ALEXANDRA MARIA PEREIRA

UM ESTUDO HISTORIOGRÁFICO: CARLO GINZBURG E A
CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO EM O
QUEIJO E OS VERMES
MONOGRAFIA DE BACHARELADO
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
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ALEXANDRA MARIA PEREIRA
UM ESTUDO HISTORIOGRÁFICO: CARLO GINZBURG E A
CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO EM O
QUEIJO E OS VERMES
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-* Hi+,/ria -a Ui0*r+i-a-* F*-*ra1
-* O.r& Pr*,& 2&3& )ar,* -&+
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-* Ba28ar*1 *3 Hi+,/ria%
Ori*,a-&ra:H*1*a Mira-a M&11&%
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
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4
R*+.3&
Monografia de Bacharelado em História que analisa a construção do
conhecimento histórico a partir da proposta metodológica do historiador italiano Carlo
Ginzurg em seu li!ro O queijo e os vermes" #ma discussão importante feita pelo
historiador italiano nesta ora se refere ao car$ter o%eti!o da História& e a' se encontra
sua principal contriuição aos estudos da Metodologia( o paradigma indici$rio" )urante
o desen!ol!imento dessa monografia& uscou*se analisar a forma como Ginzurg
reconstituiu a identidade do o%eto histórico& em O queijo e os vermes& de acordo com a
sua opção pela leitura das formas culturais& o conceito de circularidade, em con%unto
com as redes de relaç+es presentes na temporalidade"
,
A5+,ra2,
-his Monograph& for a achelor.s degree in Histor/& anal/ses the uilding
process of historial 0no1ledge from the methodolog/ proposed / the 2talian historian
Carlo Ginzurg in his oo0 O queijo e os vermes. 3ne of the most important issues
presented / the author refers to Histor/ and its o%ecti!e character" 4nd that.s 1here
his great contriution to the studies aout methodolog/ is( the inde5 paradigm"
-hroughtout the de!elopment of this monograph& the 1a/ Ginzurg reuilt the identit/
of the historical o%ect ased on his o1n !ie1 aout the cultural forms reading process 6
the concept of circularity 6 is deepl/ anal/sed& comined 1ith the relationship nets uilt
across the -ime"
7
SUMÁRIO
8" 2ntrodução"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 9
2" 4 micro*história" 4lgumas consideraç+es sore a sua historiografia"""""""""""""" 88
2"8" 4 micro*história( #ma !isão interna""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 88
2"2" 4 micro*história( #ma !isão e5terna"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 8,
3" 3 lugar ocupado pelo historiador italiano"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 2:
4 " #ma metodologia( ;<inais& ra'zes de um paradigma indici$rio="""""""""""""""""""" 23
," O queijo e os vermes"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 2>
,"8" Consideraç+es acerca do pref$cio ? edição italiana"""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 2>
,"2" Menocchio( #m moleiro e sua temporalidade"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 29
,"3" 3 personagem e a construção de sua personalidade por Carlo Ginzurg""""" 3:
,"4" )o que @ constitu'do o quei%o e os !ermesA"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 34
,"," 4 construção do conhecimento histórico em O queijo e os vermes"""""""""""""" 3B
7" Conclusão""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 43
>" Contes""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 47
9" DeferEncias iliogr$ficas"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 4>
>
>? I,r&-.67&
Com esta monografia pretende*se uma discussão historiogr$fica" -ratamos de
uma aordagem espec'fica da relação entre conhecimento cient'fico e os parFmetros de
o%eti!idade histórica proposta durante as Gltimas d@cadas do s@culo HH" -al aordagem
@ respons$!el& em contornos gerais& pelo aparecimento do campo da Micro*história"
4 argumentação presente nesta monografia est$ aseada nas refle5+es
teóricas e na pr$tica historiogr$fica de Carlo Ginzurg& principalmente no que tange ao
paradigma indici$rio& ao conceito de circularidade aplicado em sua famosa ora&
especialmente entre os rasileiros& O queijo e os vermes" 4 opção feita pela an$lise deste
li!ro se de!e ? importFncia de sua pulicação no meio historiogr$fico& uma !ez que&
al@m de aarcar a proposta de construção do conhecimento histórico por Garlo
Ginzurg& apresenta o conceito de circularidade como forma de leitura da cultura" 4l@m
dessa perspecti!a& procuramos relacion$*lo com alguns dos prolemas epistemológicos
enfrentados pela História nesses tempos ditos pós*modernos"
Carlo Ginzurg @ ho%e um renomado historiador& e pode*se dizer que !$rias
ino!aç+es da historiografia contemporFnea ocorreram dentro do conte5to em que ele se
insere" 4 sua proposta para a produção do conhecimento histórico pode ser relacionada
tanto com as suas pretens+es pessoais para esse conhecimento histórico quanto com o
conte5to do qual esse historiador faz parte& a micro*história" 4 prolem$tica que en!ol!e
a sua proposta ocorre segundo o pressuposto de que @ in!i$!el o conhecimento direto
dos fatos do passado" 4ssim& eles Ios fatosJ se apresentam na realidade de forma
;opaca=" Kor@m& esses fatos tam@m possuem ;zonas pri!ilegiadas=( são os sinais& as
9
pistas& os ind'ciosL e @ na importFncia dada a essas zonas pri!ilegiadas que o historiador
poder$ captar imagens do passado" Mm função dessa constatação& pode*se supor que
Ginzurg formula uma questão referente ? o%eti!idade histórica( Como estaelecer um
m@todo de reconstituição histórica que este%a apto a captar e ampliar a leitura das
imagens do passadoA
Kara as refle5+es apresentadas por Ginzurg& @ importante que se%a feita uma
apresentação do conte5to e momento em que est$ inserido o autor& em como uma
apresentação de sua proposta"
Kodemos localizar um prof'cuo questionamento da História <ocial desde a
d@cada de 8B7:& mas pontuamos& nesta monografia& um momento& que @ o da d@cada de
8B9:& quando um grupo de historiadores italianos te!e um papel astante importante"
Mste grupo caracteriza*se por criticar principalmente uma história de cunho macrossocial
tradicional" -al discussão en!ol!eu os modelos da !ertente historiogr$fica francesa e da
historiografia social neo*mar5ista inglesa" Nesta discussão& que acaou por deri!ar a
micro*história& marcou*se um no!o encontro com a 4ntropologia& campo respons$!el
por uma reconstituição histórica pautada nas redes de relaç+es sociais e indi!iduais" 3
encontro com a 4ntropologia sempre significou para a História um enriquecimento de
seu aparato teórico& desde a primeira fase dos 4nnales& de Bloch e Ce!re" )a d@cada de
8B2: em diante& podemos !er no horizonte da História serem propostos conceitos como
fato histórico e conte5to 6 e& de certa forma& tam@m a con%untura para Bloch 6
de!edores do fato social total de Marcel Mauss" Mais recentemente& na fase dos 4nnales
chamada de terceira geração ou No!a História& !emos a 4ntropologia presente mais uma
!ez ao encontro com a História& influenciando sua forma de tratar o conceito de cultura"
B
4o se caminhar para al@m das fronteiras francesas& a 4ntropologia não se afasta da
História& !isto que o conceito de cultura est$ igualmente presente no pensamento de
Cranz Boas& Mdmund Oeach& Pictor -urner e Clifford Geertz& influEncias marcantes da
historiografia de l'ngua inglesa"
3 escopo desta discussão pretendia um m@todo de cunho qualitati!o& a partir
de uma redução da escala do o%eto& com a finalidade de estaelecer uma relação entre
os panoramas micro e macro" 3 grupo da micro*história& mesmo com perspecti!as em
comum& apresentou uma di!ersidade de enfoque" )e um lado& foi poss'!el distinguir
uma !ertente com influEncia da 4ntropologia e da História <ocial anglo*sa5ã& o que
manifestou interesse por uma no!a História do social" <ão estes( Mdoardo Grendi&
Gio!anni Oe!i e Carlo Koni" Kor outro& tEm*se o renomado Carlo Ginzurg e a sua
!ertente cultural do social" 3 referencial deste grupo& como ressalta a historiadora
rasileira <andra Qatah/ Kesa!ento& est$ pautado nas
representaç+es constru'das na História que se e5pressam por imagens e
discursos portadores de significados outros que aqueles que& aparentemente&
se dão a !er e a ler"
8

4s mudanças propostas por estes historiadores produzem um no!o m@todo de
in!estigação& aseado em referEncias teóricas !ariadas com possiilidades de leitura do
social mais ampliada"
3 papel ocupado pelo historiador italiano Carlo Ginzurg dentro da História&
e soretudo em sua !ertente cultural do social& al@m de estar !inculado ?s quest+es
referentes ao pro%eto da micro*história& demonstra uma forte ligação com a sua opção
pessoal pelo detalhe re!elador que escapa aos grandes modelos"
8
KM<4PMN-3& <andra Qatah/" Esta história que chamam de micro, pg" 288"
8:
#ma contriuição !aliosa para a História <ocial e para a leitura das formas
culturais pode ser oser!ada em sua ora O queijo e os vermes" Nessa ora& @ poss'!el
