Gloria Steinem

Memórias da Transgressão:
momentos da história da mulher do século XX
Tradução de CLAUDIA COSTA GUIMARÃES

EDITORA
ROSA DOS TEMPOS

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Título original inglês OUTRAGEOUS ACTS AND EVERYDAY REBELLIONS (Revised Edition)

Copyright © 1995 by Gloria Steinem

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil adquiridos pela EDITORA ROSA DOS TEMPOS Um selo da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 -20921-380 Rio de Janeiro, RJ - Tel.: 585-2000 que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil ISBN 85-01-04655-8 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 - R i o de Janeiro, RJ -20922-970

Este livro é dedicado, com agradecimentos, a... ...Letty Cottin Pogrebin, que vasculhou caixas e mais caixas de trabalhos antigos, que vendeu uma amostra para a Holt e assim me forçou a trabalhar neste livro; a Suzanne Braun Levine, que me deu carinho e longos conselhos sobre o que manter e onde colocar; a minha editora, Jennifer Josephy, cujo excelente critério corresponde apenas à sua enorme paciência; ajoanne Edgar, que passou doze anos me incentivando a criar espaço para escrever, mesmo quando eu hesitava em fazê-lo; a Robin Morgan, esperando sempre poder contar com suas críticas de irmã; a Robert Benton que, há tanto tempo, ouviu as histórias de uma infância em Toledo e me mostrou que eu não precisava ser outra pessoa para ser escritora; a Clay Felker, que jamais deu importância para o sexo do jornalista que aparecia com um notícia digna de ser publicada; ao Woodrow Wilson International Center for Scholars do Instituto Smithsonian, cuja bolsa permitiu que eu realizasse grande parte das pesquisas contidas neste livro; a Stan Pottinger por oito anos de amizade, ânimo e vitalidade; a Alice Walker por uma sinceridade imensa que ilumina um caminho de sinceridade para todos que a cercam; a Andrea Dworkin por sua raiva tão cabida, permitindo que outros confrontem injustiças sem precisar senti-la; a Patricia Carbine, amiga e sócia na revista Ms., que proporcionou a mim, e a tantas outras, um foro para novas idéias e sonhos; a meu pai, Leo Steinem, que me ensinou a amar e a viver com a insegurança; a minha mãe, Ruth Nuneviller Steinem, que efetuou o milagre de amar aos outros mesmo sem se amar; e a todas as pessoas corajosas que conheci nos últimos vinte anos de reportagens e organização — mulheres e homens que sonham com uma justiça que ainda está por vir e viver às margens da história.

Sumário

Nota ao Leitor Prefácio 11

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APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA

A Vida nas Entrelinhas 29 Eu Fui Coelhinha da Playboy 61 Em Campanha 109 Irmandade Reunião de Ex-Alunas 165 A Canção de Ruth (Porque Ela Não Sabia Cantar)

OUTRAS DESCOBERTAS BÁSICAS

Palavras e Mudanças 199 Celebrando o Corpo Feminino 215 A Importância do Trabalho 223 O Fator Tempo 230 Homens e Mulheres Conversando 233 A Política da Alimentação 250 Criando Redes 256 Transexualismo 267 Por que as Jovens São Mais Conservadoras O Erótico vs. o Pornográfico 282

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CINCO MULHERES

Marilyn Monroe: A Mulher Que Morreu Cedo Demais 299 Um Vôo com Patrícia Nixon 306 A Verdadeira Linda Lovelace 310 Repensando Jackie 322 Alice Walker: Você Conhece Essa Mulher? Ela Conhece Você 328

TRANSFORMANDO A POLÍTICA

Houston e a História 351 O Crime Internacional da Mutilação Genital 365 Receitas de Fantasias: Para Alívio Temporário da Dor Causada pela Injustiça 377 Se Hitler Estivesse Vivo, de que Lado Estaria? 381 Pensamentos Noturnos de um Telespectador 405 Se os Homens Menstruassem 416 Longe da Margem Oposta 420

Nota ao Leitor

No decorrer do texto ou ao final do artigo, você encontrará o ano no qual foi escrito. Onde artigos relacionados foram combinados em um só, o ano de cada um foi incluído. Onde houve atualizações para esta segunda edição, elas também aparecem ao final do ensaio. Para que cada ensaio exista como uma peça independente há referências repetidas, embora eu tenha tentado minimizar repetições, restaurando e reescrevendo textos que foram adaptados para uma revista específica. Dois ensaios, "A Vida nas Entrelinhas" e "A Canção de Ruth (Porque Ela Não Sabia Cantar)", aparecem aqui pela primeira vez, assim como o Prefácio e Pós-Escritos e outras atualizações desta segunda edição. Em geral, tentei fazer deste livro uma entidade independente, sem alterar o estado de espírito em que me encontrava quando cada uma de suas partes foi escrita.

Prefácio

Como escritora, sinto-me recompensada pelo fato de esta coletânea ter permanecido à venda por mais de doze anos desde sua primeira publicação. Agora, com um novo prefácio e alguns pós-escritos, ela chega à sua segunda edição. Considerando que, nos Estados Unidos, a data de validade de um livro se encontra entre a dos ovos e a do leite — e que os ensaios incluídos neste abrangem um período de vinte anos desde que foram reunidos pela primeira vez —, isto é muito mais do que eu jamais poderia imaginar. Republicados num mundo ligeiramente diferente, eu espero que estes ensaios tenham nova utilidade. Para os leitores mais jovens e para outros cujo juízo do passado recente do feminismo chega em segunda mão, eles talvez contribuam como uma narrativa de eventos e idéias conforme foram experimentados à época. Eu sinto a necessidade de um registro contemporâneo quando leio livros e artigos que se baseiam mais na mídia ou em relatos acadêmicos do que na riqueza das experiências de gente que viveu o momento. Por exemplo, quando ouço coisas tais como "mulheres imitadoras de homens", "anti-homem", "mulheres-vítimas", "classe média branca" e outras descrições contraditórias de um movimento monolítico que eu não reconheço. Mesmo as estudantes do feminismo tornam-se, muitas vezes, vítimas de buscas via computador e acabam permitindo que seus pontos de vista sejam moldados por recortes de jornal nos quais, em se tratando do presente, elas mesmas não confiariam. Talvez devesse existir uma linha mestra para todos os estudiosos do passado recente: gente antes de papel. Eu também espero que a durabilidade desta ou de outras coletâneas e antologias exerça alguma influência sobre a crença popular de que livros que contêm diversos assuntos são de alguma forma menos dignos e duradouros do que livros que discorrem a respeito de um

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só assunto. Enquanto escrevia "A Vida nas Entrelinhas", eu me sentia sem graça por ainda não estar produzindo "um livro de verdade". Desde então, aprendi que a diversidade tem suas vantagens, especialmente quando se está tentando contar um pouco do que acontece quando estamos transformando idéias que um dia basearam-se em sexo e raça. No final das contas, para cada motivo além da reprodução ou da resistência a certas doenças, as diferenças entre indivíduos da mesma raça ou sexo são muito maiores do que as existentes entre os sexos feminino e masculino, ou entre as raças como grupos. No entanto, sistemas perenes de castas, baseados nestas duas diferenças visíveis, continuam a ser os únicos sistemas políticos com um poder de penetração tal que chegam a ser confundidos com o natural. Um assunto não é o bastante para atiçar nossa imaginação de como seria a vida sem todas as suposições que fluem destes sistemas de castas, de um nível global a um nível pessoal. Mesmo a história dos movimentos que opõem tais castas fala mais a respeito da coisa do que da coisa em si. Apenas as histórias pessoais, além de paralelos com sistemas já reconhecidamente políticos — digamos, aqueles baseados em classe social ou grupo étnico, um dia tidos como inerentes—podem nos ajudar a visualizar um mundo no qual todo mundo tem importância. Afinal, seres humanos seguem o que vêem, não o que lhes é dito. Precisamos de exemplos diversificados. Olhando para trás, eu me dou conta de que eu mesma respondia à pergunta "o que devo ler sobre o feminismo" recomendando livros que ofereciam diversidade, de antologias tais como Sisterhood is Vowerful {A irmandade é poderosa], Radical Feminism [Feminismo radical] e All the Women Are White, All the Blacks are Men, But Some of Us Are Brave [Todas as mulheres são brancas, todos os negros são homens, mas algumas de nós são valentes] a coletâneas escritas por um só autor, tais como Woman Hating [Odiando mulher], de Andrea Dworkin ou In Search Of Our Mothers' Gardens [Em busca dos jardins de nossas mães], de Alice Walker. Destes, Sisterhood is Powerful [A irmandade é poderosa] de Robin Morgan, detém o recorde de longevidade desta onda do feminismo, pois ainda está em circulação vinte e cinco anos após seu lançamento. Os demais títulos ainda podem ser encontrados em livrarias, em bibliotecas, com as orelhas gastas, adotados por escolas ou tidos como livro de cabeceira—assim como

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outros tesouros que surgiram desde então.* Se esta coletânea se unir aos demais títulos em qualquer um destes lugares, eu serei uma escritora feliz. Por outro lado, minha porção ativista não se sente nem um pouco feliz em constatar que este livro ou qualquer uma de suas publicações-irmãs ainda sejam relevantes. Eu me sentiria bem mais recompensada se esta coletânea estivesse tão desatualizada que precisasse figurar entre livros como Por que Roosevelt não vencerá um segundo mandato, ou os diversos livros que falam do apartheid na África do Sul e do comunismo soviético como sistemas que só seriam derrubados com guerras. Ao perceber que os ensaios deste livro estão sendo passados para uma nova geração de leitores, não sei se devo comemorar ou lamentar. Aqui vão alguns exemplos de sua atualidade que me preocupam: Fui entrevistada recentemente para um documentário de televisão cujo enfoque era o movimento feminista. Perguntaram por que, nas palavras das produtoras — todas mulheres — "não existem jovens feministas?" Embora elas pudessem ter consultado pesquisas de opinião e constatado que, na verdade, existem mais jovens feministas hoje do que em qualquer outra época na história — sem contar o número ainda maior de jovens que vivem vidas feministas, não importa como se autodenominem —, eu sabia o que queriam dizer. A verdadeira pergunta que faziam era: Por que as jovens não são mais feministas do que as mulheres mais velhas, como seria de se esperar? Eu me peguei explicando, mais uma vez, as tendências que noticiei há 17 anos em "Porque as Jovens São Mais Conservadoras". Normalmente, os homens são rebeldes na juventude e vão se tornando mais conservadores com a idade. As mulheres tendem a ser mais conservadoras na juventude, tornando-se mais rebeldes com o passar dos anos. Este modelo torna-se evidente desde a época do abolicionismo ou dos movimentos sufragistas. Isso faz sentido numa sociedade dominada pelo sexo masculino, na qual o jovem precisa se rebelar contra o poder do pai e aos poucos se tornar mais conservador para tomar o lugar do mesmo. Enquanto isso, as jovens crescem além do limitado poder que lhes é conferido como objetos sexuais e
Ha mais referências sobre "o que devo ler sobre o feminismo" no final deste prefácio. Cada livro lido puxará outros.

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mães para finalmente substituírem suas mães, bem menos poderosas. Além disso, a jovem ainda não foi exposta às injustiças da desigualdade salarial no mercado de trabalho, ao fardo desigual da criação dos filhos e das tarefas do lar e ao sistema de dois pesos e duas medidas que enfrentamos em relação à idade. Em outras palavras: se as jovens têm algum problema é acreditar que não têm problemas. Essa tendência não deveria ter sido novidade para ninguém quando o ensaio foi publicado pela primeira vez. Infelizmente foi e ainda é. Se fosse escrevê-lo nos dias de hoje, eu deixaria mais claro que a tendência feminina não é melhor ou pior do que a masculina, é simplesmente diferente. Também não se trata de um modelo que se aplique a todos os membros de um sexo; observamos aqui a ação da cultura, não da biologia. Analisando historicamente, a idade média da rebelião do amor-próprio feminino torna-se cada vez menor, chegando até mesmo a uma diferença de dez anos de uma onda do feminismo para a outra. Eventualmente, os modelos para cada sexo desaparecerão, assim como os papéis que os criaram. Mas comportar-se como se o paradigma cultural masculino fosse o esperado, o normal ou o único, transforma as muitas mulheres (e alguns homens), cujas vidas seguem uma lógica diferente em seres invisíveis, e mina a coragem das jovens que incomodam o conservadorismo machista de seus colegas. Acima de tudo, faz com que a sociedade — e até nós mulheres — subestime o poder das mais velhas como rebeldes — mulheres com quarenta, cinqüenta, sessenta anos ou mais. Agora que a taxa de natalidade nos Estados Unidos sofreu uma queda significativa e que a expectativa de vida aumentou pelo menos trinta anos desde os tempos dos movimentos sufragistas, é bem provável que as mais velhas formem o corpo crítico de toda a energia feminista. Encontramos recentemente outras razões pelas quais as mulheres tornam-se mais radicais com a idade. Eu escrevi algumas observações a respeito de algumas destas razões. Mas até mesmo as próprias jovens feministas — assim como as jovens produtoras de televisão — ainda são levadas a se sentirem sós. Elas se perguntam: "Onde está todo mundo?" Daqui a quanto tempo será que homens e mulheres se sentirão à vontade para encarar a rebelião do amor-próprio como uma possibilidade para a vida inteira?

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Há dezesseis anos "Se Hitler Estivesse Vivo, de Que Lado Estaria?" foi escrito para expor o fato de grupos antiaborto tentarem equacionar judeus com fetos e aqueles que apóiam abortos legais, fruto da escolha de cada uma, com nazistas. Essa retórica inflamada acabara de substituir uma tentativa frustrada da direita em pintar a legalidade do aborto como uma trama genocida contra a comunidade negra, uma alegação com pouca base na verdade (mulheres brancas estavam e estão mais propensas a se submeter a um aborto do que as de cor). A tática teria sido mais bem-sucedida se não tivesse sido engendrada por uma maioria de racistas brancos que se queixavam também de que "o mundo ocidental branco está se suicidando por meio de abortos e anticoncepcionais". Eu achei que a mídia perceberia o cinismo dessa campanha nova e ultrajante, assim como o fato histórico de que Hitler e os nazistas eram, na realidade, antiaborto. Declarar o aborto um ato criminoso contra o Estado, crime pelo qual médicos e pacientes poderiam ser presos, fechar clínicas de planejamento familiar e banir informação a respeito de anticoncepcionais—tudo isso fazia parte dos esforços nazistas para aumentar a população ariana, eliminando ao mesmo tempo judeus e outros cidadãos indesejáveis de formas mais imediatas. Hoje, uma década e meia depois, os grupos antiaborto ainda comparam os pró-escolha a nazistas, sem serem interpelados pela mídia. Essa retórica inflamada já causou ou justificou bombardeios e outros ataques terroristas contra clínicas de saúde reprodutiva com uma freqüência de, em média, uma vez por mês. Houve também homicídios e tentativas de homicídios de médicos e funcionários das clínicas. Teriam resultados tão violentos servido para conter a retórica antiaborto? Acho que não. Pelo contrário, tornou-se parte do mainstream. Rush Limbaugh, apresentador de um programa de televisão e integrante da direita radical, que ganhou popularidade durante o atual recuo contra a igualdade, conseguiu comprimir a falsa equação de feministas com nazistas em uma só palavra: "feminazi". Em 1992, ao lhe pedirem para definir o termo, ele explicou: "Uma feminazi é uma mulher — uma feminista — para quem a coisa mais importante do mundo é que o maior número possível de abortos ocorra".*
* Paul D. Colford, The Rush Limbaugh Story [A história de Rush Limbaugh] (Nova York, St. Martin's Press, 1993), p. 184.

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Eu jamais conheci alguém que preencha tal descrição, muito embora ele a despeje sobre mim e sobre muitas outras mulheres. Na verdade, o direito de ter um filho com segurança, assim como o direito de decidir quando e se ter filhos, sempre foi a nossa meta. Por exemplo, uma das maiores batalhas feministas foi a investida contra a esterilização através de coação. A atual ênfase no aborto é uma resposta às tentativas de recriminalizá-lo ou de usar o terror para eliminálo de uma vez. Não obstante, o termo "feminazi" continua sendo usado na mídia como se fosse verdadeiro ou até mesmo divertido. Será que um termo igualmente cruel, e sem base histórica, tal como "nazijudeu", receberia tratamento parecido? Duvido muito. Quanto tempo vai levar até que a equação de escolha livre do aborto com genocídio — e de feministas com nazistas — tenha sido exposta com tal freqüência na mídia que não mais justificará o terrorismo? Nos dezenove anos desde que escrevi "O Erótico vs. o Pornográfico" a compreensão de que a pornografia tem a ver com a misoginia e a violência e não com sexo — da mesma forma que o estupro está relacionado à violência e não ao sexo — encontrou ressonância entre um público cada vez mais aterrorizado e iniciou um debate nacional. Estas são as boas novas. As más notícias são que os ativistas antipornografia vêm sendo de tal forma mal interpretados — e suas palavras de tal forma distorcidas por uma campanha de desinformação promovida pela indústria da pornografia — que estão sendo, cada vez mais, agrupados com censores da direita, mesmo que os próprios censores sejam extremamente claros quanto à sua posição antifeminismo, antilesbianismo, antiaborto, antieducação sexual, antinudez e anti-qualquer-coisa relacionada ao sexo não-procriativo, dentro do casamento. Na verdade, é até bem fácil distinguir um censor de uma feminista. Os primeiros estão tentando tirar um número cada vez maior de livros da biblioteca enquanto as últimas tentam colocar um número cada vez maior. Não posso lhes dizer o quão surrealista tem sido me ver, e a outras, chamadas de "puritanas", de "novas vitorianas" ou "anti-sexo" pelas mesmas posições que nos condenaram como "libertinas" e "imorais" até alguns anos atrás. (Afinal, para a turma da direita, é o que continuamos a ser.) Mulheres e homens que se opõem à pornografia porque ela normatiza a violência terão de lutar muito para não entrar para

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a História como as sufragistas, descritas como chatas, assexuadas e sabichonas. Afinal de contas, muitas delas acreditavam na liberação sexual tanto quanto nós, de Emma Goldman e Victoria Woodhull a Margaret Sanger. Fazer com que as mulheres pareçam ser anti-sexo e sem vida quando queremos apenas o direito à sexualidade, sem humilhação ou dor, fazer com que os homens pareçam ser fracos ou sexualmente privados por preferirem a cooperação à dominação é claramente uma tática para isolar qualquer um que tente separar a sexualidade da violência e da dominação — o que vem a ser um ataque bem no coração da dominação masculina. Por que será que a tentativa de separar a pornografia do erotismo é mais difícil do que separar o estupro do sexo, o assédio sexual da atração mútua, assim como outras investidas de separar a violência e a dominação do sexo? Creio que a resposta esteja nos bilhões de dólares ganhos pela indústria multinacional da pornografia com produtos que vão de filmes, vídeos, quadrinhos, revistas pornográficas, CD-ROMs, videogames a shows de sexo ao vivo, turismo sexual, comércio de escravos sexuais infantis "descartáveis" e mulheres importadas para serem usadas na pornografia. Essa é a indústria na qual o crime organizado conseguiu se "legitimar" e até mesmo ser defendido por grupos de direitos civis para os quais os pornógrafos contribuem. Se ao menos conseguíssemos enquadrar como crimes os atos cometidos para a criação da pornografia — de espancamento e encarceramento, tal como no ensaio sobre Linda Lovelace, até o rapto e estupro de crianças — poderíamos transformar os ganhos dessa indústria num negócio bem mais arriscado. Se a distribuição fosse limitada — ou pior, se toda a pornografia fosse menos tolerada e menos popular — essa gigantesca indústria, que não pára de crescer, encolheria. E por isso que as demonstrações antipornografia ficam mais vulneráveis à acusação de ameaçarem a Primeira Emenda da Constituição Americana — mesmo que a estejam fortalecendo por se utilizarem da liberdade de expressão — do que protestos similares contra a Ku Klux Klan, contra os neo-nazistas e contra outras áreas, menos lucrativas, da literatura do ódio. A coisa chegou a um ponto em que a melhor forma de proteger um crime é fotografálo e vendê-lo como pornografia. A maneira mais certa de se ser condenado como censor é sugerir que um crime vendido como pornografia seja processado como qualquer outro crime.

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É claro que há motivos menos econômicos e mais profundos pelos quais ainda encaramos a pornografia como "normal". As representações de prazer mútuo e de sexualização da igualdade são tão raras que os pornógrafos parecem ter obtido direitos exclusivos sobre o sexo. Eles conseguem se desvencilhar de acusações dizendo que opor a pornografia é o mesmo que opor o sexo. Todas as vezes que usamos o termo "sexo, drogas e violência" como se nos referíssemos a uma instituição, fortalecemos a alegação dos pornógrafos de que o sexo é intrinsecamente violento. Desde que o ensaio foi escrito, no entanto, já aprendemos mais sobre a ligação entre o grau de abusos sexuais sofridos por menores e o grau de sadomasoquismo adulto. Muitas pessoas crescem com a convicção de que a dor e a humilhação são porções inevitáveis do amor e da intimidade. A resposta para a pornografia encontra-se não só em expô-la como instituição, como também em certificar-se de que os indivíduos atraídos por ela, e que não estejam machucando ninguém com isso, não se sintam condenados. É, em parte, essa sensação de estar sendo acusado pessoalmente que levou algumas mulheres, incluindo feministas, a defender a pornografia. Da mesma forma que muitos indivíduos têm crenças arraigadas em relação aos sistemas baseados em raça ou classe social, a ponto de achá-los naturais, há muitos empregados da indústria do sexo e outros para os quais a prostituição e a pornografia exercem um poder não escolhido. Para a grande maioria, no entanto, a maior barreira para estabelecerem sua oposição à pornografia é o fato de ignorarem o que ela realmente é. Diana Russell, uma das pioneiras do feminismo — que às vezes usa uma camiseta com um slogan muito simples, "Mulheres contra a pornografia e a censura" —, incluiu em seu último livro, Against Pornography: the Evidence of Harm [Contra a pornografia: a prova do mal]*, algumas das imagens pornográficas mais comuns. Assim, aqueles que desviaram o olhar como forma de se proteger poderão reconhecer aquilo ao qual estão expostos em cinemas, nas locadoras de vídeo, nas bancas de jornal e, cada vez mais, em seus lares através das TVs a cabo e do ciberespaço. Aqui estão algu*Diana E. H. Russell, Against Pornography: The Evidence of Harm [Contra a pornografia: a prova do mal] (Berkeley, Califórnia: Russell Publications, 1994). Ver também: Russell, Making Violence Sexy: Feminist Views on Pomography [A Transformação da violência em sexy: visões feministas sobre a pornografia] (Nova York: Teachers College Press, 1993). i

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mas imagens típicas: mulheres com seios tão aumentados por implantes que elas mal conseguem andar ou se deitar confortavelmente- corpos femininos transformados em carne de açougue com o uso de mortalhas, correntes e máscaras; meninas com a maquiagem escorrendo pelo rosto em lágrimas de "prazer" pela humilhação a qual estão sendo submetidas; mulheres acorrentadas com as pernas abertas enquanto garrafas e bastões são introduzidos, à força, em suas vaginas; meninas sorridentes, aparentemente drogadas, enquanto seus lábios vaginais e seus mamilos são perfurados por agulhas; crianças sendo penetradas oral e analmente em manuais explicativos de como abusar sexualmente de uma criança; mulheres gritando de dor, presas em arreios e penetradas por vibradores e animais; homens com garotinhos no papel da "fêmea" tendo seu corpo cruelmente invadido; até mesmo cenas extremamente reais de evisceração e homicídio. Em muitos dos casos acima descritos, a diferença de poder entre vítima e algoz é amplificada pelo acréscimo de diferenças de raça, classe, idade e grau de nudez. Quanto tempo se passará até que homens e mulheres de todas as raças se oponham à pornografia e sejam levados tão a sério quanto os judeus que se opõem às representações de imagens nazistas, aos negros que se opõem às representações de imagens do racismo ou qualquer um que se oponha às representações de ódio e degradação não sexualizadas? Como podem ver, sinto raiva ao reler algumas destas páginas e refletir sobre a falta de mudanças ou sobre os lembretes dos pequenos retrocessos que sofremos nas mudanças obtidas. Mas a raiva é uma célula energética que leva à mudança. Eu espero que vocês tratem com carinho e utilizem o que quer que sintam. Apenas a raiva nãoexternada e engolida transforma-se em amargura ou depressão, e existem diversas provas de que a ação é um antídoto para tais sentimentos e o único caminho para o progresso. É bem verdade que os retrocessos são, em si, um tributo ao sucesso: o resultado perigoso mas inevitável de colocar a consciência da maioria na direção da igualdade e assim transformar uma maioria antiigualdade numa minoria irada que ainda acredita poder ditar o que é legal, e até mesmo o que é normal.

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Especialmente no caso de nós mulheres, treinadas para encontrar nossa identidade na aprovação dos outros, é difícil enfrentar a oposição. Mas, conforme demonstrou a historiadora Gerda Lerner, é uma característica comum à história da mulher — ou à verdadeira história de qualquer grupo marginalizado — ser perdida e descoberta, perdida outra vez e redescoberta, perdida uma terceira vez e re-redescoberta até que as margens transformam o núcleo. Numa árvore ou numa semente, é nas margens que ocorre o crescimento. Quem ia querer estar em algum outro lugar? Há muitos sinais de crescimento nestas páginas que devem ser comemorados. Abrangem toda uma gama de considerações, do pessoal ao político. O político é compartilhado por grupos e, eventualmente, pela sociedade como um todo. Mas o pessoal será diferente para cada leitor. Os motivos para se comemorar são: Me dar conta de que o relato no qual exponho o que é trabalhar no Playboy Club teve maior longevidade do que os Playboy Clubs, tanto aqui como no exterior. Revisitar a faculdade na qual estudei, evento contado em "Reunião de Ex-Alunas", para ser paraninfa da turma de 1995 e descobrir que se tornou um verdadeiro enxame de ativismo e também a primeira das Sete Irmãs — as sete faculdades da Costa Leste americana exclusivamente para mulheres — a nomear uma afro-americana para reitora. Ela está prestes a tomar posse. Reler a narrativa da derrota de Bella Abzug para o Congresso em "Longe da Margem Oposta" e me dar conta de que sua triste derrota abriu caminhos para uma nova atividade como organizadora de grupos feministas internacionais, através das Nações Unidas, possibilitando, assim, que o mundo inteiro conheça seu trabalho. (Como anunciou uma mulher, orgulhosamente, ao chegar à ONU, "Eu sou a Bella Abzug da Mongólia".) Saber que os assuntos que incluí neste livro foram expandidos em outros lugares, da política de "Homens e Mulheres Conversando" (agora explorado com grande popularidade em You just Don't Understand [Você simplesmente não entende] de Deborah Tannen) a "O Crime Internacional da Mutilação Genital" (que finalmente foi noticiado na mídia e que está sendo submetido às maiores mudanças: há um movimento de mulheres que sofreram esse tipo de muti-

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lação, que são valentes o bastante para se organizarem contra suas próprias tradições para salvar as filhas). Olhar mais uma vez para "Celebrando o Corpo Feminino" e constatar que ele se torna ainda mais pungente diante da nova compreensão da freqüência e seriedade de doenças tais como a bulimia e a anorexia e a política sexual que leva uma jovem a jejuar a ponto de ficar sem menstruação, quadris, seios e seu destino como mulher. Ver que os movimentos de gays e lésbicas ultrapassaram os limites espaciais nos quais os rebeldes sexuais descritos em "Transexualismo" possam viver e ser eles próprios — com ou sem cirurgia. Querer ter escrito mais a respeito das viagens que fiz com um time inter-racial de organizadoras feministas em "A Vida nas Entrelinhas" — e sobre as origens comuns do racismo e do sexismo em "Houston e a História" — porque ainda perdura a caracterização de todo o movimento feminista como sendo de "classe média branca" (mais até, por exemplo, que o Partido Republicano, onde a "neve" realmente poderia cegar alguém). Mesmo assim, notamos um crescimento de times organizadores multirraciais, especialmente em meio às jovens feministas, mesmo que desconheçam a história de outros trabalhos parecidos. E há também vidas de indivíduos como marcos de mudança: assistir ao talento de Marilyn Monroe como atriz ser levado mais a sério, algo que ela almejou a vida inteira; celebrar a jornada de Alice Walker, que se tornou uma escritora conhecida em todo o mundo, com imensa alegria; e lembrar que Jacqueline Kennedy Onassis disse, após a publicação deste artigo, que ele a ajudou a ser vista como uma editora de verdade, um trabalho que ela continuou a realizar durante outros dezesseis anos. Ela morreu, conforme descreveu seu filho, rodeada pela família e pelos livros que tanto amava. Em minha própria vida, o ensaio "A Canção de Ruth" foi o maior marco de mudança. Passei anos sem conseguir relê-lo. Algum lado misterioso do meu ser deve ter tido mais coragem para enfrentar a triste vida de minha mãe do que eu tive. Só muito mais tarde é que eu fui me dar conta de que escrevia, também, a respeito de minha própria vida — a respeito dos meus primeiros anos de vida, que eu ocultara, permitindo que fossem um ímã para a tristeza, a respeito de enxergar o sofrimento de minha mãe em outras mulheres e a respeito da falta que senti de não ter uma mãe forte e protetora. Hoje

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em dia eu consigo pensar no sentido de uma frase que escrevi então, mas que eu não compreendera conscientemente: "Eu sei que vou passar os próximos anos tentando decifrar o que foi que a vida dela me deixou." E é verdade. Eu continuo a descortinar realidades minhas que eu negara por serem iguais a ela, de forma a não atrair para mim o mesmo destino que ela teve. Mas agora que o medo se foi, estas descobertas são, por si sós, uma espécie de renascimento. Quer seja a sua vida ou a minha, a de nossos pais ou das crianças que ainda estão por nascer, é bem melhor ser tudo o que somos do que ser imortal. Numa competição entre o prazer causado por um trabalho duradouro e o desejo de ativista por um mundo onde todos têm importância a escolha é simples. Eu espero que você encontre algo neste livro que ajude a você, leitor, torná-lo obsoleto. — 1995

TEXTOS COMPLEMENTARES: OS DIVERSOS CAMINHOS QUE LEVAM AO FEMINISMO

Allen, Paula Gunn. Grandmothers of the Light: A Medicine Woman's Sourcebook [As avós da luz: o guia da curandeira}. Boston: Beacon Press, 1991. Anzaldúa, Gloria, ed. Borderlands/ La Frontera: The New Mestiza [A fronteira: a nova mestiça]. São Francisco: Spinsters/Aunt Lute Press, 1987. Asian Women [Mulheres asiáticas}. Berkeley, Califórnia: Berkeley Asian American Studies, 1973. Conway, Jill Ker, ed. Written by Herself{Esctito por ela mesma}. Nova York: Vintage Books/Random House, 1992. Dworkin, Andrea. Woman Hating [Odiando mulher}. Nova York: E.P Dutton, 1974. Findlen, Brabara, ed. Listen Up: Voicesfrom the Next Feminist Generation [Ouçam bem: as vozes da próxima geração de feministas}. Seattle, Washington: Seal Press, 1995. Freeman, Jo, ed. Women: A Femininst Perspective [Mulheres: uma pers-

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pectiva feminista]. Mountain View, Califórnia: Mayfield Publishing Company, 1995. Geok-Lin Lim, Shirley e Mayumi Tsutakawa, eds. The Forbidden Stitch: An Asian American Women's Anthology [O ponto proibido: uma antologia de mulheres asiático-americanas}. Corvallis, Oregon: Calyx Books, 1989. Hull, Gloria T., Patricia Bell Scott e Barbara Smith, eds., All the Women Are White, All the Blacks are Men, But Some of Us Are Brave [Todas as mulheres são brancas, todos os negros são homens, mas algumas de nós são valentes}. Nova York: The Feminist Press, 1982. Koedt, Anne, Ellen Levine e Anita Rapone, eds., Radical Feminism [Feminismo radical}. Nova York: Quadrangle Books, 1973. Kimmel, Michael S. e Thomas E. Mosmiller, eds., Against the Tide: Pro-feminist Men in the United States, 1776-1990, A Documentary History [Contra a maré: homens pró-feminismo na América, 17761990, um documentário histórico}. Boston: Beacon Press, 1992. Moraga, Cherríe e Gloria Anzaldúa, eds., This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color. [Esta ponte que são as Minhas costas: ensaios escritos por mulheres de cor radicais]. Nova York: Kitchen Table/Women of Color Press, 1983. Morgan, Robin, ed., Sisterhood is Powerful [A irmandade é poderosa]. Nova York: Vintage Books/Random House, 1970. Saxton, Marsha e Florence Howe, eds., With Wings: An Anthology of Literature By and About Women With Disabilities [Com asas: uma antologia da literatura escrita e dedicada a mulheres deficientes}. Nova York: The Feminist Press, 1987. Schneir, Miriam. Feminism In Our Time: The Essential Writings, World War II to the Present [O feminismo de nosso tempo: obras essenciais, da Segunda Guerra Mundial ao presente}. Nova York: Vintage Books/Random House, 1994. Smith, Barbara, ed., Home Girls: A Black Feminist Anthology [Home Girls: uma antologia da feminista negra}. Nova York: Kitchen Table/Women of Color Press, 1983. Walker, Alice. In Search of Our Mothers' Gardens [Em busca dos jardins de nossas mães}. Nova York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1983.

A Vida nas Entrelinhas

Houve dias, nos últimos dez ou doze anos, em que achei que minha coleção de trabalhos escritos se resumia a cartas de captação de recursos, rascunhos de discursos, declarações dadas no nascimento de uma nova aliança e apresentações para os livros de outras pessoas. Não me arrependo do tempo dedicado a estes outros projetos. A escrita que leva à ação, que põe um sentimento comum em palavras, que apresenta as pessoas umas às outras, talvez seja, a longo prazo, tão importante quanto grande parte dos trabalhos convencionais de ficção e não-ficção publicados. Se me pedissem para relatar o ápice emocional desses vinte anos de carreira como escritora, eu talvez dissesse que foram os dois dias passados em claro como escriba de diversas reuniões durante a Conferência Nacional de Mulheres, em 1977 (um evento aqui relatado em "Houston e a História"). Mulheres, representantes de todas as minorias americanas, das mais antigas nações indígenas às refugiadas vietnamitas recém-chegadas, haviam decidido forjar uma resolução comum. Enquanto procurava palavras para descrever as experiências comuns às mulheres de cor, tentando preservar, ao mesmo tempo, as questões únicas a cada grupo, e quando esta resolução em comum, sem precedentes, foi aceita e aclamada por duas mil representantes de todos os cantos do país, senti um imenso orgulho de ser escritora — um orgulho tão prazeroso quanto o de ver relatos mais pessoais publicados. Dessa mesma forma, e supondo que exista realmente a posteridade, eu teria sentido igual prazer se minha participação tivesse sido ate menor que um livro ou um ensaio: talvez a invenção de algo tão breve e essencial quanto a frase liberdade reprodutiva, uma substituta democrática para frases antigas e paternalistas tais como controle populacional, e uma liberdade de especial importância para a metade reminina de todo o mundo. Encontrar uma linguagem que permita

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às pessoas agirem juntas enquanto celebram a individualidade de cada um é, provavelmente, a função mais feminista e mais verdadeiramente revolucionária de uma escritora. Assim como não pode haver mudanças sociais profundas sem a arte e a música (como disse Emma Goldman, "Se eu não puder dançar, esta revolução não é minha"), ela não poderá existir sem palavras que evoquem em nossas mentes o sonho da mudança. Não obstante, uma das maiores ironias de se tentar ser escritora e ativista ao mesmo tempo é que quanto mais temos sobre o quê escrever, menos tempo temos para fazê-lo. Arrependo-me profundamente de jamais ter mantido um diário nos mais de doze anos em que passei viajando pelo menos dois dias na semana como oradora itinerante ou organizadora feminista. Embora grande parte das idéias e observações contidas neste livro tenham nascido durante tais viagens (incluindo o título, como verão no último ensaio, "Longe da Margem Oposta"), eu poderia ter escrito um livro inteiro relatando, com detalhes, apenas um dos primeiros anos. Por exemplo, o ano em que fui a primeira oradora mulher para um punhado de poderosos no Clube Nacional de Imprensa, em Washington (eles me deram uma gravata), e no banquete da Revista de Direito de Harvard (onde, de posse de uma pesquisa feita por estudantes mulheres dessa universidade que só começou a aceitar mulheres nos anos 50, cometi o pecado de falar especificamente de Harvard e não do mundo em geral). Ou então ter encontrado três mil pessoas me aguardando numa quadra de basquete de Wichita, no estado do Kansas, enquanto a mídia ainda noticiava que o movimento feminista era invenção de algumas mulheres pouco razoáveis das cidades costeiras americanas. Colegas de Nova York haviam previsto que eu encontraria indiferença ou poderia morrer apedrejada. Ou ainda ter conhecido mulheres que protestavam contra tudo, de anúncios de emprego que especificavam o sexo do candidato, em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, à prática então vigente no estado de Nevada de pressionar mães dependentes do sistema de previdência social a se prostituírem, poupando assim o dinheiro do estado e aumentando as atrações turísticas do lugar. Apesar das reprovações da mídia ao noticiar o "Women's Lib" ou as "incediárias de sutiã", vários outros anos como aquele no início de 1970 me ensinaram que rebeliões do dia-a-dia e sonhos de igualdade

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brotavam por todos os lados, dentro de famílias e na vida pública. E estas novas idéias não estavam restritas às demografias previsíveis de idade, raça, educação ou geografia. Na verdade, a rebelião era menos retórica e mais real em algumas partes do país onde as alternativas eram mais restritas do que nas grandes cidades dos estados de Nova York ou da Califórnia e em níveis sociais que tornavam o salário das mulheres ainda mais cruciais para a sobrevivência do que no caso das rebeldes da classe média, sob a mira da imprensa. Essas viagens constantes me davam, também, boas novas para contar às redatoras e editoras de Nova York que se impacientavam cada vez mais com os já antiquados estereótipos de "feminino" e "masculino" usados pela imprensa, e que acabavam de fazer uma histórica greve branca no The Ladies' Home Journal e no RAT, uma revista supostamente radical que prosperava graças à pornografia. A boa nova era que havia público para um novo tipo de revista para mulheres que fosse dedicada às mulheres, escrita por mulheres e que focalizasse assuntos pertinentes às mulheres. Embora o feminismo fosse (e às vezes ainda seja) um termo mal compreendido, muitas leitoras queriam uma revista que apoiasse aquilo que o termo realmente significa: a igualdade e a humanidade integral de homens e mulheres. Afinal de contas, até mesmo as revistas femininas eram completamente possuídas, controladas e, na maioria das vezes, editadas por homens. Para que pudéssemos equilibrar um pouco as coisas, as mulheres necessitavam de um foro nacional — ou de muitos foros como este. Reuniões com outras mulheres do meio editorial revelaram histórias de batalhas travadas capazes de provocar lágrimas e risos. A revista Look dissera a Patrícia Carbine, que há anos praticamente dirigia a revista na condição de editora executiva, que uma mulher jamais poderia ser editora chefe. Na The Ladies'Home Journal, onde eu trabalhava como consultora e redatora ocasional, um dos dois principais editores (ambos homens, é claro) estavam tão convencidos de que eu não me parecia em nada com nossas leitoras (descritas por ele como "deficientes mentais com bobs nos cabelos") que vez ou outra me entregava um manuscrito e dizia "Finge que você é mulher e lê isso aqui". E, mesmo assim, ele era mais flexível do que o dono da revista Seventeen, que mandou que terminassem minha consultoria editorial ao saber que eu estava captando recursos para a defesa legal de Angela Davis. Um editor da revista New York, para a qual o

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movimento das mulheres não passava de um importante evento de mídia, insistia em que aquilo tudo não passava de um descontentamento da classe alta que poderia ser resolvido se um número maior de empregadas domésticas fosse importado da Jamaica. A revista do The New York Times continuava a permitir que mulheres, minorias e homossexuais escrevessem artigos de cunho confessionário, na primeira pessoa, mas por motivos de objetividade mandava que "autoridades" masculinas, heterossexuais, escrevessem textos definitivos a respeito desses grupos. Um memorando escrito por Hugh Hefner foi retirado da sede da revista Playboy em Chicago por uma funcionária. Tratavase de uma invectiva contra a publicação de um artigo a respeito do movimento feminista que um de seus editores encomendara a um jornalista profissional e que saíra excessivamente "objetivo" e "equilibrado" para os propósitos de Hefner. Segundo ele, "Escrever um artigo sobre os prós e os contras do feminismo me parece um tanto sem propósito para uma revista como a Playboy. Estou interessado mesmo é no lado irracional, emocional e bizarro do movimento... Essas jovens são nossas inimigas naturais... Está na hora de enfrentá-las... O que eu quero é uma peça devastadora... um trabalho de perito, uma demolição pessoal do assunto". Lembro-me de ter achado que a valente atitude da funcionária ao divulgar o memorando à imprensa teria grande impacto sobre qualquer um que se importasse com o jornalismo, mesmo que se importasse pouco com a igualdade feminina. Eu estava errada. Foi recebida com risinhos e sorrisos. A objetividade é destinada a assunto sério, não a assuntos que dizem respeito às mulheres. O problema era ainda maior para as mulheres de cor. As mulheres negras que compareciam a tais reuniões contavam que nenhuma das grandes revistas tinha uma negra em seus altos escalões. Até mesmo uma revista destinada à mulher negra era, parcialmente, de propriedade da Playboy e, assim como no caso das outras revistas dedicadas às mulheres, era editada por dois homens. Como disse uma das mulheres presentes: "Pelo menos vocês estão enfrentando hostilidades. Nós ainda somos a Mulher Invisível." Foram histórias e reuniões tais como estas que acumularam a energia e o profissionalismo necessários para a criação de uma revista nacional e abrangente, controlada por mulheres e publicada para mulheres. Com um modesto capital e nenhuma intenção de duplicar os departamentos tradicionais projetados para girar em torno de

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certas categorias de propaganda — receitas para reforçar anúncios de alimentos, artigos sobre beleza para salientar os produtos dos anunciantes do ramo e coisas do gênero —, sabíamos que seria uma verdadeira batalha econômica. (Ainda bem que não tínhamos noção do quão difícil seria. Ainda é mais fácil atrair anúncios de carros, aparelhos de som, cerveja e outros produtos que não são, tradicionalmente, destinados às mulheres do que convencer aos anunciantes de xampu que seus anúncios são vistos por mulheres, mesmo sem serem acompanhados de artigos que ensinam a lavar os cabelos, da mesma forma que homens olham anúncios de creme de barbear sem precisarem de um artigo que os ensine a se barbear.) Com tantos obstáculos, não teríamos insistido se não fosse o encorajamento de nossos leitores. Produzimos um fascículo-amostra de uma revista com esse novo conteúdo editorial — uma revista destinada a permanecer três meses nas bancas. Esgotou-se em oito dias. Havia muito mais trabalho pesado à nossa frente e muita insegurança antes de conseguirmos arrecadar dinheiro e começar a publicar a revista mensalmente. A tentativa de começar uma revista controlada editorialmente e financeiramente por sua equipe feminina, num mundo acostumado com a autoridade de homens e de investidores, deveria ser assunto para uma comédia musical. E, apesar de tudo, nasceu a Ms.: a revista na qual grande parte dos artigos contidos neste livro foram, originalmente, publicados. Ao mesmo tempo, no entanto, minha vida tornava-se menos revista e mais romance. Durante os quatro ou cinco anos de criação da Ms., eu viajava e discursava em dupla com uma feminista negra: primeiro foi Dorothy Pitman Hughes, pioneira dos serviços de assistência ao menor, em seguida foi Florynce Kennedy, advogada, e finalmente Margaret Sloan, ativista. Ao discursarmos juntas em centenas de reuniões públicas, tentávamos ampliar o escopo da imagem pública do movimento feminista, criada essencialmente após o lançamento de The Feminine Mystique [A mística feminina], o primeiro real evento de mídia do assunto. (A tradução para o inglês de 0 segundo sexo, de Simone de Beauvoir, causara impacto, anteriormente. No entanto, o impacto do livro de Simone foi diminuído pelo fato das revoltosas em questão virem de um outro país que não o nosso.) Apesar das grandes virtudes reformistas de The Feminine Mystique, ele conseguira surgir no auge dos movimentos civis sem mencionar mulheres negras

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ou qualquer outra mulher de cor. Sua maior relevância dizia respeito a mulheres instruídas, brancas, donas de casa dos arredores das grandes cidades americanas que encostavam-se à pia da cozinha e se perguntavam se a vida "não seria mais do que isso". Como resultado, os jornalistas americanos passaram a usar a frase movimento da classe média branca para definir o feminismo nos Estados Unidos; ao contrário da Europa, onde os primeiros trabalhos escritos e as primeiras ações diretas eram bem mais populistas e repletas de consciência de classe. Havia pouca compreensão de que o feminismo, por definição, precisa incluir membros do sexo feminino como uma casta que ultrapasse fronteiras econômicas e raciais. Da mesma forma, um movimento contrário às castas raciais precisa incluir indivíduos marcados pelo racismo, independente de sexo ou classe. Havia uma compreensão ainda menor de que a discriminação sexual e racial são tão pragmaticamente interligadas e antropologicamente interdependentes que uma não poderá ser erradicada com sucesso sem que, também, se elimine a outra. Portanto, para ser feminista em forma e em conteúdo, saíamos naquilo que Fio Kennedy chamava, alegremente, de "times da Pequena Eva, algo para todo o mundo". Dorothy Pitman Hughes e o marido Clarence tinham tido um bebê que ainda estava sendo amamentado e precisava viajar conosco. Assim, formamos um trio durante algum tempo. Dorothy convenceu-se de que muitos suspeitariam tratar-se de um bebê alugado para demonstrar a integração dos filhos ao dia-a-dia — o que era, na verdade, uma de nossas principais mensagens. De fato, uma ou duas pessoas comportaram-se como se tivéssemos dado à luz a menininha por conta própria. Eram tempos nos quais uma oradora feminista sozinha já era novidade e grupos inter-raciais feministas pareciam fruto do passado, relíquias dos tempos de Sojourner Truth. Dos vários anos viajando em tais pares, guardo recordações de olhares insistentes e de oposição, mas também de um apoio imenso. Nossa presença no palco, juntas, carregava a mensagem pela qual muitas mulheres do Sul dos Estados Unidos ansiavam. Atraíamos um público muito maior e muito mais variado do que se estivéssemos sozinhas. Nós nos complementávamos de maneiras diferentes. Por ser jornalista, meu nome era mais conhecido. Assim, era mais

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fácil que eu conseguisse uma palestra paga, o que nos possibilitaria realizar reuniões e eventos beneficentes. Por outro lado, Dorothy podia falar de sua experiência pessoal no casamento e na maternidade, ao contrário de mim, e Flo e Margaret eram oradoras bem mais experimentadas. Eu sempre falava primeiro, de forma a cimentar as bases da conversa (além do mais, qualquer um presente naquelas platéias concordaria com a afirmação de que eu seria um verdadeiro anticlímax após a energia e o estilo tanto de Flo quanto de Margaret). Mas, mesmo assim, o momento mais importante de qualquer palestra chegava depois que todas nós havíamos falado: a longa discussão da platéia e uma reunião de organização. Era naquele momento que as pessoas começavam a responder às perguntas umas das outras ("O que faço para deixar de me sentir culpada por pedir ao meu marido que faça as tarefas do lar?") e sugerir soluções testadas por cada uma. ("Imagine como seria dividir as tarefas do lar se estivesse vivendo com outra mulher. Agora não vá baixar seus padrões.") Elas se informavam a respeito de problemas que nós jamais sequer sonháramos: uma fábrica local que se recusava a empregar mulheres, uma faculdade que abafava o caso de estupro ocorrido em seu campus para proteger a reputação, um orientador vocacional de um high school que aconselhava as meninas a serem enfermeiras e os meninos de cor a serem veterinários em vez de médicos. Elas distribuíam literatura dos grupos feministas existentes, folhas de papel para que as interessadas em criar novos grupos pudessem se alistar e endereços dos políticos que mereciam ser procurados ou protestados. Elas aproveitavam idéias de ações que trazíamos de nossas viagens ou então decidiam tentar algo inteiramente novo. Os pequenos grupos formados exclusivamente por mulheres, nas discussões que se seguiam às palestras, eram ainda mais diretos, assim como os grupos de autoconsciência e de criação de redes eram (e continuam a ser, como poderá ser visto no ensaio intitulado "Criando Redes") os organismos básicos de qualquer mudança profunda, a longo prazo. Descobrimos que a proporção ideal para uma platéia de grande porte era dois terços feminina e um terço masculina. Quando os homens apareciam em número igual ao das mulheres, elas controlavam suas respostas e observavam os homens para ver como reagiam. Nas ocasiões em que eram maioria absoluta, elas eventualmente se esqueciam da presença masculina e reagiam da forma com

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que reagimos quando estamos entre mulheres. Isso deu a inúmeras mulheres a oportunidade única de se expressar abertamente e a muitos homens a oportunidade ainda mais única de ouvi-las. Mas acima de tudo as mulheres que integravam aquelas platéias descobriram que não estavam loucas e tampouco sós. Foi o que também ; descobrimos. Embora tentássemos nos concentrar nas partes do país mais afastadas da pequena atividade feminista existente na época, havia tão poucas feministas itinerantes que acabávamos visitando todo e qualquer tipo de comunidade em, creio eu, todos os estados americanos, com exceção do Alasca. Houve ocasiões em que nos sentimos como uma mistura das sufragistas Susan B. Anthony, Sojourner Truth e uma troupe esquecida encenando Blossom Time. Naquela época escrevi um ensaio a respeito destas viagens intitulado "Irmandade", mas muitas outras imagens parecem voltar à minha mente: • Durante as coletivas, os jornalistas normalmente supunham que eu podia responder às perguntas relacionadas a todas as mulheres enquanto Dorothy respondia apenas pelas mulheres negras, ou talvez pelos poucos líderes negros cujos nomes conheciam. Da mesma forma que masculino era universal e feminino limitado, branco era tido como universal e negro limitado. (Tentávamos transformar isso em aprendizado deixando que as perguntas se estendessem durante algum tempo para só então chamarmos atenção para o problema.) • Os condutores de trem no norte do país permitiam que eu entrasse no carro-salão para, em seguida, explicar a Dorothy que os vagões mais baratos encontravam-se no final do trem. • O pastor da minúscula cidade natal de Dorothy, no sul, não permitia que as mulheres fizessem coisa alguma além de cozinhar e cantar. Não permitia nem mesmo que fossem diáconos ou que coletassem dinheiro nas cestinhas que eram, principalmente, cheias com moedas ganhas a duras penas pelas mulheres.

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• Uma comissária de bordo branca considerou "obsceno" o fato

de Dorothy amamentar a filha no avião.

• Um homem, irado, presente numa platéia, que gritou exigindo que Dorothy voltasse para a Rússia, onde era seu lugar. Tanto Dorothy quanto a platéia caíram na gargalhada diante de suas improváveis raízes russas. • Uma escola particular para meninos, extremamente esnobe, engendrou nossa platéia mais difícil e uma amiga para toda a eternidade: a mãe de um dos garotos. Ela anunciou que tinha um marido executivo que gostava de caçar, dois filhos desagradáveis que consideravam as meninas seres inferiores e que se dispunha a trabalhar como voluntária de um dos centros de assistência ao menor dirigidos por Dorothy, onde de fato trabalhou por muitos anos. Margaret com os braços cruzados, bravamente, para bloquear a passagem de um homem que invadiu o palco para protestar contra nossas blasfêmias relacionadas à igualdade. • Conversas que varavam a noite em quartos de hotel nas quais, por exemplo, mulheres negras sugeriam que radicalizássemos com as brancas que se ofereciam como verdadeiros capachos humanos para homens negros e que permitiam assim que os negros acusassem as negras de serem "excessivamente fortes". Ouvimos também diversas histórias a respeito de ultrajes que mais tarde vieram a ser conhecidos como "assédio sexual", "mulheres espancadas" e "donas de casa deslocadas". • Uma mulher, em Chicago, resumiu nossa longa explicação do porquê da previdência social ser um assunto de mulheres (a coisa fora distorcida de forma a parecer uma questão puramente racial). Disse que ao terem de cuidar de crianças pequenas, "a distância que separa a maioria das mulheres deste país de ter que recorrer aos fundos de previdência é um homem".

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• Ginásios, auditórios, porões de igrejas e prédios de sindicatos cheios de mulheres (e alguns homens) que riam e aplaudiam ao ouvirem a política sexual de suas vidas ser descrita em vo2 alta. • Começando uma verdadeira rebelião numa universidade do Texas onde os guardas do compus eram suspeitos de estuprar as mesmas mulheres que pagavam seus salários em troca de proteção; ou então numa fábrica onde o seguro cobria homens que haviam feito transplantes capilares mas não cobria mulheres após um parto. • Durante uma conversa com Flo a respeito de seu primeiro livro, Abortion Rap [Conversando Sobre o Aborto] num táxi em Boston, a motorista, uma senhora irlandesa, proferiu palavras que seriam repetidas muitas vezes depois: "Filha, se homem engravidasse, aborto seria um dos sacramentos". • Esforçando-me para manter o mesmo nível de generosidade e energia de Fio que encorajava prostitutas a organizarem-se contra os cafetões e a favor da discriminalização, além de tentar encorajar esposas ricas a interromper heranças passadas de geração a geração de homens. • Aprender, através da experiência de Fio como advogada, que as violências doméstica e sexual são muito mais comuns do que eu jamais sonhara. (Ela disse: "Fale com um grupo de cinco ou seis mulheres. Pelo menos uma delas lhe dirá que sofreu abusos sexuais na infância por um homem de sua própria família". Eu perguntei. Era verdade.) • Assistir a Flo transformar as vidas das mulheres que encontrávamos com qualquer que fosse a mágica: convencer uma repórter insegura a começar seu próprio programa de rádio ou a caixa de um armazém de uma cidadezinha de que não havia problema algum em aceitar que Flo lhe comprasse um conjunto de calça e blusa roxas que ela desejava há meses.

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• Mas acima de tudo, ter aprendido com Flo que ninguém precisa aceitar os termos impostos pela oposição. Por exemplo, quando um homem hostil nos perguntou se éramos lésbicas (coisa que acontecia com uma certa freqüência; afinal, por que haveria uma mulher branca e outra negra de serem companheiras?). Flo simplesmente olhou dentro dos olhos dele e perguntou: "Por que, minha alternativa é você?" Foi Flo, especialmente, que me ensinou que uma revolução sem humor é tão desesperançosa quanto uma revolução sem música. Ela era tão escandalosa que eu me permitia dizer coisas que talvez tivesse restringido ao meu antigo emprego de redatora de sátira para o programa de televisão "That Was the Week That Was" [Aquilo foi na semana que foi]. O próprio feminismo acabou me incentivando a ultrapassar tópicos humorísticos convencionais (como pode ser visto numa fantasia apresentada em palestras posteriores, "Se os Homens Menstruassem"). Flo também me salvou de um hábito que funcionava em artigos mas que era a verdadeira morte em discursos: citar fatos e estatísticas em demasia. Após um lapso do gênero, diante de uma platéia que parecia duvidar de que realmente existisse algum tipo de discriminação, ela me levou para um canto e disse com toda a gentileza: "Olha, não me leva a mal. Se você está deitada numa vala com um caminhão no tornozelo, você não vai mandar alguém à biblioteca para descobrir o peso do caminhão. Você tira o caminhão de cima". A amizade e o companheirismo de minhas três parceiras de palestras me ajudaram a perder o medo patológico de falar em público. No passado, quando as revistas marcavam uma entrevista numa rádio ou na televisão, como é comum para divulgar um certo assunto, eu cancelara tantas vezes em cima da hora que vários programas haviam me banido como convidada. Embora eu não tivesse o menor medo de enfrentar leões, individualmente, em covis separados, como fazem os jornalistas, a simples idéia de ter de enfrentar um grupo, ou até uma platéia inteira, era o bastante para o meu coração bater descompassado e a boca secar. Nas poucas vezes que tentei, eu ficava obcecada com a idéia de poder ou não chegar ao final da frase sem engolir e depois passava vários dias obcecada com o que poderia e deveria ter dito.

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Era vergonha. Era perda de tempo. Eu me criticava por essa inabilidade idiota de falar em público. Em uma das vezes que consegui aparecer num programa de televisão para falar a respeito dos esforços de trabalhadores migratórios para se organizarem, o apresentador, Bill Cosby, tentou fazer com que eu parasse de ranger os dentes dizendo que eu não tinha o direito de estar tão nervosa quando falava em nome de um homem tão importante quanto Cesar Chavez. A tentativa não ajudou em nada. Depois de sofrer os ataques da polícia durante a Convenção Democrática de Chicago, em 1968, eu fiquei enfurecida o bastante para tentar outra vez, mas somente na companhia de Jimmy Breslin, meu colega na revista New York. Nesta ocasião, consegui pronunciar três frases, mas não me senti confiante o bastante para resistir aos cílios postiços impostos pelos maquiadores às convidadas do programa. Assim, a imagem contradisse a mensagem. Partindo do princípio de que eu não conhecia ninguém no Canadá e que, portanto, lá o meu fracasso não seria tão humilhante assim, fiz uma série de programas para a televisão canadense no final dos anos sessenta. A série incluía longas entrevistas com James Earl Jones, com o deputado Adam Clayton Powell, com o primeiroministro Pierre Trudeau e com uma separatista de Québec. (Mais uma vez eu não me senti segura o bastante para sugerir mais convidadas mulheres.) Mas essa série me ofereceu a segurança de ter um convidado extremamente profissional e teipes que poderiam ser editados mais tarde. Eu ainda estava a léguas de distância de conseguir me colocar diante de uma platéia com a responsabilidade absoluta de preencher uma hora inteira de estática. Cheguei a consultar uma professora de oratória. Ela me disse que escritores e dançarinos haviam escolhido profissões nas quais não precisavam se expressar com palavras e que portanto tinham mais dificuldade que a maioria em aprender a falar em público. Eu fora ambas as coisas. Muito antes de me tornar redatora eu fora uma bailarina semiprofissional que sonhara sair de Toledo, no estado de Ohio, sapateando. Decidi que desistiria de uma vez de dizer qualquer coisa em público. Eu teria permanecido em silêncio, como tantas outras mulheres que desistem de inúmeros aspectos de nossas habilidades humarias, se não tivesse tido a sorte de estarmos entrando numa era na qual

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algumas mulheres começavam a desvendar o fato de nossa profunda falta de confiança não ser fruto de inabilidades individuais. Havia por trás disso um arraigado sistema de política sexual. O fato de discutir este assunto tão detalhadamente não se dá apenas por esta ter sido a maior barreira de minha vida, mas também por ser um problema que afeta a maioria das pessoas que sempre dependeram, excessivamente, da aprovação dos outros. (Muitas camadas de causa e efeito políticos foram descascadas quando pesquisei padrões de fala para o ensaio "Homens e Mulheres Conversando".) Uma das coisas mais úteis que ouvi foi dita pela poeta Sandra Hochman: "Não pare para pensar. Finja que você é Eleanor Roosevelt e que precisa terminar este programa de televisão idiota antes de poder fazer algo verdadeiramente importante". Talvez este seja o segredo de oratória zen. Desde então, os muitos anos me expondo diante de platéias me ensinaram que: 1) não se morre disso; 2) não existe maneira certa ou errada, apenas sua maneira de falar; 3) vale a pena. Estabelece-se uma compreensão mútua entre seres que se encontram num mesmo aposento. Há também um sentimento de caráter e de intenção revelado pela televisão que jamais haveria numa página impressa. Hoje em dia, viajo como organizadora quase todas as semanas, às vezes na companhia de outras mulheres, dependendo do assunto ou da platéia em questão. Se tivéssemos que fazer outro road show como aqueles anteriores (e talvez devêssemos fazê-lo), faríamos um show de variedades com mais ou menos uma dúzia de mulheres só para começar a simbolizar quem são as feministas americanas: de americanas de origem mexicana às nativas do Alasca, de portoriquenhas às nativas das ilhas do Pacífico. Precisaríamos também representar mulheres que fizeram outros tipos de escolhas, das donas de casa que exigem respeito pelo seu trabalho às lésbicas que exigem respeito pelo estilo de vida que escolheram. Precisaríamos incluir também alguns homens. E há tantos outros que se autodenominariam feministas com orgulho e plena justificativa. Mas o propósito ainda é o mesmo: dar oportunidade às pessoas de ouvirem aquilo que sentem ser confirmado, de saberem que não estão sós e, desta forma, descobrirem que não precisavam de gente de fora para agitar as coisas. Em qualquer platéia há energia, habilidade, raiva e numor o bastante para se fazer uma revolução.

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Como organizadora itinerante, minhas duas maiores recompensas ainda são a sensação de ter feito alguma diferença e o nascimento de novas idéias. O primeiro item se bastaria, pois é assim que nos damos conta de que estamos vivos. O segundo item, no entanto, é mágica pura. Numa noite especial, uma sala cheia pode disparar idéias que nos levarão a novos lugares. É uma súbita explosão de compreensão e invenção. Ouvimos nossas próprias vozes pronunciarem coisas que sentimos mas que jamais expressáramos. Eu levaria uma vida inteira para escrever todos estes sentimentos. Não obstante, eu não estaria sendo honesta ao culpar o ativismo, exclusivamente, pelo fato de, após quase vinte anos vivendo daquilo que escrevo, este ser o primeiro livro que eu posso chamar de meu.* E notório que escritores arranjem qualquer motivo para não trabalhar: fazem pesquisas excessivas, batem e rebatem o material, comparecem a reuniões, enceram o chão, enfim, qualquer coisa. Organizar, captar recursos e trabalhar para a revista Ms., estas três atividades foram desculpas bem melhores do que as mencionadas acima, e eu as usei. Como disse Jimmy Breslin ao fazer uma campanha simbólica para concorrer a um cargo político que não queria ocupar: "E fácil fazer qualquer coisa que não seja escrever". Em retrospecto, pensando num artigo que escrevi em 1965, embora estivesse escrevendo em tempo integral e adorasse minha profissão vejo que: "Não gosto de escrever. Gosto de ter escrito". Este pensamento vem de "What's In It for Me" (Que vantagem isso me traz), um artigo para o qual a revista Harper's pediu a contribuição de diversos escritores. Na verdade, muitos dos motivos que incluí naquele artigo permanecem: • Há liberdade, ou pelo menos a ilusão de liberdade. Trabalhar em rompantes, em arrancos para cumprir um prazo pode nos restringir tanto quanto ter de aparecer para trabalhar no mesmo lugar todos os dias, mas acho que não... Escrever a respeito de alguém de quem não gostamos ou de uma teoria
*Há dois semilivros: The Thousand Índias {As mil índias}, um guia que escrevi para o governo da índia durante uma estadia como bolsista em 1957 e 1958 que jamais foi editado nos Estados Unidos; e The Beach Book [O livro de praia] (Editora Viking, 1963) cuja antologia foi minha embora contivesse, principalmente, artigos escritos por outras pessoas.

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com a qual não simpatizamos, ou uma instituição com a qual não concordamos, muitas vezes acaba valendo a pena porque o orgulho de ter escrito sobrepuja o preconceito. A palavra impressa assume um poder, uma importância tal, que é impossível não sentirmos uma responsabilidade aguda por elas. • Por outro lado, escrever faz com que eu não acredite em tudo aquilo que leio. • As mulheres cujas identidades dependem mais de seu exterior do que de seu interior são perigosas quando começam a envelhecer. Como eu tenho meu trabalho, é possível que eu não me torne tão difícil assim quando a papada começar a aparecer. • Não preciso me especializar em coisa alguma. Se um ano trouxer artigos a respeito da integração nos bairros da periferia, música eletrônica, Saul Bellow, a moral nas faculdades, John Lennon, três Kennedys, o programa espacial, a política de contratação de canais de televisão, pintura, cultura popular, alistamento para a guerra do Vietnã e James Baldwin, escrever não-ficção pode ser o último bastião para um generalista. • A meu ver, escrever é a única coisa que passa pelos três testes de métier: 1) quando estou escrevendo não sinto que deveria estar fazendo outra coisa no lugar; 2) escrever me dá uma sensação de realização e, de vez em quando, de orgulho; 3) me dá medo.* Não obstante, fico surpresa com a quantidade de coisas que escrevi durante grande parte dos anos sessenta. Eu não relera nenhum destes artigos até desencavá-los para incluí-los nesta coletânea. Rejeitei todos, menos dois que achei mais pessoais: "Eu Fui Coelhinha da Playboy" e as partes iniciais de uma série de reportagens intitulada Em Campanha". Se eu tivesse me dado conta, naquela época, de que tentar escrever como outros jornalistas e ensaístas é precisamente
* What's In It for Me" (Que vantagem isso me traz), revista Harper's, 1965, p. 169.

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o que torna os resultados mais permutáveis e perecíveis, eu teria sentido menos hesitação em escrever na primeira pessoa. Mas me haviam dito que era preferível não escrever nada mais pessoal do que "esta repórter" e eu estava tentando ser uma escritora profissional com uma matéria por escrever. É uma tarefa digna, mas não dá espaço para pensamentos originais. Ainda assim, alguns dos temas daqueles artigos não incluídos ressurgem. Eu tentava claramente aprender com outros escritores, ao escolhêlos como objetos de perfis. James Baldwin estava bem no topo da lista porque eu me identificava com seu senso de ultraje e vulnerabilidade (muito embora naqueles tempos pré-feministas, eu nem sei por que, uma mulher branca de classe média devesse ter tais sentimentos). As Aventuras de Augie March, de autoria de Saul Bellow, foi o único romance a capturar a mobilidade de classes um tanto insana, reinante nos Estados Unidos, que eu mesma sentira ao crescer no meio-oeste americano cheia de livros e pretensões de entrar para o mundo artístico embora vivesse num trailer ou numa casa repleta de ratos e destituída de calefação. Foi por isso que passei tantos dias memoráveis seguindo Bellow enquanto ele visitava os locais que fizeram sua infância em Chicago. Entrevistei Truman Capote duas vezes porque eu me sentira tão atraída pelos seus primeiros trabalhos de ficção, que evocaram de maneira agridoce uma infância passada como espectador, assim como por sua habilidade de escrever de forma séria e empática a respeito das mulheres (incluindo o estupro de uma negra encurralada por homens brancos numa vala de beira de estrada, uma cena da qual jamais me esquecerei). John Lennon foi um tópico sobre o qual escrevi há tanto tempo que estava mais atraída pela sua poesia liverpooliana repleta de trocadilhos do que pela sua música. Mas a única ] forma que encontrei de fazer um artigo vendável foi escrever uma história um tanto convencional sobre seguir os Beatles de perto, em sua visita a Nova York. Entrevistar Dorothy Parker, uma das poucas escritoras com as quais as revistas femininas se importavam o suficiente para publicar um perfil, foi como encontrar uma amiga amarga, de muitos anos. Minha mãe citara seus versos e eu sabia muitos de cor. De fato, nos tornamos amigas. Continuei a visitá-la muito tempo depois do artigo ter sido publicado, no apartamento no qual sua saúde precária a aprisionara. Uma vez cheguei a levá-la a um balé. "Minha querida, aquela história da Távola Redonda foi superestimada, sabe?",

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ela disse, com seu hábito encantador de desbancar glórias do passado. "Era só um bando de pessoas atrás de um almoço grátis dizendo 'Viu só que coisa engraçada eu disse ontem?' " Grande parte das entrevistas a mim encomendadas refletiam o interesse da mídia por celebridades: Mary Lindsay, esposa do recémeleito prefeito de Nova York, e o ator Michael Caine para a revista do New York Times; Margot Fonteyn e Lee Radziwilll para a McCall's; Paul Newman e uma nova estrela chamada Barbra Streisand para o Ladies' Home Journal; e muitos outros. Eu passava pelos perigos típicos de trabalhar para uma revista feminina. No caso da entrevista com Paul Newman, minha tarefa era descobrir como "uma mocinha tão sem graça conseguiu fisgar o astro de cinema mais lindo do mundo". Quando cheguei com a notícia de que Joanne Woodward era pelo menos tão interessante quanto o marido — e se quiserem realmente saber a verdade, a balança pendia mesmo era para o outro lado — meu editor disse que não escreveria uma coisa destas. As leitoras da.Joumal se sentiriam ameaçadas por esposas interessantes. O fato de conseguir que o artigo fosse apenas sobre Paul Newman, para que o relacionamento entre o casal não fosse mal representado, foi uma batalha difícil de ser ganha. Eu consegui incluir algumas mulheres cujo trabalho eu admirava: Marisol como uma escultora iconoclasta; Renata Adler como uma jovem escritora muito esperta, crítica de cinema para o New York Times àquela época; Pauline Frederick como uma excelente repórter de televisão mais velha que teria sido um Walter Cronkite se fosse homem e tivessem permitido que ela envelhecesse diante das câmeras; Barbara Walters como a primeira mulher do Today Show que não era uma vencedora de concursos de beleza e que na verdade fazia suas próprias reportagens. Mas não foram tantas histórias assim. Eu na verdade não lutei o bastante. Sentiame grata pelos perfis de celebridades porque eles iam um passo além das tarefas normais dadas a jornalistas mulheres e às quais eu, muitas vezes, sucumbia. Tais tarefas incluíam: a reportagem a respeito da venda de um hotel que tinha como sua principal atração a cama onde dormiu Zsa Zsa Gabor; uma ida a Londres para entrevistar um novo cabeleireiro chamado Vidal Sassoon (que no final das contas era uma pessoa séria embora a revista Glamour não estivesse interessada em como era a vida num kibutz); uma história sobre o estilista Rudy Gernreich

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(que era um inovador na área de roupas confortáveis, mas uma longa discussão com a revista do New York Times conseguiu apenas a inclusão de seus trajes de banho topless na reportagem). Há também um longo artigo, que exigiu uma pesquisa interminável, a respeito de meiascalças texturizadas, provavelmente o ponto mais baixo de minha carreira de redatora. O último era uma peça para o New York Times, origem de meus trabalhos mais frívolos e sedutores. Após recusar três ou quatro matérias com tópicos tais como o perfil da Park Avenue (com instruções expressas para parar quando a avenida chega ao Harlem Espanhol, onde o número de leitores do Times diminui), eu pensei "Bem, isso ê o New York Times", então me peguei escrevendo a respeito de algo para o qual eu não dava a mínima. O bom e velho Times também tinha alta incidência de editores que pediam que você os acompanhasse a um hotel à tarde ou para colocar suas cartas no correio ao notarem que você estava de saída. Para a revista Life, escrevi um artigo longo e semi-sociológico a respeito da cultura popular, mas não sem antes ser mandada para casa pelo primeiro editor com quem falei lá. ("Nós não queremos uma carinha bonita," ele explicou. "Queremos um escritor.") Houve também diversos artigos protofeministas e filosóficos para a revista Glamour, um pouquinho de sacarina, mas com um germe de experiência pessoal ou sentimento verdadeiro. Até hoje encontro mulheres aqui ou ali que me dizem que tiveram ou não tiveram um caso, que saíram de casa ou fizeram o que quer que fosse porque um daqueles artigos dizia que não tinha problema. Havia colunas culturais para a revista Look; artigos sobre o mundo artístico ou sobre a vida nas universidades para a Show e para a Esquire; projetos únicos tais como o folheto para um show do conjunto Peter, Paul and Mary; sem contar críticas literárias sobre o livro de quase todo o mundo. Em outras palavras, eu vivia de escrever. Mas a maioria desses trabalhos estava longe do que eu imaginara quando fui morar na Índia após a faculdade. Lá, descobri que aquele, e não o nosso, era o padrão de vida normal em quase todo o mundo. Lá, mantive um diário e escrevia sobre o que era caminhar pelos conflitos entre as castas do vilarejo com nada além de uma xícara, um sari e um pente. Quando voltei para casa pela primeira vez, em 1958, tentei, ingenuamente, vender alguns daqueles artigos, assim como um guia que tentava convencer os ocidentais a conhecerem algo além do Taj

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Mahal, mas eu ainda era desconhecida e os artigos muito precoces. Nem mesmo os Beatles conheciam a Índia. Na verdade, muito do meu trabalho anterior ao feminismo é esquizofrênico, até mesmo se comparado à vida que eu estava levando. Eu era voluntária em campanhas políticas mas estava ao mesmo tempo escrevendo quadrinhos e legendas satíricas para fotografias de uma sucessora da revista Mad chamada Help!; entregando inúmeras pizzas e cigarros para um grupo de porto-riquenhos radicais chamado Os Jovens Lordes, que incluía algumas das predecessoras do feminismo apesar do nome do grupo, ao ocuparem uma igreja no Harlem Espanhol; escrevendo a respeito de comidas tradicionais dos Natais de outrora para a revista Glamour; viajando debaixo de um calor de mais de 40 graus na companhia de César Chavez e sua Marcha dos Pobres, até a fronteira mexicana para organizar a cobertura do evento pela imprensa, enquanto escrevia sobre férias nos trópicos; conseguindo o dinheiro para a fiança e coletando roupas para trabalhadores migratórios que se organizavam em Long Island, e simultaneamente entrevistando James Coburn a respeito de um filme estilo James Bond. Como uma das poucas "jornalistas-moças", eu também viajava lado a lado com o beautiful people sobre o qual eu estava incumbida de escrever e às vezes era fotografada como se fosse um de seus membros de menor importância. Ao mesmo tempo, eu pagava US$ 62,50 por mês por um apartamento conjugado que eu rachava com uma artista plástica enquanto meu American Express — no qual eu pendurara todas as despesas da marcha até a fronteira mexicana que aqueles trabalhadores rurais não teriam podido financiar — era cancelado pela administradora do cartão. Grande parte da disparidade entre imagem e realidade era por minha conta. Eu não me levava a sério o bastante para expressar aquilo que eu pensava e com que me preocupava. Além do mais, errara logo de cara ao aceitar fazer uma matéria para a revista Show para a qual eu teria de trabalhar como Coelhinha no Playboy Club a fim de escrever sobre como era a vida num daqueles clubes. É bem verdade que devolvi o sinal que me foi dado para transformar a entrevista em livro, evitando assim as pilhas de livros com o meu nome estampado debaixo do título "Eu Fui Coelhinha da Playboy" e só Deus

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sabe que tipo de ilustrações. Logo comecei a ser identificada única e exclusivamente devido ao tal artigo. Chegou a engolir meu primeiro artigo assinado, uma reportagem para a Esquive a respeito da revolução da pílula anticoncepcional, publicado um ano antes e que atraíra muitos novos trabalhos. (Vejo que esse artigo de 21 anos de idade termina da seguinte forma: "O único problema com mulheres sexualmente liberadas é que não há um número suficiente de homens sexualmente liberados". É interessante que eu tenha sido capaz de tamanha lucidez sendo, ao mesmo tempo, tão cega para o resto.) Perdi a oportunidade de escrever um artigo investigativo a respeito da Agência de Inteligência dos Estados Unidos. Eu passara a duvidar de que a Agência representasse o país de forma acurada após vêla em ação na Índia. Em vez disso, me foi sugerido que posasse de garota de programa para denunciar a prostituição de alto nível. A aurora do feminismo afinal me fez compreender que a reportagem a respeito do falso glamour do Playboy Club e de sua exploradora política empregatícia fora útil. Posar de garota de programa (algo que não fiz por ter achado a idéia insultante e assustadora) teria sido uma tarefa digna de Nellie Bly. Mas naquela época eu ainda não sabia me defender das piadinhas sexuais e da mudança de atitude dos outros em relação a mim desde a publicação do artigo sobre as Coelhinhas da Playboy. Meu coração ficava apertado cada vez que me apresentavam como ex-coelhinha ou quando vi minha foto de funcionária publicada na.Playboy sem maiores explicações. (Até mesmo vinte anos depois, estas duas ocorrências se repetem. Esta última é uma vingança contínua da revista.) Embora eu me identificasse emocionalmente com outras mulheres, incluindo as Coelhinhas com as quais trabalhei, eu fora criada para acreditar que a única chance de ser levada a sério estava em provar que eu era diferente delas. Foi só quando ajudei a fundar a revista New York em 1968, tornando-me editora contribuinte e colunista política, que meu trabalho de redatora e meus próprios interesses começaram a se fundir. Para o primeiro volume da New York, escrevi um artigo curto intitulado "Ho Chi Minh em Nova York" — uma provável experiência do misterioso líder antícolonialista cuja afeição por seu país e respeitado status como o "George Washington do sul da Ásia" eu conhecera durante minha estadia na índia. Só consegui colocar essa e outras experiências vividas nestes dois anos cruciais de minha vida uma década depois

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de vivê-las. Também me ensinaram que uma mulher branca era menos ameaçadora do que um homem branco e, assim, eu tinha maior facilidade em penetrar em diferentes culturas. Isso me ajudou quando, após o assassinato de Martin Luther King — eu me encontrava frente à televisão, muda —, recebi um chamado do editor da New York, Clay Felker, exigindo que "eu me mandasse para o Harlem para conversar com o povo". Eu sabia que, assim como na índia, eu estaria segura contanto que me mantivesse na companhia de outras mulheres. Foi também a primeira vez que me senti repórter. Quando o recém-eleito presidente Nixon enviou Nelson Rockfeller num tour pela América do Sul, a New York me incumbiu da missão de acompanhar a jornada, no avião da imprensa. O resultado foi a narrativa de uma viagem extremamente impopular, "O Som de Uma Mão Aplaudindo". Escrevi a respeito de John Lindsey como prefeito e Ed Koch como deputado; a respeito dos veteranos feridos na Guerra do Vietnã que foram enviados para um hospital do Queens diretamente dos campos de batalha para serem vítimas de um movimento pela paz, além de vítimas da guerra. Escrevi a respeito da kwashiorkor, doença relacionada à falta de proteínas no organismo que acreditávamos estar restrita aos confins da África; a respeito das batalhas dos bairros pedindo creches. Escrevi a respeito de protestos contra o Vietnã e as mobilizações pela paz e a respeito da atitude dos jornalistas a bordo de aviões das campanhas presidenciais. Pela primeira vez, eu não escrevia a respeito de uma coisa enquanto me preocupava com outra completamente diferente. Eu podia ir atrás de meus interesses pessoais. Mesmo assim, foi só quando cobri uma audiência local sobre o aborto para a New York que a política de minha própria vida começou a explicar meus interesses. Em protesto a uma audiência oficial, na qual quatorze homens e uma freira foram convidados a depor sobre a liberalização das leis antiaborto no estado de Nova York, um precoce grupo feminista pedia que as mulheres dessem seu testemunho, que contassem suas experiências pessoais com abortos ilegais. Sentei-me no porão de uma igreja para ouvir mulheres contar, diante de uma platéia, o desespero de buscar auxílio; ouvi-as relatar os estupros por médicos antes dos abortos, os avisos de que deveriam aceitar a esterilização como preço pelo aborto e o risco que correram com procedimentos clandestinos, ilegais e arriscados. Era como os testemunhos que eu ouvi-

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ra durante as reuniões pelos direitos civis, no começo da década de sessenta: relatos emotivos, fundamentados em verdades pessoais. De repente, eu não estava mais aprendendo, intelectualmente, o que estava errado. Eu sabia. Eu procurara e me submeteta a um aborto assim que saí da faculdade. Não contei a ninguém. Se três de cada quatro mulheres adultas passavam pela mesma experiência, por que cada uma de nós era levada a se sentir só e criminosa? Como poderíamos vir a ter algum poder se não tínhamos poder sobre os próprios corpos? Pesquisei muito a respeito de questões reprodutivas e outras nascentes do feminismo e escrevi um artigo respeitável e objetivo (não escrevi um eu em lugar algum) chamado "Depois do Movimento Negro, o Movimento Feminista". Não continha nenhuma das emoções que eu senti no porão da igreja e certamente não contava que eu também fizera um aborto. (Embora o testemunho de outras mulheres tivesse me deixado à vontade para contar a experiência pela primeira vez na vida, eu ainda achava que redatores inspiravam mais confiança quando escondiam suas experiências pessoais. Eu ainda tinha muito o que aprender.) Mas previ que estas mulheres mais jovens e mais radicais, saídas dos movimentos pacifistas e de direitos civis, afetariam as reformistas de classe média da N O W — Organização Nacional para Mulheres, juntando-se às mulheres pobres que já se organizavam em torno de questões previdenciárias e da assistência ao menor. O resultado seria um movimento de massa, importante e duradouro. Hoje em dia, esse artigo pareceria tão radical quanto o ar que respiramos. Mas em 1970, um ano após sua publicação, ele recebeu o Prêmio Penney-Missouri de Jornalismo por ser a primeira reportagem a falar abertamente sobre a onda de feminismo. Meus colegas e amigos homens, no entanto, receberam-no com imenso alarme. Muitos me levaram para um canto para perguntar, bondosamente: Por que haveria eu de escrever a respeito destas coisas em vez de escrever sobre algo sério, político e importante? O interessante era que esses homens eram os mesmos que achavam que trabalhar como coelhinha para escrever um artigo longo, que recebeu muita atenção da mídia, fora um excelente passo para minha carreira. Agora ficavam cheios de dedos em relação a um breve artigo escrito sobre um movimento político feminino.

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Pela primeira vez comecei a questionar a honra que me era concedida como a única "moça repórter" no meio de tantos homens, por mais talentosos e benevolentes que eles fossem. Toda a raiva que eu suprimira, gerada por tantas experiências passadas, negadas ou ignoradas, voltaram numa torrente: os apartamentos que não pude alugar porque os senhorios supunham que uma mulher sozinha não poderia pagá-lo (ou se pudesse devia ser prostituta); as matérias políticas que davam para jornalistas homens, mais jovens e menos experientes; o fato de suporem que as matérias que me davam eram devido ao fato de eu ser "bonitinha" (até mesmo numa época em que, eu subitamente me dei conta, todos os meus editores eram mulheres); os salários mais baixos porque mulheres, na verdade, não precisam de dinheiro; os comentários maldosos que acompanhavam qualquer reconhecimento do meu trabalho ("mais fácil do que você imagina" dizia uma legenda, sob uma fotografia minha publicada pela Newsweek — legenda esta tirada de um comentário meu a respeito de ser redatora free-íancer, "é mais fácil do que você imagina"); os amigos bem intencionados que me encorajavam a me casar com o homem com quem eu estivesse saindo na época, contanto que tivesse talento ou algum dinheiro; uma vida inteira tendo de sorrir ao ouvir piadas de outros jornalistas a respeito de mulheres frígidas, louras burras e filhas de fazendeiros para poder ser aceita como "um dos rapazes". E o pior de tudo: minha própria aceitação de todas as pequenas humilhações e minha própria recusa em confiar na minha própria compreensão emocional do que ocorria, ou até mesmo em minhas próprias experiências. Por exemplo, eu acreditava que as mulheres não se davam bem entre si, até mesmo quando algumas das pessoas nas quais eu mais confiava eram mulheres. Eu concordava que as mulheres eram mais "conservadoras", mesmo quando eu me identificava emocionalmente com todos os grupos discriminados. Eu aceitava que as mulheres eram sexualmente "masoquistas", embora eu soubesse que a confiança e o carinho eram uma parte imprescindível de minha atração sexual por um homem. É realmente inacreditável quanto tempo passamos aceitando os mitos que opõem nossas próprias vidas, presumindo que somos nós as estranhas exceções. Uma vez que a coisa foi se iluminando, eu não conseguia compreender como eu não fora capaz de perceber tudo isso antes. Comecei a ler todos os trabalhos feministas que me passavam

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pela frente e a conversar com todas as feministas ativas que vim a conhecer. Para as poucas revistas que se interessavam naquela época, escrevi artigos que refletiam esse movimento crescente: a possibilidade de uma presidenta ocupar a Casa Branca para a revista Look, mais artigos sobre a política sexual para a New York, um artigo intitulado "Como Seriam as Coisas se as Mulheres Vencessem" que acompa- ] nhava a sensacionalista chamada de capa a respeito de Kate Millett 1 — que escreveu A Política do Sexo, publicado em 1970, que estabelecia o patriarcado como a base de todo o poder. (Mais tarde, descobri que eu ganhava menos do que os jornalistas homens que escreviam um artigo parecido para a Time — o que foi mesmo que eu, disse sobre mulheres vencerem?) Mas a maioria das revistas dizia: "Eu sinto muito mas publicamos nosso artigo feminista no ano passado". Ou então: "Se publicarmos um artigo dizendo que as mulheres são iguais, teremos de demonstrar nossa objetividade publicando um artigo logo a seguir dizendo que não são iguais". Os editores que acreditavam que eu possuía algum insight biológico em relação a alimentos, astros de cinema e meias-calças texturizadas agora se perguntavam se eu, ou qualquer outra jornalista mulher, possuía a capacidade biológica de escrever, objetivamente, a respeito do feminismo. Reações como essas me levaram a falar, em vez de escrever. Pareceu-me ser a única forma de relatar as realidades mais profundas que eu vislumbrara na noite da audiência sobre aborto. Comecei a aprender com outras mulheres, a decifrar a política que controlava minha própria vida e a experimentar dizer a verdade em público. Era o começo. Mas não era o fim. O primeiro lampejo de consciência revela tanta coisa que até parece o nascer do sol. Na verdade, parece mais uma vela na escuridão. Por exemplo, eu poderia ter juntado num livro aqueles perfis e artigos muito antes que se tornassem obsoletos. Também poderia ter tentado escrever um único trabalho que seria, em si, um livro. Por que jamais fiz o primeiro? E por que, até mesmo agora, tanto tempo depois, ao criar esta coletânea, continuo a negar-me o último? Antes do feminismo eu dizia a mim mesma que meu trabalho simplesmente não podia ser tão bom assim. Essa desculpa mascarava minha crença de que minha verdadeira identidade viria do ho-

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mem com quem eu me casasse, não do meu trabalho. Isso também não deixava que eu admitisse ser insegura demais para me empenhar num trabalho longo e solitário. Eu precisava do afago que vem, freqüentemente, depois de cada artigo publicado. Imediatamente após a aurora do feminismo, comecei a notar que muitos de meus contemporâneos homens começavam a derrubar florestas e encher livrarias com trabalhos em capa dura, embora não escrevessem melhor do que eu. Muitos eram bem piores. Outros tinham idéias imitadas que não pareciam justificar a morte de uma árvore. Naquele primeiro lampejo de consciência, notei também que a maioria tinha esposas, secretárias e namoradas que pesquisavam, editavam e diziam coisas reverenciais tais como "Shhh, o Norman está trabalhando". Enquanto isso, eu me sentia tão "não feminina" em precisar admitir que eu também amava e era tão obcecada pelo meu trabalho embora, ao contrário de meus colegas homens, jamais pedisse ajuda a meus amantes para a pesquisa ou para o que quer que fosse e raramente colocasse meu trabalho acima dos compromissos sociais dele. Eu jamais disse com firmeza "Quero trabalhar". Ao contrário, eu ficava toda sem jeito, pedia desculpas e dizia "Eu sinto muito. E que o prazo de entrega está muito próximo". Só mais tarde é que fui compreender que a necessidade de emergências externas para justificar algo "não feminino" como o trabalho é algo muito comum entre as mulheres, um fenômeno aqui explorado no ensaio "A Importância do Trabalho". Na verdade, uma medida da ingenuidade feminina é a incrível variedade de formas que encontramos para invocar a autoridade masculina, as circunstâncias econômicas ou outros motivos para justificar o que queremos fazer. Este subterfúgio nos permite manter uma postura passiva, "feminina" enquanto nos rebelamos secretamente. Como é o caso de grande parte dos logros, e um gasto inútil de talento, invenção e tempo. Só muito mais tarde é que fui compreender que minha resistência em levar a cabo um livro, ou qualquer atividade de longa duração — ou planejar qualquer meta futura—era mais um sintoma de impotência. Mesmo depois que deixei de achar que minha vida seria decidida pelo homem com quem me casasse (e como demorou esse depois"), eu ainda tinha dificuldades em dizer "Eu quero estar em tal posição daqui a cinco anos". Ou mesmo daqui a um ano. As res-----es de classe e raça fazem com que muitos homens sintam-se

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igualmente sem controle e sujeitos aos caprichos dos outros, mas raramente no mesmo grau que as mulheres, treinadas para ser sujeitadas às necessidades de um marido real ou em potencial e dos filhos, ou do poder de classe e raça. Ao escrever "O Fator Tempo" compreendi que o planejamento prévio é uma função de casta e de classe em geral e que eu, como indivíduo, estou apenas começando a compreender e a resistir a essa forma passiva de pensar. A medida que as antigas suposições vão se esvaindo, cada camada da nova observação contém uma verdade. A consciência crescente se expande mas não nega a visão anterior. Por exemplo, ultimamente venho me perguntando o que há de tão sagrado num trabalho escrito longo e contínuo. A vida não é sempre vivida em temas que tomam um volume inteiro. Formas mais curtas ou uma série de insights em relação a um assunto podem ser igualmente úteis e dão à prosa um pouco da economia e profundidade da poesia. A idéia da técnica episódica talvez liberte alguns escritores homens que vêm lutando para criar conexões lineares e de simplicidade pouco realista, para não falar das inúmeras escritoras que trabalham à mesa da cozinha com apenas algumas horas de concentração ao seu dispor antes das crianças chegarem da escola. Afinal de contas, a espontaneidade, a flexibilidade e o talento para viver o presente são o outro lado da incapacidade de se controlar o tempo. Enquanto nós mulheres descobrimos aquilo que precisamos aprender, não devemos jogar fora ou subestimar a importância universal daquilo que já sabemos. Por exemplo, quando me perguntam a respeito das recompensas e dos castigos de uma vida, até aqui, tão diversificada, eu sinto necessidade de desencavar temas contínuos e conclusões bem amarradas. Na verdade, penso em cenas intensas e recordações plausíveis e as categorias de recompensa e castigo não são sempre claras. Alguns dos piores castigos acabaram por ser tio educativos que afinal tornaram-se recompensas, enquanto algumas das supostas recompensas foram, além de castigos, difíceis de ser combatidas por parecerem recompensas. (Como, por exemplo, a solidariedade recebida por causa dos problemas gerados pela fama é tão limitada quanto a solidariedade prestada aos ricos.) Levando em conta a intenção de castigar pelo que ela é, aqui estão algumas das piores cenas.

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• Acordar com o programa Today na TV e ver um comercial para um romance apelativo que mostrava uma mulher seminua com cabelos e óculos iguais aos meus, debruçada languidamente sobre uma mesa na qual se encontrava um colar com o símbolo do feminismo. Em off, a voz do locutor: "O Símbolo. Ela usava os homens... mas preferia as mulheres." Na verdade, esse exemplo de que "toda mulher rebelde é lésbica" acabou sendo uma lição muito útil. As mulheres que ainda não haviam encarado o lesbianismo como uma questão do feminismo me escreveram para dizer que agora compreendiam que todas as mulheres podiam ser detidas ou divididas por essa acusação até conseguirmos não nos sentir insultadas, transformando o lesbianismo numa escolha honrada. • Abrir uma carta-circular de Natal enviada por um primo e a esposa, que infelizmente possuía o mesmo sobrenome que eu e, entre notícias variadas a respeito de pescarias e outras atividades de aposentados, descobrir um anúncio de que haviam, formalmente, me deserdado. Como feminista eu era "desleal" a Deus, ao Homem e à Pátria. O tal anúncio magoou minha mãe mas depois que eu descobri que eles ainda eram segregacionistas e que haviam se desentendido com minha avó por defender o direito da mulher ao voto, muitos anos antes de meu nascimento, passei a considerar o episódio não só uma honra mas também uma tradição familiar. • Assistir Al Capp me denunciar na televisão como "a Shirley Temple da Nova Esquerda" e alguém comparável a Richard Speck, o sádico assassino de oito enfermeiras. Sim, claro. Al Capp foi além e comparou "as líderes da liberação feminina" com "assassinos em massa". Creio que a teoria seja que o feminismo elimine mulheres. Mais tarde, descobri que sua carreira como pessoa pública fora maculada com alegações e um processo por assédio sexual a jovens em campus universitários onde ele freqüentemente dava palestras. Mesmo assim, suas palavras me magoaram.

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• Assistir Richard Speck explicar na televisão que nem todas as mulheres que ele assassinara eram "como Gloria Steinem". Embora estivesse sendo entrevistado na prisão, seu ódio pelas mulheres e seus atos genocidas não são exclusivos dele e suas palavras me amedrontaram. • Ouvir o ascensorista contar que um ocupante de uma sala no mesmo prédio em que eu tinha escritório dissera: "Soube que Gertrude Stein trabalha neste prédio. Como é que eu nunca a encontro no elevador?" No começo achei a história apenas engraçada. Mais tarde percebi que a imagem de uma mulher rebelde continha todas as outras. E verdade. Todas nós nos parecemos. • Durante um discurso no Texas dei com dúzias de pessoas do lado de fora do anfiteatro com cartazes: GLORIA STEINEM É UMA HUMANISTA. Eu pensei: Puxa, legal, devem ser amigos. Ao me aproximar, vi o ódio em seus rostos e me dei conta de que eram direitistas fazendo piquete e para eles humanista — ou qualquer palavra que signifique crer no ser humano em vez de num deus autoritário — é a pior coisa que alguém pode ser. • Ser constantemente exposta pela direita (porque o feminismo é "um complô da esquerda para destruir a família") e ocasionalmente pela esquerda (porque o feminismo é "um complô da direita para destruir a esquerda"). Foi daí que deduzi: As Feministas Serão Culpadas Por Tudo. • Ser acusada de ser agente do comunismo (porque fui a dois Festivais da Juventude promovidos pelos soviéticos há décadas) e agente do governo (porque os americanos que compareceram aos tais festivais foram em parte subsidiados por fundações que, erradamente, aceitaram fundos do governo dos EUA). Ou ser acusada de ambas as coisas por apoiar os direitos das lésbicas (que já foram chamadas tanto de "complô comunista antifamília" quanto de "complô do FBI para desacreditar o Movimento Feminista"). Acho tais acusações

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descabidamente dolorosas. Todas sugerem que minha mente e meus atos não me pertencem. • Ser acusada de "usar homens" para ter meus artigos publicados, para conseguir algum avanço e até mesmo para ter êxito como feminista — qualquer coisa. Como esta é uma acusação constantemente feita a mulheres bem-sucedidas em qualquer que for a área, talvez seja a raiz de todas as acusações. Enquanto forem raras as mulheres que se dão bem neste mundo, até mesmo outras mulheres podem deduzir erradamente que elas seguiram ordens de homens para chegarem onde estão. A única pergunta a fazer seria: Que homens? • Ver um número da revista Screw espalhada pelas bancas de Nova York estampando o desenho de uma mulher nua com os meus óculos e os meus cabelos, os lábios vaginais realçados, uma coleção de pênis cuidadosamente desenhados em torno da página e as instruções no cabeçalho: COLE O PÊNIS NA FEMINISTA (uma alusão ao jogo infantil de colar o rabo no burrico). Sentindo-me desamparada e humilhada, mandei que um advogado enviasse uma carta ao editor da Screw, Al Goldstein. Recebi uma caixa de bombons com um bilhete: "Eat It" ("Coma", mas ao mesmo tempo "Vai se ferrar"). Só mesmo o humor de Bella Abzug me salvou da depressão. Quando expliquei a ela a respeito do nu com detalhes precisos da genitália com meu rosto e minha cabeça ela disse, simplesmente, "e meus lábios". Há também as ocasionais ameaças de bombas inventadas para esvaziar recintos (normalmente avisadas por telefone por um autodenominado "Pró-Vida" que parece não enxergar a ironia de estar ameaçando vidas), os artigos dolorosos que eu finalmente aprendi a não ler por não haver nada que pudesse fazer a respeito, a frustração de não poder ter direitos legais sobre minha própria vida e a raiva de ter de assistir às questões relacionadas à sobrevivência de uma mulher ridicularizadas ou mal interpretadas. Mas existe a enorme recompensa de trabalhar em tempo integral com algo que me interessa de tal forma que eu trabalharia até de graça. Há também o problema de se

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ganhar bem menos do que se ganharia trabalhando fora de um movimento social. A recompensa financeira até não seria tão ruim se os termos "rico e famoso" não fossem usados como frase única com tanta freqüência que se tornou difícil separar "rico" de "famoso". Ser ressentida por um dinheiro que não se tem não dá uma boa combinação. Mesmo assim, todos os castigos tornam-se, de alguma forma, mais fáceis de descrever do que as recompensas, embora estas signifiquem muito mais. Talvez as mulheres estejam tão acostumadas à melancolia — e mesmo a usar humor como um paliativo para a raiv a — que as vitórias e as celebrações parecem um território novinho em folha. Na verdade, há muitas cenas e muitas recordações sensoriais de recompensas tangíveis e emocionais. • Ouvir cinco mulheres dizerem que amam seus empregos e que não os poderiam ter se não fosse o feminismo: uma comissária grávida, uma bombeira, a mais alta autoridade feminina do estado de Nova York, uma carpinteira sindicalizada, a primeira astronauta — e ouvi-las todas num só dia. • Ser parada na rua por um motorista de caminhão que me disse que a mulher que amava e com a qual vivia há três anos não queria se casar com ele e ter filhos porque ele não queria que ela continuasse a trabalhar. Então ele assistiu a uma entrevista na qual eu perguntava aos homens como se sentiriam se fossem exatamente as mesmas pessoas que eram hoje, só que mulheres. Ele tentou fazer o exercício durante algum tempo e mudou tanto que ele e a mulher em questão estavam agora casados e felizes. Ele me agradecia, mas o milagre da empatia foi todo dele.

Ver todos os dias, a caminho do trabalho, uma mulher negra de meia-idade que é guarda de trânsito. Ela é a Toscanini da encruzilhada mais movimentada de Manhattan. Ela sorri para mim e diz "Ferro neles" e me deixa com uma sensação absurda de orgulho feminino e bem-estar. Descobrir que meu excelente dentista se aposentou e deixou o consultório para uma jovem calma e igualmente excelente.

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• Sair num tour pelo estado de Minnesota, indo do Iron Range até os vilarejos rurais, e encontrar porões de igrejas e quadras de esportes nas escolas cheios de homens e mulheres que se autodenominam, com extrema simplicidade, feministas. • Dar palestras em universidades que outros alunos denominam "conservadoras" ou "apáticas" e encontrar o pessoal do departamento de Estudos Feministas e os funcionários administrativos se organizando para protestar contra cinemas que exibem filmes pornográficos, para criar uma linha direta sobre estupro, os primórdios de uma creche que sirva a alunos e professores, enfim, tudo aquilo que não existia há dez ou até mesmo há cinco anos atrás. • Conhecer um padre católico no meio-oeste americano que reza para "Deus, nossa Mãe" como um tipo de reparação pelos cinco mil anos de patriarcado e que me convidou ao púlpito para pregar a homília; ler a declaração pública de um grupo de freiras que se opunha à posição antiaborto do bispo; ouvir uma rabina e uma cantora de coro conduzir um belíssimo e inclusivo memorial pela morte da mãe de um amigo em Nova York; conhecer uma sacerdotisa da igreja episcopal de Washington que rompeu barreiras para si mesma e para outras movendo uma ação eclesiástica; e encontrar escolas de teologia e aulas de Bíblia que honram, como mártires, os milhões de mulheres queimadas como bruxas por haverem resistido a um deus cruel e patriarcal. • Tomar aviões nos quais as comissárias me contam das últimas ações por elas movidas e me colocam na primeira classe embora eu tenha comprado um bilhete na classe econômica. Elas comparecem às minhas palestras em suas noites de folga, em cidades que não conhecem, se oferecem como voluntárias para lobbies e me mandam para casa com pedacinhos de papel com lembretes para que eu não me esqueça de que precisam de notícias disso ou daquilo ou do endereço do grupo feminista mais próximo.

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• Ouvir repetidas vezes "O feminismo salvou minha vida" ou "Pela minha mãe, muito obrigada" ou "Passei a compreender minha esposa melhor" ou "Minha filha será o que eu não pude ser" — ser agraciada com a gratidão pessoal e os triunfes de estranhos cujas vidas se tornaram mais amplas pelo feminismo. • Sentada num ethnic hall em Detroit na comemoração dos dez anos da revista Ms., sentir um tapinha no ombro dado por uma mulher miúda de meia-idade e cabelos grisalhos, mãos nodosas de quem trabalhou duro e um vestido de algodão bem engomado que era claramente seu melhor vestido. "Eu só queria que você soubesse", ela disse baixinho, "que você é o que eu tenho dentro de mim." E num único momento todas as recompensas se revelam. Lembrando seu toque e suas palavras, ainda sinto as lágrimas em meus olhos. Tive um sonho repetidas vezes. Eu lutava com uma só pessoa ou com várias, lutando, chutando e batendo com o máximo de força possível porque tentavam me matar ou machucar alguém que eu amava. Eu lutava com toda a força, com toda a fúria que me era possível, com cada vez mais força. No entanto, por mais que eu lutasse, elas simplesmente sorriam. Nos anos setenta contei este sonho a outras mulheres e descobri que elas tinham sensações semelhantes. Meu sonho era a representação clássica da raiva, da humilhação e da impotência. Em algum ponto, nos anos que se seguiram, parei de ter este sonho. Pensando na mulher de Detroit me dou conta hoje de que associo seu desaparecimento com as palavras por ela proferidas. Elas cristalizaram em um momento o que as mulheres podem e estão fazendo umas pelas outras: estamos oferecendo umas às outras um poder novo e pleno de compaixão. Na verdade, mulheres e homens começaram a se resgatar das prisões de papéis sociais que, de muitas formas, pequenas ou não, lhes foram impostas. Espero que, nas páginas deste livro, você tenha um momento ou um fato ou uma idéia que lhe resgate. _1983

Eu Fui Coelhinha da Playboy

Aceitei uma matéria munida de um enorme diário e o seguinte anúncio:
GAROTAS: Será que as Coelhinhas da Playboy Realmente Têm Empregos Glamourosos, Conhecem Gente Famosa e Ganham Bem? Sim, é verdade! Jovens atraentes podem ganhar entre US$ 200 e US$ 300 por semana no fabuloso Playboy Club de Nova York, deleitar-se com a glamourosa e excitante aura do show business e ter a oportunidade de viajar para os outros Playboy Clubs espalhados pelo mundo afora. Quer estejam servindo drinques, tirando fotos ou recebendo nossos convidados à porta, o Playboy Club é o palco e as Coelhinhas as estrelas. O charme e a beleza de nossas Coelhinhas foram louvados na Time, na Newsweek, na Pageant, e o apresentador Ed Sullivan denominou o Playboy Club "a maior e mais nova atração do show business". O Playboy Club é hoje o local mais badalado de Nova York. Se você é bonita e simpática, tem entre 21 e 24 anos, solteira ou casada, este anúncio é para você. Não é necessário experiência anterior. Inscreva-se pessoalmente em ENTREVISTAS ESPECIAIS, sábado e domingo, 26 e 27 de janeiro, das 10 às 15 horas. Favor trazer maiô ou malha de ginástica. THE PLAYBOY CLUB East 59th Street n° 5

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Decidi que me chamarei Marie Catherine Ochs. Trata-se, que meus antepassados me perdoem, de um sobrenome de família. É do meu ramo da família e conheço bem suas origens européias. Além do mais soa quadrado demais para ser falso.

SEXTA-FEIRA, 25

Passei a tarde inteira inventando uma história pessoal para Marie. Compartilhamos o mesmo apartamento, o mesmo telefone e as mesmas medidas. Embora ela seja quatro anos mais nova do que eu (eu já passei do limite de idade para ser Coelhinha), Marie e eu comemoramos nossos aniversários no mesmo dia e estudamos na mesma escola e na mesma faculdade. Mas ela não se deixou escravizar pelos estudos — não, não Marie. Depois de um ano ela me largou, me empurrando pelo caminho que me levaria a um bacharelado, e em| barcou num vôo charter para a Europa. Ela não tinha um centavo, mas curtos períodos trabalhando como garçonete em Londres, como dançarina em Paris e secretária em Genebra foram o bastante para bancar seus verões de rata de praia e suas outras escapulidas. Ela voltou para Nova York no ano passado e trabalhou temporariamente como secretária. Três amigos em comum concordaram em dar fortes recomendações pessoais. Todos que a conhecem a adoram. Amanhã é o grande dia. Marie sairá deste caderno pela primeira vez e entrará no mundo real. Estou de saída para comprar uma malha para ela.

SÁBADO, 26

Hoje vesti as roupas mais teatrais que pude encontrar, enfiei a malha numa bolsinha e caminhei até o Playboy Club. E impossível não vê-lo. O discreto prédio de escritórios e a galeria de arte que ocupavam o local foram transformados num reluzente retângulo de vidro. O interior acarpetado de laranja é claramente visível, de fora, com uma moderníssima escadaria flutuante espiralando clube acima pelo centro. O efeito geral é alegre e surpreendente.

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Atravessei em direção ao clube onde um homem de meia-idade, vestindo uniforme de guarda particular, sorriu e chamou: Pst, pst, pst, pst, Coelhinha... —Ele ergueu o dedão e apontou para a porta de vidro à esquerda. — As entrevistas são lá embaixo, no Playmate Bar. O interior do clube estava iluminado com tal dramaticidade que levei alguns segundos para me dar conta de que estava fechado e vazio. Desci uma pequena escadaria e fui cumprimentada por uma tal Srta. Shay, uma mulher magra, de seus trinta anos, que encontrava-se atrás de uma escrivaninha no bar escuro. — Coelhinha? —perguntou, asperamente. — Sente-se ali, preencha este formulário e tire o casaco. — Pude ver que duas das mesas já estavam ocupadas por outras garotas curvadas sobre o lápis. Olhei para elas com curiosidade. Eu chegara bem no meio do horário de entrevistas, esperando ver o maior número possível de candidatas, mas havia apenas três. — Tire o casaco — a Srta. Shay repetiu. Ela me examinou atentamente enquanto eu o fazia. Uma das garotas se levantou e caminhou até a escrivaninha, os saltos altos de acrílico estalando contra seus calcanhares, emitindo segurança e charme. — Me diga uma coisa — ela disse. — Você vai querer as medidas com ou sem sutiã? — Com — respondeu a Srta. Shay. — Mas eu sou maior sem — a garota contrapôs. — Está certo — disse a Srta. Shay, um tanto enfadada. — Sem. Outras duas garotas desceram as escadas. Tinham uma aparência de frescor, não usavam maquiagem. — Coelhinhas? — indagou a Srta. Shay. — Não exatamente — disse uma, mas a outra pegou uma ficha. Os cabelos longos e os mocassins denunciavam o status de universitárias. O formulário de solicitação de emprego era curto: endereço, telefone, medidas, idade e os três últimos empregos. Terminei de preenchê-lo e resolvi ganhar tempo lendo um prospecto intitulado SEJA COELHINHA DO PLAYBOY CLUB! O folheto continha, er n sua maioria, fotos: uma foto em grupo mostrava Coelhinhas "escolhidas de todos os cantos dos Estados Unidos" rodeando "o presidente do Playboy Club e editor da revista Playboy, Hugh M. Hefner"; m close de uma Coelhinha servindo um drinque a Tony Curtis "um

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devoto do Playboy Club que em breve estrelará um filme de Hugh M. Hefner intitulado, apropriadamente, Playboy"; duas Coelhinhas sorridentes ao lado de Hugh M. Hefner no "Playboy Show, exibido em cadeia nacional"; Coelhinhas distribuindo exemplares da revista Playboy num hospital para veteranos de guerra "em um dos inúmeros projetos comunitários dignos dos quais participam as Coelhinhas"; uma Coelhinha loura, de pé, diante de uma senhora de aparência maternal, a "Mamãe Coelha", oferecendo "conselhos pessoais"; e na última página uma garota de biquíni, agachada no convés de um iate com a bandeira com o coelhinho da Playboy. O texto: "Quando você se tornar uma Coelhinha, seu mundo será alegre, divertido e sempre excitante". Citava um salário médio de duzentos dólares por semana. Mais uma garota desceu as escadas. Ela usava óculos de armação azul e um casaco muito menor do que ela. Eu a observei enquanto perguntava, nervosa, à Srta. Shay se o clube aceitava garotas de dezoito anos. — E claro que sim — respondeu a Srta. Shay. — Só não podem trabalhar no turno da meia-noite. Entregou uma ficha para a garota, olhou as pernas gorduchas e não pediu que tirasse o casaco. Mais duas garotas entraram no bar, uma vestindo legging rosa e a outra legging roxo. — Nossa, esse lugar é um estouro — disse Rosa. — Se achou isso aqui um estouro, devia ver a casa de Hugh Hefner em Chicago — disse Roxa. A Srta. Shay olhou para elas com aprovação. — Não tenho telefone — disse Armação Azul com tristeza. — Posso dar o telefone do meu tio? Ele também mora no Brooklyn. — Pode, então — disse a Srta. Shay. Ela pediu para que me aproximasse, indicou um local a uns três metros de sua escrivaninha e pediu para que ficasse ereta. Fiquei. — Eu quero tanto ser coelhinha — disse Armação Azul. — Li a respeito disso numa revista, lá na escola. A Srta. Shay me perguntou se eu realmente tinha 24 anos. — Está muito velha — ela avisou. Disse a ela ter achado que passaria por um triz. Ela concordou com a cabeça. — Meu tio passa o dia inteiro fora — disse a garota —, mas eu irei para a casa dele e passarei o dia inteiro ao lado do telefone.

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Faça isso então, querida — disse a Srta. Shay e virou-se para mim: - Tomei a liberdade de marcar uma hora para você na quarta- feira às seis e meia. Entre pela entrada de serviço e vá até o sexto andar. Procure a Srta. Burgess, a Mamãe Coelha. — Concordei e ela acrescentou: — Você tem certeza de que não se inscreveu antes? Uma outra Marie Ochs veio aqui ontem. Fiquei perplexa. Como poderia Marie ter escapado das páginas de meu caderno? Eu tive uma fantasia de trinta segundos baseada em Pigmalião. Ou será que havia uma outra Marie Ochs? Possível era, mas não provável. Decidi partir para a valentia. — Que esquisito — murmurei. — Deve haver algum engano. A Srta. Shay deu de ombros e sugeriu que eu trouxesse um maiô ou uma malha na quarta. — Posso ligar para cá? — perguntou Armação Azul. — Não faça isso, querida — disse a Srta. Shay. — Deixe que nós ligamos para você. Deixei o clube preocupada com a expectativa de vida de Marie Ochs. Será que eles descobririam tudo? Será que eles já sabiam? Quando cheguei à metade do quarteirão, encontrei as duas universitárias. Estavam encostadas num prédio abraçando o próprio corpo, às gargalhadas. E de repente eu me senti bem melhor a respeito de tudo aquilo. Tudo, talvez, menos imaginar Armação Azul, em estado de alerta, sentada ao lado do telefone do tio.

QUARTA-FEIRA, DIA 30

Cheguei ao clube, pontualmente, às seis e meia e os negócios pareciam estar a todo vapor. Os clientes faziam fila, na neve, para entrar e vários transeuntes encontravam-se do lado de fora, com o rosto colado na vidraça. O ascensorista, um porto-riquenho bonito com jeitão de Rodolfo Valentino, me enfiou no elevador com dois carregadores negros uniformizados, cinco clientes de meia-idade, duas Coelhinhas a caráter e uma matrona robusta vestindo vison. Paramos no sexto andar. — E aqui que eu fico? — perguntou a matrona. — E claro, amorzinho — disse o ascensorista. — Se quiser virar Coelhinha.

