15¯

Psicologia, Ciência e Construcionismos: Dando Sentido ao 5AB
íver.ov í. Ra.era
1 2
Caría Cvavae.
Mari.a ]a¡vr
²
|virer.iaaae ae ´ao Pavío, Ribeirao Preto
Resumo
O construcionismo social tem sido proposto como um conjunto de elaboraçoes da crise paradigmatica que tem soírido as
ciências nas últimas décadas. A complexidade e riqueza de tais elaboraçoes diíicultam uma descriçao única e consensualmente
aceita sobre o construcionismo social. Neste artigo temos como objeti·o explorar as propostas de Kenneth J. Gergen e Rom
larré acerca do construcionismo social, seus pressupostos, a ·isao de ciência promo·ida por cada uma delas, buscando
compreender as implicaçoes para a construçao de suas descriçoes de .eíf. Se é possí·el identiíicarmos di·ersas semelhanças nas
propostas destes autores, algumas diíerenças signiíicati·as marcam a distinçao de suas posturas, e ser·em para mapear o campo
de tensoes no qual outros autores construcionistas buscam ati·amente se posicionar.
Paíarra.·cbare: Construcionismo Social, teoria, .eíf.
Psychology, Science and Constructionisms: Making Sense of Self
Abstract
Social constructionism has been proposed as a set oí answers íor the scientiíic paradigmatic crisis oí last decades. 1he complexity
and richness oí its statements make diííicult a unitary and consensual description oí what is social constructionism among its
proponents. Our objecti·e in this article is to explore in more details Kenneth J. Gergen and Rom larré`s ·iew oí social
constructionism, its assumptions and ·iew oí science, thus ía·oring an understanding about the way these authors describe and
understand the selí. Although it is possible to identiíy many similarities in their proposals, some diííerences clearly separate their
positions, and help to map this íield oí tensions in which other constructionist authors try to position themsel·es.
Ke,rora.: Social Constructionism, theory, selí.
O construcionismo social
4
tem sido proposto como um
conjunto de elaboraçoes da crise paradigmatica que têm
soírido as ciências nas últimas décadas ,Gergen, 1985,. Lle
tem se desen·ol·ido no campo da Psicologia baseado em
uma concepçao alternati·a do íuncionamento da ciência e
suas íormas de in·estigaçao. Podemos entender o
construcionismo como decorrente de uma tensao historicamente
muito antiga, entre empiristas e racionalistas, que tem ganhado
uma íorma e um nome especííicos nas últimas décadas,
promo·idos por um conjunto de autores ,Gergen, 199¯, larré,
1998, Parker, 1998, Shotter, 1993, Spink, 1999, que de diíerentes
modos têm re·isto tal tensao.
A di·ersidade e complexidade destes modos de compreensao
diíicultam uma deíiniçao única, amplamente aceita, do que ·em
a ser o construcionismo social. Alguns deíinem o
construcionismo como uma consciência compartilhada`
,Gergen, 199¯,, outros aíirmam que os autores construcionistas
1
Apoio: lAPLSP
2
Agradecimentos a Ana Paula S. da Sil·a, Jan Valsiner e Maria Clotilde Rosseti-
lerreira pelos comentarios e sugestoes na redaçao deste artigo.
3
Lndereço para correspondência: Marisa Japur, laculdade de lilosoíia, Ciências e
Letras de Ribeirao Preto da Uni·ersidade de Sao Paulo, A·. dos Bandeirantes, 3900,
14040 901, Ribeirao Preto, Sao Paulo. í·vaií: mjapur¸ííclrp.usp.br
4
Os termos construcionismo social e construcionismo sao utilizados como
sinonimos neste artigo.
têm entre si apenas uma semelhança íamiliar` ,Burr, 1995, e
outros ainda aíirmam nao existir uma psicologia construcionista
,Potter, citado em Nightingale & Cromby, 1999,. Se por um
lado, é possí·el rapidamente íazer algumas comparaçoes
nas quais marcamos a distinçao entre autores construcionistas
e nao-construcionistas, por outro, uma certa imprecisao sobre
o que os une permanece.
Construcionismo ou Construcionismos: Lntendendo
um Campo de 1ensöes
Algumas tentati·as de deíiniçao e classiíicaçao das
propostas construcionistas íoram realizadas. Danzinger ,199¯,
descre·e um íigbt cov.trvctiovi.v e um aarí cov.trvctiovi.v, Zuriíí
,1998, distingue um construcionismo empírico de um
construcionismo metaíísico, Shotter ,1993, íala de um
construcionismo responsi·o-retórico, Gergen ,1985, 1999,
e larré ,1998, propoem diíerentes pressupostos para o
construcionismo.
Segundo Rasera ,2002,, atra·és de uma analise dos
dialogos entre certas posturas construcionistas, é possí·el
identiíicar um jogo de abertura e restriçao, de oscilaçoes
entre a aíirmaçao da diíerença e a consideraçao pela
semelhança, ou seja, ora marcando o que distingue o
construcionismo de outras perspecti·as, ora apontando o
carater contextual desta distinçao. Lste jogo promo·ido por
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
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determinados autores ,Gergen, 199¯, lacking, 1999, íaz da
deíiniçao,distinçao do construcionismo um pseudoproblema.
Contudo, se uma descriçao única do construcionismo nao
precisa ser buscada, uma analise comparati·a sobre as
especiíicidades de algumas propostas pode dar ·isibilidade
a algumas tensoes que compoem o campo de preocupaçoes
construcionistas, clareando as opçoes de cada autor e as
implicaçoes destas nas analises dos objetos estudados.
Assim, neste artigo, temos como objeti·o explorar as
propostas de Kenneth J. Gergen e Rom larré acerca do
construcionismo social, seus pressupostos, a ·isao de ciência
promo·ida por cada uma delas, buscando compreender as
implicaçoes para a construçao de suas descriçoes do .eíf.
1rata-se de um exercício reílexi·o que busca situar tais
propostas a partir de seu próprio ·ocabulario e preocupaçoes
especííicas, preser·ando a riqueza de cada descriçao e
explicitando a heterogeneidade do construcionismo social.
