ENERGIA EÓLICA

Prof. Selênio Rocha Silva
Departamento de Engenharia Elétrica
Universidade Federal de Minas Gerais

SUMÁRIO




1. Potencial de Energia Eólica

1.1. O Vento

1.2. A Energia Eólica

2. Métodos de Medição dos Ventos e suas Características

2.1. Medidores de Velocidade de Vento

2.2. Erros de Medição de Vento

3. Turbinas Eólicas

3.1. Classificação de Turbinas Eólicas

3.2. Características de Turbinas Eólicas

3.3. Operação

4. Engenharia de Sistemas de Conversão de Energia Eólica

4.1. Acoplamento de Cargas e Estratégias de Controle

5. Arquitetura de Sistemas Eólicos a Velocidade Variável

6. Tecnologias de Turbinas Eólicas Conectadas na Rede Elétrica

7. Qualidade da Energia em Sistemas de Conversão de Energia Eólica

Referências Bibliográficas








2
1. Potencial de Energia Eólica

A energia eólica resulta da transformação de parte do efeito térmico solar
em energia cinética da atmosfera. A diferença de radiação solar sobre regiões
distintas do planeta provoca o deslocamento de camadas de ar, os ventos.

O inventário da energia recuperável a partir dos ventos tem sido objeto de
constantes equívocos e exageros. Para o levantamento deste potencial energético é
necessário distinguir três níveis diferentes de energia:

- A "energia cinética armazenada na atmosfera" resultante do
efeito solar, cuja quantidade de energia renovável num
período de apenas três dias, estimada em 7. 10
20
J,
equivalente a cinco vezes a energia total consumida
anualmente no mundo;

- A "energia cinética teoricamente recuperável" contida entre
5 e 100 m de altitude, representa 3 a 30 . 10
20
J/ano, ou seja 2
a 20 vezes a energia total consumida anualmente no mundo;

- A "energia cinética praticamente recuperável", avaliada em
3 a 30. 10
17
J/ano ou seja 0.2 a 2% do consumo mundial em
um ano.

Apesar de representar uma pequena parcela do consumo mundial, a energia
eólica praticamente recuperável representa importante potencial para regiões
diversas e usos específicos.

Além disso, a energia eólica é caracterizada pelo seu aspecto difuso e por
sua aleatoriedade, indicando propriedades peculiares para seu emprego e
possibilidades de fornecimento de grandes parcelas de energia.

1.1. O Vento

A velocidade do vento varia com a localização geográfica e altitude (figuras
1 e 2), constatando-se alterações instantâneas, diárias, sazonais e anuais. Dentro de
certos limites de comportamento atmosférico, considera-se que para altitudes
menores que 100m, a variação da velocidade de vento com a altura do solo pode ser
expressa pela fórmula empírica:

( )
α
(
¸
(

¸

=
1
. 1
h
h
V h V

onde V
1
é a velocidade de vento medida na altura h
1
(em geral 10m) e α é um
coeficiente dependente da natureza do terreno, como ilustrado na Tabela I.

1.1. TABELA I
Tipo de terreno z
0
(m)
α
Gelo ou lama plana
10
-5
a 3.10
-5


3
Mar calmo
2.10
-4
a 3.10
-4


Areia
2.10
-4
a 10
-3

0,10
Neve
10
-3
a 6.10
-3


Grama baixa
10
-3
a 10
-2

0,13
Estepe
10
-2
a 4.10
-2


Grama alta
4.10
-2
a 10
-1

0,19
Floresta
10
-1
a 1

Subúrbio 1 a 2 0,32
Cidade 1 a 4

Para terrenos satisfazendo os requisitos de uniformidade de aspereza, a
seguinte lei logarítmica, oriunda da fórmula de Prandtl, é válida com alto grau de
aproximação, em condições adiabáticas:
) ln(
) ln(
) (
) (
0
0
z
h
z
z
h V
z V
=

onde z
0
é a chamado de “altura da aspereza” e cujos valores são indicados na
Tabela I.

Figura 1. Medidas instantâneas de velocidade de vento em alturas diferentes.


Figura 2. Variação da velocidade de vento com a altura.


O potencial eólico de um local é estimado a partir de curvas de duração de
velocidade do vento. Segundo os padrões do World Meteorological Organization,
as medições devem ser efetuadas na altura de 10 m do solo e preferencialmente em
intervalos de 10 minutos. Esta última proposta é baseada na análise espectral da

4
velocidade de vento (Figura 3), para a qual as flutuações da velocidade de vento
durante um mês ocorrem significativamente em freqüências correspondentes à
períodos entre 10 h e 100 h e para períodos menores que 5 minutos. Sendo que esta
segunda categoria denomina-se rajada. Não ocorrem significativas variações de
vento para períodos entre 5 minutos e 10 h, onde o comportamento da turbina
eólica pode ser considerado quase-estático.


Figura 3. Densidade de potência espectral obtida no Brookhaven National Laboratory.

As flutuações do vento constituem fenômeno estocástico que pode ser
representado por métodos estatísticos. Em termos de análise estatística, o regime de
vento em um determinado local é representado por funções de distribuição obtidas
de medições efetuadas em um determinado período. Entre as funções mais
utilizadas destacam-se a distribuição de velocidade média de vento (Figura 4 e 5) e
a distribuição de freqüência de ocorrência da velocidade de vento (Figura 6).
Enquanto a primeira representa o valor da velocidade média de vento em intervalos
de tempo determinados (meses, dias, horas, etc.), a segunda identifica o número de
ocorrências (quantas horas por mês, por exemplo) de um determinado valor de
velocidade de vento.

A distribuição de freqüência de ocorrência (Figura 6) tem sido
satisfatoriamente modelada através da distribuição de Weibull, que pode ser
expressa por sua função densidade de probabilidade (Figura 7):

(
(
¸
(

¸

|
.
|

\
|

(
¸
(

¸

(
¸
(

¸

=
− K K
C
V
C
V
C
K
V p exp . . ) (
1


onde p(V) = função densidade de probabilidade
V= velocidade de vento
K= fator de forma
C= velocidade característica
K e C são parâmetros dependentes do local
Diversos trabalhos utilizam também uma distribuição mais simples,
conhecida como distribuição de Rayleigh, que é um caso especial da distribuição de
Weibull para fator de forma igual a 2. Apesar de muito utilizada a distribuição de

5
Rayleigh é limitada na representação de sítios eólicos, já que possui apenas um
parâmetro de ajuste de dados.
Distribuição Diária Média Mensal
0
2
4
6
8
10
12
13579
1
1
1
3
1
5
1
7
1
9
2
1
2
3
2
5
2
7
2
9
3
1
3
3
Dias do Mês
V

(
m
/
s
)

