicos que levam qualquer pessoa a comportar-se de determinado
modo, podendo este ser consciente ou não. As emoções e os sentimentos são uma forte
revelação dos impulsos e dos instintos. Não seria vantajoso que as disposições que
controlam os processos biológicos se alterassem muito. Uma alteração significante
poderia causar graves lesões em vários sistemas de órgãos; uma doença grave ou até
mesmo a morte. Temos um exemplo de regulação por instintos que é alteração de
açúcar no sangue. Quando o cérebro deteta falta de açúcar no sangue, desencadeia
vários processos que vão fazer com que nós tenhamos fome para que depois o nível do
sangue volte ao normal. Estes procedimentos têm como principal função assegurar a
nossa sobrevivência acionando assim uma disposição para ativar alguns modelos de
modificação do corpo (os impulsos). As redes de circuitos neurais básicos que realizam
a operação de todo este ciclo constituem um mecanismo pré-organizado. Estes são
importantes para os efeitos de regulação biológica básica e também para o poder de
classificação como sendo bom ou mau para a própria sobrevivência.
Os programas neurais inatos necessários para a sobrevivência são mantidos em
circuitos do tronco cerebral e do hipotálamo. O hipotálamo desempenha um papel
decisivo na regulação das glândulas endócrinas e no funcionamento do sistema
imunológico. A regulação endócrina é fundamental para um bom desempenho da
função metabólica e para conduzir a defesa dos tecidos biológicos contra
micropredadores (vírus, bactérias e parasitas).
A regulação biológica juntamente com o tronco cerebral e com o hipotálamo é
complementada por controlos no sistema límbico. Com a ajuda de áreas do sistema
límbico e do tronco cerebral, o hipotálamo ajusta o meio interno (processos bioquímicos
que se estão a desenvolver num organismo num dado momento). Esta regulação
química é especialmente complexa. A grande quantidade de níveis de regulação é
interdependente ao longo de várias dimensões.
Nós, humanos, estamos dependentes de mecanismos biológicos de base
genética, bastante evoluídos e de estratégias de sobrevivência que se desenvolveram ao
longo dos tempos na nossa sociedade, sendo estas transmitidas pela via cultural.
Existem nas sociedades humanas convenções sociais e regras éticas. Há dois
tipos de perigos vindos dessas convenções e regras: perigos imediatos e diretos (por
52

exemplo, danos físicos ou mentais) ou perigos remotos e indiretos (por exemplo, a
vergonha).
No que diz respeito à regulação biológica, os dados mostram que a seleção de
respostas de que os organismos não têm consciência, ocorre nas estruturas cerebrais
mais antigas. A selecção de respostas é uma forma simples de tomada de decisão.
William James desenvolveu uma teoria surpreendente sobre as emoções. James
dizia que se imaginarmos uma emoção forte e depois tentarmos abstrair a consciência
de tudo o resto, vemos que tudo o que fica é um estado neutro de perceção inteletual.
James também referiu que seria muito difícil pensar na emoção de medo sem, por
exemplo pensar na aceleração do ritmo cardíaco ou num aperto no estômago.
O principal problema da perspetiva de William James não é o facto de ele
reduzir a emoção a um processo que envolve o corpo, mas sim por ter atribuído pouca
ou nenhuma importância ao processo de avaliação mental da situação. Porém, sabemos
que as nossas emoções só são desencadeadas após um processo mental de avaliação que
ou é voluntário ou não voluntário e as emoções que experimentamos na infância são
diferentes das que experimentamos em adultos.
Às emoções iniciais (as que experimentamos na infância) chamamos emoções
primárias, já às emoções adultas chamamos emoções secundárias. Uma hipótese que
pode explicar as emoções primárias é que está programada para reagir com uma emoção
de maneira pré-organizada, quando certas características do mundo ou dos nossos
corpos são identificadas individualmente ou em conjunto. Exemplos dessas
características são o tamanho e certas configurações do estado do corpo (como a dor
sentida num ataque cardíaco). De forma individual ou em conjunto, estas características
seriam processadas e identificadas por um componente do sistema límbico do cérebro.
Em conclusão, ter consciência das emoções oferece-nos flexibilidade de resposta com
base na história das nossas interacções com o meio.
As emoções primárias, que são inatas, dependem da rede de circuitos do sistema
límbico, sendo a amígdala e o cíngulo os intervenientes principais. É importante
esclarecer que o mecanismo das emoções primárias não descreve todos os tipos de
comportamentos emocionais, elas são apenas o mecanismo básico.
Quando nos encontramos com um amigo que já não vemos há muito tempo ou
quando nos informam da morte de um colega de trabalho, sentimos uma emoção.
53

