Qual a autoridade doutrinária dos

documentos pontifícios e
conciliares?
Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira

“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as
portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (Mat. 16, 18). “Eis
que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”
(Mat. 28, 20). “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e
tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Luc. 22, 32).
Numerosas são as passagens da Escritura em que o Verbo
Encarnado ensina a indefectibilidade da Cátedra da Verdade,
personificada no Príncipe dos Apóstolos e em seus Sucessores.
Por isso os Santos, num apego cheio de enlevo e de ardor pela
Cátedra de Pedro, afirmam que o Papa é o “doce Cristo na terra”
(Santa Catarina de Siena), “aquele que dá a verdade aos que a
pedem" (São Pedro Crisólogo), aquele que, falando, põe fim às
questões relativas à fé (Santo Agostinho).
A infalibilidade dos Soberanos Pontífices e da Igreja é a garantia da
Tradição e de tudo aquilo que está contido na Revelação. Não fosse
tal garantia, a maldade e a fraqueza dos homens teriam logo
deturpado e corrompido o depósito revelado, com o mesmo ódio e
com o mesmo ímpeto satânico com que mataram o próprio Filho de
Deus.

Hodierno espírito de insubmissão à Cátedra
Na época de subversão de todos os valores, em que vivemos,
quando, no dizer de JOÃO XXIII, a norma é o antidecálogo, é
fundamental conhecermos a amplitude da infalibilidade do Papa e
da Igreja. E é fundamental para o católico ter bem nítida a noção de
que todas as decisões doutrinárias da Santa Sé, mesmo aquelas
que não empenham a infalibilidade, postulam o assentimento tanto
externo quanto interno dos fiéis.
Já os modernistas, no tempo de São Pio X, recusavam-se a acatar
as decisões da Sé Apostólica que não envolvessem a infalibilidade.
Teve por isso o Santo Pontífice de condená-los repetidas vezes
(Decreto “Lamentabili”, de 4-7-1907; Encíclica “Pascendi”, de 8- 9-
1907; Motu Proprio “Praestantia”, de 18-11-1907, etc.).
Também em nossos dias a indisciplina contra o Magistério da Igreja
serpeia nos meios católicos.
Recentemente — para exemplificar com um caso entre mil — o
Revmo. Pe. Paul-Eugène CHARBONNEAU, reconhecendo que os
métodos anticoncepcionais artificiais são condenados por uma
tradição ininterrupta que vem de Santo Agostinho a Pio XII, afirmou
no entanto que “entre o Evangelho e a Moral conjugal, temos a
impressão de que estes 16 séculos de repetições colocaram um
obstáculo tão pesado que dificilmente poderá ser removido” (“Moral
Conjugal...”, p. 150).
Para o Pe. CHARBONNEAU, portanto, o Magistério tem deformado,
desde o século IV, os princípios evangélicos sobre a moral conjugal.

Extensão da infalibilidade pontifícia
No espírito de muitos católicos de instrução religiosa mediana
radicou-se a ideia de que o Soberano Pontífice é infalível em tudo
quanto diz. Em outros, encontramos a noção igualmente errônea de
que só há infalibilidade nas definições solenes, como a da
Assunção de Maria Santíssima.
Outros, ainda, se perguntam: um Concílio Ecumênico é sempre
infalível? O Papa pode errar? Tenho obrigação de crer em tudo que
ensinaram os Papas ao longo dos séculos? E em todos os
documentos doutrinários promulgados pelas Congregações
Romanas? E em tudo que ensinam os Bispos, ou pelo menos o
meu Bispo? Que diferença existe entre a infalibilidade do Papa e a
da Igreja?
Nos limites estreitos deste artigo, analisaremos os pontos
fundamentais dessas questões, sem entretanto abordarmos os
problemas colaterais — e tantas vezes extremamente subtis e
complexos — que elas podem sugerir.

É lícito tratar desse tema?
Um católico devoto do Papado, e portanto cioso do caráter
monárquico da Igreja, poderia perguntar-nos liminarmente: é lícito
versar tais assuntos? Não seria mais piedoso acatar como infalível
tudo que ensinam quer os Papas, quer os Bispos?
Responder-lhe-íamos que os fiéis não devem considerar a Igreja
como Nosso Senhor não A fez. Se sobre um ponto tão fundamental
da doutrina católica pairam dúvidas, é da missão de jornais
católicos esclarecê-las, pois a doutrina da Igreja não é esotérica.
Ademais, leva-nos a abordar este assunto o fato de que, como já
dissemos, os progressistas buscam hoje de mil modos diminuir as
prerrogativas do Pontificado Romano, e pregam a rebeldia contra os
ensinamentos seculares do Magistério, como declarou
recentemente Paulo VI:
“[...] muitos encaram o Magistério eclesiástico numa atitude de
reserva e com desconfiança. Ao Magistério eclesiástico, alguns
quereriam atribuir sobretudo o papel de confirmar a “crença infalível
da comunhão dos fiéis". Outros, partidários das doutrinas
negadoras do Magistério eclesiástico, quereriam atribuir aos fiéis a
capacidade de interpretar livremente a Sagrada Escritura segundo
sua própria intuição, que fàcilmente se pretende inspirada’’
(Discurso de 11-1-1967).
Portanto — responderíamos ainda a nosso hipotético objetante — o
mais piedoso é conhecer a Santa Igreja tal como Jesus Cristo A
instituiu. Pretender aperfeiçoar a sua estrutura essencial é querer
desvirtuá-La, é querer moldá-La à imagem e semelhança de nosso
orgulho. Devemos, pois, conhecê-La, amá-La, admirá-La e
reverenciá-La tal qual Ela é, em sua perfeição divina de Esposa de
Cristo. E devemos, por outro lado, pôr todo o nosso empenho em
enriquecê-La com a perfeição acidental que Lhe traz a santificação
de seus filhos.