Figura 4. Distribuição diária mensal média de velocidade de vento no Retiro das Pedras (out-dez/96)

Distribuição Horária Média Mensal
0,0
1,0
2,0
3,0
4,0
5,0
6,0
7,0
8,0
13579
1
1
1
3
1
5
1
7
1
9
2
1
2
3
Horas do Dia
V

(
m
/
s
)

Figura 5. Distribuição horária mensal média de velocidade de vento no Retiro das Pedras (out-
dez/96)

Distribuição de Frequência de Ocorrência
0
2
4
6
8
10
12
14
16
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17
V (m/s)
O
c
o
r
r
ê
n
c
i
a

Figura 6. Freqüência de ocorrência de uma determinada velocidade de vento no Retiro das Pedras
(out-dez/96)



6
Função Densidade de Probabilidade de Weibull
0
0,04
0,08
0,12
0,16
0 5 10 15 20
V (m/s)
p
(
V
)

Figura 7. Função de Weibull para Retiro das Pedras (C=6,07 & K=2,007)


1.2. A Energia Eólica

A energia cinética do vento por unidade de volume, obtida em uma
velocidade de vento V, vale:

E V c =
1
2
2
ρ.
onde ρ é a massa específica de ar ( ≅ 1,2 Kg/m
3
).

A potência eólica disponível vale:

P A e =
1
2
3
ρ. . V
onde A é a área varrida pelo rotor eólico.

É possível mostrar que apenas uma parte desta energia cinética é
conversível, uma vez que o ar deve conservar uma velocidade que permita seu
fluxo através do rotor de uma turbina eólica. A melhor conversão de energia é
obtida quando a velocidade na esteira do rotor é igual a 1/3 da velocidade do vento
incidente. A potência mecânica, teoricamente recuperável de uma instalação eólica,
corresponde no máximo a 59.3% (limite de Betz) da potência disponível incidente,
indicando normalmente eficiências de conversão bem menores.

Duas grandezas básicas, identificadas aqui como "energia eólica disponível"
e "energia eólica extraível", são utilizadas para caracterizar o potencial eólico de
um determinado local.

Vários autores utilizam a energia eólica disponível média por unidade de
área para o levantamento de dados sobre o potencial eólico de vários locais.

P
A
V
e
=
1
2
3
ρ

onde a barra e os colchetes angulares representam valores médios.


7
O cálculo dos valores médios de energia eólica disponível demanda o
conhecimento da distribuição de probabilidade de vento ou dos registros de dos
valores de vento, assim estes valores médios podem ser expressos por:

∫ ∫


= =
0 0
1
). ( . ). ( .
T
dt t V T dV V p V V
| |
3
0
3 1
3
0
3
3
3
. ) ( ). ( .
∫ ∫


= =
T
dt t V T dV V p V V

A raiz cúbica da média cúbica da velocidade de vento corresponde à
velocidade de maior conteúdo energético, importante no dimensionamento de uma
usina eólica. A razão entre a média do cubo da velocidade de vento e o cubo da
média da velocidade de vento é chamada de "fator de padrão energético", que varia
entre os valores 1.5 e 3. Embora a energia eólica disponível não possa ser obtida do
valor da velocidade de vento média, já que o fator padrão energético não é
constante, há suficiente correspondência entre altos valores de velocidade média e
altas potências médias, possibilitando uma avaliação qualitativa.

Diversos estudos sobre locais de alto potencial eólico indicaram que:
- Altos potenciais eólicos ocorrem normalmente em regiões costeiras ou
próximas de grandes lagos e em ilhas;
- Altos potenciais eólicos ocorrem em regiões planas;
- Altos potenciais podem ser observados mesmos em regiões acidentadas,
quando a geomorfologia local favorece canais de circulação para os ventos.

A quantidade de potência que pode ser extraída de um regime de vento
depende da quantidade de energia disponível e de características operativas do
equipamento de conversão da energia eólica. A potência de saída de um sistema de
conversão de energia eólica vale:

P C A t p =
1
2
3
. . . . ρ V

onde Cp é chamado de coeficiente de potência, que representa a eficiência
aerodinâmica da turbina eólica e depende da velocidade de vento e da velocidade
rotacional do rotor eólico.

Algumas estimativas da energia eólica extraível podem ser obtidas
utilizando-se o valor médio do coeficiente de potência ou a característica Cp(V) de
um rotor eólico característico, através da função de distribuição de probabilidade,
da seguinte forma:



ρ =
0
3
p
2
1
t dV ). V ( p . V ). V ( C . A . P


Outra expressão da energia extraível é o "fator de capacidade", que pode ser
calculado pela razão entre a potência extraível e a potência nominal de um sistema
eólico característico.

8

a)
0
0,2
0,4
0,6
0,8
1
0 0,3 0,6 0,9 1,2 1,5 1,8 2,1 2,4 2,7 3
V
p(V)

b)
0
0,1
0,2
0,3
0,4
0,5
0 0,3 0,6 0,9 1,2 1,5 1,8 2,1 2,4 2,7 3
V
Cp

c)
0
0,2
0,4
0,6
0,8
1
1,2
0 0,3 0,6 0,9 1,2 1,5 1,8 2,1 2,4 2,7 3
V
p(P)
Energia Disponível
Energia Max. Extraível
Energia Extraível

Figura 8. a) Probabilidade de velocidade de vento; b) Coeficiente de potência; c) Probabilidade de
potência eólica.

A figura 8 apresenta: a) uma curva da função de probabilidade típica de um
determinado local; b) uma característica Cp(V) de um rotor típico e c) a função de
probabilidade de potência disponível, máxima extraível e extraível típica.

Um número de fatores meteorológicos afeta o projeto e o desempenho de
sistemas de conversão de energia eólica, entre eles se destacam:

- A velocidade de vento média e sua variação sazonal e diária;
- A distribuição de probabilidade da velocidade de vento e de ventos extremos;
- A variação da velocidade de vento com a altura;

9
- As rajadas de vento e sua variação em amplitude e direção;
- A distribuição de probabilidade da direção de vento e a probabilidade de
grandes variações na direção;
- As variações diárias e sazonais da densidade do ar e com a altura.


2. Métodos de Medição dos Ventos e suas Características

O vento é caracterizado por duas grandezas variáveis em relação ao tempo, a
velocidade e a direção. As variações destas grandezas obedecem a fenômenos de
naturezas diversas: as variações instantâneas (rajadas ou turbulências) e as
variações diárias e sazonais.

A convenção mais usada para a representação da velocidade de vento é
tratá-la como um vetor de componente horizontal bidimensional, com direção a
partir da direção norte (0
o
para Norte), mais uma componente vertical (positiva para
cima).

