Violência Estrutural e Sistêmica: Ela se expressa pelo quadro de miséria, má distribuição

de renda ,exploração dos trabalhadores,crianças nas ruas,falta de condições mnimas para
!ida di"na,falta de assistência em educação e sa#de$%rata&se,portanto,de uma população
de risco,sofrendo no dia&a&dia os efeitos da !iolação dos direitos humanos,confirmando
as pala!ras de 'ahatma (andhi: a pobre)a é a pior forma de !iolência$ *pesar desse tipo
de !iolência acontecer os presos ainda saem impunes do crime$
Violência Estrutural
+e tempos em tempos acontecem crimes que chocam a população nacional e ,abalam- as
estruturas e pilares da sociedade brasileira$
.o primeiro semestre deste ano ti!emos o exausti!o enfoque no caso /sabella, a pobre
menina que foi assassinada brutalmente$ *tenção, não tenho como ob0eti!o questionar a
mem1ria do po!o brasileiro ou a falta de informação$ 'as aonde é mesmo que estão
detidos a Sr2 3atobá e o Sr .ardoni4 E porque eles estão presos4 3á foram 0ul"ados e
declarados culpados4 Em que ,pé- está esse caso4
3oão 5oberto Soares, !ocê sabe quem é4 6 o menino de 7 anos assassinado por policiais
militares no 5io de 3aneiro, cu0o pai chorou em rede nacional, e !ocê, com certe)a, se
emocionou e se como!eu com a barbárie$
8oderia ficar relatando uma série de casos bárbaros, mas !ou me ater ao atual e que mais
uma !e) impressionou todo o pas$ * 0o!em Eloá de 9: anos que foi assassinada pelo ex&
namorado o 0o!em de ;; anos <indember"$
=uantas !ersões desse caso !ocê ou!iu e quantas horas sua tele!isão ficou li"ada dando
audiência >s emissoras que lucraram horrores com as propa"andas que anuncia!am nos
inter!alos da transmissão ao !i!o como a rede 5ecord de tele!isão4 ?Vamos, responda
sinceramente@ =uantas horas4
'eu ob0eti!o aqui é questionar a !iolência estrutural em que !i!emos atualmente$ .ão
importa se ela é doméstica, urbana, familiar ou psicol1"ica$ * estrutura é !iolentaA E com
isso somos al!o cotidianamente de combinações de !iolência$ 6 no Bnibus, no metrB, na
reunião com o chefe, na hora do 0antar e na descontração no horário nobre$
Você deixou&a entrar em sua casa, pela tele!isão, ,se interou do assunto- e 0á entende até
um pouco de psicolo"ia e psiquiatria$ *final <indember" e *lexandre .ardoni sofrem de
patolo"ias psquicas$ 8recisam de tratamento psiquiátrico$
Cu, são a"entes e resultado de uma sociedade doente4 =ue absor!eu e le"tima dia ap1s
dia a !iolência que presenciam$ *s relações de i"ualdade, que de i"uais não tem nada,
incomodam$
* mulher não empurra no Bnibus com a mesma força de um homem$ C chefe não trata
seu subordinado com a mesma cordialidade com que é tratado$ C dinheiro que pa"a o táxi
ou a prestação do carro popular não pa"a a passa"em do trem$
/ssoA 5eafirmo, é uma estrutura !iolenta, de uma sociedade historicamente desi"ual e de
questões sociais maltratadas$ +i"o mal tratada, pois, não são despendidos esforços
necessários para a transformação da l1"ica social doentia em que !i!emos$ * cada dia,
mais pessoas são acometidas pelas doenças modernas: depressão, stress, sndrome do
pDnico, etc$
'as, !e0am bem, as pessoas ficam doente, não a realidade as deixa doente, não é a
sociedade que esta doente e 0á não se manifesta !eementemente contra as barbáries$
São os indi!duos isolados que cometem atrocidades$ Estendam indi!duos para
or"ani)ações também$ * polcia está doente e não tem a sensibilidade para abordar um
carro de famlia$ * polcia é que não tem discernimento e flexibilidade para conter seus
co&irmãos$
Entendam, na sociedade atual o problema está sempre com o outro, está distante e
isolado, e se se aproximar de !ocê, !ocê será !tima$ Será4
=uais são suas atitudes efeti!as na contribuição para a transformação social$ Vi!emos em
micro sociedades, para tanto dependemos de administração em diferentes esferas, não
apenas de nossos representantes polticos ou 0ui)es to"ados, n1s nos auto&administramos$
Se0a seu corpo, seu quarto, sua famlia, sua casa, seu empre"o, seu carro, seu setor e
assim por diante$$$
=ue tipo de administrador é !ocê4 +aqueles que !isa lucro imediato e que não in!este em
ações complexas e ,sub0eti!as-, ou daquele que acredita no trabalho de formi"uinha e
que se empenha em passar a seus filhos e meio social uma alternati!a para a
desconstrução dessa !iolência estrutural que atualmente não distin"ue mais por "ênero,
raça, etnia ou classe social$ 8ois está enrai)ada, fa) parte da construção e necessita de
