Eric Voegelin

A existência
do homem
na sociedade
política é a
existência
histórica; e a
teoria políti-
ca, desde
que penetre
no terreno
dos princípi-
os, deve ser,
ao mesmo
tempo, uma
teoria da his-
tória. Por
conseguinte, os capítulos que se seguem, referentes ao prolema
central da teoria política, o da representa!"o, estender-se-"o além
da descri!"o das chamadas institui!#es representativas, ocupan-
do-se da nature$a da representa!"o como a forma pela qual a socie-
dade política passa a existir e atuar na história. Além disso, a an%lise
n"o se interromper% nesse ponto, mas prosseguir% na explora!"o dos
símolos pelos quais as sociedades políticas interpretam-se a si mes-
mas como representantes de uma verdade transcendente. &inal-
mente o con'unto desses símolos n"o representar% uma mera lista-
gem, prestando-se, pelo contr%rio, a um esfor!o de teori$a!"o, como
uma sucess"o compreensível de fases num processo histórico. (ual-
quer investiga!"o sore a representa!"o, desde que suas implica-
!#es teóricas se'am consistentemente desdoradas, tornar-se-%, na
verdade, uma )loso)a da história.
*"o é usual, ho'e em dia, levar a discuss"o de um prolema teórico
até o ponto em que os princípios da política se encontram com os
princípios da )loso)a da história. +ste procedimento n"o pode, no
entanto, ser considerado como uma inova!"o em ciência política; se-
ria antes uma restaura!"o, se se tem em conta que os dois campos,
ho'e cultivados separadamente, estavam indissoluvelmente ligados
A NOVA CIÊNCIA POLÍTICA –
INTRODUÇÃO
,A-. /0, 10/0 &2A*3-43.2A55. 6+-7+ 8, 3.,+*9:2-.
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entanto, ser considerado como uma inova!"o em ciência política; se-
ria antes uma restaura!"o, se se tem em conta que os dois campos,
ho'e cultivados separadamente, estavam indissoluvelmente ligados
quando a ciência foi fundada por Plat"o. +sta teoria integral da políti-
ca nasceu da crise da sociedade helênica.
As horas de crise, quando a ordem da sociedade fraque'a e se desin-
tegra, s"o mais propícias ; considera!"o dos prolemas fundamen-
tais da existência política em perspectiva histórica que os períodos
de maior estailidade relativa. Pode-se di$er que, desde ent"o, a
concep!"o estreita da ciência política como a descri!"o das institui-
!#es existentes e a apologia dos seus princípios, ou se'a, a degrada-
!"o da ciência política a um instrumento do poder, têm sido típicas
das situa!#es de estailidade, enquanto a concep!"o ampliada até os
limites de sua grande$a, como a ciência da existência humana na so-
ciedade e na história e dos princípios da ordem em geral, tem sido tí-
pica das grandes épocas de nature$a revolucion%ria e crítica. 9rês
dessas épocas ocorreram no desenrolar da história ocidental. A fun-
da!"o da ciência política por Plat"o e Aristóteles marcou a crise he-
lênica; o Civitas Dei, de 4anto Agostinho, marcou a crise de 2oma e
do 3ristianismo; e a )loso)a hegeliana da lei e da história marcou o
primeiro grande terremoto da crise ocidental. +stas s"o apenas as
grandes épocas e as grandes restaura!#es; os períodos milenares
que as separam caracteri$am-se por épocas menores e restaura!#es
secund%rias; com rela!"o ao período moderno, em particular, deve
ser lemrada a grande tentativa de <odin na crise do século 7=-.
A restaura!"o da ciência política deve ser entendida como uma volta
; consciência dos princípios, mas n"o necessariamente o retorno ao
conte>do especí)co de uma tentativa anterior. *"o se pode restau-
rar ho'e a ciência política através de uma volta ao platonismo, ao au-
gustinismo ou ao hegelianismo. +videntemente, muito se pode
aprender dos )lósofos anteriores no que concerne ; extens"o dos
prolemas e a seu tratamento teórico; mas a própria historicidade
da existência humana, ou se'a, o desdoramento do que é típico em
inst?ncias signi)cativas e concretas, impede que uma reformula!"o
v%lida dos princípios se fa!a através da volta a uma inst?ncia concre-
ta anterior. Portanto, a ciência política n"o pode ser restaurada em
sua dignidade como ciência teórica, em sentido estrito, por meio de
um renascimento liter%rio das conquistas )losó)cas do passado; os
princípios devem ser retomados através de um traalho de teori$a-
!"o que tenha origem na situa!"o histórica concreta do seu próprio
tempo e leve em conta a amplitude gloal do conhecimento empírico
desse tempo.
&ormulado nesses termos, o empreendimento parece gigantesco
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desse tempo.
&ormulado nesses termos, o empreendimento parece gigantesco
so todos os pontos de vista; e pode parecer fadado ao fracasso devi-
do ; faulosa quantidade do material que a história e as ciências em-
píricas da sociedade p#em ; nossa disposi!"o atualmente. *o entan-
to, esta impress"o é, na verdade, enganosa. 4em suestimar de mo-
do algum as di)culdades, o empreendimento come!a a tornar-se fac-
tível em nossa época em virtude do traalho preparatório reali$ado
no >ltimo meio século. @% h% duas gera!#es as ciências humanas e so-
ciais est"o envolvidas em um processo de renovada teori$a!"o. .
novo desenvolvimento, inicialmente lento, corou for!a após a pri-
meira guerra mundial e ho'e tomou velocidade alucinante. A empre-
sa se aproxima agora da factiilidade porque, em grande medida, é o
produto da teori$a!"o convergente de materiais pertinentes apre-
sentados em estudos monogr%)cos. . título destas exposi!#es sore
a representa!"o, A Nova Ciência da Política, indica a inten!"o de con-
frontar o leitor com um desenvolvimento da ciência política até aqui
praticamente desconhecido do p>lico em geral e tamém de mos-
trar que a explora!"o monogr%)ca dos prolemas alcan!ou um ponto
tal que a aplica!"o dos seus resultados a um prolema teórico %sico
em política pode ser tentada.
. novo esfor!o de teori$a!"o n"o é em conhecido nem em seu al-
cance nem em suas reali$a!#es. +sta n"o é, porém, a ocasi"o de em-
preender uma descri!"o que, para ser adequada, teria de ser consi-
deravelmente longa. *"o ostante, podem-se apresentar algumas
indica!#es a respeito de suas causas e de suas inten!#es, a )m de
responder a algumas das quest#es que inevitavelmente ocorrer"o
ao leitor. A restaura!"o dos princípios da ciência política implica que
esse traalho é necess%rio porque a consciência dos princípios foi
perdida. . movimento no rumo da nova teori$a!"o deve ser compre-
endido, com efeito, como uma recupera!"o a partir da destrui!"o da
ciência que caracteri$ou a-época positivista, na segunda metade do
século 7-7. A destrui!"o causada pelo positivismo é conseqAência de
duas premissas fundamentais. +m primeiro lugar, o esplêndido de-
senvolvimento das ciências naturais foi respons%vel, 'untamente com
outros fatores, pela premissa segundo a qual os métodos utili$ados
nas ciências matemati$antes do mundo exterior possuíam uma virtu-
de inerente, ra$"o por que todas as demais ciências alcan!ariam êxi-
tos compar%veis se lhe seguissem o exemplo e aceitassem tais méto-
dos como modelo. +ssa cren!a, por si só, era uma idiossincrasia ino-
fensiva, e teria desaparecido quando os entusiasmados admiradores
do método-modelo se pusessem a traalhar em sua própria ciência e
n"o otivessem os resultados esperados. +la tornou-se perigosa por
se haver cominado com uma segunda premissa, qual se'a a de que
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do método-modelo se pusessem a traalhar em sua própria ciência e
n"o otivessem os resultados esperados. +la tornou-se perigosa por
se haver cominado com uma segunda premissa, qual se'a a de que
os métodos das ciências naturais constituíam um critério para a per-
tinência teórica em geral. A comina!"o desses dois conceitos resul-
tou na em conhecida série de a)rma!#es no sentido de que qual-
quer estudo da realidade somente poderia ser quali)cado como ci-
entí)co se usasse os métodos das ciências naturais; de que os prole-
mas colocados em outros termos eram apenas ilusórios; de que as
quest#es metafísicas, em especial, que n"o admitem resposta atra-
vés dos métodos das ciências fenomenológicas, n"o deveriam ser
formuladas; de que os domínios da existência que n"o fossem acessí-
veis ; explora!"o por meio dos métodos-modelo n"o eram pertinen-
tes; e num ponto extremo, de que tais domínios da existência nem ao
menos existiam.