Mesmo que nada disto tenha acontecido na realidade, se o imaginarmos, sentimos na
mesma uma emoção; esta emoção é designada por secundária.
O que acontece é que depois da formação de imagens mentais sobre os aspetos
principais dessas cenas, verifica-se uma mudança no estado do corpo, definida por
várias alterações em diferentes regiões do mesmo. Por exemplo, se nos encontrarmos
com um velho amigo (na nossa imaginação), o coração pode bater mais depressa e os
músculos do rosto podem mudar para formar uma expressão mais feliz. Ou seja, na
experiência de uma emoção, muitas partes do corpo são levadas a um novo estado em
que são inseridas mudanças significativas. Apesar de as relações entre o tipo de situação
e a emoção serem parecidas em diferentes indivíduos, é a experiência pessoal que
personaliza o processo de emoções para cada indivíduo.
As disposições pré-frontais adquiridas, necessárias para as emoções secundárias
são diferentes das disposições inatas que são necessárias para as emoções primárias. As
disposições adquiridas precisam das inatas para se poderem exprimir.
O processamento emocional que se encontra diminuído nos pacientes com lesões
pré-frontais é do tipo secundário, pois eles não conseguem produzir emoções relativas a
determinados tipos de situações e estímulos. No entanto esses mesmos doentes pré-
frontais podem sentir emoções primárias e por causa disso o seu lado afetivo pode
parecer intato. Os doentes com lesões no sistema límbico, na amígdala ou no cíngulo
anterior registam uma diminuição tanto das emoções primárias como das secundárias.
Em conclusão, a emoção é a combinação de um processo de avaliação mental, simples
ou complexo, com respostas a esse processo (em grande parte dirigidas ao corpo em si,
mas também ao próprio cérebro), resultando num estado emocional do corpo e em
alterações mentais adicionais.
Quando um acidente vascular cerebral destrói o córtex motor no hemisfério
esquerdo do cérebro, o doente sofre uma paralisia facial direita e os músculos não
funcionam, mas se o doente sorrir espontaneamente, tanto o sorriso como a expressão
são normais. Neste caso o controlo motor de uma sequência de movimentos
relacionados com a emoção não se situa no mesmo sítio que o controlo de um ato
voluntário. Se o acidente afetar o cíngulo anterior no hemisfério esquerdo, o rosto do
doente é assimétrico mas se este tentar contrair intencionalmente os músculos faciais, a
simetria regressa. Nesta situação o movimento relacionado com a emoção é controlado
a partir da região do cíngulo anterior, de outros córtices límbicos e dos gânglios basais.
54

Todas as emoções originam sentimentos, mas nem todos os sentimentos
resultam de emoções. Chama-se sentimentos de fundo aos sentimentos que não têm
origem nas emoções. Se uma emoção é um conjunto de modificações no estado do
corpo, associadas a certas imagens mentais que ativaram um sistema cerebral
específico, a essência de sentir uma emoção é a experiência dessas modificações em
justaposição com as imagens mentais que desencadearam o ciclo. Um sentimento
depende da justaposição de uma imagem do próprio corpo com uma imagem de outra
coisa (por exemplo, a imagem visual de um rosto).
Os estudos de Paul Ekman revelaram que quando se dava instruções a
indivíduos normais para comporem uma expressão emocional específica nos seus
rostos, sem que eles se apercebessem da sua intenção, isto fazia com que os indivíduos
experimentassem um sentimento correspondente à expressão.
Existem muitas variedades de sentimentos. Uma primeira variedade baseia-se
nas emoções (as mais universais como a felicidade, a cólera, a tristeza e o medo) e
correspondem a perfis de resposta do estado do corpo. A segunda variedade de
sentimentos é a que se baseia nas emoções que são pequenas variantes das emoções
universais (por exemplo, a melancolia e a ansiedade são variantes da tristeza). Os
sentimentos de fundo têm origem em estados corporais de “fundo” e não em estados
emocionais. Não são nem demasiado positivos nem demasiado negativos, mas podem
revelar-se agradáveis ou desagradáveis. Quando sentimos felicidade o sentimento de
fundo foi suplantado por um sentimento emocional.
Existem mapas estáveis da estrutura geral do corpo que representam a
propriocepção (sensação articular e muscular) e a interocepção (sensação visceral) e que
constituem a base da nossa ideia de imagem do corpo. Estas representações são de
acesso não imediato, mas é possível ativá-las nos córtices somatossensoriais. Um
exemplo deste tipo de representações é o fenómeno do membro fantasma, quando após
uma amputação cirúrgica alguns doentes imaginam que o membro ausente ainda lá se
encontra.
O tipo de lesão cerebral em doentes com anosognosia prototípica resulta na falha
da intercomunicação entre as regiões que intercedem no levantamento do estado do
corpo e por vezes, na própria destruição de algumas dessas regiões. Usando a noção de
sentimentos de fundo, os anosognósicos não conseguem atualizar a representação dos
seus corpos e consequentemente reconhecer através do sistema somatossensorial, que a
55