uma restauração$ =ue na !erdade é um processo muito mais difcil do que a reconstrução,
onde se põe tudo no chão e constr1i no!amente$ * restauração concite em, sem demolir o
todo destruir colunas que este0am contaminadas$
Violência estrutural, ou a violência do poder
* !iolência estrutural é, normalmente, entendida como a que resulta do monop1lio le"al
do uso da força pelo Estado ?no sentido de sociedade poltica@, de acordo com a
sociolo"ia de 'ax Eeber ?9FGH&9I;J@$
'as a !iolência estrutural !ai muito além dessa sua dimensão institucional, expressa no
aparelho repressi!o estatal$ Ela di) respeito a aspectos como a concentração de
rendimentos e rique)a, a falta de acesso a direitos polticos e sociais ?como bens e
ser!iços@ para amplos se"mentos da sociedade, ao desempre"o estrutural, massi!o e
cr1nico & que atin"e, neste momento, em 8ortu"al, mais de 9JK da população acti!a &, >
distDncia que existe entre a 3ustiça e, mais uma !e), as mesmas classes ou camadas de
população mais fracas, empobrecidas e !timas de uma estrutura brutalmente desi"ual$
* produção de desi"ualdade é um ponto essencial e constituti!o da !iolência estrutural: a
nossa sociedade é uma LfábricaL produtora de m#ltiplas formas de desi"ualdades, que
estão na base de di!ersos fen1menos sociais, inclusi!e da !iolência criminal$
* !iolência estrutural abran"e, portanto, aquelas modalidades de !iolência
socioecon1mica, de "énero, de LraçaL ou étnica, subterrDneas, estruturadas por e
estruturantes das relações sociais quotidianas: bairros sociais que oferecem más
condições de !ida e propiciam a mar"inali)ação dos seus habitantes, transportes p#blicos
lotados e mal or"ani)ados, falta de empre"os ou empre"os precários, anonimato e
isolamento, são s1 al"uns exemplos de situações ,!iolentas- e !i!enciadas como
!iolência, que resultam em pessoas stressadas, desesperadas e mar"inali)adas e que
perdem o seu sentido de humanidade num mundo que não as acolhe, não as !alori)a, nem
as promo!e$ Elas são !timas da !iolência estrutural$
=uando começaremos a ter consciência de que o nosso modo de !ida também pode
produ)ir discriminação e ,!iolentar- o espaço !ital dos outros4
=ue ?no!as@ formas de ,ser solidário- podemos adoptar para combater a !iolência
estrutural e passar do medo do outro ao medo pelo outro4
Violência estrutural, ou a !iolência do poder
* !iolência estrutural é, normalmente, entendida como a que resulta do monop1lio le"al
do uso da força pelo Estado ?no sentido de sociedade poltica@, de acordo com a
sociolo"ia de 'ax Eeber ?9FGH&9I;J@$
'as a !iolência estrutural !ai muito além dessa sua dimensão institucional, expressa no
aparelho repressi!o estatal$ Ela di) respeito a aspectos como a concentração de
rendimentos e rique)a, a falta de acesso a direitos polticos e sociais ?como bens e
ser!iços@ para amplos se"mentos da sociedade, ao desempre"o estrutural, massi!o e
cr1nico & que atin"e, neste momento, em 8ortu"al, mais de 9JK da população acti!a &, >
distDncia que existe entre a 3ustiça e, mais uma !e), as mesmas classes ou camadas de
população mais fracas, empobrecidas e !timas de uma estrutura brutalmente desi"ual$
* produção de desi"ualdade é um ponto essencial e constituti!o da !iolência estrutural: a
nossa sociedade é uma LfábricaL produtora de m#ltiplas formas de desi"ualdades, que
estão na base de di!ersos fen1menos sociais, inclusi!e da !iolência criminal$
* !iolência estrutural abran"e, portanto, aquelas modalidades de !iolência
socioecon1mica, de "énero, de LraçaL ou étnica, subterrDneas, estruturadas por e
estruturantes das relações sociais quotidianas: bairros sociais que oferecem más
condições de !ida e propiciam a mar"inali)ação dos seus habitantes, transportes p#blicos
lotados e mal or"ani)ados, falta de empre"os ou empre"os precários, anonimato e
isolamento, são s1 al"uns exemplos de situações ,!iolentas- e !i!enciadas como
!iolência, que resultam em pessoas stressadas, desesperadas e mar"inali)adas e que
perdem o seu sentido de humanidade num mundo que não as acolhe, não as !alori)a, nem
as promo!e$ Elas são !timas da !iolência estrutural$
=uando começaremos a ter consciência de que o nosso modo de !ida também pode
produ)ir discriminação e ,!iolentar- o espaço !ital dos outros4
=ue ?no!as@ formas de ,ser solidário- podemos adoptar para combater a !iolência
estrutural e passar do medo do outro ao medo pelo outro4
* V/C<M.N/* ES%5O%O5*<


