Revista CEJ, Brasília, n. 36, p. 64-66, jan./ mar.

2007
1 05
MEMÓRIA DA J USTIÇA FEDERAL
JUSTIÇA E MEMÓRIA*
Marga Inge Barth Tessler
1 INTRODUÇÃO
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO
Par a ef ei t o d e co n t ext u al i zar a ges-
t ão d o cu m en t al , a gest ão d a m em ó r i a d a
Ju st i ça Fed er al , ci t o u m f at o o co r r i d o n o
an o d e 2002. Ao r eal i zar u m t r ab al h o
acad êm i co p ar a o cu r so d e esp eci al i za-
ção em Di r ei t o San i t ár i o , n a Un i ver si d a-
d e d e Br asíl i a, p r et en d en d o d i sco r r er
so b r e o p r i n cíp i o d a p r ecau ção n a su a
d i m en são vo l t ad a à saú d e p ú b l i ca, t en t ei
l o cal i zar u m p r o cesso an t i go d e q u e h a-
vi a t i d o n o t íci as m u i t o an o s an t es, q u an -
do ai nda advogava. Trat ava-se de ação
o r d i n ár i a d e i n d en i zação m o vi d a p o r ví-
t i m as do rem édi o “ Tal i dom i da” cont ra a
União e os laboratórios estrangeiros. Lem -
b r ava d a var a f ed er al o n d e o p r o cesso
h avi a t r am i t ad o , d o ad vo gad o cego q u e
def endi a as vít i m as, o Dr. Wal kíri o Ughi ni
Ber t o l d o , e sab i a q u e, após m ai s de dez
an o s d e t r am i t ação, f o r a en cer r ad o p o r
u m aco r d o n o q u al a Un i ão p asso u a
p en si o n ar o s au t o r es, t en d o o s l ab o r at ó -
r i o s p r o d u t o r es d o m ed i cam en t o si d o
excl uídos da l i de. Poi s bem , o t rabal ho
ac ad ê m i c o f o i r e al i z ad o so b o u t r o
en f o q u e, p o i s o p r o cesso n ão f o i l o cal i -
zad o n em n a var a, n em n o ar q u i vo . M e-
ses ap ó s, ch ego u ao m eu gab i n et e, l o ca-
l i zad o en t r e o s p r o cesso s sem m o vi m en -
t ação em o u t r a var a cível .
O o co r r i d o l evo u -m e à cer t eza d e
que deveríam os fazer al go m ai s pel a con-
ser vação d o acer vo h i st ó r i co d e q u e so -
m o s gu ar d i õ es. Pr o p u s o q u e ch am ei d e
“ Pr o j et o Mem ó r i a” d o Tr i b u n al Regi o n al
Fed er al d a 4ª Regi ão , i n d i can d o o r ef er i -
d o p r o cesso e o u t r o s m ai s p ar a m el h o r
co n ser vação . Lo go ap ó s, f u i agr ad avel -
m en t e su r p r een d i d a co m o l an çam en t o
d e u m p r o gr am a d e gest ão d o cu m en t al
p el o Co n sel h o d a Ju st i ça Fed er al
1
.
2 DA AUSÊNCIA DE REGISTROS À
IMPORTÂNCIA DA GESTÃO
DOCUMENTAL: O PODER ARCÔNTICO
2
Stuart B. Schwartz, ao pesqui sar para
escrever a obra “ Burocracia e Sociedade
no Brasil Colonial”
3
, no prim eiro prefácio,
refere que os magistrados profissionais do
império português não constituemum
grupo fácil para o historiador lidar. Ci nco
anos de pesquisa não conseguiram des-
vendar qualquer papel pessoal ou corres-
pondência particular dos m agistrados. La-
m enta que os estudos sobre a m agistratura
sejam virtualmente inexistentes.