perceer a sua proposta e as principais quest+es aordadas no e5erc'cio da pesquisa
histórica"
"? A 3i2r&?8i+,/ria% A1'.3a+ 2&+i-*ra6@*+ +&5r* a +.a 8i+,&ri&'ra(ia%
Kodemos perceer a partir do le!antamento de pulicaç+es e artigos
referentes ? micro*história estudos pro!enientes tanto de seu próprio meio quanto de
estudiosos sore o tema" 4 preocupação apresentada nas discuss+es acerca da micro*
história se encontra na usca pela leitura e inserção desse mo!imento dentro do conte5to
da História <ocial das Gltimas d@cadas do s@culo HH e das perspecti!as históricas que
unem os denominados micro*historiadores"
"%>? A 3i2r&?8i+,/ria: U3a 0i+7& i,*ra%
3 primeiro artigo a ser aordado com relação ao deate micro*histórico
dentro do grupo intitula*se ;3 nome e o como= de Carlo Ginzurg e Carlo Koni& que se
encontra no li!ro Micro-história e outros ensaios" Mste traalho @ considerado um dos
primeiros sore a micro*história& com pulicação em 8B>B& e pode ser considerado uma
esp@cie de primeiro momento das perspecti!as micro*históricas" 3s autores iniciam o
artigo deatendo a crise da história quantitati!a e serial& os prolemas da longa duração e
88
a falta de uma an$lise qualitati!a para o e5erc'cio da pesquisa histórica& al@m de
proporem um direcionamento a fa!or das pesquisas microanal'ticas em função das
crescentes dG!idas sore as pesquisas macroanal'tcas" Mm relação ao deate teórico da
História& e!idenciam a estreita relação entre História e 4ntropologia& como aspecto
dessa no!a aordagem histórica"
Mas se o Fmito da in!estigação for suficientemente circunscrito& as s@ries
documentais podem sorepor*se no tempo e no espaço de modo a permitir*
nos a encontrar o mesmo indi!'duo ou grupos de indi!'duos em conte5tos
sociais di!ersos" 3 fio condutor de 4riana que guia o in!estigador no lairinto
documental @ aquilo que distingue um indi!'duo de um outro em todas as
sociedades conhecidas( o nome"
2

-odo este processo de an$lise micro*histórica mo!e*se de uma escala
reduzida para a reconstituição do social atra!@s de indagaç+es sore as estruturas nas
quais estão inseridos esses o%etos particulares& competindo ao próprio historiador a
responsailidade de interação entre o o%eto e o seu conte5to" Nestee momento& a
4ntropologia fornece ao historiador as ases para a construção da rede de relaç+es
necess$rias para a interpretação"
#m outro artigo importante para esse grupo @ ;Depensar a micro*históriaA=&
de Mdoardo Grendi" 4 sua an$lise @ recente I8BB9J& e este historiador a desen!ol!e&
uscando a compreensão de pontos que possam caracterizar a imagem do grupo" Mle a
identifica como uma ;comunidade de estilos= de um grupo de historiadores italianos que
se propRs a realizar uma reconstrução histórica !ista como pr$tica apoiada em forte
discussão teórica e an$lise densa do o%eto& seguindo a proposta de Clifford Geertz" 3
grupo focaliza!a uma escala de an$lise reduzida& mas não apresenta!a um ;pro%eto em
comum=& in!iailizando uma sistematização que os le!asse ao reconhecimento de grupo
2
G2NSB#DG& Carlo T K3N2& Carlo" O nome e o como. 2n( A micro-história e outros ensaios, pg"
8>3U8>4"
82
homogEneo" Kara Grendi& esse fato impossiilitou o estaelecimento de te5tos
fundadores e a sua afirmação como uma escola"
)urante o momento germinador da microan$lise& os olhares desses
historiadores se deti!eram na ;história !ista de ai5o=& proposta iniciada em 8B77 por
Md1ard -hompson para a leitura do mo!imento oper$rio na 2nglaterra do per'odo
industrial" 4 leitura proposta por -hompson te!e grande influEncia nos traalhos
História <ocial& uma !ez que apresentou as noç+es de e5periEncia e cultura no cerne das
an$lises sore a ação social" -al perspecti!a& segundo Grendi& desen!ol!eu*se pela
influEncia da 4ntropologia& passando do quantitati!o para o qualitati!o e com forte
enfoque nas pr$ticas sociais"
4 micro*história& desde a sua formação& se desdorou em duas diferentes
!ias( na pesquisa histórica ligada a uma discussão teórica e com referEncias na
4ntropologia CulturalL e na e5periEncia microanal'tica diretamente relacionada com a
elaoração do conte5to histórico"
I"""J a escolha essencial de uma escala de oser!ação se aseia na con!icção
central de que ela oferece a possiilidade de enriquecer as significaç+es dos
processos históricos por meio de uma reno!ação radical das categorias
interpretati!as e de sua !erificação e5perimental
3
"
Gio!anni Oe!i em seu artigo ;<ore a micro*história=& apresentado na ora
A escrita da História organizada por Keter Bur0e& afirma ser este traalho uma descrição
e a!aliação pessoal do que poderia ser reconhecido como micro*história" Memro
atuante e significante desse grupo& neste artigo ele produz uma an$lise astante
elucidati!a sore as !ariantes desse tema" 4 origem do mo!imento surgiu como resposta
3
M)34D)3& Grendi" Repensar a micro-história? 2n( o!os de escalas, pg"872"
83
? escrita da História tradicional e ao mo!imento relati!ista que se constitu'a" 4o se
referir a elementos que caracteriza!am a micro*história& ele organiza uma s@rie de
pontos(
Mstas& então& são as quest+es e posiç+es comuns que caracterizam a micro*
história( a redução da escala& o deate sore a racionalidade& a pequena
indicação como um parad'gma cient'fico& o papel do particular Inão&
entretanto& em oposição ao social J& a atenção ? capacidade recepti!a e ?
narrati!a& uma definição espec'fica do conte5to e a re%eição do relati!ismo
4
"
4 importFncia da escala para a pesquisa micro*histórica e a influEncia
antropológica Iem particular a descrição densa de Clifford GeertzJ são pontos que Oe!i
!E como cruciais para os ideais do grupo de micro*historiadores" Mas tam@m reconhece
um prolema referente ? 4ntropologiaL o relati!ismo proposto por Geertz @ !isto como a
principal diferença de perspecti!a entre as duas disciplinas"
4credito ser necess$rio tentar medir e formalizar os mecanismos de
racionalidade limitada em que a localização de seus limites !aria com as
!$rias formas de acesso ? informação* para permitir o entendimento das
diferenças e5istentes nas culturas dos indi!'duos& grupos e sociedades em
!$rias @pocas e locais" 4 qualidade um tanto alusi!a do importante& mas
incompleto sistema de Geertz& negligencia esse o%eti!o
,
"
#m ponto importante em que Oe!i se det@m @ a forma de como a micro*
história passou a aordar a narrati!a histórica" 3 ponto de !ista do pesquisador tornou*se
parte intr'nseca do relato& em como a responsailidade de rea%ustamento das lacunas
e5istentes na documentação e t@cnicas para um traalho qualitati!o"
4 aordagem micro*histórica dedica*se ao prolema de como otemos acesso
ao conhecimento do passado& atra!@s de !$rios ind'cios& sinais e sintomas"
Msse @ um procedimento que toma o particular como seu ponto de partida e
prossegue& identificando seu significado ? luz de seu próprio conte5to
espec'fico"
7

4
OMP2& Gio!anni" "o#re micro-história. 2n( A escrita da história, pg"8,B"
,
2dem& pg" 8,:"
7
OMP2& Gio!anni" "o#re micro-história. 2n( A escrita da história& pg" 8,4"
84
4 citação acima @ um dos pontos fundamentais para o e5erc'cio de pesquisa
micro*histórica e se insere em uma discussão !oltada para a !ariação da escala Ia relação
entre parte e o todoJ& que constituiu uma no!a perspecti!a de aordagem do o%eto&
analisando a dimensão social& segundo uma rede de relaç+es"
"%"? A 3i2r&?8i+,/ria: U3a 0i+7& *A,*ra%
Qacques De!el organiza o li!ro cu%o t'tulo @ o!os de escalas$ A e%peri&ncia
da microan'lise& e esta ora @ uma s@rie de artigos sore o pro%eto micro*histórico"
De!el @ reconhecido como um colaorador ati!o do mo!imento micro*histórico& sempre
presente nas discuss+es do grupo"
4 aordagem apresentada neste li!ro gira em torno da !ariação da escala 6
metodologia proposta nos traalhos dos micro*historiadores italianos a partir de suas
e5periEncias de pesquisa micro*anal'ticas" No decorrer da an$lise dos artigos& notamos&
entre opini+es de historiadores e antropólogos& uma preocupação !isando ? ampliação da
leitura do o%eto de pesquisa"
<egundo De!el& a !ariação da escala utilizada nos estudos da micro*história
gerou discuss+es e aordagens que podem ser definidas em duas posturas essenciais com
relação aos traalhos micro e macro*anal'ticos" #ma postura @ relati!ista e faz da
!ariação da escala um recurso e5cepcional para a ampliação da leitura do socialL e a
outra& fundamentalista& que defende o pri!il@gio asoluto do micro em relação ao macro"
<ão trEs os principais artigos do li!ro para esta monografia" 3 primeiro&
8,
;Microan$lise e Construção do social=& de Qacques De!el" 2nicialmente& o autor
apresenta um re!e histórico da História <ocial em !irtude de um esclarecimento acerca
do surgimento da micro*história" Mm seguida& traalha com dois aspectos inerentes a ela(
um seria a !ariação da escala& marco teórico fundamental e que parte de uma escala
particular de oser!ação colocada para a ampliação do conhecimento do social"
3 pro%eto @ fazer aparecerem& por tr$s da tendEncia geral mais !is'!el& as