A escolha destes autores se pautou pela auto-identiíicaçao
dos mesmos como construcionistas, por apresentarem uma
deíiniçao sistematizada desta perspecti·a, associada ao íato
de ambos terem produzido trabalhos especííicos a respeito
do conceito de .eíf ,Gergen, 1991, larré, 1998,, íacilitando a
tareía analítica aqui pretendida. A escolha do conceito de .eíf
como íoco de nosso estudo de·eu-se a centralidade deste
conceito para a Psicologia, sendo assim um ótimo exemplo para
explicitarmos as contribuiçoes construcionistas para a mesma.
A Ciência como Lmpreendimento da Cultura: Pós-
modernidade, 5AB e Discurso
Apesar das di·ergências entre os pesquisadores na
descriçao do construcionismo, é possí·el identiíicar
claramente a proposta de uma Psicologia de cunho
construcionista nos trabalhos de Gergen, a qual esta
articulada a uma íorma de pensar a pratica cientííica e o
desen·ol·imento do conhecimento.
Gergen ,1999,, na tentati·a de descre·er algumas idéias
centrais sobre o construcionismo social, eníatiza:
1, a especiíicidade cultural e histórica das íormas de
conhecermos o mundo. As descriçoes do mundo nao
guardam correspondência com uma realidade situada para
além das íormas de dizê-la, mas sao elas próprias maneiras
de construçao desta realidade, organizadas a partir de
determinadas condiçoes sócio-históricas concretas dos
sistemas de signiíicaçao,
2, a primazia dos relacionamentos humanos na produçao
e sustentaçao do conhecimento. As descriçoes sobre o
mundo sao resultado da coordenaçao da açao humana, da
construçao de uma comunidade lingüística que a partir de
processos sociais de negociaçao produzem signiíicados locais
dura·eis no tempo,
3, a interligaçao entre conhecimento e açao. Diíerentes
íormas de descre·er o mundo, de produzir explicaçoes, de
gerar conhecimento, implicam em diíerentes possibilidades
de dar sentido ao mundo e de agir socialmente,
4, a ·alorizaçao de uma postura crítica e reílexi·a. Dado
que o conhecimento esta associado a determinadas condiçoes
sociais de produçao, o construcionismo con·ida a uma postura
crítica e reílexi·a sobre os saberes gerados que promo·a a
transíormaçao de nossas próprias tradiçoes.
A partir destas idéias, a ciência numa perspecti·a
construcionista, coníorme a descriçao de Gergen, é um
empreendimento da cultura, e deixa de ser pautado por uma
epistemologia dualista da distinçao sujeito-objeto, sendo
orientado por uma epistemologia social. A busca pela
·erdade realizada pela mente indi·idual é substituída por
questoes de inteligibilidade, utilidade social e ·alor humano
existentes em determinados padroes de relacionamento
social. A êníase na natureza contingente da realidade e no
carater social de produçao do conhecimento cientííico desaíia
a proposiçao tanto de um objeto, como de uma metodologia
únicos na Psicologia.
Gergen ,199¯, propoe uma ·isao de ciência como
instrumento pragmatico de sustentaçao ou questionamento
das inteligibilidades tradicionais. A redescriçao construcionista
da ciência psicológica como pratica social contextualizada incenti·a
transíormaçoes teóricas e metodológicas no próprio íazer
cientííico ·isando contribuiçoes que potencializem seu papel
na cultura.
A contribuiçao da ciência para a manutençao das tradiçoes
existentes, numa perspecti·a construcionista, se da atra·és
da íormulaçao de inteligibilidades teóricas que permitam
determinados entendimentos que íacilitem a coordenaçao
das açoes humanas dentro de limites sócio-culturais pré·ios.
Por outro lado, a ciência pode promo·er uma desestabilizaçao
das con·ençoes sociais a partir de in·estigaçoes que propiciem
uma crítica interna, uma crítica cultural, até uma pesquisa de
desalojamento ,.cboíar.bi¡ of ai.íogvevt,. A crítica interna se
reíere a a·aliaçao e reílexao por parte dos cientistas de suas
descriçoes do real e as praticas associadas. Lxpandindo-se
esta postura a·aliati·a, temos uma crítica cultural, na qual o
debate esta relacionado a perspecti·as morais e políticas
ampliadas. Dado que estas críticas se pautam, muitas ·ezes,
em ·alores especííicos, tais como igualdade e justiça, o
construcionismo social também con·ida a uma pesquisa de
desalojamento, isto é, a uma íorma de in·estigaçao íocada
na ruptura geral do con·encional e menos in·estida de uma
posiçao particular de ·alor.
Além destas íormas de in·estigaçao crítica e desestabilizadora,
a contribuiçao do construcionismo social, segundo Gergen
,199¯,, expande-se para a transíormaçao e ino·açao cultural.
Neste sentido, três íormas de pratica de pesquisa promo·idas
pelo construcionismo sao: a desconstruçao, atra·és da qual
o carater construído das coisas é explicitado, suspeitando
da autoridade e transcendência de qualquer descriçao, a
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
íver.ov í. Ra.era, Caría Cvavae. c Mari.a ]a¡vr
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democratizaçao, atra·és da qual múltiplos parceiros sao
con·idados a dialogar sobre as íormas e os resultados da
produçao cientííica, e a reconstruçao, na qual esíorços sao
dirigidos para a proposiçao de no·as ·isoes, ·ocabularios e
praticas que promo·am a transíormaçao cultural.
Lstas posturas desconstruti·a e de crítica interna promo·idas
pelo construcionismo social produzem na Psicologia a
necessidade de se re·er as descriçoes,deíiniçoes do conceito
de .eíf, considerado por muito tempo o objeto de estudo
pri·ilegiado desta ciência, e de se propor no·as íormulaçoes.
Assim, o estudo do .eíf esta presente em di·ersos trabalhos
de Gergen ,1991, 199¯, 1999,. Associado as críticas ao
realismo e ao essencialismo de muitas deíiniçoes do .eíf e
suas contribuiçoes para uma cultura indi·idualista, Gergen
ao in·estigar o .eíf abandona a busca pela deíiniçao uni·ersal
de um .eíf nuclear, organizado, esta·el e autêntico como no
projeto da ciência moderna.
De sua êníase no estudo da linguagem decorre a descriçao
do .eíf como um discurso: de um lado, buscando situar as
condiçoes sócio-históricas concretas de emergência de um
no·o ·ocabulario sobre o .eíf, e de outro, analisando as íormas
pelas quais as narrati·as sobre o .eíf socialmente disponí·eis
sao utilizadas na sustentaçao dos relacionamentos. la assim
uma exteriorizaçao, multiplicaçao e contextualizaçao histórica
da construçao do .eíf.