.atália Pelle +ias *lmeidaQ


'aria %here)a R!ila +antas NoelhoQQ


5esumo
C presente arti"o trata a problemática da !iolência estrutural que
atin"e, principalmente, su0eitos que !i!em a exclusão social e que se
encontram inábeis frente ao desamparo$ Noloca em foco de análise os
presidiários, que se encontram nesta situação de encarceramento muitas
!e)es por conseqSência da ,exclusão- e são, no!amente, !itimi)ados pela
!iolência estrutural confi"urada na or"ani)ação social dos presdios$ *
partir de uma re!isão dos estudos sobre o sofrimento que acomete os
presidiários pela pri!ação do poder de construção de no!as perspecti!as
de !ida, conclui&se que é imprescind!el pensar a construção de polticas
p#blicas de atenção > sa#de para a população carcerária, que
possibilitem no!as perspecti!as de !ida aos apenados$
8ala!ras&cha!es: Violência estrutural, desamparo, presidiários, sa#de
mental$


/ntrodução


C estudo de questões relati!as > !iolência e > criminalidade, no Trasil, tem sido
marcado pelas reflexões acerca da exclusão social e das relações sociais$ Em
nosso
cotidiano, a !iolência se manifesta de in#meras formas e, em al"uns casos, não
causa
reação de perplexidade nas pessoas, mas, sim, de conformidade$ * exclusão social
dos
indi!duos é uma das manifestações mais !iolentas de nossa sociedade, uma !e) que
produ) a carência de qualquer hori)onte de perspecti!as e uma ,pri!ação de poder
de ação e
representação- ?EanderleU, 9III@$
*o tomarmos como foco de atenção os indi!duos confinados em presdios,
reali)amos uma ampliação do tema e dos problemas sociais mencionados acima$ *s
prisões
brasileiras funcionam como mecanismos de oficiali)ação da exclusão, que paira sobre
os
detentos ?%a!ares e 'enandro, ;JJH@$ +i)emos isso não s1 considerando o estado
de
precariedade atual das prisões, mas também o estado de precariedade em que se
encontram
os indi!duos antes do encarceramento, em sua maioria pro!enientes de "rupos
marcados
pela !iolência social$ C sistema econBmico&poltico, que sempre produ)iu meios de
conser!ação da ordem p#blica ?e de classe@, atra!és da exploração econBmica e da
contenção da !iolência, redu) o fenBmeno da !iolência > esfera do in!is!el ou
do
exclusi!amente indi!idual, fa)endo&o crescer cada !e) mais$
* sociedade, com suas numerosas facetas, des!ela uma multiplicidade de dese0os,
pra)eres e persona"ens, quase nunca acess!eis > maioria da população brasileira$
.esse
frenesi que a economia neoliberal proporciona, em busca da felicidade !ia posse de bens,
os
0o!ens são os mais afetados$ C en!ol!imento 0u!enil em práticas !iolentas ou peri"osas
tem
sido al!o de pesquisas no mundo inteiro ?Valuar, 9IIG@$ .a *mérica <atina, o
en!ol!imento dessa população com o tráfico de dro"as ilcitas preocupa de forma
particular$
* desi"ualdade social em nosso pas é uma das maiores do mundo$ * par com a
exclusão social, ela marca o cotidiano dos 0o!ens que podem !er, nas práticas de risco,
uma
oportunidade para se sentirem includos no #nico mundo apresentado como dese0á!el,
ou
se0a, aquele dos pra)eres sem limite$ %ais práticas, por outro lado, remetem&nos,
ine!ita!elmente, ainda mais > ,mar"em-$
* hip1tese que apresentamos a partir da aborda"em da !ida de presidiários no
Trasil se"ue o se"uinte raciocnio: quando um indi!duo, !i!endo e sofrendo a
exclusão,
torna&se um infrator, as condições excludentes continuam intactas na or"ani)ação
social$
=uando ele se torna um presidiário, essas condições excludentes se fa)em