Belm iro Valverde Jobim Castor
4
vê o
Brasil com o a “ pátria da im precisão” , criti-
cando a nossa pobreza de dados e i nfor-
m ações, isto é, o pouco apreço pela gestão
docum ental e sua análise. A criação de um
program a de gestão docum ental insere-se
em um conjunto de m edidas para trazer a
lum e, agora e no futuro, aspectos da vida
institucional do Poder Judiciário Federal e
da nossa sociedade.
No processo hi stóri co para fi rm ar-se
com o Poder, o Judi ci ári o preferi u sem pre
um cert o di st anci am ent o da soci edade,
certa opacidade e discrição, resultando daí
ser um Poder desconhecido e m al com -
preendido. O público em geral desconhe-
ce os tesouros guardados, não tem acesso
a eles, o que não é dem ocrático
4,5,6,7,8,9,10
.
Aos poucos inicia-se a escrever sobre o
Poder Judiciário e a Justiça Federal, sua his-
tória e evolução no Brasil. Exemplo disso é a
obra de Vladimir Passos de Freitas: “ Justiça
Federal: histórica e evolução no Brasil”
11
.
Na apresentação da obra antes referi-
da, Passos de Freitas destaca o que os dois
historiadores tam bém haviam percebido,
diz ele: emvisita a livrarias nos Estados
Unidos da América, impressionava-me a
quantidade de livros sobre o Judiciário,
sua história, seus juízes, seus julgamentos.
Acomparação era inevitável: no Brasil não
damos valor a este tema.
Em boa hora o Consel ho de Justi ça
Fed er al vem co m est a p r o p o st a p ar a
internalizar na Instituição o que nossa m e-
m ória tem de valor. Resgatar a rica história
da Justiça Federal quase perdida. Relata
Passos de Freitas que sequer se sabe quem
foram todos os juízes federais no prim eiro
período de sua existência. Os processos te-
riam sido perdidos na burocracia do Minis-
tério da Justiça ou nos arquivos públicos
estaduais para onde foram rem etidos na
década de 1930. Há um pioneiro levanta-
mento feito pelo Ministro Fontes de Alencar,
quando Di ret or do Consel ho da Just i ça
Federal, o Repertório Bibliográfico da Justi-
ça Federal editado em 2000.
3 A ADMINISTRAÇÃO JUDICIÁRIA E
A GESTÃO DOCUMENTAL
A adm i ni st ração públ i ca e em espe-
ci al a ad m i n i st r ação j u d i ci ár i a é r esp o n -
sável p el a p r eser vação , d i sp o n i b i l i zação
e gest ão de docum ent os e processos hi s-
t ó r i co s p ar a a so ci ed ad e. O s d an o s e
am eaças ao p at r i m ô n i o cu l t u r al são o b -
j et o d e esp eci al d i sp o si ção d a Co n st i t u i -
ção Fed er al d e 1988, ar t . 216, § 4º . A Lei
n. 8.159/ 91 est abel eceu, no art . 1º ser
d ever d o Po d er Pú b l i co a gest ão d o cu -
m ental e a proteção especi al a docum en-
t o s d e ar q u i vo s co m o i n st r u m en t o d e
ap o i o à ad m i n i st r ação , à cu l t u r a, ao d e-
senvol vi m ent o ci ent íf i co e com o el em en-
t o s d e p r o va e i n f o r m ação . N o ar t . 20,
est ão d ef i n i d o s o s d ever es d o Po d er Ju -
d i ci ár i o Fed er al n o sen t i d o d e r eco l h er ,
p r eser var e f acu l t ar o acesso ao s d o cu -
m en t o s so b su a gu ar d a. Negl i gen ci á-l o s
o u p er m i t i r q u e se d et er i o r em é cr i m e
p r evi st o n a Lei n . 9.605/ 98, ar t . 62, a Lei
d o s Cr i m es e i n f r açõ es am b i en t ai s.
