UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DISCIPLINA: LITERATURA PORTUGUESA I – LET01011 – 2011/2
PROFª. ANA LÚCIA LIBERATO TETTAMANZY
LAURA CAMPOS DE BORBA
RAFAEL SILVEIRA DA SILVA
TURMA: U

O Romance de Amadis e releituras no cordel brasileiro de temas
medievais

A Prosa Medieval
A Idade Média foi um dos períodos mais conturbados da história, sendo marcada
por guerras, pestes, fome, presença marcante e dominadora da Igreja, além da presença
forte da Inquisição. Naquele momento, os homens viviam sob a constante atmosfera do
medo e do espanto, transmitidos pelo maior detentor de poder: a Igreja. Com isso, o
cristianismo tornou-se a tábua de salvação daqueles homens, que estariam a salvo
mediante a satisfação divina, alcançando “o perdão”.
José Roberto Mello, medievalista e professor da USP, mostra no seu livro O
Cotidiano do Imaginário as mazelas da vida na Idade Média. De acordo com o autor, a
literatura representava o âmago do homem daquela época, bem como sua mentalidade.
Além disso, não havia uma linha tênue entre a realidade e o exagero nos romances de
cavalaria: Nela desfilam somente o excepcional, o maravilhoso, os ingredientes da
aventura. O fantástico ali presente funciona como uma válvula de escape para dura e
não tão encantadora realidade que ali se apresenta. (MELLO 1992, p.122).
E é nesse viés histórico que surge a prosa medieval, representada por aventuras
amorosas e por romances de cavalaria. Essas narrativas tinham como referência a
matéria de Bretanha, que originalmente se exprimia na figura lendária do Rei Artur e os
cavaleiros da Távola Redonda. O romance de cavalaria surgia em torno do século XV,
provindo dos poemas relacionados a guerreiros chamados canções de gesta. A partir
daí, os romances narravam as peripécias praticadas pelos cavaleiros andantes medievais.
O tradicional enredo engloba a busca da notoriedade e da justiça, desejada por um
cavaleiro solitário, a fim de defender a honra cristã. O cavaleiro moldado segundo os
padrões cristãos revela castidade, fidelidade e dedicação, ressaltando os seus maiores
valores, ainda mais sua coragem que está sempre à disposição das donzelas: Mas agora
mais me convém a cavalaria para ganhar honra e preço como aquele que não sabe
donde vem! (VIEIRA 1995, p. 35).
Inserido nesse contexto encontra-se O Romance de Amadis, obra dita de autoria
de Affonso Lopes Viera, em que alguns defendem a autoria portuguesa e outros a
castelhana. A narrativa discorre sobre a vida do herói Amadis, que foi abandonado por
sua mãe e criado por outra família, e que mais tarde descobre ser filho do rei Perion, e
na maturidade encontra seu grande amor, Oriana. Dali em diante, o jovem entraria para
a cavalaria, dando início a sua saga heróica:
Suspenso fica o amor de Amadis e Oriana, sem lhe sabermos
o fim? Mas o amor não tem fim, se é belo amor; ou, se o tem,
tem-no em si mesmo, porque o amor ama o amor. (VIEIRA,
p.134).
Conforme Saraiva e Lopes (1955, p.99), o tema de sensualidade que percorre o
Amadis traduz uma concepção de vida bem diferente da que está simbolizada na
Demanda do Santo Graal. O ideal do cavaleiro ao mesmo tempo façanhudo e generoso,
fogosamente combativo, mas terno e suspirante no amor; roído de cruéis, graves ou
mortais desejos, mas fielmente casto; ao serviço de uma paixão bem humana, mas cujo
preço é a vitória sobre incríveis e infindáveis dificuldades de todos os gêneros – esse
ideal, em cuja confecção, no Amadis, se tem reconhecido a participação do maravilhoso
bretão e da gesta francesa, corresponde bem ao comedimento de uma aristocracia cada
vez mais palaciana.
