PERFIL BIOGRÁFICO

Nazareno Tourinho, que ainda é autor de uma obra didática editada pela IBRASA, de São
Paulo, na coleção Livros que Constroem (Chefia, Liderança e Relações Humanas) e de outra com
poesia de crítica social dada a lume pela Prefeitura Municipal de Belém em 2004 (Versos para
Pobres e Oprimidos), nasceu em Belém no dia 06 de dezembro de 1934, filho do bombeiro
Aristóbulo da Costa Tourinho com Jarina Bastos Tourinho. Foi aprendiz de marceneiro, cobrador
de ônibus, balconista de loja de ferragens, marítimo, professor autodidata de cursos livres e
jornalista profissional. Seu nome completo é Nazareno Bastos Tourinho. Casado com a funcionária
federal Miryam Zagury Tourinho, possui três filhos, todos já com livros de sua autoria publicados:
Helena Lúcia Zagury Tourinho, arquiteta, professora universitária com doutoramento, Emmanuel
Zagury Tourinho, psicólogo, também professor universitário doutorado e Tânia Regina Zagury
Tourinho, igualmente psicóloga, pós-graduada em administração recursos humanos.
Nazareno Tourinho conquistou diversas premiações em concursos de dramaturgia, uma delas
fora do Brasil: sua peça Pai Antônio obteve a primeira Mención del Concurso Latinoamericano de
Dramaturgia ―Andres Bello’ realizado em 1985 emCaracas, na Venezuela, pelo C.E.L.C.I.T.
(Centro Latinoamericano de Creacione e Inverstigación Teatral);
Foi citado em livro por gente importante como Zora Seljan, a esposa de Antônio Olinto, que
fez crítica de teatro e o colocou, na década de sessenta, ente os novos autores teatrais brasileiros, ao
lado de Ariano Suassuna, Dias Gomes e outros (volume Teatro Vivo, p.36 1, Ed. Fundo de Cultura
S.A., Rio de Janeiro, 1962); Teve peças de sua autoria encenadas por Companhias de teatro
profissionais, sob a direção de figuras de renome no cenário teatral brasileiro (Cláudio Correa e
Castro dirigiu a peça Nó de 4 Pernas no Rio de Janeiro e Wolff Maia dirigiu Fogo Cruel em Lua de
Mel, em São Paulo tendo no elenco Vic Militelo, a ―Dakinha‖ na novela Estúpido Cupido);
Foi consagrado em sua terra como escritor teatral, tendo sido eleito, com menos de trinta e
cinco anos, membro efetivo e perpétuo da Academia Paraense de Letras;
Pagou o preço da dignidade como escritor de arte cênica: na época da ditadura o ministro
Alfredo Buzaid proibiu a circulação em todo o território nacional do livro contendo sua peça Lei é
Lei e Está Acabado, mandando a polícia federal apreender os exemplares, fato noticiado em
manchete de primeira página do jornal O Liberal, de Belém do Pará, edição de 26/06/1971;
Teve 12 peças teatrais de sua autoria divulgadas em livro (5 pela UFPA, em volume de mais
de 400 páginas editado em 1976);
Teve uma peça — Nó de 4 Pernas — sua publicada pela Sociedade Brasileira de Autores
Teatrais — SBAT (Revista de Teatro, edição n° 457, janeiro/fevereiro/março de 1986) e pela
Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo (Caderno Teatro da Juventude, ano 2, n°
3, agosto de 1997);
Recebeu de instituições respeitáveis na capital paraense reconhecimento público pela
importância da sua obra dramática: o TAP — Instituto de Artes do Pará denominou Prêmio
Nazareno Tourinho, o prêmio de seu concurso literário anual; a TV CULTURA fez todo seu
programa REGATÃO CULTURAL do dia 14/04/2009 sobre as peças teatrais do autor em foco, e a
UNAMA tem no seu Projeto Memória um vídeo de uma hora de duração sobre a vida e obra de
Nazareno Tourinho;
Em 2010 o Primeiro Seminário de Dramaturgia Amazônica, organizado na ETDUFPA pela
Profa. Dra. Bene Martins – ação do Projeto de Pesquisa: Memória da dramaturgia amazônida:
construção de acervo dramatúrgico – escolheu Nazareno como autor homenageado;
Através do decreto n° 16 de 27/07/2012 a Assembleia Legislativa do Estado do Pará criou a
Comenda do Teatro Paraense Nazareno Tourinho.





Fogo Cruel em Lua de Mel

PRIMEIRO ATO

GIL, de camisa social e gravata desatada, mexe em uma maleta, no divã; para, examina o guarda-
roupa vazio onde somente o paletó aparece; coloca o rádio-eletrola em funcionamento com um disco
de música popular; começa então a retirar peças de homem da maleta e arrumá-las em uma das
filas de gavetas do guarda-roupa; durante esta operação tem o cuidado de esconder uma garrafa
embrulhada; quando acaba não resiste a tentação de olhar o conteúdo da outra maleta que se
encontra em cima da cama, semiaberta, mas, tão logo abre a tampa da mesma, ouve-se o ranger de
um trinco; ele afasta-se disfarçando. ELZA sai do banheiro ostentando uma camisola de cetim
branco, extremamente sóbria; seus gestos são retraídos e cerimoniosos.

ELZA
Enfim...
GIL
Em fim não, em começo...
ELZA
Estou bem?
GIL
Está linda, meu amor. Exuberante. Esplendorosa como diria Olavo Bilac...
ELZA
Obrigada. Pena é que nunca saiba quando fala sério ou quando faz troça. Você vive rindo,
Gil.
GIL
Até disso me acusa?
ELZA
Não estou acusando.
GIL
Nem pode, hein? A partir de hoje acabaram-se as "retaliações mútuas, só haverá lugar para
união e afeto". Foi você quem fez a proposta, tem de cumprir a sua parte.
ELZA
É claro que cumprirei.
GIL
Faço votos de que assim seja, "pelos séculos e séculos, amém"...
ELZA
(Repreensiva) Gil!
GIL
O que foi, eu disse algo errado?
ELZA
Nós combinamos que você terminaria, de uma vez por todas, com as suas indiretas à religião.
GIL
Eu pixei a tua religião.
ELZA
Esta expressão "pelos séculos e séculos, amém" é católica e você empregou por ironia.
GIL
Bobagem, eu nem pensei em catolicismo.
ELZA
A gente pode ser irônico sem ter consciência disso. É o seu caso, você é instintivamente
irônico, precisa superar esta tendência e isto me prometeu, fora outras coisas. Não esqueça
que, além de ter prometido solenemente — até jurou em nome de DEUS, apesar de ser ateu...
GIL
Naquele dia eu estava bêbado.
ELZA
Além de ter prometido solenemente levar avante um trabalho de reforma do seu caráter,
precisa mesmo disso para o seu próprio bem, inclusive para o bem da sua obra literária.
GIL
Elza, meu amor, espera aí, sinal fechado. Para espinafrar o meu caráter você tem competência,
mas de literatura não entende patavina. Aliás ficou acertado em nosso acordo que você
respeitaria os meus versos como eu vou respeitar as suas rezas; amor, amor, manias à parte...
ELZA
Notou uma coisa?
GIL
Notei que você está linda.
ELZA
E eu notei que até no dia de hoje estamos discutindo.
GIL
Discutindo não, papeando, dialogando. Comecei elogiando a tua beleza, você achou que eu
queria fazer troça, desviou ao assunto. Ponto final no mal entendido. Já bastam as sete
discussões por semana em cinco anos de namoro e quatro por dia em seis anos de noivado...
ELZA
Esta é outra característica da sua personalidade: gostar de discutir. No fundo. sabe o que é
isto? Necessidade de afirmação, necessidade de contradizer os outros para se mostrar
superior. Falta de maturidade, de amadurecimento do Ego.
GIL
Falta de amadurecimento, ou excesso de apodrecimento, quem tem é aquele teu professor.
Aquele cara ou é muito infantil ou já está gagá; é por isso que não embarco na canoa furada
da Psicologia de vocês. Imagina que hoje, depois de comer oito empadas e beber uns oitenta
copos de vinho, durante a recepção, ele quis me convencer de que o Diabo existe...
ELZA
Gil, você discutiu com o padre Florêncio???
GIL
Que jeito? Ele me encheu o saco...
ELZA
Gil, que termos são esses?!
GIL
Desculpa o "encheu o saco".
ELZA
Ainda repete.
GIL
Mas que ele foi um chato, foi. Está certo que na cerimônia da Igreja eu ouvisse com paciência
todo aquele sermão quadrado sobre Adão e Eva para justificar o casamento. Está certo. O
outro estava na função de padre, tinha o direito de doutrinar a moda da casa. O teu professor
porém não estava na função de padre, nem de batina estava, foi na recepção apenas para
comer empada e beber vinho...
ELZA
Que injustiça! Ele não foi lá para isto.
GIL
Ah, não? Então foi para me converter? Você mandou? Que ingenuidade!... Já se ver que ele
pode ser muito bom como padre, mas como professor de Psicologia é um debilóide. Bem que
eu te aconselhei a estudar na capital.
ELZA
É, se houve ingenuidade não foi dele, foi minha.
GIL
Positivo. Sabe, meu amor, você também pode ser espetacular como filha de Maria, mas como
Assistente Social não vai conseguir recuperar ninguém. Eu, pelo menos, vai ser difícil...
ELZA
Gil, você pretende me desgostar até neste dia? Pois eu vou arrumar as minhas coisas,
dormir, e não falo mais uma palavra.
GIL
Duvido...
ELZA
Pois vamos ver.
GIL
Não vamos ver não. Desta vez eu prometo, não só solenemente, sacramente, que não
discutiremos mais esta noite. Contudo não vamos dormir... Afinal, esperamos, quase uma
dúzia de anos por esta noite.
ELZA
Quase doze anos... Não se envergonha disso?
GIL
Não. Até achei gozado quando tua vizinha disse que o nosso namoro tinha "encroado".
Também se deve dar um bom desconto nesses anos todos de romance: tirando o tempo que
passamos brigados não sobra nem dois anos. Cada pileque que eu pegava você lizava uns
oito meses sem falar comigo. Somente porque publiquei aquele poema sobre a beleza do sexo
amarrou a cara dez semanas. Os dois anos que durou o rompimento do primeiro noivado foi
a maior bobeira tua; eu me envolvi naquela arruaça na asna por mero acaso: um amigo me
levou até lá a fim de que desse uns conselhos para a irmã dele...
ELZA
Eu sei!
GIL
Sabe nada, meu amor, você vê pecado em tudo com essa sua mania de religião.
ELZA
Vai começar de novo? A única coisa que eu não admito é que espezinhe a minha fé. E você...
GIL
Eu prometi, sei, e não estou espezinhando. Só acho que não havia necessidade de exagerar
tanto.
ELZA
Não exagero Apenas...
GIL
Não exagera? Sempre ameaçou entrar para um convento se eu não me regenerasse. Esta
expressão, regenerar, é tua: eu nunca entendi exatamente o que ela significa no meu caso;
afinal de contas não sou nenhum degenerado, sou simplesmente um sujeito que se mistura
com os outros e faz o que os outros fazem porque não se julga melhor do que ninguém. Escuta,
meu amor, me explica agora uma coisa. Nunca entendi porque toda vez que a gente terminava
o namoro, e depois o noivado, você se preparava para entrar no convento. No princípio eu
pensava que era uma espécie de chantagem sentimental. Raciocinava: assim como algumas
dizem "vou me suicidar", ela diz "vou ser feira", que é muito pior... depois pensei que, se fosse
chantagem, você teria desistido do recurso ao ver que ele não dava resultado. Então cheguei à
conclusão de que, no fundo, você não tinha vocação para esposa e sim para freira, que no
fundo não me amava bastante.