estrat@gias sociais desen!ol!idas pelos diferentes atores em função de sua
posição e de seus recursos respecti!os& indi!iduais& familiares& de grupo& etc
>
"
3 outro aspecto& e tam@m uma conseqVEncia do anterior& refere*se ao
desen!ol!imento de uma narrati!a mais elaorada& apta e respons$!el pela interação
entre os conte5tos micro e macro"
Mm ;)a micro*história a uma antropologia cr'tica=& o antropólogo 4lan
Bensa apresenta a relação de pro5imidade e5istente entre o traalho de campo da
4ntropologia e a pesquisa micro*histórica" Kara amas& as noç+es de conte5to& de
temporalidade Imesmo tendo concepç+es diferentesJ& de escala e de s'molo são formas
de ampliação do conhecimento" 4s sugest+es discutidas por ele neste cap'tulo tornam
e!identes as fundamentaç+es do traalho micro*histórico e uma das oser!aç+es feitas
diz respeito ao aspecto da produção micro*histórica de modo a esclarecer a cr'tica
referente a um estudo !oltado ao micro(
4 micro*história não re%eita portanto& a história geral& mas introduz a ela&
tomando o cuidado de distinguir os n'!eis de interpretação( o da situação
!i!ida pelos atores& o das imagens e s'molos que eles acionam&
conscientemente ou não& para se e5plicar e %ustificar& o das condiç+es
históricas da e5istEncia dessas pessoas na @poca em que seus discursos e seus
comportamentos foram oser!ados
9
"
>
DMPMO& Qacques" Microan'lise e constru()o do social. 2n( o!os de escalas, pg" 22"
9
BMN<4& 4lan" *a micro-história a uma antropolo!ia cr+tica. 2n( o!os de escalas, pg" 4,"
87
<egundo o antropólogo& a importFncia da temporalidade dada pela micro*
história foi um fator que trou5e contriuiç+es ao traalho antropológico& uma !ez que
insere o o%eto de an$lise em sua temporalidade& au5iliando a leitura das dimens+es do
mundo social de determinada @poca" 4 !ariação da escala e o recurso simólico são
perceidos como filtros para a leitura da sociedade& e um e5erc'cio de pesquisa sem tais
recursos gera um traalho limitado"
I"""J coloc$*la como o%eto fechado e determinado por seus contornos implica
nos afastarmos delieradamente dos mo!imentos que constituem a realidade
B
"
4ssim& a utilização da !ariação da escala @ uma importante forma de
orientação do o%eto tanto para antropólogos quanto para historiadores& na medida em
que podem ser lidos em função de um mo!imento interati!o"
Kor fim& cito no!amente Mdoardo Grendi em seu artigo ;Depensar a micro*
históriaA=. Grendi !E na influEncia antropológica sofrida pela micro*história uma
contriuição atra!@s da qual a História <ocial pRde ampliar a sua leitura& passando do
quantitati!o para o qualitati!o atra!@s da usca pelas ;pr$ticas sociais="
3 papel ocupado pelo di$logo com a 4ntropologia foi& de certa forma&
respons$!el pelo desen!ol!imento e construção de uma rede de relaç+es que en!ol!e o
o%eto histórico em função do social" 4 !ariação da escala como uma conseqVEncia
desse di$logo tornou*se importante ferramenta para este pro%eto e marcou uma fecunda
interação entre essas disciplinas"
No Brasil& o tema micro*histórico @ apresentado por Donaldo Painfas em
Micro-história$ Os prota!onistas an,nimos da história" Mste li!ro esclarece algumas
quest+es neste campo& al@m de fornecer um resumo das principais oras da micro*
B
2dem& pg" 77"
8>
história e sore a micro*história" 3 autor não foge ao necess$rio coment$rio sore a
apro5imação entre História e 4ntropologia e o modo de lidar com a temporalidade"
4 questão teórica e metodológica dos micro*historiadores @ tam@m discutida
e prolematizada no artigo ;Msta história que chamam micro= IKM<4PMN-3& 2:::J
pela historiadora <andra Qatah/ Kesa!ento" 4 historiadora prop+e uma an$lise acerca da
;!alidade= de pesquisas nestes moldes& suscitando quest+es sore o of'cio do historiador"
Mste artigo @ de grande importFncia para a proposta que est$ se desen!ol!endo nesta
monografia& pois& al@m de tratar as principais quest+es que en!ol!em a micro*história&
focaliza a proposta de Carlo Ginzurg e a sua relação com a História Cultural do <ocial"
3 sempre citado Carlo Ginzurg aprofunda as an$lises da produção das
formas culturais& e pode*se dizer que seu !alor se e5pressa não só nas oras
que tem pulicado& onde se %untam pesquisa intensa com refle5ão cr'tica
minuciosa e arguta& como se constitui num dos maiores e5emplos do e5erc'cio
da pr$tica historiogr$fica ligada ? teoria"
8:
4pós a apresentação do surgimento e gEnese da micro*história& inicia uma
an$lise das principais quest+es que en!ol!em a micro*história" <egundo Kesa!ento& a
postura que os micro*historiadores assumiram ampliou o di$logo interdisciplinar&
acompanhado por uma redução da escala e e5austi!a pesquisa em arqui!o& o que
possiilitou para o campo da história a ampliação da leitura do social" Mssa leitura
ocorreu em função das articulaç+es entre a parte e o todo& ou se%a& a !ariação da escala"
Kara o surgimento desse modo de produção histórica no!amente se confirma o papel
fundamental da 4ntropologia"
#m dos sintomas dessa mudança nas ;regras do %ogo= foi dado pela
apro5imação da História com a 4ntropologia& o que tanto permitiu a descida ?
rede de relaç+es sociais mais capilares& de ase e mesmo indi!idualizadas&
como oportunizou a discussão do car$ter simólico das construç+es sociais"
88
8:
KM<4PMN-3& <andra Qatah/" Esta história que chamam micro, pg" 224"
88
2dem& pg" 289"
89
<andra Qatah/ Kesa!ento e5emplifica o traalho micro*histórico citando duas
importantes oras& O queijo e os vermes de Carlo Ginzurg e A heran(a imaterial, de
Gio!anni Oe!i& concluindo da seguinte forma(
)estaca*se& tanto na ora de Ginzurg como na de Oe!i& a redução da escala
como forma de acesso a quest+es mais sutis e dif'ceis de apreender na sua
irredut'!el especificidade no tempo passado& se%am elas o e5erc'cio do poder&
se%am as representaç+es sociais"
82

Cica e!idente o papel da redução da escala nos traalhos dos micro*historiadores
italianos para a proposta de reconstituição histórica"
4 historiadora finaliza o seu artigo apresentando a sua posição perante
o conhecimento histórico de acordo com a proposta desse grupo" 3 parFmetro
para a ;!eracidade= do te5to @ dado pelas marcas de historicidade e5tra*te5tuais& e
relacionando*o com o conte5to em que est$ inserido" 4ssim& são atriu'das ao
papel do historiador as responsailidades de reconstrução histórica& atra!@s da
erudição que ele possui& caracterizada como o seu capital espec'fico" ;I"""J são& a
rigor& as perguntas que um historiador faz ao seu o%eto& prolematizando*o& que
o constroem como ;documento= e o fazem ;falar="
83
Kara a historiadora& as
discuss+es promo!idas pelos micro*historiadores italianos 6 e de modo singular
por Carlo Ginzurg 6 proporcionaram para a produção do conhecimento histórico
uma importante contriuição para a transformação da História <ocial"
82
KM<4PMN-3& <andra Qatah/" Esta história que chamam micro& pg" 222"
83
2dem& pg" 23:"
8B
B? O 1.'ar &2.)a-& )*1& 8i+,&ria-&r Ci,a1ia&D%
)urante o s@culo HH a construção do conhecimento histórico passou por um
processo de desconstrução da História tal como Oeopold Pon Dan0e a propRs" 4
História dos grandes acontecimentos e homens& apta a reproduzir os fatos do passado da
forma como aconteceram& foi perdendo seu lugar para uma História prolematizada com
no!as aordagens& o%etos e fontes" Nas Gltimas d@cadas do s@culo HH& os prolemas
epistemológicos enfrentados pela história se !oltam para a o%eti!idade do
conhecimento histórico" Nesses tempos ditos pós*modernos um grupo de historiadores
que conta!a com a presença do semiólogo Doland Barthes& al@m da origatória
participação do historiador norte*americano Ha/den White defende a redução da
historiografia ? retórica(
I"""J a historiografia& assim como a retórica& se prop+e unicamente a con!encerL
o seu fim @ a efic$cia& não a !erdadeL de forma tão di!ersa de um romance& uma
ora historiogr$fica constrói um mundo te5tual autRnomo que não tem
nenhuma relação demonstr$!el com a realidade e5trate5tual ? qual se refere e
te5tos historiogr$ficos e te5tos de ficção são auto*referenciais tendo em !ista
que estão unidos por uma dimensão retórica"
84

)e acordo com esse grupo& uma discussão que trate da o%eti!idade histórica
não tem mais sentido" Oogo& o historiador se questiona( Xual a finalidade da históriaA
Como falar em construção do conhecimento histórico& se tudo se resume em retóricaA
Kara que ser!em& então& as discuss+es epistemológicas e as propostas metodológicasA
4l@m de ser um importante nome da pesquisa no campo da História <ocial
nos Gltimos anos& Carlo Ginzurg& com a sua proposta metodológica para a construção
do conhecimento histórico& toma a frente de um mo!imento contr$rio ao relati!ismo
pós*moderno de Ha/den White" 4 sua postura diante do relati!ismo est$ claramente
84
G2NSB#DG& Carlo" "o#re Aristóteles e a história, mais uma ve-. 2n( Rela(.es de /or(a , pg" 49"
2:
apresentada no seu mais recente traalho( Rela(.es de /or(a. História, Retórica e 0rova.
