UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF

Niterói, 3 de janeiro de 2013.
Disciplina: História da Filosofia Contemporânea I
Professor: Eduardo Prado
Aluno: Roberto Torviso Neto

> Trabalho de História da Filosofia Contemporânea I
Heidegger e a História.
O tempo é uma grande incógnita. Alguns dizem ser a maior das invenções humanas a noção
de fatos e acontecimentos em sequência progressiva com começo, duração e término; outros,
como Heidegger, consideram a questão do tempo como sendo ontológica, isto é, há algo de
transcendente no passar dos instantes. A partir da leitura de Ser e Tempo e The Concept of
Time é possível estabelecer uma ponte com o que chamam Teoria da História, havendo
discussões bem próximas de uma Filosofia da História, mas o que Martin Heidegger teria a ver
com a forma como o estudo da história é feito?
Uma das ideias principais de Ser e Tempo trata do modo de acesso ao ser do ente que se
oculta ao mesmo tempo em que se revela. Um dos maiores nomes da historiografia francesa,
Jacques Le Goff, escreveu a obra História e Memória, no qual busca reconstruir todo o
conceito da história a partir das concepções humanas acerca desta ao longo dos séculos; e se
faz interessante reparar em uma de suas afirmações em tal obra e é a seguinte: "Toda fonte
histórica é ao mesmo tempo verdadeiro e falso". Contraditório? Só aparenta. Ao afirmá-lo, Le
Goff leva a crer que as fontes históricas significam aquilo que é conveniente em determinada
época. Há sempre uma intencionalidade na escrita da história e os documentos e outros dados
históricos são utilizados, não como prova em si e por si, mas através de uma contextualização
e seleção interpretativa de modo a fundamentar algo, como uma identidade nacional, por
exemplo.
Heidegger trata bastante também da questão de o ser em si impossível de ser acessado de
maneira absoluta, tocando com frequência no ponto da representação. Como exemplo,
consideremos um momento 10 minutos após um fenômeno, como um esbarrão com outrem:
a pessoa contra quem se esbarrou já foi embora, mas ainda há uma lembrança dela; não a
teremos em si como uma imagem perfeita de como é, mas apenas uma representação de
como nossa cognição a registrou, quase como uma caricatura daquela pessoa. Com a história
acontece algo semelhante. O passado já se deu, está encerrado em si; isto significa que não é
possível saber como de fato um evento ocorreu. Apesar disso, houve e sempre haverá a
necessidade de registrar, de poder conhecer nossas origens, o como a humanidade chegou
onde está atualmente; e há de se concordar que seria no mínimo angustiante aceitar que é
impossível falar das coisas que já aconteceram. Por isso, a história não tem a prepotência de
ditar o que houve porque não é possível conhecê-lo (e assim damos um alô ao Górgias), mas
busca-se estabelecer uma representação aproximada, estimada, do que poderia ter ocorrido a
partir do que as fontes nos dizem; e como a fontes históricas são mudas, elas dirão aquilo que
é interpretado delas próprias.
O filósofo alemão, ao apresentar o Dasein, aponta como uma de suas características o fato de
constantemente olhar para trás - isto é, para o passado – para ver como ele fora
anteriormente. O Dasein reinventa sua ontologia repensando sua secularidade, ou seja, seu
momento. Este é o homem: um ser-aí que avança um passo inseguro em direção ao futuro
sempre se voltando para trás como quem teme afastar-se demais e se perder do caminho de
casa. Daí talvez o interesse humano pela sua história: a busca pela origem, sua origem; que de
um início transcendente e místico constituído por fantasias como o mito cívico (aquele
formador de uma identidade cultural e social, por vezes nacional) para questionamentos
filosóficos a respeito da arché ou o Primeiro Motor aristotélico e, por fim, chegando ao estágio
atual de estudos científicos que levam, por exemplo, ao Big Bang como origem do universo.
Constantemente se revisa a história, motivado por alguma intenção, que em muitos casos
acaba sendo a problematização do presente.