ELZA
Gil, você chegou a pensar um minuto sequer que eu não o amasse bastante?
GIL
Pensar, pensei.
ELZA
Que bobinho!
GIL
Isto foi o que retardou a minha decisão fatal, digo, final...
ELZA
Pois eu jamais duvidei do seu amor, apesar de todas as suas loucuras. Sempre que nós
estávamos brigados eu lia antes de dormir, sem falhar uma noite, aquele poema que você fez
para mim.
GIL
Qual?
ELZA
Gil, não lembra? Mas como é leviano!
GIL
Ora, meu amor, eu fiz tantos poemas para você... Ah! Já sei. (Recita em tom pausado e meio
chistoso.)
"Os pássaros
Descendo das árvores verdes, inocentemente verdes
Pousarão sem sustos, inocentemente pássaros
No teu seio...
E com os pássaros também eu Sugarei em ti o leite da inocência...
Foi este ou não foi?"
ELZA
Não.
GIL
Foi sim. Se errei diz qual foi.
ELZA
Foi aquele em que você descreve todas as razões pelas quais me ama e termina revelando a
razão fundamental.
GIL
Qual era mesmo a razão fundamental?
ELZA
Gil! Tem a coragem de confessar que esqueceu até este detalhe?
GIL
Não são tantas as razões que figuram no poema? Como eu não poderia esquecer uma?
ELZA
Mas esquecer logo a fundamental?
GIL
Todas as razões do meu amor por você são fundamentais... Agora eu devo ter escolhido uma
como metáfora, compreende?
ELZA
Não, Gil, isto eu não perdoo.
GIL
Pois vou escrever um soneto - soneto, ouviu? - somente para dizer que todas as razões do
meu amor são fundamentais.
ELZA
Quando?
GIL
Amanhã.
ELZA
Não, hoje.
GIL
Hoje nós vamos fazer um programa lírico mas não na base da literatura...
ELZA
Hoje sim. Quero rimado e metrificado. Vou até dormir logo para facilitar.
GIL
(Alegre, bonachão.) Está pensando que entrou para o convento? Não entrou não, ouviu? Em
convento é que se dorme cedo; quem casa dorme tarde, pelo menos na primeira noite...
ELZA
Você falou, falou e não recordou a razão fundamental do seu amor. Que pena!
GIL
Toda memória tem limite. Sou capaz de apostar que você também não acerta dizer a tal
razão usando as mesmas palavras por mim escritas.
ELZA
Acerto, sim senhor.
GIL
Acerta nada.
ELZA
Se eu acertar você faz uma coisa para mim?
GIL
Faço, o que é?
ELZA
Digo depois
GIL
Aposta fechada.
ELZA
Você escreveu assim: "Amo-te sobretudo porque es o outro lado de mim mesmo".
GIL
(Batendo palmas zombeteiro.) Parabéns a você pela memória e parabéns ao poeta pela falta de
talento...
ELZA
Perdeu a aposta e vai ter que fazer uma coisa para mim: não somente me levar à igreja
domingo, mas... assistir a missa comigo.
GIL
Negativo. Disso, meu amor, perde as esperanças. Francamente, é incrível que você se
conserve tão beata numa época em que todo mundo está mandando brasa.
ELZA
Gil, Pelo amor de DEUS, não recomeça. Bem, vou arrumar as minhas coisas e dormir.
(Remexe a maleta em cima da cama, dirige-se ao guarda-roupa para alojai/
-
algumas peças; GIL
vendo que ela vai abrir a gaveta onde ele escondeu a garrafa apressa-se em evitar isto.)
GIL
Olha, guarda as tuas roupas na outra fila de gavetas que aqui eu pus as minhas.
ELZA
É melhor. Não quer que eu arrume as suas coisas? Não, não, pode deixar, já arrumei tudo
bem arrumadinho, guarda os teus bagulhos. Quer que eu ajude?
ELZA
Não, obrigada, uma das lições que aprendi em Psicologia é que o marido não deve tomar
conhecimento dos objetos íntimos da esposa.
GIL
De acordo. Até certo ponto...
ELZA
(Ao transferir as peças da maleta para o guarda-roupa passa escondido um pequeno volume,
distraindo a atenção dele com a fala que segue.) Já reparou como este Quarto é interessante?
GIL
Meio fajuto, não acha?
ELZA
Depois que você fez a reserva eu telefonei para o gerente...
GIL
Então foi isso...
ELZA
Telefonei, me identifiquei como a futura esposa e pedi que a decoração do quarto fosse toda
branca, se possível.
GIL
E não me falou nada.
ELZA
Meu amor, não me leva a mal, mas em matéria de decoração você também anda desatua1izada,
pelo menos uns duzentos anos.
ELZA
Gil, não percebe a significação?
GIL
Que significação? Psicológica?
ELZA
O simbolismo...
GIL
Que simbolismo? Teológico?
ELZA
Poético, Gil, onde está a sua sensibilidade? O branco não é a cor da pureza?
GIL
Não, não é. A pureza não tem cor. A pureza é transparente como a água. E como
o vidro, que um dia se quebra...
ELZA
Você nasceu mesmo para ser do contra em tudo. Sempre ouvi dizer que o branco representa a
pureza.
GIL
E daí?
ELZA
Daí ter sido natural que eu escolhesse para a noite nupcial uma decoração branca
como o meu ideal.
GIL
Rimou, hem? É, o teu negócio é mesmo rima. E eu digo que isto é muito mais pouco legal. E
com tanto ―al‖ só há um jeito deu engolir este mingau: trocar de roupa para o cerimonial de
nossa primeira noite como casal... Tchau. (Abre uma das gavetas, tira algo e se tranca no
banheiro.)
ELZA
É um maluquinho... (Sorri, enlevada; coloca no rádio-eletrola um disco de música clássica;
mira-se no espelho da penteadeira; a seguir abre a janela e se demora olhando para fora; GIL
sai do banheiro sem fazer barulho, metido desajeitadamente em um pijama vermelho berrante,
aproxima-se dela sorrateiro afim de assustá-la; ela vira-se.)
GIL
Que tal eu?
ELZA
Gil, você não tinha um pijama doutra cor?
GIL
Não, não tinha. Infelizmente não combina muito com a tua decoração. Quem mandou fazer
segredo, não me avisar.
ELZA
Tem sim outro pijama. Vou ver.
GIL
(Impedindo-a de abrir as gavetas.) Nada disso, meu amor. Primeiro, eu não tenho mesmo outro
pijama; me perdoa a informação, mas até ontem eu sempre dormi de cueca. Segundo: este
pijama foi um presente que a minha mãe me deu justamente para ser usado hoje. Ela é tua fã,
no duro. Imagina o que me disse quando entregou o embrulho de manhã: meu filho, não
esqueça de vestir isto hoje; agora acabou-se o costume feio de dormir nu‖.
ELZA
Gi1, tenha modos.
GIL
(Encosta-se à janela e aponta para o exterior.) A paisagem é uma curtição mas a podia ter
ficado pelo menos no terceiro andar. Quando fiz a reserva pedi no indo andar. Amanhã reclamo
e se troca de apartamento. Hotel mixuruca.
ELZA
Não adianta reclamar, O gerente me explicou que dormitório com decoração branca só tinha no
quinto andar, eu concordei.
GIL
Então não se fala mais no assunto. Você tem toda a sua razão e eu ainda lhe dou minha.
Satisfeita? No último andar estamos mais perto do céu...
ELZA
Vai começar outra vez com a ironia?
GIL
(Rindo) Absolutamente. As homenagens da noite pertencem à pulcra donzela e eu me ajoelho
em doce submissão. Esta noite tenho o sacrossanto dever de ser gentil com você, na medida de
todas as minhas possibilidades...
ELZA
Pois não está cumprindo com esse dever.
GIL
Não? Não estou sendo gentil? Cometi alguma falta?
ELZA
Cometeu.
GIL
Alguma indelicadeza?
ELZA
Várias. Um delas imperdoável.
GIL
Uai! Nossa lua de mel ainda nem começou e será que já dei alguma mancada?
ELZA
Gil, que linguagem!
GIL
Mancada não é palavrão, é gíria. Qual foi a indelicadeza imperdoável que eu cometi?
ELZA
Não digo.
GIL
Diz sim.
ELZA
Não.
GIL
Vamos, fala senão vou ficar chateado, encabulado, complexado como você costuma dizer.
ELZA
É preferível esquecer.
GIL
De jeito nenhum. Fala. Estou preocupado com a monstruosidade cometida.
ELZA
Você não se preocupa com nada, Gil, leva tudo na brincadeira.
GIL
Desta vez não estou levando. Por favor, Elza!
ELZA
Bem, vou dizer. Quando entramos no quarto você... (O telefone toca, Gil atende.)
GIL
Alô... é... do apartamento da Elza, sim... noivo não, marido.., é ele mesmo, está na cara, quem a
senhora queria que fosse?... (Larga o fone.) Desligou. Um trote. Mulher. A voz não me é
desconhecida. Vamos, continua.
ELZA
Quando entramos no quarto você não me carregou...
GIL
(Gargalhada)Está é boa!
ELZA
Eu não digo que você faz piada de tudo?
GIL
Elza, meu amor, esta estória de noivo carregar a noiva para entrar no quarto dia do casamento é
um troco ultrapassado, cocoroca, cafoníssimo, coisa do século quinze.
ELZA
Mas me agradaria. E não teria custado tão grande esforço a você.
GIL
Como e que eu ia adivinhar que você esperava isso de mim? Depois de onze anos de namoro...
ELZA
É no que dá o seu desprezo pela Psicologia.
GIL
Como você é romântica, Elza. É bacana isto, sabe? Porém, se não tivesse sido educada num
meio tão fechado... Escuta, meu erro será reparado automaticamente — se não carreguei você
na entrada do quarto vou carregá-la, em compensação, a vida toda...
ELZA
Olha a ironia, Gil. Será possível que quando você não está discutindo nem fazendo troça está
sempre ironizando?
GIL
O que eu posso fazer? Nasci assim, não tenho culpa. (O telefone toca, ele atende.) Alô... é o
Gil... (Larga o fone.) Desligaram novamente. Eu conheço essa voz. Da próxima vez vou
mandar a...
ELZA
Da próxima vez deixa que eu atendo.
GIL
Quer saber duma coisa? Somos uns bobocas, estamos agindo como duas crianças. Será que
todo casal, nos primeiros momentos da lua de mel, fica assim baratinado?
ELZA
Você é mesmo um meninão.
GIL
Eu não, nós. Estamos agindo como duas crianças. A prova disso é que, sozinhos aqui há quase
uma hora, ainda não fizemos uma coisa que somente as crianças não fazem...
ELZA
Gil!
GIL
Não é isto que você pensou... Quero dizer que ainda não nos beijamos.
ELZA
Gil...
GIL
Sim?
ELZA
Tenha...
GIL
Modos? Daqui em diante é proibido dizer: ―Gil, tenha modos‖. Já ouvi esta frase oitocentas e
noventa vezes. É pecado beijar depois de casado? Ora, meu amor, tem dó.
ELZA
Você fala de uma forma tão direta, tão rude... Quando o amor é espiritualizado as suas
manifestações não chocam, tudo nasce naturalmente... um beijo não é um cigarro, que se
queima sem qualquer finalidade, sem qualquer motivação, sem qual quer impulso da alma...