3s artigos que constituem esta ora fazem um comate pela história& e apontam
criticamente os principais pontos de apoio do pós*modernismo de modo a ;desconstruir=
os ideais propostos neste mo!imento"
-odos esses questionamentos geram uma s@rie de outros tantos& e os
historiadores se perguntam constantemente sore sua identidade& sore o car$ter
cient'fico da História& e sore como torn$*la o mais intelig'!el poss'!el& utilizando
m@todos e teorias que possam fa!orecer a reconstituição das imagens do passado" Msta
prolematização est$ inserida nas refle5+es teóricas e na proposta metodológica
apresentada por Carlo Ginzurg em seus traalhos& uma !ez que ele apresenta& para a
produção do conhecimento histórico& no!os conceitos no modo de lidar com as fontes e
ampliar a leitura dos o%etos" 4 opção proposta por Carlo Ginzurg para a aordagem do
conhecimento histórico atra!@s do paradigma indici$rio pode ser colocada como uma
reação& de um lado& ao m@todo tradicional da construção do conhecimento histórico e& de
outro& ao mo!imento relati!ista"
3 di$logo interdisciplinar @ parte intr'nseca dos traalhos de Carlo Ginzurg"
Coi atra!@s da apro5imação feita com a 4ntropologia Cultural que a reconstituição
histórica pautada nas redes de relaç+es sociais e indi!iduais começaram a se constituir
na história a partir do mo!imento ocorrido na 2t$lia denominado micro*história& do qual
faz parte Carlo Ginzurg" Kara Donaldo Painfas no %$ citado aqui Micro-história$ os
prota!onistas an,nimos da História& os laços que unem História e 4ntropologia são
estreitados pela 4ntropologia 2nterpretati!a de Clifford Geertz difundida na d@cada de
8B>:! soretudo após a pulicação de A interpreta()o das culturas" 3 conceito*cha!e
28
seria o de uma descri()o densa& com seu enfoque interpretati!o detalhado e
!erticalmente intenso"
Kode*se dizer que com Ginzurg& a pesquisa apresentou mudanças no
processo de utilização das fontes" #ma destas mudanças se encontra no fato de que estas
fontes dei5aram de ser aordadas apenas em seu car$ter quantitati!o& passando a dar*se
mais Enfase ao seu car$ter qualitati!o"
Mu não queria detectar uma falsificação& mas sim mostrar o que o hors-te%te& o
que est$ fora do te5to& est$ tam@m dentro dele& ariga*se entre as suas
doras( @ preciso descori*lo e fazE*lo falar
8,
"
;)ei5ar a fonte falar=& para Ginzurg& implica na utilização e no au5'lio de
disciplinas& como& por e5emplo& a semiótica e a arqueologia em suas oras" Com isso&
mais uma !ez& o di$logo entre as disciplinas se faz fundamental para uma leitura do
social mais ampla"
4 contriuição de Carlo Ginzurg para a História Cultural @
significati!amente e5pressi!a" Como ele reconhece no pref$cio ? edição italiana de O
queijo e os vermes o conceito de cultura& oriundo da 4ntropologia Cultural& foi
empregado tardiamente pelos historiadores" Na perspecti!a de Ginzurg& pode*se dizer
que sua leitura do conceito de cultura tem como resultado a proposta do conceito de
circularidade cultural, que acrescenta uma prof'cua relação entre cultura erudita e
cultura popular"
Kortanto& temos& por um lado& dicotomia cultural& mas& por outro&
circularidade& influ5o rec'proco entre cultura sualterna e cultura hegemRnica&
particularmente intenso na primeira metade do s@culo HP2"
87
4 preferEncia do historiador italiano pelo estudo das formas culturais e a
8,
G2NSB#DG& Carlo" 1ntrodu()o. 2n( Rela(.es de /or(a. História, retórica e prova, pg" 42"
87
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 2:"
22
proposta teórica realizada por ele fazem de seus traalhos referEncias para os
procedimentos a serem utilizados em um e5erc'cio de pesquisa neste campo" Mncontra*
se nos traalhos de Carlo Ginzurg uma perspecti!a de ;e5emplo= da proposta da micro*
história( interesse pelo detalhe re!elador& pelo estudo morfológico& pela articulação
destes detalhes com o todo e pelo uso que faz da !ariação da escala na história"
$? U3a 3*,&-&1&'ia: ESiai+! ra;F*+ -* .3 )ara-i'3a i-i2iGri&H%
3 cap'tulo ;<inais& ra'zes de um paradigma indici$rio= do li!ro Mitos,
em#lemas e sinais @ o principal foco da prolematização desta monografia"
4 ;procedEncia=& adotada por Carlo Ginzurg no decorrer deste cap'tulo& @
importante em função da sua proposta metodológica para a pesquisa histórica& e onde
ficam claras a sua opção teórica e a relação que estaelece entre os parFmetros do que
percee como !erdade histórica e uma superação da contraposição entre
racionalismoUirracionalismo" 4ssim& a questão proposta por esta monografia pode ser
resumida dessa forma( quais as conseqVEncias do paradigma indici$rio proposto por
Carlo Ginzurg para o processo de reconstrução históricaA
3 processo de an$lise histórica do paradigma indici$rio& presente na proposta
de Ginzurg demonstra& de modo geral& como ele foi aplicado ao longo do tempo& nas
di!ersas disciplinas que se utilizaram desta metodologia como ferramenta de traalho"
Kara Ginzurg&
3 que caracteriza esse saer @ a capacidade de& a partir de dados
aparentemente negligenci$!eis& remontar uma realidade comple5a não
e5periment$!el diretamente"
8>

8>
G2NSB#DG& Carlo" "inais$ ra+-es de um paradi!ma indici'rio. 2n( Mitos, Em#lemas, "inais.
Mor/olo!ia e História, pg" 8,2"
23
)esde os primórdios da peregrinação humana na terra& h$ a necessidade de
utilizar meios que fa!oreçam ao homem o conhecimento de si e de seu meio" M a
construção desse conhecimento em grande parte ocorreu atra!@s das especulaç+es e das
e5periEncias !i!enciadas por ele"
)urante a apresentação do artigo& Carlo Ginzurg pontua os primeiros
contatos das ciEncias humanas com o paradigma indici$rio"
No final do s@culo H2H 6 mais precisamente& na d@cada de 89>:U9: *&
começou a se afirmar nas ciEncias humanas um paradigma indici$rio aseado
%ustamente na semiótica" Mas as suas ra'zes eram muito antigas"
89

4 sua origem& contudo& se encontra no saer de tipo !enatório& quando o
homem ainda era um caçador& lemra Ginzurg" Nesse momento& as e5periEncias
otidas com as pistas e !est'gios eram utilizadas para a sua sore!i!Encia em um meio
onde as relaç+es gira!am em torno da usca pelo alimento"
3 historiador italiano afirma que durante apro5imadamente os s@culos
HP22& HP222 e H2H !$rias foram as a!aliaç+es e definiç+es dos parFmetros de !alidade
dos m@todos cient'ficos e dos m@todos !oltados para a particularidade do o%eto com
ase nas e5periEncias" Kara esse per'odo Ginzurg fez um le!antamento das $reas e
temas que usca!am nas an$lises indici$rias Ipor e5emplo& a pintura& a literatura& o
romance policial& a psican$lise e o m@todo morellianoJ a utilização e os procedimentos
desse modelo morfológico"
3 tapete @ o paradigma que chamamos a cada !ez& conforme os conte5tos& de
!enatório& di!inatório& indici$rio ou semiótico" -rata*se& como @ claro& de
ad%eti!os não*sinRnimos& que no entanto remetem a um modelo
89
G2NSB#DG& Carlo" "inais$ ra+-es de um paradi!ma indici'rio. 2n( Mitos, Em#lemas, "inais.
Mor/olo!ia e História, pg" 8,8"
24
epistemológico comum& articulado em disciplinas diferentes& muitas !ezes
ligadas entre si pelo empr@stimo de m@todos ou termos*cha!e
8B
"
Xuando se lE ;<inais( ra'zes de um paradigma indici$rio=& percee*se uma
esp@cie de emaranhado de campos e disciplinas que !ão e !oltam no tempo& e implicam
uma di!ersidade muito grande de temas" Mas a proposta de Ginzurg @ de que cada um
desses momentos apresenta aos seus leitores uma longa %ornada de e5istEncia deste
m@todo tão presente em !$rios momentos na própria história da sociedade humana"
Kode*se& então& afirmar que uma das grandes contriuiç+es de Ginzurg @ a proposta
deste m@todo ? an$lise histórica"
4 %ustificati!a apresentada por Ginzurg para a utilização deste m@todo
indici$rio como ferramenta para recomposição histórica tam@m não se difere em muito
da %ustificati!a que se tem quando @ aplicado em outros campos" 2sso ocorre na medida
em que admitimos a in!iailidade de um conhecimento direto& le!ando*se sempre em
conta que a realidade se mostra sempre opacaL contudo& ela tam@m @ possuidora de
;zonas pri!ilegiadas=& e& a partir dessa constatação& pode se realizar a apreensão do
conhecimento"
Nas Gltimas d@cadas do s@culo HH& o rigor cient'fico !em sofrendo cr'ticas
com relação ?s perspecti!as de construção de um conhecimento e5ato e direto& e tal fato
ocorre em !$rias disciplinas e em função de um mo!imento de cunho relati!ista"
Kode*se afirmar que a metodologia proposta por Ginzurg reno!a muitas das
discuss+es historiogr$ficas& defendendo o distanciamento da história em relação ?s
perspecti!as pós*modernas" 4 produção do conhecimento histórico se torna !i$!el&
8B
G2NSB#DG& Carlo" "inais$ ra+-es de um paradi!ma indici'rio. 2n( Mitos, Em#lemas, "inais.
