UniversidadedeSãoPaulo

FaculdadedeFilosofia, LetraseCiênciasHumanas
DepartamentodeAntropologia
ProgramadePós-GraduaçãoemAntropologiaSocial
Sobreo“CasoMarieCurie”
A RadioatividadeeaSubversãodoGênero
GABRIEL PUGLIESE
SãoPaulo
2009
1
UniversidadedeSãoPaulo
FaculdadedeFilosofia, LetraseCiênciasHumanas
DepartamentodeAntropologia
ProgramadePós-GraduaçãoemAntropologiaSocial
Sobreo“CasoMarieCurie”
A RadioatividadeeaSubversãodoGênero
Cao|¦e¦ Puq¦¦e·e
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Antropologia Social do
Departamento de Antropologia da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
UniversidadedeSãoPaulo, paraaobtençãodo
títulodeMestreemAntropologia.
C|¦en|aoo|a P|o¦a. L|a. L¦¦¦a ¹a||¦ ¦o|¦|z Scnwa|cz
SãoPaulo
2009
2
RESUMO: Trata-sedeumestudo do “Caso MarieCurie” sobo signo
do acontecimento: como a luta desigual de Marie Curie emfavor da
radioatividade foi suscitada pela possibilidade de afirmar “isso é
científico”. Essapesquisasedebruçasobreas controvérsias emtorno
da radioatividade entre os anos 1898 e 1911, que envolveramtoda
umapolíticasexual (edepois nacionalista). Emmeio aesseconjunto
derelações depoder quetornouindissociáveis os assuntos humanos e
a gestão-produção das coisas, exploro “como” esse acontecimento
criouuma“problematização” paraoscontemporâneos, desabrochando
emuma“política” singular. Recolocar eextrair ocaráter auto-evidente
da produção de Marie Curie e da radioatividade é umdos objetivos
dessa dissertação. Enfim, desejo fazer aparecer uma “aclimatação”
quecorrompeu tanto o gênero quanto aciência, produzindo demodo
singular MarieCuriecomoumíconedahistóriadaciência, bemcomo
aradioatividadecomumfenômenouniversal.
PALAVRAS-CHAVE: Antropologia, História, Gênero, Ciência,
MarieCurie, Radioatividade.
3
ABSTRACT: It isabout astudyof “MarieCurieCase” under thesign
of the.v.t.t.t:: howanunequal conflict of MarieCurieinfavor of
the radioactivity was raised by the possibility of affirming “this is
scientific”. This search focuses on the controversies surrounding the
radioactivity between the years 1898 and 1911, which involved a
sexual (andafter nationalist) politics. Inthemidst of this set of power
relations that madethehumanaffairs andtheproduction-management
of things inseparable, I explore “how” these .v.t.t.t: created a
“problematization” to the contemporaries, unclasping a singular
“politics”. This dissertationaims at replacing and extracting the self-
evident character of the production of Marie Curie and radioactivity.
Finally, I desire to display an “acclimatization” that corrupted both
gender and science, producing Marie Curie as an icon of science
history, andtheradioactivityasanuniversal phenomenon.
KEY-WORDS: Anthropology, History, Gender, Science, MarieCurie,
Radioactivity.
4
A meupai,
por ter meensinadotodaumaética
A minhaavó,
quefez dorisoumaferramentapoderosa
1t t.tc::at
5
Àq|aoec¦nen|o·
Essadissertação foi realizadacomo apoio do Conselho Nacional deDesenvolvimento
Científico e Tecnológico – CNPQ (de fevereiro a julho de 2007) e da Fundação de
Amparo àPesquisado Estado deSão Paulo – FAPESP (deagosto de2007afevereiro
de2009). As bolsas queessas agências meconcederamdurantedois anos deprocesso
demestradoforamfundamentaisparaodesenvolvimentodapesquisa.
Gostariadeagradecer àFundação EscoladeSociologiaePolíticadeSão Paulo
pelo apoio e o amparo institucional de sempre. Durante os sete anos de formação em
suas salas – primeiro como aluno e agora como professor –, tive a oportunidade de
conhecer e admirar diversas pessoas às quais não poderia deixar de mostrar meu
reconhecimento. A todos os professores, funcionários, colegas e alunos que passaram
por lá durante esses anos, meus sinceros agradecimentos. Em especial, Rosemary
Segurado, Caroline CottadeMello Freitas, Rodrigo Estramanho, Carla Diégues, Aldo
Fornazieri e Contador Borges. A Rose e Borges também por manter vivo o nosso
delirantegrupodeestudosFoucault/Deleuze.
Ao acolhimento daUniversidadedeSão Paulo eaos professores comquemtive
contato durante o período de mestrado: Márcio Silva, Heloísa Buarque, Ana Lúcia
Pastore, MartaAmoroso, Heitor Frúgoli, AnaClaudiaMarques eJúlio Simões. Os dois
últimos, tambémpor teremcontribuído muito paraaconfecção destetrabalho duranteo
exame dequalificação. Aos membros dos grupos deestudo epesquisa¹,l::: e Etno-
história, comos quais pude discutir e compartilhar muitas reflexões. Aproveito aqui
para agradecer Jorge Mattar Villela, pela leitura, diálogos e discussões. E, tambémà
professora Mariza Corrêa, que me incentivou a continuar esse trabalho nummomento
crucial – exatamentequandoestavainclinadoadeixá-lodelado.
As amizades que já ultrapassamos muros das universidades: Rafael da Cunha
Cara Lopes, Elisa Rodrigues, Frederico Pieper, José Adão Pinto, Thais Chang
Waldman, Florbela Ribeiro, Gláucia Destro, Enrico Spaggiari, Jacqueline Teixeira,
Thomaz Kawauche, KarinDeRussi, ThaiseMacedo, CamilaTamantini, SeleneCunha,
RobertaStrack, KarinaBiondi eCaio Manhanelli. Por todo o apoio, emsuas diferentes
intensidadesemodos, devominhagratidão.
Nãopoderiadeixar deressaltar trêsfigurasimportantíssimasparamimpor conta
do tetrálogo queseconstituiu duranteos anos. Meus companheiros degraduação ede
6
sempre Eduardo Dullo, Delcides Marques e Adalton Marques, aos quais não tenho
como expressar o quanto contribuírampara minhas reflexões. Fizeramtanto por mim
nesses anos que, mesmo que tentasse descrever exaustivamente, ainda assim não
conseguiria dizer a intensidade de nossa reciprocidade. Vocês são demais. Muito
obrigado.
Aos meus amigos de infância, queridos Dani, Rafa, Felipe, Rafinha, Andrew,
Cecéu e Carla. E como maior carinho, aos meus amigos e parceiros de toda a vida,
Fernando “tubarão” Aldaves, Thiago Pedra Negrete, Luciano “Xis”, e Eduardo
“Zagueiro”. Que a distância dos últimos anos não faça desaparecer nosso afeto, nossa
alegria e até as nossas trapalhadas. Enfim, aquilo que cultivamos com muita
sinceridade!
Agradeço muito pela orientação da professora Lilia Schwarcz, com todo o
carinho dealguémqueaprendeu muito comas provocações, discórdias eincentivos. A
liberdade que tive para formular os problemas não se seguiu sem uma crescente
exigênciaderigor. Semdúvida, aformacomo o processo deorientação seconduziufoi
tão inspiradoraquanto acapacidade intelectual e detrabalho daprofessoraLilia. Seus
ensinamentos e sua postura levo comigo para muito alémdesta dissertação. Sinto-me
umprivilegiado. Muitoobrigado.
Outra autora desse trabalho é Stefanie Franco. Não só pelas inúmeras leituras,
diálogos, discussões, quemuitas vezes mefizeramrefazer as reflexões, mas tambéme,
principalmente, pelo amor, carinho e parceria que me alavancavam em todos os
momentos difíceis. Semisso, as coisas certamente seriammais arriscadas. Você é o
meuqueridorealejo, teamo muito. Eu, vocêeo“Kafka” – agatomaissábiodo mundo,
comovocêgostadedizer – formamosumbelo“galopeabeiramar”.
E oquedizer paraminhafamília, quesofreutantoduranteesseprocessoestando
euausente(mesmoquepertodeles) quando maisprecisavam? Mãe, minhaqueridamãe,
palavras não dizemnada a respeito detudo o que lhe devo. E até mesmo o amor que
sinto por ti é indizível. Meu irmão saiba que me orgulho muito de você, assimcomo
aquelesaquemessetrabalho foi dedicado (aRafinhaéumasortudadetê-lo como pai).
Apesar detodosos pesares edetodas as perdas recentes, nossaunião sempreseráuma
alegrearmacontratudoo quenosaflige. A vocêsdois, meuspontosfortes, dedico tudo
oquefaço– esabemdisso.
7
C .:j´:::c !utatc . tu::a: v...: c.:a].::acc . :ac taI
.ct::cIacc tc c..c::.: ca :tv.t,ac ¸u. j::t.::c i:.a
c.:.cti:acc c. :: t.:tc . .t :.¸u:ca c.:c.t!c:c. ¹c::
ja:... tc j::t.::c :t::at:. :t.:´v.I ¸u. :aI c.:.cl.::a :.t!a
jcc:cc :.: i.::a . c.jc:: ¸uatcc .Ia ]a ic: i.::a ja:...
:t.:´v.I ¸u. .Ia :.t!a .:.ajacc :at:c :.tjc a j.:¸u::a.
(FrancisBacon, Ncvut C:¸atut)
8
Suna|¦o
P|o¦oqo ........................................................................................................ 9
!n||oou¸ao................................................................................................. 17
“OCasoMarieCurie”............................................................................. 17
Ométodoeasfontes............................................................................... 24
Una |a|¦oaoe e ·ua· ¦|oo¦ena|¦za¸oe· o encon||o en||e qene|o e c¦enc¦a
(18'5-18'8,................................................................................................ 32
A efervescência: osmisteriososRaiosX.................................................. 32
A naturezahiperfosforescentedourânio.................................................. 40
Umamulher eaatividade(anormal) dosraios......................................... 49
Oua¦ é a o|¦qen oa ene|q¦a¯ C o¦·¦o·¦|¦vo ex¦e|¦nen|a¦ ¦aze|-¦a¦a|,
¦aze|-ca¦a| (18''-1'O`, ............................................................................. 70
A erupçãodeumaoutrapolítica.............................................................. 70
Radioatividadepor todoslados................................................................ 83
Transmutaçãoatômica: umanovaalquimia............................................109
NosbastidoresdoNobel.........................................................................121
le··onanc¦a· oe a|¦v¦oaoe· |ao¦o¦o¦¦|¦ca· o aqenc¦anen|o e ·eu· e·||a|o·
(1'O4-1'11,...............................................................................................131
Inundadospelaradioatividade................................................................131
Entreodivisível eoindivisível ..............................................................145
Orádio metálicoeapolonesadestruidoradelares..................................156
F¦¦¦oqo......................................................................................................173
Ànexo P|en¦o·, neoa¦na· e |¦|u¦o· nono|¦¦¦co· conceo¦oo· a ¦aoane
Cu|¦e.........................................................................................................179
le¦e|enc¦a· o¦o¦¦oq|a¦¦ca·........................................................................184
9
P|o¦oqo
A:::t .ctc c: at::¸c: tc:aI:::a: .:.:.v:at ta×:ta: c.u-t.
vct:ac. c. .:.:.v.: c ¸u. :. jcc.::a .!ata: c. t´t:ta: cu :.]a
aI¸uta .c::a ¸u. a]u::aca a: I:t::a,c.: c. t.u .t¸.t!c ::acu.:::.
ut ::jc c. .×j.::.t.:a v:v:ca ¸u. tac .!.¸a a aI.at,a: a :al.cc::a
ta: ¸u. c. ¸uaI¸u.: tccc . :.:uI:acc c. v:v.:.
(CarlosDrummonddeAndrade, C av.::c ca: .c::a:)
Desde minha graduação, na Escola de Sociologia e Política, há pelo menos seis anos,
com idas e voltas, venho me debruçando sobre a possibilidade de explorar uma
antropologia da ciência. Mais especificamente no meu caso, uma antropologia das
políticas sexuaisemtorno daspossibilidadesdeexistênciadaradioatividade, enunciada
por MarieCurie. É o quechamo preferencialmentede“Caso MarieCurie”. Entende-se,
por essa expressão, a singularidade das práticas que perpassaramo acontecimento da
radioatividade e dos radioelementos. Interessa-me assim, não somente a produção
científica, mas também as relações de gênero que a envolviam. Durante a pesquisa
tomei como referência os trabalhos de Bruno Latour e de Donna Haraway – comos
quais também aqui estabeleço um diálogo privilegiado – que se não abriram essa
possibilidadeparaos formados nas “ciências humanas”, pelo menos apresentaramuma
grandejustificativada importânciatal empreitada. ParaalémdeHaraway, no quetoca
os estudos feministas de gênero e ciência, há uma necessidade de que pesquisadores
enfrentemas¹a:c: ·.:.t..:, áreaaindapouco abordadaequeimplicaemdificuldades
analíticas para os estudos feministas (Keller & Longino, 1996). Em relação à
antropologia, Bruno Latour (1994) fez duras críticas, apontando como adisciplinatem
dificuldades emabordar alguns “centros” do Ocidente moderno, como por exemplo as
Ciências. Segundo ele, “ciência da periferia, a antropologia não sabe voltar-se para o
centro” (Latour & Woolgar, 1997: 18).
Nesta dissertação, procuro ampliar não só a minha pesquisa original da
graduação e continuar enfrentando esses problemas, mas tambémas minhas leituras
sobre o que está sendo escrito sobre ciência na contemporaneidade. Acompanhei, por
exemplo, a discussão no “Programa Forte de Sociologia do Conhecimento”
1
, os
1
Programa de estudos inaugurado no final da década de setenta, que temcomo principais expoentes
DavidBloor (1976) eHarryCollins(1982). Essesautores, queseautodenominamsociólogosrelativistas,
estudamatotalidadedapráticacientífica, incluindoadistinçãoentreverdadeeerro, comoumobjetode
análise sociológica. Segundo eles, a adesão a uma teoria científica depende da explicação cultural ou
social detodacrença.
Prólogo
10
“Estudos Feministas daCiência”
2
etambémos “Estudos daCiência”
3
. Como, no plano
conceitual, as críticas eramdirigidas emgrande parte à “Filosofia da Ciência”, decidi
acompanhar tais respostas também
4
. Assim, fui levado a um debate muito mais
abrangente, não apenas sobre o estatuto da ciência em nossa cosmologia ocidental,
como tambémacerca das maneiras como descrevemos as ciências. Acabei entrando
tambémnuma seara de outras disciplinas, que já se constituíamempleno debate, e,
pior, adiscordânciaeratantaquetal contendahaviasido apelidadapor seus integrantes
de “Guerras das Ciências”
5
. Tudo isso ocorria mesmo que todos os “integrantes” se
declarassem contra a guerra ou que, diferentemente dos demais, não estavam em
“guerra” (“o infernosãoosoutros”, paralembrar Sartre).
Entendi, apartir deentão, que, deumaformaoudeoutra, segundomeugostoou
não, o trabalho sobre o “Caso Marie Curie” ressoaria na multiplicidade de questões
colocadas por esse debate. Aproveitei, então, muitos dos problemas colocados nas
discussões que acompanhei e, para me forçar acriar soluções descritivas combase na
prática científica de Marie Curie, acabei multiplicando-os. Como disse certa vez
MarilynStrathern(2006), “criar maisproblemasparadar maistrabalho”, issonãosefaz
semdeslocar as questões, semcolocá-las de outra maneira. Evidentemente, escrevo
tendo esse debate como meu pano de fundo, e muitas vezes trazendo autores –
2
Dentreamultiplicidadedeestudos feministas daciência, recorri demodomais intensoaKeller (2006,
1985, 1983), Haraway (2004, 1995, 1991) e Schiebinger (2001). Se for possível reuni-las em um
“projeto”, esteseriao decompreender como as relações degênero constituemumadeterminadaprática
científica, e como essas vicissitudes tendema excluir as mulheres; descrever a contingência histórica
radical do gênero e, ao mesmo tempo, preparar a reflexão para uma ciência sucessora; recolocar o
problemadaciênciaemtermospolíticoseéticos.
3
Tem como expoente principal Bruno Latour (1994; 2000; 2001; 2004a). ´:c::c tccc, seu maior
objetivo é substituir as duas histórias paralelas deciênciaepolítica, natureza ecultura, por uma única
história, queseinstalariaentreasduasnasredessociotécnicasquetransladamumaeoutra, misturando-as
incessantemente. Noentanto, tende-seaconfundir rápidodemaisessaatividadecomaantropologia. Ora,
seu projeto, antes de ser antropológico, coloca um problema muito interessante para a antropologia.
VáriasvezesLatour comentouquegostamuitodométododadisciplina(etnografia), masmuitopoucoda
teoria ou da sua .j:::.t.. Sua questão me parece muito mais de “diplomacia” – recolocar a “nossa”
política das coisas com um experimento de pensamento, instrumento de diagnóstico e criação de
resistência– doquedeantropologia. “Latour, comosesabe, étudomenosumantropólogoclássico, pela
razão mesmaqueseu trabalho reproblematizou o escopo da antropologia, ao incorporar as ciências – e
portantoascondiçõesperspectivasdepossibilidadedaantropologia– norol dosobjetospossíveisdeuma
etnografia‘clássica’.” (ViveirosdeCastro, 2007: 94[nota8]).
4
Por exemplo, Sokal eBricmont, comolivro1tjc::u:a: :t:.I..:ua:: (1999), eGrosseLevit, comolivro
A ¸:atc. :uj.::::,ac (1994). Esses autores fizeramexpressivas denúncias à“esquerdaacadêmica”, que
teriatransformadoumgrandenúmerodecorrentes, comoos estudos feministas, deraçaeetnia, culturais
e da ciência, empedestais de denúncia e descredibilização da ciência e da razão, principalmente ao
colocar emchequesuaautonomia.
5
Expressão utilizada por alguns estudiosos da ciência quando se referem, em suas análises, aos
desencontrosentreCiênciasNaturaiseCiênciasHumanas. Diz respeitoàscríticasqueumaremeteaoutra
quando setratadeinterpretar aprodução científica. Parasaber como o debatesedesenrolou, cf. Latour
(2001), Stengers(1997), Santos(2006), Sokal eBricmont (1999), GrosseLevit (1994) eRoss(1996).
Prólogo
11
parcialmente– exógenos aele, como umaformadedeslocá-lo. Refiro-meapensadores
muito heterogêneos como Michel Foucault (referência sempre presente para mim),
Gilles Deleuze e Felix Guattari, Marilyn Strathern, Alfred North Whitehead, Judith
Butler e Isabelle Stengers, os quais, mesmo apropriados de formas diferentes pelos
diversos lados do debatequeficou conhecido como “Guerras das Ciências”, ainda me
parecem bastante não posicionados e, portanto, potencialmente propensos a fazer
algumadiferençaparamim.
Parece-me que, dessa forma, pode-se pôr em relevo alguns problemas
interessantes para pensar a maneira como caracterizamos a ciência na
contemporaneidade. A título de ficção, meu objetivo consiste em exagerar algumas
diferenças a partir do “Caso Marie Curie”, levando a linguagem disponivel para
descrever as ciências até certo limite de funcionalidade, fazendo ressoar “umdiálogo
interno na linguagem de análise” (Strathern, 2007: 32). Enfim, sem a pretensão de
imaginar ser pioneiro emtrabalhar nessadireção, tento jogar aimagemdo pensamento
conferidaas “Guerras das Ciências” parao exterior, numlugar deafastamento desuas
premissas. Tal procedimento não será possível, certamente, sem uma descrição
antropologicamente “conveniente e controlada” (Strathern, 2007) dos problemas da
físicaedaquímicaemqueo“CasoMarieCurie” seinstala.
***
Fazer um trabalho sobre as ¹a:c: ·.:.t..: implica num primeiro problema para a
descrição. Seémuito difícil compreender física, oumesmo aquímica– principalmente
porque fomos formados “emoutro prédio na universidade” – penso que não foi mais
complicado do que enfrentar, por exemplo, (para lembrar o clássico objeto da
antropologia) as cosmologias indígenas que os etnólogos não cansaramde mostrar a
complexidade “no mesmo prédio”. Obviamente, trata-se de domínios absolutamente
distintos, e que por certo implicamemdificuldades heterogêneas para o pesquisador.
Quanto amim, não sounemdelongeumespecialistaemfísicaouquímica, oumesmo
um físico ou químico, e também não compreendi a física e a química que estudei
integralmente, damesma formacomo éimpossível “tornar-senativo” ou compreender
integralmente os mundos possíveis dos “povos (nada) primitivos” que os etnólogos
estudam. O processo de conhecimento é sempre parcial, até para aqueles que são
constituídos “dentro” dessas próprias socialidades, seja nas ¹a:c: ·.:.t..: ou mesmo
Prólogo
12
nas cosmologias indígenas. Nuncasecomportaatotalidadedeumregimederelações
6
,
portantonuncasetematotalidadedeumsaber, e, assimsendo, atotalidade(quemuitas
vezeséconfundidacomarealidade) não existe. Oqueseapresentasão pontosdevista,
queconsistemantesdetudoemrelações. Issomefaz pensar queessetrabalhocontribui,
consideradas suas grandes limitações (científicas, historiográficas e, quiçá,
antropológicas), para a compreensão do funcionamento das práticas das ciências
modernas que, em seu próprio conteúdo (mesmo partindo de um prédio diferente),
contemplamo “CasoMarieCurie”. Quer dizer, damaneiracomopossomostrar aqui, as
questões científicas nemsempre são da mesma ordemque os especialistas “do outro
prédio” gostariamquefossemmostradas, enempor isso asingularidadedo queescrevo
seesvazia, nemtampoucoperdesentido
7
.
Ademais, adificuldadedecompreensão dos dados queirei expor nestetrabalho
seguem para os possíveis leitores que, da mesma forma, também não precisam ser
“especialistas” e podemmuito bem serem “crianças” em física e emquímica. Mas,
muito provavelmente, eles poderão aferir a hipótese cujas questões científicas não
apresentei demodoclaro; poderiater abusado denotasexplicativasparamefazer claro,
mesmo sabendo queessas “questões científicas” não são claras nemparaos cientistas
queestudo. Antes, elasremetemàconstruçãodeumaoutralinguagem, queestavasendo
feita ali, numa tentativa de resolver os problemas que as próprias pesquisas
demandavam. Comocadaumdoscientistasqueestudoexplorava“osraiosmisteriosos”
de uma forma específica (porém, variada), descrevo exatamente o modo como eles
descreviamosobjetosquesedeparavam. Assim, oquefaçoaparecer podesoar bastante
controverso, mas é exatamente porque abordo as controvérsias que compuseram a
radioatividade.
Nesse ponto, não me parece mais difícil compreender a minha descrição da
ciência da radioatividade do que as descrições dos etnólogos sobre as cosmologias
indígenas (a não ser no caso de julgarmos que os etnólogos simplificamas visões de
6
Paraumaexposiçãobrilhantesobreesseassunto, ver Strathern(1987) – oslimitesdaauto-antropologia.
7
HarryCollins, sociólogodaciênciaqueestudaondas gravitacionais, nos mostrouumbeloexemplode
como não é necessário conhecer “matemática avançada” ou ter habilidade com os instrumentos
laboratoriaispara“discutir” oconteúdocientífico. Propôsumtesteaoscientistas. Pediuaalgunsamigos
[cientistas] queelaborassemseteperguntassobreoassunto(ondasgravitacionais). Asperguntasseriam,
por suavez, mandadas paraCollins eparaum“físicodeverdade”, depois, asrespostas daduplaseriam
passadassimultaneamenteesemidentificaçãoparasetepesquisadores daáreaqueteriamquedistinguir
quemeraafraude. Nãofoi possível distinguir o“físicodeverdade” dosociólogo, ouimpostor (!cI!a c.
·. ¹auIc, 8/7/2006). Este exemplo abre caminhos para uma antropologia da ciência explorar as
controvérsias científicas com propriedade, rompendo com o “exclusivismo dos especialistas” das
ciênciasnaturaisparadiscutir taisconteúdos, comogostariamSokal eBricmont (1999).
Prólogo
13
mundo daqueles que estudam, o que não me parece o caso). Mas, às vezes, devido à
proximidade criada por nossa formação – “o que estudamos classicamente” –, é mais
fácil compreender o que dizemum ameríndio ou um melanésio sobre as coisas do
mundodoqueoquepensaoufaz umfísicoouumquímico. Issojáéumsintomadoque
Latour (1994) chama “constituição moderna” – práticas de separação ontológica e
epistemológicadosdadosestáveisdanaturezaedasconvençõesinstáveisdasculturas–
e que, sem dúvida, dividem legitimamente os conhecedores das culturas (“nós” do
mesmo prédio) eos conhecedores da natureza(os “outros” do outro prédio). Haraway
(1995), por outro caminho, mostrao funcionamento emsuas críticas àciência apartir
das questões de gênero. Ora, é exatamente dessa separação que, há pelo menos seis
anos, estoutentandomelivrar, napistadessesdoisautores.
As relações que me esforço emmostrar são exatamente da ordemda variação
dos conteúdos nos enunciados dos cientistas; a mudança de estatuto que carregamno
processo de pesquisa e as questões que elas implicam. Ou seja, quero ver a
radioatividadenamultiplicidadedeformasqueelaaparece. Emmeumododever, essas
multiplicidadesdeformassãocruciaisparacompreender apolíticasexual emqueMarie
Curieestavacolocada, bemcomo o modo como as relações degênero variaramcomo
andar daspesquisas. Nessecaso, explicar o que“são” tais conteúdosmefariaperder de
vistaessa multiplicidade de relações, reduzindo-as assimao máximo àquilo que já sei
de antemão, inclusive contra os próprios cientistas que estudo, pois eles mesmos
desconheciamo que “eram” tais conteúdos emdeterminados momentos. Essa atitude
perante os dados conduzir-me-ia a perder de vista, por exemplo, as várias
radioatividades possíveis que se apresentam entre 1898 e 1911, em nome do que
conhecemos hojepor “a” radioatividade, esobreos outros raios ali dispostos. Explorar
essas variações eacomplexidadedos enunciados dos cientistas éo quetento fazer do
modo mais claro possível dentro de minhas limitações. Mas, para isso, terei que
descartar qualquer explicação presentificada(do universal a j::c::) emrelação ao que
“são” esses fenômenos. Limito-me a produzir dados combase emsuas comunicações
científicas e outros documentos emprol de minha argumentação, isto é, a partir das
perguntas que faço para os meus dados. Conseqüentemente, não anuncio tais relações
comoelas“são” paraosenvolvidos, masantes, comunico-asapartir deumaanáliseque
exploracomo as coisas aparecemde maneiracomplexa (Strathern, 1999). É claro que
pretendo descrever as pesquisas emtorno daradioatividadedemaneirabempróximaà
imagemqueos cientistas fazemdo quesepassou, mas reconheço o quão mais intenso
Prólogo
14
são esses enunciados emrelação ao quemeutexto (eminhacriatividade) podeabarcar.
A tarefa que me disponho é a transmissão da complexidade das “práticas científicas”
comreferênciaàscontrovérsiaseàslutassexuaisparticularesemquesãoproduzidas.
***
Paradescrever o modocomoestadissertaçãosedispõe, istoé, suadistribuiçãoespacial,
utilizo umpequeno “histórico” do que vou abarcar. Assim, posso facilitar ao leitor,
dando-lheotomgeral doargumentoeinformando-o, deantemão, ondequerochegar. A
intenção édeixar mais acessível meupercurso (eas “questões científicas”), namedida
emque torna tambémmais claro o meu raciocínio. Esta dissertação é constituída de
umaintrodução etrês partes, queemcertamedidasedebruçam, cadaumadelas, sobre
uma controvérsia científica em torno da radioatividade e de seus desdobramentos.
Apresento, naprimeira, o surgimento daradioatividadecontraahiperfosforescênciado
urânio; na segunda, uma discussão, a saber: se a radioatividade era uma propriedade
“interna” aos átomos dos elementos radioativos ou uma propriedade “externa” – uma
radiação etérea – que os elementos pesados absorviam e reemitiam em forma de
radiação; na terceira parte, apresento as discordâncias emtorno do átomo, quando se
procurava saber se ele era a menor parte da matéria e, portanto, indivisível, ou se era
como umcomposto departículas mais elementares. Mas, como o leitor perceberá, essa
separaçãodascontrovérsiasempartessignificaapenasumrecursoanalítico, poiselasse
relacionamaolongodahistória(nãocontada) daradioatividadeeseinterpenetramumas
naoutras.
A introdução éonderevelo meu problema, meus métodos e minhas fontes. No
“CasoMarieCurie”, aprimeirapartedaintrodução, tentodelimitar meuobjetofazendo-
o contrastar com as formas mais variadas de abordagens sobre a ciência na
contemporaneidade, demodo ameafastar daspremissascomumenteaceitasecombater
algumas hipóteses auto-evidentes sobreMarieCuriee/ouaradioatividade. Nasegunda
parte, “o método easfontes”, exploro amaneiracomo pretendo resolver o “Caso Marie
Curie”, desenvolvendo o que chamo de regras do método, e apresento minhas fontes
paradefinir amaneirapelaqual possoevidenciar asingularidadedemeuobjeto.
Na parteI, “Uma raridade e suas problematizações. O encontro entre gênero e
ciência (1895-1898)”, descrevo como as pesquisas sobre os Raios X mobilizaram
cientistas do mundo todo paraos seus laboratórios. A partir dessas pesquisas percebeu-
Prólogo
15
se uma anormalidade dos raios produzidos pelo urânio, que ficou conhecida como
hiperfosforescência e que se estabilizou como forma geral da radiação, os raios
Becquerel. Depois, apresento combasenaimagísticasexual – as relações depoder que
suscitaram– o modo como Marie Curie se dispõe a estudar esses novos raios e, com
base na complementaridade sexual, a maneira pela qual Pierre Curie se torna
interessado emcooperar coma esposa. Apresento ainda como ali no laboratório “dos
Curie” surge outra singularidade (a radioatividade) que coloca em xeque a
caracterização dos raios Becquerel. Trata-se de mostrar como essa “aclimatação” dos
raios, abreumacontrovérsia, queacabapor encontrar as vicissitudes degênero deuma
formaespecífica, cristalizadaemMarieCurie, quefiguravadeummodo singular entre
os“homensdeciência” (gênero eciêncianão sãominhasquestõesa j::c:: esimo que
exatamente meu objeto faz encontrar). Enfim, o acontecimento da radioatividade, que
problematizou a ciência do momento – numencontro entre multiplicidades – acaba
problematizando também o gênero ao abrir espaço para a cientista. Como a
radioatividadeapareceengendradanumapolíticasexual, daqual éindissociável, éoque
desejo mostrar.
Na parte II, “Qual é a origemda energia? O dispositivo experimental: fazer-
falar, fazer-calar (1899-1903)”, tento mostrar os desdobramentos desseacontecimento.
Como MarieCuriecriaseudispositivo experimental ecomo seinstitui a“política” que
daí emerge e por meio da qual a radioatividade (essa singularidade espantosa que
ninguémsabia o que era) torna-se o grande edifício da ciência na virada do século.
Exploroo modo como essasingulariedadeconectourelaçõesdiversasdeacordo comas
propriedades do fenômeno que os cientistas faziam existir (científicas, econômicas,
políticas, médicas etc.). Tudo isso emmeio às relações depoder queo gênero colocava
emexercício, como por exemplo, a divisão sexual do trabalho entre Pierre e Marie
Curie – ela passando a se debruçar na química (nos elementos) e ele na física (nos
raios), comtrabalhossexualmentecomplementares– paraconseguir provar aexistência
da radioatividade e dos elementos químicos que possibilitavamexplorar sua natureza.
Maisadiante, explorooutracontrovérsiasobreanaturezadaradioatividade: seelaopera
como uma propriedade “interna” ou “externa” aos átomos, que tambémressoam(ou
não) paraaexistênciados elementos radioativos, bemcomo as posições dos inúmeros
cientistas queparticiparamdaquerela, dentreeles PierreeMarieCurie, queassumiram
posições distintas por conta da divisão do trabalho, entre outros fatores. Nessa parte
central dadissertação(emtodosossentidos), queromostrar, emmeioàheterogeneidade
Prólogo
16
do poder, como o dispositivo experimental de Marie Curie para aradioatividadepôde
fazer as relações degênero esuadistribuição do poder semultiplicarem, produzindo a
cientista como uma exceção (ganhadora de inúmeros prêmios e figurando como uma
dasmaiorescientistasdaquelemomento).
Naterceiraeúltimaparte, “Ressonânciasdeatividadesradiopolíticas. Oagenciamentoe
seus estratos(1904-1911)”, descrevo os desdobramentos dapolíticaquenasceemmeio
àimagísticasexual. Mostrocomoadivisãosexual dotrabalho fez comquePierreCurie,
que argumentava com a hipótese da “fonte externa”, fosse derrotado por Ernest
Rutherford, que defendia a hipótese da “fonte interna”. Marie Curie, por sua vez, ao
isolar o rádio, garantiu a única realidade material do fenômeno da radioatividade,
sagrando-setambémvencedora. Os desdobramentos da“resolução” dessacontrovérsia
colocaramMarieCurienumaposiçãodeexercíciodecertaautoridade, abalandoopoder
da complementaridade sexual que figurava entre o casal Curie e os demais cientistas.
Discuto ainda como a morte de Pierre Curie produziu uma alteração radical no modo
comoas vicissitudesgênerooperavam, cruzandocomaquestãodanacionalidade, oque
atenuou as desigualdades e o exercício de poder sobre a cientista – nessa altura já
bastantepoderosa. Isso tudo emmeio aumaoutracontrovérsia, sobreacomposição da
matéria: a radioatividade havia ressoado para a destruição do centro mais estável da
física, oátomoe, assim, várioscientistasecolocaramcontratal “alquimia”. Enfim, essa
parte da dissertação tenta mostrar como a vitalidade da política que Marie Curie fez
emergir permanece, mesmoemmeioatantosbloqueios, apontodetorná-lapioneiraem
váriasatividadesgeralmenteexcludentesàsmulheres.
17
!n||oou¸ao
C Ca·o ¦a|¦e Cu|¦e
Marie Curie é conhecida como uma das mulheres mais importantes da história do
Ocidentemoderno; dentreoutras tantas cientistas, foi aprimeiraque, por ter seunome
associado a radioatividade, conquistou representatividade para além do mundo
científico, sendo muitas vezes lembradapelos movimentos feministas. Seu caso éuma
raridade, tãoraro quantooscientistascujos nomes foramassociadosaalgumfenômeno
danaturezaouaalgum“padrão demedida” eque, por isso mesmo, estabeleceramuma
linguagemcomumentretécnicos, investigadores, empresaseEstadosdetodoo mundo.
As pesquisas sobrearadioatividadeenunciadas por MarieCurie, não só criaramoutra
possibilidade para a física e para a química, como também para outros homens e
mulheres naciência. Mudanças ocorreramna medicina, coma radioatividadeaplicada
resultando, entre outras coisas, na possibilidade da cura do câncer, o que afetou até
mesmo aeconomiapelo fato deo rádio passar a ser o elemento químico mais caro do
mundo. Além disso, o rádio tornou-se “tesouro de Estado” por conta de sua quase
infinita fonte de energia atômica. Logo, várias partes do planeta forampovoadas com
novos elementos químicos, umanovacomposição damatéria, uma medicinadiferente,
umamovimentadaeconomiae...
Emmeio atudo isso, aí estáumarepresentante feminina na históriadas ¹a:c:
·.:.t..:, a reconhecidamente mais visível de todas elas, emumlugar historicamente
menos propício. Emnenhumoutro momento o ¸.t.:c ca .:.t.:a foi problematizado
comtanta intensidade. Talvez, pela primeira vez, a “exclusão” do feminino naprática
científica moderna não foi auto-evidente. Marie Curie integra a pequena lista de
cientistas que conquistou o prêmio Nobel, uma das condecorações hoje consideradas
das mais louváveis na comunidadecientífica, eainda coma façanha detê-lo recebido
por duasvezes. Alémdisso, éaúnicaquerecebeuo prêmio emcategorias diferentes: o
primeiro emFísica, em1903, dividido comPierre Curie e comHenri Becquerel; e o
segundo, sozinha, em Química, no ano de 1911. Em mais de cem anos do Nobel,
Introdução
18
somenteduas mulheres ganharamemfísica, etrês emquímica
8
. Sabe-se, atéhoje, das
dificuldades demulheres trabalharememterritórios como afísicaouaquímica(Keller
& Longino, 1996).
MarieCurietornou-seummodelo popular decientista, ummito emquemuitos
praticantesdaciênciaseinspiram. Nessesentido, seu“caso” podeser emblemáticopara
se discutir tanto os problemas com mulheres e gênero nas ciências, quanto à
singularidadedaspráticasqueconstituemaprópriaprodução científica. Afinal, antes(e
até depois) de Marie Curie, muitas mulheres se aventuraramno mundo científico, ora
utilizando pseudônimos masculinos, ora trajando-se como homens de ciência como
estratégia para passarem despercebidas pelo poder e conseguir certa notoriedade.
Outras, ainda, enfrentaramas barreiras exaltando as qualidades das mulheres. Algumas
“conseguiram” produzir suas pesquisas sozinhas, ou como assistentes de homens de
ciência, maridos ounão, mas agrandemaioriaficouinvisível nahistória
9
. Nasegunda
metade do século XX, inventou-se a “história das mulheres na ciência”, disciplina
importante que veio para suprir uma lacuna, possibilitando o conhecimento de alguns
casosquejamaistomaríamosnotanaformaconvencional desefazer históriadaciência,
queéemboaparteumahistóriadosvencedores.
Como Marie Curie conseguiu fazer ciência a despeito de inúmeras outras
mulheres? O que se passou? Como se dava o tratamento da “comunidade científica
francesa” emrelação aessamulher estrangeira? Sobo saber dequeimagísticasexual?
Sobqueauspícios nacionalistas? Como sedavaarelação comseuesposo? Quetipo de
controvérsias funcionaram em torno dos experimentos da radioatividade? Quais
caracterizaçõesdo fenômeno setornarampossíveis? Dentreessas, quaiscaracterizações
setornaramvitoriosas? Como foramaceitas? Quequestões suscitaram? Emquetipo de
“política” se transformou o empreendimento da radioatividade? Como as “atividades”
dos elementos radioativos ressoaram para a medicina? E para economia? Para os
Estados-nação? Dequemodo MarieCurievenceuosprêmiosNobel, esobquais lutase
pressões? Como se tornou a primeira mulher a lecionar na Sorbonne? Entre tantas
outras instituições em que foi barrada, o que fez com que não fosse aceita como
membro na Academia Francesa de Ciências, por exemplo? Como e por quais meios,
antes mesmo do sufrágio universal, Marie Curie discutia e participava da política no
8
Emfísica: MarieCurie(1903) divididoeMariaGoeppert Mayer (1963), tambémdividido. EmQuímica:
MarieCurie(1911) sozinha, IreneJoliot-Curie(1935) dividoeDorothyHodgkin(1964) tambémsozinha.
Cf. www.tcl.Ij::...c:¸.
9
Cf. Schiebinger (2001).
Introdução
19
âmbito mundial? Essas questões ilustramo “Caso MarieCurie”, o meuproblema. Quer
dizer, essas são as perguntas que faço para meus dados, na esperança de que eles
possam, deumaformaoudeoutra, ajudar naanálise.
Assim procederei com meu projeto, que é um simples “estudo de caso”. O
estudo do “Caso Marie Curie”, que aqui não é entendido como algo do gênero
policialesco ou romântico, mas como um “caso ilustrativo” – como se diz em
matemática (Stengers, 2002). Ele não me serve para provar nada, nenhuma teoria ou
atavismopolítico, oqueconvémaqui éexplorar asmaneiraspelasquaisdescrevemosas
situações e suas conseqüências. Trata-se de se debruçar sobre um problema que se
coloca emjogo para ser resolvido, independentemente de quemo criou e sobre quem
elesefigura, mas visando crucialmentedescrever “como” elefunciona. Emmatemática
não importasetemos bananas oumaçãs numaequação, mas antes, as relações entreos
elementos queacompõeeseus efeitos; importaos sinais de soma, divisão, subtração,
multiplicaçãoesuascomplexasvariações
10
.
Minha intenção ao final é fazer a caracterização do “Caso Marie Curie” como
umagenciamento, eo problemaqueeleencena, reagir – no sentido químico do verbo –
às questões outroracolocadas nas “Guerras das Ciências”. Afinal, suasingularidadefoi
tornada umbommote, de uma ponta, para abordar as dificuldades de gênero que as
cientistas enfrentam nesse território masculino (Sedenõ, 1999; Schiebinger, 2001;
Keller, 1985; MacGrayne, 1994). Mastambém, daoutraponta, por MarieCurieser uma
cientistavitoriosa, umbomexemplodequeaciênciaéneutrapor excelênciaequeessas
relações sociais e de gênero (apesar de existirem) são secundárias para as análises da
história das ciências (Martins, 2004; Gross & Levit, 1994). Um paradoxo muito
interessante. Que outro “caso” poderia colocar questões desse tipo simultaneamente?
Em minha opinião, o segredo não está somente na singularidade de meu objeto de
estudo, mas tambémnos instrumentos teóricos utilizados parasuaconstituição, que, de
tanto travarem uma “batalha” sobre a legitimidade da ciência, acabam eclipsando
relações essenciais queo conjugam. E, seeste“caso” singular serveparaprovar tantas
10
ComomostrouopróprioLévi-StraussemC j.t:at.t:c :.Iva¸.t (2005) – talvez inspiradotambémna
matemática – as “relações antecedemos termos”. Quero dizer que, antes de explorar os sujeitos e os
objetos, detenho-menaquiloque, deumamaneiraoudeoutra, osconstituemcomoprodutodasrelações.
Interesso-memenos por quemdiz esobreo quesediz, emuito mais por “o que” sediz. Paralembrar
Foucault (2007), tudo sepassa no “diz-se”, característica anônima detodo enunciado. Assim, não faço
biografiasexaustivasdoscientistas, instrumentosefenômenosqueestudo, emelimitoarealizar somente
adealgunsdelesqueconsideromaisimportantesparaainteligibilidadedessetrabalho.
Introdução
20
coisas assim, fenômenos que, aliás, são de uma diferença irredutível, algo está
descompassado.
Por intermédio de minha descrição do “Caso Marie Curie”, pretendo desfazer
esseparadoxo analítico. Dirijo meus esforços parauma“rotação deperspectiva”, soba
luz do acontecimento próprio ao “Caso Marie Curie”, procurando mostrar como a
radioatividadepõeemjogo umproblemaparaapolíticaeparaaciênciamesmo semter
nascidodeumadoutrinapolíticaoucientífica, eainda, comoumpoder podemuitobem
nascer de outracoisaque não ele mesmo (Foucault, 2006a). Mas não se tratadecriar
mais umaperspectivasobreo “Caso MarieCurie” – equeseriamelhor oumais real do
quetodasasoutras–, mas mostrar “adiferençaquefaz umaperspectiva, assimcomo se
podeimaginar umadissociação internaentreapersonalidadedeumautor eo caráter de
seuspersonagens” (Strathern, 2007: 445).
Gostariadeexplorar as condições depossibilidadededescrever o “Caso Marie
Curie” emumregistro político, semreduzir oureinscrever aciênciaemqualquer uma
das pautas políticas atuais em que estamos envolvidos por conta das “Guerras das
Ciências”. Não que elas deixemde ser vetores de risco e de resistência ou mesmo de
devir, pelo contrário, mas gostaria de fazer emergir outras relações no “Caso Marie
Curie”. Mostrar acomplexaligação deprocessos históricos múltiplos queo compõem,
independentemente de certas premissas ou evidências já colocadas. No limite, fazer
meus dados trazerem à superfície relações que foram perdidas, multiplicidades que
certamente constituíram o que hoje conhecemos sobre Marie Curie e sobre a
radioatividade, e que, talvez, tomamos como uma evidência. Assim, não se trata de
abordar aciênciado ponto devistadapolíticaradical do feminismo oudeumaciência
sucessora (Haraway, 1995; Keller, 1985); nemmostrar como a ciência é estabelecida
combasenasociedade, fazendo dasociologiaasuperciênciaqueexplicariaa“crença”
de todas as demais (Collins, 1982; Bloor, 1976); nemmesmo mostrar como a oficial
autonomia da ciência nunca existiu, que “jamais fomos modernos”, de modo a pensar
umaformadecaracterizar aciência– o parlamento das coisas – quepossibilitariafazê-
la funcionar na doutrina democrática semparalisar as duas (Latour, 1994; 2004b). E
muito menos, por fim, defender o ::a:u: ¸uc: aautonomiaearacionalidadecientífica,
tornando “impostores” e “supersticiosos” todos aqueles que gostariam de criar um
debate sobre o que já foi feito “emnome da ciência” (Gross & Levit, 1994; Sokal &
Bricmont, 1999).
Introdução
21
É necessário notar queesses programas estão enraizados no presenteeque não
se poderia ignorar aorigemhistórica dos seus interesses. Se apresentarei no corpo da
dissertação – o quepenso queseja– anaturezalocalizadadas relações queproduziram
o “caso Marie Curie”, faço-o a partir de uma avaliação localizada das construções
analíticasquemecercam(Strathern, 2007). Mas nemdelongeacredito ser umpioneiro
emtrabalhar nessadireção, aspesquisasquemencionei acima, eoutras, certamente– de
formas diferentes da minha – avançaram nesse sentido e colocaram esse mesmo
problema. E não setratadeumjogoretórico quepossibilitacolocar todosdeacordo, ou
fazer uma t.a .uIja de que todos os caminhos de análise da ciência são pertinentes;
mas, basicamente, como dizia Michel Foucault, de“ranger os autores”, distinguindo o
que neles me convémdo que não convém, sempre pensando emproduzir outra coisa,
umasingularidade.
Setomo essecuidado, éporqueespero não confundir o objeto deminhaanálise
comasferramentasquemobilizoparadar contadele. Nãogostariadejustificar teoriase
atavismos políticos produzidos no presentecomcontrapartidas do “Caso MarieCurie”.
Isto é, pedir que os personagens que vou enredar na minha descrição tivessem
consciência do enredo que construirei e dos problemas que ele coloca. O tempo
possibilita uma alteridade que nos separa imediatamente daquilo que não podemos
dizer, do quefica forada nossapráticadiscursiva, daquilo queadelimita. Quer dizer,
marcarelativamenteadiferençadequestõesquepermeiamo “caso MarieCurie” eseus
intérpretes (inclusive eu) em relação às práticas políticas e o estatuto da ciência
envolvidos
11
. Faço esse estudo convergir para o que salientou Mariza Corrêa (2003)
para outra seara de estudos: compreender a atuação de algumas de nossas ilustres
antepassadas nos ajudamuito aaprender, por contraste, as relações depoder emqueas
mulheresestãohojeinseridasnoqueserefereàpráticacientífica.
Demodo geral, estetrabalho pretendecombater pelo menos três hipóteses auto-
evidentes sobre o “Caso Marie Curie”, que ora se complementam e ora tornam-se
radicalmenteopostas, mas quecompõemnosso primeiro emais óbvio imaginário sobre
as relações que constituíram sua singularidade. A primeira, sobre a natureza
11
Seguindo Kuhn (1997), faço umesforço paranão confundir os interesses dos cientistas, técnicos de
laboratório e objetos de minha descrição, e os interesses dos analistas-intérpretes interessados nas
ciências. Essa ficção me serve para não confundir aqueles que praticam ciência e aqueles que a
descrevem. O devir que cada uma dessas práticas carrega põe emcena diferentes questões. Isso pode
parecer umatautologia, masnãoé. Emminhaopinião, essaconfusãoaindaébastante(conscientemente)
usada, ou para criticar “a” ciência, ou mesmo para desdizer, de uma forma ou de outra, os cientistas
acercadaquiloquefizeram.
Introdução
22
transcendente e a-histórica da radioatividade, que permite ao analista descrever os
procedimentos científicos queenvolveramas pesquisas deummodo bastantesingular,
quer dizer, utilizando aseu favor aquilo quesesabesobreo fenômeno. Tudo sepassa
nesseargumentocomosearadioatividadeestivesseláotempotodo, suspensanotempo
eaindainvisível, paraser descobertapeloscientistas. Assim, aradioatividadecompõea
operação desuaprópriacaracterização laboratorial, tornando-seaúnicaracionalmente
possível. Nessesentido, aexplicação do queéaradioatividadeestámuito mais naquilo
queaantecede como acontecimento do quenaquilo que a sucede– nas lutas travadas
entre os cientistas em torno das suas várias formas de existência relativa para
transformá-laem“o” fenômeno unívoco queconhecemos hoje; verdadeiras batalhasem
queogênero éumoperador importantíssimo. Perde-se, desseponto devista, o conjunto
de relações de poder, dentre elas a política sexual, que o acontecimento da
radioatividade colocou em cena como um operador que compõe seu território. “Se
desejamosobter umregistro deumaexperiêncianão interpretada, émelhor pedir auma
pedrapararegistrar asuaprópriaautobiografia” (Whiteheadajuc Stengers, 2000: 326).
Ora, poisbem, aradioatividadetal comoaconhecemoshojefoi umprodutodoprocesso
contingentequepretendodescrever pelomenosemparte.
A segunda hipótese diz respeito às habilidades (femininas ou não) de Madame
Curie, naqual cria-seumsujeito dotado decaracterísticas singulares quesedesprende
das relações de poder constituídas por meio da política sexual. Tal atavismo ajuda a
explicar demodo rápidoo sucesso dacientistaemumterritório masculino. Ouseja, seu
sucesso é explicado exatamente por suas qualidades como cientista – o modo
persistente, desinteressado e “estóico” comque abordouo fenômeno. Háaqui algo da
ordemdeumaauto-evidência(dagenialidade), quecomporiaaforçadacientista. Quer
dizer, suas ações “estratégicas” explicamo seu sucesso – o modo habilidoso como
conduziu tanto as questões científicas quanto as sexuais, demodo aser assimiladapor
um campo altamente resistente às mulheres. Centra-se, assim, a abordagem da
singularidadedo“CasoMarieCurie” emsuasações, maspouconasrelaçõesdeforça, e
muito menos na recalcitrância das entidades que ela pretendia fazer existir em seu
laboratório. MarieCurieapareceabsolutamente“ativa” enquanto aradioatividadeeos
elementos químicos que ela trabalhava, absolutamente “passivos” perante suas ações.
Isso meparecemais umaformade“presentificar o passado”, deencontrar por detrás e
paraalémdo conjunto das relações deforçaalegenda hagiográficadeMadameCurie,
esse“sujeito” queseucasoajudouacriar.
Introdução
23
A terceirahipóteseéqueacientistaemquestão“é” umaexceçãonoquetangeàs
relações de poder historicamente exercidas sobre as mulheres na ciência. Esse
argumentoébastanterecorrente, vistoqueMadameCurieéumacientistaextremamente
laureada pelas proporções que tomaram suas pesquisas, tendo ganhado muita
visibilidade por esse motivo. Ora, essa excepcionalidade não é explicada, ou estaria
inscrita no seio das regras de dominação e de exclusão das mulheres, que não
funcionaramdamesmaformaparaacientistapor contadacooperação deseumarido, e
por uma certa “masculinização” de suas atividades. Isso se dá com base numa
romantização do “casal Curie”, como se seus trabalhos fossem amplamente
complementares. Tal complementaridade – que jamais fora problematizada para esse
caso – implicava, antesdetudo, numarelação específicadepoder, constituídapor meio
da imagística sexual, que se desdobrou na divisão dos trabalhos experimentais e nos
caminhos das controvérsias que envolviamo fenômeno da radioatividade, produzindo
PierreeMarieCuriedemaneirassingulares.
Essashipóteses, oraassociadas, oradissociadas, tendematomar comoadquirido
o que foi conquistado, em meio a um “sistema regional de lutas”. A singularidade
dessas lutas éo quegostariadeexplorar; suas táticas, bloqueios, encontros, conexões,
jogos de força, estratégias na relação entre humanos e não-humanos, como parte das
controvérsias científicas edas vicissitudes degênero queevolveram(aquilo quepassou
a ser) a radioatividade, fazendo com que aparecesse posteriormente como uma
evidência, uma universalidade. Meu intuito é mostrar como não é tão evidente assim
umamulher nas ciências modernas, sejacomo um“gênio” oucomo uma“exceção”, ao
mesmo tempo emquearadioatividade não eraaúnicacaracterização possível paraos
fenômenosproduzidosnoslaboratórios.
Agora gostaria de explicitar, ¸:c::c tccc, três regras do método, que, muito
embora não se distingamentre si, poderíamos assimdenominar: uma científica, uma
política e outra ética. Essas regras são mais auto-imposições de prudência do que
imperativos metodológicos. Emseguida, indico minhas fontes de pesquisa e o modo
comoconceboomaterial, aquiloquepermiteelimitaoquequeroapresentar aqui.
Introdução
24
C né|ooo e a· ¦on|e·
Uma primeira questão do método impõe-se para o estudo do “Caso Marie Curie”.
Gostariadedelimitar o “Caso MarieCurie” sobo signo do “acontecimento” (Foucault,
2006b), paradescrever como alutadesigual deMarieCurieemfavor daradioatividade
foi suscitada pela possibilidade de afirmar “isso é científico” (Stengers, 2002).
Debruçar-me-ei sobreumproblemaqueseconstitui apartir deumconjunto derelações
de força emergentes nos últimos anos do século XIX, a partir do encontro entre uma
controvérsia científica e as vicissitudes de gênero. Desse modo, dissertarei sobre
pessoas e coisas bem concretas envolvidas em questões igualmente concretas, que
certamente têm nomes próprios, mas que nem assim designam sujeitos e objetos.
Designam, antes de tudo, efeitos e multiplicidades que, certamente, estavam se
constituindo ali (nada pré-discursivo). Trata-se de umestudo da ordemdo “como” o
acontecimento da radioatividade que criou uma “problematização” para os
contemporâneos, tornando visível umconjunto derelaçõesdeforçaemtorno do gênero
(entre outros cortes), bem como uma política singular que dali desabrochou e que
certamentecompuseramo agenciamento demodosingular. Ali, ondeoscientistaseram
tentados afazer referênciaaumaconstantehistóricaoucientífica, aumaevidênciaque
se impusesse a todos, trata-se de ver uma “aclimatação”, a maneira pela qual essa
singularidadecorrompeutantoogêneroquantoaciência.
Sob a ótica da “acontecimentalização” (Foucault, 2006b), cria-se um
procedimento deanálisequepermiteestudar um“problema” emoposição ao estudo de
um“período”
12
. Mas que não se confunda esse procedimento comumdesdémpelas
datas. Este trabalho é extremamente datado, como irá se perceber. No entanto, os
marcos temporais são aqui muito mais um recurso para tornar minha descrição
inteligível no tempo, do queumobjetivo emsi. Meuproblemaémenos fazer ahistória
da radioatividade e de Marie Curie em uma repartição cronológica exata do que
compreender as relações deforçaqueproduziramumaeoutraemumsentido singular.
Digamos que se trata de utilizar um método ascendente; não se parte do contexto
histórico ou científico, nemmesmo da biografia de Marie Curie, como se tais pontos
pudessemgerir as explicações do seucaso
13
. Ao contrário, pretendo descrever não “a”
12
Ver Foucault em“A poeiraeanuvem” (2006b).
13
Meu objeto não é nemMarie Curie nema radioatividade e muito menos umcontexto científico ou
histórico, mas simplesmente o “Caso Marie Curie”. Não se trata de produzir uma biografia de Marie
Introdução
25
totalidadedesses assuntos eesgotar arealidadeali contida, mas o modo como algumas
pequenas relações que foramproduzidas entremeiam pessoas e coisas, elas mesmas
constituindo-secomo“efeitosderealidade”.
Busco solucionar o problema do “Caso Marie Curie”, menos pelo que precede
(lógicaeontologicamente) – oacontecimentodaradioatividade– doquepor aquilo que
osucede. Enfim, espreitar por baixodahistóriaoquearompeeaagita, evigiar por trás
dapolíticao quedeveincondicionalmentelimitá-la(Foucault, 2006b). Trata-sedefazer
aparecer um“problema” emcanteiros históricos, como se verá, o acontecimento da
radioatividade que conduz a descrição de meu problema, o “Caso Marie Curie”. Isso
implica emdistinguirmos os níveis e os domínios a que pertencemos cientistas e os
fenômenos naturais daformacomo aimagísticasexual os constitui, parareconstruir os
fios queseligameengenderamo agenciamento quetomo como objeto. Reabrir certas
“caixas-pretas”
14
parareconstituir o conjunto derelações que levaramàcaracterização
daradioatividade. Importamtanto as quetentaram“falsificá-la” como umfenômeno da
natureza, quanto as que tentaram “reafirmá-la” do ponto de vista de fenômenos
paralelos, para ver como essas relações esbarravamnas construções de gênero (entre
outroscortes), reverberandoumconjuntoheterogêneoderelaçõesdepoder.
Mas isso implicaemexplicitar umasegundaquestão metodológica, sobreo que
se entende por gênero. Na pista de Strathern (2007), utilizo “gênero” como um
substantivo não qualificado. Refiro-me a um tipo de diferenciação categorial que
distribui aaparição das formas como “masculino”, “feminino” e “neutro”. Trabalho as
categorizações de atributos, pessoas, eventos, seqüências, não-humanos como
construtos degênero, ou seja, importa-mecomo a imagísticasexual podeorganizar as
relações e distribuir o poder emsua lógica imanente. “Gênero é entendido como uma
maneiradeclassificar fenômenos, umsistemadedistinçõesquetemaprovação social, e
não uma descrição objetiva de traços inerentes” (Scott ajuc Haraway, 2004: 210).
Identidade de gênero aqui não é uma questão, principalmente pelo fato nos levar a
pensar, muitasvezes, quegêneroésinônimodehomensemulheres.
Curie. Existemdiversos bonstrabalhosnessesentido, quedescreveramavidadeMarieCurie, desdesuas
“influências iniciais” quando criança, atéo momento desuamorte. Citarei aqui três quemeparecemas
mais interessantes: EveCurie(1943), Goldsmith (2006) eQuinn (1997), sendoestaúltimaaquereúneo
maior númerodefontessobreahistóriadacientista.
14
Trata-sedeumrecuonotempoparaestudar a“ciênciaemconstrução”, ospesquisadoreseascoisasem
seu tempo deincertezas paraacompanhar como são constituídos passo por passo (Latour, 2000). Assim
meu intuito é, por meio dessa posturaestratégica, acompanhar as discussões da época sobreanatureza
dosraiosdourânioeosproblemasrelativosàinserçãofemininanaCiência.
Introdução
26
E quando descrevo as relações de gênero emtermos de imagística sexual, de
maneiranenhumaestoupensando numainterpretação cultural do sexo, mas exatamente
noseufuncionamento.
Sesexo, elepróprio, éumacategoriatomadaemseu gênero, nãofaz sentidodefinir
o gênero como uma interpretação cultural do sexo. O gênero não deve ser
meramente concebido como uma inscrição cultural de significado num sexo
previamentedado (umaconcepção jurídica); temquedesignar o aparato mesmo de
produçãomedianteoqual osprópriossexossãoestabelecidos(…) eletambéméum
meio discursivopeloqual “anaturezasexuada” ouum“sexo natural” éproduzido e
estabelecidocomopré-discursivo. (Butler, 2008: 25)
Desejo experimentar qual a possibilidade do par masculino/feminina, “fazer-existir” a
natureza de acordo com as relações de poder constituídas por meio do gênero.
Entretanto, tambémperguntar pelo gênero daciência, como adiferençacriadapor suas
práticas experimentais promoveumarelação especial comas vicissitudes degênero, de
modo quesuadistibuição depoder acabepor “gaguejar”. Gostariade mostrar como o
dispositivo experimental daradioatividadesedesdobrouemtodaumapolíticacapaz de
deslocar as relações de forçaquetendiamaexcluir MarieCuriedo trabalho científico
para outras, nas quais o sentido masculino/feminina foi embaralhado comumoutro
conjunto derelações. Mediante isso, meu intuito é mostrar as fissuras do poder, como
elevariouemumouemoutrosentidoemsuaprópriaforçanacaracterizaçãodehomens
e mulheres. Como fiz questão denotar, gênero não éaqui entendido como fenômenos
que definem(somente) homens e mulheres, mas tambémeventos e seqüências, de tal
modo que, apesar dedeliberadamenteprivilegiar essarelação deforça, jamaisascoloco
emtermosduais.
Estou tentando tornar claro que a abordagem pretendida não se refere ao
conceito de dominação e ao de Poder (com“p” maiúsculo), que se definemenquanto
umapropriedadedehomens emulheres. Quer dizer, algo queremetaaalgummodo de
sujeiçãoque, emoposiçãoàviolência, tenhaaforçadaregra. Assim, nãoháaquelesque
têmo poder (geralmente homens) e aquelas que são subjugadas por ele (geralmente
mulheres), mas somente relações de força imanentes aos domínios onde se exerceme
que se distribuem segundo suas estratégias complexas, produzindo uns e outras
(inclusive instituições) emsua própria variação local. Nesse sentido, tambémutilizo
aqui apalavra“local” emdois sentidos diferentes: o poder élocal porquenão énunca
Introdução
27
global ouuniversal; eo poder não élocalizável porquenão háalguémqueo detém, ele
seexercemuitomaisdoquesepossui (Foucault, 2008)
15
.
Mas aindaseránecessário defrontar-mecomumaterceiraquestão demétodo. O
“principio de irredução” (Stengers, 2002: 27), que significa “desconfiança emrelação
ao conjunto das palavras que levam quase automaticamente à tentação de explicar
reduzindo, ouestabelecer umadiferençaentredoistermosqueosreduz aumaoposição
irredutível”. Serei cuidadoso, nesseraciocínio, ao utilizar palavras quetêmpor vocação
:.v.Ia: a verdade por detrás das aparências, ou de c.tut.:a: as aparências que
ocultavamaverdade
16
. Desejo, assim, explorar as relações deforçaqueconstituíramo
“Caso Marie Curie” nos próprios termos de suas relações. Com essa tecnologia
descritiva, pretendo prescrever um recuo em relação à pretensão do “poder de
julgamento”, explicitado por Deleuze (2006)
17
. Não se pode imaginar saber mais e
melhor o que define o ofício do cientista do que aquele que pratica a ciência. Da
maneiracomo édifícil falar parao açougueiro daqualidadedacarne; paraumreligioso
queaquiloparaondedirigesuafénãoexiste; oudizer “oquefazer” paraum“sujeitado”
noquediz respeitoàssuaspolíticasemnomedeumbemmaior.
Desse modo, aspiro fazer valer o que Stengers (2002) chamou de “restrição
Leibniziana”. Qualquer enunciado emitido emnome da verdade ou de qualquer outro
sentimento deve ter como ideal considerar as conseqüências de sua enunciação. “O
problema para o qual aponta a restrição Leibniziana liga verdade a devir, confere ao
enunciado daquilo quesepensacomo verdadeiro aresponsabilidade de não obstruir o
devir: não ferir sentimentosestabelecidosafimdepoder tentar abri-losàquilo queasua
identidade estabelecida os obriga a recusar, combater, desconhecer.” (Stengers, 2002:
27). A força dessa restrição evita que o analista da ciência possa se mostrar “o”
15
Por umoutrocaminho, sobreumacríticaaumanoçãodedominaçãobastanterecorrenteedifícil dese
livrar, ver MarizaCorrêa(1999). Afinal, “adominaçãomasculinanãoétãohomogênea, ouhegemônica,
quantoopretendido, etampoucosetratadehomensexercendoessadominaçãosobremulheres” (Corrêa,
1999: 13).
16
Tomamoscomoexemploaspalavras“política” e“ciência” seguindoaprópriaautora. Falar deciência
comumenfoque político pode fazer parecer que ciência nada mais é do que política, ou mesmo um
conjuntoderelações dePoder, comoseelafosseumaideologiamentirosa. Protestar, aocontrário, quea
ciênciatranscendeomundodapolíticaseriaimplicitamenteidentificar apolíticacomomundoarbitrário
eirracional. Quer dizer, o “princípio deirredução” negaqualquer redução das conexões quepodemou
nãocontar paradescrever aciência.
17
“Não é antes o juízo que supõe critérios preexistentes (valores superiores), e preexistentes desde
sempre (no infinito do tempo), de tal maneira que não consegue apreender o que há de novo num
existente, nemsequer pressentir acriaçãodeummododeexistência? (…) O juízoimpedeachegadade
qualquer novomododeexistência. Poisestesecriapor suasprópriasforças, istoé, pelasforçasquesabe
captar, evalepor si mesmonamedidaemquefaz existir anovacombinação. Talvez estejaaí osegredo:
fazer-existir, nãojulgar.” (Deleuze, 2006: 153).
Introdução
28
convertido e se posicionar ferozmente ou devotadamente contra aqueles que
permanecemnailusão queeleacabadeseafastar. “Não existepior perseguidor deum
grão demilho do queoutrogrão demilho quando estátotalmenteidentificado comuma
galinha” (Samuel Butler ajuc Stengers, 2002: 26). E isso valetanto paraos cientistas
que estudo, quanto para os analistas da ciência com quem espero estabelecer um
diálogo.
