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24 JORNAL de TURISMO 8 a 14 de JUNHO de 2009

VIDA & OBRA
Trajetória de Ary
Fontoura é marcada
pelo sucesso e pelo
amor fiel ao ofício
Págs. 22
Uma publicação da Aver Editora - 1º a 15 de Novembro de 2009 - Ano I Nº 14 R$ 5,00

Temporada
Vicente Maués / Divulgação

de
oportunidades

Não é de hoje que os musicais despertam um grande interesse no público e nos artistas.
Afinal, o palco fica repleto de atores, cantores e bailarinos que contam com um casting
completo e afinadíssimo de profissionais das áreas técnicas. O final de 2009 e início de
2010 promete ser bastante agitado para o mercado, com estréias aguardadas e novas
montagens de espetáculos históricos como Theatro Musical Brazileiro 1.
Pág. 21

FESTIVAIS TÉCNICA
ENTREVISTA
FIAC-BA arremata Designers de som ainda
“Sou muito público baiano e buscam reconhecimento
despudorada em tudo conquista a classe teatral do mercado Pág. 10
que eu faço, eu quero Pág. 18

SÃO PAULO
é ser uma pessoa Satyrianas se consagra
possível” como o maior festival
revela a atriz de teatro da cidade
Jussara Freire. Pág. 15

FORMAÇÃO
Págs. 8 e 9
Núcleo Vocacional
oferece oportunidade
Sylvia Masini / Divulgação

para alunos e emprego
Rede Globo / Divulgação

para os formadores
Pág. 7
2 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

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Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
3
Editorial
Divulgação/ Acervo Núcleo V

Formação
Projeto Núcleo Vocacional, em
São Paulo, dá oportunidade a
qualquer um de fazer arte Teatro como ofício
Pág 7

Quantas pessoas estão envolvidas, por exemplo, em um monólogo? Além
do ator em cena, pode-se listar o diretor, o designer e os operadores de som
e de luz, os camareiros, os músicos, os figurinistas, a assessoria de imprensa,
a produção, o captador de recursos, o preparador corporal e vocal – isso sem
contar a equipe de estrutura dos teatros que cuida desde a manutenção do es-
paço e da bilheteria até a produção visual dos cartazes no foyer.
Profissionais indispensáveis que não recebem os aplausos e que tentamos
sempre destacar no Jornal de Teatro. Artistas que, como diz a atriz Jussara
Freire na entrevista desta edição, escolheram esta profissão como poderiam ter
escolhido qualquer outra. Escolher a profissão é mais que seguir o amor pela
arte, é defendê-la e valorizá-la.
A questão que surgiu durante a edição que aborda muito o teatro como
emprego, oportunidade de trabalho, obtenção de renda – foi a desvalorização
a que alguns profissionais se submetem para realizar seu trabalho. Não é uma
característica só das artes cênicas, o jornalismo é outro exemplo claro, mas no
teatro isso parece mais evidente.

Índice Já é comum adaptar elenco ou texto para que o projeto passe nos editais.
Novos cortes na hora de apresentar para os patrocinadores e a essência do es-
petáculo se esvai antes mesmo da estreia. Claro que pode parecer um exagero,
mas se pensarmos em um País de criadores teatrais, torna-se fato. E os cachês-
ENTREVISTA......................................................8 e 9 teste da publicidade, são obrigatórios? Quando se deve pagar? Por que apenas
uma parcela mínima de atores exige o pagamento quando exerce sua função
A verdade latente de Jussara Freire diante de câmeras desconhecidas?
“Eu quero fazer tudo”. Essa é apenas uma das sinceras declarações Lembro de uma frase dita pela Maria Bethânia em um depoimento contido
em um dos seus maravilhosos shows. “Sei exatamente o meu valor. Nem para
que a atriz, com 36 anos de carreira, revelou ao Jornal de Teatro mais e nem para menos”. Sim, bela diva. Acredito que, ao contrário do que
possa parecer, a classe sofre com essa “auto-desvalorização”. Há uma solução
para este quadro? Não vejo nada tão próximo. É aceitar as regras do jogo e
TÉCNICA...................................................................10 seguir com o respeito pelo ofício.
Em uma das primeiras reuniões que ocorreram na Aver Editora para apre-
Designer de som sentar a proposta do Jornal de Teatro, o presidente da empresa, Claudio Mag-
navita – que também carrega como ofício a criação de espetáculos – citou
Apesar de toda a sua importância para um espetáculo teatral, a disciplina do teatro como uma metodologia a ser seguida. Se a sessão está
o profissional ainda é pouco valorizado no Brasil marcada, deve haver a apresentação – independentemente da quantidade de
pessoas na plateia, das condições climáticas ou situação econômica do mun-
do. Este ritual de dar vida a personagens que de alguma forma emocionam o
REPORTAGEM.............................................12 a 14 público, independe até mesmo do estado emocional dos atores. Não são raros
os casos de artistas que subiram ao palco logo depois de uma tragédia com
Temporada de oportunidades familiares ou amores.
Nossa edição de número 14 apresenta uma série de profissionais que sa-
Demoraram para conquistar o público, mas o crescimento dos bem bem o seu valor. Investindo na identidade teatral do Pará, organizando
musicais no Brasil significa mais empregos para a classe artística com maestria festivais em Salvador, patrocinando espetáculos e remontando
grandes musicais. E as boas notícias já estão chegando, com a estréia de gran-
des produções no final de 2009 e início de 2010. Ou seja, oportunidades para
quem leva o teatro como ofício.
ESPECIAL.....................................................16 e 17
Teatro no Pará
Ator, diretor, escritor e dramaturgo Ailson Braga fala sobre os Rodrigoh Bueno
mais de 30 anos de atividade teatral na capital paraense
Editor do Jornal de Teatro

HISTÓRIA.................................................................21
De volta aos cabarés
Após 20 anos, CCBB apresenta nova versão de Theatro Musical
Brazileiro I, um retorno ao tempo do Império e República Velha

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4 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Bastidores
Divulgação
LANÇADO O EDITAL A italiana Dodi BEVABBÈ (ASSIM É DEMAIS) VOLTA SÃO PAULO RECEBE
PARA AMPLIAÇÃO DO Contiu realiza A CARTAZ EM SALVADOR ATÉ 26 DE
stand-up comedy CENTRO DE FORMA-
TCA, EM SALVADOR NOVEMBRO COM DODI CONTI ÇÃO PARA PROFIS-
em Salvador
O governo do Estado, Depois de duas temporadas de sucesso na SIONAIS DE ARTES
por meio da Secult (Secre- cidade, a comédia que fala das inevitáveis crises CÊNICAS
taria de Cultura), lançou, dos 40 do universo feminino volta aos palcos A partir de novembro,
dia 3 de novembro, o Edi- baianos, no Teatro Gamboa, até dia 26 de no- a capital paulista terá um
tal do Concurso Público vembro, sempre as quartas e quintas-feiras. No novo berço para formação
Nacional que escolherá o monólogo de cerca de uma hora de duração, a de novos talentos das artes
Projeto Arquitetônico para atriz italiana Dodi Conti utiliza as técnicas da cênicas. A São Paulo Escola
Requalificação e Ampliação stand-up comedy para entreter. de Teatro - Centro de For-
do Complexo Teatro Cas- Munida apenas de microfone, sem nenhum mação das Artes do Palco,
tro Alves, equipamento da tipo de acessório cênico, Dodi consegue fazer idealizada pelo Governo do
Funceb (Fundação Cultu- rir com cenas que demonstram a completa falta Estado de São Paulo, tem
ral do Estado da Bahia). O de habilidade de seu personagem para entender como objetivo dar condi-
lançamento foi apresenta- (e seduzir) o sexo oposto. Dessa forma, “Beva- ções a artistas que buscam
do a arquitetos, escritórios bbè” - cujo nome refere-se à expressão italiana aperfeiçoar seus conheci-
de arquitetura e imprensa, que significa “assim é demais!”, leva aos palcos mentos na área do teatro.
durante café da manhã, no uma personagem que resolve dar uma virada na Para isso, a escola ofere-
Foyer do TCA. O Projeto sua vida: mudar sua opção sexual - e pela pri- cerá oito cursos regulares,
vencedor do concurso, que meira vez tentar se relacionar com homens! com carga horária mensal
conta com parceria técni- “Bevabbè” volta à cartaz em um momento de 96 horas, que abran-
ca do IAB (Instituto dos em que programas como o CQC têm popu- gem diversos segmentos
Arquitetos do Brasil – De- larizado o stand up comedy – gênero que a teatrais: iluminação, técni-
partamento da Bahia), bali- atriz conhece muito bem. No final de 2006 e cas de palco e cenografia,
zará as intervenções que se em 2008, o espetáculo teve casa cheia todas atuação, direção, humor,
fazem necessárias no Com- as noites, no Theatro XVIII. “Foi uma experi- sonoplastia, e dramaturgia.
plexo do TCA, incluindo-se ência maravilhosa e surpreendente para mim, A Escola de Teatro, que
todos os seus espaços: Sala além de um grande desafio fazer um monó- funcionará inicialmente na
Principal, Concha Acústica, logo em outra língua e fora da Itália”, disse Oficina Cultural Amácio
Sala do Coro, Foyer, Centro Dodi, que reside em Salvador desde 2007 e Mazaroppi, no bairro do
Técnico, Jardim Suspenso e agora pretende apresentar seu trabalho para Brás, será dirigida a jovens
Vão Livre. um público ainda maior. maiores de 18 anos - com
2º grau completo. Serão
Divulgação
1º FESTIVAL MUNICIPAL DE CIRCO abertas 1,2 mil vagas, ao
Entre os dias 16 e 22 de novembro, o Centro de São Paulo ano, sendo 200 para alunos
receberá o 1º Festival Municipal de Circo, que reúne uma mostra regulares e as demais para
competitiva, a 4ª Palhaçaria Paulistana, e a inauguração do Cen- alunos dos cursos de difu-
tro de Memória do Circo, na Galeria Olido. No sábado, dia 21 são cultural. Os alunos regu-
de novembro, haverá também um encontro de malabaristas, das lares devem cumprir quatro
11h às 16h, no Largo do Paissandu. Pelo quarto ano consecuti- horas de aulas de terça-feira
vo, a Palhaçaria Paulistana deverá reunir mais de 250 artistas de a sábado, durante dois anos.
circo em uma semana de espetáculos gratuitos, em evento pro- Já os alunos dos cursos de
movido pela Secretaria Municipal de Cultura em parceria com a difusão cultural terão qua-
Cooperativa Paulista de Circo. tro horas de aula, uma vez
Nesta edição, além do Vale do Anhangabaú, onde continu- por semana, durante quatro
ará sendo montada a lona principal com capacidade para 400 meses. A escola também es-
pessoas e o trapézio ao ar livre, onde acontecerão apresenta- tará aberta à população, que
“Nariz de Prata” irá ficar em cartaz no Rio até o final do ano
ções e atividades, outros endereços do Centro receberão ativi- poderá conferir palestras,
dades, como o Largo do Paissandu, berço do circo paulistano debates e workshops.
ESPETÁCULO INFANTIL MARCA
que se tornou ponto de encontro dos artistas circenses todas
ANIVERSÁRIO DE COMPANHIA CARIOCA PROCESSO
as segundas-feiras – dia de folga da categoria – que se reunia
O grupo Omamë Teatro comemora 15 anos de existência SELETIVO
no “café dos artistas”, como era conhecido o local. Além disso,
e de intensa pesquisa no processo e experimentação teatral. E Em novembro, teve iní-
temporadas dos circos Irmãos Queirolo e Alcebíades marcaram
para celebrar serão, de agora até 2010, quatro espetáculos em cio concurso público para
o auge do circo na região. O palhaço Piolin, ícone circense que
cartaz no Rio de Janeiro. O primeiro é a nova montagem de a seleção e contratação dos
contava com a simpatia dos modernistas, freqüentadores assídu-
“Nariz de Prata”, que estreou no dia 24 de outubro, no Teatro professores que irão lecio-
os dos seus espetáculos. A mostra competitiva dará prêmios em
Maria Clara Machado (Planetário), e fica em cartaz até 20 de nar na Escola e também
dinheiro os melhores espetáculos inscritos voluntariamente pela
dezembro, aos sábados e domingos, às 17h. as inscrições para o pro-
internet, no endereço http://cultura.prefeitura.sp.gov.br
cesso seletivo dos alunos.
“Com base na experiência
Foto de divulgação profissional dos coorde-
CELEBRAÇÃO PLÍNIO SCARLETT JOHANSSON ESTRÉIA nadores de cada curso, o
MARCOS EM BRASÍLIA ESPETÁCULO EM DEZEMBRO projeto pedagógico da Es-
Dentro da programação da Após emprestar todo seu talento e beleza ao cine- cola preparará o aluno para
Mostra Dulcina de Moraes, que ma, a bela Scarlett Johansson irá se aventurar nos palcos os desafios do mercado”,
nesta sua 10ª Edição homenageia da Broadway. Conhecida mundialmente por ser uma das destaca Alberto Guzik, co-
o dramaturgo Plínio Marcos, a musas inspiradoras de Woody Allen, e por estrelar pro- ordenador pedagógico da
Ossos do Oficio - Confraria das duções como a “Ilha”, “Vicky Cristina Barcelona”, “The Escola de Teatro. A pro-
Artes, com o apoio da Faculda- Spirit” e mais recentemente “Homem de Ferro 2”, Scarlett posta é adequar os estudan-
de de Artes Dulcina de Moraes, fará parte do elenco da peça “A view from the bridge”, de tes a processos nos quais
apresenta o projeto Celebração Arthur Mille. A montagem, que estreia no dia 28 de de- não haverá predomínio de
Plínio Marcos, com três apresen- zembro, deve ficar em cartaz por 14 semanas. A atriz en- um diretor, dramaturgo ou
tações do espetáculo “Balada de cenará ao lado de Liev Schreiber (“Pânico”,”Wolverine”), ator, mas uma contribuição
um palhaço”, a palestra “Con- ator hollywoodiano, que recebeu o prêmio Tony em 2005 horizontal e harmônica de
versa sobre Plínio Marcos”, com por sua performance na peça “Glengarry Glen Ross”. cada integrante do projeto.
Kiko Barros, filho do dramatur- Na história, escrita originalmente em 1955, Scarlett Johans- “O artista formado pela Es-
go, e a oficina “Modos de Gestão son vai interpretar uma garota órfã de 17 anos que desperta cola participará de um uni-
Coletiva e Produção Cultural”. a paixão de seu próprio tio, um estivador vivido por Schrei- verso múltiplo e dinâmico,
Os espetáculos acontecem no ber. A produção teatral será dirigida por Gregory Mosher, no qual cada setor dialogará
início de dezembro e detalhes da que já realizou montagem de “Um bonde chamado desejo” plenamente com o outro”,
programação estão disponíveis com Alec Baldwin e Jessica Lange no elenco. explica o diretor pedagógi-
Plínio Marcos é lembrado
em www.pliniomarcos.com co.
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
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Divulgação
Bastidores
FESTIVAL DE TEATRO PARNAMIRIM, NO RN, RECEBE INVESTIMENTO
DE FOZ DO IGUAÇU DE R$ 3,3 MILHÕES DO GOVERNO FEDERAL
ATRAIU PÚBLICO PARA CONSTRUÇÃO DE TEATRO
DE 6 MIL PESSOAS Durante visita à cidade, o ministro da Cultura, Juca Ferreira,
A 7ª edição do Festival de prometeu liberar R$ 3,3 milhões para a construção da sala multiuso
Teatro de Foz do Iguaçu levou em Parnamirim. Segundo a deputada Fátima Bezerra, presente ao
ao Iguassu Boulevard e tam- encontro, o valor total do projeto é de R$ 5,3 milhões e a prefeitura
bém às salas do Sesc, Fundação entrará com uma contrapartida de R$ 1 milhão.
Cultural e Teatro Barracão, cer- No próximo dia 12 de novembro, a secretária de Cultura e o se-
ca de seis mil pessoas durante cretário de Obras de Parnamirim, acompanhados da deputada Fá-
os sete dias de apresentações. tima, terão nova audiência com a secretária-executiva do Ministério
Foram encenados 16 espetácu- da Cultura, Silvana Meireles, para dar encaminhamento ao projeto
los nacionais e sete municipais, naquele ministério.
além de documentário, sarau,
wokshop, contação de histó-
ria, palestra e leitura dramática.
SEGUE EM SÃO PAULO A
O secretário geral da Funda-
CAMPANHA “VÁ AO TEATRO”
ção Cultural, Adilson Pasini,
“Édipus Rex”, da Corpos Nômades, mescla diferentes estilos de dança Desde o dia 26 de outubro (e até o dia 13 de dezembro),.o
avaliou o sucesso do festival.
público paulistano poderá aproveitar diversos espetáculos
Disse que a participação do pú-
COREOGRAFIA REÚNE CARNAVAL E HIP-HOP em cartaz a preço popular. Trata-se da campanha “Vá ao
blico superou as expectativas e
Projeto pensado e gestado desde 2001, “Édipus Rex”, o Teatro”, que tem o objetivo de incentivar o espectador a co-
todos os dias do festival as sa-
novo espetáculo da Cia. Corpos Nômades, estréia dia 13 de nhecer montagens sem gastar muito. Mais de 60 peças desti-
las ficaram lotadas. “A presença
novembro, na sede da companhia (Rua Augusta, 325, São Pau- narão, no mínimo, 10% da lotação da sala à campanha. Isso
de grande público só justifica a
lo), sob a direção de João Luís Minelli Andreazzi, que com- fará com que montagens como “Cloaca”, “Calígula” e “Valsa
necessidade da construção de
pleta, em 2009, 20 anos de carreira como coreógrafo. “Édipus Nº 6”, que estão na faixa de R$ 30, e produções como “Essa
um espaço para no mínimo 1,5
Rex” mescla dança contemporânea, teatro, vídeoarte e funde é a Nossa Canção” e “As Pontes de Medison”, que ficam
mil pessoas”, enfatizou. Para
os elementos do Hip-Hop, (com o rapper Terra Preta), do gra- entre R$ 60 e R$ 80, tenham ingressos a R$ 5. Mas vale ficar
2010, a proposta da organiza-
fite (com o grafiteiro Tota), da música (com o DJ Dan-Dan) atento pois, a cada apresentação, esgotada a cota, o preço do
ção é trazer mostras que con-
e do Carnaval (com o Mestre Sala Gabi, da Escola de Samba bilhete volta ao valor original.
greguem grupos da América
Camisa Verde e Branco). Mais informações em www.ciacor- Latina. (Com informações da
posnomades.art.br ABN News)
Paulo Cesar da Silva