presentes,
também nas relações sociais tra!adas na instituição do encarceramento$ =uando ele
cumpre
sua pena e se torna um ex&presidiário, a sociedade > qual ele de!erá retornar ainda
mantém
as suas condições excludentes intactas$ *ssim, a prisão, nas atuais condições
socioeconBmicas brasileiras, até pode mudar
al"uma coisa no indi!duo que nela !i!e, mas não altera a perspecti!a com a qual o
detendo
con!i!e, de modo que as condições sociais do seu passado estarão no!amente presentes
no
seu futuro$ Cu se0a, a !iolência estrutural que permeia as relações sociais, se
apresenta
também nas instituições penais, estando sempre presente na !ida dos su0eitos que !i!em
a
!iolência da exclusão social$


* !iolência estrutural


Em uma discussão que pretende abran"er reflexões acerca da !iolência, é necessário
compreender que este fenBmeno pode se manifestar de di!ersas maneiras, sendo
distribuda
desi"ualmente, assumindo diferentes papéis sociais e possuindo caráter re!elador de
estruturas de dominação ?.eto e 'oreira, 9III@$ * concepção delinqSencial da
!iolência,
incutida no entendimento do senso comum, precisa ser superada com a ampla
di!ul"ação
da delinqSência como uma das manifestações da !iolência, e não como a #nica ?'inaUo e
Sou)a, 9IIF@$
.essa perspecti!a, s1 se pode falar de ,!iolências-, o que denota uma
pluricausalidade$ Nomo caractersticas relacionadas ao sur"imento e manutenção da
!iolência, de!em ser considerados fatores psicol1"icos, sociais, econBmicos,
culturais e
biol1"icos$ Nomo su"ere 'arx ?9IFW@, o conte#do das caractersticas sociais do
humano
está constitudo por um substrato biol1"ico&indi!idual e por componentes
formadores de
sua ima"em psquica, a partir de certos modelos de conduta internos, inatos e
adquiridos$
%al posição está paltada na relação dialética entre indi!duo e sociedade, como
afirmam
'arx e En"els ?9IFI@: ,C homem desen!ol!erá sua !erdadeira nature)a no seio
da
sociedade e somente aliX ra)ão pela qual de!emos medir o poder de sua nature)a não pelo
poder do indi!duo concreto, mas pelo poder da sociedade-$
C ser humano, enquanto unidade dialética, sinteti)a em seus componentes psquicos
e emocionais as representações que elabora do mundo, das relações estabelecidas e
de si
mesmo, enquanto ser corp1reo e su0eito social ?'inaUo e Sou)a, 9IIF@$ .essa
perspecti!a, é poss!el compreender que não se pode redu)ir a !iolência ao crime e >
delinqSência, nem
desi"nar um substrato indi!idual para sua existência, pois o fenBmeno da !iolência é
um
produto da hist1ria ?En"els, 9IW;@$ +e!e&se, em sua análise, le!ar em conta as
relações
s1cio&econBmicas, polticas e culturais especficas, cabendo diferenciá&la no tempo
e no
espaço$ Sendo assim, toda !iolência social tem caráter re!elador de estruturas de
dominação e sur"e como expressão de contradições entre os que querem manter
pri!ilé"ios
e os que se rebelam contra a opressão ?'inaUo e Sou)a, 9IIF@$
Sob esse olhar é poss!el inferir o conceito de !iolência estrutural, definido por
'inaUo ?9IIH@ como ,!iolência "erada por estruturas or"ani)adas e
institucionali)adas,
naturali)ada e oculta em estruturas sociais, que se expressa na in0ustiça e na exploração e
que condu) > opressão dos indi!duos-$ %al !iolência é infli"ida por instituições
clássicas
da sociedade e expressa, sobretudo, os esquemas de dominação de classe, de "rupos e do
Estado ?.eto e 'oreira, 9III@$ Se"undo Touldin" apud 'inaUo e Sou)a ?9IIF@:

,C conceito de !iolência estrutural se aplica tanto >s estruturas or"ani)adas e
institucionali)adas da famlia como aos sistemas econBmicos, culturais e polticos
que condu)em > opressão determinadas pessoas a quem se ne"am !anta"ens da
sociedade, tornando&as mais !ulnerá!eis ao sofrimento e > morte-$

Esta forma de !iolência é na !erdade o prot1tipo de todas as outras confi"urações da
!iolência e, 0ustamente por ser exercida nas ações diárias de instituições consa"radas
por
sua tradição e poder, na maioria das !e)es não é contestada$ C senso comum nem che"a a
compreendê&la como uma manifestação de !iolência, mas sim como pura e
simples
incompetência de "o!ernantes e responsá!eis ?.eto e 'oreira, 9III@$ .uma sociedade
de
democracia aparente, que é o locos da !iolência estrutural, subsiste a promessa de
i"ualdade no acesso aos direitos ?'inaUo, 9IIH@$ Em determinados momentos,
certos
interesses das classes exploradas são satisfeitos com a intenção de fa)ê&las crer que
estão
atin"indo seus direitos e de arrefecer seus Dnimos exaltados$ +essa forma, mantém&
se a
alienação dos indi!duos frente >s !iolências a que são diariamente e
estruturalmente
submetidos$ 'esmo sem tal conscienti)ação, ou exatamente por isto, os su0eitos
sociais
sofrem os efeitos dessa !iolência estrutural a partir dos mecanismos pelos quais o Estado,
em seus diferentes n!eis e poderes, restrin"e o acesso da "rande maioria da população
aos direitos básicos que lhes proporcionariam uma !ida di"na, "erando assim um "ra!e
quadro
de exclusão social$
*o fa)er uma análise hist1rica sobre a estruturação social, é poss!el !erificar que,
durante a marcha do processo hist1rico, a luta entre classes, que é o motor da hist1ria,
tem
como pano de fundo a questão dos direitos do cidadão$ Nom a confi"uração da sociedade
capitalista, ao incorporar os trabalhadores, mesmo que de forma obtusa, >s relações
de
produção e apropriação de capital, há uma ampliação das atribuições conferidas
aos
"o!ernos, sob a forma de Estado, que !ão sendo obri"ados a incluir, em seu rol
de
preocupações, polticas p#blicas que asse"urem as condições mnimas de existência
e
reprodução de seus trabalhadores, incluindo participação poltica e "arantia de
direitos
?.eto e 'oreira, 9III@$
Em nossa sociedade, as relações que produ)em e ori"inam a !iolência estrutural são
representadas pelo mercado e pela oposição dialética entre capital e trabalho, que tendem
a
serem reprodu)idas no aparelho do Estado, or"ani)ando&as de acordo com suas
prioridades$
Sob essa l1"ica, num Estado em que os "o!ernantes or"ani)am suas polticas p#blicas a
fim
de atender aos interesses do capital financeiro, a alocação de recursos para atender
>s
demandas da sociedade ci!il fica pre0udicada e restrin"ida$ *ssim, quem detém o poder
tem
maior probabilidade de obter mais da ação do Estado do que aqueles que dependem
dessas
ações para conse"uir o mnimo indispensá!el > sua sobre!i!ência$
* existência da !iolência estrutural, portanto, não é natural, mas sim hist1rica e
socialmente produ)ida$ Ela alimenta a ostentação de poucos com o sofrimento de muitos,
amplia as disparidades sociais, "era pobre)a, cerceia oportunidades e le"timos pro0etos
de
!ida, ,inibe a escolha racional, fa!orecendo a escolha constran"ida: mendicDncia,
tráfico,
delinqSência$ Yomenta preconceitos e causa danos morais, psicol1"icos, fsicos e
até a
morte- ?.eto e 'oreira, 9III@$