A segunda premissa é a verdadeira fonte do perigo. B a chave para a
compreens"o da destrutividade positivista e n"o tem receido, de
modo algum, a aten!"o que merece. -sto porque essa segunda pre-
missa suordina a pertinência teórica ao método e, por conseguinte,
perverte o signi)cado da ciência. A ciência é a usca da verdade com
respeito aos v%rios domínios da existência. Para ela, é pertinente o
que quer que contriua para o êxito dessa usca. .s fatos s"o perti-
nentes na medida em que seu conhecimento contriua para o estudo
da essência, enquanto que os métodos s"o adequados na medida era
que possam ser usados efetivamente como meios para chegar a esse
)m. .'etos diferentes requerem métodos diferentes. 8m cientista
político que dese'e compreender o signi)cado da República de Plat"o
n"o encontrar% muita utilidade na matem%tica; um iólogo que estu-
de a estrutura da célula n"o 'ulgar% convenientes os métodos da )lo-
logia cl%ssica ou os princípios da hermenêutica. -sto pode parecer tri-
vial, mas ocorre que a desaten!"o para com as verdades elementa-
res é uma das características da atitude positivista; daí que se torne
necess%rio elaorar o óvio. 9alve$ sirva como consolo lemrar que
essa desaten!"o é um prolema perene na história da ciência, uma
ve$ que o próprio Aristóteles teve de recordar a alguns elementos
nocivos do seu tempo que Cum homem educadoD n"o deve esperar
exatid"o de tipo matem%tico em um tratado sore política.
4e n"o se medir a adequa!"o de um método pela sua utilidade com
rela!"o ao propósito da ciência; se, ao contr%rio, se )$er do uso de
um método o critério da ciência, ent"o estar% perdido o signi)cado
da ciência como um relato verdadeiro da estrutura da realidade, co-
mo a orienta!"o teórica do homem em seu mundo e como o grande
instrumento para a compreens"o da posi!"o do homem no universo.
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mo a orienta!"o teórica do homem em seu mundo e como o grande
instrumento para a compreens"o da posi!"o do homem no universo.
A ciência parte da existência pré-cientí)ca do homem, de sua partici-
pa!"o no mundo com o seu corpo, sua alma, seu intelecto e seu espí-
rito, e da apreens"o prim%ria de todos os domínios da existência, que
lhe é assegurada porque a própria nature$a humana é a síntese des-
ses domínios. + dessa participa!"o cognitiva prim%ria, prenhe de pai-
x"o, nasce o caminho %rduo, o methodos, rumo ; contempla!"o desa-
paixonada da ordem da existência, que constitui a essência da atitu-
de teórica. A quest"o de saer se, no caso concreto, o caminho é cor-
reto só pode porém ser resolvida ao se olhar para tr%s, do )m para o
come!o. 4e o método trouxe clare$a essencial ao que era apenas vis-
lumrado, ent"o era adequado; se n"o conseguiu fa$ê-lo, ou mesmo
se trouxe clare$a essencial a algo sore o que n"o havia interesse
concreto, ent"o ele se revelou inadequado. 4e, por exemplo, em nos-
sa participa!"o pré-cientí)ca na ordem de uma sociedade, em nossas
experiências pré-cientí)cas do que se'a certo ou errado, do que se'a
'usto ou in'usto, sentimos o dese'o de penetrar no entendimento
teórico da fonte da ordem e da sua validade, podemos chegar, no
curso de nossos laores, ; teoria de que a 'usti!a da ordem humana
depende de sua participa!"o no Agathon platEnico, no Nous aristoté-
lico, no Logos estóico, ou na ratw aeterna tomista. Por diversas ra$#es,
nenhuma dessas teorias talve$ nos satisfa!a completamente; mas sa-
emos que estamos em usca de uma resposta desse tipo. 4e, no en-
tanto, o caminho nos levar ; no!"o de que a ordem social é motivada
pela ?nsia do poder e pelo medo, saeremos que a essência do pro-
lema perdeu-se em algum ponto no transcurso da nossa investiga-
!"o F ainda que os resultados otidos se'am valiosos para o esclare-
cimento de outros aspectos essenciais da ordem social. +xaminando
a pergunta a partir da resposta, veri)camos, portanto, que os méto-
dos da psicologia das motiva!#es n"o s"o adequados ; explora!"o do
prolema e que, neste caso concreto, seria melhor con)ar nos méto-
dos da especula!"o metafísica e da simoli$a!"o teológica.
A suordina!"o da pertinência teórica ao método perverte o signi)-
cado da ciência em matéria de princípio. A pervers"o ocorrer% qual-
quer que se'a o método escolhido como modelo. Assim, o princípio
deve ser cuidadosamente distin-guido de sua manifesta!"o especial.
4em essa distin!"o torna-se extremamente difícil compreender o
fenEmeno histórico do positivismo em sua nature$a e em seu alcan-
ce; e, provavelmente porque essa distin!"o n"o tem sido feita, o es-
tudo adequado desta importante fase da história intelectual do .ci-
dente ainda se fa$ esperar. +mora tal an%lise n"o possa ser empre-
endida nesta ocasi"o, imp#e-se expor as regras que teriam de ser se-
guidas nesse caso, de modo a proporcionar o enfoque dos v%rios
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dente ainda se fa$ esperar. +mora tal an%lise n"o possa ser empre-
endida nesta ocasi"o, imp#e-se expor as regras que teriam de ser se-
guidas nesse caso, de modo a proporcionar o enfoque dos v%rios
fenEmenos do positivismo. A an%lise come!aria inevitavelmente mal
se o positivismo fosse de)nido como a doutrina deste ou daquele
destacado pensador positivista F se fosse de)nido, por exemplo, nos
termos do sistema de 3omte. A forma especial da pervers"o torna-
ria oscuro o princípio e os fenEmenos correlatos n"o poderiam ser
reconhecidos como tal porque, ao nível da doutrina, os adeptos de di-
ferentes métodos-modelo tendem a discordar entre si. Assim, seria
aconselh%vel come!ar pelo impacto que o sistema neGtoniano cau-
sou sore intelectuais ocidentais como =oltaire; tratar esse impacto
como um centro emocional a partir do qual o princípio da pervers"o,
assim como a forma especial do modelo da física, pEde irradiar-se,
se'a independentemente, se'a em comina!"o com outros conceitos,
e identi)car os efeitos, qualquer que se'a a forma que eles assumam.
