RESUMO

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma revolução democrática da justiça. 3.
ed. São Paulo: Cortez, 2007


Introdução
O autor se propõe a fazer uma análise das instituições jurídicas em relação ao
acesso a ao tratamento que recebem destas as camadas mais pobres da sociedade,
afirmando que a questão da igualdade jurídica nunca passou de uma fantasia.
A partir da observação das instituições jurídicas na América Latina, mormente
no Brasil, e em Portugal (além de pequenas incursões em outros países),
Boaventura lança a questão central de seu trabalho: “como resolver os problemas da
justiça quando algumas das soluções apresentadas (liberalismo, socialismo)
fracassaram ou foram esquecidas?” (p. 6)
A esse questionamento, são apontadas duas posições, a saber: aceitar o que
existe como existe ou submeter as instituições a uma crítica radical, repensando as
concepções dominantes em direito. O autor opta pela segunda posição, tomando por
base em seu exercício mental três premissas: uma crítica ao monopólio estatal e
científico do direito, um questionamento em relação ao caráter despolitizado do
direito e uma ampliação da noção de direito como instrumento de transformação
social.
Aponta ainda o elemento balizador na elaboração do livro: “a consciência
cosmopolita da existência de diferentes imaginários e práticas do direito no mundo e
o inconformismo em face do desperdício da experiência da luta por direitos mais
justos, mais acessíveis e mais inteligíveis.” (p. 8)
Apresenta como justificativa números de relatórios da ONU, que apontam
para a impressionante marca de 1,7 bilhões de pessoas em situação de pobreza
extrema.

O protagonismo dos tribunais e as transformações do Estado
Até pouco tempo, os tribunais eram tidos como órgãos de pouca
representatividade, sendo o judiciário considerado o mais fraco dos poderes, ficando
os juízes longe dos olhos da sociedade e da imprensa.
Como a evolução das sociedades e com a maior visualização dada a
julgamentos em países europeus e americanos, surgiu um fenômeno intitulado
expansão global do poder judiciário, que trouxe os tribunais para o centro da
discussões sobre direitos humanos etc. e fez com que o judiciário adquirisse
relevância política e entrasse em confronto com outros poderes, em especial com o
executivo.
Essa proeminência do judiciário manifesta-se em três campos: no garantismo
dos direitos, no controle da legalidade e dos abusos do poder e na judicialização da
política.
O novo protagonismo dos tribunais está relacionado, também, com o
desmantelamento do Estado intervencionista, pois, com o surgimento de um novo
Estado, tornou-se necessário um novo judiciário. Assim sendo, o protagonismo do
judiciário se dá por duas vias: um novo modelo para garantir as regras de mercado e
os contratos privados, ao passo que se precarizavam os direitos econômicos e
sociais da população.
No Brasil, a Constituição de 1988 foi a grande responsável pelas mudanças,
ampliando o rol dos direitos já existentes e com a criação dos chamados direito de
terceira geração: meio ambiente, qualidade de vida e direitos do consumidor.
A mesma constituição deu autonomia ao Ministério Público, importante órgão
no processo de democratização do acesso à justiça, e propôs um modelo público de
assistência jurídica e promoção do acesso à justiça.
A partir desse momento, o judiciário passou a intervir em ações como
garantista de direitos, como no caso dos direitos alcançados pelos homossexuais.
Todavia, é nos casos de corrupção nos quais o judiciários é mais ativo.
Esse novo papel, trouxe à tona uma questão extremamente problemática para
o judiciário: o judiciário luta contra a corrupção externa e contra a corrupção interna,
sendo que no caso da América Latina os casos de corrupção judicial saltam mais
aos olhos.
A luta do judiciário contra a corrupção externa ocorre por duas vias: uma de
baixa intensidade, quando membros isolados são investigados, e outra de alta
intensidade, quando parte da classe política, não conseguindo resolver seus
problemas com campo da política, levam suas querelas ao judiciário.
Outra grande área de atuação do novo judiciário consiste em resolver
conflitos que seriam da política, mas que – ou por falta de interesse ou por falta de
coragem – não são resolvidos pelos políticos, levando a um deslocamento da
legitimidade do Estado: do executivo e legislativo para o judiciário, criando, assim,
altas expectativa em relação ao terceiro, expectativas estás que são, em grande
parte, correspondidas.
Num modelo neoliberal de desenvolvimento, a tarefa fundamental do judiciário
é garantir a certeza e a previsibilidade das relações jurídicas, a propriedade privada
e os contratos. Para que isso ocorra, é preciso fazer grandes investimentos, seja na
dignificação das profissões jurídicas, na criação de modelos organizacionais que
tornem o sistema mais eficiente e acessível, seja nas reformas processuais e na
formação de magistrados e funcionários.