Debora Duarte no lançamento da Coleção Aplauso Wagner de Assis e Stenio Garcia estiveram presentes Claudio Fragata e Jorge Loredo fizeram questão de estar no lançamento

LANÇAMENTO DO
200º TÍTULO DA
COLEÇÃO APLAUSO
Aconteceu, dia 28 de outubro,
no Shopping Frei Caneca, em São
Paulo, a grande festa de lançamen-
to de mais de 30 novos livros da
Coleção Aplauso. Stênio Garcia,
Débora Duarte, Umberto Magna-
ni, Mauro Mendonça, Sergio Ro-
veri, Naum Alves de Souza, José
Renato, Wagner Tiso e Fernando
Peixoto são alguns dos biografa-
dos que estiveram presentes no
evento que comemorou o 200º
título da coleção e prestou home-
nagem a Tônia Carrero e Mazza-
ropi, duas estrelas dos Estúdios da
Huber Alquéres, Tânia e Germano Pereira Tânia Carvalho era só alegria em evento Hubert Alquéres e José Serra marcaram presença Vera Cruz.
6 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Editais
Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural
Para viagens em fevereiro de 2010, as inscrições vão até 30 de novembro. Programa se destina a artistas e técnicos da área cultural
O Ministério da Cultura MinC, ou por uma de suas ins- pessoas físicas, grupos ou enti- área cultural em que se insere; turais brasileiras; intercâmbio
divulgou o segundo edital de tituições vinculadas. dades culturais privadas e sem caráter inovador da atividade; e apropriação de tecnologias,
2009 do Programa de Inter- As inscrições variam de finalidade lucrativa, cujas candi- contribuição para a difusão e a além de conhecimento e troca
câmbio e Difusão Cultural, que acordo com o mês em que se daturas serão divididas em soli- valorização das expressões cul- de experiência.
cobrirá as viagens a se realiza- realizará a viagem (ver calen- citações de grupo e solicitações
rem até abril de 2010, para as dário abaixo). Em Brasília, os individuais, que concorrerão
quais serão disponibilizadas, interessados que não tiverem separadamente. Apenas no caso
no total, R$ 1,9 milhão do acesso à internet podem se destas últimas poderão ser apre- CALENDÁRIO DE INSCRIÇÕES:
FNC (Fundo Nacional da Cul- encaminhar à sede do MinC, sentados pedidos com vistas à
Data das viagens previstas e prazo para
tura). O programa se destina a na Esplanada dos Ministérios, residência artística ou curso de encaminhamento das solicitações:
artistas, técnicos e estudiosos bloco B, 1º andar, Divisão de capacitação de profissionais da Fevereiro de 2010 - até 30/11/2009
da área cultural, convidados a Atendimento ao Proponente/ cultura. Março de 2010 - até 20/12/2009
participar de eventos fora do SEFIC, onde será disponibili- Os critérios a serem consi- Abril de 2010 -até 20/12/2009
seu local de residência para zado, das 8h às 18h, de segunda derados na avaliação serão os
apresentar trabalho próprio, fa- a sexta-feira (exceto feriados), seguintes: relevância do evento INSCRIÇÃO DE GRUPOS:
zer residência artística ou curso computador para inscrição. e da instituição promotora para http://www.cultura.gov.br/site/edital-de-intercambio-n-2-2009-
de capacitação de profissionais É possível anexar documen- a área cultural da atividade de- requerimento-de-grupo-entidade/
da cultura. O evento deve ser tos comprobatórios do currícu- senvolvida; adequação do his-
promovido por instituição bra- lo ou outros tipos de material tórico de atuação do candidato INSCRIÇÃO INDIVIDUAL:
sileira ou estrangeira, de reco- (artigos publicados, portfólio, ao trabalho ou estudo propos- http://www.cultura.gov.br/site/edital-de-intercambio-n-2-2009-
nhecido mérito, desde que não etc.) que o candidato julgar re- to; relevância da atividade a ser requerimento-individual/
seja apoiado ou realizado pelo levantes. Podem se inscrever realizada/desenvolvida para a

Marketing Cultural
Porto Seguro: duas décadas investindo em espetáculos pelo Brasil
Seguradora já patrocinou mais de 30 peças teatrais. Entre cinema, música e literatura, já são quase 100 eventos apoiados pela empresa
Divulgação
Há mais de 60 anos no dar o Brasil a engrenar cultu-
mercado, a Porto Seguro ralmente é o teatro. A Porto
nunca se limitou, apenas, a Seguro apoia espetáculos de
levar conforto e segurança dramaturgos espalhados por
aos brasileiros. Considerada todas as regiões em território
uma das empresas líderes no nacional. Peças nos estados
País, no setor de seguros de de São Paulo, Rio de Janeiro,
automóveis e saúde, a cor- Goiás, Santa Catarina, Rio
poração sempre visou alçar Grande do Sul, Minas Ge-
voos altos, buscando au- rais, entre outros, já recebe-
mentar seu leque de atuação. ram auxilio da marca.
Fugindo do estigma de mul- Umas das encenações que
tinacional capitalista, sempre ganhou destaque em solo
visando lucros e mais lucros, nacional e conta com o pa-
a Porto Seguro começou a trocínio da Porto Seguro é
auxiliar projetos culturais no o musical “Beatles num céu
ano de 1981. de diamantes”. O espetáculo,
Desde então, quase 100 dirigido por Charles Möeller
eventos, sejam eles teatro, e Cláudio Botelho, percor-
cinema, música, literatura ou reu diversas capitas do Brasil
qualquer manifestação artís- apresentando músicas do gru-
tica que possa levar uma fa- po num roteiro teatral, com
gulha de cultura ao povo, já 11 atores-cantores acompa-
foram patrocinados pela se- nhados por piano, violoncelo
guradora. “Na Porto Seguro e percussão. A peça, consi-
sabemos da importância do derada um grata surpresa em
incentivo para propostas ori- 2008, foi classificada como
ginais e inovadoras. Por isso, uma revista musical sobre o
buscamos valorizar a produ- extenso repertório dos Bea-
ção e os artistas, colaborando tles, apontando diversas his-
com a preservação do patri- tórias e situações vividas pela “Beatles num céu de diamantes” contou com patrocínio da Porto Seguro e ganhou destaque em solo nacional
mônio nacional”, afirma a ge- banda de Liverpool.
rente de marketing da empre- Saindo das peças tradi- passa com seu show: “A Arte musicais dos anos 80 fazem preferência, descobrir novos
sa, Tanyze Marconato. “Além cionais, o Stand-Up Come- do Insulto”. Com a ajuda da parte do seu repertório. talentos. É o caso do cantor
disso, estamos contribuindo dy também recebe o apoio Porto Seguro, o artista já le- Apesar de estar beiran- e compositor Chico Pinheiro,
diretamente para a formação da seguradora, através das vou sua obra a mais de 50 ci- do quase a marca centenária que excursiona por estados
de um País melhor. Sabemos apresentações do humorista dades do País. Em seu espe- em apoio a eventos, a Porto do Brasil. Após o lançamen-
que a arte é uma maneira de Rafinha Bastos. Rosto mar- táculo, Rafinha Bastos abusa Seguro não pensa em parar. to de seu CD, com total pa-
fazer o Brasil crescer.” cante na televisão, graças ao do humor politicamente in- Pelo contrário. A ideia é con- trocínio da empresa, Chico
Uma das ferramentas que programa CQC, Rafinha ar- correto. Piadas sobre morte, tinuar ajudando mais e mais Pinheiro foi considerado um
a empresa mais usa para aju- ranca gargalhadas por onde casamento, e até mesmo hits manifestações culturais. E, de boa revelação da atual MPB.
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
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Formação

Arte através da vocação
Núcleo Vocacional oferece
gratuitamente a oportunidade
de fazer teatro, música e dança
Fotos de acervo do Núcleo Vocacional
Por Ive Andrade faculdade, acompanhei o proces-
so de dois artistas-orientadores.
Mais de 100 apresentações Depois, de 2005 a 2008, traba-
entraram em cartaz, em novem- lhei como um deles e, este ano,
bro, graças ao projeto Núcleo passei a coordenar as equipes.
Vocacional, promovido pelas Sou um apaixonado pelo proje-
Secretarias Municipais de Edu- to, que consegue equacionar o
cação e Cultura de São Paulo. O aspecto público com o processo
foco do programa é desenvolver de investigação artística contínuo
a arte para qualquer um que es- e estabelece um diálogo entre
teja interessado em três diferentes os vocacionados (alunos), seus
linguagens: música, teatro e dan- orientadores e o espectador”.
ça. No caso do teatro, a iniciativa O diálogo com o espectador
acontece desde 2001. A dança fica por conta da Mostra Voca-
entrou em 2007 e, em 2008, a cional, que reúne os trabalhos
música começou a fazer parte do dos grupos vocacionados, que
projeto, apesar de ainda não ter estão espalhados por diversas
oficialmente turmas para inician- regiões da metrópole. “Acho
tes e, portanto, diferir das outras louvável a questão de levar o
linguagens. projeto às regiões distantes do
“Não é um programa de centro, onde ações como essa
formação profissional. Quem não são tão encontradas”, afir-
quiser participar está convidado. ma o artista-orientador Marce-
Claro que sempre existem ex- lo de Andrade, da companhia
pectativas, aqueles que querem Os Fofos Encenam.
ser atores pelo reconhecimento, Há cinco anos, Andrade se Núcleo Vocacional busca desenvolver a arte para qualquer um que esteja interessado em música, teatro e dança
pela fama, mas a ideia é tentar inscreveu no edital para parti-
elaborar um discurso cênico para cipar como professor do Nú- cleo Vocacional) Cresceu bastan- nos, com algum tipo de for- “A palavra vocacional vem
pessoas que tenham interesse cleo e percebe que o programa te desde 2004, houve uma trajetó- mação ou inexperientes, de no sentido de vontade de fa-
nas três linguagens oferecidas”, está em constante desenvolvi- ria de mudança, mas manteve sua 16 a 60 anos. “Acredito que zer”, afirma Brancalhão. “Acho
explica Filipe Brancalhão, um mento. “Vejo que (o Núcleo) premissa, percebendo a realidade o teatro abrange diversas que o diferencial é que o Nú-
dos coordenadores de equipe do ganhou força, se expandiu. A e o que pode ser desenvolvido de coisas, não é só o fazer tea- cleo Vocacional tem uma rea-
Núcleo Vocacional. diferença de quando eu entrei, acordo com a demanda”. tral. O ser humano entra em lidade diferente. Não que não
Brancalhão já foi professor, em 2004, para agora é que não reflexão. Passa a questionar e exista isso em outros lugares,
chamados de artistas-orienta- é apenas o teatro. Veio a dança DIVERSIDADE confrontar ideias. O Núcleo mas, aqui, existem diversas
dores, e está envolvido com o e agora, no último ano, a músi- As turmas formadas den- dá a oportunidade de ter um equipes que têm um eixo em
programa desde 2004, quando ca também”, compara. tro do Núcleo Vocacional espaço para conversar, criti- comum, mas que são muito di-
participou ainda como estagiário. O coordenador de equipe, não têm um padrão. Podem car e desenvolver isso”, elo- ferentes entre si. Há um diálo-
“Em 2004, quando eu estava na Brancalhão, concorda. “(O Nú- ter 40 ou apenas quatro alu- gia Andrade. go entre essa diversidade”.

Vocação que gera emprego
Por Pablo Ribera Nenhum dos projetos têm pe- empregos, Araújo enaltece o
dagogia específica da linguagem Núcleo Vocacional. “Nós temos
Cerca de 240 artistas-orien- artística. Os cursos dizem res- artistas-orientadores escolhidos
tadores, seis mil vocacionados peito a um despertar de voca- através de editais. Anualmente,
por ano, 109 mostras em 67 ções”, explica o coordenador. contratamos 240 professores. É
espaços, em 2009, e um inves- “A pessoa, por exemplo, parti- algo bastante importante, pois
timento de cerca de R$ 2.550 cipa do projeto de teatro, mas o proporciona trabalho com mais
milhões. Estes são os números artista-orientador pode perce- dignidade dentro de sua área. O
do Núcleo Vocacional, que ofe- ber que o vocacionado se inte- artista conta com uma base fixa
rece cursos de dança, música e ressa em ser figurinista ou per- que garante sua renda, sem de-
teatro. “Este núcleo nasceu para cebe outra vocação nele. É uma pender tanto de peças teatrais”,
dar uma especificidade em cada pedagogia ampla, que ajuda a destaca o coordenador, que Núcleo surgiu para suprir uma necessidade de socialização dos bens culturais
linguagem para se trabalhar de pessoa, seja no teatro, na dança, também exalta a gestão do atual
forma mais focada. Surgiu para na música ou na vida”. secretário municipal de cultura, lise de currículo, na qual opta- move uma mostra cultural, re-
suprir uma necessidade de so- Qualquer pessoa pode ser Carlos Augusto Calil. “Conta- mos por aqueles que se desta- alizada pelos próprios vocacio-
cialização dos bens culturais, de um vocacionado do projeto, mos muito com a sensibilização quem nas duas áreas, tanto no nados. “Este ano, teremos 109
fusão e potencialização de uma desde que tenha 14 anos, pelo do secretário que, com o apoio artístico quanto no pedagógi- mostras em 67 espaços espa-
atividade artística e de demo- menos. “Não exigimos conhe- que nos dá, faz com que o nú- co; em seguida, entrevistamos lhados pela cidade. Esperamos
cratização das ferramentas do cimento prévio ou experiência cleo contrate mais, atraia mais pessoalmente”. receber cerca de 35 mil pessoas,
fazer artístico”, explicou Expe- profissional nos cursos de dan- investimentos e tenha ainda A concorrência é grande: o que é um número já superior
dito Araújo, coordenador geral ça e teatro. Em música, nós exi- mais alunos”. para o teatro são 700 inscritos à mostra do ano passado”. O
do Núcleo desde sua implanta- gimos que o grupo tenha certa O artista, para ser um dos para 140 vagas. Em dança, 160 Núcleo Vocacional é um pro-
ção em 2006. experiência. Não ensinamos o orientadores do Núcleo Vo- para 70 vagas e, para música, jeto da Secretaria Municipal de
Segundo Araújo, o núcleo manejo de instrumentos”, diz cacional, deve ter experiência 600 inscritos para 30. “A Secre- Cultura de São Paulo,em par-
não busca consolidar atores e Araújo. “Temos dois tipos de como profissional, de acordo taria de Cultura nos ajuda com a ceria com a Secretaria Munici-
músicos, mas abrir possibilida- turma: a de iniciação e grupos com a área em que atua, e ex- divulgação. Também a Coope- pal da Educação. Para mais in-
des e oportunidades aos alunos que procuram somente a orien- periência didática, ou seja, deve rativa de Teatro divulga os edi- formações sobre este e outros
vocacionados. “Nosso objetivo tação. Na área musical, apenas ter dado aulas anteriormente. tais. Dessa forma, todos ficam programas, acesse o site www.
é formar cidadãos. Dar a eles oferecemos como orientação”. “Nós escolhemos através de sabendo”, diz Araújo. prefeitura.sp.gov.br/cidade/
uma qualidade de vida melhor. Com relação à geração de duas fases: a primeira é a aná- Além disso, o Núcleo pro- secretarias/cultura.
8 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Entrevista

