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“PROJETOS”

ou trabalho por projetos ou pedagogia de projetos
Dominique Colinvaux

1 - UMA QUESTÃO DE VOCABULÁRIO

Quando educadores falam em projetos, podem se referir a coisas bem diferentes, como projetos de escola,
projeto político-pedagógico de uma determinada unidade escolar, ou ainda, para se referir a uma
metodologia de trabalho pedagógico.
Entre as diferentes expressões que se referem a uma metodologia de trabalho pedagógico, encontramos
ainda „trabalho por projetos‟ e „projetos de trabalho‟, „pedagogia de projetos‟ e „abordagem de projetos‟,
que podem ser utilizadas como sinônimos. O que importa é a definição e as características que
diferenciam esta abordagem. A seguir, vamos apresentá-las.

2 - COMEÇANDO COM UMA DEFINIÇÃO GERAL

Na educação, sobretudo no Ensino Fundamental e Médio, o processo de ensinoaprendizagem se organiza
em torno de „conteúdos‟ que, em geral, correspondem a uma seleção de conhecimentos a partir das
diversas áreas de conhecimento (História, Geografia, Biologia, Matemática, Física, Química, etc). Na
Educação Infantil, os conteúdos costumam ser vistos de modo mais amplo, uma vez que esta etapa se
estrutura em torno de dois eixos complementares e integrados: cuidar e educar (que é mais abrangente
que ensinar).
Mas, como se sabe, há diferentes maneiras de conceber o ensino e, em particular, as estratégias e ações de
ensino. O trabalho por projetos é uma estratégia pedagógica para abordar os diversos tipos de
conhecimentos a serem ensinados e aprendidos. Originalmente pensada para o ensino organizado em
disciplinas e matérias do Ensino Fundamental, Médio e Superior, esta abordagem tem sido apropriada
pelos meios de educação Infantil.
O trabalho por projetos se diferencia de outras estratégias pedagógicas em vários aspectos: sua concepção
de conhecimento e de aprendizagem, sua visão do papel do professor e dos alunos no processo de ensino-
aprendizagem, sua definição dos tempos do ensino e da aprendizagem. A característica principal desta
estratégia é criar condições para provocar o envolvimento direto e ativo dos participantes na busca e
produção de conhecimentos, conhecimentos esses que dizem respeito a problemas e questões que fazem
sentido para todos (o que é diferente de adquirir ou construir conhecimento sobre conteúdos escolares
fragmentados, isolados e separados).
O trabalho por projetos envolve várias etapas configurando um ciclo. Estas etapas e as formas de conduzi-
las pode variar bastante, sobretudo na EI, em função da idade e interesses das crianças envolvidas.
As etapas são:
O trabalho por projetos começa com a escolha e definição de um tema de estudo que desperte interesse,
curiosidades e perguntas. Sobre este tema, os participantes refletem: identificam o que sabem e o que
querem saber, formulando perguntas para as quais pretendem buscar respostas.
O conjunto do que se sabe e do que se quer saber a respeito do tema escolhido compõe o índice do
projeto. A etapa seguinte é de desenvolvimento do projeto: é a etapa principal e inclui diferentes
atividades de busca e produção de conhecimentos que ajudam a responder as perguntas do índice. Na
etapa de sistematização, estes conhecimentos são organizados na forma de um dossiê que apresenta o que
se sabia no início do projeto e as respostas obtidas às perguntas do índice, incluindo – quando é o caso –
novas perguntas que surgiram mas não puderam ser respondidas pelas atividades realizadas. Com o
dossiê, procede-se com as crianças a uma análise do caminho percorrido e das conquistas alcançadas.
Finalmente, o ciclo se completa com a apresentação dos resultados, por exemplo na forma de um painel
e/ou com a exposição das produções dos participantes.

3 - CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO POR PROJETOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
/ na Creche-UFF

Na educação, o trabalho por projetos é uma estratégia pedagógica para abordar temas e conteúdos em
diferentes níveis de escolarização (da EI ao ensino superior). Baseia-se em uma concepção construtivista
de conhecimento e de aprendizagem e apresenta um conjunto de características próprias, que irão mudar
em função do contexto específico (idade das crianças, tipo de instituição e nível de escolarização, etc).
A seguir, apontamos as principais características e etapas do trabalho por projetos tal como são
entendidas na Creche-UFF.

a) Definindo o tema de um projeto
- a definição de um tema a ser estudado é fundamental: é um dos elementos que assegura o envolvimento
de todos os participantes, na medida em que contribui para que a busca de conhecimento faça sentido e
todos encontrem um propósito na realização do projeto;
- o tema costuma estar relacionado a problemas ou questões que fazem parte da vida cotidiana e escolar
dos participantes, professora e crianças;
- o tema resulta da interação e negociação entre professora e crianças; isto quer dizer que, às vezes, o
tema é inicialmente apontado por uma ou várias crianças, mas também pode ser proposto pela professora
com base em suas observações das crianças, de suas curiosidades, de algum evento que lhes tenha
despertado a atenção, enfim, do que estão vivendo, individual e coletivamente naquele momento;
- uma vez identificado um tema que parece interessar o grupo de crianças, é necessário:
(a) verificar se o tema é de interesse geral (de todas as crianças) e se este interesse se manterá pela
duração do projeto; (b) quais as relações entre o tema e o planejamento geral previsto para a turma e,
ainda, com os RCNEI; (c) se há condições objetivas para desenvolver um conjunto de atividades
diversificadas para a realização do projeto.