Lm seu li·ro 1be .atvratea .eíf, Gergen ,1991, analisa as
condiçoes de emergência de um no·a íorma de descre·er o
.eíf - o .eíf saturado, identiíicadas ao processo de saturaçao
social promo·ido pelo desen·ol·imento tecnológico,
especialmente dos meios de transporte, das telecomunicaçoes
e ·ariadas íormas de mídia, nas últimas décadas. O .eíf saturado
aí descrito relaciona-se aos padroes de relacionamento social de
um mundo pós-moderno, no qual ha um intenso íluxo e contato
de pessoas e tradiçoes que le·am ao questionamento reílexi·o,
a inúmeras possibilidades de negociaçao e reconstruçao.
Neste processo de saturaçao social, emerge um .eíf po·oado
por múltiplas e contraditórias possibilidades de ser, para o qual
se ampliam as oportunidades de relacionamento com os outros,
se complexiíicam os dialogos internos e aumenta a diíiculdade
de compromisso com uma identidade assimila·el a idéia de
unicidade. Segundo Gergen ,1991, p. 16,:
Crítico para o meu argumento é a proposta de que a saturaçao
social traz com ela uma perda generalizada de nossas
hipóteses do .eíf ·erdadeiro e passí·el de conhecimento. A
medida que absor·emos múltiplas ·ozes, consideramos que
cada ·erdade` é relati·izada por nossa consciência simultanea
de alternati·as atraentes. Nos tornamos conscientes que cada
·erdade sobre nós mesmos é uma construçao do momento,
·erdadeira apenas por um período de tempo e no interior
de certos relacionamentos.
A ampliaçao da conexao social exige do indi·íduo uma
multiplicidade de in·estimentos de .eíf que le·a a um
processo de multiírenia caracterizado por: a, uma ·ertigem
do de·er`, de·ido as necessidades de manutençao dos
inúmeros relacionamentos, b, uma expansao da auto-
dú·ida`, dada a di·ersidade de íormas possí·eis de se
relacionar e descre·er o mundo, e c, uma recessao da
racionalidade`, pelo reconhecimento da ·alidade local de
determinadas íormas de ser e agir.
Lste processo de saturaçao social esta associado a
descriçao de um .eíf relacional. Considerando a presença
desgastada dos discursos romanticos e modernos do .eíf,
Gergen chama a atençao para a emergência na cultura pós-
moderna de sinais de uma concepçao relacional de .eíf, na
qual aspectos pré·ios e reíeridos ao .eíf indi·idual se tornam
nessa descriçao parte de relacionamentos.
Lntre estes sinais podemos apontar, primeiro, as tentati·as
de explicitar o domínio social da história pessoal realizadas
por autores que mostram como as con·ençoes socialmente
estabelecidas sobre a narrati·a histórica determinam como
compreendemos o passado. Neste sentido, a autobiograíia
esta associada a uma sociobiograíia, a uma negociaçao da
memória compartilhada. Segundo, a proposiçao da emoçao
como períormance cultural. la, aqui, um deslocamento da
biologia para a cultura no entendimento da emoçao. 1al como
numa encenaçao, o sistema biológico é requerido para
expressar determinada emoçao, mas ele nao requer as açoes
em si mesmo. la cenarios emocionais aprendidos culturalmente
que disponibilizam e demandam determinadas suplementaçoes
entre os participantes num jogo partilhado de expressao
emocional. 1erceiro, a descriçao da moralidade como
íenomeno relacional, existindo para além do indi·íduo. As
justiíicati·as para uma boa açao moral encontram-se
disponí·eis na cultura e sao utilizadas pelas pessoas. As
açoes das pessoas nao sao inerentemente morais ou imorais.
A pluralidade de realidades sociais nas quais as pessoas ·i·em
pode causar tensoes e ambigüidades na deíiniçao do que é
moralmente aceita·el, sendo a imoralidade possí·el pela
di·ergência de perspecti·as entre grupos sociais. A decisao
moral é assim circunscrita culturalmente.
Nesta perspecti·a construcionista, ha um con·ite a
multiplicidade de discursos sobre o .eíf, ou nos termos de
Bakhtin, a uma heteroglossia do ser, a um ·i·er na
multiplicidade de ·ozes dentro da esíera humana` ,Bakhtin,
citado em Gergen, 1991, p. 24¯,. Promo·e-se entao um
enriquecimento do discurso do .eíf, o qual pode ser buscado
na in·estigaçao de descriçoes históricas e culturais do .eíf,
atra·és das quais se possa integrar outras inteligibilidade as
ja disponí·eis na cultura.
Lm outro trabalho, ´eíf·varratiov iv .ociaí íife ,Gergen, 199¯,,
o íoco deixa de se situar no ní·el das relaçoes dos discursos
na sociedade, direcionando-se para uma pragmatica da
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
P.icoíogia, Ciêvcia e Cov.trvciovi.vo.: Davao ´evtiao ao ´eíf
160
narrati·a de .eíf. Lle, entao, analisa as narrati·as de .eíf como
íorma de descriçao social, como recurso con·ersacional, como
um implemento lingüístico embutido em seqüências
con·encionais de açao e empregados nos relacionamentos
de tal íorma a sustentar, incenti·ar ou impedir determinadas
açoes` ,p. 18¯,.
Considerando esta concepçao, a inteligibilidade do .eíf
esta relacionada a estrutura das descriçoes narrati·as. Para
este autor, as propriedades das boas narrati·as sao histórica
e culturalmente determinadas, sendo que as con·ençoes
narrati·as contemporaneas se organizam a partir dos seguintes
critérios: 1, estabelecimento de um desíecho, 2, seleçao de
e·entos rele·antes para o desíecho, 3, ordenaçao dos
e·entos, 4, preser·açao da estabilidade da identidade da
personagem, 5, presença de ligaçoes causais entre os e·entos,
e 6, indicaçao de signos de demarcaçao. Narrati·as de .eíf
pautadas por estes critérios promo·em, em nosso contexto sócio-
histórico atual, um maior senso de realidade e eíicacia social,
ía·orecendo um maior senso de coerência e direçao na ·ida.