Magistério pontifício e universal; ordinário e extraordinário
Antes de abordarmos o problema da infalibilidade, cumpre
estabelecer algumas distinções fundamentais.
O Magistério eclesiástico deve ser dividido, inicialmente, em
pontifício e universal. Magistério pontifício é o do Papa, Chefe
supremo da Igreja. Magistério universal é o de todos os Bispos
unidos ao Sumo Pontífice.
No Magistério pontifício o Sucessor de São Pedro fala
individualmente e por autoridade própria. Por exemplo, através de
Encíclicas, Constituições Apostólicas, Alocuções dirigidas a
peregrinos.
No Magistério universal, é o conjunto dos Bispos que fala, em união
com o Sumo Pontífice, quer estejam eles congregados em Concilio,
quer dispersos pelo orbe.
Cumpre absolutamente acautelar-se contra uma concepção errônea
do Magistério universal, segundo a qual os Bispos poderiam ensinar
independente do Papa. Nada de mais falso. Em vista do caráter
monárquico da Igreja, o ensinamento dos Bispos, quer quando
reunidos em Concilio, quer quando espalhados pelo mundo,
nenhuma autoridade teria se não fosse aprovado, pelo menos
implicitamente, pelo Papa. É da união de pensamento com o
Soberano Pontífice que o Magistério universal tira toda a sua
autoridade.
O caráter monárquico da Igreja é de direito divino, e foi objeto de
numerosas definições do Magistério (cf. Denzinger, “Ench. Symb.”,
44, 498, 633, 658 ss., 1325, 1500, 1503, 1698 ss., 1821, 2091,
2147-a).
Em sua Carta Pastoral sobre Problemas do Apostolado Moderno, D.
Antonio de Castro MAYER, Bispo de Campos, tratando do
magistério de cada Bispo em sua diocese, ensina que, “sendo o
Magistério pontifício infalível, e o de cada Bispo, ainda que oficial,
falível, está na fragilidade humana a possibilidade de um ou outro
Bispo vir a cair em erro; e a História registra algumas dessas
eventualidades” (p. 119).

Outra divisão básica, que é necessário estabelecer, é a que distingue o
Magistério ordinário do extraordinário.
No Magistério extraordinário, cada pronunciamento goza de infalibilidade
por si próprio. São as definições solenes, como a da Imaculada Conceição,
da Infalibilidade pontifícia, da Assunção de Maria Santíssima.
Mas — como adiante veremos — nem tudo que os Papas, os Concílios e os
Bispos ensinam é de si infalível. Chama-se ordinário o Magistério nos
casos em que não estão preenchidas as condições necessárias para que
um pronunciamento seja por si próprio infalível.
Tanto o Magistério pontifício quanto o universal podem ser ordinários ou
extraordinários. Temos, pois, quatro modalidades diversas de ensino na
Santa Igreja:




Magistério








Pontifício







Universal



Extraordinário — Pronunciamento
papal solene, por si próprio
infalível. Exs. : definições dos
dogmas da Imaculada Conceição e
da Assunção de Nossa Senhora.
Ordinàrio — Magistério comum do
Papa, em que cada pronunciamento
não é de si infalível. Ex.: em geral, a
doutrina contida nas Encíclicas,
Alocuções, etc.
Extraordinário — Pronunciamento
solene e por si próprio infalível, dos
Bispos em união com o Papa. Ex.:
definição do dogma da
Infalibilidade pontifícia pelo Concilio
Vaticano I.
Ordinário — Magistério comum dos
Bispos em união com o Papa, em
que cada pronuncia- i mento não é
de si infalível. Ex. : o ensino da ,
Mediação universal de Nossa
Senhora, por ! todo o mundo, no
conjunto das Cartas Pas- ij i torais,
sermões, etc.

Na conceituação do Magistério universal extraordinário, é preciso não
confundir o sentido que acabamos de atribuir à expressão
“extraordinário”, com o outro sentido que essa palavra comporta: coisa
fora do comum, que foge à rotina de todos os dias. Com efeito, todo
Concilio é extraordinário no sentido de que não está permanentemente
reunido; mas o seu ensinamento só é extraordinário se define um dogma
de fé. No presente artigo só empregaremos a expressão “extraordinário”
no sentido de definição solene e infalível.
Entre os teólogos encontra-se a palavra empregada ora num sentido ora
em outro, o que nos parece fonte de não pequenas confusões. (Cf.
SALAVERRI, pp. 681-682; NAU, “El Magisterio...”, pp. 37-38; CARTECHINI,
p. 42; LAVALETTE, p. 258).
Preferimos adotar a nomenclatura indicada porque, além de nos parecer
mais didática, foi recentemente sancionada por Paulo VI em dois Discursos
relativos ao Concilio Vaticano II (cf. Discurso de 7-12-1965, p. 817;
Discurso de 12-1-1966, p. 170).
A análoga confusão se presta a palavra “solene”, que ora indica o
pronunciamento por si próprio infalível, ora o que, ademais, se cerca de
fórmulas particularmente solenes. (Cf. JOURNET, vol. I, p. 534, nota 2;
NAU, “Une Source. . .”, p. 65).

Que é um pronunciamento pontifício "ex cathedra"?