realidade da sua situação corporal se alterou. Os doentes com membros fantasma podem
afirmar que ainda sentem o membro ausente mas apercebem-se de que efetivamente ele
não está lá (não sofrem de uma ilusão).
A continuidade dos sentimentos de fundo diz respeito ao facto de o organismo
vivo e a sua estrutura serem contínuas enquanto for mantida a vida. Existem
mecanismos neurais que nos ajudam a sentir “como se” estivéssemos a passar por um
estado emocional; estes mecanismos devem desenvolver-se enquanto crescemos e nos
adaptamos ao nosso meio. Os sentimentos são tão cognitivos como qualquer outra
imagem percetual e tão dependentes do córtex cerebral como qualquer outra imagem.
Eles surgem em primeiro lugar no desenvolvimento individual e têm sempre uma
palavra a dizer sobre o modo de funcionamento do resto do cérebro e da cognição.
As substâncias químicas podem alterar as emoções e o álcool e os
estupefacientes podem modificar o que sentimos.
O conhecimento de que uma substância química provoca a ocorrência de um
determinado sentimento não é o mesmo que o conhecimento do mecanismo pelo qual se
alcança esse resultado. Apesar de se saber que uma substância atua num determinado
local, isso não nos permite saber por que nos sentimos alegres ou tristes.
Com o objetivo de nos sentirmos de uma certa forma em relação a uma pessoa
ou a um acontecimento, o cérebro precisa de ter um meio para representar a ligação
entre a pessoa ou o acontecimento e o estado do corpo (estado de espírito). Ou seja, nós
não vamos querer relacionar uma emoção (positiva ou negativa) à coisa ou pessoa
errada.
A emoção e o sentimento têm por base dois processos básicos: a imagem de um
determinado estado do corpo aliada ao conjunto de imagens que o desencadearam; e a
eficiência do processo cognitivo nos acontecimentos descritos anteriormente.
O objetivo do raciocínio é a decisão e esta consiste na escolha de uma opção de
resposta. Os termos raciocinar e decidir partilham uma estreita ligação, sendo por vezes
confundidos. Estas duas palavras implicam que o decisor (aquele que irá decidir) se
aperceba que existe uma situação que requer uma decisão, que há diferentes opções de
acção (respostas) e das consequências de cada uma dessas opções (resultados). Como
exemplo deste processo temos: a descida do nível de açúcar no sangue, o
reconhecimento que parte dos neurónios e do hipotálamo e a solução do problema, ou
seja a criação de um estado de fome que levará o indivíduo a comer.
56

Porém, há casos em que as opções de resposta são mais numerosas, acontecendo
o mesmo com as suas consequências (avaliação das vantagens e desvantagens). Nesta
situação, para chegar a uma seleção da resposta final é preciso recorrer ao raciocínio.
Como exemplo deste caso temos as escolhas de carreira ou de investimento.
Nestes dois exemplos, apesar das diferenças a nível da complexidade, ou seja,
enquanto que o primeiro se insere na racionalidade e na razão prática, o segundo está
relacionado com a razão teórica, mas existe um fio condutor que une estes dois
exemplos.
Assim, raciocinar e decidir podem tornar-se tarefas bastante complicadas, em
especial quando estão em causa a nossa vida pessoal e o seu contexto social imediato;
surge o dilema e para o resolver há pelo menos duas formas de o fazer: a primeira
assenta no ponto de vista tradicional da “razão nobre” e a segunda na “hipótese do
marcador somático”.
A primeira possibilidade, também denominada de senso comum, tem por base a
lógica formal, devendo ser esta a responsável por nos conduzir à melhor solução para o
problema. Desta forma, neste processo racional as emoções não podem figurar. Um dos
problemas desta perspetiva racionalista é a capacidade limitada da nossa memória. Ou
seja, enquanto estamos a avaliar os prós e os contras que as nossas acções podem trazer
perdemos muito tempo; tempo este que pode ser muito curto. Se quisermos reter na
nossa memória as listas das perdas e dos ganhos, estas não ficarão guardadas para
sempre, acabando por desaparecer.
Na segunda hipótese, antes de um indivíduo pensar num mau resultado,
associado a uma dada opção de resposta, sente uma sensação visceral desagradável.
Como a sensação é corporal atribuí ao fenómeno o termo técnico de estado somático
(em grego, soma quer dizer corpo); e porque o estado “marca” uma imagem, chamo-
lhe marcador.
5