O despudor de Jussara Freire
Divulgação / Rede Globo
Por Daniel Pinton é assim. Eu não posso ser médica
Schilklaper amanhã, tenho que estudar. Até
para fazer unha ou limpar uma
Fosse Jussara Freire uma atriz casa tem que se ter prática e pa-
comum, ainda assim sua entre- rece que, para ser ator, não. Aí,
vista seria bastante interessante. fazem qualquer cursinho de dois
Afinal, são 36 anos de sucesso meses, vão para a televisão e, em
dedicados aos palcos. Mas Jussara dois minutos, conseguem o DRT
é despudorada. Foi dessa forma, (registro do ator na Delegacia
jogando para escanteio qualquer Regional do Trabalho) – nosso
tipo de declaração politicamente sindicato também fecha muito os
correta, que a atriz abriu seu co- olhos para isso, o que acho uma
ração para o Jornal de Teatro e, pena. Você acaba tendo que, cada
com a mesma intensidade que vez mais, brigar pela profissão,
declarou seu amor pelo palco, pelo seu espaço. Só pode fazer
disparou contra a maioria da teatro de sexta-feira a domingo
nova geração de atores, contra o e ainda fica pedindo a Deus que
panorama atual da nossa televi- tenha público.
são, contra a banalização do ser
humano... Tudo isso em favor da JT – Você quer dizer então
sinceridade. Com vocês, a verda- que está difícil fazer teatro?
de latente de Jussara Freire que, JF – Hoje em dia está mui-
sem papas na língua, ainda falou to difícil. Quem faz teatro não
da era das celebridades, de teatro, sobrevive do teatro. O teatro é
da TV de ontem e de hoje, da sua caro para quem vai assistir e pou-
relação com o ex-marido e com- co rentável para quem faz: paga-
panheiro de cena Marcos Caruso, se muito em aluguel, em luz, em
do seu espetáculo em cartaz “As um monte de coisa. Tem muita
Pontes de Madison”, dos pro- gente que investia em teatro anti-
jetos futuros e avisa: “Eu quero gamente e não tem mais vontade
fazer tudo”. de investir. Tem um amigo meu,
legenda
que não vou revelar o nome, que,
Jornal de Teatro – Como e mesmo com todos esses pro-
quando foi o seu primeiro blemas, quer investir em teatro,
contato com o teatro? quer ser produtor, conseguiu um
Jussara Freire – A primeira teatro muito bom e interessante,
peça que assisti na vida foi “Mor- mas os donos do teatro falaram
te e Vida Severina”, na época de assim: “Só negociamos se tiver
escola. Quando vi aquilo, achei o alguém da Globo”. Não dá para
máximo, me encantei e falei: “É entender. Tinha meu nome, mas
isso que eu quero ser!”. Em segui- eu não estou na Globo agora. As
da, ajudei a formar um grupo de pessoas ainda associam talento
teatro amador que, naquela épo- com televisão e não é isso.
ca, servia para a gente aprender
sobre teatro, não para trabalhar JT – Com toda esta dificul-
na televisão como é hoje em dia. dade, muitos novos talentos
Como eu sou uma mulher nasci- podem estar sendo ceifados,
da em 1951, fui forjada no meio não acha?
da ditadura e claro que, com a JF – Talentos imperdíveis.
minha pouca idade, achava que Talentos que, de repente, acaba-
poderia fazer alguma coisa para Jussara revela todo o seu amor pelo teatro: ”Não posso abdicar da honra e do privilégio de subir ao palco.” rão fazendo outras coisas por-
sair daquele inferno. O ator fala que precisam comer, pagar as
alguma coisa e passa alguma coi- tem gente que acha que para ser naquelas fotografias 3 x 4, para trário: você ia do teatro para a contas. Isso ceifa mesmo. É esta
sa. Olha só como o teatro é rico! artista precisa ser transgressor, ser convidado para inauguração televisão. As pessoas, para conse- palavra mesmo: são ceifados. Se
mas é uma profissão como qual- de shopping, da caneta Bic... Eles guirem um lugar ao sol na televi- você não tem nome, não tem vi-
JT – E como foi a reação da quer outra. Poderia ter escolhido acham que isso é ser ator. E não são, têm que ter o biotipo da tele- sibilidade, não consegue ser ator.
sua família? ser engenheira, médica ou advo- é. Ser ator é uma coisa muito sé- visão, ou seja, rostinho bonitinho E se você não consegue ser ator,
JF – Como eu comecei em gada, mas preferi ser atriz. Para ria. A safra de novos atores está para vender sabonete. E não é não consegue visibilidade, então,
1973, minha família não achou mim é uma opção de vida. cada vez mais fraquinha e as me- assim a vida. Quando eu comecei faz televisão. É uma pena, por-
muito legal, pois pensava que era ninas e os meninos que realmente na televisão meus mestres foram que eu sei que tem gente muito
um trabalho que não dava futuro. JT – Como você enxerga a possuem talento não estão tendo Laura Cardoso, Márcia Real, Ro- boa que teima em fazer teatro e
Em 1973 você podia ser médica, nova geração? chance, porque, infelizmente, dolfo Mayer e, quando não tinha não consegue.
engenheira, advogada, secretária, JF – Acho cada vez pior. Te- você, hoje em dia, tem que ir gravação, eu, mesmo assim, ia aos
mas atriz, não, pois era uma coisa mos talentos que surgem, mas, para a televisão para depois fazer estúdios para ver esse pessoal tra- JT – Diante desse panora-
meio esquisita. Mas os meus pais hoje em dia, infelizmente, as pes- teatro. Atualmente, as pessoas balhar. Não havia essa anticultura ma, você pensa, então, em
nunca foram tão contra assim, soas querem aparecer, ter seus 15 perguntam para você: “Como eu que existe hoje. Fico muito triste dar prioridade aos trabalhos
achavam só que era algo que não minutos de fama. Um seques- faço para ser ator? Mas é para tra- quando vejo notícias de pessoas na TV?
dava futuro. Quando fiz minha trador chama a imprensa para balhar na televisão.” As pessoas que participaram de reality shows JF – Eu não fechei com a Re-
primeira novela eles começaram aparecer porque, provavelmente, não querem ser atores, querem e viraram famosos, com exceção cord porque eles queriam que eu
a compreender que a vida de alguém fará uma história da vida ser artistas de televisão, querem de uma ou outra pessoa, como a fizesse teatro só até dezembro.
ator não era aquela bagunça que dele. Acho que está muito ruim. os tais 15 minutos de fama. Juliana Alves e a Grazi Massafera, Me ofereceram um bom con-
eles imaginavam. Na verdade, até Nossa profissão tem muito para- muito aplicadas. Conto nos de- trato, de quatro anos, um ótimo
hoje as pessoas acham que o ator quedista que não sabe o que fala, JT – Está muito diferente da dos essas celebridades que caem salário, mas com a cláusula de
é muito volúvel, faz o que quer. o que faz. Está lá para ir em festa, época em que você começou? na profissão e dão certo. Hoje que eu não poderia fazer teatro e
Não é assim. Tem uns malucos, para aparecer na revista “Caras”, JF – Antigamente era o con- qualquer um quer ser ator e não ficasse em “As Pontes de Madi-
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
9
Entrevista
son” só até dezembro. E se nos boca. Não é isso, não adianta. Por somos sócios indissolúveis: te- que pode até, no inconsciente, só, mas esses quatro dias para a
próximos quatro anos surgir uma exemplo, as pessoas acham que o mos um filho maravilhoso (Cae- ter ajudado alguma coisa. Mas, se Francesca foram absolutamente
peça maravilhosa? Achei um ab- teatro do Marcelo Médici é sim- tano Caruso). fosse outro ator, eu teria o mes- marcos históricos. Então, acredi-
surdo. Fui para a Record porque a plesmente uma comédia, eu não mo empenho, a mesma satisfação to, sim, que você pode amar com
Globo estava um pouquinho cha- acho. Os textos dele são de uma JT – E como tem sido dividir em estar fazendo aquilo. Olho todas as forças do seu coração, de
ta nesse ponto, mas agora trocou. crueldade, de um dedo na ferida, o palco com o Caruso nessa para aquele homem e percebo a repente, por quatro dias. Não que
Pode ser também um caso pes- que, à primeira vista, até não pa- peça que vocês estão em car- história de amor. Aprendi uma depois você não vá continuar fe-
soal, não sei. O argumento deles rece, a gente morre de rir, mas, de taz, “As Pontes de Madison”? coisa maravilhosa: não devo re- liz com a vida que você tem, mas
é que não daria tempo para fazer repente, revisando, você vê como JF – As pessoas acham lindo, presentar, mas atuar. Representar você encontra contentamento
uma peça e uma novela ao mes- tudo é muito cruel, como todas tipo: “Oh, que bonito os dois tra- qualquer um pode, agora atuar é naquela pessoa.
mo tempo. De maneira nenhuma as personagens dele são absoluta- balhando juntos... é tão român- deixar a personagem entrar em
eu vejo como isso poderia afetar, mente verdadeiras, só que reves- tico...”. “As Pontes de Madison” você, aí é outra coisa. Quando eu JT – Já tem projetos futuros
mas acontece que a televisão, hoje tidas do riso, e isso é muito legal. é um dos sucessos de São Paulo. estou no palco não é que esteja encaminhados?
em dia, está meio desorganizada, Você liga para quantos morreram As pessoas acham encantador ex- tomada pela personagem, mas JF – Se Record, Globo ou
às vezes não consegue conciliar no Iraque, no Irã, no Afeganis- marido e ex-mulher trabalhando, estou tão focada naquela história SBT me chamarem e eu achar
a produção com a presença do tão? Tudo foi banalizado. O ser o que, para nós, é algo absolu- que poderia ser qualquer um. Que interessante, eu vou, desde que
ator. Só porque você tem contra- humano tem o terrível hábito de tamente comum. Se tivéssemos bom que é o Caruso, porque ele que eu possa fazer teatro. Não
to eles acham que têm exclusivi- banalizar qualquer coisa. O Rio brigado, tivesse tido aquelas coi- é um excelente ator, um grande sou atriz de televisão, não sou
dade sobre você 24 horas e não é de Janeiro nesta guerra civíl, São sas que a gente vê que dá polícia, amigo, um grande parceiro, um atriz de cinema, não sou atriz
bem assim. Paulo nesta bagunça que está... aí, talvez, não teríamos essa par- grande dramaturgo e um grande de teatro. Sou atriz. Por melhor
A pizza, a bomba e o sequestro ceria, essa cumplicidade, essa inti- diretor – o que faz com que todas salário que me ofereçam, não
JT – O fazer novela está mais estão no mesmo nível. Banalizou midade de teatro. as observações dele sejam válidas. posso abdicar da honra e do pri-
difícil também? o erotismo, o sexo, o amor, a dor: Tem uma química. vilégio de subir ao palco. Todo
JF – Se você parar para olhar ficou tudo tábua rasa. Eu não sou JT – Como o público está rea- ator gosta mais do teatro. Você
na televisão é difícil se identifi- pessimista, sou de muito bom gindo à peça? JT – Quem mais tem essa quí- tem tempo de saborear cada pa-
car com as pessoas que estão humor, só que, quando tenho JF – O homem sai aos mica artística com você? lavra no ensaio e cada dia você
lá. São todos meio robotizados, oportunidade de falar exatamen- prantos, muito homem cho- JF – Por exemplo, quando fiz descobre uma coisa nova. É
com o mesmo corte de cabelo, te aquilo que penso, acho mara- rando. Deve ser muito en- uma novela chamada “Cabocla”, muito interessante esse processo
com a mesma maquiagem, o vilhoso. Não posso deixar de ter graçado porque, se o homem eu e o Otávio Augusto tínhamos no teatro. A televisão, hoje, está
mesmo peso, tudo igual. Me- certeza, nunca, que sou formado- chora, a mulher vai perguntar, uma química incrível, era uma ma- um pouco pizza, tem que fazer
ninas lindas estão ficando se- ra de opinião. Que mesmo que eu chegando em casa, se ele teve ravilha. Trabalhar com o Otávio depressa porque, quando é uma
cas, arreganhadas, o que não é tenha três fãs no mundo, tenho algum caso de amor não resol- Augusto foi um presente também. novela inédita, o autor não entre-
o tipo do brasileiro. Está todo responsabilidade sobre esses três vido. As pessoas se comovem E a química não é só com ho- gou o texto e aí dá uma embo-
mundo ficando louro também. fãs. Se eu falar que eu gosto de muito. Quando acaba o espe- mem. Com a Irene Ravache, em lada no meio-de-campo e você
Fazem luzes e têm o sotaque amarelo, infelizmente, eles vão táculo, as pessoas descem para “Inseparáveis”, eram maravilho- fica sem saber o que vai fazer na
carioca (provocação bem hu- querer usar amarelo para o resto cumprimentar a gente de tan- sos o nosso clima, a nossa quími- semana. Nessa última novela que
morada ao entrevistador). Por da vida. Então, tenho que tomar to que eles querem continuar ca, a nossa cumplicidade em cena, fiz era assim: eu não sabia o que
exemplo, essa última novela muito cuidado com a minha vida aquela emoção que estão sen- era fantástico. iria fazer no dia seguinte. Mes-
que fiz (“Chamas da Vida”), eu particular e falar aquilo que eu tindo. A resposta é uma coisa mo quando o autor entregava o
não gostava de fazer. Não gosto penso de verdade mesmo. Não maravilhosa e eu já percebi que JT – Você acredita em paixões texto com antecedência, a pro-
muito de enfocar a desgraça. É posso mentir. há senhorinhas e gente jovem avassaladoras? Já se viu como dução se enrolava. Atualmente o
muito tiro, muita droga, muito gostando. Para amar não im- a Francesca? teatro é o meu meio preferido e
sexo, muita maldade, muita ex- JT – Falando em comédia, porta a idade. JF – Acredito sim. Como a eu não quero ficar restrita a nada
plosão e isso me enche um pou- você sempre se destacou, seja Francesca não, mas acredito que na minha vida, como uma boa
co o saco porque, de repente, na TV, seja no teatro, com per- JT – É mais fácil dividir a possa acontecer sim. Não é nem aquariana, graças a Deus. Não
não se precisa de ator, mas de sonagens cômicos. Fazer rir é cena com um ex-marido de paixão, é um amor avassalador me restrinja, pelo amor de Deus,
dublê. São mais novelas de ação um desafio para você? 20 anos? porque ela optou pela família, porque acho que envelhecer é
do que de interpretação. JF – Uma atriz que faz co- JF – Aí é que está... Não sei mas aquele amor continuou, tan- restringir as suas ações. Sou mul-
média é uma coisa muito difí- se sou diferente das outras pes- to que ela deixou três diários para tifacetada. Se eu estiver fazendo
JT – Esse esteriótipo que você cil. Você aprende a falar inglês, soas, mas, para mim, é a mesma os filhos verem, o que é um he- e vir que o pique físico não está
descreveu dos atores de nove- alemão e até aramaico, mas não coisa. Não consegui me sentir em rança de caráter com o seu modo dando, aí eu faço uma opção,
la não se encaixa ao seu perfil. aprende a contar uma piada. Co- nenhum momento inibida. Acho de ver a vida. Foram quatro dias mas, quero fazer tudo.
Incomoda? média é mais difícil de fazer. Só
JF – Sou muito despudorada atores bons de comédia têm a Divulgação

em tudo que faço. Quero é ser pitada certa para o drama. Fazer
uma pessoa possível. Não sou comédia fina, requintada, é muito
um estereótipo de beleza: sou difícil. Se eu contar uma história
uma mulher de 58 anos que está muito triste da minha vida para
de bem com a vida. Não faço essa você, você vai ouvir em silêncio
linha “qual é a minha dieta para e vai até chorar. Agora, tirar uma
emagrecer quatro quilos em uma risada de uma pessoa, principal-
semana”. E aí tem uma coisa que mente nos dias em que estamos
estou achando muito interessan- vivendo, é muito difícil. Ser ator
te: no teatro: as pessoas se co- é um dom. Se o ator ainda por
movem tanto com a personagem cima tem o dom da comédia é
porque elas estão olhando uma uma dádiva.
mulher de 58 anos que é possível.
Posso estar um pouquinho acima JT – Como e quando foi que
do peso para os padrões de tele- você e o Caruso se encontra-
visão, mas as pessoas acham tão ram pela primeira vez?
possível aquela mulher, aquele JF – Foi em nosso primeiro
homem que é alto e magro (Mar- grande fracasso. A gente se co-
cos Caruso), que se identificam. nheceu em um fracasso chamado
“Peri e Ceci”. Era um pseudo-
JT – Falando do seu início no musical horrível, onde ele fazia
teatro, você mencionou a épo- um fidalgo português e eu uma
ca da ditadura como algo que, índia. O figurinista me botou de
de certa forma, impulsionou índia americana. Era um horror,
sua carreira. Você acha que era tudo ruim. Mas, graças a esse
anda faltando mais espetácu- trabalho, a gente teve a felicidade
los de contestação? de se encontrar e viver um lindo
JF – Falta contestação gostosa. casamento de 20 anos. E deu
Não adianta subir ao palco e falar mais do que certo. Estamos há
um monte de coisas para calar a mais de 15 anos separados, mas Ao lado do ex-marido, Marcos Caruso, com quem contracena em “As Pontes de Madison”: respeito e carinho
10 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Técnica