As flutuações de velocidade de vento são tratadas como vetores
tridimensionais, com componentes cartesianas: u' na direção da velocidade de vento
média, v' na direção perpendicular à velocidade de vento média, e w' na direção
vertical (ver Figura 9). As definições do que pode ser considerada uma flutuação ou
rajada de vento depende do tempo utilizado para o cálculo do valor médio da
velocidade de vento. O tempo de duração de uma rajada não deve ser superior a
20% do tempo considerado para cálculo da média, por exemplo, para o World
Meteorological Organization (WMO), cujo tempo padrão para cálculo da média é
de 10 minutos, não considera rajadas as variações de velocidade de vento que
durem mais de 2 minutos.

Velocidade de Vento

θ Rajada



Figura 9. Diagrama de definição de uma rajada de vento.


2.1. Medidores de Velocidade de Vento

Os sensores mais utilizados para medir a componente horizontal da
velocidade de vento são:
- anemômetro de copos mais leme de direção;
- anemômetro tipo hélice mais leme de direção.

Os anemômetros de copos e de hélice consistem de dois dispositivos: o rotor
e o gerador do sinal. Num sistema bem projetado, a velocidade angular de rotação
dos copos ou da hélice varia linearmente com a velocidade de vento ou com a
componente de vento paralela ao eixo de rotação no caso do anemômetro de hélice.
Em baixíssimas velocidades, contudo grandes desvios da linearidade ocorrem.


10





Figura 10. Anemômetro de copos e diretor de ventos

A resposta transitória de um anemômetro de copos ou de hélice pode ser
caracterizada por uma constante de distância, isto é, uma constante de tempo que
varia inversamente com a velocidade de vento real. Isto provoca uma constante de
tempo menor em altas velocidades de ventos e maior em baixos ventos, então o
anemômetro acelera mais rápido que desacelera, conduzindo a uma sobreestimação
da velocidade de vento média. A constante de distância de anemômetros não é
menor que 1 m e para equipamentos de pesquisa variam entre 2 m e 5 m.

Os anemômetros de copos são geralmente de 3 ou 4 copos, enquanto
anemômetros de hélice de 4 pás apresentam melhor resposta que aqueles de 2 pás.
Desde que seus rotores girem a velocidades angulares proporcionais à velocidade
de vento, os anemômetros de copos ou de hélice podem acionar uma gama variada
de geradores de sinal, entre eles, geradores c.a., geradores c.c., geradores de pulsos
óticos ou magnéticos, etc.

A resposta de diretores de vento sujeito a uma rápida variação de direção de
vento é normalmente caracterizada por um "overshoot" e oscilação em torno de sua
posição final. Dois parâmetros são utilizados para definir esta resposta: a freqüência
natural de oscilação e o fator de amortecimento. O fator de amortecimento entre 0.3
e 0.7 é aceitável para uma boa medição de direção de vento. Os geradores de sinal
para diretores de vento são essencialmente transdutores de posição angular,
podendo consistir de potenciômetros, capacitores variáveis, chaves rotativas, entre
outros. Como acontece com os anemômetros, a escolha do gerador de sinal para
diretores de vento depende do tipo do processador de dados e sistema de aquisição.


2.2. Erros de Medição de Vento

Se Vm é a velocidade de vento média real em uma determinada direção
horizontal média e Vx é o valor indicado de velocidade de vento no anemômetro,
pode-se escrever que:

( )( )( )( dp w v u x m e 1 . e 1 . e 1 . e 1 . V V − − + − = )

onde e
u
, e
v
, e
w
e e
dp
são os erros associados aos fatores primários de
medição de velocidade de vento, e que consistem em:


11
- e
u
, este componente de erro é devido à constante de distância do
anemômetro, que causam mais rápida aceleração que desaceleração;

- e
v
, este componente de erro ocorre apenas nos anemômetros que
necessitam se direcionar em relação ao vento incidente, estando associado ao atraso
em atingir a direção adequada;

- e
w
, esta associado ao efeito de variação do vento na direção vertical;

- e
dp
, é uma componente de erro associado ao processamento de dados, que
pode não levar em conta para o cálculo da média, as variações da direção de vento.

Para medição de ventos de superfície, a WMO especifica alguns procedimentos
de instalação dos sensores. Uma padronização é a instalação de sensores a 10 m de
altura acima do terreno aberto e nivelado. A posição do instrumento deve levar em
consideração a existência obstruções no terreno. A presença de obstáculos provoca
turbulências, rápidas variações de velocidade e direção do vento, que diminuem a saída
de potência de um rotor eólico e provocam vibrações indesejáveis na máquina. A Figura
11 ilustra a região de turbulência causada pela presença de um edifício.

Figura 11. Zona de turbulência perto de um pequeno edifício.


Uma outra forma de avaliar os níveis de energia eólica numa determinada
região pode ser procedida pela observação de impressões causadas no sistema
ecológico local, principalmente na vegetação.


3. Turbinas Eólicas

Uma turbina eólica é formada essencialmente por um conjunto de pás sob a
ação do vento. As forças que são exercidas sobre estas pás fazem com que estas
girem em torno de um eixo. A ação do vento sobre um corpo pode ser definida por
duas componentes de forças: o arrasto e a sustentação. A força de arrasto é a
componente na direção da velocidade de vento relativa, enquanto a força de
sustentação é a componente perpendicular a esta direção (Figura 12).



12


Figura 12. Vetores de velocidades e forças sob um perfil aerodinâmico

A velocidade relativa V
r
, que é medida levando em conta o fator de
interferência (a) de uma turbina de raio R girando à velocidade rotacional w perante
uma velocidade de vento V, vale :

r r
r
V V a w r = − − ( ) . 1 R

As forças de sustentação (F
L
) e arrasto (F
D
) são proporcionais à densidade do
ar, à área das pás e ao quadrado da velocidade relativa do aerofólio. As constantes
de proporcionalidade são definidas como coeficientes de sustentação (C
L
) e arrasto
(C
D
), funções do ângulo de ataque, γ, e constituem características implícitas ao
perfil aerodinâmico das pás .

A força resultante, no plano de rotação, que contribui para o conjugado
desenvolvido pela pá, vale (Gimpel and Stodhart, 1958):

F F F a d = − l.sen .cos θ θ

onde θ γ β = +
γ = ângulo de ataque em relação ao plano de rotação
β = ângulo de passo

As pás de cata-ventos modernos são construídas utilizando perfis
aerodinâmicos projetados para produzirem elevados coeficientes de sustentação.
Um aerofólio apresenta uma borda de ataque e uma borda de fuga, cuja distância
entre seus pontos extremos constitui a corda do perfil. Os perfis de turbinas eólicas
modernas são em geral do tipo plano-convexo (Gottingen) ou biconvexo (NACA).
Ao longo da estrutura da pá, esta pode apresentar uma torção para garantir um
ângulo de ataque aproximadamente constante em toda sua extensão.


