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2 - CONDIÇÕES HISTÓRICAS PARA O SURGIMENTO DA FILOSOFIA

Esclarecida a relação entre filosofia e mito, temos ainda duas questoes a elucidar: o que
tornou possivel o surgimento da filosofia na Grécia no final do século VII eno inicio do século VI
a.C? quais as condições materiais, isto é, economicas, sociais, políticas e históricas que
permitiram o surgimento da filosofia?
Podemos apontar como principais condiçoes históricas para o surgimento da filosofia na
Grécia:
1) As viagens marítimas: que permitiram aos gregos descobrir que os locais que os mitos
diziam habitados por deuses, titãs e herois eram, na verdade, habitados por outros seres
humanos; e que as regiões dos mares que os mitos diziam habitados por monstros e seres
fabulosos não possuiam nem monstros nem seres fabulosos. As viagens produziram o
desencantamento ou a desmitificação do mundo, que passou, assim, a exigir uma explicação
sobre a origem, explicação que o mito já não podeia oferecer;
2) A invenção do calendário: que é uma forma de calcular o tempo segundo as estaçoes do
ano, as horas do dia, os fatos importantes que se repetem, revelando, com isso, uma
capacidade de abstração nova ou uma percepçao do tempo como algo natural e não como
uma força divina incompreensível.
3) A invenção da moeda: que permitiu uma forma de troca que não se realiza como
escambo ou em espécie (isto é, coisas trocadas por outras coisas) e sim uma troca abstrata,
uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto,
uma nova capacidade de abstração e de generalização;
4) O surgimento da vida urbana: com predominio do comércio e do artesanato, dando
desenvolvimento a técnicas de fabricação e de troca, e diminuindo o prestígio das famílias
aristocráticas proprietárias de terras, por quem e para quem os mitos foram criados; além
disso, o surgimento de uma classe de comerciantes ricos, que precisava encontrar pontos de
poder e de prestígio para suplantar o velho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as
linhagens constituidas pelas famílias), fez com que essa nova classe social procurasse o
prestígio pelo patrocínio e estímulo às artes, às técnicas e aos conheicmentos, favorecendo
uma ambiente onde a filosofia poderia surgir;
5) A invenção da escrita alfabética: que, com a do calendário e da moeda, revela o
crescimento da capacidade de abstraçao e de generalização, uma vez que a escrita alfabética
ou fonética, diferentemente de outras escritas – como, por exemplo, os hieróglifos dos
egípcios ou os ideogramas dos chineses - , supõe que não se represente uma imagem da coisa
que está sendo dita, e sim se oferecá um sinal ou signo abstrato (uma palavra) dela. Além
disso, enquanto nas outras escritas, para cada sinal corresponde uma coisa ou ideia, na escrita
alfabética ou fonética as letras sao independentes e podem ser combinadas de formas
variadas em palavras e estas podem ser distribuidas de formas variadas para exprimir ideias.
Ou seja, nas outras escritas, o signo representa a coisa assinalada, enquanto na escrita
alfabética a palavra designa uma coisa e exprime uma ideia. Nas outras escritas, há a tendência
a sacralizar os sinais e os signos, ou a lhes dar um caráter mágico, enquanto a escrita alfabética
é inteiramente leiga abstrata, racional e usada por todos;
6) A invenção da Política: que introduz três aspectos novos e decisivos para o nascimento da
filosofia:
a) A ideia da lei como expressao da vontade de uma coletividade humana que decide por si
mesma o que é melhor para si e como ela definirá suas relações internas. O aspecto legislado e
regulado da cidade – da polis – servirá de modelo para a filosofia propor o aspecto legislado,
regulado e ordenado do mundo como um mundo racional.
b) O surgimento de uma espaço político, que faz aparecer um novo tipo de palavra ou de
discurso, diferente daquele que era proferido pelo mito. Neste, um poeta-vidente, que recebia
das deusas ligadas à memória (a deusa