C desamparo

Sobre tal apresentação da realidade social, a referência de Yreud ?9I7J@ em ,C mal&
estar na ci!ili)ação- se fa) pertinente, quando introdu) em sua obra a idéia da
substituição
da certe)a do pro"resso futuro, a ser alcançado com a e!olução da ci!ili)ação,
por uma
ima"em trá"ica de "uerra aberta e interminá!el$ Cu se0a, ,as promessas da
modernidade
teriam resultado em nada, pois apesar dos a!anços da ciência moderna,
encontramo&nos
diante de um caos social- ?<eite, ;JJ;@$ /sso caracteri)a a defla"ração de uma
crise,
fundamentalmente dos ideais, tra)endo como conseqSência o ?re@ encontro do homem
com
o seu desamparo, diante de uma realidade que constantemente lhe escapa$
.a tese do desamparo humano, Yreud ?9I7J@ fundamenta&se na idéia de que o
su0eito precisa criar a ilusão de alcançar a comunhão com o cosmos, inscrita na sensação
do
,sentimento oceDnico-, para e!itar a experiência de desamparo, uma espécie de
saudosismo
da se"urança paterna ima"inária$ %al análise indica a impossibilidade da harmonia entre
os
interesses do su0eito e os da ci!ili)ação ?sociedade@, o que fundamenta o desamparo como
condição de existência$ 6 atra!és das relações sociais mediadas pela !iolência que
esse
desamparo é le"itimado pelas instituições p#blicas, pri!adas e pelo Estado, tomando
forma
particular na contemporaneidade$ Cs su0eitos encontram&se > pr1pria sorte, sendo a
pobre)a
e a exclusão basicamente os principais determinantes da existência$
Em sua confi"uração atual, a sociedade permite, e até mesmo promo!e, o
acontecimento de uma certa falência das utopias e uma morte dos ideais$ %ransportando
a
idéia de desilusão de Yreud ?9I9:@ para uma análise da sociedade contemporDnea,
podemos
considerar que a defla"ração de uma crise social, caracteri)ada pela ma"nitude das
manifestações da !iolência estrutural e pela in!ersão de !alores, que consiste na
priori)ação
exacerbada das satisfações indi!iduais em detrimento das coleti!as, pro!oca a
desilusão
atual$
Essa condição é alimentada pela existência de um paradoxo trá"ico, que consiste em
saber que ,não há nada a esperar da modernidade para sal!á&la, mas mesmo
assim é
necessário esperar- ?Zer)o" e Yarah, ;JJ:@$ +eixar de esperar resulta em
indiferença e
resi"nação e também pode resultar em desesperança$ Entendemos, a partir da afirmação
de
Yreud ?9I7J@, que cada pessoa precisa aprender a pr1pria maneira de lidar com o
desamparo intrnseco ao humano, que os su0eitos têm possibilidades de reação a
esta
condição$ 8orém, le!ando em consideração as manifestações da !iolência estrutural
e os seus efeitos na !ida dos su0eitos, a possibilidade de escolha ou até mesmo da
existência de
alternati!as para o enfrentamento de tal situação é cruelmente restrita$