A arte de fazer ouvir
O designer de som ajuda (e muito) no espetáculo teatral, mas a profissão ainda é pouco valorizada no Brasil
Fotos: Pablo Ribera

Por Pablo Ribera
A expectativa do público
que vai a um espetáculo teatral
não se limita apenas ao quanto
a peça é boa. Os espectadores
também desejam ouvir tudo
aquilo que acontece no palco.
Mas como fazer para que o
som chegue a todos os presen-
tes? Como fazer para que os
instrumentos sejam ouvidos?
E o que fazer para que o áudio
saia de forma natural? Para re-
solver todas estas importantes
questões, o ideal é recorrer ao
designer de som.
Este tipo de profissional
aparece como solucionador de Turma durante uma das aulas no Instituto do Áudio e Vídeo (IAV)
problemas de áudio. Trabalha
para que todo o som emitido
durante um espetáculo seja cla-
ro e chegue à plateia, desde a
primeira fileira até a última, da
mesma forma, no mesmo tom.
“O designer de som é fun-
damental para uma peça de te-
atro. Todos têm que escutar o
som emitido, em todos os am-
bientes. Deve-se ter um proje-
to de sonorização bem feito e,
para que seja tudo colocado da
maneira correta, deve-se pro-
curar um profissional como o
designer”, disse Marcelo Cla-
ret, designer desde os anos
1990 e professor, diretor e um
dos fundadores do IAV (Insti- Marcelo Claret frisa que a audição em um espetáculo nunca ‘desliga’ A prática é uma das normas do IAV, que oferece 9 tipos de especialização
tuto de Áudio e Vídeo).
Claret destaca a importân- ra por designers de som, Cla- para o dono do teatro o que se própria. O designer precisa sa- pecialização em Acústica.
cia do áudio em um espetácu- ret trabalha apenas com dois quer fazer”. ber muito de áudio, de música “Nós damos aula para cer-
lo. “A audição é o único senti- diretores. “Eu, por exemplo, O designer de som precisa e da história da arte”, explicou, ca de 300 alunos por ano. Uma
do que nunca descansa, nunca sempre trabalho com o Cláu- de um certo tempo para estu- “No Brasil, são poucos os que média de sete por ano recebem
‘desliga’. Praticamente é o úni- dio Botelho e o Charles Möel- dar a peça, as exigências, o tea- têm essa qualificação. Somos o certificado”, afirma Claret.
co que envolve a pessoa em ler. Eles sentiram falta de um tro e os equipamentos a serem uns três, no máximo. Mas nos “Leva-se de dois a três anos
360°, de todos os lados, o tem- profissional de som para as utilizados. “Leva-se entre 15 Estados Unidos, há um merca- para formar um profissional de
po inteiro. É um sentido com- suas peças e eu precisava de e 30 dias para se montar um do muito forte. O problema é fato. É um curso longo, de 1.500
plementar muito importante. diretores que entendessem a esquema de sonorização para que o Brasil não tem essa cul- horas, para que o profissional
E o público quer ouvir tudo. A importância do designer. Foi o uma peça. Por isso que o de- tura, mas deveria ter”. saia daqui com bastante conhe-
pessoa que está na última fileira casamento perfeito. Hoje em signer deve ser chamado com cimento. Nós exigimos muito”.
quer ouvir bem. E, além disso, a dia, faço todas as peças deles”. antecedência”, explica Claret. INSTITUTO DO A escola existe há aproxima-
plateia quer ouvir o som saindo Sobre o trabalho técnico “Tudo deve começar com: ÁUDIO E VÍDEO damente 15 anos e conta com
da boca do ator, do piano que do profissional, Claret é enfá- qual vai ser o espetáculo? Em Marcelo Claret é, além de três casas que, juntas, ocupam
é tocado, não de uma caixa de tico: “É muito difícil trabalhar qual teatro? Qual a formação designer de som, o fundador e um espaço de 1.400 m². “Te-
som que está do lado dela. Isso no Brasil. Os teatros do País da orquestra? As respostas diretor do IAV – Instituto do mos cinco estúdios, um auditó-
quebra toda a magia da peça”, não estão se modernizando, para essas perguntas são fun- Áudio e Vídeo. O IAV é a úni- rio para cem pessoas, duas salas
explica o designer. apenas alguns deles, como o damentais para o designer de- ca escola especializada em áu- de informática, dois laborató-
Por toda essa necessidade Teatro Alfa, seguiram os avan- senvolver todo o projeto”. dio do Brasil. Conta com curso rios de áudio com todo tipo de
que as artes cênicas têm com ços da tecnologia. Os teatros Claret começou a trabalhar completo e com infraestrutura equipamento analógico e digital
relação ao áudio, Claret acre- não estão preparados tecnica- como designer no Brasil nos ideal para alunos aprenderem e todas as salas têm tratamen-
dita que a profissão é pouco mente para sonorização mo- anos 90, quando foi chamado na prática. to acústico”, explica o diretor.
valorizada. “É pouco explo- derna. Existe uma cultura de para solucionar um problema. O instituto oferece, primei- “Nós privilegiamos muito a
rada. Sempre foi. Mas hoje se pendurar refletores de luz, “Era um musical que iria estre- ramente, um curso de 300 ho- prática individual do aluno”.
em dia, há uma conscientiza- mas e as caixas de som?”, cri- ar em dez dias e não tinha som. ras para noções de áudio. Em Para começar um curso,
ção de que o som ajuda mui- tica o diretor. “Além disso, há Fui chamado às pressas para re- seguida, o aluno pode escolher não há pré-requisitos exi-
to. Mas mesmo assim, apenas outras coisas que atrapalham solver tudo. E deu certo. Foi um uma das nove especializações gentes. Basta ser maior de 16
musicais contratam designers, o serviço. Por exemplo, o de- pouco complicado, mas tudo possíveis: Áudio e Acústica, anos, cursar ou ter completa-
e nem todos”, reclama. “Ainda signer de som precisa, essen- andou tranquilamente”. Pro Tools, Mesas Digitais, do o segundo grau escolar e,
não se chegou à conclusão de cialmente, da planta do teatro, Sobre a formação de desig- Efeitos, Sonorização, Grava- segundo Claret, “ter bastan-
que quem ganha com isso é o para saber onde colocar as cai- ner de som, Claret explica que ção, Logic Pro, Linguagem te disposição e vontade de
público, mas essa ideia de so- xas de som, se pode pendurar “não há cursos no Brasil. Se Musical e Música Eletrônica. aprender e estudar”.
norização perfeita não é uma no teto, etc. Mas o teatro não quiser se tornar um profissional Em breve, o IAV ainda conta- Para mais informações so-
tradição no Brasil”. possui essa planta ou não quer desta categoria, ou estuda no rá com os cursos de Produção bre o IAV, acesse o site: www.
Por causa da pouca procu- fornecê-la. É difícil explicar exterior ou aprende por conta Musical (todos os estilos) e Es- iav.com.br
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
11
Dança Crônica
Porto Alegre:
Espetáculo: “A Bela Adormeci-
da”
Data: 4/11
Local: Teatro do Sesi

Vera Karam:
Horário: 21h

Juiz de Fora:
Espetáculo: “Dom Quixote”
Data: 6/11
Local: Cine Teatro Central
Horário: 21h uma paixão no palco
Belo Horizonte:
Por Rodrigo Monteiro, Humor negro: rimos do que não se
Espetáculo: “Dom Quixote” ri. Vera K. faz ver na estranheza do
Data: 7/11 especial para o
Jornal de Teatro* outro o estranho em nós mesmos.
Local: Palácio das Artes
Fotos: Divulgação

Horário: 21h Vera Karam completaria 50 Eu saí. Palmas são ouvidas. A ideia
anos em 2009. A Coordenação de do projeto é de Marcelo Adams. A co-
Espetáculo: “A Bela Adormeci- Artes Cênicas de Porto Alegre pos- ordenação é de Breno Ketzer Saul.
da” sibilitou, entre os dias 19 e 22 de
Data: 8/11 outubro, uma oportunidade de co- Vera entra. Vermelho. Estudou
Local: Palácio das Artes nhecer e lembrar desta que, junto Letras e Artes Dramáticas. Con-
Horário: 19h com Ivo Bender e Caio Fernando viveu com o câncer no intestino
Abreu, completa a tríade dos gran- durante cinco anos. Admirava Eu-

Grand Moscow
des dramaturgos gaúchos. Estamos genne O’Neil, Tennesse Williams e
Salvador: no evento. A luz sobe: um vermelho Nelson Rodrigues. Recomendava
Espetáculo: “Dom Quixote” intenso a lembrar os lábios irreme- “Gueto Bufo” (espetáculo dirigido
Data: 10/11 diáveis de Vera. Trilha: veludo veloz. por Daniela Carmona, ainda em

Classical Ballet
Local: Teatro Castro Alves cartaz) e “Jogos na hora da sesta
Horário: 21h Eu: (Direção: Paulo Albuquerque). Dizia
Lembrava dos títulos e tenho que a vida era difícil. Quase tinha
Espetáculo: “A Bela Adormeci- os contos publicados. Para mim, ataques cardíacos com alterações
fará 15 apresentações no Brasil da” no entanto, que vergonha!, até
então, ela era uma desconhecida.
em seu texto e fazia questão de
Data: 11/11 manter uma estreita relação com
Em meio a turbulências po- Vasilyov, e com a participação E, por ela, vejo em mim desconhe- os diretores de seus espetáculos.
Local: Teatro Castro Alves cidos. Está nos seus diálogos esse
líticas, brigas com nações capi- dos solistas Artem Khoroshi- Odiava a novela “Laços de Família”,
Horário: 21h encontro em mim e comigo com
talistas e desespero nacional, lov, Marina Rzhannikova, Liou- mas gostava do Zé Victor Castiel.
outros que não conheço.
surgiu um grupo de dança que dmila Doxomova e Alexandra Curitiba:
ajudou a reconstruir a imagem Lezina, além de outros nomes, Vera (com língua afiada):
Espetáculo: “A Bela Adormeci- Entra o tempo. Palco claro. Vera Karam, também desco-
sofrida e autoritária da União o grupo, que conta com um da”
Soviética, e, com o passar do repertório com mais de 20 nhecida como Vera K, é natural de
Leituras dramáticas realizadas
Data: 12/11 Pelotas (RS), embora seja difícil de
tempo, transformou-se em produções - incluindo também por atores muito conhecidos na
Local: Teatro Guaira acreditar que uma pessoa nascida
uma das companhias de balé coreografias para balés como capital gaúcha (lista):
em Pelotas seja “natural”. É pro-
Horário: 21h Carlos Cunha e Laura Backes
mais respeitadas do mundo. Bolshoi e Kirov - leva ao pú- fessora de inglês, eterna estudante
Fundado em 1966 por um dos blico brasileiro as peças “Dom (A florista e o visitante); Raquel
Espetáculo: “Dom Quixote” de letras e ex-atriz, tendo largado
mais importantes coreógrafos Quixote”, de León Minkus, e Pilger (Visita à vovó); Marcelo Ada-
Data: 13/11 ms e Margarida Leoni Peixoto (O a carreira, por razões obscuras, no
do século XX, Igor Moiseyev, “A Bela Adormecida”, de Pyotr auge do anonimato. Avisa aos es-
o Grand Moscow Classical Ilyich Tchaikovsky, dois de seus Local: Teatro Guaira casal ou Você nunca disse que me
amava); Lourdes Eloy com Carlos tudiosos de sua obra que esta pode
Ballet foi um divisor de águas espetáculos mais marcantes. Horário: 21h ser dividida em A.O. e D.O. (Antes
para o balé internacional pelo Marina Rzhannikova, prin- Cunha (Dá licença, por favor); Cla-
da Oficina e Depois da Oficina).
seu caráter inovador. cipal bailarina do Grand Mos- Rio de Janeiro: rice Nejar, Giovana Zottis, Mariana
Velhinho e Fábio Castilhos (Quem Adora cantoras de blues; é apaixo-
Passados 43 anos, a com- cow Classical Ballet, consi- Espetáculo: “Dom Quixote” nada por Eugene O’Neill e fã incon-
sabe a gente continua amanhã?).
panhia se mantém viva e forte, derada uma das melhores do Data: 14/11 dicional de Ligia Fagundes Telles.
levando seus espetáculos pelos mundo, faz o papel de Aurora, Local: Citibank Hall Rio Mesas de debate, reflexão, Não menciona idade, mas deixou
quatro cantos do planeta. Nas a Bela Adormecida, e de Kitry, Horário: 21h memórias (lista): escapar que lembra da revolução de
suas quatro décadas de vida, o em “Dom Quixote”. Em seu Luiz Antônio de Assis Brasil (a 64: da Casa Louro, da revista “es-
grupo já teve nomes importan- vasto currículo destacam-se as Espetáculo: “A Bela Adormeci- prosa de Vera K.); Décio Antunes crita” e freqüentou os resquícios da
tes no cenário da dança mundial, atuações nas peças “Lago dos da” (a dramaturgia de Vera K.); Luciano “esquina maldita”. Adora pimenta,
como os artistas Michail Barysh- Cisnes”, “Romeu e Julieta”, en- Alabarse (a atriz, a iluminadora, a sabe de cor “...E o Vento Levou” e
Data: 15/11
nikov, Mukhamedov Irek, Kol- tre tantas outras. teatreira). leu “A Convidada” sete vezes. Tem o
Local: Citibank Hall Rio estranho hábito de falar de trás para
pakova Irina, Maksimova Eka- As coreografias foram cria- Horário: 18h
terina, Godunov Aleksander, das por Marius Petipa, em 1890, Espetáculo: diante. Aceita críticas, mas só pelo
Vladimir Malakhov, Stepanenko e, mesmo tanto tempo depois, Maldito Coração me alegra correio e acompanhada de fotos
Brasília: que tu sofras (Ida Celina com dire- 3x4. AJESED A SODOT AMU AOB
Galina e Stanislav Isaev. elas ainda são vistas como Espetáculo: “Dom Quixote” ção de Mauro Soares). ARUTIEL. Vera K.
Com coreografias marcan- algo inovador. Com um estilo Data: 18/11
tes e performances altamente marcado pela dramaticidade, Vera fica. Todos voltam. Au-
Local: Teatro Nacional Exposição de Fotos e Vídeos:
técnicas, aliadas a produções usam e abusam das atuações tores não morrem, não desapare-
Horário: 21h Foyer.
originais e um elenco de solis- dos dançarinos. Tanto “A Bela cem. Somos sempre convidados a
tas premiado, o Grand Moscow Adormecida” quanto “Dom visitá-los.
São Paulo: Público procurante:
já se apresentou em mais de 30 Quixote” refletem a constante
Espetáculo: “A Bela Adormeci- Homenagem.
países da Europa, América e busca da companhia por novas O pano não fecha. E ninguém
Ásia, e desembarca em novem- propostas e linguagens para a da” vai embora.
Saem.
bro em terras tupiniquins. Ao dança, num jeito próprio que Data: 20/11 e 21/11
todo, serão 15 apresentações une as tradições clássicas a Local: Teatro Abril Eu (vendo): * Rodrigo Monteiro é crítico teatral.
da escola. A turnê brasileira elementos modernos. Uma as- Horário: 21h Vera começou a escrever em Mestrando em Artes Cênicas na
passa por Porto Alegre, Juiz de sinatura que também está pre- 1990. Onze peças de teatro. Con- Universidade Federal do Rio Grande
Fora, Belo Horizonte, Salva- sente em produções como “O Espetáculo: “Dom Quixote” tos fundamentais. A habilidade de do Sul e colaborador das Revistas
dor, Curitiba, Rio de Janeiro, Lago dos Cisnes” e “O Quebra Data: 22/11 contextualizar nas relações familia- Informe C3 (Digital), Things Mag
Brasília e São Paulo. Nozes”, de Piotr Tchaikovsky; Local: Teatro Abril res ou, ao menos, próximas as im- (Impressa), dos sites Artistas Gaú-
Sob a direção artística de “Cinderela”, todas já encena- Horário: 20h possibilidades diante do estranho. chos e SATED/RS. É autor do blog
Natalia Kasatkina e Vladimir das pelo Grand Moscow. Relações trancadas, truncadas. www.teatropoa.blogspot.com.
12 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Reportagem

som
M E R C A D O T E AT R A L D A N Ç A C O N F O R M E O

dos
musicais
Por Felipe Sil / JT
Espetáculos são cada vez mais sucesso no Brasil e ajudam a empregar artistas e técnicos