4 O HOMEM É O QUE LEMBRA
No r b er t o Bo b b i o , n a o b r a “ O Tem -
p o d a M em ó r i a”
12
, nos sensibiliza ao di-
zer q u e o homemé o que lembra, so-
m o s o q u e l em b r am o s. Di z el e q u e o
t em p o d a m em ó r i a segu e u m cam i n h o
i n ver so ao d o t em p o r eal quanto mais
vivas as lembranças que vêmà tona de
nossas recordações, mais remoto é o
* Co n f er ên ci a p r o f er i d a n o Sem i n ár i o “ Resgat e d a M em ó r i a d a Ju st i ça Fed er al – 40 an o s d a Lei n .
5.010/ 66” , r eal i zad o p el o Cen t r o d e Est u d o s Ju d i ci ár i o s d o Co n sel h o d a Ju st i ça Fed er al , n o s d i as 11
e 12 d e d ezem b r o d e 2006, n o Cen t r o Cu l t u r al Ju st i ça Fed er al , n o Ri o d e Jan ei r o -RJ.
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tempo emque os fatos ocorreram. O
que consegui m os desencavar desse poço
sem f undo é apenas um a ínf i m a parcel a
d a h i st ó r i a d e n o ssa vi d a, i n cen t i van d o -
n o s ao d i zer : n ad a d e p ar ar , d evem o s
co n t i n u ar a escavar , cad a vu l t o , gest o ,
p al avr a o u can ção q u e p ar eci am p er d i -
d o s p ar a sem p r e, u m a vez r een co n t r a-
d o s, aj u d a-n o s a so b r evi ver .
5 O QUE É MEMÓRIA?
Os gregos tinham uma divindade de-
nominada “ Memória, Mnemosine” , silencio-
sa e introspectiva, guardiã da m em ória hu-
mana. Com Zeus teve nove filhas, as musas,
protetoras de todas as artes, da dança, do
canto à fala. A fábula grega nos ensina que
é da memória que o espírito humano extrai
suas criações
13
.
6 O QUE É AFINAL MEMÓRIA?
Par a Ivan Izq u i er d o
14
, prof essor de
Neuroquím ica da UFRGS, a m em ória é a
aquisição, a form ação, a conservação e a
evocação de i nform ações. A evocação é
também chamada de “ recordação, lembran-
ça” . Na aquisição, só se “ grava” aquilo que
foi aprendido, só lem bram os o que grava-
m os. O passado contém o acervo de da-
dos, o único que possuíamos, e individual-
m ente é o tesouro que nos perm ite traçar
linhas a partir dele, atravessando o efêmero
presente e fazendo-nos chegar ao futuro
15
.
Izquierdo ressalta que há dois tipos
de m em ória. Um a breve e fugaz, que serve
para “ gerenciar a realidade” . É a memória
de trabalho, não deixa traços e não produz
arquivos, é processada pelo córtex pré-fron-
tal e depende da ati vi dade el étri ca dos
neurônios. A falta de sono e a depressão
perturbam a nossa m em ória de trabalho.
Já a m em ória declarativa ou proce-
dural regi stra fatos, podem os decl arar e
relatar como as adquirimos. Entre elas, des-
tacam-se as memórias episódicas que são
aut obi ográf i cas: a l em brança do di a da
m inha posse com o juíza federal no extinto
Tribunal Federal de Recursos, por exemplo.
O nosso conhecim ento do Direito Proces-
sual, o perfume dos lírios são memórias
sem ânticas. Já a m em ória procedural im -
plica dem onstrar algo, com o, por exem plo,
andar de bicicleta. A estrutura responsável
por elas é o hipocam po, e quando falham
as memórias declarativas, fala-se em amné-
sia. Primingé a memória evocada por meio
de “ di cas” , est ím ul os, é um f enôm eno
neocortical, o córtex pré-frontal e as áreas
associativas. As memórias ainda podem ser
classificadas pelo tem po que duram , dize-
m o s en t ão q u e são m em ó r i as d e cu r t a
d u r ação , m em ó r i as d e l o n ga d u r ação e
m em ória rem ota. Envolvendo as m em ó-
rias, temos o fenômeno do esquecimento,
sem ele não conseguiríamos viver. Há ainda
a repressão e a m istura de m em órias. O
uso contínuo da m em ória desacelera ou
reduz o déf i ci t f unci onal que sobrevém
com a idade ou a doença, as funções cere-
brais são um exemplo típico de que a fun-
ção faz o órgão.