Em Amadis, pode-se o explorar o romance, a fiel amizade, bem como os valores
que “deveriam” ser perpetuados por aquela sociedade feudal e aristocrata que viveu
naquela época. Encontramos na prosa medieval diversas características, as quais
também compõem as obras de cordel, fazendo uma releitura dos valores e do estilo
textual da Idade Média.
A prosa medieval no cordel brasileiro
O Brasil herda de Portugal, através do contato via colonização, a abordagem de
temas próprios da literatura européia dos séculos XII e XIII, tais como a valorização da
moral cristã (a moral estava acima de tudo), o heroicismo, a religiosidade, a fidelidade,
a honra, entre tantos outros aspectos. A prosa medieval era nada mais nada menos que
uma representação idealizada da realidade pelas pessoas; uma visão de sociedade e de
cotidiano ideais, formados a partir de determinados elementos da sociedade e do
cotidiano reais da época (MELLO 1992, p.123). Assim sendo, a realidade encontrada na
literatura medieval não encontra total respaldo na “verdadeira” realidade da época.
Alguns vestígios do romance medieval português podem ser encontrados no
cordel brasileiro do século XX, contextualizados conforme os elementos da sociedade e
do cotidiano brasileiros. A abordagem de uma realidade “transformada” e “enfeitada” é
um exemplo. De acordo com Morgado (2001, p. 218), o cordel brasileiro representa a
realidade de duas maneiras: na primeira, são abordados temas tradicionais da cultura
popular, como a religião (o ato de recontar as histórias bíblicas, por exemplo); na
segunda, são abordados temas de cunho social, mais específicos do Nordeste, como “a
seca, o cangaço, a crise, a guerra mundial” (idem, ibid), sendo o cordel, dessa forma,
também um veículo divulgador de informação antecessor da imprensa.
Um exemplo de cordel brasileiro que representa o tema da cultura popular é
História da Rainha Esther, do cearense Arievaldo Viana Lima. Já nas duas primeiras
estrofes do cordel verificam-se traços como: a grande ligação com a religião, no pedido
a Deus, Supremo Ser, a inspiração para a escrita do cordel (primeira estrofe); a relação
com as histórias bíblicas, difundidas na cultura popular. O forte caráter religioso
verificado nesse trecho do cordel é um vestígio do caráter religioso presente na prosa
medieval.
Supremo Ser Incriado
Santo Deus Onipotente
Manda teus raios de luz
Ilumina a minha mente
Para transformar em versos
Uma história comovente
Falo da vida de Ester
Que na Bíblia está descrita
Era uma judia virtuosa
E extremamente bonita
Por obra e graça divina
Teve venturosa dita
(ABLC, 15/11/2011)
A presença de valores, como a gratidão, e de um desfecho com final feliz, também são
elementos da prosa medieval encontrados no cordel brasileiro. No caso de História da
Rainha Esther, eles estão presentes, respectivamente, nas estrofes abaixo:
- Nenhum prêmio, majestade...
Responde o escriba ao rei
Então Assuero disse:
- Agora compensarei
O grande favor prestado,
Gratidão é uma lei!
(...)
No outro dia Aman
À morte foi condenado
Na forca que ele havia
Pra Mardoqueu preparado
Por um capricho da sorte
Foi nela própria enforcado.
(ABLC, 15/11/2011)
O exercício da justiça, sempre presente e atuante, levando à morte aqueles que não a
cumprem, é muito próprio da prosa medieval, e também pode ser visto de maneira clara
na segunda das duas estrofes acima (que é a última do cordel).
Outro exemplo de cordel brasileiro, representando agora temas de cunho social,
é Labareda – o Capador de covardes, do também cearense Gonçalo Ferreira da Silva.
Como na prosa medieval, aqui verifica-se também uma forte ligação com a religião, ao
afirmar Deus como o Pai da Criação, da origem do mundo:
Os audazes bandoleiros
do cangaço no sertão
não davam valor à vida
disprovidos de noção
do que ela representa
para o Pai da Criação.