As políticas do judiciário e a politização do direito
A pergunta com a qual se inicia este capítulo é: qual a contribuição do direito
para uma sociedade mais justa?
Para esse questionamento, elencam-se duas respostas: a fraca, que consiste
em se discutir a importância do direito para garantir o desenvolvimento econômico; e
a forte, que indaga, principalmente, qual o papel do direito para a emancipação
social.
Nesse contexto, pode-se identificar, segundo o autor, dois grandes campos
no judiciário: o primeiro, o campo dos negócios, que reclama um judiciário capaz de
garantir os direitos das relações comerciais, chamado hegemônico; e o segundo, o
contra-hegemônico, o dos cidadãos, que progressivamente tomam consciência de
seus direitos e buscam no judiciária garantias para eles.
O segundo campo traz consigo uma nova ideia, a de que as classes
populares, através de movimentos organizados, cada vez mais se conscientizam e
seus direitos e por eles lutam, trazendo para o judiciário uma nova demanda: a dos
movimentos sociais, como o MST, por exemplo.
Além dessa demanda, há outra, a que o autor chama de demanda suprimida,
consistindo nos casos em que o cidadão tem consciência de seus direitos, mas se
sente impotente para reivindica-los quando são violados. Para satisfazer e procura
suprimida, aponta-se como caminho a criação de uma outra cultura jurídica, uma
outra formação dos magistrados e outras faculdades de direito.
Nessa concepção, o acesso à justiça faria com que ela própria modificasse
para dar uma resposta a esse acesso. Nesse sentido, o autor aponta os vetores
principais dessa transformação:
 profundas reformas processuais;
 novos mecanismos e novos protagonismos no acesso ao direito e à
justiça;
 o velho e o novo pluralismo jurídico;
 nova organização e gestão judiciárias;
 revolução na formação profissional, desde as faculdades de direito até
a formação permanente;
 novas concepções de independência judicial;
 um relação do poder judicial mais transparente com o poder político e a
mídia, e mais densa com os movimentos e organizações sociais;
 uma cultura jurídica mais democrática e não corporativa.
Caso não assuma as suas responsabilidades diante do novo quadro sócias,
para o autor, o judiciário continuará sendo cada vez mais irrelevante tanto social
quanto politicamente.

As reformas processuais e a morosidade
Segundo o autor, a morosidade acarreta ao sistema alguns pontos negativos,
como a perda progressiva da confiança no judiciário e a tomada de decisões de
forma não uniformes. Para resolver esse problema apontam-se algumas
alternativas, a saber: informatização, reapetrechamento do sistema, automação,
novas tecnologias de comunicação e informação, criação de tribunais especiais para
pequena litigação em massa, reformas processuais etc.
Aponta-se, ainda, dois tipos de morosidade: a sistêmica, que decorre do
próprio sistema e de suas deficiências, e a ativa, que decorre na interposição, por
vários atores e por vários motivos, de impedimentos para que o processo tenha um
desfecho, ou seja, são casos em que, intencionalmente, juízes, funcionários e outros
impedem o andamento do processo e consequente tomada de decisões.

