A Revelação na Teologia Reformada

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência
manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os
homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele
conhecimento de Deus e da sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o
Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos revelarse e declarar à
sua !"re#a aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e
propa"ação da verdade, para o mais se"uro estabelecimento e conforto da
!"re#a contra a corrupção da carne e mal$cia de Satanás e do mundo, foi
i"ualmente servido fazêla escrever toda% !sto torna a &scritura Sa"rada
indispensável, tendo cessado aqueles anti"os modos de Deus revelar a sua
vontade ao seu povo '(onfissão de )* de +estminster, ,-,.
O primeiro capítulo da (onfissão de )* de +estminster começa tratando da
bibliologia, a doutrina das Escrituras. Isto é apropriado. Não porque a doutrina
das Escrituras seja mais importante do que outras doutrinas, como a pessoa e
obra de Deus (a teologia propriamente dita e de !risto (a cristologia. "as
porque a doutrina das Escrituras é a base, a #onte de todas as demais doutrinas.
!om o princípio re#ormado resumido na e$pressão latina sola Scriptura, os
re#ormadores rejeitaram a autoridade das tradiç%es eclesi&sticas e das supostas
no'as re'elaç%es do Espírito. E restabeleceram as Escrituras como (nica regra
de #é e pr&tica, como (nica #onte autoritati'a em matéria de doutrina e pr&tica
eclesi&stica.
DIVISÃO DO ASSUNTO
)s seguintes doutrinas são tratadas neste capítulo da (onfissão de )**
Doutrina da +e'elação (par&gra#o I
O !,non e a Inspiração das Escrituras (par&gra#os II e III
)utoridade das Escrituras (par&gra#os I- e -
.u#ici/ncia das Escrituras (par&gra#o -I
!lare0a das Escrituras (par&gra#o -II
1reser'ação e 2radução das Escrituras (par&gra#o -III
Interpretação das Escrituras (par&gra#o I3
O 4ui0 .upremo das !ontro'érsias +eligiosas (par&gra#o 3
REVELAÇÃO NATURAL
) (onfissão de )* de +estminster começa pro#essando a doutrina da re'elação
natural* Deus se re'ela por meio das obras que #oram criadas e da pr5pria
consci/ncia do 6omem, na qual est& impregnado um padrão moral, ainda que
imper#eito por causa da queda.
7iblicamente #alando, o uni'erso #ísico é uma pregação. O cosmos proclama os
atributos de Deus. O macrocosmos (as estrelas, os planetas, os satélites, com sua
imensidão, grande0a e leis, o cosmos (a terra, os mares, as montan6as, os
'egetais, os animais, o 6omem, e o microcosmos (os microorganismos, a
constituição dos elementos, etc. re'elam muita coisa a respeito da pessoa e da
obra de Deus. O )utor de tal obra tem de ser in#initamente s&bio e poderoso.
O pr5prio ser 6umano, como criatura de Deus, independentemente do
aprendi0ado, j& nasce com uma consci/ncia, uma 'ersão da lei de Deus
impregnada no seu ser que o 6abilita a discernir entre o bem e o mal e com um
instinto que o indu0 8 adoração da di'indade. Este é o ensino bíblico do )ntigo e
do No'o 2estamento*
/s c*us proclamam a "l0ria de Deus e o firmamento anuncia as obras das
suas mãos% 1m dia discursa a outro dia e uma noite revela conhecimento a
outra noite% 2ão há lin"ua"em, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum
som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras at*
aos confins do mundo 'Sl ,3-,4.%
5orquanto o que de Deus se pode conhecer * manifesto entre eles, porque Deus
lhes manifestou% 5orque os atributos invis$veis de Deus, assim o seu eterno
poder como tamb*m a sua pr0pria divindade, claramente se reconhecem,
desde o princ$pio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram
criadas '6m ,-,378.%
9uando, pois, os "entios que não têm lei procedem por natureza de
conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos% &stes
mostram a norma da lei "ravada nos seus coraç:es, testemunhandolhes
tamb*m a consciência, e os seus pensamentos mutuamente acusandose ou
defendendose '6m 7-,4,;.%
)o estudar a criação, o 6omem de'eria procurar 'er Deus nela, pois é obra dele,
e re'elam os seus atributos. )s ci/ncias podem até ser consideradas
departamentos da teologia, especiali0aç%es que estudam a criação e a
pro'id/ncia. O estudo da química, da #ísica, da matem&tica, da biologia, da
geogra#ia, da política, da antropologia, da 6ist5ria, etc., de'e ter por #im (ltimo a
gl5ria de Deus. Não é sem ra0ão que muitos dos primeiros cientistas dignos do
nome eram cristãos sinceros, como Isaac Ne9ton e :arada;.
)o se estudar a criação, em qualquer es#era, de'eria se descobrir nela as mãos
de Deus e as mãos do diabo. 1or um lado, obser'a<se nela impressionante e
substancial l5gica, ordem, 6armonia, sabedoria e poder. 1or outro lado, pode<se
também perceber na nature0a os traços da corrupção, desordem, con#lito e
degeneração decorrentes da queda. "as a educação do nosso século,
especialmente no nosso país, embora, em geral, rei'indique ser cristã, tornou<se
na 'erdade materialista. Onde, nas escolas e uni'ersidades, essas disciplinas são
estudadas com essa perspecti'a e com esse prop5sito=>
A CULPA HUMANA
.e o 6omem não 6ou'esse caído, a re'elação natural seria su#iciente para que
ele compreendesse as 'erdades com relação a Deus, 8 criação, ao pr5prio
6omem, etc.? de modo a submeter<se a Deus e a ador&<lo, rendendo<l6e a graça,
o lou'or e a 6onra que l6e são de'idas.
"esmo caído, a re'elação natural ainda é su#iciente para torn&<lo indesculp&'el,
pois o 6omem natural deturpa a re'elação natural. Ele não d& ou'idos 8
pregação da nature0a que o con'ida a glori#icar a Deus. Ele não se submete 8
proclamação do cosmo, nem recon6ece a origem di'ina das leis que regem o
uni'erso. O 6omem natural também não se submete 8s leis da sua pr5pria
consci/ncia, transgredindo<as constante e deliberadamente. +ecusando<se
rebeldemente a recon6ecer a soberania do !riador e a ador&<lo, o 6omem
natural pre#ere adorar a criatura.
<ais homens são por isso indesculpáveis; porquanto tendo conhecimento de
Deus não o "lorificaram como Deus, nem lhe deram "raças, antes se tornaram
nulos em seus pr0prios racioc$nios, obscurecendoselhes o coração insensato%
!nculcandose por sábios, tornaramse loucos, e mudaram a "l0ria do Deus
incorrupt$vel em semelhança da ima"em de homem corrupt$vel, bem como de
aves, quadr=pedes e r*pteis%%% pois eles mudaram a verdade de Deus em
mentira, adorando e servindo a criatura, em lu"ar do (riador, o qual *
bendito eternamente% Am*m '6m ,-7,7>, 7;.%
Este diagn5stico é igualmente 'erdadeiro, quer aplicado 8 #iloso#ia dos so#istas,
epicureus e gn5sticos da @récia )ntiga, quer aplicado ao 6umanismo
renascentista, quer aplicado 8 ci/ncia materialista moderna. Onde, insisto, nas
escolas e uni'ersidades de nosso país, estuda<se a criação pela perspecti'a das
Escrituras e com o prop5sito de glori#icar a Deus=
O 6omem natural con#unde o !riador com a criação (e cr/ no panteísmo, isola
o !riador da criação (e prega o deísmo, rejeita o !riador (e pro#essa o
materialismo, ou d&<se por satis#eito com a criação (dando origem ao
naturalismo. Na sua louca cegueira, o 6omem natural rebelde 'ai além* ele
pre#ere atribuir os traços de corrupção, desordem e con#lito percebidos na
criação ao !riador, e e$plicar a substancial l5gica, ordem, 6armonia, sabedoria e
poder nela percebidos 8s #orças cegas da nature0a, 8 e'olução natural, 8 seleção
natural, ou mesmo a mutaç%es genéticas.
1or isso o 6omem é indesculp&'el. 1or isso é justamente culpado* por se recusar
a andar con#orme o grau da re'elação que recebe, seja da nature0a, seja da
consci/ncia, e se entregar rebelde e arrogantemente a todo tipo de impiedade.
?/ra, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são pass$veis de morte os que
tais coisas praticam, não somente as fazem, mas tamb*m aprovam os que
assim procedem@ '6m ,->7.%
INSUFICIÊNCIA DA REVELAÇÃO NATURAL
) re'elação natural é, portanto, su#iciente para condenar, mas não para sal'ar.
De'ido ao estado decaído do 6omem, a re'elação natural não é nem clara nem
su#iciente para que as 'erdades necess&rias 8 sua sal'ação sejam
compreendidas.
) religião natural ensina que a re'elação da nature0a é su#iciente para a sal'ação
do 6omem. 1ara os que assim pensam, a mente 6umana desassistida pode
compreender tudo o que é necess&rio 8 sal'ação. "as tal ensino contradi0
#rontalmente a re'elação bíblica. De acordo com as Escrituras, Ao 6omem
natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque l6e são loucura? e não
pode entend/<las porque elas se discernem espiritualmenteB (C !o D*CE.
.egundo as Escrituras, Aaprou'e a Deus sal'ar aos que cr/em, pela loucura da
pregaçãoB (C !o C*DC. F por isso que o ap5stolo 1aulo e$clama* A2odo aquele
que in'ocar o nome do .en6or ser& sal'o. !omo, porém, in'ocarão aquele em
que não creram= E como crerão naquele de quem nada ou'iram= E como
ou'irão, se não 6& quem pregue=B (+m CG*CH<CE. Iual a conclusão= AJogo, a #é
'em pela pregação (pelo ou'ir e a pregação (o ou'ir, pela pala'ra de !ristoB
(+m CG*CK.
Deus se re'ela na criação, sim. Esta re'elação é su#iciente para tornar a raça
6umana indesculp&'el. "as, por causa da queda, não é su#iciente para a
sal'ação de ninguém.
REVELAÇÃO ESPECIAL
Não sendo a re'elação natural su#iciente para sal'ar o 6omem em #unção da
queda, aprou'e a Deus re'elar<se diretamente 8 igreja.
)ssim, Deus preparou um po'o, Israel, na )ntiga )liança, e a greja, na No'a
)liança, para re'elar<l6e diretamente o con6ecimento necess&rio 8 sal'ação. De
modo direto e sobrenatural, por meio do seu Espírito, atra'és de re'elação
direta, teo#anias, anjos, son6os, 'is%es, pela inspiração de pessoas escol6idas e
pelo seu pr5prio :il6o, Deus comunicou progressi'amente 8 igreja, no curso dos
séculos, as 'erdades necess&rias 8 sal'ação, as quais, de outro modo, seriam
inacessí'eis ao 6omem.
:oi assim que Deus re'elou<se a Noé, a )braão, a "oisés, aos pro#etas, a Da'i, a
.alomão, aos seus ap5stolos e, especialmente, em !risto. F neste sentido que o
autor da Epístola aos Lebreus a#irma que, ALa'endo Deus, outrora, #alado
muitas 'e0es e de muitas maneiras, aos pais, pelos pro#etas, nestes (ltimos dias
nos #alou pelo :il6o a quem constituiu 6erdeiro de todas as coisas, pelo qual
também #e0 o uni'ersoB (Lb C*C<D. !risto é a re'elação #inal de Deus.
F este também o sentido das pala'ras do ap5stolo 1aulo endereçada aos g&latas*
A:aço<'os, porém, saber, irmãos, que o e'angel6o por mim anunciado não é
segundo o 6omem? porque eu não o recebi, nem o aprendi de 6omem algum,
mas mediante re'elação de 4esus !ristoB (@l C*CC<CD.
M igreja de Deus, portanto, #oram con#iados os or&culos de Deus, uma re'elação
especial, inspirada, clara, precisa, autoritati'a, su#iciente para ensinar ao
6omem o que ele de'e con6ecer e crer e o que dele é requerido, com 'istas 8 sua
pr5pria sal'ação e 8 gl5ria de Deus.
REVELAÇÃO ESCRITA
2endo em 'ista a insu#ici/ncia da re'elação natural e a absoluta necessidade da
re'elação especial, aprou'e a Deus ordenar que esta re'elação #osse toda escrita,
a #im de que pudesse ser preser'ada e permanecesse disponí'el, para a
consecução dos seus prop5sitos eternos. Deus con6ece per#eitamente a nature0a
6umana corrompida. Ele con6ece também a malícia de .atan&s, bem como a
per'ersão do mundo. Ele sabe que re'elar a sua 'ontade 8 igreja não seria
su#iciente, pois seria #atalmente corrompida e deturpada. 7asta obser'ar as
tradiç%es religiosas, mesmo as ditas cristãs? como tendem ine$ora'elmente para
o erro>
1or isso Deus #e0 com que todas as 'erdades necess&rias 8 sal'ação,
santi#icação, culto, ser'iço e 'ida do 6omem, #ossem escritas e preser'adas, para
que pudessem ser con6ecidas, cridas e obedecidas. !om este prop5sito, o
pr5prio Deus, por meio do seu Espírito, inspirou os autores bíblicos, a #im de
que pudessem escre'er a re'elação especial, sem erro algum.
<oda &scritura * inspirada por Deus e =til para o ensino, para a repreensão,
para a correção, para a educação na #ustiça, a fim de que o homem de Deus
se#a perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra '7 <m >-,A.%
<emos assim tanto mais confirmada a palavra prof*tica, e fazeis bem em
atendêla, como a uma candeia que brilha em lu"ar tenebroso, at* que o dia
clareie e a estrela da alva nasça em vossos coraç:es; sabendo, primeiramente,
isto, que nenhuma profecia da &scritura prov*m de particular elucidação;
porque nunca #amais qualquer profecia foi dada por vontade humana,
entretanto homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo &sp$rito
Santo '7 5e ,-,37,.%
De acordo com este par&gra#o da !on#issão, portanto, a re'elação escrita é
e$pressão da graça de Deus com 'istas 8 preser'ação da integridade da
'erdadeira religião e 8 sal'ação, edi#icação e con#orto do seu po'o.
NECESSIDADE DAS ESCRITURAS
.endo a 1ala'ra escrita o meio escol6ido por Deus para re'elar a sua 'ontade ao
6omem, ela não pode ser dispensada, igualada, acrescentada nem suplantada.
Nem o Espírito agiria em detrimento ou 8 parte dela, mas com e por ela. F neste
sentido que as Escrituras são necess&rias e indispens&'eis para a comunicação
das 'erdades necess&rias 8 sal'ação.
) Igreja !at5lica t/m a tradição oral. Os re#ormadores radicais tin6am a pala'ra
interior. Outras denominaç%es modernas t/m no'as re'elaç%es do AEspírito.B )
#é re#ormada se #undamenta inteiramente nas Escrituras.
Paulo R. B. Anglada
Font! Sola Scriptura! A Dout"#na R$o"%ada da& E&'"#tu"a&. Ed. O&
Pu"#tano&