Analisemos inicialmente o Magistério pontifício extraordinário.
De suas lições de catecismo, todo católico se lembra de que o Papa é
infalível quando fala ex cathedra, e em matéria de fé e moral. Fórmula
verdadeira, mas que pelo seu extremo laconismo — aliás inevitável —
pode induzir em engano, e por isso pede algumas explicações.
Com efeito, que significa ex cathedra? Falar da Cátedra de Pedro é apenas
ensinar oficialmente? É dirigir-se à Igreja Universal? As Encíclicas, por
exemplo, sendo documentos oficiais, em geral dirigidos a toda a Igreja,
são ipso facto pronunciamentos ex cathedra? Na definição da
infalibilidade pontifícia, no Concilio Vaticano I, encontramos a solução
cabal para tais dúvidas. A Constituição “Pastor Aeternus” estabelece as
condições necessárias para a infalibilidade das definições pontifícias.
Ensina que o Papa é infalível “quando fala ex cathedra, isto é, quando, no
uso de sua prerrogativa de doutor e pastor de todos os cristãos, e por sua
suprema autoridade apostólica, define a doutrina que em matéria de fé e
moral deve ser sustentada por toda a igreja” (DENZINGER, “Ench. Symb.”,
1839).
Os teólogos são unânimes em ver aí a solução do problema das condições
da infalibilidade pontifícia. (Cf. DIEKAMP, p. 71; BILLOT, pp. 639 ss.;
CHOUPIN, “Valeur...”, p. 6; HERVÉ, pp. 473 ss.; JOURNET, vol. I, p. 569;
NAU, “El Magisterio...”, p. 43; SALAVERRI, p. 697; CARTECHINI, p. 40).
São quatro, portanto, as condições necessárias para que haja um
pronunciamento do Magistério pontifício extraordinário:
1) que o Papa fale como Doutor e Pastor universal;
2) que use da plenitude de sua autoridade apostólica;
3) que manifeste a vontade de definir;
4) que trate de fé ou moral.
A infalibilidade é uma faculdade que reside na pessoa do Pontífice como
num ser dotado de inteligência e vontade. Ele usará ou não desse poder,
conforme queira ou não.
Na sua vida privada, por exemplo, em conversa com amigos ou em carta a
um parente, é claro que o Papa não está usando de seu poder de definir.
Daí vem a primeira condição: que ele fale como Mestre universal.
Em mais de um documento Bento XIV afirma que não emite tal opinião
teológica como Sumo Pontífice, mas como simples doutor privado. O
mesmo declarou São Pio X a propósito de afirmações que o Papa faz em
audiências privadas (cf. NAU, “El Magisterio...”, p. 48, nota 35).
Mas para que haja infalibilidade não basta que o Papa ensine como
Mestre universal. Com efeito, é necessário que esteja preenchida uma
segunda condição: que ele fale no uso da plenitude de seus poderes. Tal é
a importância e a gravidade de um pronunciamento infalível, que é
preciso que se torne bem claro que, ao fazê-lo, o Sumo Pontífice está
usando da plenitude das prerrogativas que lhe cabem como legítimo
Sucessor de São Pedro. É por isso que tanto Pio IX na definição da
Imaculada Conceição, quanto Pio XII na da Assunção, declaram que falam
“com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados
Apóstolos São Pedro e São Paulo e Nossa”.
Ainda isto, entretanto, não basta. Pois, mesmo falando como Mestre
universal, e no uso de toda a sua autoridade, o Papa pode limitar-se a
recomendar uma doutrina, ou a ordenar que ela seja ensinada nos
Seminários, ou a advertir os fiéis do perigo que há em negá-la. Por isso há
uma terceira condição: a manifestação da vontade de definir.
Essa vontade de definir falta, por exemplo, nos documentos, que
entretanto são tão sábios, positivos e enérgicos, em que os Papas
recomendaram ou mesmo impuseram aos professores de Filosofia e
Teologia Sagrada o estudo e o ensino do tomismo. Ver, entre outros, a
Encíclica “Aeterni Patris”, de Leão XIII; o Motu Proprio “Doctoris Angelici”,
de São Pio X; e a Encíclica “Studiorum Ducem”, de Pio XI.
A última condição é que se trate de matéria de fé e moral. Deixamos esse
item à parte, pois exorbitaria dos limites do presente artigo o estudo dos
objetos primários e secundários da infalibilidade. (Cf. BILLOT, pp. 392 ss.;
CHOUPIN, “Valeur. . .”, pp. 38 ss.; HERVÉ, pp. 496 ss.; SALAVERRI, pp. 729
ss.).
Manifestação da vontade de definir
O ponto crucial da questão está na terceira condição: que haja intenção
de definir.
Como se manifesta tal intenção? É pelo emprego da palavra “definimos”?
É pela excomunhão de quem disser o contrário? É pela natureza jurídica
do documento?
Nenhum desses sinais é apodítico (cf. CARTECHINI, pp. 29, 31, 36, 54). O
fundamental é que esteja claro, por qualquer via que seja, que o Papa quis
definir um dogma.
Assim é que, nas definições solenes, os Sumos Pontífices acumulam os
verbos, para tornar insofismável sua intenção: “promulgamos,
decretamos, definimos, declaramos, proclamamos”, etc.
Em outros casos, faltarão tais verbos, mas as circunstâncias que cercam o
documento mostrarão que houve a vontade de definir. É o que se dá
quando o Papa impõe a toda a Igreja que aceite uma fórmula de fé. Ou
quando soluciona oficial e definitivamente uma disputa doutrinária
surgida entre Bispos, em documento dirigido, de modo pelo menos
indireto, à Igreja Universal.