+ste procedimento é especialmente recomend%vel porque, a rigor,
n"o se tentou ainda a transferência dos métodos da física matem%ti-
ca, em qualquer sentido estrito da palavra, para as ciências sociais,
pela simples ra$"o de que tal intento estaria claramente condenado
ao fracasso. A idéia de encontrar uma CleiD dos fenEmenos sociais
que correspondesse funcionalmente ; lei da gravita!"o da física
neGtoniana nunca passou do est%gio de tema de conversas extrava-
gantes na era napoleEnica. Ao tempo de 3omte, essa idéia '% se havia
redu$ido ; CleiD das três fases, ou se'a, a uma especula!"o falaciosa a
respeito do signi)cado da história, que se auto-interpretava como a
descoerta de uma lei empírica. 3aracterístico da diversi)ca!"o pre-
coce do prolema é o destino que tomou o termo phn!ue so"ale#
3omte queria us%-lo em sua especula!"o positivista, mas viu-se im-
pedido de fa$ê-lo porque (uételet apropriou-se da express"o em
suas próprias investiga!#es estatísticas; a %rea dos fenEmenos soci-
ais que efetivamente se prestam ; quanti)ca!"o come!ou a diferen-
ciar-se da %rea em que rincar com imita!#es da física constitui um
passatempo para diletantes de amas as ciências. Assim, se o positi-
vismo for encarado, em sentido estrito, como um desenvolvimento
da ciência social que usa modelos matemati$antes, pode-se chegar ;
conclus"o de que o positivismo nunca existiu; se, no entanto, ele for
entendido como o propósito de tornar as ciências sociais Ccientí)casD
através do uso de métodos que se assemelhem o mais possível aos
métodos empregadoH nas ciências do mundo exterior, ent"o os re-
sultados desse propósito Iemora n"o intencionaisJ ser"o muito vari-
ados.
.s aspectos teóricos do positivismo como fenEmeno histórico de-
vem ser expostos com algum cuidado; a própria variedade de suas
manifesta!#es pode ser revemente descrita, uma ve$ que o vínculo
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.s aspectos teóricos do positivismo como fenEmeno histórico de-
vem ser expostos com algum cuidado; a própria variedade de suas
manifesta!#es pode ser revemente descrita, uma ve$ que o vínculo
que as une tenha sido explicitado. . uso do método como critério da
ciência elimina a pertinência teórica. +m conseqAência, todas as pro-
posi!#es referentes a quaisquer fatos ser"o al!adas ; dignidade de
ciência, independentemente de serem ou n"o pertinentes, desde
que resultem do correto uso do método. 8ma ve$ que o oceano dos
fatos é in)nito, torna-se possível uma prodigiosa expans"o da ciência
no sentido sociológico, que d% emprego a pretensos técnicos cientí)-
cos e leva a uma acumula!"o fant%stica de conhecimentos irrelevan-
tes através de grandes Cpro'etos de pesquisaD, cu'a característica
mais interessante é o gasto quanti)c%vel acarretado por sua reali$a-
!"o. + grande a tenta!"o de examinar mais atentamente estas Kores
de estufa do positivismo recente e acrescentar algumas reKex#es a
respeito do 'ardim acadêmico onde elas crescem, mas o ascetismo da
teoria n"o permite esses pra$eres ot?nicos. A preocupa!"o presen-
te é com o princípio de que todos os fatos s"o iguais F como '% houve
quem dissesse F desde que possam ser determinados através de al-
gum método. +sta igualdade dos fatos é independente do método
usado no caso especial. A acumula!"o de fatos irrelevantes n"o re-
quer o emprego de métodos estatísticos; pode perfeitamente ocor-
rer no contexto dos métodos críticos usados na história política, na
descri!"o de institui!#es, na história das idéias ou nos v%rios ramos
da )lologia. A acumula!"o de fatos n"o digeridos teoricamente, e tal-
ve$ indigeríveis, excrecência para a qual os alem"es inventaram o
termo $a%terialhuberei, é, portanto, a primeira das manifesta!#es do
positivismo e, por estar t"o difundida, tem import?ncia muito maior
que excentricidade atraentes como a Cciência uni)cadaD.
A acumula!"o de fatos irrelevantes, no entanto, est% inextricavel-
mente ligada a outros fenEmenos. *a verdade, é raro, se n"o impos-
sível, encontrar grandes empreendimentos de pesquisa que conte-
nham apenas material irrelevante. . pior dos exemplos produ$ir%
uma p%gina ou outra de an%lises pertinentes, e pode mesmo haver
pepitas de ouro enterradas em meio ao material, ; espera de sua
descoerta acidental por algum estudioso que lhes reconhe!a o va-
lor. -sto porque o fenEmeno do positivismo ocorre numa civili$a!"o
que tem tradi!#es teóricas; e é praticamente impossível encontrar
um caso de irrelev?ncia asoluta porque, so a press"o do amiente,
até mesmo a cole!"o mais volumosa e in>til de material de pesquisa
tem de sustentar-se por um )o, ainda que tênue, que a ligue com a
tradi!"o. ,esmo o mais ferrenho positivista encontrar% di)culdades
em escrever um livro totalmente sem valor sore o direito constitu-
cional americano, desde que, com um mínimo de consciência, siga as
linhas de raciocínio e os precedentes indicados pelas decis#es da 4u-
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em escrever um livro totalmente sem valor sore o direito constitu-
cional americano, desde que, com um mínimo de consciência, siga as
linhas de raciocínio e os precedentes indicados pelas decis#es da 4u-
prema 3orte; ainda que o livro se'a um traalho %rido e que n"o rela-
cione o raciocínio dos 'ui$es Ique nem sempre s"o os melhores teóri-
cosJ com uma teoria crítica da política e do direito, o material ter%
origatoriamente de sumeter-se pelo menos ao seu próprio siste-
ma de pertinência.
A segunda manifesta!"o do positivismo tem atingido a ciência com
muito maior profundidade que o facilmente identi)c%vel ac>mulo de
trivialidades. 3onsiste ela na elaora!"o de material pertinente a
partir de princípios teóricos de)cientes. L% exemplos de estudiosos
altamente respons%veis que se dedicaram a um imenso traalho de
erudi!"o na asor!"o de material histórico e que desperdi!aram
quase totalmente seus esfor!os porque os princípios utili$ados na se-
le!"o e interpreta!"o do material n"o tinham fundamento teórico
correto, derivando, pelo contr%rio, do &eitgeist, de preferências polí-
ticas ou idiossincrasias pessoais A esta classe pertencem as histórias
da )loso)a grega que, de suas fontes, só conseguiram extrair uma
Ccontriui!"oD para a cria!"o da ciência ocidental; os tratados escri-
tos sore Plat"o, nos quais ele é visto como um precursor da lógica
neo-Mantiana ou, de acordo com a voga política da época, como um
constitucio-nalista, um utópico, um socialista ou um fascista; as histó-
rias do pensamento político que de)nem a política nos termos do
constitucionalismo ocidental e s"o por isso incapa$es de descorir
que tenha havido teoria política na -dade ,édia; ou ainda a outra va-
riante, que descoriu na -dade ,édia uma oa dose de Ccontriui-
!"oD para a doutrina constitucional, mas ignora completamente os
movimentos políticos sect%rios que culminaram na 2eforma; ou um
empreendimento gigantesco como o 'enossensha(tsrecht, de NierMe,
seriamente viciado pela convic!"o do autor de que a história do pen-
samento político e legal estava providencial-mente encaminhan-
do-se em dire!"o ao clímax, materiali$ado na sua própria teoria da
Realperson# *esses casos, o dano n"o é devido ; acumula!"o de mate-
rial in>til; ao contr%rio, os tratados deste tipo s"o, com muita
freqAência, indispens%veis por conter informa!#es )dedignas a res-
peito de fatos Ireferências iliogr%)cas, comprova!#es críticas de
textos, etcJ. . dano é produ$ido pela interpreta!"o. . conte>do de
determinada fonte pode estar expresso corretamente e, no entanto,
o traalho pode produ$ir uma imagem totalmente falsa porque par-
tes essenciais foram omitidas. + foram omitidas porque os princípios
n"o-críticos da interpreta!"o n"o permitem que se'am reconhecidas
como essenciais. As opini#es n"o-crí-ticas, p>licas ou privadas )do*a,
no sentido platEnicoJ, n"o podem preencher o lugar da teoria na ci-
ência.