13
Algumas turbinas eólicas apresentam dispositivo de variação do ângulo de
passo, a fim de controlar a velocidade, e, portanto, a potência, reduzindo-se o
ângulo de ataque pelo aumento do ângulo de passo.

O projetista de turbinas eólicas, portanto tem à sua disposição diversas
ferramentas para garantir um bom projeto aerodinâmico, isto é, alta sustentação
com baixo arrasto. Para o sistema eólico como um todo, o projeto estrutural é vital
a fim de garantir uma operação confiável, por prolongado período (maior que 20
anos), com baixo custo de construção.


3.1. Classificação de Turbinas Eólicas

Na literatura técnica é comum distinguir as turbinas eólicas segundo os
seguintes critérios:

- direção do eixo de rotação em relação ao vento (eixo horizontal e eixo
vertical);
- qualidade das forças predominantes (arrasto e sustentação);
- quantidade de material existente no rotor (baixa e alta solidez).

As turbinas de eixo horizontal apresentam seu eixo de rotação em paralelo
com a direção do vento. Nestes tipos de turbinas se encontram os modelos multipás
americano e as turbinas eólicas rápidas de 3, 2 e 1 pás.


Figura 13. Turbinas de Eixo Horizontal

As turbinas de eixo vertical são representadas principalmente pelos modelos
Savonius e Darrieus e funcionam com qualquer direção de vento.


14

Figura 14. Turbinas de Eixo Vertical
A qualidade das forças predominantes na operação de uma turbina eólica
dita praticamente suas características básicas. As turbinas que funcionam por
arrasto (modelo Savonius, por exemplo) apresentam normalmente baixas
velocidades rotacionais, baixos rendimento aerodinâmico e um custo elevado pela
grande quantidade de material envolvido. As turbinas rápidas como as tri-pás, bi-
pás, monópteros e Darrieus, se caracterizam por operarem por sustentação
apresentando elevadas velocidades e altos rendimentos aerodinâmicos sendo,
portanto, indicadas para geração de eletricidade.

Um importante parâmetro do projeto de turbinas eólicas é a relação entre a
área total das pás do rotor e a área varrida por estas, num perímetro correspondente
a 70% do raio das pás. Este parâmetro adimensional é conhecido por solidez (σ) e
vale (Gimpel e Stodhart, 1958):

σ
π
=
n c
D
.
. 0 7


onde n = número de pás;
c = corda a 0.7 do raio das pás (m);
D = diâmetro do rotor (m).

A referência ao ponto de 70% do raio é utilizada uma vez que esta região
está sujeita aos maiores esforços. Pela análise de alguns projetos eólicos tem-se
observado que a solidez pode fornecer informações mais detalhadas sobre a ope-
ração da turbina. Um rotor de alta solidez apresenta alto conjugado de partida e
bom desempenho em baixas velocidades. Rotores de baixa solidez operam a
velocidades elevadas, a rendimentos maiores e com pobre característica de partida.

Dentre as turbinas de baixa solidez os rotores de eixo horizontal tem sido
amplamente empregados em faixas de potência de 100W a 3,2MW (projeto MOD-5
do programa eólico americano). Os rotores de eixo horizontal, apesar de
necessitarem de dispositivo de orientação com a direção do vento, operam a altos
rendimentos e podem ser instalados em alturas elevadas onde estão presentes as
maiores velocidades de vento.

A solidez de turbinas eólicas modernas atinge valores entre 5% e 10%, já
que projetadas para altas eficiências e altas velocidades o que implica aplicações

15
direcionadas à geração de energia elétrica. No caso de uma turbina eólica multipás
a solidez excede 50%.


3.2. Características de Turbinas Eólicas

A potência desenvolvida por uma turbina eólica depende da velocidade do
vento e da velocidade rotacional. A relação entre a potência, a velocidade do vento
e a velocidade rotacional são normalmente apresentadas por coeficientes
adimensionais, a fim de tornar esta informação aplicável em diversas
circunstâncias. Dois parâmetros adimensionais mais largamente utilizados para
descrever estas relações são a relação de velocidades λ e o coeficiente de potência
C
p
. O primeiro é definido como:
λ =
w R
V
.


onde R é o raio do rotor eólico, medido na ponta da pá, w é a rotação da
turbina.

O coeficiente de potência, também chamado de rendimento aerodinâmico de
uma turbina eólica, é definido como:

C
P
AV
p
t
=
1
2
3
ρ


Outro parâmetro adimensional importante é o coeficiente de conjugado,
definido como:

C
T
ARV
q =
1
2
2
ρ


onde T é o conjugado desenvolvido pelo rotor eólico.

Figura 15. Características de rendimento de diversos projetos de turbinas

16
As características C
p
(λ) e Cq (λ) de uma turbina eólica são ilustradas
nas Figuras 15 e 16. Nesta pode-se verificar que a potência desenvolvida por um
rotor eólico é nula (C
p
= 0) em dois valores de relação de velocidades; quando o
rotor está estacionário e quando a velocidade na ponta da pá é várias vezes maior
que a velocidade do vento. A máxima eficiência (C
pm
) é obtida em um valor
intermediário de relação de velocidades, λ
o
. De maneira análoga o conjugado
desenvolvido pelo rotor é máximo (C
qm
) em uma determinada relação de veloci-
dades, λ
t
, o que determina a região de operação estável da turbina para λ > λ
t
. A
região de baixas relações de velocidades é caracterizada pelo "estolamento" das
pás, isto é, a perda de sustentação que ocorre das seções externas da pá (ponta) para
as internas (raiz da pá).


Figura 16. Características C
p
(λ) e C
q
(λ) de turbina eólica


3.3. Operação

Devido à operação em altas velocidades, os rotores de baixa solidez
necessitam de dispositivos de controle e proteção a fim de garantir confiabilidade e
segurança aos equipamentos. Uma turbina eólica, operando a relação de
velocidades constantes, apresenta uma concordância linear entre a velocidade
rotacional e a velocidade de vento, o que conduz a uma característica de potência
dependente do cubo da rotação, como ilustra a figura 17 e pode ser deduzida pela
expressão abaixo:

17
P A V C A R w
C
t p
p
= =
1
2
3
1
2
3 3
3
ρ ρ
λ
. . . . . . .


Figura 17. Característica de potência de uma turbina eólica

Torna-se praticamente difícil prever uma carga que se sujeite a uma variação
cúbica em ampla escala de rotação. Em vista destes fatores, é usual limitar a
potência desenvolvida por uma turbina, de modo que a partir da velocidade nominal
de projeto V
R
, a rotação e, portanto a potência, permaneçam aproximadamente
constantes.
Esta limitação de potência pode ser implementada por diversas maneiras,
entre elas: o sistema centrífugo de variação do passo (em turbinas de passo
variável- controle de passo passivo) e o controle por "stall" (em turbinas de passo
fixo). A variação do passo consiste no aumento do ângulo de passo da pá , β, com
o aumento da rotação, levando a uma redução no ângulo de ataque, que reduz a
sustentação e o rendimento aerodinâmico de turbina. O efeito da variação do ângulo
de passo nas características de C
p
e de potência de uma turbina típica é ilustrado nas
Figuras 18 e 19.