O Magistério universal extraordinário
O Concílio Vaticano I não declarou em que condições um Concílio
Ecumênico é infalível. Mas, por analogia com o Magistério pontifício,
pode-se afirmar que as condições são as mesmas quatro. Como o Papa, o
Concílio tem a faculdade de ser infalível, mas pode dela usar ou não,
conforme queira.
Muitos católicos mal informados poderiam aqui nos objetar que sempre
ouviram dizer que todo Sínodo Ecumênico é necessariamente infalível.
Não é isso, entretanto, o que dizem os teólogos.
São Roberto Bellarmino explica que é somente pelas palavras do Concílio
que se pode saber se seus decretos são propostos como infalíveis. E
conclui que, quando as palavras não são claras nesse particular, não é
certo que tal doutrina seja de fé (“De Conc.”, 2, 12). E, se não é certo, não
é dogma, pois, segundo o Código de Direito Canônico, “nenhuma verdade
deve ser tida por declarada ou definida como dogma, a menos que isso
conste de modo manifesto” (can. 1323, § 3). Ver, no mesmo sentido,
CARTECHINI, p. 26.
Um estudo exaustivo do Magistério universal extraordinário deveria
comportar a análise de numerosos problemas que, entretanto, escapam
aos limites do presente artigo. A fim de dar ao leitor uma visão mais ampla
do assunto, ainda que sumária, enunciamos aqui algumas teses que são
pacíficas entre os teólogos não progressistas:
 As decisões conciliares nunca podem ser infalíveis se não tiverem
sido aprovadas pelo Papa.
 Um Concílio só é infalível naquilo que claramente impõe como
devendo ser crido (cf. SÃO ROBERTO BELLARMINO, “De Conc.”, 2,
12).
 Os Concílios de Trento e do Vaticano quiseram definir não apenas
nos seus cânones, mas também nos seus capítulos doutrinários (cf.
SALAVERRI, p. 816).

Continuidade de um ensinamento no Magistério ordinário
Não se pode definir o Magistério ordinário, quer pontifício quer universal,
como sendo o dos ensinamentos que não gozam da nota de infalibilidade.
É verdade que por si só, isto é, isolado dos demais, um ensinamento do
Magistério ordinário não envolve infalibilidade. Assim, quando a Encíclica
“Ad Diem Illum”, de São Pio X, defende a Co-redenção Mariana, nada diz
que empenhe a infalibilidade pontifícia. Nesse caso estamos longe, pois,
das definições solenes, como por exemplo a da Bula “Ineffabilis Deus”,
que definiu a Imaculada Conceição, e que por si só fecharia a questão,
ainda que não houvesse nenhum outro pronunciamento pontifício a
respeito.
No entanto, o Magistério ordinário pode, por um outro modo, envolver a
infalibilidade. Assim é que, ao tratar da Co-redenção, diz o Pe. J. A.
Aldama, S. I.: “Embora o Magistério ordinário do Pontífice Romano não
seja por si infalível, se entretanto ensina constantemente e por longo
tempo uma certa doutrina a toda a Igreja, como se dá em nosso caso [da
Co-redenção], deve-se absolutamente admitir a sua infalibilidade; caso
contrário, induziria a Igreja em erro” (“Mariologia”, p. 418).
Portanto, segundo o Pe. Aldama, a Co-redenção Mariana é doutrina já
hoje infalivelmente ensinada pela Igreja, embora não tenha ainda sido
objeto de qualquer pronunciamento do Magistério extraordinário, quer
pontifício, quer universal.
Temos aí a infalibilidade do Magistério ordinário pela continuidade de um
mesmo ensinamento. Princípio importantíssimo, do qual em geral se
esquecem muitos católicos ao estudarem a nossa fé.
Ver a respeito: NAU, “Une Source...”, pp. 68 ss.; "El Magisterio...”, pp. 47
ss.
O fundamento doutrinário de tal título de infalibilidade é o que nos
aponta o Pe. Aldama: sé numa longa e ininterrupta série de documentos
ordinários sobre um mesmo ponto os Papas e a Igreja Universal pudessem
enganar-se, as portas do inferno teriam prevalecido contra a Esposa de
Cristo. Esta Se teria transformado em mestra de erros, de cuja influência
perigosa e mesmo nefasta os fiéis não teriam meios de fugir.
Que lapso de tempo é necessário para que determinada verdade se possa
dizer infalível pela continuidade do Magistério ordinário? É pueril desejar
decidir tais questões com ampulheta na mão. Os fatos vivos não se
medem por computadores, mas pelo bom senso, único instrumento capaz
de ponderar os imponderáveis. E os fatos da fé, que além de vivos são de
ordem sobrenatural, só se medem pelo senso católico, inspirado pela
graça.

Fatores que influem no estabelecimento da continuidade
E evidente que o fator tempo não é o único a ser levado em conta. Há
numerosos outros, dos quais indicaremos alguns, apenas para orientação
do leitor, sem visar uma enumeração exaustiva. Também não
analisaremos minuciosamente os fatores indicados, e muito menos as
questões colaterais que cada um deles poderia sugerir, pois isso
exorbitaria dos estreitos limites do presente artigo.
■ A importância que o Papa dá ao documento. Se essa
importância é grande, o pronunciamento terá um peso muito maior
no estabelecimento da série de continuidade, do que um outro que
tenha sido objeto de pequena insistência e realce por parte do
próprio Pontífice.

■ A importância que os Papas posteriores dão ao documento.
Com grande frequência os Sumos Pontífices citam os seus
Predecessores, repetem o que eles ensinaram, elogiam seus
documentos. Tal praxe, que poderia parecer mera manifestação
protocolar de respeito, tem entretanto enorme importância no
estabelecimento da continuidade de um ensinamento. Pois torna
patente que o Papa posterior quis trilhar as mesmas vias de seu
Predecessor.

■ A solenidade do pronunciamento. Uma Encíclica ou uma
Constituição Conciliar, por exemplo, pesam mais do que um
Discurso pronunciado pelo Papa em audiência pública.

■ A universalidade do ensinamento. As aulas de catecismo
dadas por São Pio X ao povo de Roma e aos peregrinos têm menor
autoridade do que as Radiomensagens de Natal que Pio XII dirigia
todos os anos ao orbe católico.

■ O auditório para o qual o Papa fala. Os Discursos a congressos
científicos, por exemplo, são particularmente importantes, dado o
alto nível técnico dos ouvintes. Tais congressos fazem as vezes de
caixas de ressonância para a voz do Pontífice, destinadas a ampliá-
la, a comentá-la e a difundi-la pelo mundo todo. Assim, foi enorme
a repercussão que tiveram em todo o orbe os Discursos sobre os
métodos anticoncepcionais, dirigidos por Pio XII a congressos de
obstetrizes, hematologistas, etc.