GIL
Vá lá que seja, vamos ser sutis, refinados. Mas agora eu vou ganhar um beijo, não vou? (Tenta
beijá-la, ela se esquiva.)
ELZA
Gil...
GIL
Elza, meu amor, o próprio recato tem um limite, mesmo para uma dirigente de Congregação
Mariana.
ELZA
Gil, eu...
GIL
Compreendo o teu acanhamento, mas que diabo.
ELZA
Não é acanhamento.
GIL
Puxa vida! Como você é tímida. Às vezes penso que não sente atração física por mim.
ELZA
Não é isso.
GIL
Sei o que é, você emprega muito o nome: inibição.
ELZA
Vamos conversar.
GIL
Conversar mais do que já conversamos? Precisamos é passar da teoria para a ação...
ELZA
Você viu como a sua prima estava com uma saia escandalosa, acima do joelho?
GIL
Deixa de mão a minha prima que falar mal dos outros é que é pecado, e pecado mortal, porque
quando a gente se habitua a malhar o próximo morre se intrometendo na vida alheia. No
momento eu me acho interessado exclusivamente num beijo.
ELZA
Já viu quantos discos tem aí? Até Chopin.
GIL
Um beijo, meu amor, se não for por afeição seja ao menos por compaixão.
ELZA
Viu as revistas? Se houver alguma pornográfica joga fora.
GIL
Um beijo, Elzinha.
ELZA
Mais tarde, temos uma vida inteira pela frente.
GIL
Meu amor, seja razoável. Quantas vezes nós nos beijamos nesse tempão de namoro?
ELZA
Duas...
GIL
Duas não, quatro. Mas também se pode reduzir este número para zero. Da primeira vez você
fechou os olhos para adivinhar o título do livro, eu aproveitei, porém o teu pulo estragou a
festa. Da segunda vez eu apelei para a ignorância, porém o teu grito acordou quase todos os
vizinhos. Da terceira vez você ficou tão trêmula que eu desisti no meio com medo que
desmaiasse. Da quarta vez, a única que deve ter sido quente, eu confesso que estava
completamente embriagado...
ELZA
O meu soneto, começa logo a escrever, anda.
GIL
O tema deste instante é um beijo na boca e não no papel.
ELZA
No dia em que nós sairmos daqui minha primeira providência será encomendar uma dúzia de
pijamas para você.
GIL
É... Sabe, Elza, vez por outra me ponho a refletir... como a gente pode se amar verdadeiramente
sendo você tão pura e eu tão despudorado... Como podemos voltar o namoro tantas vezes, eu
sempre querendo beijar, você nunca querendo beijar... Você tem alguma prevenção contra o
beijo?
ELZA
Prevenção?
GIL
Algum escrúpulo?
ELZA
Não é isso, Gil.
GIL
Sei, não é mesmo. Se fosse escrúpulo a tua recusa seria apenas em relação ao beijo. Mas você
jamais deixou que eu pegasse nas suas coxas...
ELZA
Gil!
GIL
É mentira? Nos peitos eu peguei uma vez à pulso...
ELZA
Gil, se comporte como um cavalheiro...
GIL
Às vezes eu penso que você não gosta de mim.
ELZA
Se não gostasse me casava?
GIL
Existe tanta gente que casa por...
ELZA
Por interesse?
GIL
Não insinuei isto. Existe tanta gente que casa por...
ELZA
Curiosidade? Solidão?
GIL
Sei lá... Por tudo isso, menos por amor... Eu quero dizer que a maioria das pessoas casam sem
saber por que... Casa para não deixar de casar...
ELZA
Gil, você percebe que está sendo grosseiro comigo?
GIL
Percebo. O que não consigo perceber é se... (O telefone toca.)
ELZA
Deixa que eu atendo.
GIL
(Antecipando-se a ela.) Alô.., é ele... tudo bem... tudo magnífico... quem fala?.., ah! É a
senhora?... sim... estamos conversando.., muito... conversa agradável, deliciosa nós nos
entendemos perfeitamente, maravilhosamente, a senhora sabe... pois não, boa noite... vou
entregar o fone a ela... boa noite. (Larga o fone.)
ELZA
É a mamãe?
GIL
Devia ter desconfiado.
ELZA
(Ao telefone.) Mamãe?... sim... ainda não... não se preocupe... não disse, não... fique tranquila..,
é... um beijo. (Desliga)
GIL
Ainda não disse o quê?
ELZA
Nada.
GIL
Não disse a quem?
ELZA
A ninguém, Gil, que insistência! Quando você cisma com uma coisa não larga mais. Este seu
problema de fixação é uma característica de insegurança.
GIL
Bom, já que eu tenho um problema de insegurança e você tem segurança suficiente, vamos
deitar...
ELZA
E o soneto, não escreve mesmo?
GIL
Amanhã. Agora vou tratar de fazer algo mais prático: pagar a luz. (Executa)
ELZA
Gil, está escuro.
GIL
Claro...
ELZA
Detesto escuridão, tenho fobia.
GIL
(Atirando-se na cama.) Eu já estou no meu posto de comando...
ELZA
(Acende a luz do abajur.) Tenha paciência, nós vamos dormir com esta luz acesa. É fraquinha,
não vê?
GIL
A luz do abajur pode ficar acesa. Porém se nós vamos dormir eu não garanto...
ELZA
Você se deita como se fosse um homem primitivo, um índio, um selvagem.
GIL
Esta censura eu não aceito. Índio deita pelado e eu, por obra e graça da minha mãe, estou
vestido à rigor. Pelo menos por enquanto...
ELZA
(Sentando-se na beira da cama, cuidadosamente.) Gil, olha a decência.
GIL
Elza, meu amor, se não te conhecesse há mais de dez anos não acreditava. Como pode existir
uma mulher cheia de...?
ELZA
Por favor, basta de me criticar.
GIL
(Tentando puxá-la.) Vem logo, deixa de charminho. Para você, neste momento, pudor não é
virtude, é doença...
ELZA
(Retraindo-se) Você me desnorteia com esses seus gestos inconvenientes.
GIL
Os meus gestos não são inconvenientes, eles convém, depois você me dará razão...
ELZA
Gestos quase agressivos.
GIL
Não exagera, Santa Terezinha dos pobres...
ELZA
Continua debochando, continua me ofendendo até cansar. Tudo cansa.
GIL
É, tudo cansa...
ELZA
Por falar nisso eu estou cansada, extenuada, o dia hoje foi tão agitado, tão fatigante! Vamos
repousar de vez?
GIL
Eu já estou repousando. E você, por que não deita?
ELZA
Promete ficar quietinho?
GIL
Prometo.
ELZA
Promete mesmo?
GIL
Pode confiar.
ELZA
Promete dormir logo?
GIL
Juro. Pela minha honra. Aliás, pela sua...
ELZA
Então vamos dormir que eu estou exausta. (Demora-se ajeitando a colcha, o travesseiro; Gil ri
da hesitação dela.)
GIL
Pode deitar que não corre nenhum perigo. Já jurei, torno a jurar. Juro por esta luz que me
alumia... (Apaga a luz.)
ELZA
Gil sem vergonha! (Acende o abajur.)
ELZA
Até amanhã, um sono luminoso. Seja feita a vossa santa vontade, assim na cama em tudo o
mais. (Deita-se de costas para ela; Elza espera; Gil simula iniciar o ela então prepara-se para
deitar, ele a observa veladamente com ar de satisfação; O telefone toca.)
ELZA
É mamãe.
GIL
Mas que aporrinhação!
ELZA
Gil! O que você disse?
GIL
Desculpa, eu ia pegando no sono, o barulho me perturbou.
ELZA
(Ao telefone.) Mãe?... sim... ainda não... sim... não...
GIL
Pensando bem esta velha está fazendo uma ligeira safadeza com a gente. Será que vai querer
acompanhar por telefone?
ELZA
Não se preocupe, mamãe... ele é bonzinho... insistiu.., continua insistindo... não, sim... outro
para a senhora. (Desliga)
GIL
Meu amor, você não acha que os cuidados da sua mãe estão sendo demasiados? Eu reconheço
que gozo de péssima fama nesta aldeia mas não me consta que alguém tenha motivos para me
julgar um tarado.
ELZA
Não é isto, Gil, mãe tem dessas coisas. Vamos dormir que amanhã é outro dia. (Senta-se na
cama, facha os olhos em postura de concentração interior.)
GIL
O que foi? Está se sentindo mal?
ELZA
Estou rezando. Não quer rezar comigo?
GIL
Brincadeira tem hora. O que eu quero é outra coisa.
ELZA
Reza comigo, Gil, o que custa?
GIL
O meu programa hoje não tem nada de místico.
ELZA
Só uma Ave Maria.
GIL
Reza por mim que eu quebro teu galho noutro sentido...
ELZA
DEUS tenha piedade de você. (Reza, Gil acende um cigarro; ela acaba e deita-se
cautelosamente.)
GIL
Enfim à sós e deitados...
ELZA
Está fumando? Não ia dormir logo?
GIL
O cigarro chama o sono.
ELZA
Vamos dormir logo que estamos muito tensos, precisamos relaxar.
GIL
Eu, como você não ignora, sempre fui extraordinariamente relaxado...
ELZA
Boa noite. (Acomoda-Se para dormir, enrolando-se no lençol. Pausa. Gil vacila, acende outro
cigarro, passeia pelo quarto, vai à janela, senta no divã, levanta, pega o telefone, larga-o sem
discar, folheia uma revista, bota a mão na testa em pose de ditação, dirige-se à cama. Elza
começa a respirar profundamente como quem dorme; ele faz um giro, tira da gaveta do
guarda-roupa a garrafa que escondera, destampa-a, bebe um trago, outro, mais outro;
caminha lentamente até a penteadeira e, contemplando a sua imagem refletida no espelho que
ela tem, passa a dialogar consigo mesmo, sempre intercalando as frases com mais alguns
tragos de bebida.)
GIL
Gil, sujeitinho vil, que rima com imbecil... E agora?... Fala bicho, e agora?... O que é que tu
vais fazer?... Sai dessa... Hem? O que é que tu vais fazer?... Agarrar a força?...Resolver a
parada de qualquer maneira?... Ou dormir como um carneirinho?... Não, dormir, não dá...
Esvaziar a garrafa? Beber tudo, te embriagar?... É o cúmulo, Gil, teres que encher a cara na
primeira noite de casado... Bonito para ti... Ela dormindo, tu aí feito um palhaço... Sugestionado
pela pureza dela... Acreditas nisso? Acreditas, sim... Acreditas, nada... Mas acreditando ou
desacreditando aceitas a situação... É, aceitas e estás disposto a fugir do problema te
embebedando, burramente, como se um pileque a mais fosse a solução... Vais dar uma de moço
educado, pela milésima vez... Que fingimento! Teu ou dela? Escuta, Gil, tu tens ou não tens
tutano para resolver a parada?... Se tu tens sai para a apelação e descasca o abacaxi na base da
violência... Se ela espernear que se dane... Deixa de ser besta, quem sabe não é isto que ela está
querendo?... Como é, decide ou não decide?... Não, é melhor esperar... Ela é muito sensível...