18

Figura 18. Efeito do ângulo de passo no rendimento da turbina


Figura 19. Efeito da variação do ângulo de passo na potência da turbina

Em velocidades de vento superiores à velocidade de corte V
F
, as forças que
atuam sobre as pás podem danificá-las, podendo também ocorrer falhas em outros
componentes do SCEE e portanto este deve ser desativado.

Por operarem com reduzidas potências em baixas velocidades e pelas pobres
características de partida nas turbinas eólicas de baixa solidez, um dispositivo de
proteção geralmente retira o sistema de funcionamento para velocidades inferiores à
velocidade inicial de acionamento, V
C
. A figura 20 mostra a característica de

19
operação de uma turbina eólica real, Windane 34-400 da Vestas, e a seta indica a
velocidade nominal.

A característica de operação P
e
(V) de uma turbina eólica fica definida pela
determinação dos parâmetros V
C
, V
R
e V
F
(na Figura 20, V
C
=3m/s, V
R
=15m/s e
V
F
=25m/s). Sabe-se que para velocidades inferiores a V
C
e superiores a V
F
, a
potência de saída é nula, já que nestas condições o sistema não deve estar
acionado. Para velocidades de vento compreendidas entre V
C
e V
R
, a potência
depende das características da carga e fica limitada pela curva de máxima potência
convertida pela turbina (operação a λ = λ
o
). No intervalo entre V
R
e V
F
a potência
absorvida é igual à nominal, e este intervalo é caracterizado pela operação a
rotação constante.

Figura 20. Característica P
e
(V).

4. Engenharia de Sistemas de Conversão de Energia Eólica

As vantagens da conversão da energia eólica em energia elétrica são
numerosas, dentre elas destacam-se:
• o gerador elétrico pode ser projetado para apresentar alta eficiência em ampla
escala de velocidades, com alta confiabilidade e baixa manutenção;
• a energia gerada pode ser transmitida ao ponto de consumo com eficiência e
baixos custos;
• a energia elétrica pode ser condicionada, modulada e convertida em outras
formas energéticas.

Baseando-se na análise sistêmica, os esquemas de conversão eólica-elétrica
podem ser classificados em sistemas de velocidade constante e freqüência constante
(VCFC), sistemas de velocidade variável e freqüência variável (VVFV) e sistemas de

20
velocidade variável e freqüência constante (VVFC). Esta classificação abrange a grande
maioria dos esquemas até então propostos e em estudo, ver Figura 21.

Os esquemas VCFC utilizam geralmente geradores síncronos, de imã
permanentes ou assíncronos conectados diretamente à rede elétrica. São empregados em
localidades onde existe fornecimento convencional de eletricidade, e em "fazendas de
cata-vento".

A característica principal dos sistemas VVFC é a conexão indireta à rede
elétrica, que geralmente é implementada por conversores estáticos. Nesta categoria se
distinguem: o esquema clássico de conexão indireta (turbina-alternador-retificador-
inversor à comutação natural-rede elétrica) e o esquema com gerador de indução com
recuperação de energia rotórica.

~
~
~
~
Rede Elétrica
Rede Elétrica Ret Inv
Ret Bat Carga
Carga Ret
α1 α2
α
α
Carga
Chaveada
VCFC
VVFC
VVFV-FC
VVFV-FV

Figura 21. Esquemas Típicos de SCEE

Os sistemas VVFV utilizam normalmente turbinas a passo variável
acionando geradores assíncronos ou síncronos e podem ser subdivididos em
sistemas com carga a freqüência constante e carga a freqüência variável. Os
esquemas com carga a freqüência constante apresentam um certo nível de controle
de freqüência e tensão, e prevêem um estágio de armazenamento intermediário (por
exemplo, baterias). Tem suas aplicações em estações repetidoras, estações de
sinalização, fornecimento de eletricidade a pequenas comunidades rurais ou
isoladas, entre outras. Os sistemas VVFV, que operam com carga a freqüência
variável, pressupõem que o nível de armazenamento é procedido em outra forma
energética que não a elétrica, e, portanto a carga é sujeita as variações naturais do
aproveitamento eólico. Estes esquemas se prestam para transformação de energia
elétrica em energia térmica (por exemplo: aquecimento ambiental, granjas, etc.) ou
para bombeamento d'água ou em sistemas de refrigeração.

Os maiores benefícios que justificam a operação de uma turbina a
velocidade variável podem ser resumidos em (Freris, 1990; Manwell e outros,
1991):

21
• maior aproveitamento de energia perante flutuações das fontes primárias de
energia;
• baixos picos de conjugado na estrutura mecânica;
• engrenagens mais baratas;
• sistemas mecânicos de amortecimento dispensáveis, já que a interface elétrica
pode proporcionar o amortecimento necessário;
• alta eficiência energética, pelo aproveitamento ótimo das características dos
órgãos primários de energia;
• problemas de sincronização com a rede convencional são evitados;
• geração de energia elétrica com qualidade e compatível com os sistemas de
geração convencionais;
• maior flexibilidade operacional nos processos de partida e frenagem;
• redução de ruídos.

4.1. Acoplamento de Cargas e Estratégias de Controle

O ponto de operação de um SCEE para uma dada velocidade de vento é
determinado pela interseção das características conjugado versus velocidade dos
subsistemas acionante (turbina eólica) e acionado (gerador e carga elétrica),
T
t
(w
t
,V) = Tc(wt) . O sistema acionado determinado pela aplicação pretendida da
energia, possui características de conjugado, geralmente dependente da rotação.
Contudo o acoplamento destas características está intimamente ligado ao
esquema/aplicação.