* realidade carcerária


.os meios de comunicação, a penitenciária tem sido al!o de constantes discussões
nos #ltimos anos, sobretudo no tocante > superpopulação e > ineficiência, que se
apresentam como problemas aparentemente insol#!eis, tal sua lon"e!idade$ *
indi"nação
0ornalstica e popular freqSentemente "ira em torno das rebeliões e das fu"as, ocasiões
nas
quais sempre se discute o absurdo n#mero de criminosos distribudo no sistema
carcerário
brasileiro$ * !iolência é, ho0e, muito !is!el e percebida como problema social ?%a!ares e
'enandro, ;JJH@$
Cs meios de comunicação apresentam > população o risco a qual está su0eita, uma
!e) que a instituição prisional não cumpre efica)mente seu dese0ado papel de formar
um
cordão de isolamento em torno das ,anomalias- sociais$ Em consonDncia, o que se
espera
das autoridades responsá!eis é que implementem um con0unto de estabelecimentos
carcerários com dispositi!os fsicos, materiais e recursos humanos suficientes para calar
ou
tornar in!is!el a massa carcerária, consumindo o mnimo poss!el de !erba p#blica$
%al perspecti!a foi mostrada por %hompson ?9IWG@, quando afirmou que o fato de
um ex&presidiário tornar a cometer atos criminosos é, em "eral, !isto com
naturalidade,
pois, da prisão, exi"e&se apenas que mantenha seus internos lon"e da sociedade$ Esse
fato
mencionado tal!e) se0a !isto até com certa satisfação, 0á que reforça a percepção
compartilhada por muitas pessoas de que nada há a se fa)er com os ,bandidos- a não ser
mantê&los trancafiados ?sem muita preocupação com as condições de encarceramento@
ou
exterminá&los$
*inda sobre a pena de pri!ação da liberdade, Yra"oso ?9IWW@ menciona que o
+ireito, assim como qualquer outro mecanismo de controle social, é "o!ernado
por
preconceitos e estere1tipos socialmente produ)idos$ /sso implica uma ,seleção-
daqueles sobre os quais recairá a aplicação do +ireito 8enal, não constituindo a
população carcerária
uma amostra representati!a do con0unto total dos infratores$ Cs su0eitos sociais, que
sofrem
a !iolência estrutural, são !timas de uma exclusão que os torna ainda mais !ulnerá!eis >s
penalidades 0urdicas$
* or"ani)ação social dos presdios está pautada em relações sociais limtrofes de
seres humanos submetidos a um re"ime de controle ?%a!ares e 'enandro, ;JJH@$
Se"undo
Nastro ?9II9@, o sistema social da instituição penal encarre"a&se de incluir o
apenado,
desde sua che"ada, na mais baixa posição social$ C prisioneiro empenha&se em
escolher
estraté"ias de sobre!i!ência e, na maior parte das !e)es, aceita um papel inferior,
buscando
!anta"ens e e!itando punições$ Noncordando com %a!ares e 'enandro ?;JJH@,
podemos
pensar que a entrada na prisão s1 piora a situação do indi!duo, pois ele carre"ará, além
dos
problemas inerentes > condição de pobre)a, o esti"ma de criminoso, o que dificulta ainda
mais a sua inserção no mercado de trabalho e a probabilidade de desfrutar dos
direitos
estabelecidos aos cidadãos pelo Estado$
8ortanto, as instituições de execução penal corrompem e despreparam os indi!duos
para a !ida li!re, além de não operarem como instrumento intimidati!o de crimes$ C
que,
de fato, proporcionam é a punição, que será pro!a!elmente eterna, !isto que o condenado
estará sempre pronto a pa"ar mais penitencias, por conta das feridas e dos
esti"mas
deixados em sua !ida social e pessoal ?Nastro, 9II9@$
6 necessário frisar que o que acontece ao apenado fora e dentro de uma prisão não é
um fato relacionado somente com as condições de funcionamento da prisão$ Nomo
menciona %a!ares e 'enandro ?;JJH@, isso se relaciona, também, com as condições
sociais,
econBmicas, culturais, familiares e escolares que produ)iram os prota"onistas das
infrações
e que os le!aram ao encarceramento$ 5elaciona&se ainda com as polticas p#blicas li"adas
>
se"urança, educação e assistência >s famlias e, estruturalmente, >s implicações
sociais e
econBmicas do sistema capitalista$ * maioria dos brasileiros encarcerados sofreu a
!iolência estrutural da exclusão social, partilhando o mesmo con0unto de ma)elas e de
falta
de perspecti!as, sem poder de ação e representação$ %al situação re!ela a
!erdadeira
dialética da exclusão[inclusão, 0á que a exclusão é um processo sutil que en!ol!e o
homem
em suas relações com os outros ?Sa\aia, 9III@$
Nonclusão