Os marcadores somáticos permitem-nos reduzir drasticamente o número de
opções que podemos tomar; estes podem não ser suficientes para a tomada de decisão
humana normal, mas aumentam provavelmente a precisão e a eficiência do processo de
decisão. A sua ausência tem o efeito contrário, ou seja, reduz a nossa eficiência de
decisão. Quando um marcador somático negativo é justaposto a um determinado

5
DAMÁSIO, A., O Erro De Descartes, Círculo de Leitores, Setembro de 2011, p. 230
57

resultado futuro, esta combinação funciona como um alarme; quando é justaposto um
marcador somático positivo, o resultado é um incentivo. É importante salientar que
estes marcadores não tomam decisões por nós. Por vezes, eles funcionam sem chegarem
à nossa consciência, e utilizam o circuito emocional, a que Damásio chamou “como se”.
Para um bom funcionamento dos marcadores somáticos, tanto o cérebro como a
cultura de um indivíduo têm de ser normais. Um exemplo desta deficiência são os
doentes afetados por um estado conhecido por sociopatia ou psicopatia.
Os marcadores somáticos vão sendo adquiridos ao longo da nossa vida, através
de experiências, convenções sociais e regras éticas. Esta aquisição é feita nos córtices
pré-frontais.
Há dois mecanismos que estão envolvidos no processo dos marcadores
somáticos: no primeiro, o corpo é levado pelos córtices pré-frontais a assumir um
determinado perfil de estado, cujo resultado após uma série de processos se acaba por
tornar consciente. No segundo, o corpo é transposto e os córtices pré-frontais limitam-se
a dizer ao córtex somatossensorial que se organize de acordo com o padrão explícito de
atividade que teria assumido caso o corpo tivesse atingido o estado desejado e
informado o córtex de acordo com esse estado. Este último mecanismo é o que já foi
designado anteriormente por “como se”.
O mecanismo de marcação somática faz muita falta a uma boa construção de
uma neurobiologia da racionalidade, mas essa necessidade não faz com que esse
mecanismo seja suficiente.
Quando somos confrontados com uma decisão, o que predomina no panorama
mental é a ampla e variada exposição dos saberes que estão em causa para a conclusão
da decisão. Assim, quando somos confrontados com alguma situação, a categorização
prévia permite-nos avaliar se a opção que escolhermos será ou não vantajosa para nós.
Não é possível mantermos uma atividade mental coerente com a ausência da
atenção básica e da memória de trabalho e, por sua vez, os marcadores somáticos
também não poderão desenvolver as suas funções, porque não há uma estabilidade para
eles desenvolverem a sua ação. Contudo, mesmo depois do mecanismo de marcação
somática ter desempenhado com sucesso o seu trabalho, a atenção e a memória de
trabalho continuam a ser necessárias, visto que estão presentes no processo de
raciocínio.
58

Em relação aos córtices pré-frontais, os marcadores somáticos influenciam o
desempenho da atenção e da memória de trabalho na área dorsolateral. Não se obtém
assim qualquer resposta à capacidade de os marcadores somáticos influenciarem
também a atenção e a memória de trabalho dentro do próprio domínio biorregulador e
social. Ou seja, nos indivíduos normais, os marcadores somáticos promovem a atenção
e a memória de trabalho a partir do sistema cognitivo, enquanto que nos doentes que
possuem lesões na região ventromedial, todos estes processos permanecem
comprometidos em maior ou menor grau.
São três os intervenientes auxiliares no processo de raciocínio: estados
somáticos, memória de trabalho e atenção. Todos estes intervenientes se relacionam e
parecem fazer parte do problema crítico da formação da ordem através da exibição
paralela de imagens.
Continua então a dúvida de como é que os marcadores atuam como critérios.
Uma das possibilidades é a de que quando marcadores somáticos divergentes se
sobrepõem a combinações desiguais de imagens, modificam a forma como o cérebro as
analisa.
O mecanismo automático de marcação somática da maior parte de nós (que
fomos criados numa cultura relativamente saudável) tem-se adequado, através da
educação, aos padrões de racionalidade dessa cultura.
A acção dos impulsos biológicos, dos estados do corpo e das emoções pode ser
uma base indispensável para a racionalidade.
Os centros de controlo autónomos são estruturas que fazem parte do sistema
nervoso autónomo e encontram-se no sistema límbico.
A respeito da evolução, o sistema nervoso autónomo foi o meio neural que
possibilitou que o cérebro de organismos muito menos requintados do que o nosso
interferisse na regularização da sua economia interna.
Uma alteração no estado integral do nosso corpo é envolvida pelos marcadores
somáticos, a qual inclui alterações tanto a nível das vísceras como a nível do sistema
musculosquelético, incutidas conjuntamente por sinais neurais e por sinais químicos,
tudo isto apesar de a componente visceral ser algo mais crítica do que a
musculosquelética na elaboração de estados de fundo e emocionais.
A resposta talvez mais útil do sistema nervoso que pode ser investigada em
laboratório é a resposta da condutividade da pele. Esta é fácil de provocar, é
59