■ A atenção dada pelos teólogos ao pronunciamento. Doutores
das ciências sagradas, os teólogos são encarregados pela própria
Igreja de sistematizar e ensinar a sua doutrina. Se grande número
deles interpretasse mal o alcance de uma declaração conciliar ou do
Papa, este presumivelmente os corrigiria, através de novo
pronunciamento. Logo, se certa doutrina haurida dos documentos
pontifícios é largamente repetida pelos teólogos sob o silêncio
complacente do Papa, torna-se claro que este não só a professa,
mas também a quer amplamente difundida por toda a Igreja.

■ A repercussão do documento no mundo católico em geral. O
argumento que acaba de ser dado não vale só para os teólogos,
mas, mutatis mutandis, para os meios católicos em geral. Se uma
declaração pontifícia ou conciliar é objeto de larga acolhida nos
ambientes políticos, jornalísticos, nas associações religiosas, etc., e
se o Papa se cala, é porque a quer ver largamente difundida.

■ Aquilo que durante muito tempo é pacificamente ensinado em
todo o orbe católico adquire facilmente a característica de
ensinamento infalível.
Segundo a fórmula clássica de São Vicente de Lerins, devemos crer naquilo
que foi ensinado sempre, em todos os lugares e por todos: “quod semper,
quod ubique, quod ab omnibus”. Pois a assistência do Divino Espírito Santo
seria falha se uma doutrina ensinada sob essas três condições pudesse ser
falsa. É preciso, entretanto, não entender o adágio em sentido exclusivo,
isto é, como se a infalibilidade pela continuidade de um mesmo
ensinamento só existisse quando se verificassem aquelas três condições.
Ver a respeito DIEKAMP, p. 68.
■ O caráter ininterrupto da série. Se uma doutrina de vários
Papas é contraditada por um de seus Sucessores, ou por um
Concílio, antes de se constituir em ensinamento infalível, é claro
que a série está rompida. Tal fator negativo pode influir
ponderavelmente no estabelecimento da continuidade.
É possível que algum documento pontifício ou conciliar se oponha
frontalmente a ensinamentos infalíveis do passado? É evidente que, se o
novo pronunciamento é também infalível, tal oposição não pode existir.
Mas, se não o é, autores de peso — como São Roberto Bellarmino, Suarez,
Cano e Soto — encaram tal hipótese como teologicamente possível. E é
manifesto que o católico deveria então permanecer fiel à doutrina
infalível. Essa hipótese levaria os estudiosos à questão multissecular, em
que se empenharam especialmente os maiores teólogos dos Tempos
Modernos, da possibilidade de um Papa herege. — Ver, a respeito,
ADRIANO II, alloc. 3; INOCÊNCIO III, col. 670; SÃO ROBERTO BELLARMINO,
“De Rom. Pont.” 2, 30; 4, 6 ss.; SUAREZ, “De Fide”, d. X, s. 6; ”De Legibus”,
lib. IV, c. 7; CANO, ad 12; SOTO, d. 22, q. 2, a. 2; SANTO AFONSO DE
LIGÓRIO, p. 232; BALMES, pp. 78-79; BILLOT, pp. 609 ss.; WERNZ-VIDAL,
pp. 517 ss.; STRAUB, p. 480; DUBLANCHY, col. 1714; SALAVERRI, pp. 698,
718; JOURNET, vol. I, pp. 625 ss.; vol. II, p. 1063 ss.; KUNG, pp. 292 ss.;
MONDELLO, “La Dottrina...”.
■ A importância de que a tese goza no documento. Aquilo que é
o tema central de ama Encíclica, por exemplo, empenha em maior
grau a autoridade pontifícia do que uma afirmação rápida a
propósito de uma tese secundária.

■ O modo como o documento apresenta o assunto. Na
“Quadragesimo Anno” Pio XI declara que vai responder a dúvidas
chegadas à Santa Sé a respeito do caráter acatólico do socialismo.
Isso dá uma especial importância a essa parte do documento, pois
evidencia o propósito de resolver questões doutrinárias com a
autoridade pontifícia.
Os trabalhos de Dom Paul Nau (“Une Source...” e “El Magistério...”)
estudam pormenorizadamente esses diversos fatores que podem influir
no estabelecimento da continuidade de um ensinamento do Magistério
ordinário.

Um exemplo: a propriedade privada
Parece-nos inquestionável que os princípios enunciados pelos teólogos,
com relação à infalibilidade pela continuidade de um mesmo
ensinamento, se aplicam aos pontos fundamentais da doutrina da
propriedade privada.
É impressionante o número de documentos pontifícios que
ininterruptamente, ao longo de século e meio, ensinaram que a
propriedade privada é de direito natural e condenaram o socialismo. (Cf.
Dom G. P. SIGAUD, Dom A. C. MAYER, Plínio Corrêa de OLIVEIRA e L.
Mendonça de FREITAS, “Reforma Agrária — Questão de Consciência”, pp.
38 ss.).
Esses documentos ressoaram por toda a Igreja: basta pensar na “Rerum
Novarum” e na “Quadragesimo Anno”.
Como sustentar que a série de tais ensinamentos é menos rica do que a da
Co-redenção Mariana, que entretanto, segundo o Pe. Aldama, já não é
questão livre entre os católicos?