O critério básico para o acoplamento de cargas é tornar a característica
T
c
(w
t
) da carga o mais próxima possível da característica T
t
(w
t
,V) da turbina para
λ=λ
o
; isto significa ter a turbina operando a máxima eficiência, como ilustrado na
Figura 22. Nesta figura as características da potência elétrica gerada por um
alternador alimentando um barramento de CC em diversos níveis de tensão é
comparada à de uma turbina eólica incluindo a região de controle de passo. A
operação a relação de velocidades constantes pressupõe uma característica de
potência variando com o cubo da velocidade; na prática, torna-se difícil obter
conversores de energia que respondam de tal maneira. Em vista disto, o problema
de adaptação de características dos dois subsistemas se resume a aproximar a curva
de potência da carga da curva de máxima potência da turbina para velocidades de
vento que abranjam maior conteúdo energético local.

Do ponto de vista do projeto de SCEE, esta adaptação de características
pode ser obtida por:
• Escolha da relação de transmissão mecânica entre turbina e gerador elétrico;
• Dimensionamento adequado da carga;
• Utilização adequada das características do gerador (ajuste de excitação, por
exemplo).

Através destes métodos pode-se proporcionar um funcionamento bastante
próximo da curva de máxima potência da turbina, sem atingir a região de
instabilidade e, adequado com o regime de vento local. Este procedimento é
denominado o acoplamento estático de cargas.


22
Além da preocupação com o ponto de operação do SCEE o acoplamento
estático deve possibilitar a partida da turbina eólica. Durante o processo de partida,
o conjugado da turbina deve exceder o conjugado do sistema acionado e, neste
caso, a escolha da relação de transmissão tem efeito significativo. O aumento da
relação de transmissão tende a reduzir a velocidade de partida do sistema, V
C
.

Definida a estratégia de acoplamento de cargas, a análise do desempenho do
sistema deve procurar identificar a taxa de variação da energia extraível dos ventos
no provável local de instalação. Neste sentido, a distribuição da freqüência de
ocorrência de uma velocidade de vento é imprescindível para a determinação da
escala de velocidades de maior conteúdo energético.

Além de objetivar a maximização da energia extraível, o acoplamento de
cargas deve garantir a operação dos diversos componentes do sistema em pontos de
máxima eficiência. A extração de uma maior quantidade energética deve implicar
numa conversão desta energia em trabalho útil, com máxima eficiência, estabili-
dade, confiabilidade e segurança. Portanto, a avaliação do desempenho dos
componentes do subsistema acionado é necessária ao funcionamento otimizado do
SCEE como um todo. Neste sentido, as características de aplicação pretendida da
energia são determinantes no diagnóstico do comportamento do sistema.


Figura 22. Acoplamento entre características do gerador e turbina

Dentre as estratégias de controle de sistemas eólicos de pequeno porte para
fornecimento de eletricidade, aquelas relativas à ação sobre o gerador elétrico são
as mais eficientes. Entre elas destacam-se o controle no campo e o controle na

23
armadura. Além do controle no campo, a própria autoexcitação do gerador tem se
apresentado como solução ao problema de um melhor acoplamento de cargas.

O controle de campo ou de armadura tem sido implementado,
principalmente, através de duas estratégias: realimentação de velocidade ou
realimentação de potência. A realimentação de velocidade consiste na operação do
sistema a relação de velocidades constante, pelo monitoramento da rotação da turbi-
na em sintonia com a velocidade de vento. A realimentação de potência atinge o
mesmo objetivo pelo controle de potência gerada em função da característica
cúbica do rotor eólico, como ilustrado na Figura 23.

A eficiência de ambos os esquemas é dependente do projeto do controlador
e da eficácia deste em garantir o acoplamento ótimo dinamicamente, aproveitando
ao máximo a energia contida nas flutuações de velocidade de vento. O esquema de
realimentação de potência, contudo, apresenta problemas de partida do SCEE. A
realimentação de velocidade além de constituir um esquema mais simples,
apresenta maior eficiência, apesar deste ganho ser pouco substancial,
principalmente se o projeto do controlador não for otimizado.

5. Arquitetura de Sistemas Eólicos a Velocidade Variável

Embora muitos esquemas tenham sido sugeridos para sistemas eólicos a
velocidade variável, estes podem ser agrupados em duas categorias: sistemas de
variação discreta de velocidade e sistemas de variação contínua de velocidade. Os
sistemas de variação contínua ainda podem ser divididos em quatro principais
categorias: (i) mecânicos, (ii) eletromecânicos; (iii) elétricos; (iv) eletrônicos. Um
esquema apresentando os tipos destas várias opções é apresentado na Tabela II.


24

Figura 23. Estratégias de Controle em um SCEE:
a.) Realimentação de potência.
b.) Realimentação de velocidade.


Tabela II
ARQUITETURA DE SISTEMAS A VELOCIDADE VARIÁVEL
Sistemas Discretos Sistemas Contínuos
Gerador de Pólo
Conseqüente
Mecânico Eletromecâ
nico
Elétrico Eletrônica
de Potência
Gerador de Duplo
Enrolamento
Transmiss
ão
Hidráulica
Estator
Girante
Gerador de Alto
Escorregamento

Múltiplos Geradores Transmiss
ão
Variável
Gerador de Dupla
Excitação

Modulação de Pólos

Os sistemas de variação discreta de velocidade incluem sistemas elétricos onde
múltiplos geradores são utilizados, com diferentes números de pólos ou com diferentes
caixas de multiplicação de velocidades. Nesta categoria situam-se os geradores com
diferentes números de pólos (pólos conseqüentes ou duplos enrolamentos) e aqueles que
operam com modulação de amplitude de pólos.

A segunda categoria de sistemas é aqueles que permitem que a velocidade varie
continuamente. Isto pode ser obtido por diversas maneiras: mecanicamente,
eletricamente, mecanico-eletricamente e com uso da eletrônica de potência. Os métodos
mecânicos são representados por sistemas de transmissão hidráulica ou de transmissão
de relação variável. um exemplo de sistemas eletromecânicos é aquele no qual o estator

25
do gerador também gira. Exemplos de sistemas de categoria elétrica incluem os
geradores de indução de alto escorregamento e aqueles de duplo estator.

A categoria da eletrônica de potência contém um grande número de opções
possíveis, sendo que as mais comuns usam geradores síncronos e geradores de indução
de rotor bobinado, apesar de que todos os estudos indicam a máquina de indução de
rotor em barras como a mais adequada para estas aplicações. A eletrônica de potência
possibilita a retificação de parte ou toda a potência ativa do gerador, o controle da
velocidade rotacional e o fornecimento e controle da potência reativa. Entre suas
inúmeras alternativas se destacam os conversores PWM e os conversores ressonantes
como dispositivos de controle e modulação da energia elétrica gerada.