Divulgação
mente em Londres, onde era
costume lotar as salas de teatro.
Há 10 anos, eram poucos
os musicais em cartaz no Bra- CLÁSSICOS DIVIDEM
sil, o que contrastava com os O PÚBLICO COM
megassucessos de espetáculos TEXTOS INÉDITOS
como “Cats” e “O Rei Leão” na Outro espetáculo que tam-
Europa e nos Estados Unidos. bém deverá contar com o pa-
Dizia-se que o brasileiro não drão de 80 funcionários em
estava acostumado a espetácu- seu elenco é “Pernas pro Ar”,
los do tipo. A situação agora é que estreia dia 4 de dezembro,
outra. Basta citar como exem- em São Paulo, e tem como
plos os inúmeros musicais pro- principal estrela a atriz Clau-
gramados para estrear no final dia Raia. Muitas contratações
deste ano e no início de 2010. foram feitas pela produção do
Só para citar alguns: “Caro espetáculo para a operação
Amigo Charlie Brown”, “Cats” dos efeitos visuais 3D que irão
e “Jekyll and Hyde”. Quem co- permear a peça. “É algo bem
memora é o mercado de teatro. inovador e que envolve muita
Cada peça contrata, no mínimo, técnica. Como é algo novo aqui
80 funcionários, entre atores, no Brasil, tivemos que investir
cantores, bailarinos e técnicos. pesado no ensino e no aprendi-
>> Leandro Luna fará Charlie Brown e é apenas mais um artista que pode comemorar o sucesso dos musicais
No musical “Caro Amigo zado desse efeito. De qualquer
Charlie Brown”, que ainda está sil, em geral, ainda é muito ama- para a construção de cenários, dores é impressionante. Só que maneira, agora já está tudo pra-
em fase de audições e tem es- dor. Só que um ponto positivo é iluminação e outros tipos de fun- a situação já está bem melhor ticamente certo e em fase de
treia prevista para 27 de feverei- que a atual geração já tem cons- ções. É uma maneira alternativa que, digamos, nos anos 1980, finalização”, garante a diretora
ro do ano que vem, no Teatro ciência de que é preciso cantar de cortar custos e favorecer quando não havia praticamen- de produção Maria Siman.
Frei Caneca, em São Paulo, o e atuar”, revela Ricco, que tam- a peça. “Ao todo, juntando o te nada nem ninguém”, explica. A seleção dos artistas não
produtor Ricco Antony espe- bém seleciona artistas para “A pessoal específico do teatro, Exemplo claro da procura foi difícil. Já se espera que uma
ra contar com 70 pessoas. E o Cor Púrpura”, que pretende ficaremos com algo em torno por uma equipe técnica de pri- atriz com o currículo de Clau-
melhor: nem todas precisam ter estrear também em 2010. Sobre de 80 profissionais trabalhando meiro time no musical “Zor- dia Raia tenha um conhecimen-
experiência no ramo de musi- o processo, faz um comentário só para este musical” afirma o ro” é a contratação de Roberto to sobre os melhores profissio-
cais. “Gosto de formar pessoas surpreendente. “Preciso de ar- produtor César Castanho. Lage, prestigiado encenador nais do ramo. “Basicamente,
acostumadas ao teatro falado, tistas negros que saibam cantar A direção do espetáculo só paulista, com vasta atuação ela é a produtora do espetácu-
levando-as para o teatro musi- e não está sendo fácil encontrá- aceita profissionais que já te- nos diversos gêneros de teatro. lo. A quantidade de contatos
cal. Essa coisa de ensinar um los. Realizo audições em várias nham experiência no segmento “É um profissional com muita que ela possui é impressionan-
outro lado da arte para essas cidades e o que parecia fácil não de musicais. Para Cesar, este é bagagem e que só vai acrescen- te. Todos possuem experiência
pessoas é bacana”, comenta. está sendo”, conta. um fator “sine qua non” para a tar ao espetáculo” comemora em musicais e a maioria já tra-
Uma das maiores dificul- A produção do musical “Zor- excelência da peça. “Queremos Cesar. “Zorro” é um musical balhou com a Claudia. Isso é
dades enfrentadas por Rico, ro”, que tem estreia prevista para uma equipe técnica de primei- baseado no livro de Isabel Al- importante porque o Brasil co-
porém, é para encontrar mão- o dia 16 de março, em Paulínia, ro time. Se desejo uma peça de lende. A peça, porém, contém meçou a produzir espetáculos
de-obra qualificada. Pelo fato São Paulo, prefere selecionar um qualidade, acho que sou obri- várias referências não só ao já musicais há apenas dez anos e
de o mercado de musicais ser número certo de profissionais es- gado a procurar profissionais clássico da literatura, mas ao não há, ainda, muitos profissio-
recente no Brasil, ainda não há pecíficos para o elenco e reservar que já possuam experiência filme “A Máscara do Zorro”, nais qualificados”, diz Maria.
abundância de profissionais de a mão-de-obra técnica para cada no segmento. Ao contrário do de 1998, e ao livro de Johnston Na audição para o musical,
alto nível no País, o que preju- teatro em que for apresentado. que dizem, acredito que temos McCulley, “The Curse of Ca- que teve as inscrições encerradas
dica os diretores e produtores. Ou seja, cada casa de espetácu- muitas pessoas qualificadas. pistrano”. O musical fez suces- em julho deste ano, já dava para
“Não é fácil. O teatro no Bra- los fornecerá seus funcionários Claro que o número de ama- so por onde passou, principal- ver que, apesar de o espetáculo
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
13
Reportagem
prometer emprego para muita gente, era de sucesso na Brodway que tem estreia Chico Lima / Divulgação
preciso preencher requisitos bem espe- prevista no Brasil para 2010. Adaptado
cíficos. Mulheres, por exemplo, não po- da dramaturga britânica Catherine Jo-
deriam ter menos de 1m70 de altura. Já hnson, é baseado nas canções do grupo
os homens precisariam ter uma altura pop sueco Abba. A trama é ficcional e
superior a 1m75. Alguns tipos de vozes não tem exatamente relação com a bio-
pretendidos: sopranos belters, mezzo grafia dos músicos do conjunto. Trata-
belters, barítonos e baritenors. Era pre- se da estória de Sophie, uma garota de
ciso também ter habilidades em dança, 20 anos que ainda não sabe quem é seu
principalmente em bob fosse e jazz. pai. Tarefa complicada, já que sequer a
Sucesso no cinema e na Broadway, sua mãe sabe ao certo.
o musical “O Rei e Eu”, baseado no Para 2010 finalmente uma super
romance “Anna e o Rei Sião”, de Mar- produção 100% brasileira. Trata-se da
garet Landon, também terá uma mon- estréia em abril do CANDAGO, o mu-
tagem brasileira, em fevereiro de 2010. sical, um espetáculo que traz de volta
Dirigido por Jorge Takla, o musical terá o produtor e autor Claudio Magnavi-
no elenco, ao todo, 60 artistas. Destes ta, que foi o responsável por musicais
profissionais, 15 serão crianças. O espe- como Cole Porter – Ele Nunca Disse
táculo tem músicas de Richard Rodgers que me amava (o primeiro grande su-
(1902-1979) e letras de Oscar Hammers- cesso da dupla Charles Moeller e Clau-
tein II (1895-1960), responsáveis por su- dio Botelho), Company que teve o Musicais como ‘O Primo Basílio’ costumam contratar 70 artistas para a temporada
cessos como “Oklahoma!”, “Carousel”, próprio Steven Sondheim na platéia do
“South Pacific” e “A Noviça Rebelde”. Vila Lobos, Constellation e Comunitá. sília é celeiro de grandes talentos do culo é encenado no Brasil. Em 2006, o
É uma dupla de peso. Juntos, colecio- “Candago será a epopéia da construção mundo musical brasileiro. Sara Sarres, público de São Paulo e do Rio de Janei-
nam 34 prêmios Tony, 15 Oscar, dois de Brasília dentro da ótica operaria, do Alessandra Linhares, Frederico Silvei- ro já havia se encantado com a obra de
Grammy e um Pulitzer, entre outros. Na povo que a construiu. É uma obra que ra, Saulo Vasconcelos, , do maestro Andrew Lloyd Webber.
versão brasileira, as letras são de Cláu- envolverá mais de 120 pessoas, en- Marconi Araujo e Paula Copovilla. Va- Apesar do crescimento vertigino-
dio Botelho, responsável por versões tre músicos, atores/cantores e coro e mos priorizar a prata da casa na seleção so dos musicais no Brasil, o fator casa
de “Les Miserables”, “A Bela e a Fera”, fará parte da comemoração oficial dos do elenco. Seremos uma super produ- de espetáculos preocupa. São poucos
“Vitor ou Vitória”, “Chicago”, “My Fair 50 anos de Brasília” afirma Magnavita ção 100% brasileira em universo de os locais preparados para receber esse
Lady”, “A Noviça Rebelde” e “West Side que revela ainda “a idéia surgiu quan- remontagens de musicais estrangeiros” tipo de apresentação. A explicação mais
Story”. Na coreografia está Tânia Nardi- do apresentamos o Constellation no finaliza Magnavita. plausível é o pouco tempo de sucesso
ni. Os figurinos são de Fábio Namatame Americel Hall em 2003. Conversando Por fim, aquele que talvez seja o dos musicais no País. “Apenas agora os
e os cenários de Duda Arruk. com José Farani chegamos a conclusão maior sucesso da Broadway de todos empresários começam dar mais atenção
Também na pauta do próximo ano que a construção de Brasília era uma os tempos, tanto de crítica quanto de a este segmento e lançar novos teatros.
está “Jekyll & Hyde, o Médico e o verdadeira saga, uma epopéia do povo público, promete ser uma das maiores Em uma cidade grandiosa como São
Monstro” - baseado na estória de Ro- brasileiro que nunca havia sido contada atrações teatrais do Brasil em 2010. Paulo, por exemplo, só temos os teatros
bert Louis Stevenson. A procura para e que mereceria um musical.” Além de “Cats” é um musical composto por Alfa, Abril e Bradesco com capacidade
curar os problemas mentais de seu produtor, Claudio Magnavita é o autor Andrew Lloyd Webber e que teve sua para receber eventos deste porte”, la-
pai, portanto, resultam em um Jekyll dos Constellation, que teve o Jorginho estreia em Londres, em 1981. Sua con- menta Ricco. Cesar Castanho também
completamente louco, vagando pela Guinle como personagem e foi pro- sagração, porém, só viria 20 anos de- demonstra insatisfação com o pouco
Londres do século XIX com seu alte- duzido para comemorar os 75 da Va- pois, na Broadway. Foram mais de 50 número de salas nas grandes metrópo-
rego selvagem, Edward Hyde. “Jekyll rig e do Comunitá, sobre a imigraçao milhões de apreciadores, em um total les do Brasil. “Os musicais precisam de
& Hyde, o Médico e o Monstro” é um italiana no pós-guerra. A pesquisa vem de impressionantes 45 mil apresenta- espaço para funcionar bem. Há pou-
dos musicais que mais obtiveram suces- sendo realizada há mais de 5 anos e o ções. Basicamente, “Cats” é uma série cas salas no País e as que existem ainda
so na história da Broadway. musical esterá em abril a Capital Fede- de poemas de T.S. Eliot musicados e apresentam problemas. Há muita gente
Assim como o clássico de Stevenson, ral seguindo para temporada no Rio e com um roteiro acrescentado. Essa não no palco neste tipo de peça. Ainda tem a
“Mamma Mia” também é um espetáculo em São Paulo. “O curioso é que Bra- é a primeira vez que o famoso espetá- orquestra... Aí fica complicado”, critica.