7 AS BASES DO PROJETO
MEMÓRIA
16, 17
O acervo de memória de cada homem
o transforma emindivíduo.
O Projeto Mem ória tem com o bases
ações de integração da gestão docum ental
com a gestão cultural, e da política de pre-
servação do pat ri m ôni o hi st óri co com a
pesquisa científica. Todos os esforços são
direcionados para o resgate da história do
Direito e do Poder Judiciário Federal, em
m om entos diversos da história brasileira,
com perguntas específicas, a fim de contar
e proteger inform ações valiosas tais com o:
Com o eram executadas as diferentes
funções da Justiça Federal?
Como se organiza o Poder Judiciário?
Com o se processou a construção da
autonom ia do Poder Judiciário Federal?
Com o a m agistratura federal partici-
pou da vida política e cultural da 4ª Região
e do País?
Com o se dava o acesso da população
à Justiça Federal?
Com o se conform ou a j uri sprudên-
cia nos diversos tem pos e espaços?
Quais os processos que com overam
a sociedade?
Os ei xos operaci onai s do Proj eto Me-
m ória Institucional estão centrados na po-
l ít i ca ar q u i víst i ca ad eq u ad a, n o ger en-
ci am ent o r esponsável e na or gani zação
d o acer vo d a i n st i t u i ção , t áb u l as d e
tem poral i dade, pl ano de cl assi fi cação de
docum entos, edi tai s de el i m i nação etc.,
todas m atéri as referentes à gestão docu-
m ental. A linha de pesquisa é a análise das
conseqüênci as da prát i ca j udi cant e para a
soci edade. A hi stóri a oral , com entrevi s-
tas, preserva as vivências individuais. Um a
f acet a m ui t o i m port ant e é a dos grandes
processos ou processos i m port ant es, para
serem obj et o de pesqui sa, auxi l i ando a
co m u n i d ad e acad êm i ca e ed u can d o a
sociedade em geral. Nesta faceta, houve o
acatam ento da i ndi cação fei ta, e a AO n.
2820986, au t u ad a em 27/ 10/ 1976, co m
doze vol um es e 4.062 l audas, f oi obj et o
da pri m ei ra si nopse e provi dênci as para
preservá-l o para a posteri dade.
Al ém d a p r eser vação d e d o cu m en -
t o s i m p o r t an t es p ar a a h i st ó r i a d a so ci e-
dade, obj et i va a geração de conheci m en-
t o , aj u d an d o a f o r m ar a m em ó r i a co l et i -
va, p o i s, assi m co m o o h o m em é o q u e
l em b r a, a m em ó r i a d a i n st i t u i ção é a co -
l et ânea de m em óri as i ndi vi duai s e de re-
gi st r o s h i st ó r i co s, q u e co n st r o em a i d en -
t i d ad e d a Ju st i ça Fed er al .
O cul t i vo e a preservação da m e-
m ó r i a q u er i n d i vi d u al , q u er i n st i t u ci o n al ,
é u m m o vi m en t o q u e p r et en d e r esp o n -
der à questão exi stenci al do senti do da
vi da. Aquel e que não com preende o que
est á aco n t ecen d o à su a vo l t a n ão se l o -
cal i za. Aquel e que não tem a di m ensão
d o p assad o n ão ch ega a co n st r u i r u m
f ut uro. Especi al m ent e aos j ovens, no pre-
sent e et erno, i ncent i vados a pensar que
“ a vi d a é ago r a”
18
, o o n t em é p assad o e
n i n gu ém sab e co m o ser á o am an h ã, é
i m p o r t an t e cu l t i var a m em ó r i a d o p assa-
d o p ar a d ar sen t i d o e d i r eção à vi d a. Ao
Po d er Pú b l i co cab e a m an u t en ção d a
m em ó r i a i n st i t u ci o n al p o r d ever d e o f í-
ci o , d ever l egal m en t e i m p o st o .