Essas regras deprudênciamepermitem(euespero) tornar visível o modo como
os/as cientistas envolvidos com as pesquisas da radioatividade se envolveram em
relações de força de toda ordem, que certamente implicaram desigualdades, mas
principalmenteumapolíticasingular quecriouoquepossochamar hojede“CasoMarie
Curie”. Estamos, aindano século XXI, emplenatensão peranteaquilo queentendemos
sobre Ciência (nosso grande marcador de diferença), não só sobre o seu estatuto, mas
tambémcomooslaboratóriossãorecintosquereverberamdesigualdadesdetodaordem.
É necessário ser cuidadoso. Pretendo me instalar numa balizaque não façada ciência
umobjeto de“veneração” como seas coisas ali fossemevidentes e boas demais para
seremdiscutidas; mas também, que não a faça objeto de “denúncia”, como se nada
pudesse aparecer para alémda crítica e de uma reformulação de seus pressupostos.
Gostaria de descrever aprática científicado “Caso Marie Curie” emsua positividade,
apreciando, além das políticas que ela envolvia, a própria paixão que os cientistas
estabelecemcomseu ofício. Aqui, mais uma vez, exploro o contraste de Deleuze e
Guattari (1992) entre fazer umtrabalho coma vocação de mostrar a relatividade do
verdadeiro(relativismoquecolocaemxequeaciêncianumadesconstruçãodaverdade),
e os trabalhos coma vocação de mostrar a verdade do relativo (construtivismo que
pretendemostrar como seproduz o verdadeiro). Eunão gostariadedizer “a” realidade
sobre a ciência produzida no “Caso Marie Curie”, tampouco desconstruí-la, mas
gostaria de descrever sua singularidade, isto é, como produziu realidade de modo
singular.
Isso posto, avançaremos paraas fontes. Quefiqueclaro logo no início que não
pretendo fazer uma descrição “objetiva” dos dados, se por objetividade se entender
completudeouexaustãoparaprovar algo. Minhasambiçõessão maissimples. Por quais
meiostornarei possível fazer a“aclimatação” dequefalei atéentão emergir; oumelhor,
isso que chamo de singularidade do “Caso Marie Curie”? Quais fontes, dentro de
minhas possibilidades depesquisa, são necessárias esuficientes para fazer aparecer as
relações que constituíramas questões que pretendo abarcar? Tomo como base duas
Introdução
29
fontes, igualmente importantes, quedesloco emprimeiro plano equeconcebo como o
meu“arquivo”
18
:
1) Deumlado, as comunicações dos cientistas quetentavamdomar a natureza
dosraiosmisteriosos– fenômenoaindadesconhecidonofinal doséculoXIX enoinício
do XX – nos periódicos Cctj:u: ¹.tcu: Na:u:. ¹.vu. ·.:.t::i:¸u. ¹!:Ic:cj!:.aI
ìa¸a.:t. T:at:a::ct: ci :!. C!.t:.aI ·c.:.:, ¹!:::.aI ¹.v:.w. Essasnotascientíficas
nãosómeaproximaramdosprocedimentostécnicosdelaboratório, comopossibilitaram
o acompanhamento das controvérsias que ali se configuraram. Estou me referindo às
estratégias, contralaboratórios, deslocamento deproblemasepautasdepesquisa, muitos
esquecidos pela história, inferidos naquele momento. Para complementar essas
primeiras fontes, consultei atesededoutoramento deMarieCurie(1904), assimcomo
seuslivrossobrearadioatividade.
2) Deoutrolado, épreciso indagar oquehá“dentro” dasbiografiassobreMarie
Curie. Há uma imensidão de cartas trocadas pelo “casal Curie” coma família, com
outros cientistas, comacomissão deNobel etc. Utilizo-me, por exemplo, das matérias
de jornais que forampesquisadas pelas biógrafas da cientista (não tive o acesso ao
original). Alémdisso, existeaautobiografia de Marie Curie, queéquase inteiramente
umtratadosobreasdificuldadesparaconseguir exercer oofício decientista, quemuitas
vezes se confundia com a própria vida. É, de fato, uma das poucas vezes que os
problemas com gênero são objeto de discurso de Marie Curie, ainda que bastante
indiretamente.
Como sepodeperceber, os dados extralaboratoriais são extraídos, emsuamaior
parte, desegundamão. Infelizmente, não tiveacesso aosoriginais, disponíveis somente
medianteautorização no MuseuCurieenaBibliotecaNacional daFrança. Os recursos
financeiros da bolsa de mestrado eram insuficientes para superar não apenas a
dificuldade da distância, mas também o perigo devido à radioatividade do material
(instrumentos enotas originais), quesó poderiaser consultado utilizando-seumaroupa
revestidadechumbo, adquiridaperanteautorização dos meios legais paraapesquisa
19
.
Todavia, de meu ponto de vista, o conjunto de documentação, embora limitado, foi
18
Emoposiçãoaarquivo– conjuntodedocumentosorganizadosparaapesquisaemdeterminadoslocais
apropriados– mobilizoanoçãode“arquivo” emFoucault (2007), queimplicaaomesmotempoemuma
dessubstancializaçãoenumadesformalizaçãodos documentos, quenessesentidosãomenos “textos” do
quequaisquer práticasdesentido. Issopossibilitainscrever odizível eovisível noatodesuaexistência,
emsuapositividade. Nessesentido, nãohá, nosdocumentos, lacunasapreencher nemelementosocultos
adecifrar apartir dealgoexógenoquepoderiaexplicá-losmelhor.
19
Ver Goldsmith, 2006.
Introdução
30
suficiente para meus objetivos, e com ele dirigi os esforços para uma pesquisa
antropológica de um problema que se dá num “entre-tempo” envolvendo a
transformação de uma política sexual em torno de Marie Curie e de uma ciência
emergente. Operíodo mais importantedaanálisecorrespondeaosanosde1898a1911,
mas apresento algumas relações que entendo importantes tanto “antes” quanto
“depois”
20
.
Umaúltimaquestão quepoderiaaindaaparecer é: por quesetrata, então, deum
trabalho deantropologia? Essaperguntapodesugerir tantas respostas quanto o número
de vezes que já foi feita. E, nesse caso, talvez a saída mais interessante seja, de fato,
explorar a disciplina em suas potencialidades sem reduzi-la a um conjunto de
imperativos, eassimabrir novas possibilidades. Mas isso jáéumaescolha, naqual se
assumeumapossível regradojogo:
O “antropólogo” éalguémquediscorresobreo discurso deum“nativo”. O nativo
não precisa ser especialmente selvagem, ou tradicionalista, tampouco natural do
lugar ondeo antropólogo o encontra; o antropólogo não careceser excessivamente
civilizado, ou modernista, sequer estrangeiro ao povo sobre o qual discorre. Os
discursos, o do antropólogo esobretudo o do nativo, não são forçosamentetextos:
são quaisquer práticas de sentido. O essencial é que o discurso do antropólogo (o
“observador”) estabeleça uma certa relação com o discurso do nativo (o
“observado”). Essa relação é uma relação de sentido, ou, como se diz quando o
primeiro discurso pretende à Ciência, uma relação de conhecimento. Mas o
conhecimentoantropológico éimediatamenteumarelaçãosocial, pois éoefeito das
relações que constituemreciprocamente o sujeito que conhece e o sujeito que ele
conhece, e a causa de uma transformação (toda relação é uma transformação) na
constituição relacional de ambos. Essa (meta)relação não é de identidade: o
antropólogo sempre diz, e portanto faz, outra coisa que o nativo, mesmo que
pretenda não fazer mais queredizer “textualmente” o discurso deste, ou que tente
dialogar – noção duvidosa – comele. Tal diferença éo efeito deconhecimento do
discurso do antropólogo, a relação entre o sentido de seu discurso e o sentido do
discursodonativo. (ViveirosdeCastro, 2002b: 114-115)
Como dizia Dumont (1993: 208) – que muito bem definiu o estado de espírito da
disciplina – a antropologia é uma “ciência em devir”, aberta a novos regimes de
experimentação das relações edeproblemas. Quer dizer, assimelapodetrocar sempre
umaunidadedeproblemas emétodos legítimos por umamultiplicidadedeproblemas e
métodos por vir. Ora, desejo mobilizar um método não convencional (porém não
original) para experimentar um problema igualmente não convencional (porém não
original) no interior da antropologia. Isso me permite tentar encontrar uma descrição
20
Num segundo plano estão ainda os dados coletados por outros intérpretes de Marie Curie e/ou a
radioatividade, querepresentamaminhainterlocução. Eles forneceminformações paraalémdo quefoi
possível colher nasfontesqueelegi comoasprincipais.
Introdução
31
adequadaparaasingularidadedemeuobjeto, enão “a” descrição adequada. A arteda
antropologia consiste em não criar problemas para aqueles que estudamos, mas ao
contrário, fazer comqueos “problemas” daqueles queestudamoscriemquestõesparaa
antropologia. Assim, de certa maneira, continuamos ainda todos “nós”, de maneiras
diferentes, em busca da tão procurada e igualmente obscura “ciência social do
observado” (Lévi-Strauss, 1975: 397). Por conseguinte, se Dumont apontou umbom
caminho para a antropologia, ela “é” sempre outra coisa, porque não se prende a
qualquer identidade. Se levarmos essa indefinição às últimas conseqüências,
poderíamosdeduzir aseguinteequação, queéprovenientedasreflexõesdeRoyWagner
(1981): maisantropologiaéigual amenosdisciplina(identidade).
32
Una |a|¦oaoe e ·ua· ¦|oo¦ena|¦za¸oe· o
encon||o en||e qene|o e c¦enc¦a (18'5-18'8,
À e¦e|ve·cenc¦a o· n¦·|e|¦o·o· la¦o· X
.1
O “movimento científico” queMarieCurieembarcouparafazer seudoutoramento éo
que descrevo a partir de agora. Como ela mesma disse, em 1903, durante a tese
intitulada ¹..!.:.!.: :u: I.: :ul::at..: :ac:ca.::v.:: “(…) o tema [os raios
misteriosos] tomoucadavez mais importância, dando lugar aummovimento científico
deformaquenumerososartigossobreoscorposradiativosapareceramconstantemente,
principalmente no estrangeiro” (Marie Curie, 1904: 3). Seguirei cientistas que, salvo
engano, a própria Marie Curie seguiu ao procurar umtema para pesquisar. Se essas
pesquisas aparecemaqui, é porque implicamnos caminhos que a própria cientista fez
antesdeanunciar aexistênciadaradioatividade. Deminhaparte, quanto mais avançava
naleiturados trabalhos deMarieCurie, mais percebiaanecessidadedeacompanhar as
controvérsias em meio às quais emergiu a radioatividade. Foi assim que comecei a
delinear esses caminhos. Fatos duros são raros, disse Latour (2001), afinal, são
acontecimentos poderosos queemnossavivênciaconstituemapassagemdo tempo. As
pesquisas sobre os Raios X (“X” simboliza uma quantidade desconhecida em
matemática) produziram muitos deles, uma sucessão de fatos duros, aquilo que
apresentamosemumsentidoconvencional comouma:.vcIu,ac científica
22
.
Acontece que, entre os anos de 1895 e 1896, alguns cientistas renomados
“mundialmente” receberamcópiasdeumartigoacercadeumfenômenodesconhecidoe
muito interessante para a pesquisa. Entre os que receberam as separatas estavam
Boltzman, Lord Kelvin, Poincaré, Lorentz e tantos outros. O artigo era assinado por
21
“Admitirei agora como umaxioma quea ciêncianão éumconto de fadas. Não sededica a estudar
entidades incognoscíveis de propriedades arbitrárias e fantásticas. De que se ocupa então a ciência
admitindoqueestejaempreendendoalgoimportante? Minharespostaéqueaciênciaestádeterminandoo
caráter dascoisasconhecidas(…). Oscaracteresqueaciênciadistinguenanaturezasãocaracteressutis,
nãoóbviosàprimeiravista. Sãorelaçõesderelaçõesecaracteresdecaracteres.” (Whitehead, 1994: 49).
22
Paraumaabordagemcominstrumentosdiferentesdosmeus, ver oótimolivrodeorganizaçãodeCarlos
Alberto dos Santos (1998), La :.vcIu,ac .:.t:´i:.a a :.vcIu,ac :..tcIc¸:.a principalmenteo texto de
Roberto de Andrade Martins. E que me desculpe Martins, mas seus artigos (2003, 1998a, 1998b), em
conjunto, implicamnuma belíssima etnografia das práticas laboratoriais decorrentes dos raios X. Não
poderia explicitar sua importância para minha dissertação somente comalgumas citações. No entanto,
como iráseperceber, explicitarei duranteo trabalho algumas discordâncias como autor, não no quese
refere à descrição, que sem dúvida ele pôde fazer muito melhor do que eu, mas aos fundamentos
filosóficosquecompõemadescrição.
Uma raridade e suas problematizações
33
WilhelmConradRöntgen, umcientistaalemão que, emseus experimentos no segundo
semestre de 1895, em Würzburg, havia detectado um fenômeno desconhecido que
nomeou de Raios X. Ele concedeu uma entrevista alguns dias após a divulgação da
descoberta:
Euestavainteressado hámuitotempo noproblemados raios catódicos emtubos de
vácuo, estudados por Hertz eLenard. Euhaviaseguidosuas pesquisas eadeoutros
comgrandeinteresseedecidiraquelogo quetivessetempofariaalgumas pesquisas
próprias. Encontrei esse tempo no final do último mês de outubro. Eu estava
trabalhandoháalgunsdiasquandodescobri algodenovo(…). Euestavatrabalhando
comumtubo Crookes coberto por umablindagemdepapelão preto. Umpedaço de
papel complatino-cianetodebárioestavalánamesa. Eutinhapassadoumacorrente
ali notubo, poisablindagemquecobriaeraopacaaqualquer luz conhecida, mesmo
adoarcoelétrico(…). Assumi queo efeitovinhadotubo, pois seucaráter indicava
queelenãopoderiavir denenhumoutrolugar. Euotestei. Empoucos minutos não
havia dúvida sobre isso. Estavam saindo raios do tubo que tinham um efeito
luminescentesobreopapel (…). Elepareciainicialmentealgumtipodeluz invisível.
Eraclaramentealgo novo não registrado(…). Tendo descoberto aexistênciadeum
novotipoderaios, éclaroquecomecei investigar oqueelesfariam. (Entrevistacom
Röntgenfeitapor HenryDan, citadoemMartins, 1998a: 375)
Após ter mostrado a singularidade do fenômeno ainda não classificado, o cientista
dedicou-se exclusivamente a experimentar os rendimentos dos Raios X, “o que eles
fariam”. Experimentando aagênciados raios duranteas pesquisas, o cientistacomeçou
a tentar produzir fotografias e, numa delas, percebeu o contorno dos ossos de seus
dedos. Impressionadocomoqueobservou, levousuaesposaao laboratórioefotografou
sua mão esquerdacomos Raios X. Tal evento gerougrandecuriosidadeedisseminou
rapidamente as pesquisas. Afinal, não era possível ver os ossos de umdeterminado
corpo vivo sem dissecá-lo inteiramente: era necessário toda uma carnificina. A
fotografiadeRöntgen
23
– aimagemdamão desuaesposa– setransformou numadas
maisfamosasimagensdomomentoe, portanto, dahistóriadasciências.
Ninguémsabia“o que” emitiaaqueles raios, nemdo quesetratava. Empouco
tempo, acausafoi objetodeespeculaçõesdiferentes, massomenteespeculações. Como
que relatou Röntgen na entrevista, os raios descobertos não poderiamser confundidos
com nenhum outro raio até então conhecido (luz, raios ultravioleta, raios
infravermelhos, raios catódicos etc.). Por analogiaediferenciação eledemonstrou que
não se tratava de nenhum desses fenômenos – os agentes físicos conhecidos que
também produziam fluorescência. Não poderiam ser os raios ultravioleta, nem os
infravermelhos, pois não poderiamser refletidos nemrefratados. Tambémnão podiam
23
“Fotografias de Röntgen”, quehoje conhecemos como radiografia, foi o nome incorporado para tal
procedimentonoperíodo.
Uma raridade e suas problematizações
34
ser raios catódicos, por conta do poder de maior penetração em corpos e por não
poderemser desviados por ímãs. Finalmente, não poderiamser a luz, pois eramde
caráter invisível. Mesmo tendo se dedicado ao que faziam os fenômenos, deixando
claramentedeladosua.au:a elelevantouumahipótese
24
:
(…) Portanto, não deveriamos novos raios ser atribuídos a vibrações longitudinais
do éter? Devo admitir que no decorrer da investigação tornei-me cada vez mais
inclinadoaessaopinião e, assim, permito-meexprimir aqui essaconjectura, embora
esteja perfeitamente consciente de que a explicação fornecida ainda necessita de
maior fundamentação. (Röntgen, 1986, traduçãocompletaemMartins, 1998a)
Essaéa conclusão do artigo que foi enviado aoutros cientistas europeus no início de
1896. A esperançadeRöntgeneraqueoutroscientistas– mais bemmuniciadosqueele
– pudessematribuir umacausaao fenômeno. Logo, os enigmáticos Raios X (ouRaios
Röntgen) saíramdo pequeno laboratório emWürzburg, naAlemanha, parachegarema
grandes laboratórios daEuropatoda. Emmenos deumano, mais demil comunicações
científicasforampublicadassobreoassunto, eosRaiosX passaramaser ograndetema
depesquisa na Física. Muitos jornais erevistas divulgaramas pesquisas, dando aelas
umrespaldo popular. As fotografias de Röntgen eramde fato incríveis. “A leitura do
artigo eo examedas estranhas fotografiasteveumimpacto imediato: tratava-sedealgo
novo, importante, espantoso. Quem poderia imaginar que ali, em quase todos os
laboratórios defísicado mundo, erapossível produzir esses raios invisíveis capazes de
atravessar a matéria opaca à luz?” (Martins, 1997: 82). EmBerlim, logo após ter lido
uma separata do artigo de Röntgen, o professor Otto Lummer escreveu: “Não pude
evitar pensar que estava lendo umconto de fadas quando li a primeira comunicação,
maso nomedo autor esuas provas sólidas logo melibertaramdequalquer ilusão desse
tipo” (citadoemMartins, 1997).
Na Inglaterra e na França, já no mês de janeiro de 1896, foramdivulgados os
resultados dessas pesquisas por SwintonePoincaré, respectivamente. Ambos repetiram
os experimentos publicamentenas academias deciências deseus países, o queabriuos
laboratórios à pesquisa, produzindo toda uma corrida científica no continente. Os
desconhecidos Raios X arrastarama geografia das relações embusca da natureza do
fenômeno, e, como remetiama umprogresso que poderia ser facilmente alcançado,
tornaram-se uma questão de urgência. Todavia, com a repetição e a variação dos
24
Detodasuacarreiracomocientista, Röntgensóescreveutrêsartigossobreos RaiosX. Nãosetratava
desuaáreapredileta, queeraprincipalmenteafísicados sólidos. Após escrever os três artigos eabrir a
possibilidadedepesquisaparaoutrosinteressados, elevoltouapesquisar emsuaáreadeinteresse.
Uma raridade e suas problematizações
35
experimentos, alguns pesquisadores – J.J. Thomson, Benoist e Hurmuzescu, dentre
outros – notaramafaltadehomogeneidadedaradiação, o quepoderialevar acrer que
existiamdiferentestiposdeRaiosX. JosephJohnThomson
25
foi quemdescobriuqueos
RaiosX eramcapazesdedescarregar eletroscópios, isto é, tornar o ar umbomcondutor
deenergia. Eleapresentouesseresultado comacomunicação dia27dejaneiro de1896
à Catl::c¸. ¹!:Ic:cj!:.aI ·c.:.:,. E os outros dois reproduziramas experiências na
AcademiadeCiênciasdeParis
26
.
Naquela época existiamdiferentes ondas do éter entre os cientistas, todas elas
comdiferentes comprimentos: raios ultravioleta, luz visível, infravermelho, catódicos
etc. Emseu trabalho, Röntgen já havia diferenciado seus raios dos conhecidos, mas
vários experimentos feitos por cientistas detodaEuropanão só ratificarama novidade
do fenômeno como tambéminiciaram, a partir de novas hipóteses, outros testes para
tentar compreendê-lo. Ofatoéqueváriasaproximaçõesforamfeitascomos fenômenos
conhecidos, imaginando que os Raios X pudessemser alguma variação destes. Todas
elas não tiveram sucesso. De fato, os Raios X eram muito parecidos comos raios
ultravioleta; eles possibilitavamsensibilizar chapas fotográficas e tambémproduziam
fluorescência, sendo que ambos eram invisíveis a olho nu. Mas uma diferença era
crucial: a impossibilidadedarefração edareflexão, facilmentedetectadacomos raios
ultravioletaeimpossível comosRaiosX.
No laboratório, esse grande criador de diferenças, Röntgen, cientista alemão,
produziu um dispositivo experimental para os Raios X
27
. Os experimentos que ele
possibilitou fizeram com que os raios (normalmente) invisíveis aparecessem
(anormalmente) visíveis. O trabalho dos cientistas, revirando seus laboratórios,
produziu um fenômeno que criou uma diferença de significados. Muitos trabalhos
mostraramas possibilidades de atividades dos raios (aquilo que os fazem visíveis e
tambémos seus efeitos), semsaber o quedefato erao seu“ser”. Detenho-me, apartir
de agora, na divulgação realiza na França, por parte de Henri Poincaré
28
, dos estudos
sobreosRaiosX easpesquisasquedaí derivaram.
25
Joseph John Thomson foi o cientistaquedescobriuas partículas subatômicas chamadas deelétrons, o
quelherendeu o prêmio Nobel emfísicade1906. O cientistainglês chegou àdescobertacombaseno
estudo dos raios catódicos; tambémestudou os Raios X ea radioatividade. Membro influenteda¹c,aI
·c.:.:,, foi eleitopresidentedaAcademiaem1915econtinuounocargoaté1920.
26
Paraumadescriçãodetalhadadosexperimentosquemencionei eoutros, ver Martins(1997).
27
Desenvolvo a noção de dispositivo experimental adiante, mais especificamenteno segundo capítulo
destadissertação.
28
Henri Poincaré é considerado um dos grandes matemáticos franceses. Alguns de seus trabalhos –
C!ac: T!.c:, – ainda são relevantes. Henri Poincaré fez estudos de matemática como analista de
Uma raridade e suas problematizações
36
Poincaré, aindaprocurando saber qual acausado fenômeno, divulgounaFrança
adescobertadeRöntgenno dia20dejaneiro de1896, alertando paraapossibilidadede
haver alguma relação entre a emissão dos Raios X e a fluorescência do vidro. A
hipóteseapareceunumarevistadeapelopopular chamada¹.vu. ´.t.:aI. c.: ·.:.t..:.
Naépoca, Poincaréjáeraumareferênciapor suas contribuições naáreadematemática
edemecânica, esuasconjecturastiveramumefeitoimediato. Emsuaspalavras:
(…) É, portanto, o vidro que emite os raios Röntgen, e ele os emite tornando-se
fluorescente. Podemos nos perguntar se todos os corpos cuja fluorescência seja
suficientemente intensa não emitiriam, além de raios luminosos, os raios X de
Röntgen, qualquer que seja a causa desua fluorescência. Nesse caso, o fenômeno
não estarialigadoaumacausaelétrica. Issonão émuitoprovável, mas épossível, e
semdúvidaéfácil deverificar.” (Poincaré, 1896)
É a busca dessa relação entre a fluorescência e os Raios X que, de certa maneira,
orientou boa parte dos estudos científicos, como, por exemplo, os de Becquerel e de
Marie Curie. Entretanto, o primeiro cientista, disposto atestar ahipótese de Poincaré,
foi Charles Henry. Ele experimentou o sulfeto de zinco fosforescente como um
componente intensificador dos efeitos dos Raios X emitidos pelo tubo Crookes. Fez a
pesquisa cobrindo o objeto a ser fotografado comuma camada de sulfeto de zinco, e
excitandosuafosforescênciapelaqueimadeumatirademagnésioentreasubstânciaeo
tubo Crookes. E concluiu afirmativamente: asubstância junto àação daluz faziacom
queos raios fossemintensificados, o queseverificavapelamaior nitidez dafotografia
(Henry, 1896). Tal procedimentoconfirmou:t Ic.c ahipótesedePoincaré: assimcomo
asparedesdotuboCrookes, umoutromaterial tambémemitiaosraiosmisteriosos.
Seria comum que mais cientistas reproduzissem o experimento com outras
substâncias. Desse modo, Niewenglowski aprofundou os estudos utilizando outro
material; dessa vez o sulfeto de cálcio fosforescente, produzindo umefeito parecido.
Seusresultadossãoassimdescritos:
(…) Tendo envolvido umafolhadepapel sensível (papel fotográfico) comdiversas
camadas de papel agulha negro ou vermelho, coloquei acima dela duas moedas e
recobri uma das metades (da folha) comuma placa de vidro compó fosforescente
(sulfeto decálcio). Depois dequatro ou cinco horas deexposição ao Sol, a metade
do papel sensível quehavia recebido diretamenteas radiações solares havia ficado
intacta e não apresentava nenhumsinal da moeda colocada acima dela, indicando
assimqueopapel negroouvermelhonãohaviasidoatravessadopelaluz. A metade
que só recebia através da placa fosforescente estava completamente anegrejada,
equações diferenciais; é um dos pioneiros da topologia algébrica. Foi inovador na aplicação da sua
descoberta emengenharia, física e astronomia. Como umprecursor da Relatividade, escreveu vários
livros populares defilosofiaedematemática. Poincaréfoi presidentedaAcademiadeCiências deParis
em1906.
Uma raridade e suas problematizações
37
exceto pela porção correspondente a uma das moedas, da qual foi produzida um
contornobrancosobreumfundonegro.
Colocandosomenteumacamadadepapel vermelhofino, permitindoapassagemdos
raios solares, constatei queaamostrado papel sensível quesó recebiaas radiações
solares após sua passagem pela camada fosforescente enegrecia muito mais
rapidamentedoqueaoutra.
Pude também observar que a luz emitida pelo pó fosforescente antecipadamente
iluminado ao Sol, na obscuridade, era capaz deatravessar várias camadas depapel
vermelho e obscurecer um papel sensível que deles estava separado por essas
camadasdepapel. (Niewenglowski, 1896)
Os instrumentos e as substâncias utilizadas pelos cientistas convergiramdiretamente
paraaconjecturadePoncaré. Eles observaramqueos materiais fosforescentes emitiam
RaiosX quando iluminados. Mas, deacordo comasrelaçõesentreassubstâncias, ainda
houveoutrainformação importantenosexperimentos: mesmo sendo colocado emlugar
escuro após aexposição aos raios do sol, o material fosforescentecontinuava aemitir
radiaçõescapazesdeatravessar opapel negro.
Durante essas pesquisas foi possível emitir, cada vez mais rapidamente, as
“fotografias de Röntgen”. Se elas necessitavam de vários minutos nos primeiros
experimentos, aintensificaçãodosRaiosX por meiodaluminosidadediminuiuotempo
da sensibilização das chapas fotográficas, a ponto de, já naquele período, ser possível
realizá-las emtrinta segundos. Isso emmenos de dois meses da descoberta dos raios.
Desse modo, essas aplicações técnicas começarama ressoar para a medicina, abrindo
todoumcamponovoparaaspesquisas
29
.
A popularidade das “fotografias de Röntgen” não se limitou aos círculos
científicos– acabavapor interferir naimaginaçãofuturistadetodos.
Ocáiser GuilhermeII convocouRöntgenparaumademonstraçãoquasecircensedos
raios milagrosos, após a qual ele recebeu a Ordem da Coroa. À medida que se
tornavamconhecidosmundoafora, osraiosX viraramobjetodecaricaturas: maridos
espiandoas esposas por raios X através deportas trancadas, binóculos deóperaque
revelavamcorpos nussobosfigurinos. Umlegislador deNovaJ erseytentouproibir
os raios X, tachando-os de potencialmente libertinos. Uma figura em Londres
vendeu ternos à prova deraios X. Umjornal sugeriu a sério que as faculdades de
medicinausassemos raios X parainstalar diagramas efórmulas direto nos cérebros
dosestudantes. (Goldsmith, 2006: 52-53)
30
29
Foucault (2006c) analisouasmudançasdevisibilidadenosaber médicotomandocomoumdospontos
fundamentais o momento em que Bichat disse: “abram alguns cadáveres”. Sua análise, no entanto,
dirigiu-seatéametadedoséculoXIX, enãohádúvidaqueosRaiosX, jánapassagemparaoséculoXX,
tornaramdesnecessáriodissecar paraver… OsRaiosX nãoacarretaramemoutramudançanover-saber?
Deixoaqui umapista, restainvestigar.
30
Talvez sejaessemesmoumdos motivos– oapelopopular queadescobertatrouxe– quefez comque
Röntgenviesseaser premiadocomoNobel em1901(oprimeiroprêmioNobel dahistória). E, deacordo
Uma raridade e suas problematizações
38
Röntgensentiu-seindignado: “empoucos dias eu estavaenojado comacoisatoda. Eu
jánão conseguiareconhecer meusprópriostrabalhos nosrelatos. Paramimafotografia
era um meio para um fim, mas foi transformada na coisa mais importante.
Gradualmentehabituei-me como ruído, mas atempestadedurou bastante” (citado em
PenhadaSilva, 2004). E naverdadenão setratavadeexagero. Como os experimentos
eramdemuito fácil acesso, poisos materiais eosinstrumentospoderiamser adquiridos
facilmente, muitos populares gostavamderepeti-los emsuas casas. Produzia-se, assim,
chapas de seus corpos e de animais de estimação para guardar de recordação entre
outrascoisas(Quinn, 1997).
Como qualquer cientista apaixonado por seu ofício, Röntgen tinha o desejo de
continuar seus experimentos. A fama e os outros compromissos tomaram tempo
suficiente para não conseguir mais acompanhar as discussões que se seguiam. Além
disso, muitos dos outros pesquisadores que se interessarampelo fenômeno dispunham
demelhores recursos. Os principais eramLordKelvin, naInglaterra, umdos maiores e
mais respeitados físicos naépoca, eHenri Becquerel, quepertenciaaumalinhagemde
grandes cientistas franceses, todos membros da Academia de Ciências de Paris e
bastanteconhecidosnoslaboratóriosmundoafora.
Becquerel interessou-se pelo fenômeno dos Raios X devido à analogia comos
fenômenos estudados em seu treinamento primário em ciências. Seu pai, Edmond
Becquerel, havia se tornado conhecido por suas pesquisas comradiação ultravioleta,
fosforescênciaefluorescência.
No laboratório de seu pai, Henri Becquerel desenvolveu seu treino científico e
realizou suas primeira pesquisas. (…) Entre outras coisas, estudos sobre
fosforescência invisível (no infravermelho) de várias substâncias. Estudou, em
particular, os espectros defluorescência desais deurânio, utilizando amostras que
seupai haviaacumuladoduranteotempo. (Martins, 1998b: 33)
Digamosqueo laboratórioqueestavaàsuadisposição, oMuseudeHistóriaNatural, do
qual seu pai era presidente e Henri um funcionário de alta patente, era dos mais
equipados da Europa. Os materiais e instrumentos ali disponíveis erambastante ricos
paraosparâmetrosdaépoca. Comoostrabalhosanterioresapontavamparaumadireção
interessante da pesquisa, Becquerel viu a possibilidade de contribuir. Afinal, ele tinha
todos os equipamentos e as substancias bem à sua frente, assim como todo o
treinamento necessário paradar continuidadeaos trabalhos. Os resultados apresentados
como“espíritocientífico”, ocientistadoouoprêmiode70mil francos-ouroparainstituiçõesdepesquisa
edecaridade, assimcomoserecusouapatentear adescoberta(Goldsmith, 2006).
Uma raridade e suas problematizações
39
na Academia de Ciências iamao encontro das pesquisas de seu pai; trabalhos que ele
conheciacomo ninguém. Tomando suas palavras: “pensei imediatamenteeminvestigar
se todos os corpos fosforescentes não poderiam emitir raios parecidos” (citado em
Quinn, 1997: 152). Becquerel começou a fazer suas experiências, que tornou públicas
nasemanaseguinte:
Emuma reunião precedente, Charles Henry notificou que, ao se colocar o Zinco
fosforescente no caminho dos raios que saem do tubo Crookes, aumentava a
intensidade das radiações que penetramo alumínio. Além disso, Niewenglowski
descobriu que o sulfeto de cálcio fosforescente, comercial, emite radiações que
penetramemsubstânciasopacas.
Essecomportamentoseestendeavárias substâncias fosforescentes e, emparticular,
aos sais deurânio, cujafosforescênciatemumaduração muito curta. Como sulfato
duplo deurânio epotássio, dequepossuoalguns cristais sobaformadeumacrosta
transparente, fina, realizei aseguinteexperiência:
Envolve-seumachapafotográficadeLumièreemduas folhas depapel negro muito
espesso, detal formaqueachapanãoseescureçamesmo expostaaosol duranteum
dia. Coloca-seumaplacadesubstânciafosforescentesobreopapel, dolado defora,
e o conjunto é exposto ao sol durante várias horas. Quando se revela a chapa
fotográfica, surge a silhueta da substância fosforescente, que aparece negra no
negativo. Se for colocado uma moeda ou uma chapa metálica perfurada, entre a
substancia fosforescente e o papel, a imagem desse objetos poderá ser vista no
negativo.
As mesmas substâncias podemser repetidas colocando-seuma chapa fina devidro
entreasubstânciafosforescenteeo papel; eisso exclui apossibilidadedequalquer
ação química por vapores que pudessemsair da substância ao ser aquecida pelos
raiosdesol. Pode-seconcluir dessas experiências queasubstânciafosforescenteem
questão emite radiações quepenetramumpapel opaco à luz e reduzemos sais de
prata [sensibilizam o papel fotográfico]. (Comunicação completa de Becquerel,
1896a, traduçãocitadaemMartins, 1998a: 33-34)
Considerando que os cientistas não sabiamtratar-se de Raios X, não irei, de modo
algum, descaracterizar suas experiências sobre o fenômeno com base no que
conhecemos no presente. O que tendo a fazer aqui implica, num certo sentido, na
recuperação dos “erros” científicos em sua positividade, na realidade circunscrita
daquilo que, muitas vezes, não existe mais. Não se trata, então, de uma discussão de
epistemologia
31
, mas antes, de ontologias, que me aparecem por intermédio das
comunicaçõesdoscientistasenquantorelacionais evariáveis. Afinal decontas, oqueos
cientistas envolvidos estavam discutindo não eram suas metodologias – saber qual
estavamaiscorreta–, esimanaturezaouaessênciadesseraio, istoé, oseu:.:. Eunão
31
Refiro-meaotrabalhodeanalisar osprocedimentosdos cientistasparaexplicar oqueos levouaoerro
ou ao acerto da natureza de um fenômeno em um determinado experimento. Como por exemplo, o
própriotrabalhodeRobertodeAndradeMartins.
Uma raridade e suas problematizações
40
poderiafazer diferente, trabalhando nadiagonal entreo queéc::c eo quesão as.c::a:
emseutempo (às vezescurto) deexistência. Meuproblemaconsisteemverificar como
seproduzoacertoeoerronosprocedimentoslaboratoriais. Vamosadiante.
À na|u|eza n¦¦e|¦o·¦o|e·cen|e oo u|an¦o
Um percurso muito conveniente desta corrida científica – ainda muito
controversa emrelação à .au:a dos Raios X – era experimentar se outras substâncias
fosforescentes tambémsensibilizavamas chapas fotográficas quando iluminadas. Isso
acontecia por conta dos caminhos experimentais seguidos pelos cientistas, que com
certeza balizavam os trabalhos um dos outros, tanto para afirmá-los quanto para
produzir variações quepermitissemencontrar algo inesperado. Muitas repetições foram
feitas nessesentido, o quepôdeser observado nas comunicaçõesescritaspelospróprios
cientistasenvolvidos. Descrevo umacontecimentoinusitado, algo imprevisto duranteas
pesquisas, quedeuaos sais deurânio umestatuto dehiperfosforescentes. Suaatividade
foi percebida como anormal durante as pesquisas, produzindo um deslocamento na
controvérsia. Refiro-me ao que ficou conhecido como raios Becquerel, ou raios do
urânio, que apresentavam pequenas diferenças em relação aos Raios X, mas que,
todavia, nãosurtiramomesmo impactonacomunidadecientífica.
Uma semana depois dos primeiros experimentos de Becquerel terem sido
apresentados na Academia de Ciências de Paris, outros cientistas publicaram seus
trabalhos. D’Arsoval, por exemplo, apresentousuacomunicação afirmando “ter obtido
radiografias utilizando uma lâmpada fluorescente e recobrindo os objetos a serem
radiografados com um vidro fluorescente contendo sal de urânio” (Martins, 1998b:
34)
32
. D’Arsoval afirmaquecorpos fluorescentes de intensidades amarelo-esverdeadas
são capazes tambémdeimpressionar as chapas fotográficas enroladas compapel opaco
àluz.
Na mesma sessão, Becquerel apresentou uma variação interessante dos seus
experimentos e que revelava o imprevisível. Ao manter o sulfato duplo de uranila e
potássio no escuro, semreceber qualquer ação da luz solar, encontrou algo que era
“estranho ao domínio dos fenômenos quepoderiamser observados”. Reproduzo partes
importantesdacomunicação:
32
Entenda-sepor radiografias as“fotografias” (deRöntgen), pois essetermonãoexistianaépoca, como
notaopróprioMartinsemoutrostrabalhoscitados.
Uma raridade e suas problematizações
41
Insistirei singularmente sobre o seguinte fato, que me parece muito importante e
estranho ao domínio dos fenômenos que se poderia observar. As mesmas lamelas
cristalinas, colocadas junto às chapas fotográficas, nas mesmas condições, isoladas
pelos mesmos resguardos, mas semreceber estímulo por incidência de radiação e
mantidas no escuro, aindaproduzemas mesmas impressões fotográficas. Eis deque
modo fui levado aessaobservação: entreas experiências anteriores, algumas foram
preparadasnaquartafeira, 26, enaquinta, 27defevereiro; ecomonesses diasosol
apareceu somente de modo intermitente, mantive as experiências e conservei as
chapascomseus envoltóriosnaescuridãodeumagaveta, deixandoaslâminasdesal
deurânioemseulugar. Comoosol nãoapareceudenovonosdiasseguintes, revelei
as chapas fotográficas em1º de março, esperando encontrar imagens muito fracas.
Ao contrário, os contornos apareceramcomgrande intensidade. Pensei logo quea
açãodeviater continuadonaobscuridadeepreparei aexperiênciaseguinte:
No fundo de uma caixa de cartão opaco, coloquei uma chapa fotográfica; depois,
sobreo lado sensível, coloquei uma lameladesais deurânio, quetocavaagelatina
apenas empoucos pontos; então, ao lado, na mesma chapa, coloquei outra lâmina
como mesmo sal, separada da gelatina por uma fina camada de vidro. Após fazer
esseprocedimentonasalaescura, fechei acaixa, coloquei-adentrodeoutracaixade
papelãoe, depois, dentrodeumagaveta. (…)
Após cinco horas, revelei as chapas e o entorno das lâminas cristalinas foram
enegrecidas, como nas experiências precedentes, como se tivessem se tornado
fosforescentes pela luz. (…) Uma hipótese que me surge muito naturalmente ao
espírito seria a suposição de que essas radiações, cujos efeitos possuemuma forte
relação com os efeitos produzidos pelas radiações examinadas por Lenard e
Roentgen, poderiamser radiações invisíveis dadas por fosforescência, cuja duração
depersistênciafosseinfinitamentemaior doqueasradiaçõesluminosasemitidaspor
essassubstâncias. (Becquerel, 1896b: 503)
Oquedeveriaser eliminado, controlado, separado do ponto devistadapesquisa, passa
aser o “às deouro”. Primeiro, Becquerel necessitavados raios solares parareproduzir
seus experimentos, e foram as ações das nuvens que o atrapalharam. Por conta do
fenômeno inusitado queaconteceu dentro desuagavetaenquanto aguardavao sol, ele
necessitoudetodo o jeito retirar seumaterial dequalquer possibilidadedecontato com
luz solar. Trabalhou no escuro minuciosamente, com o objetivo de isolar os raios
solares do contato com a chapa e com os sais de urânio, utilizando uma caixa de
papelão, e seu resguardo numa gaveta. Willian Crookes
33
, químico inglês renomado,
que por um acaso estava naquela ocasião no laboratório de Becquerel, afirmou
posteriormente: “Osol, persistentemente, manteve-sepor trásdasnuvensdurantevários
diase, cansadodeesperar (oucomaprevisãoinconscientedogênio), Becquerel revelou
33
Descobriu por espectroscopia o elemento químico tálio e foi o inventor do tubo e do eletrômetro
Crookes. Estudouosraioscatódicoseoutrasradiações. Foi presidentedaAcademiadeciênciasinglesa, a
¹c,aI ·c.:.:,, entre os anos de 1913 e 1915, e membro honorário de várias instituições científicas
européias. Além de seus trabalhos em química e física, Crookes também se notabilizara pelos seus
estudos sobreespiritismo, fenômeno quereuniu muitos cientistas daL.II. .jc¸u., equeera percebido
comoumapossibilidadedenovaciência.
Uma raridade e suas problematizações
42
achapa. Paraseuespanto, emvez deumvazio, como esperava, achapaescureceratão
fortemente quanto ocorreria se o urânio fosse previamente exposto à luz solar, e a
imagemda cruz de cobre brilhava, branca contra o fundo negro” (Crookes, citado em
Quinn, 1997).
A contribuição de Becquerel nessa comunicação significou separar a
fosforescência produzida pela excitação de luz, mais rarefeita, digamos assim, da
fosforescênciainvisível, mais duradoura– produzida(inusitadamente) pelo urânio, mas
aindabastanteparecidacomosraiosRöntgen. Percebeu-seque, emcontato comossais
de urânio, as chapas fotográficas eramsensibilizadas mesmo sema ação de luz solar.
Por umlado, isso pareciamuito como queNiewenglowski haviadescrito parao sulfeto
decálcio, porém, esteúltimo haviaalimentado os experimentos comluz solar antes de
guardá-lo, e Becquerel não. Mas não havia nada de muito revelador nisso, nada de
muito diferentedahipótesequeesses trabalhos procuravamtestar. Apesar daprodução
do fenômeno acontecer independente da luz, essa relação ainda estava prevista na
hipótesedePoincaré: tratava-sedeummaterial fosforescentequeemitiaalémderaios
luminosososRaiosX – aindaquenãoprecisassedaaçãodaluz.
Podeparecer inusitado dizer que não há nadade revelador nessacomunicação
de Becquerel (já que alguns epistemólogos associam-na à descoberta da
radioatividade
34
), mas foi Raveau (1896) que o fez, numa comunicação na mesma
revista onde Poincaré havia divulgado popularmente a descoberta de Röngen. O
cientista descreve os trabalhos até aqui mencionados e outros – que não pude
acompanhar – numa espécie de revisão do que estava sendo feito sobre o assunto.
Aponta claramente os trabalhos de Niewenglowski, D’Arsoval, Becquerel e outros
como nadamais do quevariações do fenômeno previsto por Poincaréedescoberto por
Henri.
34
Issomeparecefalso. Imaginoqueessetipodeafirmaçãotenhasidofeitasemmuitaatençãonosdados
ecomfundamento nanaturezatranscendentedaradioatividade, mas principalmentecomo discurso do
Nobel de1903, cf. maisadianteMartins(1998b). Noentanto, discordadequearadioatividadetenhasido
descobertanessaocasião, aindaqueestendaumargumento a-histórico como os outros. Seos primeiros
dizemque Becquerel mostrou umfenômeno que não descreveu direito, Martins espera que Becquerel
tivessedescobertoumanaturezaquesófoi produzidaalgunsanosdepois: “Ora, issopoderiater mostrado
quenão setratavadeumfenômeno defosforescênciaesimalgo deoutranatureza(…) os trabalhos de
Becquerel não estabeleceramanatureza[radioativa] das radiações emitidas pelo urânio, nemanatureza
subatômica do processo” (Martins, 1998b: 39). A questão é novamente de que realidade natural os
cientistas estão falando. Nos dois casos se explica o “passado-erro” (fosforescência) pelo “acerto-
presente” (radioatividade); aquiloquepassouaexistir eresistiuàhistória. Seocientistanãoestabeleceua
naturezaradioativadofenômenoéporqueelaaindaestavapor vir (entãonãoexistia), por issoBecquerel
nãodescobriuaradioatividade.
Uma raridade e suas problematizações
43
Aindaemmarço de1896, outras pesquisas engrossarama filadeexperimentos
sobre os Raios X na Academia de Ciências de Paris – a maioria delas realizando
balanços sobre as pesquisas anteriores, e sobretudo, confirmando as observações
anteriores. Nesse momento, acaracterização experimental do fenômeno pareciater, de
fato, convencido atodos, aponto detal enunciado ganhar certaregularidade. Trocando
emmiúdos, todos os corpos fosforescentes de grande intensidade – independente da
causa de sua fosforescência – poderiamemitir, alémde raios luminosos, os Raios X.
Mas Becquerel, após acontinuidadedesuas experiências, parece não concordar muito
comessahipótese. Pelo menos não no queserefereaos raios do urânio. É isso queele
afirmaemsuaterceiracomunicação sobreo assunto (Becquerel, 1896c), eo queacaba
intensificando, novamente, acontrovérsiasobreanaturezadosraios.
Ao pesquisar apossível analogiadosraiosdourânio comosRaiosX, parasaber
se eramiguais ou não, Becquerel repetiu todas as experiências já feitas. Uma delas
pretendiapôr àprovaseosraiosemitidospelo urânio poderiamfazer as mesmas coisas
que os raios de Röntgen, como era de praxe no momento. Para tanto, observou se os
raiosdossaisdeurânio descarregavamo eletroscópio, seguindo osexperimentosdeJ.J.
Thomson para os Raios X. “O modelo desenvolvido por Thomson permitia prever e
explicar muitas características do fenômeno, como arelação entrepressão do gás esua
condutividade, relaçãoentreacorrenteelétricaproduzidaeadistânciaentreduasplacas
paralelas, aexistênciadeuma correnteelétricadesaturação etc.” (Martins, 2003: 33).
Concluiuafirmativamentedefato, muitoemboraessaexperiênciaevidenciasseapenasa
natureza dos dados até então conhecidos, o que não ajudava a diferenciá-los. No
entanto, Becquerel logra algo muito diferente do ponto de vista das pesquisas de
Röntgen, e de todos os outros colegas, porémfamiliar emrelação a algumas de suas
pesquisas anteriores com a fosforescência. Consegue refletir os raios em algumas
superfícies metálicas, refratá-los em relação ao vidro comum. Logo, se esses raios
podem ser refletidos e refratados, não poderiam ser os raios de Röntgen. Essa é a
hipótese que desabrochou. Ao deixar por sete dias o material na obscuridade (mais
tempo do quetinhadeixado anteriormente), o cientistapercebeu queos sais deurânio
continuavamasensibilizar as chapas fotográficas, mas atuavamdeformadiferente. Tal
fato sofisticou cada vez mais a discussão, visto que as experiências e as relações das
relaçõespor elasobtidas ficavamcadavez mais complexase, portanto, dedifícil acesso
atodos. Nessacomunicação, Becquerel mobilizasuasantigaspesquisasparajustificar a
conclusãoedeslocar aproblemáticadossaisdeurânio. Emsuaspalavras:
Uma raridade e suas problematizações
44
Talvez esse fato [a reflexão e a refração dos raios] possa ser comparado à
conservaçãoindefinida, emcertoscorpos, daenergiaqueabsorveramequeéemitida
quando são aquecidos, falo sobre o que já chamei atenção emumoutro trabalho
sobreafosforescênciapelocalor. (Becquerel, 1896c)
Esse“outrotrabalho” queoautor serefereéoquefaziacomseupai, quesenotabilizara
por contados estudos detal fenômeno. Suaafirmação épautadanos raios dos sais de
urânio, e tambémbaseada na mesma experiência como sulfato de zinco, o sulfato de
estrôncio e certos tipos de sulfato de cálcio. Como primeiro, Becquerel não notara
nenhum efeito, deixando-o na obscuridade, diferentemente de outros cientistas. Em
relação ao sulfeto deestrôncio, amesmareação épercebida: nadaacontece. Quanto ao
sulfetodecálcioqueproduziafosforescênciaalaranjada, tambémnão. Masdoissulfetos
de cálcio que produziam fosforescência azul e azul-esverdeada “produziam efeitos
muito fortes, os mais intensos que já obtive nessas experiências. O fato relativo ao
sulfeto decálcio azul estádeacordo comaobservação deNiewenglowiski através do
papel negro” (Becquerel, 1896c).
Nacomunicação apresentadanasemanaseguinte(Becquerel, 1896d), o cientista
nega– combaseemumarepetição dosexperimentos– seusprópriosresultadoscomos
sulfetos de cálcio, afirmando que, ao contrário do que havia dito, eles não
sensibilizavam as chapas fotográficas ao serem colocados no escuro. Tal conclusão
perpetuou somente o urânio como material que (fosforescentemente) tem essa
habilidade, sendo quediferentementedos Raios X, seus raios poderiamser refratados e
refletidos com certos materiais. O fenômeno de fosforescência invisível, segundo
Becquerel, aumentaquando os sais deurânio são iluminados por umadescargaelétrica
oupelaluz solar. NaInglaterra, SilvanusThompsonhaviaconseguido efeitospróximos
aos de Becquerel com o nitrato de urânio, e progredia paralelamente. “Becquerel
afirmou ter confirmado experimentalmente que a radiação do urânio era de natureza
eletromagnética, semelhante à luz (refração, reflexão, polarização) e que a emissão
diminuía lentamente no escuro, como uma fosforescência invisível de longa duração.
Thompson aceitou os resultados de Becquerel e propôs para o fenômeno o nome de
“hiperfosforescência”, quesepopularizourapidamente(Martins, 2003: 32).
A essa altura, os raios do urânio, ou sua hiperfosforescência, estavam
diferenciados dos Raios X, mas isso aindaeraumvetor deincertezas. Poderiamser de
naturezas diferentes, mas apresentavam analogias, apontando para uma relação
intermediária entre os Raios X e os raios ultravioleta. Afinal, ora tinham a mesma
Uma raridade e suas problematizações
45
atuação, ora faziamcoisas bastantedistintas tendo-seemvistaas relações obtidas nos
laboratórios. Aquilo que o próprio Röntgen havia conseguido afastar para a
originalidade dos Raios X (refração, reflexão e polarização) poderia, enquanto uma
generalidade, ser colocada emdúvida, porque os sais de urânio não deveriamter tais
propriedadesnemagir dessaforma. Masofatoéquetinhameagiam…
Logo após acaracterização do fenômeno emparceriacomSilvanus Thompson,
Becquerel recebeuadoação deummaterial raro, o urânio metálico. Elehaviaacabado
de“vir ao mundo”, pois Moissamconseguiu isolá-lo depois deumardiloso trabalho, e
eraumdospoucosquedispunhadasubstânciaemmãos. Henri Becquerel, apósreceber
o espécimedo colega, iniciaasexperiênciascomessenovo metal. Acabamaisumavez
confirmando sua hipótese, pois evidencia a mesma atuação. Emoutra comunicação
(Becquerel, 1896e), apresentao urânio metálico como sendo o único metal queproduz
umfenômeno de (hiper)fosforescência. O fato é que o prestígio de Becquerel e seu
pleno conhecimento nesse campo de estudos – junto à confirmação de Thompsom–
acabarampor esgotar a pesquisa. Tratava-se de avaliar uma pequena variação de um
fenômeno plenamente conhecido pelos físicos, a fosforescência, que induzia a todos
paraumdesvio menosimportantedosRaiosX.
Parece-me necessário explicitar que as relações que constituíramos raios do
urânio estabilizaram-se de tal forma que sua causa deixou de ser um objeto de
controvérsia. A ontologia dos raios Becquerel já havia sido caracterizada como uma
“caixa-preta” bemdefinida e comumlugar claro na taxonomia científica
35
. Como os
raios Becquerel ou os raios do urânio já estavamresolvidos, não havia muito mais a
fazer, pois o máximo que se conseguiria eram mais algumas pequenas variações
previstas, jamais uma grande descoberta. Na verdade, boa parte da questão girava em
torno desaber quetipo derelação esses raios do urânio estabeleciamcomos Raios X,
esses últimos muito mais importantes. A hiperfosforescência do urânio (enquanto um
dado) era umbomcaminho para compreender a natureza dos Raios X de Röntgen
35
Estousendoincisivoemrelaçãoao::a:u: ontológicoestabilizadodofenômenodahiperfosforescência
porqueessamepareceumaquestãocentral. Querodizer queourânioemitia, defato, osraiosBecquerel.
Evito dizer, por exemplo, “Ou existiriam efeitos que não podem ser explicados por nossos
conhecimentos, ouBecquerel seenganouemsuasobservações– e, nestecaso, podeter sidoinduzidoem
suas expectativas teóricas a ver fenômenos inexistentes (Martins,1998: 38). Ora, isso mefaz perder de
vista umconjunto derelações quemesão centrais, a própria batalhaposterior emfazer essefenômeno
deixar de existir. Assim, tendo a ser fiel aos experimentos dos cientistas, aos resultados obtidos e
estabilizados, oque, decertomodo, umaanáliseepistemológicatendeaeclipsar porquetomacomobase
“a” radioatividadequeconhecemos hoje. Tenho evitado selecionar deantemão quais relações contame
quaisnão, paraacompanhar os meios pelos quais resultaadistinção entreo verdadeiro eo falso. Como
veremos, elanãoétãoevidente.
Uma raridade e suas problematizações
46
(aindamisteriosaeemvias decaracterização). Essaformadever as pesquisas sobrea
hiperfosforescência ficaclaraseacompanharmos o comentário deJohnMacIntyre, um
cientistainglêsquefaziaumbalançodosestudos:
É impossível discutir aqui o queos raios deRöntgensãorealmente, mas talvez seja
permissível dizer queumgrandenúmero defísicos está agora inclinado a adotar a
opinião de que, afinal, estamos tratando comvibrações transversais do éter muito
distantes e além do ultravioleta com o qual já estamos familiarizados há muito
tempo. Se assimfor, não existe razão para assumir que há uma lacuna entre o
ultravioleta e os raios X; e realmente Becquerel recentemente nos deu prova da
existênciaderaios emanados dourânio edeseus sais quesugereapossibilidadede
quealguns deles játenhamsido descobertos. (MacIntyre, 1897ajuc Martins, 2003:
32)
Pareciaquetodossabiamdequetratavacomrelação aosraiosdo urânio. Maso mesmo
não se verificava no caso dos Raios X. Entretanto, o próprio cientista admite que um
fenômeno poderiaajudar, por contraste, acompreender o outro (Becquerel, 1896d). A
eliminação de entidades já descobertas anteriormente pela física permitia “limpar” as
discussõesqueeramfeitassobreosRaiosX. Eranecessário, paraoandar dacarruagem,
distinguir quais substâncias permitiamexperimentar os Raios X eavançar, equais não,
por serem já conhecidas. Os raios Becquerel apresentavamalgumas propriedades já
“descobertas” diferentes dos raios de Röntgen, e, como os primeiros já eram bem
conhecidos, eraimportantemanter asatençõesnossegundos.
A maioriados físicos migrouparaoutras áreas de interesse, inclusiveo próprio
Becquerel – tanto queospróximos dois anos foramquaseinativosemrelação aosraios
do urânio. Havia além dos Raios X (que por sinal ainda estavam em alta), outros
campos profícuos à pesquisa. “Os raios X, não os raios do urânio, fascinaramtodos.
Seus importantes efeitos – eautilidadepotencial – desmentiamas afirmações dos que
consideravama ciência embancarrota. Os Raios X poderiamproduzir fotografias da
sobradosossos damão. Os raios do urânio eramfracos demais paratirar boas fotos de
ossos. OsRaiosX eramfacilmenteproduzidospor qualquer pessoaquetivesseumtubo
termodinâmico eumabobinadealtavoltagem. Ourânio eraquaseimpossível deobter.
Alémdisso, osraiosdo urânio partilhavamalgumascaracterísticasdosRaiosX eforam
descobertos por causa deles. Era natural juntar indiscriminadamente os dois tipos de
raios” (Quinn, 1997: 155).
O historiador Lawerence Badash (1965: 138) é mais incisivo emdizer o que
havia acontecido comos raios Becquerel: “o assunto estava morto e enterrado”. Ele
mostra comclareza como outros fenômenos anunciados na mesma época erammuito
Uma raridade e suas problematizações
47
menos interessantesparaas pesquisas do queosRaiosX. No mais, no período seguinte
atémeados de1898, poucas coisas forampublicadas sobreos raios Becquerel. O mais
importante é que nenhuma dessas comunicações perdurou por não ter tido nenhuma
atenção. Como notou Martins (1998b), entreesses trabalhos destacam-seos de alguns
cientistas, como osdeMuraoka, no Japão, quepesquisavaalguns vermes luminescentes
capazes de produzir radiações invisíveis que sensibilizavamchapas fotográficas. Um
pesquisador Norte-Americano, chamado McKssic, divulgou, no mesmo ano, quemuitas
substâncias eram capazes de emitir os raios Becquerel, entre elas, cloreto de lítio,
sulfeto debário, sulfato decálcio, cloreto dequinina, açúcar, giz, glicose eacetato de
urânio. OsraiosmisteriososjánãoesbarravamnasfronteirasdaEuropa.
Em1897, LordKelvin
36
– outro protagonistadessetrabalho – utilizouo modelo
elétrico de Thomson para as pesquisas comos raios do urânio, como havia sido feito
comos Raios X. Mas dessa vez, fez os dois experimentos concomitantemente, para
comprovar a existência dos fenômenos. Sua confirmação experimental era aguardada
por todos, visto quesetratavadeumagrandeautoridade. Comumaamostradeurânio
conseguidaatravésdeMoissan, eleapresentoualgumascomunicaçõesemconjuntocom
seus colaboradores (Kelvin, Beattie, De Smolan, 1897, dentre outras) em que
confirmavamesse“maravilhoso fenômeno”. Mas osautoresnão searriscaram(ainda) a
nenhuma explicação para o fenômeno. Gustave Le Bon, o mesmo da psicologia das
multidões, havia tentado uma desconstrução das alegações de Becquerel sobre a
reflexão, refração e polarização dos raios do urânio (Le Bon, 1897). Alémdisso, ele
afirmou veementemente ter observado a existência de um novo tipo de raios que
apelidoude“luz negra” – massuasobservaçõesnãotiveramnenhumrespaldo.
Umartigo derevisão sobreo assunto (Stewart, 1898) descreveu todos os tipos
detrabalhos publicados naépoca, descaracterizando amaioriae separando quais eram
sérios equais “não eramembasados emfatos verídicos”. Segundo o cientista, os raios
Becquerel eram ondas eletromagnéticas transversais (como a luz) de pequeno
comprimento, sendo que o processo de emissão era um tipo específico de
fosforescência. Ele estava se referindo exclusivamente às conclusões de Becquerel.
36
William Thomson, Barão de Kelvin, que teve seu nome associado a uma medida de temperatura
termodinâmicaconhecidahojecomoescalaKelvin. Masessaésóumadasmuitascontribuiçõesquedeu
àciência. Calculouaidadedaterracomargumentostermodinâmicosedemonstrouqueteriaentrevintee
quarenta milhões de anos; e no campo da eletricidade, Kelvin inventou galvanômetros, desenvolveu a
telegrafia submarina e aperfeiçoou os cabos condutores de eletricidade. Comesses trabalhos ganhou o
títulodenobrezanoReinoUnido. Em1890, tornou-sepresidenteda¹c,aI ·c.:.:,, erecebeuaordemde
méritonestainstituiçãoem1902.
Uma raridade e suas problematizações
48
Repetiu os experimentos comos sais de urânio e tambémnotou refração, reflexão e
polarização e o aumento de intensidade dos raios após a exposição à luz, como
Niewenglowiski havianotadotambémparaoutromaterial.
Algo de novo ainda estava por vir. Essas pesquisas representavamumavanço,
quecertamentecravaria o nome dos bemsucedidos na história. Se “desenterro” todos
esses trabalhos é porque pretendo trazer à superfície a efervescência que causou esse
movimento científico e algumas controvérsias que produziram efeitos de realidade
relativa. Muitas descobertas “novas” pulularamnesse território, algumas resistiramà
história eternizando-se, outras jamais perderam o caráter do tempo circunscrito da
história, virando simplesmentealimento parapesquisadores. Paralembrar o lindo título
do livro de Isabelle Stengers e Ilya Prigogine (Prigogine & Stengers, 1992), essas
relações sepassavam“entreo tempo eaeternidade”. A grandeapostadessetrabalho é
umaquestão muito simples: mostrar como sedáabatalha científica, eemmeio aque
operadores(nomeucasodegêneroentreoutros), entreaquiloqueseeternizanahistória
eoquesecircunscrevenotempo.
Outras variações das pesquisas aqui descritas (como se fossem relações)
suscitaramquestõesparaaquilo que, anos mais tarde, passouaser aradioatividade. Foi
pesquisando Raios X e, depois, os raios Becquerel, que se chegou à radioatividade.
Basicamente, acompanhando alguns efeitos produzidos por novos experimentos
laboratoriais que, diferente do previsto, não deveriam acontecer. Mas aqui me cabe
deslocar a controvérsia dos Raios X, passar para outra linha aberta por essa
controvérsia. Afinal, ela mesma desdobrou-se para outra controvérsia que não ela
mesma, seguindo emuma“evolução a-paralela". Oquequero sinalizar équenão estou
preocupado como desenrolar da controvérsia sobre a natureza dos Raios X, mas sim
comas controvérsias emtorno daradioatividade. Como umcaminho necessário, assim
trato esse itinerário – para delinear as mutações ontológicas do fenômeno, as
“ontologias de geometria variável” segundo Latour (1994). É que essas relações que
descrevi atéagorasão acondição depossibilidadeparaoutras relações, mais próximas
docaminhodeMarieCuriee, portanto, daradioatividade.
Uma raridade e suas problematizações
49
Una nu¦ne| e a a|¦v¦oaoe (ano|na¦, oo· |a¦o·
SaídadeumaPolôniatomadapelos russos, naqual haviaparticipado de incursões em
“universidades voadoras”
37
, Marie Sklodowska sabia muito bemdas dificuldades que
enfrentaria nas ciências. Tendo plena consciência de que o território sonhado para se
instalar não era comum para as mulheres, ela escreveu anos depois em suas notas
autobiográficas:
Eutinhaouvidosobrepoucas mulheres queobtiveramsucesso emcertos cursos em
Petrogrado ou emoutros países, e eu estava determinada a mepreparar através de
trabalhospreliminaresparaseguir seusexemplos. (MarieCurie, 1963: 166)
Conseguira ingressar na Sorbonne, a universidade francesa que era uma das mais
respeitadas e tradicionais do mundo todo, e uma das poucas que aceitava mulheres e
estrangeiros. Mas na França o ambiente tambémera bastante indiferente e hostil em
relação a mulheres e estrangeiros. Se na Polônia sob a “administração” russa o poder
exercido sobre as mulheres era uma demanda do Estado, na França republicana, que
gozava dos elementos da revolução política, a hostilidade era molecular, muito mais
sutil, porém, não menos intensa. Apesar de transitarempor ambientes masculinos, as
mulheres estavamlongedeter amesma força(Perrot, 1991). Muito indiferentea isso,
Marieescreveu:
Toda a minha mente estava centralizada emmeus estudos. Eu dividia meu tempo
entreos cursos, trabalho experimental eestudo nabiblioteca. À noitetrabalhavaem
meu quarto, muitas vezes atétardedanoite. Tudo o queeu via, aprendiaeranovo e
eu meencantava. Eracomo ummundo novo aberto paramim, o mundo daciência,
que eu, afinal, tinha permissão para conhecer, comtoda a liberdade. (Citado em
Quinn, 1997: 103eemGoldsmith, 2006: 40)
Fazia os estudos à noite emsua casa, talvez porque não era agradável que uma moça
solteiraandassepelasruasescurassenãoquisesseser confundidacomumaprostituta, o
queeracomumnoscafésdacidade. “Tomemoso exemplo dalei de1892, queproíbeo
trabalho noturno às mulheres elimitasuajornadadetrabalho aonzehoras: votadapor
umaaliançadedeputadoscatólicosedeantigosoperários” (Thébaud, 2000). Omedoda
promiscuidade (moral) e os debates científicos (como iremos ver) sobre a diferença
sexual entre homens e mulheres produziam espaços específicos para eles/elas, e
37
Universidades clandestinas freqüentadas na sua maioria por mulheres que sonhavam continuar os
estudos. Os Russos proibiamas mulheres nas universidades emuitos professores foramexilados por tal
ofício. O principal mote era preparar as polonesas para as poucas universidades no estrangeiro que
aceitavammulheres no período (Goldsmith, 2006: Quinn 2007). Influenciada pelo positivismo, essas
universidadeserammarcadaspor umpatriotismo, noqual aciênciaeraumaformadelibertação.
Uma raridade e suas problematizações
50
distribuíamospapéis degênero deacordo comtaisatributos. Ofato équeas mulheres,
assimcomo as crianças, eram“protegidas” pela lei, pois assimas mulheres casadas e
mães de família poderiam ser afastadas da competição no mercado de trabalho,
dedicando-seintegralmenteaomaridoeàmaternidade.
MarieSklodowska, duranteos primeiros anos emqueestavanaFrança, tornou-
seCuriequandosecasoucomPierre– umfísicoqueacabaradeganhar notoriedadepor
suas pesquisas sobre eletromagnetismo. Ambos achavamque deveriam“se interessar
por coisas não por pessoas” (Marie Curie, 1963). “Seria uma coisa maravilhosa...”
escreveuPierreCurieaMarieSklodowski em1894, “passar nossas vidas juntos umdo
outro, hipnotizadospor nossossonhos; seusonho patriótico, nosso sonho humanitário e
nossosonhocientífico” (citadoemBirch, 1993).