‘O IDEAL ERA PROFISSIONALIZAR A COXIA. TER UMA EQUIPE PERMANENTE DE CARTEIRA ASSINADA E COM UM VOLUME DE PRODUÇÕES FIXAS.’
Marcado para estrear em abril de 2010, o JT- Quantas pessoas estão envolvidas na JT – Pode se comparar produções no Brasil
espetáculo “Candango – o musical” traz de produção de um grande musical no Brasil? com as que são realizadas no exterior?
volta aos palcos as produções de Claudio CM- Em “Company” tivemos uma orquestra de CM- Quando pudermos cobrar 100 dólares
Magnavita, responsável por sucessos como 16 músicos, 12 pessoas em cena e 30 pessoas por um tíquete poderemos estar no mesmo
“Cole Porter – Ele Nunca Disse que me ama- na equipe técnica. O problema é que as com- nível. Hoje com o fenômeno da meia-entrada
va”, “Company”, “Constellation” e “Comuni- panhias não se estabelecem no Brasil de forma um tíquete médio está em torno de 20 dóla-
tá”. O autor revelou ao Jornal de Teatro as permanente. Usamos mão de obra temporária, res no Brasil. Fica difícil ficar milionário pro-
particularidades deste espetáculo 100% bra- que pula de produção em produção. O ideal era duzindo e montando musicais. O Cameron
sileiro e revela a motivação para apresentar profissionalizar a coxia. Ter uma equipe perma- MacKintosh é uma das maiores fortunas da
a saga da construção de Brasília. nente de carteira assinada e com um volume Inglaterra. O que diferencia são os nossos ar-
de produções fixas. Para isso o produtor tem tistas. Completos e que dão alma no palco.
Jornal de Teatro – Como é produzir um que ter o seu próprio teatro, como ocorre nos A nossa equipe técnica é brilhante. Quem
tema 100% nacional em meio a estréia de Estados Unidos e em Londres. trabalha com teatro no Brasil faz primeiro por
grandes musicais internacionais? paixão e depois por questões financeiras.
Claudio Magnavita – No Rio desenvolvemos JT- Quais são os principais problemas para pro- JT- Como é voltar a produzir depois de um in-
no início desta década um jeito brasileiro de duzir teatro musical no Brasil? tervalo de quase cinco anos? O cenário mudou? JT- E o Candango?
fazer musicais. Aliás, o renascimento do gê- CM- A concorrência desleal, como foi o caso CM- Sim, mudou muito. Quando montamos CM- Está sendo pensado nos mínimos detalhes.
nero deve ser creditado ao “Abre Alas” e Ro- da Prefeitura do Rio em um passado recente e “Cole Porter” tínhamos excelentes atrizes É uma estreia que fará parte da programação dos
samaria Murtinho merece um troféu por ter a Lei Rouanet que fazem com que algumas pro- que não cantavam e grandes cantoras que 50 anos de Brasília. Trata-se de uma super produ-
trazido os musicais de volta ao Brasil. Outros duções surjam sem estarem sintonizadas com não atuavam. A magia era equilibrar as coi- ção e com responsabilidade histórica. Este pro-
espetáculos surgiram, dentro de uma fór- o público. Cumprem agenda só para embolsar sas. Hoje temos uma geração pronta. Gran- jeto me acompanha há mais de seis anos. O
mula brasileira. O próprio “Costellation” era os patrocínios sobre renúncia fiscal. des cantores que são grandes atores. Além curioso é que é mais uma produção com a le-
uma história que se passava no Rio dos Anos disso o musical esta ganhando uma nova tra C. Todos os outros começavam com C. Cole
Dourados, com o ‘Copa’, Jorginho Guinle, o JT – Prefeitura do Rio??? geração. É só ver o sucesso do High Scho- Porter, Company, Caminito, Carmem Miranda
próprio avião Constellation... Foi assistido CM- Sim, durante uma fase ficou impraticável ol. Uma platéia de adolescente apaixonados By Dussek, Concertos Americanos, Comunitá,
por quase 300 ml pessoas, o CD saiu pela produzir no Rio. A prefeitura bancou grandes pela magia dos musicais. No “Constellation” Cantoras do Radio e Constellation. Agora é a vez
gravadora Som Livre e uma de suas músi- musicais a fundo perdido e depois todo o acervo sentíamos isso com o projeto escola da Cin- do Candango. Mas em 2010 tenho o projeto da
cas virou tema de abertura de uma novela da produção passava a ser propriedade da com- tia Abravanel. A criançada ia ao delírio. O Ópera do Futebol. Será uma grande produção
da Rede Globo. A estréia foi uma noite de panhia. Ficavam em cartaz no Rio a R$ 7,50 e Bradesco teve a sua primeira experiência de para a obra do Francis Hilme e Silvana Contijo. O
revista Caras. Não devemos temer a concor- depois iam para São Paulo com uma bilheteria de patrocínio de teatro com o “Constellation”, Francis disse brincando que para dar certo vai
rência das montagens internacionais. Uma R$ 80,00 e até voltavam para o Rio para a rede através da amizade do meu então sócio Luiz rebatizar o trabalho de “Craque! A Ópera do
país musical como o Brasil não poder ter privada e a Prefeitura não via de volta um único Rondon com o Luiz Carlos Trabuco. Hoje o Futebol”. A ideia é estrear em Joahnesburgo
receio de ter os seus próprios blockbusters centavo do que foi investido. Isso paralizou por banco abraçou o teatro. Produzir hoje esta no período da Copa do Mundo de 2010 e
do teatro musical. uns cinco anos a produção privada no Rio. bem mais fácil. ficar em cartaz até 2014 em turnê mundial.
14 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Reportagem Fotos: Divulgação

E N T R E V I S T A Cláudio
Botelho:

Cláudio Botelho
‘Atualmente
há muitos
profissionais
bons no País’

Por Felipe Sil / JT de profissionais para suas peças escolas e oficinas de teatro,
e comenta sobre o mercado te- hoje, ainda não há matérias
Ator, cantor e diretor e atral brasileiro, além, claro, de específicas sobre musicais. A
versionista, Claudio Botelho é falar sobre a nova produção maioria das pessoas que se
considerado um dos principais sua com Charles: “Gypsy”, que especializa neste segmento re-
nomes do teatro musical no tem estreia prevista para março aliza cursos paralelos, como
Brasil. Em parceria com Char- de 2010 no Teatro Villa-Lobos, aulas de canto. Não sei se isso
les Moeller, costumam ser cha- no Rio de Janeiro. é bom ou ruim, mas este é um
mados por aí de “OS caras dos fato que deve ser lembrado.
musicais”. O primeiro gran- Jornal de Teatro – Quantos
de sucesso da dupla começou funcionários farão parte do JT – Como é a seleção da área
com “Cole Porter – Ele Nunca musical “Gypsy”, que estreia técnica para seus espetáculos?
Disse que Me Amava”. Pro- em março de 2010? CB – Nós sempre trabalhamos
gramado para ser um piano no Claudio Botelho – “Gypsy” com a mesma equipe. Dessa
palco e seis atrizes/cantoras o será um musical enorme. Mui- maneira, conseguimos criar um
musical foi produzido pelo jor- to grande. Serão, no mínimo, bom entrosamento entre os
nalista Claudio Magnavita, que 35 artistas. Ao todo, contando funcionários e manter um pa-
resolveu investir na idéia e até técnicos e outras funções fora drão de qualidade.
amplia-la. Ganhou figurinos do palco, acredito que con-
de alta costura assinados pelo taremos com pelo menos 70 JT – Pelo fato de um musical
português Antonio Augustus funcionários. Só a orquestra exigir muito de seus profissio-
e um trabalho de marketing tem 20 músicos. Sem dúvida, nais, há um acompanhamento
nunca visto antes no mun- é uma megaprodução. desses funcionários?
do dos espetáculos. Os três CB – É lógico. Sempre há, por
“C” Claudio Botelho, Charler JT – Vocês costumam procurar exemplo, um acompanhamento
Moeller e Claudio Magnavita, profissionais que já possuam vocal. Alguns artistas já contam
transformaram o quarto C, de experiência em musicais ou é com profissionais particulares
Cole Porter em um fenôme- possível trabalhar com artistas que os ajudam, mas sempre da-
no. Assistido por mais de 250 de outros segmentos do teatro? mos todo tipo de suporte. anos. É considerado um clás- alguns outros teatros. Dá para
mil pessoas o musical saiu do CB – Há um misto de tudo. sico dos clássicos e tem uma perceber claramente que os em-
pequeno teatro Arena do Rio Não existe um método espe- JT – O crescimento de um seg- carpintaria elogiada por todos presários têm notado o cresci-
direto para os palcos do Tea- cífico que utilizamos para con- mento de teatro no Brasil que que conhecem musicais. Esta mento dos musicais no Brasil.
tro Alfa em São Paulo e depois tratar. Sempre fazemos testes tem o costume de contratar será a primeira montagem des-
para o Cassino do Estoril em com muitas pessoas e pegamos tantos artistas e técnicos é bom te espetáculo aqui no Brasil e JT – Mas por que, em um País
Portugal. Na sequência des- aquelas que se adaptam melhor para o mercado brasileiro? estamos muito felizes com isso. tão musical como o nosso, os
te sucesso, Botelho e Moeller a determinado personagem. CB – É realmente muito bom O enredo conta a história de musicais demoraram tanto
convenceram Magnavita a pro- Geralmente trabalho com elen- para o mercado. Imagine a Gypsy Rose Lee, uma stripper tempo para fazer sucesso?
duzir “Company”, considerada cos novos. Os requisitos são quantidade de pessoas traba- famosa e sua relação dela com CB – Na verdade, até os anos
pela Sondheim Review uma sempre diferentes. Em algumas lhando hoje que teria dificulda- a mãe, uma mulher obsessiva 1970, nós até tínhamos muitos
das melhores montagens inter- ocasiões precisamos de alguém de em arrumar algum emprego que acabou se transformando musicais. Tivemos, inclusive,
nacionais. Sucesso de publico e com dotes mais operísticos. no teatro que era feito antes. em estrela. Quem faz a Gyp- diversas produções gigantes.
critica a carreira da dupla estava Em outras de um artista com Muitos atores que participam sy é Adriana Garanbone. No Só que depois, com o regime
decolando a partir destas duas voz mais natural. Às vezes, ne- hoje de musicais poderiam es- elenco estão 35 atores, entre militar, este segmento entrou
produções. Só para citar alguns cessitamos de comediantes. Às tar por aí treinando para exer- bailarinos e cantores, que per- em desuso. O teatro começou a
dos trabalhos em que Botelho vezes, de dramáticos. cer pequenos papéis na TV. correm a trajetória da persona- tratar de assuntos menos agra-
participou, estão “O Fantasma Hoje, os musicais são uma re- gem desde a infância. dáveis do que os geralmente
da Ópera“, ”My Fair Lady“, JT – É difícil, hoje, encontrar alidade do cenário. abordados por musicais. A pró-
“Miss Saigon“,” Sweet Cha- mão-de-obra qualificada no JT – Como estão as condições pria classe musical não tinha
rity“, “Side By Side By Son- Brasil? JT – Por que você e Char- das salas de teatro no Brasil interesse e isso voltou com a
dheim“, “Company“, “Cole CB – De maneira alguma. Atu- les escolheram a peça “Gyp- para receber musicais? nossa geração, que é a dos anos
Porter”, “West Side Story“, “A almente já há muitos profissio- sy” como o próximo projeto? CB – Olha, estaremos aper- 1980. É tudo uma questão de
Noviça Rebelde” e “Avenida nais bons no País. Antes não CB – “Gypsy” é um musical tados no Teatro Villa-Lobos. interesse teatral. Este interesse
Q”. Nesta entrevista ao Jornal existia quase ninguém, porque muito antigo e famoso da Bro- Há poucos teatros no Rio de existe hoje no Canadá, na Aus-
de Teatro, o diretor fala sobre também quase não existiam adway. Data de 1959 e, agora, Janeiro preparados para este trália e na própria Argentina.
como é o processo de seleção musicais. Mesmo assim, nas está fazendo justamente 50 tipo de produção. Acho que Na França, porém, não há uma
um dos motivos para isso é procura grande por este tipo de
que, por muito tempo, valori- espetáculo. É tudo questão de
zamos os espetáculos com um interesse do público.
ou dois atores. Todos os anos
abrem pequenas salas com 11 JT – Como analisa o atual ce-
ou 200 lugares. No Rio, teatros nário dos musicais no Brasil?
preparados para musicais são CB – Acho muito bom. Há mui-
o Villa-Lobos, o João Caetano, tos espetáculos bons estreando e
o Carlos Gomes e o Oi Casa é um mercado que se desenvol-
Grande. Em São Paulo, há o veu no Brasil. Há muitas obras
Teatro Abril, o Sérgio Cardoso, originais e também cópias. Só
o Alfa e o Teatro Bradesco, que que eu acho legítimo fazer có-
abriu agora. pias. Há muitas aqui no Brasil,
mas isso faz parte do jogo e do
JT – Há uma movimentação mercado. Nós, particularmente,
para a criação de mais casas de não nos interessamos em traba-
espetáculos que suportem es- lhar com cópias. Procuramos
tes grandes espetáculos? fazer espetáculos onde possa-
‘Beatles Num Céu de Diamantes’ é um dos maiores sucessos da dupla Cláudio Botelho e Charles Möeller CB – Sim! Já estão sendo feitos mos colocar o nosso dedo ali.
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
15
São Paulo Fotos: Guilherme Genestreti

O circo marcou presença no evento e emocionou o respeitável público Pessoas nas ruas, sedentas por arte O organizador Ivam Cabral (C) com Tatiana Passarelli e Sergio Salvia

Satyrianas se consagra como o maior festival de teatro de São Paulo
Edição do evento levou 12 mil pessoas para as ruas, durante quatro dias de festival, com direito a dança, cinema e outras atrações
Por Guilherme Genestreti de Teatro Os Satyros. “Quan- ceber todas as diferentes ma- e reuniu gente como Aguillar e altos registros de violência para
do chegamos aqui, tínhamos nifestações artísticas.” Helena Ignez em performances a sede do teatro alternativo em
Ivam Cabral cruza a mar- que bancar as Satyrianas com Além das variadas atrações, marcantes. Mas o carro-chefe do São Paulo. Hoje, as mesas dos
quise da Praça Roosevelt vi- o nosso próprio bolso. Agora, o festival atraiu público para evento ainda é o teatro. Houve bares e as salas de teatro estão
sivelmente orgulhoso com a temos uma verba mínima que as salas de teatro cobrando quem ficasse de fora das peças geralmente lotadas e a alta cir-
multidão que se aglomera na paga a maior parte das coisas”, preços simbólicos pelas apre- lotadas nos espaços dos Satyros culação de pessoas afugentou a
segunda noite das Satyrianas. comemora García Vásquez. sentações. Nas tendas, os espe- 1 e 2, e dos Parlapatões. criminalidade.
Contente, o ator revela que, Consolidada, a festa não táculos eram gratuitos. O Dra- As Satyrianas são apenas
até aquele momento, já havia mais se restringe à Praça Roo- maMix, sucesso de público na TEATRO PARA A CIDADE uma das frentes na proposta
passado cerca de 12 mil pesso- sevelt e acaba se estendendo edição do ano passado, voltou “No fundo, a essência do que a companhia teatral tem
as pelo festival, acotovelando- por toda cidade em mais de à programação das Satyrianas nosso trabalho sempre foi ur- para a cidade. Ivam Cabral
se nas calçadas e plateias para 30 casas de espetáculo, fora com textos curtos escritos pe- bana, sempre quisemos trazer não esconde a satisfação com
conferir as 78 horas ininterrup- as tendas erguidas especial- los mais variados autores, em o povo para ocupar as ruas”, a nova escola de teatro que
tas de atividades artísticas pre- mente para o evento. Música, apresentações que eram reali- aponta Ivam Cabral, garantin- será inaugurada e que conta-
vistas na programação. dança, circo, cinema, artes zadas de hora em hora. Perto do que, mesmo com o número rá com apoio governamental
Há motivos de sobra para plásticas e debates literários dali, os Parlapatões montaram alto de pessoas na festa, ne- para distribuir bolsas de es-
celebrar: o evento acaba de en- dividiram a atenção do pú- uma lona para apresentação de nhuma ocorrência policial ha- tudos entre os alunos. Além
trar para o calendário oficial do blico na maratona cultural, números circenses que foram via sido registrada. disso, a praça Roosevelt pas-
estado de São Paulo, e seus ide- o que confirma a opinião de responsáveis pelas maiores fi- Inusitado é perceber que sará por uma grande refor-
alizadores, Ivam Cabral e Ro- Ivam Cabral quanto ao pro- las do festival. esse índice contrasta com o ma nos próximos meses para
dolfo García Vásquez, comple- pósito da festa: “Nós não po- Outra grande novidade dessa histórico da própria Praça Roo- que possa atender melhor à
tam, este ano, as duas décadas demos nos fechar no teatro e edição, o VisuMix, foi um espa- sevelt, que passou de lugar ex- sua nova configuração como
da existência da Companhia temos que nos abrir para re- ço exclusivo para as artes visuais, tremamente degradado e com meca do teatro paulistano.