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como essenciais. As opini#es n"o-crí-ticas, p>licas ou privadas )do*a,
no sentido platEnicoJ, n"o podem preencher o lugar da teoria na ci-
ência.
A terceira manifesta!"o do positivismo foi o desenvolvimento da
metodologia, soretudo no meio século que vai de /OP0 a /Q10. +ste
movimento foi claramente uma fase do positivismo na medida em
que a pervers"o da pertinência, através do deslocamento da teoria
para o método, foi o princípio respons%vel por sua existência. Por ou-
tro lado, foi tamém >til na supera!"o do positivismo porque, ao ge-
nerali$ar a pertinência do método, fe$ ressurgir o entendimento de
que métodos diferentes s"o especi)camente adequados a ciências
diferentes. Pensadores como Lusserl ou 3assirer, por exemplo,
eram ainda positivistas de tendência comtiana no que concerne ; )-
loso)a da história; mas a crítica do psicologismo, de Lusserl, e a )lo-
so)a das formas simólicas, de 3assirer, foram passos importantes
no rumo da restaura!"o da pertinência teórica. . movimento como
um todo é, portanto, demasiado complexo para admitir generali$a-
!#es sem quali)ca!#es extensas e cuidadosas. 8m >nico prolema
pode, e deve, ser selecionado por ter import?ncia especí)ca na des-
trui!"o da ciênciaR trata-se da tentativa de tornar Co'etivaD a ciência
política Ie as ciências sociais em geralJ através da exclus"o metodoló-
gica-mente rigorosa de todos os C'ulgamentos de valorD.
Para analisar-se com clare$a esta matéria é necess%rio, em primeiro
lugar, que se saia que as express#es C'ulgamento de valorD e Cisento
de valoresD, referidos ; ciência, n"o fa$iam parte do vocaul%rio )lo-
só)co antes da segunda metade do século 7-7. A no!"o de 'ulgamen-
to de valor )+erturteil, é em si carente de sentidoR ganha sentido a
partir de uma situa!"o em que se contrap#e a um 'ulgamento con-
cernente a fatos )-atsachenurteile,# + esta situa!"o foi criada pelo
conceito positivista de que apenas as proposi!#es relativas a fatos do
mundo exterior eram Co'etivasD, enquanto que os 'ulgamentos refe-
rentes ao ordenamento correto da alma e da sociedade eram Csu'e-
tivosD. 4omente as proposi!#es do primeiro tipo poderiam ser consi-
deradas Ccientí)casD, enquanto que as do segundo tipo expressariam
apenas preferências e decis#es pessoais, n"o passíveis de veri)ca!"o
crítica e portanto despidas de validade o'etiva. +ssa classi)ca!"o só
poderia ser v%lida se o dogma positivista fosse aceito por princípio; e
tal dogma só poderia ser aceito por pensadores que n"o dominassem
a ciência cl%ssica e crist" do homem. -sto porque nem a ética nem a
política cl%ssica e crist" contém C'ulgamento de valorD, mas sim ela-
oram, empírica e criticamente, os prolemas da ordem derivados
da antropologia )losó)ca, como parte de uma ontologia geral. 4o-
mente quando a ontologia se perdeu como ciência e quando, em con-
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da antropologia )losó)ca, como parte de uma ontologia geral. 4o-
mente quando a ontologia se perdeu como ciência e quando, em con-
seqAência disso, a ética e a política '% n"o podiam ser entendidas co-
mo ciências da ordem na qual a nature$a humana alcan!a sua m%xi-
ma reali$a!"o, passou a ser possível considerar este campo do co-
nhecimento como suspeito de ser o repositório de opini#es su'eti-
vas e n"o-crí-ticas.
*a medida em que os metodologistas aceitaram o dogma positivista,
eles participaram da destrui!"o da ciência. Ao mesmo tempo, no en-
tanto, tentaram valentemente salvar as ciências históricas e sociais
do descrédito em que estavam prestes a cair por causa da destrui!"o
de que eles próprios participaram. (uando o episteme se arruina, os
homens n"o param de falar em política; mas agora eles s"o origados
a expressar-se ; maneira da do*a# .s chamados 'ulgamentos de valor
poderiam tornar-se uma séria preocupa!"o para os metodologistas
porque, em linguagem )losó)ca, eram do*ai, opini#es n"o-críticas a
respeito do prolema da ordem; e a tentativa dos metodologistas no
sentido de tornar novamente respeit%veis as ciências sociais, pela
elimina!"o do opinar n"o-crítico da época, ao menos despertou a
consciência para os padr#es críticos, emora n"o fosse su)ciente pa-
ra restaelecer uma ciência da ordem. Assim, tanto a teoria dos C'ul-
gamentos de valorD quanto a tentativa de estaelecer uma ciência
Cisenta de valoresD foram amivalentes em seus efeitos. *a medida
em que o ataque aos 'ulgamentos de valor foi um ataque ;s opini#es
n"o-críticas disfar!adas de ciência política, produ$iu um efeito puri)-
cador sore a teoria. *a medida em que o conceito de 'ulgamento de
valor incluía todo o corpo da metafísica cl%ssica e crist" e especial-
mente da antropologia )losó)ca, o ataque só poderia resultar na
con)ss"o de que n"o existia qualquer ciência de ordem humana e so-
cial.
A variedade das tentativas concretas perdeu '% grande parte do seu
interesse agora que as grandes atalhas metodológicas s"o coisa do
passado. +las eram em geral orientadas pelo princípio de expulsar os
CvaloresD da ciência, colocando-os na posi!"o de axiomas ou hipóte-
ses n"o questionadas. Por exemplo, de acordo com a premissa de
que o CestadoD era um valor, a história política e a ciência política se-
riam legitimadas como Co'etivasD na medida em que explorassem as
motiva!#es, a!#es e condi!#es que se correlacionavam com a cria-
!"o, a preserva!"o e a extin!"o dos estados. +videntemente, o prin-
cípio levaria a resultados duvidosos se o valor legitimador fosse dei-
xado ao arítrio do cientista. 4e a ciência fosse de)nida como a ex-
plora!"o dos fatos com rela!"o a um valor, haveria tantas histórias e
ciências políticas quantos s"o os estudiosos que diferem em suas
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xado ao arítrio do cientista. 4e a ciência fosse de)nida como a ex-
plora!"o dos fatos com rela!"o a um valor, haveria tantas histórias e
ciências políticas quantos s"o os estudiosos que diferem em suas
idéias a respeito do que se'a valioso. .s fatos tratados como perti-
nentes por terem rela!"o com os valores de um progressista n"o s"o
os mesmos considerados pertinentes por um conservador; e os fatos
pertinentes para um economista lieral n"o o ser"o para um marxis-
ta. *em o mais escrupuloso cuidado no sentido de manter o traalho
concreto Cisento de valoresD, nem a oserv?ncia mais consciente do
método crítico na determina!"o dos fatos e das rela!#es causais po-
deriam impedir que as ciências históricas e políticas naufragassem
num mar de relativismo. *a verdade, chegou-se a formular a idéia,
que ali%s oteve ampla aceita!"o, de que cada nova gera!"o teria
que reescrever a história, uma ve$ que os CvaloresD determinantes
da sele!"o dós prolemas e dos materiais s"o mut%veis. A confus"o
resultante só n"o foi maior porque, uma ve$ mais, a press"o das tra-
di!#es da nossa civili$a!"o manteve a diversi)ca!"o das opini#es
n"o-críticas dentro de seus limites gerais.