Mulheres sequer tinham a possibilidade de participar de processos civis ou
políticos. Baseada nos valores republicanos da “justiça paterna”, a desigualdade de
gênero compunha a identidade nacional francesa, apesar de esbarrarem, às vezes, nas
fronteiras de Paris. “Em nome da natureza, o Código Civil estabelece a autoridade
absolutaaomarido. (...) A mulher casadadeixadeser umindividuoresponsável: elaoé
bem mais quando solteira ou viúva. Essa incapacidade, expressa no artigo 213 (“o
marido deveaproteção asuamulher eamulher obediênciaao marido”), équasetotal
(Perrot, 1991: 121). No plano familiar, o ambiente não era menos carregado de
desigualdades de gênero; mulheres não poderiam gastar as economias sem o
consentimento do esposo, eo adultério eraconsiderado umcrimedapior estirpe(para
as mulheres). No caso deumamulher fugir, seu marido poderialegalmentetrazê-lade
voltaacionandoalei.
Dentro da universidade, essa desigualdade tambémreinava, de modo que as
poucas mulheres que ali estavam– duzentos e dez para nove mil estudantes no geral
(Quinn, 1997) e vinte e três para dois mil no curso de ciências (Goldsmith, 2006) –
eramchamadas, é claro, de .:uc:at:.:, palavra que servia tambémpara alertar sobre
umaamantedeumestudantedaSorbonne. Asfrancesas nãosearriscavammuitonesses
recintosmasculinos; emsuamaioriaasestudanteseramestrangeiras. Paraessasúltimas
existia a expressão “ama-de-leite do estudo”, que referia-se a “mulheres de fora”,
bonitas einteligentes e, portanto, boas parasecasar (EveCurie, 1943). A desigualdade
degênero compostano exercício depoder estavaexatamentena“cortesia” comqueas
mulheres eramtratadas, quer dizer, daformacomo eramaceitasoutoleradasemalguns
Uma raridade e suas problematizações
51
territórios. Umcronistafrancês daépocachamado Henri d’Almeras mostramuito bem
comooperavamessasrelaçõesconstruídaspor meiodogênero:
Oquedistingueumaestudanteséria, quasesempreumaestrangeira, équeninguéma
leva a sério. Se ela étratada comcerta cortesia, deveria considerar quetemsorte.
(…) Essas estudantes trabalhamcomgrande paciência, como se bordassem. Nem
sempreentendemoqueestãofalando. (CitadoemQuinn, 1997: 100)
OctaveMirbeau, tambémdissertaaesserespeito. O escritor deL.II. Ljc¸u., ao saber
queduas mulheres desejavamfazer partedaAcademiadeLetras, respondeu comuma
severareprimenda:
A mulher não éumcérebro, éumsexo, oqueémuito melhor. Elasótemumpapel
nessemundo, o defazer amor, ou seja, perpetuar suaraça. Elanão éboaparanada
além do amor e da maternidade. Algumas mulheres, raras exceções, têm sido
capazes dedar, sejanaarte, naliteratura, ailusãodequesãocriativas. Maselassão
anormais, ou simples reflexos dos homens. Prefiro as que são chamadas de
prostitutas porqueelas, pelo menos, estão emharmoniacomouniverso. (Citado em
Quinn, 1997: 98)
Ascoordenadasdegênero– asrelaçõesqueconstituemhomensemulheresmutuamente
– dividem (sexualmente) os atributos, definindo mente, razão e objetividade como
“masculinos”, e coração (ecorpo), sentimento esubjetividadecomo “femininos”. Isso
mostra, naverdade, comoessasrelaçõesdepoder ressoamparaaexclusãodamulher do
empreendimento científico (Keller, 2006). É como se o masculino fosse sinônimo de
ciência, ao passo queo feminino, seu antônimo. Parafazer umaanalogia: as coisas se
passavamcomo se as mulheres estivessempara o coração, o privado e a reprodução,
assimcomooshomensestariamparaarazão, opúblicoeapolítica.
É que quanto mais a civilização avança, mais acurada havia de ser a divisão
sexual do trabalho, já dizia Durkheimnessa mesma época. “Faz tempo que a mulher
retirou-se da guerra e dos negócios públicos e que sua vida concentrou-se inteira no
interior dafamilia” (Durkheim, 1999: 26).
Somenteasdiferençasquesesupõeesecompletampodemter essavirtude. Defato,
isolados umdo outro, o homemea mulher, são apenas partes deumtodo concreto
que reformam, unindo-se. (…) A divisão do trabalho sexual é capaz de (…)
estender-seatodasasfunçõesorgânicasesociais. (:c., :l:c.: 22)
Durkheim(sabemos) observava uma maior interdependência das funções sociais que
regiamasociedadecapitalista, evia, nessacoesão, utilidadeparao seu avanço. Como
doutor LeBon, especialistaempsicologiadas massas, equedescobriraaluz negrada
qual mereferi hápouco, afirmava:
Uma raridade e suas problematizações
52
o volumedo crânio do homemeda mulher (…) apresentadiferenças consideráveis
emfavor do homem, eessa desigualdadetambémvai crescendo coma civilização,
de sorte que, do ponto de vista da massa do cérebro e, por conseguinte, da
inteligência, amulher tendeasediferenciar cadavez mais dos homens. (Citado em
Durkheim, 1999: 23)
Tal perspectivacertamentesereplicaemtodosossegmentossociais, ouseja, nafunção
deumedeoutronoavançodacivilização. Oenunciadoda“complementaridadesexual”
assumia sua regularidade na qual a oposição entre homens e mulheres aparecia
positivada funcionalmente a partir das desigualdades naturais entre eles, e escalonava
umpoder queobliteravao feminino emvários territórios. Esseenunciado operavacom
::a:u: de saber científico, expresso na medição dos crânios, e entre outras coisas, os
estudos de histeria
38
. A partir do final do século XVIII, houve uma substituição do
modelo daperfeição metafísica
39
, paraaconstituição do sexo emtermos modernos. A
anatomia e a fisiologia fariam, naquele momento, operar o “dimorfismo radical de
diferençabiológica”. ConformeoestudogenealógicodeLaqueur (2001: 17):
O antigo modelo no qual homens e mulheres eram classificados conforme seu grau de
perfeiçãometafísica, seucalor vital, aolongodeumeixocujacausafinal eramasculina, deu
lugar, no final do século XVIII, a umnovo modelo de dimorfismo radical, de divergência
biológica. Uma anatomia e fisiologia da incomensurabilidade substituiu uma metafísica de
hierarquianarepresentaçãodamulher comrelaçãoaohomem.
Essas relações de gênero informame engendramo que venho chamando (de acordo
comaépoca) decomplementaridadesexual, o meio pelo qual seexerceo poder, assim
como o justifica na medida em que escalona as atividades de acordo com as
competências sexuais. A política sexual formava um conjunto, um saber, que
proliferava suas raízes no poder mais “molecular”, até ao mais “molar” e vice-versa.
Essamáquinabinária, quefixavahomens emulheres, presidedistribuições depapéis e
faz comquetodo movimento passepor umterritório jáformado segundo asignificação
dominante. Parafraseando Deleuze e Guattari (1996), toda política é ao mesmo tempo
“molecular” e “molar”
40
. Apesar de diferentes, são inseparáveis porque coexisteme
38
Ver Foucault (2006c).
39
Desdetemposremotos, homensemulhereseramcomparadoseassumiamestatutosdistintosdeacordo
comavitalidadedeseus corpos. Em130-200d.C. oanatomistaGalenodePergamodescreveos corpos
contendoos mesmos órgãos, porém, emposições invertidas. A mulher seriaumaversãomal acabadado
homem, representava uma ausência da perfeição. C:.!.:: era um órgão pertencente ao corpo, cuja
variaçãodependiaunicamentedapresençaouausênciado.aIc: v::aI c. j.:i.:,ac” (Laqueur, 2001).
40
“Asduasformasnãosedistinguemsomentepelasdimensões, comoumapequenaeumagrande; eseé
verdade que o molecular opera no detalhe e passa por pequenos grupos, nem por isso ele é menos
coextensivoatodo ocamposocial, tantoquantoaorganizaçãomolar. Enfim, adiferençaqualitativadas
duas linhas não impedemque elas se aticemou se confirmemde modo que há sempre uma relação
Uma raridade e suas problematizações
53
passam uma para outra, escoando-as. Todos os segmentos molares da vida eram
constituídos por meio do gênero. A família, a universidade, a academia, o Estado, a
civilização, tudo se engendrava a partir do corteentre homens e mulheres do tipo de
organização do poder que dela decorre. O saber inscrito sobre a análise do corpo se
configurava numpoder do qual era indissociável. E essa relação de força se exercia
medianteessaoposição (complementar), queiadesdeas interações mais simples, mais
cotidianas, atéas grandes instituições evice-versa; sejanaorganização políticaestatal,
proibindo as mulheres de participar de qualquer atividade cívica, e inibiam, por
exemplo, as atividades científicas, na qual as mulheres passavam bem longe das
Academias, restando-lhesasatividadesdemenor prestígio; oumesmo no interior do lar
emrelaçãoàsobrigaçõesperanteomarido.
A divisão sexual do trabalho eacomplementaridadeaí implicadaeliminavama
competição (desnecessária) entre homens e mulheres, fazendo aparecer as relações de
desigualdade como complementares, em uma totalidade que rezava o avanço da
civilização.
Doravanteas mulheresjánãoseriamvistascomo meramenteinferioresaos homens,
mas como fundamentalmente diferentes e, portanto, incomparáveis a eles –
fisicamente, intelectualmente emoralmente. A mulher privada, doméstica, emergiu
em contraste ao homem público, racional. Enquanto tal, as mulheres eram
consideradas como tendo seu próprio papel a desempenhar (…) – como mães e
nutridoras. (Schiebinger, 2001: 142)
Como dissemuito bemMichel Foucault (2008), não háumexercício depoder quenão
carregue emseu domínio, e de modo imanente a ele, umcontrapoder. Sempre vaza e
foge alguma coisa das organizações binárias do poder
41
. Certamente, havia vários
escalonamentos nessas relações, fissuras pelas quais as mulheres habitavamterritórios
inauditos. Enfim, muitas formas de combate imanentes à complementaridade sexual.
Quanto a mim, pretendo mostrar uma delas: a atuação de Marie Curie e seu desejo
científico, que já era uma rebelião, uma estratégia, um combate, em relação à
normalidadedas relações informadas pelo gênero, ou, nos termos deHaraway (1995),
umcombateao “falogocentrismo”. Mas não erasuficiente. Então, qual fluxo molecular
proporcional entreas duas, sejadiretamenteproporcional, sejainversamenteproporcional”. (Deleuze&
Guattari, 1996: 93).
41
“Seconsiderarmososgrandesconjuntosbinários[molares], comoossexoseasclasses, vemosqueeles
correm também nos agenciamentos moleculares de outra natureza e que há uma dupla dependência
recíproca, poisosdoissexosremetemamúltiplascombinaçõesmoleculares, quepõememjogonãosóo
homemnamulher eamulher nohomem, mas arelaçãodecadaumacomo outrocomoanimal, planta
etc.: mil pequenos sexos” (Deleuze& Guattari, 1996: 90-91). Não só as relações complantas, animais,
podemmultiplicar o sexo, talvez o “etc.”, tambémpossa estar associado aos fenômenos da física e da
química. Issoéoquepretendoexplorar.
Uma raridade e suas problematizações
54
pode desenraizar tal política sexual, passando entre ela de forma imperceptível? Ou
melhor, que micropolítica carregou e constituiu Marie Curie, nascendo de outra coisa
quenãodelasmesmas?
42
Abreumparêntese. A maneiracomo o poder sedispunhanessas circunstâncias
certamente não excluía Marie Curie, o que me faz imaginar que qualquer tese em
relação a uma genialidade da cientista é potencialmente falsa. Essa tese possibilita
localizar MarieCurienumlugar “fora” doexercíciodopoder. Háentrealgunstrabalhos
(Sedenõ, 1999; Penha da Silva, 2004; MacGrayne, 1994) umconsenso de que Marie
Curieéumaexceção emhistóriadasciências. A solução quemais aparece– epodeser
testemunhada na maioria de suas biografias – procedepor meio de umaexaltação das
qualidades de Marie Curie como cientista, sua superqualificação, seu empenho etc.;
outro modo de dar conta da singularidade da cientista foi o que Sedenõ (1999: 210)
chamou de “estratégia Madame Curie, quer dizer, estar melhor e excessivamente
preparada, ser modesta, disciplinada e estóica, infinitamente estóica, ou seja, as
clássicas táticas deassimilação requeridas daqueles queprocuraramaceitação emuma
atmosfera hostil ecompetitiva”. Esses argumentos, apesar defazeremtodo sentido em
relação ao conjunto deatitudes edisposições dacientista, não resolvemo problemade
seu sucesso; principalmente, porque excluíam todo um conjunto de acontecimentos
associadosàproduçãodaradioatividadeedaprópriaMarieCurie, paracentrar aanálise
na própria cientista e em suas ações e habilidades. No entanto, esse modo de se
comportar me parece muito mais um produto do exercício do poder num território
sexualmente concebido como masculino, do que uma forma de se livrar dele, de ser
assimilada. É queaexcepcionalidadeétomadacomo ummodelo de“ação” queremete
a umsujeito bastante essencializado na figura de Marie Curie (tese do gênio), que
substitui de modo muito fácil a multiplicidadedas relações queali figuraram. Quantas
mulheres não agiram desse modo e ainda assim não tiveram sucesso ou ficaram
invisíveis nahistória? Dessavez atranscendênciaquepermiteo juízo éaprópriaMarie
Curie. Tudo se passa como se o “sujeito” Marie Curie fizesse suas experiências
completamente consciente do que deveria fazer para descobrir a radioatividade (que
aqui nãotemrecalcitrânciaalguma), utilizando-seda“estratégiamadameCurie”, como
objetivo final dese impor socialmentecomo mulher cientista– não mepareceo caso.
Continuemos...
42
A resposta emminha opinião está no que chamarei de radiopolítica. Ver o segundo capítulo desta
dissertação.
Uma raridade e suas problematizações
55
Necessitando de uma pesquisa, Marie Curie inicia a busca de umtema. Sua
idéiaeratornar-sedoutoraemciências, sabendoqueissopoderiafazê-lapioneira, como
elamesmaafirmaemsuaautobiografia(MarieCurie, 1963)
43
. Doscamposqueestavam
empautano período, o mais intriganteerao dos Raios X. Mas essecampo jáa inibia
desdeo início, pois haviaumaenormecompetição emtorno do tema. Não erapossível
acompanhar os estudos quejáestavambastanteavançados, enão seriafácil reproduzir
osexperimentos, umavez queelasequer tinhaumlaboratório. OpróprioRöntgenhavia
sido umcaso desses, quehavialargado suas pesquisas por faltaderecursos. Mas havia
outra questão que intrigava o casal no mais alto grau: os raios Becquerel. Esses raios
forampouco estudados, muitas questões não foramrespondidas, e erammuito menos
importantes emrelação aos outros. Otemapareciainteressante, sobretudo pelafaltade
estudos epelo desinteresse dos físicos. Era umtema ideal para tentar o doutoramento
emsuascondições.
Decidiu que seu ponto inicial seriam os raios Becquerel. Os trabalhos mais
significativos arespeito eram, é claro, os do próprio Becquerel e os de Lord Kelvin e
colaboradores. E isso facilitavaatarefade conseguir instrumentos paratrabalhar, pois
alguns cientistas haviam utilizado em suas pesquisas o método elétrico. Essa era
exatamente uma das searas em que trabalhavam Pierre e seu irmão, para a qual
inventaramumaparelho muito bompara pesquisas emoutros campos da física. Esse
instrumento eracapaz demedir muito bemaeletricidadedosraiosdo urânio: tratava-se
do .I.::ct.::c a ¸ua::.c j:...I.:::.c. Os outros interessados nos fenômenos utilizaram
eletrômetrosquenão apresentavamamesmaprecisão – foi o casodeJ.J. Thomsonpara
os Raios X, e tambémLord Kelvin, que usou uminstrumento desses para comprovar
tanto os Raios X quanto paraos raios Becquerel. O eletrômetro aquartzo piezelétrico
fizera de Pierre Curie umfísico relativamente conhecido no estrangeiro por seu alto
graudeprecisão
44
.
Faltava-lhesomenteumlugar paratrabalhar. Então, Pierresolicitouumgalpão
para que ela fizesse seus experimentos nos fundos da L.cI. c. ¹!,::¸u. .: C!:t:.
1tcu::::.II. (EPCI) deParis, local ondeeletrabalhava. Mariefoi autorizadaatrabalhar
43
OsistemadedoutoramentonaSorbonnenaquelaépocaeradotipo“livre”. Opesquisador apresentavaa
umabancacompostapor três professores queavaliariamarelevânciadapesquisa. Nãohaviaumtempo
oumesmoumpercursoaser cumprido, somentearelevânciadotrabalhocontava. Fazia-seumapesquisa
eestaeraapresentadaàbanca; nãoexistiamsistemasdepós-graduação(Martins, 2003).
44
Kelvin elogiou o instrumento em1893, quando ambos estudavamos fenômenos de eletricidade e
magnetismo: “Caro senhor Curie: Venho agradecer vivamenteo trabalho quetivestes emproporcionar-
me umaparelho que permite-me observar tão comodamente a magnífica descoberta experimental do
quartzopiezelétrico, quefizestescomvossoirmão.” (CitadoemEveCurie, 1943: 105).
Uma raridade e suas problematizações
56
eoespaçofoi gentilmentecedidodevidoàamizadequePierretinhacomodiretor. Jáde
início, Pierre auxiliou sua esposa tanto no que diz respeito ao espaço para instalar o
laboratório, quanto emrelação aosinstrumentosqueiriamcompô-lo. Ogalpão quefora
cedido naEPCI agradava ao casal porqueerapróximo da casaemque morava, o que
possibilitariaMarietrabalhar ao mesmo tempo nos dois ofícios: científico edoméstico
(MarieCurie, 1963).
Faço questão defrisar aimportânciadePierreemsuas diversas formas, pois o
papel que desempenhou nas relações (inclusive de gênero) me parece ter sido
negligenciado pelo menos por dois motivos: primeiro, para exaltar a importância de
Marie Curie e dar a ela visibilidade; e segundo, porque sua figura acaba eclipsando
Marieemváriospontosdatrajetória“docasal”
45
.
Pode-seargumentar que o estilo de pesquisa dePierre Curie, estabelecido por seu
trabalhosobrepiezo-eletricidadeedepois sobremagnetismo, foi transportado(…) e
influenciouoestilodesuaesposa. Seutrabalhoanterior foi emáreasnegligenciadas,
ondeelesabiaqueteriapoucosounenhumcompetidor. (Davis, 1995: 324)
Já comumlaboratório, composto por uma “câmara de ionização” – umeletrômetro
Curie e a balança de quartzo piezelétrico –, a cientista começou suas pesquisas
exatamente do ponto emque Becquerel e Kelvin haviamparado. Iniciou medindo o
poder de ionização dos raios do urânio – isto é, seu poder de tornar o ar um bom
condutor de eletricidade e descarregar o eletrômetro a quartzo piezelétrico
46
. O
resultado daatividadedos raios foi medido exatamentedeacordo comaquantidadede
urânio existente no metal analisado, de forma que o fenômeno não fosse influenciado
peloestadodecombinaçãodoelementoquímico, nempelaluminosidade, peloambiente
ou pela temperatura (todos estes, problemas que ela não conseguira isolar em seu
galpão). MarieCurieseguiuos procedimentos elétricos adotados pelos outros cientistas
quepesquisaramantesdela, repetiuosexperimentos, mastentouquantificar ofenômeno
a ponto de insular os raios do urânio, separando-os dos outros raios provavelmente
emitidos no experimento. O ajuste do eletrômetro a quartzo piezelétrico
47
para medir
45
Penso que é possível tornar visível essas relações, pois me parecem de suma importância para
compreender omodocomoa“complementaridadesexual” sematerializounasrelaçõesdocasal.
46
Os procedimentos laboratoriais podemser encontrados nas cadernetas de laboratório dos cientistas,
publicadas anos depois comumcomentáriodeIreneJoliot-Curie, afilhadocasal, eanexadaàbiografia
dePierreescritapor MarieCurie. Ver Joliot-Curie(1940).
47
O dispositivo inclui umacâmeradeionização eumquadranteeletrômetro quartzo. A peçacentral do
instrumento éaplacadequartzo, queéligado àterraeao eletrômetro. Quando umasubstânciaativaé
espalhadanofundodaprateleiradacâmaradeionizaçãoconectadaaumabateria, aradiaçãoemitidapela
matériaionizaátomos emoléculas noar entreas placas. Estacargadesviaaagulhadoeletrômetro. Ver
Uma raridade e suas problematizações
57
pequenas quantidades deeletricidade, por partedePierre, foi fundamental, assimcomo
suaorientação decomo utilizá-lo, quepossibilitouaMarieCurieser muito maisprecisa
queseuspredecessores
48
. A pesquisadedoutoramentodeMarieCurienãotinhagrandes
pretensões de início, a proposta consistia emaplicar o mesmo método utilizado para
medir a intensidade dos raios X aos raios Becquerel, quantificando-os para assegurar
certacomparabilidade(MarieCurie, 1963). Deresto, o método elétrico eramuito mais
rápidoqueofotográfico, aplicadoanteriormente.
Assim, os raios do urânio se mostraram muito diferentes dos outros raios
conhecidos, principalmenteporquenadaos afetava. É verdadequeeramdeproporções
bastante fracas, mas apresentavamuma “personalidade” bastante sólida. Isso mostrou
queaemissão dos raios do urânio poderianão estar ligadaa(hiper)fosforescência, pois
seassimo fosse, deveriamaumentar emintensidadequando iluminados ouaquecidos,
ou seja, a influência do ambiente e, sobretudo, da temperatura, era importante nesse
caso. Marie Curie, com a ajuda do eletrômetro a quartzo piezelétrico, conseguiu
observar queos sais eramconstantes eindiferentes aqualquer relação como ambiente.
Tal comportamento dos sais de urânio emseus procedimentos já apontava para algo
diferentedaquiloquehaviasidoobservado.
Tendo essa aposta em vista, a cientista decidiu verificar se outros minérios
produziamos mesmos efeitos. O urânio podianão ser aúnicasubstânciaaemitir raios
dessamesmanatureza, por isso, mantendo o método por elainventado comaajudado
quartzo piezelétrico, pretendeu verificar, nessa aposta metodológica, se outros corpos
químicostambémemitiamesses raios. Comacoleção deminériosdisponíveis naEPCI
(cobre, zinco, chumbo, estanho, platina, ferro, ouro, paládio, cádmio, antimônio,
molibdênio, tungstênio etório), foi possível perceber queamaioriadeles não tornavam
o ar umbomcondutor deeletricidade, não descarregavamo instrumento. Mas também
foi possível perceber queessefenômeno não éprivilegio do urânio, porquecompostos
químicos detório emitiamraios análogos aos do urânio edeintensidadeparecida. Isso
apontouparaumavariação daontologiado fenômeno, pois poderiaser algo mais geral,
www.ta::..u::..:.:.t...¸cuv.i:, tantoparaexplicaçõesformaisdoinstrumento, quantoparaver comoele
funciona.
48
Ementrevista a Barbara Goldsmith (2006), a neta de Pierre e Marie Curie, Irene Langevin-Joliot,
coordenadoradoInstitutoCurie, dissequeéimpossível ter adestrezanecessáriapararepetir tal processo,
e acrescentou que não conhece ninguémvivo que consiga repetir o experimento como fora feito. Na
época, o instrumento era avançadíssimo ededifícil manipulação, tanto queJohn Joseph Thomson, um
dospioneirosautilizar oprocessoelétricoparamedir osRaiosX (comuminstrumentomaissimplesque
o dePierre) jádiziaqueera“exasperantetrabalhar. E, quaseao final davida, LordeRayleigh escreveu
quetodososeletrômetrosforamprojetadospelodiabo.” (:c., :l:c.: 59).
Uma raridade e suas problematizações
58
e não uma anormalidade do urânio junto à singularidade de sua forma metálica, que
ficouconhecidacomo(hiper)fosforescência.
A cientista continuou a pesquisar outras substâncias, utilizando-se do mesmo
dispositivo experimental. Foi ao patrimônio deEugèneDemarçay, químico especialista
emraias espectrais – método dedescobrir elementos químicos – paraconseguir outros
minérios que continhamtório e urânio para continuar as pesquisas, e o cientista os
cedeugentilmente. Elaexperimentouo método nesses vários minérios emuitos não se
manifestaram, mas, entre eles a pechblenda e a calcolita (que eram compostos de
urânio), mostraramuma atividade anormal. Pois bem, se os raios eram medidos no
eletrômetro a quartzo piezelétrico em termos absolutos emrelação à quantidade de
urânio(eagoratambémdotório), tudooquenãoeraprevistoaconteceu: opechblendae
acalcolitaemitiamraios mais intensos do queaquantidadedeurânio etório poderiam
possibilitar. Esse fenômeno foi observado e levado a sério após inúmeras repetições
(Joliot-Curie, 1940)
49
.
Ora, isso resultou numa outra questão. Becquerel havia notado que o urânio
metálico produziaraios muito mais intensos do quequalquer umdeseus compostos, e
haviachamadoessefenômenodehiperfosforescência. Nessecaso, apechblendadeveria
emitir raios mais fracos que o urânio. A poderosa medição possibilitada pelo quartzo
piezelétrico, o instrumento inventado e calibrado por Pierre, colocou em xeque tal
caracterização no laboratório. É que a agência do eletrômetro a quartzo piezelétrico
mostrava uma diferença bastante sensível entre a intensidade dos raios, talvez não
perceptível aos outros eletrômetros da época. Segundo Eve Curie (1943), a primeira
reação deMarieCurie foi examinar a aparelhagempara saber se não ocorreu umerro
nos experimentos. Não erao caso. Então examinouos compostos deurânio (óxido de
urânio e uranato de amônio) e percebeu que não erammais “ativos” que o próprio
urânio metálico, confirmandoosresultadosdeBecquerel. Masemrelação àpechblenda
eacalcolita(Becquerel não haviautilizado esses minérios emsuas experiências), que
recalcitravam em se mostrarem muito mais ativos que o urânio (metálico) ao
descarregaremo eletrômetro aquartzo piezelétrico. Essas relações entreacientista, as
substâncias e os instrumentos no laboratório ressoavampara a existência de umnovo
elementoquímico…
49
É possível acompanhar “ilustrativamente” esse procedimento emL.,ct: c. ¹!,::¸u. proporcionado
pelo site oficial de Marie Curie (www.ta::..u::..:.:.t...¸cuv.i:). Umprograma de computador com
objetivodidáticocoloca-nosnaposiçãodeMarieCuriefrenteaosinstrumentoslaboratoriais, levando-nos
passoapassopeloscaminhosseguidospor elaatéchegar àsconclusões.
Uma raridade e suas problematizações
59
Enquanto Marie Curie se dividia entre fazer seus experimentos e amamentar
Irene, sua filha de poucos meses, outro fato dificultará o andamento das pesquisas.
Como apresentar seu trabalho à Academia de Ciências, já que esta não aceitava
mulheres esó seus membros poderiamler trabalhos publicamente? É certo quemesmo
umcientista como Pierre Curie não poderia apresentar suas pesquisas, pois não era
membro. Pierre tambémnão circulava bemno aparato institucional francês, tanto que
trabalhava numa pequena escola de Paris. Nesse momento, Pierre foi recusado para a
vaga de professor na Sorbonne. Havia sido indicado por Charles Friedel, umquímico
com quem Pierre e J acques (seu irmão) tinham trabalhado nas pesquisas sobre
piezeletricidade. EmcartaaPierre, Friedel lamentaaderrota:
Fomos derrotados enãosinto nadaalémdearrependimentopor ter encorajado você
a uma candidatura tão mal sucedida, já quea discussão emtorno deseu nome foi
muito mais favorável do quea votação. Mas, apesar dos esforços deLippmann, de
Bouty edePellat, bemcomo os meus próprios, apesar dos elogios quemesmo seus
adversários fizeramdo seu belo trabalho o que se pode fazer contra o tc:taI:.t
[aquelesqueestudaramnaescolanormal] econtraospreconceitosdosmatemáticos?
Console-seecontinueafazer umbomtrabalhocomaquímicafísica, paramostrar a
esses senhores, que se recusama admitir que se possa mudar de emprego coma
idade de quarenta anos, que você temflexibilidade mental para isso. (Citado em
Quinn, 1997)
No .t.ct::c entre os estudos dos raios Becquerel e as segmentariedades constituídas
por meio do gênero haviaalgo diferente, queimplicavacertamentenumacontecimento.
Não só uma mulher se colocando nos “negócios públicos”, como era considerada a
ciência, mas fazendo aparecer emseus dispositivos experimentais algo novo, inusitado,
emtorno do qual os homens eramencorajavama mobilizar-se “emnomeda ciência”.
Estou fazendo o esforço de mostrar, empiricamente, como houve umencontro entre
duasmultiplicidades(gênerodeumladoeciênciadeoutro) queoperavamemdistância,
exatamente no momento em que Marie Curie pretendeu tornar público os seus
resultados
50
. O apoio de Pierre que tambémnão era membro e, portanto, não podia
apresentar ostrabalhos, foi fundamental. Ora, foi comseusresultadosexperimentaisque
elaconseguiuquePierreCurieconvencesseseuantigo professor, Gabriel Lippman
51
, a
50
Nãoestousugerindo, demaneiranenhuma, umaatividade“feminista” por partedeMarieCurie. Estou
apenas dizendo, como sugeremos dados, que ela estava adentrando numa seara masculina e que isso
implicavanumacertaresistênciaquesematerializavaemformadeCiência. Coisaqueumafrancesa, de
modogeral, nãosearriscaria.
51
Cientistafrancêsdeorigemjudaicaquerecebeuem1908oprêmioNobel emfísica, peladescobertada
fotografia colorida. Alémde professor da Sorbonne, foi membro estrangeiro correspondente da ¹c,aI
·c.:.:, epresidentedaAcademiadeCiências deParis em1912. Lippmann semprefoi umdefensor de
Pierre – haviamtrabalhado juntos na construção de instrumentos de medição –, tanto que incentivou
Marie Curie como sua aluna; conseguiu uma bolsa para que ela fizesse sua iniciação científica sobre
Uma raridade e suas problematizações
60
apresentar sua nota na Academia de Ciências. Assim, Lippman leu o comunicado em
meadosdeabril de1898, doqual reproduzoumtrechoaseguir:
Estudei acondutividadedoar sobainfluênciados raios dourânio, descobertos pelo
Sr. Becquerel, e procurei se outros corpos além dos compostos do urânio eram
suscetíveis de tornar o ar umbomcondutor de eletricidade. Empreguei para esse
estudo umcondensador de placas; uma das placas era recoberta por uma camada
uniforme de urânio ou de outra substância finamente pulverizada. (Diâmetro das
placas8cm; distância, 3cm). Estabelecia-seentreasplacasumadiferençapotencial
de 100 volts. A corrente que atravessava o condensador era medida em valor
absolutopor meiodeumeletrômetroedeumquartzopiezelétrico. (…)
Oscompostosdetóriosãomuitoativos. Ooxidodetórioultrapassamesmoourânio
metálicoematividade. (…)
Todos os minerais que se mostraram ativos contêm os elementos ativos. Dois
minerais, a pechblenda (óxido de urânio) e a calcolita (fosfato de cobre e uranila)
mostram-semais ativos queo próprio Urânio. Estefato énotável, eleva-nos acrer
quetais minérios podemconter umelemento mais ativo queo urânio. Reproduzi a
calcolitapeloprocesso deDebray comprodutos puros; essacalcolitaartificial não é
maisativaqueourânio. (...)
Paraexplicar aradiaçãoespontâneadourânioedotóriotendoaimaginar quetodoo
espaçoestáconstantementeatravessadopor raiosanálogosaosraios Röntgen, muito
influentes epenetrantes, queprovavelmentesão absorvidos por certos elementos de
grandepesoatômicocomoourânioeotório. (MarieCurie, 1898)
Após ter sido apresentada sua primeira nota na Academia de Ciências, Marie Curie
descobriu que um pesquisador alemão chamado Gerhard Schmidt também havia
publicado alguns resultados parecidos. Schimidt utilizara simultaneamente o método
elétrico etinhaantecipado, diasantes, queotório assimcomoo urânio emitiaradiações
(Martins, 2003). Umitaliano chamado Villari, tambémutilizara acalcolitapara medir
suaatividade, caracterizandoofenômenocomo maisumcompostodeurânioqueemitia
os raios (Quinn, 1997). Mas Marie Curieaindaestavaà frentedos competidores, pois
mostrou como a calcolita natural e o pechblenda eram muito mais ativos do que a
quantidade de urânio e tório nelas contidas. Como a calcolita podia ser produzida
artificialmente, elao fez notandoqueoprodutonãoeramaisativoqueourânio, parecia
que na reprodução artificial da substância faltara algo. A palavra “atividade” é muito
importante, pois remeteclaramenteàagênciadeumasubstânciadesconhecida, o queo
não-humano fazia (a mais do que as outras) nos dispositivos experimentais. Como o
tórioeourânioeramoselementoscomosmaiorespesosatômicos, MarieCurielevanta
suahipóteseque, doravante, guiariaseus trabalhos: aatividadedos raios do tório edo
propriedades dos aços, que resultou emseu primeiro prêmio Gegner, Academia de Ciências de Paris
(1898).
Uma raridade e suas problematizações
61
urânio poderiaestar ligadaaumapropriedadeatômica, eseassimfosse, o pechblendae
a calcolita natural emitiriamos raios Becquerel porque “podemconter” umelemento
muito mais pesado… Contudo, a idéia de umnovo elemento químico e, portanto, do
fenômeno geral, foi recepcionada comdesdém (Eve Curie, 1943; Goldsmith, 2006;
Martins, 1998b; Quinn, 1997). Não houve sequer um trabalho que remetesse aos
estudos deMarieCurienas seções posteriores daAcademiadeCiências, algo bastante
incomum (basta consultar as Cctj:u: ¹.tcu: da seção). Estou sugerindo que esse
desdémeraproduto dasrelaçõesdegênero, umbloqueio àestadiadeumamulher entre
os homens de ciência, mas principalmente por ainda ter anunciado uma nova
caracterizaçãodofenômenoe, aindapor cima, umnovoelementoquímico.
Marie percebeu, a partir de suas experiências com uma porção de tório
(simultaneamente comGerhard Schimidt), que esse fenômeno não era específico do
urânio, etambém, comapechblendaeacalcolita, evidenciou quepoderiasetratar de
umaj:cj::.cac. a:ct:.a. Mas deondeprovinhatantaenergia? Nessemesmo trabalho
(1898), MarieCurieespeculavasobreuma“fonteexterna”, imperceptível aos sentidos,
que os elementos mais pesados absorveme depois reemitemsob uma forma que o
laboratóriopossibilitaobservar, tornar visível. Notemqueelanãomencionaofenômeno
da(hiper)fosforescência. Essaradiaçãoanormal emitidapelapechblendaepelacalcolita
natural “poderiavir aser” umfenômeno mais geral, aindadesconhecido. Mas esseera
umfenômenoenterrado. Becquerel jáhaviadetectadoqual asuacausa.
Diante da “novidade” das pesquisas de sua esposa, Pierre Curie (que
acompanhou seus procedimentos de perto no laboratório) deixou de lado seus estudos
sobre eletricidade e magnetismo para ajudá-la (temporariamente) na empreitada que
inaugurou. O interesse por parte de Pierre nos trabalhos sobre radioatividade trouxe
outra expectativa (marcada por gênero) aos estudos de Marie. A partir de então, o
trabalho passaaser “dos Curie”, o casal
52
. Como mostrouKeller (1985), isso promove
umnão-homemno duplo sentido: não eraumamulher emparticular, mas eraumIc.u:
para um não-homem em todo observador particular. O pronome “nós” excluía as
mulheres, pois como erampouco representadas nas ciências, poderiamficar invisíveis,
sendoseustrabalhosesquecidosnahistória(muitasvezessendoatribuídosaoshomens).
Por outro lado, ajudavaMarieapublicar emostrar suas conclusões eser levadaasério
52
Utilizo aqui a palavra “interesse” no sentido dado por Stengers (2002), expressando o inter-esse, ou
seja, “estar entre” apesquisadeMarieCurie. Essapalavraevocaumaformaderelação coma verdade
expressada emforma deagências queMarieCurieconseguiu mobilizar no decorrer do seu dispositivo
experimental.
Uma raridade e suas problematizações
62
(afinal jánãoeraela), pois, comotentei ser claro, a“comunidadecientífica” nãoparecia
recebê-lamuitobem.
Com a ajuda de seu esposo, Marie Curie começou a tentativa que parecia
natural: isolar aquela substância desconhecida, a fimde fazê-la existir aos olhos da
comunidade científica. Então, o casal deu início aumtrabalho de químicaanalítica, e
pediu auxílio ao químico auxiliar do EPCI, Gustave Bèmont, que participou dos
procedimentos. A idéiaeraseparar todas as substâncias quecompunhamo pechblenda
(o minério que se mostrava mais ativo), para testá-los através do método elétrico, de
modo aperceber quaissubstânciaseramativasequaisnão
53
. Atacamapechblendacom
ácidos, o queproduz uma solução aquosaque, se tratadacomo hidrogênio sulfurado,
faz comque o urânio e o tório fiquemna solução dissolvidos, enquanto a substância
mais ativa seprecipita como umsulfeto junto comchumbo, bismuto, cobre, arsênio e
antimônio. Daí, paracontinuar aseparação, elesatacaramoprecipitadocomosulfetode
amônia, e assim os sulfetos de arsênico e de antimônio (que não apresentavam
atividade) sedissolveram, sobrando comasubstânciaativasomenteo cobre, o chumbo
e o bismuto. Para separá-la do chumbo utilizava-se o ácido sulfúrico, e do cobre, o
amoníaco…
Os Curie e Bèmont não encontraramuma forma exata de separar a substância
ativa do bismuto pelos procedimentos químicos. Conseqüentemente, utilizaram-se de
outro recurso não-humano para “criar” a diferença entre o bismuto e a substância, ou
seja, fazê-la se mostrar diferente do bismuto para chegar ao ::a:u: ontológico de
elemento químico. Colocaram a fuligem ativa, em forma de sulfureto, num tubo
Bohemecomo vácuo a700°C, eperceberam, comisso, queobismuto seaglomerouna
parte mais quente do tubo, enquanto a fuligem, mais ativa que o urânio e o tório,
moveu-se para a parte mais fria. O material que iniciaramemseu estado “bruto” era
quatrovezesmaisativoqueourânio. Ocasal refez oartifício váriasvezes, obtendouma
substância pelo menos quatrocentas vezes mais ativaqueo urânio, na medição como
eletrômetro a quartzo piezelétrico. Nas experimentações, por eliminação, a partir de
provas constituídas por testes criados pelo casal, a substância deixou de ser,
progressivamente, o urânio eo tório, pelaatividade(anormal) mais intensa; o arsênio e
53
As experiências descritas a partir de agora estão disponíveis emMarie e Pierre Curie (1898). Um
comentáriosobreessaetapadas pesquisas podeser encontradoemLatour (2000: 147). Oautor utilizao
mesmocomunicadodoscientistasparaapresentar aconstruçãodosfatoscientíficos, umadastesesdeseu
livro. Comoemboapartedasuaobra, Latour apresentataispesquisas utilizandoaestratégiaretóricado
diálogo, inventando um“discordante” para angariar uma controvérsia. De fato, esse personagemnão
existe.
Uma raridade e suas problematizações
63
o antimônio, peladissolução emsulfato amônio; o chumbo, por não seprecipitar pelo
ácido sulfúrico; o cobrepor contadareaçãocomoamoníaco; eo bismuto, pelo testede
calor.
Em julho do mesmo ano, Pierre e Marie Curie dirigiramoutra comunicação
apresentando os resultados paraaAcademiadeCiências deParis. O artigo foi lido por
Henri Becquerel, que voltou a se interessar pelo fenômeno. Mas como o cientista não
tinha boas relações comos Curie, parece ter apresentado o trabalho pela parcela de
importânciadadaaele no texto
54
. É aprimeiravez queapalavraradio-atividade(com
hífen) aparece, utilizada uma vez, no título da comunicação: “Uma nova substância
radio-ativa, contidanapechblenda”. Reproduzoalgumaspartes:
Certos minerais que contémUrânio e Tório (pechblenda, calcolita e uranite) são
muito ativos na emissão de raios becquerel. Num trabalho anterior, um de nós
mostrou quea atividadedesses minerais émaior do quea do Urânio edo Tório, e
emitiu a opinião que, esse efeito será devido a alguma substância muito ativa,
encerradaempequenasquantidades, nessesminerais. (...)
Cremos que a substância retirada da pechblenda contém um metal ainda não
assinalado, vizinho do Bismuto pelas propriedades analíticas. (...) Se a existência
dessemetal vier a seconfirmar, propomos quechamePolônio, recordando o nome
deumpaísdeorigemdeumdenós. (…)
Permitam-nos comentar, seaexistênciado novo elementofoi confirmada, seráuma
descoberta devida, inteiramente, ao novo método de investigação que nos foi
proporcionadopelosraiosBecquerel. (MarieePierreCurie, 1898)
O cuidado emdizer “seaexistênciade metal vier aseconfirmar” indicaumaquestão
enunciada no último parágrafo da comunicação: não foi possível encontrar raias
espectrais
55
do provável “novo elemento”. Devido às impurezas que ainda restavam,
Demarçay, o eminenteespectroscopista, não conseguiuver as linhas queidentificariam
suadiferençaemrelaçãoaotórioeourânio, poisnecessitariademaismaterial. Sabia-se
o que fazia aquela substância encerrada em pequenas quantidades em relação à
condução de energia, mas não o que ela era, seu ser
56
. Mas algo ainda mais inusitado
estavapor vir…
54
“PierrereclamoucomumamigoqueBecquerel menosprezavaMarieporqueelaeramulher. (…) Pierre
não gostavadeHenri eachavaqueeleapenas fingiaser amigo deles emproveito próprio.” (Goldsmith,
2006: 72).
55
Notar as raias espectrais significava mostrar a existência do novo elemento. O método da
espectroscopiaéoestudodascaracterísticasdasmanchasdecor quesãoproduzidasquandooselementos
são aquecidos ea luz refratada através deumprisma. Eraummétodo muito conhecido e serviria para
fazer existir pelomenosoitoelementosquímicos.
56
Bruno Latour (2000: 146-150), citou empoucas páginas o acontecimento dainvenção-descoberta do
polônio apartir dessacomunicação dePierreeMarieCurie. O autor descreveu como nos experimentos
“dos Curie”, o elemento químico passou por variadas “etapas ontológicas” até alcançar o estatuto de
Uma raridade e suas problematizações
64
Nas medidas radioativas daquilo a que propunham chamar de polônio,
encontrava-se uma intensidade radio-ativa ainda desproporcional aos teores
apresentados no pechblendaque, por algummotivo, emitiaraios aindamais poderosos
queo“suposto” novoelemento(polônio) – substânciaconsiderada, aosolhosdocasal, a
mais intensa. Essefato fez comeles novamentesevoltassemparaaquímicaanalíticaa
fim de testar as substâncias em separado, afinal, poderia tratar-se não só de um
elemento, mas dedois. Apresento partedacomunicação, pois ninguémmelhor do que
eles mesmosparadescrever osprocedimentosadotados. No final dedezembro de1898,
asseguintesexperiências, eseusresultadosforamapresentados, por Becquerel:
As investigações que estamos seguindo agora estão de acordo comos primeiros
resultados obtidos, mas no curso destas pesquisas encontramos uma segunda
substância fortemente radio-ativa e inteiramente diferente em suas propriedades
químicasdaprimeira. Defato, opolônioéprecipitadoatravésdesoluçõesácidaspor
ácidosulfúrico, seussaissãosolúveisemácidos, eaáguaosprecipitaapartir dessas
soluções; opolônioécompletamenteprecipitadoemamoníaco.
A novasubstânciaqueencontramos temtodos os aspectos químicos do bário quase
puro: elenão éprecipitado pelo sulfeto dehidrogênio, nempor sulfato deamônia,
nem por amoníaco; o sulfato é insolúvel em ácidos e em água; o carbonato é
insolúvel emágua; ocloreto, muitosolúvel emágua, éinsolúvel emacidoclorídrico
concentrado e emálcool. Finalmente, esta substância mostra o espectro facilmente
reconhecível dobário.
Não obstante, acreditamos que esta substância, embora constituída emsua maior
parte de bário, contéma adição de umnovo elemento que proporciona sua radio-
atividade e que, além disso, é muito próxima do bário em suas propriedades
químicas. (…)
1) Obário eseus compostos nãosãodemodoalgumradio-ativos; mostramos quea
radio-atividadeéumapropriedadeatômica, persistentes emtodos os estados físicos
da matéria. Dessa maneira de ver, a radio-atividade da substância não é do bário,
entãoatribuímosaoutroelemento.
2) (…) Nós obtemos umcloreto 900vezes mais ativo queurânio (…) eaatividade
poderiaaumentar secontinuássemososprocedimentos.
3) (…) Sr. Demarçay percebeu uma raia espectral que não é de nenhumelemento
comum.
Natureza(oquepossoatestar, avançandoumpouconotempo, quenãofoi tãosimples assim). Nomais,
nemsequer tocanoproblemadogênero, comajustificativa, talvez, queessenãoeraoseuproblema. No
entanto, nãodescrever asrelaçõesqueenvolviamgêneromepareceumamaneiradeendossar asrelações
de poder exercidas sobre Marie Curie durante a controvérsia científica. Uma maneira de torná-las
invisíveis. Não me parecem distintas as descrições das relações de gênero e das transformações
ontológicas dopolônio, trata-sedeummesmoagenciamento. Esseproblemareaparece, por exemplo, no
casodeJoliot (Latour, 2001). Oautor sequer citaonomedeIreneJoliot-Curienotexto, considerandosua
participação intensa nas pesquisas sobre radioatividade artificial. Talvez, porque Frederick Joliot (seu
marido) tenha exercido todo o ofício do chefe, criando recursos financeiros, dando ao público uma
imagem positiva das pesquisas e associando-se com o Estado francês no entre-guerra etc. O que
naturalmentetornouIreneumpoucoinvisível nolaboratório...
Uma raridade e suas problematizações
65
As várias razões que acabamos de enumerar levam-nos a admitir que a nova
substânciaradioativa encerraemumelemento novo, parao qual propomos o nome
derádio. Essa nova substância contémcertamenteuma dose deBário, mas, apesar
disso, asuaradioatividadeéconsiderável. A radio-atividadedorádio, portantodeve
ser enorme. (Bémont, PierreeMarieCurie, 1898)
Nesse mesmo artigo eles ainda aproximam a radio-atividade dos raios de Röntgem,
ambos parecemnão apenas provir de um“fator externo” às substâncias, mas também
sensibilizar as chapas fotográficas. Mas, muitas questões ainda permaneciam: as
radiações emitidas eram iguais as dos Raios X? De onde saía a energia que esses
materiais emitiam? Qual acausado fenômeno? Por quecertos elementos eramativos e
outros não? Até esse momento nada havia sido esclarecido a ponto de se eternizar na
história, não podia aradioatividadeestar láo tempo todo, tinha-se somenteanatureza
relativa do fenômeno e a abertura de uma avenida de investigação pelos Curie. Digo
isso porque muitas dessas questões para os cientistas posteriormente deixariam de
existir… Mesmo assim, essa espetacular aparição fez muito barulho na Academia de
Ciência, tanto que uma parte da “ilustre” Cctj:u: ¹.tcu: foi dedicada aos corpos
radio-ativos. A partir deentão, todaaatençãoestavavoltadaaosfenômenosdescobertos
por Marieedesenvolvidospelocasal.
A grandemaioriadostrabalhos sobreadescobertadaradioatividadeédeordem
epistemológica, como os de Jauncey (1946), Badash (1965), Wyart (2007) e Martins
(2003, 1998a, 1998b,), paraficar somentecomalguns nomes. Háalgumas homologias
entreasreflexões, apesar dediscordarembastanteao quelevou“osCurie” àdescoberta
da radioatividade
57
. Essas análises nos conduzem– no período forte que se debruçam
sobre a descoberta da radioatividade – até 1898, ano emque Marie e Pierre Curie
apresentaram os elementos químicos – rádio e polônio – que justificariam “a”
radioatividade, o fenômeno geral. Ao se debruçarem sobre os procedimentos
laboratoriais, não discutiamos problemas comgênero ou qualquer outra questão para
alémdas atividades técnicas dos cientistas, o quedefato émuito importante. Assim, a
radioatividade, tomada como um dado imediato, um fenômeno que transcende a
história, umuniversal a j::c::, acaba por explicar o motivo pelo qual alguns métodos
57
Jauncey (1946) e Badash (1965), por exemplo, afirmamque foi a análise sistemática dos elementos
químicos decorrentes daobservação daradiação queteriapossibilitado tal descoberta. Wyart (2007), ao
contrário, dá maior ênfase ao pioneirismo do casal Curie em relação ao procedimento elétrico, que
possibilitou umtratamento quantitativo mais exato emrelação aos anteriores. Martins (2003) apresenta
umaterceiraopinião, dequealémdaanálisedos elementosedautilizaçãodométodoelétrico, maisdois
fatores foramimportantes: o papel do acaso e, principalmente, a hipótese de que o fenômeno estava
associadoaumapropriedadeatômica.
Uma raridade e suas problematizações
66
forameficientes e outros não, tornando secundárias todas as controvérsias posteriores
(inclusive as relações de gênero e o modo como criaramuma desigualdade entre os
cientistas). Comojustificativaparatal abordagem, Martinsescreve:
Seconhecermosalgoarespeitodessemundoexterno, podemosreconstruir melhor a
relação entre o cientista e seu objeto de estudo. E para isso faz-se necessário, em
muitos casos, umconhecimento anacrônico. Os cientistas pretendemdescrever os
objetos do mundo queestudam, nemsempresuas descrições são concordantes, mas
isso não devenos levar aconcluir queaquiloqueeles descreveméindependentede
umarealidadeexterna. Sepudemos estudar essarealidadeatravésdeoutrosrecursos
(não apenas das descrições dos cientistas que estudamos), disporemos de mais
informações sobreaquiloqueeles estavamtentando descrever. (Martins, 2004: 140-
141)
Tal postura analítica temsuas virtudes, como o próprio Martins faz questão de notar,
mas tornaadescrição bastantedistanciadadarealidadequesepretendeabarcar, queé
aquelaqueospróprioscientistaviviam. Não queaatividadecientíficanão sevoltepara
osfenômenos naturaisequeelesnãotenhamimportância, pelo contrário, mas, talvez, a
questão seja saber comque fenômenos naturais se está lidando. Utilizando como um
trunfo metodológico “a” radioatividadeconhecidapelaciênciaa jc::.::c::, cria-seuma
transcendência(aradioatividade) emnomedaqual Martinssecolocanaposiçãodejuiz,
autorizando dizer o que se sabe “emnome da verdade”, tornando qualquer tentativa
posterior de falsificar o fenômeno ficção. Isso permite, a umsó tempo, desdizer os
cientistas emnomedeoutrarealidade(averdadeverdadeira, eternano tempo), quenão
é a mesma para os envolvidos no “Caso Marie Curie”, que estavama produzindo ali
umacoisaquesequer conheciam. Ofato équeMartinssabe, melhor do queospróprios
cientistas, os motivos pelos quais fizeramciência. E mais, o quedeveriamter feito em
relação àquilo que estavam “tentando descrever”. De uma só vez, essas análises
subtrairiam o gênero como um operador importante para compreender a ciência
moderna, que é objetiva por natureza, e quaisquer outros procedimentos que
pretendessem caracterizar o fenômeno de outro modo. Afinal, se o gênero fosse
importante, como MarieCurieseriaumarecordistaemprêmiosNobel?Não éàtoaque
as análises se interrompem no momento em que a radioatividade é enunciada. Em
minha opinião, descrever tal descoberta nesses termos acaba por excluir metade do
problema, passa-se ao lado das mutações essenciais, dos percalços que constituíramo
queconhecemos hojecomo aradioatividadee, principalmente, como o gênero éumfio
condutor importantíssimo desse processo contingente (Latour, 1994; Haraway, 1995;
Stengers, 2002). SeMarieCuriefez-existir aradioatividade, não foi foradeum“sistema
Uma raridade e suas problematizações
67
regional de lutas” – a produção da verdade da radioatividade não está emsua própria
enunciação. Não se pode imaginar que a radioatividade se impôs por si só a partir do
momento que foi enunciada, como uma luz que afastou os cientistas dos erros que
encampavamasoutrasteorias.
Deminhaparte, oproblema(queéodoscientistasqueestudo) estámuitomenos
no queantecedearadioatividadecomo umacontecimento doqueno queasucede– nas
lutas e procedimentos científicos que compuseram o fenômeno de uma ou outra
maneira, permitindo sua resistência às falsificações que viriam. A explicação daquilo
que a radioatividade se tornou não está nela própria, e sim nos desdobramentos do
acontecimento, nas controvérsias que ela criou e no modo como o gênero foi
organizandoasrelaçõesqueapartaramoverdadeirodofalso. Quer dizer, aproblemática
da radioatividade aparece, nesse momento, absolutamente controversa e engendrada
numa política sexual. A problematização dos cientistas envolvidos emtorno do novo
fenômeno não se dá simultaneamente sem uma problematização do modo como as
relações de gênero operavam. Esse encontro fez comque se imbricassemdois reinos
distintos em uma “evolução a-paralela”, fenômeno de “dupla captura” (Deleuze &
Guattari,1997a). A partir de então, se “as relações de gênero não são nemmais nem
menos autônomas do que quaisquer relações sociais” (Strathern, 2007 68), descrever
como se davamas relações de gênero durante a prática científica de Marie Curie não
podeser diferentededescrever como aradioatividadeeos radioelementos apareceram
como “autoridades naturais”, evice-versa. Pretendo reconstruir, assim, o agenciamento
constituinte do “Caso Marie Curie”, que torna inseparável dois domínios: tanto o
envolvimento das relações de gênero na produção da radioatividade, quanto o
envolvimentodaradioatividadenaproduçãoderelaçõesdegênero.
O fato é que as pesquisas de Marie coma colaboração de Pierre Curie – que
agora não mais voltaria a seus próprios estudos – haviam tomado uma proporção
incrível, e eles sabiamque estavam experimentando algo novo. Aquilo que era um
fenômeno anormal do urânio, a hiperfosforescência, caracterizada por Becquerel,
deveria ser combatida para que a radioatividade pudesse existir, com sua própria
caracterização enquanto propriedade atômica. A maneira como os experimentos do
casal fazem aparecer os fenômenos abriu uma controvérsia em relação à
hiperfosforescência, visto que o tório – e agora concorrendo à existência, tambémo
polônio e o rádio – também emitiam os raios Becquerel. Essa “maneira de ver” o
fenômeno como umapropriedadeatômicaprecisavafazer comqueos raios Becquerel,
Uma raridade e suas problematizações
68
(hiper)fosforescêntes não existissem. E, sea fosforescênciajá não eraa mesmaapós a
atividadeanormal dourânio, sendoacaracterizaçãoaceitaparaoprópriofenômeno, não
sesabiao queeraaradioatividade, mas apenas algumas desuas atividades espantosas.
A maneira diferente como os fenômenos atuavamnos dispositivos experimentais e o
modo como estabeleciam relações com outros fenômenos, conhecidos ou não,
transmitiamas informações que “conflitavam” os dados eas explicações já operantes.
Qual era a natureza dos rádios urânios, efeitos de (hiper)fosforescência ou
radioatividade, umapropriedadeatômica? Não sesabia. Eraessarealidadecomaqual
oscientistassedeparavamequetentoaqui descrever.
Como as entidades que Marie e Pierre Curie tornaramvisíveis no laboratório
tinhamumestatuto ontológico muito fraco – ou seja, ainda se desenhavamenquanto
“entidades” –, os cientistas necessitavamde muito trabalho para mostrar que não se
tratava de fosforescência. A radioatividade só começava a pleitear um lugar na
taxonomia científica como produto de uta j:cj::.cac. a:ct:.a, mas isso ainda era
impossível. Os Curie sabiamque, segundo as regras da química, só existe umnovo
corpo quando essepodeser visto, tocado, paraquesejapossível pesá-lo, examiná-lo e
submetê-lo a reações. Não existe elemento químico sem que este se encontre em
relações diferenciais, e mais do que isso, a substância necessita ter seu peso atômico
calculado para fazer parte da tabela periódica de Mendeleiev, exigências impossíveis
neste momento. O fenômeno geral, a radio-atividade, não existe longe dos elementos
químicos queaemitem, para “provar suaexistência” era indispensável fazê-los existir
paraalémde hipóteses, como rezaas regras daquímica, assimcomo desvendar outras
de suas “atividades” possíveis como propõe a física. A radio-atividade precisava ser
explorada para experimentar seus caracteres de caracteres, suas relações de relações,
como muito bemdefiniu Whitehead (1994). Enfim, muito mais empenho daqui em
dianteparafazer a “ontologia vacilante” daradioatividadeseestabilizar, mas não sem
controvérsias e as vicissitudes de gênero. Ora, éno que se sucede que encontramos a
radioatividade de que todos “nós” somos herdeiros – na luta que a separa do tempo,
colocando-anaeternidade. Issoétudooquesepodedizer deantemão…
Sendoassim, algoaindaestavapor vir comosinônimodeumanovaeumavelha
temporalidade: aradioatividadesedánoestranholocal deumainda-aqui-e-já-passadoe
o ainda-por-vir-e-já-presente
58
. Num“entre-tempo”, lugar atual ondeestão lançadas as
58
Para esse ponto, ver Zourabichvili (2004) comentando a noção de tempo em Deleuze. Ver
especialmenteDeleuze& Guattari (1996, platô8).
Uma raridade e suas problematizações
69
várias flechas que constituem o passado e o futuro. Se esse acontecimento-
radioatividade promove uma “indefinição do tempo”, é porque se define por umpuro
“instante” (ouseja, devir), lugar ondesedáadisjunção deumpassado edeumfuturo,
tornando-se a própria possibilidade de uma ruptura. Entrementes, para o ¸.t.:c ca:
.:.t.:a: tcc.:ta:, só pode haver “uma forma de ver” o fenômeno, na qual uma
caracterização implica, necessariamente, na desqualificação da outra. “Emmatéria de
ciências, obter êxito emfazer daNaturezaautoridadeefazer históriasão sinônimos. O
poder defazer adiferençaestádo lado doacontecimento, criador desentido àesperade
significados.” (Stengers, 2002: 113).
É nesse momento de produção de verdade científica emtorno dos novos raios
desconhecidos queinstalo aminhaanálise(no exato instantequeterminaaanálisedos
epistemólogosquemencionei acima). Afinal, tanto MarieCuriequanto aradioatividade
são produtosdosdesdobramentosquecriaram; dossignificadosatribuídos nas lutasque
seseguiram. A explicação damaneiracomo o gênero organizavaas relações edaquilo
que passou a ser a radioatividade está nas controvérsias que se seguiram, na
multiplicidade de relações que atravessame conformama maneira como humanos e
não-humanos se constituíram. A própria radioatividade não foi aceita semconflitos, e
ela criou uma diferença (política) entre os cientistas, que carrega em seu seio uma
política sexual da qual é indissociável. Quem vai buscar recursos para continuar as
pesquisas? Como vai ser dividido o trabalho? Comquemse vai debater? A quemse
daráoscréditosdadescoberta?A quemdar osprêmios?
70
Oua¦ é a o|¦qen oa ene|q¦a¯ C o¦·¦o·¦|¦vo
ex¦e|¦nen|a¦ ¦aze|-¦a¦a|, ¦aze|-ca¦a| (18''-1'O`,
À e|u¦¸ao oe una ou||a ¦o¦¦|¦ca
Neste capítulo, acompanho os desdobramentos das pesquisas com substâncias
radioativasque, aessaaltura, járepresentavamo signo do novo, umentretempo sobum
conjunto de indagações. A radioatividade e os elementos químicos que a
acompanhavam seguiam para se transformar em uma das “grandes avenidas de
investigação” da virada do século XIX para o XX. Assim, meu objetivo é fazer
aparecer, emmeio a esse agenciamento, o modo como a complementaridade sexual e
seus mecanismos de poder funcionavam nas práticas mais moleculares, como suas
gavinhas constituíammicroorganizações que replicavam, certamente, na singularidade
do trabalho laboratorial dos Curieeaformacomo foi segmentarizado. Mostrar como o
acontecimento-radioatividade tornou visível uma desigualdade entre os cientistas,
composta por uma política sexual da qual é indissociável e que o dispositivo
experimental de Marie Curie não parou de fazê-la variar para umou outro sentido.
Enfim, gostaria de mostrar como o “Caso Marie Curie” permite distinguir os níveis a
quepertencemasrelaçõesentrehumanosenão-humanosdeacordocomaimagísticade
gênero, para reconstruir os fios que engendraramo que chamarei a partir de então de
:ac:cjcI´::.a. Por mais inusitado quepossa parecer, aradioatividade, queé degênero
“neutro”, significaapedradetoqueparacompreender como apolíticasexual operava.
Vivemosemumregimederelaçõesquetendeadar umestatuto (degênero) diferentea
humanosenão-humanos; eaqui estáoaspectoquepodeser explorado.
Terminei o capítulo anterior discutindo o modo pelo qual a comunicação
(Bémont, PierreeMarieCurie, 1898) apresentadapor Henri Becquerel, numaseção de
trabalhos dedicados aos raios do urânio, coloca emquestão a existência de umnovo
elemento químico extraído do pechblenda. O rádio, no processo de depuração, já
aspirava a uma potencialidade 900 vezes mais ativa do que o urânio, com a
instrumentalização do eletrômetro a quartzo piezelétrico. Ele significava o quarto
elemento químico coma característica de tornar o ar umbomcondutor de energia e
descarregar o aparelho – urânio, tório, polônio e rádio – e o último, sem dúvida,
apareciacomo o mais “ativo” deles. Jánão pareciahaver umarelação entreos raios do
Qual é a origemda energia?
71
urânioeafosforescênciainvisível daformacomo foi trabalhadapor Becquerel (1896) e
confirmada por Silvanus Thompson. A “hiperfosforescência” dos raios do urânio foi
problematizada, postaemcontrovérsia. Por meiododispositivoexperimental criadopor
Marie Curie, aquilo que até então era uma singularidade do urânio metálico estava
sendo colocado emxeque, ecomisso assistia-seao nascimento deumfenômeno geral
comestatutodej:cj::.cac. a:ct:.a.
Foi nessesentido queMarieCuriepreparou umbalanço dessas pesquisas atéo
momento desuaentradano cenário. Comumtexto sobre“filosofianatural”, escrito em
1898, mas publicado emjaneiro de1899, no interstício entreo enunciado do polônio e
do rádio, acientistaexplicitou o debatequea radioatividade encampava, bemcomo a
originalidade de seu dispositivo experimental. Ela descreveu com maior ênfase as
questões que estavamdispersas nas comunicações anteriores (e fora muito cuidadosa
emseparar o seutrabalho dos demais cientistas, inclusivePierre), refazendo o percurso
de descoberta do polônio. A partir de seus procedimentos laboratoriais, seguiu uma
discussãodaordemdo “como” sedavaaatividadedosraios: comosecomportavamem
relação às purificações químicas exigidas, mas também em relação ao trato com o
quartzo piezelétrico, ou seja, os caracteres dos caracteres, fazendo com que o seu
“porquê” funcionasse da forma “como” a cientista havia identificado. “Ela inventa, a
respeito das coisas, um‘como’ que define o ‘porquê’ como o seu resto” (Stengers,
2002: 101). Nesses termos, Marie Curie volta a defender a idéia de sua primeira
comunicação, de que os elementos químicos de maior peso atômico absorvem a
“energiaexterna” ereemitememformadeenergiaradioativa.
Eladeixaclaroo caminho queiriapercorrer noartigo mencionado, publicado na
¹.vu. ´.t.:aI. c.: ·.:.t..::
Os raios urânicos foram freqüentemente chamados de raios Becquerel. Pode-se
generalizar essenome, aplicando-o não apenas aos raios urânicos, mas tambémaos
raiostóricoseatodasradiaçõessemelhantes. Chamarei deradioativasassubstâncias
queemitemosraiosBecquerel. Onomedehiperfosforescênciaquefoi propostopara
ofenômenomepareceumafalsaidéiadesuanatureza. (MarieCurie, 1899a)
Esse artigo sobre “filosofia natural” antecipava ainda que outros materiais poderiam
emitir tais radiações. E, como o texto fora enviado para publicação logo após a
descobertadopolônioeantesdadescobertadorádio, esteúltimo nãoentrounobalanço.
Mas foi divulgado numa nota do editor ao final do texto, corroborando as conclusões
para deixar o argumento mais poderoso. Nos termos do editor, os Curie e Bémont,
descobriram, ainda, outro elemento químico (rádio) vizinho do bismuto pelas
Qual é a origemda energia?