8 A CULTURA E AS ARTES COMO
FILHAS DA MEMÓRIA
As artes, a cultura, e a geração de pers-
pectivas para o futuro são filhas da m em ó-
ria. Exemplifico o que a gestão documental
do nosso acervo hi stóri co no futuro pode-
rá produzi r e contri bui r dem ocrati cam en-
te para a construção da sociedade, em es-
pecial, na gestão do patrim ônio cultural.
Grandes realizações do espírito hu-
m ano repousam sobre m em órias, ci tando
como exemplo o cineasta Federico Fellini,
cujo filme “ Amarcord” venceu o Festival de
Cannes, em 1973, e ganhou o Oscar de
m el h o r p el ícu l a est r an gei r a. O en r ed o
centra-se nas recordações que o autor tem
de sua infância em Rimini. Centrado em
rem iniscências, criado em cim a das cenas
de Fellini em “ A Doce Vida” , e a famosa
cen a d e An i t a Ekb er g e M ast r o i an i n a
“ Fontana di Trevi” , veio o filme “ Elza e Fred” .
Pura recordação, fruto da m em óri a.
Há o b r as l i t er ár i as co n st r u íd as ex-
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cl u si vam en t e so b r e r egi st r o s d o cu m en -
t ai s d o Po d er Ju d i ci ár i o . St even Ozm en t ,
p r o f esso r d e h i st ó r i a an t i ga em Har var d ,
escr eveu o r o m an ce h i st ó r i co “ A f i l h a
d o Bu r go m est r e”
19
, em f ace d e r egi st r o s
d o cu m en t ai s d e u m p r o cesso j u d i ci al
o co r r i d o em 1525, em Sch wab i sch Hal l ,
n a Al em an h a.
Outro exem plo de relato histórico es-
crito com base em um processo judicial é a
obra “ Um Genocídio em Julgam ento” . O
p r o cesso Tal aat Paxá n a Rep ú b l i ca d e
Weimar
20
. O processo Talaat Paxá foi instau-
rado inicialm ente para julgar um crim e co-
m um de hom icídio a tiro disparado pelo
estudante armênio Salomon Teilirian con-
tra o ex-ministro do interior da Turquia, Paxá,
transform ando-se no prim eiro julgam ento
por crime de genocídio. Teilirian, julgado
pelo júri da com arca de Berlin, foi absolvi-
do. Há registros dos depoimentos e deba-
tes prom ovidos entre acusação e defesa.
Entre nós, o Supremo Tribunal Federal
fez publicar, em 2004, “ Crime de racismo e
anti-semitismo: um julgamento histórico do
STF” , com o julgado do HC n. 82.424/ RS. A
obra contém o inteiro teor dos votos, envol-
vendo o caso de publicação de um livro que
fazia apologia de idéias racistas. Com a divul-
gação, o julgamento torna-se acessível ao
público em geral, alheio ao mundo jurídico.
O famoso caso dos “ Irmãos Naves” gerou
um romance e um filme.
Eis aqui alguns dos prodígios da con-
servação e gerenciamento documental, que
deve estar no conhecim ento vivo da insti-
tuição. Com relação à Justiça Federal, re-
co r r o a Dwo r ki n
21
para lem brar que ele, ao
ap r esen t ar o Di r ei t o co m o u m a p r át i ca
social argum entativa, com para a atividade
dos juízes à escrita de um “ rom ance em
série” . Com respeito aos juízes federais nor-
te-am ericanos, diz que vivificam com no-
vos esforços a sua herança política, sendo
os “ contistas morais” do país.
