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Numa altura onde as notícias estão por todo o lado, o jornalismo não pode somar-se ao ruído de fundo

Jornalismo: ruído de fundo ou sinal?

Q

uando comecei a fazer jornalismo considerava-se que as notícias eram a parte mais nobre do trabalho do jornalista. Fazer entrevistas ou escrever crónicas podia ser interessante, mas considerava-se que eram as notícias – o relato de novos acontecimentos – que permitiam cumprir a responsabilidade central do jornalismo, pois eram elas que permitiam que os leitores criassem a sua visão das coisas e das pessoas e consolidassem as suas opiniões. Esta ideia fazia sentido num mundo onde os media constituíam a única forma de comunicar globalmente com a sociedade. Há vinte anos, uma empresa que quisesse lançar um produto, um partido que quisesse lançar um candidato ou um académico que quisesse difundir uma nova tese tinham forçosamente de passar pela mediação dos media (passe a redundância) e – se o que se pretendia era credibilização –, em particular, pelo jornalismo. É claro que havia outras possibilidades de difusão – podia-se distribuir panfletos na rua, fazer outdoors, campanhas porta a porta, discursos nas esquinas –, mas a regra tinha de ser o recurso aos media, sob a forma de publicidade ou de informação. Esta ideia, porém, hoje deixou de fazer sentido. Depois de termos andado anos a dizer que, com a Inter-

net, qualquer pessoa podia ser editor ou jornalista, chegámos a uma época onde é evidente para todos que essa era já chegou. Enquanto, há vinte anos, uma qualquer entidade que quisesse comunicar algo ao público fazia um comunicado de imprensa que enviava para vinte jornalistas, na esperança de que algum o achasse digno de notícia, hoje a mesma entidade pode publicar no seu site na Internet a mesma informação. É verdade que a esmagadora maioria passa despercebido, mas o mesmo acontecia à esmagadora maioria dos comunicados de imprensa. E há muitos que recebem a atenção de milhares ou mesmo milhões de leitores. A verdade é que há milhões de pessoas que querem manter-se informadas e que escolhem, a par dos media, sites institucionais para o fazer – seja o site da Apple, o do PSD, o do Benfica, o da Comissão Europeia ou o da Amnistia Internacional. Por outro lado, devido ao escrutínio crescente e global a que estas informações de origem institucional são submetidas, a sua qualidade melhorou enormemente. Os documentos ocos, de cariz propagandístico, recheados de mentiras e falsas promessas, são hoje, mais do que ontem, um risco para as instituições que os emitem. O público que os consulta é mais exigente

José Vítor Malheiros

e tem ferramentas para mostrar o seu desagrado. O que isto significa é que as notícias, ontem a parte mais nobre do trabalho do jornalista e o seu monopólio natural, deixaram de ser tanto uma coisa como outra. O que é espantoso é que quase toda a gente reconhece este estado de coisas, mas poucos ou nenhuns órgãos de comunicação social extraem daqui conclusões e continuam a tentar combater no domínio da pura notícia – onde a esmagadora maioria pouco mais faz do que repetir as fontes oficiais sob outro cabeçalho. O jornalismo que se exige numa altura onde as notícias estão por todo o lado e são produzidos por todas as pessoas e todas as entidades não é um jornalismo que se soma ao ruído de fundo, mas um jornalismo que ajuda a distinguir no meio do ruído de fundo o que é relevante, que torna explícito o que é obscuro e que desmonta as mentiras oficiais que se escondem por trás dos factos ocorridos. É um jornalismo de investigação e de denúncia, de rigor e de perseverança, que exige investimento em tempo e em competências, um inabalável sentido cívico, a coragem de ser incómodo e uma feroz independência perante todos os poderes e todos os interesses. Infelizmente, é esse jornalismo que cada vez escasseia mais. (jvmalheiros@gmail.com)

"Público" 03 Nov 09