Segundo Gergen ,199¯,, certas íormas basicas de narrati·a
sao amplamente compartilhadas na cultura. Para ele, todos
os enredos podem ser con·ertidos para uma íorma linear
em termos de mudanças a·aliati·as ao longo do tempo,
segundo três íormas narrati·as rudimentares: estabilidade,
progressi·a e regressi·a. Nelas, o mo·imento na dimensao
a·aliati·a ao longo do tempo permanece imuta·el, é crescente
ou decrescente respecti·amente. Lstas íormas narrati·as
rudimentares geram ·ariaçoes mais complexas, tais como a
narrati·a tragica, na qual ha uma narrati·a progressi·a seguida
de uma narrati·a regressi·a e a saga heróica, na qual ha uma
série de íases de narrati·as progressi·as e regressi·as.
As narrati·as podem se reíerir a períodos amplos de
tempo, as macronarrati·as, bem como e·entos de curta
duraçao, as micronarrati·as. Lstes dois tipos de narrati·as
podem se entrelaçar gerando narrati·as encaixadas. Nestas,
juntamente com relatos de um tempo distante ha descriçoes
de e·entos recentes. Segundo Gergen ,199¯,, na medida
que a cultura ·aloriza a consistência entre as narrati·as, as
macronarrati·as passam a ter uma importancia signiíicati·a,
sendo a base sobre a qual se constrói outras narrati·as. Assim,
narrati·as sobre quem somos nas rapidas situaçoes cotidianas
de nossa ·ida ganham uma maior consistência a medida que
inseridas numa narrati·a de nós mesmos que inclua
descriçoes de situaçoes antigas.
Atra·és do uso de macronarrati·as responde-se a
demanda social de estabilidade. Assim, a estabilidade do .eíf,
nesta perspecti·a construcionista, deixa de ser decorrente
da organizaçao interna do .eíf e passa a ser entendida como
uma construçao narrati·a, decorrente do uso de determinadas
íormas de interligar os e·entos. De um ponto de ·ista
construcionista, nao ha demanda inerente para a estabilidade
de uma identidade. As narrati·as de estabilidade ser·em a
descriçao de uma identidade duradoura, integral e coerente,
gerando segurança naqueles relacionamentos que requerem
tal descriçao para sua manutençao.
Sao nos contextos de relacionamento que as narrati·as
têm suas potencialidades e limites determinados, pois a
possibilidade de se descre·er atra·és de uma narrati·a de
qualquer tipo depende da comunidade na qual se esta
inserido, dos relacionamentos aí existentes. Além da a·aliaçao
moral a que estao sujeitas quaisquer narrati·as de .eíf, estas
na maior parte das ·ezes incluem açoes de outros
participantes. Assim, a ·alidade narrati·a depende da
coníirmaçao do outro, de seu acordo quanto a íorma como
íoi descrito. Constrói-se, assim, uma rede de identidades
recíprocas. Para Gergen ,199¯,, As identidades, neste sentido,
nunca sao indi·iduais, cada uma é suspensa em um conjunto
de relacionamentos precariamente situados. As re·erberaçoes
sobre o que acontece aqui e agora - entre nós - podem ser
iníinitas` ,p. 209,. Lsta íorma de descre·er o .eíf como uma
narrati·a contada por nós e pelos outros sobre nós, a partir
de determinados ·ocabularios e discursos socialmente
disponí·eis, reaíirma as perspecti·as construcionistas
propostas por Gergen a respeito da especiíicidade sócio-
histórica das descriçoes do mundo, da ·alorizaçao dos
relacionamentos na sustentaçao do conhecimento e da
interligaçao entre conhecimento e açao, abrindo espaços para
reílexoes críticas sobre as contribuiçoes da Psicologia para
a manutençao e,ou transíormaçao da cultura.
A Dualidade da Ciência Psicológica: Pessoa, Práticas
Discursivas e 5ALAI
A discussao sobre ciência e sobre as noçoes basicas que
orientam uma perspecti·a construcionista social é
desen·ol·ida por larré ,1998, em seu li·ro 1be .ivgvíar .eíf,
a partir da proposiçao de uma Psicologia Discursi·a para a
in·estigaçao dos íenomenos psicológicos. De acordo com
este autor, a Psicologia Discursi·a desen·ol·eu-se como
uma íorma particular de explicaçao, onde o discurso, como
uma produçao essencialmente humana, histórica e culturalmente
situada, orientada por regras e con·ençoes sociais normati·as,
assume lugar de destaque.
A transiçao para uma Psicologia Discursi·a, segundo ele,
marca algumas mudanças em relaçao aos paradigmas
tradicionais que orienta·am a ciência psicológica até entao.
A Psicologia passa a íocalizar os processos de signiíicaçao e
de construçao conjunta de sentidos entre obser·adores e
sujeitos, nao ha·endo uma preocupaçao em garantir a
·eracidade ou unicidade de uma determinada descriçao. Os
discursos sao considerados como produzidos conjuntamente
pelas pessoas dentro de grupos particulares, sendo regidos
por determinadas regras e con·ençoes sociais, que orientam
esta possibilidade sempre local e contextualizada de
construçao ,larré & Gillet, 1994,.
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
íver.ov í. Ra.era, Caría Cvavae. c Mari.a ]a¡vr
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Do mesmo modo, para a Psicologia Discursi·a, os
íenomenos psicológicos deixam de ser descritos como
expressoes de um mundo mental interior, e passam a ser
·istos como descriçoes socialmente contextualizadas, que
engendram determinadas praticas sociais e íormas de
relacionamento. Por este ponto de ·ista, a especiíicidade do
ser humano reside na sua capacidade para a linguagem e,
assim, o íoco de in·estigaçao na Psicologia recai sobre os
diíerentes discursos atra·és dos quais os íenomenos
psicológicos sao produzidos pelas pessoas em seus
relacionamentos. Coníorme descrito por larré ,1998,, a
pessoa nao tem atributos psicológicos outros além de seu
poder de produzir o íenomeno psicológico no íluxo das
açoes públicas e pri·adas` ,p.15,.
A partir disto, larré ,1998, aíirma o carater essencialmente
dual da ciência psicológica e sua dupla ontologia. Segundo ele,
antes de tudo, ser uma pessoa implica em ter uma dotaçao
biológica característica, que possibilita a aquisiçao da
linguagem e o ingresso no uni·erso discursi·o. Cérebros,
sistema ner·osos e aparelhos percepti·os constituem as
pessoas de uma determinada íorma e íuncionam como
íerramentas` necessarias para o desen·ol·imento da linguagem
e para a realizaçao das mais di·ersas ati·idades. Para larré, todo
íenomeno psicológico só é possí·el em ·irtude de uma certa
condiçao ou estado do cérebro e sistemas ner·osos daqueles
engajados na ati·idade` ,p.15,, o que denomina de condiçao
capacitante`. Algumas destas condiçoes sao parte da própria
natureza humana, enquanto outras podem até mesmo ser
estabelecidas por treino ou pratica.
