FLAMBAGEM VISCO-PLÁSTICA DE TUBOS SOB IMPACTO

Marcílio Alves
e
Giancarlo Barbosa Micheli
Universidade de São Paulo
Departamento de Engenharia Mecatrônica e de Sistemas Mecânicos
Grupo de Mecânica dos Sólidos e Impacto em Estruturas
www.mcca.ep.usp.br/ppf/labimpacto/

RESUMO
O presente trabalho objetiva apresentar resultados experimentais a cerca do comprimento de
transição que marca os fenômenos de flambagem global e progressiva. Os corpos de prova
consistem em tubos de alumínio, os quais foram sujeitos a cargas axiais de impacto. Os
resultados indicam que o comprimento crítico que marca a transição entre modos mais e
menos eficientes de absorção de energia de impacto é fortemente dependente da velocidade de
impacto e da temperatura. Assim, a presente investigação pode auxiliar no projeto de
longarinas para maximizar sua capacidade de absorção de energia de impacto. Os testes foram
realizados em equipamento próprio, projetado e construido no Brasil. Detalhes operacionais
do mesmo serão apresentados como forma de justificar a importância de certos parâmetros
dinâmicos do equipamento de modo a garantir uma boa qualidade dos testes experimentais.

INTRODUÇÃO
Entre os fatores técnicos para a redução dos acidentes automobilísticos, vários são os aspectos
de segurança veicular a serem considerados. Em geral, automóveis devem ser
adequadamente projetados para oferecerem segurança ativa, ou seja, o automóvel deve ser
um elemento controlável pelas ações do motorista. Entretanto, em situações de emergência, o
comportamento estrutural de um veículo acaba por ser o grande responsável por minimizar ou
maximizar os danos às pessoas e ao patrimônio, dependendo das condições do acidente e da
capacidade da estrutura veicular de absorver a energia de impacto.
Muitas das pesquisas em impacto estrutural se concentram em determinar o comportamento
de estruturas simples, tais como vigas, placas circulares e rectangulares, e tubos de parede
fina. É interessante observar que o colapso axial de tubos é um dos mecanismos básicos
usados para a absorção de energia de impacto (Reid, 1993). Os estudos se concentram na
determinação analítica (Alexander, 1960; J ones, 1989), experimental (Andrews et al., 1983)
e/ou numérica (Karagiozova e J ones, 2000) de vários aspectos presentes no colapso de
tubos, tais como a carga máxima e de pico, os valores médios de desaceleração, os modos de
deformação, etc… Em particular, a indústria automotiva se preocupa cada vez mais com a
performance de veículos em situações de impacto. Estruturas tubulares são cada vez mais
usadas para absorver a energia de colisão (McGregor, 1993; J ones, 1989), reduzindo assim
Figura 1: Colapso estável progressivo de um tubo de secção transversal U.
as acelerações sofridas pelos passageiros, paralelamente à sua função de suporte estrutural.
O mecanismo ideal de absorção de energia de impacto através de tubos consiste no seu
sanfonamento progressivo e controlado. Este fenômeno, chamado de flambagem dinâmica
progressiva (J ones, 1997), ocorre na faixa de velocidade de acidentes automobilísticos.
Mesmo assim, para estas velocidades médias, efeitos de inércia são importantes (Karagiozova
et al., 2000; Su et al., 1995), com a resposta dinâmica do material influenciando a resposta
global da estrutura. Estruturas veiculares devem se deformar progressivamente para
minimizar os danos aos passageiros e/ou carga. Figura 1 apresenta uma típica estrutura
tubular que se deformou de modo progressivo.
Contraponde-se à flambagem dinâmica progressiva, sob certas condições, tubos esbeltos
podem colapsar de modo global, onde apenas algumas rótulas plásticas são formadas. Neste
mecanismo de colapso, a absorção de energia de impacto é muito pouco eficiente. Como
existe uma tendência da indústria automobilística ao uso de estruturas esbeltas, é importante
se determinar como os parâmetros geométricos, as condições de contorno e iniciais
determinam o modo de colapso da estrutura. Deste modo pode-se, ainda na fase de projeto,
propor uma concepção estrutural que colapse de modo progressivo com o fito de absorver
uma maior energia de impacto.
Alguns mecanismos de absorção de energia de impacto em tubos são razoalvemente
compreendidos (Reid, 1993; J ones e Abramowicz, 1985). Abramowicz e J ones (1986)
discutem modos de colapso assimétricos que podem causar inclinação de uma coluna sob
impacto axial, levando a um colapso global da mesma. No caso da flambagem progressiva
dinâmica, Abramowicz e J ones (1986) sugerem que, para tubos circulares de parede fina, esta
ocorre quando a força de impacto axial é menor que a carga estática de colapso, calculada
usando a tensão dinâmica de escoamento devido a efeitos da taxa de deformação.
Nos vários métodos de análise referentes ao fenômeno da flambagem dinâmica progressiva
(Alexander, 1960; Lindberg e Florence, 1987), as soluções são geralmente dependentes dos
parâmetros geométricos espessura e diâmetro do tubo (Singace, 1995), das condições iniciais
e de contorno (Murase e J ones, 1993) e do método de fabricação. Por outro lado, o aumento
da velocidade de impacto causa o fenômeno de flambagem dinâmica plástica (Lindberg e
Florence, 1987), onde efeitos de inércia devem ser considerados. Os parâmetros que
determinam a transição entre as flambagens dinâmica progressiva e a dinâmica plástica são
conhecidos, pelo menos para tubos circulares (Murase e J ones, 1993).
Conforme discutido por J ones (1997), adicionalmente à faixa de transição entre a flambagem
dinâmica plástica e a progressiva, deve existir também uma região de transição entre a
flambagem global e a dinâmica progressiva. Portanto, tubos de mesma secção transversal
podem apresentar colapso global ou dinâmico progressivo, de acordo com, entre outras
variáveis, a velocidade de impacto, o comprimento do tubo e as condições de contorno.
Efeitos de inércia foram comprovados no estudo teórico-experimental descrito por
Karagiozova et al. (2000). Figura 2, por exemplo, apresenta claramente que diferentes massas
Figura 2: Influência da massa de impacto no modo de flambagem de um tubo de alumínio engastado na base e
simplesmente apoiado no topo. A – compressão axial uniforme, B - flambagem plástica dinâmica, C1 - início da
flambagem plástica dinâmica seguida da flambagem progressiva, C2 - flambagem progressiva, d - máxima
energia que pode ser absorvida por uma casca feita de material não sensível à taxa de deformação, e - máxima
energia que pode ser absorvida por uma casca feita de material sensível à taxa de deformação (Karagiozova et al.
2000).
de impacto causam fenômenos de instabilidade diversos. Isto nos leva a explorar a transição
entre a flambagem global e progressiva ao se variar a velocidade de impacto. De fato,
resultados experimentais mostrados na sequência indicam que a velocidade de impacto exerce
uma influência significativa na escolha estrutural entre o modo progressivo e global de
colapso.

PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL
O equipamento básico usado durante este programa experimental consiste em um martelo de
queda livre projetado e construido na Universidade de São Paulo.
O equipamento é composto por duas vigas I com quase 10m de comprimento que estão
posicionadas ao longo das paredes do prédio. Essas vigas são fixadas transversalmente no
topo por outras duas vigas U. As vigas I são fixadas ao longo de seu comprimento por
espaçadores que formam uma estrutura rígida. As vigas I são suportadas em seu extremo
inferior por quatro cantoneiras de tal modo que existe um espaço útil de movimentação de
peças em testes e do operador bastante amplo.
-2 0 2 4 6
0
2
4
T(kJ )
lnG(kg)
A
B
C
1
C
2


Vaughan [14]
d
e
Na face das vigas I repousam guias retificadas montadas rigorosamente na posição vertical.
Por tais guias pode deslizar a massa de impacto, a qual varia de 10 a 200kg, conforme a
montagem escolhida.
O conjunto de massas pode ser então movimentado por um acionamento eletro-
mecânico, o qual é controlado eletronicamente via um variador de freqüência, por
um computador sob supervisão de programa adequado.
Uma vez que a massa esteja posicionada na altura desejada, o operador dispara o sistema ao
mandar um sinal do teclado do PC para o sistema eletrônico. Um sistema de potência envia
então um sinal para um relê que aciona um mecanismo preciso de liberação da massa de
impacto.
A estrutura em teste repousa sobre uma bigorna que precisou ser projetada de modo a ter uma
grande massa e assim evitar perdas de energia para as fundações. Uma massa total de em
torno de 3700kg foi o resultado de uma bigorna montada em concreto e placas de aço.
A Figura 1 oferece uma visão panorâmica do martelo.




Figura 3: Visão panorâmica do martelo de queda livre.
Tubos de alumínio com diâmetro externo de 50,8mm e espessura de parede de 2mm foram
submetidos a testes de impacto axial bem como a carregamentos a baixa velocidade, do tipo
quasi-estáticos. É importante observar que o alumínio é uma material pouco sensível à taxa de
deformação a temperatura ambiente.

RESULTADOS

Como já indicado, o objetivo foi investigar a influência da velocidade de impacto no
fenômeno de transição entre a flambagem progressiva e global. Para tanto, uma das
alternativas seria a de variar o comprimento do tubo, verificando o tipo de fenômeno presente.
De fato, isto foi feito para o caso quasi-estático. Tubos de diferentes comprimentos foram
submetidos a testes de compressão em uma prensa hidráulica convencional. Figura 4
apresenta os resultados, os quais indicam um comprimento de transição
Figura 4: Dados experimentais da região de transição entre flambagem progressiva e global em tubos sob
carregamento axial quasi-estáticos.
Testes adicionais foram então realizados para o caso de impacto. Em vez de se variar o
comprimento dos tubos para uma velocidade fixa, trabalhou-se com comprimentos fixos de
tubos variando-se a velocidade. A razão é que a velocidade é um parâmetro que pode ser
facilmente mudado pois assume-se que é válida a equação
onde H é a altura da massa de impacto em relação ao região mais alta do tubo. O controle
eletrônico da posição do martelo permitiu um ajuste fácil e preciso da massa de impacto,
permitindo a realização dos testes de modo mais simples. Optou-se então por três
comprimentos diferentes de tubos, L=360mm, L=500mm, L=650mm. Os testes estão
sumarizados na Figura 5, onde se percebe a acentuada influência da velocidade de impacto no
fenômeno de transição. A massa de impacto foi fixada, para os testes, em 120kg. Deste modo,
quanto maior a velocidade de impacto, maior o comprimento de transição entre a flambagem
progressiva e global.
mm 315 = cr L
gH V 2 =
0.0
100.0
200.0
300.0
400.0
L
cr
(mm)
Progressive
Global