O acesso à justiça
Usa-se, metaforicamente, e com base em Cappelletti e Garth, a existência de
três vagas no movimento de acesso à justiça. A primeira é caracterizada pela defesa
e promoção dos mecanismos de apoio judiciário aos cidadão carenciados, a
segunda procura encoraja a defesa dos interesses coletivos e difusos em juízo, a
terceira procura expandir a concepção clássica de resolução judicial de litígios,
desenvolvendo um conceito amplo de justiça em que os tribunais fazem parte de um
conjunto integrado de meios.
As defensorias públicas
O autor cita o exemplo do Brasil, que apresenta um modelo de defensoria
potencialmente promissor, uma vez que busca a universalização do acesso através
de profissionais formados e recrutados para esse fim, defende interesses difusos e
coletivos, diversifica o atendimento para além da resolução judicial de conflitos, com
mediação de acordos, resoluções extrajudiciais e educação para os direitos.
Embora defensor das defensorias públicas, o autor elenca alguns problemas
a serem corrigidos no sistema brasileiro:
1) as características estruturais, organizacionais e funcionais das
defensorias são muito variáveis de estado para estado;
2) verifica-se um desnível na participação no orçamento da defensorias
públicas em face do poder judiciário de do ministério público;
3) a estrutura da defensoria pública da União é pequena;
4) os quadros das defensorias estaduais também são reduzidos.
Acrescenta, ainda, como ponto positivo, a criação das defensorias públicas
especializadas.
As custas judiciais
O maior problema das custas no Brasil é o fato de serem muito díspares de
um estado para o outro. Nesse sentido, Boaventura aponta os principais problemas
a serem resolvidos: a) carência de uniformidade nos conceitos, critérios, modelos de
custas; b) discrepância dos valores cobrados nas diversas unidades federativas; c)
falta de transparência da legislação relativa a essa matéria; d) políticas regressivas
em alguns estados, de forma a onerar em maior grau as classes economicamente
inferiores; e) distorção entre os valores cobrados em 1ª e 2ª instância. Além disso, o
autor verificou em suas pesquisas que, quanto mais pobre é o estado, maiores são
as custas processuais, num desrespeito à questão do acesso à justiça.
As promotoras legais populares
A metodologia, neste caso, consiste em socializar, articular e capacitar
mulheres nas áreas do direito, da justiça e nomeadamente no combate à
discriminação de gênero, organizando cursos para orientá-las sobre os direitos que
têm assegurados e sobre as situações em que eles são violados.
As assessorias jurídicas universitárias populares
No âmbito das faculdades de direito brasileiras, os serviços jurídicos têm sido
feitos com base em duas propostas: a tradicional, através de escritórios-modelo; e a
inovadora, através das assessorias jurídicas universitárias populares.
Os escritórios-modelo estão mais centrados na preparação técnico-
burocrática do estudante e orientados para as ações individuais. Já as assessorias
jurídicas populares estão mais próximas aos movimentos sociais, em defesa de
direitos coletivos.
Capacitação jurídica de líderes comunitários
Refere-se a programas, governamentais ou não, de capacitação de líderes
comunitários para que atuem como mediadores de conflitos. Eles atuariam em casos
que não podem ser levados ao judiciário.
Advocacia popular
Esta atividade está voltada sobretudo para a efetivação de direitos coletivos e
foi consolidada, no Brasil, acompanhando as transformações políticas das últimas
décadas, com o envolvimento de organizações ligadas à Igreja, aos sindicatos e às
universidades, emergindo também como um projeto político.
Identificam-se, pois, três vetores nessa atividade: o compromisso com as
causas populares; a necessidade frequente de formação política; e a solidariedade.
Contra o desperdício da experiência
A grande questão aqui é a capacitação jurídica do cidadão, pois a linguagem
do direito é uma linguagem técnica e ininteligível para o cidadão comum.

Inovações institucionais
Ressalta-se neste tópico a valorização de experiências e estratégias que
fomentem a aproximação entre justiça e cidadania, dando atenção especial ao
ministério público.
Aponta-se, pois, para uma necessidade de democratização da instituição.
Tem-se como o novo marco institucional brasileiro a instituição da justiça itinerante,
da justiça comunitária, dos meios alternativos de resolução de litígios, da mediação,
da conciliação judicial e extrajudicial, da justiça restaurativa e dos juizados especiais.
No âmbito do sistema de justiça administrativo, ressaltam-se as caravanas da
justiça.
Os juizados especiais
Anteriormente chamados de “juizados de pequenas causas”, a partir de 1988,
passaram a ser denominados juizados especiais.
Estão divididos em estaduais, com competência para causas com valor até 40
salários mínimos, e federais, até 40 salários mínimos.
Em relação à organização, subdividem-se em Juizados Especiais Cíveis e
Juizados Especiais Criminais.
Como principal problema do juizados especiais, aponta-se a diferenciação no
tratamento dispensado aos seus juízes, em comparação aos juízes da justiça
comum, uma vez que os juizados especiais resolvem um número maior de causas e
tem um orçamento bem menor do que a justiça comum.
O Estado como campo de experimentação política
O Estado moderno, marcado pelo capitalismo transnacional e pela disputa
entre os diversos grupos de interesse e das demanda sociais, se se quer
democrático, deve se assentar sobre dois princípios: a garantia de que as diferentes
soluções institucionais multiculturais desfrutam de iguais condições para se
desenvolverem segundo a sua lógica própria e a garantia de padrões mínimos de
inclusão que tornem possível a cidadania ativa necessária a monitorar, acompanhar
e avaliar os projetos alternativos. Surge, então o Estado-articulador.