No desen·ol·imento desta primeira ontologia, larré
,1998, baseia-se íundamentalmente nas concepçoes de
Vygotsky acerca do desen·ol·imento humano e, em especial,
dos processos de aquisiçao da linguagem. Para larré, a
dotaçao biológica humana ,cérebro, sistema ner·oso, se
maniíesta inicialmente em ati·idades mentais desordenadas
e indiíerenciadas, que sao posteriormente organizadas atra·és
da aquisiçao de habilidades discursi·as, que se constituem
como característica central na organizaçao da experiência
humana. L esta transiçao para a possibilidade de linguagem
que diíerencia a espécie humana de qualquer outro ser ·i·o
e marca sua dimensao etológica essencial: apenas os seres
humanos, até onde sabemos, sao capazes deste trato cogniti·o
de construir sentidos, de criar íerramentas discursi·as. 1udo
o que é característica da ·ida humana reside sobre o exercício
desta capacidade` ,p.16,.
Lmbora considerada como parte da ciência psicológica,
esta dotaçao biológica é característica da neuroíisiologia de
nossos corpos, e nao se constitui propriamente como o campo
preíerencial de in·estigaçao de uma Psicologia Discursi·a.
Para larré ,1998,, a Psicologia Discursi·a desen·ol·e-se
especiíicamente a partir de uma segunda ontologia, que busca
compreender o modo como os di·ersos íenomenos
psicológicos sao produzidos discursi·amente. Ou seja, dada
a possibilidade humana de aquisiçao da linguagem, a
Psicologia Discursi·a elege como objeto de sua in·estigaçao
as construçoes lingüísticas e gramaticais, os discursos e
narrati·as de ·arios tipos atra·és dos quais as pessoas
constroem conjuntamente realidades pessoais e sociais.
De acordo com larré ,1998,, temos a habilidade de
relatar como as coisas sao a partir de nosso ponto de ·ista
pessoal, de assumir ou repudiar responsabilidade por nosso
ponto de açao e de contar nossas estórias como en·ol·endo
linhas de ·ida` ,p.14,. Cada uma destas habilidades é
discursi·a e a in·estigaçao destas narrati·as como construçoes
relacionais parte de um contexto social mais amplo,
caracteriza a especiíicidade de uma Psicologia Discursi·a.
Para esta segunda ontologia, a analise da linguagem é proposta
como técnica preíerencial de in·estigaçao, onde o estudo
empírico da gramatica é ·isto como o lugar onde íormas
rele·antes da experiência humana podem melhor ser
re·eladas, e o uso do Lu ,pronome gramatical de primeira
pessoa, re·ela os diíerentes modos de expressao de nosso
senso de .eíf. Assim, ao mesmo tempo em que larré assume a
dualidade da ciência psicológica, ele elege uma ontologia como
preíerencial, deíinindo como campo de estudo da Psicologia
Discursi·a nao a in·estigaçao dos processos biológicos, mas a
in·estigaçao das praticas discursi·as nas quais os íenomenos
psicológicos sao ati·a e relacionalmente construídos. Para este
autor, esta ·isao da Psicologia Discursi·a como uma ciência
dual é coerente com a abordagem construcionista social,
que é descrita por ele a partir de duas noçoes centrais nas
quais tanto a uni·ersalidade como a di·ersidade do que é
ser uma pessoa sao contempladas. Lm primeiro lugar, o
construcionismo social eníatiza a centralidade do
relacionamento inicial com outros seres humanos para a
aquisiçao de características psicológicas, habilidades e
tendências tipicamente humanas - assumindo o conceito de
interaçao simbiótica` proposto por Vygostsky. Para ele, a
natureza relacional do ser humano é uma condiçao etológica
essencial, e isto impoe uma dimensao de uni·ersalidade
sobre o que é ser uma pessoa. Ao mesmo tempo, esta
interaçao humana é parte de um contexto cultural especííico,
que da margens a di·ersidade no que cada ser humano pode
de íato se tornar.
O construcionismo social também eníatiza a base
lingüística das praticas humanas. Aqui, no·amente se impoe
a dimensao de uni·ersalidade sobre o que cada ser humano
pode produzir em termos de signiíicado, uma ·ez que,
in·aria·elmente, existirao condiçoes morais e materiais que
orientam o uso da linguagem. Ao mesmo tempo, a natureza
essencialmente cultural da semantica e da sintaxe lingüística
marca a natureza di·ersa da linguagem e das possibilidades
humanas de signiíicaçao.
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
P.icoíogia, Ciêvcia e Cov.trvciovi.vo.: Davao ´evtiao ao ´eíf
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Além disso, larré ,1998, considera a existência de algumas
condiçoes que estao íora de qualquer discurso, tais como as
próprias condiçoes que tornam a linguagem possí·el - como
expressoes naturais de sentimento, de ponto de ·ista
perceptual, etc, sem as quais nao existiria sequer a
possibilidade de desen·ol·imento de um sistema simbólico,
uma íundaçao etológica essencial - incluindo tanto o aspecto
relacional como a possibilidade lingüística, e a existência de
uma ordem moral em curso, sem a qual nao ha·eria qualquer
possibilidade de discurso e signiíicaçao. larré ,1998,
argumenta, contudo, que esta êníase dada as condiçoes
capacitantes para o uso da linguagem nao desconsidera as
dimensoes relacional, temporal e contextual do processo
de produçao do .eíf. Para ele, as pessoas constróem seus
atributos pessoais, habilidades e capacidades, bem como
sentidos sobre o mundo material a sua ·olta, nas praticas
discursi·as, na interaçao com outras pessoas, e esta
construçao estara sempre sujeita a ·ariaçoes em íunçao de
aspectos culturais e temporais em curso. Lsta ·isao de
Psicologia Discursi·a ía·orece, entre outras coisas, uma
compreensao acerca do modo como se da a construçao da
pessoalidade no discurso, isto é, de como adquirimos nosso
senso de unicidade, singularidade e continuidade pessoal -
as noçoes centrais que sustentam a concepçao acerca do
que é ser uma pessoa em qualquer cultura, segundo larré.