Numa das reuniões
que sempre fazia às tardes
Lampião chamou um cabra
e lhe falou sem alardes:
- Tu serás o Labareda
o capador de covardes.
(ABLC, 15/11/2011)
Porém, o elemento que ganha mais destaque é a presença do personagem
Lampião, figura histórica representativa do cangaço no Nordeste. De acordo com o
cordel, no bando de Lampião cada homem possuía uma função específica, e era
responsável por zelar pela justiça. Essa justiça difere da justiça trazida pela prosa
medieval, pois está ligada às leis internas do bando (no cordel, Lampião sequestra o
filho de um fazendeiro em troca de dinheiro, por exemplo), e não à uma justiça “geral”,
que contemple todos os segmentos sociais. Isso acaba por afastar esse cordel da prosa
medieval; mas, ao mesmo tempo, há uma forte semelhança com essa prosa, na medida
em que o cumprimento da justiça (ainda que seja a dos cangaceiros) coloca-se acima de
tudo.
O cordel encerra-se com as seguintes estrofes:
Uma peixeira afiada
surgiu repentinamente
nos dedos de Labareda
que o capou prontamente
mostrando os ovos do homem
para a multidão presente.
Foi este mais um capítulo
de maldade e tirania
da história do nordeste
para ser contado um dia
que acaso for abordado
assunto de valentia.
(ABLC, 15/11/2011)
Aqui se destacam três elementos: o aspecto fantasioso da peixeira afiada que surge
repentinamente nas mãos de Labareda, um efeito muito típico também da prosa
medieval; o julgamento do autor quanto à maldade e tirania presentes no cotidiano do
Nordeste, e representadas ao longo do cordel pelas medidas tomadas pelos cangaceiros;
o fato de que, apesar de sua forma singular de exercer a justiça e de agir, os cangaceiros
são tratados como valentes, conforme os versos que acaso for abordado / assunto de
valentia. Ou seja, a valentia, assim como é um elemento da prosa medieval, o é do
cordel, ainda que com certas modificações em seu conceito (na prosa, os cavaleiros,
homens-bons, eram valentes; nesse cordel, os cangaceiros, representativos de homens
não tão bons assim, são valentes também).

Considerações Finais
Conforme a análise aqui presente, percebemos que o imaginário medieval é
amplamente retomado na nossa Literatura de Cordel. A obra de Vieira, O Romance de
Amadis, evidencia a intertextualidade entre a literatura de duas regiões diferentes, em
épocas também diferentes. A forte presença da religião, a fidelidade aos valores morais
e a preferência por finais felizes são alguns exemplos disso.
Entretanto, o cordel não é completamente “fiel” às características da literatura
medieval; há elementos próprios, como a valoração diferenciada atribuída à justiça e à
valentia e a abordagem de questões sociais próprias do Nordeste brasileiro. Essas
diferenças são adaptações à realidade dessa região do país, próprias do processo de
difusão e desenvolvimento do cordel no Brasil.















Referências Bibliográficas
ABLC. Grandes Cordelistas. In: Academia Brasileira de Literatura de Cordel.
Disponível em < http://www.ablc.com.br/historia/hist_cordelistas.htm>. Acessado em
15/11/2011.
MELLO, J.A. O cotidiano no Imaginário Medieval. São Paulo: Contexto, 1992.
MORGADO, G. B. A permanência do imaginário medieval na literatura de cordel. In:
SILVA, A. F., SILVA, L. R. (Org.). Atas da IV Semana de Estudos Medievais do
Programa de Estudos Medievais da UFRJ. Rio de janeiro: Universidade Federal do Rio
de Janeiro, 2001, p. 216-224.
SARAIVA, A. J.; LOPES, Ó.. História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora,
14ª edição, 1955.
VIEIRA, A. L. O Romance de Amadis / reconstituição do Amadis de Gaula dos
Lobeiras (sécs. XIII- XIV). São Paulo: Martins Fontes, 1ª edição, 1995.