Pode até chorar... Fazer uma tolice... Telefonar para a mãe... A velha com certeza ainda não
dormiu, está de olho em nós, grudada no telefone aguardando qualquer comunicação... Velha
cínica... Gil, só há uma saída, a de sempre... Ela não tem culpa, ninguém tem culpa de ser como
é... A vida é que faz cada um... A educação... O ambiente... Coitadinha, despejaram na
consciência dela uma tonelada de falso pudor... (Elza vira-se na cama, ele apressa-se em
esconder a garrafa e o faz sem muita firmeza: já sente os efeitos iniciais da bebedeira.)
ELZA
Gil, por favor, não bebe mais.
GIL
Uai! Você estava acordada?
ELZA
Não...
GIL
E como sabe que eu bebi?
ELZA
Vamos dormir. Amanhã nos divertiremos como você deseja.
GIL
Ouvindo tudo caladinha, hem? Traindo a minha boa fé. Enganadora. Elza, sinceramente, você
me decepcionou.
ELZA
Seja compreensivo. É natural que eu me sinta constrangida... e também decepcionada: nunca
pensei que você fosse capaz de trazer uma garrafa de bebida para a nossa lua de mel...
GIL
Eu não ia beber hoje, você é que me obrigou. (Gagueja as últimas sílabas.)
ELZA
Parece que já se encontra meio embriagado...
GIL
É, parece. E uma vez que você, fingindo dormir, descobriu que tomei uns goles posso beber
mais. (Volta ao guarda-roupa em busca da garrafa e, por equívoco, abre a gaveta onde Elza
igualmente escondeu o seu volume; pega-o e verifica que se trata de uma imagem de santo;
Elza pula da cama, acende a luz do teto.)
ELZA
Gil! Por que mexeu nas minhas coisas?
GIL
Não reparei que a gaveta era tua. Que troço é este?
ELZA
Um santo, não está vendo?
GIL
Que santo?
ELZA
Santo Antônio.
GIL
E você traz isso para a nossa lua de mel?
ELZA
Que mal faz?
GIL
Encabula. Ora bolas, onde já se viu tamanha pieguice.
ELZA
Herege.
GIL
Herege não. Afinal, isto aqui é um quarto de casal, não é um oratório. É ou não é? Responde!
ELZA
Não precisa se exaltar.
GIL
Estou começando a engrossar, ouviu? Vou beber mais uma dose para acalmar...
ELZA
Gil, a bebida transtorna você.
GIL
(Coloca a imagem na gaveta dela e apanha a garrafa na sua.) Não é a bebida que está me
transtornando, é outra coisa. Acho que o jeito é sair dando canelada...
ELZA
Gi1, pelo amor de DEUS.
GIL
Não mete DEUS neste negócio, já basta o Santo Antônio... (Engole mais um trago deposita a
garrafa em lugar destacado na penteadeira; Elza pega a garrafa, guarda-a na gaveta dele e no
lugar da garrafa coloca a sua imagem.)
ELZA
Não se aborreça, o seu juízo está um pouco afetado pela ação do álcool, você vai dormir e neste
lugar fica o Santo Antônio, já que também descobriu o que não devia.
GIL
Esta é boa... Não quer fazer a coisa completa? Acende logo uma dúzia de velas...
ELZA
Prossiga com a ironia, Gil, é a sua especialidade...
GIL
Você acende uma dúzia de velas e a gente reza uma ladainha...
ELZA
O melhor que eu faço é mesmo dormir. Boa noite. (Apaga a luz do teto deixando acesa a do
abajur; acomoda-se na cama, cobrindo-se; Gil sorve mais bebida, detém-se diante do Santo
Antonio, fitando-o.)
GIL
Este teu Santo Antônio parece um charuto... É quase do tamanho de um charuto. Tem quase a
cor de um charuto... E eu acho que a cor do pijama dele também não está de acordo com a
decoração do quarto...
ELZA
Gil, Pelo amor de DEUS, vamos dormir...
GIL
Vamos, só que eu vou dormir no divã. Desde que você me recusa como esposo a gente dorme
separado. Pelo menos assim eu posso apagar a luz e você não fica com medo de ser comida
pelo bicho-papão. (Apaga a luz do abajur, deita no divã. Pausa. Gil, começa a respirar de
forma acentuada e irregular; sobre a porta branca do guarda-roupa, ao fundo da cena escura,
um projetor de slides lança figuras coloridas que se sucedem acompanhadas de sons metálicos
sugerindo delírio sonambúlico de Gil. Aparecem as seguintes figuras: Elza vestida de noiva
com véu e grinalda, um padre abençoando, alegoria de Adão e Eva no paraíso, Elza em traje
de passeio tentando afastar do seu busto as mãos de Gil, a imagem de Santo Antônio em
relevo, Elza com a roupa de dormir que ora veste, Elza somente de calcinha e sutiã, Elza em
pose de oração, uma senhora parecida com Gil entregando-lhe um embrulho, ele retirando do
embrulho um pijama vermelho, Elza envolta no lençol, apenas a face de Santo Antônio
inclinada, um padre à paisana segurando um copo de vinho e uma empada, Elza quase
despida, Santo Antônio em corpo inteiro, Elza inocentemente despida. Esta última figura some
como um relâmpago sob ruídos estridentes. Gil acorda assustado e acende a luz do teto; Elza
senta-se na cama.)
ELZA
O que foi?
GIL
Pesadelo.
ELZA
Bebeu demais. Não quer deitar aqui?
GIL
Não aguento ficar ao lado de você como uma estátua.
ELZA
De amanhã em diante, Gil...
GIL
O meu caso é hoje. Estou indócil.
ELZA
Pensa noutra coisa.
GIL
Nem dormindo eu consegui.
ELZA
Não custa esperar um dia.
GIL
Não custa uma ova! Eu não aguento esperar mais nem uma hora.
ELZA
Com um pequenino esforço...
GIL
Nem meia hora. (Acerca-se dela, resoluto.)
ELZA
Gil...
GIL
Nem dez minutos.
ELZA
Mas...
GIL
Nem três minutos.
ELZA
Por favor...
GIL
Nem um minuto.
ELZA
Gil, o que é isto?
GIL
Chega, meu amor, chega! Se você está apavorada pode correr e se trancar no banheiro porque
eu... (Apaga a luz do teto, Elza acende imediatamente a do abajur.)
ELZA
Gil você ficou com o pensamento conturbado?
GIL
Eu já nem tenho pensamento para ser conturbado. Eu já nem tenho cérebro, só tenho nervos,
nervos excitados, compreende? É como se todo o meu sistema nervoso estivesse carregado de
eletricidade, compreende? Você precisa compreender, o homem é diferente da mulher, há
momentos em que não pode se conter, compreende?
ELZA
Compreendo sim.
GIL
Então por que não cede?
ELZA
Você está se mostrando tão áspero. Nunca pensei...
GIL
Eu é que nunca pensei, meu amor, que você levasse tão longe esta tua anormalidade?
ELZA
Anormalidade? O que está querendo dizer, Gil?
GIL
Eu já não sei o que estou querendo dizer, já não sei nem se estou querendo dizer. Mas que o teu
comportamento não é normal, não é.
ELZA
Amanhã eu explico; amanhã.
GIL
Você tem alguma aversão física por mim?
ELZA
Aversão?
GIL
Só pode ser.
ELZA
Que absurdo!
GIL
Então você se sente feliz em me maltratar.
ELZA
Gil!
GIL
Sente prazer em me torturar.
ELZA
Gil, isto é sadismo.
GIL
Lógico que é sadismo.
ELZA
Está me chamando de sádica?
GIL
Talvez não seja bem sádica, seja...
ELZA
O que, Gil?
GIL
Mais ou menos masoquista.
ELZA
Quanta brutalidade.
GIL
Brutalidade uma joça! Ou você gosta de me fazer sofrer ou gosta de fazer sofrer a si mesma.
Das duas, uma, não há justificativa para a tua conduta.
ELZA
Há, sim. Amanhã eu explico, não disse?
GIL
Que justificativa pode haver? Se realmente há, fala, não fica me cozinhando em caldo morno.
ELZA
Gil, eu juro por Nosso Senhor Jesus Cristo como há uma justificativa que você amanhã
entenderá.
GIL
E por que amanhã? Estou farto de ouvir você dizer amanhã, amanhã. Eu não vivo em função do
amanhã, compreende? O amanhã é um saco sem fundo que as pessoas procuram encher de
fantasia para se consolar. Eu existo agora e isto é o que me interessa.
ELZA
Você me desconcerta com esta impaciência.
GIL
E você me irrita. Vamos, bota para fora a justificativa. Elza, por amor de DEUS, já que você
não tem amor em mim, fala! Por acaso é algum motivo de saúde?
ELZA
Não é isso.
GIL
Você tem algum defeito?
ELZA
Gi1, não me humilha.
GIL
Elza, te coloca na minha posição. Afinal de contas eu tenho o direito de saber o que ocorre.
Basta de mistério temperado com telefonemas da mamãezinha. Se me encobriu alguma coisa
trágica chegou a hora de revelar.
ELZA
Não é nada trágico, você achará até engraçado.
GIL
Engraçado???
ELZA
Achará cômico. Vai rir com certeza.
GIL
Duvido muito que tenha disposição para rir depois de todo esse vexame.
ELZA
Vai rir, sim.
GIL
Elza, se você não me aceita como marido, nem me esclarece o motivo, daqui a pouco eu tenho
uma crise não sei de que. Será que... será que é uma dessas mulheres geladas para homem?
ELZA
Gil!
GIL
Só sendo.
ELZA
Bem, não adianta discutir mais.
GIL
Correto. Porém uma coisa eu devo te informar neste exato momento: a minha conclusão de
toda essa lenga-lenga é que, em teu próprio benefício e para o meu alívio, a solução é... (Abre a
blusa do pijama, apaga a luz e parte ao encontro dela; Elza agilmente acende a luz.)
ELZA
Você não tem este direito.
GIL
Como não? Este direito, meu amor, é na realidade o único direito que o homem tem depois que
casa... (Agarra os braços dela obrigando-a a deitar.)
ELZA
Hoje não, Gil, amanhã.
GIL
Fecha os olhos e conta até dez, deixa o resto por minha conta...
ELZA
Eu explico Gil, eu explico. Fiz uma promessa. (Desvencilha-se dele, corre para imagem na
penteadeira.)
GIL
Promessa???
ELZA
Para Santo Antônio.
GIL
Promessa de quê?
ELZA
Para casar.
GIL
Que estória é essa?
ELZA
Pois é, você demorou tanto a tomar uma iniciativa... O tempo passando... Cada ano eu ficando
mais velha...
GIL
E daí?
ELZA
Quando a gente faz uma promessa oferece algo em troca da graça que pretende alcançar...
GIL
Sim?
ELZA
A graça foi alcançada, Gil, nós casamos e você devia estar muito agradecido a Santo Antônio.
GIL
E então?
ELZA
Agora tenho de pagar a promessa. Prometi a Santo Antônio que, se nós casássemos, durante
toda a minha primeira noite eu permaneceria virgem, em sinal de devoção.
GIL
(Entre surpreso e resignada.) Esta não!...


SEGUNDO ATO

Horas depois. Elza está dormindo na cama e Gil no divã. A respiração de Gil é ofegante; ele
desperta, ergue-se com dificuldade, ensaia uns passos, junta a garrafa do chão, bebe, põe a
garrafa na penteadeira ao lado da imagem de Santo Antônio; a seguir acende a luz do teto. Elza
desperta.
ELZA
Ahn!...
GIL
Ahn o quê?
ELZA
Você me chamou?
GIL
Chamar para quê? Para rezar um terço no quarto do quinto andar?...
ELZA
Que horas são?