. movimento da metodologia, no que concerne ; ciência política,
atingiu o extremo de sua lógica imanente na pessoa e no traalho de
,ax Seer. *"o se pode tentar, no contexto desta ora, uma corro-
ora!"o integral desta a)rma!"o. 4er"o tra!adas apenas algumas li-
nhas que o caracteri$am como um pensador situado entre o )m de
um est%gio e um novo come!o.
8ma ciência isenta de valores signi)cava para Seer a explora!"o
das causas e efeitos, a constru!"o de tipos ideais que permitissem
distinguir as regularidades das institui!#es, assim como seus desvios,
e, soretudo, a constru!"o de rela!#es causais típicas. 9al ciência n"o
estaria em condi!#es de di$er a ninguém se ele deveria ser um lie-
ral ou um socialista em matéria econEmica, um constitucionalista de-
mocr%tica ou um revolucion%rio marxista, mas poderia indicar-lhe
quais seriam as conseqAências se tentasse aplicar os valores de sua
preferência ; pr%tica política. 6e um lado estavam os CvaloresD da
ordem política, insuscetíveis de avalia!"o crítica; do outro lado esta-
va uma ciência da estrutura da realidade social que podia ser usada
como conhecimento técnico por um político. 3om esse pragmatismo,
Seer agudi$ou a discuss"o em torno da ciência Cisenta de valoresD
e deslocou os deates para além das escaramu!as metodológicas, fo-
cali$ando novamente a ordem de pertinência. +le queria a ciência
porque queria clare$a sore o mundo do qual participava apaixona-
damente; percorria assim, novamente, a estrada no rumo da essên-
cia. A usca da verdade, no entanto, cessava ao nível da a!"o prag-
m%tica. *o clima intelectual do deate metodológico, os CvaloresD ti-
nham que ser aceitos como inquestion%veis e a procura n"o podia
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cia. A usca da verdade, no entanto, cessava ao nível da a!"o prag-
m%tica. *o clima intelectual do deate metodológico, os CvaloresD ti-
nham que ser aceitos como inquestion%veis e a procura n"o podia
avan!ar até a contempla!"o da ordem. Para Seer, a ratio da ciência
se estendia n"o aos princípios, mas apenas ; causalidade da a!"o.
Por isso, o novo sentido de pertinência teórica podia expressar-se
apenas na cria!"o das categorias de CresponsailidadeD e Cdemonis-
moD na política. Seer reconheceu os valores pelo que eram, ou se-
'a, idéias ordenadoras da a!"o política, mas atriui-lhes a condi!"o de
decis#es CdemoníacasD, insuscetíveis de argumenta!"o racional. A ci-
ência só poderia confrontar o demonismo da política alertando os
políticos sore as conseqAências de suas a!#es e despertando neles
o senso de responsailidade. +sta Cética da responsailidadeD Gee-
riana n"o deve ser negligenciada. &oi ideada para mitigar o ardor re-
volucion%rio dos polemistas intelectuais políticos, especialmente de-
pois de /Q/O; para ressaltar que os ideais n"o 'usti)cam nem os mei-
os nem os resultados da a!"o, que a!"o envolve culpa e que a res-
ponsailidade pelos efeitos políticos cae exclusivamente ao homem
que se transforma numa causa. ,as ainda, o diagnóstico CdemoníacoD
revela que n"o se podia derivar CvaloresD inquestion%veis de fontes
racionais de ordem, e que a política da época tinha-se transformado
efetivamente num campo de desordem demoníaca. A rematada suti-
le$a com que este aspecto do traalho de Seer tem sido, e ainda é,
ignorado por aqueles aos quais se dirige constitui talve$ a melhor
prova de sua import?ncia
3aso Seer se houvesse limitado a revelar que a ciência política
Cisenta de valoresD n"o é uma ciência da ordem e que os CvaloresD
s"o decis#es demoníacas, a grande$a do seu traalho Ique é mais
sentida que compreendidaJ poderia ser posta em d>vida. A marcha
ascendente em dire!"o ; essência ter-se-ia interrompido no ponto
em que, da estrada principal, sai um caminho convencionalmente de-
nominado CexistencialismoD F uma saída para os perplexos que, nos
anos recentes, entrou em moda internacional através do traalho de
4artre. Seer, no entanto, foi muito além F emora o pesquisador
se encontre na difícil posi!"o de ter que extrair os resultados a partir
dos conKitos e contradi!#es intelectuais em que Seer se envolveu.
A maneira de considerar o prolema da ciência isenta de valores,
que acaa de ser descrita, suscita mais de uma quest"o. . conceito
Geeriano da ciência, por exemplo, supunha uma rela!"o social en-
tre o cientista e o político, ativada na institui!"o da universidade, on-
de o cientista, como professor, informa seus estudantes, os homines
politici potenciais, a respeito da estrutura da realidade política. Po-
de-se ent"o perguntarR que propósito deve ter essa informa!"oH .s
valores políticos dos estudantes supostamente n"o poderiam ser to-
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politici potenciais, a respeito da estrutura da realidade política. Po-
de-se ent"o perguntarR que propósito deve ter essa informa!"oH .s
valores políticos dos estudantes supostamente n"o poderiam ser to-
cados pela ciência de Seer, uma ve$ que os valores est"o além da
ciência. .s princípios políticos dos estudantes n"o poderiam ser for-
mados por uma ciência que n"o se estendia aos princípios da ordem.
Poderia ela talve$ ter o efeito indireto de incentivar os estudantes a
rever seus valores, quando veri)cassem as insuspeitadas e talve$ in-
dese-'adas conseqAências que suas idéias políticas trariam na pr%ti-
caH *esse caso, ent"o, os valores dos estudantes n"o estariam t"o
demoniacamente )xados. Poder-se-ia fa$er um apelo ; reKex"o e ao
'ulgamento; e o que seria um 'ulgamento que resultasse na preferên-
cia racional por um valor com rela!"o a outro sen"o um 'ulgamento
de valorH A)nal de contas, seriam possíveis os 'ulgamentos de valor
racionaisH . ensino da ciência política isenta de valores na universi-
dade seria um empreendimento sem sentido a menos que fosse con-
ceido de maneira a inKuenciar os valores dos estudantes, colocando
a sua disposi!"o um conhecimento o'etivo da realidade política. 3o-
mo grande professor que era, Seer pEde desmentir sua idéia dos
valores como decis#es demoníacas.
Até que ponto seu método de ensino poderia ser efetivo é outra
quest"o. +m primeiro lugar, era um ensino por vias indiretas, porque
ele evitou delieradamen-te um enunciado explícito dos princípios
positivos da ordem; em segundo lugar, o ensino, mesmo através da
elaora!"o direta dos princípios, n"o poderia ser e)ca$ se o estudan-
te estivesse na verdade demoniacamente preso ;s suas atitudes. 3o-
mo educador, Seer poderia con)ar apenas na vergonha Io aidos
aristotélicoJ do estudante como o sentimento que o indu$iria ; consi-
dera!"o racional. ,as o que fa$er, se o estudante estivesse além da
vergonhaH 4e o apelo a seu senso de responsailidade somente o )-
$esse sentir-se desconfort%vel, sem resultar numa mudan!a de atitu-
deH .u se nem sequer lhe provocasse tal sentimento, mas sim o )-
$esse cair no que Seer chamava a Cética da inten!"oD )'esinnung%
sethi.,, ou se'a, na tese de que sua cren!a contém sua própria 'usti)-
ca!"o e de que as conseqAências n"o importam se a inten!"o da a!"o
é corretaH 9ampouco esta quest"o foi esclarecida por Seer. 3omo
ilustra!"o de sua Cética da inten!"oD ele usou uma moralidade crist"
Cextra-terrenaD que nunca foi em de)nida; 'amais considerou o pro-
lema de que seus valores demoníacos talve$ fossem demoníacos
precisamente porque tinham a ver com a Cética da inten!"oD, e n"o
com a Cética da responsailidadeD, uma ve$ que conferiam a qualida-
de de um comando divino a uma veleidade humana. A discuss"o des-
sas quest#es somente seria possível ao nível da antropologia )losó)-
ca, que Seer evitou. *"o ostante, enquanto fugia dessa discuss"o,
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sas quest#es somente seria possível ao nível da antropologia )losó)-
ca, que Seer evitou. *"o ostante, enquanto fugia dessa discuss"o,
ele tomara a decis"o de entrar em conKito racional com os valores
pela simples existência de seu empreendimento.