Mor/olo!ia e História& pg" 8>:"
2,
segundo Ginzurg& a partir do momento em que o o%eto de an$lise histórica se encontra
dentro de uma temporalidade& e o historiador só pode apreender o o%eto em função de
sua particularidade"
27
I? O queijo e os vermes
I%>? C&+i-*ra6@*+ a2*r2a -& )r*(G2i& : *-i67& i,a1iaa%
No pref$cio ? edição italiana de O queijo e os vermes encontramos de forma
clara o deate teórico que en!ol!e a construção do conhecimento histórico nas oras de
Carlo Ginzurg" Neste pref$cio& o historiador italiano apresenta o conceito de
circularidade cultural como opção de leitura e apreensão da e5periEncia cultural para o
per'odo renascentista"
4 prolematização da pesquisa realizada por Ginzurg parte das condiç+es e
realidade da escassez de relatos sore o comportamento e as atitudes das classes
sualternas durante o per'odo renascentista" 3 historiador que amiciona por uma leitura
da classe sualterna al@m de se deparar com o prolema dessa escassez documental& se
depara tam@m com a realidade de que estas fontes são escritas por indi!'duos ligados ?
cultura dominante" Carlo Ginzurg inter!@m da seguinte forma(
Kor@m& os termos do prolema mudam de forma radical ante a proposta de
estudar não a Ycultura produzida pelas classes popularesY& e sim a Zcultura
imposta ?s classes popularesY
2:

3 historiador italiano no decorrer desse pref$cio apresenta re!emente
algumas perspecti!as de leitura do cultural que foram utilizadas durante a Gltima metade
do s@culo HH" Como um e5emplo ele lemra Doert Mandrou& que discutiu essa questão
ao traalhar com a literatura de cordel& mas suas consideraç+es sore o prolema se
endereçaram ao po!o e ? imposição sofrida por ele pela classe dominante& ocorrendo
uma aculturacão das classes sualternas" Q$ em outro e5emplo& Gene!i[!e Boll[me& que
2:
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 8>"
2>
tem uma !isão da literatura de cordel !oltada a um panfletarismo& !E e5istir a
e5pressi!idade de uma classe popular original e autRnoma" 4s cr'ticas feitas por
Ginzurg tam@m engloam o traalho realizado por Michel Coucault& mesmo quando
este chama a atenção para a pr$tica de pesquisa !oltada as e5clus+es e proiiç+es& ;3
que interessa soretudo a Coucault são os gestos e os crit@rios da e5clusãoL os e5clusos&
um pouco menos"=
28
Q$ a aordagem do cultural feita por Ba0htin em seu traalho sore
a relação entre Daelais e a cultura popular de seu tempo @ !ista por Ginzurg com
perspecti!as positi!as"
\ em mais frut'fera a hipótese formulada por Ba0htin de uma influEncia
rec'proca entre a cultura das classes sualternas e a cultura dominante"
22
Nesse momento& Ginzurg adota como modelo de apreensão do cultural o
conceito de circularidade cultural formulado por Ba0htin e o reprop+e para as suas
pesquisas"
I%"? M*&228i&: U3 3&1*ir& * +.a ,*3)&ra1i-a-*%
#ma farta documentação referente ao processo inquisitorial do moleiro
)omenico <candella& dito Menocchio& proporciona a Carlo Ginzurg uma pesquisa rica
em dados en!ol!endo a cultura popular e erudita para o per'odo renascentista" 4
proposta de circularidade cultural para a compreensão da rede de relaç+es que en!ol!e
o moleiro ocorre de acordo com a rele!Fncia dada ao tempo e espaço em que ele est$
28
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes& pg" 28"
22
2dem& pg" 23"
29
inserido"
4os olhos dos conterrFneos Menocchio era um homem& ao menos em parte&
diferente dos outros" Mas essa singularidade tinha limites em precisos( da
cultura do próprio tempo e da própria classe não se sai a não ser para entrar no
del'rio e na ausEncia de comunicação" I"""J Com rara clareza e lucidez&
Menocchio articulou a linguagem que esta!a historicamente ? sua
disposicão"
23

4 a!idez com que Menocchio articulou e assimilou a linguagem de seu
tempo @ o aspecto fundamental para a interpretação desse personagem realizada por
Carlo Ginzurg" 3 respeito pelas delimitaç+es de tempoUespaço e5istentes no o%eto de
an$lise tendo em !ista tam@m o lugar e tempo de quem o analisa 6neste caso& o
historiador 6 fazem parte do trato da o%eti!idade histórica na tentati!a de captar a
imagem do passado de que Menocchio fez parte" <egundo esta constatação& a rede de
relaç+es @ captada com um constante e5erc'cio de interati!idade e cone5ão entre o
macro e o micro& se unindo a uma proposta de pesquisa de car$ter indici$rio e
morfológico"
4 partir da oser!ação feita por Carlo Ginzurg do ;influ5o rec'proco=
e5istente entre as leituras realizadas por Menocchio e a cultura oral de seu tempo @ que
se delineou o tra%eto feito pelo personagem para a percepção do mundo& o que afirma ser
o moleiro um leitor não passional& mostrando*se apto a uma postura mais cr'tica e
pessoal com relação ao conhecimento adquirido" Msse car$ter le!a ? conclusão de dois
fatos( primeiro& o distanciamento de sua comunidade e de seus memrosL segundo( por
mais que ele possua uma postura diferente perante a percepção da realidade& ele não
dei5a de estar inserido dentro do tempo e espaço em que !i!enciou suas e5periEncias&
pois como afirma Ginzurg& a possiilidade de um caso como Menocchio aconteceu pela
23
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 2,"
2B
;in!enção= da imprensa e a Deforma"
I%B? O P*r+&a'*3 * a 2&+,r.67& -* +.a i-*,i-a-* )&r Car1& GiF5.r'%
Chama!a*se )omenico <candella& conhecido por Menocchio" Nascera em
8,32 Iquando do primeiro processo declarou ter ,2 anosJ& em Montereale&
uma pequena aldeia nas colinas do Criuli& a 2, quilRmetros de Kordenone&
em protegida pelas montanhas" Pi!eu sempre ali& e5ceto dois anos de
desterro após uma riga I8,74*7,J& transcorridos em 4ra& uma !ila não
muito distante& e numa localidade não precisada da Carnia" Mra casado e tinha
sete filhosL outros quatro ha!iam morrido" )eclarou ao cRnego Giamattista
Maro& !ig$rio*geral do inquisidor de 4quil@ia e Concórdia& que sua ati!idade
era ;de moleiro& carpinteiro& marceneiro& pedreiro e outras coisas=" Mas era
principalmente moleiroL usa!a as !estimentas tradicionais de moleiro 6 !este&
capa e capuz de lã ranca" M foi assim& !estido de ranco& que se apresentou
para o %ulgamento"
24
Nessa passagem& Ginzurg apresenta elementos que serão esmiuçados e
mapeados para o aprofundamento da reconstituição da identidade do moleiro )omenico
<candella" Nela& encontramos dados de sua estrutura familiar como casamento& esposa e
filhos& sua residEncia& seu traalho e& conseqVentemente& dentro dessa rede que !ai se
configurando& o lugar social que ocupa" )e!ido ? riqueza documental e5istente sore
essa interessante figura do s@culo HP2& Ginzurg pRde realizar um e5erc'cio de pesquisa
com e5celentes perspecti!as de reconstituição histórica"
4lguns elementos importantes para a captação da identidade de Menocchio
podem ser descritos da seguinte forma(
A (a3;1ia% 4 estrutura familiar de )omenico <candella foi um elemento de grande
influEncia a delimitar a sua identidade& mostrando*se como um ponto de equil'rio entre
as suas id@ias e as suas atitudes" \ durante o segundo processo que pode ser perceido o
24
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 3>"
3:
peso da fam'lia para o desfecho dos acontecimentos"
M!itado pelos filhos& que o considera!am um peso& uma desonra para a aldeia&
uma ruina para a fam'lia& I"""J" 4gora in!oca!a desesperadamente a morte"
Mas a morte se esquecera dele(;]"""^L fez %ustamente o contr$rio& le!ando*me
um filho ]"""^L depois me le!ou a mulher=" Mntão se amaldiçoa!a( ;]"""^ se eu
ti!esse morrido h$ quinze anos= 6 quando& para desgraça sua e de seus filhos&
começaram os prolemas com o <anto 3ficio"
2,

4s e!idEncias indicam que seu filho Siannuto e sua esposa foram as pessoas por
quem mais possu'a estima e agiam em seu fa!or& por@m& nesse momento& esta!am
mortos" 3 sentimento de aandono e solidão e o fato de %$ não mais ha!er algum laço
familiar de grande peso& como tudo indica& tornou insignificante o sentido de calar*se
diante das autoridades eclesiais" 3 papel que e5ercia na fam'lia tornou*se menor do que
a !ontade de e5primir as suas id@ias perante as autoridades"
)urante os dois processos sofridos por Menocchio a influEncia familiar
demarcou o desfecho de suas atitudes" M tal fato pode ser constatado pela contradição da
postura tomada por ele durante o primeiro e o segundo processos inquisitoriais" Kode*se
perceer que a interação com o seu meio e particularmente com os laços afeti!os e
desempenho de responsailidades contriu'ram nas decis+es tomadas com relação a sua
sorte nos processos"
A 2&3.i-a-*% 4 relação de Menocchio com sua comunidade foi intensa&
desempenhando funç+es e sendo reconhecido como pessoa de em" 3 ;carisma= que
possu'a pode ser !erificado nesta passagem(
Nos testemunhos recolhidos pelo !ig$rio*geral não se percee o que se
chamaria de !erdadeira hostilidade em relação a Menocchio& no m$5imo
desapro!ação" \ !erdade que entre aqueles e5istiam parentes& como Crancesco
Casseta ou Bartolomeo di 4ndr@a& primo de sua mulher& que o definiram