GIL
Interessa a hora?
ELZA
Já é madrugada?
GIL
Acha que é?
ELZA
Não sei, estou perguntando.
GIL
Eu também.
ELZA
Continua bebendo?
GIL
E você, continua com a cuca avariada?
ELZA
Avariada?
GIL
Claro. Uma pessoa de juízo perfeito, uma pessoa que tivesse cinquenta gramas de bom senso
não ia fazer uma promessa tão estúpida. Onde já se viu prometer a virgindade a santo sem
consultar o noivo...
ELZA
Você concordaria?
GIL
Concordaria uma... (Diz um palavrão que não se ouve, percebe-se pelo movimento dos lábios.)
ELZA
Gil! O que você disse?
GIL
Disse que concordaria uma... (Mesmo jogo.)
ELZA
Você bebeu ainda mais?
GIL
Bebi. E daí?
ELZA
E eu que durante onze anos suspirei por esta noite conjugal.
GIL
Isto não é uma noite conjugal: é uma noite celestial...
ELZA
Ironiza, Gil, ironiza.
GIL
Não é mesmo? Você não fez da cama um altar?
ELZA
Gi1, olha o teu rosto no espelho.
GIL
Já olhei até demais.
ELZA
Observa em que estado lastimável você se encontra.
GIL
É, me encontro. Mas a causa do meu estado lastimável não é a bebida...
ELZA
Como você se transforma quando bebe.
GIL
Todo mundo se transforma, bebendo ou não bebendo. Você é a única pessoa na face da terra
que nunca mudou. A única mulher que de livre e espontânea vontade depois de casada se
conserva igualzinha, com o selo de fábrica.
ELZA
Amanhã, Gil, amanhã terá o que deseja.
GIL
É aí que você se engana, é aí que comete um erro desastroso. Vou pegar hoje um pileque tão
grande, tão grande que durante uns quinze dias não terei força nem para dar um espirro...
(Aproxima-se da penteadeira onde estão a imagem e a garrafa, bebe mais.)
ELZA
Chega, Gil.
GIL
Sim senhor, quem diria!
ELZA
De fato, quem diria, vendo você afiançar que jamais botaria na boca um pingo de álcool.
GIL
(Encosta a garrafa na imagem.) Eis aí dois símbolos, para você que admira simbolismos: o
santo e a garrafa de uísque ... a virtude e o vício.., a pureza e o pecado... o céu e a terra... O teu
santo e a minha garrafa... juntos, nos separando.
ELZA
Gil, eu esgotei a minha capacidade de tolerância. Desta vez vou dormir um sono só. Até
amanhã. (Apaga a luz do teto, deixando acesa a do abajur, toma posição definitiva para o
sono; Gil permanece diante da imagem, bebendo, indiferente a Elza que logo adormece.)
GIL
Amanhã... por que esperar o amanhã?... O amanhã é sempre duvidoso... Para você, não, Santo
Antônio felizardo... Mas para nós mortais é duvidoso sim... Estou sendo roubado, Santo
Antônio... E você é o culpado de todo este drama... De toda esta comédia... Por que você ajuda
a mulherada, Santo Antônio, usando o prestígio que tem para fazer milagre e receber em troca
bons presentes?... Isto é corrupção ativa, crime contra a administração da justiça divina... O que
representa para você a virgindade dela na noite de hoje, hem, Santo Antônio?... Você está
desfrutando essa virgindade?... Se está temos aí um caso de adultério... Se não está o que
adianta o sacrifício dela?... E sobretudo o meu sacrifício, o sacrifício aqui do Gil, Santo
Antônio do Gil que não tem nada a ver com a transação de vocês?... É por isso, Santo Antônio,
que o povo diz que de tanto fazer milagre você ficou careca... Não... não... me perdoa, Santo
Antônio, me perdoa... Estou falando asneira... Sou um sujeito de desregrado... Desequilibrado...
Neurótico, ela já disse... Você é boa praça, Santo Antônio, me perdoa... me perdoa que eu não
presto, sou igual a todo homem... Bom, Santo Antônio, como eu não acredito em você, e você
certamente não acredita em mim chega de papo... (Afasta-se até a janela, olha para fora.) Ih!
Que porre... (Esfrega as pálpebras e olha de novo para fora.) Já estou enxergando tudo
esfumaçado... com mais duas doses só vejo fumaça... (Sai da janela, acende um cigarro;
escuta-se rumor de vozes.) Uai! Barulho? Que pileque! Já estou vendo fumaça e ouvindo vozes
(O telefone toca.) Chi! Até o telefone... daqui a pouco sou capaz de ouvir novamente aquele
sermão sobre Adão e Eva, vai ser de roer... (Senta-se no divã, o telefone volta tocar, Elza
ronca.) De novo?... É alucinação... Se não fosse ela acordava com a zuada... O jeito é tentar
dormir senão acabo bilé... (Entra um pouco de fumaça pela janela ele a fecha.) Estou
completamente aluado... (O telefone toca outra vez, ele arranca o fio do telefone.) Que
zonzeira... (Soa forte uma sirene, Elza desperta.)
ELZA
Quem me chamou?
GIL
Chamaram, é?
ELZA
Não foi você?
GIL
Não, se alguém neste quarto te chamou deve ter sido o Santo Antônio...
ELZA
Tive a impressão de que me chamavam. Não era uma... um apito...
GIL
Você está mais embriagada do que eu. Embriagada de ilusão. É a pior embriaguez, ouviu? A
tua velhice toda vai ser uma enorme ressaca...
ELZA
Uma pena eu acordar. Estava sonhando. Um sono tão formoso. Imagina, Gil, no sonho tinha
nuvens.
GIL
Nuvens cinzentas anunciando tempestade ou nuvens brancas ―decorando‖ o firmamento?
ELZA
Não lembro. Havia estrelas...
GIL
Estrelas de cinco pontas ou estrelas desapontadas?...
ELZA
Havia flores. Rosas vermelhas que pareciam pedaços do teu pijama. Havia um coro de vozes...
(Ressurge o rumor de vozes.) Que barulho é este?
GIL
Você ouviu?
ELZA
Por que não haveria de ouvir?
GIL
Então, eu não estou delirando... (O rumor aumenta e diminui.)
ELZA
Será que da janela dá para ver?
GIL
Deve ser confusão na rua. O pau está comendo... (Os ruídos crescem.)
ELZA
Ainda bem que não ficamos no segundo andar. (Toca a sirene.)
GIL
Ouviu?
ELZA
É uma sirene. Foi esta sirene que me acordou.
GIL
Deve ser ambulância. Alguém pifou.
ELZA
Gil, tive um pressentimento.
GIL
Fechou o tempo lá embaixo.
ELZA
Não é desordem. (Vai à janela, abre-a porém logo a fecha porque a fumaça ameaça invadir.)
GIL
Você também?...
ELZA
É fumaça, Gil.
GIL
Sim, é fumaça, pensei que não, mas é, não viu?
ELZA
Deve ser incêndio. Telefona para a portaria e indaga. (Gil coloca o fone no ouvido.)
GIL
Se for incêndio é um incendiozinho de araque.
ELZA
Liga, Gil.
GIL
Não dá sinal. Mixou.
ELZA
Não brinca com coisa séria, liga.
GIL
É certo, não dá sinal.
ELZA
Você me deixa nervosa.
GIL
É justo. Você não me deixou nervoso todo esse tempo? (Som de sirene.)
ELZA
Olha a sirene, ouve. Ai! Meu DEUS, me dá este aparelho. (Toma o telefone dele.)
GIL
Deu sinal?
ELZA
Não, por quê?
GIL
Ah!...
ELZA
O que é?
GIL
Eu arranquei o fio.
ELZA
O fio? Você arrancou o fio do telefone?
GIL
Foi...
ELZA
Mas por que, Gil?
GIL
Esta droga não parava de tocar, você não acordava, eu estou mais ou menos bêbado, pensei que
fosse alucinação alcoólica.
ELZA
Gil, você sabe o que você fez?
GIL
E...
ELZA
Com certeza estavam telefonando da portaria para avisar...
GIL
Dei uma mancada, já sei, não precisa me responsabilizar pela catástrofe.
ELZA
Minha Nossa Senhora, Gil...
GIL
Sou um estúpido, estou de pleno acordo.
ELZA
Faz alguma coisa.
ELZA
Faz alguma coisa.
GIL
Faço, vou dar uma olhada lá embaixo.
ELZA
Vai e volta já-já.
GIL
(Movimentando-se) Estou indo.
ELZA
De pijama?
GIL
O que tem?
ELZA
Veste ao menos uma calça por cima. Não, vai assim mesmo.
GIL
Nesta lua de mel e de fel está acontecendo tudo. Também, começou acontecendo o
impossível...
ELZA
Gil, com pressa.
GIL
Não demoro. (Sai)
ELZA
Meu DEUS... (Fica sem saber o que fazer, liga o rádio-eletrola, aumenta o volume, ouve-se
uma voz de locutor á princípio confusa).
LOCUTOR
Alô estúdio... alô estúdio... alô estúdio... técnica.. alô técnica... OK... OK... Atenção, ouvintes,
muita atenção... Sensacional furo de reportagem. Nossa emissora entra no ar, esta hora, numa
edição extra a fim de noticiar, em absoluta primeira mão, o incêndio de proporções ainda
ignoradas que irrompeu há poucos momentos no Hotel Central.
ELZA
Minha Nossa Senhora, o incêndio é aqui!
LOCUTOR
Estamos fazendo esta transmissão diretamente do local do sinistro, isto é, quer dizer, da loja
que fica defronte, a tradicional Casa da Paz, aquela que vende mais barato e só vende o que é
bom. O fogo, caríssimos ouvintes, lavra no quarto andar de maneira impressionante.
ELZA
Quarto andar? Minha Santa Mãe do Céu!
LOCUTOR
Até o presente minuto, salvo erro, lapso ou omissão, não há vítimas a registrar, entretanto a
situação é caótica.
ELZA
Ai! Meu Santo Antônio, valei-me!
LOCUTOR
Existem três apartamentos no quinto andar e, segundo informações da gerência do hotel, todos
estão ocupados. Os prejuízos são... já foram ou deverão ser, incalculáveis. (Breve pausa.)
Atenção ouvintes, segundo dados que acabamos de colher apenas uma das famílias do quinto
andar, somente uma, conseguiu descer antes do elevador enguiçar.
ELZA
Enguiçou, meu DEUS, e Gil não chega.
LOCUTOR
Os bombeiros, nossos bravos soldados do fogo, lutam heroicamente, no entanto, as chamas se
alastram cada vez mais como lobas famintas.., é um espetáculo tenebroso, ouvintes, e o pior é
que o carro-tanque dos bombeiros não tem capacidade para muita água. Nós bem que temos
chamado atenção para o fato, nós bem que temos verberado a inoperância da Prefeitura, nós
bem que temos sustentado uma campanha patriótica contra o descalabro administrativo que
impera em nossa cidade, cujo atraso é fruto da incúria de seus dirigentes. (Gil invade a cena
tossindo, cabelos desgrenhados; Biza desliga o rádio; clarões avermelhados surgem por trás
da vidraça da janela; daqui para frente os clarões, rumores de vozes e soar da sirene quase
não cessam mais, alternam-se e se misturam, ora alto, ora baixo.)

ELZA
Gil!
GIL
Elza, meu amor.
ELZA
Vamos embora.
GIL
Não se pode.
ELZA
Vamos sim.
GIL
Não se pode, está ralado.
ELZA
Vamos de qualquer maneira.