6. Tecnologias de Turbinas Eólicas Conectadas na Rede Elétrica

A conversão de energia mecânica em energia elétrica em turbinas eólicas para conexão
com redes elétricas é promovida pelo uso de geradores trifásicos de corrente alternada
síncronos ou assíncronos, em diversas arquiteturas como ilustrado na figura 24. O uso
de cada tipo de gerador é função de uma série de fatores que consideram normalmente:
- as características de amortecimento;
- a capacidade de consumo ou fornecimento de potência reativa;
- a manutenção de corrente de curto-circuito;
- a robustez de sua construção;
- a possibilidade de projeto de estruturas com alto número de pólos;
- os custos de aquisição e de operação;
- as dificuldades de sincronismo com a rede elétrica.
A conexão direta na rede em sistemas que operam a velocidade constante pressupõe
normalmente o uso de múltiplos geradores com diversos números de pólos para permitir
excursionar em uma faixa mais ampla de velocidade. Neste tipo de conexão, o amplo
uso de gerador de indução em gaiola se justifica pela facilidade de sincronismo com a
rede elétrica e pela baixa contribuição a curtos-circuitos. Em contra-partida, estes
sistemas por estarem mais rigidamente conectados a redes elétricas são mais
susceptíveis a variações de tensão (perda de excitação em geradores de indução) e a
problemas de estabilidade (pouco amortecimento de geradores síncronos).
Em sistemas de conversão de energia eólica a velocidade variável, a conexão na rede é
feita normalmente pela utilização de conversores estáticos e prioritariamente com uso
de barramentos intermediários em corrente contínua, que é tecnologia dominante nos
sistemas de conversão de freqüência. A conexão estática permite o controle de potência
reativa, o amortecimento ativo das flutuações de potência ativa, a minimização da
injeção de harmônicos (dependente da tecnologia a ser utilizada) e a operação com
máxima eficiência energética, facilitando a integração em redes fracas.
O uso de geradores síncronos, apesar de custos iniciais e de operação mais elevados, se
justifica pela possibilidade da aplicação de retificadores a comutação natural (mais
baratos) e pela possibilidade de projetos com alto número de pólos que permitem a
redução das relações de transmissão mecânica e mesmo produzindo estruturas sem
caixas de transmissão (como os modelos de turbinas eólicas comercializadas pela
Enercon).
A aplicação de geradores de indução com rotor em gaiola são competitivas pela
robustez, mas agregam a necessidade de retificadores a comutação forçada. Estes

26
conversores são projetados para uma potência aparente mais elevada, em face do
consumo de potência reativa.
A aplicação de geradores de indução com rotor bobinado, em sua estrutura mais
eficiente com dupla alimentação, apesar de custos iniciais e de operação mais elevados,
permitem a especificação de conversores estáticos com potência aparente bastante
inferior (cerca de 30 a 40% da potência nominal da máquina), o que justifica o elevado
número de modelos disponíveis no mercado. Os geradores de indução duplamente
excitados permitem uma excursão de velocidade de ±20% em torno do valor nominal,
quando operando em regiões sub e supersíncrona, o que limitaria sua capacidade de
otimização energética. Além disto, ao utilizar um conversor de menor potência, possui
menor capacidade de integração às estratégias de controle de tensão das redes elétricas
onde encontra-se conectado.


Máquinas Síncronas Máquinas Assíncronas

Conexão direta na rede de gerador síncrono

Conexão direta na rede de gerador de indução de
gaiola

Conexão na rede via barramento CC de gerador
síncrono

Conexão na rede via barramento CC de gerador
de indução de gaiola

Conexão na rede via barramento CC de gerador
síncrono sem caixa de transmissão

Conexão na rede via barramento CC de gerador
de indução duplamente excitado


27
Figura 24. Arquiteturas de Sistemas Eólicos Conectados na Rede Elétrica



7. Qualidade da Energia em Sistemas de Conversão de Energia Eólica

Estudo referente à qualidade da energia elétrica tem sido desenvolvido no Brasil há
algumas décadas, contudo o impacto da instalação de turbinas eólicas na rede elétrica é
tema relativamente recente e vários trabalhos foram conseqüência da implantação das
primeiras usinas eólicas no país, principalmente a Usina do Morro do Camelinho
(CEMIG) e a Usina de Taiba (COELCE). Estes trabalhos enfocaram, em caráter
experimental, a avaliação da qualidade da energia gerada (DEWI, 1997) e já indicavam
as conseqüências do contínuo avanço tecnológico dos artefatos eólicos e de sua ampla
utilização (Bronzeado et al., 1998; Silva et al., 1999; Junior et al., 1999).
Em termos nacionais, pouco se tem contribuído na direção da definição de critérios de
conexão de turbinas eólicas ou fazendas eólicas, frente aos diversos trabalhos já
desenvolvidos e em desenvolvimento que buscam a caracterização de sítios promissores
e do levantamento de potencial eólico nos estados brasileiros.
Em termos internacionais diversos trabalhos foram desenvolvidos recentemente
(EUREC, 1996) e outros se encontram em fase de conclusão (EPRI: "Laboratory Trials
of Proposed IEEE P1547: Standard for Distributed Resources Interconnected with
Electric Power Systems"). Os focos principais dos trabalhos recentemente divulgados
estão na compreensão dos distúrbios causados, no impacto das novas tecnologias ou em
estudo de casos.
Os principais distúrbios causados à rede pela conexão das fontes eólicas, que podem
afetar significativamente a qualidade da energia fornecida, são:
• Consumo excessivo de energia reativa: as unidades geradoras são principalmente
máquinas de indução, que além de consumir transitoriamente uma alta corrente de
magnetização, demandam contínuo suprimento de reativos (Jenkins, 1993);
• Variações no perfil de tensão fornecida aos consumidores próximos: os fluxos de
potências ativa e reativa variáveis, conseqüência de um regime de ventos aleatório e
de condições particulares de operação (entradas e desligamento de unidades
geradoras), provocam variações significativas de tensão (Boulaxis et al., 2002; Silva
et. al., 1999; Thiringer, 1996; Gerdes e Santjer, 1996);
• Sobretensões e sobrefrequências: desconexão de parte do sistema elétrico da rede
que se conecta com a usina eólica, caracteriza uma situação denominada
"ilhamento". Nestas condições, importantes transitórios podem ocorrer, com
conseqüências danosas aos consumidores, ao sistema elétrico da concessionária e
aos equipamentos da usina eólica (Jenkins, 1993; Demoulias e Dokopoulos, 1996);
• Injeção de harmônicos: muitas turbinas eólicas utilizam conversores estáticos para
ou regular a corrente inicial de magnetização de seus geradores de indução ("soft-
starting") ou para operação a velocidade variável (maximização do aproveitamento
energético). Estes conversores fornecem correntes harmônicas que, dependendo da
impedância do sistema elétrico, podem amplificar distorções harmônicas (Thiringer,
1996; Gerdes e Santjer, 1996; Chen e Spooner, 2001);
• Flutuações de tensão: as variações de potências ativa e reativa e as condições de
chaveamento aleatório de unidades geradoras em grande parque eólico podem
provocar flutuações de tensão que geram cintilação luminosa ("flicker"), (Saad-
Saoud e Jenkins, 1999; Feijóo e Cidrás, 1999; Thiringer, 1996; Gerdes e Santjer,
1996).