Coníorme aíirmamos anteriormente, segundo larré
,1998,, a Psicologia Discursi·a propoe que a especiíicidade
do ser humano reside em sua capacidade de produzir sentido
sobre si mesmo e sobre o mundo em que ·i·e, isto é, em
sua habilidade de produzir explicaçoes discursi·as. Para ele:
A tese psicolingüística da construçao social da pessoalidade
é simplesmente a de que, ao adquirir a capacidade gramatical
do uso dos artiíícios de primeira pessoa, as singularidades
do .eíf sao trazidas para a coordenaçao como o senso que eu
tenho de meu próprio ser como uma singularidade, meu
contínuo ponto de ·ista. ,p.18,
Na deíesa desta concepçao, o autor começa desconstruindo
o conceito de .eíf, usualmente reíerido como entidade na ciência
psicológica, pressupondo algum tipo de mentalismo e de
interioridade. Para ele, o .eíf nao passa de um artiíício
retórico`, uma íorma de descriçao atra·és da qual construímos
gramaticalmente nosso senso de .eíf`, de modo a aíirmar nossa
unicidade, singularidade e continuidade como pessoa.
Assim, ter um senso de .eíf é ter um senso de localizaçao
como pessoa, um senso de ter um ponto de ·ista único a
partir do qual se íala e age, e de ter um curso de ·ida
relati·amente contínuo e singular. Lste aspecto, denominado
por larré de .eíf 1`, encontra-se intimamente ligado a noçao
de corporeidade e da impossibilidade de existir qualquer
outro ser humano com a mesma trajetória espaço-temporal.
De acordo com as idéias do construcionismo social por ele
propostas, este aspecto remete a dimensao de uni·ersalidade
do que é ser uma pessoa, algo próprio do ser humano.
Além disso, ter um senso de .eíf é ter também um senso
de singularidade, de se ter um conjunto único de atributos
pessoais que, mesmo muta·eis, constituem uma pessoa como
única e diíerente de todas as demais. Ainda que haja a
possibilidade de semelhança com outros, ser uma pessoa
implica em ser diíerente dos outros em todas as suas
propriedades, ainda que possa ha·er inúmeras semelhanças.
Lste aspecto é denominado por larré de .eíf 2`, e guarda
relaçao com um terceiro aspecto, o .eíf 3`, que se reíere as
impressoes que esta totalidade de atributos pessoais
pro·ocam no outro.
A partir disso, larré ,1998, propoe que o .eíf nao constitui
uma entidade, mas sim uma posiçao a partir da qual a pessoa
percebe o mundo e o lugar a partir do qual age` ,p. 3,. Aqui,
a di·ersidade do que é ser uma pessoa é eníatizada, também
em concordancia com a perspecti·a construcionista social
por ele descrita. Assim, enquanto os .eíre. sao descritos como
íicçoes gramaticais, as pessoas sao descritas como seres reais,
existentes, constituídas pelo conjunto de nossos sensos de
.eíf - o que é descrito e sintetizado no seguinte modelo
padrao`:
Pessoa ¦´eíf1, ´eíf2, ´eíf 3}.
Cada um destes .eíre. encontra sua íorma particular de
expressao nos discursos e íormas narrati·as di·ersas, de
modo que as praticas discursi·as se constituem como lugar
pri·ilegiado para a in·estigaçao da pessoalidade e das íormas
de ·ida humana. Para ele, enquanto a expressao do .eíf 1
pode ser obser·ada em nossa gramatica pronominal,
especialmente atra·és do uso do pronome de primeira pessoa,
pelo qual assumimos nosso ponto de ·ista pessoal e nossa
localizaçao como ser responsa·el, a expressao de nosso .eíf
2 pode ser ·eriíicada nos di·ersos discursos autobiograíicos,
nos quais organizamos discursi·amente nossos atributos
pessoais em uma história de ·ida descrita como relati·amente
contínua e singular.
Na compreensao do modo como se da esta produçao
discursi·a do .eíf, a 1eoria do Posicionamento ,larré & Van
Langenho·e, 1999, exerce um papel central. A partir dela,
se concebe que as pessoas estao ati·amente se posicionando
nas praticas discursi·as de que participam e assim construindo
conjuntamente seu senso de .eíf. Aqui, a di·ersidade do que
é ser uma pessoa pode ser melhor e·idenciada, uma ·ez
que as pessoas podem ocupar di·ersas posiçoes, de acordo
com os jogos de posicionamento em curso, que irao ·ariar
em íunçao do contexto, do tipo de relacionamento e das
pessoas en·ol·idas.
Lm síntese, podemos aíirmar que a proposta
construcionista social discutida por larré e sistematizada a
partir da descriçao das particularidades de uma Psicologia
Discursi·a, deri·a em uma explicaçao ontológica dupla
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acerca do que é ser uma pessoa. Para este autor, ser uma
pessoa remete a pensar um ser com uma corporeidade única,
mas com atributos e poderes di·ersos e uma história distinta
de todos os outros seres, que de·e assumir-se como ator
responsa·el, com direitos e de·eres em relaçao a outras
pessoas. Sao estas as características basicas que deíinem o
que é ser uma pessoa e que demandam por um discurso de
.eíf reíerido a unicidade, singularidade e continuidade da
experiência pessoal. A proposta de larré ,1998, é a de que
o conjunto de conceitos pessoais que caracterizam os
discursos de .eíf assume o papel de uma gramatica, de regras
que tornam o discurso sobre pessoas possí·el` ,p.¯2,.
1er um senso de .eíf é estar determinado a se expressar
de determinadas íormas, seguindo as con·ençoes normati·as
que orientam e legitimam nossas descriçoes acerca de nós
mesmos. Portanto, a analise da gramatica e das íormas
narrati·as é o campo de in·estigaçao preíerencial de uma
ciência psicológica discursi·amente orientada, uma ·ez que
é nos discursos que a maioria dos íenomenos psicológicos
sao construídos, bem como nosso senso de .eíf.