GIL
Não podemos.
ELZA
Anda, vamos.
GIL
Não dá pé.
ELZA
Vamos, Gil.
GIL
O elevador engatou. E o fogo bloqueou inteiramente a escada.
ELZA
Não!
GIL
Infelizmente estamos de azar.
ELZA
E agora?
GIL
O incêndio é no andar abaixo do nosso.
ELZA
Sei. Ouvi pelo rádio.
GIL
Pois é.
ELZA
O rádio disse que o carro dos bombeiros não tem água.
GIL
Deve ter, você ouviu mal.
ELZA
O que a gente faz, Gil?
GIL
Confia nos bombeiros. Em cada dez incêndios eles conseguem apagar uns três.
ELZA
E se eles não conseguirem vencer o fogo?
GIL
Estamos fritos...
ELZA
Se não conseguirem apagar o incêndio, Gil?
GIL
Vai ser de morte...
ELZA
Precisamos fazer alguma coisa.
GIL
Não se pode fazer nada.
ELZA
Vamos tentar descer pela escada. (Faz menção de sair, Gil a detém.)
GIL
Está louca?
ELZA
Por quê?
GIL
A escada virou um fogareiro. E o fogo já atingiu nosso corredor. Só em me aproximar meio
metro quase me torno um churrasco...
ELZA
A gente tenta descer correndo.
GIL
Não dá, meu amor.
ELZA
E o que a gente faz?
GIL
Espera um pouco, os bombeiros estão trabalhando, eles tem experiência.
ELZA
Mas não tem água.
GIL
Arranjam.
ELZA
Vamos arriscar descer, Gil.
GIL
Se a gente arriscar descer chega lá embaixo como galeto de restaurante ...
ELZA
Estamos perdidos.
GIL
Os bombeiros vão nos achar...
ELZA
A gente desce ligeiro, nem que se queime as pernas é melhor.
GIL
E a fumaça, Elza, e a fumaça?
ELZA
O que é que tem a fumaça?
GIL
Sufoca. Mata sufocado.
ELZA
Não mata. Tapa-se o nariz.
GIL
Puxa! Como você é tola. Não sabe que a maioria das pessoas que se acabam em incêndio
morrem sufocados pela fumaça?
ELZA
É?
GIL
Claro que é.
ELZA
Que horror.
GIL
Tem calma.
ELZA
Estou aflita.
GIL
Aflição não resolve.
ELZA
Não posso ficar parada.
GIL
Tenho que fazer alguma coisa.
GIL
Não adianta fazer nada.
ELZA
Mas eu preciso, Gil, eu preciso fazer alguma coisa. O que é que eu faço, Gil?
GIL
Não sei. Reza... se bem que ainda não é hora de rezar.
ELZA
Gil, eu estou nervosa demais.
GIL
Por favor, Elza.
ELZA
Eu estou uma pilha de nervos.
GIL
Não perde o controle. O negócio é se controlar. Você começou tão bem, controlando a
natalidade...
ELZA
Acho que vou entrar em crise.
GIL
Atrapalha tudo.
ELZA
Acho que vou ter uma crise de choro.
GIL
Se perder o controle eu sou obrigado a fazer como se faz com náufrago.
ELZA
Fazer o quê?
GIL
Fazer você desmaiar para não cometer uma imprudência.
ELZA
E como você faz eu desmaiar?
GIL
Um murro na testa...
ELZA
Não, Gil, não faça isto.
GIL
Então se comporte como uma pessoa adulta.
ELZA
Ai, meu DEUS, que angústia!
GIL
É questão de mais alguns minutos e tudo terminará em paz. Em paz ou em cinzas...
ELZA
Gil, você me ama?
GIL
Claro que amo.
ELZA
Gil, você me ama mesmo?
GIL
Elza, o que é isto?
ELZA
Gil, me abraça...
GIL
Não deixa que o nervosismo te domine senão a gente vai para o beleléo mais cedo.
ELZA
Gil, a nossa vida está em perigo, não percebe? A nossa vida está em perigo!
GIL
Está.
ELZA
Vamos tentar sair, Gil.
GIL
Não! Não e não!!!
ELZA
A minha cabeça está rodando com este calor.
GIL
Senta um instante.
ELZA
Creio que vou ter um passamento.
GIL
Isto passa...
ELZA
Liga o rádio, Gil... Não, não liga... Liga, estão irradiando... Não, é preferível não ouvir...
GIL
Enquanto você resolve se liga ou não liga eu vou ao banheiro... (Entra no banheiro, Elza liga o
rádio.)
LOCUTOR
A situação, ouvintes, é cada vez mais escabrosa... quero dizer, calamitosa. Da janela de um
apartamento do quinto andar surgem jatos de fumaça preta, aliás preta não, negra. O cidadão
que se jogou do quinto andar teve morte horrível.
ELZA
(Gritando) Gil, vem escutar.
LOCUTOR
O corpo ficou irreconhecível e já foi levado para o necrotério público que, os senhores e as
senhoras sabem, encontra-se em péssimo estado de conservação, não oferecendo o mínimo de
conforto aos seus usuários...
ELZA
(Alto) Gil, não aguento mais nem um minuto, vamos embora de qualquer maneira.
GIL
(Saindo do banheiro.) O que foi?
ELZA
Temos de sair. (Desliga o rádio, abre a porta de saída, solta um grito de terror; Gil tranca a
porta por onde também penetra fumaça sob clarões vermelhos.)
GIL
Eu não disse?
ELZA
Gil, meu querido, o fogo chegou aqui.
GIL
O fogo não, a fumaça, não exagera.
ELZA
O fogo vem atrás, Gil.
GIL
Calma, meu amor, calma.
ELZA
Gil eu vou chorar... Eu vou gritar... Eu preciso, eu preciso chorar e gritar.
GIL
Elza, você me contagia com este teu nervosismo.
ELZA
Você está apavorado, não está?
GIL
Não...
ELZA
Está sim, não finge.
GIL
Apavorado não é bem o termo. Estou começando a ficar meio desequilibrado...
ELZA
Gil, eu não suporto mais fazer nada... O que faço?
GIL
Vai ao banheiro...
ELZA
Gil. Tem pena de mim, me ajuda a fazer alguma coisa.
GIL
Reza... Reza, meu amor, faz uma promessa...
ELZA
É, só se for... (Segura a imagem, ajoelha-se, balbucia uma prece; Gil liga o rádio.)
LOCUTOR
Ao que tudo indica, ouvintes, são remotas as possibilidades de serem evitados maiores danos,
inclusive novas vítimas. Os encurralados hóspedes, digo, infortunados hóspedes do quinto
andar... Atenção, atenção... Alguém vai saltar novamente por uma das janelas do quinto andar...
Uma cena dantesca, ouvintes, indescritível.
(Ouve-se uma explosão.)
ELZA
Explosão?
GIL
É... explodiu.
ELZA
O que terá sido?
GIL
Como se pode saber? Vai ver que alguém pulou pela janela montado num barril de pólvora...
ELZA
Gil, é o fim, querido, você também não acha que é o fim?
GIL
Não sei, já não sei mais de nada...
ELZA
É o fim, eu sinto que é o fim. Diga que é, Gil.
GIL
Talvez.
ELZA
É o fim... é o fim... é a morte, Gil... é o fim da nossa vida...
GIL
(Começando a perder domínio dos nervos.) Meu amor, me ajuda a não desesperar. Tem fé,
cadê tua fé?
ELZA
Nós vamos morrer, Gil, é o fim de tudo, é a fatalidade...
GIL
Pensa em DEUS. Pede. Suplica. Implora. Ele te atenderá.
ELZA
Não vai atender, Gil, não vai atender.
GIL
Vai sim, você merece, é devota, DEUS não abandonará você.
ELZA
Não há salvação, Gil, não vê que não há salvação?
GIL
Há, para você há, pelo menos na outra vida. Eu é que estou liquidado, definitivamente
liquidado, eu e o meu livro.
ELZA
E eu, Gil? E eu? Morrer logo hoje?
GIL
Se você morrer irá para o céu, meu amor, se lembre disso, já é um consolo. E eu que irei para o
nada? E o meu livro que não irá para parte alguma?...
ELZA
Gil, em uma hora como esta você tem coragem de se preocupar mais com seu livro do que
comigo?
GIL
Esta é uma hora muito especial, Elza, talvez a gente esteja diante da morte.
ELZA
E é hora de pensar em livro?
GIL
É hora de pensar naquilo que se ama...
ELZA
E você não me ama, Gil?
GIL
Amo, Elza, amo.
ELZA
E como não concentra em mim a sua preocupação?
GIL
Você tem DEUS por você, O meu livro só tinha eu por ele.
ELZA
Gil, deixa de dizer bobagem, isto não é hora de ficar pensando em coisas indignas. Quem sabe
se o que está acontecendo não é um castigo pelas blasfêmias que você escreveu naquele livro?!
GIL
Você acha?
ELZA
Acho. Com uma literatura tão imunda, com uns poemas tão sujos, cheios de sacrilégios, você
não podia esperar um futuro feliz.
GIL
É? E se você sabia disso por que amarrou o teu futuro ao meu?
ELZA
Não sei, sei que estamos sendo castigados por sua causa. Você escreveu naquele livro que uma
aula podia ser mais importante que uma procissão, que um hospital podia valer mais do que
uma igreja.
GIL
Elza, você me ama ou me odeia? Hem? Ama ou odeia? Você me odeia, Elza, no fundo me
odeia porque ninguém acusa uma pessoa que ama diante da morte...
ELZA
E você, que prova de amor de amor me dá nesta hora esquecendo o meu destino para se
preocupar com a porcaria do seu livro? Quem sabe se este incêndio não foi mandado pela
Providência Divina para queimar o que você escreveu antes de ser publicado e envenenar
muitos corações? A única coisa que eu lamento é não ter seguido a minha vocação.
GIL
Eu também lamento isso...
ELZA
Ironiza, você é mesquinho, mas do sentimento de culpa não se livra.
GIL
(Perdendo afinal o domínio dos nervos e mergulhando, emocionalmente, na faixa histérica de
Elza.) Olha, eu ia ficar calado, porém você me massacrou tanto que vou desabafar. Se alguém
tem culpa desta situação trágica é você, ouviu? É você!!!
ELZA
Eu???
GIL
Sim!!! Você mesma!!! Foi você quem escolheu o quinto andar, eu queria o segundo. Pode
começar a sentir arrependimento ou remorso.
ELZA
Eu não disse que você é mesquinho? Agora quer se libertar do sentimento de culpa projetando a
responsabilidade para mim.
GIL
Eu não quero ―projetar‖ coisa nenhuma, sua Assistente Social beata e pretenciosa. O fato é que
tua carolice estragou por completo a nossa lua de mel, com essa besteirada de virgindade
oferecida a Santo Antônio. Estragou a nossa lua de mel como estragou o nosso namoro e o
nosso noivado, como estragou a minha obra poética que já podia estar sendo lida por toda a
cidade se você não exigisse que eu somente a publicasse depois do casamento para não
provocar escândalo na paróquia. Elza, quer saber mais o quê? Nós estamos à beira da morte, é a
ocasião de lavar a alma, de mandar para o inferno o fingimento, de rasgar o manto de mentira
que a vida vestiu em nós. Nem eu amo mais a você do que a minha poesia, nem você me ama
mais do que a tua religião. E porque somos duas criaturas frustradas, eu porque não me realizei
como escritor, você porque não se realizou como freira, e porque somos duas criaturas
desencontradas consigo mesmas, estamos em contradição uma com a outra, compreende? É
possível que este incêndio seja mesmo providencial. É possível que a morte seja para nós a
melhor alternativa.