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Risos. Olhei ao meu redor. Iluminação suave e tapetes macios haviam sido substituídos por blocos de cimento sem pintura e lâmpadas penduradas dos bocais. Havia uma porta marcada OELHINHAS; dava para ver o contorno onde antes houvera um "C". Um aviso, escrito à mão num pedaço de cartolina rasgada, dizia: BATAM!! Por favor, meninas. Dá para cooperar?!! Passei pela porta e entrei num corredor iluminado e cheio. Duas garotas passaram por mim. Uma vestia apenas a calcinha de um biquíni e a outra vestia meias arrastão de trama delicada e saltos altos lilás. Ambas entraram correndo na sala de figurinos à minha direita, berraram seus nomes, pegaram seus uniformes e voltaram correndo. Perguntei à responsável pela Srta. Burgess. — Querida, acabamos de lhe entregar um presente de despedida. Outras quatro garotas saltitaram sala adentro pedindo suas fantasias, golas, punhos e rabinhos. Vestiam meias-calças e salto alto e nada da cintura para cima. Uma delas parou para examinar o quadro no qual havia uma lista de "Coelhinha da Semana". Dirigi-me à outra extremidade do corredor. Dava para um camarim enorme cheio de armários de metal e diversas fileiras de mesas. Havia bilhetes colados aos espelhos ("Alguém quer trabalhar no Nível B no sábado?" e "Vou dar um festão na quarta em Washington Square, todas as Coelhinhas serão bem-vindas"). Havia cosméticos espalhados pelas bancadas e três garotas sentavam-se lado a lado colocando cílios postiços com uma concentração de iogue. Parecia uma caricatura do camarim de artistas de teatro de revista. Uma garota de cabelos muito ruivos, pele muito branca e uma fantasia de Coelhinha de cetim preto deu as costas para mim e aguardou. Entendi que queria que eu puxasse seu zíper, uma tarefa que levou vários minutos de puxa e estica. Era uma garota grandalhona, de aparência um tanto rude, mas a voz que me agradeceu era pequenininha como a de uma criança. Judy Holliday não poderia ter feito melhor. Perguntei a ela a respeito da Srta. Burgess. — Sei. Ela está no escritório — disse Vozinha de Bebê indicando uma porta de madeira com uma portinhola de vidro. — Só que a nova Mamãe Coelha é Sheralee. Através do vidro pude ver duas garotas, uma loura e uma more-

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na. Ambas pareciam ter vinte e poucos anos e não eram nada parecidas com a matrona do prospecto. Vozinha de Bebê puxou e esticou mais um pouco. Este uniforme não é o meu — explicou. — É por isso que está difícil de colocá-lo. — Ela se afastou estalando os dedos e cantarolando baixinho. A morena saiu do escritório e se apresentou como a Mamãe Coelha, Sheralee. Eu disse que a confundira com uma Coelhinha. — Cheguei a trabalhar para o clube quando inaugurou no mês passado — disse. — Mas agora vou substituir a Srta. Burgess. — Ela indicou a loura que experimentava um conjunto bege de três peças, provavelmente seu presente de despedida. — Terá de aguardar um instante, querida. Eu me sentei. Às sete eu já tinha assistido a três meninas eriçarem os cabelos até parecerem algodão doce e outras quatro encherem o sutiã com lenços de papel. Até às 19:15, eu já havia conversado com outras duas candidatas a Coelhinha, uma bailarina e uma modelo de meioexpediente do Texas. Às 19:30 testemunhei a maior crise da vida de uma Coelhinha que enviara a fantasia para a lavanderia com a aliança de noivado presa com um alfinete pelo lado de dentro. Às 19:40 a Srta. Shay subiu para avisar que "Não há mais ninguém além de Marie". Às oito eu estava certa de que ela esperava pelo gerente do clube para que ele dissesse que haviam descoberto minha verdadeira identidade. Às 20:15 finalmente fui chamada e estava nervosa além da conta. Esperei enquanto Sheralee olhava minha ficha. — Você não tem cara de 24 anos. Bem, acabou por aqui, pensei. — Parece bem mais jovem. Sorri, incrédula. Ela tirou diversas polaróides de mim. — É para os arquivos — explicou. Ofereci a história que eu criara é datilografara com tanto esmero mas ela a devolveu sem nem olhar. — Não gostamos que nossas garotas tenham histórias — ela disse com firmeza. — Só queremos que você se adeque à imagem da Coelhinha. — Ela me mandou para a sala de figurinos. Perguntei se devia vestir a malha. -—• Não perca tempo com isso — disse Sheralee. — Queremos ver a imagem da Coelhinha.

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A chefe de guarda-roupa mandou que eu me despisse e começou a procurar um uniforme do meu tamanho. Uma garota entrou às pressas com uma fantasia nas mãos, berrando por ela como um soldado ferido talvez pedisse auxílio médico. — Estourei o zíper — ela chorava. — Espirrei! — E a terceira vez esta semana — disse a chefe de guarda-roupas. — Parece até epidemia. A garota se desculpou, encontrou outra fantasia e saiu. Perguntei se um espirro realmente podia romper uma fantasia. — E claro que sim — ela assegurou. — Garotas resfriadas normalmente precisam ser substituídas. Ela me deu um uniforme de cetim azul. Estava tão apertado que o zíper prendeu na minha pele quando ela foi fechá-lo. Ela me mandou segurar a respiração enquanto tentava outra vez. Após conseguir deu um passo atrás para me examinar com olhos críticos. A fantasia era tão cavada que expunha meu quadril, assim como dez centímetros de bumbum branco. As barbatanas da cintura teriam feito Scarlett 0'Hara desmaiar e a estrutura como um todo fora desenhada para puxar todas as carnes do corpo na direção dos seios. Eu estava certa de que seria perigosíssimo me abaixar. — Nada mal — declarou a chefe de guarda-roupa e pôs-se a enfiar um imenso saco plástico na parte de cima da fantasia. Colocou uma faixa com orelhinhas de coelha em torno de minha cabeça e um semicírculo de material macio preso com um gancho no local mais arrebitado da parte traseira da fantasia. — Muito bem, querida. Agora coloque os saltos e vá mostrar a Sheralee. Olhei no espelho e a imagem da Coelhinha olhou para mim. — Yocê está uma graça — disse Sheralee. — Encoste naquela parede e sorria bem bonito para ver o passarinho.—Ela tirou várias outras fotos com a polaróide. A ruiva com voz de bebê entrou para avisar que ainda não encontrara uma fantasia que coubesse. Uma minúscula lourinha vestindo cetim lilás tirou o rabinho e se empoleirou na mesa. — Olha — começou — , não ligo para os deméritos, já recebi cinco. Mas eu não ganho pontos por trabalhar horas extras? Sheralee pareceu desconcertada e dirigiu-se a Voz de Bebê: — As garotas novas acham que as garotas de Chicago recebem tratamento especial e as mais antigas não treinam as novas.

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Deixa que eu treino estas pestinhas — disse Voz de Bebê. Mas me arruma uma fantasia. Eu me vesti e esperei. E prestei atenção: Ele me deu trinta pratas e eu só fiz comprar cigarros para ele. Abaixa aí, meu docinho, e se enfia nesta fantasia. Ah, sei lá. Acho que ele fabrica Leite de Magnésia ou coisa parecida. — Você sabia que tem gente que comete suicídio com estes sacos plásticos? — Aí o babaca pede Cortinas de Renda. Alguém lá já ouviu falar em Cortinas de Renda? — Eu disse a ele que nossos rabos eram de asbesto e ele quis queimar o meu para ver se era verdade. — Semana passada ganhei trinta pratas de gorjeta. Grande coisa. Sheralee me chamou de volta ao escritório. — Então você quer ser Coelhinha — ela disse. — Oh, sim. Gostaria muito — respondi. — Bem... — Ela fez uma pausa significativa. — Nós também queremos que seja! Fiquei perplexa. Não haveria mais entrevistas? Investigações? — Chegue amanhã às três. Vamos tirar as medidas e pedir para que assine algumas coisas. — Eu sorri e senti uma exultação tola.
Descendo as escadas e subindo Fifth Avenue. Saltitante eu vou, sou uma Coelhinha!

QUINTA-FEIRA, DIA 31

Agora tenho duas fantasias de Coelhinha: uma de cetim laranja e outra azul-rei. A escolha de cores e a qualidade do cetim são quase as mesmas dos catálogos de material esportivo. Os corpinhos das fantasias, pré-cortados para caber em corpos e seios de tamanhos variados, são experimentados na mesma hora. Aguardei, de pé, no piso de cimento, com os pés descalços e uma calcinha de biquíni. A chefe de guarda-roupa me deu um tapetinho de banheiro. Não dá para deixar uma Coelhinha novinha em folha pegar gripe — foi o que disse. Perguntei se ela poderia seguir a linha

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do meu biquíni; a fantasia que eu experimentara no dia anterior era mais cavada do que qualquer uma que eu vira em fotografias. Ela riu. — Olha, querida, se você acha que aquela estava cavada, devia ver umas que usam por aqui. A fantasia foi aparada e apertada até estar com cinco centímetros amenos do que minhas medidas em todos os locais, menos no busto. — Aqui você vai precisar de espaço para enchimento. Quase todo mundo enche. E é aqui que você guarda as gorjetas. Chamam de "caixa forte". Uma garota de cabelos negros e muito pó-de-arroz, vestindo uma fantasia verde, parou à porta. — Meu rabinho está caído — ela disse, arrumando-o com um dedo. — Esses malditos clientes não param de puxar. A chefe de guarda-roupa entregou-lhe um alfinete de fralda. — E melhor arrumar um rabinho mais limpinho do que este, meu anjo. Vai arrumar um demérito se andar por aí com um rabinho maltrapilho destes. Outras garotas apareceram pedindo fantasias, marcando o nome num caderninho preso ao balcão. Descobri que não era permitido sair do prédio com a fantasia e que cada uma pagava dois dólares e meio pela manutenção e lavagem da mesma. As Coelhinhas também pagavam cinco dólares por um par de meias-calças pretas e podiam receber deméritos se usassem meias rasgadas. A chefe de guardaroupa me deu amostras de ambas as fantasias e me disse para mandar pintar os sapatos para que combinassem com a roupa. Perguntei se o clube pagava a pintura dos sapatos. — Você enlouqueceu, meu bem? Esse lugar não dá dinheiro para nada. E certifique-se de que são saltos dez. Vai arrumar um demérito se usar mais baixos. Eu me vesti e fui ver a Mamãe Coelha. Sheralee estava sentada à escrivaninha. Com os longos cabelos presos, parecia ter dezoito anos. Ela me entregou um formulário rosa-choque no qual estava escrito "Solicitação para Coelhinhas" e uma maletinha de plástico marrom com a miniatura de uma garota nua e THE PLAYBOY CLUB escrito em laranja. — Esta é a bíblia da Coelhinha — ela me disse muito séria. — Quero que me prometa que vai passar o fim de semana inteiro estu-, dando-a.

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O formulário tinha quatro páginas. Eu já inventara grande parte das respostas para a minha biografia mas algumas das perguntas eram novas. Eu estava saindo com algum cliente do clube, se estivesse, qual o nome dele? Nenhum. Pretende sair com algum cliente? Não. Tem ficha na polícia? Não. Deixei o espaço destinado ao número de seguridade social em branco. Subi um lance de escadas e entreguei o formulário à Srta. Shay. A sala de chão de cimento estava pontilhada de escrivaninhas. Mas a da Srta. Shay, como diretora de pessoal, ficava num canto. Ela vasculhou o formulário e tirou mais polaróides de mim. — Traga o cartão de seguridade social amanhã, sem falta. Eu me perguntei o que fazer sobre o fato de Marie Ochs não possuir um. Um homem atarracado de terno azul, camisa preta e gravata branca fez um gesto na direção de uma garota gorducha que se encontrava logo atrás dele. — O Sr. Roma disse que eu a trouxesse aqui e eu ficarei muito grato por qualquer coisa que puder fazer por ela—ele disse, piscando. — Em casos de extrema recomendação pessoal — disse a Srta. Shay com enorme indiferença. — Nós fazemos a entrevista imediatamente. — Ela fez sinal para Sheralee que levou a garota para baixo. O homem pareceu aliviado. Uma ruiva, acompanhada de dois homens, se aproximou mas a Srta. Shay pediu-lhes que aguardassem. O mais jovem deu um soquinho brincalhão no queixo da ruiva e sorriu. — Você não tem com o que se preocupar, benzinho. — Ela o olhou com desdém e acendeu um cigarro. Assinei um formulário de imposto de renda, vale refeição, um recibo referente aos vales, um formulário de solicitação de emprego, um outro de seguro e uma autorização para a divulgação de fotografias para qualquer finalidade — publicidade, editorial ou outra — que escolhesse a Playboy Clubs International. Um jovem em mangas de camisa, com aparência bastante apressada, entrou para dizer à Srta. Shay que os dois homens que trabalhavam no porão iam pedir demissão. Eles haviam esperado receber 75 dólares por seis dias de trabalho e iam trabalhar apenas cinco por sessenta. Estavam descontentes e tinham famílias para sustentar. -Não posso mudar coisa alguma — ela disse, secamente. — Eu me limito a pôr em prática as decisões do Sr. Roma.

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A Srta. Shay grampeou duas fotos polaróides à minha solicitação de emprego e entregou-me os meus horários. — Amanhã, irá ao Larry Matthews para lhe auxiliarem com a maquiagem. Este fim de semana é para estudar a bíblia da Coelhinha e marquei um horário na segunda para você fazer um exame médico. — Ela chegou para frente e disse em tom de confidência:—Um exame completo. Segunda-feira é o dia da palestra da Mamãe Coelha e do Papai Coelho. Terça-feira é dia de Escola de Coelhinhas e quarta você treinará no próprio bar. Eu perguntei se a consulta podia ser feita com meu próprio médico. — Não. Você precisa ir ao nosso médico para um exame especial. É obrigatório para todas as Coelhinhas. A Srta. Shay me mandou assinar um último formulário, uma requisição para que uma cópia do registro do nascimento de Marie Ochs fosse enviada para o Playboy Club. Eu o assinei, esperando que o estado do Michigan demorasse um pouco para descobrir que Marie Ochs não existia. — Enquanto isso, vou precisar ver sua certidão de nascimento. Não podemos permitir que trabalhe sem que a vejamos. Concordei em enviar uma carta urgente para casa para que a enviassem. É claro que não me permitiriam servir bebidas alcoólicas ou trabalhar à noite sem provar que era maior. Por que não pensei nisso antes? Bem, o futuro de Marie talvez fosse curto mas talvez ela conseguisse ao menos terminar a Escola de Coelhinhas.

SEXTA-FEIRA, 1 DE FEVEREIRO

Experimentei cílios postiços no Larry Matthews, um salão de beleza no Hotel West Side, que fica aberto 24 horas por dia. Enquanto uma maquiadora separava os cílios com uma tesourinha, comentou que uma garota acabara de ser despedida do clube "porque se recusara a sair com um cliente Número Um". Eu disse que pensava ser proibido sair com clientes. — Você pode sim, contanto que ele seja um cliente "Número Um" — ela explicou. — Os Número Um são gerentes do clube,; repórteres e figurões.

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Expliquei que ser demitida por não sair com um deles me parecia uma coisa muito diferente. Bem — ela começou, pensativa —, acho que foi a maneira que ela disse. Ela mandou ele se ferrar. Paguei a conta. US$ 8,14 pelos cílios e por um ruge, mesmo com os 25% de desconto para Coelhinhas. Recusara-me a investir num batom mais escuro, embora "as garotas fossem despedidas por estarem pálidas". Perguntei-me quanto as Coelhinhas geravam de negócios para o Sr. Matthews. Será que houvera uma licitação de salões de beleza para um negócio tão lucrativo? Estou em casa e medi os cílios. Talvez eu não devesse me preocupar tanto em ser reconhecida. Na parte mais longa, estes cílios têm mais de dois centímetros de comprimento.

DOMINGO, DIA 3

Passei um domingo enriquecedor com a bíblia da Coelhinha, ou o Manual da Coelhinha do Playboy Club, seu nome oficial. Da introdução ("Você tem o melhor emprego do país para uma jovem") ao apêndice ("Sidecar: Passe limão na borda do copo e polvilhe com açúcar"), é um modelo de clareza. Há pelos menos uma dúzia de suplementos que acompanham a bíblia. Ao todo, dão uma idéia bem vivida das funções de uma Coelhinha. Por exemplo: .. .Você... é o único contato direto que grande parte dos leitores j amais terá com os funcionários de Playboy... Dependemos de nossas Coelhinhas para expressar a personalidade da revista. ...É esperado que as Coelhinhas contribuam com um número razoável de aparições pessoais como parte de suas obrigações para com o clube. ...E bom lembrar às Coelhinhas que há maneiras muito agradáveis de aumentar o volume de bebidas alcoólicas consumidas no clube e assim aumentar os ganhos pessoais de cada uma, significativamente... A chave para uma maior venda de bebidas é o Contato com o Cliente... eles reagirão bem à sua tentativa de ser simpática... Deve fazer com que pareça que as opiniões do cliente são muito importantes...

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...O Sistema de Incentivo é um método criado para recompensar as Coelhinhas garçonetes que se esforçam um pouco mais... A Coelhinha com a maior média de bebidas vendidas por cabeça vencerá... Prêmio em dinheiro... a ser determinado pelo lucro geral com bebidas.

Há um problema em ser "simpática", em "mimar" o cliente e ao mesmo tempo se recusar a sair com ele ou até mesmo a lhe dizer seu sobrenome. O manual deixa bem claro que as Coelhinhas não deverão jamais sair com alguém que conheceram no clube — cliente ou funcionário — e acrescenta que uma agência de detetives chamada Willmark Service Systems, Inc. foi contratada para se certificar de que tal não ocorreria. ("E claro que não há como saber se você está sendo vigiada por um representante da Willmark Service.") A explicação dada às Coelhinhas é simples: "Os homens ficam muito empolgados em ter Elizabeth Taylor como companhia, mas eles sabem que não podem tocá-la ou fazer-lhe propostas. No momento em que eles sentirem que alguma intimidade foi estabelecida, ela perderá a aura de glamour que a envolve. É assim que deve ser com nossas Coelhinhas". Numa carta anexa, escrita por Hugh Hefner e endereçada à Willmark, a explicação é ainda mais simples: "Nosso alvará de funcionamento é ameaçado cada vez que um de nossos funcionários se envolve diretamente, auxilia ou é cúmplice de atos de prostituição..." Assim a Willmark ficava instruída para "Usar seus representantes mais atraentes e simpáticos para fazer propostas às Coelhinhas e até mesmo oferecer quantias no valor de US$ 200,00, com a promessa de um encontro mais tarde fora do clube". Os representantes da Willmark são instruídos a perguntar ao barman ou a qualquer outro funcionário homem "se algumas das meninas estão disponíveis para uma 'noite divertida'... Diga a ele que você a pagará bem ou então a ele por arrumá-la". Se o funcionário funcionar como "procurador", a Willmark deverá notificar ao clube imediatamente. "Nós, naturalmente, não toleraremos que nossas Coelhinhas sejam comercializadas", escreve o sr. Hefner. "E ansiamos por saber se tais coisas estão ocorrendo." Se a idéia de ser comercializada não for o bastante para assustar qualquer candidata a Coelhinha, há outras sugestões que o farão. Os representantes da Willmark estão incumbidos de verificar se o| saltos usados estão muito baixos, se as meias estão com o fio puxado, se usam bijuterias, se as calcinhas estão à mostra, se as orelhinhas

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stão tortas ou se não combinam com a fantasia, se a mesma está uia se a Coelhinha esqueceu de usar crachá e se os rabinhos estão "de acordo". Além disso: "Quando começar o espetáculo, verificar se as Coelhinhas estão reagindo aos artistas. Quando for um show cômico, é esperado delas que riam". Você poderá estar sendo observada pelo Grande Irmão da Willmark. Na verdade, as Coelhinhas deverão sempre parecer contentes e satisfeitas ("Pense em algo alegre e engraçado... o produto mais importante que você está vendendo é sua personalidade") apesar de todas as suas preocupações, incluindo o sistema de deméritos. Cabelos em desalinho, unhas malcuidadas e maquiagem malfeita custam cinco pontos no sistema de avaliação. Assim como chamar um chefe de setor pelo primeiro nome, perder o horário com o maquiador, ou comer na Sala da Coelhinha. Mascar chiclete ou comer durante o expediente valem dez pontos na primeira ofensa, vinte na segunda e demissão na terceira. Quem receber três multas "por não aparecer para o turno e não encontrar substituta" não só será demitida como também entrará na lista negra no caso de uma futura candidatura para os demais clubes da rede. Atrasos na chegada ou após intervalos custam um "demérito" por minuto de atraso, no caso de não seguir as instruções de um chefe de setor, quinze. "O valor em dólar de cada 'demérito'", diz a bíblia, "dependerá do gerente geral de cada clube." Uma vez que o sistema tiver sido assimilado, há instruções para cada trabalho específico. As Coelhinhas Recepcionistas recebem o cliente e checam seus chaveiros, onde está escrito o tipo de clientes que são; as Coelhinhas Fotógrafas operam as Polaróides; as Coelhinhas Cigarreiras explicam por que um maço de cigarros não pode ser comprado sem um isqueiro Playboy; as Coelhinhas Chapeleiras aprendem o sistema do guardavolumes; as Ccelhinhas daLojinha vendem produtos Playboy; as Coelhinhas da Lojinha Ambulante carregam produtos Playboy em cestas e as Coelhinhas Garçonetes devem decorar treze páginas de drinques. A sobrevivência de uma Coelhinha depende de outras coisas além de peitos com enchimento. Nota: A Seção 523 afirma: "Funcionários devem entrar e se divertir como clientes normais se forem convidados de clientes Número Um'. Seriam estes os tais figurões dos quais falara minha maquiadora?

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As onze fui ao consultório do médico indicado pelo clube, localizado num hotel da vizinhança. ("Vinte deméritos para quem faltar a uma hora marcada.") A enfermeira me mandou preencher um histórico médico. "Você sabe que isto inclui um exame interno? Venho tentando conseguir que a Srta. Shay avise às moças." Eu disse que sabia mas que não compreendia por que haveria de ser necessário. "E para seu próprio bem", ela disse, indicando o caminho até uma sala que continha um armário de remédios, uma balança e uma mesa para exames ginecológicos. Vesti um roupão e aguardei. Pareceu-me que, ultimamente, eu vinha passando grande parte de meu tempo tirando a roupa, esperando, ou ambos. A enfermeira voltou acompanhada do médico, um senhor robusto, de seus sessenta anos, com a pele rosada de um bebê. — Então você vai ser Coeíhinha—ele disse com animação. — Acabo de voltar de Miami. Bonito o clube de lá. Cheio de belíssimas Coelhinhas. Eu estava prestes a perguntar se ele possuía uma franquia, e se percorria o país de costa à costa, mas ele me interrompeu para perguntar se eu estava gostando da vida de Coeíhinha. — Bem, é mais animado do que ser secretária — respondi, e ele me mandou sentar na beirada da mesa. Enquanto ele socava minhas costas e me auscultava, de repente me passou pela cabeça que todas as Coelhinhas de Nova York haviam se sentado naquele mesmo lugar. — Agora vem a parte que todas as meninas detestam — disse ele, tirando sangue do meu braço para realizar um exame Wassermann. Eu disse que um exame de sangue para determinar se alguém é portador de doenças venéreas me parecia um tanto sinistro. — Não seja boba — disse ele. — Todos os funcionários têm de passar por isso. Pelo menos você sabe que todo mundo do clube é saudável. — Eu disse que o fato de serem ou não saudáveis não me afetava em coisa alguma e que eu tinha objeções quanto a ser submetida a tais exames. Silêncio. Ele me mandou ficar de pé para "poder ver se suas pernas são tortas". — Então está bem. Eu tenho de ser submetida ao Wassermann. E o exame ginecológico? É exigido de todas as garçonetes do estado de Nova York?

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— E qual é o problema? — indagou ele. — É de graça e para o bem de todo o mundo. .— Como? — perguntei. — Olhe — ele começou com impaciência —, nós sempre constatamos que as garotas que objecionam com mais veemência têm algum motivo... — Ele fez uma pausa carregada de significados ocultos. Também me detive. Eu tinha duas escolhas: ir até o fim ou sair em sinal de protesto. Mas em sinal de protesto contra o quê? De volta à recepção, a enfermeira me entregou um bilhete, que eu deveria entregar à Srta. Shay, dizendo que eu havia passado nos exames preliminares. Enquanto eu vestia o casaco, ela telefonou para o laboratório para que viessem buscar "um exame de sangue e um papanicolau". Perguntei por que faziam estes exames mas nenhum de urina? Não era ele, afinal, o mais comum dos exames de laboratório? — É para a sua proteção — disse ela com firmeza. — Além do mais, quem paga é o clube. Na recepção do hotel fui até o telefone público para ligar para a Saúde Pública. Perguntei se exigiam que as garçonetes da cidade de Nova York fossem submetidas ao teste Wassermann. — Não. Então quais eram os exames médicos necessários? — Nenhum — foi a resposta.

TARDE, SEGUNDA, DIA 4

A palestra da Mamãe Coelha acabou sendo uma conversa informal, e por diversas vezes interrompida, na salinha sem janela de Sheralee. Havia outras sete candidatas, duas das quais a caráter. Havia também uma loura de traços delicados, a modelo do Texas que eu já conhecera, uma garota enorme de cabelos muito longos que disse ser assistente de mágico, uma garota quadradona vestindo conjunto quadriculado, uma morena bonita que não tirava o casaco. Em grande parte, Sheralee só fez repetir a bíblia das Coelhinhas, m as alguns pontos eram novos.

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1. Devido à existência de um salário mínimo na cidade de Nova York, precisamos receber um salário de cinqüenta dólares por uma semana de quarenta horas. Recebemos gorjetas mas o clube fica com 50% dos primeiros trinta dólares pagos com cartão de crédito, 25 % dos totais de até sessenta dólares e 5% daí em diante. "Isso quer dizer metade de tudo que ganhamos", sussurrou uma das meninas fantasiadas. "Mas quem é que ganha mais de trinta dólares por dia?" 2. Podemos ficar com todas as gorjetas que nos são dadas em espécie mas se indicarmos preferência por gorjetas em espécie, seremos demitidas. 3. "Não sei se vocês sabem o que quer dizer 'média de bebida'", disse Sheralee. Ela então pôs-se a explicar que se tratava do número de drinques por cliente. "Mas se vocês trabalharem bem, os clientes repetirão os pedidos e vocês recebem méritos pelo trabalho. Cem méritos é igual a 25 dólares." 4. Se formos nos encontrar com maridos e namorados após o trabalho, devemos fazê-lo a duas quadras do clube. Os clientes não devem nos ver encontrando outros homens. 5. Não devemos jamais deixar dinheiro em nossos armários. Duas meninas foram demitidas recentemente porque foram pegas roubando. 6. Devido aos "problemas especiais de Nova York", não podemos ser multadas em dinheiro pelos deméritos, assim, podemos comprálos de volta com méritos. "Se cem méritos é igual a 25 dólares", perguntei, "não dá no mesmo?". Sheralee disse que não. 7. Clientes Número Um recebem tratamento diferenciado. Por exemplo, devemos trazer-lhes telefone, bloco de papel e caneta imediatamente. A Playboy International então "absorve" seus gastos. Chaveiros com o número um são dados aos executivos de todos os clubes, a membros importantes da imprensa e a alguns outros VIPs. Podemos também dar-lhes nossos nomes ou sair com eles. A assistente de mágico perguntou se era esperado que saíssemos com eles. — E claro que não — respondeu Sheralee. — Mas um dos chefes de seção ficou com raiva de mim porque eu não dei meu nome a um cliente Número Um. Expliquei que era casada mas ele disse que eu tinha de dar meu nome do mesmo jeito.

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Sheralee disse que estava certa de que o chefe de setor se expressara mal. Você jamais precisará fazer o que não quer — ela disse com doçura. 8. O apartamento de Vic Lownes é usado para as festas promocionais da Playboy em Nova York, assim como a casa de Hugh Hefner é usada em Chicago. ("O Sr. Lownes administrava os clubes" explicou Sheralee. "Mas agora ele está ligado, basicamente, à revista.") Quando formos a tais festas, não poderemos levar homens. "Nem mesmo nossos maridos?", perguntou a assistente de mágico. "Homem algum. Absolutamente nenhum. Mas é claro que não precisam ir se não quiserem", respondeu Sheralee. Todas descemos à sala VIP para a palestra do Papai Coelho, mas antes uma Coelhinha parou na porta do escritório de Sheralee e gritou "Gloria!" Eu gelei. Depois de uma eternidade, a Coelhinha sentada a meu lado respondeu. Eu aprendi a responder quando me chamam de Marie. Agora preciso não reagir quando me chamam de Gloria. Não havia Papai Coelho e sim duas séries de slides com uma narrativa gravada e um fundo musical de jazz. Uma das palestras falava, de forma muito generalizada, sobre as Coelhinhas. Não continha nada de novo, a não ser que quando os clientes tentassem forçar uma intimidade, devíamos dizer "Senhor, não é permitido pôr as mãos nas Coelhinhas". A segunda parte da palestra do Papai Coelho era chamada "O Coquetel da Coelhinha". Ensinava a encher bandejas, preencher comandas e colocar os drinques na mesa. A narrativa não estava sincronizada aos slides, a sala estava gelada e eu saí de lá com uma dor de cabeça de matar. Sheralee disse que a Srta. Shay queria me ver. Meu coração ficou apertado. O escritório principal continuava aquele caos iluminado com empadas fluorescentes mas a Srta. Shay parecia uma ilha de tranqüilidade. Ela me disse que eu precisaria de uma identidade para entrar e sair do prédio. Entreguei-lhe o bilhete do médico e meu número de seguridade social de verdade. Expliquei que perdera o cartão. Ela pareceu desconfiar mas aceitou o número. Eu quis perguntar o porquê dos exames da manhã mas decidi esperar um pouco. Se eu chamasse atenção para mim mesma, talvez

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apenas lhe lembrasse que não entregara a certidão de nascimento. Disse a ela que meu arquivo estava completo, a não ser por uma abreugrafia, e saí da sala. É difícil crer que a eficientíssima Srta. Shay não me pegará logo logo. Mas vou ficando até me descobrirem.

TARDE, TERÇA, DIA 5

Ao meio-dia de hoje esperei numa fila para fazer uma abreugrafia grátis na Saúde Pública, falando baixinho: "O Flamingo leva cereja, laranja e uma rodela de limão. O Mist leva gotas de limão e o London Docks, licor". Estas pequenas pérolas de sabedoria foram tiradas da minha listagem de drinques e, assim como todos os outros documentos contidos naquela maletinha de plástico marrom, seriam matéria de uma prova escrita às três da tarde. Fui ver Sheralee e ela me cumprimentou apressada: "Ah, meu docinho, estou completamente desesperada\" Precisava de uma garota maior de 21 anos para trabalhar na chapelaria das sete e meia da noite às quatro da manhã. Será que eu poderia ajudá-la? É claro que sim, eu respondi, se ela achava que eu daria conta do recado. "Ah, mas é claro que dá, meu bem", ela disse. "É muito simples." Meus sapatos da cor da fantasia ainda não estavam prontos mas, enfim, eu poderia usar os pretos, ela disse. Era só me apresentar para a maquiagem às sete. Fiquei surpresa e entusiasmada. Eu ia ter pelo menos uma noite no bar. Sim, se eu conseguisse me esquivar da Srta. Shay. A prova era na verdade uma lista de 61 perguntas com respostas curtas. Nossa classe de oito meninas escrevia furiosamente enquanto Sheralee lia as perguntas em voz alta. Eu podia ver que a modelo texana estava perplexa, sua boca encontrava-se levemente aberta. A Coelhinha chamada Gloria mordia os nós dos dedos. Decidi que não seria boa idéia demonstrar muita sabedoria e errei seis perguntas de propósito. Corrigimos as provas umas das outras e lemos os resultados em voz alta. A minha prova foi a melhor da classe, com nove erros, e o resto errou quatorze ou mais. Texas errou quase trinta. Quando o clube diz que uma Coelhinha é escolhida pela "1) Beleza 2) Personalidade 3) Habilidade", deve haver algum significado nesta ordem. Fomos até a cobertura, uma sala grande no quarto andar com

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nainéis iluminados representando telhados. Sheralee nos colocou em fileira e começou a nos perguntar a respeito de drinques. — O que é Fleischmann's? __ Gim.

— O que é Vat 69?
— Ainda não estudei isso — disse Texas. — Uísque — disse a morena bonita. — O que é Courvoisier? — Eu sei. Eu decorei. É... conhaque — disse Gloria. — O que é Piper Heidsieck? — A lourinha delicada não sabia. — Você nunca bebeu champanhe? — perguntou Sheralee. A loura respondeu que não. — Parece ginger ale, só que custa muito, mas muito dinheiro. Depois de várias rodadas de perguntas, todo mundo fora capaz de responder pelo menos algumas. Menos Texas. Ela baixou a cabeça tingida com hena e Sheralee admoestou-a duramente. Uma garota negra, muito pálida e muito alta, entrou e se apresentou como nossa treinadora. Ela era magra e frágil como uma manequim de passarela e muito bonita. — É uma das Coelhinhas mais antigas do clube — disse Gloria. — Todos a adoram. — Os homens chamam as garotas de cor de Coelhinhas de Chocolate — disse uma outra, rindo. Passamos uma hora apressada aprendendo a pose da Coelhinha (uma pose de modelo, com o quadril projetado para fora) e o mergulho da Coelhinha (uma forma de curvar o corpo levemente para trás para que nossos seios não saltem para fora da fantasia quando colocamos os drinques sobre as mesas baixas). — Boa-noite, senhor, sou sua Coelhinha, Marie. Poderia me m ostrar seu chaveiro de sócio, por favor? O senhor possui chaveiro ou este é um chaveiro emprestado? Obrigada. O que posso lhe trazer? Nada de desvios. Perguntei-me se a uniformidade não haveria oe cansar os clientes. "Posso lhe trazer mais alguma coisa, Sr. Jones?" Muito obrigada, Sr. Jones. Venha nos fazer outra visita." Eu estava sendo programada. Em casa, eu me escondo por trás de uma máscara com cílios Postiços. O escritório do clube estará fechado quando eu chegar:

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nenhuma Srta. Shay para me proibir de trabalhar. Pelo menos minha carreira incluirá uma noite de "Contato com o Cliente".

NOITE, TERÇA, DIA 5

A sala das Coelhinhas estava um caos. Puxa daqui, puxa dali até a chefe de guarda-roupa fechar minha fantasia azul-rei. Desta vez ela permitiu que eu colocasse meu próprio enchimento e eu consegui me safar com apenas metade de um saco plástico. Coloquei a gola e prendi a gravatinha-borboleta e os punhos com abotoaduras de coelhinho. Meu crachá foi colocado num arranjo de fitas, tal qual uma medalha daquelas que põem em cavalos quando vencem corridas, e preso logo acima do quadril, à direita. Uma mudança no regulamento interno acabara de mudar os crachás do lado esquerdo para o direito. A chefe de guarda-roupa também me entregou uma jaqueta porque fazia menos de dez graus negativos e eu deveria me posicionar ao lado da porta de entrada. A tal jaqueta era um pedacinho de pele branca artificial que cobria os ombros mas deixava o decote cuidadosamente à mostra. Fui até Sheralee para ser inspecionada. — Você está uma graça — disse ela e me aconselhou a guardar o dinheiro que trouxera dentro da fantasia. — Tiraram coisas do armário de outras duas garotas. —Ela então acrescentou que eu deveria dizer ao chefe da portaria quanto eu trouxera em dinheiro. — Senão vão achar que você roubou gorjetas. É que as Coelhinhas Garçonetes podiam guardar gorjetas em espécie (embora o clube ficasse com cinqüenta por cento das gorjetas das contas pagas com cartão de crédito), mas as Coelhinhas Chapeleiras não podiam ficar com gorjeta alguma. Em vez disso, elas recebiam doze dólares por oito horas de trabalho. Eu disse a ela que um salário de doze dólares por dia era bem menos do que os duzentos a trezentos dólares mencionados no anúncio. — Ora meu anjo, você não vai trabalhar sempre na chapelaria — ela disse. — Assim que você começar a trabalhar nas mesas, da tudo no mesmo. Você vai ver. Dei mais uma olhada no espelho. Uma criatura com cílios de dois centímetros, orelhas de cetim azul e seios que pareciam saltar

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do decote olhou para mim. Perguntei a Sheralee se precisávamos de tanto enchimento assim. É claro que sim — ela respondeu. — Quase todas as garotas enchem e enchem mais um pouco. É assim que uma Coelhinha deve ser. A porta do elevador abriu no mezanino e fiz minha estréia profissional no Playboy Club. Estava cheíssimo, barulhento e muito mas muito escuro. Bem próximo de mim, havia um grupo de homens com crachás de uma mesma empresa na lapela. Olha só a minha Coelhinha — disse um deles, atirando os braços em torno do meu pescoço, como se fôssemos jogadores de futebol deixando o campo. — Por favor, senhor — eu disse e balbuciei a frase mágica que aprendêramos na palestra do Papai Coelho. — Não é permitido pôr as mãos nas Coelhinhas. — Seus comparsas riram às gargalhadas. — Aí meu velho, que bronca você levou, hein? — disse um deles. Puxou meu rabinho enquanto eu me afastava. Com as frases da Coelhinha ecoando em minha mente desci as escadas em caracol, acarpetadas, que separavam o mezanino ("Sala de Estar, Piano Bar, o bufê está servido") e o lobby ("Entreguem seus casacos e sentem-se imediatamente no bar"), separados da rua por uma vidraça de pé direito duplo. A alternativa seria uma escadaria larga ao fundo do lobby, mas ela também podia ser vista da rua. Todos nós, clientes e Coelhinhas, fazíamos parte de uma imensa vitrina. Fui ver o chefe do lobby. — Olá, Coelhinha Marie — ele disse. — Como vão as coisas? Respondi que tinha quinze dólares na fantasia. — Pode deixar que eu me lembro — disse ele e tive a humilhante visão de uma fileira de Coelhinhas Chapeleiras tendo os bustos inspecionados. Havia um paredão de homens impacientes aguardando na ChaPelaria. A Coelhinha Chapeleira-chefe, uma lourinha importada de Chicago "para dar um jeito nas coisas", me disse para pegar os tíquetes e gritar o número para os dois "cabideiros" que se encontravam atrás do balcão. Eu lhe dou meu número se você me der o seu — disse um senhor calvo, virando-se para a platéia, à espera de aplausos, depois de uma hora auxiliando homens com casacos, cachecóis

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e chapéus, o corre-corre aliviou o bastante para que a Coelhinha de Chicago conseguisse me ensinar como pregar números em lapelas com alfinetes ou enfiá-los no forro dos chapéus. Ela me ensinou mais algumas frases mágicas. "Muito obrigada, senhor. Aqui está seu tíquete." "A Coelhinha de Informações encontra-se no andar de baixo, à sua direita." "Eu sinto muito, não estamos autorizadas aguardar casacos de senhoras." (A Chapelaria estava disponível para mulheres apenas se o clube não estivesse cheio e se os casacos não fossem de pele.) Ela enfatizou que eu deveria colocar todas as gorjetas numa caixinha presa à parede, sorrir com gratidão e jamais dizer ao cliente que a gorjeta ficava para o clube. Ela caminhou até a outra metade da chapelaria ("Os tíquetes azuis são na sala ao lado, senhor") e mandou uma Coelhinha suíça, alta e grandalhona, substituí-la. Atendemos a um pequeno grupo de clientes e conversamos um pouco. Voltei à minha constante preocupação de que alguém entraria, me reconheceria e gritaria "Gloria!" Se era verdade que uma repórter de jornal e outra de revista haviam tentado se tornar Coelhinhas e falharam, a gerência do clube devia estar de olhos bem abertos para tal possibilidade. Eu vira um número grande o suficiente de filmes de Sydney Greenstreet para me preocupar com a reação do clube. Se algum conhecido entrasse, eu teria de repetir "Deve haver algum engano" diversas vezes e esperar o melhor. A turma do jantar foi chegando e logo vinte homens aguardavam. Trabalhávamos rapidamente, mas com tantos casacos entrando e saindo a coisa ficou confusa. Um cliente cambaleava atrás do balcão em busca de um chapéu perdido e outros dois reclamavam em voz alta que já esperavam há dez minutos. "Essa fila que se forma fora do Playboy Club é só porque tem gente esperando o casaco", disse um. Um homem de terno azul de seda estendeu o braço para apertar meu rabo. Desviei e abri o casaco para que um senhor calvo, com o bolso cheio de esferográficas, pudesse vesti-lo. Ele o vestiu, de trás para frente, de forma a me abraçar. O cabideiro gritou com um pesado sotaque espanhol: "Deixe-a em paz" e o senhor o mandou calar a boca. Três mulheres com estolas de vison aguardavam seus maridos. Elas nos encaravam, não com inveja e sim com frieza, como se estivessem se comparando à Coelhinha suíça e a mimLá em cima, na parede oposta, uma câmera nos vigiava a todos, transmitindo a cena em telas embutidas, espalhadas pelas paredes do clube

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Havia até uma tela acima da calçada. Um aviso dizia: "Esta câmera do circuito interno de TV transmitirá sua entrada para todo o clube» Sentia-me como se estivesse caminhando nua através das multidões e a única forma de recuperar minhas roupas seria passando nela escadaria da gaiola de vidro. A medida que mais homens estendiam casacos em minha direção, eu me virava para o cabideiro para pedir mais tíquetes. Não se preocupe — disse ele gentilmente. — Você logo se acostuma. O movimento ficou mais calmo. Perguntei à Coelhinha suíça se ela estava gostando do trabalho. — Não muito — ela respondeu, dando de ombros. — Fui aeromoça durante algum tempo, mas depois que você conhece Hong Kong já viu de tudo. Um homem se aproximou para tirar o casaco. Virei-me e dei de cara com duas pessoas que eu conhecia bem, um executivo da televisão e a esposa. Mantive os olhos baixos enquanto pegava o tíquete e dei-lhes as costas enquanto o cabideiro procurava o casaco, mas tive de encará-lo outra vez para devolver o mesmo. Meu amigo televisivo olhou diretamente para mim, deu-me cinqüenta centavos de gorjeta e se afastou. Nem ele nem a esposa me reconheceram. Foi deprimente ser uma zé-ninguém fantasiada de Coelhinha, mas era também uma vitória. Para comemorar, ajudei um homem magro, de aparência tímida, a enrolar um cachecol azul e branco no pescoço e perguntei-lhe se o cachecol era da Universidade de Yale. Ele me olhou assustado como se tivesse sido reconhecido num baile de máscaras. Não havia relógios em nenhum lugar do clube. Perguntei ao cabideiro que horas eram. "Uma hora", ele respondeu. Eu estava trabalhando há cinco horas, sem intervalo. Meus dedos estavam furados e doloridos, de tanto empurrar alfinetes através de papelão, meus braços doíam com o peso dos casacos e eu estava gelada com o vento glacial que soprava pela porta cada vez que um cliente a abria, equilibrada em sapatos de cetim de salto dez, eu morria de dor nos pés. Aproximei-me da Coelhinha de Chicago para perguntar se eu Podia descansar um pouco. '— Pode. Mas é meia hora para comer e só. Depois da Sala da Coelhinha havia uma sala de funcionários onde nossos vales nos proporcionavam uma refeição gratuita por dia. Eu

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aproximei uma cadeira portátil de metal de uma mesa longa e sem adereços, tirei meus sapatos, cuidadosamente, e sentei-me ao lado de dois homens negros uniformizados. Olharam para mim compadecidos enquanto eu massageava os pés. Um deles era jovem e bastante atraente e o outro, de meia idade, tinha os cabelos grisalhos nas têmporas. Como todos os funcionários do clube, pareciam ter sido selecionados devido à aparência física. O mais velho me aconselhou a rolar garrafas no chão, com os pés, como forma de relaxamento, e a comprar palmilhas ortopédicas para os sapatos. Perguntei o que faziam. — Somos lixeiros — disse o mais jovem. — Pode não parecer grande coisa, mas é um trabalho mais fácil que o seu. Disseram que eu deveria comer alguma coisa e indicaram o ensopado de carne que comiam em pratos de papel. — Sexta-feira tem peixe, mas dia sim dia não é este mesmo ensopado — disse um deles. — O mesmo, só que pior — o outro arrematou e riu. O mais velho disse que sentia pena das Coelhinhas, muito embora algumas gostassem de "exibir sua beleza". Ele me aconselhou a ter cuidado com os pés e a tentar evitar duplas-jornadas. Quando desci outra vez, tentei classificar os clientes enquanto pegava seus casacos. Com a exceção de alguns casais de adolescentes, a clientela era praticamente composta de executivos de meiaidade. Menos da metade estava acompanhada de mulheres e o resto chegava em grupos enormes que pareciam ser subsidiados por empresas. Vi apenas quatro do tipo que aparecia representado nos anúncios do clube — o jovem, esbelto e bem-vestido Homem Urbano. Os] quatro estavam acompanhados de mulheres esguias e elegantes que pareciam um tanto chocadas com os enchimentos de nossas fantasias e com a maquiagem chamativa. As esposas menos seguras não se comparavam a nós e pareciam supor que seus maridos se sentiriam atraídos por nós. Assim, chegavam para o lado e emanavam timidez e vergonha. Apenas alguns clientes, pouquíssimos, tanto homens quanto mulheres (contei dez ao todo), não olharam para nós como objetos e sim, possivelmente, como seres humanos. A Coelhinha suíça foi descansar e o cabideiro resolveu me dar um singelo sermão. Segundo ele, eu era tola de colocar todo o dinheiro na caixa. As gorjetas vinham em dinheiro. Se não pegasse-

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mos um pouco para nós mesmos, será que o homem que o contava não o faria? Eu disse para ele que tinha medo de que revistassem por dentro da minha fantasia e que eu não queria ser demitida. Eles só revistam de vez em quando — ele me assegurou. — Bem, de qualquer forma, você me dá o dinheiro. Eu encontro você lá fora e nós o repartimos. Meus pés doíam, meus dedos estavam grudentos de tantos forros de chapéus suarentos e minha pele estava arranhada pelas barbatanas da fantasia. Até mesmo o intervalo de meia hora para jantar fora tirado do meu horário de trabalho. Assim, o clube ficava com oito horas completas de trabalho. Meu ressentimento era grande o bastante para me fazer aceitar a oferta que ele me fazia. Mas mesmo assim não valia a pena ser demitida por roubo. Disse a ele que era nova e que ainda estava nervosa demais para levar a sugestão a cabo. — Você se acostuma — ele disse. — Um sábado desses, a chapelaria arrecadou mil dólares em gorjetas. E você sabe quanto nos pagam. Pense nisso. Eram quase quatro da manhã. Fim de expediente. O chefe do lobby veio nos dizer que haviam contado dois mil clientes naquela noite. Eu disse que era um bom número. — Não — ele discordou. — Quatro mil é um bom numero. De volta à Sala da Coelhinha, devolvi minha fantasia e me sentei, imóvel, cansada demais para me mexer. O espartilho deixara marcas verticais nas minhas costelas e o zíper deixara um vergão na minha coluna. Reclamei para a Coelhinha que se encontrava ao meu lado, igualmente imóvel, que a fantasia era apertada demais. — É — ela concordou. — Muitas garotas reclamam que ficam dormentes do joelho para cima. Acho que comprime algum nervo ou coisa parecida. A rua estava deserta mas havia um táxi vazio do lado de fora, ao lado da saída de funcionários. O motorista mostrava uma nota de dólar pela janela aberta. — Tenho mais quatro destas aqui — ele disse. — Não é o bastante? Continuei a andar. — Qual é? — ele insistiu, irritado. — Você trabalha aí dentro, não trabalha? As ruas estavam bem-iluminadas e reluzentes com o gelo. Ao

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percorrer a última quadra, antes de chegar a casa, passei por um carro inglês. O motor estava ligado e havia uma mulher atrás do volante. Seus cabelos eram muito louros e o casaco de um vermelho chamativo. Ela olhou para mim e sorriu. Eu devolvi o sorriso. Ela me pareceu disponível e estava. De nós duas, ela me pareceu a mais honesta.

QUARTA, DIA 6

Levantei-me a tempo de correr de volta para o clube para o treinamento de mesa e já cheguei com a sensação de que não tinha dormido em casa. Enquanto vestia a fantasia, uma das Coelhinhas lia um tablóide intitulado 0 Guia de Shows de Leo Shull em voz alta. — Escutem só isso aqui: "Embora mil garotas tenham sido entrevistadas para trabalhar no clube e haja 125 trabalhando lá atualmente, a excelente freqüência do Playboy Club, as filas e a multidão de clientes que se aglomeram à porta todos os dias, exigiram a contratação de outras cinqüenta Coelhinhas". Eu soubera por Sheralee que havia 103 garotas trabalhando no clube. Perguntei à garota que estava lendo se realmente havia necessidade de contratar mais cinqüenta. Provavelmente, ela respondeu, pois o clube abrira com 140 Coelhinhas e quase 50 haviam se demitido. Outra garota discordou. — Eu ouvi dizer que vinte foram demitidas e outras quarenta pediram demissão. Mas eu acho que foram até mais, porque nós somos cem agora e muitas são Coelhinhas novas. Eu disse que ia perguntar à Srta. Shay quantas garotas haviam se demitido, só de curiosidade. — Nem se dê ao trabalho — disseram-me. — Aqui ninguém nos conta nada mesmo. Peguei o jornal e continuei a ler: — "As garotas, na opinião deste repórter, são as mais lindas jamais reunidas sob um mesmo teto. A maioria tem nível superior e modos esmerados. São treinadas para oferecer o melhor serviço possível... Ganham de três a dez vezes mais do que ganhariam em atividade similar. A média de ganhos é entre duzentos e trezentos do-

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lares e as Coelhinhas conhecem pessoas extremamente atraentes." O artigo terminava com o endereço do clube e como se inscrever. De duzentos a trezentos dólares de quanto em quanto temp perguntou a Coelhinha dissidente. — Eu recebi 108 dólares 0 esta semana e a garota que mais ganhou recebeu 145. Perguntei se ela era garçonete e ela disse que sim. . Da próxima vez que este Leo Shull vier aqui — disse a dissidente — , vou perguntar onde ele arrumou estes números. Cuidado — disse a dona do jornal. — Ele é cliente Número Um. Sheralee me chamou em seu escritório. Continuava desesperada por uma garota "de mais de 21 anos" que pudesse trabalhar até às quatro da manhã. Será que eu não trabalharia na chapelaria outra vez? Eu pesei a proposta. Era mais uma chance de trabalhar antes da Srta. Shay se lembrar de que eu ainda não lhe entregara a certidão de nascimento. Por outro lado, eu sairia do treinamento para Coelhinha Garçonete às seis e começaria uma jornada integral às sete e meia. Meus pés continuavam tão inchados que eu mal conseguia calçar os saltos dez exigidos e estava com um curativo enrolado na cintura no local onde a fantasia apertara e ralara minha pele. Decidi apostar que não seria descoberta durante mais algum tempo e expliquei meu cansaço a Sheralee. Será que não daria para ela encontrar outra? — Vou tentar — ela disse, aborrecida. — Mas se não conseguir, estou contando com você. Tomei o elevador até o mezanino mais uma vez e caminhei até a escada em caracol. Descer aquela escadaria, fantasiada, em plena luz do dia, me pareceu ainda mais surrealista com dúzias de transeuntes em seu horário de almoço olhando para dentro. Um dos chefes de seção me aguardava na base da escada. — Suba e desça outra vez — ele disse, mostrando a multidão que se juntava na rua. — Refresque os olhos desse pessoal. De acordo com a bíblia da Coelhinha, desobedecer um chefe de setor equivalia, automaticamente, a quinze deméritos. Procurei uma desculpa. Olhe — eu disse. — Estou atrasada para o encontro com um cliente Número Um. — Vá em frente, pequena — ele disse, sorrindo com aprovação— Mexa-se.

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Desci as escadas e caminhei para o fundo do lobby, onde se encontrava o Playmate Bar, local do treinamento. Ele estivera escuro e deserto quando eu entrara nele por ocasião de minha primeira entrevista e a parede por trás do bar reluzia com ampliações de transparências coloridas de Coelhinhas seminuas da revista Playboy. Dirigi-me à área de serviço, ao fundo do bar, para arrumar uma bandeja na qual coloquei uma toalhinha de bar, um isqueiro Playboy e todos os outros itens exigidos pela Escola de Coelhinhas. Minha Coelhinha Treinadora me entregou suas comandas e me mandou seguila enquanto visitava suas mesas. Ao chegar a cada mesa, ela dizia: "Esta é a Coelhinha Marie e ela é uma Coelhinha em treinamento". Dois homens me disseram que se eu fizesse tudo o que eles mandassem eu iria bem e que a primeira coisa a fazer seria livrar-me da malhumorada Coelhinha Treinadora. — Não se preocupe com esses imbecis. Passam a tarde inteira enchendo a cara e se acham muito espertos. Perguntei se eles não poderiam ser homens da Willmark. Se não estariam sendo difíceis apenas para testá-la. — Não seja tola. E fácil identificar os homens da Willmark. Eles nunca tomam mais que um drinque. Duas de suas mesas estavam vazias e ela me mandou atender quem quer que se sentasse nelas. Meus dois primeiros clientes carregavam pastas plásticas e usavam buttons de veteranos de guerra nas lapelas. Aproximei-me deles, cheia de confiança, e embarquei direto no ritual de garçonete. — Boa tarde, senhores, eu sou sua Coelhinha, Marie — eu disse, e coloquei um guardanapo diante de cada homem ("este procedimento indica ao chefe do setor quais clientes já foram servidos"), tendo o cuidado de olhar direto para eles ao fazê-lo ("olhe nos olhos do cliente imediatamente"). — Eu poderia ver seus chaveiros, por favor?—Um dos clientes me entregou o chaveiro do Coelhinho junto com a chave de um quarto no Hotel Astor. Eu a devolvi e comecei a preencher a comanda. — Bem — ele disse, batendo na mesa, deliciado. — Pelo menos eu tentei. — E verdade — disse o outro. — Você não pode nos dar seu endereço mas nada impede que se lembre do nosso. Enchi os copos de gelo, gritei o pedido de dois Old Fashioneds

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no bar e perguntei como devia colocar o "lixo" necessário nos drinques a gíria apropriada para enfeites de copo. Com as mãos, tá pensando o quê? — disse o barman. Peguei duas rodelas de laranja e cutuquei uma cumbuca já cheia de suco até encontrar duas cerejas. Com os drinques equilibrados na bandeja eu me aproximei dos dois veteranos. — Você é casada? — perguntou o batedor de mesas. Respondi que não. — Bem, que importância teria se fosse? Eu também sou casado! — Enfiando o quadril na mesa, dobrei os joelhos, inclinei o corpo para trás dando o Mergulho da Coelhinha e coloquei os drinques direto nos guardanapos. Senti-me como uma idiota. — Você está se saindo muito bem — minha Coelhinha Treinadora sussurrou com doçura e gritou: — Um J & B, uma Coca-Cola e dois martínis — para o barman. Atendi outros três grupos, todos homens. Dois disseram "Se você é minha Coelhinha, eu posso levá-la para casa?" Outro me perguntou se minha foto estava sobre o bar. Os veteranos me deixaram um dólar de gorjeta. Agradeci e disse que eram meus primeiros fregueses. O batedor de mesa deu um soco no braço do colega e se dobrou de tanto rir. — Esta garota — ele disse, ainda às gargalhadas —, é uma Coelhinha virgem! — Ele secou as lágrimas dos olhos. Às seis horas devolvi minhas comandas para a Coelhinha Treinadora. Todas as gorjetas das contas pagas com cartão ficariam para ela, presumivelmente como prêmio pelo meu treinamento. Eu disse a ela que os veteranos haviam me deixado um dólar. — Pode ficar — ela disse, magnanimamente. Eu o enfiei no cofre", como vira as outras Coelhinhas fazer, e subi para me trocar. Estava tirando o saco plástico de dentro do decote quando a Srta. Shay entrou na Sala da Coelhinha. Eu jamais a vira aqui. Teriam minhas credenciais sido descobertas? Era possível que não tivesse sabido do meu turno de emergência na chapelaria, mas era provável que soubesse que eu estaria servindo drinques na noite seguinte, de oito à meia-noite. Ela se deteve ao chegar ao meu lado. Continue assim — disse ela em tom de confidência. — Ouvi dizer que você é uma ótima Coelhinha.

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Decidi perguntar a respeito da "Outra Marie Ochs" que ela mencionara na primeira entrevista. — Que outra Marie Ochs?—ela perguntou, sumindo para dentro do escritório da Mamãe Coelha. Estou em casa e Sheralee acaba de telefonar avisando que encontrou outra garota para o turno na chapelaria. Minha sorte continua firme.
QUINTA, DIA 7

Cheguei à Sala da Coelhinha uma hora mais cedo para ver se conseguia descobrir alguma coisa a respeito de minhas irmãs coelhas. O jornal as descrevera como universitárias, atrizes, artistas e até mesmo lingüistas. Perguntei a uma Coelhinha que se sentara a meu lado sobre as lingüistas. Ela disse que era verdade, que havia umas estrangeiras trabalhando na sala VIP. (Conforme eu lera na bíblia, "VIP são as iniciais de Very Important Playboy, é claro".) Na verdade, era necessário falar inglês com sotaque estrangeiro para trabalhar no salão em questão, que se especializava em jantares e ceia da meianoite. E as Coelhinhas que trabalhavam lá ganhavam bem? — Na verdade não. Só cabem cinqüenta pessoas no salão e como é jantar, o entra e sai é bem menor. E bem melhor servir drinques e se livrar dos boçais rapidinho. — Então perguntei a respeito das universitárias. — Ah, claro. Acho que tem umas três ou quatro que freqüentam aulas durante a semana e trabalham nos fins de semana. E como é que elas conseguiam trabalhar só nos fins de semanas, as noites de maior movimento e de melhores gorjetas? — Escuta aqui, colega, tem gente aqui que pode escolher os horários que quiser e o resto tem de agüentar uma semana de almoços ou aquela porcaria de chapelaria. Na maioria são as garotas de Chicago ou alguém que tem prestígio junto à gerência. Perguntei se isso não seria por estarem trabalhando há mais tempo— Claro — ela disse, procurando um lugar para colocar as orelhinhas em cima do cabelo armado. — Só que tal sistema não deveria existir. "Vocês são todas tratadas da mesma forma", é isso. que nos dizem.

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perguntei o que ela fizera antes de se tornar Coelhinha. Nada de mais. Fui modelo um tempo. E o que ela esperava que ser Coelhinha lhe traria? Pensei que talvez desse para economizar algum dinheiro para tirar umas fotos e fazer um book para poder virar modelo de verdade. Mas depois de três meses fazendo isso aqui, quero mesmo é me casar. Tem caras para os quais eu nem olharia antigamente que hoje em dia não me parecem tão ruins assim. Fui para o outro lado da mesa, onde quatro garotas comiam rosquinhas e bebiam chocolate ("comer na Sala da Coelhinha... cinco deméritos"), e me apresentei como sendo uma Coelhinha nova. Todas se apresentaram pelo primeiro nome. Elas pareceram satisfeitas com a interrupção e me ofereceram uma rosquinha. Perguntei mais uma vez a respeito das universitárias. — É, tem mesmo algumas por aí — disse uma delas. — Eu conheci uma outro dia que está fazendo um curso de fotografia. Perguntei o que elas haviam feito antes de se tornarem Coelhinhas e o que gostariam de fazer no futuro. Três delas disseram que gostariam muito de ser modelo — não de alta-costura e sim para anúncios ou para confecções. A quarta disse que era casada, que tinha um bebê e que estava apenas ganhando uns trocados como Coelhinha porque não tinha treinamento para mais nada. Elas fizeram perguntas a meu respeito e repeti o que escrevera no formulário de solicitação de emprego, um histórico provável porém nada impressionante para uma Coelhinha: que eu trabalhara como garçonete (era verdade, embora durante a faculdade), que eu dançara em boates e que sonhara em ser bailarina profissional um dia (também era verdade, embora eu tenha precisado trocar algumas datas para poder diminuir a idade) e que meu trabalho mais recente fora como secretária (não era verdade, mas era a única coisa para a qual eu conseguira arrumar referências). - Nossa, você já fez coisa à beça — disse a candidata a modelo de confecção. — Se você sabe bater à máquina para que diabos quer ser Coelhinha? Eu disse a elas que tudo que eu ouvira dizer a respeito do clube me parecera magnífico. Li para elas o mais recente Playboy Club News: nossas garotas não abrem mão de salários altos pelo glamour. Uma Coelhinha ganha facilmente duas vezes o salário semanal de uma secretária... Sem contar a vantagem a mais que é a possibilidade

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de ser descoberta. Muitas Coelhinhas se transferiram para o ramo artístico e hoje podem ser vistas em filmes, em shows ou como modelos..." Fez-se um breve silêncio. — Bem... E verdade — disse uma delas. — Se eles dizem isso é porque deve ter acontecido com algumas garotas. — Uma outra disse que uma das Coelhinhas de Chicago saíra na capa da Playboy há mais ou menos um ano e que estava para sair outra vez logo logo. — É isso aí — disse a terceira. — Mas ouvi dizer que é só porque estão com poucas Coelhinhas e estão tentando recrutar mais. Eram quase oito da noite, hora de vestir a fantasia laranja brilhante (esperava que fosse mais confortável do que a azul-rei) para servir drinques na Sala de Estar. Mais uma vez eu tinha uma Coelhinha Treinadora cujas comandas eu usava. Também fiquei com um grupo de mesas só para mim, já que uma das Coelhinhas Garçonetes faltara. — Era só o que faltava — comentou a Coelhinha Treinadora. — Uma garota sofre um acidente de carro e tinha de ser justamente no meu turno. Minhas mesas encontravam-se no "Cantinho dos Quadrinhos", um canto decorado com quadrinhos emoldurados tirados da Playboy. Como era bem ao fundo do bar, com quatro degraus a serem subidos, era considerada uma área difícil. A técnica da Coelhinha para carregar bandejas envolvia ter de carregar as bandejinhas redondas equilibradas lá em cima, na palma da mão esquerda, enquanto olhávamos direto para frente andando de maneira elegante e levemente rebolativa. O Passo da Coelhinha. Parecia ser muito simples, mas. depois de uma hora carregando bandejas cheias de cubos de gelo, garrafas de drinques semiprontos e meia dúzia de drinques de cada vez, meu braço esquerdo começou a tremer e o sangue parecia que jamais voltaria às pontas dos dedos. Além do mais, eu ainda não fora paga. Reclamei para minha Coelhinha Treinadora mas ela disse que eu não tinha motivos para reclamar. As Coelhinhas contratadas antes da inauguração do clube, em dezembro, haviam treinado durante três semanas sem serem pagas. Realmente aprendi muito. Atendi 22 clientes, derramei dois drinques (um em mim mesma e um no cliente) e recebi duas cantadas. Os músicos do bar me ensinaram que existe o "Tema do Playboy > com a seguinte letra:

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Se o seu amor é um Playboy Afrouxe as rédeas um pouquinho. Se os olhos dele vagarem, minha querida, Seu amado não passa De uma criaturinha ranzinza Que se derrete por um pouco de brilho. Então, se você estiver amarrada, Lembre-se de que ele é um Playboy E que a garota que fizer dele um homem caseiro O terá para sempre. Fale sempre docemente, Por mais indiscreto que ele seja E nunca deixe que a vida perca a leveza.

Uma das muitas tarefas dos homens da Willmark é se certificar de que este hino seja tocado no começo e no fim de cada show, todas as noites — tal qual um hino nacional.

SEXTA-FEIRA, DIA 8

Terminei minha primeira noite como Coelhinha Garçonete profissional e minhas atenções estão quase totalmente voltadas para os meus pés. Doem como dentes podres. Estão tão inchados que não consigo calçar os tênis. Meu maior medo é de que a curvatura tenha desabado. Não obstante, lembranças desta noite vão e voltam em minha mente. Item. Eu servi todas as mesas do Cantinho dos Quadrinhos, o dobro de ontem, das sete e meia da noite às quatro da manhã, sem descanso. Equilibrando bandejas abarrotadas com uma das mãos, eu ja tinha feito dezesseis viagens de ida e volta ao bar até que perdi as contas. Três clientes deixaram cair drinques, gelados, nas minhas costas eu so comi duas azeitonas a noite inteira. Por que será que não esisti, não me joguei no chão e esperneei ou pedi demissão? Queria saber. Item. O barman da Sala de Estar é um artista. Rápido, elegante, exato e calmo, ele controlou a sala praticamente sozinho. "Na semana passada, incluindo horas extras e bônus, recebi 180 dólares",

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ele me disse. "E olha que eu sou o barman mais bem pago da casa." Perguntei a ele por que não pedia demissão. "E exatamente o que vou fazer", ele respondeu. Item. Os funcionários beliscam comida roubada do bufê dos clientes em pratos comunitários. Somos uma grande família. Item. Recebi 29,85 dólares de gorjeta, tudo em notas de um dólar e moedas. Aumentam a prosperidade mas tornam a fantasia desconfortável. Perdi dois quilos ontem à noite.

SÁBADO, DIA 9

A curvatura do meu pé não desabou. Calcei galochas (os únicos sapatos grandes e largos o bastante para caberem meus pés) e fui ao calista ("Todas as garotas do Copa são minhas clientes"), que me disse não haver nada de errado com meus pés, a não ser trabalho demais, saltos muito altos e cansaço muscular. "Com um trabalho desses", ele disse, todo contente, "seu pé é bem capaz de aumentar algumas pontuações." Trabalhei na Sala de Estar outra vez esta noite. Peguei emprestado um par de sapatos três pontuações acima da minha, protegi minhas costelas com gaze por dentro da fantasia e convenci os auxiliares de garçom a me ajudar a carregar as bandejas mais pesadas. Só assim consegui sobreviver à noite. Mas fui recompensada com as seguintes informações: 1. Uma Coelhinha que já tenha posado para o pôster central da revista Playboy recebe cinco dólares a mais, por dia, do que as outras. Ela também é obrigada a se apresentar aos clientes da seguinte forma: "Eu sou Sue, Coelhinha da revista Playboy" em ve de "Eu sou sua Coelhinha, Sue" e precisa autografar o pôster e questão se o cliente pedir. 2. Com o intuito de apaziguar os ânimos dos nova-iorquinos qu compraram chaveiros esperando freqüentar um clube privé, Hugh Hefner declarou que clientes não-associados "devem obter um passe provisório válido apenas por uma noite e precisam pagar

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no ato do pedido, em espécie". Ao contrário das instruções do Sr. Hefner, as Coelhinhas são encorajadas a cobrar depois de servirem os drinques, mas poucas fazem isso. A maioria deixa que os clientes acumulem a dívida e paguem tudo de uma vez como qualquer portador de chaveiros. Para dizer a verdade, as Coelhinhas preferem servir não-sócios por saberem que estes pagarão em espécie e que a gorjeta das contas pagas com cartão serão compartilhadas com a casa. 3. Coelhinhas e serventes vivem um relacionamento de amor e ódio. Um bom servente pode enriquecer uma Coelhinha se ele mantiver as mesas limpas para a chegada de novos clientes. Um mau servente pode roubar as gorjetas em espécie antes que a Coelhinha a veja e insistir que ela tomou um "cano" do cliente. Assim, uma Coelhinha poderá passar uma noite inteira bajulando um moleque que ela nem sonharia em tratar bem fora do clube. E um relacionamento complicado, mas íntimo, nos mesmos moldes de muitas mulheres e seus cabeleireiros, um sabe tudo sobre a vida do outro. 4. Muitas Coelhinhas acham sacos plásticos perigosos como enchimento porque fazem suar, e conseqüentemente perder peso quando mais se precisa de energia. Dão preferência a lenços de papel e algodão. 5. A forma de conseguir uma comidinha, mesmo sendo Coelhinha Garçonete, é afaná-la do bufê dos clientes (sob pena de demissão instantânea, é o que diz um memorando recente) e escondê-la na despensa. Assim você belisca um pouco cada vez que passar. Quase ninguém vai à sala dos funcionários para comer ensopado.

DOMINGO, DIA 10 Chegueia casa Às quatro da manhã e tinha de estar de volta ao clube, fantasiada, às onze para posar para fotos de publicidade. A princípio fiquei furiosa (são 25 deméritos para quem faltar), mas uma vez que já levantara e saíra de casa, fiquei contente. Era a primeira vez em quase três dias que eu via a luz do dia. O fotógrafo da Playboy estava ajeitando uma garota na imensa e curvilínea escadaria ao fundo do lobby. Cada uma de nós tirava uma

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série de fotos ridículas: sentada nas escadas com as pernas esticadas, em pé com a mão no corrimão ("chegue o corpo para frente um pouquinho, querida, só da cintura para cima"), e descendo as escadas com a bandeja lá no alto. Perguntei ao fotógrafo para que serviriam as fotos. "Não sei", respondeu. "Ordens de Chicago." Por força do hábito, as Coelhinhas novas tinham de assinar uma cessão de direitos de todas as fotos. Perguntei se nossas fotos acabariam em alguma promoção do clube ou na própria revista. Ninguém sabia dizer. Uma voz me chamou das profundezas do Bar. Era a Srta. Shay, sentada à mesma mesa na qual eu a vira da primeira vez aguardando para entrevistar candidatas a Coelhinha. Os fotógrafos pediram para colocarem música. "Marie tocará para nós", ela disse. "Marie toca piano muito bem, não é, querida?" Não, respondi, não sei tocar nada. "Mas eu tenho certeza de que você me disse que tocava piano durante a entrevista", ela disse com firmeza. O esquecimento de minhas credenciais, a outra Marie Ochs e agora a história do piano. Pensei nas diversas vezes em que eu vira a aparentemente eficiente Srta. Shay chamar serventes pelo nome errado. Pela primeira vez eu tive a certeza de que, a não ser que alguém me reconhecesse, eu trabalharia no Playboy Club o tempo que quisesse. Lá fora o sol brilhava e me perguntei quanto tempo eu gostaria de ficar. Já que Marie não seria descoberta, Marie teria de pôr um fim à sua própria carreira. De acordo com os horários desta semana, eu teria de trabalhar no almoço, quatro horas por dia, e só. Não era incumbência das mais invejadas mas me daria mais tempo para conversar com as Coelhinhas. Decidi que Marie viveria até sexta-feira.

SEGUNDA, DIA 11

Um artigo do Metropolitan Daily foi o assunto do dia na Sala da Coelhinha. Duas ex-Coelhinhas estão processando o clube devido a gorjetas atrasadas e "informação enganosa" em relação à quantia que um Coelhinha pode ganhar. Uma delas disse ao repórter que ela recebera cinco ameaças de morte, imediatamente após entrar com a ação.

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Eu conheci Phyllis Sands — disse uma Coelhinha. — Mas não sei quem é essa Betsy McMillan que recebeu as ameaças. — Ela olhou bem as fotos das duas. — Elas se certificaram de que as fotos eram boas para publicação. — Por que, ela achava que as tais ameaças podiam ser mero golpe publicitário? — Ué, e eu lá sei? — ela disse, sacudindo os ombros. — Vai ver que não disseram a ela que o clube ficaria com metade das gorjetas ou talvez o salário seja muito mais baixo do que ela esperava. Mas, por outro lado, talvez ela tenha mandado o namorado fazer ameaças pelo telefone só para seu nome aparecer no jornal. Vai saber! Desci até a Sala de Almoço e comecei a pôr a mesa. Das seis outras Coelhinhas que trabalhavam ali, eu conhecia três: uma Coelhinha chinesa, uma outra que anunciou em alto e bom som que não precisava encher o decote e a ruiva grandalhona com Voz de bebê que eu conhecera no primeiro dia, na Sala da Coelhinha. O chefe do setor dividiu as mesas e nos sentamos na beirada do palco para esperar os clientes. A Coelhinha sem enchimento comentou que as gorjetas eram bem melhores em Chicago. — Os caras são mais burros por lá — ela disse. — Quer dizer, é mais fácil fazer com que acreditem que você sairia com eles, assim te dão uma gorjeta maior. — O clube de Miami também é uma droga — disse Vozinha de Bebê. — Uma vez nós nos juntamos e avisamos que iríamos embora se não nos pagassem melhor. Eles nos mandaram ir em frente, contratariam outras garotas. — Será que não foi um blefe duplo, hein? — comentei. — E verdade. Ia custar caro para o clube se nós todas nos demitíssemos ao mesmo tempo. Mas eles iam fazer o quê? — disse uma Coelhinha de cabelos escuros. — Ah, sei lá. Talvez mandassem buscar Coelhinhas em outros clubes — disse Vozinha de Bebê. — A gente sempre se dá mal. — Htavia um piano no meio do palco e ela fingiu que estava tocando Jazz para a sala toda. — Lá-lá-lá-ri-rá — ela cantarolou. Uma Coelhinha de cabelos compridos foi até lá e fingiu, com enorme destreza, que estava fazendo um striptease. — Me pediram para posar para a revista uma vez — ela contou. - Agora não chamariam mais. Eu emagreci tanto...

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A Coelhinha de cabelos escuros disse a ela que não tinha importância porque eles sempre faziam foto-montagem. Ela própria conhecia a garota que fazia os seios. Eu disse que duvidava muito que fosse verdade, que há limites para o que se pode fazer com airbrush. — E eles devem usar garotas diferentes — disse a stripper. —. Os seios que saem na revista são de tamanhos diferentes. — Eles sã-ããão de tamanhos diferentes — cantou Voz de Bebê, levantando-se para fazer seu próprio striptease. Ela tirou a gravataborboleta, a gola e os punhos e os jogou para fora do palco seguindo cada movimento com um experiente rebolado. — O.K., garotas — disse o chefe do setor com a voz gelada. — Chega. — Três clientes de meia-idade, os primeiros do corre-corre da hora do almoço, encontravam-se à porta, apertando os olhos para enxergar na penumbra do salão. — Pronto — disse Vozinha de Bebê, enojada. — Os babacas chegaram. Servir o almoço durante quatro horas não seria o bastante para reabrir todas as feridas dos meus pés. Mas as pilhas e mais pilhas de rosbife (é só isso que servimos, e é por isso que o chefe deste setor é chamado de "O Rei do Rosbife") faziam pesar mais a bandeja do que os drinques. Os clientes eram todos homens. As esposas e namoradas que apareciam à noite estavam ausentes nos almoços. Um cliente me disse várias vezes que era vice-presidente de uma companhia de seguros e que me pagaria para servir durante uma festa particular em seu hotel. Um outro se levantou da cadeira, depois do quarto martíni, e se pôs a cafungar o meu pescoço. Quando me afastei ele se zangou de verdade. — Por que você acha que eu venho aqui? — indagou. — Para comer rosbife? Às três, quando a última mesa fora limpa, eu voltei à Sala da Coelhinha. A chefe de guarda-roupas me parou. — Minha filha — ela disse —, essa fantasia está enorme eml você. Era verdade, eu perdera quatro quilos desde que a vestira pela primeira vez. Era também verdade que, pela primeira vez, estava apenas tão desconfortável quanto uma cinta apertada. Ela apertou a cintura com alfinetes e me mandou tirar a fantasia.

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Vai estar cabendo como uma luva quando você chegar para trabalhar amanhã. Vou ter de apertar cinco centímetros de cada lado. Eu tirei o Playboy Club News do meu armário e li em voz alta: "O mundo do Playboy Club é cheio de bons shows, lindas garotas e playboys que gostam de se divertir. É uma festa contínua. As alegres Coelhinhas sentem-se como se fossem um dos convidados..." Minhas colegas da Sala de Almoço começaram a rir. — E que festão — disse Vozinha de Bebê. — Nem sair com os clientes se pode. Perguntei se algum homem da Willmark já tentara pegá-la. — Nããão — ela respondeu, pensativa. — Mas um cara ofereceu duzentos dólares para uma garota se ela prometesse encontrá-lo depois do trabalho. E ela aceitou—Vozinha de Bebê disse com desprezo. — Ela devia saber que só mesmo um imbecil ou um homem da Willmark ofereceria dinheiro antes.
TERÇA, DIA 12

Duas das minhas colegas da Escola da Coelhinha, Gloria e a assistente de mágico, juntaram-se a nós na Sala de Almoço. Peguei-me explicando como servir o rosbife e como convencer os clientes de que estava malpassado, bem-passado ou ao ponto, embora estivessem todos, na verdade, idênticos. Era dia do aniversário de Abraham Lincoln e o movimento estava fraco. Ouvi a Coelhinha sem enchimento explicar que gostava de homens mais velhos porque "eles te dão dinheiro". — Saí uma vez com um velho que conheci no clube e arrumei mais duas Coelhinhas para os amigos dele. Sabe que ele me deu um cheque de cem dólares só porque foi com a minha cara? A Coelhinha sem enchimento explicou também que um dos executivos da casa lhe havia dado setecentos dólares para comprar um vestido. - Eu tinha quinhentos dólares e comprei um vestido de 1.200 -e ele me levou a uma festa vestindo o tal vestido. Uma Coelhinha de cabelos escuros disse que conhecia o mesmo cara de Chicago.

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— Você e todo mundo — disse a Coelhinha sem enchimento. — Se você fosse contar todas as Coelhinhas que saíram com o cara... A Coelhinha de cabelos escuros estava pensativa. — Nós tivemos um caso muito louco durante três semanas. Foi loucura mesmo. Eu deveria saber que não ia dar em nada... — Todas as garotas acham que vai dar em alguma coisa — disse a Coelhinha sem enchimento em tom de consolo. — Mas nunca dá. — Conversaram sobre o apartamento imenso do executivo, sobre sua fortuna e impulsos românticos. Ele me pareceu um exterminador. Sem Enchimento se levantou para servir um cliente e a Coelhinha de cabelos escuros olhou para ela com desdém. — Duvido que ele tenha dado setecentos dólares para ela declarou com firmeza. — Ninguém arranca um centavo dele.

QUARTA, DIA 13 Completei a lista de enchimentos de decotes: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. Lenços de papel Sacos plásticos Algodão Rabos de Coelhinhas Espuma Lã de carneiro Absorventes íntimos cortados ao meio Lenços de seda Meias de ginástica

Descobri também que não só podemos sair com clientes Número Um como com qualquer um a quem estes nos apresentem. Podemos sair também com quem quer que conheçamos nas festas de Vic Lownes. Mas, no entanto, há limites para esta pesquisa.

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SEXTA, DIA 15

A Sala de Almoço estava cheia de homens bebendo sem parar porque é sexta-feira. Carreguei pratos de rosbife e a alternativa especial de sexta-feira: truta. Coelhinha Gloria estava de pé, com uma bandeja cheia de xícaras esperando que a cafeteira fosse enchida. — Sabe o que nós somos? — perguntou, indignada. — Garçonetesl

Sugeri que nos juntássemos ao sindicato. — Sindicatos só servem para tirar o seu dinheiro e não deixar que você trabalhe dois turnos — disse Vozinha de Bebê. A assistente de mágico estava servindo uma mesa ao lado da minha e concordava, sinceramente, com um cliente que dizia que nossas fantasias eram "tão inteligentes e realçam tão bem as formas femininas". Ela tentava tanto fazer as coisas com "graça", como mandava a bíblia, que não era nada eficiente como garçonete. Ao nos programar com o que era, nas palavras de uma outra Coelhinha, "um glamourzinho de merda", o clube muitas vezes se prejudicava. Foi meu último dia de almoços e isso me deixava muito contente. De alguma forma, os puxões nos rabinhos, as cantadas, os beliscões e os olhos esbugalhados eram bem mais deprimentes quando o sol brilhava além das paredes daquela sala sem janelas. Encontrei Sheralee em seu escritório e contei a ela a história que eu escolhera porque deixava as portas abertas caso eu precisasse de mais informações: minha mãe estava doente e eu precisava passar algum tempo em casa. — Justo agora que estamos com uma falta enorme de Coelhinhas! —ela exclamou, consternada, e perguntou quando eu estaria de volta. Eu disse que não sabia, mas que ligaria. Ela me entregou o salário da primeira semana: 35,90 dólares pelas duas noites na Sala de Estar. Perguntei a respeito da primeira noite na chapelaria. — O treinamento não é remunerado — ela disse. Protestei que não fora treinamento. — Vou falar com o contador — concordou, sem muita convicção.

104 QUINTA, DIA 21

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Quase uma semana se passou. Liguei para Sheralee para dizer que voltara para buscar algumas roupas mas que precisava pedir demissão. Ela me implorou para trabalhar no bar mais uma noite. Por algum motivo (será que eu aprenderia alguma coisa nova?) eu me peguei aceitando.

SEXTA, DIA 22 Mas foi exatamente a mesma coisa:
suas mesas são aquelas: quatro de quatro e três de dois". CLIENTE: "Se você é minha Coelhinha, posso levá-la para casa?" BARMAN: "Eles não param de mudar o tamanho das doses: sobe, desce, desce e sobe. É de enlouquecer". COELHINHA: "Trabalhei na festa.privé da LoLo Cola e ganhei seis latas de brinde. Grande coisa". CLIENTE: "Estou no Hotel New Yorker. Quarto 625. Você vai lembrar?" HOMEM: "Se mocinhas fossem grama, o que seriam os mocinhos?" COELHINHA: "Deixa eu ver... Cortadores de grama?" HOMEM: "Não. Gafanhotos!"
CHEFE DE SETOR: "AS

Aviso na parede da despensa:
ESTE É O SEU LAR. NÃO JOGUE BORRA DE CAFÉ NA PIA.

SERVENTE: "Tem dinheiro saindo pelos lados da sua fantasia, meu anjo", COELHINHA: "Ele é mesmo um cavalheiro. Trata você bem, quer tenha

dormido com ele ou não".

Eram quatro da manhã quando entrei na Sala da Coelhinha para tirar a fantasia. Uma loura bonita juntava duas cadeiras para dormir. Ela prometera substituir outra garota no almoço, depois de oito horas no bar, e não teria tempo de ir até em casa. Perguntei por que ela fazia uma coisa dessas.

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— Bem, a grana não é ruim. Ganhei duzentos dólares na semana passada. Finalmente eu encontrara alguém que ganhava o mínimo do salário prometido. Mas para isso ela trabalhava sem parar. No escritório de Sheralee havia um quadro com uma lista das cidades onde seriam inaugurados os próximos clubes (Pittsburgh, Boston, Dallas e Washington) e um papel amarelo intitulado O QUE É UMA COELHINHA? "Uma Coelhinha do clube", dizia o texto, "assim como a Coelhinha da revista é... linda, atraente... Nós faremos o que estiver em nosso poder para transformar você, Coelhinha, na garota mais invejada da América por trabalhar no lugar mais glamouroso e excitante do mundo." Entreguei minha fantasia pela última vez. — Tchauzinho, querida — despediu-se a loura. — Te vejo nos quadrinhos. — 1963

PÓS-ESCRITO Efeitos deste artigo a curto prazo: 1. Recebi uma longa carta de Hugh Hefner dizendo que "a história do exame médico ao qual as garotas se submetiam antes de começar a trabalhar me levaram a eliminá-lo". (Ele continuava a achar que era "uma boa idéia", e observou que não era a primeira vez que o exame era "mal-interpretado e transformado em algo duvidoso".) Ele incluiu também os primeiros quatro mandamentos de sua "Filosofia do Playboy". Durante grande parte da carta de três páginas, no entanto, ele insistiu em que não se importara nem um pouco com o artigo. 2. Uma ação judicial, por calúnia e difamação, no valor de um milhão de dólares foi movida contra mim e contra um jornalzinho de Nova York, hoje extinto, que comentara meu arti-

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go e o fato de o gerente do clube de Nova York ter sido acusado de manter claras relações com a Máfia. Embora tais alegações não tivessem saído do meu artigo, incluíram-me no processo como forma de me incomodar. Passei muitas horas desagradáveis depondo e sendo ameaçada com punições. Finalmente, o jornal fez um acordo sem me mencionar. Outros jornalistas me contaram que este tipo de ação, com ou sem base na verdade, era uma forma usada com freqüência para desencorajar ou punir jornalistas. 3. Servi de testemunha para a Divisão de Bebidas Alcoólicas do estado de Nova York para identificar as instruções escritas que me foram passadas como Coelhinha para que servissem de prova num processo contra o Playboy Club por ter um alvará de funcionamento como bar público embora se anunciasse na imprensa como clube privé. Isto se relacionava ao fato do Playboy Club ter subornado autoridades para obter o alvará para a venda de bebidas alcoólicas e em seguida ter usado as provas deste suborno contra as mesmas autoridades. A Divisão de Bebidas Alcoólicas do estado de Nova York contra-atacou com o processo do público versus privé no qual eu servi de testemunha. Os advogados me disseram que outras Coelhinhas haviam sido procuradas mas tiveram medo de testemunhar, até mesmo tendo apenas que identificar as instruções escritas nas quais nos instruíam a ressaltar a natureza privada e exclusiva do clube. Eu assistira a tantos julga- i mentos em filmes nos quais a justiça vencia no final que concordei. Depois do advogado do Playboy Club ter passado um tempo considerável tentando provar que eu era mentirosa, uma mulher de moral duvidosa, comecei a entender por que as outras Coelhinhas haviam se recusado a testemunhar. No final, o Playboy Club manteve o alvará. 4. Muitas semanas de ligações obscenas e ameaçadoras feitas por um homem com grande conhecimento interno do Playboy Club. 5. O súbito desaparecimento de matérias jornalísticas sérias porque I eu me tornara uma Coelhinha — o motivo não tinha a menor importância.

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Alguns dos efeitos a longo prazo: 1. Meus pés aumentaram uma pontuação devido aos saltos altos e às horas seguidas carregando bandejas pesadas. 2. A satisfação de saber, vinte anos depois, que o estado de Nova Jersey decidira que a Playboy Enterprises não estava apta a operar um cassino em Atlantic City devido ao fato de haverem subornado autoridades para obter um alvará para servir bebidas alcoólicas. Tal decisão perdurará até que a Playboy Enterprises deixe de pertencer ao Sr. Hugh Hefner. 3. A revista Playboy continua a publicar uma foto minha, como Coelhinha, no meio de fotos ainda mais pornográficas de outras Coelhinhas. A versão de 1983 era que meu artigo "aumentara o número de candidatas a Coelhinha". A versão de 1984 trazia uma foto tirada num jantar quando eu levantei os braços e meu vestido de noite escorregou, revelando parte de meu seio. Tratava-se de um jantar beneficente para a Fundação Ms. para Mulheres e também meu aniversário de cinqüenta anos. Nenhuma outra publicação usou essa foto. Mas a Playboy não esquece jamais. 4. Trinta anos de ocasionais telefonemas de Coelhinhas de ontem e de hoje com histórias sobre as condições de trabalho e as exigências sexuais sofridas. Nos primeiros anos, as Coelhinhas se impressionavam com o fato de eu ter usado meu próprio nome no artigo. Uma delas disse ter sido ameaçada "com ácido atirado na cara" por ter reclamado das Coelhinhas serem usadas sexualmente. Outra citou ameaça idêntica por ter sugerido que as Coelhinhas se sindicalizassem. Todas ficaram surpresas de encontrar meu nome no catálogo telefônico. Eventualmente, precisei trocar o número e fazer com que não constasse mais do catálogo. 5. Em 1984, foi feita uma dramatização deste artigo para a televisão, estrelando Kirstie Alley, então uma atriz desconhecida, no meu papel como repórter. Tinha um título horrendo "A Bunny's Tale" (a frase, falada, tem duplo sentido: "História de uma Coelhinha" ou "O Rabo de uma Coelhinha"), mas o filme era bom. Sua qualidade deveu-se, principalmente, ao fato de a diretora Karen Arthur ter reunido as mulheres

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não só para ensaiar como também para se conhecerem — algo praticamente inexistente na televisão. Uma antiga Coelhinha do Chicago Playboy Mansion ofereceu-se para ser diretora técnica. Ela vira muitas jovens serem destruídas por drogas e queria ajudar-nos a mostrar a realidade dos bastidores da vida destas mulheres. Mesmo dizendo estar recebendo ameaças pelo telefone, ela ficou no set: uma réplica exata do Playboy Club de Nova York, construído pelos esboços do arquiteto responsável. Dizem que Hugh Hefner usou suas influências na televisão para pressionar a rede ABC a não ir adiante com a produção do filme. Mas o mesmo foi exibido e passou na ABC durante quatro anos e é reprisado até hoje no canal Lifetime. No ano passado uma moça que trabalha num café perto de minha casa me contou que o filme significara muito para ela. Seu namorado também o assistira e finalmente compreendera o que ela passava como garçonete. Isso significou muito para mim. Me dar conta de que toda mulher é uma Coelhinha. Depois que o feminismo entrou em minha vida, parei de me arrepender por ter escrito este artigo. Graças à versão para televisão, tive o imenso prazer de me relacionar com mulheres que talvez não leriam um livro ou uma revista feminista ma que reagiram positivamente às raras condições de trabalho razoáveis e a um grupo de mulheres que se apoiam umas i outras. 1995

Em Campanha

Os trechos que se seguem, editados deforma a manter ordem cronológica, foram tirados de artigos sobre George McGovern, Eugene McCartby, Martin Luther King Jr. (com a co-autoria de Lloyd Weaver),John Lindsay, Nelson Rockfeller, Robert Kennedy e Richard Nixon. Ao escrever estes artigos, eu jamais imaginaria que políticas aparentemente transitórias teriam impacto tão permanente.

JULHO, 1965 Estou no aeroporto de Boston aguardando uma carona para Vermont e tenho à minha frente alguns dias como espectadora de interessantes conversas políticas. O Professor John Kenneth Galbraith e família tiveram a gentileza de convidar a mim, uma jornalista nova e pouco conhecida, para participar de uma reunião anual de fim de semana em sua fazenda, em Vermont. Passei as últimas semanas ansiosa pela ocasião. Examino os passageiros que desembarcam do vôo, vindos de Washington, DC, mas não vejo ninguém que talvez seja o desconhecido escolhido pelos Galbraith para alugar o carro que nos levara a Vermont — o senador democrata de Dakota do Sul. Há apenas um homem alto, magro e meio encurvado que vasculha, ele também, a multidão. Pelo menos ele levanta a vista de vez em quando das pastas que retira de uma maleta velha e estufada. O homem caminha em minha direção. É mais jovem do que parecera de longe. O terno amarrotado e grande demais parece ter sido comprado por catálogo, via correio, e o delata, claramente, como um homem que não dá a menor bola para roupas. — Olá, sinto não tê-la visto antes — ele disse, pronunciando sílabas de maneira lenta e arrastada. — Meu nome é George McGovern.

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Nada de "senador", nada de coisa alguma. Estou um pouquinho decepcionada. Não que eu tenha conhecido muitos senadores na vida mas este aqui, definitivamente, não possui o physique du role. Além do mais, ele tem uma dificuldade enorme em localizar o balcão da locadora de carros e acaba me fazendo sentir o mais bem viajado e eficiente dos seres se comparada a ele. Já no carro, aos poucos vou esquecendo que ele não possui estilo e passo a prestar atenção ao que diz. A viagem é longa, mas o tempo voa: três horas de um despretensioso bate-papo político no qual está pressuposto que eu sou um ser humano no mesmo nível que ele. Assim, ele me permite participar e aprender alguma coisa. De modo geral, McGovern conversa sobre a atual estratégia do senado para falar de paz e de acordos, na força histórica de Ho Chi Minh, nas intenções que o Presidente Kennedy tivera em relação à política externa, antes de sua morte, e de outras influências na guerra do Vietnã. Mas ele também me dá cuidadosos conselhos sobre que médico consultar a respeito de um problema de coluna que vai e volta, sente imensamente que eu não vá conhecer a esposa e suas filhas por estarem de férias em Dakota do Sul e repete várias anedotas galbraithianas, de verões passados, com claro deleite. Quer fale sobre os senadores afetados pelo alcoolismo ("a doença política", segundo McGovern) ou suas próprias opiniões sobre diversos líderes nacionais, ele não demonstra ser uma pessoa desconfiada e pouco franca, o que eu sempre espero de políticos. Ele também dirige em alta velocidade e falta de atenção enquanto fala, e me incumbe da difícil tarefa de decifrar os mapas das estradas secundárias de Vermont. Para minha surpresa, eu li os tais mapas corretamente, pela primeira vez na vida, um feito que devo, em parte, à confiança depositada em mim. Também ofereci algumas teorias políticas pessoais e fico cada vez mais impressionada com o tal homem. Como ele não é opressivo, como não usa o estilo "líder", ele me permite, e provavelmente a outros, ouvi-lo e segui-lo com respeito. No entanto, voltarei ao papel de ouvinte assim que o seminário de astros políticos começar. Além de Galbraith e Arhtur Schlesinger Jr., há outros estudiosos de Harvard e do governo Kennedy, além de uma variedade de vizinhos que aparecem para filar uma ou outra refeição. McGovern é a única outra pessoa que fica igualmente contente ouvindo ou expondo suas teorias. Ele parece ser um estranho

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respeitado que se diverte com as batalhas retóricas deste sofisticado grupo embora não deseje juntar-se a ele. Somente quando entramos no assunto recrutamento para guerras é que eu, a mais jovem do grupo por muitos anos, tenho coragem de me expor. Digo que acho que um maciço movimento de resistência ao recrutamento está prestes a começar. Pela primeira vez, tornouse respeitável e até mesmo digno de admiração que um jovem se case, finja ter a saúde delicada ou ser homossexual, enfim fazer qualquer coisa para evitar matar e ser morto nesta guerra imoral. Em apuros, tentei documentar o que dizia. Em troca, ouvemme com atenção e tolerância. Alguns até sorriem. Certamente, o grupo inteiro concordaria que esse movimento de resistência ao recrutamento militar é de fato interessante mas que haverá de se limitar aos sofisticados grupos pacifistas, como os de Nova York. Não era provável que se tornasse um movimento em massa. Foi a reação de todos, menos de McGovern. — É verdade, vai mesmo acontecer — ele disse com tristeza. — Sinto isso no país inteiro. Os garotos estão prontos para pagar o preço da resistência. Eles simplesmente não aceitarão esta guerra como aceitaram as outras, ou mesmo a Coréia. No domingo ele acrescenta o assunto a um discurso que está escrevendo e mostra para o grupo, pedindo críticas. Eu o leio e me surpreendo com o ataque direto e irado à política de Johnson em relação ao Vietnã. Assustada por ele, sugiro que se proteja explicando a falácia da teoria do Efeito Dominó: o argumento de que o Vietnã comunista dará início a uma inevitável corrente de quedas de governos. O discurso será, sem dúvida, usado contra ele. Ele me ouve com atenção e em seguida diz que não poderá lançar mão de tanta cautela. O discurso será feito com sua ira intacta. Embora eu tenha sido escalada no papel da nova-iorquina radical, suspeita de queimar a bandeira nacional em praça pública, por alguns dos convidados, McGovern se revelou uma pessoa menos cautelosa do que eu. Mais tarde, quando pesquisei seu registro de votos no senado, descobri por que ele está tão acostumado a estar na vanguarda. Em 1963, na companhia do amigo e aliado político Jack Kennedy, ele medicou seu primeiro discurso no senado para avisar à casa que o Vietnã era um erro dos mais trágicos e que "nos perseguirá por cada canto deste globo revolucionário". Em 1964, enquanto outros políticos ainda

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lamentavam "o problema do negro", McGovern, na época em seu primeiro mandato como senador, condenava "o racismo do branco". A carona de volta ao aeroporto de Boston se atrasa. McGovern esqueceu de desligar a chave do carro alugado e a bateria arriou. Galbraith usa seu carro para empurrar o alugado por quilômetros e mais quilômetros de estradas de terra até a garagem mais próxima. O senador parece envergonhado. Começo a compreender que ele possui o mesmo problema que eu. Ele é ótimo em situações de emergência mas péssimo com coisas do dia-a-dia. Ao pegarmos a estrada de volta para Boston, ele conversa um pouquinho do amadurecimento resultante de se forçar a penetrar campos por ele desconhecidos. Ele acredita que ainda estaria em alguma cidadezinha do interior da Dakota do Sul, por exemplo, se sua timidez não o tivesse levado a competir nos debates da escola como um doloroso antídoto. Eventualmente, sua habilidade em apresentar um argumento convincente encheu o garoto quieto e franzino de confiança. (Um dos únicos debates que ele perdeu foi para Eleanor Stegeberg, com quem se casou posteriormente. Ela crescera tendo um fazendeiro muito político como pai e estava acostumada a debater na mesa do jantar.) Ele "morria de medo de voar", então se obrigou a tirar um breve. Aliviado, pensou que jamais teria de pilotar outra vez, mas o fato de ter o breve o tornou candidato a piloto de bombardeiro durante a Segunda Guerra Mundial. — Venci o medo de voar mas ficava apavorado a cada missão de bombardeio. O homem que não admite seus medos é um tolo. Eu não o faria outra vez, mas aprendi minha lição a respeito da guerra. Hoje entendo que os homens que mais a amam são aqueles que jamais lutaram. Teimoso, tenaz, persistente. A maneira de tentar fazer o carro pegar ou de perseguir uma questão política era, provavelmente, tão característica como a forma com que reagiu ao medo de voar ou de falar em público. Por mais lento ou hesitante que parecesse, ele jamais desistia. Despedi-me e lhe agradeci pela carona. Ao se afastar, no aeroporto, parece um passageiro comum, cansado como qualquer outro. Mas eu sei que em sua mente há raiva e senso histórico. Eu me pergunto como este homem despretensioso e honesto tornou-se político.

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SETEMBRO DE 1967

Aj Lowenstein e outros da campanha de Dump Johnson incluíram o nome de McGovern na lista dos que poderiam entrar nas eleições primárias para desafiar a política de LBJ em relação ao Vietnã. Al chegou a lhe perguntar mas, aparentemente, a conservadora equipe de McGovern na Dakota do Sul era completamente contra. (Um deles anunciou incrédulo: "George, tem um judeu de Nova York que quer que você se candidate à presidência".) No final, McGovern decidiu que a preocupação de sua equipe em relação à sua difícil reeleição era acertada. Além disso, ele acreditava que o verdadeiro desafio a ser enfrentado por Lyndon Johnson ainda era Bobby Kennedy. Creio que ele tenha mandado Al conversar com o Senador Eugene McCarthy de Minnesota, também incluído na lista. Ele não estava prestes a tentar uma reeleição e estava enfurecido o bastante com o presidente (que o levara a crer que seria seu vice-presidente para em seguida escolher Humphrey) para se deleitar com a idéia de envergonhar Johnson em Nova Hampshire. Além disso, McCarthy não morria de amores pelos Kennedy por considerá-los "maus católicos" e não se importava se Robert Kennedy era ou não o adversário mais lógico. Pena que McGovern recusou. Teria sido um breve agito, mas talvez o país tivesse se dado conta de quem era Robert Kennedy, descrito como "o único homem decente do senado". Hoje ele é a obscuridade em pessoa.

ABRIL DE 1968

As cortinas se abriram às 19:15 horas. Assim, o prefeito John Lindsay não ouviu o primeiro boletim e não soube que Martin Luther King tora baleado. As oito e meia, no Alvin Theatre, no meio de um número musical chamado Spring in the City, um detetive negro ouviu o Segundo boletim e se embrenhou pelas fileiras de cadeiras. Não era a primeira vez que Ernest Latty, um policial à paisana, que servia de assistente e guarda-costas, levava à atenção do prefeito alguma situação de emergência no meio de uma peça de teatro, de um discurso público ou de uma noite de sono, mas havia uma urgência toda especial em seu rosto quando se inclinou por cima de

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Walter e Jean Kerr, sentados no corredor, para entregar um bilhete para o Prefeito, pedindo que deixasse o teatro. Lindsay se voltou para a esposa e ela fez sinal para que partisse, que ela ficaria. Boa idéia, ele pensou; era uma importante estréia para o ator Tom Bosley, um velho amigo, e não seria de bom-tom se ambos se retirassem. Mas todos os pensamentos relacionados a musicais e estréias deixaram sua mente quando ele leu sobre o assassinato de King, compreendeu a enormidade do fato e, imediatamente, começou a sentir a perda. Ele pensou: É assombroso: não é verdade. Tal qual Kennedy. Ele pensou: Uma reação impensada, em todo o país. Ele pensou: E aqui também. Queria ir ao Harlem, disso tinha certeza. Alguns tipos de arruaças — em virtude do alto número de ratos, da coleta de lixo, reclamações sobre o sistema de previdência social, por exemplo — começavam em guetos mais jovens e mais voláteis tais como Brownsville ou Bedford-Stuyvesant e se espalhavam para o Harlem por simples contágio. Mas este, o prefeito sabia, nasceria no coração do Harlem, a mais antiga e politicamente sensível concentração de líderes negros de todo o país. Se acontecesse. 'Além do mais", ele disse aos assistentes, amargamente, "alguém precisa ir lá. Alguém branco precisa encarar aquela emoção toda de frente e dizer que sentimos muito." A viagem transcorreu em silêncio. O aroma doce da primavera tornava o silêncio das ruas ainda mais sinistro. Na delegacia de polícia, no centro do Harlem, Lindsay recebeu um boletim da inteligência dizendo que a área estava "esquentando" e deixou o carro com um preocupadíssimo Dave Garth atrás do volante na Eighth Avenue com 125th Street, onde o povo começava a se juntar. Ele começou a conversar com as pessoas, duas em duas, de três em três, a apresentar suas condolências, dirigindo-se aos poucos para a Seventh Avenue para que uma multidão não se formasse. As lágrimas jorravam pelos rostos das mulheres. Grupos se juntavam silenciosamente do lado das lojas de discos, onde os alto-falantes noticiavam a violência em outras cidades ou as palavras gravadas do próprio Martin Luther King, de vez em quando abafadas pelo som de sirenes — um incêndio começara há poucas quadras dali — ou pelo staccato de ligações policiais de uma patrulha estacionada próximo dali.

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Numa faculdade da zona residencial da cidade algumas centenas de estudantes assistiam a um show de dança e música afro-americana quando alguém adentrou o auditório e anunciou que o Dr. King estava morto. Ao deixarem o auditório no meio do show, os quase duzentos estudantes, brancos e negros de mãos dadas, marcharam pela Convent Avenue até chegar à 125th Street e alcançarem Lindsay, que lhes pediu para dispersarem. — Nós paramos — contou uma participante da marcha —, mas outras pessoas nos haviam seguido, sabe, e então aquilo tudo começou. "Aquilo tudo" eram os saques esporádicos, as pedras atiradas e os cerca de cinqüenta incêndios noticiados naquela noite. A jovem estudante ficava cada vez mais chocada e confusa à medida que a marcha ia entrando num mundo iluminado pelas luzes vermelhas das radiopatrulhas, da fumaça que se espalhava, da sirene dos caminhões de bombeiros. — Ele não concordava com a violência — ela disse a respeito de King. — Não é certo que estejam fazendo isto. Como tantos outros, estes andarilhos eram fruto da Revolução Black Power. Seus heróis eram Stokely Carmichael, Malcolm X e LeRoi Jones. Num mundo estudantil povoado por Camus, Fanon e Malraux, Martin Luther King parecia um substituto débil para a militância. Não obstante, o sonho de King era maior do que o sonho dos pais da revolução. — Para mim chega — disse um rapaz bem vestido. — Eles são capazes de fazer uma coisa dessas com um homem como King... com um homem como King. Para os líderes, os heróis do ativismo, o dilema era bem pior. Em seus meios mais íntimos, a grande maioria, até mesmo Rap Brown, admitia que esperaram, do fundo do coração, que King estivesse certo. — Agora—explicou o autor Addison Gayle, um militante negro —, todos nós sentimos medo. Passamos a ter de acreditar em nossa Própria retórica. A uma da manhã de sexta-feira, lixo e cacos de vidro sujavam as principais ruas da cidade mas grande parte da multidão de duas horas atrás havia dispersado. Não houve um distúrbio de verdade. Até então.

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Em Gracie Mansion, Lindsay ordenou que um turno extra de garis estivesse nas ruas, de vassoura em punho, às seis da manhã, de modo a apagar todos os vestígios da violência da noite anterior. Ele aprendera, durante dois outros verões "quentes", que os habitantes das favelas, ao depararem com limpeza e ordem ao acordarem, ficam mais propensos a manter as coisas desta forma. (A conseqüência normal da maioria dos distúrbios era a recusa dos garis, e de outros funcionários da prefeitura, de entrar na área atingida. Em Newark, estado de Nova Jersey, os manifestantes estavam continuamente irritados pelo lixo nas ruas, assim como pelos tanques.) A psicologia do desespero é uma coisa delicada. Às oito e meia da noite de sexta-feira, Jesse Gray, líder dos inquilinos do Harlem, foi para a esquina da 125 th Street com Lenox para encorajar o povo a aguardar o carro de som e o comício que ele organizara. Jesse começou: — O homem branco desembarcou do Mayflower atirando e matando índios. Hoje, o seu objetivo é exterminar os negros. Há quatro anos, no dia dezenove de julho de 1964, fizemos esta observação publicamente... já faz quatro anos e há mais guardas brancos na rua do que em 1964. O orador seguinte foi Charles Kenyatta, comandante de espada em punho de um grupo paramilitar intitulado os Harlem Mau Maus. Ele usava a retórica de revolução — um líder militante precisava estar à frente de seus seguidores—mas pedia ao povo que se acalmasse. — Deixe que eu lhes diga uma coisa—ele começou. — Se esta cidade precisa ser demolida, que o façamos no centro da cidade. Eu estou dizendo a todos estes líderes para lutar ou para ficar de bico calado, porque revoluções não têm líderes. Livingston Wingate, antigo diretor do Har-You-Act, era o próximo. — Irmãos e irmãs da colônia do Harlem — começou. — Mais uma vez eles nos colocaram numa crise, mas nós somos os filhos da crise. Antes do homem branco assassinar King, eles assassinaram seu movimento... King apenas lhes acenava com uma Constituição que lhes pertence... E eles a agarraram, a colocaram nos bolsos das calças e o crivaram de balas. A voz dele foi sumindo enquanto a multidão gritava em uníssono: — Queremos o branquelo! Queremos o branquelo!

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O comércio estava movimentado no sábado, tanto no Harlem quanto no Brooklyn. As lojas, carbonizadas, estavam sendo limpas e vigiadas por guardas de olhar plácido. O Harlem voltava à sua condição normal, à simples luta diária pela sobrevivência. No Centro Comunitário para Ação Jovem em Bedford-Stuyvesant, numa loja saqueada chamada Winston's TV, e onde quer que as pessoas parassem para conversar, Lindsay proferia sermões instantâneos enquanto descia Fulton Street. — Por que não volta para Gracie Mansion?—berrou um homem naquilo que foi um dos poucos maus momentos do dia. Na esquina de Bedford Avenue, Chuck Willis, um funcionário da força-tarefa, encontrava-se em meio a um dos grupos do prefeito, assim como o assessor de Lindsay, Barry Gottehrer. Nenhum dos dois viu um senhor idoso ser atropelado por um carro até que Lindsay correu para ajudálo. Aparentemente, após tantas peregrinações a pé, ele havia adquirido os olhos de um salva-vidas num domingo de sol. Chamaram uma ambulância e Lindsay ficou ao lado do velhinho até que ela chegasse. Em Washington houve gás lacrimogêneo e tiroteios, tropas cercando a Casa Branca e tanques em New Hampshire Avenue. Em mais de quarenta cidades americanas houve distúrbios sérios o bastante para algum tipo de lei marcial, e a presença de armas normalmente reservadas para os campos de batalha. Em Nova York, a maior de todas as cidades, o lugar onde todos esperavam que algo acontecesse, não eclodiram distúrbios. O motivo real foram os próprios habitantes dos guetos. O controle face ao terror veio de quem menos se esperava, de grupos inesperados. Outros motivos foram menores, mais tênues, porém igualmente importantes: as ruas varridas, a tentativa de reconciliação, uma linha direta 24 horas no ar, a prontidão da força-tarefa do prefeito, e a eleição de um prefeito que podia e que se dispunha a ir aos bairros onde vivem os pobres. Nova York precisará de muita sorte para que todas estas variantes funcionem outra vez. "A paciência de um povo oprimido não pode durar para sempre."
— Martin Luther King Jr.

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JUNHO, 1968

Quando Robert Kennedy foi baleado, eu assistia à cena de sua vitória californiana pela televisão. E continuei a assistir. E de repente não havia mais nada a fazer. Nada mais que valesse a pena. Fiquei ao lado da tela de vidro a manhã inteira e grande parte do dia seguinte, e do dia que se seguiu a este, assistindo a cada passo trágico se desdobrar em uma tragédia ainda maior. Então revivi a soma final de todos estes passos cada vez que sua essência, gravada e editada, era reprisada. Foi uma vigília quase tão longa quanto a que vivemos na morte do Presidente Kennedy: nossa versão de cerimônias arcaicas, cujo conforto se encontra na repetição do ritual e numa espécie de autohipnose. Às vezes, esta proximidade eletrônica ajuda a manter a sanidade do país inteiro. Se tivéssemos apenas ouvido falar daquela loucura ocorrida em Dallas — privados da dignidade civilizada do enterro do Presidente Kennedy no qual nos agarrarmos —, talvez tivéssemos dado início a uma corrente de vinganças mais aterrorizantes do que as que se seguiram à morte de Lincoln. Antes das primárias de New Hampshire, tínhamos o hábito de nos reunir depois do trabalho na imensidão vazia do terceiro andar do quartel-general da campanha presidencial de McCarthy, em Columbus Circle. Éramos um grupo de redatores e editores com visões políticas bastante diferentes, em particular no que dizia respeito ao valor da campanha anti-Vietnã. No entanto, todos tínhamos algo em comum: o desespero. Suponho que nossa presença ali excluísse, por um lado, representantes do establishment, e por outro lado tipos antivoto. No entanto, representávamos quase tudo o que havia: aqueles que odiavam Bobby ou aqueles que rezavam para que Bobby se declarasse candidato, velhos liberais para os quais lutar contra um dos seus representava uma batalha quixotesca e plena de valentia, os radicais da Nova Esquerda para os quais trabalhar dentro de um sistema acabava dando no mesmo, até mesmo uma republicana, que esperava fortalecer a causa antiguerra e assim conseguir a nomeação de Nelson Rockfeller. Nós colocávamos maltrapilhas cadeirinhas de armar em um círculo, evitávamos discutir nossas diferenças e nos concentra-

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vamos na esperança mútua de transformar as eleições primárias para presidente numa vitrina para a campanha anti-Vietnã. O mais estranho era que nenhum dos presentes às reuniões de brainstorming da campanha presidencial de McCarthy era, na verdade, a favor de McCarthy. Sabíamos que ele fazia afirmações cautelosas porém exatas a respeito da guerra. Sabíamos, pelo seu registro de votos no Senado, tratar-se de um homem decente, mas não de um revolucionário. E, acima de tudo, sabíamos que estava disposto a se candidatar para as primárias de New Hampshire. A alternativa era um presidente que não tinha palavra e cujo ego, de tamanho considerável, parecia atrelado a um mecanismo de "busca e destruição". McCarthy podia não ser o melhor, mas era claramente melhor. Então decidimos gostar dele e assim foi. • Em janeiro de 1966, ele começara a discursar, corajosamente, contra o envolvimento americano no Vietnã. (E claro que Galbraith já começara a aconselhar o Presidente Kennedy a este respeito em 1962 e que McGovern começara a criticar nossa presença no Vietnã no Senado em 1963 — mas nenhum dos dois topara o desafio de se candidatar em New Hampshire.) • Ele foi um crítico precoce e lúcido do complexo militar-industrial. (Mesmo assim destinou verbas para o Vietnã, assim como quase todo mundo. Votou também a favor da defesa civil e do Conselho de Controle a Atividades Subversivas e para o Conselho Nacional para a Promoção de Prática com Rifle, assim como todos os outros senadores.) Ele era um intelectual, um professor que escrevia livros e os próprios discursos, um poeta que vivia na companhia de poetas e filósofos. (Pouco importa que sua prosa fosse excessivamente simples e sua poesia matreira. Quantos políticos penduram um retrato de Sir Thomas More em seu gabinete em vez de dos usuais líderes de partido?) • Ele escrevera o famoso discurso de candidatura para Adiai Stevenson em 1960 — "Não rejeitem este homem que nos

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fez sentir orgulho de sermos democratas" — correndo assim um enorme risco político. (E claro que McCarthy comparecera àquela convenção como a provável escolha de Lyndon Johnson para a vice-presidência, que esperava ser nomeado no caso de um empate entre Stevenson e Kennedy. Mesmo assim, este possível estímulo adicional não invalida a força daquele grande discurso.) Em fevereiro, o senador veio a Nova "York. Haveria um jantar de captação de recursos para a sua candidatura, algumas entrevistas coletivas, uma caminhada pelo Garment District (uma caminhada pelo Harlem seria impossível porque os grupos negros não estavam interessados em patrociná-la), e uma reunião com os cabos eleitorais potencialmente influentes. Qualquer um dos presentes naquela última reunião haverá de se lembrar do talento de McCarthy para espalhar entusiasmo. Wyatt Cooper escrevera uma apresentação graciosa e elogiosa. Praticamente todos, da centena de presentes, estavam predispostos a gostar e a apoiar McCarthy devido ao seu histórico e ao que estava fazendo em New Hampshire. Mas depois de alguns minutos de discurso, a esperança e o entusiasmo começaram a se esvair. Ele era cauteloso, pouco inspirado e seco. No meu caso, a manhã seguinte foi ainda pior. Acompanhada de três outros jornalistas voluntários, nós todos trabalhando num suplemento de jornal destinado aos estados onde haveria eleições primárias, eu me reuni com McCarthy no hotel onde se hospedava, o St. Regis. Cada um de nós fez perguntas nas áreas fortes do senador, com o intuito de incluirmos citações suas no suplemento. Em seguida a cada pergunta, McCarthy virava-se para o coordenador da campanha, Blair Clark, ou para um jovem assessor de imprensa, e dizia: "Acho que mencionamos isso num discurso para o Senado" ou "Lembramse daquele artigo que a Look não publicou? Peguem uma cópia para eles." Nós fizemos perguntas e mais perguntas. Nós nos viramos do avesso com perguntas. (Existe uma gravação deste fiasco em algum lugar; poderia ser vendida como um disco de piadas.) Jamais recebemos uma só resposta espontânea. Finalmente, cheguei a uma pergunta que ele ainda não podia ter respondido. Qual era a diferença entre a eleição primária de New Hampshire e as campanhas passadas para o congresso?