.ão resta d#!ida, como lembra 8acheco ?;JJ:@, de que o processo de
encarceramento, para qualquer ser humano, mostra&se como uma experiência catastr1fica$
C discurso de que a prisão, no lu"ar de promo!er a reinserção social, promo!e a
de"radação do su0eito humano, e de que a !ida encarcerada acarreta uma
!erdadeira
desor"ani)ação da personalidade do su0eito preso, torna&se ho0e em dia tema de
discussão
diária, de extrema rele!Dncia, principalmente quando se trata de polticas p#blicas
de
atenção > sa#de ?considerando a esfera psquica como intrnseca > sa#de@ e de
participação
social$
8retendemos, neste trabalho, atrair a atenção para o problema estrutural da condição
de abandono e descaso a qual os presidiários estão submetidos, considerando a
!iolência
estrutural que parece anteceder a entrada na prisão$ Eles 0á !i!iam antes com
pouca ou
nenhuma perspecti!a de !ida e esta!am, mesmo em liberdade, sem lu"ar na sociedade,
a
não ser o de excludo$ /sso mostra que é fundamental humani)ar o crime, no
sentido de
fa)er entender que é um ato humano intrinsecamente li"ado >s relações sociais
construdas
pela sociedade ?Sequeira, ;JJG@$ 8or esse caminho, pode&se abrir mão de estere1tipos que
e!itam pensar como as condições sociais nas quais !i!emos contribuem para o crime$
* partir da análise de que o crime é fruto de um contexto e se atuali)a no cotidiano
social ?8io, ;JJG@, de que o encarceramento, da forma como ele acontece em
nossa
sociedade, é um ato !iolento ?%a!ares e 'enadro, ;JJH@ e da esti"mati)ação
?(offman,
9IIJ@ que assola principalmente os su0eitos sociais 0á infrin"idos pela !iolência
estrutural
que marca nossa sociedade ?'inaUo, 9IIH@, é imprescind!el pensar a sa#de mental
do
presidiário$ *lterar esse uni!erso prisional polissêmico, marcado pelo controle social e
pelo
es!a)iamento simb1lico de seus membros, remetendo, muitas !e)es, a um
!erdadeiro
desmoronamento em termos de representação, demonstra ser uma tarefa árdua e,
muitas
!e)es, fadada ao fracasso, como se tem percebido ao lon"o da hist1ria ?8acheco, ;JJ:@$

8ara tanto consideramos necessárias polticas p#blicas de atenção > sa#de
para a população carcerária, que não se restrin0am a pareceres ou a aborda"ens
terapêuticas indi!iduais, mas que proporcionem ações que promo!am a sa#de mental
desses su0eitos,
com ações humani)adoras de suas relações$ Nonsiderando o profissional de psicolo"ia,
é
necessário direcionar seu olhar e sua escuta aos conflitos sub0acentes aos discursos
manifestos, tanto pelo su0eito preso quanto pelos demais operadores 0urdicos em
ação,
fa)endo com que as suas inter!enções possam constituir&se como possibilidade de
alteração
de sentidos, que !iriam a produ)ir um outro discurso mais criati!o e libertador do que o
que
até então se produ)iu$ 6 necessário ainda aproximar essa discussão da sociedade, para
que
ha0a um entendimento da situação dos presidiários, possibilitando, assim, que
se0am
repensadas as formas de punição dos infratores$


5eferências Tiblio"ráficas


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Q
Estudante do curso de 8sicolo"ia da Onifacs, bolsista de iniciação cientfica do N.8q$
Q
Q 8rofessora e pesquisadora do curso de 8sicolo"ia da Onifacs$