72
propriedades químicas, mas diferente pela radioatividade que apresentava. Foi uma
clara referência ao derradeiro artigo que os cientistas enunciaram “uma substância
fortementeradioativacontidanapechblenda”. O editor tambémapontaparao fato que
Eugene Demarçay acabará de notar uma raia espectral desconhecida, um índice do
elementoquímiconovo.
Ora, é nesse entretempo que o dispositivo experimental da radioatividade não
cessa de fazer os radioelementos testemunharememnomeda caracterização de Marie
Curie, pois, encenados dessa maneira, fariam calar outros autores que desejassem
experimentá-los de outro modo. No entanto, não se trata de ummétodo especial de
Marie Curie, pois isso pressuporia uma radioatividade pronta de antemão esperando
paraser descoberta(o quenão éo caso), nemumasuperioridadecognitivadacientista
emrelação aseus pares, porqueisso a localizaria forado exercício do poder. Estamos
diante de um conjunto de relações entre humanos e não-humanos que a cientista
mobiliza para inventar um dispositivo experimental, que permite fazer aparecer
(anormalmente) visível algo novo, inesperado, queeladescobre. Não por outro motivo,
os cientistas se mobilizavamparaestudar esse fenômeno. “A simples aberturadeuma
controvérsia experimental já é um sucesso: um enunciado conseguiu interessar os
colegas tidos como preparados para pô-lo à prova. Interessar-se é a condição prévia
necessáriaatodacontrovérsia, todoteste.” (Stengers, 2002: 112).
Pelo menos a partir desse ponto, todo aquele que quisesse estudar a
radioatividade (ou mesmo “colocá-la à prova”) por meio da abertura de uma
controvérsia, teriaquetomar partido do dispositivo experimental de MarieCurie. Não
obstante, essa multiplicidade de procedimentos que torna possível fazer-falar o
fenômeno, promovea“fundação”
59
do território, queéo lugar deseumovimento. Ora,
toda vez que alguémencena a radioatividade emumlaboratório, torna-se umpouco
MarieCuriepor meiodeseudispositivoexperimental, poistemdeseguir exatamenteos
seus passos paratornar o fenômeno visível. O dispositivo experimental éexatamentea
formadeconferir umpoder deexistênciaprópriaaofenômeno: umaformadeexpressão
queconferearadioatividadeo poder deconferir aMarieCurieo poder defalar emseu
59
Encontro aqui o contraste estabelecido por Deleuze (2000) entre “fundação” e “fundamento”. A
fundação diz respeito ao solo e mostra como algo se estabelece nesse solo, tomando sua posse e
ocupando-o. Jáo fundamentovemantes docéu, éumelementopré-discursivoetranscendente, quetem
comocaracterísticaprincipal amediçãodosolosobumtítulodepropriedade. O primeironos levaaum
construtivismo radical, remete sempre a uma multiplicidade enquanto substantivo; o segundo, a um
relativismo, poisprecisadeumpontofixotranscendentenoqual seconstitui omúltiplo.
Qual é a origemda energia?
73
nome
60
. E, ao caracterizar o fenômeno como uma propriedade atômica, cria-se uma
força capaz de calar os outros autores que desejariamexperimentá-los de outro modo
quenãoesse.
Portanto, a comunidade científica e o dimorfismo sexual que ali vigora são
submetidos aumainteressante:ac:cjcI´::.a. Umdeslocamento singular daação paraa
própria radioatividade, que aparece visível à comunidade científica, independente da
vontadedeMarie Curie, que se limitaacriar uma forma(a)políticade fazer as coisas
falarem por si próprias. Uma política da radioatividade que é, a partir de então,
dissociável dapolíticasexual emqueMarieCurieestavaenvolvida, masqueaencontra
e a desloca de uma forma singular. Dirijo meus esforços para mostrar como essa
singularidadecriouumainterrogaçãoparaapolíticasexual, semter nascidodelaprópria
(o que não quer dizer que seja exterior à força que exercia). Desejo acompanhar
“justamente a heterogeneidade do poder, quer dizer, como ele nasce sempre de outra
coisadiferentedelemesmo” (Foucault, 2006a:276).
Henri Becquerel, quetinhaqualificadoosraiosurânicoscomodemenor montae
dirigiu seus esforços para outra área da física, viu-se arrebatado novamente ao estudo
dos corpos radioativos, e logo tratou de voltar a estudar o assunto. Muito
provavelmente, por contadasprovocaçõesfalsificadorasdo dispositivo experimental de
Marie Curie emrelação à fosforescência, que agora voltava ao estatuto de hipótese.
Assim, para se localizar no debate bastante controverso, escreveu umbalanço do que
havia sido produzido sobre os corpos radioativos, com ênfase especial nas suas
descobertas comos sais deurânio esua fosforescência. Mas, de fato, não fez nenhum
experimento. Foi quando sedescobriuque, no final de1898, dois professores ginasiais
na Alemanha, Julius Elster e Hans Geitel, tomados pelo debate da radioatividade,
resolveramfazer suas pesquisas emtorno do modo como MarieCurieos caracterizou.
Afinal, se “os Curie” tivessemrazão (os elementos coletariamenergia de uma “fonte
externa” e reemitiriam em forma de radioatividade), as substâncias perderiam sua
energiasefossementerrados numpoço de850metros deprofundidade. Foi o queeles
fizeram, e após oito horas de espera, o material ainda emitia as radiações. Eles
concluíram“a partir dessas pesquisas a hipótesede que a radioatividade seja excitada
por outros raios, no ar emtorno, nos parece altamente improvável” (Geitel & Elster
ajuc Quinn, 1997: 178). Segundoeles, aenergiadeveriaprovir dopróprio material. Tal
60
Ver Stengers(2000).
Qual é a origemda energia?
74
descoberta foi encarada com espanto, mas também com um certo desdém: era
impossível, do ponto devistadafísica, umaquantidade ínfimade material emitir uma
radiação tão poderosa. Alguns miligramas de sais de rádio ou de qualquer outra
substâncianãopoderiamemitir emsuaprópriaforçaumaradiaçãodotipo.
Assim, no início do ano de 1899, o cientista neozelandês Ernest Rutherford
publicou um extenso estudo sobre a heterogeneidade das radiações do urânio.
Rutherford seguiu os mesmos procedimentos do casal Curie, e notou que as emissões
radioativas eramcompostas no mínimo por dois tipos de raios, chamados por ele de
Alfa e Beta: os primeiros, apesar de carregarem uma grande carga elétrica, eram
facilmente absorvidos por pequenas camadas de alumínio; e os segundos, embora
menos carregados, erammuito mais penetrantes (atravessavamgrossas barreiras). Ora,
tratava-sedeumavariação do fenômeno eapontavaexatamenteparaumaanalogiacom
osestudosdeSagnac, quepercebeutambémumaheterogeneidadedotipoparaosRaios
X. Como Rutherford foi um dos protagonistas da controvérsia em torno da
radioatividade, irei medeter umpoucosobreosseusmovimentos.
Ocientistatentoupleitear umabolsanoTrinityCollegesemsucesso. Cambridge
era completamente avessa a pessoas formadas emoutros lugares, principalmente nas
colônias. Dessemodo, trabalhouparatrocar CambridgeeatuteladeJ.J. Thomson– de
quemRutherford foi auxiliar e orientando – para competir pela cátedra de física da
universidade MacGill em Montreal, talvez o melhor laboratório do Ocidente – “era
financiado por ummagnatado tabaco, quenão poupavarecursos” (Badash, 1965). Na
Inglaterra, ele só tivera acesso ao urânio e alguns eletrômetros de sensibilidade fraca
paraas pesquisas comsubstâncias radioativas; jáno Canadá, o acesso aesses materiais
e equipamentos se tornaria quase ilimitado. Com ajuda de J.J. Thomson, que
testemunhou favoravelmente no concurso, a vaga foi concedida a Rutherford. O
reconhecido cientista inglês disseao chefede departamento canadense: “Nunca vi um
estudantecomtanto entusiasmo ecapacidadeparafazer pesquisaoriginal quanto o Sr.
Rutherford” (ajuc Badash, 1965).
Rutherford, assimque chegou à Universidade MacGill, alertou a família sobre
seu objetivo imediato: “Tenho quepublicar meu trabalho atual o mais rápido possível
para me manter na corrida. Os melhores velocistas nesta avenida de investigação são
Becquerel e os Curiede Paris, querealizarammuitos trabalhos importantes no campo
dos corpos radioativos.” Ele tinha razão. Não só Becquerel e os Curie trabalhavam
nesse tipo de investigação inaugurada por Marie, como tambémcientistas de vários
Qual é a origemda energia?
75
países saíram desenfreadamente embusca de corpos radioativos e dos instrumentos
necessáriosparafazer amanutençãodesuaspesquisas. Afinal decontas, essesmateriais
eramde fácil acesso, seja do ponto de vista financeiro, seja do ponto de vista de sua
escassez. Montar umlaboratório “adequado” para o estudo da radioatividade era algo
muito difícil, e, emprimeira instância, isso significava ter emmãos os minérios e os
instrumentos utilizados por Marie Curie e Becquerel para acompanhar as pesquisas e
ver, a partir da demanda, quais outros instrumentos e minérios poderiamauxiliar no
desvendamento daradioatividade. Rutherfordlogoconseguiubons instrumentosemseu
novo lugar de trabalho e também alguns espécimes de urânio e tório, mas não de
calcolitaepechblenda.
Nesse momento, Marie Curie sabia qual seria seu trabalho para os próximos
anos: “não pode haver dúvida quanto à existência desses elementos novos, mas, para
fazer com que os químicos admitissem sua existência, era necessário isolá-los”,
escreveu Marie numa carta à família (ajuc Curie, 1943). As circunstâncias
incomodavam os Curie porque o pechblenda continha uma quantidade ínfima da
fuligemnecessária para que o cálculo do peso atômico do rádio fosse possível
61
. Era
necessário, assim, uma imensidão de matéria-prima, inviável diante das condições
financeiras do casal. O rádio foi o primeiro escolhido, pelas várias razões já
enumeradas: raia espectral, purificação comvistas possíveis etc. Mas como continuar
esse trabalho de depuração se o material para prover as pesquisas era tão caro? Onde
encontrar opechblendadeformaacessível?
No primeiro semestre de 1899, o casal saiu em busca de recursos para as
pesquisasobrearadioatividade, ePierrecomeçou aexercer o quepoderíamos chamar
de“ofício do chefe”, como sugeriuLatour (2000). Semdúvidaumescalonamento, uma
estratégia, informada pelas relações de poder distribuídas pela imagística sexual. Não
era nada interessante uma mulher sair nas ruas para fazer negócios, mesmo que isso
significasseumempreendedorismo parapesquisas científicas. A casaeraoterritório em
que as mulheres circulavam por excelência (e, nesse sentido, para o casal Curie o
laboratório se tornava uma extensão), e era ali que a complementaridade sexual
circunscreviaas mulheres. Assim, o marido partepara“fora” do laboratório, buscando
61
Segundoaprópriacientista, aescolhadorádiosedeupelamaior facilidadedeisolá-loemrelaçãoao
polônio: “Extraí do minério o bário portador de rádio, o qual, no estado de cloreto, submeti a uma
cristalização fracionada. O rádio acumulou-se nas partes menos solúveis. No fim do ano (1898) os
resultados indicaramclaramente que seria mais fácil separar o rádio que o polônio; daí concentramos
nossosesforçosnessadireção.” (MarieCurieajuc Goldsmith: 2006: 77).
Qual é a origemda energia?
76
viabilizar apesquisadesuaesposa; agoratambémcapturadaemseunome. Começapela
Sorbonne, pleiteando umlocal melhor paratrabalhar, pois o “hangar” daEPCI não era
dos melhores lugares para se fazer pesquisas científicas – não possuía isolamento
térmico eeraúmido, sendo queos instrumentos de medição erambastantesensíveis a
tais condições e, nessas condições, poderiam não funcionar bem, o que faria outras
“atividades” dos raios passarem despercebidas. O espaço na Sorbonne foi negado.
Pierre não desiste de procurar recursos para suas pesquisas, e começa a jornada em
busca do pechblenda, tentando conseguir dinheiro com o Estado francês para tal
empreitada; tambémemvão(MarieCurie, 1963).
O pechblenda éumminério precioso que só poderia ser extraído nas minas de
Joachimsthal, na Boêmia, ondea Union Minière depurava os sais deurânio utilizados
na indústria de vidros. A retirada de urânio, pela indústria – seguindo a hipótese da
radioatividade– deixariaintactas as entidades aseremseparadas no minério, ouseja, o
polônio eo rádio. Paraondeiamos resíduos dapechblendaapós aretiradado urânio?
Para o lixo? Claro, nada ali parecia importante depois da extração do urânio.
Imediatamente Pierre entrou emcontato coma Academia de Ciências de Viena, que
conseguiuumaintervenção junto ao governo austríaco paraqueo lixo dos resíduos de
minério fossedoadoparafinscientíficos. Isso lhespossibilitouumatoneladagratuitade
material!
A segundaetapadapesquisa, jásabiao casal, seriabastanteextensa; toneladas
dematerial “bruto” deveriamser tratadosquimicamente, pelo métododaradioatividade.
Odiretor daEPCI cedeumaisumespaçoparaotrabalho, dessavez, acéuaberto, jáque
implicaria destilações com ácidos e gases tóxicos. O interesse por parte do EPCI
aumentara, pois alguma pesquisa valiosa poderia surgir nas suas dependências. Sem
dúvida, foi aprópriaMarieCuriequeinsistiunatentativadepurificar os sais derádio,
pois Pierredisseao amigo JeanPerrin“euiriapor outro caminho” (ajuc Quinn, 1997:
167)
62
. As negociações por parte do casal não revelavamumconsenso, tanto que o
trabalho continuouemparceria, mascaminhando paraladoscompletamentedistintos, o
queencenavaumadivisãosexual dotrabalho. Defato, Pierreiriapor outrocaminho.
Marieseguiriacomo trabalho depurificação desais ativos puros, ao passo que
Pierreiriaembuscadecompreender qual aorigemdaenergiaradioativa– as analogias
que possibilitariam conhecer a causa do fenômeno. Segundo Stengers e Bensaude-
62
IreneJoliot-Curie, emvárias oportunidades comentouqueessa“idéiamaluca”, semdúvida, foi desua
mãe.
Qual é a origemda energia?
77
Vicent (1996), físicaequímicanãotinhamsuasfronteirasbemdefinidasno momento, e
nesse sentido a radioatividade não representava uma disciplina. No entanto, a física
tinhaseuterritório disciplinar jámuito bemdelimitado, eaquímicaeraumaespéciede
“física” de menor monta. A divisão do trabalho sexual no hangar da EPCI e a
incomensurabilidadepolíticaquecarregavaacompanhavamexatamenteessadiferença.
Desse modo, Marie dirigiu seus esforços para uma atividade química, e Pierre ficou
comapartedafísica. Certamente, a“aptidão intelectual” amparadanas vicissitudes de
gênero dividiu tais tarefas e foi objetivada nas figuras de Marie e Pierre Curie. A
imagemde inaptidão das mulheres para o trabalho reflexivo, ou racional – o que, em
parte, legitimavao exercício do poder distribuído – colocavaMarieCurienaposição de
uma “espécie” de assistente de seu marido. Não era assistente, era outra coisa. Já se
tornavaindistinguível sePierrecapturaraaradioatividadeemseunomeouseaprópria
radioatividade capturara o cientista emseu aparelho de reprodução. Se por umlado,
Marie Curie ficava coma parte de menor prestígio do trabalho, por outro, Pierre fora
tomado pelo território criado pelo dispositivo experimental desuaesposa. E, ao levá-lo
adiante, não fazia outra coisa senão abrir a possibilidade para Marie “ir junto” coma
própria (micro)política por ela estabelecida. Marie Curie estava habitando como
cientistaumacontrovérsiaimportantedeumdos centros das ¹a:c: ·.:.t..: davirada
do século, muito embora estivesse dentro das condições do exercício do poder que a
desigualdadedegênerocolocava.
A fundação do território daradioatividadeimplicou, semdúvida, numapolítica
singular. Opôs ao “falogocentrismo” outro poder que é sinônimo de devir, isto é, que
potencializaumatransformação internaaelemesmo: a:ac:cjcI´::.a. Suasingularidade
não cessa de abalar as organizações da complementaridade sexual, que excluía as
mulheres das ciências ao imporemaelas anecessidadedeatualizarem-se, devariar em
algumsentido para funcionarem. Que outra possibilidade colocaria Marie Curie num
lugar como esse, numcentro dafísica, quesemprerejeitoutantas outras mulheres? As
marcas significantes dos pares masculino/feminina, natural/artificial foram
embaralhadas, abrindo uma problematização tanto da ciência quanto do gênero.
Minúsculano começo, masdemuitavitalidade, essapolíticaaumentasua“intensidade”
permanecendo imperceptível sem deixar de ser inassimilável, escapando às
significações dominantes. MarieCuriedevémempartedo dispositivo experimental da
radioatividade, ao mesmo tempo emque a radioatividade devémda política que joga
Marie Curie para umespaço indevido, inaudito pela imagística sexual. Núpcias entre
Qual é a origemda energia?
78
dois reinos, “evolução a-paraleladedois seres quenão têmnadaa ver umcomoutro”
(Deleuze & Parnet, 2004). Enfim, a radiopolítica é exatamente o meio de intensidade
(de poder criador de devir) que envolve a núpcia contra-natureza do “sexo” e da
“ciência”: o primeiro porque transforma os papéis e os atributos significamentes pré-
estabelceidos às mulheres abrindo uma possibilidade de trabalho para Marie Curie; a
segunda, porque a radioatividade enquanto uma propriedade atômica implica numa
possibilidadenovaparaaciência.
O“Caso MarieCurie” podesetornar umaótima“equação” paraexperimentar e
discutir as dificuldadespor partedasanálises feministas emabordar as¹a:c: ·.:.t..:
expressas naintrodução do livro deLongino eKeller (1996)
63
. Mas paraisso teríamos
que parar de atribuir sexo às coisas que são de gênero neutro, e multiplicar as
possibilidades. Marcado pela dualidade masculino/feminina, as relações conhecidas
jamais passamparaumterceiro elemento, como disseDonnaHaraway – queinsisteno
fatodequeofeminismotemqueaprender acontar no mínimoatétrês, equeumaforma
defazer isso éatribuir umsubstrato “ativo” às coisas. No entanto, aprópriaHaraway,
quefez tal objeção, como estilo ácido eagudo desuacríticaàciência, recorreotempo
todo àdenunciado caráter masculino daciência, seu“olho dedeus”, esseterritório não
marcadodaobjetividademasculina. Afinal, “quemcontrolaaestradadeferrocontrolao
territórioàvolta” (Haraway, 1995: 9, nota1).
63
As autoras vêmmostrando há algumtempo como a ideologia debilitante que referencia o gênero
promove distorções nas ciências da vida. Keller, por exemplo, desenvolveu uma oposição bastante
conhecidaentrea“objetividadeestática” ea“objetividadedinâmica”. A primeira, produtodaciênciafeita
por homens, éocontroledanatureza; e, asegunda, produtodaciênciafeitapor mulheres, éaintegração
com a natureza. Com ênfase numa teoria psicanalítica das relações objetais, a autora afirma que a
“objetividadedinâmica” éfruto deumhíbrido entreamor, força econhecimento, ou seja, umarelação
maisemocional entresujeitoeobjeto. Isso, segundoela, éfrutodasocializaçãodiferenteentrehomense
mulheres no período da infância, quando homens aprendem a dominar e mulheres a integrar. A
“objetividade dinâmica” seria nada mais do que positivar os traços femininos a ponto de enaltecer a
contribuição. Emsua tese sobre MacClintock (1983), uma bióloga vencedora do premio Nobel, Keller
evidencia tal objetividade a partir de uma expressão da própria cientista: “sentir o organismo”. Duas
objeções diretamente fizeramfrente aos dados das feministas. A primeira segue o raciocínio kuhniano
(Kuhn, 1997): se a ciência depende de uma comunidade e não de um cientista individual, essas
descobertasforamfeitastambémpor homens, e, numcertosentido, poderiamser feitassomentepor eles
(os“homens” nãoempatizam– noçãoduvidosa– comseusobjetos?). A segunda, maisradical, aceitatais
objeções. Masentão, porqueelaéradical? Essasalterações foramtodasproduzidasnas·ci: ·.:.t..:, nas
ciênciashumanasenasciênciasdavida, mastaisciênciassãoconhecidaspor apresentaremumaltograu
desubjetividadepor partedos cientistas, e, alémdisso, envolvemdiretamenteointeressedas feministas
no sistema sexo/gênero. Os objetos, eles mesmos, são sexuados. Segundo os epistemólogos, esses
mesmos dados não poderiamser apresentados emrelação às ¹a:c ·.:.t..:, a física e a química, por
exemplo. Essas ciências não são apenas conhecidas por serem de alto prestígio e pelo alto grau de
abstração querequerem, mas tambémpelo seu caráter objetivo, racional, abstrato etc. Seriaimpossível
apresentar distorções de gênero na radioatividade, relatividade, ou em elementos químicos, que são
movimentos, matérias, e, portanto, assexuados. Isso só poderia ser feito por :uj.::::,ac, para tomar
emprestadootermodotítulodolivrodeGrosseLevit (1994).
Qual é a origemda energia?
79
O problema está, me parece, no modo como o gênero é estendido aos não-
humanos, ao tentar mostrar como as “qualidades” femininas podemmuito bemcriar
umadiferençano modo convencional (e masculino) desefazer aciência. Seaanálise
da ciência – e, emparticular, do modo como o gênero se constitui enquanto operador
importante– for marcado pelo antropocentrismo quesematerializanafiguradeMarie
Curie, teríamosdeencontrar emsuasubjetividadeumaintencionalidadeanterior quefaz
da radioatividade uma “ciência – de perspectiva – feminina”. Mas não daríamos
nenhum estatuto ao dispositivo experimental da radioatividade e à forma como
apresenta umproblema para a política sexual, aparecendo desde sempre como uma
matéria, umapropriedadeatômica, e, portanto, assexuada. Ora, éexatamentepelo modo
comoaradioatividadeeoseudispositivoexperimental carregamemseuseioumgênero
“neutro” que se pode promover uma variação do estatuto significante
masculino/feminina. Parece-me que se a radioatividade fosse classificada como um
fenômeno feminino, ouainda, queseMarieCurietivesseummodo “feminino” defazer
ciência, o dispositivo experimental da radioatividade não poderia tornar-se a pedra
angular da radiopolítica
64
. Essa seria uma maneira de atestar um bloqueio para a
entidadedanaturezaeparaacientista, enãofuncionarianaciênciapraticada.
Marie Curie provavelmente se reconhecia como autora da radioatividade, mas
isso pouco importa. A relação de força que seu dispositivo experimental criou,
impossibilitava que seus colegas cientistas pudessemusar desse argumento contraela,
acusando-a de “ter falado em nome da radioatividade” ao invés de ter “feito a
radioatividade falar”. É nesse sentido, queo dispositivo experimental põe emxeque a
noção de“representação” – enquanto umarelação cognitivadeumsujeito (femininaou
não), na qual se cria uma perspectiva sobre o objeto – pois a singularidade política
consisteemfazer daprópriaradioatividadeumaperspectiva(Stengers, 2002; Deleuze&
Guattari, 1997a).
Ao privilegiar diretamente Marie Curie como autora, como um “sujeito do
conhecimento”, perde-se muito da força dos fenômenos que ela tenta “salvar nos
laboratórios” em seu dispositivo experimental. Além do mais, esse exercício só é
64
Gostaria de parafrasear o título da resenha do livro de Henrieta Moore escrita por Mariza Corrêa
(2008), quepor suavez parafraseiaosubtítulodeMarilynStrathernemC ¸.t.:c ca cac:va. Temosque
fugir dos problemas comhomens e dos problemas coma inveja do pênis (talvez desautorizadamente,
porqueestendo as suas críticas paralugares queaprópriaautoratalvez não concordaria). Assimcomo,
acrescentaria eu, não “edipianizar” a produção cientifica, identificar a intencionalidade anterior que
produz umaidentidadefemininaou masculina, marcadapelaconcepção jurídicado sexo, equeexplica
comoaciênciafunciona(defato) paraalémdosenunciadosqueacompõem.
Qual é a origemda energia?
80
possível setomarmos como preceito, que“háumarelação muito frouxaentreo queos
cientistas acreditamoudizemacreditar eo queeles realmentefazem” (Haraway, 1995:
9), inclusiveMadameCurie... Ciêncianão éumaideologiaquepodeser desmascarada
comacríticadegênero, por queaqui chegamosaummomento de“irredução”, no qual
as palavras insinuam uma “verdade mais verdadeira”, tornando o resto ficção
65
. As
coisas queaciênciaproduz têmefeito derealidade, quesão constituídas econstituintes
nas relações, esó podemser compreendidos seconsiderados emsuapositividade(que
nadatemaver compositivo, comobom, como melhor). Comoestoutentandomostrar,
o dispositivo experimental deMarieCurie, ao caracterizar aradioatividade– deslocar o
domínio deação –, criaumaforça(a)política, queéacondição depossibilidadeparaa
:ac:cjcI´::.a estabelecer uma matriz de transformação no poder e limitar a jcI´::.a
:.×uaI. Trabalhar essa singularidade como uma ideologia nos faz perder de vista
completamenteo acontecimento daradioatividade, eo modo como MarieCurie foi se
tornando mais “suportada” entre os homens de ciência, quer dizer, como esse
dispositivo possibilitou fazê-la “ir junto” com a radioatividade, inclusive os outros
cientistas. E “namedidaemqueaexperimentação seafirmacomo práticasingular, que
não pressupõe, mas cria tanto o sujeito como o objeto quanto suas relações, nenhuma
versão dessas relações, por exataqueseja, podeaspirar umavalidadegeral” (Stengers,
2002: 161). Continuemos...
Historicamente, afísicaéconcebidacomo umadisciplina mais reflexiva, esua
compreensão depende muito mais da “capacidade mental” daqueleque faz apesquisa.
Emrelaçãoaesta, aquímicaéumtrabalho arquitetadocomo mais motorizado, depende
menos do raciocínio e mais de experimentos laboratoriais práticos (Stengers &
Bensaud-Vincent, 1996). Tudosepassavanesseplanodeatualizaçãodopoder, comose
estivesseo femininoparaaquímica, assimcomoomasculinoparaafísica. Sedisseque
Marie Curie fora colocada numa posição de menor prestígio no que diz respeito às
pesquisas de substâncias radioativas, é porque seu trabalho foi deslocado para a parte
mais “braçal”, quesignificavaamanipulação dosresíduosdo pechblendaemcaldeirões
ferventes, depois a destilação química etc. Pierre, por sua vez, a ajudava enquanto
aguardava os sais “cada vez mais ativos” para as medições e reflexões ulteriores. O
primeiro trabalho era parte constituinte do segundo, mas este estava expresso numa
65
“E, no entanto, étão fácil dizer averdadecontraos sentimentos estabelecidos, edepois vangloriar-se
dos efeitos de ódio, deressentimento, derigidez aterrorizada suscitados: prova que o mal foi atingido,
aindaqueaopreçodaperseguição, vistoqueomartírioeaverdadecasam-se.” (Stengers, 2002: 25).
Qual é a origemda energia?
81
posição intelectualmentemuito mais nobre. Seacomplementaridadesexual jánão eraa
mesma– pelo fato deMarieCurieestar ondeestava– elanuncadeixoudeoperar como
umaengrenagemqueconduziuotrabalho“dosCurie”.
EmsuasnotasautobiográficasMarienãoafirmaoutracoisa:
Eutratavaatévintequilos depechblendadecadavez, o quemeforçavaaencher o
hangar degrandes vasilhas comprecipitados elíquidos. Eraumtrabalho extenuante
transportar essesrecipientes, despejar oslíquidoe, durantehoras, mexer amassaem
ebuliçãonumabaciadeferro. (...) A noitemal podiacomigodecansaço. (…) Apesar
disso, foi onde se escoaram os melhores e os mais felizes anos da nossa vida,
inteiramenteconsagradosaotrabalho. (MarieCurie, 1963)
Emjunho de1899, PierrecontrataAndreDebierne, umdeseus“bonsalunos” no EPCI,
paraajudar suaesposana “árduatarefa” de manipulação químicados minérios brutos.
Logo depois, consegue convencer os proprietários da Sociedade Central de Produtos
Químicos (SCPQ), para que pagassemumsalário mensal a André Debierne para tal
finalidade. E, na medida emque esses destilados aumentassemo lucro, tal empresa
deveria ajudar com outros funcionários que “os Curie”, porventura, pudessem
necessitar. A essaaltura, cientistas do mundo todo estavamembuscadesses sais para
possibilitaremsuas pesquisas: canadenses, ingleses, australianos. Sua procura, mesmo
que restrita a círculos de cientistas, poderia render alguns ganhos emdinheiro, “por
conta da dificuldade de sua manipulação e purificação, e pela raridade dos metais
fortementeativos”. Como disseLatour (2001), “investir naciênciados Curie” passoua
significar para a SCPQ “ganhar dinheiro”, os movimentos de “translação” que
envolvemapráticacientífica. Afinal os cientistas interessados naradioatividadefaziam
suaspesquisascomurânioe, no máximo, comotório. Rádioepolônioeramsubstâncias
raríssimas sob o domínio dos Curie, e por serem mais “fortemente radioativas”,
poderiam apresentar resultados mais rápidos, quer dizer, poderiam mostrar suas
“atividades” maisfacilmentenoslaboratórios
66
.
Mas a vendados produtos químicos, pelos Curie emconluio comaSCPQ, era
uma questão de necessidade financeira, afinal de contas, quanto mais rádio se
purificava, maispossível setornavaocálculodeseupesoatômico, sendoassimavenda
dos produtos era quase ilógica do ponto de vista da corrida científica que se
apresentava. A solução comercial para os problemas financeiros afastava Marie Curie
66
MarieCuriecomentabrevemente, emumanotaderodapé, essacirculação derecursos emsuatese, e
algumas vezes emsuas comunicações na Academia de Ciências. O interessante é que o processo de
purificaçãocomeçouaganhar escalaindustrial, eDebierneacabousetornando“ocabeça” daoperação. A
indústria separava sob a tutela do cientista os destilados de “Bário Radífero” e Marie Curie, depois
trabalhavanapurificação– apartir da“cristalizaçãofracionada” – ossaisderádiopuro.
Qual é a origemda energia?
82
deseudesejo de“fazer-existir” o novo elemento químico. Por intermédio deEleuthère
Mascart – outro membro influentedaAcademia deCiências, quetornou-sepresidente
da instituição em1904 – Becquerel conseguiu para o casal uma bolsa de dois mil
francos para evitar a venda desenfreada do bário radífero. Becquerel escreve a Pierre
“ele [Mascart] lamenta que você seja obrigado a colocar seus produtos à venda e o
ajudaráencontrar mais aindamais fundos, afimdeevitar essanecessidade. As pessoas
estão cheias deadmiração pelo seu belo trabalho, bemcomo o deMadameCurie(…)
Seria bomir visitar Mascart, paralhe agradecer e, ao mesmo tempo, mostrar-lhe suas
substâncias luminosas” (ajuc Quinn, 1997: 190-191). Sem dúvida, tal perspectiva
irritavaprofundamenteos Curie. Semtrabalho reconhecido emuniversidades esalários
quelhesoferecessemtranqüilidadeparatrabalhar, epior, semumlaboratório adequado,
essetipo derelação políticanão agradava, soavacomo uminsulto. Semoutrasaídaque
não adeaceitar aproposta, PierreescreveaGeorges Gouy: “você ficarásatisfeito em
saber queédeBecquerel queestamosmaisfartos(ajuc Quinn, 1997: 191).
Destaforma, otrabalhodoscientistasseorganizarásexualmentenosanosquese
seguiriam. Pierre continuaria a espera de sais cada vez mais fortes de rádio, enquanto
procuravamais investimentos “emnomedaradioatividade”, eMarie, ao mesmo tempo
e como mesmo fim, trabalhava no hangar para purificar mais quantidade de sais de
rádio e possibilitar pesquisas mais precisas com os instrumentos de medição. Ela
colocavao tacho depechblendano fogo, dissolvia, filtrava, recolhia, dissolviadenovo
para obter uma solução, mudava-a de recipiente, media e recomeçava (Marie Curie,
1963). Pierresemdúvidaaajudounessetrabalho nos primeiros momentos, mas meses
depoisadivisãofoi radical.
Como mostraramautoras feministas (Keller, 1985; Corrêa, 2003) – para ficar
somente com algumas – essa relação de poder intrínseca ao trabalho científico em
parceria de casais é bastante ambígua: por um lado, possibilitou às mulheres
trabalharememterritórios geralmente interditos para o feminino; por outro, acabaram
por diminuir sua importância no trabalho. Marie Curie nunca foi considerada uma
cientista como todos os outros; ela fora posta à margem do agenciamento da
radioatividade, produzidacomo umaexceção. Assim, ocupavaumaposição do “meio”,
emrelação às características concebidas como inerentes amulheres no geral (queeram
muitas coisas)
67
, mas também, como uma mulher capaz de produzir ciência como
67
Como lembrou Donna Haraway, “não existe nada no fato de ser ‘mulher’ que naturalmente una as
mulheres. Nãoexistenemmesmoumatal situação– ‘ser’ mulher.” (Haraway, 2000: 52).
Qual é a origemda energia?
83
homem(o que não quer dizer que ela se tornou homem, ou se masculinizou). Esse
tratamento parece ser parte da relação de poder que a comunidade científica emsua
maioria masculina (no sentido qualitativo do termo) exercia sobre ela – a única
possibilidade de continuar. Essa transformação do poder fazia Marie Curie habitar o
interior dacomunidadecientífica, porém, lançadaparaumlugar estranho; suaborda, o
ladodedentrodamargem, deformaaconjurar suadiferença.
lao¦oa|¦v¦oaoe ¦o| |ooo· ¦aoo·
Por conta do intenso trabalho coma purificação de minérios e das relações públicas
estabelecidasparamanter possível apesquisa, ocasal nãopublicariaresultadoalgumno
primeiro semestre de 1899. Eles só iram começar a apresentar conclusões após as
conquistas derecursos por partedePierre, eaexploração dos sais derádio por Marie
Curie, no final do ano. Continuaramsuas pesquisasapresentando umacomunicação, no
segundo semestre, sobre“A radioatividadeprovocadapelos raios deBecquerel” (Marie
& PierreCurie, 1899a). Os cientistas dissertaramsobreo modo como aradioatividade
docloretodebárioradífero(quejáeraaessaalturade5a50mil vezesmaisativoqueo
urânio, por contadacristalização fracionada) :tcu.:a outros materiais àatividade, que
passavama agir como se fossemmateriais radioativos. A radioatividade operava por
contágio.
O que eles chamaram de radioatividade induzida transformava durante um
tempo relativo cada material (eles experimentaram com zinco, alumínio, chumbo,
bismuto etc.) empotencializadoresderaios Becquerel. Tratava-sedeumacomunicação
muito interessante para as pesquisas, pois materiais brutos (não ativos) começavama
produzir radioatividadeapartir deumatransferênciadeatividadepelaionização do ar,
quediminuíacomotempo, diferentedos“corposradioativos”, quealémdeemitiremos
raios espontaneamente, não tinhamsua atividade diminuída como tempo. Como os
Curieeramosúnicosater emmãosobárioradífero
68
(cadavez maisradiativo), poisera
frutodesuaprodução, foramelesqueavançaramnessesentido.
Imediatamente, Becquerel escreveuumadendoàcomunicaçãodePierreeMarie
Curie, que ele mesmo apresentou na Academia de Ciências de Paris, associando as
novas descobertas aos seus primeiros trabalhos sobreo urânio emantendo aopinião de
68
Como era impossível, ainda, depurar o rádio puro do bário (e assim saber se ele de fato era um
elementoquímico), oscientistasutilizavamaexpressão“bárioradífero” paraexplicitar essasituação.
Qual é a origemda energia?
84
que a radioatividade era umfenômeno de fosforescência invisível (diferentemente de
Marie e Pierre, que a essa altura já tinham descartado tal possibilidade). Em sua
hipótese, mantidadeacordocomasobservações feitaspelo casal sobrearadioatividade
induzida, eleafirmaque: “osCuriemostraramqueexisteumaaçãopersistentedaordem
de uma fosforescência”. O fato é que a controvérsia sobre a natureza dos raios se
mantinha, e as várias “atividades” que passavama ser conhecidas funcionavamcomo
uma espécie de “vetor de bloqueio”, na medida emque permitiamdiferenciações dos
fenômenos. A radioatividadeenquantopropriedadeatômicaassumiaoestatutodonovo.
A nota seguinte apresentada na Academia era de Demarçay, mostrando a raia
espectral dorádio, quehaviaenunciadoanteriormente, masnãocomosdetalhesdesuas
“atividades”. Com alguns detalhes quanto às impurezas do bário radífero (cálcio e
alguns traços de chumbo) que enfraqueciamas raias percebidas, e tambémcomuma
dezenaderaiosdistintosemitidospor um“centronebuloso notável”, o espectroscopista
mostraumadiferençaentreo bário eo quejcc.::a v:: a :.: o rádio, jáqueo primeiro
mostra-seinativoquantoàradioatividade. Assim, eleenunciaaseguintesentença:
Correlativamente ao aumento de poder radiante, a raia nova, que assinalei no ano
passado, a presença do cloreto de bário radífero se mostra mais e mais forte e as
novas raias vão aparecendo, confirmando assima suposição dequeo espectro está
provindodasubstânciaradiante. (Demarçay, 1899)
Na mesma seção, Marie Curie (1899b) lança uma comunicação sozinha sobre “os
pontos atômicos do cloreto de bário radífero”. Tratava-se dos primeiros resultados do
processo depurificação químicado rádio datoneladadepechblenda. Cada vez mais o
sucessodapurificaçãodo minériotornavaocálculodopesoatômicopossível, paraque,
segundo as regras daquímica, o rádio pudesseter seu lugar natabelaperiódica. Nessa
ocasião, amissão do cálculo aindaeraimpraticável; fazia-senecessário umaimensidão
dematériaparaqueatarefafosseviável, muito maisdo queseimaginavainicialmente.
Umapequenaparceladerádio contidano bário eraextremamentemaisradioativaqueo
urânio, equanto mais setornavadifícil o cálculo, por contadapequenaquantidadede
material purificado, maissedescobriaotamanhodopoder dorádio.
A divisão sexual do trabalho dirigiuosesforçosdo casal paraquestõesdistintas.
Enquanto Pierre dirigia seu olhar para os raios emitidos pelas substâncias, Marie
deslocava sua percepção diretamente para a matéria radioativa. As poucas
comunicações produzidas emconjunto remetiam tanto ao material quanto aos raios,
químicaefísica. Mariecontinuanaempreitadadepurificação dos minérios. A segunda
Qual é a origemda energia?
85
comunicaçãodosCurieem1899émaisprodutivaqueaprimeira: elaabordaos“Efeitos
químicosproduzidospelosraiosBecquerel”. Segundoacomunicação,
osraiosemitidospelossaisdebárioradíferomuitoativossãocapazesdetransformar
oxigênioemozônio. (…)
O cloreto debário ederádio seco, eàprimeiravistabranco, seamarelaao mesmo
tempoemquearadioatividadesedesenrola. É provável queamudançadecoloração
correspondaamodificações moleculares queseproduzemnos sais debárioradífero
soboefeitodossaisderádio. (…)
A transformação do oxigênio em ozônio necessita de uma dispensa de energia
utilizável. A produção deozônio éefeito dos raios emitidos pelo rádio, isso éuma
provadequearadiação representaumdesprendimento contínuo deenergia. (Marie
& PierreCurie, 1899b)
Os raios do rádio não só produziriamatravés da ionização do ar uma “atividade” em
corpos brutos (não ativos), mas também produziriam transformações em outros
(oxigênio, no composto de bário etc.), numcontínuo desprendimento de energia. A
radioatividadenão só seprolifera, mastambémmudaentidades queentramemrelação,
oratornando-asradioativas, orafazendo-asvirar outracoisa.
Henri Becquerel usasua influênciaparapedir queos Curie lhes cedessemuma
amostrado bário radífero. A cortesiasetransformouemoutrafontedepesquisaparao
cientista, quetambémcomeçavaatrabalhar comos sais derádio. Assim, elepromove
sua primeira comunicação sobre o rádio intitulada “pesquisas sobre os fenômenos de
fosforescência produzidos pela radiação do rádio” (1899a). Nessa comunicação, o
cientista notatambémalgumas mudanças de coloração produzidas emsubstâncias sob
os efeitos dos raios do rádio, as quais eleatribui aalgumarelação como fenômeno da
fosforescência. Todos, com suas pequenas indecisões, pareciam aproximar os raios
Becquerel aos raios secundários produzidos pelos Raios X, e descobertos por Sagnac.
Mas Marie e Pierre, tambémmencionavamuma transformação molecular das outras
substâncias no contato coma radioatividade do rádio, enquanto Becquerel assumia a
idéiadequesetratavadeumfenômeno deexcitação por fosforescênciadesconhecida,
queointrigavamuito.
Becquerel ainda abriria outros campos de investigação no ano de 1899. Ele
começouainvestigar osefeitosqueoscampos magnéticosdediferentesorientaçõesem
relação à direção da propagação apresentavam sobre a radiação do rádio.
Posteriormente, o cientistarecebeu uma amostradeumcomposto depolônio do casal
Curie, e fez umestudo comparativo entreele, o urânio eo rádio, percebendo queeles
Qual é a origemda energia?
86
atuavamde formas diferentes emrelação ao campo magnético, mostrando uma certa
irregularidade. Suaconclusãoinspiraoutraspesquisas:
As experiências que vêmintrigando nos fornecemelementos novos para guiar as
pesquisas sobreanaturezadaradiaçãodos corpos radioativos; todaviaofatodesua
emissão ser continua e sem enfraquecimento notável, através de substâncias não
eletrizadas, nos colocampassos a menos, e revelam, aqui, ummistério de grande
interesse. (Becquerel, 1899b)
Tratava-se de algo assombroso, digno do novo, ummistério de grande interesse a ser
revelado por aquelescientistas. Otempo estava(ainda) suspenso, operavano regimedo
acontecimento-radioatividade; o fato é que ninguém sabia de onde vinha aquela
radiação. A radioatividadejáeraograndecampodafísicanaentradadoséculoXX.
Ela [radioatividade] nunca agepararepresentar ummundo preexistente, ela produz
umnovo tipo derealidade, umnovo modelo deverdade. Não ésujeito dahistóriae
nema supera. Faz história desfazendo as realidades e as significações anteriores,
formando umnúmero equivalente de pontos de emergência ou de criatividade, de
conjunções inesperadas, deimprováveis .ct::tuut:. Ela duplica a história comum
devir. (Deleuze& Parnet, 2004: 45, oscolchetessãomeus)
Vigora, assim, com mais força o dispositivo experimental de Marie Curie e a
radiopolítica que ele encena; agora, cientistas do mundo todo estão interessados nesse
mistério da radioatividade e nos “problemas teóricos” colocados. Desse modo, os
bloqueiosestabelecidosnacomunidadecientificapelodimorfismosexual (e, portanto, a
inferioridade de Marie Curie para as pesquisas) começaram a “gaguejar”, os
mecanismos depoder sedeslocaram, fazendo aimagísticasexual mudar desentido em
alguns instantes. Oporvir encenado pelo dispositivo experimental forjouo território da
radioatividade – que carregava consigo todas as dúvidas que a física não poderia
responder – eproduziu umalinha molecular, aradiopolítica, quedesenraizavao plano
molar doscortesbináriosqueorganizavamas relaçõesdegênero. A ciênciaeratomada
por uma problematização colocada pela radioatividade, e os cientistas eram jogados
para o lado de dentro de seu dispositivo experimental, e do novo território existencial
que compunha a sua radiopolítica. E isso tornava a mutação de Marie Curie
imperceptível aos olhos do poder. É “emnome da radioatividade” que Marie Curie
dividiaosespaçoscomos“homensdeciência”, eprincipalmentecombasenasquestões
que a radioatividade colocava que ela se tornou uma exceção, a despeito do fato de
concordaremoudiscordaremdela.
Aindano final de1899, ocientistaalemãoGiesel conseguiutornar desviáveisos
raiosdopolôniocomajudadeimãs, oquecolocariaemxequeaaproximaçãofeitapelos
Qual é a origemda energia?
87
Curie, Becquerel e Rutherford comos raios secundários dos Raios X (estudados por
Sagnac). Não poderiamser damesmanatureza, pois esses últimos não eramdesviados
dessamaneira, o queapontavaparaumfenômeno “mais novo” do queseimaginava. O
mais inusitado viriaacontecer. AndréDebierne, químico quetrabalhavanaorganização
da produção de rádio, em conjunto com Marie Curie, utilizando o método da
radioatividade inventado pela cientista, percebeu a existência de um provável outro
elemento químico no pechblenda. Marie Curie ainda batalhava para calcular o peso
atômico de suas substâncias para conseguir a “carta de identidade” da tabela de
Mendeleiev, e mesmo antes disso acontecer, mais um“irmão” aparece para conferir
legitimidadeàradioatividade. Umasubstânciadiferentedo urânio, do tório, do rádio e
dopolônio, aindainseparável dotitâniopor processosquímicosconvencionais, masque
emitiaraiosmuitoativosdamesmaordemqueosdassubstânciasradioativas(Debierne,
1899). Noentanto, ocientistahaviatomadoocuidadodenãonomear asubstânciaantes
deconfirmar suaexistência, ouseja, asuadiferençaemrelaçãoàsoutrasjádescobertas.
Nessa altura, o dispositivo experimental de Marie Curie ganhava tambémumestatuto
deummétodo perspicaz paraadescobertadeelementosquímicos: alémdosdoisquejá
existiamequeganharamo estatuto de“radioativos”, jáerammaistrêsquepovoariamo
mundo requerendo umespaço natabeladeMendeleiev, asaber, polônio, rádio eoutro
aindasemnome. Oanode1900seriacertamentesingular parafísicosequímicos.
No início do ano, Rutherford lançouumacomunicação sobreo comportamento
“incomum” do tório. Mostrou como o tório emitia uma substância gasosa, mas
fundamentalmente diferente dele. Esse gás, que ele rotulou de “emanação”, tinha o
poder de produzir radioatividade em todas as substâncias sobre as quais caía, uma
radioatividadequedurava vários dias. Segundo o cientista, “aradiação do gás emitido
pelo tório é mais penetrante que a do próprio elemento, ou seja, a emanação dos
compostos detório tempropriedades queo tório não possui” (Rutherfordajuc Quinn,
1997: 182)
69
.
Pierre e Marie ainda estavamestupefatos coma comunicação de Giesel, afinal
ela poderia “por à prova” a hipótese dos dois, segundo a qual – enquanto uma
propriedade atômica – a radioatividade seria a absorção dos raios secundários
provenientes dos Raios X por parte dos elementos químicos mais pesados e sua
69
SegundoGoldsmith (2006), Rutherfordnãoconheciaacomunicaçãodos Curiesobrearadioatividade
induzida, eficoumuitoirritadoemsaber queocasal haviadescobertoessaproliferaçãoradioativaantes
dele. De fato, o comportamento do tório não era tão incomumassim, afinal, os dois trabalhavamcom
amostrasderádioeperceberamumfenômenomuitoparecido.
Qual é a origemda energia?
88
reemissãoemformaradioativa. Tal hipóteseeraamaisaceitaentreoscientistas. Ora, se
aradiação fossedesviável por imãs, algumacoisa desconhecidaacontecia no processo
de emissão, ou então, a radiação era de outra natureza que não a dos Raios X
secundários. Assim, o casal põe-seaestudar tal fenômeno, quejáestavasendo sondado
por quasetodos os outros cientistas interessados desdeo momento emque Rutherford
haviapercebidodoistiposdistintosderaios, quenomeouAlfaeBeta.
Preocupado, Pierrepassouaestudar oassuntoecompôsumacomunicaçãosobre
a “Ação do campo magnético nos raios de Becquerel. Raios desviáveis e raios não
desviáveis” (1900)
70
, que enviou a Becquerel para ser apresentada na Academia de
Ciências deParis. Começavaacomunicação afirmando aimportânciados estudos com
campos magnéticos, por mostrarema heterogeneidade da ação dos raios dos corpos
radioativos. Como trabalho do eletrômetro a quartzo piezelétrico, o cientista media a
intensidade dos raios. Com um campo magnético colocado no equipamento na
passagemdos raios atéo aparelho de medição, elepretendiaperceber aquantidadede
radiação desviada eabsorvida, deacordo comas distâncias das placas do eletrômetro.
Issolhepermitiriasaber seosraioseramdesviáveisounão. Percebeuqueumapartedos
raios do bário radífero é desviável e outra não, e que isso variava de acordo coma
distância colocada. Desse modo, concluiu comuma comparação entre o polônio e o
rádio, considerandootempodepreparaçãodasamostras. Emsuaspalavras:
Sr. Giesel obteveumdesviodosraiosdopolôniopor umcampomagnéticocomuma
amostra que foi recentemente preparada; ao passo que Sr. Becquerel não obteve
nenhumdesvio como polônio preparado por nós há algumtempo. Eu estudarei a
açãodocampo magnético nos raios Becquerel empregandoummétodo quepermite
produzir medidasquantitativas.
Os compostos dePolônio, como eu estudei, emitemraios não desviáveis, como já
experimentouSr. Becquerel. (…) Quantoàradiaçãodorádio, osraiosnãodesviáveis
nocampopareceminteiramenteanálogosaosraiosdopolônio. (…) OpolôniodoSr.
Giesel emite os não raios desviáveis pelo campo magnético. Isso mostra que o
produto não é essencialmente diferente do nosso. É possível que o polônio
recentementepreparadoemitaraiosdesviáveisequeessesraiossejamosprimeirosa
sedissipar quandoaatividadedoprodutodiminui. (PierreCurie, 1900a)
Emseguida, MarieCurie, lançaumacomunicação, tambémapresentadapor Becquerel,
“Sobreapenetração dosraiosBecquerel não desviáveispeloscampos magnéticos”, não
apenasparaendossar otrabalhodo marido, masparaapresentar algumasnovidades. Em
suaspalavras:
70
Entenda-seraios desviáveis no campo magnético como raios Alfa, eraios não desviáveis como raios
Beta, segundoaclassificaçãodeRutherford.
Qual é a origemda energia?
89
Nanotaprecedente, Sr. Curiemostrou quearadiaçãodorádiosecomportaemdois
grupos bemdistintos: os raios desviáveis nos campos magnéticos e os raios não
desviáveis em campos magnéticos. Considerando em conjunto, os raios não
desviáveis são muito mais penetrantes que os raios desviáveis. Um estudo mais
completosobreapenetraçãodessaespéciederaiosesobreomodocomoatravessam
diversas substâncias mostra que sua natureza é inteiramente diferente e confirma
assimosresultadosobtidospelosexamesdosefeitosdocampomagnético.
Os raios dorádio queseapresentamnas experiências feitas aqui, secomportam, do
ponto devistadaabsorção, como os raios deRöntgen; sãoigualmentepenetrantes e
conseguematravessar umgrandeespaço dematéria. Atribuo esseefeito à presença
simultâneadosraiosdotadosdeumpoder penetranteinconstante.
(…) Essa lei de absorção singular é contrária àquela que conotamos a outras
radiações; elarestabeleceamaneiradesecomportar deumprojétil, queperdeparte
desuaforçavivaaoatravessar osobstáculos. (…)
Há uma grandeanalogia entreos raios não desviáveis do rádio eos do polônio; os
raiosdesviáveis, aocontrário, seriamdenaturezadiferente.
(…) Isso, portanto, mostra bem que os raios são capazes de causar sombra
geométrica perfeita. A experiência como alumínio mostra queos raios são difusos
ao atravessar a lâmina e que a lâmina não permite passagem, ao menos em
quantidade importante, dos raios secundários análogos aos raios secundários de
Röntgen. (MarieCurie1900a)
Apesar dealgumas aproximações comos raios secundários deRöntgen(quepoderiam
operar ali em “presença simultânea” à radioatividade), estava clara a essa altura a
diferençacriadaentreosraiospelos experimentos, muito emboraanaturezadessanova
radiação fosse ainda uma incógnita. Se os raios do rádio e do polônio podiam ser
desviados e perdiamsuas forças como projéteis, eramdiferentes dos Raios X – pois
agiam de forma diferente em relação aos aparelhos e aos materiais no laboratório.
Assim, qualquer aproximaçãoentreessesraioseraincompatível.
Empolgado coma possibilidade de caminhar na esteira que abriu, Becquerel
continuou tentando desviar os raios dos corpos radioativos emoutros campos, como o
elétrico, porémsemsucesso. Emduas comunicações de balanço (Becquerel, 1900a;
1900b), ele mostrou a dispersão dos raios e as direções que percorrem, assimcomo
testou inúmeras substâncias e o grau de absorção em relação à radioatividade
propagada. Assim, ele trouxe mais umelemento para a controvérsia, segundo ele, a
mesma teoria usada para os raios catódicos de Thomson poderia ser aplicada à
radioatividade, quer dizer, os “corpúsculos”
71
faziam parte da radiação dos corpos
radioativos, pois se moviam ali partículas eletricamente carregadas. O cientista
71
EssescorpúsculosdeThompsonéoquechamamoshojedeelétrons. Masacompanhar ascontrovérsias
quesesituaramemtornodissodemandariaoutrotrabalho, quenãocabeaqui.
Qual é a origemda energia?
90
referendou: “Esses fenômenos deabsorção inconsistentes vêmconfirmar as conclusões
quehaviadeduzido no estudo dafosforescênciaexcitadapelo rádio atravésdasdiversas
placas devidros fotográficas” (Becquerel, 1900b). Jánão erasó necessário saber seos
raios eramdesviáveis ou não emcampos magnéticos, mas tambémsaber que tipo de
cargaelétricaeles comportavam(positivaounegativa) segundo ateoriadeThompson.
No mais, Becquerel estava certo de que aquilo que os Curie chamaram de
“radioatividade induzida” e aquilo que Rutherford chamou de “emanação” era um
fenômeno de excitação por fosforescência. O que era então a radioatividade?
Transformação molecular das substâncias? Força do gás emitido pelos corpos
radioativos? Excitação por fosforescência? E mais: qual a causa da multiplicação da
radioatividadenoscorposnãoativos?Nãosesabia, elaeramuitascoisas...
Rutherford tentou dar uma resposta imediata com sua segunda comunicação.
Apóster lido osartigossobreo assunto daAcademiadeCiênciasdeParis, eleescreveu
seusegundo texto sobreaemanação dotório, o qual repercutiaumataquedeliberado às
pesquisas dePierreCurie, mas não às deMarie. Elerefere-sea“Sr. Curie”, eCurieno
singular, tornandoassiminvisível metadedaequipe. Elereclamaraquesópodiafazer as
pesquisaseobservar o“poder deexcitar radioatividade” noscompostosdetório, poisas
amostrasquepossuíaderádioepolônioerammuitofracas. E continuava,
nenhuma menção é feita sobre a existência ou não de uma emanação de rádio e
polônio, comoacontececomoscompostosdetório. Curieconcluiuqueosresultados
obtidossedeviamaumaespéciedefosforescência, excitadapelaradiação; aopasso
que, no caso do tório, o autor mostrou que tal teoria é inadmissível. (Rutherford,
1900b)
Alémdeter excluído MarieCuriedas pesquisas, elecolocoutodosos pesquisadores de
Paris sobatuteladateoriadeBecquerel, o quenão erao caso. Semdúvidaeleestava
sugerindo que, se a pesquisa fosse feita, certamente as outras substâncias também
emitiriamessesgasesqueelechamavade“emanação”
Concomitantemente, Marie Curie lançou sua segunda comunicação sobre o
processo de purificação do rádio. Afirmou que o processo – uma cristalização
fracionadasistemática– erafeitocomsucessivasverificaçõesdesuaraiaespectral, com
o intuito desechegar ao pesoatômico do elemento. Comesseprocedimento, acientista
conseguiuumasolução queera7.500 vezes mais ativaqueo urânio metálico. Contou,
também, queaquantidadeatéentãoseparadadoprodutoerainsuficienteparaocálculo,
masqueobário radífero semostravamaispesadoqueobário convencional (não ativo).
Qual é a origemda energia?
91
Assimela sugeria que o peso atômico do rádio poderia ser superior a 174, o que o
tornariaumdoselementosquímicosmaispesadosdatabeladeMendeleiev.
A quantidadedecloreto derádio puro queeu isolei éinsuficientepara poder fazer
umestudodaspropriedades dorádiopuro. Entretanto, nósestamosmuitofelizes, Sr.
Curieeeu, deter obtidoaprovadaexistênciadesteelemento, ever assimconfirmar
asidéiasquenosguiamemrelaçãoàspesquisascomsubstânciasradioativas. (Marie
Curie, 1900b)
72
Asraiasespectraisdobárioradíferosetornavamcadavez maisclaras, aomesmotempo
emqueo seupeso atômico subia, deacordo como graudepurificação. A conclusão de
Marie Curie era clara emrelação à sua hipótese inicial, de que esse elemento assim
como as outras substâncias radioativas erammuito pesadas, epor isso absorviamraios
quelheseramexteriores, provocandoofenômenodaradioatividade. Mesmoapósmuito
trabalhoárduo, aquantidadedematerial aindaerainsignificante, etodososcientistasdo
mundo que aguardavamo cálculo do peso atômico do rádio teriamque esperar mais
algumtempo. Muito tempo
73
. A quantidade de rádio contida no pechblenda era ainda
menor do que se imaginava, o poder do rádio era extraordinário emcomparação ao
urânio.
Após as pesquisas de Becquerel, os cientistas se voltaram ao estudo das
similitudes entre radioatividade e raios catódicos, quer dizer, as cargas elétricas que
eramemitidasnaradiaçãodorádio. EssefenômenotambémlevouosCurieasedeterem
nos dois tipos de radiações que as substâncias emitiampara saber qual carga elétrica
comportavam. Mantiveram a aproximação dos raios Alfa com os raios catódicos
estudadospor J.J.ThomsoneLenard, Giesel, entreoutros, nomodocomotransportavam
cargas elétricas negativas. Partindo dessa explicação, eles verificaram que os raios
desviáveis (Alfa) do rádio transportam uma carga elétrica negativa como os raios
catódicos(MarieePierreCurie, 1900)
74
. OsraiosBetaeramumaincógnita, Rutherford
havia mostrado que erampenetrantes e pouco eletrizados, mas não se aprofundou no
assunto. Issoeraassombrosocomodescrevoaseguir.
72
Emuma nota como essa, no final desse trecho, Marie Curie agradece pela bolsa da Academia de
Ciência, pelaajudadaSociedadeCentral deProdutosQuímicosepor umadoaçãoanônima(doBarãode
Rothschild), dizendoqueoprocessodepurificaçãodoelementoocasionoumuitasdespesas.
73
Irene Joliot Curie explicou a Goldsmith (2006). Marie Curie chegou a purificar umgrama derádio
puro, o queseriarelativo aumacolher dechá. A essaaltura, elatinhaemmãos 1/50 deumacolher de
chá. Erainsignificante.
74
Esseéumbommomentoparaexplicitar adificuldadedeexplicar ascoisasemnotas, comofiz questão
denotar naapresentação. HojeaspartículasAlfatêmumacargapositiva. Hojesãooutracoisaquenãoos
raios catódicos. Diferentementedessemomento queseapresentam– por contadaaproximação comos
raioscatódicos– comcarganegativa.
Qual é a origemda energia?
92
Em meio a esse imbróglio de raios e elementos químicos, Becquerel se
envolveu numacontrovérsiacomVillard, umestudioso dos raios catódicos eprofessor
das L.cI. Nc:taI. ·uj.::.u:. sobre o poder da radioatividade (raios Beta) em
atravessar certos corpos. O cientista acusou Becquerel de um erro experimental.
Becquerel (1900c), por sua vez, respondeu refazendo o experimento e convidando
Villard (que não acreditara, assim como muitos outros cientistas, no poder de
penetração dos raios não desviáveis do rádio) a repeti-los. Foi o que Villard fez. Sua
conclusão, no entanto, é uma rendição à radioatividade: “Os fatos precedentes
conduzema admitir que a parte não desviável da emissão do rádio contémradiações
muito penetrantes, capazes deatravessar lâminas metálicas…” (Villard, 1900). Opoder
da radioatividade permaneceria inacreditável se o dispositivo experimental não o
tornasse visível. Assim, muitos outros cientistas se interessaram pelo fenômeno e
passarama pesquisar os raios espantosos. A fundação da radioatividade no galpão de
batatas onde Marie e Pierre trabalhavamimpedia outras caracterizações possíveis do
fenômeno, criando as condições de possibilidade para aquilo que era de uma força
extraordináriaeperanteoqueoscientistassedobravam.
Por contadaaproximaçãoqueopróprioPierrehaviafeitodaradioatividadecom
os Raios X secundários (que a essa altura já era desmentida), ele procurou George
Sagnac, umvelho amigo eespecialistano assunto, parafazeremalgunsestudos. Afinal,
Sagnac não era somente um especialista: fora ele que descobrira tais emissões
secundáriase, portanto, poderiaajudar emmuitocomseusconhecimentosadesvendar a
causada radioatividade. Não obstante, os primeiros resultados das pesquisas dePierre
com Sagnac aparecereram numa comunicação composta pelos dois (1900) para a
Academia de Ciências deParis. Sabia-se que ambos os raios (radioativos e catódicos)
transportavamcargaselétricaseerammuito penetrantes, mas nenhumestudo cuidadoso
haviasido feitonessesentido. PierreCurieeGeorgesSagnacdescobriramqueascargas
elétricas produzidas pelos raios secundários erampequenas e, portanto, muito distintas
em força da radioatividade, que eram maiores. Como se diz, nenhum resultado
incomodaumbomcientista, intriga-o; maso fatoéqueascoisasnão seseguiramcomo
Pierre esperava. Assim, as aproximações imediatas que foram feitas até então
começaramasedesvanecer.
Outro cientista publicou (Villard, 1900) uma comunicação na Academia de
CiênciassobreaemergênciadosraiosGama, queiriamsejuntar aAlfaeBetadescritos
por Rutherford. Ele percebeu que os raios do rádio não desviáveis em campos
Qual é a origemda energia?
93
magnéticos sedividiamemdois. Duranteapesquisa, foi possível perceber queos raios
(queseentendiamsomentecomo Beta) percorriamcaminhosdistintosnos instrumentos
de medição. Segundo suas experiências, os raios não desviáveis rádio, eramde duas
naturezas distintas. Os raios Beta, que eram muito penetrantes, se tornaram
medianamente penetrantes, pois os novos “raios Gama” se mostravam muito mais
penetrantes. Já se identificavamtrês tipos de radiação diferentes, Alfa, Beta e Gama;
cada umdeles agia de maneira distinta no campo magnético colocado em meio ao
eletrômetro.
Emmaio de1900, Sir WilliamCrookes, umquímico consultor eeditor daT!.
C!.t:.aI N.w: encontrou aquilo que seria a comprovação da “emanação” de
Rutherford. No iníciode1899, CrookesjáhaviaescritoàCctj:.: ¹.tcu: dizendoque
concordava comPierre e Marie Curie emrelação à teoria de que a energia radioativa
vinhadefonteexterna, “daenormequantidadedeenergiapresano éter” (ajuc Quinn,
1997). Ele revelou, dessa vez – de seu grande laboratório particular – que conseguiu
separar do urânio a sua radioatividade, deixando-o completamente inativo. Essa
substância radioativa separada do urânio era bastante diferente dele mesmo que agora
passavaaser inativo, e, portanto foi denominadaurânio-X. Nessaépoca, eracomuma
idéia, a contragosto dos Curie, e mesmo sem ser expressa formalmente, de que a
radioatividadeeraumapropriedadeexclusivadesubstâncias raras como o rádio, enão
deelementosquímicosordinários. Estariamosnovoselementosquímicoscolocadosem
xeque? Poderia o rádio e o polônio não serem elementos químicos, já que sua
radioatividadepoderiaser isolada? Essaerauma das questões levantadas por Crookes.
Sefossepossível eliminar aforçaradioativadas substâncias, seriafácil provar quenão
setratavadeelementos. Afinal, o queos mantinhanessalinhaderaciocínio eraaforça
radioativadeelementosquímicos como o tório eo urânio, quejáeramháalgumtempo
conhecidos. Se isso fosse possível, talvez os elementos químicos ordinários fossem
induzidospor essassubstânciasraras…
Assim, no início do ano, Becquerel começou a trabalhar como umquímico.
Impelido por tais questões, tentou por várias semanas, separar a radiação
magneticamente desviável (radiação Alfa) do urânio do próprio elemento. A uma
solução de cloreto de urânio ele acrescentou o cloreto de bário, precipitando o bário
como sulfato. O precipitado produziaalgumacoisa nova, pois aradiação desviável do
urânio diminuía. Por meio de longas repetições dessa operação, ele conseguiu uma
amostra de 1/6 do valor original da radiação (Becquerel, 1900d). Mas não obteve o
Qual é a origemda energia?
94
sucesso químico de Crookes. Começava a aparecer uma teoria materialista da
radioatividade, queapontavaparaumatransformaçãodassubstâncias.