2,
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes& pgs" 8>9U8>B"
38
como ;homem de em="
27

<egundo Ginzurg& certamente esse moleiro demonstra!a ser um homem de
oa conduta& com uma sólida relação& e5ercendo funç+es e cumprindo responsailidades
dentro de seu meio" 4 região do Criuli& e& particularmente& a aldeia de Montereale&
possu'a uma escassa população de!ido ? precariedade da região" 3 fato de saer ler e
escre!er %$ lhe delega!a um destaque social dentro da comunidade" 4 sua importFncia @
afirmada por Ginzurg no momento em que depois de sua lieração pelo <anto 3f'cio
no primeiro processo retoma as relaç+es em sua aldeia e desempenha pap@is dentro de
sua organização social" Com a !erificação de seu desempenho social em sua comunidade
@ poss'!el para Ginzurg filtrar a imagem de seu personagem& e mesmo& compreender a
estrutura que en!ol!ia seu o%eto histórico"
A )r&(i++7&% 4 profissão como elemento da identidade de Menocchio esta!a !inculada a
um espaço simólico e representati!o" -omemos como e5emplo o momento em que
Ginzurg transcre!e a citação do interrogatório que descre!e a !estimenta de seu
personagem" 4 identificação da profissão era feita pela !estimenta e5iida pelo
indi!'duo em determinados lugares sociais" Mla possu'a a função de identificador de seu
papel dentro da sociedade& e pelos s'molos determina!a o lugar social dos indi!'duos"
Mm outro momento& o of'cio de moleiro tam@m permite a Ginzurg a
constatação do que poderia ser fa!orecido ou influenciado atra!@s do desempenho de
determinada profissão" No caso do moleiro& o amiente f'sico e a relação que e5ercia na
sociedade fa!oreciam tanto quanto uma ta!erna discuss+es e trocas de conhecimentos
entre diferentes indi!'duos"
27
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 4:"
32
4 acusação de heresia casa!a muito em com tal estereotipo" Contriu'a para
aliment$*la o fato de o moinho ser um lugar de encontro& de relaç+es sociais&
num mundo predominantemente fechado e est$tico" #m lugar de troca de
id@ias& como a ta!erna e a lo%a" Com certeza& os camponeses que se
amontoa!am nas portas do moinho I"""J& para moer os grãos& de!iam falar
sore muitas coisas" M moleiro da!a a sua opinião"
2>

3 desempenho do of'cio de moleiro tam@m foi !erificado com a citação de
um outro moleiro denominado Kighino& contemporFneo de Menocchio e que possu'a
id@ias muito pró5imas ?s de Menocchio"
Na !erdade& esses dois moleiros& que !i!eram a centenas de quilRmetros um
do outro e morreram sem se conhecer& fala!am a mesma l'ngua& respira!am a
mesma cultura"
29
4ordar a questão cultural que en!ol!ia essas figuras do Denascimento e
analis$*las muito al@m de sua profissão ser$ tarefa do pró5imo cap'tulo desta
monografia"
Er.-i67& * S&1i-7&%
Nesse caso& o fato de saer Zler& escre!er e somar.de!e ter fa!orecido
Menocchio" 3s administradores& em geral& eram escolhidos quase sempre
entre pessoas que tinham freqVentado escola pulica de n'!el elementar& ?s
!ezes aprendendo at@ um pouco de latim" Mscolas desse tipo e5istiam tam@m
em 4!iano ou em Kordenone( Menocchio de!e ter passado por uma delas"
2B
3s relatos que informam o lugar social de Menocchio em sua comunidade&
soretudo o desempenho de funç+es dentro de sua comunidade depois do primeiro
processo inquisitorial& quando foi lierado de parte da sentença que sofreu& e!idenciam a
importFncia de sua ;erudição= perante os memros dessa comunidade" Nesse caso& ele
era um camponEs detentor da leitura e da pala!ra escrita& e isso o delega!a cargos de
relati!a importFncia e posição social& por um lado& e& por outro& permitiu o encontro de
duas realidades& a da erudição 6 encontrada nos li!ros que te!e conhecimento 6 e a de
2>
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes& pg" 8B2"
29
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes& pg" 8BB"
2B
2dem, pg" 39"
33
uma cultura oral 6 !i!enciada em sua comunidade" 3 encontro dessas duas realidades
fez de Menocchio um solit$rio mesmo em um meio onde atua!a com freqVEncia& pois o
mundo de suas id@ias não se integra!a ? sua !ida cotidiana" -al dualidade fez deste
personagem uma figura singular de seu tempoL singular enquanto diferente nas id@ias e
atitudes de seu meio& mas totalmente adequado e inserido em sua temporalidade" Msse
;isolamento= em que !i!ia Menocchio era gerado pela incompatiilidade de seu
racioc'nio mais aguçado com relação ao de seus semelhantes" 4 falta de indi!'duos que
compartilhassem de suas con!icç+es ou mesmo entendessem suas id@ias %ustifica& em
parte& a atitude de Menocchio perante as autoridades inquisitoriais" 4 necessidade de
compartilhar com algu@m as suas opini+es era tão significati!a& que& se pudesse& falaria
at@ ao papa& não se importando se depois fosse punido"
I%$? D& 4.* J 2&+,i,.;-& O queijo e os vermesK
Compreender a cosmogonia e as id@ias de Menocchio como !imos
anteriormente @& para Carlo Ginzurg& tecer uma rede de relaç+es entre o personagem e o
seu conte5to& onde as suas id@ias são reconstitu'das a partir do e5erc'cio de pesquisa
detalhado sore o cotidiano desse moleiro"
Mais uma !ez& temos a impressão de estar num eco sem sa'da" 4ntes& diante
da e5tra!agante cosmogonia de Menocchio& nos perguntamos por um
momento& como %$ o fizera o !ig$rio*geral& se não se trata!a do discurso de
um louco" )escartada essa hipótese& o e5ame de sua eclesiologia sugeriu uma
outra( tal!ez Menocchio fosse anaatista" 4andonada tam@m essa
possiilidade& defrontamos com a informação de que Menocchio se %ulga!a
um m$rtir ;luterano=( da' o prolema de suas relaç+es com a Deforma"
Mntretanto& a proposta de inserir as id@ias e crenças de Menocchio num !eio
profundo de radicalismo camponEs trazido ? luz pela Deforma Imas
independente delaJ parece ter sido ostensi!amente contradita pela lista de
34
leituras que reconstru'mos com ase nos documentos processuais" 4t@ que
ponto poderemos considerar representati!a uma figura tão pouco comum& um
moleiro do s@culo HP2 que saia ler e escre!erA M& al@m disso& representati!a
do quEA Com certeza& não de um !eio de cultura camponesa& %$ que o próprio
Menocchio aponta!a uma s@rie de li!ros impressos como fonte de suas id@ias"
)e tanto nos deatermos contra os muros desse lairinto& retornamos ao ponto
de partida"
3:
4 passagem citada acima ilustra o mapeamento realizado por Ginzurg com
o intuito de apreender as ra'zes de uma postura tão singular como a do moleiro"
Menocchio construiu seu próprio ;corpus= de id@ias que engloa!a grande parte dos
questionamentos sore a condição humana com o fim de suprir as lacunas que o
pensamento católico dei5a!a"
4 utilização do conceito de circularidade cultural proporciona nesse
momento a cha!e para compreender precisamente a ;representação cultural= de
Menocchio" )epois de um intenso mapeamento do cotidiano e da formação intelectual& o
que dizer de MenocchioA Mle era um leg'timo representante de alguma classe& da
tolerFncia medie!al& de sofisticadas teorizaç+es religiosas ou um loucoA Como afirma
Ginzurg& seria inGtil enquadr$*lo em algum seguimento preciso" 4 alternati!a mais
plaus'!el de entender a forma como ele organizou as suas id@ias e construiu a sua
cosmogonia @ captar a partir dos ind'cios o comportamento e as ;respostas= que ele
apresentou diante das leituras que fez e a tradição oral de que fez parte" Kara Ginzurg&
seu personagem& inconscientemente& coloca!a um ;filtro= entre a tradição oral e a
pala!ra escrita" 3 e5emplo desse ;influ5o rec'proco= que gera!a uma ;mistura
e5plosi!a= em sua mente @ compro!ado quando enfatiza!a certas passagens e oculta!a
outras& ou quando e5agera!a no significado de determinada pala!ra isolando*a do
conte5to" P$rios são os momentos em que Ginzurg prop+e os filtros interpostos por
3:
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes. pg" >B*9:"
3,
Menocchio"
<egundo Ginzurg& as id@ias de Menocchio estão ligadas ao dese%o de
compreender a origem e a realidade da condição humana& e& assim& %ustificar um mundo
onde as relaç+es humanas se%am mais %ustas e li!res do poder opressor da 2gre%a e de
seus memros" 4o longo de sua tra%etória& Menocchio constrói um modelo de doutrina
religiosa adaptando o catolicismo ao con%unto de leituras que te!e acesso e ? cultura oral
da qual ele fez parte"
4 e5igEncia de uma 2gre%a que aandonasse seus pri!il@gios& que se fizesse
pore com os pores& liga!a*se ? formulação& na esteira dos M!angelhos& de
um conceito diferente de religião& li!re de e5igEncias dogm$ticas& resum'!el a
um nGcleo de preceitos pr$ticos( ;Gostaria que se acreditasse na ma%estade de
)eus& que fRssemos homens de em e que se fizesse como Qesus Cristo
recomendou& respondendo ?queles %udeus que lhe perguntaram que lei de!eria
seguir" Mle respondeu( Z4mar a )eus e ao pró5imo."#ma tal religião
simplificada não admitia& para Menocchio& limitaç+es confessionais"
38
Mm sua cosmogonia& o moleiro nega o papel di!ino para origem do mundo&