relativamente credível e já foi testada várias vezes por vários psicofisiólogos em pessoas
normais de diferentes idades e culturas.
Com o seu estudo, Damásio, pretendia saber se doentes como Elliot tinham
capacidades de produzir respostas de condutividade da pele. Assim, fez comparações
entre doentes com lesões no lobo frontal, doentes normais e doentes com outras
estruturas cerebrais afetadas. Concluiu que todos os doentes estudados com lesões no
lobo frontal obtinham respostas de condutividade da pele, assim como os indivíduos
normais e os que não tinham sofrido lesões nos lobos frontais.
Foi feita uma experiência, a qual consistia numa mostra de imagens
perturbadoras e o objetivo era verificar quais os doentes que geravam respostas de
condutividade da pele. Verificou-se então que as pessoas que não continham lesões
frontais apresentavam muitas respostas de condutividade da pele após terem visto as
imagens perturbadoras, mas o mesmo não acontecia com imagens inocentes. Os doentes
com lesões nos lobos frontais não geraram qualquer resposta de condutividade da pele.
Foi realizada uma nova experiência, desta vez com o objetivo de verificar se
doentes com grandes lesões no cérebro (fora dos setores pré-frontais) eram capazes de
jogar um jogo tal como as pessoas normais. Com o resultado obtido pôde concluir-se
que estas pessoas conseguem jogar tal como as pessoas normais desde que possam ver e
que sejam capazes de compreender as instruções. Isto também se aplica aos doentes
com limitações de linguagem. Por exemplo, uma doente com graves deficiências de
expressão verbal (causadas por uma disfunção do córtex temporal esquerdo) queixou-se
ao longo de todo o jogo em voz alta devido a não conseguir extrair qualquer sentido do
que se estava a passar. Mas mesmo assim, o seu desempenho foi impecável, pois, sem
nunca hesitar, elegeu sempre o que a sua racionalidade intacta a levou a escolher.
Os aspectos neurais e químicos da resposta do cérebro provocam uma profunda
mudança no modo como os tecidos e os sistemas orgânicos completos funcionam.
Alteraram-se as disponibilidades energéticas e os ritmos metabólicos de todo o
organismo, assim como a agilidade do sistema imunológico.
Quando o nosso cérebro deteta um perigo, o resultado líquido traduz-se num
afastamento da rotina tanto em setores restritos do organismo como no organismo como
um todo. É ainda mais importante referir que essas alterações ocorrem tanto no cérebro
como no corpo propriamente dito.
60