b) A estrutura e função do índice
- a base da metodologia por projetos é buscar/produzir conhecimentos a partir de um conjunto de
perguntas, que são definidas em conjunto pelos participantes do projeto, isto é, por meio do diálogo entre
professora e crianças;
- isto quer dizer, de um lado, que o conhecimento é uma resposta a uma pergunta, ou ainda, que construir
conhecimento é propor respostas a determinadas perguntas; e, de outro, que aprender é encontrar
respostas, ou elaborar respostas, para as perguntas que temos em mente;
- o índice se organiza a partir de três eixos: 1- o que sabemos; 2- o que queremos saber; 3- o que
aprendemos; enquanto o primeiro eixo apresenta afirmações, o segundo eixo é composto de perguntas; já
o terceiro eixo inclui as afirmações que foram elaboradas ao longo do desenvolvimento do projeto como
respostas às perguntas iniciais, sendo que isso, geralmente, leva à formulação de novas perguntas!
- o índice, então, é o norteador de todo o projeto; é o índice que determina a direção das atividades, que
devem sempre ter por objetivo, com base naquilo que já se sabe, ajudar a encontrar respostas às perguntas
que foram propostas.

c) Passando do tema para um primeiro índice (ou: como preparar um índice)
- uma vez definido o tema, a tarefa é iniciar a preparação do índice e, em particular, definir o que sabemos
e o que queremos saber;
- a identificação do que sabemos, na forma de afirmações, deve ser cuidadosamente elaborada; a bagagem
de informações e conhecimentos das crianças deve ser sistematizada através do diálogo, lembrando
sempre que é necessário aprofundar as origens destas bagagens, identificando e explorando eventuais
diferenças ou contradições (que certamente aparecerão e podem se converter em perguntas),
problematizando o que, como adultos, sabemos não estar correto;
- o que queremos saber – as perguntas – também requerem um trabalho de elaboração já que nem toda
pergunta faz sentido! existem diferentes tipos de perguntas, algumas voltadas para conhecer o nome de
alguma coisa, outras para descrever, outras ainda para compreender como funciona ou para que serve; há
que se considerar, também, as perguntas que se originaram de discussões e hipóteses infantis divergentes
e que precisam ser resolvidas; em outras palavras, é necessário especial cuidado na formulação das
perguntas do índice que correspondem a „o que queremos saber‟.

d) O índice é dinâmico! vai mudando ...
- finalmente, é preciso considerar que o índice não está pronto de uma vez por todas; à medida que
diferentes atividades vão sendo realizadas, respostas vão sendo encontradas que precisam ser anotadas no
índice, e novas perguntas irão surgir; por isso é preciso prever, durante a realização do projeto, alguns
momentos de balanço para avaliar coletivamente seu andamento e, até mesmo, preparar novos índices;
note-se que o exercício de avaliação do andamento é reconhecidamente uma dimensão importante do
processo de aprendizagem.

e) Desenvolvimento do projeto
- o projeto propriamente dito se desenvolve a partir da realização de atividades que tem por objetivo obter
e/ou elaborar respostas às perguntas do índice e, dessa forma, ampliar a base de conhecimento de todos;
- isto quer dizer que, para cada pergunta (ou conjunto de perguntas integradas), é necessário preparar uma
ou várias atividades que possam contribuir diretamente para obter respostas a essa(s) pergunta(s); ou, dito
pelo avesso, cada atividade deve estar diretamente relacionada com alguma pergunta do índice de modo a
providenciar elementos para responder a esta pergunta;
- não há limite – a não ser a segurança física e psíquica das crianças – para pensar e propor atividades e é
importante preparar atividades dos mais variados tipos;
- entre as atividades possíveis, há aquelas que consistem em buscar informações em diferentes fontes,
como por exemplo nos livros e na internet; mas vale lembrar que também é possível obter conhecimento
através de pessoas com as quais se conversa, isto é, através de entrevistas ou palestras; essas seriam as
atividades mais simples de se organizar;
- outras atividades também devem ser planejadas, de modo a engajar as crianças em atividades práticas;
entre essas há atividades de manipulação e exploração de materiais, situações e eventos diversos; há
atividades que consistem em experiências e experimentos que podem ocorrer na sala, na cozinha, nas
áreas externas etc; e, finalmente, é possível e necessário preparar atividades relacionadas com a
linguagem (falada e escrita).