Construcionismos em Diálogo: Semelhanças, Diferenças
e Implicaçöes para o Conceito de 5AB
Considerando nosso objeti·o de colocar em dialogo as
diíerentes descriçoes de Gergen e larré acerca do
construcionismo social, ·isao de ciência e .eíf, propomos
uma tabela comparati·a ,·er 1abela 1, onde as principais
consideraçoes destes autores sobre estes três aspectos
encontram-se sintetizadas. Pri·ilegiamos até este momento
uma analise da lógica interna de cada uma das propostas
sendo possí·el explicitar os argumentos que justiíicam
determinada íorma de se conceber e estudar o .eíf.
1abela 1
Cov¡araçao aa. De.criçoe. ae Cov.trvciovi.vo e .va. ív¡íicaçoe. .egvvao Cergev e íarre
Defiviçoe.
Construcionismo
Social
Ciência
´eíf
Cergev
1, a especiíicidade cultural e histórica de
conhecermos o mundo.
2, a primazia dos relacionamentos humanos na
produçao e sustentaçao do conhecimento.
3, a interligaçao entre conhecimento e açao.
4, a ·alorizaçao de uma postura crítica e
reílexi·a
1, Psicologia: desaíio a suposiçao de um
objeto e metodologia únicos.
2, Lmpreendimento da cultura
- Lpistemologia social
- Ciência como pratica social
3, Visa gerar inteligibilidades
- Crítica interna, cultural e pesquisa de
desalojamento
- Desconstruçao, democratizaçao e
reconstruçao
1, ´eíf como discurso
2, Discursos sobre o .eíf
a, Romantico
b, Moderno
c, Pós-moderno: .eíf saturado
- ·ertigem do de·er
- expansao da auto-dú·ida
- racionalidade em recessao
3, Narraçao social do .eíf
- Lstrutura narrati·a
- Pragmatica da narraçao
- Redes de identidades recíprocas:
.eíf relacional
íarre
1, condiçao etológica essencial: uni·ersalidade do
relacionamento inicial , di·ersidade pelas
especiíicidades do contexto cultural.
2, base lingüística essencial: uni·ersalidade das
condiçoes morais e materiais para a possibilidade
de linguagem , di·ersidade cultural da semantica
e da sintaxe da lingüística.
1, Psicologia: estudo da pessoa
2, Lpistemologia dualista:
- aspectos biológicos como condiçao capacitante
- produçao discursi·a dos íenomenos psicológicos
3, Psicologia discursi·a:
- objeto: pessoa ¦.eíf1, .eíf 2, .eíf 3}
- método: estudo empírico da gramatica e
das íormas narrati·as
1, Pessoa como existente,
sel·es como artiíícios retóricos
- modelo padrao: pessoa ¦.eíf1, .eíf2, .eíf3}
2, Condiçoes etológicas: demanda pelo discurso
da unicidade, singularidade e continuidade - .eíf
singular
3, Pessoa em relaçao: nas praticas discursi·as a
pessoa se constitui ao assumir determinadas
posiçoes
4, lormas de expressao da personalidade no
discurso:
- Gramatica pronominal - .eíf 1
- Narrati·as autobiograíicas - .eíf 2
- Impressoes de outrem sobre o .eíf - .eíf 3
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
P.icoíogia, Ciêvcia e Cov.trvciovi.vo.: Davao ´evtiao ao ´eíf
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Coníorme apontamos na 1abela 1, larré e Gergen partem
de diíerentes posiçoes epistemológicas para o entendimento
da produçao do conhecimento. Lnquanto Gergen parte de
uma desconstruçao da noçao de realidade, eníatizando a
natureza construída de nossas descriçoes de mundo e o
carater situado das mesmas - assim aíirmando a multiplicidade
possí·el de descriçoes ontológicas - larré parte da dualidade
ontológica sustentada tanto pela uni·ersalidade da condiçao
relacional e lingüística do ser humano quanto pela di·ersidade
possí·el de signiíicaçao, considerando o uso situado da
linguagem e a iníluência do contexto histórico e cultural.
Deste modo, a realidade da condiçao etológica humana
- de um ser em relaçao e com capacidade para linguagem -
é adotada por larré, o que caracteriza uma íorte distinçao
em relaçao a ·isao de Gergen. Nem mesmo este tipo de
realismo é endossado por Gergen, que entende ser este
também mais um discurso possí·el acerca da realidade do
mundo e da natureza humana, um discurso situado,
socialmente construído e, portanto, nao uni·ersal. Contudo,
no que tange a di·ersidade das íormas de signiíicaçao e a
iníluência das condiçoes culturais e relacionais nos processos
de produçao de sentidos, as propostas destes autores se
aproximam. Ambos apontam para a importancia do contexto
sócio-cultural e da dimensao temporal nos processos
relacionais de signiíicaçao.
A importancia do relacionamento com o outro no
construcionismo de larré é decorrente de uma dotaçao
biológica ao nascer, de sua íragilidade, de uma condiçao
etológica especííica: a dependência do outro para seu
desen·ol·imento. Nesta construçao teórica, a relaçao com
o outro se reíere a uma ine·itabilidade ontológica. Ja em
Gergen nao se trata mais de uma ine·itabilidade ontológica,
mas de uma opçao epistemológica do autor. A partir de uma
epistemologia social, a relaçao com o outro é considerada a
unidade basica para o estudo da construçao social da pessoa,
e como tal, o relacionamento precede a pessoa. Como
podemos ·er, sao diíerentes justiíicati·as para a êníase
comum nos processos sociais de construçao da realidade.
Lsta diíerença é mais um reílexo da tensao entre teses
realistas e anti-realistas no campo das idéias construcionistas.
A proposta de Gergen, íundamentada nas teses anti-
realista e anti-essencialista, bem como na primazia dos
relacionamentos humanos para a sustentaçao do conhecimento
e das descriçoes de mundo, gera uma ·isao também particular
acerca da ciência e suas íormas de in·estigaçao. Para Gergen,
a Psicologia é ·ista como um empreendimento cultural,
produzindo descriçoes especííicas, possí·eis em íunçao das
contingências dos relacionamentos em determinada comunidade
e do contexto em que sao construídas. Assim, nesta perspecti·a,
a ciência é ·ista como pratica social, sustentada por uma
epistemologia social. De acordo com estes princípios, a Psicologia
nao de·e supor um objeto único e uma metodologia particular
de in·estigaçao.