MarieCurie(1900c) aindaescreveriaumbalanço sobreos estudos dacausada
radioatividade. Publicou umartigo na ¹.vu. ·.:.t::i:¸u., que parece contradizer os
estudos recentes sobreos aradiação do urânio, principalmenteos estudos deBecquerel
eCrookes, quetentaramseparar aradiaçãodoelementoquímico. Nãosetratavadeuma
defesadesuahipótesesobrearadioatividade, mas umadefesadeliberadadaexistência
dos próprios elementos químicos, e umesforço no sentido de fazer calar os cientistas
quetentavamfalsificá-los. Assim, elaampliavao lequedesuas hipóteses paraalémda
“fonteexterna” eassumiatambémapossibilidadedeumasedutorateoriamaterialistada
radioatividade: “umviolento movimento interior ao átomo”. Quer dizer, ela desejava
fazer funcionar seu dispositivo experimental para alémdas primeiras hipóteses e, de
certaforma, manter aexistênciadoselementosquedeuexistência. Emsuaspalavras:
Nenhumadas novas substâncias radioativas foi separada. Acreditar napossibilidade
desepará-las significa admitir quesejamnovos elementos. É essa opinião quetem
guiado nosso trabalho. Ela se baseia no caráter atômico da radioatividade dos
materiais queeramo objeto denosso estudo. (…) Esta propriedadetenaz, quenão
podia ser destruída pelo grande número de reações químicas que executamos,
sempre seguiu o mesmo caminho em reações comparáveis e se manifestava
relacionadaaumaquantidadedematerial inativorecuperada. (…) Eladeveser uma
característicaabsolutamenteessencial domaterial. (…)
A emissãodosraiosdourânioémuitocontínuaenãovariadeformaobservável com
o tempo, com a exposição à luz, ou coma temperatura. Este é o aspecto mais
inquietantedofenômeno. Quandoobservamosaproduçãodosraioscatódicosoudos
raiosRöntgen, nósprópriosestamosfornecendoaenergiaelétrica. (…) Mas, nocaso
da emissão urânica, não ocorre nenhuma mudança nesse material, que irradia a
energia de maneira contínua. O urânio não mostra nenhuma mudança considerável
de estado, nenhuma transformação química visível, ele permanece, pelo menos na
aparência, o mesmo de sempre, e a fonte de energia que descarrega continua
impossível desedetectar. (…) Os elementos radioativos podemser substâncias nas
quais existe um violento movimento interior, de substâncias no curso de se
fragmentarem. Nesse caso, o rádio deveria constantemente perder peso, mas a
pequenez das partículas étal que, emboraacargaelétricaenviadaparaaatmosfera
seja fácil de detectar, a massa correspondente é absolutamente insignificante,
demoraria milhares de anos para o rádio perder miligramas de seu peso. A teoria
materialistadaradioatividadeémuitosedutora. (MarieCurie, 1900c)
No geral, Marie Curie respondeu aos cientistas contrários, ou que especulavam a
inexistênciadosnovoselementosaosquaiselatentavadar umaidentidade, perguntando
se alguém havia conseguido ver um só composto de urânio (ou de qualquer outro
elemento “dito” radioativo) que não emitisse as radiações. Nesse sentido, ela
contrariavaaafirmação deCrookes sobreumurânio completamenteinativo, utilizando
Qual é a origemda energia?
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comoexemploaexperiênciadeBecquerel. Sugeriaque, seCrookesperceberaumacerta
inatividade, forapor contadafaltadesensibilidadedos instrumentos utilizados. Assim,
ninguém havia conseguido (até então) isolar o gás radioativo a ponto de deixar os
elementos para sempre inativos, ou seja, isolar a radioatividade do material. A
radioatividade, comocaracterizadapelacientista, eraalgoespontâneo, emitiaosraiosde
forma contínua, e não variava como tempo. Devia ser uma característica do próprio
material, disseMarieCurie. Dessaforma, acientistatentavacolocar umponto final em
relaçãoàdesconfiançasobreoselementosquímicos. Masissoerasóoiníciodabatalha.
Elamesmaaceitavaquepoderiahaver umatransformação interior aoselementos, muito
lenta, mas que era uma explicação sedutora. Isso a colocava no caminho avesso de
Pierre, quenão viatransformação possível internaaos elementos, somenteuma “força
externa” queocompunha...
Enfim, depois de um longo período de confirmação, e mesmo com a
desconfiança que reinara em relação aos novos elementos químicos, Debierne
conseguiuareferênciadoradioelementoquehaviaenunciado: oactínio. Eledizia:
J ámostrei emumacomunicaçãoprecedentequeexistenosresíduosdotratamentoda
pechblenda, alémdo rádio edo polônio descobertos por PierreeMarieCurie, uma
novamatériaradioativaaparentementedogrupodoferro; indiquei queessamatéria,
decertamaneira, éprecipitadapelosreativosprincipaisdotitânio. (Debierne, 1900)
Oquímico auxiliar dos Curie, eresponsável pelo tratamento industrial do rádio, repetiu
os experimentos que haviamsido feitos para as outras substâncias radioativas, tendoo
encontrado, do ponto devistaquímico, outro comportamento dereagentes paraanova
substância. No entanto, sua atividade radioativa era similar aos outros corpos
descobertos, podia ter seus raios desviados por campos magnéticos, induzia
radioatividadeaoutros corpos, tornavao ar umbomcondutor deenergiaetc. Também
repetiu os experimentos de Rutherford, Crookes e Becquerel e percebeu que, assim
como o tório e o urânio, o actínio produzia uma substância estrangeira a ele,sua
emanação, que se mantinha radioativa. Assim, os cientistas tinhamcomo produto das
experiências com a radioatividade e (ainda) competindo a existência, vários
radioelementos (urânio, tório, polônio, rádio e actínio); e vários tipos de raios
produzidos pelo fenômeno (Alfa, Beta e Gama) – todos eles criados pelo conjunto de
relaçõesdiferenciaispossibilitadaspeloslaboratórios.
A radioatividade já era composta de inúmeras relações. “Muitos caracteres de
caracteres” de sua ainda remota existência eramtrazidos à tona. À sua volta, vários
Qual é a origemda energia?
96
interessados faziam-naproliferar-serapidamente(tanto parahumanos quanto paranão-
humanos), levando aradiopolítica a funcionar commaior intensidadee cada vez mais
para um maior número pessoas, instituições, não-humanos etc. A intensidade das
pesquisas comsubstâncias radioativas, bemcomo o conjunto de relações que estou
apresentando, provinham do dispositivo experimental de Marie Curie para a
radioatividade. Portanto, toda vez que umcientista discutia a radioatividade, conferia
comisso umpouco mais devisibilidadeàmulher cientista, jáaessaalturamuito além
doespaçodeParis.
Omundo estavavoltado paraaradioatividade, eesseeraexatamenteo modo de
MarieCurie“ir junto” como fenômeno, correspondendo aumadescontinuidadecriada
entre o fenômeno e ela por meio do dispositivo experimental, que chamo de
radiopolítica. Se, por umlado, aradiopolíticacriaumadescontinuidadeentreoqueéde
MarieCurie(constituídasobo signo do feminino) eo queédo próprio fenômeno que
faz-falar (constituído sobo signo do neutro) fazendo daradioatividadeumaperspectiva,
por outro, éessadiferençaentreumaeoutraquepossibilitauma“evolução a-paralela”
(Deleuze & Guattari, 1995a) de ambas. A singularidade desse acontecimento-
radioatividade, da força que o agencimanto da radiopolítica encena, não se prolifera
transformando somenteafísicaeaquímica, ressoatambémparaumatransformação da
políticasexual.
Em Paris acontecia a Exposição Universal e, como parte dela, o Congresso
Internacional de Física. O evento representavao fechamento do século daciência, das
luzes, e a abertura de umnovo emque o progresso intensificaria sua velocidade. Os
populares estavamespantados comas novas descobertas eo mundo assombroso queo
novo século desenrolava. A exposição universal ficou conhecida como a “festa da
eletricidade”, eatraiu milhões de visitantes paraconhecer as ruas iluminadas deParis;
mas, para os físicos, era a radioatividade que despertava interesse. Como parte da
exposição, osCurieeBecquerel foramconvidadosaapresentar aopúblicoquecirculava
os corpos radioativos luminosos. Como vários cientistas ilustres do mundo todo
participariam, MarieCuriedissequeera“umaoportunidadedetornar mais conhecidos
pelos cientistas estrangeiros nossos corpos radioativos. Este era um dos pontos de
interessecentral no congresso” (MarieCurieajuc Quinn, 1997: 172). Becquerel expôs
uma história da descoberta e alguns dos experimentos que estavamsendo feitos; os
Curieapresentaramseuensaio maislongoecheio dedúvidas intitulado “Assubstâncias
radioativaseosraiosqueelasemitem” (:c., :l:c.). Nessetrabalho, osCurieeBecquerel
Qual é a origemda energia?
97
mostraram as várias atividades do fenômeno, e concluíram: “a espontaneidade da
radiaçãoéumenigmaeprodutodeumprofundoespanto. (…) Qual éafontedaenergia
dosraiosBecquerel? Seráquevemdedentro doscorposradioativos, oudeforadeles?”
(:c., :l:c.). Isso eraumafontedecontrovérsiaentreosprópriosCurie. Mariepareciater
seconformadoemimaginar queaforçaeraemitidapelopróprio material (considerando
tambéma absorção exterior dos raios), mas Pierre não: o cientista imaginava que a
radioatividadeeraumaexceção no princípio deCarnot, edalei geral deconservação de
energia.
Emoutra direção, Pierre se envolveria numa pequena (e rápida) controvérsia
comGustaveLeBon. É queLeBon(1900) colocou-seaestudar o queelechamavade
“os corpos ditos radioativos”. Elemostraemsuacomunicação várias atividades desses
corpos, como a perda de luminosidade ao serem umidificados; as propriedades em
relação ao fósforo úmido; a emissão possível de matéria pelos corpos radioativos; e a
abstenção de polarização dos raios do rádio. Ainda comenta uma emissão negra
proveniente desses corpos, resgatando a idéia da “luz negra”. O interessante é que o
cientista(etambémpsicólogo demassas) apresentaessasquestõescomo absolutamente
novas. Pierre, por suavez, numapequenanota(1900b) respondeaLeBondizendo que
essas questões todas já haviamsido objeto de publicação de Giesel, Becquerel, Marie
Curieedelemesmo
75
.
As dificuldades como laboratório continuavamno segundo semestrede1900–
os Curie, quesó contavamcomo hangar daEPCI, eram, detodos os queparticipavam
da controvérsia emtorno da radioatividade, os únicos que não possuíamumespaço
considerado adequado. 1) Becquerel tinhaàsuadisposição oMuseudeHistóriaNatural
e um laboratório muito equipado, herança de seu pai; 2) Rutherford em MacGill
poussuíarecursosquaseilimitadosparaseulaboratório, graçasaoempresáriodotabaco;
3) Giesel tinha o laboratório da maior universidade alemã sob seu domínio; 4) Sir
Willian Crookes, sendo muito rico, contava comumgrande laboratório pessoal. Eles
sabiamqueemalgummomentoiriafaltar umlaboratórioadequado, equetal fatoestava
próximo; namedidaemqueas pesquisas avançavam, as medições precisariamser cada
vez mais precisas, e seriamnecessários outros equipamentos. Marie Curie enfatizou,
anosdepois, referindo-sesemdúvidaàestruturamobilizadapelosoutrospesquisadores:
75
No que se refere à luz negra, Pierre explica didaticamente a Le Bon que GrahamBell, em1880, já
havia explicado esse fenômeno para raios caloríficos infravermelhos. Numa sessão posterior, Le Bon
prometeuumarespostaaPierrequenuncaaconteceu.
Qual é a origemda energia?
98
“estava emextrema desvantagem, por conta das condições inadequadas, pela falta de
local apropriadoondetrabalhar, pelafaltadedinheiroedepessoal” (MarieCurie, 1962:
82). A extensão de suas redes era muito pequena emrelação a seus competidores e,
quando os equipamentos já não davam conta dos problemas colocados pela
radioatividade, resolveramanalisar umapropostaparasair deParis.
Segundo Latour (2000; 2001; 2005), o que explica a estabilização de um
determinado fato científico é a “extensão da rede” alimentada pelas associações entre
humanos e não-humanos, porque essa atitude permite descrever j:a::.a .:.t:´i:.a c.
j::t.::a tac :tc.j.tc.t:. cc ¸u. c: j:cj::c: .:.t::::a: juc.::.t c:..:... (Latour &
Woolgar, 1997: 18, grifos do autor). No entanto, aestabilização daradioatividade não
mepareceestar ligadasomenteà“extensão” desuarede, mas muito mais à“intensão”
deseu dispositivo experimental. O que não quer dizer quea extensão das associações
feitas “em nome da radioatividade” não tenha importância, ou mesmo que não
componha o que faz da radioatividade um “fato duro”, muito pelo contrário
76
. A
extensão da rede me aparece muito mais como estratos dos efeitos do dispositivo
experimental de Marie Curie (e da radiopolítica) do que sua própria explicação. Pois,
afinal, se não levarmos emconta a extensão da rede que explica a estabilização dos
fatoscientíficos, comopoderiaumcientistaminoritárioecompoucosrecursosdefender
asuacausa?Nessesentido, “extensão” dasredesexplicamuitopoucoosucessodeuma
cientistaminoritáriacomoMarieCurie, “queestavaemplenadesvantagem”, parafazer-
existir aradioatividade.
Emminhaopinião, essadificuldadetemaver comamaneirapelaqual o poder
funciona(às vezes semproblematização) naobradeLatour, exatamenteporqueo autor
evita falar em“poder”. Não só porque essa palavra poderia levar ao construtivismo
social (e, portanto, reduzir ciênciaapoder), mas tambémporquepodefazer esquecer a
“rededealiados” queoscientistastendemamobilizar “emnomedaciência”. Ora, mas
76
Bruno Latour explica, como argumento da extensão das redes, não apenas a divisão entrecientistas
vencedores e vencidos, mas também o que diferencia os Ocidentais dos “Outros”. Segundo o autor
(Latour, 1994), cientistas vencedores são aqueles que mobilizam redes maiores em torno do seu
experimento, assimcomonossadiferençaemrelaçãoaospré-modernosnãoéde“mentes”, masdeescala,
segundo elenossas redes são maiores do queas deles. Mas o que se define e como se define o que é
importante para compor as redes? E quemas define? Se é o próprio analista que traça as redes e se
envolvenela(Latour, 2005), eletambéméquemacorta, fazendo-aparar deumladooudeoutro, porque
pelo menos abstratamenteelas são ilimitadas (Strathern, 1996). Nessesentido, não éo próprio analista
quefaz umaredemaior queaoutra, aopará-lamaisrápido? E, sea“extensão” explicaovencedor, nãoé
porquepodemostraçar a jc::.::c:: umaredemaior paraeleenãoparaooutro(ouparaos“outros”)? Se
esse atavismo da extensão não resolve a equação de como Marie Curie fez a radioatividade existir e
resistir, tambémexplicamuitopoucoomodocomosedáadivisãonós/eles. Nãoseriaaqui umaformade
repor essedualismoqueoautor tentoutantoselivrar?
Qual é a origemda energia?
99
opoder (com“p” minúsculo) émenosalgocontrárioàsredes, nosentidodenãoatribuir
valor aelas, doqueaquiloquefaz comqueasredessejamconstituídasdeumaououtra
maneira. Talvez o poder funcione de modo auto-evidente na obra de Latour porque
operasemprecomoum“produtodarede”, desua“extensão”, eissootornahomogêneo
e retilíneo demais (no meu caso, talvez, masculino demais, se não quisesse,
arbitrariamente, fazer Marie Curie constituir uma rede maior do que os colegas). “O
poder de tais redes analíticas é também o seu problema: teoricamente, elas são
ilimitadas. Se elementos diversos fazemuma descrição, eles podemser vistos como
extensíveis ou retraídos na medida em que a análise é extensível ou retraída.”
(Strathern, 1996: 523).
Por outrolado, écertoqueaa.:c:-t.:wc:r-:!.c:,, nãodiz nadasobreosobjetos
deantemão, eissoéoquefaz delainteressante. Masedepois, oqueeladiz? Ao final da
análise, quando sugere as explicações, parece perder o caráter daordemdo “como” a
ciência funciona, para exatamente dar o fundamento do “porquê” ela funciona
77
.
IsabelleStengers(2002), queemboapartedeseulivrodefendeosargumentosdoautor,
lembra que os desníveis também fazem rizomas e não estão em uma posição
transcendenteemrelaçãoele.
O poder não está para alémda rede numa verdade que nos pouparia de ter que
acompanhar aconstruçãoderamificações epermitiriadeduzi-la. Mas elequalificaa
redeeestabeleceseus limites, ouseja, os pontos emqueanoção deinteressemuda
desentido, ondecessamos denos dirigir aos protagonistas quesetratadeconseguir
interessar eondecomeçamas estratégias quepressupõemqueo interessepossaser
comandado. (Stengers, 2002: 153)
78
77
Háaqui umaassimetriaentreaquelequedescreveeaquelequesedescreve. A redeesuas extensões,
enquantoimagemdopensamento, parecemir deencontroàimagemqueospróprioscientistastêmdoseu
ofício. O fazer científiconãomeparecesedefinir por umabuscadesenfreadadealiadoshumanosenão-
humanos. Hámomentosem·ata:: ictc: tcc.:tc: (Latour, 1994) emqueoautor noslevaacreditar um
erroaosepistemólogos(Stengers, 2002), enquantoelemesmopareceensinar oscientistasafazer ciência:
“Aumente suas redes e vocês terão uma ciência mais objetiva”; “o que a razão complica as redes
explicam”. Novamente, juízo. Chegamos, talvez, aumpontode“irredução”, ondea“extensãodasredes”
enquantodefinidorado“poder daciência” podeferir os sentimentos estabelecidos aodesdizer opróprio
cientistaemrelaçãoàsuaprática. OpróprioBrunoLatour reconheceuemoutraoportunidadeque: “oque
euchamavade‘acréscimoderealismoàciência’ eradefatoconsideradopeloscientistas(...) umaameaça
aoapelodaciência, ummododereduzir-lheograudeverdadeeaspretensõesdecerteza” (Latour, 2001:
15). Mas aí jánão épossível pedir calmaaaqueles queseofendeu, nemexplicar o que“é” arealidade
paraeles, equeasuacaracterizaçãodaciência(anumero dois, ou o parlamentodas coisas) poderiaser
melhor por colocar todosdeacordonas“GuerrasdaCiência”.
78
Não é a toa que c belíssimo livro A :tv.t,ac ca: .:.t.:a: tcc.:ta: tenha sido escrito para Bruno
Latour eFelixGuattari, equeoprimeirohomenageadotenharespondidoimediatamenteemseu¹cI´::.a:
ca ta:u:..a dedicando-o para Isabelle Stengers “a filósofa da exigência”. Me parece que Latour
(propositadamente, e quemsabe até comironia) não entendeu nada. Pois não se tratava derepensar o
Leviatã fazendo-o convergir para umcontrato (também) natural, ou seja, pensar melhor “a” políticada
natureza. Mastalvez, recolocar omodocomoelefaz a“abordagem” políticadasciências, demodoqueos
seusinstrumentosnãosevoltassemcontrasi próprio.
Qual é a origemda energia?
100
A produção da radioatividade através do “Caso Marie Curie” parece abrir a
possibilidade para outro caminho, principalmente porque os cientistas que estudo
“dizem” outra coisa. O fenômeno está indissociável das relações de força (portanto,
relaçõesdepoder) produzidaspeloenunciadodacomplementaridadesexual entreoutras
tantas interdições, produções, mecanismos de captura, táticas, estratégias exercidas
inclusivesobrePierre, equecompuseramo “Caso MarieCurie”. É queentre(eantes)
da extensividade das associações há inúmeras intensividades: dobras, desníveis, os
qualificativos das relações de força que tornam sempre latentes os mecanismos de
poder, asuamultiplicidade. “Umamultiplicidadesedefine, não pelos elementos quea
compõememextensão, nempelascaracterísticasqueacompõememcompreensão, mas
pelas linhas e dimensões que ela comporta emintensão”. (Deleuze & Guattari, 1996:
24-27). Essas dimensões certamente implicam no modo como as associações são
constituídas – elas dependemcrucialmentedaposição decada sujeito-objeto, daforça
que limita em“intensão” alguns e potencializa outros na hora de estabelecer relações
“emnomedos fatos científicos”. Mas então o quepossibilitaMarieCurie impor asua
causa? Ora, a força (a)política do dispositivo experimental de Marie Curie, o modo
criativo “como” fez existir aradioatividadeparadescobri-la– “salvando o fenômeno” –
quefez gaguejar as vicissitudes do gênero eoutros bloqueios demodo aproliferar suas
fissuras, fazendo comque os demais interessados na radioatividade constituíssemsua
redepor teremdesesubmeter ao seuprocedimento. Daí aradiopolítica; elaestáligada
com a singularidade das ciências, com as intensidades de seus dispositivos
experimentais, pois estes não atribuem aos cientistas o direito de conhecer ou
estabelecer relações “emnome da radioatividade”, mas ao fenômeno do poder (a ser
construído) decolocar oscientistasàprova.
Como fruto da radiopolítica, ainda em1900, Pierre recebera uma proposta da
Universidade de Genebra, na Suíça, para assumir uma cátedra de física com um
laboratório bemequipado e umsalário generoso. Tambémfizeramuma proposta para
Marie Curie, na qual seria auxiliar de Pierre. A Universidade de Genebra sequer
aceitava estudantes mulheres, quanto mais uma professora. Os Curie viajarampara a
Suíçaparaconhecer aestrutura, gostarammuito do laboratório que, comalguns ajustes
rápidos (e o transporte dos materiais de Paris), ficaria perfeito para o estudo da
radioatividade e a purificação do rádio. As propostas de salário, de cargos, também
eramdivididasdeacordocomodimorfismosexual, eoestatutoqueassumia, atualizava
Qual é a origemda energia?
101
as relações de poder, colocando Marie sempre numa posição inferior a Pierre nos
territóriosemquearadiopolíticafuncionava
79
.
A radiopolítica não paravade funcionar como ummeio quearrebatavae fazia
mudar o “inter-esse”
80
dos cientistas, das indústrias, das universidades etc. Como um
vírus, proliferava-separatodosos cantos possíveis apartir das linhas queasuaprópria
forçaprojetavaenão cessavadeaumentar. Não por outro motivo, algunsrepresentantes
da Sorbonne oferecerama Pierre umcargo de professor assistente emumanexo da
universidade, etambémumaautorização parautilizar o laboratório. Eleaceitou, mesmo
sabendo quenão teria“o seu laboratório”, mas umespaço quepoderiaser utilizado de
forma sazonal. Seria um desperdício para a França deixar mudar a descoberta da
radioatividadedepaís, o interessenacionalistafrancês funcionouapartir deumconvite
da Sorbonne a Pierre, da mesma forma que sua paixão pelo rádio o fez aceitar. As
pesquisascontinuariamnogalpãodebatatas.
Por outro lado, o “inter-esse” geral emtorno da radioatividade fez comque
MarieCurierecebesseaprimeiraoportunidadedeempregoparalecionar físicanaL.cI.
Nc:taI. ·uj.::.u:. c.: ·.ut.:, emSevrès, umaacademiadeelitequeeducavamoças.
Tornar-se-ia, no início do ano seguinte, aúnicamulher do corpo docente, eaprimeiraa
obter licença de lecionar por lá. Sèvres distanciava-se uma hora e meia de Paris e,
portanto, apesar da felicidade de trabalhar ensinando física, as aulas lhe tomariamum
tempopreciosodaspesquisas. Masjásetratavadeumafissuranasvicissitudesdopoder
queo sexo instituía, produzidasemdúvidapelaradiopolítica, quearrastavaaacademia
abrindo espaço para a mulher cientista. Marie Curie começava a ocupar cantões
historicamente masculinos. Mas mesmo com a L.cI. Nc:taI., uma instituição
integralmente dedicada à educação das mulheres, estas ainda eramuma minoria... No
caso de Marie Curie, o nacionalismo francês também aparecia como um modo de
exercício de poder. As meninas não paravam de cantarolar frases desajeitadas em
francês imitando o sotaque da professorinha polonesa, como lembrou uma aluna de
79
Pierreaceitouprontamenteaproposta, noentanto, elevoltouatrás porqueamudançaimplicarianuma
perdaconsiderável detempo, emcontrastecomapropostarecebidaemParis, queapesar denãoser tão
boaenãoenvolver MarieCurie, facilitariaacontinuaçãodas pesquisas queprecisavamser rapidamente
publicadas.
80
Paralembrar, utilizoapalavrainteressenumsentidorestrito. Ver anota52.
Qual é a origemda energia?
102
MadameCurie, quetambémse lembrou deuma canção feitapelavigésimaj:ctc::ct
queaodiava
81
:
Enquantoafêssoragagueja,
O... o... o... resultadodasoma,
Asmeninasdaclassesequeixam, aossussurros,
“Ah, meuDeus, masquechatice!”
Seráqueelanãosedariamelhor
Cozinhandoparaomaridofessô
Emvez defalar semparar
Paraumaturmaquemorredetédio? (ajuc Quinn, 1997: 233)
A noção de“poder” emFoucault (2008) éinteressante, paraestapesquisa, exatamente
por sua forma heterogênea, que evita o simples dualismo entre dominadores (os que
“têm” o poder) e dominados (os destituídos de poder). O “poder” deve ser
compreendido em sua positividade, como uma multiplicidade de relações de força
imanentes ao domínio onde se exercem. Essas relações de força produzem,
transformam, invertemos pontos de onde emanam. Não se deve procurar o poder no
Homem, ou no Aristocrata da Ciência (por isso, importa pouco quemfala ou quem
exerce): elessão mais funçõesdaformacomoopoder operadoqueasuacausa. Porque
nesse plano de correlações, a radiopolítica é um agenciamento de resistência, um
fenômeno que se move para suplantar umesquema de modificações nas matrizes do
poder, para fazê-lo variar. Não obstante, o poder que se exercia através da
complementaridadesexual não eraexercido por homens contraas mulheres ou mesmo
sobreas mulheres, mas umapráticaquesepassaentrehomens e mulheres, eexercido
pelas mulheres, inclusive. Por outro lado, a nacionalidade polonesa de Marie
Sklodowska Curie, não passava despercebida o tempo todo: tratava-se de uma
estrangeira, alguém de fora, implicando em outros desníveis e escalonamentos das
relações
82
. Se tal heterogeneidade do poder organizava o modo como se dava a
imagísticasexual, mas tambémos termos denacionalidade, não seriadiferenteparaas
ofertasdetrabalho, nemcomotratamentoemrelaçãoàdesigualdadedeMarie.
A diferençadesaláriosedeprestígio doscargoseraenorme. Pierreagoraestava
trabalhando na EPCI e emumanexo da Sorbonne, enquanto Marie Curie ministraria
aulas paramoças numapequena(mas tradicional) escolano interior deParis. Qualquer
cientista (homem, francês) que trabalhou como Marie em pesquisas importantes na
81
SegundoQuinn(1997) forampublicadasváriasreminiscênciasdaqueleperíododeaulasem·.v::.tt.:
c!:.: .: cau]cu:c!u: em1967, datado centésimo aniversário do nascimento deMadameCurie, esses
comentáriosdaalunadeMadameCurieformafeitosemumadelas, por MartheBaillaude.
82
Essaquestãoaparecedeformasvariadasemdiversosmomentos, comomostroaseguir.
Qual é a origemda energia?
103
França conheceu melhores possibilidades. Assim, o exercício de poder e a divisão de
forças distribuíaos papéis deformaqueacientistasempreaparecessecomo umamera
auxiliar do marido. Essamaneiradeatualizaçãodopoder, suasdiversasformascriativas
decapturas, mantinhaMarieCurienumaposiçãot.tc: nocírculodecientistas, eassim
faziadela, sempre, umaexceção.
Enquanto as pesquisas avançavam, MarieCuriecomeçavaaredigir suatesede
doutoramentequehaviasido interrompidapelo acontecimento-radioatividade. Deuma
pesquisaquantitativasobreos raios Becquerel semmaiores pretensões, elaagoratinha
um grande tema nas mãos a ser apresentado para a banca de sábios da Sorbonne.
Começou, no início de 1901, a redigir a tese sobre suas inovadoras pesquisas com
substânciasradioativas, quehaviambalançadoafísicadoperíodo. AsaulasemSèvrese
a tese lhe tomara tempo suficiente para que ela não apresentasse comunicações
seguidas, como vinha fazendo até então. Alémdo mais, ainda restavamtoneladas de
pechblenda para seremprocessadas, e vários miligramas de bário radífero para serem
purificados por suas mãos, para que fosse possível calcular o peso atômico e, assim,
cravar aexistênciadonovoelemento.
PierreCurie, no mesmo ano, estavapreocupado comaradioatividadeinduzida.
Em conjunto com o pai do actínio, Debierne, compôs duas comunicações sobre o
assunto, paramostrar quetudo ao redor doscorposradioativos haviasido induzido pela
radioatividade. Ofenômenotinhatomadoosequipamentos, osmóveis, tudoàsuavolta,
atrapalhando as medidas quantitativas tão necessárias. Eles comentam “a deplorável
situação do laboratório, onde tudo se tornou radioativo. Esta deplorável situação não
nos parece ser explicada pela radiação direta da poeira radioativa espalhada pelo
laboratório; deve-se, provavelmente, em grande parte, à contínua formação de gás
radioativo” (PierreCurie& Debierne, 1901a). Pelaprimeiravez, Pierreconcordoucom
Rutherford; como fato dequeas substâncias radioativas produziriamoutrasubstância,
ogásradioativo, fenômenoqueoneozelandêshavianomeadodeemanação.
Rutherford, não muito tempo depois que Pierre Curie publicou comDebierne,
retrucou a comunicação. Os artigos “O novo gás do rádio”, e “As emanações das
substâncias radioativas” iniciavamuma batalha que duraria alguns anos. Comumar
irônico de alívio por ter confirmado sua hipótese, o cientista escreve: “Os Curie e
colaboradores declararam ter obtido um gás radioativo que preservou sua atividade
durante várias semanas; possivelmente é idêntico à emanação (…) bemrecentemente
algumaluz foi lançadasobreessas emanações, os resultados apontamparaaconclusão
Qual é a origemda energia?
104
de que a emanação do rádio é, na realidade, umgás radioativo” (ajuc Quinn, 1997:
184). OqueRutherfordqueriadizer équeaemanação eraalgo geral detodososcorpos
radioativos. Ocientistatinhaemmentequeerapossível extrair detodas as substâncias
radioativas o resíduo radioativo que carregavamque muito provavelmente seria esse
gás. Elediscordavados Curie: paraele, rádio epolônio não eramelementos químicos,
mas, na verdade, bário e bismuto radioativos. Como não haviam sido totalmente
isolados, aindanãoeramelementosparaacomunidadecientífica, eparaRutherfordnão
deveriamser.
Outra questão inusitada faria os Curie proliferaremcomo as suas entidades. A
radioatividadeabriuoutro campo depesquisagraçasaosestudosdosalemães Walkhoff
e Giesel, que evidenciaramas propriedades terapêuticas do rádio, mesmo ainda não
reconhecido como elemento. A radioatividade se proliferava muito rapidamente, epor
contadas várias atividades dos corpos radioativos, ganhava incessantementeutilidades
bastante heterogêneas. Até então, a radioatividade era umfenômeno importante para
abordar “questões teóricas” e interesses financeiros depequeno porte; mas mobilizava
somente físicos e químicos. Giesel e Walkoff, acompanhando as pesquisas que
circulavam sobre a radioatividade induzida e a emanação de gases pelos corpos
radioativos, tentaram saber se pessoas também eram induzidas pelo fenômeno. Ao
aproximar duranteumtempo o bário radífero deseucorpo parafazer amedição, Giesel
percebeu uma inflamação e logo publicou umtrabalho sobreo assunto, comparando o
fenômeno comaação terapêuticadosraios Röntgen, queaessaalturajárepresentavam
umanovapossibilidadeparaodiagnósticomédico.
Simultaneamente, Henri Becquerel participava de uma sessão da Academia de
Ciências no início de1901comumfrasco contendo bário rádifero no bolso. Depois de
uma hora, ele percebeu algumas queimaduras causadas pela substância. Assim, Pierre
Curieresolveu fazer uma experiência: colocou emumde seus braços uma quantidade
debário radioativo (5mil vezes mais ativo queo urânio metálico), numembrulho fino
de papel durante dez horas, e observou, após remover o produto que em sua pele
apareceuumavermelhidão, quediaapósdiaaumentouatéformar-seumacrostae, mais
tarde, um ferimento. No quadragésimo segundo dia, a pele começou a se formar
novamente, mas permaneceu ali uma mancha acinzentada que mostrava como o
Qual é a origemda energia?
105
ferimento foramais profundo
83
. Pierrepublicouseus resultados junto aos resultados de
Becquerel (Curie& Becquerel, 1901).
Empouco tempo, a medicina se interessaria pelo rádio e pela radioatividade.
Como aprópria MarieCurieescreveu meses depois: “a ação do rádio sobreapele foi
estudadapelodoutor DaulosnoHospital Saint-Louis. Orádiodáresultadosanimadores:
a epiderme parcialmente destruída reforma-se emestado são” (ajuc Eve Curie, 1949:
169). Médicos franceses imediatamente começaram a fazer as primeiras aplicações,
como Daulos, Wickam, Dominici, Degrais etc. (:c., :l:c.). A divulgação científicalogo
fez umgrandebarulho eos Curieganhavamcadavez mais prestígio. A cadaterritório
quearadioatividadeavançava, os Curie, do outro lado, tambémavançavam; “evolução
a-paralela” dedoisseresquenãotêmnadaaver, masquesealimentammutuamenteum
do outro. Seo nomedos Curiepassouaser conhecido emlares daFrançaedepois do
mundo, foi por conta de seremassociados à cura de tipos de câncer. O interesse por
partedamedicinaemrelação àdestruição decélulas doentes causouumnovo impacto,
pois logo: “o Rádio cura lúpus, tumores, ecertas formas decancro”. A esperançados
populares emrelação aesse“elemento sagrado” eraamáximapossível. A atividadede
destruição de tecidos doentes a partir do rádio pela medicina foi nomeada
imediatamentede“Curieterapia” (E. Curie, 1943).
Se cada vez mais as atividades dos radioelementos eramdesvendadas, a sua
naturezacontinuavaumaincógnita.
Becquerel, por vários anos, considerara o fenômeno como uma fosforescência de
longa duração, embora nos primeiros anos do século XX passassea falar emuma
transformação molecular [como Marie Curie]. Seguindo a tradição britânica de
modelos mecânicos visualizados, Crookes sugerira um demônio de Maxwell
modificado, situadoemcadaátomodeurânio, extraindoenergiadas moléculasdear
mais rápidas. Os Curie haviam considerado várias possibilidades, mas estavam
fortemente inclinados para a idéia de uma radiação etérea desconhecida, cuja
evidênciasemanifestavaapenaspor suaaçãonoselementosmaispesados, queentão
passavamaemitir raiosalfa, betaegamacomoradiaçãosecundária. (Badash, 1965)
É verdade que os Curie aceitavam várias possibilidades, sobretudo porque para eles
todaseramperguntas. A hipótesedaexceçãonoprincípiodeCarnot guiadapor Pierre, e
todasasoutrasopçõesacimadescritas não passavamdeespeculaçõesqueangariavama
controvérsiacientífica. A naturezadaradioatividadeaindanão existia, estavaaindapor
vir, existiammuitasradioatividadespossíveis.
83
Marie Curie (1963) informou, na biografia de Pierre Curie, que as pontas dos dedos deles estavam
duras, muitomachucadasedoloridas. E que, mesmodepoisdedoismeses, ainflamaçãonãodiminuía.
Qual é a origemda energia?
106
Jáno segundo semestrede1901, interessados nacorridacientíficaemtorno da
radioatividadeinduzidaedaemanação queaumentavacadavez mais, PierreeDebierne
(1901c) decidiramconfeccionar um balanço sobre a radioatividade. Os objetivos da
comunicação foramdescritos no primeiro parágrafo: “vamos mostrar precedentemente
que se pode comunicar temporariamente as propriedades radioativas a um corpo
qualquer comajudadossaisderádio, eemparticular comunicá-laparaáguadestilada”.
De fato, os dois cientistas conseguiramtornar a água radioativa temporariamente, e
tambémperceberamqueaáguaeraumaótimacondutoradeenergia, assimcomo o ar.
Através de procedimentos simples, mostraramcomo a água perdia sua atividade de
formadefinitivacomo tempo. Ao contrário do queaconteciacomos sais derádio, que
apesar de perderemumpouco de sua atividade, sempre regenevam-se e retornavamà
suaatividadeprimitiva. Elesentãoafirmaramumateoria:
é possível admitir que umátomo de rádio funciona como uma fonte contínua e
constante de energia radioativa; nada mais é necessário, aliás, para determinar de
ondevemessaenergia. Elapodeproduzir umamodificaçãonorádio; elapodeprovir
datransformação deumaradiação exterior incomum; elapodetomar emprestado o
calor do ambiente, contrariamente ao principio de Carnot.
84
A energia radioativa
acumuladapelos sais derádiotendeasedissipar emduas frações diferentes: 1° por
raios (raios carregados e não carregados de eletricidade); 2° por condução de seu
estado pouco a pouco a corpos em torno por intermédio de gás e de líquido
(radioatividadeinduzida). (:c., :l:c.)
Como Rutherford, os Curietambémdemonstraramquearadioatividade induzida, e/ou
emanação, primeiroaumentavaatéummáximoemcorposnãoativos, edepoisdiminuía
deacordo comumacurvaexponencial. No quediz respeito acorpos ativos, o cientista
neozelandês trabalhava também em termos de uma diminuição de energia (afinal,
poderiamnão ser elementos) Pierre, no entanto, não acreditavanessaúltimaafirmação;
segundo ele, toda a energia era expulsa pelos átomos de rádio. Rutherford sabia que
precisariadeumquímico paratrabalhar comele, pois cadavez mais o foco deixavade
ser os raios ouos gases emitidos pelas substâncias (afísica), parasetornar as próprias
substâncias (aquímica), dirigindo-seàesteiraemqueMarieCurieestavatrabalhando.
Ele arregimenta, então, um químico chamado Frederick Soddy, para tentar extrair,
mediante procedimentos químicos avançados, a matéria radioativa do tório para
verificar a possibilidade de torná-lo inativo. Passa todo o segundo semestre nesse
trabalho. Enquanto tentaalternativas paraconcluir o projeto, Rutherfordpublicaalguns
84
Pierrefaz umamenção direta ao trabalho de sua esposa dizendo que todos esses pontos e hipóteses
forampublicadospor elaem1899.
Qual é a origemda energia?
107
deseusresultadosanterioressobreosraios, emdiversasrevistascientíficasdo mundo
85
.
PierreeDebierneaindaapresentariamoutracomunicaçãosobreradioatividadeinduzida,
endossandoosresultadoscomalgumasexperiênciasnovas(1901d).
Marcelin Berthelot, membro da Academia de Ciências de Paris – e muito
respeitado na comunidade científica por seus trabalhos emquímica orgânica, e entre
outras coisas, seu estudo sobre a origem inorgânica do petróleo – decidiu fazer
pesquisassobreorádio
86
. Outroqueeclipsametadedaequipe. Eleafirma:
Conheci os notáveis efeitos determinados pelas radiações especiais do rádio. Esse
domínio novo aberto à ciência por Pierre Curie em domínio conexo com as
descobertas de Henri Becquerel. Foi confiada por eles a mimuma amostra desse
precioso produto e já comecei a fazer algumas experiências para comparar certas
reações químicas específicas, determinadas pela luminosidade e pela influência
elétrica, queorádioésuscetível aprovocar. (Berthelot, 1901a).
Além de ficar impressionado com a potencialidade dos produtos que recebeu, fez
algumas experiências como vidro e outras substâncias, notando a indução radioativa.
Emseu segundo trabalho (1901b), aparece no texto a idéia deque o rádio éumnovo
elemento. Assimelefaz especulações sobreo peso do elemento eexperimentaalgumas
outrasreaçõesquímicasapartir daquilo quePierreCuriehaviaisolado (naverdadefora
MarieCurie). Nadademuitointeressante, querodizer, inovador
87
.
Os pesquisadores franceses tiverama notícia de que, no Canadá, Rutherford e
suaequipeestariamtentando retirar aatividaderadioativado tório (tório-X) paradeixá-
lo inativo; ouseja, o cientistaestavacaminhando no sentido deCrookes, contraaidéia
dos radioelementos, principalmente os novos (rádio, polônio etc.), já que o urânio eo
tório continuariam elementos (não radioativos). A discordância em relação às
substâncias erageral. Não erafácil ter umaposição definidanessacontrovérsia, mas os
Curie se inclinarampara o fato de que a causa da emissão era proveniente de uma
atividade dos elementos radioativos – muito embora essa causa estivesse associada a
umatransformaçãodaradiaçãoetéreaexternaemseuinterior (numadefesadesenfreada
de seu dispositivo experimental). Se fosse possível tornar os elementos ordinários
inativos (urânio etório), todas as hipóteses dos Curie e várias de Becquerel iriampor
85
OcientistaneozelandêspublicouartigosnasrevistasNa:u:. ¹!:::.aI ¹.v:.w ¹!,::raI::.!. 7.:::.!::i:
¹!:Ic:ci:.aI ìa¸a.:t. T:at:a::ct: ¹c,aI ·c.:.:, ci Cataca.
86
Alémdisso, suapersonalidadeiaalémdecírculoscientíficos: foi senador daFrançaem1881, edepois
ministrodaeducaçãodeRenéGoublet (1886-1887).
87
Muitosoutrospesquisadorescomeçariam, entreosanosde1899e1903, aapresentar trabalhossobreo
assuntonasmaisdiversasacademiasdomundo. Dentrodemeuslimitesdocumentaisedeespírito, ficarei
somentecomalgumas quejulguei importantes. Tornou-seimpossível acompanhar as pesquisas demodo
minucioso, afinal são inúmeras comunicações científicas. Emprol do argumento, ou seja, determinar a
dissertação, ficarei semcomentar muitasdelas. Consolo-mesabendoquetodotrabalhoéparcial.
Qual é a origemda energia?
108
água abaixo. Inclusive as cartilhas de identidade de elementos químicos novos como
rádio, polônio e actínio, que passariamao estatuto de (apenas) substâncias quaisquer.
Becquerel estavaintrigado como embateacercadaexistênciados elementos químicos,
esearadioatividadeera, defato, umapropriedadeatômicainerenteaeles. Hajavistaos
processos de produção do urânio-X e do tório-X pelos pesquisadores do Canadá, da
Inglaterra e tambémdos alemães. Após alguns estudos detalhados toma sua posição
(1901):
(…) Fiz conhecer aradioatividadeespontâneaepermanentedourâniodosseussaise
do metal, e observei que, emcertas condições, as propriedades radiantes de seus
corpos não remanescemconstantes. Giesel, emparticular, mostrou que, comcertos
tratamentos e preparações, o urânio torna-se menos ativos, e sir W. Crookes, por
cristalizações fracionadas, obteve umnitrato de urânio inativo. (…) Após dezoito
operações sucessivas, obtivesais deurânio muito pouco ativos. Isso podeconstatar
debilidadeprogressivadeprodutos paraaaçãodo eletrômetro, eparaas impressões
fotográficas ao atravessar uma lamela de vidro. (…) As observações de sir W.
Crookes, queeu lembrei, podemfazer pensar queaatividadedourânio estácontida
emuma pequena quantidade de umcomposto muito ativo, e que o urânio puro é
inativo.
(…) Essa hipótese é pouco provável. J á que a radioatividade talvez debilitada,
recupera com o passar do tempo sua radioatividade primitiva. (…) Assim, a
atividadeperdura eserecupera espontaneamente. Ao contrário do sulfato debário,
queera mais ativo queo urânio (por conta da indução), eestá hojecompletamente
inativo. Por qual mecanismo os corpos recuperam a atividade temporariamente
debilitada? A hipótese de uma auto-indução aplicar-se-ia a uma mistura própria a
umacombinaçãoquímicademoléculas, umasativas, eoutrasinativas; por umcorpo
puro, equivalendoaumatransformaçãomolecular.
Alémdedesqualificar as hipóteses queconduziamos trabalhos deCrookes, edecerta
maneira, os dele mesmo no ano anterior, Becquerel ainda fez um comentário
interessante: eleseperguntavasearadioatividadenão poderiaoperar comas pequenas
partículas subatômicas de J.J. Thomson, já que a radiação carrega uma quantidade
considerável deeletricidade– o queelechamadetransformação molecular. Quer dizer,
seaprópriamatérianãoestariasedividindoempequenaspartículascapazesdeproduzir
radiações e emanações, induzindo sua própria dissipação a outras substâncias. Assim,
Becquerel sealiaaosCurie, sendo tomado por seudispositivo experimental. Eleaponta
para o mesmo caminho, pois a despeito de qual fosse a causa da radioatividade, era
impossível “pensá-ladissociada” doselementosquímicosqueaemitiam. MarieCuriejá
havia apontado que a radioatividade era uma propriedade atômica, e essa hipótese já
haviasidosondadapor elaemseuderradeiroartigode1899sobre“filosofianatural”. O
átomo começavaaser tocadopelaradioatividade, começavamaaparecer conexõescom
aspesquisasdeThomsonsobreoscorpúsculossubatômicos(elétrons).
Qual é a origemda energia?
109
Na última sessão da Academia de Ciências de Paris no ano de 1901, foram
anunciados os diversos prêmios paraos grandes senhores daCiêncialocal. Foi quando
Pierre descobriu que deveria receber o prêmio La Caze, umdos mais interessantes e
prestigiados da França. Tal prêmio ainda ajudaria na compra de equipamentos para o
laboratório e para questões financeiras de maneira geral. A comissão do prêmio
escreveuasmemórias:
A comissãoconcedepor unanimidadeoprêmioaosenhor PierreCurie. A descoberta
dorádio marcou demodo célebreno mundo inteiro o nomedesenhor PierreCurie,
associadoasuaeminentecolaboradoraMadameCurie.
Eles ainda fariamumbreveesboço dahistóriadas pesquisas das matérias radioativas,
assimcomo comentáriosdostrabalhosdePierresobrepiezeletricidade. Depoisdetanto
trabalho, Pierre pôde contar comumprêmio à sua altura, que lhe daria visibilidade
acadêmica, pois nesse contexto, o nome Curie já rodava o mundo todo associado à
descoberta do rádio e a uma possível cura do câncer. Quanto a Marie Curie, o poder
carregavaaestratégiadecolocá-lanaborda, fazendo perder seunome, tornando-seum
anexo do marido. Os mecanismos depoder dacomplementaridadesexual não paravam
decapturar MarieCurienos diversos estratos, por mais deslocados quesetornassem, e
por mais queelaocupasseterritórios intocáveis paraas mulheres; o fato équeo poder
não parava de se deslocar, atualizando as suas formas de captura. Ela seria sempre a
esposadaquelequedescobriuo rádio, “suaeminentecolaboradora”. Elemento químico
ou não, o rádio entraria no ano de 1902 como uma das façanhas mais importantes do
mundo científico. Sua produção tornou-se sinônimo de urgência, ele representava a
esperançadecuradedoençasqueassombravamaEuropadoiníciodoséculo.
Nas férias, as bicicletas eram as companhias dos Curie (enquanto discutiam
radioatividade) nos seus belos passeios pelos campos franceses, outrora poloneses,
quandoocasal visitavaosparentesdeMarie. Nadadediferentedoquefaziamossábios
do início do século, o próprio Rutherford disse: “haviaduas coisas interessantes dese
fazer naquele período: pesquisar radioelementos e andar de bicicleta”. De fato, dois
acontecimentossingulares...
T|an·nu|a¸ao a|on¦ca una nova a¦qu¦n¦a
Oátomo dos físicos aindaestavano limbo, eraumaquestão ultrapassada, mas algumas
questões como a radioatividade fariamressurgir as discussões atômicas. J.J. Thomson
Qual é a origemda energia?
110
achavaqueessas cargas elétricas negativas (elétrons), queelechamavadecrepúsculos,
poderiamser partículas subatômicas. Enquanto isso, Jean Perrim, falava que o átomo
era uma espécie de universo emminiatura. A relação entre a matéria e a eletricidade
aindaestavaemviasdecaracterização. Paraalémdisso, ascoisas apareciamcomo uma
incógnita. Desdeosgregos, osátomoseramconsideradosindivisíveis, entidadeseternas
e imutáveis que constituem o nosso mundo físico. Os átomos eram partículas
minúsculas e indivisíveis de matéria e eram a unidade mínima de toda substância.
Átomoeraigual àmenor moléculadematéria.
O número de radioelementos conhecidos aumentava (mesotório, radiotório,
iônio, protactínio e o radiochumbo) como fruto das pesquisas com substâncias
radioativas, sendo que físicos e químicos não sabiam o que fazer com esse lcct.
Mendeleiev, o grandequímico inventor daTabelaPeriódica, aessaaltura mostrava-se
extremamente contra esses supostos elementos químicos, e assim ficaria por muitos
anos. Afinal de contas, essas substâncias bagunçariamtodataxonomia organizada por
ele. Segundo o químico, aradioatividadeeraumasimilaridadepor naturezaentreo éter
universal – que participaria nos processos radioativos – e umgás inerte muito leve.
Nenhuma dessas substâncias deveria ser um elemento químico, pois destruiriam as
basesdalei periódica.
Rutherford e Soddy (1902a), então, apresentaramno mês de janeiro de 1902,
uma hipótese iconoclasta para a ciência estabelecida. Como mencionei há pouco, os
estudos sobreemanação do tório avançavam, eo gás radioativo passouater umnome:
tório-X. Por procedimentos químicos parecidos comos de Crookes e Becquerel, eles
isolaram a atividade radioativa do tório, deixando-o inativo. Mas como havia sido
previsto por Becquerel, PierreeMarieCurie, otório readquiriasuaatividadee, então, o
tório-X poderia ser extraído novamente do elemento, e assimsucessivamente. Mas o
tório-X, odepósito ativo dotório, não paravadesetransformar emoutracoisa, tório-A,
B, C eassimpor diante.
Impunha-se uma interpretação: o tório transforma-se em tório X, sendo a
radioatividade a testemunha dessa interpretação. Como o tório se transforma
lentamente, pode, durante um curto intervalo de tempo, aparecer como não-
radioativo; quanto ao tório X, continua a transformar-se bastante rapidamente
noutros produtos, razão pelaqual continuaradioativo. (Stengers & Besaude-Vicent,
1996: 321)
Rutherford e seu assistente Soddy estavam apontando para uma transformação
subatômica, que seria a causa da atividade dos elementos radioativos, de sua
Qual é a origemda energia?
111
radioatividade. Mas aí, tiveramde deslocar a formula do dispositivo experimental de
MarieCurie, estendendo-o: atransformação radioativaeraalgo inerenteaos elementos
químicos, uma propriedade atômica (de singular de autodestruição). Semdúvida, tal
teoria de transformação dos elementos deslocou a radioatividade, indicando-a como
uma“forçainterna” aos átomos dos elementos químicos. A radioatividadenão erauma
propriedade elementar, mas simo indício de uma transformação de umelemento em
outro.
Apesar de teremfeito suas pesquisas como tório, a emanação já havia sido
declarada para todos os outros elementos radioativos: o rádio, o actínio, o urânio e o
polônio. Os elementos químicos radioativos deveriamse transformar gradualmente, e
esseprocesso interior aosseusátomosseriaapróprianaturezadaradioatividade, desua
força ativa, mas também do modo como eles se desintegrariam e perderiam sua
atividade. O queserviu paraPierreCurie(quediscordariaenormementedessaposição
“internalista”) numprimeiro momento, certamenteserviria para Rutherford apartir de
então: tornava-se indistinguível seelecapturaraaradioatividadeemseu nomeou seo
próprio dispositivo da radioatividade capturara o cientista em seu aparelho de
reprodução. Afinal, a radioatividade garantia sua existência na medida em que os
procedimentos inventados por Marie Curie eram respeitados, constrangindo os
cientistasàsuavoltaemumdevir queosenvolvia
88
.
É exatamente de envolvimento que convém falar, no sentido estético, afetivo e
etológico, pois os três termos articulados, conduta, verdade e realidade, só se
conjugamsobumanovamaneiradeexistir efazer existir, emqueacondutaproduz a
verdadea respeito de uma realidade que ela descobre-inventa, emque a realidade
garanteaproduçãodaverdadeseasrestrições decondutasãorespeitadas, emqueo
próprio cientistapadeceumdevir quenão podeseresumir aumasimples possede
umsaber. (Stengers, 2002: 112)
Numa história bemconhecida, Soddy, espantado como que via durante as pesquisas,
disse a Rutherford: “isso é transmutação de um elemento emoutro, o tório está se
desintegrando e se transformando em gás argônio!” E o cientista neozelandês
respondeu: “não chame assim, se falarmos em transmutação, chamar-nos-ão de
88
Perguntariaeuseépossível distinguir asredesdessescientistasparaestabilizar aradioatividadeaoseu
modo(oqueéamplamentenecessárioparacompreender ascontrovérsiasnopensamentolatouriano)? Ou
o próprio território daradioatividadefaz desses cientistas partedos liames desuas redes, quer dizer, da
intensividade de seu dispositivo experimental, seu aparelho reprodutor? O fato é que, quanto mais a
radioatividade se firmava na natureza (independentemente de qual das naturezas da radioatividade
estamoslidando), maisessescientistascravavamseusnomesnahistória. Umcarregavaosoutros, porque
aradiopolíticacarregavaambos. Issosetornamais claroadiante, quandoadiscussãojáfogeoterritório
daradioatividadeevai diretamenteaoátomo. Comonummovimentosegmentar, seeraminimigosnesse
momento, passamaser osmaioresaliados, principalmenteapartir de1906.
Qual é a origemda energia?
112
alquimistas…” Elessóestavamdizendoqueoátomo nãoeratãoestável, afirmativaque
pelo menosdesdeosgregoseraplenamenteaceita. Omundofísico, segundoosdois, era
muito mais infinitesimal evariável do queantes, earadiopolíticaseinfiltravano centro
maisestável dafísica.
Nemduas semanas haviamsepassado apósapublicação dotexto deRutherford
eSoddy, quando o casal Curie(1902) apresentouumataquevelado (não mencionavam
os nomes dos cientistas) àidéiadeumatransformação atômica. Comentavam, também,
a hipótese de Henri Becquerel, que parecia poderia apontar para a mesma linha, mas
semamesmaintensidade. Emsuaspalavras:
Em uma nota precedente, Becquerel fez uma hipótese sobre a natureza dos
fenômenosradioativos; nósexporemosalgumasidéiasquenosguiamdurantenossas
pesquisas. Pensamossobreavantagemdeatribuir umaformamaisgeral àshipóteses
necessárias para as pesquisas em física. Desde o início de nossas pesquisas,
admitimos que a radioatividade é uma propriedade atômica dos corpos. Esta
suposiçãofoi suficienteparacriar ométododepesquisaparaelementosradioativos.
Cadaátomodeumcorporadioativofuncionacomo umafonteconstantedeenergia.
(…) As experiências que fizemos durante os anos mostramque, para o tório, o
urânio, o rádio, e provavelmente o actínio, a atividade radiante é rigorosamente a
mesma e, no mesmo estado químico efísico, essaatividadenão variacomo passar
dotempo. (Opolônio, aocontrário, éumaexceção; suaatividadediminui lentamente
comotempo. Eledeveser umaespéciedebismutoativo enãoumnovo elemento.)
(…)
Se se procurar precisar a origem da energia radioativa, pode-se fazer diversas
suposições quevêmseagrupar emtornodeduas hipóteses bastantes gerais: 1) cada
átomoradioativocontém, noestadodeenergiapotencial, aenergiaqueelelibera; 2)
umátomoradioativo éummecanismo que, emtodos os casos, temacapacidadede
liberar energia para fora de si. Para a primeira hipótese, a energia potencial dos
corpos radioativos, as experiências que fizemos durante os anos não nos indicam
presença qualquer de variação. Se, por exemplo, admitirmos com Crookes e
Thomsonquearadiaçãodo gênerocatódico ématerial, entãoos átomos radioativos
estão emvias detransformação. As experiências de verificação, feitas aqui, deram
resultadosnegativos. (…)
As teorias dePerrimeBecquerel são igualmenteteorias detransformação atômica.
Perrim assimila cada átomo a um sistema planetário, onde certas partículas
carregadas negativamente podem escapar. Becquerel explica a radioatividade
induzidapor umdeslocamentoprogressivo ecompleto dos átomos. As hipóteses do
segundo grupo, queestamos mais inclinados, sãoaquelas queapresentamos corpos
radioativos como transformadores de energia. Esta energia em decomposição é
emprestada, contrariamenteaoprincipiodeCarnot (…).
Ao estudar fenômenos desconhecidos, podemos apresentar hipóteses bemgerais e
avançar passoapasso, emconformidadecomaexperiência. Esseprocessoseguro e
metódico é necessariamente lento. Em contraste, podemos apresentar hipóteses
ousadas, nas quais os mecanismos do fenômeno são especificados. Este
procedimento tema vantagemde sugerir certas experiências e, acima de tudo, de
facilitar oduroprocesso, tornando-omenosabstrato, comousodeumaimagem. Por
Qual é a origemda energia?
113
outrolado, nãopodemosimaginar a j::c:: umateoriacomplexaqueestejadeacordo
coma experiência. As hipóteses precisas, quaseseguramente, contêmumapartede
erro, juntamentecomumapartedeverdade.
A comunicação era completamente resistente aos materialistas, inclusive a Becquerel,
queaapresentou naAcademia. Mas o parágrafo final foi preparado paraRutherford e
Soddy, que tiraram, somente compesquisas como tório, grandes conclusões gerais
“sugerindo certas experiências” para imaginar umatransformação atômica. Tal evento
mostraqueosCurieeram(estrategicamente) contraasconclusõesrápidas, achavamque
para conseguir avançar não eram necessárias grandes hipóteses, mas um cuidado
especial comas pesquisas. Pierre Curie, principalmente ele, não aceitava a teoria da
transmutação; o mais provável para ele era uma contradição no principio de Carnot –
transformaçãonalei deconservaçãodeenergia. MarieCuriechegouasondar, em1900,
“umatransformação interior aos elementos” dizendo queeraumaexplicação sedutora.
Como todos os elementos pareciamser constantes (não havia nenhuma transformação
neles), parajustificar acríticadirigidaaRutherford, osCurie– inclusive– sacrificaram
aexistênciado polônio enquanto umelemento, pois segundo eles eraesseo único que
se comportava diferentemente dos demais (perdia energia com o tempo, se
desintegrava)
89
.
Enquanto isso, e até por conta da batalha científica que se abriu, Pierre tentou
diminuir suas horas de trabalho como professor para se dedicar às pesquisas. Havia
vagado umacadeirade mineralogia naSorbonne, ecomo possuíaumótimo currículo,
tentou o concurso paraa universidade que várias vezes lhe fechou as portas, mas que
fazia parte do seu desejo. Mas não ser umtc:taI:.t pesava muito a Pierre, e seria
difícil conseguir suatãosonhadavaganaSorbonne. A diferençadeprestígiopor nãoter
estudado nas grandes escolas colocava-o emuma posição de desigualdade comseus
concorrentes. Apesar dePierretrabalhar empesquisas deponta, eramais velho queos
demais e concluiu seu doutoramento tardiamente. A própria Marie Curie disse a um
amigo emcartaduranteo concurso: “ele tinhapoucas ilusões sobreachancede obter
umaimportantecadeiranaUniversidadedeParis, quenos teriacapacitado aviver sem
89
Não exploro essecontrasteentreas diferenças cruciais deopinião entrePierreeMarieCurie, porque
não sei sea essaalturaMarieCurieconcordavacomPierre, forapersuadidapor ele, ou mesmo acabou
fazendo corpo àteoriado marido por algumoutro motivo. Não hádados quemepossibilitemexplanar
essa relação. No entanto, posso mostrar que– epara isso disponho dedados – MarieCurie, em1899,
acenou positivamenteparaaidéiadeumatransformação internaao átomo dos elementos radioativos (a
hipótese materialista), abrindo para tal possibilidade, assim como todas as outras. Pierre sempre se
manteveavessoaessaidéia, apontandoparauma“fonteexternadeenergia” como os Curiedefenderam
noúltimoartigoapresentado.
Qual é a origemda energia?
114
uma renda suplementar” (ajuc Quinn, 1997). Novamente, Pierre viu-se frustrado em
seusplanos.
Rutherford queria rapidamente comprovar sua teoria. Mas para isso era
necessário uma pesquisa muito mais detalhada, além de fazer a mesma regra de
emanação do tório funcionar parao rádio, polônio, actínio eurânio, como sugeriramos
próprios Curie. Essa tarefa não seria fácil. Os cientistas estavam copiando os
experimentos uns dos outros, mas chegando a resultados completamente distintos. Se
comRutherfordoselementossedesintegravam, nas mãosdosCurieoselementos(com
exceção do polônio) não variavamem sua intensidade, e eram fontes constantes de
energia. Para provar o que havia enunciado, Rutherford deveria fazê-los desintegrar
como fez com o tório. O primeiro problema era como conseguir uma amostra
“fortementeradioativaderádio”. Segundo Goldsmith(2006), nesseperíodo Rutherford
solicitou amostras de destilados de rádio para os Curie, e por mais que elas fossem
vendidas na SCPQ (por um preço elevado), e eles competissem nas pesquisas, o
material foi cedidopelocasal comocortesiaprofissional.
Muito provavelmente, Rutherford fez o pedido aos Curie por algumas razões:
gostariadever depertoaspesquisasdosfranceses; e, principalmente, pelo fatodequea
radioatividade do rádio vendido era infimamente menor do que as que os Curie
portavam. Muito provavelmente Rutherford sabia disso, pois Crookes, Giesel, entre
outros, reclamavamdiferençasdasamostrasderádio quefaziao casal ver coisasqueos
outros cientistas não conseguiamidentificar. A corridadesigual pendiaparao lado dos
Curiepor contado poder do rádio, graças ao dispositivo depurificação inventado por
Marie. Esse era o outro lado da radiopolítica, que eliminava muitos pesquisadores e
transformava o rádio na pedra angular das pesquisas dos Curie. Afinal, ninguém
possuía, como os dois, amostras que apresentavamtanta intensidade. Comparando as
amostras radioativas dos Curie comas alemãs, Giesel escreveu: “Nemé preciso dizer
queépor isso queapesquisadevocêsémaiseficaz. Vocêspodemobservar fenômenos
quenãosãoperceptíveisaqui” (ajuc Goldsmith, 2006: 107).
Não demorou muito tempo para que Rutherford e Soddy publicassem outro
trabalhoimportante. Naverdadedois, ecomumtítuloabsolutamenteatrevido: “A causa
eanaturezadaradioatividadeI eII”. Apesar deaalquimiater sidoexorcizadahámuito
tempopelaCiência, elavoltariaareinar emoutrostermos. Segundoosdoiscientistas:
Todos os mais proeminentes trabalhadores nesse assunto entraram em acordo,
considerando a radioatividade um fenômeno atômico. Pierre e Marie Curie, os
Qual é a origemda energia?
115
pioneiros na química do objeto, declararamque essa idéia fundamenta todo o seu
trabalho, desdeoinício, ecriaramseusmétodosdepesquisa. (…) A radioatividadeé,
ao mesmo tempo, fenômeno atômico eefeito secundário deuma mudançaquímica,
naqual novostiposdematériasãoproduzidos. Asduasconsiderações nosimpõema
conclusão de que a radioatividade é uma manifestação de mudança química
subatômica. (…) Taismudançasdiferemdascomunsporquenãoestãoentreaquelas
que se encontram sob nosso controle. (…) Nada pode ser declarado sobre os
mecanismos de mudança envolvidos , mas parece não ser descabido esperar quea
radioatividadenos proporcioneos meios deobter informações sobreprocessos que
ocorremdentrodoátomoquímico. (Rutherford& Soddy, 1902c)
Após receberemde seu investidor uma grande quantia para o laboratório, adquiriram
uma máquina de ar líquido que poderia ajudar no estudo das emanações em baixa
temperatura. Elessustentavamqueosátomosradioativos“decaem”, equeesseprocesso
representa a transmutação de umelemento pai para umelemento filho e, depois, para
umneto etc., até se tornaremestáveis. Isso se daria por uma produção de umgás da
famíliado argônio. Assim, cadaátomo passariapor umatransformação emumperíodo
característico, o seutempo dedecaimento. A idéiadeumatransformação atômica, que
no final dotextoétomadacomoumdado, foi arrasadora: elacolocariaemxequeteorias
dafísicaaceitaháséculos, umanovaalquimiaestavapor vir como sinônimo defuturo.
A questão que estava posta para Rutherford e Soddy era tornar possível o cálculo do
tempo dedecaimento decadasubstânciaradioativacommétodos bastanteclaros, pois
seelesestivessemcertos, nãohaveriaacontradiçãonoprincipiodeCarnot, clamadapor
PierreCurie. Afinal, searadioatividadedo mundo tendesseadecrescer, o princípio da
conservação de energia não seria violado. Tudo se passava como se os elementos
radioativos tivessem uma meia-vida muito maior que a humana. Dessa forma,
classificarama radioatividade como uma propriedade fundamental da natureza, capaz
desereunir aoseletogrupodaeletricidade, do magnetismo, daluz edagravidade. Uma
inovaçãoetanto!