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— Não existe diferença alguma — ele disse sem entusiasmo. .— É exatamente a mesma coisa. Em termos espirituais, McCarthy me faz lembrar de um distinto funcionário de um banco, que costumava se recostar na cadeira, juntar os dedos em forma de pirâmide, e dizer a meu pai: "Não, eu não lhe concederei um empréstimo". Foram os jovens, é claro, que transformaram McCarthy num símbolo de esperança. O governo Kennedy, venerado com uma afeição nostálgica, parecia velho, rançoso. Quando, no dia 16 de março, Bobby Kennedy finalmente anunciou, tarde demais, sua candidatura à presidência, a depressão foi generalizada. Eu entendia perfeitamente por que ele, tendo muito mais a perder do que McCarthy, deixara-se seduzir por maus conselhos e recusara-se a lançar sua candidatura em New Hampshire. Mas ele perdera seus eleitores. No quartel-general de McCarthy, no entanto, não bastava apoiálo como candidato. Era necessário também que se fosse contra a pessoa de Robert Kennedy. O ambiente estava saturado de superioridade moral. McCarthy, que fora algo entre um homem decente e a única opção, era agora a inexpugnável salvação da lavoura Sua presença em New Hampshire anulara todos os seus defeitos, assim como a ausência de Kennedy anulara todas as virtudes deste. A escolha de um ou outro candidato, cujas plataformas políticas não eram assim tão diferentes, fez com que amigos deixassem de se falar e objetivos comuns fossem esquecidos. As fofocas a respeito de quem trocara de lado tornaram-se, subitamente, tão interessantes quanto quem estava tendo um caso com quem. Mas a tolerância era bem menor. Finalmente resolvi me afastar completamente, argumentando que já havia gente demais trabalhando nas duas campanhas. Fui trabalhar com César Chavez. E foi o líder dos trabalhadores migratórios da Califórnia, num estilo parecido ao de Mahatma Ghandi, que me convenceu de que a compaixão de Kennedy e sua singular capacidade de se identificar com os excluídos eram fatores muito mais importantes do que ter ou não ter se candidatado em New Hampshire. A posição dos candidatos em relação ao Vietnã podia até ser mais ou menos a mesma, assim como seus registros de votos em assuntos Racionados aos direitos civis, mas apenas Kennedy tinha credenciais de embaixador junto à colônia negra americana, uma verdadei-

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ra nação dentro da nação. Apenas Kennedy fora ao auxílio dos trabalhadores migratórios mexicanos da Califórnia quando estes fizeram greve, mesmo sabendo que grande parte dos agricultores da região apoiava o partido democrata. Alguns simpatizantes de Kennedy repetiam sem parar, "Ele pode vencer". Faziam-lhe, na verdade, um desserviço. O mais importante era que ele deveria ganhar. A época das primárias no Oregon, McCarthy começara a atacar Kennedy, não só politicamente como também pessoalmente. ("Bobby não pode ser Jack e não quer ser ele mesmo".) Adiai Stevenson, um político espirituoso, usara seu humor contra si próprio. McCarthy o usava para ridicularizar os outros. Tudo bem. Mas para que ser tão cruel à pessoa de Kennedy e deixar Hubert Humphrey, o verdadeiro oponente de McCarthy na questão Vietnã, sair ileso? E mesmo assim McCarthy declarou, em sua primeira entrevista após a morte de Robert Kennedy, que uma coisa boa deixara a Terra e que ele tentaria preencher a lacuna deixada. Naquele momento eu, e muitos outros, teria voltado a apoiá-lo. Negros e pobres compreendiam Bobby, embora muitos outros apenas começassem a fazêlo. Mas McCarthy não compreendia. "Gene ficou chocado pelo país", um amigo explicou, "e deprimido de ter de começar a campanha toda outra vez. Quando Bobby era vivo, ele o considerava um demagogo e pensa assim até hoje." Após sofrermos a passagem de Johnson pela presidência—cujo desempenho envolveu o coração mas nenhuma estrutura moral — talvez estivéssemos prestes a ser submetidos a uma estrutura moral e nenhum coração. Desejando saber se este era o caso, aceitei cobrir a campanha de McCarthy da forma mais antiquada possível: mantendo um diário.

JULHO DE 1968 Dia Um. O avião de campanha do senador vai de Washington a Pittsburgh hoje e volta em seguida. E então começa aquilo que a equipe da campanha chama de "a asa sul de McCarthy": os estados da Virgínia, da Geórgia e de Kentucky. Sentada à sua frente, vejo McCarthy curvado na cadeira como um Ray Milland caipira. Muito do ressentimento que sinto se esvai. Compreendo agora por que os

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críticos são tão mais cruéis com diretores e dramaturgos do que com atores: é impossível ser severo demais com aqueles que desnudam sua vulnerável forma humana diante dos olhos de todos. Olhando dois anúncios pró-Rockfeller e Humphrey através de pesados óculos de leitura, os antiquados suspensórios esticados sobre a camisa bem engomada e os ombros ossudos, ele mais parece o pai de alguém, um homem amado e cansado, conferindo as contas do mês com imenso cuidado. Um pouco deslocado, um pouco remoto, ele parece ser o tipo de homem que lê jornal na praia calçando mocassins com a roupa de banho. Dia Dois. Seja em Nova York, ontem em Pittsburgh, ou neste instante no avião, as divisões da equipe são interessantes. A equipe itinerante, os contratados locais e a vanguarda, todos parecem dividir-se em duas categorias: os fiéis, ou seja, aqueles que encaram a campanha como uma cruzada, e os pragmáticos, aqueles que vêem McCarthy apenas como a melhor alternativa. Os fiéis não são críticos e chocam-se com as opiniões dos pragmáticos (eles próprios responsáveis pela alcunha de "fiéis"). Os dois grupos tendem a escolher as palavras na presença do outro. Os dois grupos se preocupam com a influência do outro sobre o candidato. Além desta divisão há uma outra, entre os membros da equipe que permanecem em contato direto com McCarthy (a maior parte do tempo dentro do avião) e os contratados locais ou do quartelgeneral. O primeiro grupo tem uma postura muito mais distante do que o segundo. Não porque seu entusiasmo por McCarthy seja menor, mas porque dedicam-se a imitar seu estilo pessoal. Portanto, escarnecem dos que demonstram alguma emoção. Este modo de ser, distante, discreto e levemente cínico, parece natural em McCarthy mas fica muito estranho em seus jovens assessores. Além disso, não passam uma imagem de entusiasmo pelo candidato. "Os moleques são eficazes em proporção direta à distância que mantêm de McCarthy", observou um dos integrantes de nossa comitiva. — Dêem uma olhada nesse avião — disse um dos assessores, que não era um dos Fiéis. — Nós podíamos ter qualquer figura de respeito a bordo, Mike Harrington, Galbraith, Pat Moynihan, mas nao temos quase ninguém. McCarthy acha que não precisa deles. Dia Três. Charles Callahan, um jovem calado, um verdadeiro rochedo de Gibraltar, assessor pessoal de McCarthy, disse que pode-

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rei acompanhar o vôo para Atlanta esta tarde. Como sempre acontece em aviões de campanha, tanto a equipe quanto a imprensa concentram-se em quem está monopolizando as atenções do candidato. Noto que, em comparação aos tempos anteriores a New Hampshire, McCarthy deu início a um processo peculiar aos meios artístico e político: ele está se transformando numa estrela. O tom branco-acinzentado de sua pele foi substituído por um bronzeado discreto mas por igual, os cabelos prateados estão mais compridos e não mais gomalinados. As meias não são mais curtas, de seda, com relojinhos bordados nas laterais. Além de terem espichado o bastante para sumirem por dentro das barras das calças, são de tricô. Mas a metamorfose vai além, tem mais a ver com coisas interiores, com mudanças causadas pelo constante escrutínio do público e das atenções obsessivas de uma equipe. Talvez a mudança seja o poder. Eu pergunto: — Há impressões errôneas em outros artigos que talvez queira corrigir com este? — Esta foi uma pergunta estudadíssima, um verdadeiro tiro certeiro. Tirando comentários sobre o tempo, as reclamações em relação à imprensa parecem ser a unanimidade mundial. Ele responde daquela maneira aparentemente branda. — As pessoas só se interessam pelo número de delegados, sabe? Está errado. E cedo demais para isso. Comparecer a comícios e conversar com delegados é ótimo, mas o importante mesmo é ficar de olho nas pesquisas de opinião. Elas é que contam. Veja só os jornais, o New York Times, por exemplo. Sua principal preocupação é pregar como as coisas deveriam ser. Cada vez que faço algo que, segundo eles, eu não seria capaz de fazer por não ser um candidato sério, eles encontram uma outra coisa qualquer. É bem capaz de eu ir parar na Casa Branca e ainda assim não ser considerado "sério". — Ele deu um de seus típicos meio-sorrisos sardônicos. Conversamos um pouco a respeito da notícia de hoje, de que ele demitira alguns de seus jovens assessores. — Não é mudança de imagem ou conspiração, como os jornalistas preferem acreditar. Nós tivemos enorme sucesso desde o frio de New Hampshire por termos contratado jovens. Então para que mudar? Trata-se de um conjunto de elementos: alguns de cunho econômico e os outros como parte de uma estratégia normal de redução de pessoal, após as primárias. E ainda há os que parecem ra-

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tos de praia em pleno inverno. Deviam voltar para casa e arrumar empregos. Gostam de ficar por perto, sem fazer coisa alguma. A imagem do rato de praia me surpreende. Será que ele realmente vê a garotada pacifista, aquela turma de funcionários bemapessoados, como vagabundos de praia? — Bem, não. Nem todos são assim. Mas eles realmente deviam voltar para casa. Às vezes você também tem de se livrar dos que são bons. Simplesmente não dá para separar os que você quer manter dos que quer demitir. Então, fiz uma jogada ambígua, perguntei se ele estava satisfeito por não ter sido escolhido para vice-presidente na chapa de Lyndon Johnson em 64. — Sim — ele respondeu, igualmente ambíguo. — Vice-presidentes não criam políticas. Mas será que tal candidatura não teria erradicado todo o apelo anti-sistema que ele hoje irradiava? — Hmmmm — veio a resposta. Esperei. A chave, eu descobrira depois da outra entrevista, na qual o bombardeamos com perguntas, era esperar. — Eu teria tido de permanecer em silêncio — disse finalmente, pedindo mais um refrigerante. Eu queria que ele dissesse que teria renunciado. Ou que teria protestado contra a guerra. Ou que teria promovido o impeachment de Johnson. Que pelo menos ele não teria mostrado o entusiasmo de Humphrey pelo "refreamento do comunismo". Mas o governo Johnson e a guerra do Vietnã eram, sem dúvida, favoráveis aos democratas. Também aprendi, através de perguntas e silêncios, que a maioria das personalidades que ele admirava já haviam se tornado figuras históricas. Mesmo assim, ele lamentava não ter conhecido CS. Lewis, disse que gostaria de conhecer Isaiah Berlin e Pablo Casais ( Tenho um carinho especial por violoncelistas") e "como todo mundo" (seria esta uma referência ao tipo de citação que Bobby Kennedy acolheria?) admirava Camus. O desejo de tornar-se jogador de beisebol durara pouco mas ele sempre quisera ser professor, dentro ou tora da Igreja Católica. Não tinha nenhum interesse particular na Ásia ou na África. O único país subdesenvolvido que eu gostaria de conhecer - ele respondeu com excentricidade — é a Irlanda.

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Gostaria de ter vivido em outra época? — Não — respondeu. — Gosto do presente. Silêncio. Eu disse que Bobby escolhera a Grécia de Péricles — uma resposta interessante — porque os homens desta época de ouro podiam ser líderes, artistas e tudo ao mesmo tempo. — E claro — respondeu, distante. — Uma era de heróis. Não gostaria disto. Talvez a Inglaterra, numa época em que não tenha havido heróis. Ou nacionalismo. Talvez entre os séculos XI e XVI, época em que a língua inglesa foi desenvolvida por homens como Chaucer e Langland e Shakespeare. E Erasmus, não esqueçamos de Erasmus. Teria sido uma época interessante de se viver. Uma boa época para intelectuais. Chegamos ao aeroporto onde aguardam as inevitáveis banda, faixas e máquinas fotográficas. — Não gosto de comícios em aeroportos — McCarthy declarou, ressentido. — Não há tempo para se dizer coisa alguma e ainda se tem de apertar mãos. No Restaurante Pascal Brother, em Atlanta, uma construção nova e vistosa, localizada num bairro negro onde Martin Luther King dava as suas entrevistas coletivas, McCarthy enfrentou a primeira pergunta hostil desde a sua candidatura. Pergunta: "Por que é que os negros devem votar em você?" Resposta: "Eu jamais disse que deveriam votar. Mas eu espero que um bom corte no inflado orçamento para o Vietnã e a conseqüente utilização deste dinheiro para a resolução de problemas urbanos e para a diminuição da pobreza signifiquem algo para eles". Do lado de fora do hotel onde estávamos hospedados, um garotinho de rosto doce teve a cabeça acariciada por McCarthy. Foi a primeira vez que o vi tocar alguém por livre e espontânea vontade. Limpou as mãos na perna das calças ao entrar no carro. Passamos a noite sentados no quarto de McCarthy, os assessores e eu. O candidato estava animado, um estado demonstrado por um humor cáustico e uma rara disposição para puxar conversa. Com as longas pernas esticadas e um gim-tônica aguado na mão, ele respondeu algumas perguntas e arrancou freqüentes gargalhadas. — Os Moose. Está aí uma história ridícula. Alguém me disse que o Moose Club tinha muitos associados em Minnesota e que se eu me tornasse sócio, estaria ajudando muito à minha candidatura.

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Então me associei ao clube. Isso já faz anos. Nem sei se estou em dia com as mensalidades. Agora Eric Sevareid vem dizer que não há negros entre os Moose. Se ele resolver criar caso por causa disso, acho que a CBS terá de colocá-lo na rua. No lobby, na companhia dos redatores de discurso, descobri o motivo do bom humor de McCarthy. Segundo a opinião pública, pela primeira vez desde o início da campanha ele estava à frente. Segundo Harris, ele estava pelo menos quatro pontos à frente de Humphrey. Talvez tenha sido por isso que ele atacou Humphrey com seu humor mordaz pela primeira vez. — Eu nomeei Hubert em 52 — contou a um grupo de democratas de Fulton. — E ele já estava maduro na ocasião. Quando McCarthy, o candidato pacifista, balbuciou seu famoso epigrama, "a única motivação política válida é a vingança", não deveríamos ter achado que estava apenas brincando. Esta semana fui a um daqueles programas de rádio transmitidos de madrugada — desses que vai ao ar tão tarde que você se convence de que não há ninguém ouvindo e passa a falar francamente. Eu deveria estar falando a respeito de um artigo que acabara de escrever a respeito da candidatura de McCarthy. — E bem provável—eu me ouvi dizer—que George McGovern seja o verdadeiro Eugene McCarthy. Nos dias que se seguiram recebi duas dúzias de telegramas e telefonemas. Parece que há um pequeno movimento clandestino pela candidatura de McGovern à presidência. A estratégia é a seguinte: como McCarthy não consegue atrair nenhum novo delegado há semanas, Humphrey provavelmente vencerá no primeiro turno. A única esperança são as centenas de eleitores de Kennedy e os indecisos que não querem se comprometer com McCarthy ou Humphrey. Uma terceira força poderia atrair os votos destes delegados e vencer no primeiro turno. O telefonema mais prático de todos foi da Força de Ação Kennedy, uma centena de ativistas e agentes do Corpo da Paz americano, repatriados, à procura de um candidato realmente pacifista desde a morte de Bobby. Eles haviam pesquisado os registros de votos de diversos candidatos, e decidiram que McGovern seria a melhor opção e vinham se reunindo com o intuito de mapear uma estratégia

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para levá-lo a se candidatar. Será que eu poderia dar uma mãozinha, passando a mensagem adiante? A idéia é maluca, mas o desespero é geral. Por que não? Estamos num restaurante ruim mas elegante em Capitol Hill. McGovern e sua secretária-assistente, Pat Donovan, me ouvem recitar os argumentos de seus possíveis voluntários. Torna-se óbvio que Pat concorda com a candidatura e sua presença me deixa mais à vontade para sugerir ao senador esta estranha campanha de três semanas. McGovern ouve. Digo-lhe que a garotada ex-Kennedy tem mais de dois mil voluntários só em Nova York e que estão fazendo um rateio para abrir o comitê Recrute McGovern e que há grupos similares na Califórnia. Eles concederam uma entrevista coletiva para anunciar suas intenções e estão providenciando uma enquete telefônica para descobrir quantos dos delegados de Nova York poderiam ser atraídos. Alguns ex-Humphreys e ex-McCarthys juntaram-se a eles. Ele assente com a cabeça, sério, mas é impossível saber se está satisfeito ou não. Sim, trata-se realmente de um passo que há tempos pensa em dar. Ele recebera um cheque de cinco mil dólares de um correligionário da Dakota do Sul, a ser descontado apenas se usado em sua candidatura à presidência. Além do mais, McCarthy confessara a McGovern ter plena consciência de que não tinha a menor chance de vencer Humphrey; apenas fazia o que era esperado de forma a não desapontar aqueles que o apoiavam. (Tal confissão surpreendera e preocupara McGovern. A garotada pacifista e os grupos antiguerra ainda tinham fé na possibilidade de McCarthy vencer e McGovern se pergunta o que aconteceria se soubessem da verdade.) Mas existe uma outra crise. Um dos filhos de McGovern, Terry, de dezenove anos, foi presa na Dakota do Sul por porte de maconha. Como sua prisão parece ter motivação política (o procurador do estado admitiu que ela estava sendo vigiada "há meses"), McGovern tornou-se ainda mais cônscio do preço pago por sua família pelo emprego que ele escolheu. Sua principal preocupação no caso de Terry, uma garota sensível que leva tudo muito a sério, é o desespero da menina por ter colocado a carreira do pai em risco. A família decide ir para um lugar isolado em Black Hills, para onde se retiram em momentos de grandes decisões. McGovern diz que voltará com um veredicto a respeito da candidatura.

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AGOSTO DE 1968

Na sala de reunião do senado, cercado pela família e por uma multidão de câmeras de televisão, McGovern anunciou sua candidatura à presidência. As contribuições e os telefonemas já começaram a chegar ao seu escritório em Washington e ao comitê Recrute McGovern, em Nova "Vbrk. Poucas pessoas tinham ouvido falar deste homem mas, aparentemente, a expressão de honestidade e a maneira direta de falar contrastam com os rodeios verbais de Nixon, com a linguagem bombástica de Humphrey e com o elitismo de McCarthy. A mensagem é a seguinte: "Vietnã: a mais desastrosa mancada política e militar de nossa experiência como nação. Esta guerra precisa terminar já — não no ano que vem ou daqui a dois anos. Precisa terminar agora. Além disso, precisamos concentrar os recursos espirituais e políticos desta nação de forma a erradicar os embaraçosos resquícios de racismo e pobreza que ainda afligem nossa terra". Terry permaneceu a seu lado. Em algum lugar de Black Hills, apesar da culpa de estarem colocando ainda mais um fardo sobre as costas do outro, parecem ter chegado a algum acordo. Política é uma coisa muito pessoal. Ted Kennedy, que McGovern mal conhece, lhe telefonou dando seu apoio quando Terry foi presa. Uma certa dúvida paira no ar — McGovern perguntou-se em voz alta se Ted Kennedy não seria apenas o fruto da criação de uma equipe. Mas a verdade é que a ligação fez com que McGovern mudasse de idéia a respeito de Ted Kennedy. Com ou sem declaração, ficou bem claro que pouquíssimas pessoas neste país, e na imprensa, sabem quem diabos é George McGovern. O hábito de trabalhar sozinho não ajuda muito. McGovern, simplesmente, parte do princípio de que seus voluntários farão tudo o que for preciso. Como há muito pouca gente trabalhando na campanha, nós todos acabamos por fazer um pouco de tudo. Até agora eu já escrevi folhetos, já servi na vanguarda, já captei recursos e fiz lobby junto aos delegados, já servi de boy e de assessora de imprensa — tudo isto consecutiva ou simultaneamente- Eu tento me convencer de que está sendo educativo. Por exemplo, era necessário que organizassem almoços com os grandes meios de comunicação de Nova York: o New York Times, a

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Time, e assim por diante. Tais reuniões fazem parte do ritual esperado de um candidato à presidência. Aparentemente, no entanto, a presença de mulheres em tais eventos não faz parte do ritual. Eu ainda dupliquei o erro ao chegar acompanhada de uma outra mulher: uma perita em relações públicas que também trabalhava como voluntária na campanha de McGovern. O resultado foi algum constrangimento, especialmente no caso da Time, e uma infinidade de piadas sobre mulheres. (Houve também grande hesitação quanto a nos servir cerveja preta e charutos, e editores que se desculpavam a cada vez que usavam a palavra "porra".) A outra mulher não se importou nem um pouco, endurecida que já estava pelas situações que enfrentava no dia-a-dia de seu trabalho. Mas eu fiquei surpresa com a condescendência dos editores e com o baixíssimo nível intelectual das perguntas que faziam. Seria este o ápice jornalístico pelo qual tanto almejamos? Até mesmo Pierre Salinger, que viera a pedido de McGovern, interrompia discussões importantes para fazer piadas políticas, prefaciando cada uma com um pedido de desculpas "às senhoras". Um dos editores chamou atenção para o fato da revista ter se livrado das garçonetes "com o intuito de evitarmos problemas de decoro". (Nossa comida foi servida por atenciosos senhores uniformizados.) Estranhamente, McGovern pareceu não notar coisa alguma. Ele simplesmente foi em frente com extrema seriedade e eficiência. Fumei metade do charuto, bebi metade da cerveja e consegui tirar McGovern de lá a tempo para aparecer num piquete da União dos Trabalhadores Rurais. Mas acho que não nasci para isso.

AGOSTO A OUTUBRO DE 1968

Chicago. Será que a palavra sempre trará à lembrança máscaras de gás e poças de sangue em Michigan Avenue? Tenho a impressão de que muitos de nós dividirão as vidas em "antes" e "depois" desta dita convenção democrática. Além de seu entusiasmado apoio à guerra do Vietnã, Hubert Humphrey precisa redimir-se por ter se recusado a pedir ao Prefeito Daley que controlasse a agressividade de sua polícia e que parasse o derramamento de sangue nas ruas. O mais incrível de tudo é que muitas autoridades tentam negar

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a realidade do que aconteceu em Chicago e dizem que a televisão exagerou. Eu acho até que a televisão minimizou o acontecimento. A verdade foi bem pior. • McGovern, debruçado na janela de seu quartel-general no Hotel Blackburn, aos berros, xingando a polícia por estar cercando indivíduos. Os policiais usavam luvas com pesos de metal nas pontas, cacetetes e tudo a que tinham direito. Deixaram que um homem e uma mulher se esvaíssem em sangue na calçada. Era, e já estava sendo há dois dias, um verdadeiro motim policial. Mais tarde, a equipe que se encontrava no quarto ficou surpresa com duas coisas: com o palavreado de McGovern e com sua confissão de jamais ter testemunhado a brutalidade da polícia. • Todos os dias, durante a convenção, Galbraith se levantava e dizia: "Mande George falar alguma coisa amável a respeito de Gene". Obediente, McGovern elogiava a bravura de McCarthy por ter enfrentado o frio de New Hampshire sozinho. Mas não adianta de coisa alguma. McCarthy gosta de McGovern um pouco mais do que gostava de Robert Kennedy. Eu me pergunto se ele perdoará os dois por terem dividido entre si o apoio dos eleitores antiguerra. • A reunião dos delegados da Califórnia foi o mais alegre e construtivo acontecimento de Chicago. Foi também a única vez em que os candidatos foram vistos juntos num debate. Humphrey defendeu a política de Johnson em relação ao Vietnã, assim como "a democracia de bases amplas" de Saigon. Não era exatamente uma posição popular, considerando-se que esta era a delegação mais contrária à guerra de toda a convenção. Além do mais, seu estilo alegre, de bom moço americano, não era condizente com a seriedade do assunto. McCarthy atacou McGovern mais do que a Humphrey ou a Johnson. Deixou bem claro que não via necessidade de explicar suas decisões quanto às diversas políticas. Quando os delegados o questionavam ele dizia com imensa frieza: "Eu já deixei minha posição muito clara quanto a isso".

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Os discursos de ambos os candidatos foram prelúdios perfeitos para o de McGovern, a quem foi dada a liberdade de ser quem ele realmente é. Ele demonstrou ira pelo absurdo desperdício de vidas no Vietnã, foi incisivo nas questões relacionadas à convenção — tais como a resistência de todos em receber a delegação da Geórgia por esta ter Julian Bond à sua frente — e mostrou-se caridoso para com os indivíduos de boa vontade que cometeram erros, incluindo Hubert Humphrey. As diferenças não poderiam ter ficado mais claras. A delegação adorou: aplaudia e gritava a cada resposta. No final, os delegados que já tinham se comprometido com McCarthy tiveram de ser dissuadidos de trocá-lo por McGovern. Afinal de contas, os dois senadores estavam do mesmo lado, pelo menos do ponto de vista técnico, para vencer no primeiro turno. Sem contar que um tipo de derrota como esta teria irritado o ânimo de McCarthy ainda mais. A sala estava abarrotada de gente e o debate foi televisionado para toda a nação. Foi um desses momentos carregados de energia, no qual se assiste ao nascimento de uma pessoa ou de uma idéia. Como num passe de mágica, McGovern transformara-se em candidato à presidência. • Em seu discurso de nomeação, o Senador Ribicoff atacou o Prefeito Daley e todos os representantes do establishment presentes à convenção. "Com George McGovern no poder", ele disse simplesmente, "não seríamos expostos a táticas da Gestapo nas ruas de Chicago". Ninguém ficou mais surpreso do que quem estava nos bastidores, tomando fôlego após preparar o discurso do senador. Até o ultimo minuto, Ribicoff parecera estar mais preocupado em usar ou não os óculos. Simplesmente não havia material explosivo algum no discurso que fora batido e aprovado. Frank Mankiewicz o encorajara a falar da violência enquanto aguardavam a vez de discursar. • Apesar de seu enorme esforço para vencer no primeiro turno, Humphrey ficou com a nomeação. McGovern demonstrou dúvida ao dar o braço a Humphrey num gesto de união contra Nixon, gesto este que McCarthy recusou-se a fazer.

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De volta a Nova York, grupos anti-Vietnã começaram a considerar a possibilidade de que Nixon, não tendo compromisso pessoal com a guerra, talvez a terminasse antes de Humphrey, que a defendera publicamente durante seu período na vice-presidência. Afinal, o apático Senador Eugene McCarthy quisera ter sido o vice-presidente de Johnson embora tivesse acabado como símbolo da oposição à política de Johnson em relação ao Vietnã. Robert Kennedy, que começara como um dedicado anticomunista, até mesmo convidando Joe McCarthy para ser padrinho de seu primeiro filho, acabou sendo o único político americano a se preocupar com o destino dos cidadãos vietnamitas, assim como dos soldados americanos. (Eu sempre achei que a mudança ocorrera quando ele tinha 29 anos e teve a vida salva por um médico comunista durante uma viagem para a União Soviética; mas tais explicações não servem para os cientistas políticos.) Até mesmo Strom Thurmond, um arquissegregacionista e defensor dos direitos do estado, fora reformista e discípulo de Franklin Roosevelt. Considerando que todos estes homens haviam percorrido os meandros da política com tanta desenvoltura, não seria possível que Nixon fizesse o mesmo? Embora muitos dos desapontadíssimos correligionários de Kennedy, de McCarthy e de McGovern ainda encarassem Nixon com um misto de medo (será que ele ainda acreditava que os Adiai Stevensons espalhados pelo mundo afora "espalhavam propaganda pró-comunista?") e tédio (será que teríamos paciência para assistir à experiência humana reduzida a meros clichês durante quatro anos?), ele era, subitamente, a única alternativa. Será que não seria melhor ter um homem pragmático, com alguma filosofia, que prestava atenção às pesquisas de opinião, na presidência do que um ideólogo como Humphrey, que ainda parece acreditar que os Estados Unidos devem ser os policiais do planeta? Além disso, Nixon parecia estar fadado à presidência a despeito de tudo o que fizéssemos. Quanto mais especulávamos, menos informações pessoais e fatos incontestáveis obtínhamos a seu respeito. Como a única voluntária que também escrevia artigos para a imprensa, fui designada para ser a Manchurian Candidate — como no filme de John Frankerheimer, uma pessoa contrária à sua candidatura, plantada ali para vigiá-lo — a bordo do avião da campanha de Nixon durante alguns dos dias mais importantes do outono. Eu deveria

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ser correspondente pessoal, incumbida de registrar algo além das notícias circunspectas que se lê no The New York Times, ou seja, o comportamento de Nixon, o ambiente ao seu redor e anedotas que talvez revelassem algum traço de caráter. Quinta. Durante banquetes organizados em diversas cidades, um circuito interno televisionava um jantar de mil dólares por cabeça em Nova York e, simultaneamente, um banquete para Agnew, em Los Angeles. Foram arrecadados, aproximadamente, cinco milhões de dólares mas o impacto sobre mim foi uma nostalgia instantânea. Lembranças de uma infância passada no meio-oeste americano, onde os freqüentadores de tais banquetes eram os respeitáveis cidadãos para os quais meus colegas do segundo grau (descendentes de húngaros e poloneses que jogavam futebol americano e odiavam negros) trabalhavam, em fábricas e postos de gasolina. Nada mudara: as bochechas rosadas, as faixas dos smokings ou os corações de John Dewey. Como poderiam suas imagens ter permanecido congeladas, inalteradas desde 1952? O ponto mais alto da noite foi um Nixon bronzeado e animadíssimo no palco com os braços jogados para o alto e os dedos em forma de V, subindo e descendo, numa estranha bênção para receber a ovação dos presentes. Era claro que se sentia em casa. Ele era, como dissera Art Linkletter no discurso de apresentação, "um homem cuja hora chegara". E então seguiu-se o que os jornalistas ao meu redor chamaram de O Discurso: aquela coleção de generalidades políticas, tão inexoravelmente iguais, que os jornalistas poderiam acompanhar o candidato em uníssono e interpretar cada mudança de última hora com a habilidade de um kremlinólogo. Assim, uma frase aparentemente inócua, como a paráfrase de Nixon para uma citação de Teddy Roosevelt, "Este não será um bom país para se viver até que seja um bom país para todos nós vivermos", tem mais significado quando omitidas no sul do país. Outras frases feitas, tais como "O mais importante direito do cidadão é o direito à segurança", ganham maior importância por serem deixadas no discurso. Logo percebo que ouviremos mais algumas pérolas: — E eu lhes digo que quando a capital de uma nação torna-se a capital mundial do crime, quando os motoristas de Washington precisam andar com troco extra e armas por medo de assaltos, quando

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há distúrbios em trezentas cidades e o presidente dos Estados Unidos já não pode mais ir a uma cidade sem temer uma demonstração, quando um paisinho de segunda categoria tal como a Coréia do Norte consegue seqüestrar um de nossos navios em alto mar ... E nesse momento que os sem voz, os esquecidos da sociedade devem se levantar e exigir mudança! — Eu prometo restaurar a glória da América como potência militar de primeira grandeza... Não podemos perder numa mesa de negociação aquilo pelo qual nossos garotos morreram no Vietnã. — Muitos me acusam de não falar de questões atuais. Bem, eu mandei minha equipe contar o número de questões políticas sobre as quais falei e eles encontraram 167 questões. É claro que Hubert já esteve dos dois lados em cada uma destas questões, portanto ele tem o dobro. — Eu sei que parecemos estar passando por tempos difíceis, mas agora vou dizer algo que talvez os surpreenda. Como um estudioso da história, que já viajou este mundo inteiro, eu diria que os Estados Unidos de 1968 são o melhor lugar e a melhor época de se viver. Ele fez mais alguns afagos na platéia de mil dólares por cabeça ("O sucesso por vocês obtido vai muito além dos sonhos de qualquer americano. Os participantes deste jantar são as pessoas mais sortudas de todo o mundo. Vocês estão participando dos maiores eventos de suas vidas"). E o resto foi apenas uma lista dos lugares por onde passara em campanha. Tive a impressão de que, se não tivesse estado com o bloquinho de anotações em punho, eu não teria a menor idéia do que ele dissera. Só o que restou foi uma impressão de autoconfiança. Eu me virei para um garçom, talvez a única outra pessoa que não ouvira isso tudo anteriormente. O que achou do discurso de Nixon? "Esse cara", ele disse, colocando uma pesadíssima bandeja sobre os ombros, "é um babaca tão grande que não deve nem saber o que quer dizer babaca." Este aqui não era, definitivamente, um dos sem-voz do qual falara Nixon. Sexta. Hoje iremos para a Filadélfia em um dos imensos jatos Sugados pela campanha e batizados com os nomes de suas filhas: o Tricia e o Julie. À bordo, a equipe, o Serviço Secreto e a imprensa. (O David — assim batizado em homenagem ao noivo de Julie, David ^isenhower — se juntará a nós para um tour ao meio-oeste na sema-

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na que vem. Ter o nome estampado no avião da campanha do sogro me parece uma pressão enorme para o noivado de um jovem de vinte anos.) Depois de um desfile sob uma chuva de confete e serpentina, um show televisionado para todo o estado, a comitiva inteira passaria a noite no Marriott Motor Hotel antes de começar um tour de ônibus que percorrerá nove shopping centers. O público-alvo deste tour são os americanos brancos de classe média. No avião descubro que as chances de conseguir uma entrevista exclusiva são quase zero. Mesmo as coletivas só são concedidas depois que um bando de jornalistas de prestígio o ameaça com manchetes tais como: NIXON SE ESCONDE DA IMPRENSA. Foi com Herb Klein, o inteligentíssimo e educadíssimo assessor de imprensa de Nixon, que registrei meu pedido de entrevista. Klein sente-se tão confiante de que não haverá controvérsias ou crises que permite-se passar grande parte do tempo em Nova York. Assim, deixa os contatos diários com a imprensa nas mãos de Pat Buchanan, antigo jornalista e conselheiro do grupo Jovens Americanos pela Liberdade, que é chamado quando a imprensa se torna barulhenta, e Ron Zeigler, antigo coordenador da conta da Disneylândia na J. Walter Thompson, chamado quando a imprensa está calma. — Não se preocupe — disse um simpático jornalista do meiooeste. — Não aprenderia muita coisa mesmo. A técnica dele é pegar a primeira pergunta e espremer até a última gota. Acho que ele não usa o Instituto de Comportamento do Meio-Oeste como Reagan usou. Sabe como é, eles colocam cartões de computador com diversas questões políticas e acabam com todos os posicionamentos políticos cabíveis às mentes mais conservadoras. Reagan simplesmente tirava os resultados do bolso cada vez que lhe fazíamos uma pergunta. Mas esta campanha está sendo coordenada por dois psicólogos escondidos numa sala, em algum lugar. Eu tenho certeza. Nas diversas paradas feitas pela campanha naquele dia, Nixon disse ser a favor de deixar o controle de armas de fogo a critério de cada estado mas que era a favor de instituírem sentença de prisão obrigatória para todos os crimes cometidos com arma de fogo. A respeito de Johnson e Humphrey, disse que "Nem eu nem o Governador Agnew estamos colocando em questão a lealdade dos dois" ("Fico contente de não haver traidores concorrendo este ano", murmurou um correspondente da Time, à minha esquerda.). Nixon dis-

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se que a poluição do ar e da água poderia ser mais bem resolvida através de "incentivos fiscais à indústria" e não através de leis federais. Ele confirmou a opinião de que o professor da Universidade de Rutgers que falara bem dos vietcongues deveria mesmo ser demitido (o que de fato ocorreu) e reiterou que não sabia dizer qual seria sua política em relação ao Vietnã enquanto as negociações continuassem em Paris. Voltei para o hotel me sentindo deprimida. Estamos voltando aos anos cinqüenta. — E um fenômeno pelo qual todos nós passamos assim que entramos nesse negócio — disse um jornalista inglês. — E como reentrar na atmosfera terrestre. Como podemos ver nesta campanha, e na maioria dos países do ocidente no presente momento, estamos prestes a entrar numa era de reação. Sábado. Um evento sem precedentes na campanha Nixon: uma visita a um bairro negro. Imprensa e equipe saíram em massa de três ônibus no Progress Shopping Plaza, um empreendimento localizado na Filadélfia, contendo escritórios e um shopping, construído inteiramente com capital negro e administrado por negros. O Reverendo Leon Sullivan — um homem confiante, bem apessoado e claramente muito acostumado a lidar com o homem branco — mostrou a um nervosíssimo Nixon, que não parava de exclamar "oooohs" e "aaaahs", as plantas do empreendimento. Era realmente impressionante: supermercados, lojas, pequenas confecções e pequenas fábricas de componentes eletrônicos. O Reverendo Sullivan explicou tudo em seus mínimos detalhes enquanto Nixon murmurava "Hummmm, claro, claro", "Mas que interessante" ou "Certo, certo" e esfregava as mãos suarentas uma na outra. O candidato deixava claro sua vontade de dizer alguma coisa. — O que vocês precisam — disse Nixon com seriedade — é de poder econômico. — Alguns dos jovens que cercavam Sullivan pareceram incrédulos. O Reverendo se limitou a sorrir, deixando que O Homem, em pé no meio de um shopping center de milhões de dólares inteiramente financiado com dinheiro de negros, fizesse um discurso de civismo digno de um aluno do segundo grau. — Eu disse uma vez e repito, há uma porta pela qual vocês ainda não passaram. Oh, é claro que vocês já fizeram conquistas importantes, mas uma porta ainda precisa ser aberta, a porta do capitalismo negro. O

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garoto da favela precisa ter esperança de um dia poder ser proprietário da venda da esquina, ele precisa ter algo pelo que lutar. É disso que se trata o meu programa de capitalismo negro. Vocês precisam entrar nessa parada. Nixon deu um passo atrás, aparentemente muito impressionado por ter pronunciado uma frase tão atual. Sullivan sorriu cordialmente. — Tem razão — disse o Reverendo dando um tapinha nas costas de Nixon que o impulsionou alguns centímetros adiante. — É por isso que os afro-americanos devem trabalhar: pelo poder negro e pelo poder verde. E por isso que eu sou politicamente independente. Ou Nixon ficou desalentado pelo "politicamente independente" ou então ele jamais ouvira a expressão "afro-americano". Mas a verdade é que seu "Ah, sim claro", tornava-se cada vez mais nervoso. O bate-papo então mudou de rumo e falaram a respeito do fato de ambos terem sido nomeados Jovens Destaques do Ano pela Câmara de Comércio de Juniores. — Diga uma coisa... — disse Nixon. — Você deve conhecer um outro rapaz que foi Jovem Destaque do Ano. Sabe quem, não é mesmo? Aquele que tinha um gancho no lugar de um dos braços. — Sullivan pareceu perplexo e disse que não, que não se lembrava do referido jovem. Nixon insistiu que deveriam se conhecer embora não tivessem sido eleitos no mesmo ano e não houvesse motivo algum para serem amigos. Ele insistiu em descrever o outro homem, gesticulando muito para mostrar como era o gancho. Sullivan disse que não, que realmente não conhecia o tal homem, e depois de mais uns tapinhas nas costas a reunião chegou ao fim. Mas não antes que todos compreendessem o porquê de Nixon haver ligado um homem ao outro. Pele negra e um gancho no lugar do braço: é certo que dois homens com deficiências físicas tais se conheceriam. Segunda. Nesta campanha fácil e bem lubrificada, Nixon passou a manhã em seu apartamento estilo França-provençal, cercado de presentes enviados por celebridades. É uma exibição na qual Pat Nixon constantemente troca as peças: de seu mandato como vice-presidente há as fotos com chefes de estado, quatro vistas emolduradas do Palácio de Buckingham, enviadas pela Rainha Elizabeth, uma coleção permanente com duzentas miniaturas raras de elefantes e suas peças favoritas: dois quadros assinados por D.D. Eisenhower e um perga-

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minho floral assinado por Madame Chiang Kai-shek. A mudança de vice-presidente de trinta mil dólares anuais para advogado de duzentos mil dólares por ano significou muito para o candidato. Convidados dizem que ele às vezes passa os olhos pelos dez cômodos irretocáveis, acarpetados de dourado, localizados no número 810 da Fifth Avenue e diz: "Não é lindo? Eu não tenho sorte de estar aqui?" Um jornalista me contou que Nixon costumava pedir aos convidados de sua casa na Califórnia para tentarem adivinhar o preço de um móvel especialmente caro, como se fosse em um programa de televisão. O jornalista encarou o fato como uma demonstração de pequenez e falta de sofisticação, mas eu achei o fato enternecedor. Pelo menos demonstrava que Nixon não fingia o quanto isto tudo significava para ele. Quarta. Esta campanha é dirigida como a IBM. Existe um departamento de idéias cuja responsabilidade é "empacotar e vender o candidato". Há um departamento de produção encarregado de captar recursos, criar cronogramas para a campanha, lidar com a imprensa e cuidar de todos os outros elementos que envolvem a produção de uma cota de votos em cada estado. Os assessores mais próximos dele não falam de assessoria e sim de "programação do candidato". O comando é claramente corporativo, com John Mitchell, um advogado de Wall Street, de seus cinqüenta anos de idade, sócio de Nixon, como "presidente do conselho", ou seja, no comando das idéias e da produção. O tratamento dado à imprensa é impecável. Você gostaria de saber o conceito do Sr. Nixon em relação à presidência? Eis o funcionário responsável pela área. Saber o que acha das barreiras comerciais e do fluxo do ouro? Eis aqui o funcionário responsável por isso. (O fato é que não há um só negro na equipe e nem mesmo um representante das classes trabalhadoras.) A bagagem nunca se perde, há serviços de telégrafo para todos os lados e me ligaram duas vezes, de manhã e à noite, para se certificarem de que eu sabia de uma mudança no cronograma. É tudo muito agradável e sedutor, mas há a suspeita de nós, jornalistas, sermos prisioneiros e da equipe ser o pessoal da carceragem. Há a suspeita de que se disséssemos: "Eu não gosto de Richard Nixon", seria o mesmo que dizer "Pode me chamar de Napoleão". Os carcereiros simplesmente sorririam um sorriso de "Já ganhamos", nos dariam

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as chaves do quarto e simplesmente continuariam com seu trabalho normal. Na verdade, o mais impressionante em relação a esta equipe é a falta de interesse demonstrada pelo que quer que o candidato faça. No avião de campanha de Kennedy, ou até mesmo no de McCarthy ou de Rockfeller, havia uma sensação de sermos o grupo dos enjeitados. Por mais interessantes que fossem as discussões dos jornalistas, por mais interessantes que fossem os jantares, o candidato e seus escolhidos estavam se divertindo mais em outro lugar. Isso não acontecia no avião de Nixon. Aqui, os jornalistas sentem-se os melhores do mundo e comparecer a um comício ou mesmo a uma entrevista exclusiva é apenas parte de um serviço enfadonho. De vez em quando, um dos muitos jornalistas que trabalharam na Casa Branca chama os outros veteranos para um "lembretezinho": toca uma fita de Johnson falando e todos se regozijam por não estarem lá. De vez em quando, mesmo sabendo que não seria a melhor das idéias, os jornalistas se lembram de histórias das primárias recentes: Bobby, um dia antes da primária de Oregon, sentado numa mala no corredor, cantando "Where Have Ali The Flowers Gone" {Onde Foram as Flores?) acompanhado por alguém ao violão. Bobby, em visita de três dias aos índios da Dakota do Sul, respondendo às objeções da equipe de que não havia votos ali: "Seus filhos da puta, vocês não dão a mínima para o sofrimento de outros seres humanos". Eles contam suas histórias e ficam alguns momentos em silêncio, enquanto cada um tenta pensar em alguma coisa engraçada para dizer. De certa forma, tanto Kennedy quanto Nixon receberam perfis escritos inexatos, produto do desconforto dos jornalistas com seus próprios sentimentos. Muitos deles amavam Bobby e tomavam extremo cuidado em ocultar tal fato através de críticas. Muitos deles desgostam ou sentem desdém por Nixon e por isso dão imenso peso às suas opiniões. Este desejo de equilibrar as coisas pode até ser inevitável, mas é enganoso. Nós, que descobrimos quem era Kennedy apenas após sua morte, talvez só venhamos a saber quem é Nixon depois que assumir a presidência. Quinta. Depois de Seattle e Denver, com meia dúzia de paradas e novas versões nixonianas de O Discurso a cada uma, acho que estou começando a compreender o seu novo estilo de discursar.

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Demonstra uma melhora acentuada sobre 1960. O Novo Nixon desistiu da postura "mantenha os braços ao longo do corpo" recomendada pelo professor de oratória da escola secundária. Mas o que não aparece nos breves takes televisivos é a diferença entre forma e conteúdo. Ao pronunciar a frase "devemos erguer os braços" ele era perfeitamente capaz de estender os dois braços para baixo. Ao dizer "o mundo inteiro" ele talvez abraçasse o próprio corpo. Ao dissertar a respeito do primeiro de dois pontos, ele talvez esticasse o dedo médio. Ao erguer o braço com vigor para dar ênfase a pontos importantes, ele talvez erguesse o braço cedo demais e pausasse visivelmente para se coordenar outra vez. Este é um homem que, a um grau extraordinário, criou-se; um homem que deu duro e que nunca pára de se empenhar para se tornar o ideal do homem público que tem na cabeça. Seus colegas dizem que ele possui um dos Qls mais altos de Washington. Os oficiais do Departamento de Estado, que o instruem a respeito de certos assuntos antes de suas muitas viagens como vicepresidente, se impressionavam por ele sempre ter feito "o dever de casa". Nos últimos anos como advogado, outros advogados comentaram sua habilidade de compreender toda a essência de um problema rapidamente e analisar em seguida o que funcionou e o que não funcionou. Se algo pode ser aprendido, Nixon o aprenderá. Mas se algo tiver de ser compreendido, Nixon—e possivelmente a nação inteira — poderá estar com sérios problemas. Ele se empenhou de tal forma para se aprimorar que enterrou o instinto e a espontaneidade. — Ele tem maior domínio sobre os problemas econômicos da África do que qualquer outro político americano — disse uma autoridade em visita. — Mas não entende os africanos. Através dos anos, seus assessores fizeram de tudo para humanizar sua imagem com elementos que iam de hobbies (em 1960, um deles disse que Nixon era asseado demais e sugeriu uma atividade suja tal como criar galinhas) a fazê-lo posar com roupas esportivas. Ontem, durante o tour dos subúrbios, anunciaram nos três ônibus que Nixon perdera uma das abotoaduras. ("A próxima novidade vai ser que tiraram os clips de papel das casas do paletó do Wallace", comentou um dos jornalistas.) A ênfase agora era na imagem de estadista em vez de, como diria Nixon, "bom coleguinha". O candidato demonstra sentir-se bem mais à vontade com tal postura.

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Mas há uma questão filosófica que jamais será respondida: se urna árvore caísse na floresta e não houvesse ninguém ali para ouvir sua queda, teria ela feito algum ruído? Uma pergunta que ele faz brotar em nossas mentes por estar sempre tão inexoravelmente cônscio, política e pessoalmente, de como os outros o vêem. Quando Nixon está sozinho numa sala, haverá alguém presente? Sexta. Tivemos uma coletiva ao lado do avião porque houve uma verdadeira confusão por ele não ter concedido uma ontem. Os jornalistas queriam uma resposta para as acusações de George Bali, que acabaram de chegar via telégrafo, de que Nixon não possuía o caráter ou os princípios para lidar com uma crise mundial na condição de presidente e que Agnew era um "político picareta de quarta categoria". Quando ele finalmente se posicionou nos degraus da aeronave para responder às perguntas, os jornalistas estavam furiosos o bastante para trazer de volta o Velho Nixon. Ele os acusou de porem palavras em sua boca e seu rosto chegou a tremer com a tensão que sentia. E então ele de repente se controlou e acrescentou: "Mas é claro que têm todo o direito de pôr palavras em minha boca, rapazes. Afinal de contas, é o seu trabalho". Num auditório de Tampa, no estado da Flórida, para o comício daquela noite, as arquibancadas estavam cheias de cadeiras de armar, formando um sólido vale de pessoas. Max Frankel, do The New York Times, atirou uma nota em nossa direção: "Dou um dólar para quem encontrar um rosto negro nesta multidão". Um coral de vozes começou a cantar "The Battle Hymn of the Republic" (Hino de Batalha da República). Passei alguns instantes sem entender. "Eles não deviam cantar isso", disse um jornalista do meio-oeste, bem baixinho. "Não pertence a eles." Dia 8 de junho, enterro de Bobby Kennedy, um longo e vagaroso cortejo fúnebre e seu hino favorito. As antigas esperanças que eu conseguira esquecer desde a primeira fase de reentrada, há uma semana, se apossaram de mim mais uma vez. Só que com mais intensidade. O Governador Kirk e Nixon se abraçavam. Uma faixa dizia REGISTREM COMUNISTAS, NÃO ARMAS DE FOGO. De repente me pareceu que estávamos cercados de pessoas conservadoras, antivida, e xenófobas — ou talvez fossem pessoas boas cujos instintos xenófobos eram exacerbados de propósito — e que o inimigo estava prestes a vencer. E não era apenas vencer esta eleição, mas também o poder de

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se impor, aqui e em muitos outros países do mundo onde as ondas de reação começavam e continuariam durante muito tempo. O hino continuou, assim como os gritos por Nixon. Não se tratava da vitória de um homem e da morte de outro. Era a morte do futuro e da juventude de cada um, porque talvez já estaríamos bem velhos quando os conservadores saíssem do poder para o retorno dos homens compassivos. Sábado. Acordei esta manhã num motel em Key Biscayne, onde os profissionais de imprensa serão mimados durante uma semana. Aos meus sonhos, misturei a frase "Nixon tem medo de debater com Humphrey. Por quê?" Eu tinha a impressão de que eu repetira esta frase sem parar enquanto sonhava e continuei a repeti-la acordada. Um pequeno avião sobrevoava o motel com um alto-falante, e um barco com equipamento de som navegava de um lado para o outro na praia. Como sempre o pessoal de Humphrey calculara mal. Nixon não se encontrava hospedado no hotel e sim com Bebe Rebozo, um milionário local e amigo de longa data que tinha uma sofisticada casa de veraneio nas redondezas. Mas as reações sempre são sinceras quando acordamos e me descobri torcendo pelo aviãozinho cuja presença fora mal planejada. O slogan era ridículo mas fiquei feliz em ouvi-lo. Não há escolha racional entre o Homem de Plástico e o Leão Covarde e sim uma escolha afetiva. Qual a vantagem de se ter inteligência e pragmatismo quando estão a serviço de maus instintos?

JULHO 1969

A política do inesperado. Chappaquiddick aconteceu na semana passada. Entre as repercussões do fato estão uma nova olhada para McGovern e novas possibilidades presidenciais. Ironicamente, ele dissera a Ted Kennedy que deveria haver diversos candidatos na próxima eleição "caso algum de nós atropele um poste no caminho de casa". Agora há uma reunião para discutir a campanha em potencial do próprio McGovern. Ele me telefonou para que me juntasse ao grupo que está sendo formado pelo Senador Ribicoff e pediu para que cada um de nós pensasse de antemão no que teria a dizer.

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A verdade é que não penso em política, pelo menos não da forma convencional como teria pensado cinco ou seis meses atrás, desde que acordei para o fato de que minha posição, assim como a de qualquer mulher, é profundamente política. Disseram-me que isto é a Aurora do Feminismo. Pensei nisso quando desliguei o telefone. Há seis meses eu teria ficado honrada com o convite de McGovern para comparecer a uma reunião de verdade (ou seja, de homens e portanto adulta), mas cheia de dúvidas quanto a conseguir contribuir de maneira séria (ou seja, masculina). Eu captara tantos recursos e fizera tanto trabalho político quanto qualquer outra pessoa durante a última e breve campanha presidencial de McGovern e mesmo assim fora tratada como uma pária frívola por grande parte da equipe senatorial de McGovern. No entanto, eu me recusara a encarar a realidade do fato. Na verdade, um de seus principais assessores só parou de dizer "tire-a daqui" quando descobriu que fora eu quem trouxera o maior contribuinte individual da campanha: um imigrante judeu de setenta anos de idade, açougueiro, que se comprometeu pelo telefone a doar dez mil dólares sem pedir qualquer favor especial, apenas porque queria que as tradições libertárias que o trouxeram para o país fossem preservadas. Não obstante, o assessor não queria ver mulheres envolvidas em política e disse ter medo de que alguém achasse que eu estava tendo um caso com o candidato. Até mesmo na Dakota do Sul, onde muitos de nós fomos para ajudar na reeleição McGovern para o Senado, apesar da convicção dos eleitores conservadores de que "George se tornara hippie, como um candidato pacifista" em Chicago, achei que deveria me vestir com desleixo (cheguei ao cúmulo de sair para comprar um traje marrom para esconder minhas formas) e me escondia pelos cantos. Estes eventos eram ecos de todas as campanhas políticas nas quais eu trabalhara como voluntária, de Estudantes por Stevenson em 1952 a McGovern. Como outras mulheres, ou eu ficava nas margens fazendo trabalhinhos sem importância ou era mantida numa sala afastada porque: a) talvez fosse contraproducente admitir que uma mulher estava escrevendo discursos ou participando de decisões políticas e b) se ela tinha menos de sessenta anos e não sofria de acne terminal, alguém talvez pensasse que ela estava tendo um caso com o candidato.

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Eu não só suprimira anos e anos de raiva pelo privilégio de ser voluntária numa campanha, como também definira política de forma extremamente limitada, como sendo eventos longínquos que ocorrem em Washington, Saigon ou na prefeitura. Eu não conseguia admitir que qualquer relacionamento de poder nesta vida é político, que política inclui quem lava a louça todas as noites ou quem está ganhando metade do salário de um homem, tendo o mesmo emprego. Ou, mesmo, de quem é esperado que assuma os papéis de serviço e apoio em todos os lugares, incluindo campanhas políticas. Esta é uma compreensão que devo àquelas mulheres valentes cujas reuniões comecei a cobrir no inverno passado. Muitas delas eram mais jovens do que eu. A maioria saíra dos movimentos pacifistas e de direitos civis onde haviam se dado conta de que até mesmo estes grupos idealistas e dignos de admiração relegavam as mulheres ao mimeógrafo e à cafeteira. Era preciso formar um movimento liderado por mulheres que combatesse o sexismo. Elas mudaram minha vida. Eu jamais serei a mesma. É por isso que estou ansiosa para ir à reunião. Em primeiro lugar, eu poderei finalmente parar de sugerir as coisas com hesitação e humor. Isso, por si só, fará com que eu economize muito tempo. Não obstante, parto, feliz da vida, numa última viagem política convencional para realizar uma reportagem, me juntando às dúzias de jornalistas que irão seguir Nelson Rockfeller pela América Latina numa missão diplomática que ele aceitou do Presidente Nixon, o mesmo homem que fora seu adversário político durante tantos anos. Mas, por outro lado, haveria alguém mais confiável do que Nelson Rockfeller? Tem boas intenções, é cheio de energia e possui um quê de semideus. Caminhando pelo mundo afora com as pernas das calças agitando ao vento e as mãos imensas estendidas num perpétuo cumprimento, ele é o incansável político e um rico exemplar da nossa era. A pergunta é: confiável para quem? Ao entrevistá-lo entre um país e outro, descubro que este candidato pacifista de um ano atrás está ajudando Nixon a usar de violência para conseguir votos para os mísseis antibalísticos. Além do mais, Rockfeller parece tão feliz de ter recebido uma missão internacional, que prefere ignorar o quão pouco popular é a sua missão. Até mesmo a Venezuela, país no qual ele é proprietário de um rancho monumental há trinta anos e onde

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chama os líderes locais por apelidos, cancelou sua visita. Condenando tal resistência popular como sendo "de inspiração comunista", ele não parece se importar que os poucos países que nos recebem providenciem verdadeiros exércitos para nos escoltar e peçam que nosso avião da Pan American pouse em bem-guardadas bases militares. No Haiti ele posa num "sorridente abraço com o decrépito e tirânico Duvalier", como disse a legenda da revista Life algum tempo depois. Infelizmente os haitianos são trazidos em caminhões para encherem as ruas em "espontâneas" boas-vindas. Esta derradeira e longuíssima viagem faz com que eu note que estou cansada de me sentir alienada dos líderes que estou acompanhando. Assim como ocorreu no avião de Nixon, um dos assessores principais está convencido de que ligo de antemão para avisar os horários aos manifestantes. A única diferença é que há um jornalista negro no avião de Rockfeller que é também, é claro, suspeito de fazer o mesmo. Nenhum de nós telefonou para quem quer que seja, mas talvez devêssemos fazê-lo. Também estou cansada de ser a única mulher dentre os profissionais de imprensa. ("Você consegue fazer 25 flexões?", o assessor de imprensa de Rockfeller me perguntou muito sério quando fui pedir credenciais. "Não", eu respondi, "Não consigo fazer nenhuma". "É uma pergunta que eu faço a todas as jornalistas mulheres", ele explicou, alegremente, "e torço para elas dizerem que não conseguem".) Chego a casa e escrevo o que, espero, será minha última reportagem política tradicional: "Nelson Rockfeller na América Latina — o Som de um Aplauso Solitário".

AGOSTO DE 1969

No fim de semana de Vermont deste ano (que está se tornando, rapidamente, a única tradição da minha vida), McGovern tenta justificar o fato de Ribicoff ter deletado meu nome da lista de convidados para a reunião de planejamento para a candidatura de McGovern. Ribicoff dissera simplesmente: "Nada de garotas". Segundo McGovern, ele explicara a Ribicoff em seguida que eu fizera parte de sua vanguarda, que eu ajudara a escrever seus discursos, que eu captara recursos e

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tudo o mais. Ribicoff ouviu tudo pacientemente e em seguida repetiu: "Nada de garotas". Além do mais, McGovern está rodeado de novos talentos políticos. Ao olhar para Gaibraith, Dick Goodwin e dois assessores, eu me pergunto qual o propósito de minha presença. Eu, claramente, não aprofundei a compreensão deste grupo no que diz respeito à influência do sistema político sobre as mulheres. (Em grande parte, a culpa é minha: não tive a confiança ou a consciência necessárias para fazê-lo.) Venho trabalhando com o mesmo empenho que os homens, trabalhando mais horas e captando mais recursos que a maioria deles, mas apesar destas ações tão meritórias, não abri as portas para outras mulheres. McGovern, por exemplo, jamais teria permitido que Ribicoff saísse com um "Nada de negros" ou um "Nada de judeus", mas "Nada de garotas" é, por algum motivo, aceitável. Não que o incidente tenha tido tanta importância assim, ou mesmo que a atitude de McGovern seja ruim. Já aceitei dúzias de situações parecidas e McGovern, como chefe da Comissão de Reformas que está mudando as regras de representação para a próxima convenção, é um dos poucos políticos empenhados em aumentar a participação política das mulheres. Acho que é justamente pelo fato de a reunião ser um incidente comum e por McGovern ser o melhor político deste bando que me sinto tão alienada. Eu me dou conta de que, a não ser que as mulheres se organizem, que dêem apoio umas às outras, nada de básico vai mudar. E
me pergunto: Será que as mulheres, eu inclusive, estão dispostas a encarar isto?

AGOSTO DE 1971

Mais um fim de semana em Vermont. Nada mudou mas tudo está diferente. McGovern está aqui mas, tendo declarado oficialmente sua intenção de disputar a presidência desde janeiro de 1970, ele é agora um sério candidato pelo Partido Democrata. Sabendo que encontraria resistência no partido e que teria de conseguir o apoio das bases, ele embarcou na mais longa campanha da história da presidência. Adeus aos ternos largões de 1965. Cabelos mais longos e costeletas compensam a

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calvície incipiente. Henry Kimmelman, o garboso coordenador de finanças de McGovern, começa a transformá-lo em candidato. O ponto alto destes dois dias será um jantar beneficente para a candidatura de McGovern: há gente vindo de todos os lados para tomar ponche no pasto dos Galbraith. Fui recrutada para ser uma dos muitos oradores — que mudança. Há dois anos, eu teria declarado insanidade mental ou doença para não ter de me expor diante de um grupo maior do que quatro pessoas, mas recentemente venho me juntando a uma outra mulher para falar do movimento feminista. (Faz parte da teoria de McGovern que o crescimento de um ser humano só ocorre com a conquista do medo.) Estou certa de que o que me levou a ser incluída foi a recente atividade política feminina. Depois de anos de planejamento e muito trabalho, mês passado realizamos a reunião de fundação do Comitê eleitoral Político das Mulheres, em Washington. Embora o Secretário de Estado, William Rogers, e o Presidente Nixon tenham dito à imprensa que a fotografia da Deputada Shirley Chisholm, de Bella Abzug e de outras fundadoras do comitê eleitoral parecesse "burlesca", alguns integrantes da imprensa noticiaram com seriedade este novo esforço eleitoral. Está claro que ninguém sabe que a liderança entre mulheres de todas as raças e entre homens negros e de cor permanece não explorada. Em deferência a isto, assim como apoiei a candidatura simbólica, e mesmo assim importante, de Shirley Chisholm, acabei elogiando McGovern por ser "o melhor candidato homem e branco". Ele ri ao ouvir isto, sem se sentir envaidecido ou desconcertado. Ele talvez seja um dos raros líderes que conseguirá tolerar uma mudança tão fundamental.

FEVEREIRO DE 1972

Agora é McGovern e não McCarthy no frio de New Hampshire. Venho trabalhando para Chisholm nos estados nos quais ela concorre nas primárias e por McGovern onde ela não está. Portanto, estou aqui para apoiar McGovern. Cinco reuniões de campanha em um dia e me pergunto como os candidatos conseguem gostar ou mesmo sobreviver numa dieta como esta.

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A vanguarda desta viagem é uma mulher. Assim como a candidata a delegada com quem falei no comício. Há mulheres envolvidas em quase todas as áreas da campanha aqui e elas acreditam que McGovern favoreça as mudanças econômicas e legislativas das quais necessitam. Mas, como tem acontecido em outros estados, as mulheres são colocadas em posição de trabalhadoras e não de estrategistas, especialmente se depender dos homens jovens, e por vezes arrogantes, que coordenam a campanha. — McGovern é bom — a candidata a delegada me explicou —, mas deveria disciplinar a equipe. Se os coordenadores de campanha que trouxe consigo tivessem a mesma atitude com relação a homens negros que demonstram em relação a todas as mulheres, estariam na rua. É doloroso ouvir isto, mas já se tornou um tanto familiar. Prometo pedir ajuda à equipe em Washington mas temo que apenas as mulheres de lá me darão ouvidos. Pergunta: Será que elas têm algum poder?

MARÇO DE 1972

O telefone toca. E McGovern de algum aeroporto solitário, dando telefonemas políticos. Ele me agradece por um discurso de captação de recursos na Flórida e por New Hampshire dizendo, com certa surpresa, que questões relacionadas aos direitos da mulher haviam demonstrado ser extremamente eficazes contra o deputado McCloskey, um republicano liberal que ameaçara tomar uma porcentagem crucial apoio antiguerra de McGovern em New Hampshire. Espero que McCloskey consiga enxergar sua própria insensatez ao responder de forma leviana às diversas questões de igualdade. Na verdade, McCloskey, que manteve a campanha no mesmo rumo dias depois, admitiu que grande parte da resistência que enfrentou pelo caminho era proveniente do sexo feminino. Já que estamos falando deste assunto, menciono os problemas da campanha. McGovern me soa um tanto resignado. Afinal de contas, New Hampshire chegou ao fim. Não há mais com o que se preocupar.

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Está havendo muita pressão para eu me tornar delegada de McGovern. É páreo duro, pois tanto Chisholm quanto McGovern estarão na cédula no estado de Nova Yark. Se eu concorrer como delegada de Chisholm, há pouca chance de vencermos mas talvez qualquer mulher que seja de alguma forma conhecida do público deva se oferecer para concorrer em sua chapa. Eu, pessoalmente, me sentiria muito mais à vontade comparecendo à convenção como membro da imprensa.

ABRIL DE 1972

Compareci à reunião da minha zona eleitoral e acabei me tornando delegada de Chisholm. Acho que foi o tom de surpresa na voz de McGovern que me levou a decidir: a surpresa pela força das questões relacionadas aos direitos da mulher em New Hampshire ou então de um único discurso na Flórida para angariar dez mil dólares para os cofres da campanha. Ele ainda não entende o enorme apelo do movimento feminista. Há muitos grupos pressionando a posição de McGovern para a direita. A candidatura de Chisholm é uma das poucas forças na esquerda e praticamente a única que focaliza as questões das mulheres e de outros grupos de pouco poder. Talvez sirva para educar McGovern e o país.

JUNHO DE 1972

Uma dúzia de membros do Comitê Eleitoral Nacional de Mulheres reuniu-se com McGovern em Washington. O objetivo era testar seu conhecimento nos diversos assuntos de interesse das eleitoras, da previdência ao orçamento militar. As representantes do comitê eleitoral fizeram o mesmo com todos os outros candidatos. Após alguma discussão sobre a nomeação de mulheres para os altos escalões do governo, algo com que McGovern concordou plenamente, entramos na área mais sensível: o aborto. O problema é que, a princípio, McGovern inspirara esperança, para em seguida arrefecer. Meses depois de haver tomado, silenciosamente, a posição de

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que esta era uma decisão individual, não um assunto legislativo, ele se viu brutalmente atacado por grupos antiaborto durante as primárias. Sem ter o mesmo instinto a respeito desta questão que possui no que diz respeito à guerra ou à economia, ele fez algo muito atípico para ele próprio: voltou atrás. Primeiro, disse que era um assunto que cabia a cada estado decidir e depois sugeria o oposto criticando Nova York diretamente por ser excessivamente liberal. Como resultado, sua posição não pareceu consistente ou simpática a nenhum dos dois lados da questão. Como forma de resolver o dilema, sugeri o termo "direito reprodutivo", constante do próprio estatuto do comitê eleitoral. Talvez pudesse ser adaptado para alguma plataforma política. Por exemplo: "O Partido Democrata se opõe à interferência do governo na liberdade reprodutiva e sexual do cidadão americano como indivíduo". Isto englobava o assunto em todas as suas proporções por incluir o verdadeiro apelo das leis que regem o controle de natalidade, as leis de eugenia que permitem a esterilização involuntária e as leis relacionadas à escolha sexual — todas preocupações tanto masculinas quanto femininas. No item aborto, incorporamos uma pesquisa do Instituto Gallup que mostrava 57% de todos os cidadãos americanos e 54% de todos os cidadãos americanos católicos acreditando ser uma escolha individual, sob orientação médica, e não uma escolha do governo. Além disso, assumia também uma posição contra a interferência do governo com a qual tanto a esquerda quanto a direita concordariam. McGovern ouvia com atenção, como é seu costume, e disse que gostava da formulação, que pensaria a respeito e que nos daria uma resposta naquela mesma noite. O único ponto de discórdia durante a reunião foi quanto à representação feminina na equipe de campanha. Betty Friedan, exageradamente loquaz com seu estilo frenético, disse a ele para ter "mais mulheres visíveis na campanha, porque neste instante simplesmente não há nenhuma". McGovern respondeu dizendo que aquilo era uma grande asneira e você não sabe do que está falando". E na verdade, Jean Westwood, uma das principais estrategistas políticas da campanha, assim como várias outras mulheres influentes da equipe de McGovern, encontravam-se na sala. Uma delas foi ao auxílio de Betty acrescentando que, embora

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estivessem na campanha, as mulheres não eram sempre ouvidas. McGovern, pessoalmente, estava sempre pronto para ouvir, ela explicou, naquilo que se tornara um truísmo da campanha, mas levar as questões da mulher, assim como as assessoras da campanha, a sério não havia sido inculcado o bastante nas mentes da equipe. A reunião foi desorganizada porém útil. McGovern pareceu distante e um tanto impaciente, mas ainda assim pronto para ouvir e para mudar. Apenas Shirley MacLaine, voluntária pró-McGovern, parecia incomodada ao final. Embora ela concordasse pessoalmente com o direito à liberdade sexual e reprodutiva, temia que Nixon, que favorecia políticas restritivas em todas estas áreas, usasse estas questões contra McGovern. E segundo ela proteger McGovern era o objetivo pelo qual qualquer princípio ou questão política deveria ser sacrificado. Teria eu sido infectada pelo vírus da campanha em meus dias pré-feministas? Era possível. Eu levara muito tempo para descobrir que ninguém se pronunciaria a favor de tais questões se os eleitores interessados não o fizessem. Demorei ainda mais tempo para compreender que podiam ser vitoriosas. Uma frase perturbadora voltou à minha mente quando eu ia saindo. Quando perguntamos a McGovern sua posição em relação à previdência social, ele pareceu perplexo: "Por que é que este grupo se preocuparia com esse assunto?" Se ele não encara a previdência social como uma questão feminista, de que forma anda a comunicação? Shirley MacLaine cortou o item liberdade reprodutiva do rascunho de McGovern para a plataforma democrata sem, segundo ela própria, a ciência ou a instrução de seu candidato. As mulheres têm medo de arriscar a aprovação masculina a tal ponto que nem os esperamos dizer não. Ou então nós os protegemos, nem que para tanto digamos não para nós mesmas. Mas Jennifer Wilke, uma jovem delegada do Alasca, empenhouse e conseguiu assinaturas suficientes para reintroduzi-la como princípio político minoritário, tirando as palavras "e sexual" porque, no meio tempo, representantes da comunidade,^ haviam lançado seus próprios princípios políticos. Assim, o direito à liberdade reprodutiva aparecerá na convenção da mesma forma. E o forte do movimento das mulheres: algu-

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mas de nós não mais aceitará que nos digam o que fazer, nem mesmo de uma outra.
JULHO DE 1972

Durante a semana, antes da convenção de Miami, o Comitê eleitoral vem se reunindo para planejar. Na verdade, já conseguimos muito mais do que esperávamos, pois mulheres de todo o país passaram pela Aurora Feminista e se dispuseram a trabalhar. Por exemplo: 1. Quarenta por cento dos delegados serão mulheres, em comparação aos 14% de 1968. O Comitê eleitoral aumentou a cifra pressionando o Comitê Democrata Nacional a forçar o cumprimento das regras da Comissão de Reformas de McGovern e a realizar sessões de treinamento para delegados em todo o país. Mas foram as mulheres, individualmente, que assumiram os riscos e, por mais precário que seja o apoio, ingressaram em suas estruturas políticas locais, aconteça o que acontecer em Miami. 2. Haverá uma mulher co-presidindo a convenção: Yvonne Brathwaite, uma jovem negra que integra o legislativo da Califórnia e que é candidata a um assento no Congresso. 3. Existe um princípio político feminino que inclui todas as questões cruciais, exceto a liberdade reprodutiva, já incluída no relatório geral exatamente como saiu do Comitê da Plataforma. A deputada Bella Abzug organizou outros membros do Comitê da Plataforma para incluir os princípios. 4. A maioria dos desafios a serem vencidos por delegações que não possuem uma representação justa já o foram, ou pelo menos algum acordo foi negociado com o Comitê de Credenciais. A convenção está fadada a ser muito diferente da de 1968, quando a maioria das mulheres compareceu a almoços e desfiles de moda organizados para "as esposas". Mas ainda estamos assustadas. Eu, particularmente, estou assustada porque sou uma das duas porta-vozes do comitê eleitoral

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eleitas para coordenar nossas forças nas convenções Democrata e Republicana, respectivamente. Mesmo sem termos a experiência, o dinheiro ou as informações computadorizadas disponíveis às outras forças desta convenção, teremos de criar uma luta unificada em pelo menos quatro questões: qualquer desafio que tenha sobrado às delegações com poucas integrantes mulheres, o princípio reprodutivo, um princípio para os pobres que contenha melhores provisões em relação à previdência social do que o relatório da maioria e, se tivermos coragem, a vice-presidência. Se permitirem que Barnum & Bailey interpretem uma trama de Stendhal, talvez transforme-se em algo parecido com a convenção democrata de 1972. Minhas recordações são de ter passado quatro dias sem dormir, sem conseguir telefonar para quem quer que fosse, infindáveis maquinações para conseguir passes, disputas internas sangrentas entre quatro mulheres do Comitê eleitoral, frustração, raiva e, estranhamente, quando tudo terminou, uma sensação de realização e de comunidade. Por exemplo: • Escolhemos o desafio da Carolina do Sul como nosso estandarte na luta pelos direitos da mulher em parte porque uma vitória instituiria a definição de "affirmative action" (prática usada nos EUA através da qual grupos normalmente discriminados — particularmente devido a raça ou sexo — são favorecidos para preencher uma vaga numa companhia) que teria auxiliado todos os grupos tradicionalmente excluídos. A primeira experiência de realismo político ocorreu quando um delegado da Carolina do Sul, em discurso contra nosso desafio, sugeriu que mulheres brancas começariam a substituir homens negros, uma tática clássica de desunião. A implicação era falsa (o recurso afirmava explicitamente que o equilíbrio racial deveria permanecer intocado) e particularmente irritante quando as mulheres, negras e brancas, haviam escolhido este teste justamente porque representava uma aliança. Teria a tática nos vencido? Jamais saberemos. Como os estrategistas de McGovern ficaram nervosos com a possibilidade de mudança no número total de votos necessários para-

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constituir-se a maioria — como precedente para o principal desafio da Califórnia — começaram a retirar seus votos no meio da votação nominal da Carolina do Sul. Sentimos o que era ser uma bola de futebol entre as forças pró-McGovern e anti-McGovern. A questão em si—assim como a promessa de auxílio de McGovern — não significava coisa alguma. • O princípio político da mulher passou maravilhosamente bem, como era de se esperar. Em 1968 não houvera uma só palavra a respeito da mulher na plataforma do Partido Democrata. Teríamos comemorado se não estivéssemos tão ocupadas. O desafio à delegação de Chicago, liderada pelo Prefeito Daley — um grupo com pouquíssimas mulheres, minorias étnicas e jovens — recebeu apoio. O grupo que não era de Daley levou as cadeiras. O espírito que reinara em 1968 estava, oficialmente, morto. O consenso nas reuniões das delegadas mulheres, organizadas pelo Comitê eleitoral, fora lutar a favor do princípio das minorias no que dizia respeito à reprodução humana. Ocorreu que foi apoiado por nove votos a um. Nós, certamente, lutamos, com três delegadas mulheres discursando eloqüentemente a seu favor como um direito constitucional. Um fanático pró-vida discursou de maneira inflamada e Shirley MacLaine também discursou pela oposição dizendo que este era, sem dúvida, um direito fundamental mas que não pertencia à plataforma. Longe de amargarmos a humilhante derrota que temíamos e de arriscar os esforços anteriores para impedir que a legislação antiaborto passasse na justiça, nós nos sobressaímos. Ficou claro que teríamos ganho se as forças de McGovern não tivessem instruído seus delegados e os deixasse votar de acordo com a própria consciência. A questão de liberdade reprodutiva foi mencionada numa plataforma política nacional pela primeira vez. Depois que Shirley Chisholm decidira não se candidatar à vice-presidência, tivemos apenas uma tarde para lançar a candidatura de

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Francês "Sissy" Farenthold. Ela fora candidata ao governo do Texas e criara uma aliança sem precedentes que incluía mulheres, jovens, negros, latinos e outros trabalhadores. Suas qualificações eram tão boas quanto as de Tom Eagleton, a escolha de McGovern. Como ele, ela era católica e vinha de um estado do Sul e não era uma figura mais obscura do que ele. Não havia tempo para lobbies, então os oradores que discursariam a seu favor foram escolhidos para encarnar os comitê eleitorais de maior importância. Em uma investida final e gloriosa, nosso sistema de contatos construído às pressas funcionou. A maioria das mulheres não ouvira falar de Sissy Farenthold até Miami mas confiavam nas informações de sua líder na assembléia o suficiente para votar em outra mulher. Embora Farenthold tenha chegado em segundo lugar — McGovern obviamente controlava o número de votos necessário para que Eagleton obtivesse a nomeação — ela derrotou diversos homens que estavam em campanha há meses. Como resultado, os entrevistadores estavam menos aptos a perguntar de maneira desdenhosa se "Haveria uma mulher qualificada?" Fannie Lou Hamer, conhecida e querida líder política do Mississippi, cuja plataforma principal era o direito dos negros à cidadania, e uma das fundadoras do Comitê Eleitoral Nacional de Mulheres, fora uma das nomeadoras da campanha de Farenthold. "Eu sei que é difícil", ela disse, "para uma mulher branca do Sul lutar como ela luta". Depois do voto, ela acrescentou: "Nós venceremos da próxima vez".

É a manhã seguinte a estes acontecimentos tão vultosos e estamos todas roucas e trêmulas de exaustão. John Conyers, brilhante deputado negro do estado do Michigan, conseguiu marcar uma audiência com McGovern para nossa Comissão Clearinghouse — um grupo que luta pelos direitos civis, das mulheres e de outros grupos reformistas que vêm coordenando outros esforços antes e durante esta convenção. Finalmente, nos levam a uma sala pequena. McGovern se encontra em mangas de camisa e de repente não é mais um candidato distante e sim um rosto calmo e familiar do passado. Discutimos a coordenação futura e ele pede a Gary Hart, urn

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dos principais membros da equipe e um dos rapazes arrogantes que dificultaram ávida das mulheres que trabalhavam na campanha, para se desculpar pela citação "incorreta" na qual ele afirmara não haver um número suficiente de mulheres com experiência política ou que soubessem se organizar. Mulheres com idade o bastante para ser sua mãe ou avó, e que passaram a vida inteira se organizando, aceitam suas desculpas de bom grado. McGovern se detém à saída e fica em silêncio. É um momento estranho e comovente, é como se eu fosse um lembrete dos sete longos anos que se seguiram desde 1965 e que o tempo varrera, subitamente, como uma onda, trazendo uma maré de recordações. A sala fica em silêncio. — É incrível, não é mesmo — eu digo, sem saber o que dizer. — Depois de Chicago, é tão difícil crer. — Sim — ele concorda finalmente. — É difícil acreditar. Mas ainda temos um longo caminho pela frente. Se há agitação, ou até mesmo raiva ao redor de McGovern, é porque ele inspira esperança, coisa que Nixon não inspira. E a esperança é uma emoção indomável. Mas eu nunca mais deixarei de notar a ausência de mulheres como eu fiz certa vez no avião da campanha de Nixon. Tampouco excluirei as mulheres quando almejar o retorno de "homens compassivos". As mulheres não mais serão copeiras que não entendem de política ou jornalistas inseguras que não conseguem enxergar a nossa metade do mundo. Nenhum líder é perfeito. Precisamos aprender a ser nossas próprias líderes.

Irmandade*

Há muitos e muitos anos (uns três ou quatro), eu sentia um prazer seguro e justificado em dizer as coisas que são esperadas de uma mulher. Lembro-me, com certa dor, de dizer: — Meu trabalho não interferirá em meu casamento. Afinal de contas eu posso ter uma máquina de escrever em casa. Ou: — Não quero escrever sobre coisas de mulher. Quero escrever sobre política externa. Ou: — As famílias negras foram forçadas a aceitar um sistema matriarcal, então é compreensível que as mulheres negras se escondam por trás de seus homens. Ou: — Eu sei que estamos ajudando grupos latinos que são injustos com as mulheres, mas a cultura deles é assim. Ou: — Quem vai querer se associar a um grupo de mulheres? Eu nunca fui de me associar a coisa alguma, e você? Ou (me gabando): — Ele disse que eu escrevo como um homem. Suponho que fique claro, pelo tipo de afirmações que escolhi, que eu estava secretamente fugindo do que era esperado de mim. Eu não era casada, ganhava a vida numa profissão da qual gostava e tinha
*A autora fala aqui de um sentimento e de uma descoberta únicos ao contingente feminino. A tradução do termo sisterhood como "irmandade" não seria, portanto, apropriada no contexto deste ensaio por incluir o sexo masculino. Assim foi cunhado o termo "irmandade" para designar a sadia resistência feminina ao status quo. (N. da T.)

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amigos fora do grupo racial ao qual pertenço. Eu havia basicamente, embora em silêncio, optado por permanecer fora do papel "feminino". Por isso mesmo, era necessário que eu repetisse a sabedoria popular e até parecesse o mais convencional possível se quisesse evitar alguns dos castigos reservados pela sociedade para quem não faz o que ela dita. E assim aprendi a fingir meu conformismo com sutileza, lógica e humor. Às vezes até eu mesma acreditava no papel. Se não fosse pelo movimento feminista, talvez eu ainda estivesse fingindo. Mas as idéias deste turbilhão que varreu o ponto de vista feminino são contagiantes e irresistíveis. Elas atingiram as mulheres tal qual uma revelação religiosa, como se tivéssemos deixado um quarto escuro para nos expormos ao sol. A princípio, minhas descobertas pareciam puramente pessoais. Mas na verdade eram descobertas que muitos milhões de mulheres fizeram e continuam a fazer. Simplificando enormemente as coisas, é mais ou menos assim: as mulheres são em primeiro lugar seres humanos, e diferem dos homens em termos ligados, principalmente, ao ato da reprodução da espécie. Compartilhamos os sonhos, as capacidades e as fraquezas de todos os seres humanos, mas uma ocasional gravidez aqui e ali, assim como outras diferenças visíveis, vêm sendo usadas — de forma mais abrangente, embora menos brutal, do que a utilização de diferenças raciais — para criar um grupo "inferior" e uma complicada divisão de trabalho. Esta divisão continua por um motivo claro e muitas vezes inconsciente: o lucro social e econômico dos homens, de um patriarcado como grupo. Uma vez que a revelação feminista se instaurou, reagi de forma até previsível. A princípio fiquei impressionada com a simplicidade e a clareza de uma revelação que finalmente dava sentido às minhas experiências pessoais. Eu não conseguia entender como não percebera isto tudo antes. Em seguida, eu me dei conta da distância que havia entre esta visão de vida e o sistema que nos rodeia e o quão difícil seria explicar a aurora feminista, quanto mais conseguir que as pessoas (em especial, embora não exclusivamente, os homens) atentassem para considerar uma mudança tão dramática. Mas tentei explicar. Só Deus sabe {ela sabe) que as mulheres tentam de tudo. Nós fazemos analogias com outros grupos que foram marcados pela subserviência, como forma de ajudar as imaginações menos favorecidas. Suprimos fatos intermináveis e estatísticas de injustiças e

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repetimos tudo até nos sentirmos como verdadeiros bancos de dados. Podemos contar com o método de inversão. (Se houver um homem dentre meus leitores para o qual todas as minhas afirmações pré-revelação parecem perfeitamente lógicas, por exemplo, que ele substitua "mulher" por "homem" em cada frase lida — ou ele por eu — para ver como se sente: "Meu trabalho não interferirá em meu casamento"; "Grupos de latinas que maltratam os homens..." Acho que deu para entender.) Usamos, até mesmo, a lógica. Se uma mulher passa um ano cuidando e amamentando uma criança, por exemplo, é dela a responsabilidade primordial de criar esta criança até a idade adulta. Isto é lógico pela definição masculina, mas freqüentemente força as mulheres a aceitar que criar os filhos é sua única função na vida, levando-as a não fazer qualquer outro tipo de trabalho ou a não desejar a maternidade. Não seria igualmente lógico dizer que uma criança tem um pai e uma mãe e que, portanto, ambos são responsáveis pela sua criação — e que o pai deveria compensar aquele ano extra da mulher passando mais do que a metade do tempo com a criança? A lógica depende do lógico em questão. De vez em quando estas tentativas de explicar funcionam. Mas em geral tenho a impressão de que as mulheres falam urdu e a maioria dos homens pali. Alegre ou dolorosa, ambas as reações à nossa descoberta trouxeram uma grande recompensa: o nascimento da irmandade. Primeiro, compartilhamos a hilaridade do crescimento e da autodescoberta, a sensação de que as vendas caíram de nossos olhos. Quer estejamos dando ou recebendo esta nova sabedoria de outras mulheres, o prazer que todas sentem é comovente. Num segundo estágio, quando já estamos exaustas de tanto revirar fatos e argumentos para os homens que achávamos tão adiantados e inteligentes, fazemos uma outra descoberta simples: muitas mulheres compreendem. Podemos compartilhar experiências, fazer piadas, pintar quadros e descrever humilhações que significam muito pouco para os homens, mas as mulheres compreendem. O mais estranho destas conexões profundas e pessoais entre as mulheres que vivem sob um regime patriarcal é que elas constantemente saltam barreiras de idade, grupo sócio-econômico, experiên-

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cia de vida, raça e cultura — todas as barreiras que, numa sociedade masculina ou mista, parecem impossíveis de transpor. Eu lembro de ter me encontrado com dois grupos de mulheres do Missouri que, por terem vindo em número igual de uma cidadezinha do interior e de um campus universitário, pareciam estar divididas em donas de casa de luvas brancas e estudantes calçando boots de soldados e usando palavras tais como "imperialismo" e "opressão". Elas haviam se juntado para criar uma creche, mas a reunião parecia fadada ao fracasso até que três das meninas de botas começaram a discutir entre si a respeito de um jovem professor. Como líder dos radicais do campus universitário, ele acusava todas as mulheres que se recusavam a imprimir folhetos no mimeógrafo de não se dedicarem de corpo e alma à causa. E quanto às creches, ele achava que o fato destas permitirem que as mulheres disputem com os homens no mercado de trabalho traria a temida "feminização" do homem e da cultura americana. — Ele parece até o meu marido — disse uma das mulheres de luvas brancas. — Quer que eu faça docinhos para vender e que peça dinheiro de porta em porta para o Partido Republicano dele. As jovens foram espertas o bastante para continuar daí. Que diferença fazia se usavam botas ou luvas brancas se todas estavam sendo tratadas como serventes ou como crianças? Antes de se separarem, discutiam assuntos que afetavam a todas elas igualmente (tal como o mito do orgasmo vaginal) e planejavam se reunir uma vez por semana. — Os homens acham que somos apenas aquilo que fazemos para eles—explicou uma das donas de casa. — Só vamos descobrir quem somos se nos juntarmos a outras mulheres. Até mesmo barreiras raciais se tornam menos intransponíveis quando descobrimos a reciprocidade de nossa experiência como mulheres. Durante uma reunião organizada por empregadas domésticas negras que haviam formado uma cooperativa no estado do Alabama, uma dona de casa branca me perguntou a respeito das sessões de autoconsciência ou dos grupos de discussão que são, muitas vezes, o caminho orgânico que leva ao feminismo. Expliquei que enquanto os homens, até mesmo homens dos grupos "errados", normalmente tinham um local — um bairro, um bar, uma esquina, qualquer coisa — onde podiam se reunir para ser eles mesmos, as mulheres de todos os grupos tinham a tendência de se isolar em casa, com suas

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famílias. Mulheres se isolam de outras mulheres. Nós não temos esquinas, bares, escritórios ou território algum reconhecidamente feminino. Os grupos de discussão eram um esforço pela criação de algo nosso, um local livre — uma oportunidade ocasional de se ser completamente honesta e de apoiar nossas irmãs. Enquanto eu falava do isolamento, da sensação de haver algo errado conosco se não estivermos satisfeitas em sermos donas de casa e mães, as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto desta mulher tão digna, deixando-a tão surpresa quanto nós. Para as negras, um pouco da distância se encurtou ao verem uma mulher branca chorar. — Ele faz a mesma coisa com nós duas, meu bem — disse a negra sentada ao seu lado, abraçando-a. — Não importa se está na sua cozinha ou na de outra pessoa, não somos tratadas como gente da mesma forma. O trabalho da mulher simplesmente não conta. A reunião terminou com a dona de casa organizando um grupo de apoio de mulheres brancas para tirarem de seus maridos um salário digno para as empregadas domésticas e para as ajudarem a lutar contra as autoridades locais que se opunham a tais aumentos. Era um grupo de apoio sem o qual as empregadas domésticas não veriam sua pequena e valente cooperativa sobreviver. Quanto ao argumento do "matriarcado" que eu engolia tão bem nos meus tempos de pré-feminismo, agora compreendo por que tantas mulheres negras se ressentem dele. Sinto que é uma forma que os sociólogos brancos encontraram de fazer com que a comunidade negra sinta que seu estilo de vida é inferior ao do patriarcado branco. "Se eu acabar fazendo papa de milho para revolucionários", explicou uma poeta negra de Chicago, "esta revolução não é minha. Homens e mulheres negros precisam trabalhar juntos. Não dá para haver liberdade para metade de uma raça." Na verdade, algumas negras se perguntam se o fato de criticarem a força que elas são obrigadas a desenvolver não seria uma forma de manter metade da comunidade negra trabalhando abaixo de sua capacidade e por um salário menor e de atribuir os sofrimentos do homem negro à mulher negra, em vez de irem direto à real fonte: o racismo. Recordando todas aquelas coisas pré-aprovadas pelo sexo masculino que eu citava antigamente, a dificuldade básica me parece clara: a falta de estima pelas mulheres, qualquer que seja nossa raça, e por mim mesma.

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Este é o castigo mais trágico que a sociedade inflige a grupos de segunda classe. No final das contas, a lavagem cerebral funciona e nós mesmos passamos a acreditar que nosso grupo é inferior. Se obtivermos algum sucesso neste mundo, passamos a nos ver como "diferentes" e não queremos mais nos relacionar com nosso grupo. Queremos nos identificar com o que está acima, não abaixo (este era claramente meu problema ao não querer me associar a grupos de mulheres). Queremos ser a única mulher do escritório, a única família negra da quadra, o único judeu do clube. A dor de recordar todos os anos desperdiçados e imitativos é imensa. Tentar escrever como um homem. Medir o meu valor e o de outras mulheres pelo nosso grau de aceitação por homens — socialmente, na política e em nossas profissões. E tão doloroso quanto ouvir duas mulheres adultas competirem entre si com base no status de seus respectivos maridos, como serventes cujas identidades dependem da riqueza ou das conquistas de seus empregadores. Esta falta de auto-estima que nos coloca para baixo ainda é a maior inimiga da irmandade. Mulheres que aceitam as expectativas da sociedade encaram as não-conformistas com compreensível alarme. Aquelas mulheres barulhentas e pouco femininas, elas dizem a si mesmas.

Elas só nos trarão problemas. As mulheres que se rebelam silenciosamente, rezando para que ninguém note, ficam ainda mais alarmadas porque acham que têm mais a perder. O status quo se protege castigando todos aqueles que o desafiam, especialmente as mulheres, cuja rebelião atinge a mais fundamental das organizações sociais: os papéis sexuais que convencem a metade da população de que sua identidade depende de estar no trabalho ou na guerra em primeiro lugar, e a outra metade de que ela deve servir em todo o mundo como mão-de-obra gratuita ou mal paga. Na verdade, parece não haver castigo para homens brancos que cheguem perto do ridículo e da crueldade reservada às mulheres que se rebelam. Mulheres atraentes ou jovens que agem com segurança são consideradas estranhas ou controladas por algum homem. Se são bem-sucedidas, só pode mesmo ter sido através de algum favor sexual, graças a algum homem. Mulheres mais velhas, ou consideradas pouco atraentes pelos padrões masculinos, são acusadas de agitem por serem amargas, por não conseguirem um homem. Qualquer mulher que escolha se portar como um ser humano completo

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deve ser avisada de que os exércitos do status quo a tratarão como uma piada de mau gosto. Ridicularizar é a arma mais natural e a primeira a ser usada, a oposição mais séria virá em seguida. Esta mulher precisará de irmandade. Tudo isso aqui tem o intuito de servir como aviso. As recompensas são mais freqüentes do que os castigos. Eu pessoalmente posso começar a admitir minha raiva e a usá-la de forma construtiva. Antigamente eu teria deixado que submergisse, que supurasse e se transformasse em culpa, ou então eu a acumularia até explodir de forma destruidora. Conheci mulheres valentes que estão explorando os limites de sua possibilidade como ser humano, sem a história para guiá-las e com uma coragem de se expor que acho comovente. Não acho mais que não existo, o que é a minha versão da falta de auto-estima que aflige a tantas mulheres. (Se os padrões masculinos não eram naturais para mim — sendo eles o único padrão existente —, como poderia eu existir?) Isto significa que estou menos apta a precisar de valores e de aprovação externa e que estou menos vulnerável aos argumentos clássicos. ("Se você não gosta de mim não deve ser mulher de verdade", diz um homem que está tentando se aproximar sexualmente. "Se você não gosta de mim não deve se relacionar bem com ninguém", diz qualquer um que conheça bem a arte da chantagem.) Às vezes consigo encarar os homens como seres iguais e assim consigo gostar deles como seres humanos, como indivíduos. Descobri uma política que não é intelectual ou superposta. E uma política orgânica. Finalmente compreendo por que passei anos de minha vida, inexplicavelmente, me identificando com os grupos "excluídos". E simples, eu também pertenço a um. E sei que será necessária uma aliança de tais grupos para chegarmos a uma sociedade na qual ninguém nascerá num papel de segunda classe devido às diferenças visíveis tais como raça, sexo ou o que quer que seja. Não me sinto mais estranha quando estou só ou na companhia de um grupo de mulheres. Eu me sinto ótima. Sou constantemente levada a descobrir que tenho irmãs. Estou começando, só começando, a descobrir quem sou. — 1972

Reunião de Ex-Alunas

Uma semana antes de nos reunirmos para comemorar 25 anos de formatura, uma repórter de Washington me telefonou para dizer que estava escrevendo um artigo no qual perguntava por que tantas mulheres bem-sucedidas estudaram em Smith College. — Como, por exemplo?—perguntei com cautela, pressentindo a armadilha. — Como Nancy Reagan e Barbara Bush — ela respondeu. — Você não acha incrível que as duas mulheres mais influentes do país tenham estudado na mesma faculdade? Há uma pequena pausa durante a qual nós duas esperávamos que eu encontrasse uma forma diplomática de desafiar a definição de "mais influentes". — Escute aqui — eu disse, finalmente. — Você acha que algum jornalista está entrevistando os colegas de escola do Sr. Thatcher para descobrir se foram treinados para casarem-se com chefes de Estado? O Sr. Thatcher é um dos homens mais influentes da Inglaterra? A jornalista riu. Concordava que a idéia do artigo era um tanto idiota, especialmente porque ela estudara em Smith e sabia que as coisas não eram bem assim. Mas havia sido encomendado pelo editor. — Você sabia que Jean Harris estudou em Smith? — ela acrescentou, seca. Não, eu não sabia. Talvez a ligação entre Jean Harris, Nancy Reagan, Barbara Bush e outras colegas famosas fosse a mesma para mim e para a jornalista: eram todas campeãs olímpicas do tradicional jogo feminino de transferência do ego para o corpo de um ser humano do sexo masculino. Foi esta terrível familiaridade com o referido jogo que fez com que tantas mulheres, especialmente as mais velhas, se sentissem desconfortáveis e solidárias quando a humilhação romântica sofrida por Jean Harris foi exposta na imprensa. Ela disse

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que quisera suicidar-se quando atirou, acidentalmente, no Dr. Tarnower o amante de longa data que começara a se interessar por uma mulher mais jovem. Talvez quisesse mesmo se matar. Talvez o Dr. Tarnower tivesse se tornado ela própria. Deixamos esta ligação perturbadora de lado e passamos a algo mais ameno. Mesmo nos anos quarenta, quando Nancy Reagan e Jean Harris eram alunas, Smith, assim como outras faculdades exclusivamente para mulheres, produzia um número desproporcional de estudiosas e profissionais, especialmente em áreas consideradas "pouco femininas" tais como as ciências e a matemática. Embora Smith se orgulhasse de ter mais homens do que mulheres em seu corpo docente — uma prova de seriedade salientada no catálogo da faculdade até mesmo quando eu a freqüentei, nos anos cinqüenta — e embora nenhuma mulher tivesse sido reitora de Smith até a chegada da atual, em 1975, tínhamos mais professoras e mais exemplos femininos a seguir do que as instituições mistas teriam nos proporcionado. Igualmente importante era o fato de jamais corrermos o risco de nos sentirmos deslocadas numa sala de aula onde a maioria era de homens. E esta a sina de tantas mulheres que freqüentam faculdades e universidades mistas, especialmente em áreas como as ciências e a matemática. Mas até mesmo enquanto eu e a jornalista discutíamos os interessantes motivos pelos quais Smith produzia um número inusitado de mulheres independentes e competentes, ambas sabíamos que mesmo todas elas juntas davam menos matérias na imprensa do que uma Nancy Reagan. Qualquer Primeira Dama, independentemente do que fizer ou deixar de fazer, está mais propensa a encabeçar a lista de Mulheres Mais Admiradas do País do que qualquer mulher que tenha chegado ao topo sozinha. Esta mensagem da sociedade é especialmente dolorosa para mulheres que foram encorajadas a lutar pela eminência e pelo prazer das conquistas pessoais, para em seguida serem subordinadas aos filhos e à carreira do marido. "Se quisermos ter filhos cultos", nos diziam em Smith durante os anos cinqüenta, "devemos ter mães cultas' Esta forma impossível de resolver a tensão existente entre maternidade e outras aspirações resultava nas notas da Revista Trimestral de Ex-Alunas, ano após ano: "Sophia Smith Jones, formanda de 1956, terminou o doutorado, fez trabalho voluntário e lecionou em diver-

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sos lugares enquanto criava os quatro filhos e seguia o marido, John, em sua carreira corporativa". O que me levou à reunião foi a pergunta que a jornalista não
fez: Como conseguimos sobreviver à ambigüidade da mensagem que recebemos durante nossos estudos superiores?

A coisa mais importante de uma reunião de ex-alunas de uma faculdade só de mulheres é quem não comparece. "Meu Deus, e quem ia querer ir?", era uma pergunta freqüente. "Vai ser tão deprimente." O motivo era constantemente algum microcosmo de desprezo pelas mulheres: por nós mesmas e por outras. Algumas diziam que não queriam ir porque nada mais eram do que donas de casa. Outras porque se divorciaram e deixaram de ser donas de casa. Umas porque haviam engordado demais e outras porque eram bem-sucedidas em suas carreiras e supunham que as outras tentavam caber na imagem da típica "Smith girl", imagem na qual ainda acreditávamos, quer conhecêssemos ou não alguém que se encaixasse nela. Algumas das feministas em atividade da turma de formandas de 1956 tentaram ampliar aquilo que era, segundo elas, uma discussão inadequada a respeito do problema do duplo papel: "Podemos Mesmo Fazer Tudo?" O tempo de discussão era muito limitado. Pelo menos uma delas achou que havia resistência a tópicos controversos tais como legislação, sexualidade e outros. Sua frustração foi tal que ela não apareceu. No final, 220 das 657 integrantes vivas da Turma de 1956 apareceram, incluindo algumas que haviam sido desdenhosas a princípio. Mesmo assim, a porcentagem era mais baixa do que a da maioria das reuniões de 25 anos das faculdades exclusivas para homens. Um total de 323 mulheres havia respondido a um questionário intitulado "Onde Estamos Agora?" que três colegas de turma haviam se empenhado em elaborar. Como ocorreu na reunião, o grupo mais mal representado foi os 5 % que não se casou. Elas estavam menos propensas a responder ao questionário do que aquelas que haviam sido casadas ao menos uma vez (incluindo os 10% que haviam sido casadas duas ou mais vezes). Oitenta por cento das que responderam estavam casadas na época e apenas 42% tinham trabalho remunerado em tempo integral, com outros 3 1 % trabalhando meio expediente. Tornava-se claro que a imagem da "formanda bem-sucedida de Smith" atraía mais aquelas que achavam se enquadrar.

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Mas quando chegamos aos quartos dos alojamentos, carregados de uma familiaridade tão estranha, naquele verdejante campus universitário da Nova Inglaterra que um dia nos pertencera, as mulheres que haviam trazido seus maridos eram alvo de pequenas reclamações. Ter marido é uma coisa, trazê-lo é outra. Cônjuges, filhos e amantes não incomodam em reuniões para homens, mas este definitivamente não é o caso em reuniões de mulheres. "Isso acontece porque as mulheres levam as reuniões dos homens a sério, mas a recíproca não é verdadeira", disse uma colega de turma cujo alinhadíssimo exterior escondia um coração rebelde. "Além do mais", disse ainda, "família quer dizer apoio e platéia para o sexo masculino. Para as mulheres, significa apenas mais trabalho." Nós nos reunimos num hotel local para o jantar da turma. Foi uma reunião barulhenta, com mulheres inseguras olhando umas às outras com discreta curiosidade enquanto insistiam bravamente em que todas nós estávamos "iguaizinhas aos tempos de escola". Na verdade, apenas com base na aparência, a diferença de idade entre algumas de nós poderia ser de vinte anos. A garçonete achou que algumas tinham vinte e tantos anos enquanto outras pareciam bem mais velhas do que nossos 46 anos de idade. Sem o batom escuro, as golas redondas e os penteados dos anos cinqüenta, no entanto, a maioria de nós parecia bem mais jovem do que os poucos maridos presentes. Eles tinham uma aparência assustadoramente paternal. Ficou claro que muitas de nós haviam escutado os conselhos que nos mandavam casar com homens mais velhos, mais sábios e mais altos, que pesassem mais e ganhassem mais do que nós. Segundo o questionário da turma, a maioria dos nossos maridos se encontrava numa faixa etária entre os 48 e os 62 anos. O acontecimento central da noite foi um outro pequeno choque de idades. Tínhamos, agora, a mesma idade que a reitora da faculdade. Como Jill Ker Conway era a primeira mulher a ocupar tal posição em Smith e se formara em 1956 numa universidade da Austrália, nós a nomeamos membro honorário de nossa turma. Em troca, ela nos falou de seus anseios pessoais, dos sonhos de aventura de uma infância vivida numa fazenda isolada na Austrália) daquilo que almejara como estudante e como jovem estudiosa e as

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barreiras de sexo que haviam se colocado em seu caminho.* Como professora universitária, ela fizera enormes pressões em nome das outras integrantes mulheres do corpo docente e das funcionárias do campus e este ativismo acabou resultando em seu primeiro cargo administrativo. Como estudiosa e historiadora, ela se resignara à idéia de permanecer solteira e até hoje se surpreendia com um marido e colega que dava tanto valor ao seu trabalho quanto ao dele próprio. Como não podia ter filhos, ela reconhecia que sua carreira seria difícil ou até mesmo impossível para grande parte das mulheres que os têm. Quando ela fez um apelo por um modelo social de trabalho menos obsessivo e menos masculino, foi ovacionada. Quando contou que fizera uma enquete entre profissionais mulheres de diversas áreas, que gastavam uma média de trinta mil dólares por ano com empregados em geral, a platéia inteira gemeu. Quando admitiu que, no início do casamento, achara que precisava, ela própria, lavar os banheiros — até que seu marido a deteve dizendo que não se casara com ela para ter banheiros limpos — fez-se um silêncio de pura inveja. E claro que ela nada disse a respeito da responsabilidade de um homem criar os filhos, lavar banheiros, ou da necessidade de limitar sua carreira, como as mulheres vêm fazendo tradicionalmente, quando não há dinheiro disponível para a contratação de empregados. Ao descrever seu dia como reitora, do cantar do galo até a meia-noite, ela não mencionou suas constantes brigas com os membros conservadores do corpo docente de Smith, contrários às cadeiras do curso de Estudos Feministas, ou com as ex-alunas que reclamam das alunas lésbicas que não sentem mais necessidade de esconder sua verdadeira identidade. — E porque ela é uma manipuladora fantástica — uma recémformanda explicou mais tarde. — Ela não quer alienar maridos ou desagradar contribuintes. Ela deve ser a melhor captadora de recursos da história de Smith. Mas a Reitora Conway conversara conosco com intimidade, com compreensão, de uma forma feminista, dizendo que o pessoal era Político, conseguindo assim nos emocionar.
* Esta jornada aparece de maneira detalhada em The Road from Coorain (A Estrada de Coorain), o comovente primeiro volume de sua autobiografia (Nova York: Knopf, 1989)-

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— Estou tão feliz de ter trazido meu marido — disse uma mulher, com os olhos cheios de lágrimas. —Venho tentando dizer a ele como me sinto há vinte anos. Eu temera que o fato de não ter marido ou filhos, além de ser uma personalidade pública, me isolasse das mulheres que haviam sido minhas amigas. Eu me esquecera do fenômeno das reuniões de ex-alunas: você é jogada de volta ao mesmo ponto no qual se encontrava há 25 anos. As madeleines de Proust são tão especiais quanto uma hora passada num alojamento de faculdade. Também descobri que ser famosa não é o pior crime que uma mulher possa cometer. Talvez porque ser famosa, assim como ser qualquer coisa que não esposa, ainda seja controverso e, portanto, na melhor das hipóteses, uma faca de dois gumes. Não, o pior dos crimes é ser magra. Como compreendo este desconforto sentido na presença de pessoas magras (passei a vida inteira lutando contra os quilinhos a mais e são poucos os minutos do dia em que não penso em comida), empenhei-me em explicar que o fato de estar magra não significava não ser louca por comida, da mesma forma que estar sóbria não quer dizer que não se é alcoólatra. Apesar de tudo, não era sempre que eu conseguia me sobrepor à barreira dos quilos. A única colega que escreveu um comentário hostil posteriormente (que eu comparecera à reunião "não para ver e sim para ser vista") não comentou eventos ou conversas, apenas que eu era "um anacronismo dos anos 70, vestindo calças jeans de estilista famoso, tamanho 38, e falando de irmandade". (Na verdade, nem eram tamanho 38 nem tampouco de algum estilista famoso, mas compreendi o que quis dizer.) Não obstante, foi um fato concreto — os cartazes do Desfile do Dia das Ex-Alunas — que mais me ensinou. Começando pelas formandas mais velhas, este tradicional desfile através do campus inclui todas as turmas presentes. Cada grupo tem as cores de sua turma numa faixa amarrada sobre roupas brancas e usa um símbolo de sua era. As formandas do dia seguinte desfilam por último. Seus vestidos brancos iam de elegantíssimos vestidos de estilistas conhecidos a lençóis roubados, desafiadoramente, dos alojamentos. Mas todas elas carregavam uma rosa.

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É uma tradição que depende, em parte, do sentimento e, em parte, da imaginação de cada uma para criar fantasias e cartazes. (Eu me lembro, com gratidão, da faixa carregada por umas mulheres muito idosas e um tanto dissolutas que encabeçaram o desfile quando eu ainda era aluna: POUCOS SÃO OS HOMENS AINDA VIVOS QUE SE LEMBRAM DAS "MENINAS" DE 1895). É também um evento no qual as mudanças sociais se tornam visíveis. Os grupos só começam a exibir alguma diversidade racial depois de 1960. Na minha turma, por exemplo, havia apenas uma estudante negra, nenhuma latina, e apenas uma asiática que não era estrangeira. (No primeiro ano de faculdade eu perguntara a um professor por que nenhuma das garotas negras da minha cidade, que solicitaram uma vaga em Smith, fora selecionada para admissão. A resposta foi um misto de sexismo com racismo: era preciso muito cuidado com a instrução de meninas negras porque não havia um número suficiente de homens negros de nível superior para elas.) A turma a se formar a seguir contrasta drasticamente, com 29% de suas mulheres de cor. Junto com Phyllis Rosser, colega de turma e da revista AÍÍ., eu ajudara a criar cartazes que, esperávamos, diminuiria o número de anos entre nós e as manifestantes mais jovens e mais velhas.
A SEGUNDA ONDA DO FEMINISMO SAÚDA A PRIMEIRA. SOBREVIVEMOS A JOE MCCARTHY SERÁ QUE SOBREVIVEREMOS

A REAGAN E À MAIORIA PELA MORALIDADE? A TURMA DE 56 RECORDA SUAS IRMÃS QUE MORRERAM DE ABORTOS ILEGAIS. NÃO DEIXEM QUE ACONTEÇA OUTRA VEZ! AS MULHERES SE TORNAM MAIS RADICAIS À MEDIDA QUE ENVELHECEM.

Tínhamos plena consciência de que estes slogans eram bem mais políticos do que "Foco 56", o tema escolhido pelo comitê organizador da reunião, que troçava do uso de bifocais na meia-idade. Foi justamente por isso que trouxéramos cartazes — com apenas duas cópias de cada um, pois o tempo fora escasso. Considerando o resultado do questionário, não achávamos que nossos cartazes causariam muita

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controvérsia. A Turma de 1956 votara contra Reagan numa proporção de quase 3 para 1, e 98% acreditava que o aborto deve ser uma escolha segura e legal. Quando colocamos as cópias de nossos cartazes sobre a grama, no local onde a Turma de 56 se reunia, as mulheres os levantaram com entusiasmo. O único outro slogan significativo era CRESCENDO EM LIBERDADE OUTRA VEZ, uma possível referência a uma segunda carreira. Muitas gemeram ao ler um outro cartaz AGORA NOSSA IDADE É
IGUAL AO TAMANHO DO SUTIÃ.

E, mesmo assim, notei que diversas mulheres apontavam para nossos cartazes. Um frio no estômago me dizia que algo estava errado. Ignorei o fato como sendo um resquício do ser passivo que eu fora em 1950, que jamais carregaria cartazes e que pensava que o direito ao voto fora um "presente" que nos deram. Uma das integrantes do comitê da reunião se aproximou com um olhar severo. Quem autorizara estes cartazes? Meu coração subiu à garganta. Ela disse que todos os slogans haviam sido aprovados com meses de antecedência. — Por quem? — Quis saber uma outra carregadora de faixas. — Nós não escolhemos estes cartazes como turma. Nossa autoridade se afastou para consultar outros membros do comitê. Retornou dizendo que a desaprovação de uma única colega da Turma de 56 seria o bastante para não podermos carregar nossos slogans. (Não que fossem dignos de desaprovação, mas era possível que alguém desaprovasse.) Com todo receio de causar conflitos que eu tivera nos idos dos 50 despencando mais uma vez sobre a minha cabeça, expliquei que nós não estávamos censurando os cartazes de mais ninguém e nem estávamos pedindo que carregassem os nossos. Será que a liberdade de expressão não permitia que cada uma carregasse o que bem entendesse? Chegou-se a um acordo: uma outra integrante do comitê sugeriu que caminhássemos ao final de nossa turma de forma a não interferir com a ordem dos cartazes do tema "Foco". Concordamos. Mas outras conferências se deram enquanto caminhávamos e o acordo foi desfeito. Teríamos de andar no final do desfile de forma a não podermos ser associadas a nossa turma. Eu disse que isso nos poria em maior evidência ainda, mas a primeira autoridade falou mais alto. Nenhum cartaz seria carregado se não tivesse sido aprovado

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pelo comitê da reunião ou se desagradasse a qualquer uma. Como toda a minha coragem tivesse, surpreendentemente, se esvaído, eu concordei. — Ela não pode nos forçar a desfilar longe de nossa turma — insistiu uma desconhecida que carregava um dos nossos cartazes, muito mais valente do que eu, diga-se de passagem. — Vamos desfilar onde nos der na telha — outras mulheres gritavam. A esta altura eu me sentia culpada por ter trazido os cartazes e por ter aceitado a situação. Acabei me juntando às rebeldes quando nossa turma começou a desfilar. O comitê enviou uma jovem mestre de cerimônias, aluna da faculdade, para impedir nossa passagem. — Olha, eu acho isso uma idiotice — disse ela, gentilmente —, mas elas dizem que precisam esperar aqui até o final do desfile. E assim ficamos, aguardando às margens do desfile quando a Turma de 1966 passou. Boletins sobre nossa situação haviam penetrado a multidão. Estas mulheres, dez anos mais jovens, haviam decidido nos convidar para desfilar com elas e abriram espaço para nós ao seu lado. — Ficamos tão felizes em vê-las — disse uma delas enquanto fazíamos fila, com as faixas azuis um tanto gritantes dentre as vermelhas que as outras usavam. — Uma colega de turma tentou induzir um aborto e morreu. Fizeram de tudo para abafar o caso mas nós soubemos. Ao atravessarmos o campus, vagarosamente, gritos e aplausos eclodiram da assistência ao enxergarem nossos cartazes. — Muito bem! — Já não era sem tempo! — Isso mesmo! Uma senhora surgiu da multidão para nos dizer que éramos "o único grupo digno de toda a maldita parada". Quando finalmente passamos em frente à casa da reitora, onde as novas formandas aguardavam, houve saudações especiais e punhos erguidos por um grupo de estudantes negras, e mais aplauso das outras formandas e de suas famílias. Ao chegarmos ao nosso destino, um quadrilátero central, banhado pela luz do sol, toda a sensação de conflito se dissipara. A maioria do nosso grupo de manifestantes tinha os olhos marejados

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— Vou levar meu cartaz para a formatura de meu filho, em Yale — disse uma. — Foi interessante assistir à reação de cada grupo — disse uma outra. — Talvez as mais quietinhas tenham desaprovado o que fizemos, mas a maioria me pareceu muito satisfeita. — Tenho orgulho da minha turma — disse uma das integrantes da Turma de 66. — Todos acham um absurdo vocês terem sido impedidas de desfilar ao lado da sua própria turma. Como se em uníssono, defendemos nossas colegas da Turma de 1956. — A maioria teria concordado — explicamos. — Só que ninguém perguntou a opinião delas. Nenhuma de nós, por mais zangadas ou envergonhadas que estivéssemos por termos sido afastadas, queria ver este momento de comemoração transformado em divisão. Um sinal fora enviado. Os ecos reverberaram durante o resto do fim de semana. Integrantes da turma de formandas daquele ano nos procuraram para explicar que haviam se reunido tarde da noite tentando decidir se penduravam ou não uma faixa com os dizeres: EUA, FORA DE EL SALVADOR, de um alojamento que ficava atrás da plataforma onde se daria a formatura ao ar livre. Estavam divididas. Algumas achavam que deveria haver unanimidade, não a prevalência da maioria, mas que nenhuma faixa realmente significativa teria apoio unânime. — Você alguma vez conseguiu unanimidade em alguma coisa? — uma delas perguntou. — Acho que não — respondi. — Na minha opinião, a busca pela unanimidade é, simplesmente, uma forma de evitar a controvérsia e qualquer tipo de ação. Elas decidiram pendurar o lençol transformado em protesto assim como um que dizia ACABEM COM O HLA. A inclusão da chamada emenda a favor da vida humana (Human Life Amendment), que tornaria o aborto ilegal, em seu protesto havia sido inspirada em nossos cartazes. Smith mudara, mas não o bastante para fazer com que suas alunas levassem as questões femininas tão a sério quanto as masculinas.

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Ainda mais tarde naquela noite, fomos procuradas por um grupo feminista da faculdade. — Deveriam ter nos avisado com antecedência. Teríamos juntado pelo menos mil pessoas — uma jovem ativista nos disse com orgulho. — Nós jamais imaginamos que as ex-alunas fariam alguma coisa. Durante o café da manhã de despedida, no domingo, a integrante do comitê que mais se opusera aos nossos cartazes disse: — Não que a maioria de nós não concorde com tais sentimentos. E só que estas coisas haviam sido decididas de antemão. Nós lhe asseguramos que compreendíamos e esquecemos qualquer inimizade. Se tivéssemos feito uma enquete com a turma com seis meses de antecedência, o que teria acontecido? Não sei. A ansiedade que a possibilidade de conflito me fazia sentir continuava forte mesmo 25 anos depois, mesmo tendo tido mais chance de superar este típico problema feminino do que a maioria. Talvez até mesmo uma voz discordante tivesse sido demais. Será que uma educação "feminina" rompe a ligação entre pensamento e ação? Faculdades exclusivas para negros vêm sendo verdadeiras usinas ideológicas para o movimento de direitos civis. Ensinavam história da raça negra e orgulho da raça muito antes de tais cadeiras espalharem-se pelos campus de todo o país. No entanto, faculdades para mulheres raramente nos ensinaram a lutar por nós mesmas ou por outras mulheres. Cursos de história da mulher, além de um corpo docente e uma administração feministas, estão começando a mudar tudo isso, mas muitas de nós ainda estão por superar as "vantagens" de nossa educação tradicional. Um pouco antes da reunião de ex-alunas, eu voltara a Toledo, no estado de Ohio, onde passara grande parte de minha adolescência. Encontrei-me com mulheres que não via desde o ginásio, mulheres dos bairros operários dos quais eu lutara tanto para escapar. A maioria não fizera faculdade ou então havia feito cursos em regime de meio expediente e com grande dificuldade. Muitas precisavam trabalhar duro para sustentar a si mesmas e às suas famílias. Como grupo, estas mulheres eram vibrantes, escandalosas, cheias de energia e autoconfiança. Muitas haviam processado as fábricas

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locais por discriminação sexual anos antes do feminismo reunir as mulheres da classe média através da criação de grupos de autoconsciência. Outras haviam se organizado com grande sucesso contra um regulamento antiaborto de Toledo. Um terceiro grupo voltava agora à universidade, abalando as estruturas das mulheres mais jovens ou mais abastadas que conheciam nas aulas. Todas elas partiam do princípio de que a instrução leva à ação. Talvez mulheres abastadas como aquelas que criaram o tom social de Smith tenham algo em comum com as adolescentes desempregadas dos guetos. Não foi permitido a nenhum dos dois grupos desenvolver a autoconfiança que vem de saber que podemos nos sustentar sozinhas. No entanto, estas mesmas mulheres são levadas a se sentir especiais, privilegiadas devido à instrução que receberam. Isolam-se de grande parte do mundo pela sua classe social (ou melhor, pela classe social de seus maridos), são as mais propensas a se casar com homens que possuem carreiras absorventes e maior capacidade de sustentar as esposas. Ao mesmo tempo, a sociedade não admite que suas carreiras principais, criar filhos e administrar lares um tanto complexos, sejam empregos de altíssimo valor econômico. E, na realidade, eles o são. Acho que devemos nos orgulhar do fato de tantas das "Smith girls" dos anos cinqüenta terem sobrevivido a uma educação que nos treinou para nos adequarmos ao mundo, ou pelo menos a ter medo do conflito proveniente de tentar fazer com que o mundo se adeqüe a nós. Que estranho descobrir, depois de tantos anos, que talvez eu deva a minha própria sobrevivência justamente ao bairro do lado leste da cidade de Toledo do qual eu tudo fizera para escapar. — 1981

A Canção de Ruth (Porque Ela Não Sabia Cantar)

Feliz ou infeliz, toda família é um mistério. Tudo o que temos a fazer é imaginar o quão diferentes seriam os relatos de cada membro de nossas famílias — que julgam nos conhecer — ao serem incumbidos de nos descrever (o que fatalmente ocorrerá quando falecermos). A pergunta é: Por que alguns mistérios são mais importantes do que outros? O fim de meu Tio Ed foi um mistério de grande importância para nossa família. Nós nos cansávamos de tanto especular por que ele deixara de ser um jovem engenheiro brilhante para se tornar o biscateiro-mor da cidade. Nos tempos de estudante ele fora um homem elegante e tão imponente quanto Abraham Lincoln. A tal ponto, na verdade, que fora eleito o "Mais bem vestido" pelos colegas de turma. O que teria levado um homem destes a se transformar no ser barbado, de ar desolado, que conhecemos? Por que teria ele deixado um filhinho e uma esposa da classe social e da religião "certas", para se casar com uma mulher muito menos instruída que ainda por cima era da classe social e da religião erradas? O que o levara a criar uma segunda família ao lado de um campo de pouso abandonado, num casebre cujas paredes eram remendadas com placas de metal para conter a fúria do vento? Por que será que ele jamais falou a respeito desta transformação? Passei anos acreditando que tudo se dera por obra de algum acontecimento secreto e dramático ocorrido durante o ano que ele passara no Alasca. Foi então que descobri que a viagem se seguira à mudança e que provavelmente fora feita por este motivo. Os desconhecidos para os quais trabalhava como o mais querido dos biscateiros se referiam a ele como mais uma das tragédias causadas pela Depressão de 1929. Era bem verdade que o pai de meu Tio Ed, meu avó por parte de pai, perdera tudo o que tinha com o desastre financeiro em questão e que morrera, dependendo de quem contasse a

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história, ou de pneumonia ou de um coração partido. Mas a Depressão também ocorrera muito depois da transformação do Tio Ed. Uma outra teoria era que ele sofrerá de uma doença mental a vida inteira. No entanto, ele era extremamente competente, tinha uma vida independente e não pedia ajuda a quem quer que fosse. Talvez ele tivesse sido enfeitiçado por algum professor radical durante os primeiros anos do século, o ápice do flerte americano com a anarquia e o socialismo. Esta era a teoria de um tio de parte de mãe. Eu me lembro de que, por mais que o Tio Ed precisasse de dinheiro, ele jamais cobrou mais do que matéria-prima mais 10%. E eu nunca o vi calçar algo que não umas botas antiqüíssimas e macacões presos estrategicamente por alfinetes de pressão. Será que ele realmente estaria tentando compensar a inexistência do socialismo nacional com o socialismo individual? Se era esse o caso, por que haveria minha avó — candidata a uma vaga no conselho de educação, em aliança com anarquistas e socialistas — de acreditar tão pouco na capacidade de discernimento do Tio Ed, que confiou a parte da herança que a ele cabia à guarda de outra pessoa? E por que será que o Tio Ed não dava a mínima atenção para opiniões e para atos políticos? Seria verdade então que, como insistia um outro parente, o Tio Ed escolhera ser pobre para desmentir o mito que liga judeus a dinheiro? Anos após a morte do meu tio, perguntei a um dos filhos de seu segundo casamento se ele encontrara a chave deste mistério familiar. Não, ele respondera, ele jamais conhecera outra face do pai. Para o meu primo, a pergunta jamais existira. Para o resto da família, a resposta jamais existirá. Eu também passei muitos anos sem conseguir imaginar minha mãe de outra forma que não a pessoa na qual ela se transformou antes de meu nascimento. Na minha infância, ela simplesmente era. Era uma pessoa que exigia atenção, que exigia cuidados, uma inválida que ficava na cama com os olhos fechados e os lábios se movendo em respostas ocasionais às vozes que só ela ouvia. Era uma mulher para quem eu levei um mar de café e uma infinidade de torradas, sanduíches de mortadela e tortinhas — versão infantil de uma refeição de verdade. Era uma mulher amável, inteligente e constantemente aterrorizada pelos seus próprios fantasmas. Quando emergia de seu mundo interior, ela fazia um esforço enorme para limpar a bagunça espa-

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lhada pela casa. Nunca contávamos que chegasse ao fim de tarefa alguma. De muitas maneiras, nossos papéis eram invertidos: eu era a mãe e ela, a filha. Mas isso não ajudava em coisa alguma. Ela ainda assim se preocupava comigo com toda a intensidade de uma mãe assustada, além dos medos especiais tirados daquele mundo particular, cheio de ameaças e de vozes hostis. Mesmo naquela época, acho que eu sabia que antes de eu nascer, quando ela tinha trinta e cinco anos, ela fora uma jovem ousada e cheia de vida que lutara para freqüentar a faculdade apesar de pertencer à classe operária. Ela encontrara um trabalho do qual gostava e que continuou a ter mesmo depois de se casar e ter minha irmã. Ela tinha trinta anos quando desistiu de sua própria carreira para ajudar meu pai a administrar um hotel de veraneio no estado do Michigan — o mais prático de todos os sonhos que ele tivera — fazendo de tudo, desde a contabilidade até o gerenciamento do bar. A família deve ter assistido àquela mulher vibrante, divertida, amante da boa leitura transformar-se numa mulher que tinha medo da solidão, que não conseguia se apegar à realidade por tempo bastante para manter um emprego e que perdera o poder de concentração de tal forma que não mais conseguia ler. E, no entanto, eu não me lembro de especulação familiar alguma a respeito da transformação de minha mãe. Para os mais gentis, para os que gostavam dela, essa nova Ruth era apenas um acontecimento triste, talvez vítima de uma doença mental, um problema familiar que precisava de aceitação e de cuidados até que seu estado melhorasse devido a algum processo natural. Para os menos gentis, e para os que se ressentiam da independência que ela um dia tivera, ela mesma escolhera o fracasso; era uma pessoa que morava numa casa imunda, uma mulher que simplesmente se recusava a retomar o rumo de sua vida. Ao contrário da história de Tio Ed, ninguém tentava explicar a fonte dos problemas de minha mãe através de algum acontecimento externo. O fato de ter desistido da carreira jamais foi mencionado como um paralelo pessoal à Depressão de 1929. (Nem tampouco discutiase a Depressão em si, embora minha mãe, como milhões de outras mães, tivesse alimentado a família com sopa de batatas e cortado cobertores para fazer roupas de inverno para minha irmã.) Os seus medos reais, de dependência e de pobreza, não eram páreo para as possíveis crenças políticas de meu tio. As esperanças reais, inspiradas por

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editores que a elogiavam como jornalista, não eram levadas a sério da mesma forma que a possível influência de um professor radical. Até mesmo a explicação de uma doença mental parecia conter mais culpa individual quando aplicada à minha mãe. Ela sofrerá a primeira "crise nervosa", termo usado por ela e por todo mundo, antes de eu nascer, quando minha irmã tinha mais ou menos cinco anos. Essa "crise" se deu anos depois de tentar cuidar de um bebê, ser esposa de um homem gentil mas financeiramente irresponsável, com a cabeça cheia de sonhos relacionados ao show business, e ainda tentar manter seu adorado emprego como jornalista e editora de um jornal. Após passar diversos meses num sanatório, declararam-na curada. Quer dizer, ela estava apta a cuidar de minha irmã, deixar a cidade e o emprego que ela tanto amava para trabalhar com meu pai numa área rural isolada, perto de um lago do Michigan. Ele tentava transformá-lo numa estação de veraneio digno de receber as grandes bandas da década de trinta. Mas ela nunca mais deixou de ter crises de depressão, de ansiedade e visões de um outro mundo que eventualmente a transformariam na personalidade anulada da qual eu me lembro. E ela nunca mais passaria sem uma garrafa que continha um líquido acre e escuro que ela chamava de "remedinho do Dr. Howard", uma solução de hidrato de cloral. Segundo vim a saber mais tarde, este era o ingrediente principal dos "Mickey Finns" — bebida alcoólica à qual se acrescenta um narcótico. Estas gotinhas de inconsciência provavelmente fizeram de minha mãe e do médico os pioneiros do tranqüilizante moderno. Embora amigos e parentes encarassem este remédio como mais uma prova de fraqueza e de indulgência, para mim era um mal embaraçoso, porém necessário. Ela ficava com a fala arrastada e a coordenação motora afetada, fazendo com que os vizinhos e meus colegas de escola acreditassem que ela era alcoólatra. Mas sem a droga ela passava dias sem dormir, às vezes até mesmo uma semana, e seus olhos febris passavam a enxergar apenas um mundo exterior no qual guerras e vozes hostis ameaçavam as pessoas que ela amava. Como meus pais tivessem se divorciado e minha irmã ido morar numa cidade distante, eu e minha mãe passamos aqueles anos todos sozinhas, vivendo da renda modesta gerada pelo arrendamento do que sobrara das terras do Michigan. Eu me lembro de um fim de semana prolongado de Ação de Graças, quando estava no oitavo ano, em que

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passei agarrada à minha mãe com uma das mãos e a Uma História de Duas Cidades de Dickens com a outra, porque a guerra que eclodia do lado de fora de nossa casa era tão real para ela que quisera escapar, me levando consigo. Assim, atravessou a vidraça com o braço e se cortou. Ela só conseguiu dormir quando finalmente concordou em tomar o remédio. E só então, naquela tranqüilidade terrível que se segue à crise, admiti para mim mesma o quão apavorada ficara. Não é de se espantar que eu não me lembre de nenhum parente ter tentado desafiar o médico que receitara o remédio ou ter perguntado se um pouco daquele sofrimento todo e das alucinações não seria proveniente de uma superdose ou da abstinência do mesmo, ou até mesmo ter consultado outro médico a respeito de seu uso. O alívio que a droga trazia era tão nosso quanto dela. Mas por que será que ela jamais voltou ao primeiro sanatório? Por que será que jamais consultou outro médico? E difícil responder. Em parte, era devido ao medo de que a dor voltasse. Por outro lado, havia muito pouco dinheiro disponível e as suposições normais da família de que uma doença mental é parte inevitável da personalidade de uma pessoa. Ou talvez outros parentes temessem ter uma experiência como a que eu tive, no calor desesperador do verão entre a quinta e a sexta série, quando eu finalmente a persuadi a se consultar com o único médico do sanatório do qual ela se lembrava sem medo. Sim, respondeu o homem velho e brusco depois de vinte minutos de conversa com uma mulher distante e tímida: o seu lugar é definitivamente numa instituição governamental para doentes mentais. Ele disse que eu deveria interná-la ali sem demora. Mas até mesmo naquela idade, as reportagens publicadas na revista Life e nos jornais me mostravam os horrores que ocorriam dentro daqueles hospitais. Achando não haver outra alternativa, levei-a para casa e nunca mais tentei. Olhando para trás, talvez o principal motivo de minha mãe ter recebido atenção mas não os cuidados adequados era simples: seu funcionamento normal não era necessário para o mundo. É o mesmo que as mulheres alcoólatras que bebem em suas cozinhas, enquanto programas caríssimos são criados para executivos homens que bebem. Ou, então, como as donas de casa que são controladas com tranqüilizantes enquanto pacientes homens recebem a atenção de terapeutas e muita atenção pessoal: o trabalho de minha mãe não tinha importância para ninguém. Ela não era nem mesmo respon-

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sável pelo bem-estar de uma criança muito pequena, como fora o caso durante a sua primeira internação. Meu pai continuara a trazer as compras para casa e manteve aquele estranho lar funcionando até eu ter oito anos e minha irmã partir para a universidade. Dois anos depois, quando os racionamentos da guerra fecharam a estação de veraneio e ele precisava viajar para vender e comprar no verão e no inverno, ele disse: Como posso viajar e cuidar de sua mãe? Como vou conseguir me sustentar assim? Era impossível fazer as duas coisas. Eu não o culpei por nos deixar tão logo atingi uma idade que me possibilitava levar as refeições para minha mãe e responder às suas perguntas ("Sua irmã foi morta numa batida de automóvel?", "Os soldados alemães estão aí fora?") Eu substituí meu pai, minha mãe ficou com mais uma maneira de manter um tristíssimo status quo e o mundo foi em frente sem ser incomodado. E foi por isso que passamos nossas vidas, a de minha mãe dos 46 aos 53 anos idade, e a minha dos dez aos 17, completamente sós, a não ser pela companhia uma da outra. Houve apenas um inverno são, numa casa que alugamos perto da faculdade de minha irmã no estado de Massachusetts, e um péssimo verão que passamos tomando conta de uma casa nos arredores de Nova York, com minha mãe tendo alucinações e minha irmã lutando para manter um emprego de verão na cidade. Mas o resto dos anos, vivemos em Toledo, cidade natal dos meus pais e na qual uma Ruth anterior trabalhara num jornal. Primeiro nós nos mudamos para um apartamento de subsolo num bairro nobre. Foi naqueles cômodos, atrás dos aquecedores, que tentei ser criança pela última vez. Fingi estar muito mais doente de gripe do que realmente estava, na esperança de que minha mãe voltasse ao seu estado normal de repente e me trouxesse canja de galinha, à la Hollywood. É claro que isto não aconteceu. Ela apenas se sentiu pior ainda por não conseguir fazer coisa alguma a respeito. Parei de fingir e raramente fiquei doente depois disso. Mas durante grande parte daqueles anos ocupamos o andar superior da casa onde minha mãe crescera e que meus avós deixaram para ela. Era uma casa de fazenda, em ruínas, que fora engolida pela cidade e cercada por casas mais novas e mais pobres. O movimento de uma importante auto-estrada que passava por ali fez com que a varanda da casa cedesse. Durante algum tempo, alugamos os dois apartamentos dos andares inferiores para um operário de fábri-

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ca recém-casado e a família de um açougueiro das redondezas. Então a saúde pública interditou nosso aquecedor pela última vez e o selou de tal forma que nem o habilidoso Tio Ed conseguiu abri-lo para produzir calefação ilegalmente. Daquela casa, eu me lembro: ... de ficar deitada na cama em que eu dormia com minha mãe para nos aquecermos uma à outra, ouvindo o rádio transmitir, de manhã cedinho, o casamento da Princesa Elizabeth com o Príncipe Philip. Enquanto isso, tentávamos ignorar, e assim nos proteger, do barulho inconfundível que o operário do andar de baixo fazia ao espancar e trancar a mulher grávida pelo lado de fora da casa. ... de pendurar cortinas de papel compradas no armazém da esquina, de empilhar livros e jornais no formato de poltronas e de cobri-los com colchas. De criar minha própria técnica para lavar a louça (que consistia em deixar que todas ficassem sujas e depois colocálas numa banheira) e depois ouvir os elogios de minha mãe pela tentativa de manter a casa em ordem, de tentar ordenar o caos no qual vivíamos. Pensando bem, acho que ela ficava ainda mais deprimida. ... de voltar de um show em um clube local onde eu e outras veteranas de uma escola de sapateado local ganhamos dez dólares por noite durante duas noites e encontrar minha mãe de lanterna em punho, e sem casaco, me esperando no ponto de ônibus por estar preocupada com minha segurança. ... de uma época boa quando a ousadia natural de minha mãe emergiu e ela respondeu a um anúncio de jornal procurando um grupo de atores para encenar dramas bíblicos em igrejas. Ela trabalhou numa peça ridícula sobre a Arca de Noé chacoalhando folhas-de-flandres nos bastidores, fingindo ser trovão. ... de ter sido mordida por um rato numa noite de verão. Eles compartilhavam a casa e uma ruela aos fundos conosco. Foi uma noite apavorante que se transformou numa noite comovente, com minha mãe invocando uma reserva desconhecida de amor, transformandose num ser calmo e reconfortante que me levou à emergência de um hospital apesar do horror que sentia de sair de casa. ... de pegar três livros por semana na biblioteca pública para neles enfiar o nariz e descobrir, pela primeira vez, que não havia necessidade alguma para tal. Minha mãe plantava malva-rosa no terreno baldio ao lado de nossa casa.

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Mas houve também ocasiões nas quais ela acordava, assustada e desorientada, na escuridão do início do inverno sem se lembrar que eu trabalhava à tarde, depois da escola, e ligava para a polícia para me acharem. Humilhada na frente dos meus amigos pelas sirenes e pelos policiais, eu gritava com ela e ela abaixava a cabeça e dizia "Eu sinto muito, sinto muito, sinto muito mesmo", da mesma forma que fizera com meu amável pai nas raras vezes em que ele se descontrolara e a frustração que sentia o levara a gritar com ela. Talvez a pior coisa do sofrimento é que um belo dia ele endurece os corações daqueles que com ele têm de conviver. E houve muitas, muitas vezes que eu a azucrinava até que as mãos trêmulas preenchessem um cheque, numa quantia modesta, a ser descontado no armazém da esquina, para que eu pudesse escapar para o conforto das lanchonetes quentinhas com cheiro de rosquinhas frescas no ar. No verão, eu escapava para o ar-condicionado das matinês de sábado que eram janelas para um mundo diferente do meu. Mas eu tinha uma tática especial para me proteger: eu estava apenas de passagem. Eu era hóspede da casa. Talvez esta nem fosse minha mãe de verdade. Embora eu soubesse muito bem que era filha dela, às vezes eu imaginava que fora adotada e que meus pais de verdade me encontrariam um dia, uma fantasia que eu vim a descobrir ser muito comum. (Se as crianças escrevessem mais e os adultos menos, talvez a adoção deixasse de ser um medo para se transformar em esperança.) Eu certamente não lamentava pela vida desta mulher que era, então, um pouco mais velha do que eu sou hoje. Eu só me preocupava com os momentos nos quais ela piorava. A piedade exige distância e a certeza da sobrevivência. Foi só quando nossa casa foi vendida para a igreja ao lado, e demolida, e minha irmã conseguiu o milagre de persuadir meu pai a me dar um período de liberdade antes de entrar para a faculdade, levando minha mãe para passar um ano com ele na Califórnia, que eu pude pensar no quão triste fora a vida dela. De repente eu me vi longe, em Washington, morando com minha irmã que rachava uma casa com diversos amigos. Enquanto terminava o segundo grau descobri, para minha surpresa, que meus colegas de escola sentiam pena de mim pela ausência da minha mãe. Eu também me dei conta de que, pelo menos nos primeiros anos de infância, minha irmã conhecera uma pessoa diferente que vivia dentro de nossa mãe, uma Ruth anterior.

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Esta era uma mulher que eu conheci pela primeira vez numa instituição para doentes mentais nas redondezas de Baltimore, no estado de Maryland. Era um lugar humano, com jardins e árvores, onde eu a visitava todos os fins de semana durante o verão, depois do primeiro ano de faculdade. Felizmente, minha irmã não conseguira trabalhar e tomar conta de nossa mãe ao mesmo tempo. Findo o ano de meu pai com ela, minha irmã pesquisou hospitais com todo o cuidado e sentiu coragem de romper com o hábito familiar de apenas tolerar o estado de minha mãe. A princípio, esta Ruth era a mesma mulher distraída e amedrontada com a qual eu vivera tantos anos. Em seguida, ela se tornou ainda mais triste por estar separada de nós pelos longos corredores do hospital e por inúmeras portas trancadas. Mas aos poucos ela foi falando de sua vida e foi confidenciando lembranças que os médicos iam despertando. Comecei a conhecer uma Ruth que eu jamais conhecera. ... Uma garota alegre de cabelos castanho-avermelhados que, durante a escola secundária, gostara de ler e de jogar basquete; que tentara dirigir o Stanley Steamer do tio, o primeiro carro do bairro; que adorara jardinagem e as vezes vestia o macacão do pai, desafiando a convenção da época; uma menina que tinha coragem de ir a bailes apesar da igreja dizer que a música em si já era uma coisa pecaminosa, e cujo senso de aventura quase compensava a sensação de ser desajeitada e feiosa ao lado da irmã, tão mais delicada e morena. ... Uma garotinha que acabara de aprender a andar mas que já descobrira as áreas do corpo que lhe davam prazer. Era castigada pela mãe com tanta violência que a força dos tapas a arremessavam do outro lado da cozinha. ... A filha de um bem-apessoado engenheiro ferroviário e de uma professorinha que acreditava ter se casado com alguém de uma classe social inferior à sua. A mãe viajava com as duas filhas para a longínqua Nova York com passagens gratuitas às quais o marido tinha direito para lhes mostrar os restaurantes e os teatros a que deveriam aspirar — embora só pudessem ficar do lado de fora, na neve, olhando para dentro. ... Uma boa aluna de Oberlin College, uma faculdade de filosofa liberal que ela adorava, onde os colegas a apelidaram de "Billy"; uma aluna com um talento especial para a poesia e a matemática que não se furtava de passar uma fina camada de Karo nas tampas

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das privadas do alojamento na noite de algum grande baile; uma filha que voltara para Toledo para morar com a família e freqüentar a universidade local quando o dinheiro da ambiciosa mãe — que contara os centavos e economizara tudo o que tinha, que escrevera os sermões do pastor para ganhar dinheiro e fizera as roupas das filhas para conseguir mandá-las para a faculdade — terminara. De volta à cidade natal, Ruth trabalhou, em regime de meio-expediente, como contadora de uma loja de lingerie freqüentada por mulheres muito ricas. Ela ia e vinha das aulas e ainda ouvia os sermões da mãe a respeito de tornar-se professora por se tratar de uma profissão segura. Mesmo assim, era uma jovem rebelde o bastante para se apaixonar pelo meu pai, um rapaz engraçado e espirituoso que era editor do jornal da faculdade e péssimo aluno. Ele não tinha a menor intenção de se formar e assim organizava todas as festas da faculdade; tinha, ainda, o inaceitável defeito de ser judeu. Segundo conta a lenda familiar, minha mãe se casou com meu pai duas vezes: uma, secretamente, quando ele a convidou para se tornar editora de literatura do jornal da faculdade e outra vez, um ano depois, numa cerimônia pública à qual membros das duas famílias recusaram-se a comparecer por tratar-se de um "casamento misto". E eu também sabia que minha mãe obtivera certificado para lecionar. Ela o usava para espantar inspetores de colégio quando, depois que meu pai fechava a estação de veraneio durante o inverno, nós morávamos num trailer e trabalhávamos na Flórida ou na Califórnia e depois voltávamos, comprando e vendendo antigüidades pelo caminho. Mas foi só durante as escapadelas do hospital, durante os fins de semana — idas ao shopping, saídas para almoços e filmes —, que eu descobri que ela ensinara cálculo durante um ano numa faculdade, em deferência à insistência da mãe de que ela tivesse o magistério "como garantia". E foi só então que me dei conta de que ela se apaixonara por jornais quando se apaixonou por meu pai. Depois que se formou na universidade passou a escrever uma coluna de mexericos para um tablóide local sob a alcunha de "Duncan MacKenzie", já que não era de bom-tom que mulheres fizessem tal coisa. Logo depois ela conseguiu trabalho como colunista social em um dos dois principais jornais de Toledo. Quando minha irmã tinha quatro anos, ela chegara ao invejado posto de editora da edição de domingo.

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poi uma experiência estranha, olhar fundo naqueles olhos castanhos que me eram tão familiares e, subitamente, perceber que eram iguais aos meus. Foi então que me dei conta, pela primeira vez na vida, de que ela era realmente minha mãe. Comecei a pensar nas muitas pressões que a teriam levado a ter sua primeira crise nervosa: ter de deixar minha irmã sob os cuidados de minha avó, cujos valores minha mãe não compartilhava. Tentar manter um emprego que adorava mas ter de abandoná-lo, a pedido do marido. Querer tentar a vida em Nova York com uma amiga e ter se castigado pelo simples pensamento. Ter se apaixonado por um colega de trabalho que a assustava por ser sexualmente mais atraente do que meu pai, que lhe dava mais apoio profissional do que meu pai e, enfim, muito provavelmente, o homem com o qual deveria ter se casado. Finalmente, o fato de quase ter morrido de hemorragia com um aborto espontâneo porque a mãe não acreditava em médicos e recusou-se a chamar socorro. Será que nos meses passados no sanatório lhe fizeram uma lavagem cerebral com algum método freudiano ou muito tradicional, de forma a levá-la a fazer o que eram, para ela, péssimas escolhas? Eu não sei. Mas isto importa muito pouco. Sem ter recebido apoio maciço para fazer o contrário, ela já se convencera de que o divórcio estava fora de cogitação. Não se podia deixar o marido por um outro homem, e certamente não se podia fazê-lo por um motivo tão egoísta como a própria carreira. Não se podia privar uma filha da presença do pai, e certamente não se poderia tirar uma garotinha do seu habitat natural para jogá-la num futuro incerto em Nova York. Uma noiva deveria ser virginal (não "desbotada" como minha eufemística mãe teria dito), e se seu marido fosse um ser doce mas inocente no que diz respeito ao prazer feminino, ela deveria agradecê-lo por tamanha gentileza. É claro que outras mulheres se extirparam dos trabalhos e das pessoas que amavam e sobreviveram mesmo assim. Mas a história que minha mãe me contou anos depois sempre simbolizou para mim as forças temerárias que confabularam contra ela. "Era o começo da primavera e nada abrira ainda. Não havia viva alma a um raio de vários quilômetros. Passamos o inverno no lago, de modo que eu ficava muito tempo sozinha enquanto seu pai saía de carro a negócios. Você era bebê, sua irmã estava na escola

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e não havia telefone. A última gota foi quando o rádio quebrou. De repente me pareceu que eu não falava com ninguém há séculos — ou ao menos ouvia o som de outra voz. "Eu te embrulhei toda, peguei o cachorro e fui caminhar pela Brooklyn Road. Pensei em andar uns seis a oito quilômetros até o armazém, para conversar e pedir que alguém me trouxesse de volta. Fritzie corria na frente na estrada vazia quando de súbito um carro surgiu do nada e veio descendo o morro a toda. Pegou Fritzie de frente e o jogou no acostamento. Eu berrei e gritei com o motorista mas ele não diminuiu. Ele nem olhou para trás. Ele nem ao menos virou a cabeça. "O pobre Fritzie estava todo quebrado e ensangüentado, mas ainda estava vivo. Eu o carreguei e me sentei no meio da estrada, com sua cabeça aninhada em meus braços. Eu ia fazer o carro seguinte parar e ajudar. "Mas nenhum carro passou. Fiquei ali sentada, horas, com você e com Fritzie no colo. Ele choramingava e olhava para mim pedindo ajuda. Já estava escuro quando ele finalmente morreu. Eu o arrastei até o acostamento e caminhei de volta para casa com você e lavei o sangue das roupas. "Não sei o que ocorreu naquele dia. Foi como um ponto de ruptura. Quando seu pai chegou em casa, eu disse: 'De agora em diante, vou com você. Não vou atrapalhá-lo. Ficarei quieta, no carro. Mas eu não vou agüentar ficar sozinha outra vez'." Acho que ela me contou essa história para me mostrar que tentara se salvar, ou talvez quisesse exorcizar uma lembrança dolorosa contandoa em voz alta. Mas, ao ouvi-la, pude entender o que a transformara na mulher da qual me lembro. Imagino uma figura solitária, sentada no carro, suando no verão, encasacada no inverno, esperando que meu pai saísse dos tantos antiquários, grata só de não estar sozinha. Como eu era pequena demais para ficar em casa, eu os acompanhava. Eu adorava ajudar meu pai a embrulhar e desembrulhar a porcelana e os pequenos objetos que ele comprava em leilões e depois vendia para os antiquários. Eu me sentia necessária e adulta. Mas às vezes passávamos horas nos antiquários, horas até voltarmos ao carro e para minha mãe, que estava sempre esperando, paciente e silenciosamente.

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No hospital e nos anos que se seguiram, quando Ruth me contou as histórias do seu passado, eu perguntava: "Mas por que você não foi embora? Por que não aceitou o emprego? Por que não se casou com o outro homem?" Ela sempre insistia que não importava, que ela tinha sorte de ter a mim e à minha irmã. Se eu a pressionasse um pouco mais, ela acrescentava: "Se eu tivesse ido embora, você jamais teria nascido". Eu ficava quieta, sem jamais dizer o que pensava: Por outro lado,
talvez você tivesse nascido.

Eu gostaria de lhes dizer que esta história tem um final feliz. O melhor que posso dizer é que o final é mais feliz que o começo. Depois de meses e meses no hospital de Baltimore, minha mãe passou dois anos sozinha, num pequeno apartamento. Eu estava na faculdade e minha irmã morava nas redondezas. Quando sentia que seus antigos temores voltavam a atormentá-la, ela mesma pedia para voltar para o hospital. Ela já tinha quase sessenta anos quando deixou o hospital e uma instituição de readaptação do doente à sociedade, administrada pelos quacres. Contrariando as expectativas dos médicos, de que ela passaria períodos cada vez menores fora do hospital, ela jamais voltou. Viveu mais vinte anos. Passou seis destes anos numa pensão na qual tinha privacidade e companhia, conforme quisesse. Mesmo depois de minha irmã ter se mudado com o marido para uma casa maior e ter transformado o porão num apartamento para minha mãe, ela continuou a ter uma vida independente e muitos amigos. Ela trabalhava meio-expediente como balconista numa loja de porcelana, viajava comigo uma vez por ano e chegou a ir à Europa com parentes. Participava de reuniões em clubes para mulheres, encontrou uma igreja multirracial que adorava e passou a freqüentá-la todos os domingos. Fez meditação e leu muitos e muitos livros. Ela ainda não conseguia assistir a filmes tristes, ficar sozinha com nenhum dos seus seis netos quando eram pequenos, viver sem tranqüilizantes ou falar daqueles tristes anos passados em Toledo. Os velhos medos ainda existiam em algum canto de sua mente e cada dia era uma nova luta, uma nova tentativa de mantê-los sob controle. O pessimismo dos médicos era proveniente da duração da doença de minha mãe. Na verdade, não conseguiam diagnosticar doença alguma além de "ansiedade neurótica": baixa auto-estima, medo da dependência, medo da solidão e uma constante preocupação com a

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falta de dinheiro. Ela também tinha crises do que é chamado hoje em dia de agorafobia. Trata-se de um mal que afeta principalmente mulheres dependentes. Consiste em medo de sair de casa e em incapacitantes crises de ansiedade em público e lugares estranhos. Uma vez perguntei a um dos médicos se ele diria que a alma dela se despedaçara. "Este é um diagnóstico tão bom como qualquer outro", ele respondeu. "E é difícil remendar algo que está despedaçado há vinte anos." Mas quando ela deixou o hospital definitivamente, vislumbres de uma outra mulher escapuliam de seu interior. Uma mulher que possuía um humor um tanto cretino, ousadia e uma verdadeira paixão pela sabedoria. Livros de matemática, de física, de misticismo ocupavam grande parte do seu tempo. ("A religião", dizia com convicção, "começa no laboratório.") Quando ela me visitava em Nova York, quando tinha entre sessenta e setenta anos, sempre dizia aos motoristas de táxi que tinha oitenta ("para eles dizerem que estou bem conservada"), e convenceu o bilheteiro de um teatro de que tinha problemas de audição muito antes de tê-los de verdade ("assim eles nos dão lugares na primeira fila"). Ela fazia amizade com facilidade, com a vulnerabilidade e o charme de uma pessoa que depende da aprovação dos outros. Após cada uma de suas visitas, os donos das lojas de diversos quarteirões diziam "Sua mãe? E claro que eu conheço sua mãe!" Ela reclamava que as pessoas de sua idade eram velhas e enfadonhas demais. Muitos de seus amigos eram bem mais jovens do que ela. Era como se ela tentasse recuperar os anos perdidos. Ela demonstrava um deleite tão exagerado a cada presente recebido que era irresistível presenteá-la. Eu adorava lhe mandar roupas, bijuterias, sabonetes exóticos e novos tarôs para a sua coleção. Ela adorava recebê-los, embora tanto ela quanto eu soubéssemos que iam acabar guardados em caixas de papelão. Ela se correspondia em alemão com nossos parentes europeus e escrevia cartas aos seus muitos amigos, sempre naquela caligrafia dolorosamente lenta e trêmula. Ela também adorava dar presentes. Apesar de sua eterna preocupação com as finanças, de guardar cada moedinha e de roubar pacotinhos de açúcar dos restaurantes para levar para casa, ela comprava e fazia presentes com todo o cuidado para os netos e para os amigos. Grande parte do preço pago por tanta saúde foi o esquecimento. À menor lembrança dos tempos de Toledo, ela mergulhava em de-

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pressão profunda. Houve tempos em que este fato me enchia de solidão. Apenas duas pessoas haviam vivido a minha infância. Agora, só uma de nós se lembrava. Nos anos que se seguiram, por mais que eu implorasse a jornalistas para não entrevistar nossos amigos e vizinhos em Toledo, para não publicar que ela fora hospitalizada, publicavam coisas que a faziam sofrer e que a levavam a ter outras crises. Por outro lado, era também filha de sua mãe e assim possuía uma certa dose de orgulho e de pretensão social. Algumas de suas objeções tinham menos a ver com depressão do que com orgulho ferido. Por fim, ela me perguntava, zangada: "Será que eles não podiam ao menos chamar nossa casa de 'traikr de veraneio?" O divórcio ainda lhe causava vergonha. Ela dizia, sorridente, ao amigos: "Não sei por que a Gloria vive dizendo que seu pai e eu nos divorciamos — isso jamais aconteceu". Ela devia justificar esta mentirinha para si mesma com o fato de ter passado por duas cerimônias de casamento, uma secreta e a outra pública. Assim, ela só se divorciara uma vez. Na verdade, eles se divorciaram definitivamente, e meu pai chegou a ser casado por algum tempo com outra mulher. Ela tinha orgulho de eu ser uma escritora publicada e compartilhávamos muitos pontos de vista. Depois de sua morte, encontrei um teste de moral entre mãe e filha que eu escrevera para uma revista. Naquela caligrafia inconfundivelmente trêmula, ela marcara suas próprias respostas, imaginara com precisão quais seriam as minhas respostas e os resultados concluíam que nossas diferenças eram menores do que as "normais para mulheres com uma diferença de vinte e tantos anos". Não obstante, ela era bem capaz de colocar um nome inventado numa etiqueta quando comparecia a alguma reunião do convencional clube de mulheres que freqüentava com medo do sobrenome causar controvérsia ou, pelo menos, perguntas. Quando eu finalmente tive coragem de dizer a ela, em 1972, que ia assinar uma declaração pública de mulheres que haviam feito aborto, pedindo a revogação das leis que o faziam ilegais e perigosos, sua resposta foi contundente e o intuito de machucar, claro. "Toda starlet diz que já fez aborto", ela disse. "É só uma forma de conseguir publicidade." Eu sabia que ela concordava que o aborto deveria ser uma escolha legal, mas eu também sabia que ela não me perdoaria por envergonhá-la em público. Na verdade, a capacidade de machucar com palavras aumentou muito nos seus últimos anos de vida, à medida que se tornava mais \

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dependente, mais concentrada em si mesma e mais propensa a precisar da atenção dos outros. Quando minha irmã tomou a corajosa decisão de estudar direito aos cinqüenta anos de idade, deixando minha mãe numa casa não só cheia de adolescentes carinhosos, mas também com uma acompanhante simpática paga por ela, minha mãe a levava, freqüentemente, às lágrimas. Ela dizia que aquele era um lar sem amor, sem comida caseira na geladeira, enfim, que era um lar sem família. Como o argumento de não haver comida caseira no fogão não me afetava em nada, ela arrumou uma forma criativa e diferente de me castigar. Disse que ia ligar para o New York Times e contar para eles o que o feminismo fazia: deixava mulheres velhas e doentes sozinhas. Um pouco desta amargura causada pela perda das faculdades físicas e mentais foi resolvida com a internação num asilo perto da casa de minha irmã, onde minha mãe não só recebia a assistência em tempo integral da qual seu corpo debilitado precisava, como também a atenção das carinhosas enfermeiras. Ela jogava todo o seu charme para cima delas e as enfermeiras ficavam encantadas com minha mãe. E ela ainda podia sair de vez em quando para comparecer ao casamento de algum membro da família. Se eu tinha alguma dúvida sobre o quanto devemos às enfermeiras, aqueles últimos meses as apagaram completamente. Ela morreu um pouco antes de fazer 82 anos, num quarto de hospital onde eu e minha irmã nos revezávamos. Tivemos algumas horas sozinhas, enquanto minha irmã dormia e aquele velho coração parava de bater, pouco a pouco. Minha mãe parecia perplexa de estar onde estava e com tubos que invadiam seu corpo, mas ficou lúcida tempo bastante para me dizer: "Eu quero ir para casa. Você me leva para casa, por favor." Mentindo para ela, pela última vez, eu disse que levaria. "Então está bem, querida", ela disse. "Eu confio em você." Estas foram as últimas palavras compreensíveis que ela pronunciou. As enfermeiras deixaram que eu e minha irmã permanecêssemos no quarto até muito tempo depois do último suspiro. Minha mãe nos pedira isto. Um de seus muitos medos fora produzido por uma história que ouvira na infância a respeito de um homem em estado de coma que fora dado como morto e assim enterrado vivo. Ela também deixara em testamento um pedido para que nenhuma medida extraordinária fosse tomada para mantê-la viva e que suas cinzas fossem jogadas sobre o mesmo córrego onde foram jogadas as do meu pai.

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O velório foi celebrado numa igreja episcopal que ela adorava por darem de comer aos pobres, por deixarem que os sem-teto dormissem em seus bancos e por ter sido processada pela hierarquia episcopal por ter uma mulher pastora. Mas, acima de tudo, ela amava o carinho com que a congregação a recebera, com que a buscavam em casa para levála aos sermões. Eu acho que ela teria gostado da informalidade, tão no estilo quacre, com a qual os freqüentadores da igreja se levantaram para contar como se lembravam dela. Sei que ela teria gostado de haver tantos amigos presentes. Foi para esta igreja que ela deixou parte do que restara da propriedade do Michigan, com a esperança de que fosse transformada em acampamento multirracial, uma tentativa de ficar quite com os vizinhos que esnobaram meu pai por ser judeu. Acho que ela também teria ficado contente com seu obituário. Enfatizamos sua breve carreira como uma das primeiras jornalistas mulheres e pedimos doações para os fundos para bolsistas de Oberlin a fim de que outros pudessem freqüentar a faculdade que ela tanto amara mas que tivera de deixar. Sei que vou passar muitos anos tentando compreender o que sua vida me deixou. Compreendo agora por que os idosos sempre me comoveram mais do que as crianças. O que me emociona são os talentos e as esperanças trancadas em corpos que começam a falhar. Esse contraste pungente me faz pensar em minha mãe, até mesmo quando estava com saúde. Sempre senti atração por histórias de mãe e filha, sozinhas no mundo. Assisti a Um Gosto de Mel diversas vezes, em versão teatral e cinematográfica, e jamais deixei de sentir tristeza. Vi Gypsy também, inúmeras vezes, e ia aos bastidores no final da apresentação. Vi o filme também. Eu mentia para mim mesma dizendo que estava aprendendo os passos de dança, mas na verdade meus olhos estavam cheios de lágrimas. Uma vez me apaixonei por um homem só porque nós dois fazíamos parte daquele grupo enorme e secreto de "filhos de mães loucas". Compartilhávamos as histórias da vergonha que sentíamos por viver em casas que ninguém podia freqüentar. Antes dele nascer, sua mãe fora presa por ser uma pacifista convicta. Em seguida, casou-se com o jovem e ambicioso advogado que a defendera, ficou em casa, criou seus muitos filhos e foi enlouquecendo aos poucos, num outro tipo de prisão. Eu me desapaixonei quando meu amigo quis que eu

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deixasse de fumar e parasse de falar palavrões e de trabalhar. A luta da mãe não lhe ensinara coisa alguma além da autocomiseração. Passei muitos anos obcecada pelo medo de acabar a vida numa casa igual àquela de Toledo. Hoje vivo obcecada pelas coisas que poderia ter feito pela minha mãe, ou pelas coisas que eu poderia ter-lhe dito. Ainda não entendo por que tantos e tantos anos se passaram até que eu enxergasse minha mãe como pessoa e antes de compreender que muitas das forças de sua vida são ciclos compartilhados por muitas mulheres. Como tantas outras filhas, eu não conseguia admitir que o que acontecera com minha mãe não era de forma alguma pessoal ou acidental. Assim, eu estaria admitindo que o mesmo poderia acontecer comigo. Pelo menos um mistério foi finalmente resolvido. Eu nunca compreendera por que minha mãe não recebera auxílio de Pauline, sua sogra, uma mulher que ela parecia amar mais do que à própria mãe. Minha avó paterna morreu quando eu tinha cinco anos de idade, antes que os piores problemas de minha mãe começassem, mas muito depois daquela primeira "crise nervosa". Eu sabia que Pauline fora sufragista, que se apresentara no Congresso, que fizera comício a favor do voto e que fora a primeira mulher eleita para o conselho de educação do estado de Ohio. Deve ter sido uma mulher corajosa e independente e no entanto eu não me lembro de minha mãe jamais ter dito que Pauline a encorajara ou a ajudara a ter vida própria. Finalmente me dei conta de que minha avó jamais mudara a política da própria vida. Era uma feminista que mantinha um lar ordeiro para o meu avô e para os quatro filhos antifeministas, uma vegetariana no meio de cinco homens carnívoros. Ela era tão convicta dos perigos do álcool que não usava extrato de baunilha, só baunilha em pasta, e mesmo assim servia carne e vinho para os homens da casa. Ela fazia de tudo para manter intactos a vida e o conforto daqueles cinco homens. Quando o voto foi conseguido, Pauline deixou suas atividades feministas de lado. Minha mãe admirava enormemente o fato de minha avó manter a casa em perfeito estado e de preparar as refeições da semana inteira de uma só vez. Quaisquer que fossem seus tormentos interiores Pauline era, aos olhos de minha mãe, uma mulher capaz de fazer "de tudo". "Aonde fores, eu irei", dizia minha mãe à amada sogra, citando a Ruth da Bíblia. No final, é capaz de minha avó ter sido apenas mais uma das culpas que minha mãe carregara.

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Como tantas sufragistas, minha avó parece ter sido feminista publicamente e isolacionista na vida privada. Isso, em si, deve ter sido heróico e o máximo que poderia ser esperado, mas o voto e o direito legal ao trabalho não eram o único auxílio de que minha mãe precisava. Assim, o mundo perdeu um ser único chamado Ruth. Embora ela quisesse ter morado em Nova York, embora quisesse ter podido viajar nela Europa, ela se tornou uma mulher que temia atravessar a cidade num ônibus. Embora ela tivesse dirigido o primeiro Stanley Steamer, casou-se com um homem que jamais permitiu que dirigisse. Só me resta imaginar o que ela poderia ter sido. Existem pistas, provenientes dos momentos de alegria e humor. Depois de passar tantos anos amedrontada, ela me acompanhou a Oberlin quando fiz uma palestra naquela faculdade. Ela se lembrava de toda a história da faculdade, do fato de ter sido a primeira a aceitar negros e a primeira a aceitar mulheres. Ela respondeu às perguntas dos alunos com a dignidade de uma professora, a precisão de uma jornalista e um charme único. Quando ela ainda podia fazer viagens a Washington e pesquisar em suas bibliotecas, tornou-se perita em genealogia, deleitando-se principalmente com os grandes moleques e os rebeldes da família. Havia uma história que ela contava com enorme satisfação. Uma vez, antes de eu nascer, ela preparou uma refeição enorme para os integrantes de alguma banda famosa, hospedada na estação de veraneio de meu pai. Como eles não tivessem raspado o prato, ela tirou uma espingarda da parede e a apontou para suas cabeças até comerem cada migalha de pão-de-ló com morangos. Só então ela contou que a arma não estava carregada. Embora sexo fosse um assunto que não gostasse de discutir, ela apreciava muito os homens sensuais. Quando um amigo meu veio me visitar e quis conversar sobre culinária, ela ficou furiosa. ("Ele entrou nessa cozinha para falar de ensopado!") Mas ela o perdoou quando saímos para nadar. Ela sussurrou: "As pernas dele são maravilhosas!" No seu aniversário de 75 anos, ela jogou softball com os netos na praia e sentiu imenso orgulho de ter arremessado bolas ao mar. Até mesmo no último ano de vida, quando minha irmã a levou Para conhecer a nova e luxuosíssima casa do vizinho, ela olhou as listras verticais de um quadro abstrato pendurado no corredor e disse, azeda: "O que é isso aí, o código de barras com o preço?"

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Ela se preocupava muito em ser aceita pela sociedade, mas nunca deixava de aceitar alguém por motivos superficiais. Pobreza, estilo ou falta de instrução não eram empecilhos para uma nova amizade. Embora ela vivesse numa sociedade de maioria branca e se preocupasse por eu namorar homens "da raça errada", da mesma forma que ela se casara com um homem "da religião errada", ela aceitava cada um como indivíduo. "Ele é muito escuro, é?", ela me perguntou, preocupada, a respeito de um amigo. Mas depois de ter conhecido esta pessoa "muito escura", ela disse: "Mas que rapaz gentil e simpático!" Embora meu pai fosse o lado judeu da família, foi minha mãe que me ensinou a ter orgulho das tradições do judaísmo. Foi ela que me encorajou a ouvir uma peça radiofônica a respeito dos campos de concentração, quando eu era pequena. "Você precisa saber que coisas como essa acontecem", ela disse. Mas ela sempre fazia esse tipo de coisa para ensinar, jamais para assustar. Foi ela que me apresentou aos livros, que me ensinou a respeitálos. Ela recitou para mim os poemas que sabia de cor e me incutiu a idéia de jamais criticar alguém sem antes "ter caminhado em seus sapatos". Foi ela que resolveu vender a casa de Toledo, o único lar que possuía, determinada a me ver começar a faculdade. Ela encorajou as duas filhas a sair de casa para ter os quatro anos de independência que lhe foram negados. Após a sua morte, eu e minha irmã encontramos o diário que escrevera na única viagem que fez à Europa. Ela falara muito pouco sobre a viagem por ter sempre detestado as pessoas que passavam horas falando de suas viagens e mostrando slides. Mesmo assim, ela escrevera um ensaio intitulado "Vovó vai à Europa". Depois de tantos anos, ela ainda se via como escritora. E, no entanto, jamais mostrou o diário a ninguém. Sinto saudades dela, mas talvez não tanto depois da morte quanto já sentia em vida. Morrer é menos triste do que se ter vivido tão pouco. Mas pelo menos vamos todas questionar os mistérios das Ruths de nossas famílias. Se a sua canção inspira tal coisa, eu serei a primeira a dizer que foi uma canção digna de ser cantada. — 1983

Palavras e Mudança

Pense só: quem era você antes desta onda de feminismo? A tentativa de lembrar o caminho de volta, através de antigas realidades, antigos quartos, antigas convicções é o primeiro passo em direção à mudança. Compartilhar tais medidas, da mesma forma que aprendemos a compartilhar problemas e soluções, é provavelmente a maneira menos tendenciosa de trazer à tona nossa história individual. Afinal, se pessoas com experiências diversas, com idades e histórias pessoais diferentes, começarem a enxergar desenhos parecidos nas mudanças que ocorrem em nossas vidas, e até mesmo nas palavras que passamos a usar, então devemos estar no caminho certo para um modelo histórico. Se escrevermos a respeito de nossas experiências como as sentimos, então a história talvez deixe de se limitar aos líderes nacionais ou às interpretações dos estudiosos ao tentarem provar uma dada teoria. Podemos começar a criar uma história da mulher e uma história do povo que é precisa e acessível. Palavras e frases novas são uma medida orgânica de mudança. Elas capturam transformações de percepção e, às vezes, da própria realidade. Hoje em dia usamos termos tais como "assédio sexual" e "mulheres espancadas". Há alguns anos, isso era apenas "a vida". Hoje em dia estamos nos transformando nos homens com os quais gostaríamos de nos casar. Há alguns anos as mulheres eram treinadas para se casarem com médicos, não a se tornarem médicas. Hoje em dia colocar as palavras "de mulheres" depois de "centro", de "jornal", de "rede" ou de "banda de rock" sinaliza uma escolha positiva. Antes o feminismo tinha uma conotação negativa. Hoje em dia fizemos a revolucionária descoberta de que nossos filhos têm pai e mãe. Antigamente o gentil Dr. Spock responsabilizava única e exclusivamente as mães pelo bem-estar da criança. Em 1972, do ponto de vista da NASA, a presença de uma mu-

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lher numa viagem espacial se daria por "diversão sexual", (durante) "viagens de longa duração tais como expedições a Marte". Hoje em dia, mulheres são simplesmente "astronautas". Há até bem pouco tempo uma mulher mais velha num campi universitário era vista com estranheza. Hoje em dia tantas mulheres voltaram às universidades para terminar a educação universitária que lhes foi negada, que a idade média de uma estudante de graduação é de 27 anos. Faculdades são um recurso da comunidade e há uma nova definição para a palavra "estudante". Até os anos setenta, a maioria das faculdades jamais ouvira falar em Estudos Feministas. Hoje em dia existem dezenas de milhares de cursos do gênero em mais de mil campus universitários. Há alguns anos subir na vida, para as mulheres, significava tornar-se médica e não enfermeira, ser chefe e não secretária: era um símbolo, não um movimento. Hoje em dia as enfermeiras fazem greve e as secretárias se organizam. Há uma revolução no chamado gueto do colarinho rosa e certos empregos deixaram de ter mais valor apenas por serem tipicamente destinados a homens. Arte, antigamente, era aquilo que um homem criava. Artesanato era algo feito por mulheres e por nativos. Recentemente descobrimos que são a mesma coisa, trazendo assim técnicas do artesanato para a arte e a arte para o dia-a-dia. Hoje políticos antiigualdade preocupam-se com "o voto feminino" ou "a distância entre os sexos". Até os anos oitenta, analistas políticos afirmavam que tal coisa não existia. Nos anos setenta os policiais protestavam por terem de trabalhar com mulheres. Hoje em dia a polícia feminina atua em todas as grandes cidades e a pâ\a.vta.polkeman transformou-se em "agente de polícia". Nos anos sessenta falava-se, nos Estados Unidos, de mulheres brancas que controlavam a economia ou de mulheres negras que formavam um matriarcado, dourando assim a amarga pílula da falta de poder com o mito do poder. Apenas duas décadas depois homens e mulheres concordam que a discriminação sexual existe e que é errada. Até os anos setenta, as mulheres precisavam escolher entre Miss, para senhorita, ou Mrs., para senhora, identificando-se assim pelo estado civil, coisa que os homens jamais fizeram. Hoje um terço das

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mulheres americanas apoia o uso do termo Ms. como alternativa, um paralelo exato a Mr. O termo é também apoiado por publicações do governo, por empresas e pela mídia. Nos tempos do pré-feminismo o estupro era o único crime pelo qual as vítimas também eram julgadas. Hoje em dia a lei mudou e provas são colhidas de maneira diferente, fazendo com que a violência sexual seja encarada e compreendida como o que é: um crime. Hoje lésbicas conseguem manter empregos e a custódia dos filhos e muitas foram eleitas e ocupam cargos públicos — tudo isso sem ter de se esconder ou mentir. Há uma década "lésbica" era uma palavra secreta e "mãe lésbica" um oximoro. Há alguns anos mulheres grávidas eram forçadas a deixar seus empregos em definitivo e o termo "licença paternidade" não existia. Hoje em dia a gravidez é apenas mais um motivo para se sair de licença e algumas companhias, assim como alguns sindicatos, oferecem um tipo de licença para os pais também. Muitas dessas novidades estão tornando a língua precisa. Por exemplo, substituiu-se congressman (deputado) por congresspeople (congressistas) OU HOMENS TRABALHANDO por PESSOAS TRABALHANDO — embora tais mudanças indiquem na realidade imensas diferenças de poder. Mas outros neologismos ainda serão necessários para produzir uma nova esperança. Antes da atual onda do feminismo ainda discutíamos "controle populacional", a resposta bem informada à "explosão populacional". Ambas eram frases negativas. A primeira indicava a necessidade de forças externas e a segunda sugeria uma procriação sem fim e completamente impessoal. Embora fosse esperado das feministas posicionaremse a favor do "controle populacional", uma das suposições subjacentes era a de que uma mulher não tinha capacidade de fazê-lo. Os homens liberais, especialistas em população, partiam do princípio de que as mulheres sentiam-se seguras ou completas apenas através da maternidade, e assim teriam um número absurdo de bebês se lhes fosse dado o poder de decidir (a não ser, é claro, que pudessem atingir um grau mais alto de instrução, tornando-se assim mais racionais, ou seja, mais parecidas com os homens). Por outro lado, homens extremamente religiosos ou conservadores — que com freqüência pareciam ter a intenção de aumentar seu contingente de fiéis — encaravam mulheres

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como criaturas potencialmente obcecadas por sexo: criaturas que evitariam a gravidez por completo, comportando-se de forma pecaminosa e assim colocando em risco o patriarcado e toda a civilização. Nos anos setenta, no entanto, o feminismo transformou a discussão ao popularizar o termo "liberdade reprodutiva" como frase e como direito de cada ser humano. Esta posição "guarda-chuva" inclui anticoncepcionais e abortos seguros, assim como a liberdade de recusar a esterilização forçada (de mulheres e de homens), e assistência médica decente durante gravidez e parto. Em outras palavras, "liberdade reprodutiva" fala do direito de cada um de ter ou não ter um filho. Embora seja obviamente um direito de maior importância para as mulheres do que para os homens, ele também os protege. Além do mais, ajudou a construir uma nova confiança, uma nova aliança entre mulheres de cor e mulheres brancas, neste país e no mundo, que haviam suposto, e com razão, que o "controle populacional" visava controlar alguns grupos mais do que outros. Para a grande surpresa dos experts populacionais mais liberais, a "liberdade reprodutiva" vem sendo exercida em qualquer lugar onde seja ao menos tolerada. Os periódicos sobre população passaram a publicar artigos que exprimiam uma certa perplexidade diante da queda nas taxas de natalidade em todo o mundo, até mesmo em partes do mundo onde o analfabetismo feminino ainda é tragicamente alto. Em 1979, durante uma conferência da ONU com mulheres provenientes das Europas Ocidental e Oriental, concluiu-se que as mulheres não limitavam o número de gestações apenas por motivos de saúde. Do ponto de vista estatístico, muitas estavam fazendo o que poder-se-ia chamar de "greve do bebê", provavelmente para evitar a dupla jornada: ou seja, ter de trabalhar dentro e fora da casa. Alguns países indicaram como solução que os homens compartilhassem a criação das crianças de forma a aliviar o fardo das mulheres. Governos mais autoritários simplesmente tentaram proibir anticoncepcionais e o aborto de forma a garantir mais nascimentos. No ano de 1979, especialistas do governo americano começaram a falar abertamente que a taxa de natalidade do país se tornara "pouco satisfatória". Alguns líderes de direita da facção antiaborto diziam, apavorados, que as diferenças culturais nas taxas de natalidade transformariam os Estados Unidos num país "não branco". A pergunta do futuro e clara: será que a liberdade reprodutiva fará com que a gestação e a

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criação de uma criança se torne uma função valiosa e compensadora, apoiada e auxiliada pela sociedade (como pregam as feministas)? Ou será que as mulheres serão forçadas a ter filhos, especialmente aquelas de raças "desejáveis" (como pregam os radicais de extrema direita)? É óbvio que a "liberdade reprodutiva" é apenas uma forma de expressar o que o feminismo vem prevendo há milhares de anos. Bruxas e ciganas lutavam pela liberdade da mulher ao lhes ensinar o uso de anticoncepcionais e do aborto. Foi esta sabedoria, principalmente, que as transformou num anátema aos olhos dos patriarcas do passado. Durante a onda mundial de feminismo do século XIX e do início do século XX, pregar o "controle de natalidade", até mesmo para mulheres casadas, era o bastante para colocar muitas feministas atrás das grades. Mas a contribuição moderna consiste em elevar a "liberdade reprodutiva" a direito humano universal, pelo menos tão básico quanto o direito de expressão ou o de reunião. Independentemente do estado civil, da necessidade racista de limitar-se ou de aumentar-se certas populações, ou das metas nacionalistas de ter-se mais ou menos soldados e operários, cada mulher tem o direito de decidir como haverá de usar o próprio corpo. Homens que desejam filhos devem, no mínimo, encontrar mulheres dispostas a tê-los. Isso parece ser uma reivindicação pelo menos razoável. E os governos que desejam taxas mais altas de crescimento populacional devem tomar medidas mais humanas, tais como a redução de taxas de mortalidade infantil, a melhoria da assistência médica oferecida à gestante, a divisão dos cuidados para com a criança através da criação de creches e da promoção da igualdade da responsabilidade do pai e da mãe, além de medidas que visem maior longevidade das populações. É óbvio que o poder de veto reprodutivo por parte das mulheres é exatamente o que os supremacistas do sexo masculino mais temem. E por isso que seus impulsos autoritaristas são tão claramente contrários a qualquer sexualidade que não for voltada para o nascimento dentro de uma família patriarcal (isto é, contrários ao sexo extraconjugal, ao homossexualismo e ao lesbianismo, assim como aos anticoncepcionais e ao aborto). Esta compreensão ajudou as feministas a enxergarem o porquê de adversários, com preocupações aparentemente tão díspares quanto anticoncepcionais e homossexualismo, serem quase sempre os mesmos. Ajudou-nos também a

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nos colocar, unidas, ao lado de qualquer sexualidade escolhida livremente como forma legítima da expressão humana. Nos últimos anos termos tais como "amante" (quer refira-se a alguém do mesmo sexo ou não), "preferência sexual" e "direitos dos homossexuais" passaram a ser amplamente usados. "Homofobia" foi um termo inventado para descrever o medo irracional da expressão sexual entre duas pessoas do mesmo sexo, um medo tão comum no passado que não precisava de nome. Houve também o desafio de expressões que se tornaram comuns devido à sua intensa repetição, tais como "lésbica que odeia homens". Conforme demonstrou Rita Mae Brown, não são as lésbicas que odeiam os homens e sim as mulheres que dependem deles e que estão, portanto, mais propensas a sentir mágoa e raiva deles. Nos anos sessenta, todo sexo praticado fora do casamento era chamado de Revolução Sexual, uma expressão não feminista que simplesmente queria dizer maior disponibilidade feminina, do ponto de vista masculino. Ao final dos anos setenta, o feminismo trouxe a compreensão de que liberação significava poder de escolha, de que a sexualidade, para homens e mulheres, não deveria ser forçada ou proibida. Com isso em mente, palavras como "virgem", "celibato", "autonomia", "fidelidade", e "compromisso" passaram a ter um significado positivo. Palavras condenáveis tais como "frígida" e "ninfomaníaca" estão sendo substituídas por palavras que omitam qualquer julgamento, tais como "pré-orgásmica" e "sexualmente ativa". De fato, do ponto de vista médico, "ninfomaníaca" é um termo inexistente, cujo intuito era condenar qualquer mulher que gostasse de sexo ou que fizesse cobranças sexuais. Pode ser que levemos algum tempo para entender os motivos pelos quais tantas mulheres começam a manter seu nome de batismo (em vez de chamá-lo de nome de solteira, com todas as implicações de um sistema de dois pesos e duas medidas sexuais para homens e mulheres). Algumas mulheres até mesmo trocaram os nomes "patriarcais" por nomes "matriarcais" ("Mary Ruthchild, filha de Ruth"), ou passaram a seguir a tradição de substituir os nomes dos antigos senhores escravagistas por nomes de lugares ou por letras (por exemplo "Judy Chicago" ou "Laura X"). Muitas tentaram resolver o dilema do nome dando o passo reformista de simplesmente acrescentar o sobrenome do marido ("Mary Smith Jones"). Mas tal opção

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continuou a evidenciar a desigualdade do casamento, a não ser que o marido também adotasse os dois nomes. São raros aqueles que conseguiram interromper o fluxo patriarcal do nome. Os filhos ainda recebem apenas o sobrenome do pai e o sobrenome da mãe como algo dispensável, no meio. Resta ao futuro encontrar uma maneira de legalizar uma forma igualitária, como alguns países europeus já fizeram, dando aos filhos o sobrenome do pai e da mãe como forma de indicar a verdadeira filiação (e de eliminar a necessidade de explicações constantes tais como "esta é minha filha do primeiro casamento" ou "este é meu filho do segundo"). Os filhos deveriam ter o direito de escolher o nome, quer fosse o dos pais ou um outro inteiramente novo, quando tivessem idade bastante para tirar a carteira de Seguridade Social ou de se registrar como eleitor. Afinal de contas, todos nós deveríamos ter o direito de escolher o próprio nome. O poder de nomear é um poder profundo. Como adjetivo, "pró-escolha" começou a substituir "pró-aborto", este último tendo sido um termo criado pela mídia para sugerir uma apologia ao aborto, em oposição a um apoio a uma escolha legal. Quando o intuito era apresentar a palavra "aborto" como uma escolha honrosa, havia frases como "aborto seguro e legal". E uma década que começou com a necessidade de provar que o freudiano "orgasmo vaginal" é algo neurologicamente inexistente, além de explicar o "orgasmo clitoriano" como algo literalmente verdadeiro, terminou de maneira mais justa com o "orgasmo" (sem a necessidade de adjetivos) sendo mais discutido e mais tido. O espírito feminista recuperou algumas palavras com desafio e humor. "Bruxa", "cadela", "sapatão" e outros epítetos antes considerados pejorativos começaram a figurar como valentes nomes de pequenos grupos feministas. Algumas artistas mulheres criaram o termo "arte da boceta" para suas novas imagens, como forma de celebrar a. descoberta de que nem todos os símbolos sexuais são fálicos. O humor encorajou a invenção de termos tais como jockocracy (jockocracia, de jock, coloquial para atleta) para descrever uma certa obsessão masculina por esportes e por vitórias. Há também o termo "perdidismo", um reconhecimento amargo do desconforto cultural feminino com algo tão pouco feminino como o sucesso. "Supermãe e Supermulher" são palavras que nos aliviaram profundamente por

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identificarem a Esposa e a Mãe Perfeitas, além da Profissional Perfeita, como meta humanamente impossível. Women's Lib ou Women's Libber foram termos que trivializavam a luta das feministas. (Alguém usaria o termo "Libber Algeriano"? ou "Negros Lib"?) Seu uso diminuiu, mas ainda não desapareceu. A natureza do trabalho é uma das principais áreas da nova compreensão, a começar pela própria palavra. Antes do feminismo, "trabalho" era amplamente definido como aquilo que um homem fazia ou viria a fazer. Portanto "a mulher trabalhadora" era alguém que trabalhava fora do lar por dinheiro, de forma masculina. Embora ainda seja assustadoramente comum, o termo está sendo combatido, principalmente pelas donas de casa, que trabalham mais do que qualquer classe de trabalhadores e mesmo assim são consideradas pessoas que "não trabalham". As feministas costumam falar em "trabalho realizado dentro do lar" ou "fora do lar", de trabalhadores "remunerados" e "não remunerados". A atribuição de um valor financeiro ao trabalho realizado dentro do lar muito faria para transformar o casamento numa aliança igualitária, terminando assim a escravidão semântica inerente à expressão "mulheres que não trabalham". Começaria também a desembaraçar o problema do "papel duplo", exercido por milhares de mulheres que trabalham dentro e fora do lar. A definição da manutenção humana e dos cuidados com o lar como trabalho esclarece que os homens podem e devem realizar tais atividades tanto quanto as mulheres. "Salários iguais por trabalhos iguais", um conceito introduzido nos anos sessenta, não chegou a ajudar as mulheres nos empregos onde elas predominam e nas ocupações não sindicalizadas do "gueto do colarinho rosa", outro termo novo. Os colarinhos azuis, predominantemente homens, em geral ganham muito mais do que qualquer mulher no desempenho de uma atividade tipicamente feminina. O que foi que "salários iguais" conquistou, por exemplo, para uma enfermeira que recebia o mesmo salário, baixíssimo, que a colega que trabalhava ao seu lado? "Salários iguais por atividades análogas" tornou-se a nova meta. Estudos comparativos vêm demonstrando que as atividades exercidas em grande parte por homens exigem menos instrução e um menor número de habilidades específicas do que as atividades exercidas principalmente por mulheres, com remuneração bem mais baixa.

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Muitas idéias vêm sendo transformadas por meio do acréscimo de um adjetivo crucial: women's — significando da mulher, de mulheres, feminino, feminista. Banco de mulheres, música de mulheres, estudos feministas, comitê eleitoral de mulheres. Isso sugere um conteúdo novo e variado: assistência ao menor, jornada de trabalho flexível, novas linhas de crédito, novos simbolismos, novas letras de música. Esses grupos fizeram experiências com novas estruturas. Quer tenha sido devido à crença da hierarquia estar fundamentada no patriarcado ou devido a um desconforto inconsciente para com a autoridade, grupos de mulheres freqüentemente transformam organizações verticais em estruturas laterais. É mais provável ouvir-se coletivo, comunitário, grupo de apoio, grupo de constituintes e troca de habilidades do que quadro funcional, credenciais ou frentes de comando. Embora estas novas formas sejam condenadas por serem pouco práticas, sua habilidade de tornar um indivíduo mais produtivo — aliada à atual crise de produtividade das formas tradicionais e hierárquicas da indústria—fizeram com que alguns consultores da área de gerenciamento começassem a encarálas como novas possibilidades. Resumindo, contar a verdade e criar instituições alternativas começou a delinear e a dar valor à cultura feminina, um grupo de perspectivas que diferem do tradicional e do masculino não em virtude da biologia, mas do condicionamento sexual. Nós temos muito o que aprender, assim como os homens. Juntos, podemos criar uma cultura que combine os traços mais úteis e mais criativos de cada uma. Poder começa a ser redefinido. As mulheres explicam, com enorme cuidado, que queremos controle sobre nossas vidas e não controle sobre os outros. A linguagem também vem sendo usada para colocar o fardo de volta aos ombros certos. Pensão alimentícia é, às vezes, chamada de salário atrasado ou indenização. Se até mesmo o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos calcula o valor de reposição salarial de uma dona de casa em dezoito mil dólares anuais, por que não haveria uma esposa de ter o direito de receber salários atrasados? Da mesma forma, feministas deixaram de implorar junto às corporações e grupos profissionais que fizessem contribuições e começaram a pedir indenizações por danos causados a mulheres. Estudos Feministas, Black Studies — Estudos da Raça Negra —, Estudos dos Nativos Americanos e outros eram referidos como estudos reparadores, de forma a

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colocar a culpa em seu devido lugar e demonstrar que tais cursos terão de ser integrados aos currículos básicos e à história da humanidade. A autodescrição do autoritário retrocesso antiigualdade como pró-família fez com que muitas femininas passassem a ter o cuidado de usar o plural famílias para demonstrar que há formas diferenciadas de família. A unidade patriarcal aceita pela direita (o pai ganha o pão e a mulher fica em casa com as crianças) exclui aproximadamente, 85 % dos lares americanos. Compreender o que a direita quer dizer com "família" nos ajuda a compreender por que, do ponto de vista deles, todas as garantias dos direitos individuais femininos e infantis seriam antifamília, da Emenda de Igualdade de Direitos às leis contra abusos cometidos com menores. E claro que a grande importância da palavra é o seu poder de exclusão. O homem e a família do homem fizeram com que as mulheres se sentissem excluídas. Gente e humanidade são termos mais inclusivos, assim como releituras do tipo "Paz na Terra para o Povo de Boa Vontade". As feministas tentam educar, pedindo aos homens que se imaginem recebendo diplomas com títulos tais como Solteirona de Artes ou Senhora em Ciências para, em seguida, dar um duro tremendo por uma irmandade. Será que eles não se sentiriam nem um pouquinho excluídos? As minorias raciais, tanto homens quanto mulheres, já foram descritas no negativo como sendo "não brancos" (será que nos referiríamos aos brancos como "não negros"?), e de qualquer forma aqueles que são considerados minorias, neste país, são na verdade a maioria em todo o mundo. De forma a serem mais exatas e mais inclusivas, culturalmente falando, as feministas adotam a descrição "gente de cor". Durante um certo tempo foi empregado Quarto Mundo para descrever o que havia em comum entre "todas" as mulheres da sociedade patriarcal, independentemente de raça, mas o termo foi apropriado para designar as nações mais pobres, menos industrializadas, que não eram incluídas entre as nações "em desenvolvimento" ou no "Terceiro Mundo". Dando continuidade a esta referência, as mulheres hoje, muitas vezes, se incluem no "Quinto Mundo" — por sermos a metade da população mundial usada como mão-de-obra barata, que tem o menor acesso possível ao capital e à tecnologia onde quer que estejamos. Como forma de superarmos as barreiras, as feministas tentaram ser sensíveis aos nossos próprios hábitos divisórios: por exemplo, o

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hábito racista de usar imagens de escuridão ou de negritude como negativas ("o lado negro do ser humano", "um coração negro", "blackmail, em inglês, que significa chantagem) e a brancura como sendo positiva ("uma mentirinha branca", "magia branca"). Se um grupo precisa de adjetivos (um poeta asiático-americano), então todos devem precisar (um professor euro-americano). Da mesma forma, qualificado parece ser usado apenas para designar grupos excluídos, como se os homens brancos já fossem mãode-obra qualificada ao nascerem. Eles são considerados seres maduros e bons profissionais (o trabalhador, o médico, o poeta), enquanto nós, o resto, precisamos de um indicador que via de regra até nos des-qualifica (trabalhadora mulher, médico negro, poeta mulher). As grandes dificuldades em tornar a língua mais precisa muitas vezes incluem a invenção de alternativas tais como chairperson, em vez de chairman, ou spokesperson, em vez de spokesman — respectivamente, presidente e porta-voz. Torna-se claro que apenas as organizações destinadas exclusivamente a um dos sexos terão cargos denominados chairwoman ou chairman. Uma organização integrada exige que suas posições possam ser galgadas por qualquer um de seus membros, por isso o uso de chairperson, ou melhor ainda simplesmente chair. Mas dado o desequilíbrio de poder, esses termos que independem de gênero às vezes são usados para neutralizar as mulheres e deixar os homens como o status quo. Assim, uma porta-voz, em inglês, poderá ser chamada de spokesperson, enquanto um portavoz homem continuará a ser um spokesman. As mulheres podem até ter se tornado pessoas, entretanto os homens continuam a ser men. Nós mulheres em alguns casos contribuímos para nossa própria exclusão ao tentarmos saltar para as palavras livres de gênero cedo demais. Humanismo foi uma tentação em particular (como na frase: "Não sinta-se ameaçado, as mulheres estão na verdade falando de humanismo"). Androginia também gerava a esperança de que culturas femininas e masculinas poderiam se integrar perfeitamente mas, como o lado feminino da equação ainda precisa se fortalecer, "androginia" ainda tende a se referir ao masculino. Como conceito, também exacerba os níveis de ansiedade ao invocar uma visão unissex ou dessexuada, o oposto exato da individualidade e da liberdade que o feminismo tem em mente. Na vida ou na língua, a integração sem a igualdade de poderes

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significa o retorno às nossas posições originais na hierarquia. Uma vez que isto for aprendido, estaremos menos propensas a deixar que o medo de conflito nos force a uma pretensa unidade como mankind — não no sentido de humanidade, e sim no sentido de gênero masculino — ou mesmo a uma falsa unidade com o gênero feminino. Esta lição ajuda a esclarecer a necessidade de conscientização através da linguagem específica. "Os árbitros serão escolhidos por mérito", por exemplo, é uma frase perfeitamente aceitável. O único problema é que estamos tão acostumados a visualizar árbitros homens que uma frase na qual o gênero está ausente talvez não faça nada para treinar nossa consciência. Talvez precisemos passar algum tempo usando frases como "um árbitro será escolhido pelos méritos dela ou dele" para nos forçar a reconhecer a existência de juízas, assim como talvez precisemos mencionar raças de forma a tornar a diversidade visível. Outra confusão simbólica foi a invenção do termo porco chauvinista, um híbrido produzido por meio da combinação do feminismo com a retórica esquerdista, o que em si já é antifeminista. Neste caso, o intuito é reduzir o oponente a algo abaixo de humano, como primeiro passo na tentativa de justificar a violência contra as mulheres. (Depois de anos sendo tratadas como gatinha, cadela e vaca, é compreensível que tenhamos querido virar a mesa, mas isto deveria ter nos ensinado o quão desumano é este tipo de tratamento.) Os policiais foram chamados de pigs (porcos), nos anos sessenta — como na frase "Fora, porcos!" —, assim, todos os homens preconceituosos se fundiram em um durante algum tempo; um período felizmente já passado. Na realidade o termo porco chauvinista, em si, já é um problema. Como chauvinista se referisse a um superpatriota, tudo o que dizíamos era que tal homem era obcecado pela lealdade a seu país. Em vez deste termo, muitas feministas passaram a empregar male supremacist, ou seja, aquele que prega a supremacia masculina, uma descrição mais exata para o problema em questão. Alguns destes pregadores da hegemonia masculina se aproveitaram do erro inicial e passaram a usar gravatas e broches com os dizeres "Eu sou um porco chauvinista". Esta é claramente uma indicação da falta de seriedade com que o feminismo é tratado. Muito poucos homens declarariam com igual entusiasmo "Eu sou anti-semita" ou "Eu sou racista".

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Mulheres espancadas é uma expressão que denomina um importante tipo de violência ocultado por tanto tempo. Ela nos ajudou a encarar o fato de que, segundo as estatísticas, o local mais perigoso para uma mulher é a sua própria casa e não as ruas. Assédio sexual no local de trabalho também expunha uma forma de intimidação à qual um terço de todas as mulheres que trabalham são submetidas. O ato de nomear permitiu que as mulheres se expusessem e que recursos jurídicos fossem criados. Ao identificarmos a pornografia (literalmente "escrever a respeito da escravidão feminina") como a pregação do ódio pelas mulheres e, portanto, muito diferente de erotismo, que contém uma conotação de amor e de reciprocidade, deu-se também início à compreensão de que a pornografia é uma das principais formas pelas quais a violência e a dominação são ensinadas e aceitas. Isto faz com que ela seja tão socialmente danosa quanto a literatura nazista para os judeus ou a literatura da Ku Klux Klan para os negros. Até mesmo a escravidão sexual feminina (anteriormente conhecida pelo termo racista, do século XIX, escravidão branca por ser a única forma de escravidão à qual brancas também eram sujeitadas) foi exposta por esta onda do feminismo. Sabemos, hoje, que ela prospera em muitas cidades onde a prostituição e a pornografia são negócios rentáveis e fatos da vida internacional. Como resposta a tais conscientizações de injustiça, não é à toa que radicalismo tenha perdido um pouco de sua equiparação com o excessivo e o pouco razoável. Ao expormos as injustiças do sistema de castas sexuais e de seu papel como raiz de outras injustiças naturais baseadas em raça e classe social, o feminismo radical construiu as bases para uma plataforma comum entre mulheres de origens diferenciadas. Ao desafiar esta estrutura masculino-feminina, dominante-passiva por ser a principal causa e justificativa para a violência, também foi provado que o radicalismo pode tomar outras formas que não a violência, mas que ele é necessário como a única maneira de desafiar as origens da própria violência. Estas novas ligações feministas entre mulheres ainda são tênues. O feminismo era internacional — e portanto antinacional — durante sua última arrancada maciça no século XIX e princípio do século XX. (Se chamamos esta de a primeira onda do feminismo, é apenas porque vivemos num país tão jovem. A revolução feminista vem sendo uma recorrência contagiante e progressiva na história há mi-

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lhares de anos.) A última onda conquistou para muitas mulheres do mundo a identidade jurídica como seres humanos e não como propriedades de outrem. Agora procuramos completar este passo por todas as mulheres, e também conquistar a igualdade jurídica. Mas ainda haverá muitas outras ondas feministas até que a cultura da hegemonia masculina se desmantele. Nesta onda, as palavras e a consciência abriram o caminho para que a realidade possa segui-las. Ao medirmos a distância entre o novo e o velho, evocamos uma parte única da história existente dentro de cada uma de nós. — 1979 e 1982

PÓS-ESCRITO Doze anos depois, muitos leitores já não podem mais responder à pergunta: "Quem era você antes desta onda de feminismo?" Eles simplesmente já nasceram com algum grau de consciência feminista, e assim possuem melhores expectativas e não sofrem mais de um problema cultural feminino conhecido como gratidão terminal, duas condições necessárias para o longo caminho a ser trilhado. Por exemplo: Sim, muitas mulheres estão se tornando os homens com os quais gostariam de ter se casado, mas poucos homens estão se tornando as mulheres com as quais gostariam de se casar. Isto deixa as mulheres com dois trabalhos: um fora do lar e o outro dentro do lar, um problema que as mulheres pobres sempre tiveram, mas que agora começa a ser compartilhado pelas mulheres da classe média — o que deve significar que, juntas, conseguiremos resolvê-lo. A um nível mais profundo, muitas de nós criamos nossas filhas de uma maneira mais parecida com a criação de nossos filhos. Até que os homens sejam socializados para criar filhos e para cuidar do lar, tanto quanto as mulheres, este fardo duplo continuará a limitar as mulheres, a privar as crianças do carinho paterno e a perpetuar os papéis sexuais. Em muitas áreas há hoje um maior reconhecimento das formas que polarizavam — tais como escolhas bipolares do tipo isto ou aqui-

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lo —, que moldavam ou dividiam a natureza humana em "feminina" e "masculina" que começam a desaparecer ou a se fundir em "e", a representar a ausência da hierarquia e um paradigma completo e inclusivo. Nas ciências, a nova física e a teoria do caos dinamitaram as antigas suposições lineares, mecânicas e hierárquicas. Nos ajudaram a pensar em relações e não em classificações. Cientistas feministas nos oferecem a dependência de campo: a compreensão de que nada pode ser estudado fora de contexto. No campo da sexualidade, a suposição de que uma pessoa precisa ser homossexual ou heterossexual começa a se desprender o suficiente para incluir tanto a tradição milenar do bissexualismo quanto um novo grupo de indivíduos que se considera transgênero, para ultrapassar o que um dia pareceu ser um limite imutável. Muitos grupos integrantes do movimento de gays e lésbicas já acrescentaram estas duas palavras às suas descrições. Muitos casais hoje tendem a se referir ao outro como parceiro ou. parceiro de vida, um relacionamento que vai além da conotação limitada de amante. Homofóbico juntou-se a heterossexista, forma de descrever uma pessoa ou uma instituição que coloca a heterossexualidade no centro, ou que pressupõe que todas as outras sexualidades são periféricas ou inexistentes. Ao mesmo tempo, preferência sexual é freqüentemente substituída por identidade sexual, uma forma de incluir tanto aqueles que nasceram com uma sexualidade específica quanto aqueles que acham tê-la escolhido. Até mesmo a heterossexualidade começa a mudar a sua linguagem, com casais casados preferindo o termo parceiro, em vez de marido e mulher, tão carregados de conotações culturais. Outros tentam substituir os termos dominantes/passivos da sexualidade sugerindo termos como envolvimento no lugar de penetração ou, pelo menos, abandonando antigas gírias que sugeriam que o sexo tem a ver com conquista. Estamos também examinando a forma com que a linguagem permitia que a vítima fosse identificada, e não o algoz. Além de falar de quantas mulheres foram estupradas, por exemplo, começamos a falar em quantos homens estupram. Em vez de falarmos do porquê das mulheres não abandonarem ou não conseguirem abandonar situações violen tes, começamos a nos perguntar por que os homens são violentos. O próprio termo violência doméstica começou a parecer trivial e inadequado, como se esta fosse uma violência menor. Como a violência den-

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tro de um lar é na verdade o laboratório e a origem de grande parte da violência, quer esta se refira ao comportamento criminoso ou às diversas suposições da política externa, violência original tornou-se uma alternativa. Nestes doze anos, os crimes motivados pelo ódio finalmente começaram a incluir crimes cometidos contra mulheres, assim como aqueles cometidos contra uma dada raça, religião, grupo étnico ou sexualidade. Todas estas outras categorias eram levadas mais a sério, no passado, por incluírem homens entre suas vítimas. Terrorismo passou a denominar também os bombardeios às clínicas de aborto e não apenas atos tidos como políticos segundo a definição masculina. Acadêmicas feministas trouxeram para o feminismo um grupo de palavras imitativas mas talvez necessárias. Desconstrução é o ato de divorciar algo de seu contexto original. Expressões como a força motriz feminina são substituídas simplesmente por poder problematizar surge no lugar de apenas falarmos de problemas e de suas raízes; e até mesmo práxis feminista onde prática feminista bastaria. A linguagem acadêmica, assim como a linguagem em geral, muitas vezes ofusca, distancia e retira a introvisão e a informação do alcance dos leitores mais necessitados. Mas talvez isto tudo seja preciso para conseguirmos galgar posições e sermos levadas a sério nos meios acadêmicos. Por outro lado, o termo "politicamente correto", cunhado como forma autocrítica e humorística de descrever os esforços de um movimento em ser inclusivo, tornou-se sério à medida que os grupos que apóiam a exclusão o transformaram em acusação. Se alguém duvidava da importância da linguagem, tais dúvidas foram afastadas pela direita, que insiste em usar termos como mãe não-casada e filhos ilegítimos em vez de mãe solteira e filhos. Como representante da única religião do mundo a ter status permanente de observador nas Nações Unidas, o Vaticano decidiu se opor às frases direitos reprodutivos e saúde reprodutiva e até mesmo ao uso da palavra gênero em documentos da ONU. Torna-se claro, assim, que a decisão de quais palavras usar decide quais sonhos podemos sonhar. Pense nas mudanças já feitas ou nas mudanças que ainda estão por vir na sua própria linguagem. Elas são uma boa indicação de onde estamos e onde ainda precisamos chegar. — 1995

Celebrando o Corpo Feminino

Quanto tempo faz desde a última vez que você passou alguns dias na companhia de outras mulheres: tirando e botando a roupa, tomando banho, descansando — aquela união confortável que parece bem mais comum aos vestiários masculinos? Para mim, o mais perto que cheguei de uma experiência como esta foi na aula de ginástica no científico. Mas isso foi durante os repressivos anos cinqüenta, quando até mesmo as mais ousadas se escondiam por trás de toalhas. Outras de nós sentiam-se tão inseguras em relação às mudanças de nossos corpos adolescentes (ou à falta de mudança) que tomavam banho de calcinha—ou então agüentavam o desconforto das roupas de ginástica úmidas debaixo da roupa só para não terem de se despir. Acho que já devíamos ser mais adultas e mais abertas quando chegamos à faculdade. Não obstante, para as mulheres o esporte, além de pouco feminino, tornou-se uma coisa antiintelectual. Estas eram duas excelentes desculpas para evitar a maioria das situações de nudez casual entre mulheres. E assim continuávamos a esconder os corpos imperfeitos em que no fundo, acreditávamos, estava todo o nosso valor. E foi bem tarde que vim a ter uma experiência básica, humana e reconfortante que deveria ter sido comum durante toda a minha vida. Graças a alguns dias passados num spa antiquado, na companhia de umas noventa mulheres, descobri uma consciência simples e visceral, tão crucial quanto a do tipo verbal. Assim como muitas das experiências básicas que uma mulher é encorajada a não ter, esta trouxe força (através da auto-aceitação) e raiva (por que não aprendi isso antes?). É um truísmo dizer, por exemplo, que pouca roupa causa mais impacto do que nenhuma. Mas no caso específico das mulheres sutiãs, calcinhas, biquínis e outros tipos de roupas são lembretes visuais de uma imagem feminina idealizada e comercial à qual nossos cor-

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pos reais e tão variados jamais conseguiriam se adequar. Sem essas referências visuais, o corpo de cada mulher pode ser aceito como é. Deixamos de nos comparar. Começamos a nos aceitar como únicas. Ninguém comentava tais eventos, é claro. Eles simplesmente aconteciam. Quanto mais horas e dias passávamos juntas, transitando entre vestiário e aula de ginástica ou piscina e sauna, menos lançávamos mão dos pedacinhos de seda ou do elástico dos modelos variados de nossas roupas de baixo. A nudez era aceitável. As malhas de ginástica também. Cobriam o corpo confortavelmente ao invés de cortá-lo em tiras horizontais. Mas aos poucos biquínis minúsculos, anáguas avantajadas, cintas e outra parafernália começaram a desaparecer de nossos corpos e de nossos armários como a roupa de combate de uma guerra que não precisávamos mais lutar. — Eu sempre gostei de lingerie chique — disse uma mulher. — Mas estou começando a me sentir esquisita nelas. — Mas é por isso que meu marido gosta de ligas pretas — disse uma mulher saída dos quadros de Rubens. —Justamente porque fica esquisito. — Vocês já ouviram a história de Judy Holliday? — perguntou uma mulher enquanto despia a malha suada. — Ela foi fazer um teste para um filme e o chefe do estúdio começou a correr atrás dela, em volta da escrivaninha. Então ela simplesmente enfiou a mão dentro do vestido, arrancou o enchimento e disse: "Tome, acho que é isso que o senhor está querendo". — Meu Deus — disse uma mulher de seios enormes que, pelos padrões da revista Playboy, deveria se sentir muito satisfeita. — Se eu ao menos pudesse fazer isso! Aos poucos as cicatrizes de operação de apêndice, as estrias, as cicatrizes de cesariana e coisas do gênero iam causando menos vergonha. Embora eu sempre tivesse me ressentido do sistema de dois pesos e duas medidas antropológico no qual as cicatrizes masculinas são marcas de coragem e experiência, mas as das mulheres são feias, começo a me dar conta de que eu mesma vinha encarando estas feridas com olhos masculinos. Cicatrizes de duelos, cicatrizes de guerra, cicatrizes de violência, cicatrizes tribais de iniciações dolorosas. Estas imagens são, em parte, o motivo pelo qual eu supunha que tais marcas são provas de violência nos homens assim como nas mulheres.

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Mas muitas cicatrizes femininas possuem um contexto diferente, e assim uma força emocional própria. Estrias, cicatrizes de cesarianas são muito diferentes das cicatrizes deixadas por acidentes, por guerras e por brigas. Elas evocam coragem sem violência, e mesmo assim é mais provável que provoquem vergonha em quem as tem do que vontade de se vangloriar. Isto dá a elas uma força comovente, nem doce nem amarga. E como caminhar por um cômodo no qual algo de muito emocionante ocorreu. Há outras cicatrizes cirúrgicas que me assustavam também, embora não fossem tão plenas de significado como as de parto. Quantas mulheres sobrevivem até mesmo ao preço físico da pele esticada além de seus limites? Após uma cesariana, de onde é que as mulheres tiram a coragem para tentar mais uma ou até várias outras? É verdade que existem sociedades tribais que tratam as mulheres que dão à luz como guerreiros honorários. Mas isso é honrar demais a guerra. Dar à luz é mais digno de admiração do que conquistar alguma coisa, é mais extraordinário do que a autodefesa e exige mais coragem do que ambos. E mesmo assim uma das feministas mais fortes e mais gentis que eu conheço ainda se esconde por trás de um maiô para ocultar as cicatrizes das duas cesarianas que fez. E uma das feministas mais hipócritas que eu conheço (isso, uma dessas que amam o feminismo mas que odeiam as mulheres) fez plástica para remover a minúscula cicatriz que fazia de seu rosto um rosto marcante. Talvez só consigamos nos sentir à vontade com nós mesmas quando conseguirmos encarar nossas cicatrizes como marcas de experiência. Muitas vezes, são marcas de experiências compartilhadas por outras mulheres, assim passaremos a enxergar nossos corpos como capítulos únicos de uma história compartilhada. Para tanto, precisamos estar juntas sem constrangimentos. Precisamos da visão constante de realidades diversas para gastar a imagem plástica, perfeita e estereotipada com a qual fomos ensinadas a nos comparar. A meta impossível do "como devemos ser" age como um disco quebrado em nossas mentes. Serão necessárias muitas imagens de uma nova intimidade para deixar-nos surdas aos seus apelos de uma só vez. Então, de um começo tardio, eu celebro diversas mulheres.

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• Uma alegre setentona de cabelos grisalhos, curtos e cacheados, presos para trás com uma fita laranja, vestia uma malha acetinada verde que envolvia seu abdome avantajado como uma segunda pele. Com ela, eu aprendo a beleza de um ventre que não é liso. Com ela, eu também aprendo que uma bisavó pode tocar os pés com mais flexibilidade do que eu e ainda me deixa sem fôlego numa aula de aeróbica. • Uma massagista, pequenina e sólida, de mãos fortes, que sonha em comprar uma mesa para massagens portátil para poder montar um negócio próprio. "A avó do meu namorado sofre muito com artrite, mas eu massageio suas mãos todos os dias para que não doam", ela me explicou. Ela também tem clientes insones que ela massageia até induzir um sono livre de drogas e clientes com dolorosos nós de tensão que ela relaxa com pressão direta. Concordamos que, se todo mundo fosse bem massageado uma vez por dia, haveria menos guerras no mundo. Com ela, eu aprendo que pode haver uma satisfação de irmã e não subserviência em servir aos corpos de outras mulheres. • Duas amigas que não falam coisa alguma além de espanhol. Sua chegada causa um certo mal-estar entre as mulheres do vestiário. Com elas logo aprendemos que a linguagem do corpo e dos gestos é universal. • Uma mulher com as formas perfeitas de um ovo que se senta ereta e serenamente, nua, todos os dias, ao sol. Com ela eu aprendo, sem sombra de dúvida, que a única coisa que torna a imagem do Buda crível são as curvas dos seios e do ventre de uma mulher. • Uma jovem alta, elegante e linda cujas pernas parecem dependuradas do tronco, tal qual um espantalho, saltita na aula de dança. Mulheres mais velhas e mais gordinhas movimentam-se com uma graça muito maior e, Deus é testemunha, com muito mais ritmo. Com ela eu aprendo que a beleza está impressa na pele, mas o ritmo está impresso na carne.

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• A atendente do vestiário, uma senhora de seus cinqüenta anos e menos de um metro e meio de altura, corre oito quilômetros todos os dias. Ela explica: "Meu marido corria comigo mas parou. O vento frio congelava no pulmão dele." Temos discutido a necessidade desse spa em oferecer algo como judô ou qualquer outro tipo de aula de autodefesa. Ela concorda. Por quê? Porque foi atacada no estacionamento por um homem de um metro e oitenta que carregava um tijolo na mão. Mesmo assim ela o espantou com táticas de autodefesa que incluíram um belíssimo golpe na virilha. Com ela, eu aprendo que uma mulher pequena pode fazer com um homem o mesmo que uma bala num pote de gelatina. • Uma seriíssima diretora de atividades físicas tenta convencer as clientes mais tradicionais de que um corpo em forma vai além da balança e da fita métrica. Como a gerência do spa ainda está convencida de que os homens se internam em busca de forma e saúde e que as mulheres vão em busca de beleza e paparicação, ela sente imenso alívio quando eu reclamo do fato de que os homens fazem testes cardiovasculares e de flexibilidade muscular enquanto as mulheres precisam requerê-los e pagar uma taxa extra. Juntas aprendemos o valor ativista da pressão interna e externa em qualquer que seja o sistema. • Uma mãe alta e tranqüila, de cabelos escuros, e sua filha, alta e tranqüila, de cabelos escuros, que conversam a respeito do trabalho que ambas realizam como assistentes sociais. Em grande parte elas parecem ser companheiras em sua necessidade de falar. O corpo de uma mulher deu à luz uma amiga. • Uma advogada criminal de personalidade forte e pensamento rápido quer saber como utilizar seus conhecimentos legais para ajudar outras mulheres. Em sua nudez, ela relaxa o bastante para nos brindar com o seguinte epigrama: "A maioria dos homens quer que a esposa tenha um trabalheco." • Uma seriíssima consultora de beleza fazendo limpeza de pele enquanto discursa sobre cirurgia plástica. "Eu já vi todos os

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tipos possíveis de cicatrizes: implantes nos seios, retirada de papadas, plástica facial, retoques nas pálpebras. Uma mulher que veio para cá fez uma operação de pálpebras tão ruim que não consegue mais fechar os olhos." Eu espero ouvir algum tipo de ressentimento em relação às mulheres que têm pouca coisa a fazer além de passar o rosto em revista. Ledo engano o meu. "Coitadinhas", ela diz, continuando, cheia de razão. "Eu não queria estar no lugar delas por todo o dinheiro do mundo." Mais silêncio. "Mas eu bem que estou pensando em tirar esta papada que eu tenho." • Umas mulheres se encontram na sauna, cada uma imersa na sua própria nuvem de vapor, com seus próprios músculos doloridos e seus próprios pensamentos. Duas recém-chegadas são recebidas com atenção pelas veteranas que já chegaram há um ou dois dias. — Comecem no primeiro banco, quanto mais subirem, mais quente fica. — Passem gelo na testa. — Não fiquem mais de cinco minutos no primeiro dia. Juntas, formamos um pequeno mundo de vapor com tamanhos e formatos e cores diferentes: um lugar silencioso no qual nos importamos com o bem-estar de pessoas que mal conhecemos. O vapor que nos envolve parece comunicar nossos pensamentos. — E tão bom poder vir para cá sozinha ou com um grupo de mulheres — diz uma voz, vinda das brumas. — Sem ter que achar que ficou doida — emenda outra voz. — Achei que ia sentir vergonha — diz uma voz jovem. —Eu nunca fiquei assim, com um bando de mulheres, sabe... Risadas saem do Buda vaporoso que se encontra num canto. — Querida — ela diz —, é pegar ou largar. Quando volto para casa, com o corpo livre de açúcares, livre de cafeína e relativamente saudável, pergunto a mulheres mais jovens o que sentem diante da nudez de outros corpos femininos. Eu parto do princípio de que esta geração se sentiria mais à vontade com o

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corpo alheio do que a minha, mas as freqüentadoras mais jovens do spa abalaram as bases dessa minha convicção. De respostas variadas eu constato que, embora ninguém mais tome banho de calcinha, esta forma de conscientização não verbal ainda não faz parte das vidas das mulheres mais jovens. — Não existe local algum onde possamos estar juntas desta forma — uma aluna do segundo grau diz, pensativa. — Os esportes não nos interessam e eu não conheço ninguém que freqüente uma academia ou uma sauna. Simplesmente não ocorre. Neste meio tempo duas editoras me lembraram de uma noite num banho turco em Jerusalém, que acabou se transformando num dos pontos altos de um tour feminista por Israel, organizado pela revista Ms. alguns anos atrás. Criou um elo inesperado entre pessoas que não se conheciam, bem no começo da viagem, uma irmandade instantânea. Além da constatação da beleza inerente do corpo feminino. As poucas mulheres ausentes na ocasião sentiram-se levemente excluídas da intimidade do grupo pelo resto da viagem. Ouvi esta mesma história quando o grupo voltou para casa, mas acho que não ouvi direito. Como tantas experiências pelas quais passamos, é uma experiência mais fácil de ser absorvida do que de ser explicada. Mas hoje eu sei: sei que gordos ou magros, maduros ou não, nossos corpos não nos deixariam tão desconfortáveis se compreendêssemos o lugar que ocupam no variado arco-íris de corpos femininos. Até mesmo as grandes beldades tornam-se menos distantes e as mastectomias menos aterrorizantes quando paramos de imaginá-las e as encaramos como na verdade são. Mudar a artificialidade das imagens criadas pela mídia ajudaria, mas não é o bastante. Como crianças que olham fotografias de homens e mulheres realizando trabalhos não-tradicionais — mulheres empunhando maçaricos, por exemplo, e homens trocando fraldas de bebês — mas que voltam a inverter estes papéis em sua mentes semanas depois, nós só conseguimos reter uma imagem quando a experimentamos por completo. Um remédio unídimensional não pode c ürar um mal tridimensional. Hoje, como a heroína adolescente de Gypsy, que só toma consciência do próprio corpo depois que começa a fazer stripteases, um número enorme de mulheres só tem a experiência do corpo feminino, do nosso

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e do de outras mulheres, em cenários sociais ou entre quatro paredes. Isto ocorre apenas quando estamos isoladas do mundo, em ambientes artificiais, expostas aos olhos masculinos ou ao julgamento convencional. Um pouquinho dessa proximidade mostraria à Família de Mulheres o quão bela cada uma de nós é, e como nenhuma de nós é igual. 1981

A Importância do Trabalho

No final dos anos setenta, o The Wall Street Journal criou uma série em oito partes, todas matérias de primeira página, dedicada à "mulher trabalhadora". Ou seja, à invasão da mulher no mercado de trabalho como sendo a maior mudança no cotidiano dos americanos desde a Revolução Industrial. Muitas mulheres receberam a série de reportagens e a definição com cinismo. Afinal de contas, as mulheres sempre trabalharam. Se todo o trabalho produtivo que as mulheres realizam no lar, pela manutenção do bem-estar de outros seres humanos, recebesse o valor monetário que lhe é devido, o Produto Nacional Bruto subiria em 26%. Mas acontece que as mulheres, especialmente mulheres brancas, estão mais propensas hoje em dia a deixar o emprego de dona de casa — um emprego mal remunerado, de pouca segurança e de alto risco (embora ainda tentemos explicar que é uma atividade perfeitamente aceitável e que o verdadeiro problema está na recusa do mundo masculino em realizá-lo e lhe dar um preço) — por atividades mais seguras, mais independentes e remuneradas fora do lar. É óbvio que a verdadeira revolução do trabalho não ocorrerá até que todo o trabalho produtivo seja remunerado — isto inclui a criação dos filhos e outras atividades exercidas dentro do lar—e os homens sejam integrados no mundo feminino da mesma forma que as mulheres passem a ser incluídas no mundo masculino. Mas a mudança radical anunciada pelo Journal, e pela imprensa em geral, faz parte de um longo processo de integração: a invasão, sem precedentes, de mulheres de todas as raças a ocupações assalariadas, à força de trabalho que fora até então constituída e definida por homens. Já somos quase 4 1 % do mercado de trabalho, a proporção mais alta em toda a história. Considerando o fato das mulheres serem, também, 69% da "força de trabalho desencorajada" (ou seja, indivíduos de-

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sempregados mas que não fazem mais parte das estatísticas de desemprego por já terem desistido de procurar), além de haver uma taxa de desemprego feminino oficial consideravelmente mais alta do que a masculina, fica claro que podíamos fazer este número crescer o suficiente para passarmos a ser metade da força de trabalho até 1990.* Confrontados com a determinação feminina de nos tornarmos um pouco independentes e sermos mais bem pagas e respeitadas pelo trabalho que realizamos, os especialistas se apressaram em perguntar: "Por quê?" É uma pergunta poucas vezes feita aos trabalhadores do sexo masculino cuja motivação básica, a sobrevivência e a satisfação pessoal não são jamais questionadas. Na verdade, homens só são encarados com estranheza e passam a motivar estudos sociológicos e artigos em jornais apenas quando não trabalham. Isto ocorre mesmo quando os homens em questão são ricos e não precisam trabalhar ou então quando são pobres e não conseguem trabalho. Mesmo assim, pesquisadores de opinião pública e sociólogos já fizeram de tudo para demonstrar que as mulheres trabalham fora por extrema necessidade financeira, ou, se persistimos apesar da existência de um homem empregado em nossas vidas, é pelo simples desejo de "comprar umas coisinhas a mais" para nossas famílias, ou até mesmo devido à boa e velha inveja do pênis. Entrevistadores dos departamentos de recursos humanos, e até mesmo nossas próprias famílias, ainda perguntam às mulheres remuneradas o grande "por quê?" Se temos filhos pequenos, ou se realizamos um trabalho considerado "de homem", esse tipo de pergunta torna-se ainda mais freqüente. São versões condescendentes ou acusadoras de "O que uma garota tão bacana como você está fazendo num lugar como este?" que ainda não desapareceram dos escritórios ou das fábricas. E como respondemos a estas suposições de que "trabalhamos"
*Esta estimativa acabou sendo ultrapassada. Em 1990, mulheres de todas as raças constituíam 57,5% da força de trabalho. De acordo com as estatísticas do Ministério do Trabalho americano, este número cresceu um pouco nos anos 90 e a projeção é que chegue a 6 3 % até o ano de 2005Não obstante, a mídia vem enfocando uma tendência estatisticamente insignificante de mulheres que decidiram deixar o mercado de trabalho para criar os filhos — uma escolha que deveria estar ao alcance dos pais de qualquer criança, especialmente dada a ausência de horários flexíveis e de creches adequadas —, em vez de falar do lado positivo, do que faz as mulheres permanecerem na força de trabalho remunerada.

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apenas por necessidade, seja ela extrema ou meramente peculiar? Devemos achar que estamos com a razão quando respondemos que é tão natural nós termos um trabalho remunerado quanto nossos maridos, quer tenhamos filhos pequenos em casa ou não? Será que podemos ter ambição profissional sem nos preocuparmos em nos tornarmos "pouco femininas"? Quando nos deparamos com o crescente ressentimento dos homens em relação à competição feminina na força de trabalho (muitas vezes na forma de acusações, cujo intuito é incutir a culpa, tais como "Você está tirando o emprego de um pai de família" ou "Está fazendo um grande mal aos seus próprios filhos"), seria melhor dizermos apenas que um emprego decente é direito de todo ser humano? Temo que a resposta seja não. Como indivíduos e como movimento, temos a tendência de nos esconder por trás de alguma versão de uma defesa taticamente questionável: "Mulhertrabalhaporqueprecisané?" Esta frase, que já se tornou uma única palavra, uma tecla única na máquina de escrever, é uma forma econômica de afirmarmos o que a sociedade considera feminino, ou seja, a passividade e o auto-sacrifício. Ao sermos atacadas, nossa tendência ainda é nos apresentarmos como escravas da necessidade econômica e da devoção à família. Assim, "Mulhertrabalhaporqueprecisané?" tornou-se algo fácil de se dizer. Como é o caso de muitos truísmos, este é facilmente demonstrável pelas estatísticas. Necessidade econômica é realmente o motivo mais consistente que leva uma mulher a trabalhar. Em 1976, por exemplo, 43% de todas as mulheres que integravam a força de trabalho remunerada eram solteiras, viúvas, separadas ou divorciadas e trabalhavam para sustentar a si próprias e a seus dependentes. Outros 2 1 % eram de mulheres casadas com homens que haviam ganhado menos de dez mil dólares no ano anterior, o mínimo, àquela época, para se sustentar uma família de quatro. Na verdade, se levarmos em conta as pensões recebidas pelos homens, ações da Bolsa, propriedades e várias outras formas de riqueza acumulada poderíamos provar, estatisticamente, que existem mais mulheres que necessitam trabalhar (ou seja, que não possuem riqueza acumulada, ou maridos que possam sustentá-las com seu trabalho ou riqueza pessoal) do que homens. Se fôssemos perguntar a algum grupo: "Você tem certeza de que precisa deste emprego?", é aos homens que devíamos perguntar.

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Mas a primeira fraqueza do argumento "trabalha porque precisa" está na sua ambigüidade. Qualquer um que já tenha sentido na pele o que é precisar viver dos fundos previdenciários do governo ou de qualquer forma de dependência, capaz de minar a confiança de qualquer um, sabe que qualquer emprego é melhor do que uma esmola, mesmo quando esta nos é dada por um parente. E no entanto a vontade e a autoconfiança necessárias para se trabalhar podem diminuir à medida que a dependência e o medo crescem. Talvez isto explique por que, ao contrário do que sugere o argumento "precisamos trabalhar", as esposas de homens que ganham menos de três mil dólares por ano estão menos propensas a trabalhar do que as esposas de homens que ganham dez mil dólares ou mais por ano. Além disso, a maior proporção de esposas que trabalha fora encontra-se nas famílias com uma renda familiar de 25 a 50 mil dólares por ano. É esta estatística que alguns sociólogos usam para provar que o trabalho da mulher serve basicamente para alçar a família às classes média e média alta. Assim, os ganhos de uma mulher prevêem a família de "luxos" e de "coisinhas a mais". E uma interessante faca de dois gumes esta. Transforma-nos em seres secundários dentro de nossas próprias famílias, além de fazer com que nossos empregos sejam os primeiros a serem sacrificados em tempos difíceis. Somos até capazes de aceitar esta interpretação, até certo ponto (pelo menos até sermos demitidas para que um homem ocupe nosso lugar), porque preserva o ego de nossos maridos no papel de principal provedor da família e ainda nos dá um motivo seguro e "feminino" para manter nossos empregos. Mas existem certas recompensas que não confessamos. Segundo The Two-Career Couple [Um casal, duas carreiras], de Francine e Douglas Hall: "Mulheres que trabalham por escolha própria, até mesmo em trabalhos tidos como repetitivos, de colarinho azul, sentem-se mais satisfeitas com suas próprias vidas do que aquelas que são donas de casa em tempo integral." Além da satisfação pessoal existe também a necessidade, por parte da sociedade, dos talentos de todos os seus membros. Digamos que empregos fossem preenchidos apenas com base no critério necessidade, tanto para homens quanto para mulheres, e houvesse apenas um disponível por família. Seria absurdo não termos acesso às habilidades de, por exemplo, uma Eleanor Holmes Norton, a respeitada

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presidente da Equal Employment Opportunity Commission [Comissão pelas Oportunidades Iguais de Empregos].* Precisaríamos, neste caso, questionar a importância da atividade exercida por seu marido, Edward Norton, também um respeitado advogado? Como os homens ganham, em média, quase o dobro que as mulheres, a esposa está sempre mais propensa a abrir mão de seu emprego do que o marido. O que quer dizer isto, que este país poderia sobreviver sem os seus milhares de enfermeiras, professoras e secretárias? Ou que os poucos homens que ganham mais do que as esposas deveriam desistir de seus empregos? Foi este tipo de desperdício de talentos humanos em escala generalizada que traumatizou os milhares de desempregados e subempregados americanos durante a Depressão. Naquela época, a regra de um emprego por família parecia pelo menos justificada, embora o conceito servisse para demitir apenas as mulheres, criar dependências intoleráveis e desperdiçar os talentos femininos dos quais a nação tanto precisava. A experiência da Depressão, mais a energia e o exemplo das mulheres que foram finalmente autorizadas a trabalhar quando a Segunda Guerra Mundial trouxe a diminuição da mão-de-obra disponível, levou o Congresso a repensar o significado da meta de empregos para todos no Ato Econômico de 1946. Empregos para todos era oficialmente definido como "empregos para aqueles que querem trabalhar, independentemente deste ser, por alguma definição, necessário. Esta meta aplica-se tanto aos homens quanto às mulheres". Como passamos por um momento de renovadas dificuldades econômicas e retorna o ressentimento em relação às mulheres que trabalham fora — trazendo de novo a necessidade do trabalho da mulher —, precisamos desta meta agora mais do que nunca. As mulheres encontram-se mais uma vez numa situação ambígua: pedem para sermos fortes e em seguida nos castigam por esta mesma força. É claro que qualquer coisa menos significativa do que um comprometimento do governo e do povo com a definição de emprego para todos de 1946 colocará a sobrevivência do grupo mais fraco, não importa quem o represente, em cheque. Quase tão importante quanto as penalidades financeiras é o sofrimento proveniente de ser
Ela é hoje deputada por Washington D.C. no Congresso americano.

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excluído de um emprego remunerado e reconhecido. Sem ele, perdemos muito do auto-respeito e a habilidade de provar para nós mesmos que estamos vivos e que nossa existência faz alguma diferença no mundo. Esta é uma realidade compartilhada tanto pela anfitriã das classes abastadas como pelo metalúrgico desempregado. Mas não vai ser nada fácil abrir mão da defesa passiva do "mulhertrabalhaporqueprecisané?" Quando uma mulher que luta com unhas e dentes para sustentar os filhos e os netos com pensões da previdência vê a vizinha trabalhar como garçonete, embora o marido desta esteja empregado, ela talvez se ressinta. E a garçonete (é claro que não seria o caso do marido da mesma) se sentiria culpada. No entanto, a não ser que nos vejamos obrigados a dar empregos para todos aqueles que querem e podem trabalhar, aquela mulher que vive dos fundos previdenciários do governo poderá se sentir penalizada por uma política que permite apenas um emprego público por família. Ela e a filha terão de chegar a uma decisão dolorosa e divisiva sobre qual das duas tentará obter o precioso emprego, e assim a família terá de sobreviver apenas com um salário. O emprego, como direito do ser humano, é um princípio que se aplica tanto aos homens quanto às mulheres. O fenômeno da "mulher trabalhadora" (ou seja, a mulher cujo trabalho é remunerado) vem sendo considerado responsável por tudo, do aumento do número de casos de impotência sexual masculina (que, aliás, segundo foi descoberto, deve-se às inúmeras drogas indicadas para a hipertensão) ao aumento do preço da carne bovina (que na verdade ocorreu devido aos altos custos de energia elétrica e às restrições à importação, não devido à recusa das mulheres em preparar carnes mais baratas e de preparo mais demorado). A não ser que encaremos o emprego como parte integrante do direito de todo cidadão à autonomia e à satisfação pessoal, continuaremos a ser vulneráveis a idéias alheias quanto àquilo que é necessário e ao peso da necessidade de cada um. De alguma forma, as mulheres que não precisam trabalhar para sobreviver, mas que escolhem fazê-lo mesmo assim, estão perto de garantir que este direito seja estendido a todas as outras. É fácil atacar e se ressentir das mulheres cujos maridos possuem uma boa situação financeira. É mais fácil ainda se ressentir das herdeiras das grandes

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fortunas, embora sejam os herdeiros que se beneficiam e que controlam tais fortunas. (Não existe um Fundo das Irmãs Rockfeller e não existe nenhuma J. P. Morgan & Filhas. Os genros é que dormem com alguém para chegar ao poder.) Mas impedir que uma mulher, cujo marido ou pai é rico, ganhe seu próprio sustento e sinta a autoconfiança que provém de uma atividade profissional própria é criar nela a necessidade de um poder que ela não obterá e torná-la mais reticente em dividi-lo. Além do mais é desperdiçar, para sempre, seus talentos únicos. Talvez as feministas modernas sejam culpadas de uma espécie de esnobismo às avessas, que fez com que não dessem as mãos às mulheres e às filhas de homens ricos. E, no entanto, foram mulheres como estas que recusaram as restrições de classe social e que financiaram a revolucionária onda do sufrágio. Para a maioria de nós, no entanto, "mulhertrabalhaporqueprecisané?" ainda é verdadeiro o bastante para ser um raciocínio tentador. Mas se usarmos este raciocínio sem lutar pelo direito do ser humano ao emprego, uma coisa bem mais abrangente, jamais alcançaremos este direito. Seremos sempre vítimas do argumento errôneo de que a independência de uma mulher é um luxo ao qual ela poderá se dar apenas em épocas de estabilidade econômica. Assim, as alternativas às demissões não serão estudadas e a ameaça do desemprego continuará a ser usada para fazer com que quem estiver empregada aceite salários mais baixos. Assim, jamais conseguiremos corrigir o verdadeiro custo, tanto para as famílias quanto para a nação, de mulheres dependentes e de um imenso desperdício de talentos. O pior de tudo é que talvez jamais consigamos achar que empregos produtivos e dignos devam fazer naturalmente parte de nossas vidas e que são um dos prazeres mais básicos da vida. — 1979

O Fator Tempo

Planejar acontecimentos com antecedência é uma medida de classe. Os ricos, e até mesmo a classe média, podem fazer planos para suas gerações futuras, enquanto os pobres planejam apenas semanas ou dias. Lembro-me de ter me deparado com este insight tranqüilo num livro de sociologia e de sentir por ele uma identificação instantânea. Sim, claro, nossa noção de tempo é em parte uma função do poder — ou a falta deste poder. Pareceu-me uma afirmação verdadeira até mesmo no contexto econômico que o autor tivera em mente. "Os donos das fábricas as entregam nas mãos dos filhos e dos netos", eu me lembro de ouvir um garoto dizer com amargura quando eu ainda estava no segundo grau. "Neste lado da cidade a gente só planeja o que vai fazer sábado à noite." Mas também me parecia verdadeiro em relação à maioria das mulheres que eu conhecia — incluindo eu mesma —, independentemente da classe social à qual pertencem. Embora tivesse deixado para trás o bairro operário no qual crescera, freqüentado a universidade, me tornado jornalista e membro da classe média, eu ainda não me sentia capaz de planejar coisa alguma com antecedência. Eu precisava ser flexível. Em primeiro lugar para poder pegar aquele avião para realizar um trabalho (mesmo sabendo que os escritores homens que eu conhecia planejavam livros e outros projetos a longo prazo) e depois para poder adaptar minha carreira às prioridades de um eventual marido e de filhos (embora eu tivesse uma vida que muito me satisfazia sem um nem outro). Entre os resultados desta insegurança estavam uma impressionante falta de planejamento profissional e penalidades menores tais como a falta de uma poupança, a falta de um seguro de vida e o fato de viver num apartamento que não possuía nem mesmo os móveis mais básicos.

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Por outro lado, eu tinha amigas casadas com homens cujos planos profissionais a longo prazo eram compatíveis com os delas e mesmo assim elas viviam a vida, dia após dia, em função das necessidades dos maridos e dos filhos. Além disso, o único colega homem que compartilhava ou que compreendia esta sensação de impotência era um bem-sucedido jornalista e crítico literário negro que admitia, mesmo depois de vinte anos de carreira, planejar apenas um trabalho de cada vez, jamais esquecendo a dependência que sentia em relação aos editores brancos. Torna-se claro que há mais neste medo do futuro do que a convencional definição de classes sociais consegue explicar. Há também as castas: as indeléveis marcas de sexo e raça que acarretam toda uma constelação de imposições culturais contra o poder, até mesmo o poder limitado de controlar a própria vida. Ainda não examinamos a noção de tempo e o planejamento do futuro como função da discriminação, mas já começamos a lutar com eles, conscientemente ou não. Como um movimento, as mulheres tornaram-se dolorosamente conscientes de um excesso de reação e de viver de emergência em emergência, com muito pouca iniciativa e ação planejada. Por isto, sofremos tantas perdas para uma direita tão menor porém mais consistente e arraigada. Embora o hábito cultural de vivermos no presente e de passarmos um verniz no futuro sejam enraizados, começamos a desafiar o castigo cultural sempre à espera das mulheres "insistentes" e "egoístas" (e dos ambiciosos homens das minorias étnicas) que tentam romper as barreiras para controlar suas próprias vidas. Mesmo assim, escritoras e teóricas do feminismo tendem a se esquivar do futuro despejando suas habilidades analíticas na tentativa de compreender o que há de errado com o presente ou com revisões históricas e críticas de influentes pensadores homens do passado. Os livros grandes, originais e certamente corajosos desta onda do feminismo contêm mais diagnósticos do que receitas. Precisamos de planejadoras pragmáticas e de futuristas visionárias, mas alguém consegue imaginar um plano de cinco anos para o feminismo? Talvez o mais próximo a que consigamos chegar seja à arquitetura visionária ou à ficção científica feminista, mas estas, em geral, evitam passos práticos como ir daqui até lá. É óbvio que muitas de nós precisam expandir a noção de tem-

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po, ter coragem de planejar o futuro até mesmo quando a maioria ainda luta para manter a cabeça acima do nível da água no presente. Mas isto não significa uma imitação do hábito culturalmente masculino de planejar o futuro, de viver no futuro e assim viver uma vida adiada. Isto não implica sacrificarmos nossa espontaneidade e nossa percepção sensível do presente, produto de anos de uma orientação profissional com pouca base na realidade, de pressões corporativas para trabalharmos hoje por uma recompensa que chegará após a aposentadoria, ou, menos lógico ainda, de religiões patriarcais que cobram obediência hoje em troca de recompensas pós-morte. Na verdade, a habilidade de viver no presente, de tolerar as incertezas e mesmo assim permanecer aberta, espontânea e flexível — características consideradas culturalmente femininas das quais os homens precisam, embora seu desenvolvimento lhes seja com freqüência negado. Se os homens passassem mais tempo criando filhos pequenos, por exemplo, estariam forçados a desenvolver mais paciência e flexibilidade. Se nós mulheres tivéssemos mais poder para planejar o uso dos recursos naturais e outros processos a longo prazo — ou até mesmo para planejar nossos próprios trabalhos e vidas reprodutivas —, teríamos maior sensação de controlar o futuro. Essa obsessão de reagir ao presente, à moda feminina, ou a obsessão de controlar e viver no futuro, à moda masculina, são grandes desperdícios de tempo. E o tempo é tudo o que temos. — 1980

Homens e Mulheres Conversando

Houve uma época (alguns anos atrás) em que a crença, por parte dos psicólogos, de que a forma que escolhemos para nos comunicarmos uns com os outros era, em grande parte, uma função da personalidade. Se certos estilos de conversação fossem mais comuns a um sexo do que a outro (uma maneira de falar mais agressiva e mais abstrata para os homens, por exemplo, e mais pessoal e ambígua para as mulheres), isto nada mais era do que um tributo à influência da biologia em nossas personalidades. Conscientemente ou não, as feministas sempre desafiaram esta hipótese. Muitas de nós aprenderam uma grande lição nos anos sessenta, quando toda uma geração ergueu a voz contra as injustiças da guerra e contra as injustiças de raça e classe social. No entanto era menos provável que as mulheres, mesmo usando as mesmas palavras e o mesmo estilo de suas contrapartes masculinas, fossem ouvidas ou levadas a sério. Ao tentarmos falar a respeito desta ou de outras frustrações, multiplicavam-se os ouvidos moucos e a freqüência do ridículo e de oposição para quem falava. Apenas reuniões exclusivas às mulheres e confissões mútuas confirmaram o que pensávamos ser uma experiência pela qual passávamos sozinhas. Foram também estes primeiros grupos de conscientização feminina que começaram a confirmar a existência de uma forma mais cooperativa e menos combativa de falar, um estilo alternativo que vem fortalecendo muitas mulheres desde então. O problema é que esta forma culturalmente diferente de falar continua a ser quase que apenas feminina. É verdade que ajudou inúmeras mulheres a compreenderem umas às outras e a elaborar estratégias de ação. Mas como influência sobre a fala considerada culturalmente masculina permanece tão distante quanto as versões domésticas do passado.

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Um dos motivos do atraso de mais ou menos uma década para desafiar as formas existentes de conversar faz grande sentido tático. Nossa primeira tarefa foi mudar as próprias palavras. Não nos sentíamos incluídas (e estudos de uso da língua mostram que, de fato, não éramos incluídas) em centenas de termos supostamente generalistas tais como o homem e ele, a fraternidade entre homens e chefe de Estado. Tampouco podíamos deixar de perceber os paralelos raciais ao sermos chamadas de "meninas" até mesmo quando já somos idosas, ou apenas pelo primeiro nome, ou através de nossa ligação pessoal (ou a falta da mesma) com um membro do grupo dominante. Por mais difícil que tenha sido (e ainda seja), este ato radical de tomada do poder para darmos nomes a nós mesmas e às nossas experiências foi mais fácil do que enfrentar a política da conversação. A documentação de padrões de fala de toda uma sociedade exigiu pesquisas e levantamentos caros. A documentação do sexismo das palavras e mesmo a busca de alternativas exigiram apenas uma corajosa estudiosa e um dicionário (o trabalho pioneiro de Alma Graham para a McGraw-Hill, Guidelines for Equal Treatment ofthe Sexes [Linhas Gerais para o Tratamento Igual dos Sexos]). Este foi um dos bons motivos econômicos pelos quais estes trabalhos figuram entre os primeiros a serem escritos por estudiosas feministas. Em retrospectiva, a segunda causa para o atraso faz menos sentido do ponto de vista feminista: a grande popularidade dos treinamentos para a aquisição de uma nova autoconfiança. Embora muitas mulheres precisem ser mais seguras (ou até mesmo mais agressivas, por mais controversa que seja esta palavra), muitos cursos de autoconfiança ensinavam as mulheres a jogar o jogo existente e não como mudar regras. Ao contrário do ataque feminista à linguagem sexista, que exigiu dos homens um novo comportamento, o treinamento da autoconfiança era mais reformista do que revolucionário. Promovia uma mudança unilateral, apenas para as mulheres, confirmando assim que o estilo de comunicação masculino era o único modelo adulto e verdadeiramente eficaz. E certo que muitas mulheres, individualmente, receberam um auxílio que lhes era necessário, e que muitos homens passaram pela experiência educativa de encontrar uma mulher segura pelo caminho. Porém o impacto maior foi o reforço do jogo masculino, do falar politicamente através da imitação. Desde então, no entanto, algumas estudiosas feministas tiveram

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o tempo e os recursos necessários para documentar padrões de conversação de grupos mistos, e de um só sexo, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Estudos tradicionais, influenciados pelo feminismo, também começaram a encarar os estilos de conversação como funções de poder e de meio. Por exemplo, funcionários muitas vezes se aprofundam em discussões se o assunto foi puxado pelos seus empregadores, em vez do contrário. Os mais velhos se vêem no direito de interromper os mais jovens livremente, e os subordinados são mais bem educados do que seus chefes. Como as mulheres compartilham de todos os hábitos de oratória dos menos poderosos, e até mesmo atravessam os limites de classe social e status que nos dividem, seria isto um fato acidental? Mesmo as novas pesquisas, influenciadas pelo feminismo, ainda têm um longo caminho a ser percorrido no que diz respeito à neutralização das predisposições masculinas contidas nos estudos existentes. Por exemplo, falar é visto como um ato importante e positivo enquanto o ato de escutar não é um tópico de estudos muito explorado. Não obstante, foi realizado um número satisfatório de estudos em que diversos estilos de oratória foram documentados e algumas das deficiências da comunicação masculina foram sublinhadas. Isto serve para nos dar algumas idéias de como unir estilos de forma a dar uma gama muito maior de alternativas de comunicação, tanto para homens quanto para mulheres. Aqui estão alguns mitos, verdades e soluções práticas.
Você já pressupôs que as mulheres falam mais do que os homens? Já pressupôs que elas dominam conversas por não dominarem coisa alguma em suas vi-

das? Se você já pensou assim, saiba que não está sozinho. Os pesquisadores da diferença de linguagem entre os .sexos começaram seu trabalho com esta suposição em mente. Assim como muitas feministas, que explicavam uma suposta verborragia feminina como compensação pelo fato de não podermos agir. No entanto, quando Dale Spender, feminista e estudiosa australiana, pesquisou a loquacidade para o seu livro, Man Made Language [Linguagem criada pelo homem}, ela concluiu que "talvez mais do que em qualquer outra área de pesquisa, os resultados obtidos contradizem diretamente o estereótipo ao qual estamos acostumados...

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Não há um estudo que prove que as mulheres falam mais do que os homens e há inúmeros estudos que demonstram que os homens falam mais do que as mulheres". Tal conclusão mostrou-se verdadeira nos casos em que se pedia aos objetos do estudo para conversar com um gravador, sem interação de grupo; na comparação de homens e mulheres falando na televisão; na medição de trechos de conversa em grupos mistos (até mesmo entre deputados dos sexos masculino e feminino); em discussões em grupo quando o assunto era considerado particularmente feminino. Num seminário sobre sexismo e educação, realizado em Londres, por exemplo, cinco dos homens presentes falaram mais do que as 32 colegas do sexo feminino juntas. Alguns estudos do silêncio masculino em casais heterossexuais parecem contradizer tais resultados. No entanto, o estudo de Spender conclui que grande parte da fala feminina numa conversa a dois dedicase a puxar a participação masculina, a fazer perguntas, a apresentar uma gama de assuntos até que um seja aceito por ele, ou para demonstrar interesse pelos assuntos por ele apresentados. Torna-se claro que o silêncio masculino (ou o silêncio de um membro de qualquer grupo dominante) não é necessariamente o mesmo que estar ouvindo. Pode ser uma expressão de rejeição em relação ao interlocutor, uma recusa de se tornar vulnerável através da revelação do seu eu ou uma demonstração de que esta conversa não lhe interessa. Da mesma forma, o fato de um grupo subordinado falar não evidencia, necessariamente, poder. Talvez o motivo oculto seja uma tendência sherazadiana à intriga, uma necessidade de sobrevivência, ou simplesmente uma forma de explicar e justificar as próprias ações. Além de falar mais, os homens interrompem as mulheres com mais freqüência do que o contrário. Isto é verdadeiro tanto em grupos quanto a dois. Os homens interrompem falas femininas com menos conseqüência social do que o contrário. Os homens também tendem a interromper as mulheres mais do que elas interrompem umas as outras. Ademais, os membros do sexo masculino estão mais propensos a policiar o assunto de uma conversa em grupos mistos. Um estudo de famílias da classe operária demonstra que as mulheres se aventuram a conversar sobre tópicos "masculinos" tais como política ou esportes e que os homens podem vir a juntar-se a uma discussão "fe-

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minina" sobre acontecimentos domésticos. Porém, em ambos os casos, foram os homens que ridicularizaram ou repreenderam os não-conformistas, aqueles que iam longe demais. Até mesmo durante o tal seminário sobre sexismo realizado em Londres, por exemplo, as experiências concretas das participantes mulheres foram suprimidas a favor das conclusões abstratas e gerais preferidas pelos homens. Os poucos homens presentes estabeleceram o padrão para as mulheres que ali se encontravam. Qual a origem do mito da verborragia feminina e da dominação da conversa? Por que será que esta suposta particularidade feminina é tão difundida que muitos sociólogos a aceitam como possível justificativa para a violência de alguns homens em relação às esposas — como fazem, também, algumas mulheres que já sofreram agressões físicas? A desconfortável verdade é possivelmente o fato da fala feminina ser medida não em relação à quantidade de falas masculinas e sim em relação ao silêncio esperado de uma mulher. Na verdade, as mulheres que aceitam e que se propõem a provar a falácia do mito da verborragia feminina talvez paguem o mais alto dos preços. Ao tentarmos ser a exceção, nós nos calamos. Se isso é verdade, a comparação de nosso comportamento pessoal com situações reais e estudos reais deveria nos trazer algum alívio e ser uma confirmação de sentimentos não expressados. Não estamos ficando loucas se, por exemplo, ao tomarmos a palavra num grupo, nos sentirmos tão expostas como solistas na ribaka. Não estamos enlouquecendo ao sentirmos que há anos de pensamentos não expressados presos em nossas mentes, que começam a jorrar de nossas bocas numa confusa torrente quando finalmente nos deixam falar. Ao pararmos de buscar a aprovação dos outros, sufocando aquilo que pensamos ou imitando a norma masculina de comunicação abstrata e segura, muitas vezes descobrimos que é mais fácil dizer simplesmente aquilo que precisa ser dito, e assim tornarmo-nos dignas de respeito e de aprovação. A perda da insegurança e do medo nos leva a nos concentrarmos no conteúdo daquilo que falamos em vez de nos concentrarmos em nós mesmas. A bem desenvolvida habilidade feminina de ouvir, talvez a real fonte da tão comentada "intuição feminina", não deve ser ignorada.

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Devemos preservá-la para nosso próprio uso e ensiná-la aos homens. Devemos fazê-la presente em nosso trabalho e em nosso dia-a-dia. Isto só acontecerá quando aceitarmos seu valor. A cultura feminina tem muito a contribuir à cultura dominante. Além disso, as mulheres talvez se sintam mais à vontade em falar tanto quanto os homens, em escolher os assuntos a serem conversados e até mesmo em interromper, vez ou outra, se acharmos que desta forma estaremos ajudando os homens a prestarem mais atenção e a se tornarem ouvintes mais retentivos. Estamos concedendo-lhes a honra de nos comunicarmos com maior honestidade e estamos tratando-os da forma que gostaríamos de ser tratadas. Afinal de contas, se uma quantidade maior de homens se tornasse ouvintes sensíveis, eles também teriam nossa famosa "intuição". Aqui estão alguns exercícios básicos para se atingir um equilíbrio na fala. Experimente gravar uma conversa à mesa do jantar ou durante uma reunião (sob o pretexto de gravar os fatos, para que os participantes não se policiem em relação à sua política de conversação). Depois, faça com que o grupo em questão ouça a fita gravada. Peça-lhes para somarem o número de minutos falados, as interrupções e as apresentações de assuntos por cada um dos sexos. Ou então dê fichas de pôquer para cada participante da discussão e faça com que cada um entregue uma ficha todas as vezes que falar. Veja quem fica sem fichas primeiro. Ou então quebre a barreira para aqueles que raramente falam, fazendo uma pergunta que cada participante terá de responder com dados pessoais, mesmo que se trate de uma simples apresentação. (Dizem que o Partido dos Trabalhadores inglês só se materializou depois que os representantes das facções dissidentes trocaram a mesa de reunião por uma sala maior. Este ato de comunhão dissolveu o isolamento pessoal de cada um, da mesma forma que uma rodada de conversa ajuda a quebrar o gelo.) Se estes métodos exigirem mais planejamento do que você pode fazer, ou se estiver tentando atingir uma pessoa em particular, experimente algumas ações individuais. Discutir os resultados de uma pesquisa sobre quem fala mais pode engendrar discussões muito saudáveis para homens e mulheres. Se um integrante de um dado grupo raramente fala, tente direcionar algumas de suas observações para ela (ou ele). Por outro lado, se um homem (ou mulher) é um ás

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das interrupções, tente reclamar sobre isto diretamente, interrompendo-o. Cronometre o número de minutos que essa pessoa passa falando ou simplesmente prestando pouca atenção ao que dizem os outros. Se alguém lhe interromper diga, divertida, "Essa foi a primeira" e prometa fazer algum estardalhaço quando as interrupções somarem três. Mantenha a contagem de assuntos "bem-sucedidos", some-os por sexo e anuncie o resultado da contagem ao final da discussão. Se as perguntas e comentários que se seguem a cada palestra vierem principalmente de homens, chame atenção para o que está acontecendo. Talvez seja um momento de aprendizado para todos os presentes. A prevalência de interlocutores do sexo masculino em platéias mistas já fez com que algumas oradoras feministas reservassem tempo igual para as perguntas feitas por mulheres. Para demonstrar a importância de ouvir, tente perguntar o conteúdo de uma palestra dada por oradores homens e oradores mulheres. Esperemos que você não descubra o que há de mais comum: que os homens se lembram do que os oradores homens dizem com mais facilidade do que o que dizem oradoras mulheres. E que as mulheres também se lembram do que disseram os oradores homens com maior facilidade. E ainda que as mulheres ouvem e guardam as palavras de ambos os sexos com maior facilidade do que os homens. Verifique a política de suas próprias ações. O seu nível de ansiedade (e seus instintos de anfitriã) a faz tremer nas bases quando as mulheres falam e os homens ouvem, embora o contrário não ocorra? Os homens parecem falar daquilo que sabem durante horas enquanto as mulheres os ouvem atentamente. Mas as mulheres parecem falar por pouco tempo na presença de um homem antes de se sentirem ansiosas, antes de começarem a se desculpar e a encorajar os homens a falar. Se você começar a se sentir desconfortável, sem motivo, por ter de fazer um homem prestar atenção no que está dizendo, tente o seguinte exercício: continue a falar e apoie suas irmãs que fazem o mesmo. Brinde os homens com o mesmo tratamento que eles dedicam às mulheres. Estará dando a eles uma oportunidade de aprendizado.
Temos aqui algumas crenças populares: (1) As mulheres falam de si mesmas, personalizam os tópicos de conversa efofocam mais do que os homens. (2) Os

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homens preferem falar a grupos compostos exclusivamente de homens do que a grupos mistos e as mulheres preferem grupos mistos a grupos compostos apenas por mulheres. (3) lnterlocutoras e assuntos pertinentes às mulheres são prejudicados pelo estilo "feminino" de apresentação. Como você já deve ter

adivinhado, a maioria das provas existentes demonstra o oposto das três crenças citadas. Após gravar os temas de conversação de grupos compostos de um só sexo e de grupos mistos, por exemplo, a psicóloga social Elizabeth Aries descobriu que os homens, em grupos exclusivamente masculinos, estão mais propensos a falarem de si próprios do que as mulheres em grupos exclusivamente femininos. Homens tendem a mencionar suas próprias histórias como forma de demonstrar superioridade ou agressividade enquanto as mulheres as usam para demonstrar uma reação emocional ao que os outros dizem. Phil Donahue, um dos mais experientes entrevistadores do país, resume as diferenças culturais entre homens e mulheres da seguinte forma: "Se você se encontra numa situação social e um grupo de mulheres está conversando e uma delas diz 'Eu fui atropelada hoje', todas as outras vão dizer, 'Você está brincando! O que foi que aconteceu? Onde foi que aconteceu? Você está bem?' Na mesma situação, entre homens, se um deles dissesse: 'Fui atropelado hoje' eu garanto que haverá um outro homem no grupo que dirá Ah é? Espera só até eu contar o que aconteceu comigo." Se a quantidade de coisas ditas a respeito de si próprio é a medida da "personalização" da conversa, e se a autopromoção através da invocação das fraquezas de outros for uma característica de fofoca, então os homens são bem mais "fofoqueiros" do que as mulheres. Especialmente se incluirmos aqui a vangloria sexual. Além do mais, os assuntos apresentados por homens em grupos mistos têm muito mais chance de "pegar" do que os assuntos apresentados por mulheres. Conforme concluiu Aries, as mulheres, em grupos mistos, tendem a interagir mais com homens do que com outras mulheres. Portanto, não seria pouco razoável concluir que grupos mistos passam mais tempo discutindo as vidas e os interesses dos homens do grupo do que os das mulheres presentes. Por outro lado, a pesquisa de Aries, e de outros, demonstra que as mulheres tendem a discutir as relações humanas. Como "relações" e "relacionamentos" costumam ser considerados "fofoca", do ponto

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de vista masculino, este talvez seja o motivo dos homens dizerem que as mulheres "personalizam" tudo. Os oradores de seminários comentam com freqüência que as mulheres de uma platéia costumam fazer perguntas práticas a respeito de suas próprias vidas enquanto os homens fazem perguntas abstratas. Quando o assunto é feminismo, por exemplo, as mulheres perguntam especificamente como colocar em prática as idéias ali discutidas. Os homens são mais capazes de dizer algo como "Mas qual será o impacto do feminismo na família americana?" Para citar Donahue, que lida com platéias femininas, em sua maioria: "Eu sempre me senti um pouco ansioso com a possibilidade de fazer um programa à noite com um auditório masculino. O problema, na minha opinião — e isto é uma generalização — é que os homens tendem a fazer discursos enquanto as mulheres fazem uma pergunta, ouvem a resposta e fazem uma contribuição à conversa. Em inúmeras situações, eu já tive homens nas platéias que se levantaram e afirmaram: 'Não sei por que vocês estão discutindo isso. A resposta é a seguinte...', dizem, dando início a um minidiscurso." Aries também documentou um estilo de conversação e de liderança mais cooperativo e mais rotativo em grupos formados exclusivamente por mulheres: o hábito, consciente ou não, de falarem uma de cada vez. Assim, as mulheres preferem conversar em grupos de mulheres devido à vantagem concreta de poderem falar e de poderem ser ouvidas. Por outro lado, Aries confirmou as pesquisas que demonstram que grupos formados por homens possuem hierarquias mais estáveis, com um ou mais interlocutores dominando a conversa grande parte do tempo. Aries demonstra que, não por acaso, os homens preferem a variação e a oportunidade para falar a um grupo misto. Assim, combinam a seriedade de uma presença masculina com um maior número de estilos. E ainda, conforme acrescenta Spender, causticamente, têm a garantia de pelo menos alguns espectadores não competitivos. A brandura, a escolha "feminina" dos adjetivos e uma maior atenção à gramática e à cortesia provocam pesadas críticas à elocução feminina. O lingüista Robin Lakoff foi pioneiro em demonstrar a fala feminina" como uma faca de dois gumes, exigida das meninas e o principal motivo de, ao chegarem à idade adulta, não serem levadas tão a sério quanto os homens e não conseguirem ser firmes. (Mas o

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próprio Lakoff parece partir do princípio de que a fala feminina deve ser criticada por ser deficiente, enquanto a linguagem masculina é a norma, escapando assim de qualquer comentário equivalente.) O sociólogo Arlie Hochshild cita também algumas técnicas de sobrevivência usadas pelas minorias étnicas que as mulheres de todas as raças parecem também usar: fingir-se de desentendida, dissimular, por exemplo, ou expressar a aprovação por outros freqüentemente. Mas seja esta crítica ao que é considerado culturalmente o modelo feminino de elocução justificada ou não, evidências demonstram que a rejeição do modo de falar de uma mulher é, muitas vezes, uma maneira de culpá-la ou de dispensá-la sem precisar lidar com o conteúdo daquilo que diz. Por exemplo, interlocutoras mulheres estão mais propensas a ouvir frases como "Esta é uma colocação muito interessante, mas você não está conseguindo fazê-la de forma eficaz", ou "O seu estilo é agressivo/débil/gritado/sussurrado demais". E com críticas do gênero que políticos homens muitas vezes dispensam comentários sérios feitos pelas suas colegas ou que muitos maridos ignoram os argumentos de suas esposas. São críticas do gênero que fazem com que candidatas mulheres sejam rejeitadas sem que lidem com a substância das questões por elas levantadas. Quando Bella Abzug, do estado de Nova York, e Gloria Schaeffer, de Connecticut, se candidataram ao Senado dos Estados Unidos no mesmo ano, foi dito que ambas possuíam um estilo pessoal que comprometia sua eficácia como interlocutoras. Abzug era "abrasiva e agressiva demais" e Schaeffer "feminina e quietinha demais". Estilo tornou-se o "x" da questão junto à mídia e este "x" foi parar nas pesquisas de opinião. Ambas foram derrotadas. Há outras três anomalias que desmascaram estas críticas "supostamente" construtivas. Em primeiro lugar, elas raramente são expressadas quando a mensagem da mulher não desafia o poder masculino. (Com que freqüência a fúria de uma mulher é criticada quando usada em defesa da família? Com que freqüência mulheres da direita são criticadas por serem agressivas demais em sua oposição ao aborto?) Em segundo lugar, é muito raro que uma crítica seja acompanhada por um apoio verdadeiro, até mesmo quando o crítico (ou crítica) se diz solidário. (Muitas candidatas a cargos políticos dizem que são criticadas quanto às suas técnicas de captação de recursos em vez de

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pelo dinheiro em si, até mesmo por aqueles que concordam com suas visões políticas.) E, finalmente, quase todo mundo, independentemente do status social, se vê no direito de criticar. (Professoras universitárias contam que têm seu estilo pedagógico criticado por jovens alunos assim como chefes mulheres recebem críticas de seus subordinados). Da mesma forma que os homens de um grupo consideram um tópico de conversa mais interessante se este não for apresentado por uma mulher (mesmo se o mesmo assunto for ^apresentado por um homem), ou uma questão política "mais importante" do que qualquer uma de interesse feminino, há também um estilo melhor e mais eficiente do que aquele usado por uma mulher. Os homens nos apoiariam, sim, se nós soubéssemos pedir este apoio. É uma forma sutil e eficiente de não só culpar a vítima como também fazer com que a vítima se culpe. 0 que podemos fazer para eliminar estes estereótipos? Fazer a ata de uma reunião ou anotar a proporção de fofocas e auto-referências masculinas/femininas durante uma semana seria educativo. Fazer com que os homens passem um dia sem usar palavra alguma terminada em "ção" e outras generalidades talvez os encoraje a dizer o que pensam sem se esconderem por trás de generalizações. Deixar de usar frases tais como "Bem, é só a minha opinião..." e outras autodesvalorizações do gênero, para encorajar outras mulheres a confiarem em suas convicções pessoais. Como exercício pessoal, tente combater abstrações escorregadias com exemplos tangíveis. Quando David Susskind e Germaine Greer foram convidados para a mesma apresentação histórica num programa de televisão, por exemplo, Susskind usou afirmações gerais e pseudocientíficas a respeito das mudanças emocionais sofridas mensalmente pelas mulheres como uma forma de se esquivar das injustiças citadas por esta mulher de assombrosa inteligência. Finalmente, Greer virou-se para ele educadamente e disse: "Então me diga uma coisa, David. Você sabe me dizer se eu estou menstruada ou não?" Ela não só eliminou qualquer dúvida que porventura houvesse surgido devido às afirmações de Susskind, como também manteve o espírito belicoso do outro sob controle pelo resto do programa. Os próprios homens estão se esforçando para romper com as

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generalizações e a competitividade que uma cultura patriarcal lhes impõe. Algumas reuniões de grupos de conscientização masculina promovem a comunicação de forma mais aberta e mais pessoal. Numa força de trabalho diversificada, outros simplesmente começam a se acostumar com estilos mais variados. Muitas mulheres tentam romper as barreiras que nós mesmas mantemos erigidas. Por exemplo, o fato das mulheres preferirem falar entre si tem muito a ver com a economia gerada pela exposição de experiências análogas. Além do mais, os grupos menos poderosos sempre conhecem os grupos mais poderosos melhor do que vice-versa — os negros aprenderam a conhecer os brancos para sobreviverem e as mulheres aprenderam a conhecer os homens. Somente o grupo dominante pode se dar ao luxo de encarar os menos poderosos como um mistério. Na verdade, a idéia de "diferença" e do Misterioso Outro são justificativas necessárias para o desequilíbrio e para a falta de empatia que lhes é necessária. Um dos resultados é que, mesmo quando o grupo que detém o poder se dispõe a escutar, o outro se desespera em ter que falar: é difícil demais de explicar. O reconhecimento deste conhecimento desigual encoraja uma mulher a falar de si mesma para os homens, pelo menos de forma a igualar o tempo que os homens passam falando de si próprios. Afinal, eles não podem ler nossos pensamentos. Em questões de estilo, a inversão dos papéis pode ser esclarecedora. Peça, por exemplo, a um homem que critica as mulheres "agressivas" para tentar discutir uma questão política séria "como uma dama". Uma candidata mulher poderia, também, pedir aos seus críticos para escreverem um discurso no estilo que, segundo eles, ela deveria usar. Dar o troco na mesma moeda estabelece a empatia. Há uma certa satisfação em se dizer, bem no meio de um inflamado discurso masculino: "Eu suponho que você esteja querendo dizer alguma coisa com isso tudo mas você não está se expressando muito bem. Se você desse mais exemplos pessoais. Se você mudasse um pouco a linguagem, o timing e, talvez, até mesmo o terno..." Finalmente, se toda a conversa do mundo falhar, tente a mesma mensagem por escrito. O intuito é fazer com que a mensagem chegue ao ouvinte, mesmo se este não conseguir separá-la do emissor.

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As vozes finas das mulheres e as mais graves dos homens são produto dafisiologia. Como vozes graves são mais agradáveis e autoritárias, oradoras mu sempre enfrentarão problemas. Além do mais, as expressões faciais e os gesto das mulheres simplesmente não são tão fortes... e assim por diante. É verdade que o tom de voz é, em parte, criado pela constituição da garganta e pela ressonância dos ossos. Embora haja uma enorme gradação masculina e feminina de tons de voz, assim como de altura, força e outros atributos físicos, nós partimos do princípio de que os homens possuem um tom de voz mais grave do que o das mulheres. Na verdade, ninguém sabe exatamente até que ponto a voz com a qual falamos é imitativa e culturalmente produzida. Estudos realizados com meninos, antes da puberdade, demonstram que seu tom de voz pode mudar, antes mesmo de ocorrerem as mudanças fisiológicas responsáveis por tal mudança. Eles estão, na verdade, imitando os homens à sua volta. Dale Spender cita um estudo de homens que não eram mudos mas que nasceram surdos e eram, portanto, incapazes de imitar sons. Alguns deles jamais passaram pela mudança de voz dos adolescentes. Qualquer que seja a mistura de fatores culturais e fisiológicos, no entanto, o mais importante é que a aceitação do tom de voz é definitivamente cultural. Assim sendo, está sujeita a mudança. No Japão, por exemplo, a voz tradicionalmente aguda e sussurrante das mulheres é considerada um atributo sexual da maior importância. (Durante uma pesquisa de opinião pública, a maioria dos homens japoneses respondeu que considerava "a voz" o atributo sexual mais importante.) Embora sejam treinadas para falar com tons mais agudos, as mulheres japonesas, assim como suas irmãs em grande parte do mundo, falam em tons mais graves na ausência de homens. São até capazes de modificar a linguagem que usam. Por exemplo, as fitas de um grupo de colegiais japonesas, gravadas por um jornalista, foram motivo de escândalo no país: elas usavam verbos e terminações de palavras masculinos num país onde a língua é formalmente dividida em masculino e feminino. Sendo assim, é possível que os homens japoneses achem as vozes agudas atraentes não pelo que são em si e sim pela promessa da tradicional subserviência que elas contêm. Algumas mulheres americanas também cultivam vozes agudas, mfantis ou sussurrantes à Ia Marilyn Monroe. Muitas vezes, sabe-

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mos que uma mulher está ao telefone com um homem porque sua voz fica mais fina — assim como a dele se torna mais grave. Um estilo vocal infantil ou "feminino" torna-se uma desvantagem, no entanto, quando uma mulher tenta assumir um papel adulto, ou um papel de poder. A televisão manteve as mulheres longe de seus noticiários durante muito tempo alegando que suas vozes eram agudas demais, irritantes demais e sem autoridade alguma para dar credibilidade às notícias a serem dadas. Até hoje, as vozes femininas são consideradas mais apropriadas para as notícias de interesse humano, para as notícias "leves", enquanto os homens ainda anunciam as notícias "sérias". Nos primórdios da televisão, as mulheres podiam apresentar o boletim meteorológico, desde que de forma bastante sexy. Quando a meteorologia em si e os mapas meteorológicos entraram em voga, no entanto, a maioria dos canais trocou as mulheres por homens. Oitenta e cinco por cento das vozes usadas em anúncios televisivos é de homens. Até mesmo quando o produto anunciado é destinado às mulheres. Mesmo se tratando de ceras e detergentes, a voz da perícia e da autoridade é provavelmente masculina. A longo prazo, os homens podem sofrer mais com as restrições culturais em relação ao tom de voz do que as mulheres. O estudo da lingüista Ruth Brend sobre modelos de entonação de homens e mulheres nos Estados Unidos revelou que as mulheres usam quatro tons diferentes na oratória normal. Os homens usam apenas três. Esta diferença não é resultante de uma fisiologia diferenciada, pois os homens possuem à sua disposição quatro tons. O que acontece é que eles raramente usam o mais agudo de todos. Assim, as mulheres podem falar com os tons mais agudos que possuem e com os mais graves com algum grau de aceitação pública mas os homens usam apenas os mais graves. É aceitável bajular a classe dominante através da imitação de seu modo de falar, assim como é aceitável que as mulheres vistam calças compridas e que os negros falem e se vistam como os brancos do establishment. Mas é menos aceitável que homens vistam roupas femininas, que brancos adotem o linguajar dos negros e um estilo "de rua" ou que os homens imitem ou pareçam as mulheres. (Exceções da classe alta, tais como as apresentações de travestis promovidas pelo Hasty Pudding Club da Universidade de Harvard ou pelos ricos homens do Bohemian Grove da Califórnia,

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parecem indicar que até mesmo para ridicularizar o sexo feminino é necessária uma certa segurança financeira. Tais coisas são bem menos passíveis de acontecer em boliches e bares da classe trabalhadora.) Ao pagarem o preço da masculinidade, os homens, como grupo, estão perdendo a variedade de seu linguajar, assim como a habilidade de expressar uma ampla gama de emoções. Sem contar o fato de uma maior proporção de sons monocárdios usados pelo sexo masculino ser penosa para o ouvido público. Da mesma forma, a expressividade física pode ser encarada como "feminina". As mulheres podem ser vivazes. A nós é permitida uma variedade bem maior de expressões faciais e de gestos. Os homens precisam ser como pedras. Muitos homens emotivos e expressivos sentem-se certamente aprisionados por uma crença como esta. O lado negativo disso tudo é que esta maior gama de expressões femininas é usada para ridicularizar as mulheres e tachá-las de emocionalmente instáveis. Esta triste observação foi feita por Nancy Henley
em Body Politics: Power, Sex and Nonverbal Communication [A política

do corpo: poder, sexo e a comunicação não-verbal]. "A expressividade facial feminina", ela explica, "foi dada uma gama de possibilidades muito maior do que à dos homens, incluindo no estereótipo dos sexos não só as expressões agradáveis, como também as negativas, como o choro." Os homens são encorajados a evitar o choro e outras expressões de sua emoção, na infância. As mulheres, que mantêm a habilidade humana de chorar, são constantemente comparadas às crianças. Não obstante, esta maior expressividade feminina nos permite reconhecer expressões físicas quando as vemos. Henley cita um estudo que demonstra que mulheres de todas as raças e homens negros identificam indícios emocionais não-verbais com mais facilidade do que os homens brancos. As mulheres não são tão prisioneiras da máscara petrificada necessária para manter o controle e têm mais necessidade, como forma de sobrevivência, de prestar atenção. Resumindo, as mulheres precisam afirmar e expandir sua expressividade mas os homens estão abrindo mão de uma das melhores maneiras de captar e de enviar sinais para o resto do mundo.
Não podemos trocar nossas cordas vocais (nem as nossas nem as deles), mas podemos nos certificar de que as mesmas estão sendo bem usadas. Tente gra-

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var mulheres conversando entre si e depois grave estas mesmas mulheres conversando com homens. E uma excelente maneira de descobrir se estamos emitindo dicas tonais no estilo "gueixa". Algumas mulheres negligenciam seus tons de voz mais graves. Outras, especialmente quando tentam ser levadas a sério, compensam um suposto excesso de emoção restringindo-se a sons monocárdios "razoáveis". Os homens também mudam sob pressão de uma prova gravada: vê-se o contraste, por exemplo, de seu enfado quando conversam entre si e sua expressividade quando conversam com crianças. Muitos atores, homens e mulheres, são testemunhos vivos do quanto e com que rapidez — com esforço, exercício e liberdade — um tom de voz pode mudar. O mais importante de tudo é lembrar-se de que não há nada de errado com as vozes femininas. Não há assunto ou emoção que elas não consigam expressar. Isto é da maior importância para mulheres-símbolos. As primeiras mulheres a entrarem nas faculdades de direito e de administração, nas salas de diretorias ou nas linhas de montagem, contam que o som de suas próprias vozes é sempre um choque — o que é na verdade uma enorme barreira para respondermos às perguntas em sala de aula, para defender esta ou aquela política ou participar de discussões nos sindicatos. Pode levar algum tempo para que as palavras ditas numa voz feminina sejam levadas a sério, mas o fato das cabeças se voltarem para ver de onde vem aquele som tão incomum é também um tributo à dona, vista como uma corajosa pioneira. A invenção das câmeras de vídeo é uma grande descoberta para a compreensão e para a transformação de nossas expressões não-verbais. Assistir às provas incontrovertíveis de como nos comunicamos com os outros pode ser mais útil do que anos de análise. Muitos homens e meninos se beneficiariam enormemente de exercícios de expressividade tais como mímica ou a comunicação com crianças. Mulheres e meninas podem libertar seus movimentos através dos esportes, podem fazer um esforço consciente para ocupar mais espaço, sentadas ou de pé, e para usar a linguagem corporal que usamos apenas quando nos sentimos à vontade, na companhia de outras mulheres. Muitas de nós tirariam grande proveito de assistir às apresentações de transformistas e, assim, aprender as muitas maneiras com que nós mesmas fomos treinadas para ser transformistas.

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A questão não é se o estilo cultural de um dos sexos é ou não superior ao outro. O atual estilo "feminino" pode ser mais indicado para, digamos, as artes cênicas, para os diagnósticos médicos e para a resolução de conflitos. Este estilo aperfeiçoou a expressividade emocional, a atenção com o ato de ouvir e uma forma especial de deixar o adversário com sua dignidade intacta. O atual estilo "masculino" é mais indicado para, digamos, a instrução de procedimentos em geral, para equipes cirúrgicas e para outras situações que exigem um comando hierárquico, sem contar para entrevistas de emprego. Este estilo aperfeiçoou o pensamento linear e abstrato, os comandos que exigem rapidez e disposição para falar de si mesmo ou de apresentar opiniões com segurança. Mas nós jamais atingiremos a gama completa de expressões humanas se as mulheres imitarem o "estilo" do homem adulto. Precisamos ensinar tanto quanto aprender. Um ataque feminista à política de falar e ouvir é um ato radical. É uma forma de transformar a barca cultural na qual a comunicação instantânea e a mudança antropológica a longo prazo ocorrem. Ao contrário da palavra escrita, ou das imagens visuais, ou qualquer forma de comunicação que se divorcie de nossa presença, falar e ouvir não permite que nos escondamos. Não há página neutra, imagem, som ou mesmo substantivos sem gênero para nos proteger. Exigimos sermos aceitas e compreendidas por todos os sentidos e para todo o nosso ser. E é precisamente isto que torna a mudança tão difícil. E tão importante. — 1981

A Política da Alimentação

Para grande parte da metade feminina do mundo, a comida é o primeiro sinal de nossa inferioridade. E através dela que percebemos que nossas próprias famílias consideram o corpo feminino menos merecedor, menos necessitado e menos valioso. Em muitos países pobres, as mães amamentam os filhos durante dois anos ou mais, especialmente diante da escassez ou da incerteza de um outro tipo de alimento. Enquanto isto, as filhas são amamentadas metade do tempo ou até menos.
0 que ocorre na mente de uma menina a quem é negado o corpo da própria mãe ou na mente do irmão com quem o mesmo não ocorre?

Na índia, ou em outros países onde os pobres são levados a decisões muitas vezes dolorosas, o infanticídio feminino ocorre, muitas vezes, por meio da negação de uma alimentação quase inexistente e do tratamento médico. Esta prática é tão comum que a proporção de oito mulheres para cada cem homens é normal em algumas partes do país. Segundo os economistas, a escassez aumenta o valor de um artigo. Esta regra, no entanto, não parece se aplicar quando o artigo em questão é a mulher. E esperado das mães que têm meninas, por mais debilitado que seja o seu estado de saúde, que tenham filhos e mais filhos até gerarem um macho. As famílias dos noivos continuam a exigir da família da noiva um dote. Se alguém parece pagar o preço da escassez é a própria mulher. As noivas podem ser seqüestradas de bairros vizinhos. O peso de ter filhos pode ser aumentado pelo fato dos irmãos do marido não terem esposas. A crença cultural de que uma mulher vale menos do que um homem é tão enraizada que muitas mulheres a aceitam e a perpetuam. "A distribuição de comida dentro de uma família surge de uma autoprivação deliberada por parte das mulheres", foi a conclusão de um estudo sobre nutrição realizado na índia em 1974. Isto se dá "por-

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que elas acreditam que os membros produtivos da família (e os integrantes do sexo masculino que são geradores de riqueza em potencial) valem mais do que aqueles que realizam as tarefas do lar ou que podem gerar filhos. Ambas são consideradas atividades sem valor econômico".
Mas o que acontece com o ânimo das mulheres que não só se privam como também policiam a privação de suas filhas? Até mesmo num país mais

rico e mais bem-afottunado, como os Estados Unidos, nós talvez saibamos mais do que queiramos admitir. Escravas negras e servas brancas eram anunciadas como reprodutoras ou trabalhadoras e também como trunfos por comerem menos do que os homens e por custarem menos do que os homens. Em outros tempos, as fazendeiras das regiões limítrofes, entre civilização e colonização, nos Estados Unidos, serviam os homens e os meninos em primeira mão e com maior abundância. No entanto, o resultado do trabalho braçal que realizavam e do número de filhos que tinham era que a maioria das famílias tinha duas mães. Muitos homens casavam-se duas vezes para substituir a primeira esposa, morta em decorrência de um parto, de doenças ou de excesso de trabalho. Em nossas próprias lembranças estão as esposas e as filhas dos imigrantes que serviam seus pais e irmãos em primeira mão para em seguida comer os restos por eles deixados. Até mesmo hoje, muitas donas de casa guardam o melhor pedaço de carne para "o homem da casa" ou para "os garotos em idade de crescimento" com muito mais freqüência do que para as filhas em idade de crescimento ou para si próprias. Milhões de mulheres que vivem dos fundos previdenciários sobrevivem com uma dieta pobre, basicamente de amidos, que pode causar danos permanentes a seus corpos e aos filhos que trazem na barriga. Mas mesmo assim, a gordura que exibem é interpretada como sinal de indulgência. Mesmo mulheres abastadas aceitam a idéia de que os homens precisam de mais proteína e de mais força. Elas engordam comendo açúcar ou enfraquecem fazendo dieta enquanto preparam maravilhosos pratos para o resto da família. Uma mulher que viva sozinha se predispõe mais a preparar pratos diferentes para um convidado homem do que para uma convidada mulher? E para ela mesma?
Talvez a comida seja o primeiro sinal de respeito — ou da falta do mesmo — com o qual encaramos nosso corpo e o dos outros.

É claro que as mulheres sempre se rebelaram. Deduzimos isto porque conhecemos a nós mesmas. Podemos deduzir isto também

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através dos elaborados sistemas usados para punir as mulheres que se rebelam. Em muitas regiões da África e da Ásia, sérios tabus reservam as maiores fontes de energia e de nutrição para os membros do sexo masculino. Carne vermelha, peixe, aves, ovos, leite e até mesmo algumas frutas e legumes são proibidos para as mulheres em algumas partes do mundo. A explicação para estes tabus é um eufemismo (que a carne vermelha deixará as mulheres "parecidas demais com os homens"), ou então jogam com os maiores medos de uma mulher (que tomar leite destruirá o valor de uma mulher por torná-la estéril), mas estas restrições culturais são muito enraizadas. Algumas estudantes da África mantêm estas restrições mesmo depois de muitos anos vivendo na Europa ou nos Estados Unidos. Outras dizem ter sentido ansiedade e náusea quando se forçaram a comer um ovo ou uma laranja pela primeira vez. Com ou sem tabus, o próprio alimento pode ser usado como castigo e como recompensa. Em muitas culturas, os maridos e os pais racionam a comida, guardada numa dispensa que apenas eles podem abrir. As esposas precisam responder não só pelo que comem, mas também pelo que as crianças e os criados comem. Até mesmo em sociedades mais abastadas, as esposas são treinadas ou recompensadas com o convite para "comer fora" ou então recebem um orçamento muito restrito para a alimentação da família e precisam responder por tudo o que for gasto dentro de casa. Em tempos de inflação, espera-se que as mulheres estiquem um dinheiro cada vez mais escasso com uma engenhosidade jamais vista. Quando o preço dos alimentos subiu vertiginosamente nos anos setenta, um estudo de famílias da Grã-Bretanha demonstrou que 75 % dos maridos não aumentaram a soma destinada às compras para a casa. Não é de se estranhar que a comida tenha se tornado o fator de identificação número um para as mulheres. Algumas culturas vão além de controles externos. Em algumas sociedades tribais da Etiópia, o ingresso de uma menina na idade madura e na idade matrimonial é marcado pela extração de diversos dentes cruciais, um ritual realizado em nome da beleza mas que dificulta, permanentemente, o consumo dos disputadíssimos cortes de carne. Um sorriso banguela é considerado feminino, assim como as pesadas tornozeleiras que as mulheres usam a partir da puberdade. (Pense também nos pezinhos amarrados das chinesas das classes altas.) Nestas mesmas tribos, os enfeites masculinos se resumem a

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pinturas corporais ou a cabeleiras ornadas com barro e tranças — nada que restrinja os movimentos, a alimentação ou a liberdade. Privar as mulheres de uma nutrição igual aumenta a oferta de alimento para os homens e diminui a energia de rebelião das mulheres e das filhas. Mas como ocorre em qualquer tipo de opressão, a longo prazo, torna-se uma tática perigosa. Para todos. Mulheres mal alimentadas dão à luz crianças menos saudáveis: tanto do sexo masculino quanto do sexo feminino. Mesmo as culturas nas quais a mulher grávida é recompensada com uma alimentação mais rica, isto raramente remedia os danos já causados em nome da política sexual. Em casos extremos, um alto índice de mortalidade infantil, o subdesenvolvimento do cérebro do feto e doenças relacionadas à deficiência de proteínas são resultantes da má nutrição da mãe. E nenhum destes problemas escolhe o sexo que irá afetar. Não precisamos olhar muito além de nossos próprios quintais para encontrar um índice de mortalidade infantil e uma deficiência de proteína que ultrapassa os de outras nações industrializadas. Os Estados Unidos estão produzindo gerações de uma subclasse empobrecida. E no entanto a resistência política a cupons de alimentação, a somas adequadas para as pensões previdenciárias e mesmo a programas de alimentação restritos às crianças, às gestantes e às mulheres que ainda amamentam ainda é crescente. Assim como a resistência a programas de treinamento profissional, a creches e a multas por discriminação sexual no trabalho, que representam formas de apoio às mulheres e a seus filhos. A curto prazo, a desculpa usada para não investir nas áreas citadas acima é econômica. Precisamos economizar. No entanto, este argumento jamais é apresentado quando a palavra de ordem é aumentar os gastos militares. A perda certa e imediata do potencial de um ser humano é considerada menos importante do que a possível perda de uma superioridade militar. E isto nos faz pensar: Será que o medo, consciente ou inconsciente, de uma mulher independente é tão grande que poderá levar nossos líderes pró-família a optar pela dependência feminina acima dos interesses nacionais a longo prazo? Será que são capazes de usar o exemplo da mulher pobre — ou de qualquer mulher que não consiga sobreviver sem a boa vontade e sem a proteção dos homens — como um lembrete constante para nos manter na linha?

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Mas as mulheres podem, sem dúvida, aprender através da política da alimentação que os interesses próprios não são tudo. As vezes o único caminho é a rebelião.

Os fatos nos convencem da necessidade de nos rebelarmos. O Mito. Homens precisam de mais comida e de uma alimentação mais bem balanceada porque trabalham mais. O Fato. Segundo a ONU, as mulheres realizam um terço do trabalho remunerado em todo o mundo e dois terços de todo o trabalho, remunerado ou não. Em sociedades industrializadas, tais como os Estados Unidos, as donas de casa trabalham mais do que qualquer outro grupo de trabalhadores: uma média de 99,6 horas por semana. Na América Latina, as mulheres compõem pelo menos 50% do trabalho no campo e até mesmo 90% na África e na Ásia. Em muitas sociedades, como a nossa, a maioria das mulheres possui dois empregos, dentro do lar e fora, enquanto os homens possuem apenas um. O Mito. Considerando a fome e a desnutrição sofrida por grande parte do mundo, é um equívoco enfocar a forma de distribuição dos alimentos. A primeira e única questão deveria ser como produzir mais comida. O Fato. A terra já produz alimento bastante para todos os seus habitantes. As políticas de distribuição são o maior motivo para a existência da fome. Segundo estudos concluídos pela Fundação de Nutrição da Suécia, e outros grupos, há alguns anos, o uso do alimento e da fome como arma política é ainda mais destrutivo do que a guerra bacteriológica ou do que as armas que atingem a todas as pessoas de maneira igual. Isto ocorre justamente porque restringir a alimentação afeta, em primeiro lugar, gestantes, mulheres que amamentam e crianças. 0 Mito. Não existe uma atitude consistente com relação às mulheres. Algumas culturas gostam de mulheres roliças enquanto outras gostam de mulheres magras. E tudo uma questão de preferência pessoal e estilo. O Fato. O que é raro e possuído apenas pelos poderosos é cobiçado como símbolo de poder. Assim, nas sociedades pobres, onde há falta de alimentos, o ideal de beleza feminino é roliço, por estar disponível apenas para as classes mais altas. Paxás, chefes de tribos africanas e os barões da economia americana engordavam suas mulheres a força para usá-las como testemunho de sua riqueza. Em sociedades mais bem afortunadas, nas quais as mulheres engordam de tanto comer amidos

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e açúcares, as magras são artigo raro e invejado. Não obstante, os denominadores comuns são a fraqueza, a passividade e a falta de força. Ricas ou pobres, a beleza feminina é equacionada com a subserviência aos homens. Mulheres de classes mais baixas, que realizam trabalhos braçais e desenvolvem algum grau de força, são levadas a invejar esta fraqueza. As camponesas do Oriente Médio invejavam a proteção e a restrição dos véus usados pelas mulheres de propriedade dos homens mais ricos da sociedade e, assim, passaram a imitá-lo. Operárias das fábricas americanas, assim como as mulheres do campo, talvez invejem a magreza e a artificialidade das ricas. Para aquelas que desempenham um papel duplo, que possuem um trabalho remunerado e ainda cuidam dos filhos, uma vida como reprodutora e anfitriã de um homem de posses pode parecer algo desejável, em comparação. A liberdade é algo a ser imaginado. Mas graças às contagiantes idéias do feminismo, as imaginações vêm funcionando em tempo integral. Mulheres pobres exigem uma forma prática de controlar os inúmeros partos que colocam suas vidas em perigo assim como uma melhoria da alimentação tanto da mãe quanto do bebê para fazer com que aquele número reduzido de crianças seja mais saudável e tenha mais chance de sobreviver. O enfoque principal das mulheres de países mais pobres e agrícolas é também importante para as pobres de países industrializados como os Estados Unidos. Talvez até saibamos que as mulheres das camadas mais pobres do país ainda não têm acesso ao controle de natalidade e a abortos seguros. Mas será que sabemos que médicos africanos em treinamento diagnosticaram kwashiorkor, doença que provoca o amarelamento da pele e aquela barriga inchada tão típica do quadro de fome africano, nos centros das cidades americanas? Nós, mulheres, só precisamos de força — de saúde, de músculos, de resistência — se quisermos mudar o mundo.
Será que pensamos nisto quando pensamos em beleza? Ou desejamos calorias vazias? Ou passamos nossa política alimentar para nossos filhos e irmãs mais novas?

Vamos precisar de muito alimento para fazer crescer a mais longa revolução do mundo. — 1980

Criando Redes

Se você sair viajando por este país não terá como escapar: nos anos oitenta e noventa, a criação de redes é o que a conscientização foi nos anos setenta. E a forma principal de nós mulheres descobrirmos que não somos loucas, e sim o sistema. E a forma, também, de descobrirmos que grupos de apoio mútuo podem provocar mudanças que até as mulheres mais corajosas não conseguiriam sozinhas. Se nós já passamos pela conscientização (ou pelo clube do livro feminista, pelos grupos de apoio às mães — ou qualquer que seja o nome que damos para a célula revolucionária de nossas vidas), então as redes de mulheres, formadas em torno do trabalho ou de qualquer outra questão que atinja a todas, talvez apóie o próximo passo lógico para nosso ativismo e aprendizado. Se não usufruímos das preciosas revelações, capazes de preservar a sanidade de qualquer uma, que surgiram (e ainda surgem) em tais grupos de conscientização, então a discussão de nossas verdades pessoais dentro dessas redes talvez produza revelações similares e nos dê um apoio parecido. Mas há um problema. Ao contrário dos antigos grupos de conscientização, as novas redes são freqüentemente encaradas como uma imitação das táticas do establishment. Algumas realmente excluem mulheres malsucedidas em vez de derrubar barreiras para as mulheres como um grupo, mas muitas sofrem de problemas relacionados à imagem e outros problemas provenientes do termo em si. Redes ou mesmo redes das velhas garotas evocam ecos dos antigos clubes dos velhos garotos. Embora a conscientização também seja derivativa, como conceito, suas referências incluem a "amargura verbal" da Revolução Chinesa, os "testemunhos" do movimento de direitos civis negros, os grupos de apoio dos Alcoólatras Anônimos e outros modelos de transformação. As redes podem invocar o status quo. Isto é, até você colocar o "de mulheres" logo a seguir. E até você

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se dar conta de que "rede" pode ser usado genericamente para incluir qualquer coisa, de alianças nacionais especializadas tais como o National Women's Health Network (Rede Nacional de Saúde da Mulher) ou o Feminist Computer Technology Project (Projeto Feminista de Tecnologia de Computadores) ou locais de intercâmbio tais como o Fórum das Mulheres, em Nova York ou o Fórum de Mulheres Executivas, na Filadélfia. Na psicologia da nomeação, tenho notado que as redes que exibem Fórum no título parecem ser as mais elitistas, enquanto aquelas que incluem termos tais como Grupo de Apoio ou Comitê eleitoral parecem ser as menos elitistas. As redes locais, que incluem entre seus membros as mais bem-sucedidas profissionais de uma dada ocupação, tendem a considerar o status ingrediente imprescindível, enquanto as redes que se organizam em torno de uma questão ou de uma instituição específica tendem a incluir todas as mulheres afetadas por aquilo. O mais importante é o uso constante, por parte das mulheres, do termo rede como verbo, formar redes, e não como um substantivo isolado. É um processo, e não o produto final. Neste sentido, formar redes torna-se algo solto e lateral, um contraste com o estilo fechado e hierárquico das contrapartes masculinas tais como associações profissionais, ordens fraternais, diretorados e as próprias redes dos velhos
garotos.

Para ser sincera, no entanto, há um problema de conteúdo, ou seja, um problema com as realizações práticas das redes. Quando suas organizadoras dependem de empregos em atividades de domínio primordialmente masculino, as redes passam por fases dolorosas nas quais a aprovação passa a ter enorme importância. Assim, crêem que o melhor mesmo é portar-se como "boas meninas". Ou seja, ao limitarem-se à definição mais restrita de "questões trabalhistas", ao evitarem identificar-se com outras mulheres como grupo, ao evitarem o uso de palavras como "feminista" e ao negarem apoio às questões aparentemente "não relacionadas" tais como o Equal Rights Amendment — ERA, emenda da constituição americana que exigia direitos iguais para as mulheres — e a liberdade reprodutiva, todas as oposições do establishment desaparecerão. Normalmente este estágio dura pouco. Quando o dinheiro e o poder estão em jogo, a maioria das "boas meninas" logo descobre

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que a oposição permanece firme e forte. Até mesmo a visão de uma mesa cheia de mulheres almoçando juntas já é o bastante para balançar chefes homens. Quando Mary Scott Welch formulou uma descrição de redes bem-sucedidas, formadas pelas mulheres da Equitable Life Assurance e as United Storeworkers, ela também relatou histórias de empregadores menos iluminados que rasgavam avisos de reuniões e enviavam "espiãs" para comparecer a reuniões um tanto inocentes. A timidez e a conformidade das mulheres em algumas redes ligadas às atividades profissionais é alarmante. Talvez seja este o perigo inevitável de uma organização que gire em torno de empregos dos quais dependemos mas que não controlamos. Este comportamento cuidadoso é com freqüência condenado por outras mulheres como sendo imitativo do sexo masculino (o que não quer dizer que as mulheres estejam procurando a aprovação masculina e não a feminina), quando na verdade trata-se de um comportamento culturalmente muito feminino. Um grupo análogo, masculino, ficaria bem menos preocupado com a simpatia e com a aprovação ao lidar com um empregador poderoso, e estaria bem mais propenso a procurar o poder coletivo. Pobres, negros, latinos e outros grupos de homens discriminados parecem conseguir identificar seus interesses próprios com mais facilidade do que a maioria das mulheres, qualquer que seja a raça destas. É difícil imaginar uma organização de executivos de imprensa, judeus, que não apoiasse sua inclusão na constituição americana, por exemplo. É difícil também imaginar um repórter negro que se recuse a se associar à National Association for the Advancement of Colored People (Associação Nacional para o Progresso das maiorias raciais), porque precisasse demonstrar objetividade no que diz respeito aos eventos relacionados ao racismo. E no entanto, recentemente, reuni-me com um grupo de sofisticadas mulheres da imprensa nova-iorquina, quase todas extremamente feministas, que "furaram" o boicote pró-ERA aos estados que se recusavam a ratificar a emenda. Estas mulheres compareceram a uma reunião de negócios organizada em um destes estados sem nem ao menos protestar. E uma das mais proeminentes mulheres da televisão americana, que se diz feminista, insiste que não pode contribuir para grupos pró-igualdade, que não pode nem mesmo se juntar ao National Organization for Women por precisar narrar eventos antiigualdade. Ainda há re-

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des de profissionais mulheres que discutem se devem ou não incluir a controversa palavra mulheres no nome de seus grupos. Por motivos tristes, embora óbvios, as mulheres (especialmente mulheres brancas, seduzidas pelo acesso aos poderosos) formam o único grupo discriminado cujos membros parecem acreditar que, se não se levarem a sério, outra pessoa o fará. E quanto ao acesso, podíamos ouvir os valiosos conselhos de Carolyn Reed, líder do National Committee on Household Employment (Comissão Nacional do Emprego Doméstico): "Como trabalhadora do lar, eu jamais confundi acesso com influência." Os problemas das redes devem servir para acautelar, não para desencorajar. Carol Kleiman descreve centenas de grupos variados e bem-sucedidos no livro Women's Networks: the Complete Guide to Getting a Betterjob, Advancingyour Career and Feeüng Great as a Woman Through Networking {Redes de mulheres: o guia completo para conseguir um emprego melhor, progredir em sua carreira e sentir-se ótima como mulher através da formação de redes]. Quer estejam organizadas em torno de alcoolismo ou arquitetura, estudos do feminismo ou contra a violência, elas tendem a incluir, de forma pouco convencional, mulheres que compartilham dos mesmos interesses sem barreiras de raça, idade, sexualidade, invalidez ou instrução. Normalmente, tentam inventar estruturas abertas e táticas flexíveis para progredirem individualmente e para ajudar suas irmãs a progredir. Na verdade, há diferenças reais e funcionais entre redes incumbentes, que tentam proteger o poder, e redes insurgentes, que fazem o possível para dividi-lo. Talvez déssemos mais valor às irmãs que formam redes se compreendêssemos o valor, para nossa própria sobrevivência, de termos um território feminino como este se tentássemos especificar e honrar as seguintes distinções: As mulheres tendem a definir o poder de forma diferente. Dadas as noções de masculinidade, a natureza hierárquica das corporações e a prevalência da riqueza herdada, as tradicionais definições de poder têm muito a ver com a habilidade de dominar outros e de se beneficiar, indevidamente, de seu trabalho. Isto é algo extremamente distante da meritocracia que o establishment prega, e não leva a uma estrutura e competição muito democráticas. Na verdade, excluindo os herdei-

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ros das grandes fortunas e os gestores de investimentos de um porte tal que não ter lucro é até um desafio, a maioria das redes dos velhos garotos seriam dizimadas. Estou sendo otimista ao supor que os empresários sobreviveriam, mas as responsabilidades iguais pela criação de seus próprios filhos também os demoveriam de seus cargos. Por outro lado, as mulheres vêm definindo poder como a habilidade de usar seus próprios talentos e de controlar a própria vida. Quando nos sentimos tentadas a agir de maneira tradicionalmente considerada dominadora, conforme definição do poder vigente, os castigos culturais por um comportamento tão "pouco feminino" são tão grandes que tendemos a voltar atrás, até mesmo quando a situação não nos é favorável, lançando mão da culpa e da manipulação silenciosa. Muitas vezes, a utilização do poder pelas mulheres é tão diferente que consultores da área de gerenciamento vêm estudando o estilo administrativo feminino como fonte de um maior cooperativismo e colaboração no trabalho. Por exemplo, o hábito de dizer, "Isto precisa ser feito" em vez do habitual "Você tem de fazer isto" ou então aceitar elogios por um trabalho bem-feito mencionando o nome de todos que contribuíram para o projeto. Até mesmo nossa lamentadíssima e destrutiva inabilidade de delegar tem seu lado positivo. Podemos acabar trabalhando tanto ou mais do que nossos funcionários, o que já é, em si, um enorme exemplo de liderança. É óbvio que precisamos aprender o lado útil de um estilo mais hierárquico, mais "masculino". Mas nossa necessidade não é maior do que a dos homens de aprender o lado útil do nosso estilo. Quando o assunto é conteúdo, a convicção feminina de que o poder deve ser obtido por merecimento (especialmente por mulheres) leva a uma ênfase na excelência, ao conhecimento e ao aprendizado individual. Uma rede de mulheres de alto nível que já ocupam posições em diretorias de empresas reúne-se freqüentemente com o simples intuito de ouvir palestras das melhores economistas e administradoras do mercado. (Elas não faziam a menor objeção em ouvir palestras dos melhores profissionais masculinos destas duas áreas, mas decidiram que eles tendiam à condescendência.) A porcentagem de mulheres do nível gerencial que voltam às faculdades em busca de especialização e treinamento avançado em suas áreas é muito supe-

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rior à de homens que ocupam as mesmas posições, embora as companhias subsidiem os estudos dos últimos com maior freqüência. Quando mulheres trabalham em grupos ou se tornam maioria, em vez de serem dispersadas pelas estruturas existentes, suas diferenças tornam-se mais visíveis. As hierarquias enfraquecem, ficam mais passíveis de se basearem em quem trabalha mais e não num status trazido do mundo exterior. (Até mesmo as poucas redes de profissionais de uma dada área, que usam o salário como critério para as candidatas a membro, normalmente dizem "deveria estar ganhando" — um reconhecimento de que poucas mulheres ganham o que merecem ganhar.) Nas reuniões, o tempo destinado às formalidades ou ao uso de títulos é encurtado para dar mais espaço à louvação daqueles que realizaram um bom trabalho. Talvez o mais notável de tudo seja que estas redes muitas vezes incluam em suas metas aquilo que pouquíssimos grupos do establishment considerariam: alçar outras mulheres ao poder. Como um grupo de imigrantes unido pelo apoio mútuo, as mulheres podem ajudar umas às outras com formas de elocução, com maneiras de aumentar a autoconfiança, com soluções para problemas profissionais, avisos de empregos ou listas de empresas e serviços de propriedade feminina que devam ser usados como forma de apoio à iniciativa feminina. Considerando o fato de termos sido treinadas para procurar a perícia e a autoridade masculina, é uma vitória que tentemos dar poder umas às outras como profissionais ao preferirmos médicas e ginecologistas mulheres (pelas quais, atualmente, a procura é maior do que a oferta), rabinos mulheres e pastoras para cerimonias em grupo, analistas financeiros mulheres quando estamos investindo, afinadoras de pianos mulheres, pilotos de aviões mulheres, seguranças mulheres e carpinteiras para o lar e para o escritório. — Não estamos baixando o padrão ao qual estamos acostumadas — disse uma mulher de Houston, criticada por ter escolhido uma arquiteta para trabalhar para o seu grupo. — Na verdade, é bem capaz de estarmos aprimorando nosso padrão. Podemos afirmar, com base em dados estatísticos, que profissionais mulheres tiveram de se esforçar bem mais do que os homens para chegarem onde estão. Até mesmo as habilidades mais tradicionais passam a ter um novo

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significado. Por exemplo, uma estilista aposentada contribui há anos para o guarda-roupa da deputada que apóia. Uma dona de casa de Minnesota aumenta a eficácia política de Koryne Horbal — ex-representante dos Estados Unidos na Comissão das Nações Unidas sobre a Situação da Mulher — ajudando-a a responder sua prodigiosa correspondência. Cada vez mais encaramos o ato de alçar outra mulher ao poder como uma dádiva recíproca. Isto está muito longe da clássica definição de poder de Tom Wolfe que é "manter todo mundo debaixo do chicote!" Mesmo quando as redes de ativistas começam exclusivas, elas se tornam inclusivas, o que é realmente uma boa tática. Suponhamos que você organizasse uma rede de todas as mulheres vice-presidentes em Los Angeles. Seria interessante e os membros poderiam trocar paralelos úteis. No entanto, não aprenderiam nada de novo sobre suas próprias companhias e, se recebessem auxílio para fazerem alguma jogada profissional importante, seria para darem um passo lateral. Suponhamos então que cada uma destas vice-presidentes fizesse parte de uma rede dentro de sua própria companhia, de mulheres hierarquicamente abaixo delas (incluindo a secretária do presidente) e acima delas (incluindo uma integrante do conselho). Torna-se claro que a vice-presidente poderá obter informações da secretária do presidente, além de ter um acesso um tanto incomum a um membro do conselho. Se ela quiser crescer dentro da companhia, terá uma oportunidade maior de saber quais cargos estão disponíveis. Se ela quiser sair da companhia, poderá ter a valiosa recomendação daquela que é membro do conselho. Ao mesmo tempo, o membro do conselho terá tido uma experiência de primeira mão com a companhia pela qual responde legalmente e a secretária, uma possibilidade de promoção e um acesso a pessoas que estão no topo do mundo corporativo. Esse cruzamento de fronteiras tem um valor ainda maior em áreas onde o número de mulheres ainda é pequeno. De acordo com o Departamento de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos, aproximadamente 48% dos empregos são conseguidos através de contatos pessoais. Como raramente integramos as linhas masculinas de comunicação pessoal, é melhor que criemos as nossas.

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No Grupo de Mulheres de Imprensa de Nova York, por exemplo, as mulheres se levantam durante dispendiosos almoços mensais, algo conhecido como "quadro de avisos", para anunciar cargos que precisam ser preenchidos e para elogiar o talento de suas colegas. Como algumas executivas mulheres começaram como secretárias, elas talvez tenham uma melhor compreensão da importância desta ocupação e uma percepção da mesma como um degrau para a promoção e como valiosa fonte de conselhos. "Secretárias sabem de tudo", explicou a associada de uma rede de uma universidade que inclui o corpo docente, as esposas dos integrantes do corpo docente e as funcionárias administrativas e dos refeitórios. "Nós lhes damos respeito, apoio e oportunidades profissionais. Elas nos contam o que realmente está acontecendo." Aqui vão alguns exemplos desta transposição de barreiras: • A esposa de um executivo forçou o marido a aumentar o salário de sua secretária. • Uma funcionária do governo americano, por conta própria, ligou para grupos de prevenção ao estupro para avisar onde havia fundos disponíveis para seu uso. • A riquíssima ex-dona de um jornal e uma antiga oficial do Departamento de Justiça — ambas mulheres das quais se esperaria uma certa distância — protestaram pelo tratamento editorial da revista Savvy para com as secretárias. ("Minha querida", reclamou a ex-dona de jornal, "eles só falam de como conseguir uma boa secretária e não de como tratá-las melhor.") • Diversas feministas negras fizeram lobby junto a deputados brancos e diversas feministas brancas fizeram lobby junto a deputados negros (ambas por concordância mútua) com o intuito de educar os homens a respeito das questões femininas sem que estes se sentissem ameaçados pelas "suas" mulheres. • Uma rede de acadêmicas de alto nível apóia, apesar de um certo risco profissional, um processo por discriminação sexual

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movido contra a Cornell University pelas mulheres de seu corpo docente. • Um pequeno comitê eleitoral feminino de uma enorme organização política da Califórnia fez um lobby interno e conseguiu que parassem de apoiar candidatos que se opunham à liberdade reprodutiva. A rede de uma universidade da Costa Leste exemplificou as virtudes táticas deste tipo de diversidade. Em primeira instância as alunas protestaram contra a ausência de ginecologistas nos serviços de assistência médica do campus e até mesmo deixaram de pagar certas taxas cobradas pela universidade. Nada aconteceu. Em seguida, as mulheres do corpo docente passaram meses documentando a existência de um critério diferenciado para a obtenção de promoções na universidade. Nada aconteceu. Finalmente, as telefonistas e outros funcionários que ocupavam cargos mal remunerados no campus pediram aumento. De novo, nada aconteceu. Mas quando estes três grupos formaram uma rede de apoio mútuo e nem mesmo um só telefonema foi recebido ou dado naquela universidade, algo aconteceu: de repente cada um dos grupos obteve pelo menos uma de suas reivindicações. No entanto, as telefonistas teriam sido demitidas se tivessem feito greve sozinhas, sem o apoio dos corpos docente e discente. Alunos e professores, por outro lado, talvez ainda estivessem tentando conseguir que suas reivindicações fossem levadas a sério se não fosse o apoio das telefonistas. Finalmente, a habilidade feminina de construir pontes com suas experiências pessoais beneficia, muitas vezes, os homens. As mulheres da rede de televisão americana CBS organizaram um serviço de empregos e de orientação profissional que os homens, hoje em dia, também usam. Algumas vezes, estas pontes construídas por mulheres são internacionais. O Movimento de Paz Irlandês foi criado por mulheres católicas e protestantes, e mulheres árabes e israelenses ja se reuniam muito antes de Camp David. Já se falou, até mesmo, na criação de uma plataforma comum por feministas americanas, israelenses e da OLP.

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As redes são um território psíquico. As mulheres de todas as raças são o único grupo discriminado que não possui um território próprio, uma nação própria ou mesmo um bairro. Até mesmo homens sem poder podem apontar para algum ponto do globo terrestre, no passado ou no presente, onde tinham autoridade — um lugar para onde ir, mesmo que só na imaginação e sentir respeito próprio. Em seus países, aqueles homens possuem bairros e bares por onde podem transitar, livres. Mas é muito raro que as mulheres tenham o mesmo. Num patriarcado, a casa de um homem, por mais pobre que seja, é o seu castelo. Mas nem mesmo o corpo de uma mulher rica é seu. E por isso que os grupos organizados por e para mulheres são tão importantes. São o nosso território psíquico, um lugar onde poderemos descobrir quem somos, quem poderemos ser como seres humanos completos. Elas nos ajudam a ir além de uma posição secundária na família e no trabalho, a deixar as tirânicas expectativas da sociedade para trás. Elas também nos forçam a desenvolver as qualidades e habilidades que, em grupos mistos, designamos aos homens. Algumas horas por semana, ou por mês, formando um território psíquico poderão nos fazer sentir que não estamos sozinhas. Podem fixar uma nova realidade em nossas mentes, numa era em que os líderes nacionais e os jornais estão cheios de suposições quanto a "o que a maioria dos americanos quer" ou mesmo quem esta maioria de americanos é. Mas nossa necessidade pode ir mais fundo do que a necessidade de um território próprio. Como muito poucas de nós crescemos com mães que tiveram poder, muitas vezes nos sentimos sem mãe. Talvez, sentindo a liberdade e o apoio destes grupos organizados por e para mulheres, estamos nos tornando mães umas das outras. Se for assim, esta é uma necessidade que também transpõe fronteiras. Devaki Jain, uma respeitada economista indiana e amiga de longa data, passou os últimos vinte anos trabalhando como feminista em áfeas como planejamento familiar, assistência médica e empregos. Embora todas estas áreas sejam de grande importância, ela concluiu que o maior fator para o progresso de uma mulher é o seguinte: um grupo organizado por mulheres, que se encontre fora de seu contex-

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to familiar ou profissional; que haja pelo menos uma estrutura na vida de cada mulher que seja livre para as mulheres. Na Índia, esta estrutura pode ser uma cooperativa de artesãs ou uma rede social, um grupo de mulheres que conversam ao lado do poço onde pegam água ou uma associação profissional. Mas sem esta fonte de confirmação e de apoio mútuo, as mulheres raramente sentem-se confiantes o bastante para fazer valer os direitos que já possuem, e muito menos fortes o bastante para exigir mais. Em algum canto de nossas vidas, todas nós precisamos de um lugar livre, de um território psíquico. Você tem o seu? — 1982

Transexualismo

'No ginásio, eu tentei jogar basquete e tentava agir como um menino. Foi desastroso... Sou mulher há três anos e minha vida é incrivelmente satisfatória." — transexual feminino "Desde que me entendo por gente, eu tinha a fantasia de ser homem... A cirurgia foi um milagre... Minha namorada depende da minha força." — transexual masculino

Desde que um oftalmologista que jogava tênis chamado Richard Raskind submeteu-se a uma cirurgia genital, a uma terapia hormonal e a uma mudança no guarda-roupa e tornou-se uma oftalmologista que joga tênis chamada Renee Richards, o transexualismo tornouse fato na consciência pública. Ao contrário de Christine Jorgensen, que fez a mesma jornada transexual e escreveu um livro a respeito nos anos cinqüenta, Renee Richards chegou em meio a uma onda nacional de feminismo que desafiava tanto a justiça quanto as bases biológicas dos papéis sexuais. Ao contrário de Jorgensen, portanto, Richards não só é tratada como uma exceção bizarra como também um exemplo de troca dos papéis sexuais (e portanto uma assustadora insistência de onde o feminismo pode levar), ou como uma prova viva de que o feminismo não é necessário. Afinal, se um homem quer tanto ser mulher, por que é que as mulheres que nasceram mulheres não estão satisfeitas com o que têm? Acima de tudo, Richards foi recebida com publicidade e com surpreendente aceitação. Embora eu tenha certeza de que ela sofreu com o escárnio e com a atenção do público, o número e a identidade das pessoas que a apoiaram é realmente incrível. Tenistas profissio-

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nais e jornalistas esportivos, que haviam lutado com unhas e dentes contra a igualdade para as mulheres no esporte, e principalmente contra um valor monetário igual para prêmios masculinos e femininos, agora se mobilizavam pelo direito de Richards de jogar em campeonatos femininos. Atacavam as jogadoras que se opunham declarando serem elas contra as liberdades civis, más perdedoras ou covardes que tinham medo de perder. O New York Times, ao qual as mulheres pedem para ser tratadas de Ms. e ainda assim são tratadas de Mrs. ou Miss, não só trocou o nome Renee Richards (como o de outros transexuais) como também o gênero de todos os pronomes que se referiam a ela nos artigos escritos a seu respeito. A televisão, assim como outras áreas da imprensa, produziu uma pequena explosão de matérias sobre o transexualismo, embora os primeiros rapazes a desafiar o papel masculino tradicional, recusando-se a lutar no Vietnã, tenham esperado meses, em alguns casos anos, por uma cobertura solidária ou mesmo explicativa. E, finalmente, todas as ativistas que apareciam num programa de entrevistas qualquer eram bombardeadas com perguntas a respeito de Renee Richards. Foi a enorme quantidade de publicidade que me deixou desconfiada. Tratava-se, no mínimo, de uma tática para desviar as atenções dos problemas da desigualdade sexual. Afinal, os cerca de dez mil americanos que se vêem como membros do sexo oposto, além dos cerca de três mil que se submeteram a uma cirurgia transexual, não são o bastante para equilibrar o número de donas de casa que trabalham sem remuneração, ou as que trabalham fora por um salário^ desigual, ou as que sobrevivem dos fundos previdenciários e lutam para criar os filhos. Portanto, quando eu era brindada com as inevitáveis perguntas a respeito do transexualismo, eu simplesmente defendia o direito dela de mudar seu próprio corpo se assim desejasse mas mencionava o fato de ela ser uma exceção e de ter muito pouco a ver com a luta da maioria das mulheres. Quanto mais eu ouvia estas perguntas, no entanto, mais eu me dava conta de que havia uma outra coisa acontecendo. Para princípio de conversa, apenas os transexuais femininos se tornavam famosos. Embora haja mulheres que se submeteram a cirurgias drásticas e tratamentos de hormônio para tornarem-se homens e que divulgaram esta mudança, seus nomes não eram de domínio público. Jorgensen e Richards eram conhecidas em todo o mundo, assim como

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James Humphrey Morris, escritor e ex-oficial do exército inglês que se tornou Jan Morris, o melhor exemplo de transexualismo da Inglaterra. Além disso, as perguntas sobre tênis continham um certo glamour, como se Richards tivesse mudado sua identidade apenas para provar que qualquer homem, mesmo um ex-homem, podia derrotar uma mulher. À medida que eu mergulhava mais fundo nesta questão, descobri que transexuais eram práticos lembretes não só do quão desejável é o papel feminino tradicional como também eram o tipo de transformação sexual que a maioria dos entrevistadores conseguia aceitar e imaginar. Parecia fácil um homem desistir de seu papel superior para se tornar mulher. Assustador era, sem dúvida, mas não era nenhum grande desafio. Para uma mulher, emergir de sua inferioridade e atingir a masculinidade era algo impensável, impossível. Era um feito além de gigantesco. Os homens não estavam prontos para aceitar e encarar uma ex-mulher como igual, mas esperavam que as mulheres aceitassem e se sentissem honradas em ter, entre elas, um ex-homem. As tenistas, no entanto, tinham argumentos bem diferentes. Seria justo terem de enfrentar nas quadras uma pessoa treinada física e culturalmente, durante quarenta anos, como homem? Como os negros que questionaram a justiça de um livro como Black Like Me [Negro como eu}, escrito por um branco que escureceu a pele química e brevemente, as mulheres chamavam atenção para o fato de que a experiência de uma vida não pode ser duplicada porque assim se quer. Por que deveria a seriedade conquistada pelo tênis feminino, a duras penas, ser transformada num circo sensacionalista em função de um transexual? E finalmente, conforme explicou uma tenista: "Se não a deixarem jogar como mulher, talvez deixem que jogue como homem. Assim, uma mulher, mesmo que falsificada, talvez derrote um homem." Mas as provas mais claras vinham dos testemunhos dos próprios transexuais, alguns de partir o coração. Quando comecei a ler a literatura médica e jornalística e a fazer entrevistas, um tema surgiu. Não importava o quão diferentes suas histórias pessoais fossem, ou as suas personalidades. Não importava se suas jornadas eram de homem para mulher ou de mulher para homem, todos diziam estar absolutamente convictos de que suas verdadeiras personalidades lhes haviam sido negadas ou restringidas pelo papel sexual que lhes fora dado ao nascerem. "Eu pensava como um homem", disse um transexual bio-

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logicamente nascido mulher. "Eu me sentia como uma mulher", disse uma transexual biologicamente nascida homem. Numa marcante tese de doutorado, Jan Raymond, especialista em ética médica do Boston College, analisou a fundo as entrevistas feitas com transexuais e constatou que certos temas repetiam-se sem parar. As expressões mais comuns eram a sensação de ter uma mente feminina num corpo masculino, ou vice-versa. Mas, como Raymond demonstrou, "A mente feminina num corpo masculino só faz sentido como conceito numa sociedade que aceita a realidade de ambos". Em outras palavras, transexuais estão dando um valor excessivo ao poder do papel sexual. Para poderem libertar suas verdadeiras personalidades, precisaram mutilar seus corpos cirurgicamente, pois qualquer coisa é válida para conseguir desta sociedade preconceituosa — na qual as menores diferenças, hormonais e genitais, ditam toda uma vida e as personalidades — o direito de ser quem se é, individualmente, como ser humano. Raymond compreende esta esmagadora força da sociedade que faz com que o transexual escolha este castigo para si mesmo, mas chora a perda de indivíduos que talvez pudessem ter se tornado críticos e rebeldes desta sociedade sexualmente estereotipada. Em vez de aceitar a idéia de "uma mente feminina num corpo masculino" através da mutilação do ser físico, eles poderiam desafiar a noção de haver uma mente feminina ou masculina. Talvez pudessem ter mostrado que o sexo é um dos muitos elementos que formam cada indivíduo. Por este motivo, Iam Raymond também critica o meio médico que cresceu em torno da procura (e dos altíssimos honorários) por cirurgias transexuais, além dos tratamentos hormonais de longa duração. Em vez de servir às necessidades reais, sem duvida menos lucrativas, que poderiam fazer uso de suas habilidades cirúrgicas e de terapia hormonal, alguns médicos estão ajudando um grupo de indivíduos em sua tentativa desesperada de se adequar a uma sociedade injusta. Trata-se de um grupo restrito de médicos bem-sucedidos que ela chama de "o império transexual". * E claro que nem toda cirurgia sexual e terapia hormonal é usada para esta finalidade. Crianças nascidas com genitália ambígua são
* Raymond, Jan, The Transexual Empire [O império transexual]. Boston: Beacon Press, 1979-

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salvas pela mesma técnica, assim seus seres exteriores podem se adequar à estrutura cromossomal ou às suas capacidades reprodutivas. Há também os adultos que não poderiam, de outra forma, desempenhar as únicas funções físicas realmente ditadas pelo sexo: a fecundação, pelo homem, e a gestação, pela mulher. De certa forma, os próprios transexuais dão uma contribuição positiva ao provarem que os cromossomos não são tudo. Ao ignorarem esta estrutura interna, que não podem mudar, e enfocando as aparências externas do corpo e a socialização, eles demonstram que tanto homens biológicos como mulheres biológicas possuem, dentro de si, qualidades do sexo oposto e, assim, toda a gama de possibilidades do ser humano. Infelizmente, a imprensa não divulga este lado da questão. Ao contrário, o transexualismo é usado, em grande parte, como um testemunho da importância dos papéis sexuais conforme os dita uma sociedade com imagem, genitais e comportamento "masculino" e "feminino". Mas a questão principal é se alguns indivíduos estão sendo forçados a se mutilarem pelos preconceitos que os rodeiam e se esta automutilação é então utilizada e divulgada para provar a veracidade de tais preconceitos. As feministas têm razão de se sentirem desconfortáveis com a necessidade e com o uso do transexualismo. Mesmo se protegermos o direito de cada indivíduo bem informado de chegar a esta decisão e de ser identificado da forma que ele ou ela desejar, precisamos deixar claro que, a longo prazo, esta não é uma das metas feministas. A questão é que a sociedade se transforme a tal ponto que uma mulher possa "jogar basquete" e que um homem não precise "ser o mais forte". É melhor exteriorizar a raiva e usá-la para transformar o mundo do que prendê-la dentro de si e usá-la para mutilar nossos corpos de forma a se adequarem ao que espera a sociedade. Neste meio tempo, não deveríamos nos surpreender com a quantidade de publicidade e de exploração comercial conferida a um punhado de transexuais. Os tradicionalistas dos papéis sexuais reconhecem um tributo político quando o vêem. Mas a questão permanece: se o sapato não nos cabe, será que precisamos encurtar o pé? — 1977

Por que as Jovens São Mais Conservadoras

Se me perguntassem há uma década ou mais, eu certamente diria que o campus universitário é o primeiro lugar onde se deve procurar por uma feminista ou por qualquer outra revolução. Eu também teria suposto que as mulheres em idade universitária, assim como os homens em idade universitária, estariam muito mais propensos a ser ativistas e a ser mais abertos do que seus pais. Afinal, há uma tradição longa e bem divulgada de revoltas em campus, dos estudantes da França medieval, que sugeriram a "heresia" de que a universidade se separasse da Igreja, às revoltas estudantis anticolonialistas da índia inglesa; dos estudantes que lideraram a revolução cultural da República Popular da China às demonstrações estudantis contra o xá do Irã. Até mesmo nos Estados Unidos, onde a tradição de ativismo estudantil é bem mais restrita, os movimentos populares que pediram o fim da guerra do Vietnã tinham como símbolo os protestos dos campus universitários e a desconfiança de qualquer um com mais de trinta anos. Foi só depois de muitos anos de viagens como palestrante do feminismo que fui compreender que estava errada a respeito das mulheres; ou pelo menos no que diz respeito à ação das mulheres em prol de si mesmas. No ativismo, assim como em tantas outras áreas, eu fora educada para achar que o padrão cultural masculino era a norma ou, então, o único. Se os anos estudantis representavam o pico da rebelião e da abertura às mudanças para os homens, o mesmo deveria se aplicar às mulheres. Na verdade, depois de uma década de ouvir todo o tipo de mulheres — durante palestras ao meio-dia, organizadas por funcionários de escritórios e dadas em meio a lanchinhos tirados de sacos de papel, às conversas que varavam a noite nos centros universitários para mulheres; dos grupos de auto-ajuda dedicados às donas de casa aos comícios universitários — eu já me convenci de que o oposto é, com maior freqüência, verdadeiro. As mulheres devem ser o único grupo a se tornar mais radical com o passar

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dos anos. Embora algumas jovens feministas sejam uma enorme exceção a esta regra, as mulheres, em geral, não se permitem desafiar a política de suas próprias vidas até bem mais tarde. Pensando bem, eu me dou conta de que eu mesma segui este modelo. Os anos que passei na faculdade foram cheios de incertezas e de um conservadorismo pessoal típico de quem busca a aprovação dos outros e tenta se adequar ao papel de adulta e de mulher, quer isto signifique encontrar um homem rico para sustentá-la ou um radical que precise ser sustentado. Não obstante, continuei a acreditar que uma juventude desbravadora e uma velhice conservadora eram a norma para todo o mundo e que eu devia ser apenas um acidente, um caso isolado e digno de culpa. Embora todas as generalizações baseadas na cultura feminina possuam numerosas exceções, e jamais devam ser usadas como desculpa ou muleta emocional, acho que seríamos menos severas com nós mesmas e com outras estudantes, que nos sentiríamos melhor em relação ao nosso potencial de mudança à medida que envelhecemos — e creio também que devamos educar os jornalistas que anunciam a morte do feminismo devido ao fato de seu epicentro não se encontrar nos campus universitários — se nos conscientizássemos do fato de que, para a maioria das mulheres, o tradicional período universitário é uma época cautelosa e pouco realista. Pense bem no seguinte: E possível que, como universitárias, as mulheres sejam tratadas com mais igualdade do que jamais serão tratadas. Em primeiro lugar, por sermos consumidoras. As faculdades ficam extremamente satisfeitas com as mensalidades que pagamos, ou que nossos pais ou o governo pagam por nós. Com as taxas populacionais caindo devido a um maior controle das mulheres sobre o número de filhos que terão, ou não terão, este dinheiro torna-se ainda mais vital para a sobrevivência daquela dada instituição. No entanto, ao contrário de outros consumidores, alunos são transitórios demais para ter poder como grupo. Se nossas mensalidades são pagas pelas nossas famílias, nosso poder torna-se ainda menor. Como jovens mulheres, quer sejamos estudantes ou não, estamos no estágio mais valioso para uma cultura dominada pelo sexo masculino: estamos em nosso ápice como trabalhadoras, como esposas, como parceiras sexuais e como reprodutoras. Isto quer dizer que ainda não passamos pelos eventos que mais

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radicalizam uma mulher: a entrada na força de trabalho remunerada e a descoberta de como as mulheres são tratadas como trabalhadoras; o casamento e a descoberta de que esta também não é uma parceria justa; ter filhos e descobrir a quem cabe criá-los ou não criálos; e a descoberta de que envelhecer é muito mais penoso para as mulheres do que para os homens. Além disso, as novas ambições alimentadas pelo renascimento do feminismo podem fazer com que as mulheres se comportem um pouco como um típico grupo de imigrantes. Ficamos determinadas a provar nosso valor, almejamos a excelência acadêmica e nos preparamos para carreiras interessantes e bem-sucedidas. E mais sacrifícios são feitos para demonstrar novas habilidades e talvez para mitigar as suspeitas de que as mulheres necessitam de mais e melhores credenciais do que os homens. Assim, nosso tempo torna-se reduzido para o ativismo. Na verdade, talvez ainda nem tenhamos consciência de sua necessidade. Indo mais além, o próprio progresso que nos levou a carreiras antes consideradas exclusivamente masculinas, algo considerado revolucionário para as mulheres, pode ser interpretado como sendo conservadorismo e conformismo pelos críticos que observam de fora. Para estes, supondo que o radicalismo masculino seja a medida da mudança, qualquer preocupação para com uma carreira é demonstrativo de "conservadorismo universitário". Na verdade, deixar a faculdade pode ser considerado um ato radical para os homens, mas entrar na faculdade é um ato radical para as mulheres. O progresso se encontra na direção da qual não viemos. Como a maioria dos grupos que acabaram de chegar à cena, ainda precisamos equilibrar nossa fé na instrução e nos diplomas. Por exemplo, a porcentagem de mulheres matriculadas em universidades vem crescendo na mesma proporção que o número de homens matriculados vem caindo. O número de mulheres ingressando nas universidades americanas em 1978 foi, pela primeira vez, maior do que o número de homens.* Esta esperança de se destacar num jogo masculino é, provavelmente, reforçada pelas pressões culturais existentes sobre
*Isto deve-se também ao retorno de mulheres mais velhas às universidades, uma tendência que continua em alta. Em 1990, de acordo com o Centro Nacional para Estatísticas Educacionais, um terço de todas as mulheres matriculadas em instituições de ensino superior tinham pelo menos trinta anos de idade — o dobro, proporcionalmente, do que em 1970, antes do impacto do movimento feminista.

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as jovens para serem "boas meninas" e obedecerem às regras impostas por outrem. Embora saibamos, intelectualmente, que precisamos criar novos jogos, com novas regras, talvez ainda não tenhamos absorvido fatos tais como: a enorme taxa de desemprego entre mulheres com doutorados; a baixíssima média salarial de mulheres de todas as raças com diplomas universitários, se comparado às suas contrapartes masculinas com instrução até o segundo grau ou menor; aquele teto, em nível gerencial médio, no qual até mesmo as formandas das faculdades de administração contratadas com enorme entusiasmo batem suas cabeças depois de cinco ou dez anos no mercado; e as pioneiras, em profissões consideradas não tradicionais para mulheres, que são as primeiras a serem demitidas em tempos de recessão. É triste, mas talvez precisemos sentir pessoalmente algumas destas realidades na pele antes de aceitarmos a idéia de que ações judiciais, ativismo e pressão em grupo terão de acompanhar nossa excelência individual e nossos diplomas recém-impressos. E então chegamos ao feminismo de culpa, em versão estudantil. Se as coisas não correm conforme planejado, a culpa deve ser nossa. Se nossas mães não "fizeram coisa alguma" com a instrução que receberam, elas devem ter sido culpadas. Se não conseguimos estudar com o afinco desejado (afinal as mulheres precisam ser mais bem preparadas que os homens), e ter relacionamentos pessoais e sexuais significativos ao mesmo tempo (porque, segundo dizem, as mulheres precisam mais de um relacionamento do que um homem), então nos sentimos inadequadas, como se cada uma de nós fosse individualmente culpada por um problema cultural. Hei de visitar um compus onde as mulheres não estejam preocupadas com a possibilidade de combinar casamento, filhos e carreira. Ainda hei de pisar num compus universitário onde os homens estejam preocupados com a mesma coisa. E no entanto as mulheres continuam a sofrer de culpa terminal devido a este problema do papel duplo até que os homens sejam encorajados, pressionados ou de alguma forma forçados, individual e coletivamente, a se integrarem as "tarefas femininas" de criar os filhos e de cuidar da casa. Até então, e até que mudem os modelos profissionais para permitir a pais e mães serem responsáveis pelos filhos de maneira equivalente, as crianças vão continuar a crescer com a idéia de que apenas as mu-

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lheres podem ser atenciosas e carinhosas e que apenas os homens podem ser intelectuais e ativos fora do lar. E assim, cada uma das metades do mundo continuará a limitar seu completo potencial como ser humano. Finalmente, há aquele treinamento político, interior, que atinge as mulheres na adolescência e aos vinte e poucos anos: as incontáveis formas de lavagem cerebral às quais somos submetidas para acreditarmos que precisamos de um homem ao nosso lado para possuirmos uma identidade. Isto ocorre tanto em nossas vidas pessoais como em nossas vidas profissionais e o oposto, o fato de homens dependerem de uma mulher para terem identidade, é um tanto infreqüente. Afinal, se vamos entrar num sistema matrimonial legalmente projetado para uma pessoa e meia, se vamos nos submeter a uma economia na qual uma mulher ainda ganha 59 centavos para cada dólar ganho por um homem,* e se vamos trabalhar principalmente em atividades de apoio e como assistentes, ou como co-diretoras e vicepresidentes, então precisamos ser convencidas de que não somos seres completos sozinhas. Para se certificarem de que nos perceberemos como meias pessoas e que continuemos viciadas na obtenção de uma identidade através dos serviços que prestamos aos outros, a sociedade faz de tudo para transformar as jovens em "viciadas em homens"; isto é, seres viciados na presença e na aprovação masculina. Tanto profissional como pessoalmente, precisamos de um homem ao nosso lado, tanto no sentido figurado quanto no sentido literal, quer seja no trabalho, aos sábados à noite ou por toda a vida. (Se os homens se dessem conta de que não faz a menor importância quem é este homem, compreenderiam que este vício também os despersonaliza.) Considerando o perigo que representa, para uma sociedade dominada por homens, se as jovens deixassem de absorver esta mensagem política, não é à toa que aquelas que tentam abandonar o vício — e, pior, as que tentam ajudar outras mulheres a abandoná-lo — provavelmente serão tratadas como estranhas ou como perigosas por todos, dos pais aos colegas. Quando toda essa pressão mistura-se com pouca experiência, não
*Segundo as estatísticas mais recentes do Departamento de Estatísticas Trabalhistas, de 1992, as mulheres estão ganhando 72 centavos para cada dólar ganho por um homem.

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é de se estranhar que as jovens estejam menos propensas a apoiarem-se mutuamente. Até mesmo aquelas que advogam metas feministas evitam o rótulo de "feminista". É válido querer remuneração justa, igual à dos homens, para si própria (uma pequena reforma tomaria conta disso), mas não é válido querer remuneração justa e igual à dos homens para as mulheres como grupo (o que implicaria uma verdadeira revolução econômica). Algumas se escondem por trás de obsessões profissionais individualizadas como forma de evitar a perigosa descoberta da experiência em comum com outras mulheres, como grupo. Outras se escondem por trás de um cômodo "Eu não sou feminista, mas..." Há ainda outras que se tornam politicamente ativas, mas apenas em questões que suas contrapartes do sexo masculino levam a sério. A mesma lição a respeito do conservadorismo das jovens pode ser aprendida através da história do feminismo. Se não tivessem conseguido me convencer de que o estereótipo masculino da juventude como sendo o tempo "natural" para se ser livre e rebelde, como sendo um tempo para "se fazer de tudo", possibilitado pela garantia de poder e de segurança mais tarde, eu teria compreendido o modelo observando os movimentos de mulheres do passado. Nos Estados Unidos, por exemplo, a onda do feminismo do século XIX foi começada por mulheres mais velhas, que já haviam passado por experiências radicalizantes tais como o casamento e a transformação legal em bens móveis de seus maridos (ou então a experiência igualmente radicalizante de não se casar e de ser tratada como sokeironas). Muitas delas haviam integrado os movimentos abolicionistas e conhecido os paralelos entre sexo e raça. Em outros países, esta onda foi comandada por mulheres que já estavam além do ponto de pressão do casamento e do conservadorismo. Analisando os primeiros anos desta segunda onda, toma-se claro que grupos de ativismo feminino e de conscientização da condição feminina foram organizados por mulheres que já haviam passado pelo movimento de direitos civis ou donas de casa que descobriram que a criação dos filhos e a culinária não davam vazão a todos os seus talentos. Enquanto na maioria dos campi universitários circulariam nomes de clínicas de aborto ilegais, secretamente (afinal de contas, um aborto poderia diminuir nosso valor para um possível casamento), mulheres um pouco mais velhas convocavam a imprensa para

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divulgar a realidade dos abortos (incluindo aqueles aos quais elas próprias se submeteram, embora isto significasse confessar ter cometido um ato ilegal) e para exigir reformas ou a revogação de leis antiescolha. Embora o estupro tenha sido uma epidemia silenciosa nos campi universitários durante muito tempo, mulheres mais jovens, vítimas de estupro, ainda sentem receio, compreensivelmente, de mencioná-los. As próprias universidades encorajam este silêncio para manter a reputação de lugar seguro junto aos pais, que são aqueles que pagam as mensalidades. Foram necessárias muitas palestras fora do compus, protestos contra as leis que exigem prova física e contra os procedimentos da polícia em casos de estupro e testemunhos diante de legisladores estaduais para que grupos estudantis exigissem das administrações das universidades e da força policial local mais proteção contra estupros. Na verdade, o date rape — um fenômeno comum nas universidades, no qual a jovem é estuprada pelo rapaz com quem está saindo pela primeira ou segunda vez e às vezes até mesmo currada por diversos estudantes em uma das fraternity houses (associações masculinas que se concentram em casas alugadas que passam a representar aquela agremiação) — ainda está passando por um processo de exposição. O estupro marital, questão legal mais sensível, começou a ser exposto alguns anos antes. Nos casos de mulheres espancadas e à exposição de maridos e amantes como sendo estatisticamente mais propensos a espancar suas mulheres do que atacantes desconhecidos nas ruas, a questão parece ser tratada principalmente como uma preocupação distante dos campi. No entanto, em muitas universidades nas quais dei palestras, há pelo menos um caso vivo, nas lembranças do corpo discente, de uma jovem espancada ou assassinada por um amante ciumento. Este modelo cultural de conservadorismo jovem transforma o fato das mulheres mais velhas estarem retornando às universidades em algo de grande importância. Elas são exemplos vivos e ativistas pragmáticas que radicalizam mulheres jovens o bastante para serem suas filhas. O campus está se transformando num local de importantes alianças entre as gerações. Nada disso deve denegrir os corajosos esforços das jovens e as inúmeras transformações por elas provocadas. Muito pelo contrário, elas devem ser encaradas como sendo ainda mais notáveis por sobreviverem às pressões conservadoras, reconhecendo problemas

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sociais pelos quais elas mesmas ainda não passaram e organizandose com sucesso em meio a um corpo estudantil sempre transitório. Todos os cursos de história da mulher, todas as linhas diretas de apoio aos casos de estupro, todos os jornais universitários que finalmente começam a dar todas as notícias; todas as professoras feministas cujos empregos foram conseguidos ou mantidos devido às pressões dos alunos e todos os administradores cuja consciência foi aberta de uma vez por todas; todos os orientadores que deixaram de dar conselhos ocupacionais diferenciados a homens e mulheres; todos os processos jurídicos fomentados por energias estudantis contra fundos de atividades atléticas desiguais e exigências para entrada em cursos de pósgraduação — todas estas conquistas são ainda mais impressionantes se analisadas em relação ao modelo de ativismo feminino. Finalmente, ajudaria lembrar que uma revolução feminista lembra muito pouco uma revolução de estilo masculino. Da mesma forma, a atitude mais radical de uma mulher em relação à mãe (ou seja, a de unirem-se, como mulheres, para ajudarem-se mutuamente a conquistar algum poder) não se parece muito com a atitude mais radical que um homem possa tomar em relação ao pai (ou seja, romper a ligação pai-filho com o intuito de separar as identidades ou assumir o poder existente). São estes conflitos pai-filho, em nível nacional e de geração, que geraram a definição convencional de revolução. No entanto, estas vêm se desenrolando há séculos, sem que o papel da metade feminina que compõe o mundo tenha mudado. Estas revoluções têm, também, falhado na redução dos índices de violência da sociedade, pois tanto os pais quanto os filhos incluem algum grau de agressividade e de superioridade em relação às mulheres em sua definição de masculinidade, preservando assim o modelo antropológico de dominação. Além disto, aquilo que os atuais líderes e teóricos definem como revolução é um pouco mais do que a conquista do exército inimigo ou a. tomada das estações de rádio. As mulheres têm muito mais em mente do que isto. Precisamos virar o sistema de castas sexuais vigente, a estrutura de poder mais difundida na sociedade, de cabeça para baixo. Isto significa ter de transformar os valores patriarcais daqueles que administram as instituições, sejam eles politicamente de "direita" ou de "esquerda", pais ou filhos. Este lado cultural da mudança é extremamente profundo e com freqüência encarado como algo excessiva-

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mente íntimo. Talvez seja, também, ameaçador ser considerado sério ou mesmo possível. Apenas os conflitos entre homens são "sérios". Apenas as conquistas de instituições existentes são "possíveis". É por isto que a definição de "político", no campus assim como em outros lugares, tende a ser limitada a quem é candidato a reitor ou quem está protestando contra os investimentos corporativos na África do Sul, ou qual seria o lado "moralmente correto" de uma revolução convencional, preferivelmente uma que ocorra a milhares de quilômetros de distância. Além de importantes, tais atividades são as mais confortáveis para os jovens. Elas proporcionam uma sensação de virtude sem incomodar demais as estruturas de poder de nosso dia-a-dia. Até mesmo quando as forças mais constantes presentes nos campi se concentram em torno de questões feministas, elas podem ser tratadas como apolíticas e invisíveis. Ao ser perguntado "O que está acontecendo neste campus?" um universitário poderá responder "O movimento antinuclear" — mesmo que isto venha a ser um protesto de duas horas de duração, enquanto equipes estudantis antiestupro estejam patrulhando o campus há dois anos e a cadeira de estudos feministas esteja transformando os livros que lemos. Não é à toa que os jornalistas e sociólogos que procuram a revolução nos campi universitários muitas vezes não enxergam a profundidade das mudanças e da atividade feminista. As próprias mulheres podem desconsiderá-la, encarando-a como sendo pouco política, pouco séria. E certo que as propostas de mudança raramente se manifestam através de bombardeios a edifícios ou da queimada de carteiras de reservista em praça pública. Na verdade, ela vai muito além de protestar um sintoma temporário — como, por exemplo, o alistamento ou os gastos militares—e desafia o paradigma que concede a um grupo o direito de dominar um outro, que é a doença em si. A grande tarefa das jovens é resistir às pressões, é desafiar as definições. Seu sucesso crescente é um milagre de paciência e de coragem que deveria nos encher, todas, de orgulho. Mas elas, também, precisam saber que poderão se tornar mais radicais com o passar dos anos. Um dia, um exército de mulheres grisalhas poderá silenciosamente conquistar o mundo. 1979

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PÓS-ESCRITO Há mais dois motivos pelos quais este padrão cultural entrou em maior evidência nos últimos quinze anos; além de um estágio que precede o início deste conservadorismo de papéis sexuais. Em primeiro lugar, estudos têm demonstrado que a forma e o conteúdo da instrução em si tende a diminuir a auto-estima feminina. Como as mulheres muito raramente são citadas como autoridades em livros didáticos — e no meio acadêmico seja muito menos provável que elas sejam as autoridades, tanto na sala de aula quanto na administração —, muitas jovens passam a acreditar que, embora tirem boas notas, decorando os feitos e os pensamentos de outros, não poderão atingir metas ou criar sozinhas. Em segundo lugar, há hoje uma maior compreensão do predomínio e do impacto dos abusos generalizados cometidos contra menores, e particularmente dos abusos sexuais. Nestes, dois terços das vítimas são mulheres e nove décimos dos algozes são homens. Impotência, culpa, vergonha, afastamento e uma sensação de não se ter valor algum, a não ser sexual: todos estes são resultados que se tornam mais evidentes com o despertar sexual na adolescência. No entanto, o confronto dos abusos sofridos e a cura dos seus efeitos raramente começa até que a jovem se torne independente de sua família. Se o abuso sofrido foi especialmente cruel, talvez sejam necessários muitos anos de distância e de uma sensação de segurança, ou talvez comecem apenas com a morte do pai ou da mãe, ou de outra pessoa que praticou os abusos. Por ambos os motivos, nós mulheres podemos levar mais tempo para tornarmo-nos ativas em prol de nós mesmas. Mas há outras reflexões que podem diminuir o tempo de espera. A pesquisa de Carol Gilligan demonstrou que, muitas vezes, há uma maior noção do ser antes dos onze ou doze anos, época em que o papel feminino é assumido. Se esta voz pudesse ser apoiada e fortalecida, os anos de restrições sexualmente definidas poderiam ser diminuídos. Não só quando estão prestes a terminar, mas antes de seu começo. — 1995

O Erótico vs. O Pornográfico

Olhe ou imagine duas pessoas fazendo amor. Fazendo amor mesmo. Estas imagens podem ser diferentes, mas é muito provável que haja prazer mútuo e toque e calor, uma empatia pelo corpo e pelos terminais nervosos de cada um. E provável que haja uma sensualidade compartilhada e uma sensação espontânea de que as duas pessoas estão praticando o ato porque querem. Agora olhe ou imagine imagens de um ato sexual no qual exista força, violência ou símbolos de poder desigual. Eles podem ser bem claros: chicotes e correntes e até mesmo tortura e assassinato, apresentados de forma sexualmente excitante, uma ciara evidência de ferimentos e contusões ou o poder de um adulto usado, sexualmente, contra uma criança. Podem ser mais sutis: o uso de classe social, raça, autoridade ou posições que demonstrem claramente quem é o dominador e quem é o dominado. É possível que as cenas de nudez sejam desiguais: o corpo de uma das pessoa está exposto enquanto a outra continua escondida na armadura de suas vestimentas. Ou, então, haverá uma mulher só, exposta para um espectador que não vemos mas cujo poder pressentimos, fazendo de tudo para agradá-lo. (É interessante que, mesmo nas ocasiões em que a mulher pode ser vista, é freqüente sabermos se ela lá se encontra para o seu próprio prazer ou para o de outra pessoa.) Claro ou sutil, não há equilíbrio de poder ou reciprocidade. Na verdade, muito da tensão e do enredo é proveniente da nítida impressão de que uma pessoa está dominando a outra. Estes dois tipos de imagem são tão diferentes quanto o amor é diferente do estupro, como a dignidade é diferente da humilhação, a parceria da escravidão, o prazer da dor. E no entanto, são confundidos, são agrupados sob os rótulos de: "pornográfico", "obsceno", "erótico" ou "sexo explícito", devido ao fato de sexo e violência serem perigosamente entrelaçados e confundidos. Afinal, é a violência do ato ou a ameaça desta violência que faz com que um grupo de

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seres humanos mantenha o domínio sobre um outro. Entre homem e mulher, a ameaça deverá ser maior em circunstâncias íntimas e quando corre-se o perigo de reconhecer a humanidade do outro. Esta confusão do sexo com a violência torna-se mais clara através do sado-masoquismo. A inabilidade de demonstrar empatia pelo "sexo oposto" chegou a tal ponto que um torturador, ou até mesmo um assassino, pode acreditar que a dor ou a perda da vida da vítima é o destino da mesma. A vítima, por sua vez, poderá ter sido de tal forma privada de sua auto-estima, ou de relacionamentos humanos positivos, que ela própria espera a dor ou a perda de liberdade como preço pela intimidade ou por qualquer migalha de atenção. Não obstante, é improvável que até mesmo o masoquista espere a morte, e, no entanto, os snuff movies e grande parte da atual literatura pornográfica insistem que uma morte lenta, proveniente da tortura sexual, é o auge do orgasmo, o prazer definitivo. É claro que tratase de uma forma de "suicídio" reservada para as mulheres. Embora os homens tenham maior propensão a se matarem, o suicídio masculino raramente é apresentado como um ato sexualmente prazeroso. O sexo é, também, confundido com violência e agressão na cultura.pop, assim como em respeitadas teorias de psicologia e de comportamento sexual. A idéia de que a agressividade faz parte da sexualidade masculina "normal" e que a passividade feminina ou a necessidade da agressividade masculina faz parte da sexualidade feminina "normal" faz parte da cultura patriarcal na qual vivemos, dos livros com os quais nos instruímos e do ar que respiramos. Até mesmo as palavras que nos ensinam para expressar nossos sentimentos estão impregnadas destas mesmas suposições. Frases sexuais são os sinônimos mais comuns para conquista e humilhação (ser possuída, ser comida); uma mulher sexualmente agressiva ou até mesmo expressiva pode ser tachada de puta ou até mesmo de ninfomaníaca. Um homem sexualmente agressivo é considerado normal e até mesmo digno de admiração. Descrições sexuais, cientificamente aceitas, podem perpetuar os mesmos papéis. Por exemplo, diz-se que uma mulher é penetrada por um homem embora ela também pudesse tê-lo envolvido. É óbvio que separar o sexo da violência — da violência ou de sua ameaça — levará muito tempo. E o processo sofrerá resistência por desafiar o âmago do domínio e do centralismo masculinos.

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Mas temos a sabedoria para nos guiar: a sabedoria comum de nossos próprios corpos. A dor é um aviso de danos sofridos, um aviso de perigo. Se não for misturada ao carinho que recebemos na infância, é pouco provável que confundamos dor com prazer. Ao descobrirmos nossa vontade própria e nossa força, somos capazes de descobrir nossa própria iniciativa e nosso prazer sexual. Como os homens não conseguem mais dominar e precisam encontrar uma identidade que não dependa da superioridade, eles também descobrem que a cooperação é mais interessante do que a submissão, que a empatia com o parceiro sexual realça o seu próprio prazer e que a ansiedade no que diz respeito ao seu desempenho sexual tende a desaparecer junto com as noções estereotipadas da masculinidade. Mas as mulheres serão as principais combatentes desta nova revolução sexual. É a nossa liberdade, nossa segurança, nossa vida e nosso prazer que estão em jogo. Nesta onda de feminismo, começamos pela tentativa de separar o sexo da violência nas áreas em que o perigo físico era, e é, mais imediato. Desafiando a crença de que o estupro é um crime biologicamente irresistível para o criminoso, e possivelmente provocado pela vítima; recusando-nos a permitir que o espancamento de mulheres por homens seja classificado de "violência doméstica" e, assim, ignorado pela lei; expondo a prostituição forçada e a escravidão sexual como crimes nacionais e internacionais. Com exceção dos atos de violência de homens para com suas esposas e parceiras, estes desafios foram facilitados por homens que queriam castigar outros homens por terem se apossado de suas propriedades femininas. As mulheres raramente têm poder para protegerem-se umas às outras. Diante de tantos exemplos da guerrilha antimulher, chegamos diretamente à propaganda que ensina e legitima todas elas: a pornografia. Pelos mesmos motivos que usamos para diferenciar o estupro do sexo, nos demos conta de que precisávamos separar as representações pornográficas de sexo, como uma arma antimulher, das imagens de uma sexualidade escolhida e mútua. Felizmente, há também sabedoria na origem das palavras. Pornografia vem do grego porné (meretriz, prostituta ou detento do sexo feminino) e graphos (escrever sobre ou descrever). Portanto, pornografia significa a descrição da compra do sexo, que em si já demonstra o desequilíbrio de poder, ou da escravidão sexual.

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Esta definição inclui todos estes tipos de degradação, a despeito de serem as mulheres escravas e os homens os captores, ou nos raros exemplos onde o oposto ocorre. Há também a pornografia homossexual na qual um homem assume o papel "feminino" da vítima, assim como o erotismo homossexual no qual dois homens dão-se prazer, mutuamente. Há também a pornografia na qual os papéis se invertem, com uma mulher de chicote em punho para castigar um homem, embora seja significativo o fato de que trata-se de um gênero criado pelos homens, para o seu próprio prazer e não criado por ou para as mulheres. É um gênero que permite ao homem ser vítima, embora sem o perigo real. Há a pornografia lésbica, onde uma mulher assume o papel "masculino", de vitimar outra mulher, assim como o erotismo lésbico. O fato das mulheres raramente escolherem o papel de algoz não se dá por motivos de superioridade biológica, mas em função de uma cultura que está muito menos propensa a viciar uma mulher em violência e dominação. Mas, qualquer que seja o sexo dos participantes, toda pornografia é uma imitação do paradigma homem-mulher, algoz-vítima e quase toda ela representa ou sugere mulheres em cativeiros e homens em posição de domínio. Até mesmo a Comissão Presidencial sobre Obscenidade e Pornografia, de 1970, cujo relatório foi acusado de suprimir ou ignorar provas da ligação eventual entre a pornografia e a violência praticada contra as mulheres, definiu o tópico de seu estudo como sendo uma descrição pictórica ou verbal caracterizada pela "representação degradante ou humilhante do papel e da posição do ser humano do sexo feminino". Resumindo, a pornografia nada tem a ver com sexo. Ela tem a ver com um desequilíbrio de poder e exige que o sexo seja usado como forma de agressão. A palavra erótico pode nos ajudar a diferenciar sexo de violência e, assim, a salvar o prazer sexual. Vem do grego eros (desejo sexual ou paixão, nome dado em homenagem a Eros, filho de Afrodite), e contém em si a idéia do amor e da reciprocidade, da escolha positiva e do desejo pelo outro. Ao contrário da referência da palavra pornografia à prostituta, erótico deixa o sexo do indivíduo em aberto. (Na realidade, talvez devamos esta conotação de poder compartilhado ao fato dos gregos considerarem o amor de um homem por outro homem mais digno do que o amor por uma mulher, mas pelo me-

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nos a palavra não é tendenciosa.) Embora tanto o erótico como o pornográfico refiram-se freqüentemente a representações verbais ou pictóricas de comportamento sexual, os dois conceitos são tão diferentes quanto cômodos onde as portas se encontram abertas e cômodos nos quais as portas se encontram trancadas. O primeiro pode ser o lar de alguém enquanto que o segundo só pode ser uma prisão. O problema é que há tão pouco erotismo. Nós mulheres raramente nos sentimos livres, poderosas e seguras o bastante para sair em busca de prazeres eróticos em nossas próprias vidas e muito menos para criá-los no cinema, nas revistas, nos livros de arte, na televisão, na cultura pop. São poucos os autores e cineastas homens que conseguiram escapar dos ditames da sociedade e muito menos imaginar o caminho da identidade feminina. Mesmo as representações de cenas sexuais entre homens e mulheres e entre mulheres recaem freqüentemente sobre o paradigma dominante-passivo. Muitas mulheres, hoje, tentam representar o sexo igual e erótico—quer seja com homens ou com outras mulheres — mas isto ainda não penetrou a cultura popular. E o problema é que há tanta pornografia. Esta corrente subterrânea de propaganda antimulher tem existido em todas as sociedades patriarcais, mas a comunicação em massa, as grandes corporações e um retrocesso social contra a igualdade feminina a transformaram numa inundação da qual não conseguimos escapar: nas ruas, nos cinemas e até mesmo dentro de nossas casas. Talvez isto nos seja útil a longo prazo. Não podemos mais fingir que a pornografia não existe. Precisaremos enfrentar nossa própria humilhação e nossa própria tortura todos os dias, nas capas das revistas e nas telas das televisões, ou então combatê-la. São raras as bancas de jornal que não mostram corpos femininos acorrentados e presos, com os órgãos sexuais expostos para um espectador masculino no papel do conquistador, feridas ou de joelhos, gritando de dor real ou fingida, fingindo gostar daquilo que as está matando ou machucando. As mesmas imagens se encontram em cinemas, muitos deles integrantes do grande circuito, e respeitáveis quartos de hotel em circuitos fechados de TV para homens em viagens de negócios. São trazidas para dentro de nossas casas não só em revistas como em fitas de vídeo e canais de televisão a cabo. Até mesmo os vídeo-games oferecem mulheres sorridentes, amarradas com cordas e figuras masculinas com ereções.

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O objetivo do jogo é estuprar a mulher o máximo de vezes possível. (Como grande parte da pornografia existente, trata-se de um jogo fascista do ponto de vista racial, assim como sexual. A mulher sorridente é uma donzela indígena e o estuprador é o General Custer — general do exército americano na Guerra da Secessão, morto numa emboscada pelos peles-vermelhas, que defendiam suas terras. O jogo chama-se "A Vingança de Custer".) Embora os snuff movies, nos quais mulheres de verdade são evisceradas e, em seguida, mortas, tenham sido forçados a desaparecer no submundo (em parte porque os túmulos de muitas das mulheres assassinadas foram descobertos ao redor do barracão de um dos cineastas deste gênero), a produção de filmes que retratam a tortura-assassinato continua firme e forte. (Snuff é o termo pornográfico que descreve o assassinato de mulheres por prazer sexual. Não nos concedem a seriedade de tratamento que garantiria o uso da palavra assassinato.) E há também a pornografia infantil, filmes e revistas que mostram homens adultos despindo, acariciando e abusando sexualmente de crianças, muitas vezes sob o excitante tema de "pais" estuprando suas "filhas". Algumas revistas de pornografia infantil oferecem dicas explícitas de como usar uma criança sexualmente sem deixar evidência física do estupro. A premissa básica é que o testemunho de uma criança é ainda menos digno de crédito do que o de uma mulher adulta. Pelo que temos visto nas raras instâncias em que os casos de abuso sexual infantil chega à justiça, isto é verdade. Some as vendas da indústria pornográfica, de revistas como Playboy e Hustler, a clássicos do cinema tais como Love Gestapo Style, Garganta Profunda e Angels in Pain, e o total chegará à perturbadora cifra de dez bilhões de dólares — mais do que as vendas de todos os filmes convencionais e de toda a indústria fonográfica junta. Isto sem contar o fato de que muitos filmes convencionais e imagens musicais são, também, pornográficos, das capas genocidas tais como a famosa I'm "Black and Blue" from the Rolling Stones — and I Love It! (que retrata uma mulher negra, seminua, amarrada a uma cadeira) às centenas de filmes de sexo-e-terror para adolescentes nos quais jovens mulheres são mortas de maneira sádica e o estupro aparece não como crime e sim como forma de excitamento sexual. Há também um número cada vez maior de filmes e programas de televisão, destinados ao grande público, que ajustam a pornografia de forma a fazê-la passar por algum

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tipo de padrão, além das vendas de material supostamente literário tais como A história de 0 ou as obras do Marquês de Sade. Se a propaganda nazista, que justificava a tortura e o assassinato dos judeus, fosse tema de metade de nossos filmes e revistas mais populares, será que não nos sentiríamos ultrajados? Se a propaganda da Ku Klux Klan, pregando e glamourizando a escravidão de negros, fosse assunto de elogiadíssimos romances "clássicos", será que não protestaríamos? Sabemos que este tipo de propaganda precede e justifica massacres organizados e linchamentos, tendo o racismo como pano de fundo. Sabemos que assistir a um filme violento faz com que os espectadores se tornem mais propensos a tolerar a violência, a cometê-la e a acreditar que a vítima mereceu o tratamento recebido. Por que é que a propaganda de agressão sexual contra mulheres de todas as raças é a única forma de ódio que "a sabedoria popular" não encara como perigosa? Por que é que a pornografia é a única violência presente na mídia que serve de válvula de escape para apaziguar a agressividade de uma forma que chega muito próxima de representá-la? A primeira razão é a confusão feita entre todo o sexo não procriativo e a pornografia. Qualquer descrição de comportamento sexual, ou mesmo de nudez, pode vir a ser considerada pornográfica ou obscena (uma palavra do latim que significa sujo ou contendo imundície) por aqueles que insistem que o único objetivo moral do sexo é a procriação dentro do casamento, ou até mesmo que a retratação da sexualidade e da nudez são contra os preceitos de Deus. Na verdade, os seres humanos parecem ser os únicos animais que experimentam o mesmo ardor sexual e o mesmo prazer quer possam conceber ou não. Outros animais passam por cios ou estros, períodos nos quais a atividade sexual está concentrada. Os humanos não passam por isto. Assim como desenvolvemos capacidades únicas, tais como a linguagem, a capacidade de planejar, de lembrar e de inventar, através de nossa evolução, nós também desenvolvemos a sexualidade como forma de expressão, como forma de comunicação separada da reprodução. Para os seres humanos, a sexualidade pode também ser uma forma de união, de dar e de receber prazer, diminuindo diferenças, descobrindo similaridades e comunicando emoções.

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Desenvolvemos isto e outros dons humanos através de nossa habilidade de transformar o mundo à nossa volta, a nos adaptarmos a ele fisicamente, a mudar outra vez, a nos readaptarmos e então, a longo prazo, afetarmos nossa própria evolução. Mas como resultado emocional desta rota em espiral, distanciando-nos dos outros animais, parecemos nos alternar entre períodos nos quais exploramos nossas habilidades únicas e sentimentos de solidão no desconhecido que nós mesmos criamos, um medo que muitas vezes nos atira de volta ao consolo do mundo animal, procurando uma similaridade que não existe. Por exemplo, a separação da palavra "divertimento" da palavra "trabalho" é uma invenção humana. Assim como a diferença entre arte e natureza, entre a realização intelectual e a realização física. Como resultado, celebramos o divertimento, a arte e a invenção como algo prazeroso, como um salto importante ao desconhecido. E no entanto, uma preocupação temporária pode nos encher de nostalgia por um passado primitivo, e a convicção de que sobrevivência, a natureza e o trabalho físico são mais dignos ou até mesmo moralmente mais corretos. Da mesma forma, exploramos nossa sexualidade como algo que possa ser separado da concepção: uma ponte prazerosa, cheia de empatia e de extrema importância entre nós e os demais seres de nossa espécie. Inventamos os anticoncepcionais — algo que provavelmente já existia em outra forma, dado que nossos ancestrais compreendiam o processo de concepção e de nascimento —, de forma a estendermos e a protegermos esta dádiva única que é a sexualidade humana como forma de comunicação. No entanto, algumas vezes temos a suspeita atávica de que o sexo não é completo, de que não é legal ou até mesmo não é a intenção de Deus, se não terminar em concepção. Não é à toa que os conceitos diferenciados de "erótico" e "pornográfico" podem ser confundidos. Ambos partem do princípio de que o sexo pode ser separado da concepção; de que a sexualidade humana possui usos e metas adicionais. Este é o principal motivo pelo qual, mesmo na cultura do presente, ambos podem ser condenados como sendo obscenos e imorais. Uma condenação generalizada de tudo o que for sexual mas que não leve ao nascimento de uma criança (e ao casamento patriarcal, para que as crianças possam ser "possuídas") vem crescendo devido ao atual retrocesso contra a in-

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dependência feminina. Por medo de que a estrutura patriarcal seja afetada se nós mulheres realmente tivermos autonomia para decidir nossos futuros sexuais e reprodutivos (isto é, se controlamos nossos corpos e a maneira pela qual nos reproduzimos), grupos contrários à igualdade feminina não só condenam a educação sexual e o planejamento familiar como sendo "pornográfico", como vêm, também, usando leis contra a obscenidade para proibir que informação sobre anticoncepcionais seja enviada pelo correio. Seu alvo é qualquer ato sexual ou nudez que se encontre fora do contexto patriarcal de casamento e nascimento. Na verdade, Phyllis Schlafiy denunciou certa vez que o movimento feminista como um todo era "obsceno" e a Moral Majority (Maioria Moralista) e a Christian Coalition (Coalizão Cristã) e outros grupos do gênero estão tentando reimpor a virgindade, a abstinência e a repressão. Não é surpreendente que este retrocesso religioso tenha uma contrapartida secular e intelectual que se calca principalmente na aplicação do comportamento "natural", do mundo animal, a seres humanos. Isto é, em si, questionável, mas estudos no estilo dos de Lionel Tiger deixam sua motivação ainda mais clara pelos animais escolhidos e os hábitos enfatizados. Por exemplo, alguns primatas do sexo masculino carregam e geralmente fazem as vezes da "mãe" dos rebentos, leões machos cuidam de seus filhotes, elefantes fêmeas lideram o clã e pingüins machos fazem de tudo, exceto dar à luz, de chocar os ovos até sacrificar suas próprias membranas para alimentar os recém-nascidos. Talvez seja por isto que tantos defensores da supremacia masculina gostam de discutir babuínos e chimpanzés (estudados em condições atípicas geradas pelo cativeiro) cujo comportamento demonstra, convenientemente, a dominação masculina. A mensagem aqui é que as fêmeas da espécie humana devem aceitar seu "destino" animal de ser sexualmente dependente e de se dedicar ao nascimento e à criação de seus rebentos. A defesa contra esse tipo de repressão leva à tentação de simplesmente reverter as condições e declarar que todo o sexo nãoprocriativo é bom. Na verdade, no entanto, esta atividade humana pode ser construtiva ou destrutiva, moral ou imoral, como qualquer outra. O sexo como forma de comunicação pode enviar mensagens tão variadas quanto o prazer mútuo e a dominação, a vida e a morte, o "erótico" e o "pornográfico".

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O segundo tipo de problema não é proveniente daqueles que se opõem à igualdade feminina em áreas que não as sexuais, quer usem Deus ou a natureza como pretexto, e sim de homens (e, também, de algumas mulheres) que se apresentam como aliados das liberdades civis e do progresso. Suas objeções podem vir travestidas de uma preocupação para com a privacidade, afirmando que os movimentos contrários à pornografia invadem o comportamento sexual do indivíduo e a filosofia do "faça o que lhe der tesão". Pode ser uma preocupação com preconceitos relacionados à classe social, com base no fato que a pornografia nada mais é do que o "erotismo do trabalhador". Às vezes o argumento é simplesmente que os próprios objetores gostam de pornografia e que portanto ela deve ser aceitável. Freqüentemente, no entanto, esta resistência se prende, ou se esconde, a uma preocupação com a censura, a liberdade de imprensa e a Primeira Emenda. Em cada caso, estas objeções liberais deveriam ser mais fáceis de combater do que aquelas provenientes da direita, com menor base na realidade. É verdade que a independência e a autonomia de uma mulher seriam incômodas à estrutura patriarcal. Assim, a direita deve realmente estar preocupada. Mas não é verdade, no entanto, que a pornografia deva ser uma preocupação particular. Se fosse apenas uma questão de homens imprimindo literatura supremacista masculina em seus próprios porões, para dar vazão às suas próprias obsessões sexuais, as mulheres sentiriam dor e se retrairiam, mas não haveria a raiva, o ultraje e o medo produzidos pelo confronto da pregação do fascismo sexual em nossas bancas de jornal, nas telas de cinema, nos aparelhos de televisão e nas ruas. E uma indústria de muitos bilhões, que envolve política, pelo menos para decidir se, como vem sendo o caso, os crimes cometidos na produção e venda da pornografia permanecerão impunes. As regras relacionadas à exposição pública de material pornográfico não são cumpridas, a exploração de crianças e a escravidão sexual à qual são submetidas para a sua utilização na pornografia permanecem impunes. O uso de adolescentes, fugidos de casa, para os mesmos fins é ignorado pela polícia e até mesmo a tortura e o assassinato de prostitutas para a excitação sexual masculina é obscurecida por alguma idéia atenuante de que a mulher foi quem pediu. Em todas as outras áreas de privacidade, a limitação é uma trans-

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gressão dos direitos, das vidas e da segurança dos outros. Isto deve servir também para a pornografia. Hoje em dia, ela se tornou isenta, quase "abaixo da lei". No que diz respeito ao preconceito de classe, simplesmente não é correto dizer-se que a pornografia é o erotismo com um menor nível de instrução. Das origens das palavras às formas que são normalmente usadas, torna-se claro que há uma diferença de contexto, e não apenas de ordem artística e econômica. A pornografia envolve dominação e muitas vezes a dor. O erotismo envolve a reciprocidade e sempre o prazer. Qualquer homem sensível à condição feminina saberá a diferença entre um e outro apenas de olhar uma fotografia ou de assistir a um filme e colocar-se-á na pele da mulher. Talvez o mais revelador de todo o argumento seja que ele é feito em nome da classe trabalhadora pelos liberais pró-pornografia que fazem parte das classes média e alta. E claro que a idéia de que gostar de pornografia a torna aceitável é de fato uma difundida idéia masculina. A partir de Kinsey, as pesquisas demonstram que os compradores de material pornográfico são quase sempre homens e que a maioria dos homens se excita com ele. Enquanto isto, a maioria das mulheres acha a pornografia enfurecedora, humilhante e de maneira nenhuma excitante. A veracidade de tal afirmação foi demonstrada apesar do fato de as mulheres terem sido expostas a material de sexo explícito que possivelmente incluía o erotismo, pois Kinsey e os demais pesquisadores não fizeram distinção alguma entre um e outro. Se os raros exemplos que mostram o ato sexual como sendo prazeroso para ambas as partes fossem completamente suprimidos, talvez a pornografia servisse de terapia pró-aversão sexual para a maioria das mulheres. E no entanto, os homens, e alguns psicólogos, insistem em chamar as mulheres de pudicas, anti-sexo e rígidas por elas não se excitarem diante da imagem de sua própria dominação. É muito pouco provável que estes mesmos homens argumentassem que a literatura racista e anti-semita é aceitável porque lhes dá prazer. O problema é que a degradação de mulheres de todas as raças ainda é tida como normal. Um sistema de dominação masculina ensina aos homens que a dominação sobre as mulheres é normal. E é exatamente isto que faz a pornografia. Não obstante, há algumas poucas mulheres bem-intencionadas

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que se excitam com a pornografia e que se enfurecem com aquelas que não se excitam. Parte desta raiva é devido a uma má interpretação: as objeções feitas à pornografia não visam condenar mulheres criadas para acreditar que sexo e dominação são sinônimos, pois todas nós internalizamos um certo grau de machismo embora nos esforcemos muito para nos libertarmos disso. A raiva de outras é resultado de se subestimarem: o fato de se excitarem fantasiando uma cena de estupro não significa querer ser estuprada. Como demonstrou Robin Morgan, a característica mais distinta da fantasia é que aquele que fantasia está sempre no controle da situação. (Tanto homens quanto mulheres fantasiam "violações" nas quais permanecemos passivos enquanto o outro realiza nossos desejos não expressados — mas continuam sendo os nossos desejos.) E um pouco da raiva, especialmente no caso de mulheres que se consideram feministas, vem de uma recusa em diferenciar entre o que pode ser verdadeiro hoje e o que poderá ser desejável no futuro. Por exemplo, digamos que uma mulher só se sinta atraída por homens mais altos, mais gordos e mais velhos embora tenha consciência de que estas restrições superficiais aos homens que ela escolhe amar ou com quem escolhe dormir não existirão num futuro mais livre e menos estereotipado. Ou, em casos mais sérios, ela pode se sentir atraída por um homem cruel e distante porque ainda está tentando fazer com que um pai cruel e distante a ame, embora compreenda que um futuro de reciprocidade seja possível e preferível. Da mesma forma, algumas lésbicas podem seguir o modelo masculino-feminino, muitas vezes nosso único modelo de relacionamento íntimo, heterossexual ou não, e ainda assim escolhê-lo livremente e igualmente. No entanto, conseguem enxergar estes velhos modelos com clareza e se esforçam para ter um futuro sem eles. Não que as mulheres que se sintam atraídas pela pornografia não possam ser feministas, mas a pornografia deve ser reconhecida pelo seu impacto na segurança e na igualdade das mulheres. Finalmente, há o argumento de que as campanhas feministas antipornografia vão contra a Primeira Emenda. Embora esta seja a oposição mais respeitada e mais divulgada, é também a de menor base na realidade. Grupos feministas não estão lutando pela censura da pornografia através da proibição, da mesma forma que não estão lutando para que a literatura nazista ou a propaganda racista da Ku

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Klux Klan não sejam publicadas. Para princípio de conversa, qualquer definição de pornografia dentro de uma sociedade machista (ou a literatura racista em uma sociedade racista) pode muito bem ser usada para castigar ainda mais aqueles que não têm poder naquela sociedade. Expressões do homossexualismo masculino e feminino podem ser consideradas mais "pornográficas" do que snuff movies e cursos de educação sexual nas escolas mais obsceno do que servidão sexual, da mesma forma que as afirmações contra euro-americanos são passíveis de ser repreendidas com maior severidade do que afirmações que denigram a imagem dos afro-americanos. Além do mais, a censura, em si, até mesmo em definições apropriadas, talvez só sirva para empurrar a pornografia para o submundo e, como no caso do tráfico de drogas, fazer com que se torne ainda mais rentável. O mais importante de tudo é que a Primeira Emenda faz parte de uma declaração de direitos individuais contra a intervenção do governo, direitos estes que o feminismo busca expandir e não contrair. Um exemplo é a luta pelo direito de decidir se uma mulher terá filhos e quando os terá. Quando protestamos contra a pornografia e instruímos os outros a este respeito, como estou fazendo agora, estamos fortalecendo a Primeira Emenda por estarmos lançando mão da mesma. O único passo legal sugerido pelas feministas até hoje é que os pornógrafos acusados de assassinato, violência física e seqüestro não permaneçam impunes. Que não permaneçam impunes aqueles que usam menores de idade. Que as leis e os códigos éticos em relação à pornografia sejam obedecidos em vez de serem desrespeitados como são, devido a subornos junto às autoridades competentes e aos estratosféricos aluguéis pagos aos senhorios da pornografia. Que sejam obedecidas as leis que exigem que material pornográfico não seja exposto em locais públicos, onde não se pode desviar o olhar. E que os regulamentos de direitos civis, como os propostos em Minneapolis, que permitem processos civis contra os produtores de qualquer tipo de pornografia (e de qualquer literatura que denigra e exprima ódio por um grupo em particular) contanto que possa ser demonstrado em juízo que os mesmos contribuíram para um crime.* Nenhuma
*Para um histórico desta lei controvertida e mal interpretada, aprovada pelo Conselho Municipal de Minneapolis e vetada pelo prefeito — assim como o resumo de uma pesquisa realizada sobre a pornografia —, ver Franklin Mark Osanka e Sara Lee Johann, Sourcebook on Pornograpby [Livrofonte sobre a pornografia], (Lexington, Massachusetts: Lexington Books, 1989).

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destas medidas implica a proibição da publicação de tal material, não implica censura. A maioria destas medidas apenas pede que os responsáveis pela produção pornográfica não mais fiquem imunes perante a lei, por crimes cometidos em sua produção e distribuição. Talvez o motivo da controvérsia sobre a Primeira Emenda tenha pouca substância. Talvez não passe de uma cortina de fumaça. Da mesma forma que as primeiras campanhas feministas contra o estupro foram condenadas por alguns integrantes dos movimentos civis como uma atividade que acabaria por colocar apenas homens de cor e pobres atrás das grades, ou em perpetuar a pena de morte, pena prevista por estupro em alguns estados à época, a campanha antipornografia encontra hoje a mesma resistência. Quando as vítimas de estupro começaram a se expor, no entanto, o público veio a saber que psicólogos brancos, educadores e outros profissionais eram tão capazes de ser estupradores quanto homens pobres ou de cor. Além do mais, a mudança da definição patriarcal de estupro, criando graus diferenciados de violência sexual, fez com que a lei ficasse mais realista e, assim, mais fácil de ser cumprida. A pena de morte por estupro deixou de existir e a lei passou a proteger também os homens contra crimes sexuais. Embora não existam estatísticas sobre os compradores de pornografia, aqueles que servem a esta clientela — os balconistas, os donos de cinemas especializados, os vendedores de fitas de vídeo, os serviços de remessa postal e coisas do gênero — observam com freqüência que são pessoas distintas, profissionalmente bem situadas, bem vestidas, que carregam maletas e têm a pele branca e códigos postais em locais habitados pela classe média. Por exemplo, a última locação de um snuffmovie que mostrava um assassinato de verdade foi feita por um dos sócios de uma respeitada firma de advocacia de Nova York para a sessão mensal de filmes .pornográficos por ele organizada. Este evento mensal incluía a presença de seu círculo de amigos, integrado por outros advogados e por juizes. Um dos presentes afirmou que muitos pareciam "envergonhados" e que "não sabiam o que dizer". Mas, no entanto, nenhum dos presentes foi capaz de objetar e muito menos de denunciar a fita como prova de assassinato para a polícia. Embora grande parte da preocupação com a censura seja sincera — o resultado de falsos relatórios que afirmam que as campanhas antipornografia feministas na verdade pediam

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censura ou a confusão de tais campanhas com grupos de direita que definem a pornografia de forma errônea e que querem a sua censura —, muito disto parece querer encobrir a preservação do status quo pornográfico por uma aliança da direita com a esquerda que depende desta gigantesca indústria, quer seja psicológica ou financeiramente. Na verdade, os argumentos contra a pornografia são tão suspeitos quanto as distinções entre "virgem e puta", uma escolha que precisava ser feita pelas mulheres no passado. A direita diz que tudo aquilo que não for virginal ou maternal é pornográfico e assim promove campanhas contra a sexualidade e a nudez em geral. A esquerda diz que todo sexo é bom e promove campanhas para protegê-lo. As mulheres que se sentem ameaçadas ao se verem na posição de vítima e os homens que se sentem humilhados ao se verem na posição de algoz, têm uma longa tarefa à sua frente. Na verdade, a pornografia existirá enquanto os meninos forem criados para acreditar que devem controlar ou conquistar mulheres como prova de sua "masculinidade", e enquanto a sociedade recompensar homens que acreditam que o seu sucesso, e até mesmo o seu funcionamento — sexual ou não — depende da subserviência feminina. Mas pelo menos agora temos palavras para exprimir nosso ultraje e para separar sexo de agressão. Temos coragem de protestar contra a pornografia publicamente, de retirar revistas e filmes do gênero de nossas casas, de boicotar seus fornecedores e até mesmo de repreender amigos e parentes da mesma forma que faríamos se estivessem apoiando e se deleitando com literatura nazista ou com os ensinamentos do Klan. Mas até finalmente conseguirmos abolir a dominação masculina que equacionou a sexualidade à violência e à agressão, haverá mais pornografia e menos erotismo em nossas vidas. Haverá um pouco de assassinato em nossas camas e muito pouco amor. — 1977, 1978 e 1993'

Marilyn Monroe: A Mulher que Morreu Cedo Demais

Matinê de sábado—não interessa quão mal realizados ou inacreditáveis os enredos, eles representavam uma fuga do bairro em que eu vivia e de todas as minhas dores adolescentes. Seriados que jamais terminavam, Doris Day—que nunca voltava atrás —, programas de turismo pouco sofisticados, filmes de ficção científica nos quais se podia ver o zíper nas fantasias dos monstros: eu os adorava todos, eu acreditava em tudo o que via e jamais sonhava em deixar o cinema antes da tela estar completamente vazia. Mas eu deixei Marilyn Monroe na tela uma vez. Lembro-me dela, lá, enorme como uma colossal boneca, afetada, sussurrante e, simplesmente, totalmente vulnerável. Olhando-a, eu senti raiva, e até mesmo humilhação, embora não tenha compreendido por quê. Afinal de contas, Jane Russell estava no mesmo filme (uma versão de mau gosto de Gentlemen Prefer Blondes), portanto não se tratava apenas da vulnerabilidade que as duas mulheres bem avantajadas pareciam compartilhar. (Se as espectadoras preferem atrizes menores e menos exuberantes — como as Audrey Hepburns do mundo —, não é porque invejamos os dotes físicos das outras, como acreditam os homens. É simplesmente porque preferimos nos identificar com mulheres com as quais não precisemos nos preocupar, mulheres que não pareçam estar em perigo constante.) Comparada a Marilyn, Jane Russell parecia ter seu corpo sob controle, até mesmo durante as situações mais absurdas exibidas neste filme. Talvez fosse a insegurança, visível nos olhos daquela enorme, louríssima criança-mulher. Era a terrível necessidade de aprovação que a diferenciava de Jane Russell. Que ousadia a dela, expor a carência que tantas mulheres sentem mas tentam de todas as formas ocultar! Que ousadia a dela, uma estrela de cinema, demonstrar uma insegurança daquelas!

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Assim, eu não gostava dela e sempre evitava assistir aos seus filmes. Se fizessem piadas a seu respeito, se ridicularizassem seu nome e sua imagem, logo me juntava aos insultos. Eu contribuía nas risadas, no ridículo, nos insultos, provando assim ser nada como ela. Nada mesmo. Deixei meu bairro anos depois, assim como ela escapara de uma vida tão pior, sublinhada pela falta de amor, por abusos sofridos na infância e por lares adotivos. Não escapei, como ela, através de calendários com fotos nuas e pequenas participações em filmes. (Mesmo que existissem tais possibilidades para meninas bonitinhas em Toledo, Óhio, eu jamais teria tido coragem de demonstrar tal vulnerabilidade.) Eu era americana o bastante para sonhar em ingressar no show business. Os garotos do meu bairro sonhavam em escapar de uma vida de trabalho nas fábricas através dos esportes. As meninas, as que imaginavam algo além de um bom casamento, sempre sonhavam em entrar para o mundo do show business. Mas depois de fazer parte do circuito de show business de Toledo, como bailarina, durante o segundo grau, até eu fui capaz de perceber que havia poucas esperanças de que eu seguisse tal carreira. No final, foi a sorte, uma mãe que sempre me apoiou e uma certa facilidade com as palavras que me libertou. Esta mesma facilidade fez com que eu demonstrasse uma competência maior do que na verdade tinha nos exames de admissão para a faculdade, para os quais estava completamente despreparada. Mas as meninas que passam de raspão em exames de admissão para as faculdades não são mais seguras do que aquelas que, como Marilyn, apresentam-se diante de jurados de concursos de beleza. Na próxima vez que a vi, eu era uma respeitável aluna, assistindo aos celebrados atores do Actors Studio encenarem duas peças de teatro de altíssimo nível (naquele dia, apresentaram Arthur Miller e Eugene O'Neill). Ela também era aluna, pupila de Lee Strasberg, líder do Actors Studio e guru americano do método Stanilavski, mas o status de estrela de cinema e de símbolo sexual fazia com que ela não fosse levada a sério, até mesmo naquela época. Deixavam que ela assistisse, mas não deixavam que encenasse com os colegas. Então nós duas ficávamos ali, sentadas, ambas pasmas, creio eu, na presença de gente do teatro como Ben Gazarra e Rip Tom, ambas inseguras diante do mundo masculino da Alta Cultura, ambas querendo sumir.

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Lembro de ter achado que Strasberg e seus atores sentiam imenso prazer em ignorar esta poderosa estrela de cinema que viera até eles para aprender. O modo com que a cumprimentavam era de uma informalidade completamente estudada, os cochichos a respeito de sua presença me pareciam um tanto inseguros e condescendentes demais. Embora ela permanecesse no fundo da sala, com os cabelos louros escondidos num lenço negro e o corpo num imenso suéter da mesma cor e calças compridas, ela aos poucos foi se tornando uma verdadeira presença, talvez porque os outros se esforçassem tanto para não encarar, para ignorá-la, para demonstrarem-se impassíveis. Ao sairmos daquela sala miserável, em fila indiana, ao final da apresentação, Marilyn ouvia, atenta ao post-mortem profissional de gente como Ben Gazarra e outros que caminhavam diante de nós enquanto ela passava os dedos nervosamente num rosto que era luminoso até mesmo sem maquiagem; parecia querer se esconder, parecia querer se desculpar por estar ali. E de repente fiquei feliz por ela não ter participado, por não ter se sujeitado às críticas deste grupo de urubus. (Talvez a minha tenha sido uma reação de leiga, mas o fato é que eu não me sentira à vontade vendo Strasberg encorajar uma cena de amor, muito íntima, entre um ator e uma atriz para em seguida estraçalhá-los com humilhante autoridade.) Invocando toda a confiança que me foi possível, eu perguntei àquela mulher loura, que caminhava à minha frente, se ela podia se ver atuando diante deste grupo. — De modo algum — Marilyn disse, numa voz infantil que era bem menos sussurrante do que no cinema. — Admiro este pessoal demais. Simplesmente não sou boa o bastante para eles. — Após alguns segundos de silêncio, ela acrescentou: —Lee Strasberg é um gênio, sabe? Minha intenção é fazer tudo o que ele me mandar fazer. Eu achava seu casamento com Arthur Miller perfeitamente compreensível, acredito que outras mulheres achavam o mesmo. Mesmo aquelas que se sentiram ameaçadas, quando Miller dispensou uma mulher de meia-idade para casar-se com uma mulher mais jovem e mais giamourosa, compreendiam. Se você não consegue que seu trabalho seja levado a sério, se possui um complexo de inferioridade intelectual e emocional, então case-se com um homem que é objeto da seriedade que lhe foi negada. É uma opção feminina tradi-

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cional — bem mais aceitável do que tentar atingir uma identidade sozinha. E claro que Marilyn não passou a ser encarada com mais seriedade e não passou a ser vista como uma intelectual. Mulheres não são encaradas com seriedade por associação sexual, da mesma forma que não o são por seu trabalho árduo. (A não ser que o homem sério morra e nos condenemos a ser as guardiãs da chama para sempre. Como já disse Margaret Mead, as viúvas são praticamente as únicas mulheres honradas com a autoridade.) Até mesmo a valente recusa de Marilyn em se deixar intimidar por ameaças de que jamais voltaria a trabalhar no cinema caso se casasse com Miller — que era chamado de "subversivo" na época, sendo inclusive convocado a testemunhar diante da Comissão de Atividades Não-Americanas — foi encarada como um ato de bravura menor do que a recusa de Miller em se apresentar diante da Comissão. Na verdade, o ato de bravura de Marilyn quase não foi noticiado. Talvez nem ela levasse sua própria bravura a sério. Ela poderia estar abrindo mão de seu ganha-pão, de um trabalho que significava tanto para ela, mas ela teria aberto mão disto tudo para se casar. Como a Sra. Arthur Miller, ela se retirou para uma fazenda de Connecticut e tentou limitar sua vida aos hábitos solitários do marido, ao trabalho dele, aos amigos dele, aos dois filhos dele. Ela só deixou sua aposentadoria auto-imposta para atuar no filme The Misfits, escrito por seu marido, quando ambos precisaram de dinheiro. Por outro lado, a interpretação do público foi um tanto diferente. Ela não passava de uma atriz egocêntrica que forçara um dos maiores dramaturgos americanos a escrever um roteiro sob medida para seus limitados dotes de atriz. Era isto que noticiavam as colunas de fofoca nos Estados Unidos e na Europa. Mas as atitudes da própria Marilyn desmentiam tais fofocas. Em seus dois casamentos anteriores, com o operário de uma fábrica de aviões, aos dezesseis anos e mais tarde com Joe DiMaggio, um grande jogador de beisebol, ela rompera com o mundo e colocara todas as suas energias em ser uma boa dona de casa. Quando isto não funcionou, ela se culpou, e não o papel em si, acrescentando mais um fracasso à sua lista de inseguranças. "Eu tenho fantasias demais para ser dona de casa", ela disse a uma amiga, com tristeza. E finalmente, a um entrevistador, ela disse: "E, eu acho que eu. sou uma fantasia."

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The Misfits pareceu revelar algumas das facetas da verdadeira Marilyn: sinceridade, inocência, uma fé imensa que sobreviveu a inúmeras experiências ruins, uma grande gentileza em relação a outras mulheres, um grande respeito pela vida das plantas e dos animais. Pela primeira vez, ela não apareceu apenas como símbolo sexual e vítima e eu não senti vergonha de assisti-la para poder constatar que ela sabia atuar. Comecei a ver seus filmes mais antigos, aqueles poucos nos quais, ao contrário de Gentlemen Prefer Blondes, ela não foi contratada para atuar como transformista. Para mim, assim como para tantas pessoas, ela era uma presença no mundo, uma força vital. Através dos anos, fui descobrindo outras dicas de seu verdadeiro caráter. Quando Ella Fitzgerald, uma artista negra e talvez a maior cantora de música popular, não fora aceita para cantar numa importante casa noturna de Los Angeles, nos anos cinqüenta, Marilyn telefonou para o proprietário e prometeu sentar-se numa mesa da primeira fila todas as noites se ele deixasse Ella cantar. O proprietário contratou Ella, Marilyn manteve-se fiel à sua promessa, a imprensa foi à loucura e, como Ella recordou, grata: "Depois disso, eu nunca mais precisei cantar numa casa pequena." Ainda mais comovente foi a última entrevista concedida por Marilyn. Ela implorou ao repórter que a finalizasse com: "O que realmente quero dizer é que o mundo precisa encontrar uma maior afinidade entre os seus povos. Todos: estrelas de cinema, trabalhadores, negros, judeus, árabes. Todos nós somos irmãos... Por favor, não me transforme numa piada. Termine esta entrevista com aquilo no qual eu realmente acredito." E, então, ela se foi. Eu me lembro de quando me contaram. Eu estava em meio a uma caótica reunião estudantil, na Europa, quando me disseram que ela estava morta. Eu me lembro do momento exato, naquele 5 de outubro de 1962. Lembro das pessoas à minha volta, lembro da sala onde eu estava. Depois disso descobri que muitas pessoas se lembram, como eu, daquele momento. É um fenômeno normalmente reservado para a morte de parentes e de presidentes. Ela era uma atriz, uma pessoa que não afetaria o destino de ninguém, e no entanto a sua energia e a sua incrível sinceridade perante a vida a ligou tanto a estranhos. Dias após a descoberta de seu corpo, oito mulheres jovens e lindas tiraram a própria vida em inci-

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dentes claramente parecidos com o de Marilyn. Algumas delas deixaram bilhetes, de forma a deixar a ligação bem clara. Dois anos depois, a peça autobiográfica de Arthur Miller, Afim the Fali, trouxe Marilyn de volta à vida. Mas de alguma forma esta Maggie não parecia a mesma pessoa. Ela possuía a insegurança patética de Marilyn, a mesma necessidade de usar sua. persona sexual para ser reconhecida e para se sentir viva. Mas, talvez naturalmente, a peça fosse sobre o sofrimento de Miller, não o de Marilyn. Ele pareceu incluir na peça alguns de seus próprios atos destrutivos. (Ele mantivera um diário a respeito de sua esposa, a respeito da estrela de cinema, por exemplo. A descoberta do diário foi, emocionalmente, um duro golpe para Marilyn e o começo do fim do casamento. Fez com que ela se perguntasse se seu marido a estava usando, como tantos homens a usaram, só que de uma forma mais intelectual.) Não obstante, a mensagem da peça era basicamente a visão de Miller de suas tentativas de apoiar uma criatura com infindáveis inseguranças; uma pessoa condenada, muito além do apoio que ele podia lhe proporcionar, por uma misteriosa falta de confiança. Para as mulheres, esta falta de confiança era menos misteriosa. Diana Trilling, que jamais a conhecera pessoalmente, escreveu um artigo logo após a sua morte que, segundo alguns dos amigos de Marilyn, era um retrato mais fiel do que o de Miller. Ela falava do "escárnio público do desejo de Marilyn em se instruir"; da consciência sexual que veio de fora para dentro, da reação masculina, "deixando nela um enorme vazio quando uma verdadeira sexualidade teria lhe dado uma noção de si própria, com coerência, com conteúdo". Ela questionou se Marilyn realmente quisera morrer ou se apenas desejara dormir, perder a consciência, naquela noite de sábado. Trilling também registrou uma identificação com a solidão de Marilyn, sentida por tantos e tantos desconhecidos ("especialmente em mulheres protetoras, às quais aquela vulnerabilidade toda atingia em cheio"). Tanto é verdade que nós fantasiávamos uma maneira de salvá-la, se ao menos tivéssemos estado presentes. "Mas nós éramos os amigos", escreveu Trilling, "dos quais ela jamais soube." "Ela era uma mulher incomum, um pouco à frente de seu tempo", disse Ella Fitzgerald. "E ela nem sequer sabia disso." Agora que a visão das mulheres em relação à própria imagem está mudando, pensamos mais uma vez na vida de Marilyn Monroe

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Será que esta confiança recém-adquirida pelas mulheres, com ou sem a aprovação masculina, teria ajudado esta talentosa mulher de 36 anos de idade a se firmar sozinha? A resistir à insegurança e ao escárnio? A deixar de depender de seus atrativos sexuais como a única forma de se sentir viva — e assim enfrentar o envelhecimento corajosamente? Como a habilidade de gerar um filho lhe foi negada, será que estas novas idéias a teriam ajudado a descobrir que ser mulher inclui muito mais? Será que ela teria desafiado os analistas freudianos aos quais recorria em momentos de sofrimento? Acima de tudo, nos perguntamos se o apoio e a amizade de outras mulheres a teriam ajudado. Suas primeiras experiências com o sexo masculino não foram boas. Ela era filha ilegítima de um homem que se recusou a contribuir até mesmo para o seu enxoval de bebê; as recordações mais antigas da mãe de Marilyn de seu próprio pai, avô de Marilyn, era dele atirando um gatinho numa lareira durante um acesso de fúria. A própria Marilyn disse ter sido atacada sexualmente por um pai adotivo quando ainda era criança e que se casou aos dezesseis anos porque outra família adotiva já não podia criá-la. E no entanto ela se via forçada a depender da boa vontade e do reconhecimento masculinos para se sentir segura. Dependia deles até mesmo para ser interpretada através da palavra, por medo de que a competição sexual fizesse com que entrevistadoras mulheres a odiassem. Mesmo se quisessem, as mulheres presentes em sua vida não tinham o poder de ajudá-la. Em filmes, em fotos e livros, depois de sua morte e mesmo antes, ela era sempre fora vista por olhos masculinos. Chegamos tarde demais. Não podemos saber se poderíamos ter ajudado Norma Jean Baker, ou a Marilyn Monroe na qual se transformou. Mas não é tarde demais para fazer o que ela nos pediu. Finalmente, podemos levá-la a sério. — 1972
Eu gostaria de agradecer à co-fundadora e editora da revista Ms., Harriet Lyons, que deu a idéia para este artigo.

Um Vôo com Patrícia Nixon

Em 1968, durante os dez dias passados no avião da campanha Nixon, como repórter da revista New York (ver artigo intitulado "Em Campanha"), pedi uma entrevista com Richard Nixon e me deram Patrícia Nixon em seu lugar. O artigo resultante foi um longo apanhado sobre Nixon e sua equipe, porém este trecho causou maior impacto do que todo o resto. Fico triste que o tom impessoal deste artigo não me tenha permitido dizer que passei a gostar bem mais de Patricia Nixon após esta entrevista. Eu achei ter compreendido seu ressentimento e me compadeci dela. Porém, meu mais profundo pesar encontra-se no fato de ter tentado formar um elo pessoal e cordial com ela em vão.

De Denver, de volta aos nossos três jatos, para comparecer a um comício de adolescentes (alunos de escolas particulares e paroquiais, em sua maioria) em St. Louis. E depois mais um vôo para Louisville, Kentucky, para viajar no último grande barco fluvial do Mississippi. O primeiro trecho deste vôo resultou numa entrevista com Pat Nixon. Ela trabalhara durante a faculdade, tentara ser atriz e finalmente tornara-se professora de datilografia e estenografia de um pequeno colégio da Califórnia; casou-se com seu marido após um namoro de dois anos — ao que parece, um tanto relutante —, aos 28 anos de idade (ele a pedira em casamento na primeira vez em que saíram juntos); e fora apresentada por ele, em seu famoso discurso de Checkers, como "uma grande estenógrafa". Ela compartilhava de todas as calúnias e de todos os elogios sem jamais parecer, para o público, ser um indivíduo. Eu estava ansiosa por conhecê-la, mas todos os outros que já a haviam entrevistado disseram que ela era um verdadeiro sonífero. Ela estava sentada na frente do avião, com as mãos sardentas perfeitamente postas, os tornozelos perfeitamente cruzados e um sorriso público, enquanto um garboso assessor presidencial me sentava a seu lado. Eu não queria fazer as mesmas perguntas que ela já res-

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pondera com tanta indiferença que eram, tantas vezes, a respeito de seu marido ("Eu só acho que ele daria um excelente presidente") ou ("Pergunte a Dick a este respeito"), e sim fazer perguntas que dissessem respeito a ela. Ao explicar a respeito das dúvidas que eu sentia em escrever artigos usando outros artigos como base, perguntei a ela se havia algum erro que persistia em aparecer nos jornais que eu devesse tomar cuidado para não repetir. "Não, não", ela disse, alisando a saia. "Vocês, senhoras da imprensa, fazem um bom trabalho. Acho que os artigos têm sido muito bons." Ela queria dizer com isso que gostava de todos os artigos escritos até então? "Bem, na verdade não tenho tido tempo de ler muita coisa." (Outras "senhoras da imprensa" haviam me contado que ela lia tudo e que ficara incomodada com um artigo de Seattle que a retratou como um ser catatônico, que nada fazia além de sorrir.) Mas ela gostava dos artigos de campanhas passadas? "Sim, é claro, não tenho objeção alguma quanto ao que já foi escrito. Eu sei que vocês fazem o que podem e a grande maioria é sempre muito amável." Passamos mais algum tempo falando sobre isso. Então, ela era a única pessoa que eu jamais conhecera, incluindo eu mesma, que gostava de tudo que já fora escrito a seu respeito. Detectei um breve lampejo de irritação nos olhos castanho-esverdeados — o primeiro sinal de vida. Mas depois de um interrogatório muito longo, descobri apenas o seguinte: Não, ela nunca ficava enfadada durante as campanhas, ela jamais levava livros nas viagens, não tinha necessidade de outras distrações. ("Os comícios sempre me interessam, são sempre diferentes. Alguns são ao ar livre, outros não. As vezes apenas os idosos comparecem, outras vezes só os jovens, como hoje".) Haveria algo de especial que ela gostaria de realizar com a influência que teria como Primeira Dama. ("Acho que uma pessoa precisa apenas ser ela mesma.") Mas estava feliz por estar recebendo "tanto treinamento em primeira mão" para ser anfitriã de tantas futuras solenidades. Seu único outro interesse era na educação. ("Como professora eu concordo com o programa de educação de Dick em 100%. Eu gostaria de me dedicar a um programa que oferecesse oportunidades iguais, para todos, nas áreas educacional e profissional. Eu não gosto deste sistema atual, que leva tantos a desistir de estudar.") Ela escrevia um diário sobre sua vida como a Sra. Nixon para as suas filhas, mas jamais usava

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anedotas, é claro, porque assim teria de escrever os nomes de pessoas reais. Ela gostava de peças de teatro, especialmente My FairLady, e vira Hello Dolly! três vezes: duas vezes com convidados e uma porque "uma amiga da família", Ginger Rogers, estava no elenco. ("Eu acho que já há muita seriedade no mundo e não precisamos vê-la também no teatro.") Ela gostava de romances históricos, especialmente das vidas da rainha Vitória e de Mary Todd Lincoln, gostava também dos romances de Thomas Wolfe, mas raramente tinha tempo para ler "por divertimento" ou para comparecer a desfiles de moda. ("Eu sou um tanto desprendida com estas coisas. Eu me ocupo, simplesmente, de nossos tantos amigos. Em vez de passar horas almoçando, gosto de levá-los a um parque, a um museu. Acho que nós todos achamos isto mais interessante do que conversar apenas.") Não há conflito de gerações algum em sua família. ("Ora, outro dia mesmo Tricia e Julie decidiram não ir a uma de suas festas. Então eu perguntei: 'Vocês não vão sair?' E elas responderam: 'De modo algum, preferimos mil vezes ficar em casa e jantar com você e papai'.") A figura histórica feminina que ela mais admira e gostaria de ser é a Sra. Eisenhower. Por quê? "Porque ela significava tanto para os jovens.") Cada uma destas respostas exigira diversas perguntas. Ela não me pareceu satisfeita de estar sendo inquirida daquela forma, para a obtenção de informações subjetivas tais como aquilo com que ela se identificava, além de suas filhas e seu marido. (Esta ela não respondeu de forma alguma.) E eu não fiquei nada contente com as respostas insossas que ia recebendo. A Sra. Eisenhower foi a última gota. Eu estava na faculdade durante o governo de Eisenhower e não acho que a Sra. Eisenhower tivesse alguma influência especial sobre os jovens. "Não?" Fez-se uma longa pausa. "Ora, mas eu acho que teve", ela disse, finalmente. "Os jovens a admiravam pela valentia demonstrada durante todos os anos em que o marido passou longe, na guerra." Uma pausa ainda mais longa. Nós nos olhamos, cansadas e desconfiadas, enquanto eu procurava um assunto novo. E então as comportas se abriram. Não de forma descontrolada, mas numa voz baixa e cheia de ressentimento. Como uma longa acusação, nas quais as palavras simplesmente fluíam. — Eu nunca tive tempo de pensar em coisas como estas: em quem eu gostaria de ter sido, quem eu admiro, ou mesmo para ter

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idéias. Nunca tive tempo de sonhar em ser outra pessoa. Precisava trabalhar. Meus pais morreram quando eu era adolescente e tive de trabalhar enquanto fazia faculdade. Levei um grupo de pessoas até Nova York, de carro, para conseguir fazer um treinamento como técnica de raio-X, para assim poder pagar a faculdade. Trabalhei num banco enquanto Dick servia o exército. Eu poderia ter ficado sem fazer coisa alguma durante aquele tempo, mas trabalhei no banco e conversei com as pessoas e fui aprendendo todos os seus hábitos engraçados. Hoje tenho amigos em todos os países do mundo. Não me recostei na cadeira para pensar em mim mesma, nas minhas idéias ou no que gostaria de fazer. Nada disso, continuei interessada em gente. Eu continuei a trabalhar. Aqui mesmo, no avião, carrego esta pasta comigo e cada vez que me sento, escrevo bilhetes de agradecimento. Todo mundo gosta de receber um bilhetinho pessoal. Não tenho tempo para me preocupar com quem admiro ou com quem me identifico. Minha vida nunca foi fácil. Não foi nada como a de todos vocês... todas essas pessoas que sempre receberam tudo de bandeja." O assessor fazia sinais para mim, em vão, já há algum tempo. Havíamos aterrissado, parado na rampa e eu estava interferindo na rotina toda. A Sra. Nixon mexeu no antiquado anel de diamantes por um momento e, em seguida, com seu sorriso público firmemente colado aos lábios, deu um tapinha em meu braço. "Espero vê-la em breve; de verdade. Agora adeus, cuide-se", ela disse, frase-padrão em cima de frase-padrão. "Gostei muito de nosso bate-papo. Cuide-se." Pela primeira vez eu consegui enxergar a ligação entre a Sra. Nixon e o marido: eram duas pessoas decididas e profundamente desconfiadas de que "aqueles que recebiam tudo de bandeja" — nas palavras dela, "garotos glamourosos", e "garotinhos bem relacionados", nas palavras dele — conseguiriam, de alguma forma e com grande destreza, passar à frente deles, apesar de todo o trabalho que tiveram. Como penetras numa festa, eles se apoiavam num mundo excessivamente crítico. Deve ter sido um inferno todo especial para eles, uma candidatura tendo os Kennedys como oponentes, como se todas as suas desconfianças se provassem reais. — 1968

A Verdadeira Linda Lovelace

Lembra-se de Garganta profunda} Aquele filme que transformou o pornô em chique: foi o primeiro filme para homens que saiu do circuito pornô para atingir uma platéia muito maior. Embora tenha sido feito em 1972 como filme de segunda que custou apenas quarenta mil dólares e levou uns poucos dias para ser realizado, ele terminou a década com uma renda de aproximadamente seiscentos milhões de dólares de bilheteria. Esta cifra inclui o filme em si, as seqüências, as fitas cassete, as camisetas, os adesivos de carro e os acessórios sexuais. Na verdade, o filme foi brindado pela mídia com uma aprovação divertida e passou a fazer parte da nossa linguagem e de nossa consciência, quer tenhamos visto o filme ou não. Dos seriíssimos jornalistas do caso Watergate, que trabalhavam para o Washington Post e que imortalizaram o nome "Garganta Profunda" ao dá-lo ao seu principal informante, aos vulgares pornocratas da revista Screw — o que, numa escala de machismo, deve ser algo como a distância entre A e B —, parceiros improváveis, na mídia, transformaram este filme de mau gosto numa piada suja universal e numa central de lucros internacional. No coração desta piada suja e altamente rentável encontrava-se Linda Lovelace (nascida Linda Boreman), cujo rosto inocente e cheio de frescor é o grande responsável pelo sucesso do filme. Ela oferecia aos espectadores a excitante ilusão de que até mesmo a vizinha da casa ao lado talvez adorasse ser objeto de atos sexuais à moda pornô. Usar Linda Lovelace no filme foi idéia de Gerry Damiano, diretor e roteirista de Garganta profunda. "A coisa mais incrível a respeito de Linda, a coisa realmente incrível", ela lembra de tê-lo dizer a Lou Peraino, que financiou o filme, "é que ela ainda tem uma aparência doce e inocente." Mesmo assim, Peraino (que mais tarde foi preso pelo FBI por atividades junto ao crime organizado da indús-

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tria ilegal de filmes) reclamou que Linda não era a "loura peituda" que ele imaginara para o filme. Ele continuou a reclamar até mesmo depois que a mandaram servi-lo sexualmente. Na verdade, foi ao assistir Linda atuar publicamente como prostituta que Damiano teve a idéia inicial de Garganta profunda. Ele compareceu a uma festa na qual os homens faziam fila para serem beneficiários de um truque de engolidora de espadas sexuais que Linda aprendera com o marido e guardião, Chuck Traynor. Relaxando os músculos da garganta, ela aprendera a receber o mergulho profundo de um pênis sem engasgar; para ela, uma desesperada técnica de sobrevivência, mas para os clientes uma constante fonte de divertimento e novidade. E assim inspirado com tanta criatividade, Damiano imaginou o roteiro para um filme, algo quase tão perfeito quanto a completa eliminação do clitóris como fonte de prazer por Freud, inventor do orgasmo vaginal. Damiano decidiu contar a história de uma mulher cujo clitóris se encontrava na garganta e que, por isso, estava sempre ávida por fazer sexo oral com homens. Embora esta ficção fisiológica sobre uma mulher fosse bem menos ambiciosa do que a ficção de Freud sobre todas as mulheres, este filme pornô teve um impacto audiovisual brutal. Tratou-se de um instrumento educacional que a teoria freudiana não teve. Literalmente milhões de mulheres foram levadas aos cinemas por seus namorados ou maridos para ver Garganta profunda (sem contat as prostitutas, levadas pelos cafetões) para aprender o que uma mulher poderia fazer para satisfazer um homem se ela realmente quisesse. Este valor instrutivo parece ter sido o principal motivo da popularidade do filme para sua projeção além do universo normal de uma platéia exclusivamente masculina. E claro que se a espectadora fosse uma verdadeira desmanchaprazeres, ela poderia se identificar com a mulher exibida na tela — sentir sua humilhação, o perigo, a dor —, mas o rosto sorridente e feliz de Linda Lovelace servia também para acabar com a empatia.
Ela está ali porque quer. Quem a está forçando? Olha só como ela sorri. Está vendo só como mulheres de verdade gostam disso?

Oito anos depois, Linda deu uma resposta, humilhante e dolorosa, para a pergunta em Ordeal [Provação], sua autobiografia. Não obstante, é importante compreender o quão difícil deve ter

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sido, naquela época (e provavelmente ainda é, no caso das outras vítimas), conhecer a verdade. No auge da popularidade de Garganta profunda, por exemplo, Nora Ephron escreveu um artigo sobre ter ido assisti-lo. Ela estava decidida a não reagir como "estas feministas enlouquecidas que saem por aí criando caso, fazendo críticas políticas sobre filmes não políticos". Não obstante, ela ficou apavorada diante da cena em que um consolo oco, de vidro, é inserido na vagina de Linda Lovelace e em seguida enchido com Coca-Cola — bebida através de um canudo cirúrgico. ("Eu não conseguia parar de pensar", ela confessou, "no que aconteceria se o vidro quebrasse.") Sentindo raiva e humilhação, seus amigos homens lhe disseram que ela estava tendo uma reação excessiva e que a cena da Coca Cola era "hilariante". Como redatora, conseguiu uma entrevista telefônica com Linda Lovelace. "Eu não tenho inibição alguma em relação ao sexo. Eu só espero que todo mundo que for ver o filme... perca um pouco de suas inibições." E assim Nora escreveu um artigo que supunha que Linda fosse rainha pornô por vontade própria e que vivesse feliz, ganhando "US$250 por semana... e participação na bilheteria". Ela descreveu sua reação como sendo de uma "feminista puritana que perdera o senso de humor ao assistir um filminho de sacanagem". O que ela não sabia (e como poderia qualquer entrevistador saber?) era que Linda, mais tarde, incluiria esta resposta na lista das muitas ditadas por Chuck Traynor para ocasiões jornalísticas como aquela. Ele a castigava se mostrasse qualquer emoção inaceitável (quando, por exemplo, ela chorou ao ser currada por cinco homens, num quarto de hotel, fazendo com que um dos clientes se recusasse a pagá-la). Na verdade, ela fora espancada e estuprada tantas vezes e com tal regularidade que sofreu danos retais além de lesões permanentes às veias da perna. O que Nora não sabia era que Linda também escreveria a respeito de suas três tentativas de fuga e dos três retornos forçados a uma vida de servidão sexual: primeiro traída por outra prostituta; em seguida a própria mãe, convencida pelas declarações solenes de Chuck de que se arrependera e de que era inocente, revelou onde Linda estava escondida; e finalmente pelo seu próprio medo, de estar ameaçando a vida dos dois amigos que lhe deram refúgio quando souberam que ela havia sido forçada a fazer um filme de sexo com

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um cachorro — Traynor estacionou sua caminhonete na frente da casa dos amigos com o carro cheio, acreditava Linda, de sua coleção de granadas e metralhadoras. Até hoje, estes e outros fatos sobre Traynor devem ser lidos precedidos pelas palavras "acusado de". Devido ao longo período passado por Linda no mais profundo pavor, aos limites de tempo impostos pela lei e pelo fato de Traynor a ter forçado a se casar com ele, era difícil processá-lo. O livro de Linda documenta mais dois anos de medo, sadismo e prostituição forçada. Traynor disse que as acusações de Linda eram "tão ridículas que eu não posso levá-las a sério". Ele também disse que "quando eu comecei a sair com Linda ela era muito tímida, ficava chocada em ver um homem nu... eu criei
Linda Lovelacé".

O que Linda conta desta criação inclui uma arma apontada para a sua cabeça e ter de trabalhar sendo vigiada através de um buraco na parede para que ela não escapasse e ter uma mangueira d'água enfiada no ânus se se recusasse a oferecer divertimentos tais como despir-se em restaurantes e para motoristas em auto-estradas. Ordeal é um livro difícil de ler. Deve ter sido mais difícil ainda de escrever. Mas Linda diz que queria se livrar para sempre da idéia de que ela se tornou "Linda Lovelacé" de livre e espontânea vontade. Teria ela escrito o livro por dinheiro? Ela certamente precisa muito de dinheiro para si, para o filho de três anos de idade, para o filho que está por nascer e para o marido, Larry Marchiano, um amigo de infância, instalador de TVs a cabo, cujo emprego foi posto em jogo quando seus colegas de trabalho descobriram sobre o passado de Linda. Durante algum tempo, eles sobreviveram graças aos fundos previdenciários do governo americano. Mas Linda conta ter recusado uma proposta de um milhão de dólares para estrelar um outro filme como Garganta profunda. (Por esta filmagem, Linda recebeu mil e duzentos dólares que, como o dinheiro ganho como prostituta, ela jamais viu.) "Eu não faria nada daquilo outra vez", ela afirma. "Nem se me dessem cinqüenta milhões de dólares." Um outro motivo para escrever Ordeal torna-se claro a partir da resposta de Linda a um cartão-postal escrito por uma jovem que foi coagida a se prostituir, uma mulher que disse ter tido coragem de ftigir depois de ver Linda na televisão. "As mulheres precisam que

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alguém lhes dê coragem para fugir, de alguém que lhes diga que é possível recobrar a auto-estima", ela conta. "Significou muito para mim receber aquele cartão-postal." Ironicamente, sua única esperança de fuga veio justamente do surpreendente sucesso de Garganta profunda. Ela se tornara uma propriedade valiosa. Precisava ter contato com gente que vivia do lado de fora, num mundo que, segundo ela, lhe fora negado até mesmo via rádio e jornal. Hoje, ela diz, lucidamente: "Eu agradeço a Deus, hoje, por não fazerem snuff movies naquela época." Ela diz que escapou fazendo Traynor acreditar que poderia confiar nela, um pouquinho mais a cada vez, até que foi deixada, sem vigias, num quarto de hotel, durante os ensaios para a versão teatral de Linda Lovelace. Após a fuga, ela passou semanas escondida, sozinha, em quartos de hotel, convencida de que poderia ser espancada ou morta por esta quarta escapada, mas sentindo-se mais forte, desta vez, por ter de se preocupar apenas com a própria vida. Ela passou muito tempo escondida, com a ajuda e os disfarces conseguidos por uma secretária que se compadecia dela, a secretária da Linda Lovelace Enterprises, o novo e bem-sucedido empreendimento de Traynor (mas ela não conseguiu ajuda alguma da polícia pois, segundo eles, não podiam fazer nada para protegê-la "até que um homem armado esteja na mesma sala que você"), antes que o terror diminuísse até um medo renitente. Traynor continuou a telefonar e a suplicar pelo seu retorno. Ele a processou por quebra de contrato. Mas ele também encontrara uma nova mulher para estrelar seus filmes pornô: Marilyn Chambers, a modelo que apareceu em Behind the Green Door (Por trás da porta verde}, um filme, comparativamente, não violento. E então, de repente, ela soube através do advogado de Traynor que ele concordaria em assinar o divórcio. As ameaças e as súplicas pararam. Não mais precisando se esconder e se disfarçar finalmente, ela tentou transformar sua identidade criada em atuação de verdade no filme Linda Lovelace for President [Linda Lovelace para presidente}, uma comédia que não deveria ter cenas de sexo explícito. Mas ela descobriu que os produtores que lhe ofereciam papéis esperavam, em troca, sua nudez. Ela compareceu ao Festival de Cannes mas ficou deprimida por ser aceita dentre celebridades que ela tanto res-

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peitava. "Eu participara de um filme nojento com gente nojenta... Afinal, o que é que este pessoal estava fazendo, vendo um filme daqueles?" Quando ela começou a dar suas próprias respostas para as perguntas e a tentar explicar os anos de coação, descobriu que os jornalistas tornavam-se mais relutantes em publicar suas palavras. Sua história era deprimente, não tinha nada de glamourosa ou excitante. Como ela havia sido passada de mão em mão como uma moeda sexual, às vezes entre homens famosos, havia também o medo de processos. Foi só em 1978, ao ser entrevistada por Mike McGrady, um respeitado jornalista de Long Island, para onde ela se mudara com o novo marido, que sua história aos poucos veio a público. McGrady acreditou no que ela contava. Com o intuito de convencer um editor de que a história tinha credibilidade, ele a submeteu a um interrogatório de onze horas com um detetor de mentiras, realizado pelo ex-chefe de poligrafia da procuradoria de Nova York, um teste que incluiu um enorme número de detalhes e uma brutal reinquisição. Mas mesmo com estes resultados, e o próprio McGrady como colaborador, diversas editoras recusaram o manuscrito. Finalmente, Lyle Stuart, um destemido editor que aceita assuntos muitas vezes sensacionalistas ou controvertidos, não só acreditou na história como também aceitou publicá-la. E assim, nos perguntamos: será que um prisioneiro político, homem, contando uma história parecida, teria tanta dificuldade em ser acreditado? Ordeal ataca o mito do masoquismo feminino, que insiste em que as mulheres gostam de ser dominadas sexualmente e de sentir dor, muito embora a prostituição e a pornografia sejam indústrias construídas tendo este mito como base. Quando lhe perguntaram o porquê de não ter tentado fugir antes, Linda respondeu: "Eu posso compreender por que algumas pessoas têm dificuldade em aceitar a verdade. Quando eu era mais nova, quando ouvia falar no estupro de uma mulher, eu sentia, no fundo do meu ser, que aquilo jamais aconteceria comigo. Eu jamais permitiria que acontecesse. Agora eu me dou conta de que isto faz tanto sentido quanto dizer que não se permitirá que uma avalanche aconteça." E há outras vítimas anônimas da servidão sexual: as jovens louras do Minnesota Pipeline, fugidas das cidadezinhas escandinavas das

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regiões rurais de Minnesota, que são drogadas e deixadas "no ponto" por cafetães e levadas para o Times Square; as mães, recebendo ajuda financeira da previdência, pressionadas a abrir mão da ajuda e prostituírem-se; as dançarinas "exóticas", importadas de países mais pobres para atuarem em filmes pornô e dançarem em boates de topless; as vítimas de tortura cujos assassinatos foram filmados, na América Latina, para snuff movies que seriam importados pelos Estados Unidos, ou as outras, cujos corpos foram encontrados ao redor do barracão de um cineasta da Califórnia; o corpo de uma prostituta, encontrado sem cabeça e sem mãos, num Hotel de Times Square, uma lição para outras mulheres que ousassem desobedecer seus cafetães. Talvez uma delas seja a próxima das muitas mulheres sem voz, uma das muitas mulheres culpadas pelos crimes aos quais foram submetidas, a começar a falar e a colocar a culpa onde ela realmente pertence... Talvez o exemplo de Linda as faça sentir que, ao escolherem retornar, alguma sociedade as aceitará. Até aqui, no entanto, elas continuam a ser desacreditadas quanto as mulheres estupradas e espancadas o foram até poucos anos atrás. Para divulgar seu livro, Linda vai ao programa de televisão de Phil Donahue; fica em silêncio, quando não fala com uma voz suave. Por baixo das calças compridas ela usa meias cirúrgicas para proteger as veias danificadas por espancamentos, durante os quais ela se encolhia como um feto, para proteger o ventre e os seios dos chutes e dos socos. Ela explica isto em resposta a uma pergunta de Donahue. Ela provavelmente precisará ser operada após o nascimento do bebê. O silicone injetado em seus seios, por um médico (que, como tantos outros profissionais ao qual foi levada, foi pago com os serviços sexuais de Linda), começa a se deslocar de forma bastante dolorosa e ela talvez precise de outra cirurgia no local. No entanto, Donahue, normalmente um entrevistador sensível, começa a fazer perguntas psicológicas a respeito de seu histórico pessoal: Ela se dava bem com os pais? Eles conversavam com ela sobre sexo? Será que o que sofreu não teria a ver com o fato de ter ficado grávida aos dezenove anos de idade e dado à luz um bebê entregue para adoção pela própria mãe? Algumas das mulheres na platéia decidem seguir esta linha de interrogação. Elas foram pobres. Elas tiveram pais severos e autori-

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tários e, no entanto, elas não fizeram parte do submundo do filme pornô. O ambiente fica carregado de autocongratulação. Donahue fala da tragédia das adolescentes grávidas, e o que os pais podem fazer para impedir que suas filhas tenham um destino como o de Linda. Como Traynor fizera celebrar uma cerimônia de casamento em dada época (Linda diz que ele o fizera para se certificar de que ela não testemunharia contra ele em acusações de porte de drogas), ela precisa concordar com a cabeça quando se referem a ele como "seu marido". Quando se refere a ele, no entanto, chama-o de "Mr. Traynor". Linda ouve pacientemente as dúvidas e as objeções, mas nunca desiste de tentar fazer a platéia compreender. Se outra mulher tivesse conhecido um homem que "se excitasse com a dor", conforme Linda descreveu em seu livro, talvez se encontrasse na mesma posição de Linda. Não, ela nunca o amara, ele era objeto de seu ódio e de seu terror. Sim, ele fora muito agradável, um verdadeiro cavalheiro quando se conheceram. Eles nem tinham relações sexuais. Ele oferecera a ela um apartamento, um refugio do regime severo e infantil sob o qual ela vivia em casa. E então ele deu uma guinada de 180 graus. Ela se tornou, ela diz baixinho, uma prisioneira silenciosa. Uma prisioneira da violência imediata e do medo de sofrer algo muito maior. Ela descreve a sensação de isolamento, de ser controlada a tal ponto que não podia ir ao banheiro sem a permissão de Traynor. Não tinha escolha. Podia ter acontecido com qualquer uma. Ela diz isto simplesmente e repete inúmeras vezes, e afinal a mensagem parece penetrar nas mentes de muitas das mulheres presentes na platéia. Mas no caso de algumas, a mensagem jamais penetra. Donahue continua a fazer perguntas sobre sua infância, sobre sua história pessoal. O que a levou a tal coisa? Como devemos criar nossas filhas para que não tenham o mesmo destino? Para alguém que aceita a história de Linda como verdadeira, as perguntas dele são enfurecedoras. E como se ele estivesse perguntando "O que, na sua história pessoal, a levou a um campo de concentração?" Ninguém pergunta como podemos parar de criar homens como o Chuck Traynor da descrição de Linda. Ou o que levou milhares de pessoas a assistir Garganta profunda. Ou o que fazer a respeito dos milhares de homens "normais" que acham que um pouquinho de violência e de agressão durante o ato sexual é aceitável.

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Uma mulher da platéia pergunta se este não é um assunto a ser tratado pelas feministas. Linda responde que sim, que ela ouvira falar em grupos antipornografia, que estava tentando entrar em contato com Susan Brownmiller, autora de Against Our Will [Contra a nossa vontade}. Este livro definitivo sobre o estupro levou Brownmiller a atacar outros tipos de violência pornográfica às quais mulheres são sujeitadas. Mas fica claro que, para Linda, é uma nova esperança, uma nova ligação. Para as mulheres que desejam apoiar Linda hoje e salvar outras mulheres usadas sexualmente contra a sua vontade, talvez esta seja a maior tristeza de todas. Em momento algum durante os meses em que sofreu e sonhou com a fuga, nem mesmo nos anos de silêncio que se seguiram, Linda recebeu algum sinal do mundo exterior de que as mulheres se fortaleciam como um grupo ou que feministas, ou algo denominado o movimento feminista, estivessem ali para ajudá-la. É lógico que uma vítima do anti-semitismo saberia que há uma comunidade judia pronta para ajudá-la e que uma vítima do racismo procuraria o movimento de direitos civis. Mas os grupos feministas ainda não são fortes o bastante para serem considerados uma presença no mundo da pornografia, da prostituição e do genocídio; ou até mesmo no mundo dos que dependem financeiramente dos fundos previdenciários do governo e no mundo dos trabalhadores pobres, ao qual Linda se juntou. Mesmo hoje, grande parte da ajuda e do apoio por ela recebidos vem de homens compassivos: de McGrady, que acreditou em sua história, do marido, que perde os empregos que consegue por defender a honra da esposa, do Deus masculino de sua infância obediente e católica, para o qual ela rezava, nos dias passados como prisioneira sexual e para quem continua a rezar em sua vida de dona de casa e mãe. Até mesmo seu sentimento de traição é ligado ao pai, não à mãe. Durante o longo interrogatório diante do detetor de mentiras, a única hora em que ela chorou e realmente desmoronou foi quando mencionaram, de forma absolutamente inócua, o nome de seu pai. "Eu estava assistindo àquele filme, Hardcore", ela explicou, "no qual George C. Scott procura a filha, sem parar. Por que é que meu pai não saiu à minha procura? Ele viu Garganta profunda. Ele deveria ter sabido... Ele deveria ter feito alguma coisa. Qualquer coisa!"

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Afinal, quem de nós teve mães poderosas o bastante para nos salvar, para fazer o que quer que fosse? Nós nem mesmo esperamos por isso. Na mitologia, Deméter salva sua filha, estuprada e seqüestrada pelo rei do Mundo Subterrâneo. Ela era uma mãe forte e irascível, que transformou a terra em inverno, enfurecida com o destino de sua filha. Será que, hoje em dia, uma mãe poderosa poderia salvar a filha do mundo subterrâneo da pornografia? Nem mesmo Hollywood inventaria uma trama destas. Mas Linda começou a revelar sua raiva, mesmo que apenas ao falar do medo que sente por outras mulheres, à medida que a pornografia torna-se mais violenta. "Daqui a pouco", ela diz, em voz baixa, quase que para si, "vão começar a vender pele de mulheres nos acostamentos das auto-estradas." E pelo menos as mulheres têm começado a se juntar para salvar umas às outras, como irmãs. Existem centros para mulheres espancadas, com números de telefone divulgados para as vítimas e abrigos secretos para os quais elas não serão seguidas. É um sistema que talvez também funcionasse para as vítimas da pornografia e da prostituição, se existisse e se as mulheres soubessem de sua existência. Neste meio tempo, Linda faz uma pausa das constantes faxinas realizadas em sua minúscula casa em Long Island ("Eu limpo tudo duas vezes por dia", ela diz com orgulho) para dar entrevistas, para divulgar sua mensagem de esperança a outras mulheres que talvez estejam vivendo em servidão sexual, neste instante, e para dar palestras a respeito da pornografia, com outras mulheres das quais se tornou amiga. Ela continua a responder às perguntas, muitas delas feitas por entrevistadores bem menos compassivos do que Phil Donahue. Como pode ela escrever um livro destes sabendo que seu filho poderá lê-lo algum dia? "Eu já expliquei a ele", ela diz com firmeza, "que umas pessoas machucaram a mamãe muito, há muito tempo.". Como pode o marido dela suportar viver com uma mulher com um passado sexual como o dela? ("Não foi sexual. Eu nunca senti prazer nenhum, jamais tive um único orgasmo, nada. Eu aprendi a fingir que sentia prazer para não ser castigada por fazer um péssimo trabalho.") E a mais freqüente das dúvidas: Se ela realmente queria fugir,
por que não fugiu mais cedo?

Linda tenta explicar da melhor forma possível. Observando-a

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falar, eu vejo que a pergunta deveria ser outra: Onde foi que ela encontrou coragem para fugir? Bem no fundo da paciência com que ela responde às perguntas — resultado de toda uma infância sendo treinada para ser uma "boa menina", o que contribui para que tantas de nós nos tornemos vítimas — há uma força e uma teimosia que são, em si, a resposta. Ela vai conseguir que as pessoas compreendam. Ela não desistirá. No microcosmo desta mulher reside um milagre que nos é familiar: a maneira pela qual as mulheres sobrevivem e voltam à luta. E lutar é preciso. Garganta profunda continua a passar num cinema de Nova York, e provavelmente em muitas outras cidades do mundo. No filme, vêemse claramente as luxações nas pernas de Linda, corroborando a sua versão de que foi mantida prisioneira durante as filmagens. Será que os espectadores percebem as luxações, ou apenas o sorriso estampado em seu rosto? Ainda não houve alegação de invasão de privacidade ou outros meios legais que conseguisse impedir a exibição do filme, em parte porque o estatuto de limitações já venceu e em parte porque a história de Linda, sobre aprisionamento, vai contra muitos mitos sexuais. Se eu não tivesse entrevistado outras pessoas que confirmaram parte de sua história, eu também teria acreditado não ser possível que algo assim acontecesse. E assim, muito dinheiro continua a ser ganho à custa da imagem da humilhação desta mulher. Garganta profunda popularizou um novo gênero de pornografia. Além de todos os outros tipos de estupro, agora há a nova ambição de estuprar a garganta. Romances pornográficos tratam do tema infindavelmente. Alguns médicos das emergências de alguns hospitais acreditam que há um aumento no número de vítimas de sufocação. E quanto a Chuck Traynor, ele ainda é marido e agente de Marilyn Chambers. Larry Fields, colunista do Philadelphia Daily News, lembra-se da entrevista que fez com os dois para a sua coluna, na época em que Marilyn fazia um número musical numa casa noturna local. Traynor vangloriou-se de ter ensinado a Linda Lovelace tudo o que ela sabia, mas que "Marilyn tinha algo que Linda jamais tivera, talento". Enquanto Traynor respondia às perguntas por Marilyn, ela pe-

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diu-lhe permissão para ir ao banheiro. Tal permissão lhe foi negada. "Agora não", Fields lembra dele ter falado. E quando ela reclamou que estava prestes a entrar em cena: "Fica aí, sentadinha, e cala a boca." Quando Fields também reclamou, Traynor foi firme. "Eu não dou palpite em como você escreve sua coluna", ele disse, enfurecido, "Então não venha meter o bedelho em como eu trato minhas mulheres". — 1980

PÓS-ESCRITO Depois de muitos problemas de saúde devido aos castigos físicos por ela sofridos, e do assédio freqüente por ser constantemente reconhecida, Linda, o marido e os dois filhos adolescentes vivem uma vida tranqüila, longe de Nova York. Embora ela ainda seja vítima de flashbacks, quando a mídia despeja seqüestras, assassinatos e violência doméstica, ela viaja para contar sua experiência e para testemunhar em tribunais sobre as realidades da prostituição e da pornografia. Usar a própria vida para ajudar aos outros é o estágio final da cura. E quanto àqueles que criaram Garganta profunda, ainda não há maneira legal de fazê-los pagar pelos danos que provocaram e de proibir a exibição do filme. — 1995

Repensando Jackie

Em 1964, quando Jacqueline Bouvier Kennedy ainda estava resguardada, durante seu ano de luto, escrevi um longo artigo sobre esta mulher que eu mal conhecia. A matéria em questão consistia em registrar as opiniões de diversos amigos seus, de parentes, adversários, políticos, e diversas figuras públicas a respeito de uma pergunta que parecia ocupar o tempo de grande parte da mídia em todo o mundo. O que será que esta viúva de 35 anos faria da vida agora? A maioria das pessoas achava que ela devia atuar na área internacional, como pessoa pública. Servir como embaixadora, tornar-se uma espécie de Eleanor Roosevelt em versão glamourosa, casar-se com Adlai Stevenson (para transformá-lo, outra vez, num candidato presidencial viável), todos constavam da lista. Algumas outras pessoas, especialmente seus amigos e parentes, achavam que ela já fizera o suficiente pelo mundo. Um correspondente da Casa Branca disse que, em seu papel de viúva, ela salvara a sanidade mental de toda a nação, comportando-se com um verdadeiro senso de história, com dignidade e com coragem nos eventos públicos durante a morte e o enterro do marido. Robert Kennedy reagiu como se a pergunta não tivesse a menor importância, deixando transparecer a admiração que sentia pela cunhada. "Jackie sempre manteve sua própria identidade", ele explicou, "e sempre foi diferente." E quanto ao objeto de especulação, ela nada dizia. Enquanto estivera na Casa Branca ela reagira com humor a perguntas similares sobre o seu futuro. "Eu simplesmente me aposentarei, em Boston", ela dissera, "e tentarei convencer John Jr. de que seu pai foi presidente um dia." Como seu ano de luto excluísse entrevistas (e, na realidade, ela deu muito poucas declarações públicas desde então), a primeira dica de suas atividades futuras encontrava-se em seu interesse pela con-

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tinuação do trabalho do marido. "Ele mudou nosso mundo", ela disse, com firmeza, "e eu espero que as pessoas se lembrem dele e sintam sua falta por este motivo." A segunda dica estava no seu futuro como nós o imaginaríamos se fosse uma pessoa menos famosa: como mãe viúva com dois filhos para criar. "Eu estava lendo Carlyle", ela disse a um jornalista, "e ele diz que cada um deve cumprir com os deveres que estão mais próximos de nós. A coisa que está mais próxima de mim são as crianças." Em retrospectiva, a coisa mais interessante sobre a enxurrada de diretrizes e sugestões para o seu futuro foi o que deixamos de fora. Com a possível exceção de Robert Kennedy, ninguém jamais mencionou a possibilidade dela viver a própria vida. Olhando para trás, como feminista, eu me dou conta de que nem eu nem nenhuma das pessoas que entrevistei concedeu-lhe a honra de considerá-la um ser humano independente. Ninguém pensou na pessoa que ela teria sido se não tivesse se casado com um futuro presidente. É bem verdade que ela deve ter mudado durante os anos do governo Kennedy e devido a todos os fatos pessoais e históricos neles incluídos, mas ela era bem mais do que a soma de tudo isso. E no entanto todos nós nos comportávamos como se ela não pudesse (ou não devesse) criar um futuro independente da poderosa imagem de Kennedy. Foi esta recusa em enxergá-la como um ser independente que aumentou o choque do público quando ela se casou com Aristóteles Onassis. Sem a compreensão de seus problemas pessoais e de seu dia-a-dia, para não falar no preço de simplesmente existir como o mais famoso símbolo da era Kennedy, seu segundo casamento não fez o menor sentido. Este é um problema compreensível por qualquer mulher que já viveu a experiência de ser tratada como uma pessoa completamente diferente porque a identidade do homem que se encontra ao seu lado mudou. Mesmo quando ela ficou só outra vez após a morte de Onassis, as especulações a respeito de seus futuros planos pareciam dividir-se em duas linhas: Será que ela se tornaria uma Kennedy outra vez (ou seja, mais politizada, americana e séria) ou continuaria a ser uma Onassis (ou seja, mais social, internacional e simplesmente rica)? O que ninguém previu foi seu retorno ao mundo editorial, no

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qual ingressara brevemente após a faculdade, um emprego que ela poderia ter tido por conta própria. E foi exatamente o que fez. A caminho do trabalho, todos os dias, eu passo por um minúsculo restaurante, na verdade não passa de um balcão, especializado em hambúrgueres gigantes. Na vitrina, há a ampliação de uma foto de jornal na qual Jackie encontra-se sozinha, sentada ao balcão. Ela apenas segura uma xícara de café, obviamente sem saber da câmera, e no entanto a foto foi tirada e publicada sem a sua autorização e agora é exibida para promover a venda de hambúrgueres. Este pequeno símbolo de uma vida, na qual os momentos íntimos estão sempre prestes a tornar-se públicos, me fez pensar nos atrativos de uma vida passada numa ilha grega, com um amigo forte e protetor — especialmente nos anos que se seguiram ao assassinato, quando multidões a aguardavam do lado de fora do edifício onde morava, todos os dias. Isto também me fez considerar, seriamente, a força e a firmeza que lhe foram necessárias para ingressar no mundo do trabalho normal. Ela está empregada, já há quatro anos, algo que seus críticos ou desconhecem ou preferem ignorar. Primeiro, ela precisou sobreviver aos observadores obcecados, aos fotógrafos que ainda se escondem em cada esquina, e às eventuais especulações dos jornais sobre o assassinato de Kennedy ou sobre a vida pessoal de Jack Kennedy, a enxurrada de livros a respeito de seus dois maridos e os filmes nos quais alguma jovem atriz faz fama encenando algum trecho de sua vida. Além disso, ela precisou apresentar-se, absolutamente vulnerável, diante de um grupo de profissionais editoriais céticos que agiam como se duvidassem de sua habilidade, um grupo dado à boataria. Suponho que haja, também, muitos amigos ocasionais e colegas que a respeitem e gostem dela, mas que tendem a não demonstrá-lo. Temo ser uma destas pessoas. E uma peculiaridade do fato de conhecê-la e de almoçar com ela eventualmente o medo que se tem de mencionar o encontro em unia conversa e parecer prepotente. Apesar de todos nós, no entanto, ela aos poucos foi encontrando seu próprio rumo. Em 1975, um pouco depois da morte de Onassis, Dorothy Schiff, então uma bem-sucedida editora no New York Post, a convidou para almoçar com a sugestão de que se candidatasse para o Senado, con-

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tra Daniel Patrick Moynihan. Jackie recusou a sugestão imediatamente mas passou a tarde percorrendo, entusiasmada, as instalações editoriais do Post assim como a gráfica do jornal. Conforme explicou a Dorothy Schiff, o dia passado ali lembrou-lhe dos bons tempos de jornalista, em Washington. Naquela mesma época Jackie contribuiu com um artigo bem escrito, mas sem assinatura, para a New Yorker na abertura do Centro Internacional de Fotografia, um projeto de seu amigo Cornell Capa. Mas nenhum destes dois eventos preparou muitos de seus amigos, e muito menos o público, para a decisão que ela logo anunciou de ingressar na Viking Press como consultora editorial. Diversos colunistas mostraram-se chocados. Nenhum de seus maridos fora do ramo editorial. O que a levava a achar que podia simplesmente seguir uma carreira só dela? Houve muita especulação sobre quanto ganharia e sobre quanto tempo duraria este capricho. Como pais que não acreditam que seu filho já esteja crescido o bastante para freqüentar a escola, câmeras de televisão e repórteres aglomeraram-se na calçada para registrar seu primeiro dia de trabalho. Apesar das dúvidas do público, ela continuou a trabalhar na Viking quatro dias por semana, durante dois anos, telefonando para o escritório para pegar recados em seus dias de folga. Ela comparecia às reuniões editoriais, sugeria idéias e autores, buscava seu próprio cafezinho, fazia suas próprias ligações, esperava na fila da máquina de Xerox para fazer suas próprias fotocópias, trabalhava em diversos projetos editoriais e ganhava dez mil dólares por ano. Nenhuma destas atividades diárias precisariam ser explicadas se se tratasse de uma pessoa normal que "precisa trabalhar". Acabou, no entanto, que seu comportamento pé no chão era contrário à imagem que o público tinha dela. Assim como os depoimentos dos colegas sobre a atuação de Jackie como editora de um livro sobre a história das mulheres americanas durante o século XVIII, chamado Remember the Ladies [Lembrem das senhoras}. Ela apoiou a autora em sua inclusão de mulheres das classes trabalhadoras, de negras e de índias nas páginas do livro. Ela se debruçou sobre um manual sexual do século XVIII procurando informações sobre uma raiz que as mulheres mastigavam para induzir abortos; e, segundo Muffie Brandon, uma das idealizadoras do livro, "se arrastava pelo chão, fazendo o layout das fotos a serem incluídas".

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Quando transferiu-se para a Doubleday (em parte por ter feito objeções à publicação de um romance da Viking, uma versão mal disfarçada do assassinato de Ted Kennedy), tornou-se editora assistente. Ela tinha liberdade de trabalhar em casa ou no escritório, de estar na rua fazendo pesquisa ou almoçando com autores, com menos perigo de ser acusada de diletantismo. O chão de seu apartamento tornou-se coberto por imagens tiradas por Atget, um fotógrafo francês cuja coleção ela publicou, e pelos layouts de outros livros. Mas muita gente, de todos os níveis do meio editorial, ainda se espanta ao atender ao telefone e ouvir sua voz inconfundível, sem ser anunciada por secretária alguma. E muita gente, em todo o mundo, se surpreende ao saber que ela viaja para pesquisar suas idéias, para caçar novos autores, para promover o lançamento de um livro — e até mesmo pelo simples fato de estar trabalhando. Não estou sugerindo que a Mulher Mais Famosa do Mundo seja como todo mundo. Muito pelo contrário, ela não se parece com ninguém. Parte daquilo que a faz única é a habilidade de distanciar-se de sua imagem pública, de ignorar a curiosidade obsessiva de estranhos, e de se recusar a ler quase tudo escrito a seu respeito. Esta habilidade, certamente, a ajudou a sobreviver com a sanidade e o senso de humor intactos. E provável que este seja o hábito que mais irrita àqueles que gostariam de vê-la utilizar seu poder público para diversos fins políticos. (Eu, por exemplo, adoraria que ela usasse um pouco de sua influência para lutar em público por questões que envolvem grupos sem poder, em geral, e mulheres, especificamente.) Mas querer que ela use o poder de outras vidas pode chegar, injustamente, perto de querer usá-la, por mais nobre que seja a causa. Ela, pessoalmente, contribui financeiramente para diversos projetos, incluindo aqueles que ajudam mulheres a lutar por seus direitos, mas ela não defende publicamente a Emenda de Igualdade de Direitos que no íntimo apóia, ou qualquer outra plataforma política. Através dos anos, ela se manteve fiel a projetos iniciados no governo Kennedy, tal como a Restauração de Bedford-Stuyvesant, um projeto de reforma do maior gueto negro de Nova York. Mas, publicamente, sua imagem está ligada a eventos artísticos e culturais, interesses pessoais seus há muito. Salvar os prédios de Nova York para a Sociedade Municipal de Arte ou a Rua 42 de sua decadência

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como centro de pornografia e crime — estes são os projetos com os quais ela se ocupa, em silêncio. É este o tipo de indivíduo que ela é: nem Kennedy, nem Onassis e nem mesmo sua própria glamourosa imagem pública; ela é uma mulher única que continua a ser séria, trabalhadora, sensível, engraçada e até mesmo um pouco chocante. (Em conversas, ela é o tipo de pessoa a quem você se pega dizendo coisas que apenas pensara, coisas indiscretas que só mesmo a suave rebeldia de Jackie nos encorajariam a dizer.) Ela é, entre as amigas, um silencioso grupo de conscientização concentrado em uma só mulher, dando força para uma esposa rica caminhar com os próprios pés, ajudando uma amiga recém-divorciada a conseguir o primeiro emprego. Ela é criativa, inteligente e consistente em seus interesses, leal aos amigos, extremamente exigente no que diz respeito à lealdade dos outros e o reservado foco central de uma tempestade pública. Seu exemplo traz perguntas interessantes para que cada uma de nós nos questionemos. Dadas as opções de usar o poder de Kennedy ou de viver o estilo de vida como uma Onassis, quantas de nós teria escolhido recorrer a nossos próprios talentos e a carreiras menos espetaculares? Quantas de nós teria sido forte o bastante para escolher nosso próprio trabalho sobre uma influência herdada? A longo prazo, a insistência dela em desenvolver um trabalho só seu pode vir a ser muito mais útil às outras mulheres do que o uso de qualquer poder convencional por ela recusado. — 1979

Alice Walker: Você Conhece Essa Mulher? Ela Conhece Você

Deve haver milhares de pessoas espalhadas pelo país que pensam ser as únicas a saber o quão importante e única é Alice Walker como escritora. Talvez "escritora" seja até mesmo uma palavra distante. Viajando e ouvindo os depoimentos de tantas pessoas, através dos anos, noto que os leitores da obra de Alice Walker tendem a falar dela como se fosse uma amiga: alguém que os salvou da passividade ou da raiva, alguém que lhes ensinou a sensualidade ou o amor próprio, o humor ou a redenção. — Eu me tornei uma pessoa bem melhor — explicou um romancista jovem e revoltado, diante de uma sala cheia de colegas — desde que passei a seguir as orientações e me submeti a uma dieta recomendada por Alice Walker. — Esta foi a única apresentação que ele fez antes de Alice Walker se levantar para ler um texto diante de uma platéia formidável, e ele tinha razão. Quando ela terminou a leitura, um conto comovente sobre a morte de um velhinho desconhecido, heróico e muito amado, a competição e a raiva reinantes naquela sala haviam diminuído consideravelmente. — Enquanto leio seus romances, me vejo completamente despercebida de seu estilo — disse uma crítica literária, que é também escritora. — E como um copo que contém o que ela quiser que você enxergue lá dentro. E, no entanto, eu sou capaz de ler alguns poucos parágrafos escritos por ela e dizer: "Isto aqui foi escrito por Alice." — Não há dúvidas de que ela não é a única autora que enxerga a crueldade individual e as injustiças sociais — explicou uma mulher que envelheceu na luta pelos direitos civis em geral e das mulheres negras em particular. — Mas ela é a única a ver as coisas por

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inteiro: o que acontece com os negros neste país, com as mulheres em todo o mundo; os ultrajes contra a história e contra a Terra; tudo. E no entanto ela me ensinou que a crueldade por si só se destrói, o que me faz ter fé para continuar a lutar. Ela pega as pessoas mais irremediáveis e depois escreve sobre as suas redenções. Isto me faz acreditar em mudanças, e permite que eu também mude. Ao terminar de ler algo escrito por Alice, eu não sou jamais a mesma pessoa que era quando comecei a ler. Já ouvi muitos comentários parecidos nos últimos dez anos, mais ou menos. Como muitos sabem que eu trabalho na Ms., que já publicou textos de Alice Walker e da qual ela é editora contribuinte há alguns anos, sou receptora acidental de testemunhos pessoais, onde quer que eu vá. Quando os leitores desconfiam que eu talvez conheça Alice pessoalmente, os comentários transformam-se em perguntas: Quando é que ela vai lançar outro livro? Por que é que os livros dela não estão à venda em todas as livrarias? E interessante, mas não ouço as perguntas normais feitas sobre celebridades, como: Como é Alice Walker pessoalmente? Os leitores acham que já a conhecem através de sua obra. Mas as incontáveis vidas tocadas pela sua obra formam uma rede pequena, secreta e ampla que atinge quase todas as universidades e lugarejos. É claro que a existência de tais leitores, até mesmo aqueles que não se conhecem, significa que Alice Walker não é, na verdade, uma autora secreta. Seus três romances, três livros de poesia e duas coletâneas de contos venderam e receberam críticas favoráveis. Ela também editou uma seleção de textos de Zora Neale Hurston, folclorista negra e escritora até então esquecida da década de trinta, e escreveu a introdução da biografia de Hurston. Para os leitores mais jovens, ela escreveu a biografia de Langston Hughes. Sua primeira coletânea de contos, In Love and Trouble {Apaixonada e em apuros], ganhou o Prêmio Rosenthal do Instituto Nacional de Artes e Letras. Seu segundo romance, Meridian [Meridian], é muitas vezes citado como o melhor romance do movimento de direitos civis e é adotado tanto em cursos de história americana como em cursos de literatura. Revolutionary petunias [Petunias revolucionárias], seu segundo livro de poesia, recebeu o Prêmio Lillian Smith e foi indicado para o Prêmio Nacional do Livro. Mas sua visibilidade como um dos maiores talentos dos Estados

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Unidos é obscurecida por um preconceito já conhecido: a literatura criada por escritores brancos, do sexo masculino, é a norma, assim, mulheres negras (e todas as mulheres de cor) são duplamente marginalizadas e "especiais". Foi só de uns tempos para cá que romancistas como Toni Morrison ou Maya Angelou começaram a ser lidas além das restrições subliminares que surgem quando o adjetivo negra passa a qualificar o substantivo autora. (Apenas os homens brancos dispensam adjetivos. Talvez devêssemos começar a nos referir a
Norman Mailer et al. como escritores brancos do sexo masculino.) Na verdade

Cadê Bambara, June Jordan, Paule Marshall, Ntozake Shange e outras valiosas escritoras americanas da atualidade não têm acesso ao mercado principal (e o mercado principal não tem acesso a elas) porque existe um preconceito contra a universalidade daquilo que elas têm a dizer. E assim foi com todas as Zora Neale Hurstons e Nella Larsens do passado, cujas obras deixamos que saíssem de circulação e de nossas mentes. Até mesmo havendo cadeiras de estudos feministas e sobre negros feministas nas faculdades, e outros cursos que deveriam ser chamados de "cursos reparadores", vai demorar até que mude a crença acadêmica e cultural existente de que um americano pode cruzar as barreiras de país, tempo e língua para se identificar com Dostoiévski ou Tólstoi, mas não se pode esperar que ele caminhe até a casa ao lado para cumprimentar Baldwin ou Ellison; que uma mulher possa e deva se identificar com protagonistas masculinos, mas há algo de pervertido em esperar-se que um homem veja a vida através dos olhos de uma mulher. E claro que Alice Walker também cria protagonistas masculinos, como fez em seu primeiro romance, The Third Life Of Grange Copeland [A terceira vida de Grange Copeland], mas ali, ela enfrentou um preconceito semelhante. Sim, artistas homens podem criar mulheres, mas como pode uma escritora, sendo mulher, ter autoridade bastante para criar um homem crível? Como sempre, o povo está à frente de seus líderes, e os leitores à frente de acadêmicos e críticos. E verdade, e importante, que um número desproporcional de pessoas que procuram os livros de Alice Walker, tão difíceis de encontrar, sejam mulheres negras. Afinal de contas, ela chega à universalidade pelo caminho desta experiência e é até mesmo valente o bastante para escrever a respeito de temas delicados tais como sexo inter-racial na América ou a opressão femi-

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nina na África. ("Você tem alguma idéia do que ela significa para nós?", uma aluna do Spelman College me perguntou certa vez com os olhos cheios de lágrimas.) Mas mulheres com formações pessoais diferentes também sentem uma ligação com Alice Walker. A luta por trabalhos e mentes próprias, pela nossa vulnerabilidade física, a dívida para com nossas mães, as realidades do parto, as amizades entre as mulheres, o destrutivismo dos homens que amamos — que nos tratam como seres menores do que eles — a sensualidade, a violência: todos estes são os temas básicos de sua ficção e de sua poesia. Em The Third Life of Granje Copeland, ela expôs a violência contra mulheres, anos antes de começarmos a contar, em público, a verdade sobre espancamentos pelas mãos de maridos e amantes. Em termos de crítica, o romance pagou seu preço por estar muito à frente de seu tempo. Na verdade, o grande poder de sua obra está em falar da experiência feminina, ultrapassando as barreiras de raça e classe social. E ela jamais desiste. Nenhum personagem feminino pode esconderse por trás de um papel sexual, assim como um personagem negro não pode se esconder por trás de um estereótipo de raça. Como disse o jovem romancista: "Eu me tornei uma pessoa bem melhor", o que parece ser a reação freqüente de seus leitores homens e negros. Eles comentam a forma carinhosa com a qual ela usa o inglês do povo negro, a compreensão que ela tem do que dá certo e do que não dá, entre homens e mulheres, e o tratamento lúcido que ela dá à vida dos negros nas zonas rurais do Sul do país, onde grande parte de seus personagens cresceu. É verdade que um número desproporcional de críticas negativas veio de homens negros. Mas estes poucos críticos parecem reafirmar sua convicção de que os homens negros devem ter acesso a tudo aquilo que os brancos já tiveram, incluindo a dominação feminina. Eles demonstram seu medo de que as verdades contadas por uma negra sejam mal usadas por uma sociedade racista, e perplexidade diante do "estilo de vida" de Alice, um eufemismo usado para o fato dela ter passado dez anos casada com um branco, ativista de direitos civis. Quem fez esta última observação foram críticos que, como já escreveu Alice, "já tiveram um casamento inter-racial e que, além do mais, seguiam, embevecidos, cada palavra escrita por Richard Right, Jean Toomer, Langston Hughes, James Baldwin, John Williams e LeRoi Jones, para mencionar, apenas, alguns e que por sinal já ti-

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veram ligações inter-raciais... Eu, mulher e negra, ousei usar das mesmas prerrogativas que eles". Por outro lado, Alice também aponta que: "Pelo menos estes críticos negros me levam a sério o bastante para exporem sua fúria. A maioria dos brancos demonstra apenas perplexidade." E quanto aos leitores homens e brancos, a primeira barreira na qual esbarram é a convicção de que os livros de Alice "não foram escritos para nós". Após lerem uma obra de Alice, no entanto, eles muitas vezes dizem ter uma melhor compreensão da raiva negra ou uma nova convicção de terem sido privados de uma visão integral do mundo; é uma ironia, se considerarmos os medos expressados pelos críticos negros. Susan Kirschner, professora de inglês que estudou todas as críticas publicadas a respeito de Meridian, concluiu que o único crítico a examinar os temas morais do romance com seriedade, que não se limitou a descrever a trama, foi Greil Marcus, crítico branco do New Yorker. Afinal, quem seria capaz de não compartilhar da ira da poeta que escreveu: passo horas sentada, olhando minha própria mão direita me perguntando se ela me ajudaria a atirar no juiz que nos chamou de chimpanzés, sentado por trás de seu pódio e será que me ajudaria a despejar o doce arsênico no bule de café do governador ou a colocar cianureto no seu. não precisa me dizer; eu compreendo que estas são fantasias clichês de vinte e cinco milhões de esperanças que desabrocham espontaneamente para a vida a cada geração. é difícil para mim escrever aquilo que todo mundo já sabe; mesmo assim, me parece que já perdoei os mortos o suficiente. *
*" 10 de janeiro de 1973", Good night Willie Lee, 1'll See You In the Morning [Boa noite Willie Lee, nos vemos pela manhã] (Nova York: Dial, 1979)-

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E quem poderia resistir a este espírito rebelde: Em mim há uma fúria de desafiar a ordem das estrelas apesar de seus belos desenhos. Para ver se os Deuses, que hoje prometem de tronos humanos, conseguem que sua vontade sufoque a minha ânsia de ousar e de pressionar para dar ordens à anarquia à qual eu serviria. * E quem não gostaria de pronunciar estas palavras: Eu aprendi a não me preocupar com o amor; e sim a honrar a sua chegada com todo o coração. A examinar a escuridão dos mistérios do sangue com obediência impensada e o torvelinho, de conhecer a carga de sentimentos rápidos e fluidos como a água. A fonte parece ser uma inexaurível mina d'água dentro de nossos seres gêmeos e tríplices; a nova face que eu mostro a você ninguém no mundo jamais viu. **
Rage" ("Fúria"), Revolulionary Petunias & OtherPoems [Petúnias Revolucionárias e Outros Poemas) (Nova York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1973). *"New Face" (Nova Face), Revolulionary Petunias & Other Poems [Petúnias Revolucionárias e Outros Poemas) (Nova York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1973).

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Suspeitei durante muito tempo de que uma convenção da rede de leitores de Alice Walker formaria um grupo tão imenso quanto diversificado. Talvez se parecesse um pouco com o próprio país. É possível que seu contingente de leitores esteja prestes a se expandir. A Cor Púrpura, terceiro e mais recente romance de Alice Walker, poderá se tornar um evento literário do tipo que transforma uma reputação restrita, embora intensa, em popular. Para princípio de conversa, o estilo de A Cor Párpura é irresistível. A narradora é Celie, a mais oprimida e derrotada das mulheres. Como ela precisa lutar contra as situações mais improváveis e como não tem com quem falar, ela escreve sobre a vida com enorme sinceridade e um realismo pé no chão à guisa de cartas a Deus. Quando ela descobre que sua amada irmã, Nettie, não está morta e sim vivendo na África, ela começa a escrever as cartas para Nettie. (Fica claro que a autora está nos dizendo algo sobre a origem de Deus — sobre aquelas ocasiões nas quais precisamos inventar um amigo invisível e poderoso e quando não precisamos mais inventálo.) A questão é que, quer alguém venha a ler suas palavras ou não, Celie precisa confirmar sua própria existência escrevendo o que pensa e sente. Como uma Sherazade cujo inimigo se encontra em todos os lugares, menos em sua mente, ela escreve a história para salvar a própria vida. O resultado é um romance absolutamente sincero, surpreendente e lírico, que é a bem-sucedida culminação de viagens cada vez mais longas para fora do inglês padrão e para o coração do linguajar de seus personagens. Neste romance, ela dá um salto completo. Não há narrador na terceira pessoa para distanciar o leitor de sentimentos e eventos. Nós estamos dentro da cabeça de Celie, vendo através de seus olhos, sofrendo e rindo com ela, observando o mundo com uma clareza que talvez só nos seja possível de baixo para cima. Mais adiante, Celie impõe-se como narradora séria com o dom de promover uma inesperada mudança de rumo e da essência do caráter de uma pessoa em algumas poucas palavras. Como E. L. Doctorow em Ragtíme, o ritmo do contar dá ainda mais substância ao suspenseO que Ragtime fez com o ritmo dos acontecimentos e os capítulos, Celie faz com a escolha de uma linha, uma frase, um verbo. É um romance rápido, compacto, que só poderia mesmo ser escrito por

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poeta. Se Deus estivesse recebendo aquelas cartas, Deus certamente se viciaria nelas. Com este romance, críticos deveriam compreender por que Alice sempre preferiu descrever o linguajar de seus personagens como "inglês do povo negro" e não "dialeto", uma palavra que, ela acredita, foi usada de forma condescendente e quase sempre, racista. Quando Celie conta ou registra conversas de amigos, não há apóstrofes e contrações acanhadas para termos certeza de que a escritora na verdade sabe ortografia e gramática, e não há aspas para nos manter longe do que lemos. Celie simplesmente escreve as palavras como elas soam aos seus ouvidos e como ela as sente. Ela literalmente escreve com o coração. Logo, o leitor começa a se perguntar por que uma pessoa haveria de escrever de outra forma. Como sempre acontece na obra de Alice Walker, A Cor Púrpura assiste ao crescimento e à redenção das pessoas, ou então ao seu murchar e implodir. Depende da forma com que trabalham ou deixam de trabalhar as questões morais de suas vidas. Como sempre, no entanto, esta moralidade não é um conjunto de ditames externos. Não importa se você ama pessoas que a sociedade diz que não pode amar, ou que você tenha ou não tenha filhos com mais de uma destas pessoas. Não importa se você tem dinheiro, se freqüenta a igreja ou se obedece à lei. O que importa é que você não seja cruel e destrutivo, que não esconda a verdade daqueles que precisam conhecê-la, que não reprima os desejos ou os talentos de alguém, que não extraia mais do que você precisa da Natureza ou negligencie seus próprios desejos e talentos. Trata-se de uma moral orgânica de dignidade, de autonomia, e de equilíbrio. O que também importa é o reconhecimento de que todo o mundo, não importa o quão mau ou passivo pareça ser por fora, possui possibilidades de redenção em seu interior. Talvez seja por isso que Alice nos coloca nas mãos pouco confiáveis de Celie. Como a filha adolescente de uma paupérrima família sulista, ela é trabalhadora, triste, quieta e não é bonita. Nas primeiras páginas ela é estuprada mais de uma vez pelo marido da mãe, é forçada a deixar a escola que tanto ama por estar grávida, é privada até mesmo dos dois filhos nascidos dos estupros e se casa com um viúvo que a usa como serva para cuidar de seus muitos filhos. Sua vida parece sem esperança, sem alegria, uma vida que chegou ao fim.

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Na verdade, o maior perigo desse livro é que as primeiras páginas levem os leitores a desistir de lê-lo, tal o desespero que é lê-las. Mas os avisos de seu violento padrasto de que não contasse a ninguém "a não ser a Deus" é o que a leva a escrever suas cartas secretas. Ela escreve tudo, sobrevive aos freqüentes espancamentos do marido tornando-se "como uma árvore" e quebra a cadeia de crueldade se recusando a infligir seu próprio sofrimento a outra mulher. Celie se salva através de pequenos atos de empatia e de coragem. Ela resiste ao marido, o viúvo Sr. , um homem tão duro e cruel que ela se recusa a escrever seu nome. (Ao final do romance, o Sr. já se tornou um homem até bonzinho chamado Albert. É assim que funciona o poder de redenção de Alice.) Celie também é forçada a servir de enfermeira para Shug Avery, a mulher que seu marido na realidade ama. Trata-se de uma cantora local que possui o talento de Bessie Smith e a independência de Zora Neale Hurston. O amor que Celie vem a sentir por Shug é correspondido com irmandade e sensualidade. Quando Celie descobre que o Sr. interceptou todas as cartas escritas pela irmã Nettie, da África, fazendo com que ela pensasse que a irmã estivesse morta, sua ira finalmente rompe a passividade. Sua vontade é matá-lo, e só não o faz porque é impedida por Shug, que encontra formas mais eficientes de castigá-lo. Afinal, Celie descobre que impor-lhe sua vontade, que rir dele e simplesmente abandoná-lo aos seus próprios pecados também o mudariam. Isto é apenas uma amostra da trama. Nenhum romance russo conseguiria superar este com relações familiares mais complexas, com uma gama tão ampla de assuntos abordados e coincidências humanas. A estes prazeres novelísticos, adicione uma pitada de senso de humor e a expectativa de que a justiça vença, ambos toques muito americanos, além de uma sucinta discussão sobre a existência de Deus, da política da religião e das ocorrências diárias que freqüentam os noticiários, tudo isso puramente Alice. (Há também diversas surpresas que, assim como na vida real, parecem inevitáveis quando olhamos para trás.) Mas, o que quer que esteja acontecendo, a trama e suas idéias continuam a se desenrolar com uma economia de palavras que segue as regras que regem a arte de Picasso. Todas as linhas são necessárias. Nada pode ser suprimido sem que mude o sentido por completo.

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Depois de recuperadas, as cartas de Nettie expandem a história além da zona rural do Sul dos Estados Unidos para a Inglaterra e a África. Seu relato passo a passo do que acontece quando uma plantação de borracha de propriedade inglesa compra o vilarejo onde ela vive como missionária explica mais sobre os bastidores e maquinações do colonialismo do que muitos tomos acadêmicos. Por este motivo, o capítulo em questão deveria ser incluído nos cursos sobre a economia internacional. O senso de equilíbrio moral e de retribuição da autora é tão contagiante que nos pegamos questionando se a Inglaterra não estaria pagando por antigos pecados coloniais numa versão mais ampla do que o marido de Celie está pagando pelas crueldades às quais a submeteu. Ao final do romance, compreendemos que este pedacinho de terra, pobre e anônimo, localizado no Sul dos Estados Unidos é, na verdade, o mundo — e vice-versa. As conversas entre Celie e Shug nos trazem questões filosóficas, éticas e metafísicas, tudo isto na linguagem de uma contadora de histórias, na linguagem do coração. A cor párpura, uma cor raramente encontrada na natureza, passou a simbolizar o milagre das possibilidades humanas. Na tradição de Gorky, Steinbeck, Dickens, Ernest Gaines, Hurston, Baldwin, Ousmane Sembene, Bessie Head e muitos outros, Alice Walker escreveu um romance que cria empatia, um romance sobre a mais pobre dos pobres. Ao contrário da maioria dos romances que expõem a injustiça entre raças e classes, no entanto, A Cor Púrpura não trata as injustiças cometidas por homens com relação às mulheres como sendo secundárias ou naturais. E ao contrário de muitos romances pseudofeministas, não exclui certas mulheres devido à raça e classe social. O que o faz igualmente incomum dentre os livros sobre os pobres e os impotentes é o fato de não ser escrito sobre um grupo e destinado a um outro grupo, ou seja, ser escrito sobre o pobre para a classe média. E um romance populista, no melhor sentido da palavra. Quem faz parte da história também sentiria prazer em lê-la. Na verdade, é difícil imaginar alguém neste país que não seria tocado por este romance. Alice e eu estamos sentadas em seu apartamento em São Francisco, tomando chá e nos preparando para darmos início à entrevista. Nós já trabalhamos juntas, freqüentamos as mesmas festas e participa-

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mos de passeatas durante uma década, mas a verdade é que esta é a segunda ou terceira vez que conversamos a sós. Como tantos outros, eu acho que a conheço através de sua obra, mas será que a conheço realmente? Por exemplo, esta é a primeira vez que me encontro num ambiente completamente criado por Alice. Há um pequeno cômodo com uma imensa bancada de madeira, onde ela trabalha; um quarto que Rebecca, sua filha de doze anos, pintou com um arco-íris; o quarto da própria Alice, com uma cama antiga de madeira, talhada à mão, que ocupa quase o quarto inteiro; uma cozinha abarrotada de ervas frescas e potes de barro do Mississippi; e uma sala com um sofá enorme, plantas, mantas, uma cadeira de balanço antiga e muitos, muitos livros. Apesar da cidade grande lá fora, Celie, Nettie e Shug se sentiriam em casa aqui. O ambiente é acolhedor, tranqüilo e sólido, com fotografias do Sul rural e arte feminina pendurada nas paredes para o deleite de Celie, muitos livros e gravuras africanas para Nettie e cores vivas e sofisticação suficientes para agradar a uma cantora de blues como Shug. — Os personagens do livro se dispuseram a me visitar — Alice explicou —, mas só depois que eu parei de interrompê-los com leituras de poemas e palestras e viagens de avião. — Mais do que a maioria dos romancistas, ela sente que seus personagens possuem uma vida independente, que eles criam vida em sua cabeça e saem por aí, sozinhos. — Eles exigiram muito silêncio e muita atenção. Durante um período, quando Rebecca veio para cá, após passar um tempo com o pai, cheguei a pensar que até ela poderia ser demais. Quando ela chegou a casa um dia parecendo ter apanhado, dizendo "Não se preocupe, mãe. Você devia ver o estado do outro cara!" Pronto, Celie gostou dela na mesma hora. "Se você passar um bom tempo em silêncio, as pessoas simplesmente começam a chegar, em sua cabeça. Faz com que acredite que o mundo foi criado em silêncio. É surpreendente ver que Alice soa tão unicamente como ela mesma. Nos três anos desde que saiu de Nova York, onde eu moro, as vozes de seus personagens passaram a soar mais familiares aos meus ouvidos do que a voz dela. Compreendo que eles são partes mas que Alice é o todo. — Escrever A Cor Púrpura foi escrever na primeira língua que

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aprendi — explicou Alice, a caçula de oito de uma família de lavradores arrendatários da Geórgia. — Precisei viver muito para adquirir sabedoria mas a escrita, em si, foi fácil. Chegou uma hora que eu senti uma fúria imensa pelo fato dos negros e das outras pessoas de cor, que possuem um outro padrão lingüístico, não poderem simplesmente escrever da forma natural e fluida com que falam. Ela parece completamente integrada ao seu passado e, no entanto, nenhum habitante de sua cidadezinha ou de sua numerosa família jamais tornou-se poeta ou escritor. Isto me fez querer saber se ela, como tantas pessoas criativas, já se sentira tão diferente que teria acreditado ter sido "achada" ou adotada. — As vezes eu achava que tinha nascido naquela família por engano — ela admite. — Eu sempre parecia precisar de mais silêncio e de mais tranqüilidade do que o resto. Isto é uma coisa muito difícil de se ter, morando com dez pessoas, divididas em três ou quatro cômodos. Então eu encontrava um pouquinho de privacidade caminhando pelos campos. Eu tinha de pegar água no poço, então este era também um tempo que tinha para mim mesma. Eu passava tanto tempo ao ar livre que quando comecei a escrever e me peguei escrevendo meu primeiro livro de poemas, Once {Uma Vez}, debaixo de uma árvore no Quênia, aquilo me pareceu perfeitamente normal. "Eu tinha também professores incríveis. Quando eu tinha quatro anos e minha mãe precisou ir trabalhar no campo, a professora do primeiro ano deixou que eu freqüentasse suas aulas. Durante todo o primário, e depois o segundo grau e a faculdade, houve sempre um, às vezes até dois professores que me salvaram da sensação de solidão; da dúvida de que o mundo que eu tentava alcançar talvez nem existisse. "E claro que todas as escolas que freqüentei eram negras e que isso nos dava a sensação de pertencerem a nós mesmos. Se havia carteiras ou um palco, era porque os homens da comunidade haviam se juntado para construí-los. Meus pais promoviam o que chamavam de reuniões, para angariar fundos para a escola primária quando eu a freqüentei. Havia muita disposição para a auto-ajuda e um sentimento de comunidade. "Meus professores me emprestavam livros. Jane Eyre foi minha amiga durante muito tempo. Os livros tornaram-se meu mundo porque o mundo no qual eu vivia era difícil de se viver. Minha mãe traba-

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lhava como doméstica e ficava fora de seis e meia da manhã até depois que escurecia. Como uma de minhas irmãs fora morar no Norte e a outra se tornara esteticista, eu era responsável pela casa e pela comida. Eu tinha doze anos e quando voltava da escola encontrava uma casa vazia, para limpar e cozinhar. E ninguém dava muito valor à luta que era manter aquilo tudo. Eu sentia muita falta de minha mãe. Ouvimos ecos das histórias de Alice e seus personagens estão todos presentes. Como Celie, ela começou a escrever como forma de sobreviver. — Dos oito em diante, passei a escrever num caderno. Eu o encontrei há pouco tempo e fiquei surpresa, os poemas eram horríveis, mas eram poemas. Há até um prefácio no qual agradeço a todos que foram forçados a me ouvir ler aquele material: minha mãe, minha professora e meu tio Frank, que era cego. Como o narrador de seus muitos poemas e histórias, ela tinha uma mãe em cuja coragem e sabedoria ela se apoiava. E ainda se apóia. Aos quase setenta anos, ainda vivendo na mesma cidadezinha da Geórgia, sua mãe já está fraca demais para trabalhar. Alice a visita com freqüência. Ela conta os dois presentes que sua mãe lhe deu com sacrifício, uma maleta e uma máquina de escrever, claramente uma permissão para se aventurar e para trabalhar. Seu pai, que morreu há nove anos, era um homem perturbado e complicado, de quem ela diz ter sido muito próxima quando criança, mas ele não soube compreender a mulher na qual a filha se transformou. No ensaio "O País de Meu Pai São os Pobres", ela escreve sobre a separação que nenhum dos dois quis, uma distância entre pai e filha que a pobreza extrema e o sacrifício para o progresso da geração seguinte tantas vezes cria. Como Meridian, a personagem principal de seu segundo romance, ela ganhou uma bolsa e foi para Spelman, uma faculdade para mulheres negras, em Atlanta. Para Alice, a oportunidade era parte de um resultado irônico de um acidente ocorrido na infância e que a deixara "deficiente". Aos oito anos, enquanto brincava com os irmãos mais velhos, ela foi ferida com um tiro de espingarda de chumbinho. Ficou cega do olho direito. Um médico local previu que ela eventualmente perderia também a visão do outro olho e, embora estivesse enganado, ela viveu com este medo durante muitos anos.

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Ela também precisou viver com um tecido morto que cresceu por cima do olho cego como uma enorme catarata. — Eu rezava todas as noites para acordar um dia e descobrir que a pele sumira — ela recorda. — Eu não conseguia olhar diretamente para ninguém porque me achava feia. Flannery O'Connor diz que um escritor precisa ser capaz de encarar os outros, para ver tudo o que está acontecendo. Eu jamais levantava a vista. — Quando fiz quatorze anos, fui para a casa de meu irmão Bill para cuidar de seus filhos durante o verão. Ele me levou a um hospital, onde retiraram grande parte daquele tecido. Eu me transformei em outra pessoa. — Logo fui para casa, comecei a namorar o rapaz mais bonito e quando chegou a época de me formar no segundo grau, eu era a melhor aluna da turma, fora eleita "a mais popular" e coroada rainha da turma! Ela ri de si mesma, mas muito do medo daqueles anos ainda está ali. Alice acaba de explicar um dos mistérios sobre ela mesma que a sua obra não desvenda: porque ela jamais parece saber que é uma belíssima mulher. Talvez aqueles anos de infância também expliquem como ela consegue escrever de dentro da cabeça de alguém como Celie, alguém que a sociedade exclui por ser pobre, negra e, ainda por cima, feia. — Eu antigamente sonhava que vinha um ônibus pela estrada — Alice diz, pensativa — e que o motorista descia bem no lugar onde eu o aguardava, com minha sacola. Então ele estendia a mão para que eu pagasse a passagem e eu colocava um olho ali. "E claro que isto é verdade. Se eu não tivesse perdido a visão de um dos olhos para sempre, eu não teria sido qualificada para a bolsa de 50% com livros gratuitos que o Departamento de Reabilitação do Estado da Geórgia dá para os seus "deficientes". A outra metade da minha mensalidade veio da própria Spelman, devido às excelentes notas tiradas no segundo grau, às enfáticas recomendações do diretor da escola e dos meus professores e o fato de eu ter sido a melhor aluna da turma e por não ser muito preta. Uma das minhas professoras jura que entrou para a Spelman porque seus pais eram pobres demais para colocar uma foto sua no formulário de solicitação de vaga. Mas, num sentido bem literal, entrar na faculdade me custou o olho da cara.

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E assim ela foi para a Spelman, o começo de uma longa jornada, e então transferiu-se para Sarah Lawrence College em Nova York, também com bolsa de estudos, foi para a África e voltou, como Nettie, e trabalhou no movimento de direitos civis no Mississippi, como Meridian. Ela escrevia o tempo todo. Há outro mistério da Alice visível que só mesmo sua obra explica. Sentada à minha frente, ela tem a voz mansa, é suave e reticente. Eu já a vi passar horas sem falar coisa alguma em reuniões, mesmo que o assunto discutido seja de seu interesse. Um escritor já a chamou de "guerreira improvável". E, no entanto, a fúria, a vingança e os justificáveis assassinatos imaginários que povoam sua obra fazem parte da mesma Alice. Você só precisa conhecê-la bem o bastante para ver a raiva aflorar. Eu me lembro de ter ouvido Alice após reunir-se com editores para discutir um trabalho que lhe fora dado pela revista do The New York Times sobre o Novo Sul. Eles lhe pediram para reescrever o artigo porque ela não incluíra "um número razoável de gente branca" no ensaio. Depois de feito o erro, eles o pioraram observando que afinal de contas ela fora "casada com um branco". — Ele não é um grupo — ela disse, furiosa. — E Mel, uma pessoa. E mais tarde ela mandou uma carta para os mesmos infelizes editores. Relatou os sete anos passados no Mississippi, enfrentando xerifes sulistas com mangueiras e cachorros, e deixou claro que, em geral, comparado ao almoço que tivera com eles, ela preferia a companhia dos cães. — É verdade que eu fantasio esquemas de vingança por injustiças cometidas — ela diz, sorrindo de minha lembrança da furiosa carta e sem sentir o menor remorso por tê-la escrito. — Imagine só que maravilha deve ser a sensação de matar um homem branco que lhe oprime. Eu sonhava em me sentar no colo de um político racista com uma granada na mão e explodirmos os dois. E significativo que, até mesmo na sua fúria mais assassina, ela não consiga se imaginar matando outro ser humano sem se matar junto. Como os protagonistas de Meridian e The Third Life of Grange Cope/and, ela consegue apoiar o assassinato do inimigo por motivos justificáveis, mas apenas se isto custar a vida do justo. Este equilíbrio moral é o freio de seu desejo de vingança.

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— Ultimamente — ela acrescentou —, tenho acreditado que somos ajudados quando lutamos. Quando um país ou uma pessoa oprime um povo, o país ou a pessoa pagará por isto. Isso ocorre com mais freqüência do que deixa de ocorrer. Ano após ano, os índios morreram na Trilha das Lágrimas. Andrew Jackson, presidente àquela época, precisou ser enfaixado tal e qual uma múmia para que suas carnes permanecessem grudadas aos seus ossos. "Acho que a ausência de negros no movimento nuclear tenha a ver, também, com esta crença na justiça. Como o homem branco viveu de violar a terra e depois de ameaçar a nós todos com a bomba, por que não deixá-lo morrer com suas bombas? Por outro lado, não queremos morrer com eles. É por isso que começamos a lutar contra a guerra nuclear também. Esta sede de justiça pertence a uma mulher cuja infância foi pontuada por histórias de linchamentos e que, mais tarde, sentiu que estas histórias estavam mal contadas. ("Quando jovens negras eram estupradas e mortas e atiradas no rio", ela explica, "ninguém dizia que haviam sido linchadas. Mas foram.") Aos doze anos, as mesmas garotinhas com as quais brincara diariamente tinham de ser chamadas de "Miss", uma mudança que ela se recusou a fazer. Esta força e esta auto-estima foram criadas numa pequena comunidade na qual quase todo mundo — pastores, professores, vizinhos — eram negros. Adultos brancos não eram vistos como indivíduos e sim como um grupo de adversários distantes. E no entanto, quando estava na faculdade, ela recusou as honradas e a ajuda financeira da qual precisava desesperadamente por ter achado que o reitor, negro, demitira Howard Zinn, um professor branco, injustamente, por ser esquerdista demais, por ser engajado demais nos movimentos de direitos civis, por fazer as alunas rirem demais e por ser "incorreto" demais. Depois de Sarah Lawrence, onde encontrou apoio para escrever mas sentiu a alienação de estar, pela primeira vez na vida, numa sociedade quase que completamente branca, ela passou as férias de verão viajando pela África, com uma bolsa, procurando seu lar espiritual. Mas ela era encarada como um tipo peculiar de americana com mais freqüência do que como uma filha retornando ao lar. Ela também sentiu o sofrimento das mulheres e a condescendência de muitos homens.

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Um conto não publicado, escrito neste período, "O Suicídio de Uma Garota Americana", descreve o encontro de uma jovem americana com um estudante africano. Como ele se sente atraído mas ao mesmo tempo agredido pela sua independência, ele a estupra. Como um tipo de sacrifício escolhido, em nome da necessidade de poder do rapaz, ela não opõe resistência. Depois que ele parte, ela liga o gás e aguarda a morte, silenciosamente. É um conflito de vontades e de valores que, hoje em dia, Alice não resolveria através da desistência. No seu mais recente livro de poesias, Good Night Willy Lee, I'll See You in the Moming, assim como em A Cor Púrpura, ela escreve sobre o destino de algumas mulheres africanas com ironia e raiva. — Precisamos desbancar este mito de que a África é o paraíso dos negros, especialmente em se tratando de mulheres negras — ela, hoje, afirma com convicção. —Nós temos sido as mulas do mundo lá e as mulas do mundo aqui. No Mississippi, no final dos anos sessenta, Alice começou a escrever sobre as vidas das mulheres simples do Sul; mulheres como a sua mãe. Enquanto registrava eleitores e lutava pelos direitos previdenciários, ela colecionava as histórias folclóricas que lhe contavam e registrava detalhes do dia-a-dia do povo. Foi durante esta pesquisa que descobriu Zora Neale Hurston, um surpreendente dado novo para os autores brancos que registravam o folclore negro com condescendência. A obra de Hurston tornou-se uma importante influência na vida de Alice, assim como sua luta para vê-la reimpressa e disponível ao grande público. Alice procurou o cemitério obscuro e isolado no qual Hurston fora enterrada após morrer pobre, num abrigo mantido pela previdência, e comprou uma lápide para honrar aquela sepultura anônima. Foi durante os anos passados no Mississippi que conheceu Mel Leventhal, o advogado de direitos civis com quem foi casada durante dez anos e o pai com quem Rebecca passa metade do tempo. Continuam amigos, apesar do divórcio. — Mel e eu vivíamos felizes há quase um ano — ela conta. —; Mas ambos podíamos ver que, com base na história, não poderíamos sair pelo mundo afora e fazer nosso trabalho político sem nos casarmos. Assim, poderíamos também questionar as leis que proibiam casamentos mistos, além do fato de realmente nos amarmos. Amor, política e trabalho: uma incrível união de forças.

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"Ele foi a primeira pessoa a apoiar consistentemente minha luta para escrever. Todas as vezes que nos mudávamos, a primeira coisa que ele fazia era ajeitar um lugar onde eu pudesse trabalhar. Às vezes ele se assustava com o que saía, mas estava sempre presente." Embora ela diga que não consegue se imaginar casada outra vez, vive há vários anos com Robert Allen, escritor e editor do The Black Scholar. Eles mantêm apartamentos separados mas passam fins de semana juntos no campo. Uma vez que A Cor Púrpura foi jogado no mundo, Alice começou a viajar para ler suas poesias e para dar palestras. Como Notável Autora do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Berkeley, ela deu um curso, "A Vida Interior: Visões do Espírito", e também ensinou redação durante um semestre em Brandeis University. Como professora, crítica literária e editora, ela apresenta estudantes e leitores americanos a importantes autores africanos tais como Bessie Head e Ama Ata Aidoo. Ela insiste em que autores negros sejam incluídos em cursos de Estudos Feministas e que os cursos de Estudos sobre Negros não negligencie as mulheres. Mas lecionar e fazer leituras de poesias são principalmente formas de financiar outros longos períodos de silêncio. ("Tudo", ela diz, "sai do silêncio.") Ela está pensando em outro romance. Nesse meio tempo, ela vem selecionando ensaios para o livro In Search ofOur Mother's Gardem: A Colkction ofWomanüt Prose {Em busca dos jardins de nossas mães: uma coletânea de prosa mulherista}. (Ela prefere o termo "womanist" ["mulherista"] a "feminista" por achar que soa mais forte e por ser mais inclusivo.) Ela também é politicamente ativa, o mais ativa que uma pessoa solitária que detesta reuniões consegue ser. Junto com a romancista Tillie Olson, Alice co-patrocinou uma reunião do Partido de Mulheres pela Sobrevivência, um protesto contra o uso de armas nucleares. Esta preocupação com a fragilidade de nosso futuro é tema de seus mais recentes poemas. — Livros são subprodutos de nossas vidas — ela explica. — Livrai-me dos escritores que dizem que não importa como vivem. Não estou bem certa se uma pessoa ruim possa escrever um bom livro. Se a arte não nos melhora, por que então ela existe? Todo este falatório sobre ativismo de repente me faz lembrar de uma viagem que fiz com Alice no começo dos anos setenta, para um protesto comemorativo do aniversário de Martin Luther King. Eu

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me perdi de Alice nas ruas mas encontrei um grupo de estudantes de Spelman que a estivera procurando. Elas sabiam cada palavra de suas obras de cor e vieram para Atlanta com a esperança de conhecêla. Elas haviam até mesmo ido à casa onde Alice passara sua infância, na Geórgia, da mesma forma que Alice procurara o local em que Zora Neale Hurston nascera. Na época, eu me arrepiei com o paralelo, quando a obra de Alice era menos conhecida. E até mesmo agora a idéia não desapareceu: será que a obra de Alice também poderá se perder? Como Hurston, ela nos foi apresentada numa época em que seus anos produtivos coincidiram com um movimento pela justiça social, mas o que aconteceria se esta coincidência deixasse de existir? Será que Ralph Ellison tinha razão quando disse que os americanos rejeitam romances sérios até que o seu momento tenha passado e eles tenham perdido sua acuidade moral? Talvez necessitemos de uma campanha igualmente enérgica para colocar e manter bons livros em circulação da mesma forma que lutamos para manter bons líderes no poder. Se críticos e acadêmicos investem em panteões literários mais seguros e mais distantes, nós teremos de criar nossas próprias redes de distribuição e nossas próprias editoras, como muitas feministas e outros grupos estão fazendo, além de pressionar para mudar as que já existem. Se assim for, eu sugiro um critério populista para aquilo que é publicado: será que poderíamos confiar em um autor específico para compreender as complexidades e realidades de nossas próprias vidas? Será que ela ou ele consegue nos enxergar com clareza, sem preconceitos contra ou favor de nós, com compaixão no coração? Acho que podemos confiar no fato de Alice nos conhecer. E podemos mudar para melhor se a conhecermos. — 1982

PÓS-ESCRITO Em 1983, A Cor Púrpura venceu o American Book Award e foi o primeiro romance escrito por uma mulher negra a vencer o Prêmio

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Pulitzer. O romance foi traduzido em todos os continentes, introduzindo a fala do povo do campo, pela primeira vez, para muitos leitores estrangeiros. Em 1985, foi transformado num clássico do cinema, um processo que transformou em tema de seu mais recente livro, The Same River Twice: Honoring the Difficult {O mesmo rio duas vezes: celebrando o difícil]. Desde que escrevi este texto, ela escreveu mais dois romances, escreveu um livro a respeito da mutilação genital feminina e realizou um filme sobre o mesmo assunto, e escreveu mais ensaios e muitos poemas. Espero que isto responda à pergunta acima; a obra de Alice Walker não poderá ser perdida para o mundo. -1995

Houston e a História

Se o nosso Estado fosse uma democracia autêntica teria ainda de excluir de nossas deliberações as mulheres que, para prevenir a queda da moralidade e a ambigüidade das questões, não deveriam se misturarpromiscuamente em encontros de homens.

— Tomas Jefferson Em 1972 as Nações Unidas declararam que 1975 seria o Ano Internacional da Mulher. A reação não foi de todo boa entre as mulheres do mundo. Seria isto como o Ano Internacional do Deficiente Físico? Ou uma admissão de que todos os outros eram o Ano do Homem? No entanto, muitos governantes começaram a coletar estatísticas para apresentar na Conferência do Ano Internacional da Mulher na Cidade do México, o que foi, em si, um resultado compensador. Em alguns países, essa foi a primeira vez que a posição das mulheres foi enfocada por uma pesquisa. Determinadas mulheres e suas organizações decidiram usar essa atenção mundial como uma oportunidade para encontrarem-se e para avançarem a causa da igualdade de qualquer maneira que lhes fosse possível. Neste país, o presidente Ford designou uma Comissão do Ano Internacional da Mulher, composta por 39 membros, para coletar estatísticas e recomendações e viajar para a Cidade do México como delegadas. Milhares de mulheres americanas também foram lá, para participar dos eventos extraoficiais que freqüentemente superavam em número e em importância os oficiais. Ao término daqueles poucos dias, pelo menos uma outra conferência mundial tinha sido exigida, e o Ano Internacional da Mulher se tornara a Década da Mulher. Para muitas americanas, oficiais e extra-oficiais, essa foi a primeira experiência de expansão mental em um encontro maciço e

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multicultural de mulheres. Também foi uma fonte de aprendizado. A gama de questões discutidas foi tão diversa culturalmente quanto espantosamente similar em relação aos problemas básicos das mulheres em sociedades dominadas por homens. As divisões nacionalistas entre mulheres, que concordavam sobre as coisas básicas, foram destrutivas e frustrantes. E, como as mulheres da maioria dos países, a parte feminina dos Estados Unidos foi representada por uma delegação e agenda nacional oficial que podia ou não ser o que tínhamos em mente. Apesar das muitas comissões presidenciais e de outros esforços de boa vontade para "estudar" as mulheres americanas, ninguém jamais nos perguntou coisa alguma. Foi esse desejo de trabalhar nossas próprias agendas de assuntos, objetivos e cronogramas que motivou as congressistas Bella Abzug e Patsy Mink, no início de 1975, quando rascunharam e tentaram obter o apoio de outras congressistas para a Lei Pública 94-167 — uma proposta para uma conferência pública, financiada pelo governo em cada estado e território, que identificaria questões e elegeria delegadas para uma Conferência Nacional de Mulheres. Como um tipo de Convenção Constituinte para mulheres — uma compensação pelo fato dos patriarcas da Constituição terem excluído as mulheres da primeira convenção —, este corpo nacional eleito recomendaria, então, ao Congresso e ao Presidente aquelas mudanças nas leis, procedimentos governamentais, e na própria Constituição, que removeriam as barreiras à igualdade das mulheres. Depois da Cidade do México, houve entusiasmo e publicidade internacional suficientes para forçar sua aprovação. É claro que o Congresso não aprovou e não concedeu verbas até depois do ano do bicentenário, em 1976, ano no qual a conferência estava prevista acontecer, e sua modesta solicitação de verba de dez milhões de dólares foi cortada para cinco milhões: menos do que o custo de enviar um cartão-postal para cada mulher adulta do país. No entanto, uma nova Comissão Internacional de Mulheres foi designada pelo presidente Carter, desta vez com o propósito de realizar o complexo processo de organizar uma conferência representativa em cada estado e território e eleger delegadas em número proporcional às suas populações. Graças ao entusiasmo, energia e sacrifício das mulheres que responderam ao apelo e gastaram meses em contatos e se organizando

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dentro de seus próprios estados, algumas das 56 conferências de dois dias de duração foram assistidas por nada menos que vinte mil mulheres e homens interessados. Eles foram os maiores e mais representativos encontros políticos, em termos econômico e racial, em nível estadual, jamais realizados. O resultado não foi somente a identificação de barreiras à igualdade em 26 áreas, desde as artes e humanidades à assistência social, mais a eleição de duas mil delegadas que foram as primeiras (e ainda as únicas) representantes políticas nacionais nas quais famílias com rendimentos inferiores a vinte mil dólares ao ano, minorias raciais e todas as pessoas acima de dezoito anos estavam representadas em proporção às suas presenças reais na população. Uma vez em Houston, que sediou a primeira Conferência Nacional de Mulheres em novembro de 1977, quinze mil participantes, incluindo observadores de outros países, se reuniram aos dois mil delegados votantes. Um procedimento de debate e de votação cuidadoso permitiu quatro dias de discussões e de votações sobre cada uma das 26 áreas recomendadas pelas conferências de estado.* Embora as mulheres e os homens contrários à igualdade também fizessem um encontro de protesto em outra parte de Houston, liderados pelo congressista de direita Robert Dorman e pela antifeminista Phyllis Schlafly, suas visões eram justamente, talvez de forma desproporcional, representadas por algumas das delegadas votantes. Em alguns estados, a invasão calculada e desproporcional de conferências por grupos tais como os mórmons, batistas fundamentalistas, e, no Mississipi, a Ku Klux Klan tinham conseguido eleger delegadas cujas posições não iam de encontro às opiniões da maioria do estado que representavam, segundo pesquisas eleitorais e de opinião pública. No entanto, resoluções a favor da igualdade foram aprovadas e, de acordo com as pesquisas de opinião nacional, realizadas após o encontro de Houston, tiveram o apoio majoritário dos americanos, homens e mulheres. Conforme informou a jornalista Lindsy Van Gelder, de Houston: "Era como uma fila na caixa do supermercado de Qualquer Lugar, EUA, transportando à arena política donas de casa e freiras, adoles*Para o texto completo deste Plano Nacional de Ação, ver Caroline Bird, What Women Want: The National Women's Conference [O que querem as mulheres: a conferência nacional de mulheres] (Nova York: Simon and Shustet, 1979).

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centes e cidadãos adultos, secretárias, fazendeiras e advogadas, peles de mogno e branco e café com leite. Éramos um poema de Carl Sandburg personificado só por mulheres." Certamente a conferência de Houston foi muito mais representativa em termos de raça, classe e idade do que a Câmara de Deputados ou o Senado americanos, e mais democrática em seus procedimentos — de permitir debates no plenário, emendas, propostas substitutas até encorajar o voto pela consciência individual mais do que pelos blocos geográficos ou pela recompensa política — do que as convenções presidenciais nacionais, que eram seu modelo mais próximo. O longo e complexo caminho trilhado até Houston foi freqüentemente frustrante e imperfeito, mas seus resultados impressionantes surpreenderam muitos americanos, incluindo as mulheres que mais se empenharam para fazê-la acontecer. Se este projeto gigantesco começa a soar sem precedentes, existem muitos motivos fatuais pelas quais o é. Mas eventos comparáveis aconteceram no passado. As mulheres agiram contra os sistemas políticos dominados pelos homens durante os séculos de suas existências. Algumas destas ações foram, pelo menos, igualmente impressionantes e, em seus próprios contextos, mais corajosas. Se quisermos preservar o espírito de Houston, devemos estar cientes de que eventos similares, mutantes e desafiadores, promovidos pelas mulheres, não foram registrados e foram suprimidos, ridicularizados ou tratados com violência no passado. Quando eu era estudante e aprendia a história americana nos livros dos anos cinqüenta, li que às mulheres brancas e negras havia sido "dado" o direito ao voto em 1920, inexplicavelmente cinqüenta anos após ter sido "dado" aos homens negros o direito ao voto como resultado de uma guerra civil lutada em prol deles. Aprendi pouco sobre os muitos negros que tinham se revoltado e lutado por sua própria liberdade, e nada sobre os mais de cem anos de luta travada por redes nacionais de mulheres brancas e negras que se organizaram e palestraram no país pelo sufrágio da mulher e do negro numa época em que nem se cogitava que elas falassem em público. Elas pressionaram seus legislativos, totalmente brancos e masculinos, fizeram passeatas nas ruas, greve de fome e foram para a cadeia, e se opuseram ao direito do país de "lutar pela democracia" na Primeira Guer-

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ra Mundial quando a metade feminina do mesmo não possuía nenhum direito político. Em resumo, não aprendi que muitas gerações de nossas antepassadas quase tinham parado o país a fim de obterem identidade jurídica como seres humanos para as mulheres de todas as raças. Pelo menos o direito ao voto era citado nos livros de história como sendo algo que as americanas nem sempre tiveram. Outras partes daquela identidade jurídica — o objetivo da primeira longa onda de feminismo do país — não foram mencionadas. A quantas de nós foi ensinado o significado, para as mulheres, de ser propriedade humana de seus maridos e pais, e de morrer uma "morte civil" sob a lei do casamento? Era um status de mercadoria tão claro que os primeiros senhores escravistas americanos do século XVII simplesmente adotaram-no, como observou Gunnar Myrdal, como a "analogia mais natural e mais próxima" ao status jurídico dos escravos.* Como estudantes, quantos de nós aprenderam que o direito à propriedade de uma mulher adulta americana, o direito de processar, de assinar testamentos, de guardar o salário que ganhou em vez de dá-lo ao marido ou pai que a "possui", de ir à escola, de ter a guarda dos próprios filhos, de deixar a casa de seu marido sem o perigo de ser forçada a retornar, de escapar ao direito do marido de discipliná-la fisicamente, de desafiar a prisão social de ser uma eterna menor se permanecer solteira ou uma não-pessoa jurídica se não casar—que todos estes direitos tinham sido obtidos através de gerações de esforços de um movimento independente e corajoso de mulheres? Quando estudamos o progresso americano, em termos de liberdade religiosa, pudemos ler sobre as várias feministas do século XIX que desafiaram a estrutura patriarcal da Igreja, que ousaram questionar as retóricas das escrituras tais como a frase do Apóstolo Paulo: "Esposas, submetam-se aos seus maridos como a Deus"? Alguém nos deu um livro chamado A Bíblia da mulher, uma revisão muito corajosa e sábia das escrituras feita por Elizabeth Cady Stanton? Ao lermos sobre perseguição religiosa e política na América, aprendemos que o frenesi das bruxas da Nova Inglaterra, com julgamentos, torturas e fogueiras, eram grandes perseguições a mu*Gunnar Myrdal, An American Dilemma [Um dilema americano] (Nova York: Harper and Brothers, 1994), 1073.

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lheres sábias ou independentes, a parteiras que faziam abortos e ensinavam a respeito de anticoncepcionais, a mulheres que desafiavam a estrutura de poder masculina de diversas maneiras? Quando ouvimos falar das pessoas corajosas que acolhiam escravos fugitivos, foi mencionado o papel de mulheres como Susan B. Anthony, que escandalizou e alienou aliados abolicionistas ajudando não apenas os escravos negros como esposas e crianças fugitivas que escapavam da brutalidade de maridos e pais brancos que as "possuíam"? E claro que registrar o fato de que tanto negros quanto mulheres eram mercadorias jurídicas ou que seus mitos paralelos de inferioridade "natural" eram (e às vezes ainda são) usados para tornar ambos uma fonte de mão-de-obra barata não deve ser confundido com igualar os dois grupos. Negros e negras geralmente sofreram mais restrições às suas liberdades, mais crueldade e violência abertas, e tiveram suas vidas colocadas em maior risco. Ensinar uma menina branca a ler poderia ser considerado perigoso e até mesmo pecado, mas não era contra a lei, como era para os negros de muitos estados do Sul. Era muito menos provável que mulheres brancas arriscassem suas vidas ou fossem separadas de seus filhos do que os escravos negros, e particularmente menos do que as negras que eram forçadas a gerarem mais escravos. Angelina Grimke, uma feminista sulista, corajosa e branca, que lutou contra a escravidão de sexo e raça, sempre observava: "Não sentimos a chibata dos senhores de escravos... não tivemos nossas mãos algemadas."* No entanto, as mulheres brancas às vezes eram brutalizadas e mortas em espancamentos domésticos "justificados", e vendidas como trabalhadoras forçadas como punição pela pobreza, ou pelo envolvimento com um negro, ou por infringir a lei de obediência. O trabalho pesado combinado com os anos gerando crianças, à força, para encher a nova terra de gente, pode ter levado a expectativa de vida de mulheres brancas a cair abaixo da metade da dos homens brancos. Os primeiros cemitérios americanos, repletos de mulheres jovens que morreram de parto, comprovam o desespero que fazia com que muitas mulheres procurassem parteiras em busca de métodos
* Angelina Grimke, em Elizabeth Cady Stanton et ai., The History of Woman Suffrage [A historia sufrágio feminino], vol. 2 (Rochester: Charles Mann, 1899).

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anticoncepcionais ou para fazer abortos. As punições mais típicas para as mulheres brancas eram humilhação, perda da liberdade e da identidade, e ter sua saúde e espírito danificados. Como Angelina Grimke explicou: "Eu fico muito feliz que nossa resolução nos una aos negros. Sinto que estivemos com eles: que o ferro entrou em nossas almas... nossos corações foram esmagados." Mas porque tantos dos meus livros de história presumiam que as mulheres brancas e os negros não podiam ter questões em comum, tanto que não relatavam as alianças contra a escravidão e o sufrágio universal? Os historiadores parecem dar pouca atenção aos movimentos dos sem poder. Talvez o desafio íntimo majoritário apresentado pelas mulheres de todas as raças e homens de cor fosse (e ainda é) menos assustador se simplesmente ignorado. Certamente, as lições de história não eram ignoradas por serem invisíveis na época. Grande parte da longa luta pela identidade feminina e negra tinha sido travada como uma coalizão consciente e funcional. ("Resolvido. Nunca poderá haver paz verdadeira nesta República até que os direitos civis e políticos de todos os cidadãos descendentes de africanos e todas as mulheres estejam praticamente estabelecidos." Esta afirmativa foi feita por Elizabeth Cady Stanton e passou numa convenção de Nova York em 1863.) Como muitas das primeiras feministas, Stanton acreditava que preconceitos de sexo e raça deveriam ser combatidos juntos, que ambos eram "produto da mesma causa, e manifestavam-se da mesma maneira. A pele dos negros e o sexo da mulher são usados como prova prima fade de que eram feitos para serem subjugados aos homens saxões brancos". Frederick Douglass, o escravo fugitivo que se tornou um líder nacional do movimento abolicionista e para estabelecer a identidade de todas as mulheres, resumiu em sua autobiografia: "Quando a verdadeira história da causa antiescravagista for escrita, as mulheres ocuparão um grande espaço em suas páginas, pois a causa do escravo tem sido, especialmente, a causa da mulheres."* Quando Douglass morreu, os jornais relataram seu luto como um "amigo das mulheres" assim como um abolicionista pioneiro. E havia muitas outras coalizões óbvias como esta.
* The Life and Times of frederick Douglass [A vida e os tempos de Frederick Douglass] (Nova York: Collier, 1962), p. 469.

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Se um maior número de nós houvesse aprendido as origens paralelas dos movimentos abolicionista e sufragista, poderia ter sido menos surpreendente quando um novo movimento chamado "libertação das mulheres" surgiu com a politização das mulheres brancas e negras nos movimentos de direitos civis da década de 1960. Certamente um conhecimento das palavras de Frederick Douglass poderia ter evitado que alguns homens brancos e negros, tanto nos movimentos de direitos civis como no pacifista, sentissem que seu poder depende do papel de cidadão de segunda classe das mulheres ou de verem que eles mesmos travavam, às vezes, uma guerra sexual contra as mulheres, nos vilarejos do Vietnã e em casa. Se às mulheres tivesse sido ensinado que os sentimentos de conexão emocional aos grupos sem poder eram lógicos — e que as mulheres também não tinham poder enquanto casta, e que era compreensível seu apoio quando as manifestações em favor da paz e dos direitos civis rejeitavam a violência como prova de masculinidade —, certamente eu e as outras mulheres de minha geração teríamos gasto menos tempo estranhando nosso intenso e inesperado sentimento de identificação com todos os grupos "errados": o movimento negro, os trabalhadores migrantes, e homens contemporâneos que desafiavam o papel "masculino" ao se recusarem a lutar no Vietnã. No entanto, as sufragistas eram freqüentemente retratadas como intelectuais chatas e ridículas nos livros de história: certamente não eram as heroínas necessárias na América moderna onde as mulheres eram, como nos diziam autoridades masculinas ressentidas, "as mais privilegiadas do mundo". Algumas de nós foram desencorajadas a explorar nossas forças humanas pelas acusações freudianas de inveja do pênis, síndrome da mãe dominadora, carreirismo, matriarcado negro que era (de acordo com alguns sociólogos brancos) mais perigoso para os homens negros do que o racismo, branco, somado a outras ofensas dignas de punição. Os homens freqüentemente emergiam da Segunda Guerra Mundial, da análise freudiana e de vestiários com vagas ameaças de substituir qualquer mulher petulante por uma mais subserviente — uma noiva da guerra da Ásia ou da Europa em vez de americanas "estragadas", por exemplo, ou uma mulher branca "feminina" para substituir uma "matriarca" negra ou mesmo alguma "outra mulher", jovem e cheia de adoração, para substituir uma esposa que ameaçasse sair de seu papel tradicional.

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Foram muitos anos dolorosos de reinvenção da roda antes que reaprendêssemos as lições que nossas mães do passado poderiam nos ter ensinado: que uma mitologia de inferioridade, baseada em sexo e raça, era usada para transformar ambos os grupos em um gigantesco sistema de apoio. Limitação intelectual, natureza infantil, falta de habilidades específicas (as mais bem pagas), natureza emotiva e forte ligação com a natureza, inabilidade em conviver com seu próprio grupo, atrasos crônicos e irresponsabilidade, satisfação com sua posição "natural" — todos estes mitos paralelos foram usados em algum grau contra mulheres de todas as raças e homens de cor. "O paralelo entre mulheres e negros é a mais pura verdade da vida americana, pois juntos eles formam a mão-de-obra não-remunerada ou mal remunerada da qual a América depende." Esse foi Gunnar Myrdal, escrevendo em 1944, num obscuro apêndice ao seu estudo pioneiro sobre o racismo, An America Dilemma £Um dilema americano}. Mesmo nos anos sessenta, quando descobri aquelas palavras (e queria muito tê-las lido anos antes), eu ainda não sabia que Susan B. Anthony tinha colocado a mesma questão, mais sucintamente, quase um século antes de Myrdal. "A mulher," ela disse, "tem sido a maior trabalhadora não-remunerada do mundo." Os movimentos atuais de justiça racial e sexual vêm obtendo algum sucesso em pressionar para a criação de cursos de história das mulheres, dos negros, dos hispano-americanos, dos americanos nativos, e muitos outros, mas essas matérias ainda tendem a ser matérias especiais, estudadas somente por aqueles com grande interesse e menor necessidade. Eles raramente são parte integrante e inescapável dos livros de história americana lidos por todos os estudantes. Se o passado recente de nosso próprio país ainda está incompleto para muitas de nós, sabemos menos ainda sobre outros países e sobre épocas mais remotas. O que sabemos sobre as rainhas guerreiras africanas de Daomé, que lideraram seus exércitos contra invasores coloniais? Ou as mulheres do mercado da África Ocidental moderna que gerenciam os negócios diários de seus países? Se sabemos pouco sobre o relacionamento dos caçadores de bruxas da Nova Inglaterra com a política patriarcal, quanto sabemos sobre as mais de oito milhões de mulheres que foram queimadas na Europa medieval num esforço de eliminar uma religião que honrava o poder das mulheres e da natureza?

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Se não conhecemos nem mesmo a Bíblia das mulheres de Stanton, que mostra uma versão muito menos patriarcal dos ensinamentos de Jesus. Se as excepcionais mulheres americanas que eram exploradoras, foras-da-lei, fazendeiras, piratas, editoras, soldadas e inventoras estão sendo redescobertas somente agora, o que dizer sobre aquelas nações e tribos americanas nativas que equilibravam a autoridade masculina e feminina muito mais do que as culturas européias "avançadas" que invadiram seu território? Como interpretar a descoberta de que muitos dos "ídolos pagãos", "falsos deuses" e "templos pagãos" tão desprezados pela tradição judaico-cristã e pela Bíblia atual eram representações do poder feminino: um deus com um útero e seios? Como nossa visão da Pré-História mudará, agora que os arqueólogos descobriram que alguns esqueletos há muito foram vistos como masculinos — por causa dos ossos fortes e largos e das armas e pergaminhos com os quais foram enterrados — são na realidade de mulheres? (Aqui, a famosa descoberta arqueológica conhecida como o Homem de Minnesota foi recentemente renomeada de a Mulher de Minnesota. Na Europa, descobriram que as sepulturas de jovens guerreiros mortos em batalhas continham esqueletos de mulheres.) Agora que estamos começando a redescobrir a interdependência dos sistemas de castas sexuais e raciais na nossa própria história, e os paralelos com as formas modernas de discriminação no trabalho, irão os cursos de ciências políticas explicar que a estrutura do poder que depende da "pureza" da raça e da classe — tanto faz que sejam os brancos do Sul dos Estados Unidos e da África do Sul ou os arianos na Alemanha nazista — precisa colocar grandes restrições à liberdade das mulheres a fim de manter a "pureza" nas gerações futuras? Finalmente, seremos autorizadas a confrontar esses sistemas de castas juntas, e portanto de forma bemsucedida a longo prazo, em vez de enfrentar as táticas constantes de dividir para conquistar a curto prazo? Tais revoltas contra os sistemas de casta baseados no nascimento têm sido sempre internacionais — e contagiantes. Os movimentos anticolonialistas contra a dominação externa de uma raça por outra têm se aprofundado em movimentos contra a dominação interna de uma raça ou sexo por outra. Juntos, compõem os movimentos mais profundos e vitais deste século. Eles estão mudando tanto as nossas esperanças para o futuro quanto nossas premissas sobre o passado.

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Mas algumas revelações podem ser ao mesmo tempo compensadoras e enfurecedoras. Parece que nossos ancestrais sabiam tanto que nunca deveríamos ter precisado reaprender. Entre as resoluções no Plano de Ação Nacional adotadas em Houston, por exemplo, havia ecos da primeira onda de feminismo americano. A alta incidência de mulheres espancadas, a inadequação das leis para protegê-las e a relutância da polícia em interferir — todos estes fatos são vistos por muitas americanas como descobertas novas e chocantes. Se soubéssemos mais sobre a história dos direitos jurídicos dos maridos de "possuir" a esposa, e portanto "disciplinálas" fisicamente com a permissão explícita da lei, poderíamos ter descoberto esta forma importante de violência muito mais cedo. A perda, pela esposa, de seu próprio nome, de sua residência jurídica, linhas de crédito, e muitos outros direitos civis poderiam ter sido partes menos inevitáveis de um casamento se tivéssemos sabido que nossas leis estão enraizadas no precedente da lei comum ("marido e mulher são uma pessoa perante a lei... a do marido") que as mulheres americanas e inglesas do século XIX tanto lutaram para reformar. Nós poderíamos ter sido mais bem preparadas para argumentos contra a afirmação de que a Emenda de Igualdade de Direitos "destruiria a família" ou tornaria as mulheres "como homens" se soubéssemos que as mesmas acusações, quase palavra por palavra, tinham sido levantadas contra o movimento do sufrágio. (A possibilidade de haver duas opiniões políticas numa só família era considerada um caminho certo para a sua destruição. Nossas próprias ancestrais foram chamadas de "mulheres assexuadas", "inteiramente carentes de atração pessoal" que tinham somente sido "desapontadas em seus empreendimentos para se apropriar das calças", tudo porque desejam votar e ser proprietárias.) Mesmo a alegação de que a Emenda de Igualdade de Direitos minaria os direitos estaduais e constituiria uma "tomada de poder federal" é uma repetição do argumento de que os direitos civis de voto deveriam ser deixados inteiramente com os estados; um obstáculo que levou as sufragistas a prosseguir estado por estado, e atrasar o enfoque sobre a Emenda Dezenove da Constituição por muitos anos. De alguma forma, a unidade representada pela resolução das mulheres das minorias — talvez o maior feito da Conferência de Houston, porque uniu americanos de cor pela primeira vez, da Ásia

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a Porto Rico — foi também o maior exemplo do alto preço da história perdida. Afinal, as mulheres negras haviam sido unha e carne com a abolição e o sufrágio porque sofreram tanto a discriminação quanto a invisibilidade. ("Existe um grande debate sobre a conquista de direitos pelos homens de cor", avisou Sojourner Truth, a grande feminista negra e líder antiescravagista, "mas nenhuma palavra sobre as mulheres de cor".)* Quando os líderes políticos americanos destruíram a coalizão pelo sufrágio universal adulto oferecendo o voto a seu segmento menor — por exemplo, para homens negros — mas recusando sua concessão à metade feminina do país, as mulheres negras foram forçadas a fatiar suas identidades dolorosa e artificialmente. Elas precisavam escolher entre apoiar seus irmãos no que era, como dizia um slogan, "a hora do negro", muito embora nenhuma mulher negra fosse incluída; ou, como Sojourner Truth, advogar "manter o embalo ... porque se esperarmos até que pare, levará um bom tempo para as coisas caminharem novamente". Quando ficou claro que os homens negros teriam direito ao voto primeiro, apesar do que qualquer mulher pudesse dizer, as mulheres negras foram isoladas mais ainda por algumas sufragistas brancas que, amarguradas pela deserção dos aliados brancos e negros, começaram a usar o argumento racista de que o voto das mulheres brancas "instruídas" era necessário para contrabalançar o voto dos homens negros "sem instrução". As divisões se aprofundaram. As previsões de Sojourner Truth de que levaria "um bom tempo para as coisas caminharem novamente" se as duas grandes causas paralelas fossem divididas tornaram-se verdadeiras. Não foi senão meio século mais tarde, muitos anos após a morte de Sojourner Truth, que mulheres de todas as raças tiveram direito ao voto. Muitas cicatrizes da divisão entre mulheres brancas e negras permanecem. Também permanece o argumento cruel e falso de que as mulheres negras devem suprimir seus próprios talentos em prol dos homens negros, enfraquecendo assim a comunidade negra pela metade. Os homens brancos "liberais" tentaram uma tática de dividir para conquistar separando homens negros, e, de muitas maneiras tristes, venceram.
*Sojourner Truth, em Stanton, vol. 2, 193.

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Quando o primeiro prelúdio reformista ao feminismo iniciou outra vez, no começo e no meio dos anos sessenta, tratava-se principalmente de um protesto das donas de casas brancas de classe média contra a "mística feminina" que as mantinha presas nos subúrbios. Para as mulheres negras, que geralmente não tinham escolha a não ser entrar na força de trabalho, aquilo era um estilo de vida que algumas invejavam e poucas podiam almejar. Somente após o movimento dos direitos civis e a emergência do feminismo novamente, no fim dos anos sessenta — com a análise de todas as mulheres como uma casta, não somente como uma minoria privilegiada e integracionista —, as ligações orgânicas entre os movimentos contrários às castas raciais e sexuais voltaram a crescer. Apesar do racismo duradouro na sociedade, apesar de uma estrutura econômica e social que explora as divisões raciais entre mulheres e também fabrica tensões sociais e econômicas entre mulheres e homens negros, o movimento de mulheres tem se tornado o mais integrado do país, econômica e racialmente — o que não significa que é suficientemente diversificado. Apesar do argumento duradouro de que a supremacia masculina é uma norma social à qual todos deveriam aspirar, o movimento negro e seus líderes políticos agota incluem mais mulheres do que suas contrapartes brancas — mas mesmo assim está longe de um equilíbrio. Para essa onda de feminismo, Houston foi o primeiro marco público de uma longa jornada através das barreiras sociais, uma jornada tão cheia de suspeitas. Pelo menos, houve um número suficiente de mulheres de cor (mais de um terço de todas as delegadas e portanto em proporção maior do que na população) com voz forte: não apenas as mulheres afro-americanas, mas as hispânicas (de chicanas a porto-riquenhas, de latinas a cubanas) como a segunda maior minoria americana, as mulheres da Ásia, do Alasca, e nativas americanas de muitas nações diferentes, que se reuniam pela primeira vez. Como essa viagem teria sido menos perigosa se tivéssemos mantido as pontes do passado, sem precisar construir novas estradas de coalizões através do que parecia ser, para nós, um deserto sem mapa. Para mim, Houston e todos os eventos que a cercaram tornaram-se um marco de minha história pessoal, uma espécie de pedra angular que divide nosso sentido de tempo. Calcular a data de muitos outros eventos agora significa lembrar: foi antes ou depois de Houston?

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A razão muito tem a ver com o aprendizado. Olhando para trás, percebo ter sido cética sobre o tempo e o esforço investidos nessa Primeira Conferência Nacional de Mulheres. Poderia uma conferência patrocinada pelo governo ser populista e inclusiva? Mesmo após as conferências estaduais terem confirmado que a combinação de esforços públicos e privados estava funcionando, eu ainda temia o ponto culminante em Houston, como se se tratasse da aproximação de um julgamento. Será que este enorme encontro atrairia atenções nacionais e internacionais apenas para realçar a desordem? Será que o barulho da contraconferência antiigualdade, da direita, seria tomado como prova de que "as mulheres não conseguem conviver entre si"? Eu trabalhara durante todo aquele ano de conferências estaduais e de preparo, mas à medida que Houston se aproximava eu teria dado tudo para parar de me preocupar, evitar conflito, ficar em casa, ou apenas atrasar indefinidamente esse evento sobre o qual eu tanto me interessava. Pensei que meus medos fossem racionais e objetivos. Não eram. Sim, eu aprendi, afinal, que mulheres individualmente podiam ser competentes, corajosas e leais umas com as outras. Apesar de crescer sem a experiência de mulheres em posições de autoridade mundana, eu aprendera isso. Mas ainda não estava certa de que as mulheres, como grupo, poderiam ser competentes, corajosas e leais umas com as outras. Não acreditava que pudéssemos conduzir eventos grandes e complexos, em toda a nossa diversidade, e escrever uma história nossa. Mas podemos. Houston nos ensinou isso. A questão é: será essa lição novamente perdida? — 1979

O Crime Internacional da Mutilação Genital
Robin Morgan e Gloria Steinem*

Aviso: Estas palavras são dolorosas de ler. Elas descrevem fatos da vida tão longínquos quanto nosso mais apavorante pensamento e tão próximos quanto qualquer negação da liberdade sexual das mulheres.

A medida que você for lendo isto, aproximadamente 75 a cem milhões de mulheres no mundo estão sofrendo com os resultados da mutilação genital.** As variedades principais deste costume amplamente difundido são: 1. "Circuncisão" sunna, ou remoção do prepúcio e/ou ponta do clitóris. 2. Clitoridectomia, ou extírpação de todo o clitóris (o prepúcio e as glandes), mais as partes adjacentes dos pequenos lábios. 3. Infibulação (do latim fibula, ou "gancho"), i.e., a remoção de todo o clitóris, dos grandes e pequenos lábios — mais a junção das laterais esfoladas da vulva através da vagina, onde são amarradas com espinhos ou costuradas com categute ou linha. Uma pequena abertura é preservada inserindo-se uma lasca de madeira (comumente um palito de fósforo) na ferida durante o processo de cicatrização, permitindo, portanto, a passagem de urina e do sangue da menstruação. Uma mulher infibulada precisa ser cortada para permitir a relação sexual,
*Embora este artigo seja fruto de uma parceria, decidimos publicá-lo como parte de nossas coleções respectivas devido à importância do assunto. **Estimativas de 1992 da Organização Mundial de Saúde e da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional.

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e cortada ainda mais para permitir-lhe dar à luz. Freqüentemente essa abertura é fechada novamente após o parto, e portanto, a mulher pode estar sujeita a tais procedimentos repetidamente durante sua vida reprodutiva. A idade na qual estes ritos de mutilação sexual são executados varia de acordo com o tipo de procedimento e a tradição local. Uma mulher pode ser submetida a tal rito logo após o quarto dia de vida, ou na puberdade, ou após ter tido seu primeiro filho. Em muitas regiões, no entanto, o ritual é realizado quando a criança se encontra entre as idades de três a oito anos, e pode ser considerada suja, imprópria e inadequada para o casamento se não for realizado. Aos leitores para quem tais costumes surjam como uma horripilante novidade, é vital reconhecermos imediatamente a conexão entre essas práticas patriarcais e as nossas próprias. Elas são diferentes no escopo e no grau, mas não no tipo. As mulheres americanas e européias não só têm experimentado a clitoridectomia física, legitimada por Freud,* mas os textos médicos ocidentais do século XIX também proclamavam a mutilação sexual como um tratamento aceito para a "ninfomania", a "histeria", a masturbação, e outros comportamentos não-conformistas. De fato, existem mulheres vivendo nos Estados Unidos e na Europa, hoje, que têm sofrido essa forma (assim como outras formas mais familiares) de cirurgia mutiladora, ginofóbica e medicamente desnecessária. Como prática geral e precondição para o casamento, no entanto, alguns pesquisadores citam provas recentes de mutilação genital em regiões tão diferentes quanto a Austrália, Brasil, Malásia, Paquistão, e entre um segmento dos cristãos Skoptsi da União Soviética. Em El Salvador, não é raro para uma mãe fazer, com uma lâmina de barbear, o sinal da cruz no clitóris da filha pequena por razões tais como "fazer com que ela seja uma trabalhadora dedicada e mantê-la afastada de idéias impróprias". Mas as autoridades internacionais de saúde encontraram as maiores provas de tais costumes no continente africano e na península arábica. A maioria das mutilações acontece sem anestesia, em casa (na cidade ou vilarejo), mas muitas são realizadas atualmente nos hospitais
*A eliminação da sexualidade clitorideana é uma precondição necessária para o desenvolviment feminilidade." Sexuality and lhe Psychology ofLove [Sexualidade e a psicologia do amor] (Nova v> Macmillam, 1963).

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como procedimentos aprovados. Esses ritos também não estão limitados a uma religião; são praticados por alguns povos islâmicos, alguns cristãos cópticos, membros de várias religiões indígenas, alguns católicos e protestantes, e alguns Fellasha, um segmento judeu antigo que vive nas montanhas da Etiópia. A forma mais comum no continente africano é a clitoridectomia, que é praticada em mais de 26 países do leste da África e Mar Vermelho até a costa atlântica, e do Egito, ao norte, a Moçambique, no sul, também incluindo Botsuana e Lesoto. De acordo com Awa Thiam, o escritor senegalês, a clitoridectomia — na forma de exclusão completa ou na variante mais "moderada", sunna — também pode ser encontrada nos Iemens, na Arábia Saudita, Iraque, Jordão, Síria, e sul da Argélia. A infibulação parece ser padrão em todo o leste — Somália, grande parte da Etiópia, Sudão (apesar de legislação de 1946 que a proíbe), Quênia, Nigéria, Mali, Burkina Faso, e partes da Costa do Marfim. Muitos grupos étnicos têm versões locais: alguns cauterizam o clitóris com fogo ou esfregam um tipo especial de urtiga pelos órgãos para destruir as terminações nervosas; alguns estancam o fluxo de sangue com compostos feitos de ervas, leite, mel, e algumas vezes cinzas e excreções animais. As conseqüências de tais práticas para a saúde incluem fatalidades primárias devido ao choque, hemorragia ou septicemia e complicações posteriores tais como a má formação genital, menarca atrasada, dispareunia (dor durante a relação sexual), complicações pélvicas crônicas, incontinência, calcificações nas paredes vaginais, fístulas retovaginais, cistos e abcessos na vulva, retenção urinaria recorrente e infecção, formação de quelóide e cicatrizes, e uma gama completa de complicações obstétricas. Há também grande probabilidade de danos ao feto (por infecção) durante a gravidez e à criança na hora do parto. As respostas psicológicas entre as mulheres vão de trauma temporário e frigidez permanente a psicoses. Os oficiais de saúde suspeitam de uma alta taxa de mortalidade, embora existam poucos registros de fatalidade disponíveis devido à informalidade ou ao segredo que cerca o costume em muitas áteas. Embora tais práticas sejam freqüentemente descritas como "circuncisão feminina", o grau de dano não é comparável, nem de perto, à circuncisão masculina. Certamente, os dois procedimentos estão relacionados: ambos são amplamente praticados sem necessida-

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de médica e são provas extremas de subserviência à autoridade patriarcal — tanto tribal, religiosa quanto cultural — sobre todas as funções sexuais e reprodutivas. Mas aí termina o paralelo. A clitoridectomia é mais análoga à penisectomia do que à circuncisão: o clitóris tem tantas terminações nervosas quanto o pênis. Por outro lado, a circuncisão masculina envolve cortar a ponta do "capacete" de pele que cobre o pênis, uma área cujo número de terminações nervosas é análogo àquele do lóbulo da orelha, mas não prejudica o pênis. Esse procedimento não destrói a capacidade da vítima de ter prazer sexual; de fato, alguns justificam a prática aumentando o prazer ao expor mais a área sensível. A denominação errônea de "circuncisão feminina" parece avançar dos motivos políticos conscientes para os inconscientes: fazer parecer que as mulheres estão meramente experimentando algo que os homens também experimentam — nem mais nem menos. A política também é evidente na atribuição desse costume. O nome sudanês para infibulação credita-o ao Egito ("circuncisão faraônica"), enquanto os egípcios chamam a mesma operação de "circuncisão sudanesa". A mais moderada, a "circuncisão sunna", foi recomendada pelo profeta Maomé, que, segundo dizem, aconselhou: "Reduza, mas não destrua", portanto, reformando, e legitimando o ritual. Essa versão foi denominada sunna, ou tradicional, talvez numa tentativa de aplacar tradicionalistas rígidos, embora tais rituais não sejam mencionados em lugar algum no Corão, um fato que as mulheres muçulmanas que se opuseram a essa mutilação citam em seus argumentos. As justificativas aparentes para a mutilação genital são tão contraditórias quanto as teorias sobre sua origem. As explicações incluem costume, religião, honra familiar, limpeza, proteção contra feitiços, iniciação, certeza de virgindade no casamento, e prevenção da promiscuidade feminina ao reduzir fisicamente ou pelo terror o desejo sexual, este último particularmente em culturas poligâmicas. Por outro lado, o fato de que algumas prostitutas no Oriente Médio também terem sido clitoridectomizadas é citado como prova de que isso não reduz o prazer, como se mulheres se tornassem prostitutas por desejo. Uma superstição é uma prática ou crença justificada por uma série de argumentos simultâneos e totalmente opostos. (Por exern-

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pio, diz-se que a circuncisão masculina não somente aumenta o desejo mas também o diminui através do endurecimento da pele exposta ou da remoção do "capuz" causador de fricção). Logo, uma razão freqüentemente dada para a mutilação sexual é que ela torna a mulher mais fértil. Porém em 1978, Dr. R. T. Ravenholt, na época diretor do Departamento de População da Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA, não se opôs com base em que era um método contraceptivo, afirmando que "porque ela [a clitoridectomia/infibulação] objetiva a redução do desejo sexual feminino, tem indubitavelmente o controle da fertilidade como parte de sua motivação". De fato, alguns comportamentos das mulheres indicam o contrário. A dor durante a relação sexual freqüentemente leva as mulheres mutiladas a procurar engravidar como um alívio temporário das exigências sexuais. Em algumas culturas, a justificativa é bem menos obscura. Os mitos dos mossi de Burkina Faso, e dogon e bambaras do Mali expressam claramente o medo de uma natureza humana inicialmente hermafrodita e da sexualidade das mulheres: o clitóris é considerado um órgão perigoso, fatal para um homem se entrar em contato com seu pênis. Igualmente, no século XIX em Londres, o Dr. Isaac Baker Brown justificou cortar o clitóris de algumas de suas pacientes inglesas como cura para doenças variadas tais como a insônia, a esterilidade, e "casamentos infelizes". Em 1859, Dr. Charles Meigs recomendou a aplicação de solução de nitrato de prata ao clitóris das meninas que se masturbavam. Até 1925 nos Estados Unidos, uma associação médica chamada de Sociedade de Cirurgia Orificial ofereceu treinamento cirúrgico em clitoridectomia e infibulação "por causa da grande quantidade de doenças e sofrimentos das quais as mulheres poderiam ser poupadas..." Tais operações (e justificativas) ocorreram em tempos tão recentes quanto os anos quarenta e cinqüenta nos Estados Unidos. Por exemplo, em Nova York, a filha de uma família rica foi clitoridectomizada como "tratamento" para masturbação recomendado por um médico da família. Algumas prostitutas foram encorajadas por assistentes sociais de igrejas bem-intencionadas a fazer esse procedimento como uma forma de "reabilitação". Durante os anos setenta, a "mudança" clitoridiana — chamada de "Cirurgia do Amor" — começou a aparecer em alguns consulto-

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rios médicos. Antes de 1980, o serviço de notícias femininas Hersay divulgou a história do Dr. James Burt, um ginecologista de Ohio, que oferecia uma operação "aperfeiçoada" de 1.500 dólares que envolvia a reconstrução vaginal para "deixar o clitóris mais acessível à estimulação direta do pênis". Sejam quais forem as justificativas para esses esforços de fazer com que os corpos das mulheres entrem em conformidade com as expectativas sociais, podemos explorar suas razões reais somente dentro do contexto do patriarcado. Ele deve controlar o corpo feminino como meio de reprodução e, logo, represar a independência da sexualidade feminina. Ambos os motivos são reforçados pelas recompensas e punições socioeconômicas. Se o casamento é o meio primário de sobrevivência econômica para a mulher, então que seja feito o que quer que a torne mais desejável para o mesmo. Se uma noiva que não é virgem arrisca-se à morte, literalmente, ou à renúncia na noite de núpcias, então um cinto de castidade feito com a sua própria pele é um gesto de preocupação dos pais. Se o papel tribal de clitoridectomistas e parteiras que executam tais mutilações é a única posição de honra, de poder, ou mesmo o único meio de sobrevivência independente disponível às mulheres, então as "mulheres-símbolo" que celebram tais ritos lutarão para preservá-los. Como aqueles que organizam as cerimônias de extirpação (às vezes famílias inteiras pela prerrogativa herdada) têm o direito, como fazem em algumas culturas, de "adotar" as crianças extirpadas para trabalharem nos campos durante dois ou três anos, então tais famílias têm motivo econômico considerável para perpetuarem o costume. Se os ginecologistas homens também acreditavam ser a sexualidade das mulheres independentes perigosa e não natural, então a cirurgia era justificada para remover sua causa. Se um ginecologista moderno ainda presume que os homens não desejam aprender a achar ou estimular o clitóris para dar prazer às mulheres, então ele pensará que é natural trazer o clitóris para perto do lugar usual do prazer peniano. As respostas ilógicas podem ser levadas a novos limites pela burocracia. A Casa Branca e sua preocupação pelos "direitos humanos", os vários departamentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, e agências tais como o Fundo Internacional das Crianças das Nações Unidas e a Organização Mundial de Saúde, todos têm

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expressado relutância em interferir nas "atitudes sociais e culturais", no que se refere à mutilação genital feminina. Essa sensibilidade tem estado marcadamente ausente em outros assuntos, por exemplo, campanhas para disseminar vacinas ou vitaminas apesar da resistência de tradicionalistas locais. Claramente, a "cultura" trata daquilo que afeta mulheres enquanto "política" afeta os homens. Mesmo os direitos humanos e outras afirmações políticas admiráveis não incluem aquelas de importância especial à maioria feminina da humanidade. (Isto é verdade não só em relação à mutilação genital como também a outras áreas de liberdade reprodutiva. Muitas mulheres do Oriente Médio não podem deixar o país sem permissão, por escrito, de um dos membros masculinos da família, porém isso não é comparado com, por exemplo, judeus que foram proibidos de deixar a União Soviética, ou outras restrições de viagem que afetam homens também). Algumas agências internacionais assumem uma posição reformista — que a clitoridectomia e/ou infibulação deveria ser feita em hospitais sob condições higiênicas e supervisão médica apropriada. Os grupos feministas e organizações respeitadas como a Terre des Hommes, uma agência (batizada ironicamente) baseada na Suíça dedicada à proteção de crianças, pediram, repetidas vezes, um endurecimento dessa posição para a de condenação do direito da prática. A situação é mais complicada pela compreensível suspeita da parte de vários governos africanos e árabes e indivíduos de que o interesse ocidental nos problemas é motivado não pelas preocupações humanitárias, mas por um desejo racista ou neocolonialista de erradicar culturas indígenas. De fato, como Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quênia, observou em seu livro, Facing Mount Kenya, a mobilizaçãochave de várias forças para a independência do Quênia da Inglaterra foi uma resposta direta às tentativas dos missionários da Igreja da Escócia em 1929 de suprimir a clitoridectomia. As autoridades patriarcais, tanto tribais quanto imperiais, sempre consideraram como sendo central para seus reinados e poder o direito de definir o que é feito com "suas" mulheres. Mas as campanhas do passado, contra a mutilação de mulheres, conduzidas por razões ambíguas ou mesmo deploráveis, não necessitam impedir novas abordagens que poderiam ser mais eficazes por serem sensíveis às culturas envolvidas e, mais importante, dariam apoio às mulheres afetadas, reagindo às suas lideranças.

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Uma iniciativa exatamente deste tipo começou em fevereiro de 1979, em um encontro histórico em Cartum, Sudão, assistida por delegadas (incluindo médicas, parteiras, e oficiais de saúde) de dez nações africanas e árabes e apoiado por muitos que não puderam assistir. Iniciada pelo Escritório Regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental, com assistência do governo sudanês, esse encontro foi cuidadosamente chamado de seminário sobre "Práticas tradicionais que afetam a saúde de mulheres e crianças" — incluindo práticas como casamento de crianças, tabus nutricionais durante a gravidez e lactação, mas também a mutilação genital. Daí resultaram quatro recomendações: 1. Adoção de circuncisões limpas e sem sofrimento. 2. Estabelecimento de comissões nacionais para coordenar atividades, incluindo a passagem de legislação abolicionista. 3. Intensificação da educação geral sobre os perigos da indesejável prática. 4. Intensificação dos programas educacionais para assistentes prénatais, parteiras, curandeiros, e outros praticantes da medicina tradicional, com o objetivo de arregimentar seu apoio. Mais tarde em 1979, uma conferência das Nações Unidas realizada em Lusaka, Zâmbia — uma de uma série de encontros preparatórios regionais para a Conferência Mundial das Nações Unidas para a Década das Mulheres, de 1980 — também tratou desse assunto. Adotando uma resolução patrocinada por Edna Adan Ismail da Somália, o encontro condenou as mutilações femininas e convocou todas as organizações de mulheres nos países envolvidos "a mobilizar informação e campanhas de educação sanitária sobre as conseqüências danosas sociais e médicas dessas práticas". Também é verdade, no entanto, que a mutilação genital não e sempre citada como prioridade pelas mulheres nos países desenvolvidos: a eliminação da fome, saúde em geral, desenvolvimento agrícola e industrial pode ter precedência. Porém os encontros de Cartum e Lusaka mostraram claramente que muitas mulheres, e homens de consciência, por toda a África e países árabes se opõem ativamente, há muito tempo, à clitoridectomia e à infibulação. Tais grupos

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como a Federação de Mulheres Voltaicas e a Organização Democrática de Mulheres da Somália, como também, individualmente, a Dra. Fátima Abdul Mahmoud, ministra de assuntos sociais do Sudão, Mehani Saleh do Ministério da Saúde de Aden, Awa Thiam do Senegal, e Esther Ogunmodede, a jornalista ativista da Nigéria, vêm fazendo campanhas de diferentes maneiras contra a mutilação genital, com pouco apoio internacional. De fato, de acordo com Fran P. Hosken, uma feminista que por anos vem tentando mobilizar a América e a consciência internacional sobre esse assunto, "as agências internacionais e das Nações Unidas, assim como grupos de caridade e de igrejas e organizações de planejamento familiar que trabalham na África, estão comprometidos com 'a conspiração do silêncio'... Como resultado, aqueles africanos que estão trabalhando por mudanças em seus próprios países têm sido completamente isolados ou ignorados". Agora, os sobreviventes e testemunhas estão começando a ser ouvidos à medida que falam pessoalmente sobre o sofrimento infringido, tanto na cabana do vilarejo, no apartamento moderno, ou na estéril sala de operação, pela mutilação genital — sofrimento este que poderá se estender por toda a vida. Suas vozes são inesquecíveis. Há muito que deveríamos tê-las ouvido e compreendido o que estava sendo dito — por elas, e por todas nós. E hora de começarmos a agir — com elas, as vítimas mais imediatas, e no interesse comum das mulheres como um povo. — 1979 e 1992

PÓS-ESCRITO Quando Robin Morgan e eu escrevemos este artigo, já o adiávamos há vários anos. Estávamos dolorosamente conscientes de que, no passado, a atenção externa tinha freqüentemente servido para manter esta prática viva. Somente após a Organização Mundial de Saúde finalmente ter organizado foros regionais onde mulheres corajosas de regiões afetadas podiam falar contra a tradição, é que publicamos este ensaio na Ms. Foi distribuído pelo Fundo Internacional das Crianças das Nações Unidas. Algumas das muitas mulheres que

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trabalhavam contra a mutilação genital feminina em seus próprios países expressaram alívio por ter feito a mutilação genital feminina integrar o continuum de práticas patriarcais que incluíam a Europa e os Estados Unidos. Em 1980, a "circuncisão feminina" foi incluída no relatório do UNICEF sobre mulheres e desenvolvimento, a Organização Mundial de Saúde a colocou entre seus programas, e a Conferência Mundial para a Década das Mulheres das Nações Unidas se encontrou em Copenhague e aprovou as quatro recomendações feitas pela OMS que encontram-se listadas acima. Alguns governantes já haviam começado a luta, embora com resultados mínimos. O Sudão tornara a infibulação ilegal em 1946, e o Egito aprovou leis contra a clitoridectomia nos anos setenta. Em 1982, o presidente Daniel T. Arap Moi do Quênia baniu a clitoridectomia depois que quatorze meninas morreram em decorrência de extirpações malfeitas. Em geral, sem os esforços da comunidade, a legislação tem freqüentemente dirigido a prática para a ilegalidade. No entanto, as leis nacionais e as declarações internacionais são apoios importantes para grupos de mulheres que trabalham contra essa prática, e também uma guarda contra sua difusão. As famílias africanas e do Oriente Médio, residentes na Europa, transformaram a prática em questão local ao executarem as extirpações pessoalmente ou solicitarem cirurgiões para operarem suas filhas. Como resultado, a Noruega, a Dinamarca e a Suécia baniram a mutilação genital feminina por lei, e houve um debate público na Inglaterra e na França quando alguns cirurgiões foram acusados de executarem essas operações por quantias monumentais. Em 1982, as autoridades francesas prenderam o pai de uma família do Mali que extirpara o clitóris da filha de três meses de idade com um canivete. Em 1992, uma parteira do Mali foi condenada a oito anos de prisão na França por operar três bebês que mais tarde sangraram até a morte. Em 1991, o primeiro caso de uma mulher que pediu asilo político aos tribunais franceses: Aminata Diop testemunhou que não poderia retornar a Mali sem a probabilidade de ser mutilada. (Ela foi autorizada a permanecer na França, embora não tenha estabelecido urn "precedente" para outros casos.) Em 1993, o Canadá tornou-se o primeiro país a incluir a mutilação genital feminina entre as razões em potencial para a solicita-

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ção de asilo político, e a cerca de duzentas mulheres foi concedido status de refugiadas nos últimos dois anos. Nos Estados Unidos, há relatórios não confirmados de mulheres adultas submetidas a essa prática como um sinal de conversão ao islamismo, ou como um tributo ao nacionalismo cultural. Também foram documentados casos de solicitação de asilo político para mulheres fugindo dessa prática — por exemplo, o caso notório de Lydia Olularo que solicitou ao Serviço de Imigração dos Estados Unidos sua permanência no Oregon porque suas duas jovens filhas seriam sujeitas à mutilação se retornassem à Nigéria — mas esses casos não estabeleceram precedente. Finalmente, em maio de 1995, Doris Meissner, designada pelo presidente Clinton para chefiar o Serviço de Imigração, anunciou novas diretrizes que reconheceriam a mutilação genital feminina e outras formas de tortura específica de gênero e violência como razões potenciais para a solicitação de status de refugiado. A cobertura da mídia popular dos Estados Unidos sobre a mutilação genital feminina surgiu, apenas, nos anos noventa, e é raramente parte rotineira das discussões de direitos humanos. A consciência popular foi aumentada pelo best-seller de Alice Walker de 1992 sobre o assunto, Possessing th Secret of Joy [Possuindo o segredo da alegria}, e também por Warrior Marks [Marcas das guerreiras}, um filme-documentário e um livro do mesmo nome também criados por Walker em parceria com o diretor Pratibha Parmar. Anteriormente no Egito, Nawal El Saadawi, renomada escritora e ativista, viu seus trabalhos serem banidos, em parte porque ela ousou contar sua própria história como sobrevivente da clitoridectomia. Mais recentemente, Efua Dorkenoo publicou Cutting the Rose [Podando a rosa}, seu testemunho como enfermeira em Gana e residente em Londres que, embora não seja ela mesma uma sobrevivente, devotou a ultima década na organização contra essa prática através do FORWARD, grupo sediado em Londres. Ela também organizou caminhonetes cirúrgicas e educacionais para chegar às mulheres infibuladas para as quais dar à luz seria torturante e perigoso. Em 1990, a comissão das Nações Unidas que monitora a CEDAW (Convenção das Nações Unidas para Eliminação de todas as formas de Discriminação contra as Mulheres) aprovou, com unanimidade, uma recomendação condenando a prática como sendo deletéria para

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as mulheres, indo além das preocupações com a saúde e invocando o direito básico de integridade física. De "circuncisão" secreta à visibilidade internacional, de ameaça à saúde a crime contra os direitos humanos, a conscientização pública sobre a mutilação genital feminina tem percorrido um longo caminho nesses dezesseis anos. Cada vez mais pesquisas a identificam como uma prática amplamente difundida. Em 1992, a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional relatou aos membros do Congresso dos Estados Unidos que "mais de cem milhões de mulheres e meninas em pelo menos 25 países" sofriam como resultado desse crime que foi finalmente reconhecido como uma "violação dos direitos humanos". Em 1979, quando este ensaio foi publicado pela primeira vez, a estimativa era de trinta milhões. Em algum lugar, neste momento, crianças do sexo feminino estão experimentando essa tortura e traição nas mãos de pessoas das quais são totalmente dependentes. Mulheres adultas estão sofrendo ao darem à luz, fazerem amor, e nas funções normais de seu dia-a-dia. Ao apoiar o trabalho de mulheres nos países afetados, certificar-se de que essa prática jamais será tolerada em nossos próprios países, e ao explicar o elo entre essa e outras práticas patriarcais, podemos ajudar no longo processo de eliminação desse crime contra os seres humanos femininos. — 1995

Receitas de Fantasias: Para Alívio Temporário da Dor Causada Pela Injustiça

Escrevi este artigo no oitavo aniversário da revista Ais., um pouco antes da Conferência das Mulheres das Nações Unidas em Copenhague. Estes dois fatos me enchem com um misto de esperança e raiva. Olho para trás, para os primeiros assuntos de interesse da Ais., e fico alarmada ao constatar que muitos artigos ainda são completamente atuais: as condições objetivas de vida não mudaram muito para a maioria das mulheres. Estou estudando documentos para outra conferência das Nações Unidas e percebo que nossas representantes oficiais e os pontos de conflito ainda são ditados pelos governos, não pelas mulheres que são governadas. Por outro lado, sei que uma nova maioria americana apoia questões de igualdade que nem eram reconhecidas como tal alguns anos atrás, e a Ais. é um fórum bem-sucedido que começou com dinheiro insuficiente para durar mais do que oito meses, muito menos oito anos. Também espero que encontros multiculturais, como Copenhague, possam gerar contatos suficientes de mulher para mulher para criar, no futuro, um Governo Revolucionário Feminista em Exílio. De repente, começo a me sentir melhor. Grande parte dessa onda de esperança é baseada na realidade, mas um pouco disso é uma fantasia de tomada de poder pela parte feminina do mundo, que cresce de frases inventadas tais como futuro Governo Revolucionário Feminista em Exílio. As fantasias fortalecem nossa força psíquica e, às vezes, desenvolvem nossa visão. Elas também podem combinar riso com vingança de forma um tanto salutar. O que ofereço aqui é um Conjunto de Introdução à Fantasia, para que cada um de nós crie a fantasia que corresponda ao crime.

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As feministas formam um pequeno exército internacional e tomam a Arábia Saudita. Somos capazes de fazer isso com um mínimo de violência porque os homens da família real ficam tão embasbacados com a idéia de serem atacados por mulheres -— e tão incapazes de levar o ataque a sério — que praticamente não revidam o ataque. São vítimas de seus próprios preconceitos. Nós, então, libertamos as mulheres sauditas de seus aposentos palacianos, dos haréns, de seus véus e de um status de mercadoria tão claro que não lhes é permitido dirigir carros e legalmente podem ser executadas por infidelidade. (Na realidade, tivemos agentes subversivos infiltrados lá por algum tempo, não apenas as entediadas esposas americanas dos executivos de companhias petrolíferas. As mulheres sauditas têm comparecido disfarçadas às conferências internacionais de mulheres e há nomes sauditas na lista de assinaturas da MS.) Juntas, voltamo-nos para o mundo e dizemos: "Pronto, negócio fechado. Você quer esse petróleo? Então é isto que tem de fazer pelas mulheres e por todos os grupos sem poder. E assim que se redistribui a renda e derruba os sistemas baseados em sexo, raça e classe. Do contrário, fica sem petróleo." Trabalhada e elaborada, esta fantasia pode deixá-la feliz por pelo menos dez minutos. (Por exemplo, o exército de minha imaginação é constituído por advogadas, ativistas negras, e pela feminista Florynce Kennedy, nos dando nossa versão de "Florynce da Arábia".) Uma feminista (escolha uma, preferivelmente você) acaba de derrotar (escolha um) o papa, o presidente da igreja mórmon, o rabino Lubevitche Rebbe, um apresentador de direita de um programa de entrevistas, William Buckley, William Shockley, Lionel Tiger, George Gilder, Gay Talese, o aiatolá Khomeini, ou num debate público. A audiência ri deles. A coisa toda é televisionada, via satélite, em todas as línguas do mundo. O New York Times é herdado por mulheres que rompem com a tradição de família e não passam seu controle para maridos, irmãos, filhos ou cunhados. (Como a hemofilia, o Times é passado através das mulheres mas recebido pelos homens.) Em vez disso, elas mesmas assumem o poder e demitem todos os editores e gerentes responsáveis pelos preconceitos citados por funcionários em processos históricos de discriminação sexual

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e racial. Então, eles dizem às suas litigantes: "Vão, minhas queridas ... agora vocês decidam quem vai dirigir o New York Times." À noite, nos edifícios de escritórios de Wall Street, um grupo de serventes planeja, organiza, lê sobre informática e realiza um meticuloso roubo elaborado no qual elas manipulam os computadores das seis maiores multinacionais para transferir 41 % de todos os bens para contas em seus próprios nomes em bancos suíços. Embora elas deixem um impresso explicando o que fizeram e por que ("Senhores: Já que as trabalhadoras recebem apenas 55 centavos para cada dólar pago aos homens...")*, os diretores ficam humilhados demais para admitir que foram logrados.... por suas próprias serventes. Em vez de processálas, eles anunciam falência devido a "dificuldades técnicas". Suas multinacionais estão quebradas e entregues aos trabalhadores. Neste ínterim, a misteriosa gangue de serventes distribui seu ganho entre os americanos que se encontram abaixo da linha de pobreza (homens, também; elas estão construindo coalizões), guardando o suficiente para financiar missões de treinamento para a Europa, Ásia, África etc. Lá, elas transmitem seus conhecimentos para outras gangues de serventes em Londres... Roma... Moscou... Tóquio... Pretória... Pela segunda vez este ano, o papa João Paulo anuncia que a Igreja deve ficar fora da política — só que desta vez ele realmente fala a sério. Todas as tentativas da Igreja de influenciar a legislação em relação aos anticoncepcionais, à sexualidade, ao aborto, à família e outros problemas/questões privadas são imediatamente suspensas. São pagos impostos sobre estacionamentos, hotéis, shopping centers, e todas as outras propriedades religiosas. Nós realmente conseguimos separar a Igreja do Estado. Funcionárias administrativas, pesquisadoras, analistas e serventes de escritórios e todas as outras funcionárias do Pentágono e do Departamento de Defesa entraram em greve —por apenas um dia. Também dão aviso prévio. A não ser que 25% do orçamento militar seja transferido para os programas sociais imediatamente, elas farão uma
*Hoje são 75 centavos por cada dólar, assim roubaríamos apenas 25 centavos — justiça é justiça.

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greve similar pelo menos uma vez por mês e depois duas vezes por mês... e assim por diante. Elas fazem o Pentágono ficar de joelhos. Esposas e secretárias começam a contar, umas às outras, tudo o que sabem, e além disso dão entrevistas coletivas. As mulheres que trabalham para grandes empresas contam umas às outras quanto ganham. Elas contam ao mundo quais são os salários dos executivos — e muitos outros segredos. Toda mulher que engravidou e foi encorajada a fazer um aborto por políticos que são contra o aborto vão à televisão e... bem, já deu para entender. Saber é poder. Por favor não pense que todas as minhas fantasias são alegres. Muitas são bem paranóicas. Dado à habilidade, cada vez maior, de predeterminar o sexo do bebê, acrescentada aos preconceitos em favor de filhos homens e ao desenvolvimento da gestação fora do útero, a pior de minhas fantasias estende-se por décadas futuras de uma população feminina decrescente. Termina em alguns zoológicos internacionais do futuro com uma dezena de nós em jaulas onde lê-se o aviso: "Por favor não alimente as mulheres." No entanto, uma vida com fantasias fortes é a nossa própria ficção científica. É uma fonte de alívio, de fuga e até mesmo de algumas idéias mirabolantes. Pense no movimento de auto-ajuda feminina, por exemplo. Suas pioneiras nos ajudaram a conhecer a incrível elasticidade, a força e a sensibilidade do colo do útero. Suponhamos que tal conhecimento fosse associado a técnicas de biofeedback que nos ensinaram a controlar os músculos em questão. Mulheres incapazes de levar uma gestação até o final talvez pudessem fazê-lo. Mulheres que não desejassem uma gravidez talvez pudessem induzir abortos espontâneos. Se até o ano 2000 as mulheres usassem cada publicação, cada conferência nacional e internacional para ensinar umas às outras esta técnica subversiva talvez conseguíssemos declarar uma seleta "greve do bebê". Assim, não só deferíamos o controle sobre os meios de reprodução como também contaríamos com a irreversibilidade do fato. Isto seria, certamente, de grande utilidade numa conferência de mulheres — e nestas páginas. — 1980

Se Hitler Estivesse Vivo, de que Lado Estaria?

Seis milhões ê o número normalmente atribuído não apenas aos judeus que morreram durante a época de Hitler mas aos bebês que têm morrido devido às decisões da Suprema Corte. — Patrick Riley, National Catholic Register, 13 de maio de 1979
AUSCHWITZ, DACHAU, E MARGARET SANGER: SINÔNIMOS

— Cartaz exposto na Convenção Pró-Vida de 1979 Assim como os judeus foram descritos como untermenschen, os que ainda não nasceram são descritos como não-humanos. — Raymond J. Adamek, Human Life Review, outono de 1977 Usando a mesma analogia com os nazistas alemães feita por muitos dos conferencistas {o congressista Robert K.}, Dornan disse: "Sabemos o que está acontecendo neste país. Alguns alemães tinham a desculpa de que não tinham certeza." — Washington Post, 23 de janeiro de 1977

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Esta não é a hora de "esfriar a retórica"... Não estamos "escorregando na direção de Auschwitz". Não estamos "caminhando para o holocausto". Estamos vivendo em meio a um... A Liga Abolicionista Americana apela para a consciência da comunidade pró-vida para... trancar os abatedouros a cadeado. Realizem protestos. Deixem que esta nação saiba que as leis do Ser Supremo têm precedência sobre as leis da Suprema Corte. — The Abolitionist, (publicação antiaborto impressa em Pittsburgh) {Na Convenção Nacional Pró-Vida} o professor William C. Brennan... disse que (uma companhia} que fabrica dispositivos e remédios usados em abortos está na mesma posição que a I.G. Farben, empresa alemã que fabricou os produtos químicos usados na execução em massa dos judeus. — The Catholic News,

5 de julho de 1979 Se você não compareceu a uma reunião antiaborto recentemente, leu justificativas para o terrorismo antiaborto, ou se deparou com os esforços da direita para promulgar uma proibição constitucional do aborto, então as citações que você acabou de ler podem lhe parecer bizarras e até excepcionais. Certamente, os grupos que usam esses e outros argumentos inflamados não confiam na mídia principal. (O mesmo professor Brennan, acima citado, por exemplo, continuou a comparar a imprensa americana com a da Alemanha nazista e a condená-la por "esconder os fatos".) Por esta razão, eles criaram o seu próprio mundo de mídia, com publicações de direita, panfletos e livros distribuídos por igrejas e organizações locais ou por mala direta a qual, segundo eles, possui um registro de dez milhões de nomes, além de. programas de televisão assistidos em quatorze milhões de lares, semanalmente.* No entanto, as feministas que têm trabalhado principalmente com as questões da liberdade de reprodução, e aqueles poucos repórteres que pesquisam a extrema direita têm advertido sobre esta
*Nos anos oitenta e noventa, programas de rádio e redes de computadores on-line multiplicaram este número diversas vezes.

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campanha cada vez mais agressiva desde as resoluções da Suprema Corte sobre o aborto, em 1973. Até 1974, por exemplo, Marion K. Sanders, uma repórter respeitada da revista Harper's, escreveu que "a analogia com o programa de extermínio de Hitler... provou ser uma propaganda potente. A implicação é que o aborto legal é apenas um primeiro passo para o aborto compulsório de 'indesejáveis', levantando o espectro do genocídio de pessoas negras". O que efetivamente aconteceu foi que a maioria da comunidade negra rejeitou o argumento de genocídio com base exclusivamente em sua fonte: grupos da direita, formados em sua maioria por brancos, são os que mais se opõem aos esforços dos movimentos de direitos civis e de integração das raças. Se algumas mulheres negras faziam um número desproporcional de abortos, como os grupos antiaborto freqüentemente citavam como prova de "genocídio", foi porque elas tinham menos acesso a anticoncepcionais. De fato, a taxa de natalidade de brancos caiu, proporcionalmente, tanto quanto a taxa de natalidade de negros após a legalização dos anticoncepcionais e do aborto, e permanece abaixo da de negros americanos. Mais importante, um número desproporcional de mulheres, cuja saúde e vida são salvas pelo aborto legal e seguro, são negras. (Por exemplo, apenas no Hospital do Harlem em Nova York, no primeiro ano após a liberalização da lei do aborto de Nova York, em 1971, houve uma redução de aproximadamente 750 casos de mulheres vítimas de abortos ilegais ou auto-induzidos). Finalmente, a disponibilidade de abortos legais ou subsidiados pelo sistema de saúde governamental, o Medicaid, deixa as mulheres pobres menos vulneráveis à "barganha" racista: um aborto seguro, em troca de esterilização consentida. No total, muitos dos grupos antiaborto pareciam mais motivados pela preocupação com o declínio da taxa de natalidade de brancos a patamares sem precedentes na história norte-americana — até mesmo a produção de um número de crianças brancas "adotáveis" insuficiente para atender à demanda — do que pela necessidade de proteger os direitos de reprodução dos pobres. (Em alguns estados, os líderes e legisladores contrários ao aborto apoiaram a retenção de pagamentos previdenciários para mulheres com três ou mais filhos se estas não concordassem em ser esterilizadas). A autodescrição de "abolicionista" escolhida por grupos que trabalham para abolir a legalização do aborto tenta estabelecer uma conexão emocional en-

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tre o movimento antiescolha e o movimento antiescravagista. Da mesma forma, eles igualam as decisões da Suprema Corte, de 1973, àquela do caso Dred Scott, como se negar personalidade jurídica a um feto e a um escravo fossem a mesma coisa. Porém agora a direita diminui seu enfoque sobre os negros e retorna àqueles que mais temem mudanças: os brancos de classe média, os idosos, os fundamentalistas religiosos e outros que sentem que seu poder e seus estilos de vida estão em perigo. Para eles, o aborto é constantemente apresentado como o começo simbólico de um futuro horripilante. Ele destruirá o casamento e a moralidade ao retirar os filhos como único propósito do ato sexual e da vontade de Deus; ele limitará o número de pessoas como eles, prejudicando assim o futuro de uma maioria branca; ele colocará em perigo as pessoas idosas ou deficientes ao pavimentar o caminho para a eutanásia; ele tornará as mulheres masculinizadas ao permitir que elas tenham o poder de escolha em vez de serem depósitos passivos das vidas de outras pessoas; e finalmente será o mesmo que legalizar o assassinato. A natureza do medo pode variar, mas a metáfora de terror é a mesma: a filosofia e os campos de concentração de Hitler — o mais perto que a memória moderna consegue chegar da versão terrena de inferno. "Existe uma grande diferença entre o conceito de 'Raça Superior' (raça de qualidade) e a 'qualidade de vida' de nossos modernos planejadores sociais que são a favor do aborto?", perguntam o Dr. e Sra. J. C. Willke, retoricamente, em seu livro Handbook on Abortion [Um manual sobre o aborto}. De acordo com essa publicação obscura e amplamente distribuída (com a fotografia de uma adolescente ouvindo atentamente um médico branco na capa), a resposta é não. "Embora jamais legalizado, o aborto se tornara, de fato, uma resposta aceitável para o problema social da mãe nas décadas de vinte e trinta, na Alemanha", alegam os Willkes. "Esses médicos, acostumados a aceitar a matança de um grupo de humanos que era socialmente oneroso (os não-nascidos), eram aparentemente capazes de seguir logicamente para a matança de outras classes de humanos." Ao enfocar apenas os médicos e ignorar os direitos e solicitações dos pacientes, esses autores igualam dois opostos: um aborto realizado por solicitação de uma mulher que decidiu fazê-lo por livre escolha

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(e que tem um direito lógico de decidir se uma gravidez usará ou não seu corpo e todos os seus sistemas de apoio a vida), e a morte de uma pessoa autônoma que não pediu tal coisa (nem mesmo, presumivelmente, o direito de suicídio ou de ter uma morte tranqüila e planejada). As questões cruciais de quem decide e onde a autoridade se assenta jamais são discutidas nessas comparações emocionais entre o aborto e os campos de extermínio; entre a crença na escolha reprodutiva como um direito individual contra as imposições do governo e um autoritarismo nazista que se opõe à própria idéia de direitos individuais. "O verdadeiro idealismo", como escreveu Hitler em Mein Kampf, "nada significa a não ser a subordinação dos interesses e da vida de indivíduos à comunidade... O sacrifício da existência pessoal é necessário para assegurar a preservação das espécies." Isso começa a lhe soar familiar? Deveria, pois o segundo erro na equação difamatória dos que são a favor da escolha com os nazistas é que o próprio Hitler, e a doutrina nazista por ele criada, foram inequivocamente contrárias a qualquer direito individual ao aborto. Na verdade, o Movimento Nacional Socialista de Hitler pregava contra e punia os anticoncepcionais, a homossexualidade, quaisquer mulheres cujo propósito principal não fosse a maternidade, homens que não haviam provado sua masculinidade sendo pais de várias crianças e tudo o mais que não preservasse e expandisse o povo "ariano" e o Estado alemão. Em Mein Kampf, Hitler escreveu: "Devemos acabar com o conceito de que o tratamento do corpo é um assunto que diz respeito a cada indivíduo." Essas palavras eram um tapa direto no movimento feminista alemão do final dos séculos XIX e começo do século XX, uma força influente a favor, entre outras coisas, do divórcio, dos anticoncepcionais e do aborto: em resumo, do direito da mulher de controlar seu próprio corpo. Não apenas as feministas alemãs partilhavam desses objetivos com suas irmãs em outros países, como também obtiveram alguns sucessos anteriores e maiores. Elas conseguiram o voto em 1918, por exemplo, como parte da Constituição de Weimar que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Até 1926, as feministas moderadas haviam eleito 32 deputadas para o Reichstag, o corpo do parlamento nacio-

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nal, que simbolizava politicamente essa breve explosão de democracia, da mesma forma que foi culturalmente simbolizada pelos grandes novelistas alemães, pelo Bauhaus, e pelo florescimento da literatura e da arte entre as guerras. (Nesta mesma época, existiam apenas quinze mulheres membros do Parlamento Inglês, e três no Congresso dos Estados Unidos). As feministas radicais alemães também haviam começado a se organizar contra a legislação protecionista que negava o acesso das mulheres a muitos empregos, e a trabalhar por objetivos internacionais como alianças com suas equivalentes em outros países, a desmilitarização e o pacifismo. As famílias alemães tinham se tornado muito menores, as mulheres casadas tinham obtido direito jurídico de guardar seus próprios salários, e tanto as casadas quanto as solteiras se juntavam à força de trabalho remunerado em números recordes. Aqueles que sonhavam com os velhos tempos de supremacia masculina, hierárquica e "invicta" do pré-guerra, ressentiram-se de tais mudanças, precisamente porque eram óbvias no estilo de vida diário e profundas em seus efeitos em potencial. A medida que o desemprego e a inflação pioravam, as feministas em particular e as mulheres que integravam a força de trabalho em geral foram bodes expiatórios juntamente com os marxistas, os judeus e qualquer grupo que desafiasse a idéia ariana do poder baseado em raça e sexo. Devido à pressão da direita, a República de Weimar começou a proibir a competição das mulheres casadas com homens por empregos públicos. Devido a essas pressões e ao alarme pelo declínio da taxa de natalidade, o acesso aos anticoncepcionais foi também restrito. Porém, o partido nazista prometia muito mais. Coisas muito piores. "O direito à liberdade pessoal", Hitler explicou em Mein Kampf, "termina onde começa o direito de preservação da raça." Os líderes nazistas disseram que não privariam a mulher do voto, mas ridicularizavam feministas, liberais e socialistas que estavam "masculinizando" as mulheres ao tratá-las como homens. Sua própria resposta às mulheres era gkichwertig aber nicht gleichartig: "equivalente mas não o mesmo." Um retorno a uma vigorosa vida familiar; à identidade primordial feminina como mãe; a cobrança de impostos para quem permanecesse solteiro; a concessão de empréstimos para casais jovens e subsídios para gerar crianças; a proibição da prostituição, do homos-

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sexualismo, dos anticoncepcionais e do aborto. A Igreja Católica Romana, o partido de centro católico e o partido nazista podiam e concordavam em todas estas posições. Era bem verdade que discordavam fortemente sobre qual patriarcado prevaleceria, o da Igreja ou o do Estado, mas o lugar da mulher e a necessidade da família autoritária era uma plataforma, uma ligação e uma razão compartilhada para uma coalizão. Como o historiador britânico Tim Mason escreveu: "Esse tipo de consenso, parcial e aparente, sobre uma questão básica entre interesses setoriais diferentes e grupos de elite, foi um dos fundamentos do reinado nazista... O antifemínismo não foi um componente oportunista ou menor do nacionalsocialismo e sim uma parte central do mesmo." Uma vez no poder, Hitler, eleito diretamente pelo povo em parte pelo revide aos sucessos feministas, cumpriu imediatamente sua promessa de restaurar a supremacia masculina. Moderadas ou radicais, as organizações feministas foram desmembradas. As publicações feministas foram fechadas ou censuradas. Ao mesmo tempo, as organizações tradicionais de mulheres, como a Associação de Mulheres Evangélicas ou a Associação Nacional de Donas de Casa Alemãs, foram reforçadas por serem bem-vindas ao Frauenfront, a associação de mulheres nazistas. Em 1933, as feministas foram retiradas de cargos públicos e de ensino: a mesma lei removeu todos os "não-arianos" de tais empregos. Todas as mulheres, feministas ou não, foram banidas do Reichstag, dos cargos de juízas e de outros postos de tomada de decisão. Tanto quanto as necessidades de trabalho permitiam, as mulheres casadas eram persuadidas ou forçadas a ficarem em casa e a deixarem seus empregos para os homens. A propaganda retratava o ideal de mulher como sendo sadia, loura, sem maquiagem; uma trabalhadora árdua e pura enquanto solteira, uma esposa e mãe devotada o mais cedo possível. As propagandas de anticoncepcionais nas revistas, antes lugar comum, foram banidas como sendo pornográficas (como muitos grupos de direita sugerem hoje em dia). O controle da natalidade e as clínicas de aborto foram trancadas com cadeado (como alguns grupos antiaborto exigem hoje em dia). Sob Hitler, a escolha do aborto tornou-se sabotagem — um crime passível de punição com prisão e trabalhos forçados para a mu-

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lher e a possível pena de morte para quem o realizou. Era um ato do indivíduo contra o Estado; um exagero no grau, mas não no tipo, de argumentos fundamentalistas atuais que as mulheres devem ter filhos "para Jesus e para a Igreja"; ou, conforme decidiu a Suprema Corte ao negar às mulheres pobres a escolha de fazer abortos subsidiados pelo Medicaid, por "interesse governamental legítimo". Como escreveu Hitler: "Deixar de dar crianças sadias à nação deve ser considerado uma conduta repreensível." A palavra-chave era, claro, sadia. Já que os não-arianos eram 'racialmente impuros", e portanto doentes, judeus, ciganos, poloneses e vítimas de deficiências físicas e doenças graves (Hitler era, por exemplo, obcecado pela sífilis) eram todos desencorajados ou impedidos de reproduzir por métodos que variavam da segregação dos sexos, ameaças, campos de trabalho, e aborto forçado ou esterilização, até a prisão ou morte nos campos de concentração. A escolha do método dependia amplamente de se e por quanto tempo os "doentes" eram necessários como trabalhadores. Também dependia da conveniência. Era mais fácil matar uma mulher grávida com gás do que forçá-la a fazer um aborto. Não obstante, os horrores dos campos de concentração aparecem mais e mais na literatura atual de direita como uma analogia às clínicas de aborto. Tais argumentos extremistas bem podem incitar, conscientemente ou não, atos violentos e cada vez mais freqüentes tais como o bombardeio de clínicas de aborto, assédio ou ameaça de morte a pacientes e médicos, piquetes e invasões de clínicas, sabotagem de telefones e outras comunicações privadas, e o escárnio de "matadores de bebês" aos líderes pró-escolha eleitos. Existem ativistas antiaborto que também temem tais resultados. O Dr. Bernard Nathanson, um médico que já fez abortos e que escreveu um livro militantemente antiaborto, Aborting America [Abortando a América}, explicou: "Como judeu, não posso permanecer calado ante o uso superficial da analogia com o nazismo, embora saiba que alguns judeus que são contra o aborto a usem. Se este argumento é tão forte, por que é que a maioria dos judeus continua a favor do aborto?" As publicações dos católicos liberais, como muitos católicos individuais, demonstram alarme diante dessas falsas comparações, especialmente vindas do Movimento Pró-Vida, publicamente identi-

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ficado com a hierarquia católica. "Há algo de errado com um movimento", diz o National Catholic Reporter em seu editorial, "que, apesar de sua adaptação inteligente e atual de palavras de ordem abolicionistas, valoriza a vida em apenas um estágio do desenvolvimento humano." Porém, até tais opositores usam palavras como exagero, como se o aborto fosse menor em grau mas de natureza similar. Ainda precisamos estabelecer um limite claro de diferença baseado em onde está o poder se quisermos identificar o autoritarismo em todas as suas formas. Embora Hitler tenha afirmado a diferença crucial entre o direito de escolha do indivíduo e o direito do Estado de impor —seja o aborto ou qualquer outra coisa —, os religiosos de extrema direita de hoje obscurecem esta diferença com retórica. "Se você é a favor da vida e apóia a pena de morte ou a corrida armamentista", ouviu-se de um estudante ao discutir na Convenção Pró-Vida em St. Louis, "você é inconsistente." "Porém", o relato continua, "uma censura comum ao argumento dos membros do Movimento Pró-Vida era que a vida dos nãonascidos é 'perfeita' e a vida dos que já nasceram 'imperfeita'." Na verdade, existe uma enorme correlação entre aqueles que são contra o aborto e aqueles que são a favor tanto da pena de morte quanto dos gastos militares. E permissível matar vidas que não são "inocentes", e quem decide é o Estado. A mesma reserva é repetida em forma secular no The Phyllis Schlafly Report [O relatório Phyllis Schlafly}, uma publicação do Eagle Fórum, a qual defende apenas "o direito à vida de todas as pessoas inocentes, da concepção à morte natural". Esta provisão permite matar os "culpados", através da pena de morte e de atividades militares. E interessante que Hitler também apoiasse a pena de morte, "devido a seu efeito inibidor". A única discussão entre os autoritários é que nível e tipo de poder patriarcal será supremo — o nacional ou o internacional, o secular ou o religioso. Todos parecem concordar, no entanto, que a família patriarcal é a base e o campo de provas para qualquer autoritarismo. Era a célula básica {Keimzelle) do Estado para o socialismo nacionalista alemão. Na filosofia mais embaralhada do Eagle Forum, é apenas "a unidade básica da sociedade". Para grupos mais religiosos, como

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o American Life Lobby, é uma progressão em três etapas de unidades autoritárias — "a família, a nação, as próprias leis de Deus". Mas no primeiro nível da família — e da resistência a qualquer autodeterminação para mulheres dentro dela — as pregações autoritárias soam iguais. Nesse sentido, mesmo algumas pessoas que são a favor das liberdades civis e que acalentam os direitos individuais contra o Estado, não garantem direitos individuais e iguais para mulheres dentro do Estado ou da família. Homens são indivíduos, a família é sua unidade básica de segurança na qual o Estado não tem direito algum de interferir, e as mulheres não se encontram em lugar algum. E como se um direito básico dos homens fosse dominar as mulheres e a família. Uma crítica popular e atual antiaborto inclui a descrição de uma família com saúde debilitada, muitos membros e muitas dificuldades. Quando a platéia concorda que a mãe devia ter o direito a um aborto nestas circunstâncias, o expositor diz: "Parabéns. Você acaba de matar Bach." Na verdade, o raciocínio soa como: "Supondo que a mãe de Bach, após seu quinto ou sexto ou mesmo décimo segundo filho, tivesse dito 'Chega, é o bastante' — os trabalhos de Bach jamais teriam sido escritos." Esta última citação vem de Heinrich Himmler, fundador da SS, chefe dos campos de concentração e criador das casas Lebensborn onde as mulheres arianas, solteiras ou abandonadas por seus amantes ou grávidas de amantes que não seus maridos, eram encorajadas a ter os filhos que Himmler temia fossem, de outra forma, abortados ilegalmente. Elas podiam escolher ter a criança e ser apoiada pelo Estado, ou entregá-la para adoção para uma boa família ariana, num ambiente social cuidadosamente escolhido. O que não podiam fazer era escolher não ter a criança, e portanto controlar seus meios de reprodução, seus próprios corpos, em desafio ao Estado patriarcal. Há ecos e paralelos aqui entre a Alemanha da entre-guerra e os Estados Unidos após os anos setenta: uma explosão de esperança pelos direitos do indivíduo, tanto raciais quanto sexuais, seguida pelo revide da extrema direita; problemas econômicos e desemprego; perda de prestígio internacional através da derrota em uma guerra. Talvez os

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grupos antiaborto, que acusam as feministas e a maioria pró-escolha de ser nazista, tenham nos feito, sem querer, um favor ao nos enviarem de volta à leitura da história. Na Alemanha, antes da Primeira Guerra Mundial, quando Adolf Hitler era uma criança, o feminismo do século XIX realizava muitas coisas. As mulheres na indústria, nos escritórios e nas profissões não eram mais incomuns, e os políticos e a imprensa tornavam-se cada vez mais solidários com os seus propósitos. Ao contrário dos movimentos feministas em muitos outros países do Ocidente, este dava apoio organizacional às exigências radicais feministas pelas igualdades sexual e econômica, por direitos iguais para crianças "ilegítimas" e as pertencentes a casais casados, pelo fim da idéia de que ter filhos era o único propósito das mulheres e do casamento, e por uma "nova moral" que exigia direitos e consideração iguais para homens e mulheres dentro ou fora do casamento. Além destas, a maioria das mulheres ativistas enfocava questões mais imediatas do que a obtenção do direito ao voto. Mudanças de cima para baixo sempre parecem remotas, a princípio, e na Alemanha, antes da Primeira Guerra Mundial, a democracia parlamentar era uma possibilidade limitada e muito nova. No entanto, as feministas alemãs haviam ganho apoio público para sua campanha, sem precedentes, pela descriminalização da prostituição (sua ilegalidade trouxe o conhecido resultado de bordéis protegidos ou administrados pela polícia), e elas quase conseguiram, com seu lobby cuidadoso, apagar o aborto completamente do código criminal argumentando que "a competência do Estado moderno... é limitada pela necessidade de preservação da liberdade de cada um [uma] ao uso de seu próprio corpo". Esse desafio ao sistema de castas sexuais encontrou grande resistência das porções militares, religiosas e agrícolas da sociedade alemã, assim como de algumas mulheres reformistas ou religiosas que trabalhavam para substituir as líderes feministas das organizações nacionais por aquelas que citavam a maternidade e a "moral superior" como razões para que as mulheres recebessem mais (mas não iguais) direitos. A obsessão nacional pelo declínio das taxas de natalidade, conjugada às novas teorias darwinistas sobre quem devia ou não ser encorajado a reproduzir, motivou essas reformistas não-feministas a

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citarem a maternidade alemã sadia como justificativa para a instrução e outros direitos. Entretanto, as feministas do começo dos anos 1900 estavam mudando mentalidades e corroendo a hostilidade pública, ao final de aproximadamente meio século ou mais de ativismo. Elas existiam, por exemplo, até 1912, quando um pequeno grupo de oficiais militares, políticos conservadores, geneticistas de raças e acadêmicos ressentidos com a concorrência feminina (todos tinham em comum, como observou a imprensa, o fato de serem desconhecidos ou tão antiquados ao ponto de estar "entre os mortos-vivos") formaram a Liga para a Prevenção da Emancipação das Mulheres. Pela primeira vez, houve um grupo antifeminista organizado produzindo propaganda antiigualdade. Como tributo ao conservadorismo alemão e os sucessos feministas, a "Anti-Liga" se sentiu compelida a lançar um manifesto antifeminista. Numa reportagem sobre o primeiro congresso desta Liga, um aristocrata de extrema direita explicou: "O império alemão foi criado com sangue e ferro. Isto foi trabalho de homem! As mulheres ajudaram dando apoio aos homens em batalha e incentivando-os a matar tantos inimigos quanto possível. (Fervorosos aplausos.)" Em 1913, a Anti-Liga obtivera apoio de um sindicato de colarinho branco, de escrivães homens, convencidos de que os judeus, as classes mais baixas e a "invasão de elementos femininos nas profissões" estavam tirando seus empregos. Os líderes sindicais chamaram as feministas de "homens-mulheres", de "degeneradas" e de "perversas". Em 1914 a Anti-Liga importou Lady Griselda Cheape, uma líder anti-sufragista inglesa — talvez a Phyllis Schlafly de sua época — para dar palestras em Berlim e para viajar pelo país. Embora as feministas estivessem divididas entre levar este desafio a sério ou ignorá-lo (algumas o consideravam tão ridículo que, de maneira não intencional, acabaria por ajudá-las), seu tema misógino atingiu a sociedade patriarcal profundamente. Grupos como a AntiLiga nunca tiveram muitos membros (da mesma forma que o Eagle Fórum ou o Real Women e outros grupos antiigualdade não tiveram nos anos setenta), mas eles transformaram as feministas em particular e mulheres ativas em geral em bodes expiatórios, publicamente, por tudo o que havia de difícil na vida moderna. Isso foi

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algo com que os militares, a Igreja e outros tradicionalistas podiam concordar, mesmo quando não concordavam com mais nada. Como Richard Evans, um dos poucos estudiosos homens a considerar a história das mulheres seriamente, explicou em The Feminist Movement in Germany: 1894-1933 {O movimento feminista na Alemanha: 1894-1933], esses argumentos antifeministas:
"baseavam-se na crença de que a Alemanha estava sujeita à crescente hostilidade e aos perigos de forças internas e externas... O movimento de mulheres criava divisões novas por... destruir a família... por encorajar as mulheres casadas a aceitarem empregos, por apoiar as mães solteiras e por incentivar as mulheres, em geral, a serem mais independentes. Colocava em perigo o poderio militar da Alemanha ao desencorajar o casamento [e ao encorajar o planejamento familiar, assim, diminuindo a taxa de natalidade]. Ultrajava a natureza ao clamar pela igualdade sistemática dos sexos e por incitar as mulheres a fazer coisas para as quais não tinham aptidão. Era internacional no espírito e impatriótico.