como era apresentado pela 2gre%a" Kara o personagem& tudo era caos e do caos surgiu
)eus& os an%os e tudo mais" 4 negação da di!indade criadora @ !ista& @ claro& com grande
desapro!ação pela 2nquisição" 4s contestaç+es feitas por Menocchio se inserem na
capacidade que este autodidata tinha em questionar as Z!erdades. e e5igEncias impostas
pelos memros do catolicismo" 3 dese%o de compreender o que est$ se passando o faz
questionar o saer imposto pela 2gre%a& e pode ser analisado a partir de dois pontos( 3
momento da Deforma& propiciador de uma s@rie de questionamentos do poder oriundo da
2gre%a& e a imprensa"
Mntão temos( negação da doutrina& negação dos li!ros sagrados& insistEncia
e5clusi!a no aspecto pr$tico da religião(;Mle ]Menocchio^ me disse tam@m
só acreditar nas oas oras=* declara Crancesco Casseta"
32
38
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 49"
32
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" ,8"
37
Neste trecho perceemos os principais crit@rios do pensamento de
Menocchio& o que ele contesta e o que ele defende como doutrina religiosa" 3 moleiro
anseia por um mundo mais humano& distante do que ele !i!encia em sua comunidade"
Xuando ele questiona e reprop+e a religião& o faz de maneira a interferir na estrutura
social"
#m e5emplo ilustrati!o da desapro!ação da doutrina católica @ o modo
como ele lida com os ritos sacramentais" 4 missa& por e5emplo& @ perceida como um
instrumento que tolhe a autonomia dos homens& um meio que os ;superiores= utilizam
para impor as suas regras e dominar os outros" Q$ a sua opinião em relação ? sagrada
escritura não estaelece diferenciação entre e!angelhos apócrifos e canRnicos& e ainda
afirma a e5istEncia de uma inter!enção dos e!angelistas nas escrituras de modo a causar
um distanciamento da simplicidade que ele crE e5istir na pala!ra de )eus" 4 religião e a
santidade para Menocchio são encaradas de modo diferente& mais como um modelo de
!ida do que um meio para se alcançar o para'so" )esta forma& os seus ideais e
determinaç+es !oltam*se para o plano material& não para o espiritual"
M Cristo era para ele nada mais do que um homem" Coerentemente& portanto&
qualquer id@ia de milenarismo lhe era estranha" No decorrer de suas
confiss+es %amais aludiu ao segundo ad!ento" Oogo& o ;mundo no!o=que
dese%a!a era uma realidade e5clusi!amente humana& a ser alcançada por
meios humanos"
33
Mntender o pensamento de Menocchio e o seu dese%o por um mundo no!o&
sem a opressão e dominação de uma 2gre%a rica e opressora& para Ginzurg& @& antes
mesmo de tentar demonstrar a forma como o moleiro e5p+e o seu pensamento& uscar a
partir dos ind'cios que chegaram at@ nós a reconstituição das ases que o propiciaram"
33
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes& pg" 842"
3>
)as consideraç+es feitas por Ginzurg acerca do momento histórico em que
esta!a inserido o seu personagem& foi o mo!imento reformista que permitiu e di!ulgou
para todos os Fmitos da sociedade a possiilidade de questionamentos e contestaç+es
das atitudes e do poder da 2gre%a" Neste momento& di!ersos ideais e propostas esta!am se
disseminando e a imprensa proporcionou a pulicação e difusão de li!ros Iinclusi!e os
considerados como heresia pela 2gre%aJ que traziam para o ainda pequeno pGlico leitor
um leque de no!idades e opç+es" Contudo& tentar enquadrar Menocchio nos termos de
algum mo!imento de contestação como o luteranismo ou o anaatismo se torna!a
limitado diante de suas id@ias" Ginzurg acredita na ;influEncia= de ;um ramo autRnomo
de radicalismo camponEs= que emergiu com a Deforma e sendo suas origens de
momento anterior"
)ois grandes e!entos históricos tornaram poss'!el um caso como o de
Menocchio( a in!enção da imprensa e a Deforma" 4 imprensa lhe permitiu
confrontar os li!ros com a tradição oral em que ha!ia crescido e lhe forneceu
as pala!ras para organizar o amontoado de id@ias e fantasias que nele
con!i!iam" 4 Deforma lhe deu aud$cia para comunicar o que pensa!a ao
padre do !ilare%o& conterrFneos& inquisidores * mesmo não tendo conseguido
dizer tudo diante do papa& dos cardeais e dos pr'ncipes& como queria"
34
Com a aordagem desse momento histórico& compreender a postura de
Menocchio dei5a de ser& para Ginzurg& simplesmente a an$lise de um o%eto particular
e solto no tempo e no espaço" \ uma figura diferenciada de seu meio& mas ele e5istiu&
fez parte de um determinado processo histórico e a sua identidade est$ diretamente
relacionada com esse momento& assim& a prolematização e5posta por Ginzurg tam@m
se insere em uma questão mais espec'fica dos !est'gios otidos da imagem de seu
o%eto" Menocchio era um camponEs autodidataL ele saia ler e escre!er& e& mais al@m&
compreendia que o acesso ao conhecimento transmitido nesses moldes era um
34
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes& pg" 3:"
39
instrumento de poder"
Xuando Ginzurg faz o estudo das poss'!eis oras e ideais que chegaram a
este moleiro& ele dei5a claro e e!idente o encontro que se tem da pala!ra escrita com a
cultura oral" Kara Ginzurg& Menocchio esta!a longe de ser um leitor passi!o& e a s@rie
de questionamentos colocada aos li!ros ia muito al@m da p$gina escrita
Pimos& portanto& com Menocchio lia seus li!ros( destaca!a& chegando a
deformar& pala!ras e frasesL %ustapunha passagens di!ersas& fazendo e5plodir
analogias fulminantes" -oda !ez que confrontarmos os te5tos com suas
reaç+es a eles& seremos le!ados a postular que Menocchio possu'a uma cha!e
de leitura oculta que as poss'!eis relaç+es com um ou outro grupo de her@ticos
não são suficientes para e5plicar" Menocchio tritura!a e reelaora!a suas
leituras& indo muito al@m de qualquer modelo preestaelecido" <uas
afirmaç+es mais desconcertantes nasciam do contato com te5tos inócuos&
como As via!ens de Mande!ille& ou a Historia *el 2iudicio" Não o li!ro em
si& mas o encontro da p$gina escrita com a cultura oral @ que forma!a& na
caeça de Menocchio& uma mistura e5plosi!a"
3,
"
I%I? A 2&+,r.67& -& 2&8*2i3*,& 8i+,/ri2& *3 O queijo e os vermes.
O queijo e os vermes @ uma importante ora onde se encontram inseridas
toda a erudição e metodologia do historiador %untamente a uma rica documentação"
3 processo de reconstituição elaorado por Ginzurg para o entendimento
das id@ias de um moleiro friulano do s@culo HP2 tomou forma e clareza a partir da sua
proposta de construção do conhecimento histórico" 3 paradigma indici$rio e o conceito
de circularidade cultural delinearam a tra%etória& a identidade do o%eto e a sua leitura
dentro do momento histórico ao qual est$ inserido em função da e5pressi!idade do seu
uni!erso cultural"
3,
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 8:3"
3B
No pref$cio ? edição italiana desta ora& como %$ foi dito& o historiador
apresenta a sua opção de leitura para a aordagem cultural" #m ;influ5o rec'proco=
entre cultura erudita e popular se torna e!idente e coerente no decorrer do li!ro" Xuando
o autor realiza um mapeamento das leituras e propostas que estariam em contato com
Menocchio& para compreender de onde !em a formação de seu pensamento& ele percee
a distorção feita por Menocchio entre suas id@ias e o te5to& e!idenciando a influEncia de
uma cultura oral" Nesse momento& h$ o encontro da pala!ra escrita com a oralidade& o
erudito e o popular" Kara a prolematização desse momento @ colocada em questão a
importFncia que h$ na forma como Menocchio recee e organiza esses conhecimentos&
que se constituiu a partir do seu olhar com relação a essas duas perspecti!as& caendo a'
a utilização do conceito de circularidade cultural para a apreensão da constituição de
suas id@ias" Mntender esse momento de ;influ5o rec'proco= para Ginzurg se torna
!i$!el pelo fato de que ele @ um produto de seu tempo" 4 Deforma permitiu o
afloramento de um antigo radicalismo camponEs e a possiilidade de contestação das
!erdades da f@ cristã& e a imprensa a ;popularização= da pala!ra escrita" Kara elucidar
esse fato(
M assim eu disse que lasfemar não @ pecado porque não faz mal a ningu@m="
Kortanto& quem não faz mal ao pró5imo& não comente pecado( a relacao com
)eus se torna irrele!ante diante da relação com o pró5imo" M& se )eus @ o
pró5imo& por que então )eusA
Na !erdade& Menocchio não deu esse Gltimo passo& que o teria le!ado
a afirmar um ideal de %usta con!i!Encia humana& totalmente isento de
conotaç+es religiosas" Kara ele& o amor ao pró5imo permanecia como um
preceito religioso& ou melhor& o !erdadeiro coração da religião"
37
4 citação acima e5p+e a circularidade que e5iste quando h$ o encontro de
culturas" Kor um lado& e5iste o conhecimento& a percepção do mundo que est$ ao seu
37
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes, pg" 9>"
4:
redor& e& por outro& h$ a dificuldade em se des!encilhar dos preceitos da religião" Oogo& a
constituição de seus ideais possui traços que !ão al@m do conhecimento apreendido pela