Outros títulos de infalibilidade do Magistério ordinário
Mas não é apenas pela continuidade de um mesmo ensinamento que o
Magistério ordinário pode vir a envolver infalibilidade.
Os teólogos enumeram vários outros casos em que isso ocorre: as
canonizações, a Liturgia, as leis eclesiásticas, a aprovação de Regras de
Ordens e Congregações religiosas.
Na canonização, o Sumo Pontífice afirma que determinado servo de Deus
se santificou e merece o culto da Igreja Universal; e propõe a sua vida
como modelo para todos os fiéis. Ora, se aquela alma se houvesse
condenado, a Santa Igreja estaria propondo a seus filhos um culto falso, e
um modelo que os levaria à perdição eterna. E, então, as portas do inferno
teriam prevalecido sobre a Rocha de Pedro. Por isso o Papa é infalível nas
canonizações. As doutrinas que ele implicitamente ensina, ao recomendar
que se imite e venere o novo Santo, não são abrangidas pela infalibilidade.
Na canonização só é infalível a declaração de que o servo de Deus está no
Céu.
Em certas passagens, os autores colocam as canonizações no Magistério
ordinário, enquanto em outras as classificam no Magistério
extraordinário. Evidentemente, não há contradição entre essas duas
posições. A declaração de que dada pessoa se santificou é infalível por si
própria, e portanto integra o Magistério extraordinário. E, por outro lado,
o ensinamento doutrinário que implicitamente está contido na
canonização pertence ao Magistério ordinário. (Cf. CARTECHINI, pp. 36,
53, 110, 174).
Pela mesma razão de que as portas do inferno prevaleceriam sobre a
Igreja se o Papa orientasse os fiéis para a perdição eterna, as leis
eclesiásticas e especialmente a aprovação das Regras religiosas gozam de
infalibilidade. Se a Santa Sé obrigasse os fiéis a praticar atos pecaminosos,
ou lhes indicasse regras de vida censuráveis, ter-se-ia transformado em
instrumento de danação.
Também as orações da sagrada Liturgia direta ou indiretamente
aprovadas pela Cátedra da Verdade não podem conter erros. “Lex orandi,
lex credendi” — “a lei da oração é lei da fé”. Como poderia a Igreja, pelas
preces que recomenda, instilar nas almas princípios opostos à fé?
Também neste item não podemos aprofundar as interessantíssimas
questões que tal problemática sugere. A título de simples indicação para o
leitor desejoso de uma visão de conjunto, acenamos para alguns
prolongamentos que a temática comporta:
■ A infalibilidade no que diz respeito a uma lei eclesiástica não
implica em admitir que ela seja a mais perfeita possível, mas apenas
que não obriga a atos pecaminosos.

■ A legislação da Igreja não pode obrigar a pecados mortais.
Isso é inquestionável. Nem mesmo recomendá-los. Poderia
determinada lei eclesiástica terminar por insinuá-los? Poderia
permiti-los expressamente? Poderia permiti-los tacitamente? E, por
outro lado, poderia obrigar a pecados veniais? Poderia recomendá-
los, insinuá-los, permiti-los expressa ou tacitamente? Estes pontos,
que não nos consta tenham sido versados pelos tratadistas, são
entretanto da maior importância para uma exata conceituação da
infalibilidade.
■ O mesmo quanto à Liturgia: nela é possível haver a insinuação
de um erro?

■ Não se devem confundir os diversos títulos de infalibilidade
que acabamos de indicar com a chamada infalibilidade passiva dos
fiéis. Esta expressão, corrente na Sagrada Teologia, indica que os
filhos da Igreja, seguindo o que Ela ensina, certamente conhecerão
a verdadeira fé. Mas não lhes cabe nenhuma missão oficial de
magistério, ou seja, seu papel é nisso meramente passivo. (Cf. NAU,
“El Magisterio...”, p. 45; CARTECHINI, p. 251).


Autoridade dos documentos não infalíveis
A preocupação com o estudo dos diversos títulos de infalibilidade não nos
deve, entretanto, levar a pôr na sombra os documentos não infalíveis.
Com efeito, grande parte dos ensinamentos contidos nas Encíclicas, nas
Alocuções pontifícias, nas Cartas dirigidas pela Santa Sé a Bispos e a
congressos de todo o orbe, nos Decretos das Sagradas Congregações
Romanas, não envolvem a infalibilidade.
Devemos sob esse pretexto desprezá-los?
Foi isso, como já dissemos, que os modernistas procuraram fazer com os
documentos que contra eles publicou São Pio X. E já então o problema era
velho, pois hereges anteriores haviam recorrido ao mesmo ardil com o
objetivo de poderem continuar dentro da Igreja para melhor espalharem o
seu veneno (cf. Dom A. C. MAYER, “Como se prepara...”).
O Pe. Lucien CHOUPIN, S. J., citando abundante documentação, assim se
exprime sobre a autoridade dos ensinamentos não infalíveis:
“Que gênero de adesão devemos a tais decisões doutrinárias, autênticas
mas não infalíveis? É — responde Franzelin — o assentimento religioso
baseado na autoridade do governo da Igreja Universal: um assentimento
de ordem religiosa, que não é a fé, mas que depende da virtude da fé. A
autoridade do Magistério supremo e universal é tão santa, tão sagrada,
que quando ela tema uma decisão, ordenando-nos por exemplo que
sigamos ou rejeitemos determinada doutrina, devemos-lhe respeito e
obediência, não apenas o silêncio respeitoso, mas o assentimento interior
do espírito, mesmo quando a decisão não está garantida pelo, carisma da
infalibilidade. A autoridade sagrada da Igreja motiva nossa adesão.
É sem dúvida prudente, sábio e seguro atermo-nos às decisões da mais
elevada e da mais competente de todas as autoridades, a qual, mesmo
quando não exerce o seu poder soberano no grau supremo, goza sempre
de uma assistência especial da Providência.
Quer o Papa possa se enganar, quer não — diz São Roberto Bellarmino —
deve ser religiosamente obedecido quando decide uma questão duvidosa.
No caso, nosso assentimento não é metafìsicamente certo; com efeito,
dado que a decisão não vem garantida pela infalibilidade, a possibilidade
de erro não está excluída. Mas é moralmente certo: tão plausíveis são os
motivos de adesão, que é perfeitamente razoável dar o assentimento a
esse julgamento da autoridade competente’’ (CHOUPIN, “Valeur...”, pp.
53-54).
Ver também PRÜMER, p. 368; PESCH, § 328; Dom A. C. MAYER, “Carta
Past. sobre a Preservação...”, p. 24.
Dos numerosos documentos pontifícios que ensinam que essa deve ser a
posição dos fiéis ante os pronunciamentos não infalíveis, citamos apenas
uma passagem da Encíclica “Humani Generis”, de Pio XII;
"Nem se deve crer que os ensinamentos das Encíclicas não exijam per se o
assentimento, sob o pretexto de que os Pontífices não exercem nelas o
poder de seu supremo Magistério. Tais ensinamentos fazem parte do
Magistério ordinário, para o qual também valem as palavras: Quem vos
ouve, a Mim ouve {Luc. 10, 16)" (p. 11).
O Pe. Salaverri (pp. 719 ss.) indica os principais documentos do Magistério
sobre esse assunto, os quais interessarão altamente ao leitor desejoso de
maiores esclarecimentos. Ver também o Discurso de Paulo VI na audiência
geral de 12 de janeiro de 1966.