. conKito racional com os valores inquestion%veis dos intelectuais
políticos era inerente a seu empreendimento de atingir a ciência po-
lítica o'etiva. A concep!"o original de uma ciência isenta de valores
estava em dissolu!"o. Para os metodolo-gistas que precederam ,ax
Seer, a ciência social ou histórica podia ser isenta de valores por-
que seu o'eto consistia na Creferência a um valor D )+ertbe/iehende
$ethode,0 no campo assim constituído, o cientista devia traalhar, su-
postamente, sem 'ulgamentos de valor. Seer reconheceu que ha-
via uma série de CvaloresD conKitantes na política de seu tempo; cada
um deles poderia ser tomado para constituir um Co'etoD. . resulta-
do teria sido o relativismo antes mencionado, e a ciência política
ter-se-ia degradado, transformando-se em uma apologia dos capri-
chos duvidosos dos intelectuais políticos, como era de fato o caso, e
ainda o é em larga medida. 3omo Seer escapou a essa degrada!"o
F pois é certo que o fe$H 4e nenhum dos valores conKitantes consti-
tuía para ele o campo da ciência e se ele preservava sua integridade
crítica perante os valores políticos correntes, quais eram ent"o os
valores que constituíam sua ciênciaH A resposta exaustiva a estas
perguntas transcende o propósito da presente ora. Apenas o princí-
pio de sua técnica ser% ilustrado. A Co'etividadeD da ciência de Se-
er, onde existia, poderia derivar apenas dos autênticos princípios da
ordem, tais como haviam sido descoertos e elaorados no transcur-
so da história da humanidade. 8ma ve$ que, na situa!"o intelectual
de Seer, n"o se podia admitir a existência de uma ciência da or-
dem, seu conte>do Iou tanto quanto possível de seu conte>doJ tinha
de ser apresentado por meio do reconhecimento de suas express#es
históricas como fatos e fatores causais da história. 4e, por um lado,
Seer, como metodologista da ciência isenta de valores, professaria
n"o ter o'e!#es contra um intelectual político que houvesse assumi-
do CdemoniacamenteD o marxismo como o CvalorD de sua preferên-
cia, por outro lado podia dedicar-se tranqAilamente ao estudo da éti-
ca protestante e demonstrar que certas convic!#es religiosas de-
sempenharam um papel muito mais importante que o da luta de clas-
ses na forma!"o do capitalismo. 2essaltou-se por diversas ve$es nas
p%ginas anteriores que a aritrariedade do método n"o degenerou
na total irrelev?ncia da produ!"o cientí)ca porque a press"o das tra-
di!#es teóricas permaneceu como um fator determinante na sele!"o
dos materiais e dos prolemas. Pode-se di$er que essa press"o foi
elevada por Seer ; condi!"o de princípio. .s três volumes da sua
sociologia da religi"o, por exemplo lan!aram no deate sore a es-
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dos materiais e dos prolemas. Pode-se di$er que essa press"o foi
elevada por Seer ; condi!"o de princípio. .s três volumes da sua
sociologia da religi"o, por exemplo lan!aram no deate sore a es-
trutura da realidade uma enorme quantidade de verdades, vistas
com maior ou menor clare$a, a respeito da ordem humana e social. A
o'etividade da ciência podia ser possivelmente retomada através da
explicita!?o do fato indiscutível de que as verdades a respeito da or-
dem eram fatores da ordem da realidade F e talve$ n"o apenas o
dese'o de poder e rique$a ou o medo e a fraude F, muito emora os
princípios tivessem que entrar pela porta dos fundos das Ccren!asD,
em competi!"o e em conKito racional insol>vel com os CvaloresD con-
tempor?neos de Seer. 8ma ve$ mais, Seer ignorou as di)culda-
des teóricas que esse procedimento lhe acarretaria. 4e o estudo Co-
'etivoD dos processos históricos revelasse, por exemplo, que a inter-
preta!"o materialista da história estava errada, ent"o, oviamente,
existiria um padr"o de o'etividade na ciência que impediria a consti-
tui!"o do o'eto da ciência pela CreferênciaD dos fatos e prolemas
ao CvalorD de um marxista; ou F sem o 'arg"o metodológico F um
homem de saer n"o poderia ser marxista. ,as, se a o'etividade
crítica tornava impossível que um homem de saer fosse marxista,
seria possível para qualquer pessoa ser marxista sem arir m"o dos
padr#es de o'etividade crítica que todos estamos origados a o-
servar como seres humanos respons%veisH *"o h% respostas a essas
perguntas no traalho de Seer. *"o havia ainda chegado o tempo
de di$er claramente que o Cmateria-lismo históricoD n"o é uma teo-
ria, mas sim uma falsi)ca!"o da história, ou que o intérprete Cmateri-
alistaD da política é um ignorante que melhor faria se estudasse os fa-
tos elementares. 3omo segundo componente do CdemonismoD dos
valores, transparece uma oa dose de ignor?ncia, n"o reconhecida
como tal por Seer. + o intelectual político que se decide, ele pró-
prio, CdemoniacamenteD por seu CvalorD nada mais é que um ignoran-
te megalomaníaco. Pareceria que o CdemonismoD é uma qualidade
que o homem possui em propor!"o inversa ao alcance de seu conhe-
cimento pertinente.
9odo o complexo de idéias F CvaloresD, Creferência a valoresD, C'ulga-
mentos de valorD e Cciência isenta de valoresD F pareceria estar a
ponto de desintegrar-se. Lavia-se retomado uma Co'etividadeD ci-
entí)ca que claramente n"o se enquadrava nos padr#es do deate
metodológico. +, no entanto, nem mesmo os estudos sore a sociolo-
gia da religi"o chegaram a indu$ir Seer a tomar o passo decisivo no
rumo da ciência da ordem. A ra$"o >ltima de sua hesita!"o, se n"o foi
o medo, talve$ se'a inescrut%vel; mas o ponto técnico onde ele se de-
teve pode ser claramente discernido. 4eus estudos sore a sociologia
da religi"o sempre despertaram admira!"o, quando nada por repre-
sentar um tour de (orce# . volume do material analisado nesses alen-
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teve pode ser claramente discernido. 4eus estudos sore a sociologia
da religi"o sempre despertaram admira!"o, quando nada por repre-
sentar um tour de (orce# . volume do material analisado nesses alen-
tados estudos sore o protestantismo, o confucionismo, o taoísmo, o
hinduísmo, o udismo, o 'ainismo, -srael e o 'udaísmo, a serem com-
pletados com um estudo sore o islamismo, é, na verdade, assomro-
so. 9alve$ nao se tenha ressaltado su)cientemente, em vista do im-
pressionante vulto da ora, que essa série de estudos ganha seu tom
geral através de uma omiss"o signi)cativa, qual se'a, a do cristianis-
mo anterior ; 2eforma. A ra$"o dessa omiss"o parece óvia. B prati-
camente impossível efetuar um estudo sério do cristianismo medie-
val sem descorir, entre os seus CvaloresD, a cren!a numa ciência ra-
cional da ordem humana e social e, soretudo, do direito natural.
Além disso, tal ciência nao constituía simplesmente uma cren!a, pois
era elaorada na pr%tica como um traalho de constru!"o racional.
*esse ponto, Seer ter-se-ia defrontado com a ciência da ordem
como um fato o'etivo, como teria acontecido se ele se houvesse de-
dicado seriamente ao estudo da )loso)a grega. A disposi!"o de Se-
er para apresentar verdades a respeito da ordem so a forma de
fatos históricos cessava antes de chegar ; metafísica grega e medie-
val. Para poder degradar a política de Plat"o, Aristóteles ou 4"o 9o-
m%s ao nível de CvaloresD, um estudioso respons%vel teria primeira-
mente que demonstrar n"o ter fundamento a considera!"o daquelas
formula!#es como cientí)cas. + essa demonstra!"o é impossível. (u-
ando o pretendente a crítico houver penetrado no signi)cado da me-
tafísica com profundidade su)ciente para que a sua crítica tenha pe-
so, ele '% se ter% transformado em um metafísico. A metafísica só po-
de ser atacada de s" consciência quando o crítico se coloca a uma dis-
t?ncia su)ciente, que lhe garanta o conhecimento imperfeito. . ho-
ri$onte da ciência social de Seer era imenso; assim, sua cautela em
aproximar-se demasiado do centro decisivo dessa ciência é a melhor
prova de suas limita!#es positivistas.
6este modo, o resultado do traalho de Seer foi amíguo. +le ha-
via redu$ido ad absurdum o princípio da ciência isenta de valores. A
idéia da ciência isenta de valores, cu'o o'eto se constituísse pela
Creferência a um valorD, somente poderia concreti$ar-se caso o cien-
tista estivesse disposto a decidir-se a respeito de um CvalorD como
referência. 4e, ao contr%rio, o cientista se recusasse a optar por um
CvalorD, se tratasse todos os CvaloresD como iguais Icomo fa$ia ,ax
SeerJ e se, além do mais, os tratasse como fatos sociais entre ou-
tros F ent"o n"o restariam CvaloresD que pudessem constituir o o-
'eto da ciência, porque se teriam transformado em parte do próprio
o'eto. A aoli!"o dos CvaloresD como elementos constituintes da ci-
ência levava a uma situa!"o de impossiilidade teórica porque, a)-
nal, o o'eto da ciência tem uma Cconstitui!"oD, isto é, a essência ru-
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o'eto. A aoli!"o dos CvaloresD como elementos constituintes da ci-
ência levava a uma situa!"o de impossiilidade teórica porque, a)-
nal, o o'eto da ciência tem uma Cconstitui!"oD, isto é, a essência ru-
mo ; qual nos deslocamos em nossa usca da verdade. *o entanto,
uma ve$ que a ressaca positivista n"o permitia a admiss"o de uma ci-
ência da essência, de um verdadeiro episte%me, os princípios da or-
dem tinham de ser apresentados como fatos históricos. (uando
construiu o grande edifício da sua CsociologiaD Iisto é, a fuga positivis-
ta ; ciência da ordemJ, Seer n"o considerou seriamente todos os
CvaloresD como iguais. +le n"o se dedicou a organi$ar uma in>til cole-
!"o de quinquilharias, mas sim mostrou preferências astante sensa-
tas por fenEmenos CimportantesD da história da humanidade; ele sa-
ia distinguir perfeitamente as principais civili$a!#es de outros de-
senvolvimentos periféricos e secund%rios, assim como as Creligi#es
mundiaisD dos fenEmenos religiosos sem import?ncia. *a ausência
de um princípio de teori$a!"o em fundamentado, ele deixou-se gui-
ar n"o por CvaloresD, mas sim pela auctoritas ma1orum e por sua pró-
pria sensiilidade com respeito ; qualidade do traalho intelectual.
Até aqui o traalho de Seer pode ser caracteri$ado como uma ten-
tativa em sucedida de desemara!ar a ciência política das imperti-
nências da metodologia e de restaurar-lhe a ordem teórica. *o en-
tanto, a nova teoria em dire!"o ; qual caminhava n"o pEde ser expli-
citada, porque Seer oservou religiosamente o tau positivista a
respeito da metafísica. Ao invés disso, outras coisas foram explicita-
das, pois Seer dese'ava ser explícito sore os seus princípios, como
o deve ser um teórico. Ao longo de toda sua ora ele se esfor!ou por
elaorar uma explica!"o de sua teoria mediante a constru!"o de Cti-
posD. *"o se podem considerar nesta ocasi"o as diversas fases pelas
quais passou esse esfor!o. *a >ltima fase, ele usou tipos de Ca!"o ra-
cionalD como os tipos padr#es e construiu os outros tipos como des-
vios da racionalidade. . procedimento ter-lhe-% ocorrido porque
Seer compreendia a história como uma evolu!"o rurno ; racionali-
dade e sua época como o ponto mais alto até ent"o alcan!ado na Cau-
to-determina!"o racionalD do homem. +sta idéia foi desdorada em
diferentes graus de desenvolvimento, com rela!"o ; história econE-
mica, política e religiosa, e, de maneira mais completa, com rela!"o ;
história da m>sica. 4ua concep!"o gloal derivava claramente da )lo-
so)a da história de 3omte; e a interpreta!"o Geeriana da história
pode ser vista com 'usti!a como o >ltimo dos grandes sistemas positi-
vistas. *ota-se, no entanto, uma tonalidade nova na execu!"o que
Seer deu ao plano. A evolu!"o da humanidade em dire!"o ; racio-
nalidade da ciência positiva era para 3omte um processo nitidamen-
te progressista; para Seer, era um processo de desencantamento
)2nt/au%berung, e de desdivini$ac"o )2ntgottlichung, do mundo. Por
seu sentimento de pena de que o encantamento divino houvesse de-
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te progressista; para Seer, era um processo de desencantamento
)2nt/au%berung, e de desdivini$ac"o )2ntgottlichung, do mundo. Por
seu sentimento de pena de que o encantamento divino houvesse de-
saparecido do mundo, por sua resigna!"o ao racionalismo como uma
sina a ser aturada, mas n"o dese'ada, pelas queixas ocasionais de que
a sua alma n"o estava em sintonia com o divino )re%ligi3s unmun.alis%
ch,, Seer deixou revelar sua a)nidade com os sofrimentos de *i-
et$sche F muito emora, apesar de tal con)ss"o, sua alma estivesse
su)cientemente em sintonia com o divino para que ele n"o seguisse
*iet$sche em sua tr%gica revolta. Seer saia o que alme'ava, mas,
por alguma ra$"o, n"o conseguiu chegar ao o'etivo. +le viu a terra
prometida, mas n"o lhe foi dado nela entrar. 3om o traalho de ,ax
Seer, o positivismo foi t"o longe quanto podia e se tornaram visí-
veis as linhas através das quais a restaura!"o da ciência política teria
queT ser empreendida. A correla!"o entre o CvalorD constituinte e a
ciência constituída Cisenta de valoresD se havia rompido; os C'ulga-
mentos de valorD haviam retornado ; ciência so a forma de Ccren!as
legitimadorasD que criavam unidades de ordem social. . >ltimo alu-
arte foi a convic!"o de Seer de que a história evoluía em dire!"o a
um tipo de racionalismo que relegava a religi"o e a metafísica ao rei-
no do CirracionalD. + mesmo esse aluarte n"o era t"o inexpugn%vel,
desde que se compreendesse que ninguém estava origado a nele
penetrar se podia simplesmente dar-lhe as costas e redescorir a ra-
cionalidade da metafísica em geral e da antropologia )losó)ca em
particular, ou se'a, das %reas da ciência com rela!"o ;s quais Seer
se havia conservado delieradamente distante.
A fórmula do remédio é mais simples que sua aplica!"o. A ciência
n"o é a conquista individual deste ou daquele estudiosoR é um esfor-
!o de coopera!"o. . traalho efetivo só é possível se inserido numa
tradi!"o de cultura intelectual. (uando a ciência )ca completamente
arruinada, como foi o caso por volta de /Q00, a simples reconquista
do artesanato teórico é uma tarefa de monta, para n"o mencionar as
quantidades de material que deve ser reelaorado para reconstituir
a ordem de pertinência dos fatos e prolemas. Além disso, as di)cul-
dades pessoais n"o devem ser ignoradas; a exposi!"o de idéias novas,
aparentemente aerrantes, inevitavelmente desperta resistências.
8m exemplo a'udar% a compreender a nature$a dessas di)culdades.
Seer, como se assinalou acima, ainda conceia a história como um
aumento do racionalismo no sentido positivista. 6o ponto de vista de
uma ciência da ordem, no entanto, a exclus"o da scientia prima dos
domínios da ra$"o n"o constitui um aumento, mas sim uma diminui-
!"o do racionalismo. . que Seer, na esteira de 3omte, entendeu
por racionalismo moderno teria de ser reinterpretado como irra-cio-
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!"o do racionalismo. . que Seer, na esteira de 3omte, entendeu
por racionalismo moderno teria de ser reinterpretado como irra-cio-
nalismo moderno. +sta invers"o dos signi)cados socialmente aceitos
dos termos despertaria uma certa hostilidade. ,as a reinterpreta-
!"o n"o poderia interromper-se nesse ponto. A re'ei!"o de ciências
que '% se encontravam desenvolvidas e o retorno a um nível inferior
de racionalidade devem ter motiva!#es experiencial-mente profun-
das. 8ma investiga!"o mais minuciosa revelaria que certas experiên-
cias religiosas estavam na origem da resistência a reconhecer a ratio
da ontologia e da antropologia )losó)ca; e, na verdade, na >ltima dé-
cada do século 7-7 come!ou a explora!"o do socialismo como movi-
mento religioso, explora!"o que mais tarde se transformou no estu-
do extensivo dos movimentos totalit%rios como um novo CmitoD ou
religi"o. A investiga!"o levaria ainda ao prolema geral da conex"o
entre tipos de racionalidade e tipos de experiência religiosa. Algu-
mas experiências religiosas teriam de ser classi)cadas como superio-
res e outras como inferiores pelo critério o'etivo do grau de racio-
nalidade que admitem na interpreta!"o da realidade. As experiênci-
as religiosas dos )lósofos místicos gregos e do cristianismo seriam
considerados de nível elevado por permitirem o desenvolvimento da
metafísica; as experiências religiosas de 3omte e ,arx seriam classi-
)cadas como inferiores por proiirem a coloca!"o de perguntas me-
tafísicas. +stas considera!#es afetariam radicalmente a concep!"o
positivista da evolu!"o da humanidade de uma fase religiosa ou teo-
lógica primitiva para o racionalismo e a ciência. A evolu!"o n"o só te-
ria ocorrido de um grau mais elevado de racionalismo para outro in-
ferior, pelo menos no que concerne ao período moderno, mas, além
disso, esse declínio da ra$"o teria de ser interpretado como con-
seqAência da regress"o religiosa. 4eria necess%rio revolucionar uma
interpreta!"o tradicional da história ocidental, desenvolvida ao lon-
go de séculos; e uma revolu!"o dessa magnitude enfrentaria a oposi-
!"o dos CprogressistasD, que, repentinamente, se encontrariam na
posi!"o de irracio-nalistas retrógrados.
As possiilidades de uma reinterpreta!"o do racionalismo e da con-
cep!"o positivista da história foram colocadas no modo condicional
de maneira a indicar o car%ter hipotético da restaura!"o da ciência
política na passagem do século. 3irculavam idéias deste tipo, mas ha-
via uma grande dist?ncia entre a certe$a de que algo estava profun-
damente errado com o estado da ciência e o entendimento preciso
da nature$a do mal que a acometia. -gualmente longa era a dist?ncia
entre as con'ecturas inteligentes a respeito da dire!"o a ser tomada
para a consecu!"o do o'etivo. +ra necess%rio preencher um om
n>mero de condi!#es antes que as proposi!#es, neste caso, pudes-
sem ser apresentadas no modo indicativo. 9inha-se que retomar o
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para a consecu!"o do o'etivo. +ra necess%rio preencher um om
n>mero de condi!#es antes que as proposi!#es, neste caso, pudes-
sem ser apresentadas no modo indicativo. 9inha-se que retomar o
entendimento da ontologia e o artesanato da especula!"o metafísi-
ca, e, soretudo, cumpria restaelecer a antropologia )losó)ca como
ciência. Pelos padr#es assim reconquistados, era possível de)nir com
precis"o os pontos técnicos de irracionalidade da posi!"o positivista.
3om esse propósito, os traalhos dos principais pensadores positivis-
tas tinham de ser analisados com cuidado a )m de se explicitar sua
re'ei!"o crítica de argumentos racionais; era preciso, por exemplo,
tra$er ; lu$ as passagens dos traalhos de 3omte e ,arx em que es-
tes pensadores reconheciam a validade das quest#es metafísicas,
mas se recusavam a consider%-las porque tal considera!"o tornaria
impossível a articula!"o de sua opini"o irracional. (uando o estudo
chegasse ;s motiva!#es do irracionalismo, o pensamento positivista
teria de ser caracteri$ado como uma variente da teologi$a!"o, nova-
mente com ase nas fontes, e as experiências religiosas su'acentes
teriam que ser diagnóstico somente poderia ser feito com êxito se
estivesse su)cientemente elaorada uma teoria geral dos fenEme-
nos religiosos que permitisse o enquadramento do caso concreto
num tipo. A generali$a!"o ulterior relativa ; conex"o entre graus de
racionalidade e experiências religiosas, em como a compara!"o
com exemplos gregos e crist"os, requereriam um estudo renovado
da )loso)a grega, que revelasse a liga!"o entre o desenvolvimento
da metafísica grega e as experiências religiosas dos )lósofos que a
elaoraram; e um novo estudo da metafísica medieval teria de com-
provar a liga!"o correspondente no caso crist"o. 6everia ainda de-
monstrar as diferen!as características entre as metafísicas grega e
crist" capa$es de serem atriuídas a diferen!as religiosas. +, quando
todos esses estudos preparatórios estivessem prontos, quando os
conceitos críticos para o tratamento dos prolemas estivessem esta-
elecidos e as proposi!#es tivessem apoio nas fontes, ter-se-ia que
enfrentar a tarefa )nal de uscar uma ordem histórica teoricamente
inteligível na qual estes m>ltiplos fenEmenos pudessem ser organi-
$ados.
*a verdade, essa tarefa de restaura!"o '% teve início; e ho'e alcan!ou
um ponto em que se pode di$er que '% foram lan!ados ao menos os
alicerces sore os quais se construir% a nova ciência da ordem. A des-
cri!"o em detalhe desse ousado em-prendimento est% além do esco-
po desta ora F e, além disso, tomaria a forma de uma volumosa his-
tória da ciência na primeira metade do século 77 . .s capítulos se-
guintes, a respeito do prolema da representa!"o, pretendem apre-
sentar ao leitor esse movimento, em como a promessa de restaura-
!"o da ciência política nele contida.
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sentar ao leitor esse movimento, em como a promessa de restaura-
!"o da ciência política nele contida.
F
9radu!"oR ,endo 3astro Lenrique
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