28
A solução para esses problemas pode vir da combinação de várias ações, tais como,
forma de operação dos geradores, alterações nos componentes da rede elétrica, seleção
do tipo de conexão dos geradores à rede elétrica, adição de novos equipamentos,
avaliação do regime de ventos local, seleção da tecnologia de sistemas eólicos a ser
utilizada, entre outras. Contudo são extremamente dependentes das características dos
equipamentos, do sistema e do sítio de instalação do parque eólico (Jangamshetti e Rau,
1999 e 2001).
A topologia do sistema é um dos aspectos importantes em relação aos problemas que as
fontes eólicas podem causar. Portanto, em áreas passíveis de instalação de parques
eólicos, é importante que as normas e diretrizes para expansão do sistema já considere
essa possibilidade (Wang e Billinton, 2001).
Vários estudos de casos disponíveis na literatura técnica podem auxiliar no
desenvolvimento metodológico deste projeto. Dentre os estudos analisados, citamos os
seguintes:
• Power Quality and Integration of Wind Farms in Weak Grids in India – P. Sorensen,
P.H. Madsen, K.K.Jensen, K.A Fatima, A.K.Unnikrishnan and Z.V. Lakaparampil.
• Influence of Weak Grids on Turbines and Economics of Wind Power Plants in India
– B.Rajsekhar, F. VanHulle and D. Gupta.
• Measurements of Power Quality of Wind Farms in Tamil Nadu and Gujarat - P.
Sorensen, A.K.Unnikrishnan and Z.V. Lakaparampil.
• Power Control for Wind Turbines in Weak Grids – Bindner, H.
• Power Control for Wind Turbines in Weak Grids – Madeira Case - Bindner, H.,
A.I.Estanqueiro, D. de Freitas.
• Madeira Island Case – Estanqueiro, A.I., J.M Ferreira de Jesus.
• Power Control Concept Development and Its Application to Madeira Island Case
Study - Estanqueiro, A.I., J.M Ferreira de Jesus.


Referências Bibliográficas

1. Boulaxis, N.G., Papathanassiou, S.A. and Papadopoulos, M.P., "Wind turbine
effect on the voltage profile of distribution networks", Renewable Energy,
25, 2002, p.401-415.
2. Bronzeado, H.S.; Rosas, P.A.C.; Feitosa, E.A.N. & Miranda, M.S. "Behavior
of Wind Turbines under Brazilian Wind Conditions and Their Interaction
with the Grid", Proceedings of 8
th
Conference on Harmonics and Quality of
Power, Athens, Oct/1998, p. 906-910.
3. Chen, Z. and Spooner, E., "Grid power quality with variable speed wind
turbines", IEEE Trans. on Energy Conversion Vol.16, No. 2, June/2001.
4. Demoulias, C.S. and Dokopoulos, P., "Electrical transients of windturbines in
a small power grid", IEEE Trans. on Energy Conversion Vol.11, No. 3,
Sept/1996.
5. DEWI, "Power quality measurement and wind turbine operational
improvement at the CEMIG Morro do Camelinho wind farm", NR97 0808,
Dec/1997.
6. EUREC- Agency, "Electrical power quality measurement procedure",
European Wind Turbine Standards, Vol. 7, Feb/1996.

29
7. Feijóo, A. and Cidrás, J. "Analysis of mechanical power fluctuations in
asynchronous WEC's", IEEE Trans. on Energy Conversion Vol.14, No. 3,
Sept/1999, p.284-291.
8. Gerdes, G. and Santjer, F. "Power quality of wind turbines and their
interaction with the grid", DEWI, 1996.
9. IEC 61400-21, "Wind turbine generators systems - Part 21: Measurements
and assessment of power quality characteristics of grid connected wind
turbines", IEC, Dec/2001.
10. IEEE Std. 1021-1988, "Recommended Practice for Utility Interconnection of
Small Wind Energy Conversion Systems", IEEE, Nov/1987.
11. IEEE Std. 1094-1991, "Recommended Practice for Electrical Design and
Operations of Windfarm Generating Stations", IEEE, April/1991.
12. Jangamshetti, S. H. And Rau, V. G., "Optimum siting of wind turbine
generators", IEEE Trans. on Energy Conversion Vol.16, No. 1, March/2001,
p.8-13.
13. Jangamshetti, S. H. And Rau, V. G., "Site matching of wind turbine
generators: a case study", IEEE Trans. on Energy Conversion Vol.14, No. 4,
Dec/1999, p.1537-1543.
14. Jenkins, N., "Engineering wind farms", Power Engineering Journal,
April/1993, p.53-60,
15. Junior, K.R.A., Medeiros, M.O. & Montezuma, F., "Monitoramento da
qualidade da energia no ponto de acoplamento da fazenda eólica de Taiba",
Anais do III Seminário Brasileiro sobre Qualidade da Energia Elétrica,
Brasília, Agosto/99, p. 195-200.
16. Papathanassiou, S. A. and Papadopoulos, M. P., "Mechanical stresses in
fixed-speed wind turbines due to network disturbances", IEEE Trans. on
Energy Conversion Vol.16, No. 4, Dec/2001.
17. Saad-Saoud, Z. and Jenkins, N., "Models for predicting flicker induced by
large wind turbines", IEEE Trans. on Energy Conversion Vol.14, No. 3,
Sept/1999.
18. Silva, S.R.; Medeiros, N.A., Cardoso Filho, B.J., Barbosa, A.L.B. & Costa,
H.F., "Qualidade da energia elétrica gerada em usinas eólicas: uma
avaliação", Anais do III Seminário Brasileiro sobre Qualidade da Energia
Elétrica, Brasília, Agosto/99, p. 422-427.
19. Thiringer, T., "Power quality measurements performed on a low-voltage grid
equipped with wind turbines", IEEE Trans. on Energy Conversion Vol.11,
No. 3, Sept/1996.
20. Wang, P. and Billinton, R., "Reliability benefit analysis of adding WTG to a
distribution system", IEEE Trans. On Energy Conversion Vol.16, No. 2,
June/2001.
21. Mapeamento do Potencial Eólico do Estado da Bahia em Resolução de 1 km
x 1 km, Relatório Final, outubro/2001. Projeto de P&D da Coelba ciclo
1999/2000.
22. Resoluções da ANEEL sobre aprovação de geração eólica no Nordeste.


30

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful