REVISTA O CRUZEIRO

10 de novembro de 1928
http://www.memoriaviva.com.br/ocruze...8/101128_1.htm

“Officiellement mon cher Pimenta, tu n’as rien vu”, disse-me Agache após ter feito
passar ante meus olhos todos os desenhos, projectos, perspectivas e maquettes, de
cujo emmaranhado surge, pouco a pouco, a visão maravilhosa do Rio de Janeiro de
amanhã.
Agache e o nosso Prefeito temiam que um plano ainda em simples delineamento,
exposto a uma opinião pública ainda não bem preparada, fosse mal apreciado.
Contradictei porém ambos com tal ardor ou taes argumentos que, cansados ou
convencidos, elle calarams-e sorrindo.
E quem sorri não desapprova.
Cedi pois, sem constrangimento, ao pedido dos diretores da “Cruzeiro” para transmitir
a impressão que trouxe daquella visita ao Rio de Janeiro de 1950, ao Rio de Janeiro de
nossos filhos e nossos netos.
Indubitavelmente o plano geral de transformação e desenvolvimento de nossa cidade,
projectado para ser concluído dentro de 30 a 50 anos, constituirá um forte e nobre élo
entre a geração de hoje e as gerações vindouras, encadeando os sentimentos da
nacionalidade, desenvolvendo a consciencia social do povo, fortalecendo enfim a alma
brasileira.
Lendo as plantas e contemplando o grande esboço que encerra a concepção geral do
novo Rio de Janeiro, senti que Alfred Agache havia compreendido bem as possibilidade
formidaveis de progresso de nosso paiz.
Indiscutivel, com effeito, é que o Brasil será dentro de 10 ou 20 annos a mais populosa
nação latina do mundo; e como é extenso o seu territorio e enormes as suas riquezas,
facil e prever o alento novo que aqui receberá a raça e as fortes e elevadas
affirmações de valor que aqui ella dará.
A confiança que o povo brasileiro tem no porvir não nasce portanto da fantasia ou do
sentimentalismo senão que se alicerça na razão, nos factos, nos ensinamentos da

Historia. É mesmo uma fé do que uma previsão scientifica. realmente. imponente. Integrar-se-á destarte nossa principal via publica na sua funcção definitiva de entrada nobre da cidade. embora rapida e fugaz. verdadeiras arterias. banhada na luz de projectores occultos. ficará a praça monumental . Não falta grandiosidade e belleza nessa obra gerada com notavel senso pratico e exacta compreensão das realidades. que pouco interessam. que com as avenidas largas. Sabe-se aliás que a funcção característica do urbanista é conjugar as necessidades materiaes da cidade com as exigencias superiores da intelligencia. cortará perpendicularmente a Avenida Rio Branco. Maravilha de architectura. Deixo de preferencia ao leitor. deve ser o plano de transformação de desenvolvimento de uma cidade. detalhadas.reservado ao desembarque das grandes personalidades que aqui aportarem e naturalmente destinado ás manifestações. esta praça terá a forma de U retangular com a abertura voltada para o Oceano. com exacto prolongamento do eixo da praça. tal como os contemporaneos de Haussmann ante-gozaram nos projectos deste a magnifica realidade que é o Paris de hoje. na analyse do passado. no cáes da antiga . Agache. Tomando o centro da linha do fundo. ligações intelligentemente articuladas. ao ideal que é o início de todas as realizações.vestibulo sumptuoso da cidade . que se estenderão até aos suburbios extremos da cidade e as grandes ruas que communicarão os arrabaldes e bairros entre si. a avenida Rio Branco dahi partirá. do futuro Rio de Janeiro. Eis porque o projecto em elaboração cogita já das ligações que um dia terão de ser feitas entre o Rio e Nictheroy. no terreno que se conquistará ao mar pela rectificação do incongruente sacco da Glória. formada pelo prolongamento do actual canal do Mangue. Uma nova e larguissima rua. entre o Rio e a Ilha do Governador. um campo aberto á imaginação. Previsão scientifica. ao sonho. descortinando e ao mesmo tempo compondo as mais variadas e encantadoras perspectivas. da inegualavel cidade que entrevi nos desenhos e nas palavras de Alfred. indo até ao mar. na nevoa de algumas palavras. Em frente á barra da Guanabara. Alfred Agache conseguiu plenamente tal objectivo no traçado de transformação de nossa Capital. Não descerei às descripções minuciosas. comicios e demonstrações do povo por se tornar o logradouro de maior area e o principal centro da metropole. Quero que o leitor tenha a visão. O Rio de Janeiro terá majestade e harmonia pela singular expressão artística com que no novo plano são resolvidos todos os seus problemas urbanos.

pondo assim estes em communicação directa com o centro da cidade. Será a mais larga. livre do contraforte das montanhas e da barreira do mar. varias outras ruas serão abertas. para penetrar nas regiões aonde a cidade. expandindo emfim livremente um anhelo de progresso e de . rapidamente se despeja e se desenvolve.Alfandega. Ipanema. Correndo quasi parallelamente é actual Avenida Mem de Sá. Gavea e Laranjeiras. Encurtando as distancias entre os bairros. sujeitando a architectura ás imposições e caprichos da moderna sciencia de construir. Leopoldina e Central do Brasil. Leme. ligando-o aos bairros de Botafogo. Essa rua passará deante da Estação Monumental a se construir nas proximidades da Praça da Bandeira. transpondo. inteiramente desimpedidas para o trafego rapido e frequentemente offerecendo seductores aspectos da privilegiada natureza que é o orgulho e a alegria de nossa gente. Vencendo a rotina. e que colherá. todas as estradas de ferro que servem ao Rio: Auxiliar. Copacabana. e prolongando-se além desta uma outra ampla e bella avenida virá entroncar-se com a precedente. Rio d’Ouro. E se estenderá no seu sentido opposto. algumas transpondo pequenos tunneis ou cortando fraldas de montanhas. a mais longa e mais movimentada avenida de nossa Capital. os bairros e suburbios que ficam além da Praça da Bandeira. rasgada do mar até á zona dos suburbios. no ponto fronteiro á referida Estação Monumental. Receberá deste modo o centro ferroviario uma via publica de grande proporção. em um só feixe. sempre com a mesma largura.

Agache valeu-se da area devoluta resultante do desmonte do Castello para ensaiar um systema de urbanização original que consubstancia as idéias mais adeantadas e mais logicas das tendencias actuaes. isto é.perfeição. Mas no interior do bloco. De quando em quando. Cada bloco de construcção receberá na peripheria. mas sim que obedeceu aos desejos da intelligencia. Estou certo porém de que. que não era senão o desejo de gozar a majestade sem igual. em abandono. o conforto sem falhas que offerecerá aquelle recanto da cidade. Apreciando essa concepção de Agache. atravessará essas galerias uma passagem para acesso ás praças centraes onde se erguem os edifícios gigantes. ás razões da utilidade.verdadeiras praças internas . As vias publicas terão pois o trafego inteiramente desimpedido. Não cuidarei de esmiuçar o traçado. com 7 metros de largura. mas dignificada pelo genio da raça latina em uma obra realizada pela vontade do povo brasileiro. atravancadas de vehículos parados. Considerando o sol causticante e as intemperies que castigam as cidades tropicaes como a nossa. realizado o projecto. esboço que ocupa a mais larga parede da sala de trabalhos do urbanista Agache. na area vasia fechada pela orla desses edificios. de Paris. indecisa e fugitiva. senti nalma um anseio de viver. aquella zona da cidade dará aos seus visitantes a verificação material de que a cidade que ali se creou não foi obra do acaso. Interesse maior tem porém o systema adoptado para as edificações. ás aspirações do sentimento e. O arrojo da composição ha de ferir certamente a sensibilidade dos que não foram ainda tocados pelo espirito novo da arte. principalmente. . através da maquette em gesso metalizado que a materializa. serão admittidos arranha-céos. já conhecido do público. Pude então fitar a imagem. nas faces voltadas para as ruas que o limitam. os passeios além de espaçosos.destinada ao estacionamento de automoveis. aquella area conquistada com o sacrificio do historico morro do Castello. a belleza sem par. Sob a scentelha desse enthusiasmo. felizmente já officialmente approvado. onde o problema dos arranha-céos encontrou solução interessante e justa. com altura de 80 metros. edifícios de altura uniforme de 22 metros. serão cobertos em forma de galeria como os passeios da cidade de Turim e da rua Rivoli. mas insuperavel e magnifica. do futuro Rio de Janeiro. de conforto e de arte. sem o as pecto de garage que offerecem as actuaes ruas centraes. dispostos de modo a formarem espaços livres . e que pertence ao typo monumental do haussmannismo. producto do empirismo. passei o olhar pelo esboço geral do plano de remodelação do Rio.

traduzida pela trama das novas avenidas. sem desdem pelo sentimento brasileiro. as mesmas tradições da cidade. reconheci as mesmas ruas. havia o traço do progresso. sem desrespeito ao passado. polypo que lhe difficulta a respiração. mas sobre o intrincado destas obras. os mesmos bairros. cuja connexão inteligente estimulava a vida e a expansão de nossa capital e cuja expressão de beleza honrava a moldura inconfundivel e esplendida com que Deus presenteou a terra carioca para a alegria e felicidade de seus habitantes. Mas o Rio de Janeiro de amanhã será tambem o recreio e a ventura dos forasteiros que desejem nutrir o espírito e encher o coração. .Desembaraçada do morro de Santo Antonio. a confiança em um grande destino. Será o grande orgulho do Brasil e a mais linda metropole do mundo. ruas e boulevards. kysto que lhe enfeia a physionomia.