Em outras palavras, a campanha pós-Primeira Guerra contra o feminismo, por ser um movimento antialemão e subversivo — e portanto produto óbvio de uma conspiração judaico-comunista —, não foi inventada por Hitler ou pela filosofia do nacionalsocialismo. Sua promessa de devolver as mulheres à tríade "criança, cozinha e igreja" ("Kinder, Küche, Kirche"), e conseqüentemente restaurar a família predominada pelo masculino como modelo de uma sociedade autoritária, era um apelo aos religiosos e aos descontentes de extrema direita que estavam presentes desde o começo do século XX. É verdade que tal descontentamento se aprofundara com a humilhação da Alemanha durante e depois da Primeira Guerra Mundial, mas os elementos atávicos desta obsessão pela supremacia masculina e a restauração da "Pátria" já estavam presentes. Bastou apenas um líder nacional disposto a alcovitar tais desejos, acrescentando a respeitabilidade de uma plataforma partidária na qual haviam apoios emocionais importantes. Em 1972, um grupo de historiadores americanos ficou tão preocupado com os paralelos aparentes entre as tensões políticas modernas nos EUA e na Alemanha da República de Weimar, o período que

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precedeu a eleição popular de Hitler, que decidiu sediar uma conferência sobre o assunto.* Devido a circunstâncias similares tais como os desafios ao poder tradicional baseados em sexo e raça, uma influência reduzida no mundo, a divisão de opiniões sobre o Vietnã, as pressões da inflação e o desemprego em casa e uma impaciência crescente com a liderança eleita, não podiam os americanos ter tomado o mesmo caminho autoritário? Chegaram à conclusão que não. Afinal de contas, os Estados Unidos possuíam uma tradição mais longa de governo democrático e de aceitação da diversidade do que a Alemanha pós-Primeira Guerra. Mesmo os acontecimentos que pareciam assustadoramente similares em gênero eram ainda muito diferentes em grau. Nos anos que se seguiram, a América sofreu sua primeira derrota humilhante em guerra. A perda de 57 mil soldados no longínquo Vietnã é dificilmente comparada à devastação da terra natal da Alemanha e a perda de dois milhões na Primeira Guerra Mundial. Além disso, muito poucos americanos perceberam a derrota de nosso governo como injusta ou devida à fraqueza: anos antes disto acontecer, as pesquisas mostravam 70% de apoio à retirada dos Estados Unidos. No entanto, as justificativas para nossa presença militar no Vietnã continuam a receber grandes respostas emocionais de alguns grupos. Os Veteranos de Guerras Estrangeiras deram a Ronald Reagan uma ovação por descrever o Vietnã como "na verdade, uma causa nobre" durante a campanha presidencial de 1980 e quebraram uma tradição de oitenta anos sem apoiar oficialmente candidato algum. O enxame de teóricos revisionistas, de Norman Podhoretz aos membros de direita do Congresso, mantém que a única tragédia do Vietnã foi nossa decisão de não usar nossa força militar plena — e nossa conseqüente retirada. Além disso, a pressão internacional da crise de energia nos tornou intimamente dependentes e vulneráveis a "estrangeiros" — e ainda por cima não-ocidentais e não-cristãos. A supremacia industrial e comercial americana também tem estacionado, a inflação e o desemprego são preocupações populistas, o desafio das minorias raciais e das mulheres de diversas descrições continua, a confiança era
*Atas publicadas no Social Research, verão, 1972.

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nossa liderança eleita é baixa, e a liderança visível, da direita, agora legitima um tipo de patriotismo particularmente militarista, religioso e "de volta às bases". Numa pesquisa do Gallup em 1976, foi perguntado aos americanos se achavam que o país precisava "de uma liderança realmente forte que tentasse resolver os problemas diretamente sem se preocupar com a reação do Congresso ou da Suprema Corte". Quarenta e nove por cento concordaram. Em 1979, 66% dos questionados por uma pesquisa do New York Times-CBS disseram que votariam em "alguém que pisasse em alguns calos e que ignorasse algumas leis para fazer as coisas acontecerem". Tal impaciência com nossa situação nacional não significa, como os iludidos pensadores de direita freqüentemente afirmam, que "o país como um todo deu uma guinada para a direita". Em quase todas as questões de justiça social — de uma distribuição de renda mais justa a uma nova igualdade baseada em raça e sexo, até uma disposição para baixar os padrões de vida materiais se isto fizer sentido em termos ambientais — existe o apoio da maioria. Nas pesquisas nacionais, estas maiorias continuam a crescer. Quando os candidatos de direita que não representam estas opiniões majoritárias se elegem, é principalmente porque a maioria dos americanos não está votando. Mas a tolerância ou o desejo de uma liderança de "cima para baixo" era também uma marca registrada da república de Weimar na qual o nacional-socialismo cresceu, e nem todos esses desejos vieram da direita tradicional. Hitler apresentava-se como um campeão das classes baixas contra a riqueza e o poder herdados (daí o seu "socialismo"), assim como contra a "conspiração internacional" dos poderosos judeus. Vindo de uma família da classe operária, ele substituiu a superioridade da classe alta pela superioridade da raça, justificando seu próprio direito de ascender ao topo. Textos básicos como The Nazi Primer {A cartilha nazista] enfatizavam o trabalho árduo e o talento como meios de qualquer alemão verdadeiro — ou seja, alemão-ariano — chegar ao sucesso (daí, o "nacional-socialismo"). Um ex-futuro estudante de arquitetura reprimido, chocado pela pecaminosa Munique; um vegetariano que não fuma nem bebe e que vivia obcecado por ataques sexuais imaginários a meninas ale-

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mãs (embora somente se tais ataques viessem de "um judeu jovem, de cabelos pretos, à espreita para atacar", conforme escreveu Hitler em Mein Kampf); um trabalhador obscuro e zangado que se sentia explorado pela riqueza e poder — esse era Adolf Hitler quando entrou nas choperias e clubes de trabalhadores da cidade. Seu dom para fazer discursos emocionados liberou sonhos de vingança. O mal é óbvio somente em retrospectiva. É importante lembrar que Hitler, campeão de todo homem comum contra os ricos e aristocratas, freqüentemente parecia despojado e charmoso. "O Führer vem para saudar-me com a mão estendida", uma jornalista do ParisSoir escreveu em 1936. "Estou surpresa e espantada pelo azul de seus olhos que parecem marrons nas fotografias, e prefiro a realidade — o rosto que transborda com inteligência e energia e se ilumina quando ele fala. Nesse momento, compreendo a influência mágica... e o seu poder sobre as massas." O status de segunda classe da entrevistadora, por ser mulher, foi adoçado e tornou-se paralelo à descrição nacionalsocialista dos nãoarianos: "Nenhuma diferença real em termos de qualidade, mas sim diferenças em tipo." "Eu asseguro às mulheres os mesmos direitos que possuem os homens, mas não acho que ambos sejam idênticos", explicou Hitler jovialmente. "A mulher é a companheira do homem na vida. Ela não deveria ser sobrecarregada com tarefas para as quais o homem foi criado. Não vejo nenhum batalhão de mulheres... mulheres são mais bem preparadas para o trabalho social." Embora adoçada, toda forma de autoritarismo deve começar com uma crença no direito maior de um grupo ao poder, seja este direito justificado por sexo, raça, classe, religião, ou por tudo isto ao mesmo tempo. Por mais longínquo que possa parecer, a progressão repousa inevitavelmente no poder desigual e nos papéis herméticos dentro da família. • "Se o mundo do homem é o Estado... [o da mulher] é seu marido, sua família, seus filhos, e sua casa... Cada criança que uma mulher traz ao mundo é uma batalha, uma batalha travada para a existência de seu povo... Não é verdade... que o respeito depende da sobreposição das esferas de atividades

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dos sexos; esse respeito exige que nenhum dos sexos tente realizar o que pertence à esfera do outro." — Discurso de Hitler para a Organização de Mulheres da Nacional Socialista, setembro de 1934. • "O ataque à família é um ataque à civilização... Os homens são, por natureza, móveis e agressivos, enquanto as mulheres são, por natureza, compromissadas com a estabilidade, com a permanência, e com a posteridade... A previdência social, as creches, e o programa de affirmative action ou a contratação preferencial de mulheres diminui o papel do homem como provedor... Promovendo, assim, a dissolução da sociedade." — Tirado de um panfleto intitulado "Comunismo, Família, e a Emenda de Igualdade de Direitos", Cruzada Cristã Anticomunista, Califórnia, março de 1975. • "Talvez os três pontos mais enfatizados na teoria da família", escreveu Clifford Kirkpatrick, sociólogo americano, sobre o nazismo alemão, em 1937, "sejam a reprodução, as diferenças sexuais e vida familiar reforçada." • "Noventa por cento de nossos problemas com crianças", explicou um livreto distribuído pelos membros do Comitê Eleitoral Pró-Família na Conferência Sobre a Família de 1981, organizada pela Casa Branca, "provavelmente são resultantes de uma mãe que 1) não conseguiu aprender como realmente amar seu homem e ser submissa a ele, 2) tentou escapar de estar em casa, ou 3) atrapalhou seu marido na disciplina das crianças." • A "Declaração dos Direitos da Criança", publicada pelo Eagle Fórum de Phyllis Schlafly, inclui o direito: "De ser instruída com livros que honram a família tradicional como unidade

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básica da sociedade, o papel das mulheres como esposa e mãe, e o papel do homem como provedor e protetor." • "Nenhuma verba [será] liberada ... sob lei federal [para} a compra ou preparação de qualquer material educativo ou estudos relativos à preparação dos materiais educativos, se tais materiais tenderem a denegrir diminuir ou negar as diferenças de papéis entre os sexos." — Lei de Proteção à Família, uma lei federal apresentada pelo Senador Paul Laxalt (Republicano, estado de Nevada) em 1979. (Essa lei também proibia leis federais contra o abuso de menores e o financiamento federal de abrigos para mulheres espancadas, direito ao aborto, desagregação escolar, direitos dos homossexuais etc.) Se nos tornarmos indiferentes em nossos mundos mais primordiais e mais íntimos com relação à diferença de poder entre os membros de nossas próprias famílias, será mais fácil aceitar todas as outras hierarquias? Se um dos sexos nasce para o poder maior, então por que não uma raça? Se fosse permitido às mulheres casar e ter filhos com homens por elas escolhidos, como iriam raça e classe manterse "puras"? Se não é permitido a um homem mandar em sua esposa e filhos, que se encontram abaixo dele, como vai tolerar ser mandado de cima? • "O bordão 'Emancipação das Mulheres' foi inventado por intelectuais judeus... Nosso movimento nacionalsocialista de mulheres tem, na realidade, um só objetivo", Hitler falou às mulheres em um discurso de 1934, "e este objetivo é a criança." Em Mein Kampf, distribuído a todo casal recém-casado da Alemanha, ele escreveu: "Assim como os [judeus] sistematicamente estragam as mulheres e as meninas... foram e são os judeus que trazem os negros para a Renânia... estragando a odiada raça branca, o que necessariamente resulta na degeneração... ascendendo [os judeus] ao lugar de senhores."

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• "A Rússia possui uma ERA (Emenda de Igualdade de Direitos) e sua taxa de natalidade tem caído abaixo da reposição", relatou The Thunderbolt, uma publicação do Partido Nacional de Direitos Estaduais declaradamente a favor da supremacia branca. "E tempo, agora, de proteger a família e a maternidade em si... as leis que exigem a separação de homens e mulheres na prisão seriam invalidadas (pela ERA). Um juiz negro já usou estas leis de igualdade em Chattanooga para trancar uma mulher branca na mesma cela com um homem preto. Ela foi estuprada." • O padre Paul Marx, diretor do Centro da Vida Humana, um centro de estudos sobre o aborto em Minnesota, viajou por mais de trinta países como parte de sua campanha contra o aborto e os métodos anticoncepcionais. Como foi caracterizado e citado pelo Minneapolis Star, ele teme que "o mundo ocidental branco esteja cometendo suicídio através do aborto e do uso de anticoncepcionais", e explica: "Penso que temos 250 mil vietnamitas já aqui e que eles terão famílias grandes — os orientais sempre as têm. Existem coreanos e filipinos... Deus sabe quantos mexicanos cruzam a fronteira todas as noites... E se alguma vez tivermos que lutar contra os russos, me pergunto se essas pessoas estarão dispostas a colocar suas vidas em jogo." Idéias extremistas? Talvez. Mas a crença de que os homens devem controlar as mulheres — se cabe a eles manter as divisões de raça e de classe, controlar o fornecimento de trabalhadores e de soldados para o Estado, e manter a posse de seus próprios filhos — é a raiz da injustiça, da qual crescem todas essas flores do mal. Ao clamar pela liberdade das mulheres setenta anos atrás, uma feminista alemã disse: "A mulher tem sido com freqüência reduzida — fria e inconscientemente — a uma máquina de fazer filhos, seus filhos são considerados propriedade do Estado ainda no útero." Outra disse com raiva: "Se nós mulheres não tomarmos uma posição por conta própria e por nós mesmas, aqui, na mais feminina de todas as tarefas, que é a de "dar a vida"; se não tomarmos uma posição con-

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tra sermos consideradas meramente produtoras involuntárias de bucha de canhão, então em minha opinião não merecemos ser consideradas coisa alguma além disso!" Muitas mulheres, na Alemanha de Hitler, tomaram uma posição pública contra o sistema de castas sexuais, assim como contra o anti-semitismo que, por ser um castigo do qual muitos homens também sofriam, era mais entendido como uma injustiça. "O nacional-socialismo tem crescido muito em sua luta contra os judeus e as mulheres", disse uma líder da maior organização feminina da Alemanha. "Hoje, sou a favor do confronto." Muitos fizeram passeatas nas ruas contra o fechamento das clínicas de planejamento familiar por Hitler, um ato que uma feminista alemã, agora residente deste país, lembra como "a primeira coisa que Hitler fez". O direito individual ao aborto foi tão reprimido que mesmo as mulheres que abortavam espontaneamente precisavam provar que não haviam tentado induzi-lo, sob pena de serem acusadas de crime. Outras ativistas tentaram, sem sucesso, salvar suas organizações tornando-as menos "políticas", lutando contra o ataque verbal nazista a elas com "correções fatuais" secas, ou mesmo usando os próprios argumentos racistas de Hitler para colocar mulheres arianas em posições de influência onde pudessem reformar a partir de dentro. As judias da Alemanha não eram apenas purgadas de quaisquer empregos importantes mas freqüentemente abandonadas por seus maridos ou amigos não-judeus. A princípio desencorajadas a casar e ter filhos, depois proibidas de ambos, eram eventualmente submetidas ao trabalho forçado ou enviadas a campos de concentração. (Ravensbruch, um campo exclusivamente para mulheres, também foi o lugar da maioria das "experiências médicas" nazistas. Embora judeus homens tenham sofrido atrocidades similares, os médicos arianos pareciam mais propensos a não se sensibilizarem com corpos tão diferentes e desprezíveis.) Neste ínterim, Hitler presumia que as mulheres eram ou deviam ser atraídas por sua imagem militar. Ele permaneceu solteiro para inspirar a devoção e o romantismo de suas seguidoras. (Em meios mais íntimos, ele afirmava que não teria filhos porque rebento algum, por ser produto parcial de uma mulher, poderia ser tão grande

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quanto ele.) Embora alguns nacional-socialistas reivindicassem que "foi o voto feminino que levou Hitler ao triunfo", esse não era mais verdade do que o argumento atual de que as mulheres votantes derrotaram a ERA. Hindenberg, presidente da Alemanha de 1925 a 1934, teve mais votos femininos em 1932 do que Hitler, tanto em números absolutos quanto em percentagem. Mas algumas mulheres votaram no nacional-socialismo. Muitas eram jovens que sabiam pouco ou nada do passado das lutas feministas, e estavam estimuladas pela romântica imagem da deusa-heroína da condição feminina alemã de Hitler. Outras queriam ficar em casa como donas de casa em vez de tornarem-se trabalhadoras mal pagas e donas de casa. Outras ainda eram atraídas pela promessa de Hitler de um noivo para cada jovem, uma promessa de campanha sedutora porém improvável num país onde a Primeira Guerra Mundial dizimara a população masculina. Ironicamente, a carga de trabalho tradicional das mulheres e seu ceticismo sobre a ajuda de qualquer homem, incluindo os nacionalsocialistas, salvou muitas de um envolvimento com o nazismo. "A massa de mulheres alemãs não queria ser organizada," escreveu a historiadora Jill Stephenson, "e a resistência passiva delas à tentativa de envolver a dona de casa nas 'tarefas femininas da nação' assegurou que a organização das mulheres nazistas permanecesse preocupação de uma minoria." Não há dúvida de que as feministas teriam sido mais eficazes em sua oposição a Hitler se tivessem possuído centros locais como possuem as igrejas, ou comunidades de trabalho, como possuem os sindicatos, ou redes internacionais como possuem ambos. Na prática, suas principais organizações dependiam de lugares públicos para reuniões e para a divulgação de informações, portanto eram facilmente consideradas ilegais ou eram facilmente controladas. A abordagem diversificada e dividida, em vários assuntos, não podia fazer frente ao emocionalismo simples e motivado da oposição. "Enquanto a causa da emancipação feminina", explicou o historiador Tim Mason, "[era} promovida por grupos de âmbito muito amplo e normalmente descoordenados com objetivos parciais e visões políticas diferentes, a causa da restauração da superioridade masculina podia ser apresentada como um único assunto, relativa-

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mente simples, e podia ser apropriada por um movimento político único de poder incomparavelmente grande." O resultado foi trágico para os homens assim como para as mulheres, não apenas na Alemanha, como em toda área dizimada pela expansão alemã. As feministas ficaram virtualmente sós no desafio à família patriarcal como unidade básica da sociedade autoritária e na tentativa de substituir sua primazia pela dos direitos do indivíduo, e assim pela possibilidade de famílias democráticas. Muitos grupos religiosos poderosos apoiaram as opiniões de Hitler sobre a família e as mulheres — e apoiaram o crescimento inicial do nacional-socialismo por causa disso. E verdade que eles discordavam da supremacia do Estado sobre a igreja—algo que ocorreu após a tríade "Kinder, Küche, Kirche" — mas aí já era tarde demais. Mesmo os grupos sindicais, radicais e liberais que haviam apoiado os direitos das mulheres no mercado de trabalho e ao voto, haviam abandonado este apoio na porta do lar. De acordo com o atual recuo direitista antiigualdade com que estamos vivendo, o maior objetivo é proteger e restaurar a família, claramente definida por eles como sendo encabeçada pelo homem e de estrutura hierarquízada. Portanto, eles condenam como sendo "contra a família", quaisquer garantias diretas de direitos para as mulheres e crianças. Logo, a Emenda de Igualdade de Direitos (ERA) é contra a família. Assim como as leis contra o abuso de menores e o financiamento de abrigos para mulheres espancadas. É também o caso do direito individual à expressão sexual fora da família, quer seja ela homossexual ou heterossexual. Assim também são o aborto, os anticoncepcionais e qualquer outro meio de separar a expressão sexual da procriação. Essa explosão autoritária é refletida posteriormente na política fiscal da direita, na censura à mídia, na interferência nas escolas públicas para estabelecer a posse das crianças por suas famílias e o controle sobre o que podem ler ou estudar. O pesadelo de tornar o aborto um crime contra o Estado, passível de punição com morte, é também prometido pela Emenda da Vida Humana, patrocinada pela direita, que conferiria humanidade jurídica a um ovo fertilizado. De todos os modos, a família deverá ser a unidade básica. As mulheres devem ser subordinadas dentro dela.

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Muitos americanos se surpreendem com o fato de nossos grupos de direita enfocarem questões de família e de reprodução. Alguns de nossos mais capazes e democráticos líderes políticos não estão dispostos ou não são capazes de lidar com assuntos que lhes são pouco familiares, constrangedores ou pequenos. Mas muitos europeus ficam surpresos com o fato de estarmos surpresos. Eles dizem: Onde você esteve? Onde acha que o autoritarismo começa? Você nunca viu o fascismo? Eles já passaram por isso antes. Existem outros paralelos perturbadores entre o passado e o presente. A inundação atual da direita em seus esforços para censurar as bibliotecas das escolas, começando com livros que são "contra a família", freqüentemente aqueles escritos pelos especialistas em planejamento familiar, autores feministas e autores negros. Não seria esta uma versão menos dramática do estilo nazista de queimar livros, também começada com os livros contra a família e "contra a Alemanha" escritos por planejadores familiares, por judeus e por feministas? Seria o esforço de alguns políticos atuais, para apaziguar a direita, desistindo de "questões sociais", um erro tão fatídico quanto as concessões feitas pela República de Weimar em relação às mulheres na força de trabalho e outras relações domésticas? Certamente, existem diferenças enormes, e esperamos que salvadoras, tanto em grau quanto em conteúdo. Nosso nacionalismo não usa o anti-semitismo como um perigo interno e externo. Mas nossa própria obsessão com qualquer coisa tida como "antiamericana" às vezes beira a paranóia, e é usada para condenar críticos internos como sendo "maus americanos". A hostilidade raramente força as mulheres e as minorias para fora de empregos responsáveis. Mas, sutilmente, cada vez mais, um destes grupos é posto na posição de bode expiatório por tudo o que acontece, de divórcios a delinqüência juvenil até crimes e desemprego. Um homem branco, em boa situação econômica, é tido como um gerador de empregos de espírito público, mas as mulheres e homens de cor em boa situação econômica podem ser vistos como parte egoísta da "geração do eu". Além disso, as feministas ainda parecem ser a única força coesa a enfrentar a direita em assuntos da família e dos direitos do indivíduo — de baixo para cima. As forças antiigualdade percebem isso

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mais claramente do que nossos aliados liberais. "O feminismo ortodoxo é uma manifestação especialmente militante", advertiu o Human Life Review, uma publicação trimestral contra o aborto, "de uma grande filosofia social que prevalece cada vez mais, sustentando que as 'necessidades' do indivíduo possuem valor próprio e que nenhum indivíduo ou instituição poderá restringir tais necessidades." Isto é heresia para aqueles que cultuam a família, a Igreja e o Estado. Como na Alemanha, existe também uma semelhança perturbadora entre aqueles que desejam reforçar a família tradicional e aqueles que querem gastos militares cada vez maiores e mais confrontos no mundo. O mais perturbador de tudo é que essa semelhança é encontrada nos mais altos escalões. Uma charge política de Ronald Reagan mostrou-o com um chapéu de cowboy, dizendo: "Uma arma em cada coldre, uma grávida em cada casa. Faça da América um homem novamente." Esta foi uma súmula brilhante do laço existente entre o antifeminismo e o militarismo. Tudo isto nos soa um pouco familiar demais. Mas, pelo menos, sabemos que o feminismo tem história. É a pedra angular de qualquer democracia duradoura. -1980

Pensamentos Noturnos de um Telespectador

Após passar a infância ouvindo novelas no rádio e uma década em quartos de hotéis vendo as mesmas sagas na TV, finalmente percebi por que as novelas são, e logicamente deveriam ser, tão populares entre as gerações de mulheres restringidas ao lar. Elas são o único lugar na nossa cultura onde homens adultos levam a sério as coisas com as quai as mulheres adultas precisam lidar o dia inteiro. As doenças familiares, os problemas com as crianças, a convivência com os vizinhos, ciúmes, preocupações com a perda do emprego como conseqüência do divórcio, preocupações com uma possível perda — por parte de nossos maridos — do emprego e, conseqüentemente, de nossa renda; o que acontece no quarto, na mesa de jantar, nas salas de hospital — tudo isto é parte vital do cotidiano feminino. Durante, pelo menos, algumas horas no dia, um mundo fictício de homens as leva a sério, também. Da mesma maneira que os "filmes raciais" feitos para audiências negras nas décadas de vinte a trinta—com histórias glamourosas e cheias de suspense, povoadas por atores negros e alguns brancos dominados — as novelas dão valor e glorificam um mundo segregado. Já que os menos poderosos estão mesmo presos a esta condição, todos nós ficamos agradecidos e intrigados. Essa mesma fórmula foi levada para o horário nobre na forma de seriados melodramáticos tais como Dallas, mas não é a mesma coisa. A fim de atrair o interesse masculino (ou pelo menos ser visto como digno de seu interesse), os conflitos noturnos se concentram em preocupações adultas como grandes negócios, crimes, violência ou rivalidade masculina pelo legado de um pai poderoso. As situações típicas das novelas vespertinas de crianças desgarradas, infidelidade, alcoolismo e doenças são relegadas a tramas secundárias. A política sexual pode mudar do dia para a noite, mas a classe e

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a raça continuam as mesmas. Embora uma pessoa ou família realmente pobre raramente protagonize um seriado de TV em qualquer horário (é deprimente demais), uma tese de doutorado poderia ser escrita sobre o porquê das comédias enfocarem as famílias das classes trabalhadoras e as famílias de classe média (ocasionalmente negras), enquanto os melodramas enfocam os ricos e poderosos (sempre brancos). Pessoalmente, penso que é uma trama semiconsciente de preservação da ordem social. A idéia é nos convencer de que é engraçado ser pobre ou viver nos guetos, mas ser rico é terrivelmente pesado e, sendo assim, nem deveríamos desejar sê-lo. A televisão também prova as conclusões de Margaret Mead de que, no patriarcado, as viúvas são as únicas mulheres atribuídas de autoridade, Se você nasceu do sexo feminino, o que você tem de fazer é se casar com um editor de jornal, um senador, um acionista de alguma empresa, ou qualquer homem que tenha uma posição que você deseje, e cumprir seu tempo como esposa-mãe-anfitriã. Quando ele morrer, você poderá ser autorizada a seguir em seu lugar. Até recentemente, a viuvez era o principal caminho para as mulheres chegarem ao Congresso. Na televisão, também, as mulheres muito poderosas geralmente herdaram o poder dos homens. Na ficção e na realidade, talvez os homens pensem duas vezes antes de fazer da viuvez nosso único caminho para o poder. A Emenda de Igualdade de Direitos (ERA) começou seu longo processo de ratificação em 1972, porém, ao que sei, nenhum jornal ou rádio, nenhum departamento de jornalismo de uma rede ou programa nacional de televisão fez uma reportagem investigativa independente sobre as conseqüências da ERA. Muito pelo contrário, os principais canais de comunicação se contentam em apresentar entrevistas ocasionais, debates e reportagens contraditórias daqueles que são a favor ou contra. Um especialista é citado dizendo que a ERA dará força aos direitos jurídicos das mulheres em geral e das donas de casa em particular, fazendo com que as cortes vejam o casamento como uma parceria. O especialista seguinte afirma que a ERA forçará as esposas a trabalharem fora de casa, eliminando pagamentos assistenciais. Um líder político explica, diante das câmeras, que a ERA protege as mulheres e os homens das leis federais discriminatórias; depois um outro político chama a

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ERA de trator federal que reduzirá os direitos do indivíduo. Um ativista diz que a ERA é uma simples garantia de democracia que deveria ter sido parte da Carta de Direitos, não tivesse a Constituição sido escrita pelos e para os homens brancos donos de propriedades, e o próximo insiste em que a emenda destruirá a família, eliminará a heterossexualidade e criará banheiros unissex. E compreensível que a platéia fique confusa. A princípio, achamos que o céu fosse azul, mas uma parcela igual de tempo e de prestígio dedicada à insistência de que ele é realmente verde pode, afinal, nos levar a duvidar de nossas percepções. É verdade que a maioria das mulheres e homens continua a apoiar a ERA (por uma margem que vem crescendo desde o governo Reagan, demonstrando que o progresso poderia ser revertido sem ela) mas não tenho certeza de que a mídia deva receber os louros por este fato. Existe alguma evidência de que reportagens ditas objetivas, onde a platéia é exposta igualmente aos prós e aos contras, têm, na verdade, impelido a construção de uma maioria crescente. Por exemplo, ler ou ouvir as 24 palavras verdadeiras que compõem a ERA* é o caminho mais confiável para apoiá-la. Muitas pessoas ainda ficam surpresas ao aprender que não existe menção das palavras unissex ou aborto ou combate em seu texto, tal a confusão criada pelos argumentos anti-ERA. Porém a maioria das coberturas de notícias da ERA jamais cita seu texto. Entre os repórteres e executivos de notícias, no entanto, existe uma grande auto-suficiência. Eles seguem a tão chamada doutrina de justiça. Eles têm apresentado "os dois lados da questão", dando o mesmo número de minutos ou quantidade de espaço aos "prós" e aos "contras". Isto tem sido verdade, muito embora o apoio da maioria a ERA signifique que achar um "contra" seria muito difícil. Muitas vezes fui chamada por um entrevistador que me solicitou: "Dava para você trazer um 'anti?" Um resultado desta escola de luta de boxe profissional jornalística e que Phyllis Schlafly, que não era uma pessoa famosa nacionalmente antes da ERA, tem se tornado o único nome que muitos americanos associam quando perguntados qual a principal opositora da emenda.
* A igualdade de direitos, sob o regime da lei, não deverá ser negada ou abreviada pelos Estados Unidos ou por qualquer estado devido ao sexo."

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Em um sentido real, ela é uma criação artificial da doutrina de justiça. Outro resultado é a idéia de que as mulheres votaram contra a ERA, não aquelas duas dezenas ou mais de legisladores homens, brancos e idosos, somados aos interesses religiosos e econômicos, que são os verdadeiros culpados. Um terceiro resultado é a noção de que os americanos negros não apoiam a ERA, embora os deputados estaduais negros tenham votado, em peso, pela sua aprovação. Se mulheres e homens negros estivessem representados nas legislaturas proporcionalmente aos seus atuais números na população, especialmente nos estados do sul, a ERA já teria sido aprovada há muito tempo. Nos primórdios do movimento de direitos civis, muitos jornalistas seguiram a mesma fórmula de "tempo igual". Quando noticiavam o registro de eleitores negros no Sul, por exemplo, citavam que os trabalhadores de direitos civis diziam ter sido espancados na cadeia. Depois, citavam o xerife dizendo que aqueles jovens haviam atacado a polícia ou brigado entre si. Os leitores ficavam confusos ou com suas convicções originais intactas. Eventualmente, no entanto, a maior parte da mídia séria assumiu a responsabilidade de fazer suas próprias investigações. Deram o melhor de si para relatar os fatos como realmente ocorriam. Infelizmente, isto jamais aconteceu no caso da ERA. Não que tal reportagem independente seja difícil. Mais de cinqüenta anos de história legislativa está disponível para explicar o impacto pretendido pelo Congresso. Uma edição do Yale Law Journal e muitos livros oficiais foram dedicados a projetar seu impacto em detalhes eruditos. Finalmente, existem alguns poucos estados que já começaram a impor as ERAs com uma redação igual ou similar à proposta em nível federal. A Pensilvânia adotou sua ERA há mais de uma década e os banheiros não viraram unissex nem os direitos ao aborto e dos homossexuais foram afetados para melhor ou pior. Por outro lado, os direitos econômicos das mulheres têm sido reforçados; há igualdade na instrução, no mercado de trabalho e os benefícios previdenciários avançaram; e as leis discriminatórias contra homens, baseadas em sexo, também foram derrubadas. Portanto, por que não são realizados relatórios independentes e profundos? Por que a mídia de sua cidade (e da minha) não leva esta questão histórica a sério? Por que permitem que os legisladores votem

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contra a opinião da maioria em seu próprio eleitorado, como vemos nas pesquisas independentes, sem temer o sensacionalismo jornalístico sobre os interesses especiais aos quais eles estão reagindo? Pergunte a eles. Um futuro com ou sem a ERA está em jogo. Como também está o bom ou mau jornalismo. Tenho observado que, dos romances de Dostoiévski aos programas de televisão sobre Las Vegas, a jogatina é retratada como uma obsessão puramente masculina. Alguém me perguntou por que as mulheres não jogam tanto quanto os homens. Dei a resposta sensata de que não temos tanto dinheiro quanto eles. Esta resposta é verdadeira mas incompleta. Na verdade, o instinto das mulheres pela aposta tem sido satisfeito pelo casamento. Se os homens duvidam da magnitude da aposta, considere apenas o quão duro é saber que alguém com quem você está prestes a se casar seja, talvez por tradição e por falta de alternativa econômica, sua identidade de uma vida inteira e seu ganha-pão, que ele terá a carreira de advogado ou de capataz ou de político que você quer para si mesma e para a sua segurança. Não é tão fácil, certo? Nos anos cinqüenta, lembro de amigas de faculdade levando os poemas, os esboços arquitetônicos, ou as teses de seus noivos para um professor da matéria para perguntar: "Esse cara é bom mesmo?" É claro que a aposta torna-se menos importante à medida que adquirimos a capacidade de nos sustentar. Mas até que salários e o poder sejam iguais, e as mulheres não mais tenham de acrescentar o nome do marido ao seu e assumir a identidade e a carreira profissional dele, isso não acabará. Os romances e outros meios de comunicação ainda permitem esse motivo de casamento somente para "mulheres más". Estão perdendo uma porção de bons enredos. Está mais do que na hora de alguém agradecer publicamente a Gay Talese por intitular seu catálogo exaustivo de sexo impessoal Thy Neighbor's Wife [A esposa do vizinho}. Como as mulheres não possuem esposas, o autor adverte (embora inadvertidamente) que elas não precisam comprar o livro. Assim como os leitores homens que deixaram de pensar nas mulheres como propriedade masculina. Isso deixa

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uma fatia pequena porém fervorosa de leitores para Mr. Talese: os homens que estão, sexualmente falando, no piloto automático. No entanto, A Escolha de Sofia, outra obra campeã de vendas (e também um filme baseado no livro) é muito mais enganosa. Ao colocar uma mulher no título do romance, William Styron (autor-narradorprotagonista) nos encoraja a acreditar que ele pode escrever sobre uma mulher com empatia. Em seu último romance, The Confessions of Nat Turner [As confissões de Nat Turner}, Styron, que é branco, prometeu o mesmo com relação aos homens negros. Ele foi muito criticado por transformar o corajoso líder de uma revolta de escravos numa fantasia do homem branco; retratando-o como obcecado por uma jovem branca e responsável pelo seu assassinato, embora não haja prova histórica alguma de que ele foi qualquer uma destas duas coisas. Infelizmente, Sofia (supondo, como Styron nos pede, que ela realmente existiu) deixou muito menos do que o ínfimo registro histórico de um escravo, mas ela parece ser apenas uma prisioneira do preconceito enervante e estereotipado de Styron. Como Turner, ela é vista como sendo motivada pelo sexo, com um valor principalmente sexual-psicológico, não histórico-ativista. Como outras protagonistas femininas nos trabalhos de Styron, de Lie Down in Darkness [Deitese na escuridão} em diante, ela é masoquista e suicida. Mesmo aceitando os contornos fatuais de sua vida como são mostrados no romance de Styron, custo a acreditar que ela foi qualquer uma destas coisas. Por exemplo, embora Sofia sobrevivesse à perda de seus dois filhos, a anos de fome e às atrocidades de um campo de concentração nazista, e embora ela tenha jurado viver (como realmente viveu) mais do que o comandante odiado para que ele não triunfasse, somos levados a acreditar que ela por livre escolha se entregou e amou um fascista sexual em Nova York, um amante viciado e clinicamente louco que a salvou da desnutrição apenas para espancá-la e submetê-la a acessos de ciúme pela possibilidade de ela ter usado o sexo para sobreviver no campo de concentração. (O que importa se ela o fez? O autor-narrador parece aceitar a promessa do amante louco de que nada é mais importante numa mulher do que seu comportamento sexual. De fato, ele apresenta o sadismo e o comportamento controlador do amante como uma forma de amar masculina normal). Embora Sofia seja uma refugiada com quase nenhuma alternativa, ela tem força suficiente e amor-próprio para expressar ali-

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vio quando seu amante violento parte temporariamente. Por esta deslealdade, o autor-narrador a censura.* Ele também aceita e concorda com a recusa do irmão do amante em revelar a Sofia que o homem com quem ela está vivendo inventou o seu passado de biólogo em nível de Prêmio Nobel, que ele possui um passado violento, além de ter entrado e saído de hospitais psiquiátricos a vida toda. Embora o narrador seja (Deus sabe o quanto) sexualmente obcecado por Sofia e confesse seu amor por ela, este "amor" toma a forma do desejo de possessão, não para avisá-la do perigo real ou para ajudá-la a viver por conta própria. Na verdade, o narrador só se assusta quando o amante de Sofia finalmente ameaça matar não apenas Sofia mas, também, o narrador. Mesmo quando o narrador "salva" Sofia, tirando-a do alcance do amante louco, ele o faz sob a condição clara de que ela se case com ele. Tendo de escolher entre estes dois homens, a decisão de Sofia pelo suicídio é quase crível. (E claro que o narrador apresenta o suicídio como inevitável, como resultado de uma culpa autopunitiva por ter sobrevivido ao campo de concentração. Embora ele examine um número inacreditável de motivos, ele jamais questiona uma possível conexão entre ir para cama com ele pela primeira vez e a decisão de se matar horas mais tarde.) No entanto, a escolha do suicídio não é o único significado da Escolha de Sofia. Dos flashbacks do campo de concentração, aprendemos que o oficial nazista forçara Sofia a escolher qual dos seus dois filhos viveria. Se ela não mandasse um para as câmaras de gás, ambos morreriam. Sofia escolhe salvar o filho. A esta escolha é dado menos espaço do que eu dou aqui. Seu motivo não é examinado. Isto é especialmente estranho dada a exaustão com a qual Styron examina tudo. (Faz parte de seu estilo pretensioso escrever duas frases longas quando uma única frase curta seria suficiente.) Por exemplo, ele especula incansavelmente o possível motivo que levou o oficial nazista a forçá-la a esta escolha impensável e chega à estranha conclusão de que foi um desejo religioso forçar uma decisão pecadora.
*Os leitores que assistiram ao filme, lançado após a publicação deste ensaio, notarão que esta passagem do livro foi suprimida. Na verdade, a fantástica atuação de Metyl Streep como Sofia quase salvou o personagem na versão cinematográfica enquanto o amante sádico e o narrador tornaramse mais ternos e "limpos". Não obstante, a questão básica da moral de ambos e do "masoquismo" de Sofia permanecem.

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No entanto, ele não gasta uma mísera palavra sobre a política sexual que poderia estar implícita na decisão de Sofia de não salvar a filha. Na mente do autor, a preferência pelo filho não precisa ser explicada. É tão natural quanto o masoquismo feminino e a tendência suicida das mulheres. E difícil zangar-se com um autor que deixa seus próprios preconceitos tão em evidência. Ler A escolha de Sofia é como ler um caso de Freud em que ele sustenta ferrenhamente que uma paciente não foi realmente estuprada por seu pai quando criança, que ela apenas construiu esta história porque desejara que isso acontecesse. E claro que estamos descobrindo, agora, através das cartas de Freud, que ele sabia que tais pacientes diziam a verdade. Mas ele continuou a acusar a vítima a fim de tornar seus relatos aceitáveis para a sociedade. É possível que Styron também soubesse o que estava fazendo. (Se isto for verdade, eles são igualmente culpados.) No final, o leitor é deixado com a triste suspeita de que, se Sofia não tivesse sido linda e se o autor não tivesse gastado um longo verão tentando levá-la para a cama, ele não teria se incomodado em registrar sua existência de forma alguma. Em um quadro enorme sobre os campos de concentração, o sofrimento humano, a morte de crianças e a insanidade, o autor pintou o retrato de um escritor jovem branco, sulista, obcecado pelo sexo, que finalmente consegue perder sua virgindade. Minha primeira esperança é de que jamais tenha existido uma Sofia verdadeira, que Styron a tenha criado completamente. Como as pacientes de Freud, no entanto, ela é real e crível o bastante para entristecer o leitor; muito mais porque ela é registrada por alguém que a descreve mas nunca a entende. Talvez devêssemos colocar bilhetinhos nas capas de ambos The Confessions of Nat Turner e A escolha de Sofia: "Por favor, ajude-me. Sou prisioneiro em um livro de William Styron". Tanto quanto as mulheres possam ditar os termos de qualquer debate nacional, penso que fizemos um erro de divulgação ao permitir que os inimigos da Emenda de Igualdade de Direitos nos aprisionem numa aprovação tácita do serviço militar obrigatório ao apoiarem a qualificação feminina para o mesmo. O serviço militar obrigatório é terreno deles, não nosso. Embora muitas americanas (e americanos) sejam contra o serviço militar

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obrigatório em tempos de paz, e que as feministas combatessem os argumentos anti-ERA que têm como base a convocação militar com uma negação ritual: "Sou contra o serviço militar obrigatório para homens ou mulheres", acontecia, com freqüência, que acabávamos apoiando, defensivamente, a tese de que sob estado de emergência nacional as mulheres devam servir sob as mesmas condições — por exemplo, com isenção para chefes de família e levando em conta idade e saúde—que cabem aos homens. Aí ficávamos novamente sob ataque, com muitos pais achando que podiam perder as filhas além dos filhos, e muitas mulheres temendo ser forçadas a ir contra a convicção pessoal de que a violência raramente é um caminho eficaz para a resolução de qualquer conflito. A partir do ponto de vista da mídia e do feminismo, a longo prazo, nosso terreno deveria ser — e deverá ser, no futuro — a liberdade de escolha. A idéia é não ditar a escolha a ser feita, dando a cada pessoa o poder de fazê-la. Isso significa que nosso argumento mais eficaz é o direito das mulheres de se apresentar voluntariamente para o Exército, incluindo as posições de combate, nas mesmas bases que os homens. Em termos de mídia, a grande vantagem deste argumento é colocar os adversários da igualdade na defensiva. Eles são quase uniformemente contra a presença de mulheres em combate e, freqüentemente, contra mulheres nas forças armadas, embora professem o patriotismo e o direito de cada cidadão de possuir armas. Além disso, se nós nos permitirmos ir adiante com o argumento de que o serviço militar é uma precondição da igualdade do cidadão, estaremos ignorando a realidade. Muitos direitos dos homens não foram amarrados ao serviço militar. O serviço militar obrigatório tem existido somente há trinta dos mais de duzentos anos de existência do país, e somente para os 5 % dos que estão no exército que viram um combate. Colocar as obrigações antes das oportunidades, ou deixar um maior número de pessoas vulneráveis ao que já é uma instituição de pouca aceitação, não é o caminho para a construção de um movimento. Por outro lado, apoiar os direitos das mulheres de se alistarem nas mesmas bases que os homens, sem restrição de cota ou combate, continua coerente com a liberdade de escolha, para mulheres e homens. Também apóia as oportunidades iguais de promoção

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reivindicadas por mulheres que já estão no exército, e enfrentam o argumento dominantemente masculino de que as mulheres não deveriam aprender a lutar. Muitos militares com experiência em combate (ao contrário dos congressistas com experiência em poltronas) acreditam que nenhuma guerra pode ser ganha se muitas das tropas de combate se encontram a postos contra sua própria vontade. Um sistema que se assenta na vontade de homens e de mulheres de se alistarem provavelmente oferecerá melhores salários e condições dentro do exército, e oferecerá uma causa pela qual os convocados acreditem que valha a pena lutar — um freio interessante sobre o aventureirismo militar como o Vietnã, no passado, e possivelmente países como El Salvador no futuro. Finalmente, a atual proibição do ingresso de mulheres, com vontade e capacidade, em posições de combate é um pretexto para limitar o número de voluntárias e para manter as mulheres em posições subalternas? Isto reserva para os homens os melhores postos de treinamento e todos os postos de comando. Apesar da falta muito propagandeada de soldados adequadamente instruídos e da necessidade por parte das forças armadas de poupar verbas, notas baixas em exames e instrução insuficiente ainda são aceitáveis no caso dos homens. Há maior procura por recrutas masculinos. Os militares precisam gastar 3.500 dólares a mais para recrutar um homem em vez de uma mulher. Na verdade, se todas as mulheres que desejam e que têm capacidade para tal pudessem se alistar, as atuais necessidades de pessoal do Exército poderiam ser preenchidas sem qualquer necessidade de alistamento de homens. Clifford Alexander, ex-ministro do exército, relata que mesmo no pior ano de recrutamento da era de alistamento voluntário o exército tinha apenas dezesseis mil soldados a menos do que o necessário. Sem cotas restritivas, as mulheres ultrapassariam facilmente esse número. Poderíamos salvar os homens do serviço militar obrigatório — o que não é uma má oferta. Nós mulheres podemos ser perdoadas por suspeitarmos das razões da recusa. Por que é que as mesmas forças de direita que fizeram campanha pela igualdade de oportunidade da pena de morte e que se opuseram aos abrigos para mulheres espancadas ainda insistem em "pro" teger" as mulheres do serviço militar em geral e do combate volun-

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tário especificamente? Margaret Mead e outros antropólogos fizeram estudos de cruzamento cultural que mostram mulheres lutando em defesa própria serem tão ferozes quanto os homens. As mulheres aparecem em muitas guerras que envolveram populações civis, e em algumas nas quais nos mandaram para a linha de frente. Mesmo na Segunda Guerra Mundial, na Coréia, no Vietnã, algumas mulheres serviram nas zonas de combate como enfermeiras e como oficiais de comunicações. Aparentemente podemos ser alvos — e ocasionalmente somos mortas. Só não podemos atirar de volta. Não é de estranhar que exista uma profunda convicção entre muitas mulheres de que nossa sociedade simplesmente não quer que aprendamos a usar a força. O que aconteceria se todas as garçonetes mal pagas, as vítimas de estupros e as esposas espancadas tivessem um pequeno treinamento militar? O que aconteceria se as mães dependentes dos fundos da previdência aprendessem as mesmas habilidades que muitos homens pobres aprenderam no Vietnã? De que forma mudaria sua esposa, normal e dependente, com um ou dois anos de serviço nacional universal? Talvez aquilo do qual mais precisamos seja uma boa ação judicial movida pelas mulheres que desejam se alistar para o exército — e para o combate. Além do mais, o objetivo do feminismo é o poder de escolha. — 1980,1981

Se os Homens Menstruassem

Morar na índia me fez compreender que a minoria branca do mundo passou séculos nos enganando para que acreditássemos que a pele branca faz uma pessoa superior a outra. Mas na verdade a pele branca só é mais suscetível aos raios ultravioleta e propensa a rugas. Ler Freud me deixou igualmente cética quanto à inveja do pênis. O poder de dar à luz faz a "inveja do útero" mais lógica e um órgão tão externo e desprotegido como o pênis deixa os homens extremamente vulneráveis. Mas ao ouvir recentemente uma mulher descrever a chegada inesperada de sua menstruação (uma mancha vermelha se espalhara em seu vestido enquanto ela discutia, inflamada, num palco) eu ainda ranjo os dentes de constrangimento. Isto é, até ela explicar que quando foi informada aos sussurros deste acontecimento óbvio, ela dissera a uma platéia 100% masculina: "Vocês deveriam estar orgulhosos de ter uma mulher menstruada em seu palco. É provavelmente a primeira coisa real que acontece com vocês em muitos anos!" Risos. Alívio. Ela transformara o negativo em positivo. E de alguma forma sua história se misturou à índia e a Freud para me fazer compreender finalmente o poder do pensamento positivo. Tudo o que for característico de um grupo "superior" será sempre usado como justificativa para sua superioridade e tudo o que for característico de um grupo "inferior" será usado para justificar suas provações. Homens negros eram recrutados para empregos mal pagos por serem, segundo diziam, mais fortes do que os brancos, enquanto as mulheres eram relegadas a empregos mal pagos por serem mais "fracas". Como disse o garotinho quando lhe perguntaram se ele gostaria de ser advogado quando crescesse, como a mãe, "Que nada, isso é trabalho de mulher." A lógica nada tem a ver com a opressão. Então, o que aconteceria se, de repente, como num passe de mágica, os homens menstruassem e as mulheres não?

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Claramente, a menstruação se tornaria motivo de inveja, de gabações, um evento tipicamente masculino: Os homens se gabariam da duração e do volume. Os rapazes se refeririam a ela como o invejadíssimo marco do início da masculinidade. Presentes, cerimônias religiosas, jantares familiares e festinhas de rapazes marcariam o dia. Para evitar uma perda mensal de produtividade entre os poderosos, o Congresso fundaria o Instituto Nacional da Dismenorréia. Os médicos pesquisariam muito pouco a respeito dos males do coração, contra os quais os homens estariam, hormonalmente, protegidos e muito a respeito das cólicas menstruais. Absorventes íntimos seriam subsidiados pelo governo federal e teriam sua distribuição gratuita. E, é claro, muitos homens pagariam mais caro pelo prestígio de marcas como Tampões Paul Newman, Absorventes Mohammad Ali, John Wayne Absorventes Super e Miniabsorventes e Suportes Atléticos Joe Namath — "Para aqueles dias de fluxo leve". As estatísticas mostrariam que o desempenho masculino nos esportes melhora durante a menstruação, período no qual conquistam um maior número de medalhas olímpicas. Generais, direitistas, políticos e fundamentalistas religiosos citariam a menstruação ("men-struação", de homem em inglês) como prova de que só mesmo os homens poderiam servir a Deus e à nação nos campos de batalha ("Você precisa dar seu sangue para tirar sangue"), ocupariam os mais altos cargos ("Como é que as mulheres podem ser ferozes o bastante sem um ciclo mensal regido pelo planeta Marte?"), ser padres, pastores, o Próprio Deus ("Ele nos deu este sangue pelos nossos pecados"), ou rabinos ("Como não possuem uma purgação mensal para as suas impurezas, as mulheres não são limpas"). Liberais do sexo masculino insistiriam em que as mulheres são seres iguais, apenas diferentes. Diriam também que qualquer mulher poderia se juntar à sua luta, contanto que reconhecesse a supremacia dos direitos menstruais ("O resto nãc passa de uma questão") ou então teria de ferir-se seriamente uma vez por mês ("Você precisa dar seu sangue pela revolução"). O povo da malandragem inventaria novas gírias ("Aquele ali é de usar três absorventes de cada vez") e se cumprimentariam, com toda a malandragem, pelas esquinas dizendo coisas tais como:

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— Cara, tu tá bonito pacasl — É cara, tô de chicol Programas de televisão discutiriam abertamente o assunto. (No seriado Happy Days: Richie e Potsie tentam convencer Fonzie de que ele ainda é "The Fonz", embora tenha pulado duas menstruações seguidas. Hill Street Blues: o distrito policial inteiro entra no mesmo ciclo.) Assim como os jornais, (TERROR DO VERÃO: TUBARÕES AMEAÇAM
HOMENS MENSTRUADOS. JUIZ CITA MENSTRUAÇÃO EM PERDÃO A ESTUPRADOR.)

E os filmes fariam o mesmo (Newman e Redford em Irmãos de Sangue). Os homens convenceriam as mulheres de que o sexo é mais prazeroso "naqueles dias". Diriam que as lésbicas têm medo de sangue e, portanto, da própria vida, embora elas precisassem mesmo era de um bom homem menstruado. As faculdades de medicina limitariam o ingresso de mulheres ("elas podem desmaiar ao verem sangue"). É claro que os intelectuais criariam os argumentos mais morais e mais lógicos. Sem aquele dom biológico para medir os ciclos da lua e dos planetas, como pode uma mulher dominar qualquer disciplina que exigisse uma maior noção de tempo, de espaço e da matemática, ou mesmo a habilidade de medir o que quer que fosse? Na filosofia e na religião, como pode uma mulher compensar o fato de estar desconectada do ritmo do universo? Ou mesmo, como pode compensar a falta de uma morte simbólica e da ressurreição todo mês? A menopausa seria celebrada como um acontecimento positivo, o símbolo de que os homens já haviam acumulado uma quantidade suficiente de sabedoria cíclica para não precisar mais da menstruação. Os liberais do sexo masculino de todas as áreas seriam gentis com as mulheres. O fato "desses seres" não possuírem o dom de medir a vida, os liberais explicariam, já é em si castigo bastante. E como será que as mulheres seriam treinadas para reagir? Podemos imaginar uma mulher da direita concordando com todos os argumentos com um masoquismo valente e sorridente. ('A Emenda de Igualdade de Direitos forçaria as donas de casa a se ferirem todos os meses": Phyllis Schlafy. "O sangue de seu marido é tão sagrado quanto o de Jesus e, portanto, sexy também!": Marabel Morgan.) Reformistas e Abelhas

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Rainhas ajustariam suas vidas em torno dos homens que as rodeariam. As feministas explicariam incansavelmente que os homens também precisam ser libertados da falsa impressão da agressividade marciana, assim como as mulheres teriam de escapar às amarras da "inveja menstrual". As feministas radicais diriam ainda que a opressão das que não menstruam é o padrão para todas as outras opressões. ("Os vampiros foram os primeiros a lutar pela nossa liberdade!") As feministas culturais exaltariam as imagens femininas, sem sangue, na arte e na literatura. As feministas socialistas insistiriam em que, uma vez que o capitalismo e o imperialismo fossem derrubados, as mulheres também menstruariam. ("Se as mulheres não menstruam hoje, na Rússia", explicariam, "é apenas porque o verdadeiro socialismo não pode existir rodeado pelo capitalismo.") Em suma, nós descobriríamos, como já deveríamos ter adivinhado, que a lógica está nos olhos do lógico. (Por exemplo, aqui está uma idéia para os teóricos e lógicos: se é verdade que as mulheres se tornam menos racionais e mais emocionais no início do ciclo menstrual, quando o nível de hormônios femininos está mais baixo do que nunca, então por que não seria lógico afirmar que em tais dias as mulheres comportam-se mais como os homens se portam o mês inteiro? Eu deixo outros improvisos a seu cargo.* A verdade é que, se os homens menstruassem, as justificativas do poder simplesmente se estenderiam, sem parar. Se permitíssemos. — 1978

*Meus agradecimentos a Stan Pottinget pelos muitos improvisos incluídos neste texto.

Longe da Margem Oposta

TESTANDO A PROFUNDIDADE I

No movimento pacifista e na onda feminista do começo dos anos 70, Bella Abzug foi eleita para o Congresso. Ela traz melhorias para as questões das mulheres e de outros grupos sem poder, é o primeiro membro do Congresso a pedir o impeachment do Presidente Nixon, torna-se respeitada pelas suas habilidades de advogada na redação das leis e na pesquisa de atalhos pouco usados nos procedimentos do congresso, e é eleita pelos colegas, depois de servir dois termos na Câmara dos Deputados, como um dos três membros mais influentes da mesma. Em 1976, ela ousa ser a primeira mulher a concorrer a uma cadeira no Senado pelo estado de Nova York e perde por uma pequena margem e, no ano seguinte, torna-se a primeira mulher a concorrer para a prefeitura da cidade de Nova York por um dos partidos principais. Alguém a elogiou por ter tido a coragem de deixar um lugar seguro no Congresso para ser a "primeira" em duas dificílimas corridas? Ela é elogiada por haver captado mais recursos políticos — em sua maioria através de pequenas doações — do que qualquer outra mulher (e do que muitos homens) na história americana? Será que ela pelo menos merece algum apoio por ter gasto toda aquela energia para, então, perder? Não, definitivamente, não. Ela é condenada por liberais supostamente pró-feministas como sendo "agressiva demais" ou "abrasiva" e rotulada pelas campanhas da direita, na mídia, como "antifamília", "pró-comunista" e "Rainha dos Tarados". Como resultado, até mesmo os seus esforços para recobrar seu assento na Câmara foram em vão: um milionário do sexo masculino, branco, é eleito em seu lugar. Na imprensa, e até mesmo em algumas áreas do movimento feminista, sua derrota é humilhantemente diagnosticada como sendo "culpa sua".

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TESTANDO A PROFUNDIDADE II

A ERA — Emenda de Igualdade de Direitos ganha apoio da maioria dos americanos, homens e mulheres, em pesquisas de opinião pública feitas em todo o país e é ratificada pelos 35 estados nos quais a grande maioria dos americanos vive. Não obstante, um punhado de deputados brancos, do sexo masculino, firmemente aferrados em suas crenças, controlam um número suficiente de votos nos estados remanescentes para fazer com que a vitória seja impedida por apenas três estados. Estes deputados são, então, repreendidos por não agir de acordo com um consenso nacional? E os repórteres ou os americanos em geral exigem saber que interesses específicos são estes a controlar a legislação dos estados? Não, a pergunta mais popular parece ser "Por que é que as mulheres são contra a ERA?" A segunda pergunta mais popular não só culpa as vítimas como ainda introduz um desejo, e não um fato. Você sabe, aquela pergunta: "Por que é que o movimento feminista está morrendo?"

TESTANDO A PROFUNDIDADE III

Em 1973, após uma longa campanha para galvanizar a maioria americana a favor do aborto, a Suprema Corte decide que o direito constitucionalmente garantido à privacidade protege a escolha de uma mulher em relação ao aborto. Embora a saúde e a vida de milhares de mulheres sejam salvas devido à disponibilidade de abortos legais, ambos os candidatos às eleições presidenciais de 1976 pessoalmente se opunham ao aborto, legitimando assim o ponto de vista de uma minoria antiaborto. Até 1977, grande parte das beneficiárias da previdência, dentre as mulheres, as de menor poder político, haviam sido privadas de subsídios governamentais para o aborto. O resultado inevitável é a maternidade compulsória, a procura aos açougueiros ou a morte devido a abortos auto-induzidos ou em clínicas clandestinas. Enquanto isso, o vociferante lobby antiaborto acelera sua campanha para restringir ainda mais, e eventualmente proibir, o aborto e começa a assediar também as pacientes. As clínicas de aborto são rodeadas e suas entradas são bloqueadas por manifestantes com suas faixas e algumas são incendiadas. Muitas são invadidas

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por gangues antiaborto enquanto há mulheres nas mesas de operação. Tudo isto é feito em nome de uma crença religiosa que, até mesmo quando formulada da forma mais racional nas pesquisas de opinião pública, não é apoiada pela maioria de coisa alguma, incluindo os membros das principais religiões que advogam tais crenças. Na verdade, os ativistas antiaborto da hierarquia católica poderão estar colocando em perigo a vida de suas próprias mulheres, pois como as católicas têm menos acesso a métodos anticoncepcionais elas tendem a fazer mais abortos, proporcionalmente ao número de mulheres católicas, do que suas irmãs de outras religiões. Por acaso essas forças antiaborto são vistas como minorias tirânicas, cujo poder coloca em jogo os direitos individuaias, assim como a separação entre Igreja e Estado? Será que um eventual leitor dos jornais tem a impressão de que 60 a 70% dos americanos apóiam o direito ao aborto, como as pesquisas demonstram? Pelo contrário, os grupos antiescolha são freqüentemente citados como sendo parte de "uma guinada para a direita" pela "maioria dos americanos". E os defensores da violência são séria e constantemente identificados como sendo os pró-escolha.

TESTANDO A PROFUNDIDADE IV

Por cinco milhões de dólares, menos de um quarto da contribuição governamental a um candidato à presidência, mulheres de toda a nação trabalharam durante dois anos, organizaram 56 conferências estaduais e territoriais e uma reunião de vinte mil observadores e representantes, conhecida como a Conferência Nacional, em Houston. É provavelmente a reunião mais representativa, mais democrática, mais numerosa e mais barata de representantes nacionais eleitos da história. E, então, foram todas parabenizadas pelo trabalho árduo, pela frugalidade e pela democracia dos processos políticos? E por acaso o Congresso louvou os poucos projetos financiados pelo governo federal por terminarem seus mandatos sem pedir mais dinheiro? Não, nem um pouco. Muito pelo contrário, os grupos de direita os atacam dizendo que foram dólares públicos "desperdiçados", e suas alegações são publicadas com pouca pesquisa por muitos repórteres e

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acreditadas, com pouca justificativa, por muitos deputados. Assim como algumas acusações feitas de que os dólares públicos gastos para financiar a Conferência Nacional de Mulheres, em 1977, foram gastos com "pornografia", com "um escândalo nacional". Um material que nada tem a ver com a conferência é mostrado a deputados federais e estaduais e circula por diversas capitais estaduais. É tanta lama atirada de um lado para o outro que alguma respinga. Embora uma pesquisa pública pós-Houston, realizada por Louis Harris, demonstre que a maioria, ou pelo menos a maioria relativa dos americanos realmente apóia cada uma das principais resoluções aprovadas pelas representantes na conferência, a conferência em si não é vista com a mesma aprovação: 29% a desaprova completamente, 52% não tem certeza de como se sente e apenas 19% a aprova. E uma vitória parcial, mas incomodativa, das imagens fáceis criadas pela mídia sobre as realidades conquistadas com tanta dificuldade. Estas pequenas histórias apenas simbolizam os eventos emotivos e complexos que nos mantêm nadando por um rio de transformação cujos afluentes são a esperança, a revelação, o cansaço e a fúria. E, é claro, além destes testes públicos há os particulares. Quantas de nós demos asas aos nossos sonhos embora nada tenhamos conseguido fazer para abalar as estruturas de nossas realidades cotidianas? Quantas de nós voltou corajosamente a estudar, por exemplo, apenas para integrar o time das desempregadas, um grupo cada vez mais instruído? Ou quantas de nós se vê com um emprego de tempo integral fora de casa e outro dentro? Quantas de nós tenta ajudar os filhos a ser indivíduos livres mas enfrenta uma cultura inteira que os produz em massa, em seus respectivos papéis? Quantas de nós tenta manter o amor e o apoio mútuo entre iguais fluindo apenas para vê-lo ser represado por algum desequilíbrio de autoconfiança ou de poder? Parece que é aqui que nos encontramos, depois de uma década da segunda onda do feminismo: esperanças renovadas, sede de mudança e anos de trabalho árduo estão batendo de frente com a frustrante conscientização de que cada uma de nossas batalhas terá de ser travada outra vez. Um dos resultados inevitáveis de conquistarse a mudança de consciência da maioria é um ataque por parte daquelas forças que dependem da antiga consciência para permanecer no poder.

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Talvez esta seja a primeira Lição de Sobrevivência da qual precisamos nos lembrar se quisermos continuar a lutar: a oposição séria é uma medida do sucesso. Nós mulheres fomos treinadas para medir a nossa eficácia pelo amor e pela aprovação, não pelo conflito e pela resistência. Isso faz com que seja difícil tornar-se individualmente independente ou lutar por uma mudança básica. Mas a verdade é que não houve nenhum retrocesso organizado contra nós quando ainda tirávamos dinheiro de nossos próprios bolsos para organizar conferências de mulheres ou eventos beneficentes. Isso só veio acontecer depois de nos tornarmos fortes o bastante para destinar alguns poucos dólares públicos, que também nos pertencem, para fins que nos interessam. As Igrejas tradicionais e os líderes fundamentalistas não se organizaram politicamente contra as feministas até que o contágio da justiça começasse a fazer com que as freiras questionassem a autoridade dos padres, que as mórmons se irritassem com as restrições sexuais e raciais que governam sua abastada instituição religiosa, que as mulheres judias e protestantes se tornassem rabinas e pastoras e que a própria personificação de Deus como o Pai passasse a ser questionada. E quanto ao princípio de remuneração igual por funções equivalentes, você deve lembrar que esta exigência já foi conhecida como "a parte com a qual eu concordo". As vezes ainda é. Mas essa concordância instantânea normalmente precedia a constatação de quantas mulheres realmente estavam realizando tarefas análogas sem uma remuneração equivalente à de sua contraparte masculina ou quantas mulheres gostariam de se juntar às suas irmãs que já formam uma porcentagem enorme da força de trabalho assalariada ou que fabulosa redistribuição de renda teríamos se as mulheres, como grupo, deixassem de ser consideradas mão-de-obra barata, não-organizada e excedente. Em outras palavras, se até mesmo o trabalho que estamos realizando hoje fosse pago de acordo com o seu valor lógico e comparativo como "trabalho de homem", realizaríamos uma enorme distribuição de renda. E é justamente por isso que devemos insistir nessa exigência. Um sistema baseado na mão-de-obra barata, que permite o acúmulo de riqueza por métodos outros que não a produção, merece ser transformado pela pressão de muitos sobre uns poucos. A conscientização do potencial populista e radical da "remune-

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ração igual" começa a ocorrer a todo o mundo: àqueles com lucros a serem perdidos e àqueles com igualdade a ser conquistada. Os resultados lógicos são uma resistência mais profunda e um apoio mais amplo. Depende, é claro, se alguém é beneficiado pelo baixo custo da mão-de-obra feminina (o empregador, o investidor, o acionista ou até mesmo o marido); ou se estamos falando da própria mulher assalariada, de alguém que depende do poder remunerativo da mulher ou apenas de alguém que acredita que a sociedade deva ser melhorada para todos, a longo prazo, recompensando méritos e restringindo o acúmulo de riqueza. Culturalmente falando, como mulheres, não fomos preparadas para tanta resistência e raramente fomos preparadas para ser estudantes ou cidadãs. A América não foi construída tendo como um de seus principais alicerces as oportunidades iguais? Por que então devemos lutar, ou esperar encontrar resistência por algo que acreditávamos já possuir? Na verdade, a experiência tem sido nossa escola e nossa apostila. Talvez tivéssemos começado pela descoberta de que a telefonista da prefeitura recebe US$ 170 por semana enquanto um policial que atende o telefone na delegacia ganha US$ 306. Ou que o "homem da manutenção" ganha US$ 185 por semana para manter um prédio de escritórios, durante o dia, enquanto uma "faxineira" recebe US$ 170 para fazer o mesmo durante a noite. Ou então que uma enfermeira formada recebe menos que o gari que serve ao mesmo hospital e muito menos que o farmacêutico que recebeu o mesmo tipo de treinamento mas que pertence a uma profissão exercida, quase totalmente, por homens. As vezes reclamamos e nossos empregadores nos dão algum alívio. Com mais freqüência, nos damos conta da necessidade de uma pressão mais insistente e mais maciça. E sempre aprendemos a lição de como nos organizar. Mas nós freqüentemente ouvimos alguma versão da mesma história: "Isso poderia levar à falência cada um dos governos municipais e hospitais em todo o país." Ou, de empregadores muito francos: "Nós só empregamos mulheres aqui porque elas saem mais barato do que os homens." Cada uma de nós tem muitos exemplos do tipo para contar. Mas é importante lembrar as verdadeiras conseqüências econômicas da igualdade, como nós mesmas as vemos e podemos acessá-la, se qui-

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sermos compreender a lógica e o tributo da inflexível oposição que ainda enfrentamos. É irônico mas até mesmo aquelas de nós que estudaram outras revoluções econômicas não estavam necessariamente mais bem preparadas para a resistência do que aquelas que agiam de boa fé, acreditando na justiça das regras do jogo. Os teóricos políticos normalmente apresentavam a desigualdade feminina como um subproduto acidental de questões econômicas mais amplas. A suposição era de que a mudança deveria começar pelo topo, e o topo não inclui as mulheres. Estes teóricos não-feministas talvez estejam certos com relação a uma revolução específica, mas há mais de uma maneira de engendrar uma transformação. Assim, começamos onde era possível começar: embaixo. Como não escolhemos uma rebelião armada, uma nacionalização, uma tomada de fábricas por seus operários, tínhamos poucos modelos táticos a serem seguidos e não sabíamos o tipo de resistência que poderíamos encontrar. Nos anos sessenta e setenta, muitas de nós rejeitaram medidas legislativas tais como a ERA, precisamente porque ela não nos soava radical o bastante. Nós tínhamos todas as dúvidas típicas dos anos sessenta, de fazer uma mudança através do sistema eleitoral, ou de qualquer esforço que dependesse de infiltrar no sistema uma feminista de cada vez. Por convicção política e por temperamento, eu mesma fiquei no território dos céticos. Eu não era fanática por estruturas de nenhuma espécie (sem dúvida uma característica de jornalistas free-lancer) e, além do mais, a ERA parecia ser as sobras de um tempo em que nossas predecessoras ora radicais haviam sido persuadidas a acreditar piamente no poder do voto. Nos últimos anos, no entanto, o potencial lentamente revelado das pressões de um movimento de massa nos fez mudar de idéia. Assim como a reação da direita e seu testemunho implícito da importância de um princípio constitucional de igualdade. Mas, como disse uma pessoa muito esperta certa vez, a ausência de surpresas é a medida da inteligência. Se nós mesmas tivéssemos previsto o impacto da ERA, talvez tivéssemos nos esforçado mais para conseguir as ratificações necessárias, na época em que a direita ainda cochilava em seus postos de comando legislativo. Talvez tivéssemos instruído melhor a imprensa quanto à localização e à motiva-

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ção da oposição, para que menos repórteres aceitassem os falsos argumentos dos deputados de que "minhas eleitoras mulheres são contra" ou que o problema era o mítico espectro dos banheiros unissex. Na ausência de uma análise econômica verdadeira, no entanto, nossa tendência era apresentar a ERA. como sendo razão pura; sem acrescentar que a eqüidade, quando introduzida em sistemas que dependem da iniqüidade (no trabalho ou em casa), pode se tornar algo muito radical. É claro que nenhuma preparação prévia teria aumentado o atual ritmo das mudanças. Como mulheres, precisamos ter cuidado para não sucumbir à doença social da qual sofremos: a culpa terminal. Direitos estaduais e controles legislativos locais sempre foram palavrascódigos para preconceitos raciais e conservadorismo econômico; só que a experiência da ERA gravou esta verdade em nossas peles. Em algumas partes do país, tivemos de enfrentar a transformação de leis que vêm fazendo com que a vítima pague pelo crime desde a Guerra Civil. A Carolina do Norte, por exemplo, ratificou a emenda que dava o direito de voto às mulheres em 1976 e o Mississippi resiste até hoje. * O Kentucky não ratificou a emenda antiescravista até 1976. Em Nevada, onze deputados que prometeram apoiar a ERA, e que haviam sido apoiados por grupos pró-igualdade por uma promessa pública, votaram contra a emenda depois de eleitos. Por quê? Porque os líderes de direita do legislativo deixaram claro que eles teriam pouca chance de liderar comissões ou de ter algum futuro político se não votassem contra a emenda. Na Virgínia as mulheres conseguiram o feito impossível de eleger um republicano pró-ERA numa zona eleitoral democrata pertencente a um líder legislativo democrata anti-ERA. Mas, como disse uma feminista: "Isso só serviu para deixá-los ainda mais irados. Agora mesmo é que os outros deputados querem nos castigar." Talvez, a longo prazo, seja positivo para o país que a ERA tenha exposto a falta de democracia no legislativo de diversos estados, mas às vezes dá a sensação de termos de construir o sistema telefônico do país inteiro para conseguir dar um telefonema. Para o futuro, no entanto, devemos compreender que o proces*0 Mississippi finalmente ratificou a emenda que dá à mulher o direito ao voto em 1982.

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so de democratização do legislativo leva tempo. Trocar alguns rostos não é o bastante, da mesma forma que ganhar o apoio da maioria dos eleitores de um dado legislador não ajuda muito se ele tiver chegado onde está devido a interesses especiais. Você tem de conhecer o jogo há muito tempo para conseguir se sobrepor aos interesses especiais e para mudar a liderança dos deputados. Quando a ERA fizer finalmente parte da Constituição (como fará, eventualmente) e os historiadores olharem para trás, para a nossa jornada, eles poderão mencionar o fato de termos aceito o limite inicial de sete anos para a ratificação como nosso maior e nosso único erro estratégico. A maioria das emendas constitucionais não possui data limite. O primeiro limite sugerido no caso da ERA foi de 35 anos. Quando Alice Paul, a sufragista que escreveu e apresentou a ERA, soube que os nossos patrocinadores do congresso haviam aceito os sete anos ela duvidou de nosso sucesso. Afinal, se a Guerra Civil levou mais de um século para conseguir incluir a igualdade racial na Constituição, por que haveríamos de nos surpreender se a igualdade de metade da população exigisse um esforço longo e constante?* Leva também um bom tempo até que a massa crítica de qualquer movimento aprenda que os caminhos da mudança prescritos em nossos livros de cívica não são suficientes. Trabalhar de dentro dos partidos políticos, eleger e des-eleger, ganhar o apoio da maioria: tudo isso faz sentido. De vez em quando até funciona. Mas nossos livros não nos preparam para o fato de que algumas considerações do poder nada têm a ver com a maioria (por exemplo, quais interesses especiais fazem as maiores contribuições políticas, quem nomeia os relatores das comissões, quem consegue sufocar a ética dos deputados e quais legisladores simplesmente não votarão a favor da igualdade porque "Não era a intenção de Deus que as mulheres fossem iguais aos homens"); ou que o apoio da maioria exista durante anos numa dada questão (tal como o controle de porte de armas, full employment ou a retirada de tropas do Vietnã) sem que isto implique vencer.
*A Emenda de Igualdade de Direitos foi reintroduzida no Congresso um pouco depois de sua não ratificação até a data limite de julho de 1982. Até as eleições de novembro do mesmo ano, os eleitores pró-igualdade haviam conseguido mudar um número suficiente de deputados na Flórida e no Illinois, dois estados-chave na não ratificação da ERA, para que os novos deputados conseguissem aprovala. Não obstante, se o mesmo processo de ratificação for seguido, estima-se no mínimo dez anos para a sua ratificação.

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Nós que chegamos à idade de atividade política pela esquerda masculina, também tivemos nossas cartilhas. Eles diziam que não se vence nas urnas com lobbys, com o apoio da maioria ou com qualquer coisa que não a rebelião. É preciso adotar métodos "fora do sistema" tais como manifestações nas ruas, resistência passiva (ou mesmo violenta) ao sistema e o rompimento com aqueles que não concordem com os métodos mencionados. Na prática, e sob as condições propícias, tanto as estratégias "de fora" como as "de dentro", funcionam, mas ambas perdem força. Os reformistas ou o pessoal "de dentro" muitas vezes tornam-se absorvidos demais ou imobilizados. Os revolucionários ou o pessoal "de fora" muitas vezes ficam tão obcecados com impactos imediatos que acabam ficando isolados ou desmoralizados quando uma transformação não se faz evidente de imediato (ou pelo menos antes de chegarem aos trinta anos de idade). Conscientemente ou não nós carregamos versões destes estilos polarizados e pré-feministas dentro de nós e os arrastamos para dentro do movimento feminista. Nos anos sessenta e setenta nos dividimos entre feministas "reformistas" e "liberais" (às vezes a divisão também incluía a hesitante ala do "Eu não sou feminista mas...") e feministas "socialistas" ou "radicais" (termos muitas vezes usados como sinônimos, embora o primeiro tenda a achar que classe é mais importante do que casta e o segundo grupo ache o contrário). Até mesmo depois de muitas de nós nos identificarmos primordialmente com o movimento feminista, algumas mutações destas divisões continuaram a surgir. Por exemplo, havia (e ainda há) uma distinção entre "feministas políticas" (que possuem um impulso na direção das ações ou análises econômicas e que se aliam com a esquerda não-feminista) e as "feministas culturais" (que se aproximam mais da antropologia, da autotransformação e da construção de uma cultura feminina). Na vida real, no entanto, o mesmo indivíduo ou grupo talvez se sinta atraído por ambas as metas, igualmente dignas, e acabe combínando-as de forma criativa. A tragédia é que esta foi uma escolha artificial e muitas vezes imposta. Não era para estarmos trabalhando "de dentro" e "de fora" do sistema. Nos arriscamos a ser chamadas de hipócritas ao tentarmos obter credenciais acadêmicas e ao mesmo tempo desafiar o sistema que as exigia.

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Foi como se o feminismo tivesse apontado a injustiça de se dividir a natureza humana nas falsas polaridades de "feminino" ou "masculino", embora ainda não fosse forte o suficiente para ajudar-nos, a todos, a superar outras divisões de "ou isso/ou aquilo" que as imitavam. A maior de todas as penalidades foi o amortecimento de nossas percepções. Na realidade, a maioria das situações acaba contendo uma variedade de ações e de idéias que podem variar entre uma dúzia, quatorze, cem ou apenas uma. Ao polarizarmos tudo em pares que se opõem, nos privamos da precisão, da sutileza, da invenção, do crescimento. Assim não conseguimos enxergar a gama de ações que se apresentavam. Numa cultura onde domina o masculino, a função vital da polarização é estabelecer uma situação de ganho e perda. As mulheres devem escolher estar do lado que concede ou do lado que perde: é assim que se atinge a virtude, a solidariedade e o apoio da sociedade. Até mesmo entre as feministas, a pureza moral e a correção continuam associadas ao fracasso, uma idéia que pode nos levar a recompensar as fraquezas umas das outras e a castigar a força. Um exemplo recente é a divisão das feministas em uma maioria "moderada" ou até mesmo "conservadora" versus uma minoria "radical" ou "pura". Nesta versão de polarização, qualquer grupo ou pessoa que tenha sido bem-sucedido, ou mesmo que tenha sobrevivido, seria colocado na categoria dos vendidos e qualquer um que se sinra isolado e amargo seria colocado no território dos puros. Assim, podemos ler em alguns lugares (embora não nos canais de comunicação controlados pela direita, que é esperta demais para isto) que as "conservadoras" ou as "moderadas" tomaram as rédeas do movimento feminista das mãos da minoria "pura".* O motivo por trás desta divisão se revela no desequilíbrio entre
*Em relação aos outros movimentos e grupos de interesse, o movimento feminista é mensuravelmente mais radical, ou seja, muito mais interessado em mudanças fundamentais. Uma pesquisa realizada pelo Centro para Assuntos Internacionais da Universidade de Harvard e o Washington Post sobre grupos de liderança nos Estados Unidos (grupos de jovens, o movimento negro e muitos outros) determinou que as feministas estavam consistentemente mais aptas a falar de questões que implicam mudanças básicas (por exemplo, a propriedade pública de companhias de gás, luz, água, esgoto e telefone e disttibuidoras de combustível ou sobre a redistribuição de renda) do que qualquer outro grupo. A maioria dos entrevistados era membro do N O W e do Comitê Eleitotal Nacional de Mulheres, os mesmos grupos feministas considerados "moderados".

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estes dois grupos. Você pode ter a certeza de que a maioria das feministas estará do lado condenado, já que apenas uma pequena minoria poderá ser considerada "pura". As vezes, esta é a maneira paternalista que os observadores políticos de fora do movimento encontram para definir a inexistência do mesmo. E muitas vezes é a forma derrotista que algumas poucas mulheres encontram de declarar sua superioridade moral e sua propriedade sobre o feminismo. Em ambos os casos, é importante ignorar rótulos e olhar registros de questões e ações. Estes muitas vezes revelam algo bem diferente. O grupo da maioria sobreviveu e cresceu justamente por ser feminista, e portanto radical o bastante para atacar problemas fundamentais e comuns e fazer com que as experiências e as histórias pessoais de cada mulher sejam bem-vindas. Esta minoria "pura" e amarga, por outro lado, pode ter sido isolada precisamente por ter sido feminista em sua retórica, mas exclusiva ou autoritária em seu comportamento e em seu estilo. Quer tenham vindo da esquerda ou da direita, possuem a tendência de cavar seu território, de declarar sua propriedade ou outra autoridade que lhes seja única e exigir respeito perpétuo àquilo que pregam. Na realidade, no entanto, a mais reconhecível característica das feministas e dos atos feministas é o seu esforço em ser inclusivo. As visões radicais do feminismo dependem da sua possibilidade de transformar as condições de todas as mulheres e não apenas de uma minoria correta. E isto não quer dizer que diferenças internas e críticas não sejam construtivas. Podem sim, dado que descrevam diferenças verdadeiras e que não nos afastem sem motivo.* No que diz respeito aos rótulos, por exemplo, eu prefiro ser chamada simplesmente de "feminista". Afinal de contas, a crença na humanidade integral de uma mulher leva à necessidade de transformar-se as estruturas machistas e, assim, eliminar o modelo usado para outros sistemas de privilégio determinado por nascimento. Isso em si deveria ser radical o bastante. No entanto, como há feministas que acreditam que uma mulher
*Para uma descrição de grupos e tendências que compõem o movimento feminista, tanto durante a primeira quanto a segunda onda, ver Shulamith Firestone, Dialectic of Sex {A dialética do sexo] (Nova York: Bantam Books, 1971), pp. 15-40.

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possa integrar ou imitar estruturas existentes (ou então que nós devemos aguardar até que as estruturas de classe sejam eliminadas e a posição de subordinação das mulheres seja automaticamente alterada), eu sinto que preciso me identificar como uma "feminista radical". "Radical" quer dizer "ir à raiz das coisas" e achar que o sistema de castas sexuais ê a raiz. Quer tenha se desenvolvido cronologicamente como o primeiro modelo de dominação na pré-história ou não, ficou claro que a liberdade feminina é mais restringida em sociedades também dedicadas a manter algumas raças ou classes "puras" de nascimento como forma de perpetuar seu poder. Como acredito que o sistema de castas sexuais é este tipo de raiz causai, crucial e antropológica, também acho que todas as ações efer tivas tomadas contra ele contribuirão para uma transformação radical da sociedade. Isso acontecerá quer estas ações sejam efetuadas por feministas radicais ou por alguém que declare, hesitante, "Eu não sou feminista, mas..." Portanto, eu me sinto bem apoiando e trabalhando com mulheres que não compartilham do rótulo que escolhi. Sim, podemos discordar nas análises, a longo prazo: não acho que o feminismo possa ser imitativo ou integracionista. Por definição, o feminismo precisa transformar. Mas, a curto prazo, existem metas nas quais concordamos. E é a curto prazo que precisamos agir. A maioria das feministas começou a perceber que táticas e estilos variados são trunfos. Aprendemos alguma coisa da experiência de trabalhar com diferenças de raça, idade, classe e sexualidade. Aprendemos com exemplos tais como o movimento de saúde da mulher ou a mudança das leis que punem o estupro ou que deram início à criação dos abrigos para mulheres espancadas, todos tendo nos beneficiado muito através de métodos variados: não só as táticas "de fora" e "de dentro" mas também a criação de estruturas feministas alternativas e a tradução de muitas de suas lições como possível dentro do próprio sistema dominante. Cada assunto passa por uma ontogenia parecida: a identificação do problema, a discussão do mesmo, a conscientização, a pesquisa, a criação de estruturas alternativas e o início da criação ou da mudança das leis da sociedade e de suas estruturas para que o problema seja resolvido de forma satisfatória para a maioria. Talvez esta seja a segunda Lição de Sobrevivência: temos de nos impulsionar além do pré-

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feminismo, do "ou isso/ou aquilo", da mentalidade polarizada em direção a uma gama completa de talentos e táticas. Precisamos cercar nossas metas.

Já dissemos com freqüência que a diversidade deveria ser o selo de autenticidade de um futuro feminista. Mas só agora estamos começando a compreender isto como uma vantagem tática. Também estamos nos tornando seguras o bastante para dispensar a idéia de que todos que não escolhem nosso estilo específico estão nos rejeitando ou nos criticando. Isto nos libera para usarmos meios diversos, e para ver que, na integridade orgânica exigida pelo feminismo, os meios sejam o fim. Nós não teremos a diversidade que almejamos como fim se não a alimentarmos pelo caminho. Na história desta onda de feminismo, a campanha pela ERA pode aparecer como a primeira experiência maciça e compartilhada que tirou a massa crítica do movimento feminista de sua rotina "de dentro do sistema"/"de fora do sistema". E muito pouco provável que a próxima luta contenha radicais que ignoram o poder do sistema eleitoral ou reformistas que insistem em que tudo ficará bem se nos conduzirmos como damas bem comportadas, vestirmos saias e evitarmos polêmica. Mas só faz uma década que entramos nesta atual onda da mais longa revolução. A última onda durou mais de um século e haverá outras, criadas por nossas irmãs que ainda estão por nascer. E importante extrairmos lições para ações futuras. Por exemplo, analisemos a derrota de Bella Abzug nas pesquisas de opinião. Se nós não a tivéssemos deixado ali, na vanguarda, sem movimentos visíveis na rua, sem demonstrações, sem bater de porta em porta para organizar eventos que deixassem bem claro que ela tinha um eleitorado formidável, talvez não tivesse sido tão fácil criticá-la por ser a voz mais radical no alcance dos ouvidos de políticos ou da imprensa. O que ocorreu foi que muitas de nós sucumbiu ao argumento polarizado de que estávamos (ou que ela estava) dentro do sistema e que o tempo de ir para as ruas, no início dos anos setenta, já havia terminado. Algumas de nós chegaram a concordar que sua agressividade foi responsável pela sua derrota. Mas será que o estilo de Bella não estava muito próximo ao de Fiorello LaGuardia, o mais amado de todos os prefeitos da cidade de Nova York?

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Talvez tivéssemos sido mais fortes para pressionar pelo lado de fora da estrutura política, honrando o estilo de Bella, se tivéssemos lido afirmações como a seguinte:
Pessoas cautelosas e cuidadosas, que fazem sempre o possível para preservar a própria reputação ou os padrões sociais, jamais realizarão reformas. Aqueles realmente sinceros estão dispostos a ser o que for ou nada ser aos olhos do mundo, em público ou em particular, no momento propício ou não, declaram sua solidariedade para com idéias pouco populares e para com os que as defendem e agüentam suas conseqüências.

Foi Susan B. Anthony que fez esta declaração em 1873. Sem o conhecimento de citações como esta, às vezes pensamos nas ativistas da primeira onda como brandas. Mas a quantas de suas táticas podemos corresponder, em termos de variedade ou força? Até mesmo as sufragistas posteriores, as que são freqüentemente rotuladas de reformistas devido a sua concentração no voto, usavam táticas radicais. É verdade, elas eram lobbistas educadas e tomavam chá com seus amigos no Congresso, mas também faziam piquete em frente à Casa Branca e se envolviam em atos de desobediência civil que os mesmos deputados detestavam. Esposas de homens conhecidos, de preferência amigos pessoais do Presidente Wilson, eram presas (um fato de grande dramaticidade para a imprensa), e as sindicalistas, a bordo de carros ornados com bandeirolas, desciam as ruas principais, algo muito distante do estereótipo das trabalhadoras "imorais" e das imigrantes. As sufragistas vestiam suas faixas de pano por baixo das roupas para poder penetrar com elas em reuniões ou piquetes bem vigiados. Quando uma faixa era confiscada pela polícia, dúzias de outras faixas apareciam para substituir a primeira. Nossas predecessoras tinham um grande talento para faustos: todas marchavam com capas da mesma cor, carregavam flores da mesma cor, apresentavam petições de quatro quilômetros e meio de comprimento, ou (quando viam necessidade de mais firmeza), queimavam os discursos do presidente nas ruas de Washington de forma a envergonhálo internacionalmente Elas também disciplinaram um sistema préinformatização no qual cartas, telegramas e telefonemas podiam ser enviados através de sinais nacionais. Tinham também um timing excelente. As reuniões das sufragistas eram marcadas normalmente

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às vésperas de algum grande evento do establishment — como, por exemplo, uma convenção política nacional — para aproveitar a concentração de jornalistas caceteados e sedentos por notícias. Acorrentadas à cerca da Casa Branca, declarando greve de fome, sendo alimentadas à força: estes acontecimentos ficaram famosos. Mas suas táticas incluíam humor, dramaticidade, resistência passiva, persuasão, e, quando possível, a subversão de contatos e esposas
do establishment.

A reação antimulher daquele tempo também as acusou de serem defensoras do amor livre, antifamília, masculinas e mulheres antinaturais. Isso lhe soa familiar? Idéias para ações, para a resolução de conflitos e um lembrete de hostilidades análogas no passado: todas estas são razões práticas para a Lição de Sobrevivência número três:precisamos conhecer a história de nossas irmãs — tanto como fonte de inspiração quanto para acumularmos um verdadeiro arsenal de idéias — e adotar o que for pertinente ao

presente. São poucas as táticas completamente novas, ou completamente antiquadas. Mesmo quando nós mesmas já exaurimos nossa capacidade de dar-lhes roupagem nova, outras feministas podem repetir, estender e tranformá-las. Todas nós somos organizadoras e nenhuma organizadora deveria terminar uma reunião ou um livro ou um artigo sem dar idéias práticas. Afinal, um movimento nada mais é do que gente em movimento. E o que vamos fazer de diferente quando nos levantarmos amanhã pela manhã? A grande força do feminismo — assim como do movimento negro americano, do movimento de Ghandi na índia e de todas as lutas orgânicas pelo autogoverno e pela justiça, pura e simples — sempre foi nossa coragem de agir sem esperar, sem teorizar sobre uma tomada de poder. Não é por acaso que, quando um grupo pequeno consegue uma revolução significativa, de cima para baixo, a mudança parece beneficiar apenas àquelas que a provocaram. Mesmo com as melhores intenções de dar "poder ao povo", a revolução, como um todo, é traída. O poder pode ser tirado, mas ele não pode ser concedido. O processo de usurpá-lo é, em si, dar poder. Então nos perguntamos: Qual será a real aparência de uma gama

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de táticas que ofereçam apoio mútuo para nós — individualmente —, para nossas famílias e para grupos comunitários, para homens que se preocupam com a igualdade, para as crianças e para os movimentos políticos como um todo? Algumas táticas sempre serão únicas a situações específicas e, portanto, imprevisíveis. Outras serão adequadas a épocas de extrema energia em nossas vidas, e outras farão sentido para aqueles que estão exaustos e que precisam de um período de contemplação e de análise. Mas aqui estão algumas táticas que podem inspirar ação, mesmo que seja apenas para dizer: "Isso não está certo. Eu prefiro fazer assim, e não assim."

Como Indivíduos

No começo dos anos setenta, quando eu viajava e dava palestras na companhia de uma advogada feminista e ativista negra, Florynce Kennedy, um de seus muitos epigramas dizia mais ou menos o seguinte: "Costuma-se dar uma importância exagerada à unidade numa situação de movimento. Se você fizesse parte do establishment, o que você preferiria ver batendo à sua porta, quinhentos ratos ou um leão?" Com a lição dela em mente eu, hoje em dia, termino minhas palestras com uma negociação típica de organizadora. Se cada um dos presentes prometer que, nas 24 horas seguintes, ela ou ele dará um pequeno escândalo em prol da justiça, então eu prometo fazer o mesmo. Não importa se o ato em questão for tão pequeno quanto dizer: "Pegue você mesmo" (um passo enorme para todas nós que passamos a vida inteira sendo as criadas da família) ou tão grande quanto organizar uma greve. A questão é que, se cada um de nós fizer o que prometeu, é quase certo que obteremos pelo menos dois resultados. Em primeiro lugar que o mundo, no dia seguinte ao nosso pequeno escândalo, não será o mesmo. Em segundo lugar, que será tão divertido dar nosso pequeno escândalo que nunca mais acordaremos nos perguntando "Será que vou dar um pequeno escândalo hoje?" e sim "Qual será meu pequeno escândalo de hoje?" Aqui estão alguns pequenos escândalos a que eu já assisti na vida real:

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• Ter anunciado uma recusa permanente de contribuir mais, financeiramente, para uma igreja ou sinagoga até que as mulheres possam se tornar padres, pastores e rabinos. • Ter pedido um aumento há muito merecido ou, no caso de homens ou brancos em geral, ter recusado um aumento nãomerecido que passara direto pelos outros por razão de sua raça ou sexo. • Escrever uma crítica bem bolada de um livro racista ou sexista e distribuí-la numa universidade. • Ter questionado imagens ou piadas misóginas com a mesma seriedade normalmente reservada para insultos relacionados a raça e religião. • Ter compartilhado ou divulgado entre colegas os respectivos salários de forma a medir a disparidade entre os mesmos. (É interessante como nossos empregadores fazem de tudo para não permitir que contemos um fato conhecido.) • Ter tomado conta de uma criança para uma mãe que trabalha demais poder ter um dia só para si. (Isso é ainda mais revolucionário quando feito por um homem.) • Ter voltado a assinar o nome de solteira ou, no caso dos homens, sugerir que os filhos adotem o nome do pai e da mãe. • Deixar a casa durante um fim de semana para que o pai de uma criancinha se torne um pai de verdade. (Conforme nos relatou uma mulher calmamente após o ato: "Quando eu voltei para casa, meu marido e o bebê tinham criado um elo, da mesma forma que mulheres e bebês os criam.") • Ter feito abaixo-assinado para conseguir uma seção de Estudos Feministas na biblioteca local ou numa livraria. • Ter checado os programas de doação de uma corporação e descobrir que eles realmente incluem mulheres entre seus

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beneficiados com pelo menos metade de seus dólares e fazer sugestões caso este não seja o caso. • Ter falado pessoalmente com um político que precisava ser persuadido a apoiar ou recompensá-lo por ter ajudado nas questões que dizem respeito à igualdade. • Ter redividido uma casa convencional pata que cada pessoa ficasse responsável por um espaço específico, revezando também os cuidados com a cozinha, o banheiro e outros cômodos de uso comum. • Casar-se com um igual ou divorciar-se de um não-igual. • Deixar um amante ou marido violento. • Liderar uma retirada de um cinema durante a exibição de uma cena de estupro ou qualquer outro ato de violência apresentado num dado filme como sendo sexualmente estimulante. • Fazer uma reclamação formal por estar trabalhando (ou vivendo) num gueto branco. A privação, no caso cultural, afeta também os brancos. • Dizer a verdade a um filho ou a um dos pais. • Dizer, com orgulho, "Eu sou feminista". (Porque a palavra indica que se tem fé na igualdade, sendo particularmente útil quando dita por um homem.) • Ter organizado uma quadra, um bairro, um edifício ou um alojamento universitário para se registrar como eleitor e para votar. • Ter feito piquete pessoalmente e/ou ter processado um empregador/professor/treinador/capataz/chefe sindicalista por preconceito.

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Além destes pequenos escândalos isolados, há também alguns constantes que deveriam se tornar essenciais para todos nós. Por exemplo: escrever cinco cartas por semana para criticar ou elogiar qualquer coisa, de programas de televisão a senadores; doar 10% de nossa renda em prol da justiça social; comparecer a um protesto por mês ou freqüentar um grupo de autoconsciência uma vez por semana só para manter os níveis de apoio e energia em alta; encontrar uma forma de viver nosso dia-a-dia de forma a refletir nossas crenças pessoais. As pessoas que normalmente incorporam estas mudanças ao seu cotidiano contam que não é tão difícil assim: as cinco cartas lobbistas podem ser escritas em frente à televisão; doar 10% da renda às vezes se transforma no melhor investimento jamais feito; reuniões nos dão espaço para sermos livres, para fazer amigos e são um verdadeiro antídoto ao isolamento; e tentar transformar um emprego ou uma família ou um estilo de vida para refletir crenças pessoais, em vez de deixar que seja ao contrário, nos dá a sensação de estar afetando o mundo. Se cada um de nós transformar cinco outras pessoas no decorrer de nossas vidas, o espiral da revolução se ampliará enormemente.

Em Grupos Alguns dos mais eficazes atos em grupo são também os mais simples: • Dividir as listas de uma associação de acordo com zona eleitoral, do nível distrital para cima, para que possamos informar e conseguir o voto pró-igualdade. • Pedir a cada organização à qual pertencemos, quer seja comunitária ou profissional, sindicalista ou religiosa, para incluir formalmente o apoio às questões de igualdade, em suas agendas. • Certificar-se de que os grupos não-feministas aos quais pertencemos funcionam de forma a fazer com que a maioria do trabalho seja realizado pelas mulheres tendo, em sua maioria, homens na diretoria.

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• Tornar grupos feministas feministas; isto é, relevante às mulheres de uma ampla gama de idades, raças, níveis econômicos, estilos de vida, habilidades e rótulos políticos práticos para a tarefa em pauta — o que requer homens feministas também. (Trata-se de uma inclusivismo que precisa começar entre as fundadoras. É bem mais difícil fundar qualquer que seja o grupo e mais tarde tentar alcançar os "outros".) • Apoiar quando for necessário, sem precisar que o apoio seja pedido. Por exemplo, apoiar a bibliotecária da escola que travou uma luta com a censura direitista aos livros feministas, e outros; ou então apoiar uma família recém-chegada que se sente racialmente deslocada. (Você gostaria de ter de pedir a alguém para lhe ajudar?) • Identificar grupos para alianças e aliados em questões diversas. • Aperfeiçoar a comunicação. Se houver uma emergência na semana que vem — uma vítima de discriminação que precisa de defesa jurídica, um trecho particularmente sinistro numa legislação que anda deslizando pela assembléia ou pelo Congresso — você conseguiria alertar todos os seus associados? • Colocar o dinheiro do grupo naquilo que realmente lhe interessa e não no que não interessa. Isto pode significar contribuir para o abrigo local de mulheres espancadas ou protestar contra o uso do fundo comunitário que doa muito mais dinheiro às bandeirantes e aos escoteiros; publicar uma lista de negócios de propriedade feminina; não pagar as taxas de atividades estudantis num compus que contrata principalmente palestrantes do sexo masculino. (Certifique-se de que o outro lado sabe quanto dinheiro estará perdendo com sua atitude. Para ser mais convincente, transforme suas contribuições em títulos, a serem resgatados apenas depois que certas mudanças forem feitas.) • Organizar noites de depoimentos e entrevistas coletivas. Não há nada como o testemunho pessoal de pessoas que já passaram por um problema semelhante

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• Premiar publicamente e oferecer jantares a mulheres (e homens) que fizeram uma diferença positiva. • Contratar palestrantes ou organizar cursos de Estudos Feministas para manter seus associados bem informados; criar um núcleo de palestrantes para que a mensagem do grupo se estenda à comunidade. • Certificar-se de que novos associados sentem-se convidados e bem-vindos ao chegarem e incumbir antigos associados de fazer um pequeno briefing sobre as atividades do grupo e transferir os conhecimentos comuns ao grupo. • Ligar-se a outros grupos como o seu, regional ou nacionalmente, para trocar experiências, ações e receber alguma garantia de que não se está reinventando a roda. É óbvio que precisamos escolher a ação apropriada dentre um imenso vocabulário de táticas que vão do exercício do voto à desobediência civil, do apoio profissional às mulheres a boicotes econômicos, de audiências no Congresso a ações rápidas, bem-humoradas e bem informadas. Dada a feminização da pobreza, no entanto, os grupos passam a ter outra importância. Como as mulheres formam uma mão-de-obra subdesenvolvida, subcapitaüzada, com acesso desigual à tecnologia — em outras palavras, somos um "Terceiro Mundo" onde quer que estejamos —, estamos começando a nos dar conta de que o modelo de Horatio Alger, grande protagonista do sonho americano, de progresso econômico individual não funciona muito bem para nós. É bem provável que tenhamos muito mais a aprender sobre o desenvolvimento econômico com nossas irmãs que vivem em países ditos subdesenvolvidos. Formas de propriedade cooperativa e formação comunitária de capital podem se tornar tão importantes para o nosso futuro quanto o conceito de remuneração igual. Até aqui, estas experiências cooperativistas vêm engatinhando humildemente: três mães solteiras que juntam filhos e recursos para comprar uma casa que nenhuma delas poderia comprar sozinha; duas mulheres que compram, juntas, um caminhão para fazer transpor-

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tes a longa distância; uma dúzia de mulheres que se juntam para começar uma padaria-confeitaria ou um serviço de limpeza e arquitetas feministas que transformam prédios velhos em novos lares. Mas estamos começando a olhar para os exemplos do Terceiro Mundo, que sugerem maiores esforços. Se as mulheres mais pobres da zona rural do Quênia podem juntar suas economias de anos para comprar um ônibus, cobrar passagens e construir uma loja cooperativista, por que não podemos nós, com mais recursos, ajudar umas às outras com empreendimentos parecidos em nossas próprias vidas? Se as mulheres analfabetas da Índia podem fundar e administrar sua própria cooperativa de crédito, conseguindo assim empréstimos a juros baixos para adquirir as mercadorias que vendem nas ruas, como podem as mulheres americanas se sentir imobilizadas por uma economia ruim? Sem contar que trata-se de uma saudável reviravolta no fluxo normal das coisas, do país desenvolvido para o subdesenvolvido, reviravolta esta que talvez ajude as feministas a construir pontes que liguem os abismos de condescendência e desconfiança nacionais. Grupos e organizações foram a base de nosso progresso em questões específicas, eleitorais e de autoconscíentização e de ações diretas. No futuro, talvez sejam também nossa base econômica.

Como estrategistas

Passamos a primeira década, mais ou menos, da segunda onda do feminismo às margens de um rio, salvando-nos umas às outras de um possível afogamento. Nas áreas de sobrevivência tais como estupro, espancamento e outras violências terroristas contra as mulheres, por exemplo, começamos a organizar auxílio através de abrigos, serviços de atendimento telefônico, pressões sobre a polícia para nos dar mais proteção, reformas nos serviços sociais e na legislação e insistindo para que a sociedade deixe de culpar a vítima. Agora algumas de nós precisam continuar a galgar o caminho em direção à nascente para descobrir por que as mulheres estão caindo no rio. Por exemplo, podemos seguir novas estratégias que se provaram eficazes no tratamento de homens que espancavam as esposas e

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de outros homens violentos. Tais estratégias vêm sendo bem-sucedidas exatamente por serem fruto de experiência e de reflexão feminista: a violência é um vício criado por uma sociedade onde domina o masculino, através do ensinamento de que "homens de verdade" precisam dominar e controlar o mundo em geral e as mulheres especificamente. Quando alguns homens viciam-se na violência como prova de sua masculinidade, o tratamento freudiano convencional diz apenas: "Sim, os homens são agressores naturais, mas você deve aprender a controlar o grau de violência." É como dizer a um viciado que ele só pode ter um pouquinho de heroína. O tratamento baseado na experiência, e não em Freud, diz: "Não, os homens não são agressores naturais; você precisa desatrelar sua noção de identidade e de masculinidade da violência e, assim, abandonar de vez o vício." Os poucos programas do gênero vêm sendo úteis para espancadores, estupradores e outros homens violentos, criminosos e cidadãos perigosos considerados sem tratamento precisamente por se considerarem homens normais. Este desafio fundamental a noções culturais de masculinidade também nos dão esperança de que haja formas menos violentas de resolver os conflitos existentes em nosso frágil planeta. Há muitas outras estratégias centradas em torno das nossas quatro metas principais: liberdade reprodutiva; redefinição do trabalho; famílias democráticas e uma cultura despolitizada. E claro que estas metas estendem-se por uma longa distância, pelo futuro adentro. Ainda estamos muito longe da outra margem do rio. Talvez a imagem da travessia do rio seja simples demais para descrever as realidades que experimentamos. Na verdade, repetimos lutas similares que parecem cíclicas e desanimadoras a curto prazo e, no entanto, cada uma ocorre num território levemente transformado. Uma revolução completa não se dará até termos passado pela superficialidade da novidade e até mesmo da lei antes de se integrar à cultura. Só quando olharmos para trás, daqui a muito tempo, é que seremos capazes de enxergar que cada um destes ciclos vem caminhando numa direção. Enxergaremos, então, o espiral da história.

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Nos meus primeiros dias de ativismo, pensei que faria isso ("isso" significando o feminismo) durante alguns anos e que depois voltaria à minha vida de verdade (o que era essa "vida de verdade", eu não sabia). Em parte, acho que essa era uma crença ingênua de que uma injustiça só precisava ser indicada para ser sanada. Por outro lado, acho que era pura falta de coragem. Mas como tantas outras ativistas, de hoje e de movimentos passados, aprendi que estamos nisso pelo resto da vida e pela vida. Não precisamos nem mesmo do espiral da história para percebermos a distância percorrida. E só olhar para trás, para as pessoas menos completas que fomos um dia. E a última Lição de Sobrevivência é: ao olharmos a distância já percorrida sabemos que não há como voltar atrás. — 1978, 1982

Se a luta das últimas décadas foi contra o colonialismo, que permitia que uma nação dominasse outra, a luta atual e futura será contra o colonialismo interno, que permite que uma raça ou um sexo domine outro. Um dia, nossos descendentes acharão incrível termos dado tanta importância a coisas tais como a quantidade de melanina que temos em nossas peles ou o formato de nossos olhos ou nosso sexo, em vez das identidades únicas de cada um de nós, seres humanos tão complexos. — Franklin Thomas The Liberty ofthe Citizen (A liberdade do cidadão)

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EDTTORA ROSADOS TEMPOS

Memórias da Transgressão - um grande sucesso que vendeu perto de meio milhão de exemplares desde sua publicação, nos EUA é uma variada e oportuna coletânea de ensaios de Gloria Steinem. Leitores de ambos os sexos aclamaram este livro como uma visão de mundo inteligente, apaixonada e capaz de promover mudanças radicais na vida de todos nós. O estilo moderno de Gloria Steinem se evidencia desde o artigo "Fui uma coelhinha da Playboy", de t o m jocoso, até o comovente tributo a sua mãe contido em "A Canção de Ruth" e os proféticos ensaios sobre mutilação genital feminina e a diferença entre erotismo e pornografia. O satírico e hilariante "Se os homens pudessem menstruar" por si só vale o livro.

Gloria Steinem é autora de quatro livros de sucesso, incluindo Revolution from within e Moving beyond words. Ela foi co-fundadora da NewYork Magazine, onde também assinou uma coluna política, e da Revista Ms, em que escreve até hoje.