Os Curie continuavam preocupados com suas condições de trabalho, o
laboratório que dispunham (se é que podia ser chamado com esse nome) não
apresentava as condições necessárias para a continuação das atividades. As pesquisas
sobre a radioatividade, para o bemou para o mal, estavam sondando o interior do
átomo, e isso, sem dúvida conduziria à necessidade de mais equipamentos que
pudessemdar contado problema. Pierretentoupleitear equipamentos queservissemas
pesquisas, pediu emprestado a colegas; se desdobrava. Quando receberamRutherford
emseu estabelecimento laboratorial para dar-lhe a amostra de rádio, o maior de seus
concorrentes disse: “deve ser horrível não ter umlaboratório” (ajuc Goldsmith, 2006:
Qual é a origemda energia?
116
78). E o químico WilhelmOstwald observou numoutro momento: “insisti emver o
laboratório. Parecia umestábulo ou umdepósito de batatas e, se não tivesse visto a
mesa de trabalho comequipamentos de química, acharia que estavammentindo” (:c.,
:l:c.). O laboratório que lhes faltava iria custar muito caro. Eles estavamemgrande
desvantagemcomosoutroscientistas, como notouMarieCurie. Olaboratório éafonte
depoder defazer-falar os fenômenos danatureza, éo dispositivo quetornapossível o
cientista testemunhar não somente a existência de um determinado fenômeno, mas
também os feitos das entidades em questão (Latour, 1994; Stengers, 2002). Como
avanço das pesquisas, e sem os recursos necessários, os Curie sabiam que não
conseguiriamfazer frenteaosnovosexperimentos, quer dizer, aos“contra-laboratórios”
(Latour, 2000) quecolocavamemxequealgumas das hipóteses quehaviamlevantado.
Ouseja, tornar-se-iaquaseimpossível fazer aradioatividadetestemunhar deumaforma
diferentedaquelaboratóriosdegrandepoder agenciavam...
Mas os mecanismos de poder, bem como os bloqueios que os seus
escalonamentospropiciavam, não cessavam. Alémdasdificuldades como laboratório e
da frustração da vaga de mineralogia na Sorbonne, Pierre foi encorajado por alguns
amigos, nosegundotrimestre, apleitear avagademembronaAcademiadeCiências. A
instituição demaior prestígio do ramo daCiêncialhepropiciariaaltas bolsasdeestudos
– que, deumaformaoudeoutra, setransformariamemequipamentosdelaboratório– e
tambémapossibilidadedeapresentar seusprópriostrabalhosaossábios, assimcomo os
de Marie Curie, sem precisar estabelecer relações políticas com terceiros. Após as
inúmeras “visitas” a membros, vários deles decidiramapoiar sua candidatura, o que
possibilitaria uma competição diferente da primeira. Emnove de junho de 1902, ele
informaoamigoGeorgeGouysobreoresultado:
Como vocêprevira, a eleição foi favorável a Amagat, quetevetrinta e dois votos,
enquantoeutivevinteeGernez seis. Lamento, considerandotudo, ter pedidotempo
e feito as visitas, para chegar a esse brilhante resultado. A sessão apresentou-me
unanimemente como primeira escolha e lhes permiti que assim fizessem. Mas
Amagat fez um grande esforço, enfatizou sua prioridade, sua idade, e também
apresentou-secomo umhomemperseguido. Emúltimainstância, estou convencido
de que Becquerel, embora se declarassea meu favor, fez jogo duplo. De qualquer
jeito, tenhocertezadequeeleficousatisfeitopor eu nãoter entrado etambémacho
quedeveter votado emAmagat. Alémdisso, Amagat tevetodos os votosclericais e
osdatotalidadedosacadêmicosmaisidosos. (PierreCurieajuc Quinn, 1997: 194)
Desdeo iníciodocontatocomBecquerel, ocasal Curiereclamavadotipoderelaçãode
poder que mantinham. Tinham, o tempo todo, que ceder favores a Becquerel –
instrumentos, amostras de rádio, explicações etc. –, em troca das apresentações na
Qual é a origemda energia?
117
Academia. ParaPierre, seBecquerel o apoiasse nacandidatura, perderiasuatutelaem
vários aspectos. A movimentação dos Curie na Academia estava sob o controle do
prestígiodecientistasmaisbempostadosedemaior envergadura: ostextos, osprêmios,
as notificações tudo passavapor essetipo deestratégia. Os Curie sabiamqueeramde
fora, desiguais, cadaumàsua maneira. Essas relações dedesigualdadetornamclaras,
mais uma vez, o caráter heterogêneo do poder, e fazem cruzar outros marcadores
igualmente importantes. As relações envolvendo o sexo masculino, não erammenos
conflituosas do que como sexo feminino. Entretanto, e por outro lado, o domínio da
complementaridade sexual operativo no casal Curie era arrebatado pelas relações de
forçaentre“os” cientistas, quer dizer, essas batalhas einterdições dePierrecertamente
ressoavampara Marie Curie, para as interdições e os bloqueios exercidos sobre ela.
Nesse movimento é possível observar o “contrapoder” exercido pela radiopolítica
emanando não apenas nos instantes emquesedeslocamas relações depoder exercidas
sobre casal Curie, mas também nos momentos que Marie Curie ocupa territórios
masculinos, ouquandoPierrefogedecertosbloqueiosimbricadosnofatodenãoser um
Nc:taI:.t, abrindoespaçoparaaprópriaesposaetc.
Depoisdeinúmeroscálculosfalhos, MarieCurieconseguiu, emjunho, mostrar o
peso atômico do rádio: 225,93
90
– o queseriaumdos feitos mais importantes daquele
momento. Conseguiu o cálculo ao ter emmãos umdecigrama do material radioativo,
após inúmeras manipulações químicas, toneladas de pechblenda processadas e
cristalizações fracionadas. O rádio deixaria de ser uma hipótese para se tornar uma
realidade; cravava a existência da natureza elementar “singular” de matéria ativa
(colocando-se ao lado de urânio e tório), mas também da radioatividade, que era
somente uma hipótese, ou melhor, muitas delas. Era a única prova material da
radioatividade, seja de Pierre, Rutherford ou de qualquer outro. Esse trabalho em
química foi feito sozinho por Marie Curie e publicado da mesma forma. A “primeira
pessoa” emquefoi escritoacomunicaçãonãodiz outracoisa:
Levei quase quatro anos para produzir o tipo de evidência que a ciência química
exige, mostrando verdadeiramentequeo rádio éumnovo elemento (…) segundo o
seupesoatômico, eledeveráser colocado natabelaperiódicadeMendeleiev depois
dobário, natabelademetaisterrososalcalinos. (MarieCurie, 1902)
Quando Mendeleiev recebeu a notícia ficou muito intrigado, emeses depois estava na
Françaparaconferir o fato comseus próprios olhos. Becquerel recebeu o químico em
90
Hojeovalor dopesoatômicodorádioé226.
Qual é a origemda energia?
118
suacasa, e logo Mendeleiev se dirigiu ao “galpão debatatas” ondeo rádio havia sido
isolado. Teriaquerever alguns aspectos dalei periódica, epassouatrocar informações
comMarie Curie para poder estudar mais tal assunto. Mas mesmo antes de tal fato
acontecer, orádioganhouseuespaçoemalgumastabelasnonúmero88, quecirculavam
entreacomunidadecientífica. Mas não emtodas (pelo menos não nas deMendeleiev).
O químico trataria esse assunto na sexta e na sétima edição da C:tcv, !:t:: (1903 e
1906). MarieCurieconseguiu “provar” a existênciado rádio como elemento químico,
terminando comas hipóteses que tentavamfalsificá-lo, e mais, fez comque o rádio
mantivesse, por analogia, o estatuto de elemento radioativo para o tório e o urânio.
Enquantoasquestõesdefísicaestudadaspor Pierreestavamsendocolocadasabaixopor
Rutherford, aquímicadeMarieCurienão só despontava, mas justificavao trabalho de
ambos.
As promessas terapêuticas do rádio repercutiam cada vez mais e, assim, a
AcademiadeCiências custeouparaos Curievintemil francos destinados à“extração e
purificação de matérias radioativas” (Eve Curie, 1943). A Sociedade Central de
Produtos Químico, sobadireção deDebierne, começouaprodução derádio emescala
industrial, processando cinco toneladas depechblenda. A empreitada ocorreu semfins
lucrativos e com a tutela do governo francês. Simultaneamente, o preço do rádio
começou a subir semprecedentes e as bolsas de valores aumentamsuas especulações
sobre o produto químico. Cada vez mais a diferença criada pela radioatividade e os
radioelementos ia diferindo dos fenômenos conhecidos, e sua proliferação conectava
cadeiasdeordensdistintaseasagenciavasegundoseusestratos, multiplicidadesfísicas,
químicas, médicas, econômicas, sexuais e políticas que foram arrebatadas nesse
“entretempo” que o acontecimento potencializou. Emmeio a essa multiplicidade de
acontecimentos, épossível perceber umduplo agenciamento: quanto mais osCurieeos
outros cientistas se movimentavamno laboratório, mais mostravama radioatividade e
os radioelementos para o mundo; e quanto mais as entidades desenhavam-se como
Entidades, mais mostravamosgrandessábiosparao mundo
91
. Masumacoisaeracerta,
o nomedos Curieestavaindissociavelmenteligado àradioatividade, o queos fazia“ir
junto” comofenômeno, eissoéumacoisamuitorara. TãoraroquantoeraMarieCurie,
uma completa exceção emmeio à imagística sexual. Foi ela quemcriou o dispositivo
91
EssareflexãoestáemLatour (2003)
Qual é a origemda energia?
119
experimental da radioatividade, dando as bases para a descoberta em questão, mas
tambémfoi elaquedescobriuepurificouo“elemento-santo”.
No segundo semestrede1902, o antigo professor deMarieCurienaSorbonne,
agora novo reitor, Paul Appell, escreveu a ela tentando ajudar o casal comalgumas
“conseqüências práticas”. Ele avisaria que Pierre estava cogitado para a Legião da
Honradopróximoano– homenagemdegrandeprestígio feitapeloGoverno francês– e
queisso lhetrariaboasrecompensas. Appell dizianacarta:
Conversei váriasvezescomoreitor Liardsobreosbelostrabalhos dePierreCurie, a
insuficiênciadainstalação queeletrabalhaeo interessequehaveriaemdar-lheum
grandelaboratório. Liard falou dePierreCurieao ministro e, para isso, escolheu o
momentodaapresentaçãodasualistadepropostosparaaLegiãodaHonrade1903.
O ministropareceinteressar-sepor PierreCurie– etalvez queirarevelar ointeresse
condecorando-o. Realizada a hipótese, eu vos pediria para empregar toda vossa
influência para que Pierre não recuse. A coisa emsi evidentemente não significa
nada; mas doponto devistadas conseqüências práticas – laboratórios, créditos etc.,
temconsiderável importância. Peço-vosparainsistir comPierre, emnomedaciência
edos altos interesses daFaculdade, paraqueelesedeixecondecorar. (ajuc Quinn,
1997: 195).
Contudo, tal honraria estava dentre os “altos interesses da faculdade”, que sempre
fechou as portas para o cientista. Indignado com a situação, recusou a “Legião da
Honra” do Ministério da Ciência dizendo: “Peço que agradeça o ministro e informe a
elequeemvez dehomenagenspreciso, issosim, deumlaboratório” (PierreCurieajuc,
Goldsmith, 2006: 83). A irritação dePierre não eradespropositada. Parase manter na
luta que travava com os outros pesquisadores precisava de um laboratório e, com
Rutherford iniciando suas pesquisas como rádio doado por ele, a pequena vantagem
quetinhamseesvaziava.
No segundo semestrede1902, MarieCuriepassouasededicar integralmenteà
suatese, poispretendiadefendê-lano início do ano seguinte, enquanto Pierrepublicava
algumas questões sobre a radioatividade induzida e a “transferência de energia” dos
corposradioativos. Foi quandoreceberamumavisodequeumfísicoalemãoeprofessor
da Universidade de Berlim, chamado Willy Marckwald, havia feito um comentário
sobre o polônio alémde ter enunciado a descoberta de umnovo elemento químico,
chamado radiotelúrio. O comentário do cientistasobreo polônio eraum“xeque-mate”
emsua existência enquanto elemento, feito combase na nota dos Curie sobre o seu
desprendimento anormal de energia. Marckwald acrescentava que o novo elemento
(radiotelúrio) era muito próximo ao de Marie Curie, mas comdelimitações exatas. O
Qual é a origemda energia?
120
polônio, segundo ele, erapartedadesintegração radioativado seunovo elemento, enão
opróprioelemento.
Em dezembro, Marie respondeu Marckwald na mesma revista em que fora
publicadaacrítica, retrucandoque: 1) nãodissemosqueopolônionãoeraumelemento,
mas simqueera(ainda) impossível isolá-lo; 2) combaseemobservações preliminares
observei queasubstânciaradioeleutério éamesmo queo nosso polônio. Emseguida, o
cientista publicou uma nota de tréplica dizendo: “está distante de meus pensamentos
diminuir o imortal méritoalcançadopelosCurie, maridoeesposa, pelasdescobertasdos
novos elementos radioativos” (ajuc Quinn, 1997). E concluiu afirmando que a
substânciaquedescobriraeradiferentedopolônio
92
.
MarieCurieeraamaior representantedoselementosradioativos, seudispositivo
experimental não só criouo método parafazê-los existir, mas tambémdefazer calar os
concorrentes. Todo e qualquer elemento radioativo, passaria por sua tutela de algum
modo, seja por sua confirmação ou pelo método que inventou. A radiopolítica
constituída por meio desse conjunto de correlações de força, que deslocava focos de
poder encampados pelo “dimorfismo sexual” eainferioridade biológicadas mulheres.
Se a funcionalidade do poder da complementaridade sexual era fundada na diferença
intelectual entre homens e mulheres, cortava todo o tecido social como objetivo de
manter atutelado homemperanteamulher, demodo quearadiopolíticasetornouum
grandefoco deresistência, queabriafissuras no poder. Seaindadiscursava-sesobreos
feitos do casal, ou sobre os feitos de Pierre Curie, Marckwald não seria o primeiro a
separar “marido e mulher”, dando outro estatuto a Marie Curie que exercia uma certa
autoridade.
Ora, foi “em nome da ciência da radioatividade” que homens e mulheres
acabaramlevados pelo devir-mulher (que não pode ser confundido comas mulheres)
que a radiopolítica carregava, autorizando Marie Curie, essa anômala
93
que ganhava
mais e mais força, figurar entreeles. Ora, foi o programadetrabalho “emquímicado
objeto” que arquitetou Marie Curie como uma autoridade em relação aos novos
92
MarieCuriesóretomariaessacontrovérsiaemtornodopolônioem1906. Descrevo-ademodo breve
(elamesmafoi mesmobreve), noterceirocapítulo.
93
“Pode-se observar que a palavra anômalo, adjetivo que caiu em desuso, tinha uma origem bem
diferentedeanormal: a-normal, adjetivo latino semsubstantivo, qualificao quenão temregraou o que
contradiz aregra, aopassoqueoadjetivoa-nomalia, substantivogregoqueperdeuseuadjetivo, designao
desigual, o rugoso, a aspereza, a ponta de desterritorialização. (…) Os feiticeiros se utilizamentão do
velho adjetivo anômalo para situar posições do indivíduo excepcional na matilha. (…) Nemindivíduo
nemespécie, o que é o anômalo? Umfenômeno, mas umfenômeno de borda.” (Deleuze & Guattari,
1997a: 24-27).
Qual é a origemda energia?
121
elementos radioativos: apurificação do rádio foi suamaior realização. Semsombrade
dúvida, o poder do dimorfismo sexual foi tomado pela “agramaticalidade” de seu
exercício, ele próprio como devir, que não parava de “gaguejar”, transformando-se de
forma quase imperceptível (Deleuze & Parnet, 2004)
94
. Mas essa resistência ao poder
queosexoexerciaequeerapróprioàradiopolítica– essecontra-poder – nãoestavaem
exterioridade relativamente à sua força, mas antes, era imanente a ela e a todas as
relações (sexuais, políticas, econômicas, científicas) que arrebatavamos cientistas de
forma móvel e transitória. Desse modo, as relações de força se modificavamemseu
próprio exercício, reforçando certos termos e enfraquecendo outros, possibilitando a
MarieCurieexercer umaautoridadenoterritórioquecriou.
Por contadessetrabalho, três prêmios foramconcedidos aeles no final do ano:
Marie Curie recebeu sozinha pela terceira vez o prêmio Gegner da Academia de
Ciências de Paris, e com Pierre (dessa vez dividindo o prêmio e não como uma
colaboradora), receberam a honrosa medalha Berthelot, também da Academia de
Ciênciase, por último, oPrêmiodaFundaçãoDebrousse.
No· oa·|¦oo|e· oo Nooe¦
No ano de1903, os Curie jáerammundialmente famosos, e játinhamnotícias de seu
reconhecimento internacional. No entanto, fora Pierre quemrecebera umconvite para
proferir uma conferência na ¹c,aI ·c.:.:, de Londres – a primeira Academia de
Ciências do planetaeumadas mais reconhecidas
95
– sobreas propriedades magníficas
do rádio. E apesar dos bloqueios constituídos pelas estratégias do poder da
complementaridade sexual, Marie Curie se preparava para ser a primeira do sexo
femininoadefender (comousemsucesso) tesededoutoramentoemfísica
96
.
94
Desse modo específico da complementaridade sexual que estou tratando, haja visto o seu caráter
relacional (homens nemsempresão maioria), “as mulheres, sejaqual for seu número, são umaminoria
(…) elassócriamtornandopossível umdevir, doqual nãodetêmapropriedade, noqual elasprópriastêm
de entrar, um devir-mulher que diz respeito ao homem por inteiro, homens e mulheres inclusive.”
(Deleuze& Guattari, 1995a: 134).
95
Parasaber maissobreesseassunto, ver Latour (1994), emespecial ocapítulo“Constituição”.
96
Nessemomento, MarieCuriesabiaqueestavagrávidadeumamenina, novamente. Essamençãopode
parecer deslocada de sentido, ou mesmo fora de lugar. Mas a despeito de tantas outras mulheres de
ciência que evitavam as relações propriamente femininas, Marie Curie nunca se indispôs com essas
características. Pensava o tempo todo emser uma boa mãe, emcuidar bemde casa etc. (Marie Curie,
1963). Quer dizer, emnenhummomentoMadameCuriesemasculinizououlutoucontraascaracterísticas
atribuídasaofeminino.
Qual é a origemda energia?
122
Várias comunicações foramapresentadas pelos cientistas concorrentes no início
doano. Entreoutras, Henri Becquerel (1903a; 1903b), querefez algunsexperimentosde
Rutherford sobre os raios Alfa do rádio, comparando com o polônio, para ver se
apresentavamos mesmos efeitos. O rádio erao ponto demedida dos outros, uma vez
que havia sido isolado e já era umelemento químico existente. Pierre Curie (1903)
97
,
por sua vez, fez um estudo sobre a radioatividade induzida no qual calculou a lei
exponencial dediminuição desuaatividadeno tempo emcorposnão ativos. Ocientista
francês voltaria a discordar de Rutherford emrelação à emanação radioativa, dizendo
que não haveria razões para aceitar a teoria da transmutação, pois, segundo ele, a
energiados elementos radioativos eraconstante, enão diminuiriacomo tempo. Além
disso, manteve sua posição quanto à “fonte externa” da radiação e a variação do
princípio de conservação de energia. Debierne (1903) tambémapresentou umestudo
sobre o poder da radioatividade induzida do actínio aplicando a lei exponencial que
Pierrehaviacalculado.
Ótimas notícias sobreas atividades terapêuticas do rádio: as pesquisas médicas
começaramadar osprimeirosresultados. Entreoutrascomunicaçõesdediversospaíses,
umfisiologistafrancês chamado Danysz apresentouumacomunicação naAcademiade
Ciências intitulada “A ação patogênica dos raios e das emanações emitidas pelo rádio
emdiferentes tecidos eemdiferentes organismos” (1903). Usando sais derádio (aessa
altura, 500 mil vezes mais ativos que o urânio) doados pelo casal Curie, o médico
verificou os resultados de uma aplicação, em cobaias e em humanos, em alguns
minutos. Segundo Danysz, determinadas epidermes são destruídas completamente
regenerando-se de forma normal após alguns dias. Tambémfez experiências comos
sais de rádio na destruição de micróbios e outros tipos de organismos que causavam
doençaemhumanos epercebeusuaeficácia. Por outro lado, viu-sepelaprimeiravez o
trabalho de Bohn (1903), segundo o qual uma exposição longa aos efeitos do rádio
poderiacausar amorte, segundoexperiênciascomcobaias.
Nesseperíodo, aentidade(rádio) queMarie Curiehavia isolado, eracotadana
bolsadevaloresemalto custo, tornando-seo elemento químico mais valioso dahistória
atéaquele momento. Essevalor eradevido àgrandeprocurapor partedos industriais,
que já buscavama extração do elemento químico para fins da indústria médica. Se o
97
É interessantenotar queessefoi oprimeirotrabalhodos Curiequenãofoi apresentadopor Becquerel.
Imagino que a essa altura a relação entre eles estava desgastada, e a singularidade do que criaram
certamentemobilizounovosinteressados. A notafoi apresentadapor Potier.
Qual é a origemda energia?
123
nomedos Curiepassouaser conhecido pelos populares naFrança, edepois no mundo,
foi devido aorádio ter sido associado àcuradetiposdecâncer. Ointeressepor parteda
medicinaemrelaçãoàdestruiçãodecélulasdoentescausouumnovo impacto, poislogo
“oRádiocuralúpus, tumores, ecertasformasdecancro”.
Pierrevoltariaaestudar aemissãoespontâneadecalor dorádio(1903). Percebeu
que “umgrama de rádio depreende uma quantidade de calor que é da ordemde 100
pequenascaloriaspor hora” , econtinua:
o desprendimento contínuo dessaquantidadedecalor não podeseexplicar por uma
transformação química ordinária. Se alguémprocura uma origemdo calor numa
transformação interna, essa transformação deve ser deuma forma muito profunda,
causada pela transformação do rádio. Se a hipótese precedente é exata, a energia
posta emação pela transformação dos átomos seria extraordinariamente grande. A
hipótese de uma modificação contínua do átomo não pode ser compatível como
desprendimentodecalor dorádio. Odesprendimentodecalor sópodeser explicado
se o rádio utilizar uma energia exterior de natureza desconhecida. (PierreCurie&
Laborde, 1903).
Pierrenão aceitavademaneiranenhumaateoriadeRutherford, eeraresistentetodo o
tempo. Ocientistaneozelandês, por suavez, escreveuumartigoemfrancês(nãoemseu
inglês nativo) para¹!:Ic:cj!:.aI ìa¸a.:t. (1903), no qual concluíaque: “o Sr. Curie
aparentementenão viuo meuúltimo artigo. À luz dessesresultados, ateoriaalternativa
propostapelo Sr. Pierrepareceinútil” (ajuc Goldsmith, 2006: 90). Ofato éque, muito
provavelmente, foi isso queaconteceu: Pierre não conheciao artigo. Rutherford havia
mostrado, comSoddyesuamáquinadear líquido, queaemanaçãoradioativa– pensada
como parte de uma transmutação atômica – tinha como umde seus resultados um
desprendimento contínuo de calor. Ele corrigiu Pierre respondendo cada umde seus
argumentos, e afirmou que “não disse que era uma transformação química ordinária,
masumamudançasubatômica”.
SoddytrocouMontreal eatuteladeRutherfordpor Londres paratrabalhar com
WillianRamsay, emCambridge. Emmaio do mesmo ano, SoddyeRamsaymostrariam
algo que deixaria Pierre Curie mais abalado. Provaram que as transformações da
emanação do rádio produziamgás hélio. Isso conformariaempiricamenteahipótesede
Rutherford, eseriaoprimeiroexemplodeumatransformaçãodeelementosquímicos. O
desprendimento radioativo produzia outro elemento. Pierre não aceitava que uma
energiatão grandeviessedeumatransformação autodestrutivado próprio material, que
eraquaseínfimo e, emsuas mãos, constanteno quediziarespeito àenergia. Rutherford
Qual é a origemda energia?
124
já havia sondado ahipótesedequeagrandequantidadedegás hélio na atmosferaera
produtodastransformaçõesradioativas– RamsayeSoddymostraramqueeraumfato...
Acompanhando delado as batalhas científicas, MarieCurieteveseumanuscrito
aceito na Sorbonne para a defesa de sua tese, marcada para junho. No intervalo, os
Curie estariamemLondres, no ¹c,aI 1t::::u: para as conferências de Pierre sobre o
rádio. LáMarieCurieviu, novamentedaplatéia(aimagísticasexual eadistribuição de
seupoder não permitiaumamulher no palco ministrando aulas paradecanos dafísica),
aforçadaquilo quehaviaisolado comseudispositivo experimental. Grandes cientistas
do mundo todo, como LordKelvineArmstrong, escutavamseumarido emmeio auma
multidão de professores e estudantes, como jovens em seu primeiro curso na
universidade. Os dois reconhecidos cientistas tomaramciência das críticas de Pierre
Curie à transmutação atômica, da qual também eram extremamente resistentes,
engrossando afiladoscéticosemrelação àsteoriasdeRutherford. E então receberama
informação dequeos dois seriamcondecorados comamedalhaLav, da¹c,aI ·c.:.:,
peladescobertado rádio, umadas honras demaior prestígio nacomunidadecientífica.
Voltarampara Paris coma viagemde volta marcada para a cerimônia de entrega do
prêmionodia5denovembrodomesmoanode1902.
A sorte estava lançada na capital francesa. Tanto que a defesa de tese foi um
acontecimento coberto por jornais e revistas da época, o que não era comum para
qualquer cientista (Goldsmith, 2006). Uma mulher tentava o título de doutora em
ciências, privilégio que desde o início era circunscrito aos homens. Mas não era uma
mulher qualquer, apesar de ser uma mulher como qualquer outra (pois essas eram
muitas coisas). Tambémnão era uma tese comum: dissertava sobre a descoberta da
radioatividade e dos radioelementos, sendo que o rádio havia sido isolado por ela, e,
como senão bastasse, o único, o mais poderoso deles. Otexto utilizavaumaestratégia
muito interessante: escrevendo várias vezes na primeira pessoa do singular (eu fiz), a
autora separava o seu trabalho dos dos outros cientistas, inclusive Pierre. Ainda
acompanhava os avanços produzidos pela comunidade científica após suas primeiras
pesquisas comumcatálogo demais dequarentasubstâncias radioativas descobertas e,
principalmente, a formação de um novo campo de investigação em física, o maior
daquele momento, aberto com base em seu dispositivo experimental. Marie Curie
terminava com um balanço das controvérsias sobre a causa da radioatividade,
discorrendo sobreas hipóteses dePierreeRutherford entreoutros, esemostravacom
reservasemrelaçãoatodaselas, semcontudodescartá-las.
Qual é a origemda energia?
125
Como título “Pesquisa de substâncias radioativas”, ela defendeu seu trabalho,
recebendootítulodeDoutoraemCiênciasFísicascommenção “trèshonorable”. Como
um documento importante da “nova ciência da radioatividade”, a banca enviou o
trabalho parapublicação naInglaterrano C!.t:.aI N.w: deCrookes enos AttaI.: c.
¹!,::¸u. .: c. C!:t:. naFrança. Eisaprimeiramulher doutoraemciências no mundo.
Georges Gouy, o grandeamigo de seu esposo, escreveu: “Meus parabéns peladefesa,
quefoi umadas mais brilhantes ecelebradas, ajulgar o quedizemos jornais. Junto-me
ao público com meus aplausos.” (ajuc Quinn, 1997: 200). Suas alunas de Sèvres
compareceramempeso, e representavama maior parte da platéia. Se não era comum
ver umamulher defendendo doutorado namais duradas ciências, igualmenteincomum
eranotar meninasinteressadaspeloassunto...
Cada vez que um pesquisador relacionava sua pesquisa à radioatividade (ou
fazia outros não-humanos estabeleceremrelações comela), ajudava a constituir “em
nomedaciência” umnovo ::a:u: tambémparaMarieCurie, fruto da(des)continuidade
que o acontecimento produziu. Quanto mais “a” radioatividade existia, mais se
multiplicavamas linhas de força emtorno dos experimentos que abalavamo poder.
Portanto, criou-seumnovoterritório paraafísica, bemcomo umnovo território paraas
mulheres, por conta dos movimentos ontológicos de ambas constituídos nas (e pelas)
relações. Umnovo caminho para a ciência e uma fissura no poder que empurrava as
mulheres para fora. Assim, por conta de seu dispositivo experimental, estava a
radioatividade(e, portanto, MarieCurie) parao racional, assimcomo as desigualdades
degênero parao subjetivo. (Todo o inverso do quese pressupunha nas relações entre
homensemulheres).
A natureza desse processo, dos atores e das ações, só pode ser determinada
especificamentesesituada no tempo e no espaço. Só podemos descrever a história
desse processo se reconhecermos que homem e mulher são ao mesmo tempo
categorias vazias etransbordantes; vazias porque elas não têmnenhumsignificado
definitivo etranscendente; transbordantes porque, mesmo quando parecemfixadas,
elascontêmaindadentrodelasdefiniçõesalternativasnegadasoureprimidas. (Scott,
1990: 22)
Esse devir-mulher propiciado pela radiopolítica tomava os cientistas, os homens
inclusive, transformando toda e qualquer afirmação negativa em relação à
radioatividade obscurantista e irracional. O fenômeno da natureza, a radioatividade,
operava como um centro de ressonância, que obliterava as relações de poder que
tendiama excluir as mulheres da ciência – o “trabalho masculino”. Devido a essas
correlações que a radioatividade impunha, Marie Curie foi ganhando espaços no
Qual é a origemda energia?
126
agenciamento, fugindo dos focos de poder e encontrando, enfim, visibilidade na
história. O “Caso MarieCurie” fez passar umcortenas relações depoder, os atributos
positivos da oposição masculino/feminina entraram em variação. Quanto mais a
radioatividade era firmada ontologicamente, mais o poder local do gênero variava, e
mais a“senhoraPierreCurie” setornavaMarieCurie. A cientistafugiaenormementeà
complementaridade sexual, não era mais uma mulher como qualquer outra (que eram
muitas coisas). MarieCurieeracientista, doutora, descobridorado elemento-santo etc.
O quefez comessepoder seatualizasseemoutro plano, nuncadeixando decompor a
vidadacientista, exercendoseupoder emoutraslinhas.
Logo emseguida, Pierre foi receber a medalhaLav, emnomedo casal (Marie
Curienão foi pessoalmentereceber oprêmiopor contadesuascondiçõesdesaúde). Ele
recebeu uma carta da comissão de um prêmio criado em 1901, cujo primeiro
condecorado foi Röntgenpeladescobertados Raios X
98
. Essemanuscrito afirmavaque
haviamsido indicadosparaoprêmioNobel emfísicade1903, Henri Becquerel ePierre
Curie; sendo queahonrariadestinava-seàdescobertadaradioatividade. Umadescrição
distorcida da descoberta do fenômeno foi apresentada por quatro conselheiros, sendo
umdeles Gabriel Lippman, o antigo orientador de Marie e umdos membros de sua
banca
99
. A carta redigida e assinada pelos conselheiros afirmava que “aqueles dois
homens, competindocomrivaisestrangeiros, haviamtrabalhado juntoseseparadamente
e purificado alguns decigramas daquele material precioso” (Goldsmith, 2006). Marie
Curienãofoi sequer mencionadanacarta
100
.
O prêmio Nobel era muito interessante por causa da quantia emdinheiro que
disponibilizava
101
; além disso, o ¸Iatcu: de sua publicidade o tornava um tanto
98
Logo após a defesa de sua tese, no mês de agosto, Marie Curie abortou o bebê que esperava. Em
seguida, teveo diagnóstico deseu problema: anemia. Elaescreveu àirmãumacartasobreo ocorrido e
sobre a possível causa: “estou de tal forma consternada comesse acidente que não tenho coragemde
escrever para ninguém. Fiquei tão acostumada com a idéia da criança que estou absolutamente
desesperada e nada me consola. Escreva para mim, eu lhe suplico, se acha que devo atribuir esse
acontecimentoaocansaçogeral – devoadmitir quenãopoupei minhas forças. Tiveconfiançaemminha
constituição e agora me arrependo amargamente, porque paguei muito caro por isso. A criança – uma
menina– estavaemboascondiçõesevivia. E euaqueriatanto!” (ajuc Quinn, 1997: 201).
99
Lippmann afirmou anos depois que Marie era muito imatura para concorrer ao prêmio (Goldsmith,
2006: 93).
100
Muito provavelmente, Becquerel foi incluído no prêmio por suas contribuições ao estudo da
fosforescênciadourânio, queelemesmoconsideravaser adescobertadaradioatividade, mastambémpor
conta dos créditos queMarieePierrederamaeleemseu artigo“Sur unenouvellesubstancefortement
radioactive, contenuedanslapechblende”(1898): “seaexistênciadeumnovoelementofor confirmada, a
descoberta se deverá inteiramente ao método de investigação proporcionado pelos raios Becquerel”.
Quantoamimjádiscuti porqueBecquerel nãodescobriuaradioatividade.
101
Alfred Nobel, grande cientista, deixou sua fortuna proveniente da indústria de dinamites para que
grandescientistasfossempremiadosdeformagenuína. Apesar denãosetratar deumprêmiotradicional
Qual é a origemda energia?
127
respeitado (Crawford, 1984). Para se ter uma idéia, todas as premiações dadas pela
AcademiadeCiênciasdeParisduranteumanotodo, emconjunto, nãoatingiamnemde
perto o valor concedido pelo novo prêmio. Mas do ponto devistado prestígio, não se
comparava, por exemplo, à medalha Lav, da ¹c,aI ·c.:.:,, que era muito mais
tradicional. PierreCurie, por suavez, enviouumacartaderespostaaEstocolmo: “seé
verdadequepensamseriamenteemmim, desejo muito ser considerado juntamentecom
MadameCurie, comrelação ànossapesquisasobrecorpos radioativos. (…) Não acha
que seria mais satisfatório do ponto de vista artístico se fôssemos associados dessa
maneira?” (ajuc Quinn, 1997: 207). Quandoficousabendo doocorrido, Mittag-Leffler,
um dos consultores do prêmio do ano, mesmo minoritário, exerceu uma pressão
considerável paraqueacientistafosseincluída. Porém, mesmo sobalegação do“desejo
artístico”
102
de Pierre e coma pressão exercida por alguns dos conselheiros, não era
possível aindicaçãodeMarieCurie. Haviaumproblemaburocrático. Duranteaeleição,
o nome de Marie não constava entre os agraciados em1903. Aproveitou-se então a
indicação do patologista Charles Bouchard de 1902 que, naquele período, já se
encontrava fascinado com as propriedades terapêuticas do rádio, trabalhando em
pesquisas do tipo. Esticando-se consensualmente os estatutos do prêmio, Marie foi
finalmenteindicada. No jogo deforças, como Boucharderaummembro estrangeiro de
direitospermanentes, ascoisaspuderamser contornadas(Goldsmith, 2006).
Mas os Curietambémnão viajariamparaaSuéciapor contadasaúdedeMarie
Curie. Agradeceram à Academia de Estocolmo pelo prêmio e acompanharam a
cobertura jornalística de casa. O jornal L. ¹aj:c. ¹a:::
103
publicou um artigo
reclamando sobreafaltadeincentivo do Governo francês paracomos Curie: “mesmo
hoje, os poderes públicos, ministros, senadores, deputados, não sabem nada sobre o
rádio. Ele ilumina, aquece, queima tudo o que toca, e tudo de que se aproxima. Só a
autoridade pública não é afetada por seus raios.” La ´:atc. ¹.vu. outro jornal na
mesma empreitada publicou: “durante sete anos, ninguémemnosso país pensou em
entreos cientistas, eraumaoportunidadeetanto pararesolver os problemas financeiros, alémdisso, ele
tinhaumacoberturadeimprensaexcepcional.
102
Nãoentendi oquePierrequis dizer comdesejoartístico. Talvez umapelodeaportepró-MarieCurie
não cairiabem... E, como o prêmio Nobel estavaemconstituição, eapelavaparaumafortepropaganda
aos populares paraser reconhecidoentreos grandes prêmios (diferentementedos outros quecirculavam
entreoscientistas), umcasal premiadopoderiaser umforteatrativo.
103
Logo após o anúncio dos vencedores do prêmio Nobel, alguns artigos dejornal forampublicados no
final de1903enoiníciode1904. Utilizocomo fontesobreacoberturajornalísticapartedapesquisade
Quinn(1997), comojáanunciei naintrodução. Asfontesestãolocalizasentreaspáginas210e220desua
biografia.
Qual é a origemda energia?
128
recompensar essesadmiráveiscientistas, quefizeramessanovaconquista… Foi preciso
agenerosidadedo estrangeiro. Paraos franceses o prêmio Nobel paraos Curieera, ao
mesmotempo, umaglóriaeumavergonha.”
As relações de poder que envolviama nacionalidade polonesa de Marie Curie
ainda apareceriamde forma eclipsada, deslocada, emrelação ao eugenismo do jornal
francêsLL.Ia:::
a supremacia da França não sedeve à organização ou à assistência que o trabalho
científico recebe emnosso país. Relaciona-seunicamentecoma especial forma de
inteligência, comacapacidadededuvidar metódicaedesinteressadaquecaracteriza
amentefrancesa. (…) MadameCurienasceupolonesaeéfrancesapor adoção. Ela
adquiriuumdoutoradoemfísicaaqui etrabalhoucomoprofessoraemSèvres. Então,
nãovamossofismar sobrequestõesdenacionalidade.
Esseafrancesamento dacientista– fruto daradiopolítica– tornou-senecessário, afinal
os poloneses eram infinitamente inferiores aos franceses, racialmente inclusive (e,
portanto na inteligência)... Talvez tal descobertanão poderia ter sido feita se Madame
Curienãotivessesidotomadapelo meio francês!
ContraasversõesemqueMarieCurieeradescritacomo auxiliar deseumarido,
umjornal feministachamadoL. ¹ac:.aI marcouumponto:
o rádio foi descoberto por MadameCurie… Desafiando o dogma deque mulher é
inferior, prestou-seuma homenagempúblicaaMadameCurie, comaconcessão de
uma soma surpreendente. Então, como a norma do matrimônio é de que o marido
temo gozo, o benefício e a plena posse de tudo o que pertence à sua esposa, Sr.
Curie foi associado a Madame Curie, na partilha da cem mil coroas do prêmio
Nobel, comMonsieur Becquerel.
E oNcuv.II.: 1IIu:::..: afirmou:
seriaumerroacreditar queépor causadosentimentodegentilezaconjugal queoSr.
Curie quis associar a sua mulher à honra da descoberta. Nesse lar de cientistas
casados a mulher não é uma auxiliar, mas, com toda a força da palavra, uma
colaboradorae, naverdade, freqüentemente, ainspiradoradeseumarido.
A moleculariedade da radiopolítica e as suas relações inspiravamcombates de toda
ordem, enão paravadefluir, detransformar aordemdo gênero edanacionalidade, de
revirá-los, como uma força que faz comque o poder tenha de atualizar-se. Digo isso
porque o realismo produzido pelo dispositivo experimental de Madame Curie abria a
possibilidadeparauma políticaque(des)caracterizavaadesigualdadedegênero numa
espéciefetichesexista, ouseja, numaideologiadiscriminatória. A suasingularidadenão
cessoudeiluminar as estratégias depoder etrazê-los àtona, criando umproblemapara
certosmecanismosvigentes. Oquenãoquer dizer quepararamdefuncionar...
Qual é a origemda energia?
129
No discurso de entrega do prêmio, mais algumas distorções foramfeitas. Os
acadêmicos, muitoprovavelmente, ficaramirritadoscomafaltadosCurienacerimônia.
Pelo menos não havia motivo para Pierre não receber o prêmio Nobel, como havia
ocorrido em Londres, onde recebeu em nome de sua esposa adoentada. Assim,
Becquerel ficou com todos os créditos da descoberta da radioatividade. Segundo o
discurso, o cientistarecebeuo prêmio “emreconhecimento dosserviçosextraordinários
que ele temdesenvolvido coma descoberta da radioatividade espontânea”. Os Curie
receberam o prêmio “em reconhecimento aos extraordinários serviços que eles têm
desenvolvido comsuas pesquisas conjuntas sobre o fenômeno da radiação descoberto
pelo professor Becquerel”
104
. O relatório lido na Academia sobre a história da
descoberta ainda dizia que os Curie haviam sido ultrapassados por outros cientistas
(comcertezaRutherfordeSoddy), mas queisso não lhes tiravao mérito deteremsido
ospioneirosedesenvolvidotrabalhosinteressantesnaárea.
No discurso deentregado prêmio, feito por umrepresentantedaAcademiade
Ciências sueca, a cientista foi tratada, mais uma vez, como uma mera assistente de
pesquisa dos outros dois “vencedores”. Ainda na cerimônia do prêmio, um
representantedaacademiacontinuou:
O grandesucesso do professor eMadame Curie(...) faz-nos ver a palavra Deus a
uma luz totalmente nova: não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma
auxiliadoraquelhesejaidônea. (ajuc. Goldsmith, 2006: 96)
O Nobel foi dividido emduas partes, metade para professor Becquerel, da influente
linhagemda AcademiadeCiências dequeproveio, emetadeparao professor Curiee
sua esposa (“o casal”, visto como umsó). As resistências à inserção das mulheres na
Ciência tambémse tornamvisíveis nas condecorações emque “a” radioatividade foi
premiada. Opoder degênero, nacionalidadeeoutroscortesconferidoàorganizaçãodas
relações era substancial, e a invisibilidade das mulheres na história da ciência não é
acidental. Contratal invisibilidade, Mariefoi umadas primeiras aseesquivar por meio
da vitalidade da radiopolítica, que fez a cientista fugir da história convencional das
mulheres.
Se Marie não produzisse um dispositivo experimental que convencesse os
cientistas daquilo que estava falando, não haveria ajuda de Pierre. Então, não haveria
nada de laboratório e muito menos radioatividade. E semesta, não haveria colegas
cientistas pesquisando o assunto nemtampouco toneladas de pechblenda. Comisso,
104
Ver www.tcl.Ij::...c:¸.
Qual é a origemda energia?
130
adeus ao rádio, àopinião favorável da Curieterapia eaos financiamentos provenientes
dela. Enfim, nadadeprêmios, e, provavelmente, nadademulher (comvisibilidade) na
Ciência.
A produção de história do “Caso Marie Curie” parece ter ocorrido como uma
c:a,ac .cc:c.taca acv.::a::va. Tudo sepassavacomo setodaafirmação emrelação a
MarieCuriefosseseguidapor umaclassedepalavras comaspecto denegação (“mas”,
“contudo”, “entretanto”, “todavia”). Essaseqüênciaeradotadadegênero. Seutrabalho
científico ressoou não apenas para “positivar” a existência da radioatividade e dos
radioelementos, mastambémparareduzir aconcebidaesubstantivaquantidadedeforça
“negativa” que portava o feminino naquele território. Fazendo-se existir a
radioatividade (que passou a ser progressivamente majoritária entre os cientistas),
possibilitou-se uma fissura, uma linha de fuga (Deleuze & Guattari, 1995a) para a
produçãocientíficadeMarieCurie.
131
le··onanc¦a· oe a|¦v¦oaoe· |ao¦o¦o¦¦|¦ca· o
aqenc¦anen|o e ·eu· e·||a|o· (1'O4-1'11,
!nunoaoo· ¦e¦a |ao¦oa|¦v¦oaoe
Oprêmio Nobel de1903dariaao nome“Curie” umavisibilidademundial. A cobertura
jornalísticaquerecebeufoi amaior jávista, eessasingularidadeexpressavaexatamente
a euforia que tomou a todos. Elisabeth Crawford (1984), que historiografou os
bastidores do prêmio, percebeu muito bemque o Nobel concedido aos Curie foi um
“divisor de águas” emtermos de prestígio. Não foramapenas os Curie que ganharam
uma visibilidade até então nunca vista: o próprio Nobel não seria mais o mesmo.
Tornar-se-iaumdos prêmios mais famosos eprestigiosos, como umdesdobramento da
radiopolítica que arrastava o casal e sua particularidade. A visibilidade ao casal
decorreunãosomentedasdescobertasdaradioatividadeedorádio, mastambémdeseus
desdobramentos médicos, coma verificação das propriedades terapêuticas. Mas ainda
outrarelaçãosurgiriacompopularidadeinusitada. Ojornal L.: L:tat.!.: tornavaclara
tal proposição: “o caso demonsieur emadameCurie, trabalhando juntos no campo da
ciência, semdúvidaéincomum(...) UmIdílio numlaboratório defísica, isso jamais foi
visto” (ajuc Quinn, 1997: 211). OsucessodosCurietransformavasuapopularidadeem
umcaso especial: sabia-se de casais que trabalhavam juntos, mas emnenhumdeles
marido e mulher tornavam-se famosos juntos. Geralmente, todas as honras eram
destinadas aos homens, enquanto as mulheres, na maioria das vezes, se restringiama
cuidar daspesquisasapenascomoauxiliares.
Mas, paraosCurie, apopularidadenãoerasomenteumsinal dereconhecimento.
Eles viveriamo quechamaramdeuma“vidaestúpida”. Reclamavamquejamais iriam
voltar afazer pesquisassérias. Ascorrespondênciaseentrevistastomavamtodootempo
dos cientistas, que precisavamcontinuar seus experimentos, caso quisessemcontinuar
nacontrovérsiadaradioatividade. Essecontragosto éperceptível nas poucas pesquisas
que fizeram, mesmo sabendo quehaviaainda muito aserealizar. O fato équeaquele
momentomarcavaoiníciodeumperíodoimprodutivo. MarieCurieescreveu:
A gente fica coma vontade de cavar umburaco no chão, emalguma parte, e se
enfiar, paraconseguir umpouco depaz. Recebemos umapropostadaAméricadeir
láfazer umasériedepalestrassobrenossotrabalho. Eles nosperguntaramquesoma
gostaríamos de receber. Quaisquer que sejamos termos, nossa intenção é recusar.
Commuitoesforço, evitamos banquetes queaspessoasqueriamorganizar emnossa
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
132
honra. Recusamos coma energia do desespero e as pessoas entendemque não há
nadaasefazer. (ajuc Quinn, 1997: 216)
E Pierrecompartilhavaosmesmossentimentosemumacartaaumcolega:
Queria escrever para vocêhá muito tempo; desculpe se demorei. A causa éa vida
estúpidaquevivonomomento. Vocêviuessasúbitapaixãopelorádio, queresultou
para nós em todas as vantagens de um momento de popularidade. Temos sido
perseguidospor jornalistasefotógrafosdetodos ospaíses domundo; eles chegaram
ao ponto derelatar aconversademinhafilha esuaama edescrever o gato preto e
branco que vive conosco. Finalmente, os colecionadores deautógrafos, esnobes, o
pessoal daaltasociedadeeatéalguns cientistavieramnos visitar (...) etodamanhã
umavolumosacorrespondênciaprecisaser enviada. Nesseestadodecoisas, sinto-me
invadido por uma espéciede estupor. No entanto, essetumulto talvez não seja em
vão, seemconseqüênciaeuobtiver umacátedraeumlaboratório. (ajuc Goldsmith,
2006: 99)
A “súbita paixão pelo rádio”, sua intensidade, fazia comque os Curie despendessem
muito tempo comos curiosos, eenquanto isso, cientistas do mundo todo armavamseus
laboratóriosparaestudar aradioatividade. ElessabiamqueRutherford, Soddy, Ramsay,
entreoutros, estavamadiantadosemseustrabalhosefazendo existir umaradioatividade
quePierrenãoaceitava(paraeleaenergiaprovinhadeum“fonteexterior”); alémdisso,
os Curie sequer possuíamumlaboratório para enfrentarema competição. Toda essa
paixãopelorádionãovaleriadenadasenãoresultasseemumlaboratório. E mais, eram
necessárias boas condições de trabalho, pois o reumatismo de Pierre e a anemia de
Mariejánãopermitiamqueelestrabalhassemcomoantes. Conseqüênciadafraquezado
corpo, a primeira medida que Pierre tomou ao receber o belo montante da metade do
prêmio Nobel foi passar suas aulas naEPCI paraPaul Langevin, umdeseus melhores
alunos. Assim, ficou somente como trabalho do anexo da Sorbonne. Para ajudar no
plano financeiro, Marie Curie ainda dividiu pelas pesquisas como rádio, no início do
ano, o prêmio Osiris comEdouard Branly (que acabara de inventar métodos para a
composição do telégrafo), recebendo umaboasomaemdinheiro. MarieCurietambém
diminuiusuacargadeaulasemSévres
105
.
No entanto, a publicidade do Nobel possibilitou uma pressão considerável nas
instituições quecolaboravamcomaCiêncianaFrança. O jornal La ¹:.::. divulgouao
público a “vergonha francesa” e a incontornável indiferença para com os grandes
cientistas: “Aqui estáumfatoabsolutamentedesconhecido. PierreCuriefoi apresentado
previamente à Academia de Ciências e não foi eleito. Sim, cinco anos depois de
descobrir o rádio ele não foi considerado digno de entrar no Instituto.” (ajuc Quinn,
105
Nofinal dessecapítulo, BranlyeLangevinvoltarãoaser protagonistasdo“CasoMarieCurie”.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
133
1997: 220). A imagemcriadapelaimprensaeramuitopoderosa. Afinal, comopoderiam
aqueles cientistas que tinhamo nome mencionado em“todas as línguas do mundo”
trabalharememcondições desfavoráveis e, mais ainda, ocuparemposições inferiores
entre os cientistas? O próprio presidente da França, Émile Loubet, por conta da
repercussão, foi visitar o laboratório e declarou constrangido que havia entrado num
“galpão de batatas”. Paul Acker, do jornal L.!c c. ¹a:::, fez uma descrição bastante
eloqüentedaquelehangar daEPCI, revelando paraos franceses adurasituação emque
osCurierealizaramseustrabalhoseadívidadaFrançacomeles:
Atrás do Pantéon, numa rua estreita, sombria e deserta, como as que vemos nas
água-fortes queilustramos romances melodramáticos, a rua Lhomond, entrecasas
enegrecidas, ummiserável barracãoseerguetodo detábuas: aEscolaMunicipal de
Física e Química. Atravessei umpátio que já sofrera as piores injúrias do tempo;
depois, uma abóbada solitária onde meus passos ressoaram, e achei-me numbeco
úmido onde, entretábuas, agonizavaumaárvoreretorcida. Láo barracão seerguia,
longo, baixo, envidraçado dentro do qual distingui pequenas chamas einstrumentos
devidro devariadas formas... Nenhumrumor; umsilêncio tristeeprofundo; nemo
eco da cidade chega até lá. Bati ao acaso numa porta e entrei numlaboratório de
impressionante simplicidade: chão de terra batida e empelotada, muros de rebocos
escalavrado, tetodecaibros vacilantes eescassaluz aentrar pelas janelaspoeirentas
(...). (ajuc E. Curie, 1943: 182-183)
É interessantenotar nadescrição sensacionalista, como nemaárvoreviviabem! Como
um vírus, a radiopolítica estendia suas gavinhas aos sentimentos dos populares e
compunhaassimumaforçairreversível afavor dosCurie, osheróisdorádio. Essaforça
molecular coagiao corpo institucional francês, que não demorou aseposicionar. Não
tardaria muito paraqueessa forçacontagiasseaacademia, auniversidadeeapolítica;
abrindo um espaço para “os Curie” nesses territórios. O diretor da Academia de
Ciênciasenviou, então, umapetiçãoparaaCâmaradosDeputados, solicitandoacriação
deuma novacátedradeciências naSorbonne, acompanhadadeumsalário dedez mil
francos, a ser ocupada por Pierre Curie (Goldsmith, 2006). Mas tal cátedra não viria
acompanhada de um laboratório. Por conta da força da radiopolitica, que tomava a
opiniãopública, Pierrepôderecusá-la, eas instituiçõesenvolvidasnacriaçãodacátedra
recuaram e prometeram a Pierre um laboratório plenamente equipado, com três
auxiliares queelepoderialivrementeescolher ecomMadameCurienomeadachefede
pesquisa (Quinn, 1997). Assimque a decisão foi tomada, Pierre escreve a umamigo:
“Como você viu, a sorte nos favorece nesse momento; mas essa sorte não vemsem
muitas preocupações. Nuncaestivemos menos tranqüilos do queagora. Hádias emque
mal temos tempo derespirar.” (ajuc Goldsmith, 2006: 101). É queatéqueas vitórias
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
134
do laboratório e das boas condições de trabalho se concretizassem, os dois cientistas
mal conseguiamtrabalhar diantedos diversos afazeres queapublicidadecriara. Poucas
pesquisas foram feitas por Pierre Curie neste ano. Marie Curie, por sua vez, não
publicou nenhumtrabalho. Pelo menos na França, a radioatividade não gerou muitas
publicações, pois Becquerel e o casal Curie estavam ocupados demais com outras
coisas, enquanto partedosoutros cientistas foramarrebatados paraumnovo fenômeno.
Muitos, inclusive, deixaramdeestudar aradioatividade, quejátinhaumterritório bem
delimitado, paraseaventuraremno novo espaço depesquisados Raios N – uma nova
radiação invisível epenetrante
106
.
No que se refere às pesquisas coma radioatividade, Pierre ainda tentava levar
adiante sua discordância comRutherford, Soddy e Ramsay, e os outros cientistas que
defendiama transformação atômica. Seu primeiro trabalho publicado no ano de 1904
foi emcolaboração comumcientista inglês, J. Dewar, do ¹c,aI 1t::::u:, comquem
tinha feito contato duranteaentregada medalha Davis. Pierrepublicou umartigo que
acabou corroborando as conclusões de Rutherford, e começou a perceber a
impossibilidade de manter as suas certezas sobre a “fonte externa” que produziria a
radioatividade (Curie & Dewar, 1904). Os autores mostravam, entre outras coisas, o
decaimento do rádio – sua desintegração como passar do tempo – e, como produto
desse efeito, o desprendimento de gás hélio. Eles tambémconseguiram notar a raia
espectral dohélio, comohaviasidofeitopor RamsayeSoddynaInglaterra
107
.
Emfevereiro, Pierreforaconvidado aproferir umapalestranaSorbonne. Além
dos decanos da universidade que sempre lhe fecharamas portas, condessas, artistas,
escritores, autoridades públicas e jornalistas estariampresentes para conhecer aquela
maravilhosa substância, e aparar alguns mal-entendidos comuns sobre as propriedades
mágicasdoelementoquímico. Tratava-senãoapenasdemaisumaoportunidadepolítica
para destacar a necessidade de melhores condições de pesquisa (inclusive a
106
RenéBondlot, umfísicodeNancy relativamenteconhecido, reivindicouadescobertadeoutros tipos
deraios, o quechamou deRaios N, por contadesuacidadenatal. Publicou diversos artigos no ano de
1904, e muitos cientistas, entre eles, Jean Becquerel, Augustin Charpentier, Ed. Meyer e Bichat,
começarama estudar os novos raios. A febre dos Raios X, dos raios Becquerel e agora dos Raios N,
tomava o imaginário dos cientistas. Os novos raios também agiam no campo magnético, eram
fosforescentes, emitiamfotografias etambémpossuíampropriedades terapêuticas – nocaso, anestésicas.
Contudo, esses raios nãoresistiramaoceticismo(Stengers& Bensaude-Vincent, 1996), virandochacota
entre os cientistas dos outros campos, que rapidamente os tornaram invisíveis e irreais. Esses raios
passaramaser alimentoparahistoriadores dafísicasendo, inclusive, hoje, chamados de“anomalia” por
contadesuagritanteirrealidade, comofaz Martins(2007).
107
Ramsay ganhou o prêmio Nobel de 1904 emquímica por sua descoberta da produção de hélio em
tornodaradioatividade, eficouconhecidocomoumperspicaz cientistaemverificar gasesnaatmosfera.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
135
possibilidade não evidente de sua esposa trabalhar), mas tambémde mostrar o modo
como as pesquisas haviamsido feitas: somentecomaboavontadedepoucas pessoas e
semnenhumincentivo das instituições de renome da França – inclusive da Sorbonne.
Reproduzooiníciodapalestra:
Querorecordar aqui oquefizemosnaEscoladeFísicaeQuímicadacidadedeParis.
Emtodaprodução científicaa influência do meio ondeo investigador trabalhatem
uma enorme importância, e grande parte desses resultados obtidos vem dessa
influência. Hámais devinteanos quetrabalho naEscoladeFísica. Schutzenberger,
o primeiro diretor, eraumeminentehomemdeciência... Recordo-mecomgratidão
queelemeproporcionoumeiosdetrabalhoquandoeuaindaeraumpreparador; mais
tardeelepermitiuqueMadameCurieviessetrabalhar comigo, eessaautorização, na
épocaquefoi dada, constituiuumainovaçãonotável. (...) OsprofessoresdaEscolae
os alunos quedelásaíramnos têmsido muitoúteis. Foi entreeles quedescobrimos
nossos colaboradores e amigos – e nesta oportunidade sinto-me feliz por poder
apresentar atodososmeusagradecimentos. (ajuc E. Curie, 1943: 187)
Pierreaindadesmentiuosváriosrumoresdequeorádiocuravaváriasdoençascomsuas
“propriedades magníficas”, argumentando que muitas pesquisas deveriamser feitas, e
queconclusões rápidas poderiamser perigosas. Argumentou, por exemplo, contrauma
prática comuma essaaltura: os motivos pelos quais não se deveria beber soluções de
rádio para curar as doenças, como celebravamalguns jornais. Quer dizer, o rádio não
aumentava o apetite sexual, nemcurava doenças mentais, tambémnão aumentava o
tempodevida.
Quanto à participação de Marie Curie, percebe-se que, emalgum nível, algo
havia mudado comrelação às mulheres; afinal, a inovação para trabalharementre os
cientistas foi celebrada (por ele) no passado. A radiopolítica abriu uma nova
possibilidadeparaas mulheresdeslocando o exercício do poder noseio do“dimorfismo
sexual”, detal maneiraquejánãoeratãoestranhoassimMarieCuriefazer ciênciaentre
oshomens... A radiopolíticaquedevémdodispositivoexperimental daradioatividadeé,
na verdade, um efeito de dispersão, que engendra um conjunto de elementos
(econômicos, industriais, médicos, científicos, sexuais), “emnome da radioatividade”.
Por isso, o seu poder de resistência estava emtodos os lugares, não era localizável,
assimcomo a política sexual que cortava todas essas esferas emque ela resistia. Se,
como sugeria Foucault (1993), o “indivíduo é fruto do exercício do poder”, a
radiopolíticacomo vetor deresistênciaultrapassavaemmuito afiguradeMarieCurie,
desenraizava-a, pois fazia pulular forças de todos os lados, criando uma
“agramaticalidade” napolíticasexual quefixavahomensemulheres.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
136
Contudo, essatransformação do poder emexercício erasemprerelativa, não se
seguia sem uma rearticulação igualmente relativa dos pressupostos da
complementaridadesexual. Pierre, enão Marie, eraconvidado parafalar do rádio afim
dereivindicar umlaboratório emelhores condiçõesdetrabalho. Não queaesposafosse
invisível ou não tivesse, enquanto cientista, anecessidadedas mesmas coisas, mas era
como se os dois “fossemjuntos”, como umsó. Se o poder se transformava abrindo
espaços para Marie Curie como fruto da radiopolítica, não se deve supor que ela
estivesse numa posição exterior à distribuição binária do poder que o gênero
conformava, isto é, fora da partilha que constituía homens e mulheres. Aproximo-me
das reflexões deJudithButler em¹:clI.ta: .ct ¸.t.:c (2008: 183), pois nessecaso
também“nãosetrataaqui deandroginianemdeumhipotéticoterceirogênero, aoinvés
disso, de uma subversão interna, em que o binário é tanto pressuposto como
multiplicado, apontodenãofazer maissentido.”
Em14 de março, Pierre publicaria, comumde seus assistentes, outro artigo
sobre o decaimento do rádio, no qual tentaria ver como, a partir da desintegração,
poder-se-ia observar um padrão absoluto do tempo, medido através de curvas
exponenciais. Ocientistatomao vocabulário deRutherfordeacabaaceitando aderrota.
Emsuaspalavras:
Emumtrabalho anterior, estudamos a lei subseqüente que diminui emfunção do
tempo os raios de Becquerel deumcorpo sólido quando são expostos duranteum
certotempoàemanaçãodorádio. (...) Encontramosque, nessecaso, aintensidadeda
radiação : enquanto a lâmina é desativada é feita em função do tempo : pela
diferença dedois exponenciais. (...) Podemos interpretar teoricamenteos resultados
adotandoamaneiradever doSr. Rutherfordeimaginar queaemanaçãoagesobreas
paredes sólidas de forma a criar uma substância radioativa l, fazendo nascer uma
nova substância radioativa ., que, em si mesma, desaparece seguindo uma lei
exponencial simples de coeficiente. O poder de prorrogar a teoria precedente
buscando aquilo quea lei dedesativação deumaparedesólidaquefoi apresentada
duranteumtempo determinado durantea ação da emanação do rádio. (P. Curie&
Danne, 1904a)
Os cientistas não só concordariamcomRutherfordqueumasubstânciaradioativa– por
contadaemanação quelheéinerente– sedesintegradando origemaoutraeassimpor
diante, como tambémcalculariamminuciosamente o tempo da desintegração (a meia-
vida dos corpos), ajudando na formulação de uma equação geral da desintegração
radioativa. Umasemanadepois, PierreaindapublicariaoutroartigocomDanne(1904b)
no qual demonstraria a relação entre a emanação do rádio e a produção de um
aquecimento dos corpos que tomava contato por sua indutividade e, também, o seu
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
137
desaparecimento comotempo. Comaspesquisasavançando eoscálculosdemeia-vida
doselementossendo realizados, Rutherfordfaziacadavez maisaradioatividadetornar-
se uma transformação atômica, da maneira como a caracterizou. Nunca se poderia,
assim, chegar aumcorpo puro; e, desseponto devista, radioatividadeepurezaseriam
duas coisas contraditórias. Nesse sentido estrito, não é necessário atribuir à
radioatividadeuma“ontologiadegeometriavariável” (Latour, 1994), poiselamesmajá
évariação. O próprio PierreCurie, quando recebeu a notícia daemissão dehélio pelo
rádio, sugeriu que tal fato apontava para a desintegração do mesmo elemento. Estava
confirmado que as grandes quantidades de hélio na atmosfera eram produto do
decaimento radioativo. Pierre, aessaaltura, estavaabatido, sabiaque foravencido por
Rutherford. Em resposta à comunicação na qual Pierre aceitava a teoria da
transmutação, Frederick Soddy retrucou emtom de insulto ao cientista francês: “A
maior descobertadePierreCuriefoi MarieSklodowska. A maior descobertadelafoi a
radioatividade.” (Goldsmith, 2006: 75). Essaafirmação demonstravaquetodos sabiam
queas pesquisas embrionárias daradioatividade foramdeMarieCurie, numa inversão
dacomplementaridadesexual.
Mas tal enunciado só poderia aparecer (estrategicamente) emummomento de
insulto aPierre, por contadas relações depoder queproduziramumadesigualdadede
gênero. Por outro lado, adivisão do trabalho eraclara: Pierreiriaatrásdostrabalhos de
físicaesededicariaadescobrir acausado fenômeno; Marietrabalhariaemquímicano
isolamento dos elementos. A primeira parte do trabalho teve contribuições
importantíssimas à novaciência, mas por contada maior competição, não efetuou um
desfecho positivo; jáasegundafoi bemsucedida: o rádio não só deurealidadematerial
à radioatividade, como também ganhou uma utilidade médica, além de se tornar o
elemento mais caro do mundo. Eis aqui o golpe das circunstâncias que o próprio
acontecimento-radioatividadepossibilitou. “O falogocentrismo foi ovulado pelo sujeito
dominador, ogaloinseminador dasgalinhaspermanentesdahistória. Masnoninhocom
este ovo prosaico foi posto o germe de uma fênix que falará todas as línguas de um
mundoviradodepontacabeça.” (Haraway, 2004: 246).
No entanto, no “Caso MarieCurie”, édo dispositivo experimental quedevéma
fênix de que fala Donna Haraway: a radiopolítica – esse conjunto de relações
moleculares de resistência à política sexual de que é indissociável. A radiopolítica
subverte internamente o gênero, pois arranca Madame Curie de qualquer identidade
substancial criada pelo poder (e o transforma), fazendo a cientista “vir-a-ser” sempre
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
138
outracoisa
108
. A cientistajamais deixoudeser cooptadapelas diversas linhas do poder
sexual, que não paravam de se transformar; ao mesmo tempo, ovulava-se a
radiopolítica, essa força do dispositivo experimental emque os cientistas teriamde se
submeter nocasodetrabalhar comaradioatividade.
Para Pierre, estava comprovada empiricamente a sua própria derrota, pois pelo
menos a partir de agora, a transmutação atômica tornara-se a hipótese guia da
radioatividade, também para “os Curie”. Marie Curie descreve à irmã, nesse
“entretempo”, atristezaseu marido emrelação àtransmutação atômicacomo princípio
daradioatividade: “Todoassuntobomlheagrada, masnessedomínioeleesperaestar na
frente.” (ajuc Goldsmith, 2006:90). Mas não estava, havia sido ultrapassado por
Rutherford. Comos vários possíveis elementos (mais dequarenta) sendo identificados
como produtos da transformação radioativa, a química estabelecida mudaria
enormemente, e comela tambéma física. Todos esses elementos entrariamentão na
Tabela Periódica? Claro que não. Somente rádio, polônio e radon ganhariam seus
espaços, osoutrosnão. A TabelaPeriódicadeMendeleievcontinuariacomoestava, mas
já não eraamesmatabela; cadacasa jánão representavaumúnico elemento químico,
108
E não de Madame Curie, o “sujeito dominado”. Não há origem das relações de força; uma
intencionalidade anterior a todo o “falogocentrismo”. A tese do “Patriarcado Branco Capitalista”
(discursovazio) reaparececomastesesdosujeito(donodesuaação) quesetentadesintegrar, reduzindo
amultiplicidadedepoder (com“p” minúsculo) emumaformamúltiplaerevisadadedialética(marxista)
entre aqueles que têmo Poder (com“p” maiúsculo) e os que não têm. Isso não só torna o poder um
fenômeno negativo, uma ideologia – perde-se o seu caráter constituinte da realidade –, como torna
possível desmascará-lo emnome de ummundo melhor e responsável. Mas o que seria isso? Saberes
localizados todos são, já que os universais não explicamnada (eles é que precisam ser explicados).