ELZA
Você disse tudo o que desejava? Pois então...
GIL
Não, ainda não disse tudo. Eu agora sei que você nunca me amou. Você jamais me fez um
carinho, jamais teve um gesto meigo comigo, e ninguém ama sem ternura. Sempre me olhou
como um transviado, um pecador necessitado de absolvição. Casou para operar a minha
recuperação moral como esposa entendida em Psicologia, para fazer como leiga aquilo que
gostaria de fazer como religiosa e assim se justificar perante a si própria se perdoando por não
ter entrado para o convento. Porque não entrou de vez no convento, é que não consigo
compreender... Eu fui o seu eleito, Elza, mas eleito não para ser amado e sim para ser
purificado pelo toque mágico da sua virtude. E o triste é que isto me agradava. Agradava até a
pouco, quando eu ainda tinha esperança de viver.
ELZA
É bom que você desabafe porque eu...
GIL
Porque você também vai desabafar, eu sei. É o que nos resta: desabafar, neste terrível
abafamento de calor e fumaça. Somos duas ilhas humanas: duas porções de desespero cercadas
de fogo por todos os lados. Observa os clarões na vidraça: as labaredas vem se aproximando
como línguas de serpente.
ELZA
Você é um ingrato. Se a gente se salvar vou desfazer o nosso casamento.
GIL
É tarde. Não haverá a menor possibilidade de termos esta satisfação...
ELZA
Você é tão indigno quanto o seu livro.
GIL
Sou. Conscientemente. E assumo a minha indignidade enquanto você não assume a sua
santidade... há uma diferença básica entre nós, compreende? Uma diferença essencial.
ELZA
Eu sabia que você era um canalha. O que nunca julguei é que pudesse me maltratar em uma
hora como esta. Sou uma desgraçada. (Chora sem muita disposição.)
GIL
Não adianta se derramar em lágrimas. Continua me acusando, é isto que você precisa. Berra o
teu ódio, berra. Chama nome, diz palavrão, rebenta em fúria sagrada.
ELZA
Você é um cretino. Não é um homem, é um moleque.
GIL
Isto, começa a rebentar.
ELZA
É um patife!
GIL
Continua. Vomita tudo.
ELZA
Vomito, sim, porque tenho nojo de você. Nojo.
GIL
Obrigado pelo elogio.
ELZA
Você é um maluco, ouviu? Um maluco!
GIL
Sou. Mas a minha loucura é mais honesta que a tua impostura. Experimenta você também
enlouquecer, experimenta. A loucura é uma revelação. Este calor não esquenta o teu cérebro, os
teus miolos, o teu crânio? A minha cabeça eu já sinto como se fosse uma frigideira no fogão
aceso. Enlouquece você também, enlouquecer é sublime. Enlouquece comigo, faz um esforço
— rebenta! Quer que eu ajude você? Repara, o fogo vem vindo, o fogo é implacável, o fogo
dilacera, o fogo consome... (Ouve-se um grito.) Ouviste? Talvez seja uma criança que está
sendo assada na brasa para que eu seja castigado... Olha, os clarões do fogo, olha como o fogo
é vermelho, é vivo, olha as faíscas, parecem pássaros do Inferno voando... E nós também
podemos voar, podemos sair daqui voando nas asas da loucura...
ELZA
Por DEUS, você ficou mesmo louco?
GIL
Enlouquece também. Olha, louco a gente pode fazer milagre, em vez de ficar pedindo... (Ouve-
se mais explosões por entre o tumulto de vozes e os clarões rubros.) Escutaste? Trovões...
Gargalhadas celestes... O Santo não aceitou o pagamento da tua promessa... O céu está rindo da
tua virgindade...
ELZA
Gil, você está me contaminando com essa maluquice, você está me destruindo.
GIL
Vês? Santo Antônio começa a vir em teu auxílio. A mim, que sou impuro, ele já amparou. Faz
um esforço, não há outra saída — rebenta! Você sempre viveu coberta de gelo, petrificada no
gelo do misticismo, do preconceito. Quebra esse gelo com o martelo da loucura, quebra que
esse gelo jamais se dissolve, nem no calor de mil incêndios... Vamos, rebenta essa crosta fria
que te envolve, que te aprisiona, rebenta e te liberta... Não é possível esmagarmos a própria
natureza, não é possível sermos o que não somos eternamente, rebenta neste momento antes
que seja tarde. Elza, rebenta como um vulcão e atira para fora de tudo o que ferve dentro de ti
— rebenta!!!
ELZA
Por favor, Gil, chega! Já estou a ponto de sair correndo doida.
GIL
Se enlouqueceres não precisarás sair correndo, os loucos nunca correm... Que maravilha, Elza,
os loucos nunca fogem...
ELZA
Gil, para! Para!!!
GIL
Vamos, já estás quase no ponto, acredita em mim, não resiste, não recua, vamos, um pouco
mais, somente um pouco. Depois do primeiro passo tudo é fácil, basta seguir em frente de olhos
fechados e imaginação aberta ... A imaginação, usa a imaginação, despreza o raciocínio, o
raciocínio é traiçoeiro, só serve para enredar a gente da teia do artificial, do calculado, não
conduz a nada de grande e de belo... a imaginação é diferente. Elza, a imaginação corta as
correntes do impossível e nos solta no espaço azul do horizonte... Abre a porta da imaginação
com chave da loucura, rebenta, Elza, rebenta!!!
ELZA
Meu DEUS eu acabo louca, não aguento mais! Não aguento mais!!! (Tenta abrir a porta de
saída e outra vez a fecha para impedir a penetração da fumaça e do fogo; corre até a janela e
executa o mesmo jogo.)
GIL
Enlouquece, te mira no meu exemplo, vê como me sinto, observa a minha lucidez. Eu ainda
estou raciocinando. Mas entre as sombras de um raciocínio e outro a minha imaginação lança
fagulhas resplandecentes. Eu me sinto como Gil e como Santo Antônio... Numa fração de
segundo, mais do que isto, ao mesmo tempo, eu te odeio e te amo, eu estou aqui encarcerado,
neste quarto, e estou lá fora flutuando, no infinito.., presta atenção para mim, me olha por
dentro... Eu sou o que, um marido?... Sim e não... Eu sou um poeta?... Não e sim... (Som de
sirene.)
Ouves?
Sou um mendigo vagabundo, sangrando ferido, e vão me levando para o hospital.
A sirene da ambulância soa como um gemido de dor chorando por mim.
Talvez eu não seja internado por falta de documentos.
E pela notícia de jornal ninguém saberá o meu nome.
A sirene da ambulância soa como um gemido de dor chorando por mim...
(Rumor de vozes.)
Estás ouvindo?
Sou um orador político discursando em praça pública.
Vozes estimulantes me fazem continuar.
Já sequei todas as fontes da eloquência.
Meu verbo se arrasta como vento sem direção.
Erguendo a poeira de ideais utópicos.
E vozes estimulantes me fazem continuar...
(Explosões)
Ouviste?
Sou um general de Napoleão no campo de batalha.
O troar dos canhões saúda a minha bravura.
Fazendo estremecer bandeiras e cadáveres.
O triunfo se aproxima e a glória me espera.
A morte me rodeia e o futuro me chama.
O troar dos canhões saúda minha bravura.
(Clarões avermelhados.)
Viste?
Sou um mártir que vai ser imolado em circo romano.
A fogueira está acesa e crepitante.
Fanáticos se comprimem em febril expectativa.
Do alto da tribuna oficial César me contempla.
Seus olhos brilham como duas tochas flamejantes.
A fogueira está acesa e crepitante...

ELZA
Gil, eu estou sentindo uma coisa estranha dentro de mim.
GIL
Rebenta, Elza!
ELZA
Eu estou sentindo vontade de chorar e de rir ao mesmo tempo.
GIL
É um bom sinal. Faz as duas coisas juntas.
ELZA
Não zomba, Gil, até em relação a você eu estou sentindo duas coisas diferentes...
GIL
Ótimo, é o princípio da tua redenção.
ELZA
Alguma coisa está acontecendo dentro de mim. Alguma coisa está se partindo dentro de mim...
GIL
Deixa partir, deixa rebentar.
ELZA
Alguma coisa está surgindo na raiz do meu íntimo...
GIL
Deixa surgir, deixa tomar conta de ti.
ELZA
(Gira os olhos.) É esquisito.
GIL
O quê?
ELZA
(Mantendo os olhos fechados.) Estou me recordando de tudo...
GIL
Tudo o quê?
ELZA
Tudo que fui...
GIL
Quando?
ELZA
Desde menina...
GIL
E?
ELZA
Não apenas recordando... Estou revivendo...
GIL
Como?
ELZA
Não sei... Estou revivendo o passado...
GIL
Todo o passado?
ELZA
Todo...
GIL
Duma vez?
ELZA
Mais ou menos...
GIL
De que modo?
ELZA
Não sei dizer...
GIL
Tem de saber.
ELZA
Não sei...
GIL
Continua falando.
ELZA
É difícil explicar...
GIL
Não tenta explicar nada, continua falando.
ELZA
Falando como?...
GIL
Com a boca.
ELZA
Estou indo para longe...
GIL
Vai.
ELZA
Cada vez mais distante...
GIL
Vai.
ELZA
Você está me ouvindo?...
GIL
Estou.
ELZA
Está me entendendo?...
GIL
Não, mas não importa. Continua falando.
ELZA
Falando o quê?...
GIL
Palavras.
ELZA
É uma espécie de viagem que estou fazendo...
GIL
Viagem?
ELZA
Uma viagem ao contrário...
GIL
Sim...
ELZA
Do avesso.
GIL
Sim.
ELZA
Você entende?
GIL
Continua.
ELZA
Você está perto de mim?...
GIL
Estou.
ELZA
Está me acompanhando?...
GIL
Estou.
ELZA
Está me protegendo?...
GIL
Estou.
ELZA
Não me larga?...
GIL
Não.
ELZA
Não me critica?...
GIL
Não.
ELZA
Não me força seu quiser voltar?...
GIL
Não.
ELZA
Estou revivendo...
GIL
Revivendo o quê?
ELZA
Ideias...
GIL
E o que mais?...
ELZA
Fatos... Emoções...
GIL
Desenterra do esquecimento todas as tuas lembranças. Desenterra todas as sementes.
ELZA
Estou desenterrando...
GIL
Cava o chão da memória. Cava com a enxada da loucura. Cava sofridamente. Cava fundo.
ELZA
Estou cavando...
GIL
Cava sem medo!
ELZA
O medo... o medo... eu tenho medo...
GIL
Enfrenta o medo.
ELZA
Não posso enfrentar...
GIL
Pode. Enfrenta.
ELZA
Não posso. Está crescendo...
GIL
O quê?
ELZA
O medo...
GIL
Medo de quê?
ELZA
Do medo...
GIL
Enfrenta, o medo é a tua algema — rompe a algema!
ELZA
Não posso.
GIL
O medo é a tua grade — arromba a grade!
ELZA
Não posso...
GIL
Pode, Elza, rebenta!
ELZA
Gil...
GIL
Fala.
ELZA
Estou me sentindo mais nova...
GIL
Sim?
ELZA
Estou me sentindo mocinha...
GIL
Segue.
ELZA
Estou me sentindo no colégio...
GIL
Continua.
ELZA
Fazendo um bilhete...
GIL
Para quem?