Homenagem merecida
Divulgação

A atriz Cleyde Yáconis chega aos 60 anos de carreira com homenagens de dois teatros
Por Ive Andrade e de seu sócio, Roberto Montei- três personagens, se estabelece
ro. “O teatro se chamava Cosipa uma discussão sobre a vida, a
Completando 86 anos de vida e a marca foi absorvida pela Usi- solidão, a amizade e confiança.
este mês, a atriz Cleyde Yáconis minas, patrocinador do espaço, Os últimos papéis de Yáco-
teve dois teatros de São Paulo então o nome teria que mudar nis traziam mulheres igualmente
interessados em homenagear e de qualquer forma. São vários os densas aos palcos, como Karen
celebrar seus 60 anos de carrei- motivos que nos fizeram esco- Blixen, que inspirou “As Filhas
ra. Os espaços, um na Zona Sul lher a Cleyde: ela foi a primeira de Lúcifer”, de William Luce, a
e outro na Zona Leste da cida- atriz a se apresentar no teatro, viciada em morfina Mary Tyro-
de, disputaram o nome da artista morou no bairro por bastante ne, de “Longa Jornada de um
para batizá-los. O antigo Teatro tempo e tem uma carreira teatral Dia Noite Adentro” e a filósofa
Cosipa Cultura, localizado na re- irretocável, é a maior atriz brasi- Simone Du Beauvoir em “Ceri-
Com 288 lugares disponíveis, o teatro alia aconchego e praticidade
gião do Jabaquara, ganhou a dis- leira viva”, elogia Cardoso. mônia do Adeus”.
puta e passou a ser chamado de Quando estreou, a primeira
Teatro Cleyde Yáconis em setem- peça do Cosipa Cultura tinha a ESTRUTURA
bro deste ano, pouco depois de atriz homenageada como pro- O Teatro Cleyde Yáconis es- EM CARTAZ
completar um ano de atividade. tagonista. A reinauguração deu treou com o nome Teatro Cosi- O gestor do teatro, Fernando Cardoso, afirma que as peças apresenta-
“Essa história com o outro aos espectadores a oportuni- pa Cultura no dia 17 de março das não privilegiam um gênero teatral específico e os espetáculos também
teatro foi um mal-entendido, o dade de conferir de novo o ta- de 2008 e trouxe à capital pau- dão espaço para apresentações musicais. “Nós observamos a qualidade
administrador disse que seria lento de Yáconis no espetáculo lista mais uma opção de espaço do projeto, não temos preconceito quanto a formato, se forem bem produ-
apenas uma sala dentro de uma “O Caminho para Meca”, jun- teatral, com acesso pelo metrô zidos. Temos uma preferência por peças inéditas, mas em geral aprovamos
universidade e por isso a Cley- to com os atores Patrícia Gas- e arquitetura contemporânea. uma peça pela equipe envolvida em um nível alto de produção”.
de aceitou. Quando ela perce- par e Cacá Amaral, com dire- Com capacidade para 288 pesso- Segue até o final de novembro a peça “7 conto – A comédia”, com o ator
beu que seria outro teatro, ela ção de Yara de Novaes. O texto as, o teatro tem formato italiano, Luiz Miranda e direção de Ingrid Guimarães. Em dezembro, um show de natal
desistiu, pois já havia falado do dramaturgo sul africano dois camarins individuais e um será realizado com músicas brasileiras e apresentação da cantora Vanderléia.
conosco”, explica o gestor do Athol Fugard deu à experiente palco que conta com nove me-
novo Teatro Cleyde Yáconis, atriz o papel de Helen Martins, tros de proscênio, urdimento de SERVIÇO:
Fernando Cardoso. personagem inspirada na ar- 6,60mX11,00m e boca de cena Teatro Cleyde Yáconis – Avenida do Café, 277, Jabaquara
A ideia de dar o nome da tista Helen Elizabeth Martins. com quatro metros de altura e Telefone: (11) 5070-7018
http://www.teatrocleydeyaconis.art.br
atriz ao teatro partiu de Cardoso Através do encontro entre os nove de largura.
16 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Um retra
Especial

Em matéria especial para o Jornal de Teatro, Nilton Guedes entrevista o ator, diretor, escritor e dramaturgo Ailson Braga, que fala

Fotos: Anderson Espinosa

Por Nilton Guedes “A mesma cultura da

Nilton Guedes: Como dire-
capital com suas co-
tor do Sistema Integrado de
Teatros, que análise faz do midas típicas, lendário
atual momento nas ativida-
des teatrais no Pará? e tudo o mais não é o
Ailson Braga: Estamos em
um momento de mudança e de que se vê no Sudeste
fragmentação. Há muita gente
nova produzindo teatro e gru- do Estado, com uma
pos tradicionais ainda se man-
tém na ativa. Esse momento colonização basica-
em que duas gerações se en-
contram pode ser muito criati- mente vinda do Sul
vo e só deve ter seus reflexos
e seu alcance definidos mais e Sudeste do Brasil.
tarde. É preciso um pouco de
paciência histórica para ver o Então o teatro paraen-
que esse momento vai signifi-
car, mas eu vejo como um mo- se também é múltiplo
mento de mudança em busca
de maior profissionalização. e em muitos lugares
A Escola de Teatro da UFPA
começa o curso de graduação
com bacharelado em teatro em
está em processo de
2010 e nossa escola em nível
médio é uma das mais antigas formação de sua iden-
do Brasil. Temos uma tradição
na arte teatral que ainda não foi tidade. O intercâmbio
plenamente reconhecida, seja
aqui seja no resto do País. devido às distâncias
NG: Não é hora de regulari- também não ocorre
zar a profissão no Pará?
AB: Acho que a criação de forma ideal”. Ailson: “Acho que temos uma forma de fazer teatro muito coerente, contemporânea e com compromisso”
de um sindicato é urgente no
Pará. A definição de novos ru- dade. O que ainda precisamos mos, ainda, novos grupos que tal paraense? custo conseguir recursos para
mos para a Fesat (Federação construir é o chamado merca- atuam em linguagens de teatro AB: O TWH (Teatro Wal- a troca do ar – já está aprova-
Estadual de Atores, Autores e do para o teatro. O trabalho de de bonecos como a In Bust, demar Henrique) surgiu em da metade do recurso e uma
Técnicos) é urgente também. formação de plateia deve ser de clowns, como os Palhaços uma época que só havia na ci- campanha em prol do teatro
Temos uma federação que re- constante. Trovadores, enfim, uma série dade o Teatro da Paz – que é começa ainda este ano. O te-
presenta uma parcela mínima de grupos que trabalham em muito grande e não aceita cer- atro foi projetado por Luís
dos grupos que mais produ- NG:Você acredita que a busca de excelência artística. tas experimentações até por Carlos Ripper e é um dos úni-
zem e que são mais atuantes classe teatral paraense está Isso só para citar uns poucos sua estrutura de palco italiano, cos do Brasil que permitem a
no Pará. É esse momento de no caminho certo? e cometendo injustiças com por ser um teatro monumen- mudança de palco e plateia de
mudança e de fragmentação a AB: Acho que a categoria tantos outros grupos que exis- to. Os artistas – especialmente formas inusitadas, já que tem
que me refiro: há coisas muito teatral está em busca de res- tem em Belém. Por outro lado, o Grupo Cena Aberta – foram a característica de ter palco e
boas acontecendo e certos ma- postas. Temos um grupo como temos os grupos que repetem fazer teatro na rua na década platéia móveis. É o teatro con-
rasmos e falta de organização o Gruta, que tem 40 anos, e os mesmos erros há anos, com de 1970 não por opção, mas siderado pelos artistas como o
ao mesmo tempo, conviven- que faz teatro com o mesmo um teatro sem verdade, com os como denúncia pela falta de que mais está próximo deles e
do juntos. As cidades fora do frescor de quando surgiu, com atores gritando feito uns insa- um espaço que abrigasse o de suas lutas. E não é só ator
eixo da região metropolitana pique, com coerência, com es- nos, peças muito ruins e sem experimental e o popular. De que considera o “Waldeco”
de Belém também começam a tudo, com um trabalho voltado aprimoramento técnico. Te- tanto se gritar, as autoridades como sendo um espaço de re-
produzir mais teatro e a tentar para a fé cênica, para o trabalho mos essas realidades. Não sei conseguiram ouvir e criar o sistência e de luta. O pessoal
buscar uma qualidade e maior de ator. Temos o Grupo Expe- dizer se é o caminho certo, mas espaço. O teatro, infelizmente, do rock, da música regional
pesquisa no teatro. O Pará – riência, que também é um dos que é um caminho que merece está muito deteriorado, após e da dança também chama o
especialmente Belém – tem em mais atuantes há décadas, com ser estudado e melhor compre- décadas de administrações de- Waldemar de seu.
comum o trabalho de grupo. um trabalho que vai do regio- endido, isso é. sastrosas. Mesmo com a refor-
Os grupos e suas linguagens nal ao clássico. Temos um gru- ma dos anos 1990, o ar condi- NG: Como ator e autor, você
determinam o fazer teatral pa- po como o Cuíra do Pará, que NG: O Teatro Experimental cionado, as panadas, o sistema acredita que houve renova-
raense. Temos grupos – novos está sempre produzindo comé- Waldemar Henrique com- de iluminação e de som não ção de talentos nas últimas
e tradicionais – que produzem dias e espetáculos densos, além pleta 30 anos. Qual a impor- foram trocados, tendo quase a décadas no setor teatral pa-
espetáculos contemporâneos, de manter seu próprio espaço tância deste espaço cultural mesma idade do teatro. A ge- raense?
com pesquisa séria e de quali- ali no centro da cidade. Te- no cenário artístico da capi- rência do teatro tenta a todo AB: Com certeza. Vimos o
17

ato do Pará
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009

ato
Especial

ae fala
sobresobre os mais
os mais de 30deanos
30 anos de atividade
de atividade teatral
teatral na capital
na capital paraense
paraense
CURRÍCULO ARTÍSTICO
Ailson Braga é ator, diretor teatral, escritor, dramaturgo e jorna-
lista. Faz teatro desde 1974, em Belém do Pará, e trabalhou com os
diretores paraenses: Henrique da Paz, Luiz Otávio Barata, Zélia Ama-
dor de Deus, Adriano Barroso, entre outros. Atuou em mais de 30 es-
petáculos. Em televisão faz comerciais desde 1981 e trabalhou como
ator em campanhas políticas do Partido dos Trabalhadores.
Apesar de atuar em Belém (PA), o artista teve passagens por
João Pessoa (PB), em 1985, onde trabalhou com Fernando Teixeira,
ator, diretor e dramaturgo no espetáculo “Um tomate esmagado por
um carro”; atuou em São Paulo, entre os anos de 1992 e 1996, sob a
direção de Robert McCrea (“A trágica história de vida e morte do Dr.
Faustus”), Carlos Palma (“Castro Alves pede passagem”), Flávio Costa
e Marcello Costa (“O circo do Seu Bolacha”).
Em teatro, ganhou prêmios de melhor ator no Festminas 1998,
com o espetáculo “Hamlet-máquina”, e melhor ator, em 1991, pela
Fesat (Federação Paraense de Autores, Atores e Técnicos de Teatro),
com o espetáculo “Caosconcadicáfica”. Em cinema, fez os filmes
“Araguaya - conspiração do silêncio”, de Ronaldo Duque; “O sol do
meio-dia” (2009) de Eliana Caffé, o DOC-TV “Chupa-Chupa - a história
que veio do céu” (2007), dirigido por Roger Elarrat e Adriano Barro-
so, “Miguel Miguel”, baseado na obra de Haroldo Maranhão (2009),
minissérie para a TV Cultura do Pará (a ser lançado), além dos curtas
“Vernissage”, de Roger Elarrat, e “Enquanto chove” (2003), filme de
Alberto Bitar e Paulo Almeida, baseado no livro homônimo de autoria
do próprio Ailson Braga. Faz a voz do personagem “Caranguejo”, nas
animações “Onda- festa na pororoca” e “O rapto do peixe-boi”, do
diretor e animador Cássio Tavernard. Também fez a voz do persona-
gem “Velho/Duende”, da animação “Cadê o verde que estava aqui?”,
de Biratan Porto.
Em 2002, lançou o livro “Enquanto Chove”, resultado da bolsa-
prêmio de literatura do Instituto de Artes do Pará. Foi selecionado
com o conto “O tripa” para o concurso “Machado de Assis” do Sesc-
DF no ano de 2007. Em 2008, foi convidado para o projeto Portfólio,
do Instituto Itaú Cultural, com o texto “Desterro”. Escreveu o texto “A
peleja dos soca-socas João Cupu e Zé Bacu”, montado pelos grupos
In Bust Teatro com Bonecos e Grupo Gruta de Teatro, ambos de Be-
lém do Pará. Ministrou oficinas de iniciação ao teatro, interpretação e
leitura de textos pela Fundação Curro Velho e de literatura (Iniciação à
poesia) pelo Instituto de Artes do Pará.
Teatro Estação Gasômetro, no Pará, é local para algumas das melhores peças do Estado e orgulho da cena local

surgimento de homens de tea- distâncias, mas ainda há mui- anos, estabeleceu uma política ense precisa ser mais divulgado NG: Há avanços na estrutu-
tro como o Adriano Barroso, to desconhecimento de quan- de editais, que inclui editais de para o resto do País. Acho que ra da política cultural?
que também atua na literatura to somos e o que fazemos em auxílio-montagem, de isenção temos uma forma de fazer tea- AB: Após 12 anos com
e no cinema. Além dele po- termos de teatro no Pará. de pautas nos teatros públicos tro muito coerente, muito con- uma Secretaria de Cultura
demos citar Ester Sá, David e de projetos voltados para as temporânea, com pesquisa e voltada para o patrimônio
Mattos, Adriana Cruz, Maurí- NG: O que precisa ser feito diversas regiões do Pará. Des- com compromisso. Acho que edificado – que é importante,
cio Franco, Aníbal Pacha, en- para o setor teatral paraense tacamos o projeto Cena In- a Amazônia também deve ser mas que excluiu os artistas e
fim, uma série de pessoas que alcançar níveis mais próxi- terior, que é de montagem de conhecida pela sua arte, pelo seu os produtores culturais – o
trabalha na capital e nos mu- mos do eixo Rio-São Paulo? espetáculos nos municípios do teatro. Também é preciso dizer governo do Estado começa
nicípios paraenses. Aí, acho AB: Nada. Seja sob o aspec- interior, com atores e técnicos que os atores e técnicos locais a abrir suas portas aos seg-
que vale um adendo sobre o to do bom ou do ruim, produ- da cidade escolhida para o pro- devem estudar mais a história do mentos artísticos, implanta-
tamanho de nosso Estado. O zimos coisas bem parecidas jeto e direção artística de um teatro paraense e olhar com mais do uma política pública de
Pará é enorme e muito diver- profissional paraense que vai cuidado o seu futuro. Temos que editais, ampliando as ações
às do eixo Rio-São Paulo. O nos questionar acerca de como
so. A mesma cultura da capi- que falta é essa troca de infor- para o município e trabalha será o futuro desse ofício em para fora da capital, reco-
tal, com suas comidas típicas, mações sobre o que fazemos com suas rotinas e métodos. nosso Estado, seja no âmbito da nhecendo a importância de
lendário e tudo mais, não é o aqui. Nós também não temos Isso é muito bacana, pois mos- produção artística, seja no âmbi- outras cidades na produção
que se vê no Sudeste do Es- conhecimento (ou sabemos tra a jovens que o ofício do ator to do mercado e da circulação. A de bens culturais materiais e
tado, com uma colonização bem pouco) do teatro de gru- exige disciplina e muito estudo. mim me parece que temos que imateriais. Após mais de uma
basicamente vinda do Sul e po feito nesse eixo. O que nos começar essa discussão o mais década com seu trabalho
Sudeste do Brasil. Então, o falta, basicamente, é uma pla- NG: Comente os pontos rapidamente possível. A discus- centrado na capital, longe
teatro paraense também é teia com mais educação para as mais expressivos na produ- são de uma lei específica para o dos artistas, as expectativas e
múltiplo e em muitos lugares artes e uma ampliação do mer- ção teatral paraense, exem- teatro, em nível estadual e que exigências são muitas da par-
está em processo de forma- cado. O mercado aqui ainda plificando aqueles que mar- garanta recursos financeiros a te de quem faz arte e cultura
ção de sua identidade. O in- está em formação. O que não caram a virada do milênio. serem aplicados em projetos de acerca do trabalho do gover-
tercâmbio, devido às distân- significa que é uma coisa ruim. AB: Não citarei espetácu- teatro, como já existem em Esta- no do PT. O governo tem
cias, também não ocorre de Falta, também, uma política los aqui porque cometeria uma dos como São Paulo, também já um desafio enorme: deixar
forma ideal. A internet está pública específica para o teatro. série de injustiças. Mas uma teve início e deve ter desdobra- sua marca de mudança nas
ajudando a diminuir essas O governo do estado, após 12 coisa eu afirmo: o teatro para- mentos interessantes. áreas das artes e da cultura.
18 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Festivais
FIAC é marcado por grande presença de público e homenagens
O ator Harildo Deda foi homenageado nesta edição do festival, sem festa por conta do luto estadual pela morte de Neguinho do Samba
Fotos: Wellington Carvalho
Por Paloma Jacobina
Em meio a homenagens e experiên-
cias inovadoras do mundo do espetá-
culo, o FIAC (Festival Internacional de
Artes Cênicas da Bahia) deu a largada
aos dez dias de apresentações, oficinas
e debates que movimentaram a capital
baiana. Foram 53 apresentações distri-
buídas pelos 11 teatros baianos envol-
vidos na realização do festival, que, no
segundo ano de realização, foi marcado
pela forte presença popular.
A cerimônia de abertura, realizada
dia 23, no TCA (Teatro Castro Alves),
contou com a participação de grande
número de atores, diretores e amantes
do teatro, que encheram os 1500 assen-
tos do local para acompanhar o even-
to. No palco, a coordenação do FIAC e
parte da equipe agradeceram aos braços
fortes e mentes brilhantes que fazem o
festival acontecer.
Mas o evento de estréia do FIAC Foram 53 apresentações distribuídas pelos 11 teatros baianos envolvidos no evento O festival deu destaque para a estética
Bahia 2009 também projetou muitas
perspectivas para 2010. Ana Zalcber-
gas, da Caixa Econômica Federal, con-
firmou o patrocínio para o evento no PARTICIPANTES DO FIAC BAHIA 2009 DÃO O SEU DEPOIMENTO SOBRE O FESTIVAL!
próximo ano, e Marcelo Veras, diretor
da FAPEX, lançou o Prêmio FAPEX Por Joana Rizério / Divulgação FIAC brasileiro. Os quatro dias que passamos na “O FIAC é muito bem organizado. As pesso-
de Teatro! Antes mesmo do ator Michel Bahia não poderiam ter sido melhores e o que as que trabalham lá cuidam de cada detalhe
Melamed começar a peça “Regurgitofa- “É gigante a importância do FIAC. Sinto que
mais assusta é que esta é só a segunda edição! para fazer com que o festival seja uma boa
gia”, que marcou a abertura do festival, tem uma direção, mobiliza a cidade... Tem
Parabéns é pouco: o FIAC está experiência. A seleção dos grupos foi muito
o FIAC Bahia também prestou homena- esse intercâmbio, esse trânsito, essa troca
acima de qualquer expectativa.” boa e de muito bom gosto. O Ponto de
maravilhosa que é muito importante. É um
gem ao ator Harildo Deda. Rodrigo Nogueira, diretor e ator de Encontro no Barril, nem se fala: quando um
festival com muito axé!”
Monstro sagrado do teatro baiano, o Vera Holtz, diretora de O Estrangeiro
Madrigal em Processo ponto de encontro não funciona, perdemos
professor, recém aposentado da Escola essa parte incrível que é a de conhecer o
de Teatro da Universidade Federal da “Ótimo, maravilhoso, genial!”
“O FIAC é uma experiência excitante sobre público e os artistas.”Jorge Eduardo Becker,
Bahia, se emocionou com os aplausos como é possível a arte e os artistas recria- do grupo - Teatro em el Blanco
Trinidad González, do grupo Teatro
que recebeu ao ser chamado ao tablado rem a relação entre o público e a cidade de
em el Blanco
e soltou um inesperado “Deu branco!” Salvador.” “Eu achei maravilhoso. É um festival de
diante do TCA lotado, que riu à beça. Marcelo Rezende, jornalista e altíssimo nível. Os ingressos são baratos e
“Todo festival é bom, mas um bem feito é
“Ator não sabe falar, só sabe dizer o tex- curador do Lounge FIAC Oi Futuro a programação é ótima. Estou orgulhoso de
ainda melhor.”
to dos outros – e de óculos!” completou Guilherme Leme, ator de O Estrangeiro Salvador. A cidade merece isso.”
Harildo, colocando óculos para ler sua “Foi uma experiência de aprendizado. Wagner Moura, ator
fala, que incluiu um texto de Shakespea- Aprendi muito com os espetáculos e
“Fazer um festival não é só juntar peças de
principalmente com o público. Tive muitas “Gostei muito do FIAC! Fui muito bem
re e um trecho bíblico. teatro. Um festival tem que ter alma, cara,
surpresas – as oficinas foram ótimas – e fico recebida aqui. Fiquei impressionada com a
Criado em 2008, através do Núcleo digitais, identidade. O FIAC já nasceu com
muito contente de ter participado. Super bem
alma e conseguiu fazer a primeira parte do organização do festival e com a qualidade dos
Internacional de Festivais de Artes Cê- organizado o FIAC. eu só tenho a agradecer.” espetáculos.” Vanise Carneiro, coordenadora
nicas, o FIAC cresceu nesta edição. negócio: juntou um bom número das peças
Célio Amino, de Além da Mágica de produção do festival Porto Alegre em Cena
Este ano, contou com 27 espetáculos de teatro mais comentadas no panorama
(entre nacionais e internacionais) e oito
oficinas. “Regurgitofagia”, que utilizou para a estética. Queremos mostrar e dis- tinham o intuito de causar a ilusão no As apresentações foram marcadas
sensores de captação de sons que se re- cutir as propostas de como estão sendo espectador. “O jogo da ilusão é rom- pela forte presença popular. “Assisti a
vertiam em impulsos elétricos recebi- feitos os espetáculos atualmente, sem- pido nesse formato que estamos valo- todos os espetáculos que pude. Mui-
dos pelo ator em cena, marcou a aber- pre focado na valorização do jogo do rizando e discutindo este ano. Assim, to interessante o acesso a montagens
tura do festival, projetando para todos ator”, explicou um dos organizadores trouxemos espetáculos como “In on boas e de vários lugares diferentes
a proposta levada pelos organizadores do FIAC, o diretor de teatro baiano Fe- It” e “Rainhas”, que têm o caráter de sendo apresentadas para o público
para o evento de 2009. lipe Assis. Segundo ele, os espetáculos apresentar uma dramaturgia de meta- baiano”, afirmou a cantora e atriz Fer-
“Este ano, estamos dando destaque apresentados nas mostras deste ano não linguagem”, detalhou. nanda Fachinetti.