9 CONCLUSÃO
Há de se dest acar a necessi dade de
cu l t i var a m em ó r i a i n st i t u ci o n al d a Ju st i -
ça Fed er al , a f i m d e m an t er i n t act a a m e-
m ó r i a d o Ju d i ci ár i o , p at r i m ô n i o n aci o -
n al . Co m o ver so s d a p o et i sa So p h i a
An d er sen , p r est o h o m en agem a t o d o s
q u e, co m esf o r ço e t r ab al h o , co n st r u í-
r am a n o ssa h i st ó r i a.
Intacta Memória
22
do Judiciário
Se nós chamássemos, uma por uma as
coisas que vivenciamos, talvez que a
vida regressasse, vencida pelo amor com
o que a lembramos.
REFERÊNCIAS
1 O program a de gest ão docum ent al do CJF
t r o u xe ext r ao r d i n ár i o s f r u t o s co m o a r est au -
ração da anti ga sede do STF no Ri o de Janei -
ro, levada a cabo pelo TRF da 1ª Região, sob
a Presidência do hoje Ministro Arnaldo Esteves
Lima e empenho pessoal do Des. Paulo Freitas
Barata, Di retor do Centro Cul tura da Justi ça
Federal ( CCJF) .
2 DERRIDA, Jacques. Mal deArquivo: um a i m -
pressão Freudi ana. Ri o de Janei ro: Rel um e
Dum ará, 2001. O vocábulo deriva do grego
arkheion, que si gni f i ca um a casa ou endere-
ço, a resi dênci a dos m agi st rados superi ores,
o s ar co n t es q u e er am r esp o n sávei s p el a se-
gurança dos docum entos oficiais tinham tam -
b ém a i n cu m b ên ci a h er m en êu t i ca so b r e o
arquivado.
3 SCHWARTZ, St u ar t B. Burocracia e socieda-
deno Brasil colonial. São Paul o: Perspecti va,
1979. Rel at a a Suprem a Cort e da Bahi a e
seus juízes: 1609-1751.
4 CASTOR, Bel m i ro Val verde Jobi m . O Brasil
não é para amadores: Est ad o , Go ver n o e
Burocracia na terra do jeitinho. 2. ed. Curitiba:
Travessa dos Edi t ores, 2004.
5 NEQUETE, Len i n e. O Poder Judiciário no Bra-
sil a partir da independência. Po r t o Al egr e:
Sulina; Ajuris, 1973. 2v.
6 PEREIRA, Mi l ton Lui z. Justiça Federal: prim ei-
ra i nstânci a. São Paul o: Sugestões Li terári as,
1969.
7 M EIRA, Jo sé d e Cast r o . Cr i ação d o s TRFs:
est r u t u r a e r ep r esen t ação . Revista CEJRN,
Natal, v. 1, n. 1, 1994.
8 LEAL, Vi ctor Nunes. Justi ça Ordi nári a Federal .
Revista Brasileira de Estudos Políticos, Bel o
Hori zonte, n. 34, p. 49-82, j ul . 1972.
______. Coronelismo, enxada e voto( o m uni-
cípi o no regi m e representati vo no Brasi l ) . SP:
Al fa-Om ega, 1975.
9 RODRIGUES, Lêda Boechat. História do Su-
premo Tribunal Federal. Ri o de Janei ro: Ci vi -
lização Brasileira, 1991. 4 t.
10 VELLOSO, Carl os Mári o da Si l va. Ministros do
Tribunal Federal de Recursos. Brasília, 1981.
11 FREITAS, Vl adi m i r Passos de. Justiça Federal:
hi stóri co e evol ução no Brasi l . Curi ti ba: Juruá,
2003.
12 BOBBIO, Norberto. O tempo da memória:
d e sen ect u t e e o u t r o s escr i t o s au t o b i o gr áf i -
co s. Ri o d e Jan ei r o : Cam p u s, 1 9 9 6 . O
relembrar é uma atividade mental que não
exercitamos comfreqüência porque é
desgastante ou embaraçosa. Mas é uma
atividade salutar. Na rememoração reen-
contramos a nós mesmos e a nossa identi-
dade, não obstante os muitos anos trans-
corridos, os mil fatos vividos.