Figura 5: Influência da velocidade no modo de flambagem de tubos circulares. Massa de impacto de 120kg.

Uma outra série de testes foi realizada objetivando-se estudar a influência da temperatura no
modo de transição. Medidas do perfil de temperatura ao longo to comprimento do tubo, feitas
com termo-pares, indicaram que a temperatura mantém-se uniforme conquanto que se apóie o
tubo sob um isolante térmico.
Foi também medido o comportamento da temperatura ao longo do tempo, verificando-se que
o coeficiente de troca de calor era aproximadamente constante. Para se estimar a temperatura
no momento exato do teste sem a necessidade de fixação de termo-pares no tubo, os quais se
danificariam com o impacto, mediu-se o tempo entre a retirada do tubo do forno ou de
reservatório para gelo seco e o momento do evento de impacto.
Assim procedendo, foi medido a velocidade de transição entre a flambagem global e
progressiva para tubos de L=360mm, Figura 6.

Figura 6: Influência da temperatura na velocidade de transição entre flambagem global e progressiva. Massa de
impacto de 120kg e tubos de L=360mm.

0.0
0.5
1.0
1.5
2.0
2.5
0.0 5.0 10.0 15.0
V
0
(m/s)
L/L
cr
global
progressive
4.0
5.0
6.0
7.0
8.0
9.0
10.0
11.0
12.0
13.0
-100 0 100 200 300 400 500
Temperatura do Tubo (°C)
Global
Progressivo
DISCUSSÃO
O fato mais relevante constatado por este programa experimental envolvendo o impacto axial
de tubos foi a forte influência tanto da temperatura como da velocidade de impacto no colapso
dos tubos.
Figura 2, extraída de Karagiozova et. al (2000) indica a importância da inércia em determinar
o modo de colapso de cascas cilíndricas. Entretando, a simulação numérica discutida naquele
trabalho utilizou elementos axisimétricos e, portanto, o colapso global, sendo não-simétrico,
não pode ser captado pelo modelo.
Interessante notar que poucos são os trabalhos explorando a transição entre a resposta global e
progressiva de tubos. De fato, Abramowicz e J ones (1997) foram os autores que exploraram
recentemente este fenômeno, sugerindo um modelo simples para prever o comprimento de
transição entre a resposta global e progressiva. Entretanto, o modelo destes autores é incapaz
de captar a influência do material e da velocidade de impacto. Isto aponta para a necessidade
de estudos tanto teóricos como experimentais para que este fenômeno possa ser previsto.
Percebendo a falta de dados nesta área, optou-se por este estudo inicial experimental visando
obter uma base de dados razoável sobre o fenômeno. Inclui-se aí como investigação também
o efeito da temperatura. Interessante notar que um aumento da temperatura faz com que
aumente o comprimento de transição. Pode-se pensar que uma maior temperatura implica em
um material com menor tensão de escoamento e mais sensível à taxa de deformação. Desta
maneira pode se verificar indiretamente que quanto menor a tensão de escoamento maior o
comprimento crítico de transição, ou seja, quanto mais fraco é o material mais estável é o tubo
feito dele.
Quanto à velocidade, ela apresenta uma influência muito importante no colapso dos tubos. O
comportamento da curva obtida sugere um significativo aumento do comprimento crítico de
transição entre flambagem global e progressiva, mesmo para pequenas variações de
velocidade de impacto.
Conforme sugerido pela Figura 2, seria interessante investigar a influência da massa de
impacto fixando-se, por exemplo, a velocidade de impacto e variando-se o comprimento do
tubo. Mas, fundamental aqui é proceder com esta investigação através de simulação numérica
e teórica, o que certamente representa um desafio importante.

CONCLUSÃO
A presente investigação explorou o fenômeno de transição entre a flambagem global e
progressiva de tubos sujeitos a carregamentos de impacto e a diferentes temperaturas.
Observou-se uma importante influência da temperatura e da velocidade de impacto no modo
de instabilidade. Os testes demonstraram a importância de se proceder a uma análise termo-
mecânica que leve em consideração efeitos de inércia e da resposta do material. Investigações
adicionais estão sendo consideradas através da análise numérica dos testes realizados.


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AGRADECIMENTO: Parte deste projeto foi realizado com verba da Fundação de Amparo à Pesquisa
do estado de São Paulo, processo n. 99/03559-0.