Por outro lado, a ·isao construcionista social de larré,
considerando os aspectos uni·ersais do humano como condiçoes
capacitantes para a aquisiçao da habilidade discursi·a, le·a a
proposiçao de uma epistemologia dualista, pautada em uma
dupla ontologia. Para ele, a Psicologia de·e considerar tanto
os aspectos biológicos próprios da etologia humana, quanto
as praticas discursi·as onde os íenomenos psicológicos sao
produzidos - sendo estas o objeto de estudo preíerencial
de uma Psicologia Discursi·a. Assim, ao contrario de Gergen,
larré propoe a pessoa` como objeto de in·estigaçao,
íocalizando, em especial, o modo como os sel·es`, sendo
artiíícios retóricos, sao utilizados na construçao de nosso
senso de pessoalidade e, em conseqüência, elege também o
estudo da gramatica como a metodologia preíerencial de
uma Psicologia Discursi·a.
Por íim, estas diíerentes premissas construcionistas e
concepçoes acerca dos empreendimentos da ciência
psicológica geram também reílexoes e entendimentos
distintos acerca do .eíf. Lmbora ambos os autores concebam
o .eíf como uma construçao discursi·a e situada, produto
dos relacionamentos entre as pessoas, esta conclusao deri·a
de construçoes teóricas distintas e resultam em propostas
especííicas de in·estigaçao e pratica no campo da psicologia.
Ao situar o .eíf como construçao social, Gergen chama a
atençao para os diíerentes discursos construídos sobre o
.eíf ,discurso romantico, moderno e pós-moderno, e para as
condiçoes históricas que propiciaram e sustentaram suas
construçoes. Assim, aponta para o carater contextual e
histórico destas descriçoes, desconstruindo a noçao de que
existe uma demanda imanente pela estabilidade de uma
identidade e dando ·isibilidade aos processos contemporaneos
de saturaçao social, que parecem propiciar a emergência de um
no·o ·ocabulario de .eíf, onde a di·ersidade e multiplicidade
narrati·a sao promo·idas. A partir disso, Gergen aponta para a
necessidade de reíletirmos acerca das implicaçoes destes
diíerentes discursos de .eíf, ·eriíicando o uso que íazemos deles
em nossas praticas sociais.
Dando destaque aos processos de produçao lingüística
e relacional do .eíf, Gergen íocaliza o estudo das narrati·as
de .eíf - tanto no que se reíere a estrutura narrati·a quanto a
íunçao pragmatica da narraçao. Por íim, Gergen propoe um
.eíf relacional, produto de discursos sociais compartilhados
que se presentiíicam no relacionamento atual entre os
interlocutores, na construçao de redes de identidades
recíprocas.
1ambém larré situa o .eíf como discurso, mas a partir de
um ponto de ·ista bastante distinto. Partindo do modelo
padrao Pessoa ¦.eíf1, .eíf 2 e .eíf 3}`, ele entende os .eíre.
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
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como artiíícios retóricos pelos quais expressamos as noçoes
de unicidade, singularidade e continuidade. Para ele, estas
sao descriçoes que deíinem o que é ser uma pessoa em
qualquer cultura. Isto porque a corporeidade humana
demanda por estas íormas discursi·as especííicas, isto é,
pelo discurso do .eíf singular. Lm outras pala·ras, existe
uma demanda imanente e natural pelo discurso da unicidade,
da singularidade e da continuidade pessoal e, estes aspectos
encontram na gramatica suas íormas particulares de expressao.
O .eíf 1 pode ser obser·ado atra·és do uso dos pronomes
gramaticais de primeira pessoa, o .eíf 2 pode ser e·idenciado
nos discursos auto-biograíicos e o .eíf 3 nas reíerências de
uma pessoa sobre o .eíf de outra.
Assim, a tese dualista de larré se presentiíica também
em sua conceituaçao do .eíf, onde tanto a uni·ersalidade
como a di·ersidade sao íundamentais. Ao mesmo tempo em
que existe uma demanda por um discurso singular do .eíf,
larré ressalta que esta construçao ·ai ·ariar de acordo com
o contexto cultural e as con·ençoes narrati·as di·ersas que
orientam a construçao destes discursos. Além disso, ressalta
que esta construçao discursi·a do .eíf se da relacionalmente,
atra·és dos jogos de posicionamento entre as pessoas. Lstas
se constituem ao assumirem para si mesmas e atribuírem
aos outros determinadas posiçoes, de acordo com as
contingências do relacionamento imediato, do contexto
cultural e da linha de história em curso.
Consideraçöes Iinais
Ao compararmos estes autores muitas perguntas podem
ser le·antadas. Contudo, tal como ja assinalamos, nao
objeti·amos marcar rigidamente a distinçao entre ambos, na
aíirmaçao da ·erdade sobre cada uma destas propostas. Isto
seria apenas um artiíício retórico. Assim, esperamos ter
apontado algumas tensoes que atra·essam as descriçoes
destes autores construcionistas comuns a ·arios de seus
pares e que se encontram presentes também na relaçao destes
com outras teorias sobre o conhecimento psicológico.
A percepçao de que a diíerença de entendimento destes
autores acerca da natureza do .eíf é coerente com as
descriçoes que íazem do construcionismo bem como de
suas ·isoes de ciência, pode ía·orecer uma escolha
metodológica e teórica mais reílexi·a para aqueles
interessados no estudo do .eíf e da produçao discursi·a dos
íenomenos psicológicos e sociais.
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Recebiao: 2¯,o²,2oo²
1´ Reri.ao: o·,oó,2oo²
2´ Reri.ao: 11,oº,2oo²
.ceite íivaí: 1º,oº,2oo²
Sobre os autores
Lmerson I. Rasera é Proíessor Doutor da Uni·ersidade lederal de Uberlandia
Carla Guanaes é Proíessora Doutora das laculdades COC Ribeirao Preto. L psicóloga do
Núcleo de Apoio Institucional ,NAI, do Centro Uni·ersitario Barao de Maua, Ribeirao Preto.
Marisa Japur é Proíessora Doutora da Uni·ersidade de Sao Paulo, Ribeirao Preto.
P.icoíogia: Refíe·ao e Crítica, 2oo1, 1¯;2), ¡¡.1:¯·1ó:
P.icoíogia, Ciêvcia e Cov.trvciovi.vo.: Davao ´evtiao ao ´eíf
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2004
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FkOGkAMA DE FÓ$-GkADUAÇÃO EM F$ICOLOGIA DO DE$ENVOLVIMENIO
5ecrelorio do PPG em Psicologio do Desenvolvimenlo - uFkG5
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