O problema da suspensão do assentimento interno
Isto posto, um problema permanece ainda de pé: será lícito suspender o
assentimento em relação a um documento do Magistério ordinário que se
oponha de modo frontal a uma doutrina tradicionalmente ensinada pela
Igreja?
A essa questão, muitos teólogos dão resposta afirmativa.
No texto que a seguir citamos, Dom Nau trata especialmente das
Encíclicas, mas é patente que a asserção vale para qualquer documento
do Magistério ordinário:
“Um único motivo poderia fazer-nos suspender nosso assentimento: uma
oposição precisa entre um texto de Encíclica e os outros testemunhos da
Tradição. Mesmo aí, uma tal oposição não poderia ser presumida, mas
exigiria uma prova, a qual só dificilmente poderia ser admitida” (“Une
Source...”, pp. 83-84).
No mesmo sentido, pode-se ler: DIEKAMP, p. 72; PESCH, § 328; STRAUB,
n.ºs 968 ss.; MERKELBACH, p. 601; NAU, “El Magisterio...”, p. 54;
CARTECHINI, p. 153.
Outros autores, entretanto, não admitem tal suspensão do assentimento.
É o caso de CHOUPIN, “Valeur...” pp. 53 ss., 88 ss.; “Le décret...”, pp. 415-
416; “Motu proprio...”, pp. 119 ss.; SALAVERRI, pp. 725-726.
Embora não desejemos entrar na análise de questões colaterais e subtis,
não podemos deixar de consignar aqui que a posição destes últimos
teólogos não nos parece clara.
Em certos textos eles insinuam que a Providência Divina nunca permitirá
que haja erros nas decisões do Magistério ordinário. Assim, não se
pronunciam sobre o mérito da questão, mas negam-se a estudar a
hipótese: “Não examinaremos o caso em que o fiel imaginaria ter a
evidência da verdade de uma proposição condenada pelo Santo Ofício”
(CHOUPIN, “Le décret...”, p. 416).
Em outras passagens admitem a possibilidade de erro, afirmando que,
caso seja ele evidente, “deve-se permanecer firme na adesão dada ao
decreto da Sagrada Congregação, tendo-o pelo menos como provável, até
que a própria Congregação ou um tribunal mais alto decida diversamente
sobre a matéria” (SALAVERRI, p. 726).
Não nos parece que estes autores tenham olhado de frente a hipótese de
se conjugarem no mesmo caso os seguintes fatores:
1) as circunstâncias da vida concreta obrigam o fiel, em consciência, a
tomar posição ante um problema;
2) ele tem a evidência de que — como diz Dom Nau no texto acima citado
— há uma oposição precisa entre o ensinamento do Magistério ordinário
esse respeito e os outros testemunhos da Tradição;
3) a decisão infalível que poderia pôr termo à questão — à qual alude o
Pe. Salaverri — não é proferida.
Afigura-se-nos, portanto mais objetiva a posição daqueles que, pelo
menos no terreno meramente especulativo, não se recusam a examinar
essa hipótese.