f) montagem do dossiê e finalização do projeto
- em algum momento a ser decidido conjuntamente pelos participantes, o projeto deverá ser encerrado;
- nesta etapa final, prepara-se um dossiê, geralmente coletivo, sobre o projeto; deste dossiê constam
produções e registros variados, da professora e das crianças; quando apropriado, inclui-se o índice, com
as perguntas e respostas obtidas; este dossiê – ou parte dele – é exposto, na forma de um painel e/ou com
a exposição das produções dos participantes;
- a preparação do dossiê é feita com a participação direta e ativa das crianças sob a condução das
professoras, que aproveitam para proceder com as crianças a uma análise do caminho percorrido e das
conquistas alcançadas.

g) Produção e registros infantis: ao longo de todo o projeto
- é fundamental que todas as atividades sejam planejadas de modo a incluir uma produção por parte das
crianças; a produção infantil permite às professoras, bolsistas e demais profissionais, assim como aos pais
e familiares, acompanhar os movimentos de desenvolvimento e aprendizagem de cada criança e de todas
as crianças;
- esta produção deve ser, em alguns momentos, individual, em outros momentos grupal e, em outros
ainda, pode envolver a turma como um todo;
- assim como as atividades são variadas, também a produção infantil deverá ser diversificada; assegurada
a segurança das crianças, não há limite para a imaginação: desenhos com recursos/materiais diversos em
papel ou outro suporte, colagens, construção de objetos em papelão, massinha, com grãos etc etc etc.

4 - PALAVRAS FINAIS

Pensando pelo avesso ... O que projetos de trabalho não são e o que são:
- o trabalho por projeto é diferente de uma aula que visa trabalhar um determinado conteúdo em um
tempo pré-estabelecido ...;
- por exemplo, o trabalho por projeto pode durar algumas semanas ou meses, até chegar a sua conclusão;
- no trabalho por projeto, o „conteúdo‟ é um tema, algo que desperta curiosidade e suscita/provoca
perguntas e é escolhido em conjunto pelas professoras com as crianças (ou grupos de crianças);
- um projeto é definido em conjunto por crianças e adultos responsáveis; podem participar todas as
crianças ao mesmo tempo ou grupos menores que se alternam na realização das atividades;
- um princípio definidor da abordagem por projetos é que todos são co-responsáveis pela realização do
projeto, porque todos encontram sentido nas questões e problemas que foram propostos.

5 - ALGUMAS REFERÊNCIAS

A Pedagogia de Projetos não é nova: esta abordagem pedagógica é proposta e discutida por um autor dos
Estados Unidos, W.H. Kilpatrick, desde os anos 1910, para o Ensino Fundamental, Médio e Superior.
Hoje, esta abordagem é muito difundida e não apenas na Educação Infantil, sendo também proposta para
a educação em ciências. Por essa razão, existem diversos autores e muitas publicações sobre o assunto.
Na Creche-UFF, a proposta de trabalho por projetos se inspira principalmente da perspectiva de
Hernández & Ventura (1998) e é atualmente (2005-2007) tema de um projeto da equipe de pesquisa da
Creche-UFF.

INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

BORBA, A.M. (2006) O trabalho por projetos na Educação Infantil. Palestra (ppt).
COLINVAUX, D. (2004) Science and young children: An exploratory study of teachers‟ views.
Trabalho aceito para a 18th Biennial ISSBD Meeting. Ghent/Bégica, Julho 2004 (International
Society for the Study of Behavioral Development). (versão em português em preparação).
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FURTADO, P.G. & BARENCO DE MELLO, M. (2005) Experiência, linguagem e
conhecimento na educação infantil: análise de um projeto educacional. Trabalho
apresentado no V CBPD/Cpngresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento,
São Paulo, Setembro.
HELM, J.H & BENEKE, S. (2005) O poder dos projetos: novas estratégias e soluções para a
educação infantil. Porto Alegre, Artmed.
HELM, J.H. & KATZ, L. (2001) Young investigators: The Project approach in the early years.
New York, Teachers College, Columbia University.
HERNÁNDEZ, F. & VENTURA, M. (1998) A organização do currículo por projetos de trabalho.
Porto Alegre, ArtMed.
KILPATRICK, W.H. (1918). The project method. Teacher's College Record, 19, 319-335.
KILPATRICK, W.H. (1922) The project method in college courses in education. Educational
Review, vol. 64, 207-217.
PARDAL, M.V.C; COLINVAUX, D; PICANÇO, M.B.M. (2005) Educação infantil, propostas
educacionais e subjetividade. Trabalho apresentado no V CBPD/Cpngresso Brasileiro de
Psicologia do Desenvolvimento, São Paulo, Setembro.
SANTOMÉ, J.T. (1998) Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto
Alegre, Artes Médicas.
SILVA, S.C.V. & FERREIRA, V.S. (2004) As perspectivas teóricas da abordagem de projetos.
ContraPontos, 4(1), 169-187.