ELZA
Para você...
GIL
Obrigado. Continua.
ELZA
Estou me sentindo menor...
GIL
Segue.
ELZA
Na aula...
GIL
Sim.
ELZA
De catecismo...
GIL
Sai logo dessa aula.
ELZA
Não...
GIL
Sai!
ELZA
Eu gosto...
GIL
Por quê?
ELZA
Porque... ele me perdoa... sempre me perdoa...
GIL
Perdoa o quê?
ELZA
Uma coisa grave.., um pecado mortal...
GIL
Que pecado?
ELZA
Não sei... não posso saber... não quero saber...
GIL
Tem que saber.
ELZA
Não quero!...
GIL
Tem de querer.
ELZA
Não!...
GIL
Sim!
ELZA
É horrível!...
GIL
O quê?
ELZA
Não sei, mas é horrível...
GIL
Continua.
ELZA
Estou diminuindo...
GIL
Prossegue.
ELZA
Estou me sentindo criança...
GIL
Prossegue.
ELZA
No bosque...
GIL
Sim.
ELZA
Correndo...
GIL
Corre.
ELZA
Árvores...
GIL
Sim.
ELZA
Minha irmã...
GIL
Sim.
ELZA
Linda...
GIL
Sim. Você também.
ELZA
Não, ela é mais linda do que eu...
GIL
Continua.
ELZA
Ela é mais inteligente do que eu...
GIL
Continua.
ELZA
Graciosa... Ela é mais querida do que eu...
GIL
Continua.
ELZA
As pedras...
GIL
Sim.
ELZA
Estamos subindo pelas pedras...
GIL
Sobe.
ELZA
É muito alto... estamos subindo...
GIL
Sobe.
ELZA
Escorrega...
GIL
Cuidado.
ELZA
Tirei o sapato, está liso...
GIL
Sim.
ELZA
Ela não quer...
GIL
Deixa.
ELZA
Não deixo não... Ela tem que ir lá em cima comigo... ela não é melhor que eu...
GIL
Continua.
ELZA
Ela está indo contra a vontade...
GIL
Sim.
ELZA
Estamos bem alto...
GIL
Sim.
ELZA
Gil!!!
GIL
O que foi?
ELZA
Ela escapuliu!... Meu DEUS, ela caiu lá embaixo!...
GIL
Hein?
ELZA
Escapuliu da minha mão... Eu não empurrei!... Não empurrei!...
GIL
Que desastre.
ELZA
Gil...
GIL
Diz.
ELZA
Acabou a viagem...
GIL
Não acabou.
ELZA
Tenho de voltar...
GIL
Não.
ELZA
Tenho sim...
GIL
Não!
ELZA
Você prometeu não me forçar...
GIL
É para o teu bem. Prossegue. Prossegue até rebentar com o teu medo.
ELZA
Você está do meu lado?...
GIL
Estou.
ELZA
Não está, não...
GIL
Estou sim.
ELZA
Eu não sinto...
GIL
Presta atenção.
ELZA
Eu estou me sentindo ao lado do meu pai...
GIL
É?
ELZA
Estou me sentindo em companhia de minha mãe...
GIL
Sim.
ELZA
Caminhando...
GIL
Então caminha.
ELZA
Muita gente andando atrás de nós... devagar...
GIL
Sim.
ELZA
Todo mundo calado...
GIL
Sim.
ELZA
Não ouço nada, só passarinho cantando...
GIL
Sim.
ELZA
Tem árvores de novo... Perto tem árvores...
GIL
Sim.
ELZA
Mas vejo...
GIL
O quê?
ELZA
Um portão de ferro...
GIL
Entra.
ELZA
Não posso...
GIL
Pode.
ELZA
Não...
GIL
É uma ordem: entra!!!
ELZA
É o portão do cemitério!...
GIL
Avança. Firme.
ELZA
Gil, tem compaixão de mim!...
GIL
(Pousa as mãos em cima dos olhos dela que ainda se conservam fechados.) Segue e olha tudo
de frente! Sem tremer!
ELZA
Uma sepultura... para minha irmã... minha única irmã... parece uma boneca loura... sorrindo em
silêncio... pálida como cera... os bracinhos cruzados sobre o peito... vestida de anjo... no caixão
todo branco...
GIL
(Afasta-se, sensibilizado.) É trágico demais...
ELZA
(Abre os olhos desmesuradamente com ar de espanto, deixando transparecer que toda a
estrutura do seu caráter oscila nos alicerces; por um instante ainda tenta equilibrar-se num
supremos esforço mas já é tarde para recompor as bases da personalidade; afunda então em
pranto compulsivo, avassalador.) Eu vou morrer... nós vamos morrer.., vamos morrer... nós
vamos morrer... eu vou morrer... você vai morrer... me perdoa, Gil... me perdoa tudo o que eu
fiz... me perdoa, Gil, me perdoa...
GIL
Não há nada para perdoar.
ELZA
Não, me perdoa... me perdoa por não ter deixado você publicar o livro...
GIL
Esquece isto.
ELZA
Gil, me perdoa por ter feito aquela promessa...
GIL
Calma, te acalma.
ELZA
Gil, meu amor, me perdoa por ter escolhido este apartamento no quinto andar...
GIL
Nada há para ser perdoado, você não fez por mal.
ELZA
Gil, meu querido, você tem razão... manda por mim tudo para o inferno...
GIL
Elza, o que é isto?
ELZA
Gil, me perdoa por não ter sabido te amar...
GIL
Elza...
ELZA
Acredita, Gil... eu te amo.. eu te amo...
GIL
Sim.... Compreendo...
ELZA
Eu te amo mais do que tudo na vida...
GIL
Eu sei... Eu creio...
ELZA
Não sabe não, Gil, eu te amo mais do que a religião...
GIL
Meu amor, eu...
ELZA
Eu te amo mais do que todas as igrejas... Eu juro, Gil, eu juro...
GIL
Não precisa jurar.
ELZA
Gil, acredita, eu sempre fui apaixonada por você.
GIL
Sim, Elza.
ELZA
Eu sempre achei você genial, Gil... Eu adoro as poesias que você escreve, todas elas...
GIL
Obrigado, meu amor, muito obrigado.
ELZA
Gil, você me ama? Nós vamos morrer, não me engana.
GIL
Amo sim, Elza, amo.
ELZA
Gil, nós vamos morrer, não vamos?
GIL
A menos que aconteça um milagre, vamos morrer sim, meu amor.
ELZA
Se depender de milagre nós morreremos. Já não acredito em mais nada.
GIL
É preciso acreditar, é preciso...
ELZA
Não, já não acredito, já não posso acreditar.
GIL
Elza, meu amor, reúne as tuas energias e reza. Quem sabe se DEUS não existe mesmo?...
ELZA
Se existisse não tinha nos abandonado... Você tem razão, Gil, a vida é um absurdo, a vida não
tem sentido.
GIL
É... Talvez a vida não tenha sentido... mas a morte tem sentido... DEUS deve existir...
ELZA
Não existe, é tudo invenção.
GIL
Elza, não estou te reconhecendo. Reza, busca a tua fé e reza. Não deixa escapar a esperança,
ainda estamos respirando, não deixa a esperança sumir...
ELZA
Já não há lugar para a esperança.
GIL
Então não há lugar para mais nada...
ELZA
Gil, nós vamos morrer. Nós vamos morrer!
GIL
Pelo menos vamos morrer rezando...
ELZA
É inútil.
GIL
Mas é bonito... pelo menos é bonito...
ELZA
(No auge do desespero.) É bonito para você que viveu a sua vida. Eu não vivi a minha. Você se
divertiu, você bebeu, você brincou. Você fez tudo o que quis. Eu não, eu fiz mais jejuns do que
passeios, eu deixei para depois as minhas alegrias, eu me mortifiquei com penitências para
resistir a tentação das coisas boas, eu gastei a minha sorte sem comprar nada, eu me esqueci de
mim na vida.
GIL
Vamos rezar, eu rezo com você.
ELZA
Não, eu já rezei de sobra, eu agora estou é revoltada, revoltada contra tudo!
GIL
Elza, vamos rezar... Eu confesso que... Estou sentindo uma vontade imensa... Uma necessidade
imensa de rezar...
ELZA
E eu estou sentindo uma necessidade imensa de mandar tudo a... (Pelo movimento mudo dos
lábios percebe-se o palavrão.)
GIL
Elza! Pelo amor de DEUS!
ELZA
Gil, chegou a minha vez, você enlouqueceu de propósito mas eu estou enlouquecendo sem
querer, você enlouqueceu de mentira mas eu estou enlouquecendo de verdade.
GIL
Olha, meu amor, você está perturbada, eu acho que vou começar a rezar sozinho...
ELZA
Chegou a minha vez de rebentar, Gil, de REBENTAR!!!
GIL
Elza, você...
ELZA
Gil, você me ama, não ama?
GIL
Claro, eu sempre fui também apaixonado por você, eu sempre adorei o teu espírito religioso,
vamos rezar...
ELZA
Gil, me beija!!!
GIL
Sim, mas agora?...
ELZA
Gil, me beija!!!
GIL
Elza, o momento não é próprio... (Ele fica sem jeito; os rumores e clarões atingem maior
intensidade.)
ELZA
É a morte. Chegou o fim.
GIL
Chegou. Já não é mais possível qualquer ilusão...
ELZA
Gil me BEIJA!!! (Gil a beija ligeiramente.)
GIL
Pronto, meu amor, agora vamos rezar.
ELZA
Assim não, Gil, me beija com fervor. Com fervor não, com instinto, com toda a força do teu
instinto, com toda a brutalidade do instinto.
GIL
Elza, dessa vez você é que deve me perdoar... eu não tenho a menor condição de beijar você de
outra maneira... Nós estamos diante da morte... eu só sinto o desejo de rezar...
ELZA
(Puxando-o para a cama.) Vem, querido eu sou tua, me possui, eu sou tua, me possui!... (Gil
livra-se dela, desloca-se para a penteadeira, imobiliza-se em frente ao espelho, num arroubo
místico.)
GIL
Olha para mim, meu amor, eu estou transfigurado...
ELZA
Vem, Gil, deita comigo vem buscar o que eu guardei para ti tanto tempo. (Gil vai até ela
levando a imagem.)
GIL
Toma o teu Santo Antônio, te ajoelha com ele e oferece tua alma a DEUS... eu não sei rezar
ajoelhado olhando para santo, vou rezar em pé olhando para mim mesmo... (Posta-se diante do
espelho, fitando a própria imagem.)
ELZA
(Arranca do corpo a camisola branca e ajoelha-se em cima da cama.) Vem, Gil, vem! Vem
que eu sou tua! Vem que eu sou tua! Vem me possuir toda, inteira! Vem logo!
GIL
(Em êxtase.) Não interrompe, meu amor... Eu... Eu estou vendo DEUS em mim...
ELZA
Gil, por piedade, vem! O meu corpo está incendiado! O meu corpo está ardendo! O meu corpo
está em fogo! Vem!
GIL
Não posso...
ELZA
Gil!
GIL
(Olhar fixo no espelho.) Elza, DEUS existe... Agora eu compreendo... agora eu sinto... DEUS
existe.
ELZA
Vem, Gil, vem me possuir! Vem que eu não posso mais esperar, vem que eu estou desvairada!
Eu estou DESVAIRADA!!!
GIL
Impossível, meu amor, já não me pertenço... (Olhando-se ainda no espelho.) DEUS existe...
Por mais incrível que pareça, DEUS existe!!!


FIM