Os Documentos do Concilio Vaticano II são infalíveis?
A esta altura, uma pergunta não poderá deixar de aflorar aos lábios do
leitor: o Concilio Vaticano II usou da prerrogativa da infalibilidade?
A resposta é simples e categórica: não. Em nenhuma ocasião os Padres
Conciliares tiveram a vontade de definir, isto é, em nenhuma ocasião
preencheram a terceira das condições de infalibilidade, acima indicadas.
Já na fase preparatória da sagrada Assembleia o Santo Padre João XXIII
declarara que esta não definiria dogmas novos, mas devia ter apenas um
caráter pastoral. Tais declarações de João XXIII não nos parecem
entretanto suficientes para autorizar a afirmação de que o Concilio não
usou de seu poder de definir.
Com efeito, a soberania do Papa é absoluta na Igreja de Deus. Ele está
acima de toda lei eclesiástica. Seu poder não tem limites, a não ser os da
lei divina e da lei natural. Todo ato pontifício que contrariasse a estas seria
nulo, mas nenhum Concílio e nenhuma lei anterior, dele próprio ou de
seus Antecessores, podem obrigar o Papa, reinante. Logo, nada impedia
que, tendo João XXIII convocado um Concílio pastoral, ele mesmo ou seu
Sucessor resolvesse posteriormente transformá-lo em Concílio dogmático.
E, por outro lado, em princípio nada impede que um Concílio pastoral
defina um dogma, pois nenhum católico ousaria sustentar que um dogma
é algo de antipastoral!
O que prova que o Vaticano II não desejou definir nenhum dogma são as
suas atas e o teor dos seus documentos, em nenhum dos quais se
encontra de modo inequívoco a manifestação da vontade de definir.
Veja-se a propósito a declaração de 6 de março de 1964 da Comissão
Doutrinária (“Osservatore Romano”, edição em francês, 18-12-1964, p.
10). Essa declaração tem enorme importância não só por ter sido repetida
posteriormente pela mesma Comissão (cf. loc. cit.), e aplicada
oficialmente a mais de um esquema (cf. “Osservatore Romano”, edição
em francês, 26-11-1965, p. 3), mas sobretudo porque o Santo Padre Paulo
VI a indicou como norma para a interpretação de todo o Concílio (Discurso
de 12-1-1966, p. 170).
Algum teólogo poderia discordar do que acabamos de afirmar, não fossem
diversos pronunciamentos de Paulo VI que vieram, de modo definitivo e
irrevogável, dirimir essa importante questão.
Ao encerrar o Concilio, declarou Sua Santidade que, neste, “o Magistério
da Igreja [...] não quis pronunciar-se com sentença dogmática
extraordinária” (Discurso de 7-12-1965, p. 817).
Posteriormente, em ocasiões menos solenes, mas de modo ainda mais
claro e circunstanciado, Paulo VI reafirmou que o Concilio ‘‘evitou
proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de
infalibilidade”, mas “conferiu a seus ensinamentos a autoridade do
supremo Magistério ordinário” (Discurso de 12-1-1966, p. 170); e teve
como um de seus pontos programáticos “o não dar novas definições
dogmáticas solenes” (Discurso de 8-3-1967).
Um Concílio só tem a autoridade que o Papa lhe quer dar. Logo, esses
pronunciamentos pontifícios, posteriores à promulgação dos Documentos
conciliares, põem fim a todas as dúvidas que pudessem subsistir.
Em artigo publicado em 1965 na “Revista Eclesiástica Brasileira”, Fr.
Boaventura KLOPPENBURG, depois de analisar o problema da qualificação
teológica da Constituição Conciliar “Lumen Gentium”, declara-se
“inclinado a concluir que todas as verdades data opera propostas como
doutrinas reveladas pela Lumen Gentium são de fato verdades de fé
solenemente definidas" (“Subsídios...”, p. 218). Depois dos citados
pronunciamentos de Paulo VI, tal sentença não pode mais ser sustentada.
Ver a respeito: “RENOVATIO”, pp. 323 ss.; Dom Cirilo GOMES, p. 816,
LAVALETTE, p. 258.
O documento do Concilio Vaticano II sobre a Igreja se intitula
“Constituição Dogmática”. Deduz-se daí que nele haja alguma definição de
dogma? A pergunta pode parecer supérflua, mas fazemo-la para prevenir
o leitor contra tal erro, em que alguns têm incorrido. Soubemos mesmo
de um professor de Teologia que nele incidiu, afirmando que o título de
“Constituição Dogmática” é suficiente para provar que tudo que a “Lumen
Gentium” contém é dogma.
Evidentemente o adjetivo “dogmática” apenas significa, neste caso, que se
trata de matéria relacionada com o dogma. Do mesmo modo, não é
dogma tudo que se lê num manual de Teologia Dogmática.
Não procuremos, pois, dar ao Vaticano II um assentimento que ele próprio
de nós não pediu. Acatemos, isto sim, os seus ensinamentos em toda a
amplitude da autoridade de que se revestem, compreendendo mesmo
que, na medida em que prolongam ensinamentos anteriores da Igreja,
podem constituir fatores de enorme peso para o estabelecimento da
infalibilidade pela continuidade de um mesmo ensinamento.
Sentir com a igreja
Aturdido, o orbe católico assiste todos os dias a novos atos de indisciplina
dos progressistas contra o Magistério da Igreja, tantas vezes apontados
pelo Papa Paulo VI. A todos os católicos eles dirigem contínuos
incitamentos a abandonarem a doutrina tradicional da Igreja, inclusive em
pontos que estão garantidos pelo sinal da infalibilidade. Permaneçamos,
diante de tais perigos, firmes na fé, sempre prontos a tributar ao
Magistério eclesiástico o acatamento máximo, com assentimento externo
e interno, que a fé tem o direito de esperar de nós.
Para isso, é fundamental conhecer a doutrina da Igreja sobre seu próprio
ensino, da qual este artigo não pôde apresentar senão algumas linhas
gerais.
Assim poderemos melhor compreender, admirar e seguir o que Santo
Inácio inculca sobre o Magistério eclesiástico, em suas regras para sentir
com a Igreja. Transcrevemos na íntegra as palavras do Santo, pedindo a
Nossa Senhora, Mãe da Igreja, que inspire a todos os seus filhos uma dócil,
entusiástica e perfeita submissão à Sé de Pedro:
“PRIMEIRA REGRA. Renunciando a todo o juízo próprio, devemos estar
inteiramente dispostos a obedecer em tudo à verdadeira Esposa de Jesus
Cristo Nosso Senhor, a Santa Madre Igreja Hierárquica”.
“NONA REGRA. Louvar finalmente todos os preceitos da Igreja, procurando
sempre razões em seu favor, nunca, porém, em seu desfavor".
“DÉCIMA TERCEIRA REGRA. Para acertar sempre com a verdade, devemos
seguir esta norma: o que a nossos olhos se apresenta como branco, tê-lo-
emos por preto, se assim o declarar a Santa Igreja, convencidos de que
entre Cristo Nosso Senhor, o Esposo, e a Igreja, sua Esposa, reina o mesmo
espírito, que nos governa e rege para a salvação das nossas almas. De
fato, o mesmo Espírito Divino que nos deu os dez Mandamentos rege e
governa também nossa Santa Madre Igreja”.




AUTORES CITADOS

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