O ensino do direito e a formação profissional
Nesse novo modelo de Estado e de justiça, o ensino de direto assume um
papel preponderante para as mudanças. É preciso que se mude a concepção de
ensino de uma educação, segundo o mestre Paulo Freire, bancária, para uma
educação na qual o estudante seja o protagonista, e que não se dê mais valor à
formação inicial do que à permanente. Além disso, nos curso de direito, em geral, os
professores são profissionais de outras áreas, sem nenhuma formação pedagógica
e que encaram a docência com uma atividade complementar, secundária.
Nesse sentido, no caso brasileiro, o PROUNI e o sistema de cotas estão
contribuindo para que todas as classes tenham acesso a ensino jurídico, incluindo,
pois, elementos sociais no ensino de direito.
A cultura técnico-burocrática manifesta-se, segundo o autor, de múltiplas
formas: prioridade do direito civil e penal; cultura generalista; desresponsabilização
sistêmica; o privilégio do poder; refúgio burocrático; sociedade longe e
independência com autossuficiência.
Tal cultura tem como pressuposto o fato de que o conhecimento do sistema
jurídico é suficiente para obtenção de êxito no processo ensino-aprendizagem,
dissociando completamente a prática pedagógica dos princípios sociais.
No mesmo caminho, as escolas de magistratura correm o risco de
reproduzirem as faculdades, primando pelo ensino técnico, dissociado do caráter
social.

Os tribunais e os movimentos sociais
As profissões jurídicas sempre foram, no Brasil e em outros países, profissões
de elite. Os tribunais são controlados por um pequeno grupo de juízes de alto
escalão que pouco têm de contato com os movimentos sociais e com as causas
populares. Nesse sentido, os tribunais brasileiros favorecem o espírito corporativista,
o que, na prática, isola ainda mais o judiciário do restante da população.
Magistrados que não estão familiarizados com os formas de preconceito
racial, por exemplo, tendem a proferir decisões no sentido de que determinada
práticas discriminatórias não consistiriam preconceito racial, pois não conheceriam
as implicações que elas apresentam para aquele que sofreu o preconceito.
O mesmo acontece em relação a ações do MST, do INCRA e de outros
órgãos representativos, sejam eles oficiais ou não.

O novo e o velho pluralismo jurídico
Embora vivamos sob um sistema monista e tutelado pelo Estado, pelas
explanações feitas até agora, pudemos verificar que na prática isso não ocorre de
fato. Opera-se no Brasil o que o autor chama de diversidade sociojurídica, operando
ocasionando transformações de diferentes dimensões.
Mesmo que não reconhecido oficialmente, as sociedades são jurídica e
judicialmente plurais. Nelas circulam vários sistemas paralelamente ao estatal,
sendo que em algumas situações o oficial é deixado em segundo plano.

Os tribunais a mídia
Tradicionalmente, os tribunais sempre estiveram afastados da sociedade.
Ritos específicos e complexos fizeram com que o povo se afastasse por não
entender e por se sentir intimidado por tal.
Com o advento da democratização e constante busca por transparência das
instituições oficiais, os tribunais foram obrigados, no bojo das mudanças, a manter o
relacionamento estreito com a sociedade e com a mídia, por esta traz consigo um
elemento novo e bastante poderoso: o povo.
Todavia, este namoro com a mídia fez com que figuras do judiciários se
projetassem midiaticamente perante a sociedade, fazendo as vezes do paladino da
justiça, da moral e dos bons costumes. Tal prática é extremamente nociva, pois se
tende a sobrepor a própria imagem à do judiciário, com aparições voltadas
exclusivamente para a promoção de uma futura carreira política.

A cultura jurídica e a independência judicial
Para que se opere uma modificação eficaz em qualquer sistema jurídico, é
necessário não apenas a promulgação de leis que se pensem resolver o problema, é
preciso que se mude a cultura jurídica como um todo, pois qualquer reforma que não
mostre aos povo que o judiciário é mais uma instituição para lhe garantir o bem
estará fadada ao fracasso.
É preciso que as reformas ocorram de forma articulada, começando pela
formação jurídica e seleção e preparação dos juízes até a democratização do
acesso à justiça e às informações pertinentes ao sistema jurídico. Só assim a
população poderá ver no judiciário um poder voltado para a garantia de seus
direitos.