Quanto a isso estou deacordo. Mas essa visão melhor, mais firmedo mundo, por partedo feminismo
implica no deslocamento de uma relação de força para outra, que certamente enfrentará resistências
inúmeras, inclusive “daquelas” que ele tenta abraçar. Não são as próprias mulheres cientistas que se
colocaramcontraasabordagensfeministas, porquesentiamqueelasferiamseuofício? (Keller, 2006). O
feminismo sedepara incessantementecomessas questões, cruzando os outros marcadores dediferença
quelhesão imanentes, como aprópriaautoranos mostra. A questão érealmentecomplexa. Haraway, a
meu ver, não fogedapolíticadaauto-identidade(do sujeito múltiplo, parcialmenteparcial) mesmo que
não inocente, ou do par “eu-nós” (mesmo que contraditório e dividido) contra o “sujeito dominador”
(geralmenteunidade)... O queaperspectivaparcial temdemais poderosapodeser perdida(suaprópria
ética), pois setorna“palavradeordem” eapontatodo o resto como inimigo, inclusiveas cientistas em
seus laboratórios quetomaramoutro caminho deluta. Sabemos dos efeitos anestésicos dedizer “o que
fazer”: bloquear, interditar todos os modos de combate em nome de um só, uma “coalizão de
identificação” queseriaomais viável, omelhor eo maisresponsável. A questãoaqui nãoérecolocar o
“olhodedeus” – aobjetividademasculinista, quepor sinal tambémsóapareceempontosdevista– mas
ver, por contraste, como o “Caso Marie Curie” pode multiplicar as formas de luta para o próprio
feminismo, fazendo dele cada vez mais multiplicidade. Assim como fez a própria Marilyn Strathern
(2006) combasenoregimedadádiva. O quequeromostrar équearadioatividademultiplicouogênero
de maneira singular, e que, nesse sentido, Marie Curienunca foi uma “galinha permanente”. Alémdo
mais, nenhuma mulher foi “passiva” dessa maneira – há vários combates, mais isso depende
integralmentedaformacomocompreendemosopoder.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
139
mas ressoava para acoplar todas as suas derivações
109
. Seu sentido mudaria
enormementecomoprodutodaradioatividade.
A ciêncianãoéfeitaemumaúnicalinhareta. TantoKelvinquantoArmstrong(e
tambémMendeleiev, que não supunha a possibilidade de tal alquimia emsua Tabela
Periódica), foram muito resistentes à idéia de uma transformação dos elementos
químicos. Exatamenteno momento emquePierredeixouparatrás ahipóteseda“fonte
externa” deenergiaeacontradição no princípio deCarnot, outros cientistas retomaram
adiscussão. LordKelvin, por exemplo, eraabsolutamentecontraastransformaçõesdos
elementos químicos, e isso, a despeito do fato de não ter pesquisas na área da
radioatividade: eraaradiopolíticacomeçandoaressoar emoutrosterritóriosdafísica. Já
não setratavasomentedaradioatividade, masdanaturezadacomposição damatéria, e,
portanto, de toda e qualquer física. Kelvin, entre outros, começaria a acompanhar as
pesquisassobreatransmutaçãoparaseposicionar (comodescrevoadiante) edefender a
natureza imutável do átomo. Para isso, argumentou que “de alguma forma, ondas
etéreas podemfornecer aenergiaatômicasobaformafamiliar decalor” (ajuc Quinn,
1997: 223). Por meio de procedimentos químicos (essa física sem identidade como
dissertaram Stengers e Bensaude-Vincent), a radioatividade começava a colocar em
xequeo centro eaunidademaisestável dagrandeepoderosaciência: afísica. Mas não
semcontrovérsias.
Quanto a Pierre, ele não mais se dirigiria – por conta dos caminhos que as
discussões da radioatividade tomaram, por toda exposição que o prêmio Nobel
implicou, etambémpelo seureumatismo etc. – parao centrodasdiscussõesdo átomo e
da matéria, mas pesquisaria questões laterais, como a aplicação médica da radiação.
Semdúvida, aaplicação médicadaradioatividadenão eraalgo demenor importância,
mas lhe custaria sair do centro das discussões da física, as quais ele mesmo ajudou a
criar. Nesse sentido, o cientista francês – apesar de deliberadamente ter dado uma
contribuição valiosaparao empreendimento – passouasepreocupar emadministrar os
efeitos damatériaradioativa. Todasuacontribuição ganhariaumaoutrarealidadeàluz
dateoriadatransmutação atômica, ecomo notousuaesposa, o golpenão foi pequeno.
Independentemente disso, o nome dos Curie jamais deixou de ser associado à
109
Tal (des)caracterização daciênciaabriu espaço paratodaumateoriados isótopos (quesignifica“no
mesmo lugar”) na Tabela Periódica, que rendeu a Frederick Soddy o prêmio Nobel de 1921. Soddy
demonstrou que os elementos radioativos podemter mais de umpeso atômico, apesar de possuírem
propriedades químicas idênticas: isso o levou ao conceito deisótopos. Anos depois provou queo rádio,
por exemplo, eraprodutodatransformaçãodourânio.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
140
radioatividade, que para além de um fenômeno da natureza, era um “território
existencial” possibilitado pelo seudispositivo experimental. Ora, Rutherfordfoi tomado
pelo devir-radioatividadeeo estendeu paraoutros cantões. A cadapasso dado por ele,
os Curie iamjunto, principalmente Marie, que tinha sob seu crivo a única realidade
material detal deslocamento
110
.
ComobemnotouosociólogodaciênciaJ. L. Davis,
emumperíodo de aproximadamente seis ou sete anos, o pessoal da EPCI havia
produzido umvolume impressionante de trabalho: eles haviamisolado três novos
elementos, polônio, rádio eactínio, etentado determinar o peso atômico do rádio;
haviam examinado as propriedades dos raios que várias substâncias radioativas
emitem; haviammostrado quehádois grupos distintos deraios radioativos, umque
transportacarganegativaeoutrocargapositiva; haviammostradoqueorádioinduz
radioatividadeemummaterial próximo, equearadioatividadenão erainfluenciada
peloestadofísicodamatéria; ehaviamdeterminadoataxacomqueumaamostrade
rádio emitecalor, esugerido quea desintegração radioativa poderia ser empregada
paraproporcionar umpadrãoabsolutodotempo. (Davis, 1995: 327)
Dessas vitórias, amaior partedo sucesso foi devido ao trabalho deMadameCurie. No
plano molecular dessas lutas em torno da radioatividade, Pierre estava à margem.
Contudo, no plano molar, MarieCurieseriasempreasuaesposa, suaajudante, aquela
quetrabalhavasobassuasorientações...
Após ter estudado junto com A. Laborde “a radioatividade dos gases que
emergemapartir daáguadas fontestermais” (1904)
111
, Pierrepõe-sedevez atrabalhar
comas atividades médicas do fenômeno. Ele mostraria comalguns colaboradores (P.
Curie, BalthazardeBouchard, 1904) váriasquestõesrelativasà“atividade” dorádioem
cobaias. Uma delas referia-se à morte dos animais em contato longo com a
radioatividade emambientes fechados. Como a radioatividade transformava oxigênio
emozônio– algoqueelejáhaviapercebidoemoutraspesquisas– osanimaisperdiama
vida por insuficiência respiratória. E, mesmo três horas após a morte do animal, seus
tecidos aindaerambastanteradioativos. Estavamanunciados os efeitos degenerativos e
perigosos do rádio para os seres humanos. Mas independentemente dos trabalhos de
Pierre sobre os perigos da radiação, verificava-se, em1904, uma grande presença de
estudos acerca da potencialidade médica da radioatividade, como os trabalhos de F.
110
EssetrabalhofabulosodeRutherfordeseuspares, bemcomoseusdesdobramentoscientíficos, eunão
poderei acompanhar. O cientista publicou uma série de artigos sobre a teoria da transmutação dos
elementos radioativos e dirigiu seus esforços para o centro da física atômica e depois nuclear. Isso
demandaria outro trabalho. Ficarei então somente com os que dizemrespeito ao meu objetivo nesta
dissertação.
111
Toda vez que compramos uma garrafa de água mineral vemos: radioatividade na fonte. Pierre e
Labordemediramaradioatividadeinduzidadevárias fontes deáguamineral daEuropacomparando-as;
algumaseramtãoradioativasqueseuconsumoimediatopoderiaser perigoso.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
141
Courmelle, G. Dreyer e C.-J. Salomonsen, J. Dauphin, C. Phisalix e V. Henri e A.
Mayer
112
.
Como aumento vertiginoso do uso descontrolado do rádio pelas classes mais
abastadas, o rádio haviacolocado o mundo numgrandedelírio, como escreveuGeorge
BernardShaw: “o mundoenlouqueceuemtornodorádio, queexcitounossacredulidade
exatamentecomo asapariçõesdeLourdesexcitaramacredulidadedoscatólicos” (ajuc
Goldsmith, 2006: 102)
113
. Apareceramtônicos de combate à deficiência mental, aos
cânceres e à falta de apetite sexual, cremes de beleza, cinturões de combate à artrite;
todos feitos àbasederádio. Como diz alei demercado, aescassez deproduto torna-o
cada vez mais caro, e é nesse momento queo rádio passa a ser visto como umótimo
investimento. Foi quando o industrial Armet de Lisle procurou os Curie para propor
umaparcerianacriação deumafábricaderádio. Tal empreendimento não só dariaaos
Curieumlaboratório euma fonte ilimitadapara apesquisa, como tambémganhos em
dinheiro. Como conta Goldsmith (2006), assim que o contrato foi assinado, Armet
contratou dois antigos colaboradores de Pierre (J. Danne e F. Haudepin) para a
produção de sais de rádio mais eficientes. Nesse momento, a pilha de lixo de
pechblendadeJoachimsthal tornara-se mais valiosaqueouro. O governo austríaco fez
suaprópriafábricaedepoisembargouasvendasatodososoutrospaíses, masautorizou
aosCuriequecomprassemumaquantiademinério apreçorazoável.
Pierreainda fariaalterações emseu eletrômetro aquartzo piezelétrico paraque
pudesseser utilizado demodo mais fácil, demodo agarantir queseuacesso fossemais
amplo: ele patenteou a invenção e recebeu parte dos lucros da venda. O mesmo não
aconteceu como rádio, pois as promessas médicas tornaramimpossível tirar proveito
financeiro. EmsuaautobiografiaMarieescreveu: “emacordo comigo, Pierrerenunciou
à comercialização da descoberta; nunca tivemos patente nenhuma, e sempre
publicamos, semqualquer reserva, os resultados danossa pesquisaeos processos que
desenvolvemos” (MarieCurie, 1963). PierreaindaenviourespostasaLuiiaIc ·c.:.:, ci
Na:u:aI ·.:.t..:
114
, nos EUA, acerca de todos os processos necessários para a
purificação e produção do rádio. Nas próprias palavras de Marie Curie, eles
“sacrificaramumafortuna” (:c., :l:c.) por nãopatentearemseusprocedimentosafimde
que outros países e cientistas do mundo todo pudessemter acesso às pesquisas e aos
112
Disponíveisnotomode1904daCctj:.: ¹.tcu:.
113
Parasaber maissobreessesmovimentosdosusospopularesdorádio, ver Goldsmith, 2006.
114
Por voltade1906, por exemplo, essafábricaultrapassaLisleesetornaamaior produtoraderádiodo
planeta. Ver Goldsmith(2006).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
142
resultadosmédicosdo rádio. Masistonão foi tão simplesassim; tratava-sedeumponto
devista.
Os Curie passaram a negar amostras gratuitas para cientistas, que acusaram
Armet de Lisle de serem os responsáveis pelo embargo austríaco, mediante o qual
somenteos Curieestavamautorizados areceber amostras por preços baixos. Assim, os
Curie também eramacusados de ficar comparte do dinheiro. Frederick Soddy, por
exemplo, escreveuaRutherford: “tenho umafortesuspeitadequeaquelemaldito Curie
fez Icll, com o governo austríaco e assegurou o monopólio sobre a mina de
Joachimsthal. (...) Ninguémconsegueobter o resíduo...” (ajuc Goldsmith, 2006: 108).
E como rápido processamento do rádio extraído do minério de Joachinstal, também
foramcriadas vendas imediatas parausos detodaaordem. Oestoque, no entanto, logo
acabou. O industrial de Lisle financiou uma expedição para ilha de Madagascar em
buscademaisminério...
O agenciamento da radioatividade colocava em cena uma multiplicidade de
relações que, semdúvida, tornaram-se indissociáveis como, por exemplo, as relações
entremedicina, gênero, economia, químicaefísica. Masapolíticamolar semprejogava
MadameCurie– emsua condição deanômala– paraaborda, fazendo comqueesses
percalços políticos caíssem sobre Pierre (o chefe), enquanto ela permanecia quase
despercebida. Esse cortepassava, semdúvida, pelo modo como o gênero distribuíaas
relações de poder, ou ainda, na formacomo acomplementaridade sexual compunhao
trabalho. Mas o fato é que Marie Curie se movimentava nesse território mesmo sem
fazer muitaspesquisas, oumesmo semparticipar das negociaçõeseconômicasdo rádio.
Aos poucos ela começava a adentrar emterritórios exclusivos aos homens de ciência.
Tornou-se, naquele mesmo ano de 1904, junto com Pierre, membro honorário da
Sociedade Imperial dos Amigos das Ciências Naturais, Antropologia e Etnografia de
Moscou, membro de honra do Instituto Real da Grã Bretanha, membro estrangeiro da
Sociedade Química de Londres, membro correspondente da Sociedade Batava de
Filosofia, membro honorário daSociedadedeFísicado México, membro honorário da
Sociedade de Fomento da Indústria e Comércio de Varsóvia. No processo de
universalização da radioatividade, há uma “evolução a-paralela” dos Curie e uma
transformaçãodoregimedepoder convencional dogênero.
E... Seasuapresençanos laboratórios (e, portanto no mundo científico) eraaté
entãotolerada:
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
143
UniversidadedaFrança:
MarieCurie, doutoraemciências, énomeada, apartir de1ºdenovembro, chefedos
trabalhos defísica(cadeiradeM. Curie) naFaculdadedeCiências daUniversidade
deParis. MadameCuriereceberá, nessaqualidade, doismil equatrocentosfrancosa
partir de1ºdenovembrode1904. (ajuc E. Curie, 1949: 205)
Eisqueacátedraeo laboratório foramdisponibilizadosparaPierreCurienaSorbonne.
Elesmesmos– Pierre, ocatedrático, eMarie, achefedapesquisas– transportaram, com
ajuda de auxiliares e alunos, os equipamentos do velho “galpão de batatas” para as
dependências novas onde se instalariamo antigo laboratório. Afinal, a universidade
haviacedido o espaço, mas não liberado recursos paraacompradeequipamentos. No
final de 1904, Pierre começa a preparar o curso novo. Madame Curie continuaria em
Sèvres.
Oano de1905seriabastanteativo politicamenteparaosCurie. Mariedescobriu
que estava grávida novamente. Se no ano anterior pouca pesquisa “séria”
115
fora feita
por contadasaúdedebilitadadeMarie– enquantotrabalhavacoordenandoapurificação
dorádio eministravaaulasemSèvres–, nesteano seuofício seresumiaemcuidar bem
da gravidez. Tinha emvista o aborto já sofrido que, segundo ela mesma, “serviu de
lição” equeforaatribuído ao excesso detrabalho. Suas atividades profissionais seriam
as aulas eaadministração políticadas pesquisas comaradioatividade– mesmo queo
méritofosseconsiderado, emsuamaior parte, domarido.
Pierre foi novamente candidato a uma vaga na Academia. Soube disso por
intermédio deÉleutherèMascart, o presidentedainstituição, queo escreveu: “vocêestá
naturalmente colocado na primeira linha, sem competidores sérios, a eleição é
infalível... É preciso que você tome coragem e faça uma serie de visitas aos
acadêmicos” (ajuc E. Curie 1949: 200). Ser indicado na primeira linha representava
uma vantagemconsiderável. Pierre era o favorito para essa vaga, visto que já havia
tentado outras vezes, eapressão públicapelasua eleição eraaessaaltura implacável.
Mas tal vantagemnão lhepossibilitavapassar por cimadas formalidades. Pierreseguiu
os conselhos deMascart efez as visitas deacordo comas possibilidades deseutempo.
“Duranteas visitas ficoucombinado cinqüentavotos”, dissePierre(ajuc Quinn, 1997),
oquelhedariatranqüilidadeparaaviagemdodiscursodoNobel.
Tendoquesepreocupar somentecomasvisitasecompoucotrabalho, amelhora
na saúde começou a aparecer. Pierre decidiu, então, viajar para Estocolmo a fimde
115
Refiro-meaqualquer publicaçãoderesultadosinovadorescomooprópriocasal decientistajulgava.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
144
fazer apalestraobrigatóriado prêmio Nobel. Essaeraumaexigênciado prêmio quefoi
recebido em1903. No entanto, naépoca, por questões desaúde, eledeixouderealizar
tal tarefa. Marietambémfoi convidadaparaacerimônia, mas não como palestrante. A
escolha do período não foi gratuita: “ficamos livres de todas as preocupações e isto
tornoutudo umdescanso para nós. Alémdisso, quase não há ninguémemEstocolmo
emjunho, entãooaspectooficial foi bastanteatenuado” (ajuc Quinn, 1997: 238).
A conferênciaaconteceuno dia6dejunho de1905
116
. Enquanto MadameCurie
assistianaplatéia, Pierrefoi bastantecuidadoso emseparar otrabalho decadacientista,
mencionando as contribuições da esposa numa espécie de história da radioatividade.
Argumentou que seu discurso teria como objeto as propriedades das substâncias
radioativas, especialmenteorádio. MencionouotrabalhopioneirodeMarieao formular
o dispositivo experimental daradioatividade, aquilo queatorna(anormalmente) visível
no laboratório; suatesesobreapropriedadeatômicados elementos; eadescobertados
dois elementos novos (rádio e polônio). Dissertou sobre seus estudos sobre a
radioatividade induzida, sobre raios desviáveis e não desviáveis, e suas pesquisas na
área médica. Assim, tornou claro o modo como a radioatividade ressoou para outras
áreascomo medicina, geologia, metereologiaetc. Tambémressaltouascontribuiçõesde
Rutherford eSoddy emrelação àteoriadatransmutação atômica, eafirmou ser essaa
mais proveitosateoriaparacompreender aradioatividade, entreas muitas outrasteorias
queestavamemvoga(comoa“fonteexterna”) queeletambémapresentou. Referiu-sea
muitos outros cientistas importantes nessa história, como Becquerel, Geitel, Elster,
Ramsay, Crookes, Debierneetc. E, concluiu:
Pode-seatépensar queorádiosetorneperigosoemmãoscriminosas, eaqui pode-se
levantar aquestãodeseahumanidadesebeneficiadoconhecimentodossegredosda
natureza, seestápreparadaparaobter vantagens deles ouseesseconhecimentoserá
prejudicial. OexemplodasdescobertasdeNobel étípico, pois explosivospoderosos
permitiramaohomemrealizar trabalhos maravilhosos. Elestambémsãoummeiode
destruição terrível nas mãos degrandes criminosos queestão conduzindo o povo à
guerra. Sou um daqueles que acreditam, assim como Nobel, que a humanidade
obterámaisbemdoquemal dasnovasdescobertas”.
117
A essa altura, já se previa que o controle do estoque de energia liberada pelo átomo
radioativo podiater efeitoscatastróficos
118
. Ofato équeeraumaquestãodetempo para
que a radioatividade tivesse efeitos nas guerras, seja como uma forma de tratar os
116
Paraver odiscursonaíntegra, assimcomoobomartigodeNanni Fröman, cf. www.tcl.Ij::...c:¸.
117
Ver, www.tcl.Ij::...c:¸.
118
NemPierrenemMarieviveramosuficienteparaassistir aosefeitosdestrutivosdaradioatividade. Mas
suafilhaIreneeo maridodela, Frederick Joliot, acompanharamas pesquisas paraconstruçãodabomba
atômica(deurânio) emmeioàSegundaGuerraMundial. Parasaber mais, ver Latour (2001).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
145
feridos, seja como uma maneira poderosíssima de destruição. Soddy tambémfez suas
previsões em outro momento: “se pudesse ser explorada e controlada, que agente
poderoso serianadeterminação do destino do mundo! O homemquepusesseas mãos
na alavanca pela qual a natureza parcimoniosa regula a liberação desse estuque de
energia possuiria uma arma que poderia destruir a guerra se quisesse”. Rutherford foi
além: “algumidiotanumlaboratóriopoderiaexplodir inadvertidamenteouniverso”
119
.
DevoltaaParis, aexpectativaemtorno daeleição dePierreparaaAcademiatomava
“os Curie”. Pierre seria eleito e nomeado membro da Academia no dia 3 de julho de
1905. Mas foi eleito por umamargempequena: 29votoscontra22deGernez
120
. Pierre
Curiecomentaaumamigooacontecido:
Estou dentro da Academia semtê-lo desejado esemquea Academia desejasse. Só
fiz umarodadadevisitasdeixandoocartãoaosausentes– etodagentemeassegurou
quetinhacinqüentavotos. E entrei por umtriz... Quequer você? NaAcademianada
fazem com simplicidade ou sem intrigas. Além duma pequena campanha bem
conduzida, há contra mima falta desimpatia dos clericais e dos que acharamque
nãotinhafeitobastantevisitas. (ajuc E. Curie, 1949: 201)
Comtodosospesares, PierretinhaumacátedraeumacadeiranaAcademiadeCiências,
enquanto suaesposacontinuavatrabalhando como professoraemSèvres ecomo chefe
de pesquisa no novo laboratório de Pierre. A partir de então, não dependeriam de
ninguémmais para apresentaremsuas comunicações. Pierre poderia divulgar os seus
próprios resultados e os de sua esposa e ainda poderia desfrutar do prestígio que a
Academiaproporcionavaparaconseguir recursos parapesquisa. No dia6dedezembro
de1905, MarieCuriedariaàluz asuasegundafilha, EveDeniseCurie(queanosdepois
setornariaescritoraebiógrafadamãe). Rapidamenterecuperada, elaestavaprontapara
voltar àsnovaspesquisas...
Fn||e o o¦v¦·¦ve¦ e o ¦no¦v¦·¦ve¦
Marie Curie retomaria, no início de 1906, a controvérsia sobre o polônio com
Marckwald. Seria o início de uma nova relação com a Academia, já que Pierre
119
Sobreessescomentários, ver Goldsmith(2006).
120
Ver Cctj:.: ¹.tcu:, 1905, seçãododia3dejulho. OumesmoapáginaemmemóriadePierreCurie
naAcademiadeCiências: www.a.ac.t:.-:.:.t..:.i:.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
146
apresentaria pessoalmente os trabalhos
121
. Pierre Curie comunicou o relatório de sua
esposa, queeraumataquedeliberado aMarckwald, em29dejaneiro de1906, no qual
Marie Curie mostrava combase no cálculo da lei de desintegração dos elementos da
teoriadatransmutação, queoradiotelúrioera“naverdade” oPolônio:
Emumperíodo dedez meses, fiz umasériedemedidas visando determinar alei de
diminuição da atividade do polônio através do tempo. O polônio que utilizei para
esseestudo foi preparado como método utilizado naprimeirapublicação relativaà
suadescoberta(1898) edescritaemmaisdetalhesemminhatesededoutorado. (...)
A constante de tempo que encontrei para o polônio demonstra que os corpos
estudados por Marckwald como nome de radiotelúrio é idêntico ao polônio. Essa
identidade passa pelas evidências apresentadas por Marcwald nas publicações das
propriedadesdoradiotelúrio. (...)
O polônio e o radiotelúrio são uma mesma célula e uma mesma substância, e
certamenteonomedepolônioqueempregamosébemanterior aoradiotelúrio, queé
a mesma substância fortementeradioativa descoberta por PierreCuriee eu mesma
comométododepesquisanovo. (MarieCurie, 1906)
Mais umavez, MarieCurielutavaparaaexistênciados radioelementos quefez-existir
comseudispositivo experimental, fazendo comqueelecalasseseus concorrentes. E se
o polônio eraumaexceção paraateoriadaconstanteenergiados elementos químicos,
como estabelecimento desuas leisdedesintegração elenadamais eradoquemaisuma
comprovação. Marie Curie, como “porta-voz” autorizada pelo polônio, fez comque o
químico alemão sedeclarassevencido, mas não semperder aoportunidadederetrucar.
Marckwald, respondeu, citando RomeueJulieta, paramostrar queessacontrovérsiaem
torno do nomedo elemento químico não passavadeumdesejo demulher: “o quequer
dizer umnome? Sechamássemos umarosadequalquer outro nome, seuperfumeseria
igualmentedoce.” E continua: “osgrandesserviçosdeMadameCurienadescobertadas
substâncias radioativas justifica que levemos em conta seus desejos, mesmo numa
questão semrelevância. Por essemotivo, proponho que, deagoraemdiante, o nomedo
radiotellurium seja substituído por polônio.” (ajuc Quinn, 1997: 189). Além dessa
questão degrandeimportância, paraaexistênciado polônio o cálculo datransformação
do elemento e sua transformação final emchumbo apontavampara a confirmação da
teoriadeRutherford, aqual, segundoelemesmo, seriadifícil de“provar” paraalémdos
círculosdaradioatividade. Elehaviaescritoumpoucoantes:
121
Ele já havia percebido, de outras maneiras, os efeitos de ser membro da Academia. Por exemplo,
participoudacomissãoqueconcedeuaprestigiosaláureadainstituição, oprêmioLaCazede1905, aseu
amigoGeorgesGouy, dequemtambémapresentoualgunstrabalhosnaAcademia.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
147
afora o interesse de obter uma quantidade pesável de polônio emestado puro, a
verdadeiraimportânciados trabalhos deMadameCurieestánasoluçãoprovável da
questão danaturezadasubstânciaqueo polônio setransforma. Eraumaquestão de
grandeinteresseeimportância verificar definitivamenteseo polônio setransforma
emchumbo. (ajuc Goldsmith, 2006: 135)
Mas outro acontecimento marcaria enormemente a radiopolítica, muito mais do que a
manutenção daexistênciado polônio. Essaseriaaprimeiraeaúltimacomunicação que
Pierreapresentariaemnomedesuaesposa. Faleceriade modo trágico em19 deabril,
atropelado por uma carroça. Algumas análises tomaram como foco o impacto da
“castração” que a morte de Pierre teve na vida da cientista e acabarameclipsando a
positividade (que nada tem a ver com o positivo, o bom, o melhor) das relações
constituidas por tal fato – quedeslocaramas políticas sexuais enacionalistas, dando a
Marie Curie outro estatuto em meio ao poder
122
. Gostaria de ver como esse
acontecimento aqueceu de modo singular toda a política do agenciamento que estou
mostrando – como essas relações de força se davamem sua exterioridade, que não
emanavadeMarieCurieenematinhacomoúnicofoco.
Para o problema que estou estudando, esse acontecimento representou uma
mudança na maneira como as relações depoder funcionavam, considerando queoraa
radiopolítica deslocava a “complementaridade” do casal, e ora a mobilizava emseu
funcionamento. A partir de agora, os problemas se dariamde outra forma, por outras
vias, encerrando umcruzamento mais intensivo de gênero e nacionalidade. De início,
valelembrar aafirmaçãodeMichellePerrot (1991: 121) sobreasrelaçõesentrehomens
e mulheres desse momento, já citada outrora: “a mulher casada deixa de ser um
indivíduoresponsável: elaoébemmaisquandosolteiraouviúva.”
Jornais do mundo inteiro publicariam a notícia. Muitos cientistas e pessoas
influentes prontamente se puseram a homenagear o “grande cientista francês” em
diversos meios públicos, e alguns, escreveram a Marie Curie. Marcelin Berthelot
122
É muito difícil paracertas análises desprender-seda“desolação edo desespero” expresso por Marie
Curieemseudiárioapós amortedePierre, edo caos psíquicodacientista, como afirmaramGoldsmith
(2006) eQuinn (1997). Muitas vezes, paranão falar emtodas elas, as biografias dacientistatratarama
morte de Pierre enfatizando o “mundo interior” de Marie Curie com base em seu diário. Seus
desenvolvimentos, dessemodo, meparecempsicanalíticos namedidaemquepretendemmostar comoa
cientista pôdeselivrar desse emaranhado edipiano. O diário de MarieCurieapresenta, desseponto de
vista, não só uma “confissão da falta” que fez a figura do marido, como uma declaração de amor e
dependência. Só tive acesso a esse diário a partir das biografias, quereúnemde modo volumoso seus
trechoserevelamossentimentosdacientista, todooseusofrimento(partedessediáriofoi destruído, pela
própria Marie Curie, ou por seus familiares posteriormente). Pretendo utilizar o queresta do diário no
sentidoinverso...
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
148
expressou como anotíciada mortedePierre, esse“genial inventor”, atingira-o “como
umraio” (EveCurie, 1943). Rutherford, tambémnãosecalou:
emboraeusó tivesseoprazer dealgumas horas deconvíviocomoprofessor Curie,
nossaligaçãocientíficafoi tãopróximaquesintocomosetivesseperdidoumamigo
pessoal, bemcomo umcolega estimado. Acho que apenas aqueles que estiveram
empenhados nas investigações da radioatividade desde o início podem avaliar
corretamente a magnitude do trabalho que ele realizou, enfrentando tantas
dificuldades. (ajuc Quinn, 1997)
AugusteRodin, Paul Langevin, WilhelmConrad Röntgenemuitos outros escreveriam
suascartasdecondolênciasaMarie
123
.
ComamortedePierre, MarieCurieafirmouqueperderaseu“amado (...) ecom
eletodaaesperançaetodo apoio pelo resto deminhavida” (MarieCurieajuc Quinn,
1997: 254). Foi exatamenteisso queelaescreveuno mesmo diaemseudiário. Parecia
perceber que as coisas iriam mudar radicalmente. Pouco tempo depois da morte de
Pierre, apareceu uma nova questão: o que aconteceria coma cátedra da Sorbonne e o
laboratório criado para ele? Seria necessário oferecê-la para sua mulher e “eminente
colaboradora”? Nenhuma mulher jamais havia ocupado uma vaga de professora na
Instituição, quanto mais ganhar uma cátedra. Nemduas semanas passaram e Marie
Curiefoi nomeada“encarregadado curso” e“diretorado laboratório”. Restavasaber se
elaaceitaria. A cátedra, no entanto, permaneceriavazia, demorariaaindaalgumtempo
para uma mulher assumir essa posição
124
. Geoges Gouy, o grande amigo de Pierre,
escreveu a Marie persuadindo-a a aceitar a vaga elencando os motivos para tal
concordância:
A cátedra foi criada para Pierre, como resultado final das descobertas deles e das
suas. (...) Não seria infinitamentepreferível queisso fosseconservado comdevoto
cuidado, quenão passasseparaas mãos deumestranho, mas continuasseligado ao
nomeCurie? Nãoéaúnicamaneiradesalvar oquepodeser salvodessaruína? Você
não pensa quePierreficaria feliz, depensar queseu trabalho seria continuado por
você, suacolaboradora, aúnicaqueconheceofuncionamentointernodosprojetos e
métodosdele? (ajuc Quinn, 1997)
Aqui aparece o cinismo do poder, sua maneira sutil, e o seu modo mais cruel de
funcionar. Aceitar avaganessas condições seriaa“únicamaneiradesalvar o quepode
ser salvo”, modo singular de ocupar uma vaga na Sorbonne, ainda em nome da
complementaridade sexual e emhomenagemao marido morto. Ora, não se daria de
outro modo, o quesignificariaumamulher lecionar físicaemumadasuniversidadesde
123
Bastaconsultar emwww.lti.i: odepartamentodemanuscritosocidentaisemmododeimagem.
124
MarieCuriesósetornourepresentantedacátedraem1908.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
149
mais prestígio daEuropaequejáacumulava650 anos? Mas tal fato revelatambéma
forçadaradiopolítica, pois não setratavadequalquer mulher: acátedratambémerao
resultado final das pesquisas dela; Marie Curie tornar-se-ia a única a substituir o
“mártir” à altura (Pierre enquanto máquina produtiva do poder), pois sabia como
ninguémo“funcionamentointernodosmétodosedosprojetosdele”.
Marie Curie percebeu a dubiedade emque fora colocada naquele momento, e
expressouemseudiário:
Elespropuseramqueeutomeseulugar, meuPierre... Aceitei. Nãosei seébomouse
é ruim. Você, freqüentemente, me dizia que gostaria que eu desse umcurso na
Sorbonne. Eu tambémgostaria de, pelo menos, fazer umesforço para continuar o
trabalho. Algumas vezes, meparece que esta éa maneira queserá para mimmais
fácil paraviver; outrasvezes, meparecequesouloucadeempreender isso. Quantas
vezes eu disseque, não tendo você, provavelmentenão trabalhariamais? Depositei
emvocêtodaaminhaesperançadetrabalhocientíficoeaqui ousoempreendê-losem
você. Vocêdissequeeraumerrofalar dessamaneira, queeranecessário“continuar
emquaisquer circunstâncias”; mas, quantasvezesvocêmesmomedisseque“senão
tivesseamim, poderiatrabalhar, masnãopassariadeumcorposemalma”? E como
encontrarei umalma, quandoaminhaficoucomvocê?
Vocêficaria feliz emmever como professora daSorbonne, eeu mesma faria com
tantasatisfação, por você. Mas, fazer emseu lugar, meu Pierre, seráquesepoderia
sonhar comalgomaiscruel? (ajuc Quinn, 1997)
E depois que fora oficialmente nomeada encarregada do curso, ela acrescentaria: “há
alguns imbecis que, na verdade, me parabenizam” (:c., :l:c.). Eis que uma mulher
torna-se professora da Sorbonne, e passa a assinar como Madame Pierre Curie. Um
jornal daépocaretrataotamanhodoacontecimento:
MadameCurie, aviúvado ilustresábiotãotragicamentemorto, iniciaráoseucurso
naSorbonne5denovembroumaemeiadatarde. MadameCurieexporáateoriados
íonsnos gases, etratarádaradioatividade(...) falaránum“anfiteatrodecurso”. Ora,
esses anfiteatros contêm vinte e cinco lugares mais ou menos, na maior parte
ocupadapor estudantes. Opúblicoeaimprensa, quetambémpossuemdireitos, terão
que contentar-se comuns vinte lugares no máximo! Emvista dessa circunstância,
que é única na vida da Sorbonne, não seria possível torcer o regulamento e por à
disposição deMadameCurie, paraasuaprimeiraaula, umanfiteatrogrande? (ajuc
EveCurie, 1949)
Aindateriadehaver espaço paraas moçasdeSèvres, queMarieCurienão abandonaria
prontamente. Conseguiu que a Escola as liberassempara assistir o curso que “iria no
mesmocaminhodoqueelaestavaministrandopor lá”. Umanfiteatrograndefoi cedido,
na aula estavam presentes os alunos homens da Sorbonne, as moças de Sèvres,
repórteres, gente da alta sociedade, amigos de Marie e Pierre Curie. Porém, muitos
ficaramdefora, algunsdizendo-seindignadosporque“não foramdistribuídosconvites”
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
150
(Marie Curie ajuc Eve Curie, 1949). A cientista começou a sua aula exatamente do
ponto quePierre havia terminado: “quando meditarmos sobre os progressos que fez a
física nesses últimos dez anos...” (:c., :l:c.). Nenhuma palavra a mais ou a menos,
nenhumapossibilidadedeestender o poder edar crédito ao espetáculo, o silêncio como
amelhor formadeprotesto
125
. A imprensanãodeixoudesemanifestar também, tomada
pelaradiopolítica: “chamavaaatenção, emprimeiro lugar, afrontemagnífica. Não era
simplesmente uma mulher que se encontrava diante de nós, mas um cérebro – um
pensamento vivo” (ajuc MacGrayne, 1994: 38). Mais uma vez, as oposições
significantesdogêneroseembaralhavam.
Marieseguiucomotrabalho, delaedePierre, enosmesesseguintesàmortede
seu marido, empenhou-se em estudar aquilo que ele vinha fazendo, as aplicações
médicas do rádio. Alémde oficiosamente catedrática da Sorbonne, passou a tutelar o
novo laboratório. Muitos auxiliares (como Danne e Laborde, antes de Pierre) agora
eram submetidos à coordenação de Marie Curie, que conduzia as orientações. Isso
mesmo: uma mulher controlando a estrada de ferro de uma ciência, submetendo
inúmeros homens, etambémmulheres, ao exercício daradiopolítica! O trabalho árduo
seriacriar “a” medidado rádio paraqueas indústrias eos médicos pudessemtrabalhar
commais facilidade. Afinal decontas, asdiversas fábricasdo mundoquesedestinavam
àprodução derádio faziamcomintensidades muito diferentes, o quenão só dificultava
aspesquisas, mastambémaindustrializaçãoeaaplicaçãomédica. A medidaseriaassim
uma forma de dificultar a venda desenfreada e o uso de sais de rádio comatividades
ínfimas, ou os danos à saúde que os raios ultrapoderosos desprendidos pelo elemento
poderiamcausar. Dessa forma, a fábrica de Lisle produziria o rádio e o enviaria ao
laboratório de Marie Curie, que se tornou umlugar detreinamento detécnicas para o
“desenvolvimento e aplicação de produtos baseados no rádio” (Marie Curie, 1963).
Marie Curie agora exercia o “ofício do chefe” (Latour, 2000), buscando recursos e
estabelecendo relações para que as pesquisas fossem feitas no laboratório por seus
auxiliares.
125
Sempremencionei emcomunicaçõesosilênciodeMarieCuriesobreopoder, efui perguntadosobreo
quediziaessesilêncio. Tentarei responder demodo breveaminhapostura. A palavrasilêncio éamais
perversa de todas as palavras, pois é exatamente no momento que é pronunciada por outrem, que ela
perdeseusentidoeseupoder. Seosilencionãodiz nadaalémdoprotesto, dizer oque“diz” osilêncioé
fazê-loperder oseucaráter deprotesto(fazer MarieCurieconfessar asuapolíticaemancipatória“tática”,
uma granderecusa, o quenão meparece estar emconsonância comos acontecimentos que descrevo).
Essaéaformaqueescolhi fazer meu trabalho: comrespeito extremo às resistências queseinsurgeme
comintransigênciaquandoasformasdecombatesepretendemuniversais(intencionalidadeanterior).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
151
No entanto, como as discussões em torno da composição da matéria
aumentavamconsideravelmente, não demorariamuito paraqueMarieCuriefizesseseu
laboratório convergir para a discussão. Kelvin e Rutherford polarizavamo debate em
torno do átomo e da natureza da radioatividade. O primeiro era defensor do átomo
indivisível como a menor parte da matéria, pois ele havia calculado que o tempo da
Terra girava em torno de 20 e 40 milhões de anos. Pensava, nesses termos, que a
transmutação era, na verdade, uma “alquimia”. O segundo, com a teoria da
transmutação, tentava pôr a física de cabeça para baixo, pois o átomo deveria ser
divisível, já não era a menor parte da matéria (o que ainda recalcularia o tempo da
Terra, tornando-a mais antiga do que o até então se imaginava). Tratava-se de um
debatedefilosofianatural, muitoalémdoslaboratórios.
Rutherford, em1905, jáhaviamostrado queo rádio eraumadas influências na
temperaturadaTerra, contrao próprio Kelvinqueera(eaindaé) conhecido por ser um
especialista em temperatura termodinâmica. Rutherford e Boltwood (1906) ainda
utilizariamo método dedecaimento daradioatividadeparacalcular os anos dealgumas
rochasquecontinhamos minérios. E levantaramahipótesedequeaTerraultrapassaria
emboa parcela umbilhão de anos! Kelvin, que, como vimos, se colocou ao lado de
Pierre Curie contra a teoria da transmutação, imaginando uma “fonte exterior” aos
átomos de rádio, não poderia aceitar tal loucura. E mesmo quando Pierre se deu por
vencido, Kelvin não cedeu. Através do jornal inglês T:t.: em 1906 lançou uma
hipótesesobreanaturezado rádio, emdefesadas mudanças queestapoderiaocasionar
paraafísicadominante. Aos 82anos, eraumforterepresentanteda“VelhaGuarda”, e
assim levantou a hipótese de que o rádio não era um elemento químico, mas um
composto molecular dechumbo eátomosdehélio. Essaeraumaresistênciademolidora
àteoriadeRuthenfordeSoddysobreaexistênciadeuma“energiaatômica”, quecairia,
pode-se assimdizer, sobre o lado mais fraco da teoria da transmutação: a sua única
comprovação material, o único elemento radioativo isolado. Ojornal transformou-seno
palco de uma furiosa batalha sobre o que seria o rádio, e que o próprio Rutherford
(1906) nomeoude“arecentecontrovérsiadorádio”, queseestendeunosanosseguintes
naconceituadarevistacientíficaNa:u:..
Segundo Marie Curie, o rádio era um metal, e o que Kelvin reclamara fora
justamentequeessemetal nuncahaviasido visto emsuaformaontológicaoriginal; ou
seja, comoummetal. Atéaqueleinstante, só forapossível vê-locomosulfureto(sais), o
que, segundo o inglês, não provava que era um elemento, um metal alcalino. O
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
152
problemaparaMarieconsistia na “emanação do rádio” queo levavaàautodestruição,
ouseja, aumestado bemlongedeumsólido. Muitoscientistasseposicionaramafavor
de Kelvin, dentre eles Armstrong e Mendeleiev. E, nesse ponto, ao atacar a teoria da
transmutaçãoeRutherford, ocientistajogavaaseuladoaprópriaMarieCurie. Tratava-
se, semexagero, do“pessoal daradioatividade” (MarieCurie, 1904)
126
, comoacientista
certavez sugeriuemsuatese, contraafísicadominante. Ela, por suavez, apesar deter
visto o seu“filho pródigo” ser colocado emxeque, não escreveu nadasobreo assunto,
mas sededicouaessetrabalho eà“medidado rádio”, que, junto às pesquisas médicas,
guiariamotrabalhoduranteospróximosquatroanos.
O primeiro esforço deMarieCurie foi recalcular a massaatômicado rádio, de
modo atornar a medição mais precisado quearealizadaem1902. Como possuíaem
mãos muito mais sais derádio purificados do queno primeiro cálculo, essepoderiaser
um modo muito interessante de continuar o trabalho. Assim, ela apresentou uma
segundacomunicação, jáemagostode1907, sobreopesoatômicodorádio
127
.
A determinação dos pontos atômicos do rádio já foi publicada em 1902, e foi
efetuada com9 gramas de cloreto de rádio. Os novos tratamentos (...) permitem
começar a determinar o peso atômico do rádio emcondições bemmelhores que a
precedente. (...) Naexperiênciaprecedenteprovei queaação espectral do bário em
presençano rádio émuito sensível equeo cloreto derádio quefoi utilizado paraa
dosagemdeveser consideradamuitopura. Elanãocontêmcertamentemais que0,1
de100[gramas de] cloreto debário. Eupenso empoder concluir queo trabalho do
peso atômico do rádio é igual a 226,45, comuma probabilidade de erro de meia
unidade. A reprodução dos espectros edos detalhes das experiências estão nojornal
L. ¹ac:ut. (MarieCurie, 1907)
A cientistafoi, destavez, mais precisado queanteriormenteparaconseguir provar que
o “seu elemento” era realmente um elemento químico, ao contrário da hipótese de
Kelvin. Ainda aproveitou para divulgar, na Academia, o jornal L. ¹ac:ut, recém-
criado por seu laboratório e financiado por Armet de Lisle, seu parceiro, no qual
guardou a descrição dos procedimentos laboratoriais. Ainda em 1907, Andrew
Carnegie, umindustrial dono de uma fortuna proveniente do aço, deu salários e uma
126
Semdúvida, o“pessoal daradioatividade” sãoos protagonistas todos dessahistória. A maioriadeles,
os extensores daradiopolítica(e, portanto, carregados por ela), setransformaramemgrandes cientistas,
muitos deles vencedores do Nobel (Becquerel, Pierre Curie, Soddy, Rutherford, Ramsay etc.), assim
como outros que não ficaramtão “visíveis” assim. Todos eles divididos por inúmeras questões, mas
aproximadospelomesmoproblema, queerasemdúvidaomaisimportante.
127
É interessantenotar queelamesmaapresentou o trabalho na Academiamesmo semser membro. O
quemefaz sugerir queessa ainda seja umahomenagemaPierreCurie. Pelo menos daqui para frente,
diferentementedos outros trabalhos publicados anteriormente, as notas científicas dacientistaaparecem
emseupróprionome, semnenhummembroexercendoosdireitosdecomunicá-las.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
153
série de bolsas de estudo, sempre emcomumacordo comMarie Curie, para alguns
cientistasauxiliareseestudantesqueelateriaemseulaboratório
128
.
Uma dessas assistentes, uma jovemnorueguesa chamada Ellen Gleditsch, foi
colocada por Marie Curie para investigar algumas descobertas recentes por parte de
Ramsay (outro grande cientista, que, depois do sucesso que obteve com Frederick
Soddy, passou a comandar sozinho um laboratório de estudos da radioatividade
pesquisando seus efeitos em produzir gases na atmosfera, como havia feito com o
hélio). É queRamsay haviaformulado umateoriadequeo rádio produziria, paraalém
dohélio, tambémonéoneoargônio. Elealegouque, quandooradônio– gásproduzido
pelo rádio – combinava-se com o cobre, o cobre em si mesmo começava a se
desintegrar como faziamos elementos radioativos. O cobre(não radioativo), ao tomar
contato como radônio (tornando-se radioativo) produziria lítio, elemento da mesma
série do cobre, mas de peso atômico mais baixo. Tudo se passava como se a
desintegração não estivesse colocada somente para os elementos radioativos, mas
poderiaser algo detodo equalquer elemento. A transmutação atômicanão seriarestrita
à radioatividade, e quemsabe não teria nada a ver como fenômeno: poderia não ser
uma singularidade dos elementos radioativos. Tal descoberta faria aumentar, ainda
mais, a dúvida a respeito da existência do rádio e dos outros “elementos radioativos”
como elementos químicos. Ramsay apresentava dúvidas sobre o que provocaria a
transformação: será que uma radiação etérea? Rutherford imediatamente comentou a
Boltwood: “seRamsaytiver razão, oassunto daradioatividadeentraemumanovafase,
mas obter lítio decobreéumpouco mais do queposso engolir no momento, ninguém
temrádio algumpara testar os resultados obtidos por ele.” (ajuc Quinn, 1997: 300).
MarieCurieeraaúnicaportadoradesaissuficientes.
Mas foi sua assistente, Ellen Gleditsch (1907), quem preparou o caminho,
deixando queMarieCuriesepreocupassecomo cálculo entreumgramaderádio esua
emanação (a medida do rádio), e da comprovação da existência do rádio como
elemento, transformando-o em metal. Publicou uma comunicação (apresentada por
Lipmann, que tornara-se o representante de Marie perante a Academia, dispondo-se a
128
Nesse período, o número de funcionários de seu laboratório aumentou de oito para vinte e dois.
Contratou o filho de Jacques Curie, seu sobrinho, para umdos cargos. Alémdisso, algumas mulheres
cientistas provenientes da Polônia e outros países, e algumas de suas antigas alunas de Sevres,
trabalharam como bolsistas no laboratório. Lise Meitner (que se tornaria outra grande cientista anos
depois, concorrentedeMarieeIrene), tentouumavagaparatrabalhar nolaboratóriodeMarieCurie, mas
foi rejeitada. Anos depois, acientistaaustríacadisseque, comoIreneeraaprincesinhaqueestavasendo
“preparada”, suamãeevitavacontratar outras“mentesbrilhantes” (Goldsmith, 2006).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
154
comunicar publicamente os trabalho que dali saíssem
129
) na qual mostrou que o
pechblendadefatocontinhaumadosepequenadelítio. Afirmou, ainda, queinvestigaria
a existência de cobre, para saber se era possível a transformação de cobre említio.
Verificar se o pechblenda, minério do qual foram extraídos vários elementos
radioativos, continhatais substâncias poderiaser importanteparatestar as hipóteses do
cientista inglês. Como a verificação foi feita comsucesso, tais conclusões apontavam
paraapossibilidadedeRamsayestar certo emsuasprevisões. Masas investigações não
pararampor aí. Marie Curie se colocaria, assimcomo Rutherford (possivelmente os
doismaisatacados), absolutamentecontraessapossibilidade
130
.
No início de 1908, Marie Curie começou a fazer experiências sobre a relação
cobre/lítio, e percebeu umerro que considerou “infantil” por parte de Ramsay. Ela
escreveu à sua assistente: “decidi de qualquer maneira publicar o ensaio, mas ainda
estou preocupada e talvez refaça as experiências” (ajuc Quinn, 1997: 301). Como
estavaenfrentandoumcientistaderenomemundial, eperitonoassunto, MarieCuriefoi
cuidadosaerepetiuas experiências no primeiro semestre, depois desuas férias no ano
letivo naSorbonne. Emagosto de1908, elapublicouumensaio, emco-autoriacomsua
auxiliar, no qual afirmavaqueo lítio eraintroduzido pelos tubos devidro queRamsay
utilizavaparafazer as medições eas combinações deradônio ecobre(enão tinhanada
a ver comuma transformação do cobre). E, ao repetir a experiência comumtubo de
platina, osmesmosresultadosnãopoderiamser visualizados
131
.
O senhor Ramsay e o senhor Cameron anunciaramemdiversas publicações que
observarama produção demetais alcalinos e delítio emmeio a soluções decobre
emcontatocomaemanaçãodorádio. Elesconcluíramqueaemanaçãodiz respeitoa
uma desintegração do cobreemelementos da mesma família edepontos atômicos
inferiores: potássio, sódioelítio. (...)
Procurou-se replicar as experiências em condições de seguridade na medida do
possível. A experiênciaeseu efeito delicadocomportamuitas causas deerro, mas o
principal foi o emprego deumvaso devidro, assimqueosenhor Ramsay observou.
(...)
O resíduo de lítio que obtemos é, emtodos os casos, muito mais fraco do que o
obtido por Ramsay e Cameron, e isso resulta da eliminação do uso de vidro. Em
129
Paralembrar daAcademia, nessemomentoovice-presidenteemexercícioeraHenri Becquerel, quese
tornoupresidentenoanoseguinte, em1908, antesdefalecer.
130
LordKelvin falecerianofinal de1907, semver odesfecho dacontrovérsiaqueabrira. Noentanto, a
controvérsia permaneceu no encalço da radioatividade pelo menos até 1909, sustentada por outros
cientistas.
131
“Otrabalhorevelou-sepenoso”, escreveuEllen, “poistudo, ossaisdecobre, aáguadestilada, continha
lítio emquantidadereconhecíveis como espectroscópio. Também, quando finalmente obtivemos certa
quantidadedesaisdecobrelivredelítio, aintroduçãodaemanaçãonopequenorecipientedeplatinaera
umaoperaçãocomplicada” (ajuc Quinn, 1997: 301).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
155
suma, podemos dizer que não conseguimos confirmar as experiências (...)
acreditamos, de qualquer maneira, que não se pode considerar a formação desses
elementoscomoumfatocomprovado. (MarieCurie& EllenGleditsch, 1908)
Tal artigo representou umgolpe poderoso em Ramsay, que se viu chacoteado pelo
“pessoal da radioatividade”. “Fico imaginando”, escreveu Boltwood a Rutherford,
“porque não ocorreu a ele que a emanação de rádio e querosene formamsalada de
lagosta”, e acrescentou: “devo reconhecer que gostei da maneira como ela resumiu a
situaçãoemseuensaio cobre/lítio. Elacertamentenãodeixouqualquer dúvidanamente
do leitor quanto àsuaposição naquestão” (ajuc Quinn, 1997: 300). Ramsay teveque
recuar publicamentenumaseção da¹c,aI ·c.:.:,, dizendo queessatransformação era
difícil, ficando completamentedesacreditado emrelação aos seus pares. E como forma
deresponder, quando foi perguntadosobreaspesquisasdeMarieCurie, disseanosmais
tarde: “todas as grandes cientistas mulheres realizaram seus melhores trabalhos
colaborandocomumcolegahomem” (ajuc Goldsmith, 2006: 139)
132
.
As relações queenvolviamaradioatividadecertamentecolocaramRutherforde
Marie Curie num “mesmo barco”, pois defender o rádio significava defender a
transmutação, da forma como Rutherford a havia caracterizado, e vice-versa. No
entanto, Rutherford e Boltwood (assim como vários outros cientistas), se sentiam
irritados e limitados pelo fato deMarie Curieter criado uma certaprioridade para ela
mesma no que dizia respeito ao rádio, impossibilitando-os de trabalharemna mesma
linha; isso por contado “monopólio” do elemento, conseguido graças àparceriacoma
fábricadeLisle. MarieCurienão só tinhaumlaboratório poderoso, umafábricaao seu
dispor, eumacadeiranauniversidade; elatambémexerciatodo o poder quedesfrutava
sobreosseuscolegascarentesdematéria-prima.
Quando, no final do ano de 1908, Boltwood, emseu laboratório emYale nos
EUA, pediu para comparar suas fontes de rádio comas de Marie Curie – a partir da
“medida” que estava preparando – ela se recusou. A falta de comparação
impossibilitavaaoutroscientistassaber o poder desuas fontes, assimcomo atrapalhava
emmuitoaspesquisas. Boltwood, por suavez, reclamouaRutherford:
a madame não quer nemumpouco que essas comparações sejamrealizadas, e o
motivo, aoquesuspeito, ésuamávontadeconstitucional emfazer algumacoisaque
132
Entrevistadesir WillianRamsay, La:I, ìa:I (Inglaterra), 1910.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
156
possa, direta ou indiretamente, auxiliar qualquer umque lidecoma radioatividade
foradoprópriolaboratóriodela. (ajuc Goldsmith, 2006: 138)
133
Nesse sentido, por esse exercício de poder, “o pessoal da radioatividade” tinha um
carro-chefenacontrovérsiamais importantedo momento: contraKelvinearespeito da
composição da matéria. Não poderiam, portanto, realizar outracoisa senão torcer para
queMarieCurieconseguissefazer do rádio ummetal, eestender aquilo quetodos eles
tinhamodesejodefazer existir.
C |ao¦o ne|a¦¦co e a ¦o¦one·a oe·||u¦oo|a oe ¦a|e·
Em1909 criou-se a “Comissão Internacional do Padrão do Rádio”, que era composta
pelo “pessoal daradioatividade”. Encabeçadapor Rutherford, tal comissãocontavacom
Soddy, Marie Curie, Ramsay e Boltwood. Essa comissão tinha como foco limitar o
poder dedecisões deMarieCurieemtorno do rádio, quedeveria, assim, submeter-sea
convenções comseus colegas. MarieCurie, queaceitoutal convenção, no entanto, não
paravadetrabalhar paramanter omonopóliodo“elemento” soboseucontrole.
Duranteoprocessodeisolamentodorádiopuroeatransformaçãoemsuaforma
“original” – trabalho que convergia para a resolução da controvérsia aberta por Lord
Kelvin e tambémpara o padrão do rádio –, Marie Curie demitiu de seu laboratório
Jacques Danne (antigo auxiliar de Pierre) por conta de seus planos de abrir um
laboratório concorrenteao dela. OcientistatrabalhavaparaMarieeviunosprocesso de
purificação do rádio (os quais acompanhava de perto),uma ótima possibilidade para
deslanchar suacarreiracomocientistaetambémparaconquistar lucros. ComoDannejá
fazia negociações para a abertura de seu próprio laboratório comuma empresa que
descobriu uranita nas terras do sul da Cornualha, já não era muito presente no
laboratóriodacientista. Marieescreveuaoauxiliar:
Tendoconsideradosuasituaçãoatual easnecessidades dolaboratório, sintoquenão
émais possível fazer tudo o queépreciso, epeço quevocêsedemita do cargo de
auxiliar de imediato. Preciso de ajuda em meu trabalho e de alguém que esteja
semprepresenteetotalmenteàminhadisposição. (ajuc Goldsmith, 2006: 137)
Danne e seu irmão abriram de fato um laboratório concorrente, e logo passaram a
negociar orádioaumpreço inferior aodafábricadeLisle, aliadadeMarieCurie. Além
133
Goldsmith (2006) conta queBoltwood usou desua posição de catedrático como forma derevide; e
assimimpediuqueMarieCurierecebesseumdoutorado!ctc::: .au:a naUniversidadedeYale.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
157
disso, abriramumaoficinaparaaprodução deinstrumentos, umlaboratório defísicae
umcentro de treinamento de “Curieterapia”, copiando a estrutura emque trabalhava.
Elesaindaatraíramumgrupodeinvestidoresparaformar ecriar a“SociedadeIndustrial
doRádio”, emGifsur-Yvette, naFrança.
MarieCuriesabiaqueeraimpossível aDanneconseguir o padrão dorádio antes
dela. Sabiatambémquenenhumoutro cientistatinhataiscondições. E comricas fontes
deminérios sendo descobertas no mundo todo, MarieCurielogo recebeuumaproposta
do governo austríaco, queofereceu-lheumlaboratório emótimascondições, quer dizer,
melhor emais equipado queo daSorbonne. Apesar deseulaboratório funcionar coma
capacidade extrema de produção, ele já se mostrava insuficiente para enfrentar a
concorrência. Acabou ficando pequeno, principalmente pela falta de subsídios
governamentais para a compra de equipamentos e outras necessidades (Marie Curie,
1963). A preocupação queo “rádio” saísse da França fez comque o Instituto Pasteur
abrisse as negociações coma cientista e o Estado francês, como objetivo de criar o
InstitutodoRádioemumpavilhãoquesechamaria“Curie”
134
.
No final de 1909, Marie Curie consegue, comAndré Debierne, a produção do
rádio puro. Mas, estrategicamente, só iriapublicar suas conclusões umpouco antes do
“Congresso Internacional de Radiologia e Eletricidade”, marcado para setembro de
1910, quando acomissão do padrão do rádio iriasereunir. Tratava-sedeumaformade
prevenir queoutros cientistas seutilizassemdeseu método, nesse mesmo tempo, para
avançar na produção da “medida do rádio”. Mas a purificação do rádio puro e a
transformação emsua “origem” metálicacolocavaumponto final nadesconfiançaem
relação à sua existência como umelemento químico. Mais do que isso, esse trabalho
confirmaria a própria radioatividade como uma propriedade atômica de transmutação
química. Enfim, talvez o rádio metálico sejamais do quesomenteaconfirmação deum
elemento químico, pois, naquele momento, era a questão da existência física da
radioatividadequeestavaemjogo. “A radioatividadeestáno ponto departidadeduas
134
OInstitutodoRádiocomeçouaser construídoem1912esóentrouemplenofuncionamentoem1914,
ano deinício da Primeira GrandeGuerra. Elecristalizava a força da radiopolítica eumnovo território
existencial paraacientista. Nãosetratavadeumlaboratório, masdeumInstituto, comestruturamontada
pela própria cientista e com recursos quase ilimitados provenientes do Estado francês e do Instituto
Pasteur. Foi dentro do Instituto do Rádio que Marie Curie treinou mulheres durante a guerra para o
manuseiodos“petit Curie”, unidadesmóveisdeRaiosX, afimdeajudar nodiagnósticodeferidosantes
desuachegadanohospital. Aindaduranteaguerra, MarieCurietevequeviajar numamissãodeEstado:
assegurar queoexércitoalemãonãocapturasseorádiofrancês, poisasautoridadesconsideravam-no“um
tesouro nacional devalor inestimável”... A cientista tevequeesconder ecarregar consigo boa partedo
rádiodaFrança, quefoi colocadoemumamaletadechumbo(cf. Goldsmith, 2006). Partedodiscursode
inauguraçãodoInstitutodoRádiofeitopor MarieCurieestánaepígrafedoepílogodessetrabalho.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
158
seqüências históricas, no fimdas quais a interpretação das propriedades do elemento
químico será considerada como pertencendo ‘naturalmente’ à física, ciência dos
princípios” (Stengers & Bensaude-Vincent, 1996: 319). É nessecruzamento entrefísica
e química, do início do século XX, que se produziu os bilhões de anos relativos à
formação do Universo emátomos departículas divisíveis! Opróprio tempo daTerrase
multiplicoupor contadaradioatividade.
A purificação do rádio esuatransformação emmetal resolveu, deuma vez por
todas, a controvérsia sobre a matéria. Ora, pois, se durante esses anos todos de
controvérsia ninguém sabia perfeitamente o que “era” o fenômeno, todos
acompanhavam somente as “atividades” de uma “ontologia vacilante”; agora a sua
existência, seu Ser, a radioatividade e os elementos químicos que a produziam
tornaram-se a justificativa para todas as suas atividades. A filosofia natural que esse
processo contingentepõeemcena, as propriedades daradioatividade, seus “caracteres
de caracteres”, precedem aquilo que ela acabou por se tornar – essência precede
existência–, pois, emboapartedo tempo, os cientistas sabiamdescrever os fenômenos
emseusefeitos, semsaber oqueexatamenteeram(Latour, 2001).
Horadeabrir outro parêntese. Geralmente, ao tratar ahistóriarecentedo átomo
(e, dentre outras coisas, portanto, da radioatividade
135
), os historiadores da ciência
tendema apostar na própria discussão de filosofia natural entre Kelvin e Rutherford
coma pergunta: qual é a mais verdadeira? Utilizando-se como trunfo metodológico o
atavismo filosófico da transcendência da Natureza (que não faz nenhum sentido em
relação ao processo contingente de invenção-descoberta da radioatividade), se evita
acompanhar outras linhas. Recorrendo atal procedimento, não sedáqualquer estatuto
às várias relações que constituírama contenda, as quais, na perspectiva dos próprios
envolvidos, eramde fundamental importância. Como, por exemplo, a indagação de
Kelvin sobre a inexistência química do rádio e todo o trabalho de Marie Curie para
caracterizar o rádio metálico. Essasrelaçõesseinstalavamno “entretempo” (Deleuze&
Guattari, 1996) queproduziuumadisjunçãoentreoverdadeiroeofalsonoqueserefere
à composição da matéria. Talvez, se deslocarmos o olhar dos “vencedores” (no caso,
Rutherfordesua“física”) paraas linhasao seuredor, podemoster surpresas nahistória
135
A históriado átomo não seresumeàdaradioatividade; elaémuito mais complexaeenvolveoutras
linhas que compõemseu novelo. No entanto, a história da radioatividade é uma linha importante da
históriadoátomo.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
159
da ciência, como vemalertando há muito tempo Latour (1994) e Stengers (2002)
136
.
Afinal, como disse o próprio Jean Perrin – umdos descobridores dos elétrons – anos
depois: “apurificação do rádio éapedraangular detodo o edifício daradioatividade”.
Esse trabalho emquímica foi transformado simplesmente emuma técnica que serviu
para dar as bases empíricas da radioatividade, e “pertence já ao passado. A partir de
agora, aradioatividadedependedahistóriadafísica. A químicaintervémapenas como
uma técnica, para identificar os isótopos produzidos por transformação” (Stengers &
Bensaude-Vincent, 1996: 326). Hoje, aradioatividadeéumfenômeno dafísica, mas as
coisasnemsempreforamassim. Fechaparêntese.
No início de1910, foi oferecidaparaMadameCuriea“Legião daHonra”, quea
cientista, como seu marido anos atrás, tambémhaviarecusado. Explicouemumacarta
queeraimpossível aceitar
condecorações, deformageral, eaOrdemdaLegião daHonra, emparticular. Para
mim, esta não é uma questão pessoal, mas um verdadeiro caso de consciência,
decorrentedorespeitodevidopor mimàmemóriadePierreCurie, quenãoqueriaser
condecorado. É uma questão de uma religião de lembranças, que não é possível
comprometer, emquaisquer circunstâncias. (ajuc Quinn, 1997: 272)
Ainda em homenagem a Pierre, Marie Curie publicaria, naquele mesmo ano, a sua
grandeobra, resultado do curso sobreradioatividadeoferecido naSorbonne: o T:a:acc
c. :ac:ca::v:cac., distribuído emdois volumes quecontavamcomuma foto dePierre
Curie na folha de rosto. O fato é que Marie Curie criou a obra que agrupava as
pesquisas sobre a radioatividade e os corpos radioativos, narrando o seu
desenvolvimento (edistribuindo os méritos) antes quequalquer outro pudesse fazê-lo.