Damásio refere que o complexo somatossensorial do cérebro, especialmente o
do hemisfério direito dos humanos, representa a estrutura do nosso corpo de acordo com
um esquema onde estão presentes partes centrais (corpo e cabeça), partes apendiculares
(membros) e uma fronteira delimitada pelo corpo (pele).
António Damásio suspeitava que no princípio não teria havido tato, nem visão,
nem audição, nem sensação de movimento. Mas que em vez disso havia uma sensação
do corpo quando este tocava, via, ouvia ou se movia. As pessoas estão sempre mais
conscientes do estado geral do corpo do que frequentemente admitem. Por exemplo,
quando nós tocamos num objeto, recebemos dois conjuntos de sinais da pele: um diz
respeito à forma e textura do objeto, enquanto que o outro se refere aos lugares do corpo
que foram activados pelo contacto com o objeto.
As representações primordiais do corpo em ação constituem um enquadramento
espacial e temporal, uma métrica, que pode vir a servir de base a outras representações.
A representação do que construímos é criada no cérebro com base na anatomia do corpo
e no meio ambiente.
Pensa-se que as representações primordiais do corpo em ação possam
desempenhar um papel importante na consciência.
O Self neural (eu neural) é quando um doente é incapaz de reconhecer rostos
familiares, bem como distinguir cores, ler ou até mesmo falar. É reconhecido em
doentes que sofrem de anosognosia transitória em que a redução parcial do sentido do
corpo esta ligada ao Self.
Um segundo conjunto de representações subjacentes ao Self neural consiste nas
representações primordiais do corpo de um individuo, que já esqueceu não só aquilo
que o corpo tem sido em geral, mas também o que o corpo foi antes mesmo dos
processos que levaram às perceções.
Ao longo do tempo o estado Self vai sendo elaborado a partir da sua base, um
estado de referência passageira, sendo depois produzido de uma forma contínua e
consistente.
William James achava que nenhuma psicologia racional podia duvidar da
existência de selves pessoais (eus pessoais) e afirmava que o pior que a psicologia podia
fazer era destituí-los de significado.
Para António Damásio não teria sido possível ter apresentado este livro sem ter
falado de Descartes como um símbolo de um conjunto de ideias acerca do corpo, do
61

cérebro e da mente, o que de certa maneira, continua a influenciar as ciências e as
humanidades. A sua preocupação é dirigida tanto à noção dualista com a qual Descartes
separa a mente do cérebro e do corpo, como às variantes modernas desta noção; a ideia
de que a mente e o cérebro estão relacionados mas apenas no sentido de a mente ser o
programa de software que trabalha numa parte do hardware chamado cérebro, ou então
que o cérebro e o corpo estão relacionados apenas no sentido em que o primeiro não
consegue viver sem o suporte que o segundo lhe dá.
Qual foi, então, o erro de Descartes? No livro “Discurso do Método”, de
Descartes encontra-se a tão famosa frase “Penso, logo existo”. Damásio acredita que
esta declaração ilustra precisamente o oposto daquilo que ele julga ser verdade acerca
das origens da mente e da relação entre a mente e o corpo. Esta afirmação sugere que o
pensamento e a consciência são os verdadeiros substratos do ser; Descartes acreditava
que o pensamento era uma atividade completamente separada do corpo. Assim, para
António Damásio, o erro de Descartes foi a separação que este fez entre o corpo e a
mente, ou seja, a divisão entre a razão e o corpo.
A medicina tem demorado a aperceber-se de que aquilo que as pessoas sentem
em relação ao seu estado é o fator principal no resultado do tratamento. O efeito
placebo, por vezes, possui uma melhor reação nos doentes do que aquela a que uma
determinada intervenção médica poderia levar, ou seja, o efeito placebo pode ser
avaliado através do efeito de comprimidos ou injeções que, sem o doente saber, não
contêm qualquer ingrediente farmacológico, presumindo-se que deste modo não haja
nenhuma influência, quer positiva e/ou negativa.
Em várias espécies não humanas ou até mesmo não primatas, em que
características como a criatividade, lógica e raciocínio são limitados, há, mesmo assim,
manifestações de um comportamento social complexo cujo controlo neural tem de ser
inato.
Há certas necessidades, como por exemplo a dor ou o prazer, que o organismo
precisa para que as estratégias instintivas e adquiridas atuem com eficácia.
Possivelmente, também foram estes os instrumentos que controlaram o
desenvolvimento das estratégias sociais de tomada de decisão. Certos indivíduos
experimentaram as consequências dolorosas de fenómenos psicológicos, sociais e
naturais, tornando-se possível o desenvolvimento de estratégias culturais e intelectuais
para fazer face à experiência de dor e para conseguir reduzi-la.
62

A dor e o prazer não são imagens simétricas uma da outra, pelo menos não o são
em termos das suas funções no apoio à sobrevivência. É difícil imaginar que as pessoas
e sociedade em geral se regem pela busca do prazer, tanto ou mais do que pela fuga à
dor sejam capazes de sobreviver.





