oralidade e pelas leituras que fez& mas& mesmo assim& esses seus ideais não possu'am
autonomia ao ponto de se tornarem um conhecimento des!encilhado de seu conte5to
temporal"
Na citação acima& perceemos o fato de que Menocchio reuniu todos os
elementos para negar a e5istEncia de )eus& mas ele não o fez& isso porque não e5iste
qualquer fundamentação fora dos limites de sua temporalidade" 3 ser humano naquele
momento não esta!a ;apto= a negar a e5istEncia de )eus ou quem sae a suportar a
relação de independEncia da doutrina religiosa" Kortanto& Menocchio @ reconhecido
como um camponEs autodidata& que reuniu elementos oriundos das leituras que fez e da
cultura que receeu atra!@s da oralidade e os adaptou ?s suas id@ias" Contudo& isso
ocorreu somente pelas possiilidades de seu tempo e de um mo!imento de contestação
ao poder religioso& fato que pode ser oser!ado em outras figuras de seu tempo& como
e5emplifica Ginzurg nessa ora"
4 coleta de dados e o e5erc'cio da pesquisa seguiram seu ;fio condutor=& o
paradigma indici$rio" 3 uso da morfologia @ constante& assim como a an$lise qualitati!a"
<empre em função dos ind'cios que a documentação fornece& Ginzurg tece uma rede de
dados e traalha constantemente com a leitura das dimens+es culturais& de acordo com
os s'molos e pistas que proporcionam a leitura de seu o%eto" Neste traalho sore o
Moleiro& e para a sua cone5ão& Ginzurg& al@m de suas propostas& como o paradigma
indici$rio e a circularidade faz uso da !ariação da escala tão cara aos seus companheiros
micro*historiadores"
48
4 escolha de O queijo e os vermes para o desen!ol!imento de uma pesquisa
de cunho historiogr$fico acerca do historiador italiano Carlo Ginzurg nesta monografia
ocorreu pelo fato de que esse tam@m @ um traalho que e5emplifica perfeitamente as
discuss+es teóricas e metodológicas do grupo de micro*historiadores italianos"
)urante a an$lise da historiografia da micro*história foi percept'!el a
con!ergEncia dos pontos em comum desses historiadores e& conseqVentemente& a
importFncia que desempenharam em seus traalhos" #m e5emplo cu%o rele!o fora
crucial foi o uso da !ariação da escala empregada por Ginzurg ao longo da
reconstituição histórica de Menocchio para a construção de sua identidade" 3 ;%ogo=
feito por Ginzurg entre o conhecimento espec'fico constru'do por Menocchio e o
conte5to em que este!e inserido proporcionou para a História do per'odo renascentista
uma no!a perspecti!a acerca dos ;n'!eis= culturais que compreendiam esse per'odo na
Muropa" Como fora mencionado anteriormente& @ a partir da utilização da !ariação da
escala que pode ser realizada a proposta de circularidade desen!ol!ida pelo historiador
para a apreensão de seu o%eto"
42
L? C&21.+7&
;Mu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos& isto @&
terra& ar& $gua e fogo %untos& e de todo aquele !olume em mo!imento se
formou uma massa& do mesmo modo como o quei%o @ feito do leite& e do qual
surgem os !ermes& e esses foram os an%os=]"""^"
3>
3 traalho de reconstituição histórica realizado por Carlo Ginzurg na
tentati!a de resgatar o imagin$rio de um camponEs autodidata do per'odo renascentista
não só se firmou como um interessant'ssimo estudo de caso que des!enda o imagin$rio
de um moleiro e sua cosmogonia& como tam@m resgatou uma rede de relaç+es que
representa!a a cultura daquele per'odo"
Compreender o que h$ por tr$s da cosmogonia de Menocchio se torna !i$!el
na medida em que Ginzurg usca retrat$*lo dentro de sua conte5tualização& resgatando
%untamente com a an$lise da documentação inquisitorial a rede de relaç+es que permitiu
a sua e5istEncia"
Mas al@m de um prof'cuo traalho teórico aliado ? pesquisa histórica& o que
um estudo de caso como o de Menocchio significa para uma reno!ação da HistóriaA
Kortanto& h$ um !alor sintom$tico num caso*limite como o de Menocchio" Mle
reprop+e& com força& um prolema cu%a importFncia só agora se começa a
perceer( as ra'zes populares de grande parte da alta cultura europ@ia&
medie!al e pós*medie!al" Ciguras como Daelais e Bruegel não foram&
pro!a!elmente& e5ceç+es not$!eis"
39
4 importFncia das di!ersas dimens+es culturais que Ginzurg e!idencia
nesse estudo apresenta ao campo historiogr$fico no!as aordagens para a leitura do
imagin$rio cultural 6 este sim mais amplo 6 referente ao per'odo renascentista"
3 sucesso de um resgate histórico como esse proporciona ao saer histórico
3>
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes. pg" 43"
39
2dem& pgs" 2::U2:8"
43
perspecti!as de reação diante de toda a prolematização que en!ol!e quest+es sore uma
certa crise de identidade dos historiadores em função dos parFmetros de o%eti!idade
histórica nas Gltimas d@cadas do s@culo HH"
#m alanço historiogr$fico da discussão tra!ada nessa monografia pode ser
elucidado com o artigo da historiadora Hee de Castro ;História <ocial= pulicado no
li!ro *om+nios da História. Não se trata aqui de apresentar uma no!a discussão a esta
monografia com o te5to de Hee Castro& mas recolocar a discussão da História <ocial&
presente ao longo deste traalho" 4 tentati!a de caracterizar o conte5to em que se insere
a micro*história e o historiador Carlo Ginzurg ocorre atra!@s da crescente discussão
historiogr$fica !oltada para as relaç+es sociais que en!ol!eram o campo histórico ao
longo do s@culo HH& soretudo a partir de 8B7:" \ nesse momento que o social ganha
uma no!a perspecti!a e os historiadores aprofundam o deate acerca dos n'!eis de
aordagem sore o social" 4 dinFmica histórica tornou*se o referencial para as
perspecti!as de produção do conhecimento histórico entre os historiadores das mais
di!ersas !ertentes" Mssa discussão não se dete!e apenas na %$ ;tradicional=
contemporFnea escola francesa& mas contou com um grande nGmero de historiadores
como os ingleses e& @ claro& os italianos"
I"""J4 Enfase na cultura& uma relati!a redução da escala de an$lise e a
predominFncia de perspecti!as antropológicas em relação ?s tendEncias
sociologizantes do per'odo anterior são caracter'sticas comuns que camuflam
deates e uma imensa di!ersidade de o%etos e aordagens"
3B
Como poder'amos caracterizar& então& a micro*história& sua formação e seu
papel dentro do conte5to historiogr$ficoA <er$ plaus'!el afirmar que as origens desse
mo!imento surgiram em função da necessidade dos historiadores em aarcar o o%eto
3B
C4<-D3& Hee de" História "ocial. 2n( *om+nios da História, pg",8"
44
histórico nas suas mais di!ersas apreens+es& e& para isso& a dinFmica dentro do campo
metodológico proporcionou aos historiadores a ampliação da leitura desse o%eto&
fragmentando o saer histórico" 3 anseio por uma História total perdeu espaço para a
ampliação do ;corpus= do o%eto e sua fragmentação foi a principal resposta dos
historiadores para esse momento"
Concluir uma monografia que pretende uma discussão historiogr$fica como
essa não @ tarefa f$cil e muito menos se finda com essas p$ginas" 3 que podemos dizer
quando fechamos um estudo sore a proposta realizada por um historiador como Carlo
Ginzurg para o campo histórico e em uma ora como O queijo e os vermes @ saer de
resultados para a apreensão do cultural e para a reconstituição histórica em tempos que o
anseio por uma História total nos parece imposs'!el" Kodemos dizer que a micro*
história& parafraseando Keter Bur0e Iem relação aos 4nnalesJ& proporcionou uma
mudança profunda para o of'cio de historiador& e& finalmente& que a História <ocial
nunca mais ser$ a mesma"
4,
M? F&,*+
G2NSB#DG& Carlo" O queijo e os vermes. O cotidiano e as id3ias de um moleiro
perse!uido pela inquisi()o. -rad" Maria BetFnia 4moroso" <K( Cia das Oetras&
8B9>"
____" Mitos, em#lemas e sinais. Mor/olo!ia e História. -rad" Crederico Carotti" <K( Cia
das letras& 2::8"
____" Rela(.es de /or(a. História, retórica, prova. -rad" QRnatas Batista Neto" <K( Cia
das letras& 2::2"

47
N? R*(*rO2ia+ 5i51i&'rG(i2a+
B#D`M& Keter" A escrita da história. 4ovas perspectivas. -rad" de Magda Oopes"
<K( Md" #NM<K& 8BB2"
C4D)3<3& Ciro Clamarion T P42NC4<& Donaldo Iorgs"J" *om+nios da História$
Ensaios de 5eoria e Metodolo!ia" DQ( Campus& 8BB>"
G2NSB#DG& Carlo" A micro-história e outros ensaios. -rad" 4ntRnio Narino" Oisoa(
)ifelUBertrand Brasil& 8B9B"
KM<4PMN-3& <andra Qatah/" ;Msta história que chamam micro=. 2N( G#4SSMOO2& C"
4" B"& KM-MD<MN& <" D" C"& <CHM2)-& B" B"& H4P2MD& D" C" IorganizadoresJ
6uest.es de teoria e metodolo!ia da História. Korto 4legre( Mditora da
#ni!ersidade Cederal do Dio Grande do <ul& 2:::& p" 2:B*34"
DMPMO& Qacques" o!os de escalas. A e%peri&ncia da microan'lise. -rad" )ora Docha"
DQ( Md" Cundação GetGlio Pargas& 8BB9"
P42NC4<& Donaldo" Micro-história. Os prota!onistas an,nimos da história" Md"
Campus"
"
4>
Monografia de Bacharelado apresentada ao )epartamento de História da
#ni!ersidade Cederal de 3uro Kreto& sendo a!aliadores os seguintes professores(
KrofIaJ" )rIaJ Helena Miranda Mollo
3rientadora
Krof" )r" angelo 4l!es Carrara
KrofIaJ" )rIaJ 4ndr@a Oisl/ Gonçal!es
49