Rutherford, por exemplo, apesar de reconhecer os méritos do tratado, queixou-se a
Boltwood que ela “estava muito ansiosa para reivindicar a prioridade das descobertas
paraela eseu marido”, econtinuou, “apobre mulher trabalhou tremendamenteeseus
136
Talvez seja esse o motivo que fez Martins (2004) secolocar na posição dejuiz ao dizer queMarie
Curie não t.:..:a (noção duvidosa) receber o prêmio Nobel em 1911: “pois não deu contribuições
importantes entre 1903 e 1911. De fato, o prêmio de 1911 lhe foi concedido pelos ‘seus serviços ao
desenvolvimento da química pelos elementos rádio e polônio’. Acontece, no entanto, quea descoberta
desses dois elementos ocorreu em1898, eela já havia sido premiada por essa contribuição”. (Martins,
2004). Esta colocação mepareceumfalso problema; ela subtrai qualquer tentativa posterior a 1898 de
desqualificar a radioatividade como uma transmutação atômica – deduzindo que Kelvin e seus aliados
estavamerrados desdesempre– e, assim, oárduotrabalhodeMarieCurieemfazer existir os elementos
radioativos é perdido. No entanto, se fizermos o contrário, quer dizer, levarmos a sério a assertiva de
Kelvin, severácomoseuscontemporâneos(pelomenospartedeles) deram“importância” aotrabalhode
MarieCurie. Dessaforma, tambémsetornarávisível como acomissãodoNobel decidiuqueacientista
t.:..:a oprêmio“por ter produzidoamostras suficientementepuras depolônioerádioparaestabelecer
seus pesos atômicos, fatos confirmados por outros cientistas, epelaproezadeproduzir orádiocomoum
metal puro” (paraver odiscursodeentregadoprêmionaintegra, cf. www.tcl.Ij::...c:¸).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
160
volumes serão muito úteis durante umou dois anos.” (ajuc Quinn, 1997). Mas por
outrolado...
lendo o livro dela cheguei quase a pensar que lia o meu próprio [ainda a ser
publicado], com o trabalho extra dos anos mais recentes, preenchendo todas as
lacunas. Alguns capítulos começamdemaneiramais ou menos igual, eo assunto é
dividido de maneira mais ou menos parecida (...) já não há sentido empublicá-lo
logoapósolivrodeMadameCurie. (:c., :l:c.)
Tornou-se possível, por conta da radiopolítica e da estrada de ferro que Marie Curie
controlava, dedicar-semenosàsatividades “práticas” daciência– outrosfaziampor ela
– emaisaodebateteórico, jáqueexerciao“ofício dochefe” deseulaboratório.
No dia5desetembro de1910, comAndréDebierne, MarieCurieapresentouna
Academia de Ciências os resultados dos trabalhos realizados em seu laboratório; a
saber, apurificaçãodorádioesuatransformaçãoemmetal.
Paraobter orádiometálico, utilizamos os métodos descritospelosenhor Guntz para
a preparação do bário metálico. (...) O princípio do método consisteempreparar o
amálgamaeemcaçar omercúriopor destilaçãosobascondiçõesadequadas.
O amálgama foi obtido pela eletrólise de uma solução de cloreto de rádio
absolutamentepuro (peso atômico 226,5), comumcátodo demercúrio eumânodo
deplatina. (...)
A grandeparte do mercúrio é destilada a 270 graus, emseguida a temperatura foi
aumentadaprogressivamente, bemcomoapressãodoar doaparelho. A fimdepoder
observar o conteúdo do recipiente durante a operação, o aquecemos com
instrumentos a gás. Rumo a 400 graus, o amálgama emestado debasesólida, por
elevação da temperatura, emergiu liberado do mercúrio. O ponto de fusão poderia
ser determinado mais exatamente se elevarmos progressivamente até 700 graus.
Nessa temperatura, não podemos mais observar o destilado de mercúrio. (...) Por
outro lado, o metal começa a se volatizar abundantemente e o vapor a atacar
energeticamenteo tubo dequartzo. Orecipientecontémummetal branco brilhante,
cujo ponto de fusão é emtorno de 700 graus. Pensamos que esse metal é o rádio
sensivelmentepuro. (...)
O rádio metálico é muito mais volátil queo bário, nós nos propomos a purificá-lo
pela sublimação num vácuo emuma placa de metal arrefecido. (Marie Curie &
Debierne, 1910)
MarieCurieconseguiucondensar, pelaeletróliseumasolução derádio comumcátodo
demercúrio emumaparcelapequena, tornando-os umamisturasólida. Todaaquestão
consistia em separar desse sólido aquilo que possibilitava fazê-lo nesse estado da
matéria: o mercúrio. Isso foi realizado como ataque de calor, que já aos 400 graus
eliminavao mercúrio. Orádio, dessavez, tornou-seindiscutível, ummetal branco cujo
ponto defusão apresentou 700 graus. Emoutraoportunidade, elaainda afirmariaque,
dessa vez, o experimento não fora refeito, e sua justificativa era que o tratamento
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
161
“envolve umsério risco deperdaderádio, quesó podeser evitadacomo máximo de
cuidado. Enfim, vi o misteriosometal branco, masnãopudemantê-lonesseestado, pois
precisei dele para experimentos adicionais” (ajuc Goldsmith, 2006: 140). Esses, sem
dúvida, eramos experimentos que produziriama medida de definição do “padrão do
rádio”. Aquilo que poderia fazer comque os cientistas do mundo todo, indústrias e
Estados queprecisassemderádio sesubmetessemauma linguagemcomum, ao poder
queseconstruíaemseulaboratório.
Algumas semanas depois deapresentar essacomunicação, MarieCurieviajoua
Bruxelasparaparticipar do“CongressoInternacional deRadiologiaeEletricidade”. Ali,
Marie Curie informou a “comissão” que havia conseguido calcular o padrão do rádio,
mas que ainda faltavam alguns detalhes. Rutherford então sugeriu que a comissão
comprasseo elemento deMarie Curie, queerapropriedadeparticular dacientista. Ela
negou, preferiu manter o padrão emsuas mãos. Vários cientistas ofereceram-se para
definir opadrãoemlugar deMarieCurie, entreelesBoltwood, RutherfordeRamsay, e,
depois da conflituosa negociação, ficou acordado que o padrão seria mantido sob a
tutelada cientista. Elateriaquepreparar umaamostraderádio de vinte miligramas, a
ser mantidaemParis, queserviriacomoamedidadetodasasoutras. Ficouestabelecido
tambémquea“unidadedemedidaseriaaquantidadedeemanação derádio igual aum
gramaderádio”, equetal medidateriaonome“Curie” – emhomenagemàmemóriade
seumarido. RutherfordescreveunaNa:u:. (1910) umrelatosobo congresso: “todosos
que trabalharam nessa área devem agradecer Marie Curie por assumir a plena
responsabilidade pela preparação de um padrão e pelos grandes gastos de tempo e
trabalhoquesuapreparaçãoexigirá”.
Essaconquistapor partedeMarieCurieeramuitorara, poucoscientistastinham
onomeligadoaumpadrãodemedida. Tal distinçãonãosóapontavaparaopoder quea
radiopolíticapotencializou, jogando MarieCurieda“borda” parao “centro” daciência,
como também cravava seu nome na história. O rádio, o mais caro entre todos os
elementos, que pode curar várias doenças, aquele que criou toda uma “nova ciência”,
tinhaMarieCuriecomosua“porta-voz” autorizada, e, maisdoqueisso, oseupadrãode
medidalevavaosobrenomequeadquiriudeseumarido. Odispositivodaradioatividade
estendia-se; jánão seresumiaatornar possível experimentar o fenômeno deumaforma
singular, de fazê-lo visível em laboratórios, mas estabilizava a política que criou,
submetendo todos à sua política ao se utilizaremdo rádio. Marie Curie tornara-se a
única como c::.::c de fiscalizar os tratamentos e a utilização do rádio: autoridade e
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
162
peritada:ac:cjcI´::.a. Isso fez comque, nos anos seguintes e atéasua morte, Marie
Curie visitasse inúmeros países negociando as questões do rádio com políticos,
industriais e cientistas, proferindo conferencias da aplicação da radioatividade à
medicina
137
. Nesse momento, podemos dizer que a radiopolítica ganhou sua
característica molar. Afinal, “quando a máquina torna-se planetária ou cósmica, os
agenciamentos têm uma tendência cada vez maior de se miniaturizar e a tornar-se
microagenciamentos.” (Deleuze & Guattari, 1996: 93). “Diplomacia da radiopolítica”,
Marie Curie apareceu de modo “imperceptível” emterritórios nos quais c.v.::a ser
tornadainvisível pelopoder.
Após o Congresso, ao retomar seus trabalhos, ainda em1910, Marie Curie é
persuadida pelos colegas do laboratório a tentar a vaga recém-aberta – por conta da
mortedeummembro – naAcademiadeCiências deParis. Como coordenadoradeum
importante laboratório, “porta-voz” autorizada do rádio, ganhadora de inúmeros
prêmios, docente na mais respeitada universidade de Paris, membro de diversas
academias no mundo, tal possibilidade poderia significar mais facilidades para o seu
laboratório (que, por sinal, não contavacomnenhummembro na Academia), tanto no
que dizia respeito a recursos, quanto à divulgação das pesquisas. Alémdisso, antes
mesmo dos candidatos à vaga manifestarem interesse, um secretário permanente da
Academia, comentounoL. T.tj: em11dedezembro
138
:
uma cadeira em nossa Academia embora dando satisfações legítimas e alguns
direitos tambémimpõe novos deveres... para distribuir todos os prêmios, todas as
bolsas, para avaliar rapidamente o valor das comunicações que lhe chegam, a
Academia, como é óbvio, precisa recorrer a todas as suas capacidades. Onde
encontrariaaAcademiaumacientistacommaior autoridadedo queMadameCurie,
paradar umaopiniãoarespeitodessestrabalhossobrearadioatividade, cujonúmero
crescerapidamente? (...) Do próspero laboratório deMarieCurie, não existe, então,
umóbvio interesse na admissão, como seus outros colegas da Sorbonne, da chefe
que inspira seus trabalhos, e assim poderia apresentá-los, defendê-los junto às
comissõesquepremiam, propor seusnomesparabolsas; emsuma, cumprir, naplena
extensão, o papel de membro titular da Academia de Ciências? Durante quatorze
anos, ela executou com incansável ardor, fosse sozinha ou com o marido, um
número admirável de projetos de pesquisa. Podemos nos opor àqueles que talvez
acreditemque ela foi uma ajudante de seu marido lembrando o testamento muito
tocante que lhe foi feito pelo próprio PierreCurie emsua apresentação no prêmio
137
O Brasil, por exemplo, foi umdesses países que Marie Curie visitou (agosto de 1926). A cientista
apresentou a “medida do rádio” e proferiu uma conferência sobre as aplicações da radioatividade na
medicina, norecém-inaugurado“InstitutodoCâncer” deMinas Gerais– criadoapartir depreocupações
das autoridades nacionais como aumento da mortalidadepor câncer. Ver Fenelon, Sandro e Almeida,
SidneydeSouza(2001).
138
Novamenteutilizo apesquisasobreacoberturajornalísticadeQuinn (1997). Essas referências estão
localizadasentreaspáginas306e320. Umadescriçãomaiscompletadasmatériasjornalísticasencontra-
senabiografiaescritapelaautora.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
163
Nobel. Alémdisso, desde sua morte trágica, a produtividade de Marie Curie não
diminuiu nemumpouco. Citaremos apenas seu recente sucesso no isolamento do
rádioemestadopuroetambémosbelosvolumes queacaboudepublicar [tratadode
radioatividade] nos quais recapitula, comadmirável clareza eprecisão, não apenas
suaprópriapesquisa, mastambémadeseusconcorrentesecolaboradores.
Comefeito, ostrabalhossobrearadioatividadechegavamaosmontes. Quemosrecebia,
até então, era Henri Becquerel, mas o cientista havia falecido dois anos antes. E
certamente, não havianinguém“commaior autoridade” naradioatividadeemterritório
francês do que Madame Curie. Mas independentemente dos argumentos que a
favoreciam, ela era uma mulher etambémuma estrangeira (apesar de afrancesada em
alguns momentos). Nos250anosdeexistênciadoInstituto, nenhumamulher haviasido
eleita, eos estrangeiros célebres eramtornados correspondentes, mas jamais membros.
Encorajadapor colegasepelaatmosferafavorável quesomavaaseufavor, MarieCurie
aceitoucandidatar-se. OoutrocandidatocompetitivoàvagaeraEdouardBranly
139
.
O grandeamigo dePierreeMarieCurie, Georges Gouy, alertou acientistaem
umacartasobreasquestõesquecontariamparaaescolhadonovomembro:
A luta entre você e Sr. Branly se manifestará mais intensa emtorno da questão
clerical eestáclaro queseu adversário podecontar comumbomnúmero devotos,
mas creio quepermanecerão minoria. Contra ele estão os elementos avançados da
Academia quedificilmenteo perdoarão por ter abandonado a Sorbonne, faz algum
tempo, pela Faculdade Católica. E, depois, o trabalho dele tempouco que possa
comparar-secomsuasqualificações. (ajuc Quinn, 1997: 395)
A avaliação deGeorges Gouy foi parcial, ficariaclaraaoposição radical entreIgrejae
República, educadores clericais e a Sorbonne. Mas apareceriamtambémas oposições
entre o masculino e o feminino, entre os verdadeiros franceses e os estrangeiros, e a
sempre viva oposição entre os pró-Dreyfus e os anti-Dreyfus nos jornais que
escreveriamextensamentesobreacandidaturadeMarieCurieàAcademia
140
.
139
Físico francês que trabalhava como professor no Instituto Católico, e que teve importantes
contribuições paraainvenção do telégrafo semfio. Foi o primeiro anotar queerapossível emitir uma
comunicaçãopelorádiosemumfiocondutor. Erabastanteligadoàfacçãoclerical daAcademia.
140
O caso Dreyfus é umdos processos jurídicos mais famosos de todos os tempos. Alfred Dreyfus,
capitão exército francês, foi acusado de ser o autor deuma carta oferecendo documentos militares aos
alemães, encontradapeloserviçodecontra-espionagemdaFrança. Submetidoaumaprovadecaligrafia,
ojudeualsaciano(regiãodaFrançaquehaviasidoanexadaaoImpérioAlemãoem1871) foi condenado
comotraidor dapátria. EsseepisódiocrioutodoumembatenaFrançaqueredundouemumaperseguição
nacionalistaeanti-semitaaos judeus, por partedos “cristãos franceses desanguepuro”. Por outro lado,
criou-se todo umcontradiscurso, que reunia escritores como Émile Zola e Octave Mirbeau, os quais
pediamareaberturadoprocessocombasenascontrovérsiasemrelaçãoàsprovasproduzidas. A Cortede
Cassação em1899 mandou Dreyfus a novo conselho de guerra, onde novamente foi condenado. Em
1902, novo pedido de revisão foi feito e, em1906, a Corte de Cassação reconheceu definitivamente a
inocênciadeDreyfus, semenviá-loanovo julgamento. EstecasodividiuaFrançaentreos nacionalistas
conservadoreseosprogressistasrepublicanos.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
164
Três vezes por ano, a Academia de Ciências se reunia comas outras quatro
academiasdoInstitut deFrance
141
, eumadessasreuniõesocorreunodia4dejaneirode
1911, no interstício entreacandidaturadeMarieCurieeaeleição, queaconteceriano
dia 24. Tal reunião acabou se fazendo emtorno da possibilidade de uma mulher se
eleger paraaAcademiadeCiênciase, por conseguinte, aoInstituto. A discussãosobrea
.atc:ca:u:. i.t:t:t. trouxe à reunião vários membros celebrados, todos com seus
trajes verdes clássicos, que não costumavamparticipar das reuniões de praxe (Quinn,
1997). Depois de vários discursos, uns contrários, outros favoráveis à participação de
mulheres na Academia, uma votação se sucedeu, na qual permaneceu a “tradição
imutável” do Instituto(:c., :l:c.)
142
. Essavotação sedeuno augedas lutasdas mulheres
francesas(eraochamadomovimentofeministadeprimeiraonda) emtornodaigualdade
política, do sufrágio edacidadania, queeraumaespéciede“guerrados sexos” equea
ta:c::a masculina(quenadatemaver comos homens) consideravaumadegeneração
danação
143
.
No dia5 de janeiro, umdia após areunião geral do Instituto, vários jornais de
direita considerarama reunião uma vitória para os “antifeministas”. Ummembro da
AcademiadeCiências alertavaparaos rumos degenerados queanação estavatomando
no quesereferiaao progresso eàquestão dacomplementaridadesexual, afirmouao L.
T.tj:: “Não importao quevocês digam, algo mudaráno instituto quando umamulher
invadir.” L. !:¸a:c escreveu: “as mulheres não devemter apretensão deser iguais aos
homens”. O jornal LA.::ct i:at,a::., deformamenos radical emrelação às mulheres,
mas não menos intenso (por lembrar da inferioridade biológica), ainda afirmou que a
Academia “poderia aceitar uma mulher se ela tivesse umvalor incontestável, mas é
muito difícil julgar os trabalhos de Madame Curie e separar sua pesquisa do trabalho
inspirado por Pierre Curie”, e acrescentou: “Marie Curie teve todas as recompensas
possíveis, vários prêmios da Academia, nomeações para um grande número de
141
As academias quecompunhamo1t::::u: c. !:at.. eramaA.ac.t:. !:at,a::. fundadaem1635; a
A.ac.t:. c.: 1t:.::j::ct: .: L.II.:-L.:::.:, fundada em1663; a A.ac.t:. c.: ·.:.t..:, fundada em
1666; aA.ac.t:. c.: ·.:.t..: ìc:aI.: .: ¹cI:::¸u.: fundadaem1795; eaA.ac.t:. c.: L.au×-A:::,
fundadaem1816. O1t::::u: c. !:at.. foi construídocomoummodoagrupar astrêsprimeirasacademias
quecomentei duranteaRevoluçãoFrancesa; asduasúltimasentraramparaoInstitutoposteriormente.
142
Essatradiçãofoi mantida, anos depois, até1979-1978. Comojustificativacontraaentradadas outras
mulheresnoInstituto, mencionava-seo“CasoMarieCurie”(MacGrayne, 1994).
143
“NaFrança, aquestãodosufrágioé, durantemuitotempo, marginal nomovimentofeminista, quefaz
campanhapelaeducaçãodas meninas, pelodireitoaotrabalho, pelamodificaçãodoCódigoCivil epela
proteção da maternidade; o sufragismo só se impõe por volta de 1906-1910, coma criação da União
FrancesaparaoSufrágiodasMulheres(UFSF), membrodaAssociaçãoInternacional paraoSufrágiodas
Mulheres.” (Thébaud, 2000: 7).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
165
organizações, umlaboratório eumacadeiranaSorbonne, ondeelaprecisaapenaspedir,
para obter o que acha que precisa, enquanto tantos não conseguem aquilo que
necessitamparaseuslaboratórios”.
O jornal L1t::at::¸.at: publicou, no dia6dejaneiro, umanotaquecomentava
a polêmica aberta por mulheres politizadas, das quais Marie Curie era umícone, e as
reaçõesaessemovimento:
há cinqüenta anos, teríamos recebido a idéia de mulheres no instituto comuma
explosão de gargalhadas. Hoje, discutimos ardorosamente a idéia. Podem frases
deter uma idéia emmarcha? Logo o regato setornará uma torrente. E derrubará a
represa. (...) É inteiramente natural, hoje, que uma mulher queira reinvidicar seu
lugar nos círculos encarregados do reconhecimento de talento e da construção de
reputações. Não é o trabalho de Marie Curie igual ao de outro cientista que use
calçasebarbacheia?
Mas a resposta mais radical, contra os direitistas, veio do jornal socialista e pró-
mulheres – L¹utat::. ÷, que tratou a rejeição do “misógino instituto” como algo
muito bomparaareputação deMarieCurie, edirigiuosseus argumentosdiretamenteà
cientista:
Imutável tradição, segundo parece, opõe-seà sua presença sobre a cúpula. O traje
verdetemqueser unicamentemasculino, ou não existirá. A senhoranão iráparaa
academia e me alegro semironia. A senhora nada saberá das mesquinhas intrigas,
das vis invejas, dos pérfidos mexericos que se escondem à sombra dos louros
acadêmicos. Masasenhoraprosseguirá, naglóriasilenciosadeseulaboratório.
Odebateseseguiaehaviapolarizado os queeramafavor deMarieCurie(e, portanto,
às mulheres) eos queeramcontraaradical mudançano Instituto. Mas teriaterminado
por aí, se não fosse uma resistência interna ao próprio Instituto. As academias tinham
sua autonomia, e com base nesse direito é que a seção de física da Academia de
Ciênciassereuniusecretamenteeindicou– mesmo comasresistências– MarieCurieà
vaga, adespeitodavotaçãodoInstituto. Issoprovocouumdeslocamentonosproblemas
envolvidosnacandidaturadeMarieCurie. As assertivasdos jornais sedirigirammenos
à emancipação feminina, e mais para o afronte à candidatura de Branly. O problema
passava do gênero à nacionalidade. No dia emque a votação que elegeria o membro
deveria ser feita, o jornal LA.::ct i:at,a::. publicou um extensa matéria sobre a
perseguiçãoaocatolicismodeBranly, quefoi intitulada“DreyfuscontraBranly”:
Tal é, defato, a luta bizarra que ocorrerá hoje na Academia deCiências, sob essa
falsa cobertura: MarieCuriev.::u: Branly... Os imbecis queinsistempor aí que o
caso Dreyfus foi enterrado deveriamnotar: estátão desenterrado essaluta épica do
gênio nacional v.::u: demônio estrangeiro, querecomeça a cada ocasião elegante,
esportiva, literária, teatral, musical, científica, social, política econômica, sob mil
formas, mas comatores semprebasicamenteos mesmos. (...) Aos olhos do fanático
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
166
dreyfusistaDarboux, secretáriopermanentedaAcademiadeCiências, edo fanático
dreyfusista Poincaré – umhomemde gênio na matemática, segundo dizem, mas
estúpido eressentidonoresto– aos olhos dojudeudafotografiaacores, Lippmann,
do fanático dreyfusista Appell, decano da Faculdade de Ciências, essa saída da
Sorbonne, essaentradanoInstitutocatólico– sim, senhor, CA-TÓ-LI-CO– constitui
umduplo einexorável crime. (...) OsecretáriopermanenteDarboux esperavaassim
confundir aquestão, lançar opúbliconumatrilhafalsae, graçasàconfusão, derrotar
silenciosamente Branly. Càlculo péssimo para ummatemático de sua capacidade.
(...) Porqueaindapior doqueter sentimentosantifranceses édisfarçá-los por trásde
uma generosidadefeminina. (...) Espero pelo bomnome da Academia deCiências,
queessesardismiseráveisfalhem, queBranlysejanomeadonessatarde.
Todaaacusação sepautava no fato dequeos partidários deMarieCurieautilizavam
como ummoteparasentimentos “antifranceses”. Branly eraapresentado tambémcomo
aescolhapatriótica, não somentecontraaestrangeiraMarie Curieeas mulheres, mas
contra os pró-dreyfus. A nacionalidade polonesa afrancesada de Marie Curie, que até
então era considerada como irrelevante (“não vamos sofismar sobre questões de
nacionalidade”), se tornava agora umimportante centro da política da identidade. Ela
representava os “estrangeiros” contra os franceses legítimos. A essa altura, já não é
Marie Curie que parecia comos estrangeiros, mas os estrangeiros que pareciamcom
ela. Assim, impossibilitar suaentradano Instituto significavauma vitóriada França, e
umapossível derrotadosdreyfusistas.
A votação aconteceu em“clima de guerra”, manifestado por diversos lados –
políticas nacionalistas e sexuais envolvidas – e que se cruzavam, tornando o poder
exercido sobre Marie Curie mais efetivo. Já não se tratava de uma mulher, ou uma
estrangeira, masumamulher estrangeira, quepretendiaentrar numdosinstitutosdeelite
masculina mais tradicionais da França. Por tradição, as mulheres eramimpedidas de
entrar no Instituto durante a votação, e naquele dia não seria diferente. No entanto,
homens estrangeiros, enquanto “membros correspondentes”, tinhamo direito. Houve
duasvotaçõeseMarieCuriefoi derrotadanasduas; naprimeirapor umvoto(29a28) e
nasegundapor dois(30a28). Nasegunda-feiraseguinte, osacadêmicosdecretaramno
Cctj:.: ¹.tcu: ocientistafrancêscomoonovomembro.
LA.::ct i:at,a::. publicou, no dia 25 de janeiro, a “derrota de Dreyfus”,
dizendo queaAcademiarecusou-seaentrar no “jogo do círculo judaico”, “mostrando-
semais umavez dignado país”. O mesmo artigo aindaclama, por outro lado, avitória
do feminismo, dizendo que no futuro a “barreira masculina cairá e Marie Curie irá
ocupar o lugar que merece”. Já o jornal L. T.tj: declarou que a “votação não deixa
ferimentos, mas dá a honra igual aos dois eruditos, bemcomo à ilustre assembléia”.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
167
Esse discurso parece ter tido força e atingido uma certa regularidade, afinal Branly,
enquanto homemfrancês, já havia tentado a vaga várias vezes semsucesso. Alémdo
mais, era muito mais velho que Marie Curie, que se candidatava pela primeira vez e
teria outras oportunidades. Mas havia controvérsias... Ainda no dia 25 de janeiro de
1911, por exemplo, L1t::at::¸.at: fez duras críticas ao modo como a cientista
conduziusuacandidatura:
Ao apresentar suacandidaturaelaprópria, ao reafirmar peranteaos jornais que
eradefatoumacandidata, elaexibiuumafaltadereservaquenãoédoseusexo. Assim,
ofendeualgunscientistasque, foraisso, admiravamseutrabalho. (...) Quantoaopúblico
emgeral, deve-sedizer tambémquesetornouhostil àcandidata. Elesjulgaramqueessa
mulher, antes tão popular, levou longedemais seu gosto por recompensas e honrarias.
AplaudiramaliçãodepaciênciaemodéstiaqueoInstitutoacaboudeinfligir.
MarieCurie, no entanto, ficouàmargemdetodaessabatalhaenão voltouase
candidatar à Academia de Ciências de Paris. Como estratégia, não se pronunciou em
qualquer momento. A candidatura de Marie Curie foi possibilitada pela radiopolítica,
queajogavaparalugares interditos ao feminino, mas isso eraconsiderado umafronte,
umabatalhacontraas vicissitudes dominantes do gênero. É quetalvez aAcademianão
selimitassemaisàcientista(paraalémdaautoridadedemembro), afinal, seustrabalhos
eramincontestáveis, inclusiveparaaInstituição. Eis umponto importantenas relações
políticas que pretendo discutir. Ao se interditar Marie Curie em alguns territórios
atravésdapolíticasexual ounacionalistaconvencional, não seconseguiuparar o devir-
mulher que aradiopolíticaencenava. Seo rádio, o polônio, enfim, a radioatividadese
proliferavam infinitamente, Marie Curie não deixava de “ir junto”, como um vírus,
independentementedaregularidadedodiscurso materializadoemalgumas instituiçõese
que apareciamcomo resistentes a seu sexo ou sua origem
144
. A radiopolítica permitia
deslocamentos, multiplicações de combate à política sexual, e “desindividualizava”
MarieCurie. Seo poder acapturassedeumlado, elaseestendiaparaoutro(Deleuze&
Guattari, 1995a; 1996).
144
É possível ver essamultiplicação deMarieCurieno Anexo destadissertação, ondesãoapresentados
os inúmeros prêmios e medalhas, alémdas academias de que ela se tornou membro. Na França, no
entanto, elaentrouparaoInstitutosomenteem1922, nopós-guerra, naAcademiadeMedicinapor conta
desuascontribuiçõesnaradiologia(inclusiveduranteaguerra).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
168
Após sua tumultuada candidatura à Academia, Marie Curie se dirigiu para a
Conferência de Solvay
145
, onde se reuniu com grandes cientistas como Ernest
Rutherford, Albert Einstein, Max Planck, Henri Poincaré, JeanPerrin, Paul Langevine
Hendrik Lorentz, entre outros, para debater os grandes temas da física. No entanto, o
convite para o congresso foi feito para poucos, era uma honra muito grande a
possibilidade de participar de tal evento, cuja intenção era reunir os mais sábios
cientistas do mundo. Dois eixos de discussão centralizaram a conferência: a
radioatividade e a dinâmica relativística dos ¸uat:a
146
; as duas visões que
revolucionariamaciênciado iníciodoséculo. Aindanocongresso, MarieCurierecebeu
a notícia de que havia sido indicada para o Nobel emquímica de 1911, e que iria
concorrer ao prêmio “por produzir amostras suficientemente puras de polônio e rádio
para estabelecer seus pesos atômicos, fato confirmado por outros cientistas, e pela
proezadeproduzir orádiocomoummetal puro” (Goldsmith, 2006: 149)
147
.
De volta à França, teve que enfrentar outro combate, dessa vez, menos
institucional do que moral, e que ressoaria na comissão que lhe cederia o prêmio. Na
primeira página do L. ·cu:taI no dia 4 de novembro de 1911, a seguinte matéria
denunciaria um romance: “uma história de amor: Madame Curie e o professor
Langevin”. A abertura do texto comunicou que “as chamas do rádio, que brilhamtão
misteriosamente, acabaramde provocar umincêndio no coração de umdos cientistas
que estudamtão dedicadamente sua ação; e a esposa e filhos desse cientista estão em
prantos...”. A matéria, quetomoucomo fonteumaentrevistacomasogrado cientista,
dissertavasobre“ahistóriadeamor” denunciando queLangevinhaviasumido deParis.
Insinuou, ainda, quetal fato aconteceu por contado romancequeo cientistatevecom
Madame Curie; como se os dois tivessem fugidos juntos – a prova eram as cartas
trocadas desde 1910 (que só seriam publicadas posteriormente). O jornalista, então,
concluiuamatériafazendoumapeloaosacusados: “eugostariadesaber oqueMadame
145
Ernest de Solvay era umquímico industrial belga que fizera uma fortuna comumnovo processo
desenvolvidopor eleparaaproduçãodecarbonatodesódio. Foi eleitoemduasocasiõessenador belgae,
nofinal davida, MinistrodeEstado. AsconferênciasdeSolvayeramimportantesencontrosdecientistas
comointuitodedebater ostemasdomomentoefuncionamatéosdiasdehoje. Suaprimeiraversãoéde
1911etinhacomotemadedebatea :.c::a ca :ac:a,ac . cc: ¸uat:a. Foi feitanaépocacomo“oprimeiro
grandecongressomundial defísica”. Nopresente, elasacontecemtantonoramodafísicaquantonoramo
daquímica, divisãoquesedeuapartir de1922.
146
Cuat:a éoplural de¸uat:ut palavralatinaquesignifica“quantidadedeenergia”. Conceitodafísica
criado por Max Planck em1900 para o estudo de pequenas trocas de energia, e que foi utilizado por
Albert Einsteinem1905emseusestudossobrearelatividade. Essesdoismomentossãoconhecidoscomo
olimiar dafísicamoderna, ederamorigem, posteriormente, àfísicaquântica.
147
Paraver orelatóriointegral, cf. www.tcl.Ij::...c:¸.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
169
Curie e o senhor Langevin dizemdessa triste história, gostaria de ouvi-los gritar para
mim: eles estão errados, eles abusamdenós, não háumapalavraverdadeirano quelhe
disseram. Mas Marie Curie não pôde ser encontrada e ninguémsabe onde procurar o
senhor Langevin” (:c., :l:c.)
148
.
Na França daquele momento, o adultério era umcrime moralmente condenado
(para as mulheres)
149
. Era comumque homens burgueses casados tivessem amantes
anônimas que, emsigilo, desempenhavamseus papéis sexuais sematingir aimagemda
esposa. AsconvençõesdaL.II. Ljc¸u. podiammanter impunesesses“crimes” (Perrot,
1991), masMarieCurienão atendiaataisexpectativas. Eraumacientistarenomadaeo
desmascaramentopúblicopoderialherender muitospercalços. Nasituaçãodeviúva, ela
não cometerianenhumcrimediantedalei matrimonial, mas atransgressão eracontraa
integridadeda“famíliaburguesafrancesa”. Erasobaégidedessepoder queaesposade
Paul Langevin jogava: após aexposição públicado romance, elaabriuumprocesso de
abandonocontraomarido– queestavahápelo menosseismeseslongedecasa, levando
consigo seus filhos. O alvo indireto era a própria Madame Curie, como se ela tivesse
inspirado afuga. Talvez, aviagemparao Congresso deSolvay, emBruxelas – no qual
Marie Curie e Paul Langevin participaram juntos – impulsionou estrategicamente a
publicidadedoassunto.
No diaseguintedareportagem, MarieCuriesemanifestouno jornal L. T.tj:
dizendo queas insinuações eram“puraloucura”: “eugostariasomentededizer quefui
para Bruxelas com mais vinte cientistas franceses e estrangeiros, para uma reunião
científicadamaior importância”. EstamatériainformouqueMarieCurie“estavatodos
os dias em seu laboratório”, e passou umcurto espaço de tempo no Congresso de
Solvay e, posteriormente, na Polônia, concluindo que o romance era “pura invenção”.
No mesmo dia, outro jornal desmentiu a acusação de que Paul Langevin havia
abandonado suafamíliafugindo comMadameCurie, no entanto, manteveas acusações
sobreoromance. Tal foi o motedamatériadoL. ¹.::: ·cu:taI, tendopelaprimeiravez
148
Em Quinn (1997) e Goldsmith (2006) é possível ler boa parte dessas cartas trocadas entre Paul
Langevin e Marie Curie, alémde outras pessoas que foramenvolvidas, combase nas quais se discute
sobreo romanceentre1910 e1911; hoje, boa partedesses documentos faz partedo acervo do Museu
Curie, naFrança. Sabe-secomas biografias que, duranteesseperíodo mais intenso do romance, Marie
Curierecebeu várias ameaças daesposadePaul Langevin, exigindo queseafastassedeseu marido em
trocadanãopublicidadedascartas. Nãomecabeaqui apresentar oconteúdodessascartasedasameaças,
somenteosefeitosqueproduziramnosbastidoresdoNobel de1911.
149
Umúnico adultério por partedeumamulher acarretava, sob a acusação do marido, detrês meses a
doisanosdeprisão, aopassoque, sendopor partedohomem, eracasodefiança– massomentesetivesse
levadoaamanteparaacasadesuaesposa(Perrot, 1991).
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
170
uma entrevistacoma esposa “lesada” (Madame Langevin), que defendiaas causas de
suafamíliaedeclarava(novamente) ter asprovasdatraição:
Se eu fosse a mulher que estão tentando fazer de mim, emcertos círculos – uma
loucaestupidamenteciumenta–, euteriagritadoatraição demeu marido edaquela
quedestruiumeular. Mantiveosilêncioporqueerameudever, como mãeeesposa,
esconder as falhas daquele cujo nome uso. Fiquei aguardando, então, sempre com
umaesperançadereconciliação, avoltademeumaridoàrazão.
Marie Curie escreveu emtomde ameaça uma carta ao L. T.tj:, que havia tornado
públicooassunto. Nacarta, elaafirmava:
Considero abominável toda a intrusão da imprensa em minha vida privada. Esta
intrusão é particularmente criminosa quando envolve pessoas que,
manifestadamente, consagramsuas vidas a preocupações de ordem elevada e de
utilidade geral. (...) Não há nada em minhas ações que me obrigue a me sentir
diminuída. (...) Destemomento emdiante, acompanharei comrigor apublicação de
escritos amimatribuídos ou dealegações tendenciosas ameurespeito. Comotenho
direitos, reclamarei reparações eexigirei consideráveis somas, aseremempregadas
emfavor daciência.
Em seguida, o editor do jornal escreveu que se sentia culpado pelo mal causado à
cientistaeproibiuqualquer escritosobreoassuntoemseujornal.
A comissão do Nobel, , acompanhando o caso deperto, mostrou-sepreocupada
coma repercussão do romance e a transgressão que poderia figurar. A votação do
prêmio aconteceuemmeio àpolêmicaqueenvolviaMarieCurie, indicadaemprimeira
linha. Se as acusações se revelassem verdadeiras, não seria interessante laurear a
cientista, pois a imagemdo prêmio poderiaser desgastada(Crawford, 1984). Natroca
de cartas da comissão, é possível perceber não só a preocupação como caso, mas
também com sua veracidade. Um comissário do Nobel enviado à França para
acompanhar ocasoinformouàAcademiasueca: “aditasenhoraeoprofessor queforam
entrevistadosprotestamamboscontraainformação”, e, depoisdasegundamanifestação
deMarie Curie, concluiu: “[aconteceram] novos protestos eexplicações dedestacados
cientistas, novas negativas e protestos de fontes digna de créditos” (ajuc Quinn,
1997)
150
. Comessa informação, o nomedeMarieCuriefoi mantido na votação, quea
prezouemunanimidadeparaapremiação(Crawford, 1987).
A contendasobreo assunto continuaria. Os jornal LA.::ct i:at,.::. no dia18
denovembro, fez menção indiretaàcandidaturadacientistaàAcademiadeCiênciasde
Paris:
150
As fontes de Quinn (1997) que faço uso aqui são certamente seguras, trata-se dos carbogramas da
“correspondenceconcerningtheNobel PrizeinChemistryof MarieCurie1911”, noarquivos doprêmio
Nobel.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
171
Emboraessamulher nãosejadenossaraça, emborasejaumafuncionáriapública, e
mesmo tendo desejado, sejacomo for, beneficiar-sedeprerrogativas dos homens –
estávamos inteiraenaturalmentedispostos alheoferecer tambémas imunidades de
seusexo. E asofereceríamosindefinidamente, seuminteressedamesmaordem, mas
muito mais sagrado, não entrasse emjogo. Não existe uma mulher apenas, neste
caso, masduas, easegundaéinfinitamentemais dignadoqueaprimeira. Mas, sea
primeira temepor suareputação quearriscou espantosamente, a segunda, a mulher
irrepreensível, a mãe de família cujo lar está sendo destruído, pode temer, se
ficarmos emsilêncio (...) a força do escandâ-lo tornou-se a única graça salvadora
paraamãe.
Apesar do processo na justiçae darepercussão nos jornais, o assunto permaneceu em
suspensão pela falta de provas. Mas isso se deu até que algumas das cartas, trocadas
pelos amantes, fossem publicadas pelo jornal LC.uv:., no dia 23 de novembro de
1911. ForamcomunicadosaopúblicoalgunstrechosemqueMarieCuriesugeriaaPaul
Langevin o pedido de divórcio. Emtorno disso, o jornal comentou: “meticulosa, uma
mulher emancipada de moral científica ibseana e nietzschiana” e retomou o caso
Dreyfus sobre nova forma: “França nas garras de sujos estrangeiros que a saqueiam,
aviltame a desonram”. Informou ainda que Paul Langevin era chamado emcírculos
científicosde“otolodapolonesa”.
Os comissários do prêmio Nobel não poderiamvoltar atrás, o prêmio já havia
sido concedido eo discurso deentregadeveria ser feito no dia10 dedezembro. Mas,
tinhamo poder de inibir que Marie Curie fosse receber o prêmio na Suécia e evitar
qualquer tumultonacerimônia. Nessaperspectiva, MarieCurierecebeuumcomunicado
daAcademiasueca, nasvésperasdaentregadoprêmio:
Uma carta atribuída à senhora foi publicada num jornal francês e exemplares
circularamaqui. Perguntei, portanto, aalgunscolegasoqueachavamquedeveriaser
feito, na nova situação, queseagravou consideravelmentecomo ridículo duelo de
Paul Langevin
151
. O duelo dá a impressão, espero que incorreta, de que a
correspondência publicada não é falsa. Todos os meus colegas me disseramque é
preferível quea senhora não venha atéaqui. (...) Ninguémpodeter certeza do que
podeacontecer naentregadoprêmio. SeaAcademiativessepensadoqueacartaem
questãopoderiaser autêntica, comtodaaprobabilidadenãolhedariaoprêmioantes
queasenhoradesseuma explicação plausível, mostrando queacartaéfalsa. (ajuc
Quinn, 1997: 355)
Marierespondeuprontamente:
A açãoquemeaconselhameparecequeseriaumgraveerrodeminhaparte. Defato,
o prêmio foi concedido pela descoberta do rádio e do polônio. Acredito que não
151
Paul Langevin desafiou para um“duelo de armas” o editor do jornal que o chamou de “o tolo da
polonesa”. Tratava-se de umritual comumentre homens que lutavamemtorno de sua reputação. Há
registrosemcartasdecolegasenosjornaisdodia26denovembro(L. ¹.::: ·]cu:taI L1t::a::¸.at:) que
oduelorealmenteaconteceu, masnãohouveferidos oumortos porqueojornalistadecidiunãoatirar eo
cientistaimediatamentetambémserecusou.
Ressonâncias de atividades rádiopolíticas
172
existe ligação alguma entre meu trabalho científico e minha vida particular... Não
posso aceitar a idéia, em princípio, de que a apreciação do valor de trabalho
científicodevaser influenciadapeladifamaçãoepelacalúniareferenteàminhavida
particular. Estou convencida de que essa opinião é partilhada por muitas pessoas.
(:c.:l:c.: 356)
Essa históriaé longa ericademais, etornou-se impossível acompanhá-la. As relações
de poder exercidas pelo gênero (mas tambémpela nacionalidade) não cessariamaqui;
continuariam no jogo de relações de poder e contrapoder que compuseramo “Caso
Marie Curie”. A cientistarecebeu o prêmio Nobel pessoalmenteemEstocolmo, o que
cravariaseunomedeumavez por todasnahistóriadasciências
152
. Essefeito, imagino,
foi possibilitado pelas “relações derelações” e“caracteres decaracteres” (paralembrar
Whitehead), trazidosàtonapor seudispositivoexperimental, quefez aradioatividade, o
rádio eo polônio habitaremo mundo, alémdeoutras substâncias eefeitos produzidos
por aquelesquesedobraramaseuprocedimento.
152
Em seu retorno à França, após receber o seu segundo prêmio Nobel, Marie Curie teve sua casa
apedrejada.
173
F¦¦¦oqo
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ut:v.::aI .t¸uat:c a: cl:a: cc !ct.t :ac ¸ua:. :.tj:. cl:a: c.
la:la::. c. iata:::tc . c. c.:::u:,ac...
(Madame Curie, Discurso para inauguração do Instituto do Radium
emParis, 1914)
Tomei cuidado, desdeo inicio dessetrabalho, emdissociar, deumlado, as histórias de
“veneração” e “denúncia” da ciência, e de outro, a abordagemque pretendi do “Caso
MarieCurie”. Busquei meinstalar entreessas duas histórias, paraficar somentecomo
signo do acontecimento: o processo contingente de “batalhas” que produziram a
radioatividade e Marie Curie. Certamente, esta dissertação está repleta de erros
científicos, de falta de documentação e de explicações. Entretanto, mesmo diante dos
problemas que podem aparecer, espero que meu objetivo esteja cumprido: fazer
aparecer o “Caso MarieCurie” emsuapositividade; descrever suafuncionalidadepara
alémde uma “revisão” da ciência ou de uma “defesa” de seus pressupostos. Fiz um
esforço deliberado para me proteger dos perigos de meu próprio discurso, emrelação
àquilo queele não pretendeu inferir, principalmenteno quediziarespeito àperniciosa
relação entreverdadeepoder. Seafirmei quenão tenho amenor vocação paradizer a
“verdade verdadeira” sobre o que quis estudar, é para evitar o gosto pelo poder
153
.
Gostaria, emcomumacordo comStengers(2002), deabrir umespaço paradesenvolver
umacertasingularidadedaciência, ao invésdecorroborar comaestéticatrágicadeuma
ciência :.cu:c:a ou :.cu.:ca, devotada emambos os lados a nivelar e endurecer as
diferenças.
Por isso, falei emcriar uma “diferençazinha” a partir do “Caso Marie Curie”;
multiplicar as regras do jogo e de combate, contra os antagonismos bastante atuais
153
Refiro-me aqui a argumentação de Foucault (1993) em1t::ccu,ac a uta v:ca tac ia:.:::a. Texto
produzidocomoumprefácioaediçãoamericanadoAnti-ÉdipodeDeleuzeeGuattari.
Epílogo
174
como, por exemplo, entre homens e mulheres, ciência e não-ciência, vencedores e
vencidos, ou mesmo as reduções e os modos bastante diversificados que assumem. O
intuito de criar um conceito que pudesse caracterizar a emergência de uma
“aclimatação” – aintensidadepolíticado dispositivo experimental deMarieCuriepara
aradioatividade – remeteàpossibilidadede explorar umagenciamento deresistência,
queestarianasuperfíciedas relações que foramconstituídas, mas queos instrumentos
anteriores não permitiamver. Tentei mostrar o modo como se deu a primeira mulher
(visível) naciênciamodernaeaúnicaavencer o prêmio Nobel emcategorias distintas;
a primeira professora universitária e coordenadora de um laboratório dos tempos
modernos; a primeira que teve umfenômeno da natureza ligado ao seu nome e uma
“medida” que a fez trabalhar como uma política (às vezes, antes mesmo do sufrágio
universal). No entanto, essa“resistência” não temnadaaver comuma“granderecusa”,
alei puradorevolucionário; aocontrário, elaéumamultiplicidade, umcasoúnico. Ora,
não foi ali no laboratório, noterritório daCiência, emmeio atantosbloqueios inerentes
às vicissitudes degênero, quefoi possível criar umasingularidadepolíticadesdobrada
num“território existencial” para Marie Curie: o território da radioatividade, onde ela
“conseguiu a permissão de exercer toda sua liberdade”? Certamente essa permissão –
sobre a qual ela afirmava emsua chegada a Paris – não foi feita semumpouco de
crueldadecontrasi própriaetambémcontraosoutros, no combateentreo exercício do
poder sexual eapolíticaqueemergiudeseu laboratório equenão paroudeseexercer
comoresistênciaaopoder (identitário) dogênero.
Sem dúvida, o discurso de Marie Curie citado nesta epígrafe é um grito
silencioso de reprodução da política singular possibilitada pelo laboratório e
cristalizada, no seu caso, no Instituto do Rádio: “façais o possível para que os
laboratórios semultipliquem”. Por isso, eunão pretendi reproduzir qualquer teoriaque
explicasseo “Caso MarieCurie” – mobilizar as quemeestavamsujeitas nas “Guerras
das Ciências” –, mas antes, tentei fazer insurgir uma diferença, multiplicidade
fragmentária e móvel que se instalou entre o gênero e a ciência, entre as redes de
relaçõesdesujeitoseobjetosqueacomportam. Tentei descrever relaçõesdeforçasque
emnenhummomento implicassemnuma homogeneidade, nemcomo provenientes de
sujeitos nemde objetos, mas que, ao contrário, mostrassema complexidade de sua
constituição, amultiplicidadeeosdiversosladosemqueoperam.
Epílogo
175
Essapolíticainusitada, quelimitouefez variar internamenteo poder, foi o que
tentei mostrar durantetodaadissertação; seu funcionamento. Paraisso, tiveque fazer
umaescolha:
pensar antes as intensidades (e mais cedo) do que as qualidades eas quantidades;
antes as profundidades do queos comprimentos eas larguras; antes os movimentos
deindividuação do queas espécies eos gêneros. (...) Pensar as intensidades – suas
diferenças livres e suas repetições (...) é recusar o negativo (que é uma forma de
reduzir a diferença a nada, ao zero, ao vazio, à nulidade) (...) éportanto rejeitar de
umsó golpe as filosofia da identidade e as da contradição, os metafísicos e os
dialéticos (...) é rejeitar de um só golpe as filosofias da evidência e da
consciência...”. (Foucault: 2005: 144)
A resoluçãodoproblemamepareceter poucoaver comas“habilidades” individuaisde
MadameCurie, oucomo “caráter feminino” desuaprodução. Tampouco estavaligado
aotamanhodasredesqueconstruiu“emnomedaradioatividade”, emuitomenoscoma
natureza“transcendentedo fenômeno”. O caminho queapostei apontaparao conjunto
de relações de força heterogêneas produtoras da singularidade da radiopolítica: essa
“intensidade” tcI..uIa: que desenraizava o império “não inatural” do gênero, ao
multiplicar as suas possibilidades convencionais, carregando MarieCurie emseu bojo
como uma “anômala”, que sempre se tornava outra coisa que não ela mesma. A luta
para estabilizar a radioatividade como um fenômeno geral me parece sua “pedra
angular”.
Ao terminar seu livro ¹:clI.ta: .ct ¸.t.:c, JudithButler (2008) deixouuma
perguntanoar:
Asconfiguraçõesculturaisdosexoedogêneropoderiamentãoproliferar ou, melhor
dizendo, suaproliferaçãoatual poderiaentão tornar-searticulável nos discursos que
criam a vida cultural inteligível, confundindo o próprio binarismo do sexo e
denunciando sua não-inaturalidade fundamental. Que outras estratégias locais para
combater o “não inatural” podem levar a desnaturalização do gênero como tal?
(Butler, 2008: 214)
Eu poderia tentar responder, humildemente, o convite da filósofa: “radiopolítica, a
subversãodogêneroemumapalavra”...
Tal subversão é possibilitada entre os inúmeros pontos de emergência da
radiopolítica e da multiplicidade de convergência de seus rastros. Seja quando os
cientistastinhamquesesubmeter aosprocedimentosdeMarieCurie, ao seudispositivo
experimental para a radioatividade, o que tornou possível fazê-la (anormalmente)
visível; sejapelas regrascriadasparaautilização do rádio (a“medidado rádio”), o que
a colocou numa posição de autoridade perante seus pares. Essa singularidade tornou
Epílogo
176
inseparáveis as zonas de “atividade” das coisas e das pessoas em um conjunto,
formando uma específica e tcI..uIa: “cosmopolítica” (Stengers, 1997) – não no
sentido deumapolítica mundial eglobalizada, o quetambémnão é irreal, mas deum
acontecimento que alinhava a descontinuidade entre os assuntos humanos e a gestão-
produção das coisas, o queestamos acostumados adescrever emhistórias diferentes e
emprédios distintos nauniversidade. Enfim, explorei a microfísicadaquilo queBruno
Latour chamoudePolíticasdaNatureza(2004b).
A radiopolíticatemtambémcomo condição depossibilidadea “paixão” queos
cientistas têmcomseu trabalho. A definição de Marie Curie de tal ofício é tão bela
quanto exprimeo devir quepassavanos laboratórios: “Umcientista(...) não éummero
técnico: é também uma criança que confronta os fenômenos naturais que o
impressionamcomo faziamos contos defada” (MarieCurie, 1963: 221). Essapaixão é
da mesma ordemdaqueles que “em nome da radioatividade” se dobraramaos seus
procedimentos, que fazia comque a radiopolítica funcionasse cada vez mais para um
maior númerodeinteressados, proliferandoofenômenodanatureza. Foi emmeioaessa
lutaqueaquilo queconhecemoscomo radioatividade– essegrandeterritório dafísica–
foi inventado-descoberto, lánum“galpão debatatas” emParis; eseguiuseconstituindo
contra várias falsificações até tornar-se um “segredo universal da natureza”, uma
evidência, queoscientistas“aprenderam” aler.
Marie Curietornou-sepioneira emvários aspectos e aradiopolíticaa produziu
como essaexceção: cortando os segmentos degênero quebloqueavamo feminino. Os
territórios de ta:c::a masculina – o Estado, a Ciência, a Universidade – foram
habitados por Marie Curie de modo subversivo, e as relações que possibilitaramque
isso acontecessenão meparecemevidentes. Oefeito “espontâneo” quesurgiuemmeio
aessecomplexoconjuntolimitouasforçasdoexercíciodapolíticasexual enacionalista
emque Marie Curie encontrava-se envolvida, e que desde o início de suas pesquisas
eramindissociáveis. Seja como esposa e auxiliar de Pierre – que várias vezes, como
efeito do poder da “complemetaridade sexual” a levava à invisibilidade; seja como
viúva e cientista renomada – “polonesa destruidora de lares”. Ainda que se pudesse
capturar Marie Curie, o mesmo não se poderia fazer com seu movimento. Por
conseguinte, a radiopolítica não parou de funcionar numa “evolução a-paralela”,
arrebatando Marie Curie “em nome da radioatividade”, e a cientista não cessou de
ocupar territórios masculinos, enquanto a política sexual “gaguejava”, tomada emsua
própria“agramaticalidade” (Deleuze& Parnet, 2004).
Epílogo
177
Mesmo nosdiasdehoje, quando mobilizamos aradioatividadenos laboratórios,
temos de “nos” submeter aos procedimentos da cientista. Portanto, lembrar de Marie
Curie, de sua importância histórica, é impossível sema radioatividade. Criou-se, em
meioatantasrelaçõesdepoder, uma“aclimatação” singular quefez comqueasduasse
desgarrassem do tempo para ganhar a eternidade (Prigogine & Stengers, 1992). A
primeira, como um ícone da história da ciência; a segunda, como um fenômeno
universal. A radiopolíticahabitavaummundo entreascoisas, :t:.:t...c, lugar quenão
designa“umacorrelação localizável, quevai deumaparaoutraereciprocamente, mas
numadireção perpendicular, ummovimentotransversal quecarregauma. outra, riacho
sem início e sem fim, que corrói as duas margens e adquire velocidade no meio”
(Deleuze & Guattari, 1995a: 37). Ela édaordemdo devir, cria “núpcias” entreMarie
Curie e a radioatividade – devir-radioatividade de Marie Curie, e devir-mulher da
radioatividade, quesão produzidas emumcortetransversal queas arrastaparaespaços
indevidos, fazendo váriar os outros elementos quecapturam. Estaéasingularidadedo
“Caso MarieCurie”, movimento quecertamentenão temuminício, nemtampouco um
fim...
Em1995, os restos mortais deMarieCurieforamtransferidos parao Panthéon,
numa cerimônia nobre que marcou o início das comemorações do centenário da
radioatividade. Eraaprimeiramulher enterradanaquelelocal, por “méritos próprios” –
segundo as palavras do então presidente da França, François Mitterrand. Até aquele
momento, afamosainscrição no frontão do Panthéondeveriaser tomadarealmenteao
pé da letra: “Au× ¸:atc: !ctt.: Ia ja:::. :..ctta:::at:.” [“Aos grandes homens, a
pátriareconhecida”]. A Françadeposita, pois, as cinzas deumamulher polonesa, após
sessentaanosdesuamorte, notemplo dedicado aos“homensdapátria”. Aspalavrasdo
governantesãoclaras:
Estatransferência das cinzas dePierreeMarieCuriepara no nosso santuário mais
sagrado não éapenas umato de lembrança, mas tambémumato emquea França
afirma sua fé na ciência, na pesquisa, e nós afirmamos nosso respeito por aqueles
queconsagramosaqui, por suasforçasesuasvidas. A cerimôniadehojeéumgesto
deliberado deacolhimento do Panthéonàprimeira-dama denossahonradahistória.
É umsímbolo quechamaatenção denossanaçãoàlutadeumamulher quedecidiu
impor suas habilidades em uma sociedade onde as habilidades, a exploração
intelectual earesponsabilidadepúblicaestavamreservadasaoshomens.
154
154
O discurso integral do presidentepodeser encontrado no siteoficial deMarieCurie, criado após a
cerimônia: “MarieCurie, femmedeScience” (www.ta::..u::..:.:.t...¸cuv.i:).
Epílogo
178
Inspirado emButler, volto a fazer a pergunta: que outras estratégias, para além da
radiopolítica, compuseramo “Caso Marie Curie”, como nos mostra o centenário da
radioatividade?
179
Ànexo P|en¦o·, neoa¦na· e |¦|u¦o· nono|¦¦¦co·
conceo¦oo· a ¦aoane Cu|¦e
P|en¦o·
1898 PrêmioGegner, AcademiadeCiênciasdeParis
1900 PrêmioGegner, AcademiadeCiênciasdeParis
1902 PrêmioGegner, AcademiadeCiênciasdeParis
1903 PrêmioNobel deFísica(emcomumcomH. Becquerel ePierreCurie)
1904 PrêmioOsíris(concedidopeloSindicatodaImprensaParisiense, partilhadocomM. E.
Branly)
1907 PrêmioActonian, Royal Institutionof Great Britain
1911 PrêmioNobel deQuímica
1921 PrêmiodePesquisaEllenRichards
1924 GrandePrêmiodoMarquêsd’Argenteuil para1923, commedalhadebronze, Sociedade
deFomentodaIndústriaNacional
1931 PrêmioCameron, concedidopelaUniversidadedeEdimburgo
¦eoa¦na·
1903 MedalhaBerthelot (emcomumcomPierreCurie)
1903 MedalhadehonradacidadedeParis(emcomumcomPierreCurie)
1903 MedalhaDavy, SociedadeReal deLondres(emcomumcomPierreCurie)
1904 Medalha Matteucci, Sociedade Italiana de Ciências (em comum com Pierre
Curie)
1908 GrandeMedalhadeouroKuhlmann, SociedadeIndustrial deLille
1909 MedalhadeouroElliott Cresson, InstitutoFranklin
1910 MedalhaAlberto, Royal Societyof Arts, London
1919 Grã-cruz daOrdemCivil deAfonsoXII deEspanha
1921 MedalhaBenjaminFranklin, AmericanPhilosophical Society, Filadélfia
1921 MedalhaJohnScott, AmericanPhilosophical Society, Filadélfia
1921 MedalhadeourodoInstitutoNacional deCiênciasSociais, NovaYork
1921 MedalhaWilliamGibbs, AmericanChemical Society, Chicago
1922 MedalhadeourodaTheRadiological Societyof NorthAmerica
Anexo: Prêmios, medalhas e títulos honor
180
1924 Medalha de Bom Mérito de primeira classe do Governo rumeno, Brevet e
MedalhadeOuro
1929 MedalhadeNewYorkCityFederationof Women’sClub
1931 MedalhadoAmericanCollegeof Radiology
T¦|u¦o· nono|¦¦¦co·
1904 Membro honorário da Sociedade Imperial dos Amigos das Ciências Naturais,
AntropologiaeEtnografiadeMoscou
1904 MembrodehonradaRoyal Institutionof Great Britain
1904 MembroestrangeirodaSociedadeQuímicadeLondres
1904 MembrocorrespondentedaSociedadeBatavadeFilosofia
1904 MembrohonoráriodaSociedadedeFísicadoMéxico
1904 Membro honorário da Sociedade de Fomento da Indústria e Comércio de
Varsóvia
1906 MembrocorrespondentedaSociedadeCientíficadaArgentina
1907 MembroestrangeirodaSociedadeHolandesadeCiências
1907 Doutoraemdireito, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeEdinburgo
1908 MembrocorrespondentedaAcademiaImperial deCiênciasdeSãoPetersburgo
1908 MembrodehonradeVereinfür Naturwissenschaft inBraunschweig
1909 DoutoraemMedicina, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeGenebra
1909 MembrocorrespondentedaAcademiadeCiênciasdeBolonha
1909 MembroassociadaestrangeirodaAcademiaTchecadeCiências, LetraseArtes
1909 MembrodehonradoColégiodeFarmáciadeFiladélfia
1909 Membroativo, AcademiadeCiênciasdeCracóvia
1910 MembrocorrespondentedaSociedadeCientíficadoChile
1910 MembrodaAmericanPhilosophical Society
1910 MembroestrangeirodaAcademiaReal SuecadeCiências
1910 MembrodaAmericanChemical Society
1910 MembrodehonradaSociedadedeFísicadeLondres
1911 MembrohonoráriodaSocietyfor Psychical ResearchdeLondres
1911 MembrocorrespondenteestrangeirodaAcademiadeCiênciasdePortugal
1911 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeManchester
1912 MembrodehonradaSociedadeQuímicadaBélgica
1912 Membro elaborador do Instituto Imperial de Medicina Experimental de São
Petersburgo
1912 MembroefetivodaSociedadeCientíficadeVarsóvia
Anexo: Prêmios, medalhas e títulos honor
181
1912 MembrohonoráriodaUniversidadedeLemberg
1912 Doutora, !ctc::: .au:a, daEscolaPolitécnicadeLemberg
1912 MembrodehonradaSociedadedosAmigosdeCiênciasdeVilna
1913 Membro extraordinário da Academia Real de Ciências de Amsterdam(seção
MatemáticaeFísica)
1913 Doutora, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeBirmingham
1913 MembrodehonradaAssociaçãodeCiênciasedeArtesdeEdimburgo
1914 MembrohonoráriodaSociedadeFísico-Medical daUniversidadedeMoscou
1914 MembrohonoráriodaCambridgePhilosophical Society
1914 MembrohonoráriodoInstitutoCientíficodeMoscou
1914 MembrohonoráriodoInstitutodeHigienedeLondres
1914 MembrocorrespondentedaAcademiadeCiênciasNaturaisdeFiladélfia
1918 Membro de honra da Sociedade Real Espanhola de Eletrologia e Radiologia
Médicas
1919 Presidente de honra da Sociedade Real Espanhola de Eletrologia e Radiologia
Médicas
1919 DiretorahonoráriadoInstitutodeRádiodeMadrid
1919 ProfessorahonoráriadaUniversidadedeVarsóvia
1919 MembrodaSociedadePolonesadeQuímica
1920 MembrodaAcademiaReal deCiênciaseLetrasdaDinamarca
1921 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeYale
1921 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeChicago
1921 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, daNorthwesternUniversity
1921 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, deSmithCollege
1921 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, deWellesleyCollege
1921 Doutora, !ctc::: .au:a, deWomen’sof Pennsylvania
1921 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, deColumbiaUniversity
1921 Doutoraemdireito, !ctc::: .au:a, daUniversidadedePittsburg
1921 Doutoraemdireito, !ctc::: .au:a, daUniversidadedePennsylvania
1921 MembrohonoráriodaSociedadedeCiênciasNaturaisdeBuffalo
1921 MembrohonoráriodoClubedeMineralogiadeNovaYork
1921 MembrohonoráriodaSociedadeRadiológicadaAméricadoNorte
1921 MembrohonoráriodaNewEnglandAssociationof ChemistryTeachers
1921 MembrohonoráriodoAmericanMuseumof Natural History
1921 MembrohonoráriodaNewJerseyChemical Society
1921 MembrodasociedadedeQuímicaIndustrial
Anexo: Prêmios, medalhas e títulos honor
182
1921 MembrodaAcademiadeCristiania
1921 MembrodehonradaKnoxAcademyof ArtsandSciences
1921 MembrohonoráriodaAmericanRadiumSociety
1921 MembrohonoráriodaNordisk Forreningfor Medecinski Radiology
1921 MembrodehonradaAliançaFrancesadeNewYork
1922 Membroassociadolivre, AcademiadeMedicinadeParis
1922 MembrohonoráriodoGrupoAcadêmicoRussodaBélgica
1923 MembrodehonradaSociedadeRumenadeHidrologiaMédicaeClimatologia
1923 Doutoraemdireito, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeEdinburgo
1923 MembrohonoráriodaUniãodeMatemáticoseFísicosTchecolosvacosdePraga
1924 CidadãhonoráriadacidadedeVarsóvia
1924 Nomeinscrito(comodePasteur) noTownHall deNovaYork
1924 MembrodehonradaSociedadePolonesadeQuímicadeVarsóvia
1924 DoutoraemMedicina, !ctc::: .au:a, daUnivrsidadedeCracóvia
1924 DoutoraemFilosofia, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeCracóvia
1924 CidadãhonoráriadaCidadedeRiga
1924 MembrohonoráriodaSociedadedePesquisasPsíquicasdeAtenas
1925 MembrodehonradaSociedadeMédicadeLubin(Polônia)
1926 Membrosimplesda“PontifíciaTiberina” deRoma
1926 MembrodehonradaSociedadedeQuímicadeSãoPaulo(Brasil)
1926 MembrocorrespondentedaAcademiaBrasileiradeCiências
1926 MembrodehonradaFederaçãoBrasileirapeloProgressodoFeminismo
1926 MembrohonoráriodaSociedadedeFarmáciaeQuímicadeSãoPaulo(Brasil)
1926 MembrodehonradaAssociaçãoBrasileiradeFarmacêuticos
1926 Doutora, !ctc::: .au:a, daSeçãodeQuímicadaEscolaPolitécnicadeVarsóvia
1927 MembrohonoráriodaAcademiadeCiênciasdeMoscou
1927 MembroestrangeirodaSociedadedeLetrasedeCiênciasdaBoêmia
1927 MembrohonoráriodaAcademiadeCiênciasdaURSS
1927 Membro de honra da Interstate Postgraduate Medical Association of North
America
1927 MembrohonoráriodoNewZealandInstitute
1929 MembrodehonradaSociedadedosAmigosdeCiênciasdePosnam(Polônia)
1929 Doutoraemdireito, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeGlasgow
1929 CidadãhonoráriadaCidadedeGlasgow
1929 Doutoraemciências, !ctc::: .au:a, daUniversidadedeSaint Lawrence
Anexo: Prêmios, medalhas e títulos honor
183
1929 MembrohonoráriodaNewYorkAcademyof Medicine
1929 Membro, !ctc::: .au:a, daPolishMedical andDental Associationof America
1930 MembrodehonradaSociedadeFrancesadeInventoreseSábios
1930 PresidentedehonradaSociedadeFrancesadeInventoreseSábios
1931 MembrodehonradaLigaMundial pelaPaz, Genebra
1931 MembrodehonradoAmericanCollegeof Radiology
1931 Membro correspondente estrangeiro, Academia de Ciências Exatas, Físicas e
Naturais, Madri
1932 MembrodaKaiserlichDeutschenAkademieder Naturforscher zuHalle
1932 MembrodehonradaSociedadedeMedicinadeVarsóvia
1932 MembrodehonradaSociedadeQuímicaTcheco-Eslováquia
1933 Membro honorário do British Institute of Radiology and Roentgen Society,
Londres
184
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