63

Bibliografia

Livros:

 MONTEIRO, M. ; FERREIRA, P. , Psicologia B 12 Ser Humano 1ª Parte , Porto
Editora
 MONTEIRO, M. ; FERREIRA, P. , Psicologia B 12 Ser Humano 2ª Parte , Porto
Editora
 MONTEIRO, M. ; FERREIRA, P. , Psicologia B 12 Ser Humano Caderno de
Atividades , Porto Editora
 DAMÁSIO, A. , O Erro de Descartes , Círculo de Leitores , 2011
 CARRAJOLA, C. ; CASTRO, M. ; HILÁRIO, T. , Planeta com Vida Biologia
12ºano , Santillana Constância
 MATIAS, O. ; MARTINS, P. , Biologia e Geologia 11ºano , Areal Editores
 PIRES, C. ; BRANDÃO S. , Psi 12B A entrada na vida 1ª Parte, Areal Editores
 PIRES, C. ; BRANDÃO S. , Psi 12B A entrada na vida 2ª Parte, Areal Editores
 MONTEIRO, M. ; DOS SANTOS, M. , Psicologia 12º 1ª Parte, Porto Editora


Filmes/documentários:

 Clonagem. Realização da NATIONAL GEOGRAPHIC. Lisboa: Lusomundo.
2002








64

Webgrafia

 http://mapadocrime.com.sapo.pt/cerebro%20psicopata.html (visitado no dia
24/09/2011)
 http://members.tripod.com/geovane_nho.br/ia/memoria/hipotese_marc_somatico
.htm (visitado no dia 24/09/2011)
 http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-sistema-
nervoso/hemisferios-cerebrais.php (visitado no dia 13/10/2011)
 http://www.blogpercepto.com/search?q=Hemisf%C3%A9rios+cerebrais
(visitado no dia 13/10/2011)
 http://www.webciencia.com/11_04cerebro.htm (visitado no dia 22/10/2011)
 http://www.infoescola.com/anatomia-humana/lobos-cerebrais/ (visitado no dia
22/10/2011)
 http://www.psicob.blogspot.com/ (visitado no dia 22/10/2011)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Joseph_Gall (visitado no dia 29/10/2011)
 http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/frengall_port.htm (visitado no dia
29/10/2011
 http://sadato.hypermart.net/weblog/a_frenologia_esta_voltando.html/04/2006
(visitado no dia 29/10/2011)
 http://www.afh.bio.br/nervoso/img/SN%20aut%C3%B4nomo.gif (visitado no
dia 09/11/2011)
 http://www.webciencia.com/11_29snp.htm (visitado no dia 04/10/2011)
 http://www.afh.bio.br/nervoso/nervoso4.asp (visitado no dia 17/10/2011)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso_parassimp%C3%A1tico (visitado
no dia 17/10/2011)
 http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Seresvivos/Ciencias/biogenoma.php
(visitado nos dias 27/09/2011 e 30/11/2011)
 http://www.todabiologia.com/citologia/mitose.htm (visitado no dia 13/01/2012)
 http://www.todabiologia.com/citologia/meiose.htm (visitado no dia 13/01/2012)
 http://www.coladaweb.com/biologia/biologia-celular/mitose-e-meiose (visitado
no dia 13/01/2012)
65

 http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-sistema-
nervoso/cerebelo.php (visitado no dia 06/10/2011)
 http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-sistema-
nervoso/medula-espinhal.php (visitado no dia 08/10/2011)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Medula_espinhal (visitado no dia 13/10/2011)
 http://cerebro2.com.sapo.pt/index_ficheiros/Page469.html (visitado no dia
19/10/2011)
 http://pt.scribd.com/doc/8006557/Encefalo (visitado no dia 27/10/2011)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Dopamina (visitado no dia 05/11/2011)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Ax%C3%B3nio (visitado no dia 10/11/2011)
 http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-sistema-
nervoso/imagens/circuito-de-recompensa-cerebral.swf (visitado no dia
16/11/2011)
 http://filotestes.no.sapo.pt/psicMotivacao.html (visitado no dia 20/11/2011)
 http://www.todabiologia.com/citologia/meiose.htm (visitado no dia 13/01/2012)
 http://www.webciencia.com/11_03divisao.htm (visitado no dia 13/01/2012)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Neur%C3%B3nio (visitado no dia 18/01/2012)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Ax%C3%B3nio (visitado no dia 18/01/2012)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Corpo_celular (visitado no dia 18/01/2012)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Dendrito (visitado no dia 18/01/2012)
 http://neuromed88.blogspot.com/2008/11/apresentao-painel-plasticidade-
sinptica.html (visitado no dia 25/01/2012)
 http://cerebro.weebly.com/plasticidade-cerebral.html (visitado no dia
25/01/2012)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81rea_de_Wernicke (visitado no dia
01/02/2012)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81rea_de_Broca (visitado no dia 01/02/2012)
 http://www.infoescola.com/anatomia-humana/lobos-cerebrais/ (visitado no dia
01/02/2012)
 http://ultimosegundo.ig.com.br/genomahumano/cronologia-os-passos-ate-o-
genoma/n1237680683236.html (visitado no dia 19/10/2011)
 http://www.bebevirtual.com/Gravidez-43.htm (visitado no dia 16/11/2011)
66

