Silviano Santiago

Ponto de partida de Silviano Santiago
• Quem narra uma história é quem a experimenta, ou quem a vê?
1- vivência -> autenticidade
2- informação –> a autenticidade é discutível
“Só é autêntico o que eu narro a partir do que experimento, ou pode
ser autêntico o que eu narro e conheço por ter observado?” (p. 44)
“Será sempre o saber humano decorrência da experiência concreta de
uma ação, ou o saber poderá existir de uma forma exterior a essa
experiência concreta de uma ação?” (p. 44-45)
Primeira hipótese de S. Santiago
“o narrador pós-moderno é aquele que quer extrair a si da ação
narrada, em atitude semelhante à de um repórter ou de um
espectador. Ele narra a ação enquanto espetáculo a que assiste
(literalmente ou não) da plateia, da arquibancada ou de uma poltrona
na sala de estar ou na biblioteca; ele não narra enquanto atuante. “ (p.
45 – destaque meu)
Movimento de rechaço e distanciamento!
Benjamin (de novo)
“Para Benjamin os seres humanos estão se privando hoje da "faculdade
de intercambiar experiência“” (p. 45)
3 estágios por que passa o narrador, segundo Benjamin:
- Narrador clássico – transmite a vida/experiência
- Narrador do romance – objetiva a experiência, mas se trai (caso
Flaubert)
- Narrador jornalista
resumindo...
“Retomemos: a coisa narrada é mergulhada na vida do
narrador e dali retirada; a coisa narrada é vista com
objetividade pelo narrador, embora este confesse tê-la
extraído da sua vivência; a coisa narrada existe como
puro em si, ela é informação, exterior à vida do
narrador.” (p.46)
Segunda hipótese de Santiago
“o narrador pós-moderno é o que transmite uma "sabedoria" que é
decorrência da observação de uma vivência alheia a ele, visto que a
ação que narra não foi tecida na substância viva da sua existência.” (p.
46)
É, assim, o puro ficcionista, “pois tem de dar "autenticidade" a uma
ação que, por não ter o respaldo da vivência, estaria desprovida de
autenticidade.” (p. 46)
Autenticidade -> verossimilhança
“O narrador pós-moderno sabe que o
"real" e o "autêntico" são construções de
linguagem.” (p. 47)
Para WB, a narrativa clássica é plena, tem
perenidade; enquanto que a narrativa
contemporânea é incompleta, menos bela, mais
problemática.
Contos de Edilberto Coutinho
Citemos como exemplo o conto "Mangas-de-
jasmim" (justamente apreciado por Jorge Amado): Ele foge
ao narrar pós-moderno e se aproxima da narrativa que
reescreve as tradições de uma comunidade, podendo ser
classificado como narrativa de "reminiscência", como quer
Benjamin, e que foi típica do modernismo (Mário de Andrade,
José Lins, Guimarães Rosa, etc.). A reminiscência é que "tece
a rede que em última instância todas as histórias constituem
entre si". (p.48)
Angelus Novus, de Klee
Em sua nona tese no ensaio “Teses Sobre o
Conceito de História,” Benjamin diz:
“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um
anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.
Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O
anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o
passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma
catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as
dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos
e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e
prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-
las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual
ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu.
Essa tempestade é o que chamamos progresso”
Tempestade do progresso
Compreender o que é problemático na atualidade
– história do voo humano na tempestade
progresso.
Desprestígio das formas romanescas e
favorecimento do conto
“Reportagem ou conto? Os dois certamente. (...) No universo de
Hemingway (conforme o conto) e no de Edilberto (de acordo com a
característica da produção) se impõem um desprestígio das chamadas
formas romanescas (as que, no conto, seriam defendidas por Gertrudes
Stein) e um favorecimento das técnicas jornalísticas do narrar; ou melhor,
impõe-se a atitude jornalística do narrador diante do personagem, do
assunto e do texto. Está ali o narrador para informar o seu leitor do que
acontece na plaza. Essa reviravolta estética não é sem consequência para o
tópico que queremos discutir, visto que a figura do narrador passa ser
basicamente a de quem se interessa pelo outro (e não por si) e se afirma
pelo olhar que lança ao seu redor, acompanhando seres, fatos e incidentes
(e não por um olhar introspectivo que cata experiências vividas no
passado).” (p. 49-50)
Falar ao outro e indiretamente a si mesmo!
Então...
“Por que este não narra as coisas como sendo suas, ou seja, a partir da
sua própria experiência?” (p.50)
A própria arte de narrar em questão
“surge a pergunta já anunciada anteriormente e
estrategicamente abandonada: por que o narrador não
narra sua experiência de vida?” (p. 51)
Pacto com o leitor
“O narrador se subtrai da ação narrada (há graus de
intensidade na subtração, como veremos ao ler "A lugar
algum") e, ao fazê-lo, cria um espaço para a ficção dramatizar
a experiência de alguém que é observado e muitas vezes
desprovido de palavra. Subtraindo-se à ação narrada pelo
conto, o narrador identifica-se com um segundo observador -
o leitor.” (p.51)
“A narrativa pode expressar uma "sabedoria", mas esta
não advém do narrador: é depreendida da ação
daquele que é observado e não consegue mais narrar -
o jovem. A sabedoria apresenta-se, pois, de modo
invertido. Há uma desvalorização da ação em si.” (p.52)
“A vivência do mais experiente é de pouca valia. Primeira constatação:
a ação pós-moderna é jovem, inexperiente, exclusiva e privada da
palavra - por isso tudo é que não pode ser dada como sendo do
narrador. Este observa uma ação que é, ao mesmo tempo,
incomodamente auto-suficiente. O jovem pode acertar errando, ou
errar acertando. De nada vale o paternalismo responsável no
direcionamento da conduta. A não ser que o paternalismo se prive de
palavras de conselho e seja um longo deslizar silencioso e amoroso
pelas alamedas do olhar.” (p. 53-54)
incomunicabilidade
- Entre gerações
- A história não é mais vislumbrada como tecendo um continuidade
- Fragmentação das narrativas
O problema pós-moderno
“De que valem as glórias épicas da narrativa de
um velho diante do ardor lírico da experiência do
mais jovem? - eis o problema pós-moderno.”
(p.55)
Narrador pós-moderno x narrador
memorialista
Narrador pós-moderno Narrador memorialista
Narrador niilista Narrador experiente que assume uma
postura vencedora
Primado do agora Primado do passado no presente
comunicação
“A literatura pós-moderna existe para falar da pobreza da
experiência, dissemos, mas também da pobreza da palavra
escrita enquanto processo de comunicação. Trata, portanto,
de um diálogo de surdos e mudos, já que o que realmente
vale na relação a dois estabelecida pelo olhar é uma corrente
de energia, vital (grifemos: vital), silenciosa, prazerosa e
secreta.” (p. 56-57)
Olhar
Olha-se para dar razão a finalidade.
P. 58
“Há - não tenhamos dúvida - espetáculo e espetáculo, continua o jovem iconoclasta. Há
um olhar camuflado na escrita sobre o narrador de Benjamin que merece ser revelado e
que se assemelha ao olhar que estamos descrevendo, só que os movimentos dos olhares
são inversos. O olhar no raciocínio de Benjamin caminha para o leito da morte, o luto, o
sofrimento, a lágrima, e assim por diante, com todas as variantes do ascetismo socrático.”
“O olhar pós-moderno (em nada camuflado, apenas enigmático) olha nos olhos do
sol. Volta-se para a luz, o prazer, a alegria, o riso, e assim por diante, com todas as
variantes do hedonismo dionisíaco. O espetáculo da vida hoje se contrapõe ao espetáculo
da morte ontem. Olha-se um corpo em vida, energia e potencial de uma experiência
impossível de ser fechada na sua totalidade mortal, porque ela se abre no agora em mil
possibilidades. Todos os caminhos o caminho. O corpo que olha prazeroso (já dissemos),
olha prazeroso um outro corpo prazeroso (acrescentemos) em ação.”
A morte/pós-moderno
“Num conto pós-moderno, morte e amor se encontram no meio da
ponte da vida. A única pergunta que faz o narrador de "Ocorrência na
ponte", diante da imagem da morte, "uma dama feia e triste, da cor da
lama", a única pergunta que lhe faz: "Era possível reinventar a vida para
o rio ou para ela?" A resposta é também única: pelo desejo se
reinventa a vida na morte. E naquele rosto de mulher, depois da
cópula, depois da morte, exprimia-se, diz-nos o narrador, "qualquer
coisa como uma absurda esperança".” (p. 58-59)
O olhar humano pós-moderno
“O olhar humano pós-moderno é desejo e palavra que
caminham pela imobilidade, vontade que admira e se retrai
inútil, atração por um corpo que, no entanto, se sente alheio à
atração, energia própria que se alimenta vicariamente de
fonte alheia. Ele é o resultado crítico da maioria das nossas
horas de vida cotidiana.” (p.59)
Palavra escrita...
“Para testemunhar do olhar e da sua experiência
é que ainda sobrevive a palavra escrita na
sociedade pós-industrial.” (p. 60)
1986