13 BORGES, Jorge Lui s. Elogio da Sombra: En -
saio autobiográfico. Porto Alegre: Globo, 1971.
Somos nossa memória, somos esse quimé-
rico museu de formas inconstantes, esse
montão de espelhos rotos.
14 IZQUIERDO, Ivan. Memória. Po r t o Al egr e:
Ar t m ed , 2006.
15 BOBBIO, Norberto. O tempo da memória:
d e sen ect u t e e o u t r o s escr i t o s au t o b i o gr áf i -
co s. Ri o d e Jan ei r o : Cam p u s, 1 9 9 6 . O
relembrar é uma atividade mental que não
exercitamos comfreqüência porque é
desgastante ou embaraçosa. Mas é uma
atividade salutar. Na rememoração reen-
contramos a nós mesmos e a nossa identi-
dade, não obstante os muitos anos trans-
corridos, os mil fatos vividos.
16 A trajetória do Tribunal Regional Federal da 4ª
Região lançada na publicação “ Pequena Grande
Hi stóri a – TRF 4ª Regi ão – 15 anos – 1989-
2004” , em 30 d e m ar ço d e 2004, p el o Pr e-
si dent e Desem bargador Vl adi m i r Passos de
Frei tas. Texto: Leonardo Schnei der, Desi gn e
Edição Eletrônica: Sim one Guardiola e Edição
de Fotografia: Sylvio Sirangelo. Disponível em :
< http:\ \ http:/ / www.trf4. gov.br/ trf4/ m em orial/
paginas/ principal/ 15anosPDF.pdf> .
17 Adm irável relato sobre a recuperação do acer-
vo arqui vísti co do TRF da 2ª Regi ão está na
obra “ Autos da Mem óri a e hi stóri a brasi l ei ra
no Arquivo da Justiça Federal, coordenada
por Maria da Ponte Franco Sam paio, Maria do
Socorn C. Branco e Patríci a Langhi do TRF da
2ª Regi ão. Ri o de Janei ro, 2006.
18 Exi st e um a peça publ i ci t ári a que i ncent i va o
u so d e u m d et er m i n ad o car t ão d e cr éd i t o e
o consum o i m edi ato, que concl ui por di zer:
“ Porque a vi da é agora” .
19 An a Bü sch l er er a f i l h a d o Bu r go m est r e
Herm ann Büschl er e f oi expul sa de casa aos
29 anos por seu com port am ent o ousado. O
pai descobri u que m anti nha doi s rom ances,
um com um nobre e out ro com um caval ei -
ro. Acusando o pai de abandono e negl i gên-
ci a, poi s foi acorrentada em casa, processou-
o. Passou m et ade da vi da l i t i gando cont ra o
pai e i rm ãos para ret om ar a part e de seus
bens. Morreu aos 51 anos, ent re os depoi -
m en t o s d as d u as ú l t i m as t est em u n h as. O
processo f oi à Suprem a Cort e Im peri al .
20 Um gen o cíd i o em j u l gam en t o : o p r o cesso
de Talaat Paxá na República de Weim ar. São
Paul o: Paz e Terraz, 1994. Prefáci o: Paul o
Sér gi o Pi n h ei r o . Ap r esen t ação : Var u j an
Burmaian. Der Völkermord an den Armeniern
vor Gericht: d er Pr o zess Tal aat Pasch a.
Göttingen/ Viena. Sociedade para Povos amea-
çad o s ( Gesel l sch af t f ü r b ed r o h t e Vö l ker )
1880/ 1921.
21 DWORKIN, Ronald. O império do Direito. São
Paul o: Marti ns Fontes, 1999.
22 ANDERSEN, Sophi a de Mel l o Breyner. Obra
poética. 3. ed. Lisboa: Cam inho, 1998.
Amemória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos.
Se é passado ou futuro onde a perdemos
Marga Inge Barth Tessler é d esem -
bargadora f ederal do Tri bunal Regi onal
Federal da 4° Região-RS.