 http://www.presentes.pt/Baptizado/Content/?ids=139&idc=260 (visitado no dia
16/11/2011)
 www.publico.pt/a-clonagem-chega-ao-mundo-dos-primatas-e-desta-vez-nao-e-
ficcao-1310716 (visitado no dia 28/09/2011)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%AAmeos (visitado nos dias 09/11/2011 e
22/11/2011)
 http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001229/122990por.pdf (visitado no dia
19/10/2011)

Imagens:

 http://moodle.esfhp.pt/file.php?file=/1/LOGO_Cor.jpg (visitado no dia
16/03/2012)
 http://4.bp.blogspot.com/_xynrtZ7wyG0/THqyyZdGIQI/AAAAAAAAACU/ihZ
iq6i1pac/s1600/genetica%5B1%5D.jpg (visitado no dia 16/03/2012)
 http://2.bp.blogspot.com/-
SuLSpFPJQrE/Tuo7OFE1CxI/AAAAAAAABoY/oOHRQF5DN2A/s1600/cere
bro1+%25281%2529.jpg (visitado no dia 16/03/2012)
 http://www.gigle.net/wp-content/uploads/2009/08/adn.gif (visitado no dia
16/03/2012)
 http://www.odec.ca/projects/2005/anna5m0/public_html/human.png (visitado no
dia 16/03/2012)
 http://www.pop.eu.com/uploads/images/CANCRO/01_OCANCRO/01_cancro_
03_fases.jpg (visitado no dia 16/03/2012)
 http://3.bp.blogspot.com/_8TKJwIjaSBE/STmHcEjH7oI/AAAAAAAAAOs/Qo
n457OYDRU/s320/meiose.jpg (visitado no dia 16/03/2012)
 http://3.bp.blogspot.com/_eRi7BPBv_Og/SsoWB6nHSfI/AAAAAAAAAfk/1Ng
ghMUsmjs/s1600-h/filog%C3%A9nese.gif (visitado no dia 16/03/2012)
 http://www.maisdedeus.net/wp-content/uploads/2010/08/genetica1.jpg (visitado
no dia 16/03/2012)
67

 http://image.guardian.co.uk/sys-
images/Guardian/Pix/gallery/2002/01/03/dolly300.jpg (visitado no dia
16/03/2012)
 http://4.bp.blogspot.com/_tUvVLw2glag/ScAyXJXdIvI/AAAAAAAACs4/TOg
ZRJYzAg0/s400/gemeos-irmaos.com (visitado no dia 16/03/2012)
 http://www.comciencia.br/reportagens/celulas/img/lygia_1.jpg (visitado no dia
16/03/2012)
 http://www.ghente.org/imagens/temas/clonagem/clonagem_reprodutiva.jpg
(visitado no dia 16/03/2012)
 http://www.notapositiva.com/superior/enfermagem/anatomia/sistemanervoso02.j
pg (visitado no dia 16/03/2012)
 http://www.batebyte.pr.gov.br/arquivos/Image/edicao74/image108.gif (visitado
no dia 16/03/2012)
 http://www.auladeanatomia.com/neurologia/hemisferios.jpg (visitado no dia
16/03/2012)
 http://www.afh.bio.br/nervoso/img/SN%20aut%C3%B4nomo.gif (visitado no
dia 16/03/2012)
 http://2.bp.blogspot.com/-
gsV0p2elA7U/Tc8rDjKnqWI/AAAAAAAAAAM/PsnG-
U9zElQ/s1600/damasio.jpg (visitado no dia 16/03/2012)
 http://www.sitiodolivro.pt/fotos/livros/9789896441630_1314899043.jpg
(visitado no dia 16/03/2012)
 http://somostodosum.ig.com.br/conteudo/imagem/11550.jpg (visitado no dia
16/03/2012)
 http://11649.bodisparking.com/tzonerz.com?szcp=58 (visitado no dia
16/03/2012)
 http://n.i.uol.com.br/licaodecasa/ensmedio/biologia/snc.jpg (visitado no dia
16/03/2012)
 http://1.bp.blogspot.com/_1FqlfeuqI-
8/TLTim1_3ejI/AAAAAAAACsY/5auqCFhwKR4/s400/4E49F7FF-B994-
3ADD-FDF51934BBA260BD_1.jpg (visitado no dia 16/03/2012)