Feto abre espaço para inserção de novos atores
Um festival criado com o objetivo de nas, e muita mobilização cultural. redes sociais, além do novo site – que Este ano, as inscrições para participar
abrir espaço para jovens atores e direto- “Chegamos à 9ª edição com um novo agora abriga um blog e amplia seus canais do Feto 2009 chegaram de norte a sul do
res de todo o país. Assim surgiu, há dez objetivo: fortalecer a rede de relaciona- de relacionamento – o Feto também País. A banca selecionou 16 espetáculos,
anos, o Feto (Festival Estudantil de Tea- mentos entre grupos estudantis de todo está conectado ao Twitter, ao Orkut, oito na categoria Teatro na Escola – des-
tro), realizado em Belo Horizonte. Inicia- o Brasil. Para isso, o festival utiliza fer- ao Flickr e ao YouTube. ”Esses canais tinada a estudantes de escolas de ensinos
do no dia 18 de outubro, o festival tem ramentas disponíveis na internet para serão alimentados com entrevistas, de- fundamental, médio ou graduação – e
programação até 10 de novembro e festa criar um ambiente de interação, visan- poimentos, enquetes, promoções e re- oito na categoria Escola de Teatro – vol-
de encerramento marcada para o dia 20. do estreitar o diálogo entre estudantes portagens ao longo de todas as etapas tada para estudantes de instituições de ar-
A programação deste ano incluiu a apre- de diferentes Estados do País”, explica do festival. A intenção é que os próprios tes cênicas. Ao todo, foram selecionados
sentação de 16 espetáculos, divididos em a organizadora e também idealizadora participantes e interessados no evento 220 estudantes da capital e do interior de
duas categorias: escolas de teatro e esco- do festival, Barbara Bof. pudessem produzir conteúdo de manei- Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São
las convencionais, realização de seis ofici- Seguindo a tendência de apostar nas ra colaborativa”, detalhou. Paulo e do Maranhão.
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
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Opinião

O ofício. A profissão. O emprego. A função.
Gerson Steves
Por vezes fica difícil saber ao de. Era rotina vê-los trabalhar noites Toda profissão determina em- se das vezes em que você foi uma Copeau. “Se o ator é um artista,
certo a diferença entre cada uma a fio sabendo que não receberiam pregos e funções. Para muitos de coisa ou outra. ele é de todos os artistas o que
dessas palavras; perceber as su- pagamento em troca. Exerciam seu nós, estar empregado é um sonho O emprego está grudadinho à em maior grau sacrifica sua pes-
tilezas ocultas nos limites que as ofício com o objetivo maior de ver perseguido a cada novo teste, audi- função. Palavra que chega aos ouvi- soa ao ministério que exerce. Ele
separam. Admito que passo um um pedaço de pano transformado ção após audição, em intermináveis dos sempre carregada de significa- não pode dar nada se não se dá a
bom tempo dos meus dias pen- em algo novo, belo e exclusivo, que visitas de “beija-mão” a produtores dos não muito agradáveis. Funcio- si mesmo, não em efígie, mas de
sando sobre isso para, ao final, levaria para sempre em suas entra- de casting em algumas emissoras nal é aquilo que é prático, que está corpo e alma, e sem intermediário.
chegar a poucas conclusões. nhas o suor de seu rosto e o sangue de TV. Mas, na verdade, ninguém sempre à mão. Analfabeto funcional Tanto, sujeito quanto objeto, causa
Parece correto dizer que o de seus dedos espetados por agu- gosta muito de estar empregado, é aquele que escreve o nome e lê e fim, matéria e instrumento, sua
ofício passa pelo âmbito da apti- lhas e alfinetes. posto que uma das poucas coisas o número do ônibus, mas só. Fun- criação é ele mesmo.”
dão. Quando penso nessa palavra Em minha cabeça, o ofício con- boas de se ter um emprego é o sa- cionar é o que se espera de uma O segundo é de Fernanda
– ofício –, lembro da extensa li- funde-se com a profissão, à medida lário que pinga religioso todo quinto máquina ou de um eletrodoméstico. Montenegro. “Penso que o nos-
nhagem à que pertenço e da qual, que ambos estão ligados ao sentido dia útil do mês. Ter um emprego A função pode não ser criativa, nem so ofício não tem a condenação
de certo modo, não me afastei. mais religioso do trabalho. Não fui ao pode significar tão somente vender tampouco entusiasmante – mas bíblica do trabalho. O suor do
Uma linhagem de costureiras, dicionário conferir a origem do termo, seu talento, sua vocação e aptidões possui a comodidade mesquinha e nosso rosto não é um castigo.
alfaiates, camiseiras, calceiras. por puro medo. E explico: gosto de por um punhado de moedas. E a o conforto fácil do descompromis- Nosso ofício é a nossa festa. Há
Pessoas que dedicaram sua vida pensar que o substantivo profissão venda é feita para um empreende- so, tão característicos dos paus- uma famosa frase de que não há
a criar roupas, trabalhar entre re- deriva do verbo professar; portanto, dor, que também tem o seu ônus mandados, dos capangas, dos tor- nada pior para uma revolução do
talhos e fiapos de linha, sentados algo que abraçamos com fé, do mes- (pesado, por sinal): impostos, con- turadores, dos leva-e-traz. que um revolucionário mal prepa-
a uma máquina de costura. Toda mo modo que abraçamos crenças e trole da produtividade, demanda, Em teatro, todas essas palavras rado. Esse preparo tem que ser
vez que me aproximo da criação religiões, com a mesma intensidade e a triste pecha de capataz. Para se misturam, como na vida. Separá- orgânico, sem divisões ou subdi-
de um figurino, coloco em prática que repetimos rituais. É a afirmação lidar com empregos, seja como las ajuda-nos apenas a estabelecer visões. Sejam totalmente dedica-
os ensinamentos recebidos por pública de uma vocação praticada empregado ou empregador, é pre- alguns parâmetros para entender dos, mas não confinados. Repito:
meio de tradição oral e na obser- dia-a-dia, frente aos nossos pares, ciso disposição para a batalha que melhor onde nos situamos em cada busquem a individualidade, não o
vação do trabalho de minha mãe, aos olhos da sociedade, dentro de se instaura a partir daí. Até porque, caso, avaliar que tipo de postura ar- individualismo.”
minhas tias, minha avó e meu uma ética específica, num jogo com em algum momento, empregadores tística e profissional temos adotado
padrinho. Eles faziam aquilo por regras claras – muito embora alguns dirão que empregados exigem de- e o que esperamos da carreira que * Gerson Steves tem 25 anos
dois motivos: em primeiro lugar, tendam a não considerar nem ética, mais e trabalham de menos. E, de abraçamos. de atividades teatrais na cida-
a sobrevivência; em segundo, quanto mais regras. Acho que para sua parte, os segundos dirão que os Termino com duas reflexões que, de de São Paulo, tendo atuado
por imenso amor. Chego a pen- se abraçar uma profissão, ou para se primeiros são oportunistas e apro- se não jogam luz sobre esta discus- como diretor, dramaturgo, ator,
sar que o amor era maior que o professar a crença de transformar o veitadores do talento alheio. Antes são, valem como ponto de partida produtor e professor. Tem tui-
instinto de sobrevivência, afinal, mundo por meio de uma prática pro- de fazer cara de superioridade e para outras novas discussões. O tado à beça ultimamente (www.
poderiam procurar outra ativida- fissional, é preciso vocação. duvidar desse pensamento, lembre- primeiro pensamento é de Jacques gersonsteves.com.br).
www.marcioreif f.com.br
Por Marcio Reif f
20 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Política Cultural
MinC e sociedade civil se reúnem para debater políticas culturais
O Ministério da Cultura, uma nova reunião para o dia

Marcello Casal Jr./Abr
em parceria com a sociedade 20 de novembro.
civil, consolidou o diálogo
com diversos segmentos ar- II CONFERÊNCIA
tísticos nacionais. As áreas NACIONAL DE CULTURA
de circo, música, dança, artes Durante os três dias de reu-
visuais e teatro tiveram seus nião, os colegiados também
regimentos internos aprova- discutiram diversas questões
dos durante a última reunião referentes à II CNC (Conferên-
dos Colegiados Setoriais de cia Nacional de Cultura), que
Cultura entre os dias 27, 28 deverá acontecer em março de
e 29 de outubro, em Brasília. 2010. A sugestão apresentada
O encontro – o segundo por dirigentes do MinC foi a
de 2009 – foi organizado adoção do Regimento Interno
pelo Conselho Nacional de da II CNC pelos Estados e mu-
Política Cultural, órgão cole- nicípios para facilitar a realiza-
giado do CNPC/MinC (Mi- ção das conferências regionais.
nistério da Cultura). “Esses A Bahia foi apontada como
documentos são fundamen- um dos Estados mais organiza-
tais para formalizar o canal dos em termos de conferências
de diálogo entre o Estado e culturais. O diretor do Centro
a sociedade civil. Com o re- de Artes Cênicas da Fundação
gimento interno de cada co- Nacional de Artes (Funarte/
legiado abre-se um espaço MinC), Marcelo Bones, expli-
para se institucionalizar de cou que a região já concluiu as
fato a participação da socie- conferências municipais e se
dade no Ministério”, expli- prepara para realizar as setoriais.
cou o coordenador geral do Ele afirma que é sempre
CNPC, Gustavo Vidigal. muito produtivo quando a so-
Os textos aprovados serão ciedade civil e os setores cul-
encaminhados para avaliação turais se unem com o governo
do ministro da Cultura, Juca para debater novas políticas.
Ferreira, e, posteriormente, “O pacto federativo no Brasil
divulgados no Diário Oficial ainda é incompleto, por isso
da União. O único Colegia- é importante que haja um ali-
do Setorial que não teve o nhamento entre os Estados; as
regimento aprovado foi o do Conferências Culturais são um
Livro e Leitura, que marcou espaço para isso”, disse. Vidigal vê o encontro como uma chance de formalizar um canal de diálogo entre o Estado e a sociedade civil

Projetos Culturais de diferentes plataformas são discutidos em Brasília
Um projeto cultural para do MinC, e José Murilo Júnior, é anacrônica, que não acompa-
Rafael de Oliveira

a criação de um portal de dan- coordenador de Cultura Digi- nhou essa evolução. Precisamos
ça clássica é de competência de tal, presentes ao encontro. utilizá-la como parâmetro para
qual segmento: dança, audiovi- O secretário de Fomento e propor os critérios. É preciso
sual ou artes integradas? Qual é Incentivo à Cultura, Roberto ante toda a dificuldade fazer essa
o enquadramento na Lei Federal Nascimento, afirmou que a Co- ponte e fomentar esse diálogo
de Incentivo à Cultura? O artigo missão precisa avançar na defini- para definirmos esses parâme-
18, com 100% de renúncia fiscal, ção desses critérios, pois projetos tros e continuar nosso trabalho
ou artigo 26, que permite 30%? culturais com novas linguagens e de fomento à cultura”, explicou
Essas questões estão sem- características diversificadas es- Roberto Nascimento.
pre em discussão pelos con- tão sendo recebidos para análise O conselheiro Luiz Alber-
selheiros que compõem a Co- e a atual legislação não contem- to Carregosa, representante do
missão Nacional de Incentivo à pla mecanismo que corresponda Audiovisual na CNIC, afirmou
Cultura. A definição desses cri- às especificidades. que os critérios precisam ser Comissão Nacional de Incentivo à Cultura reunido: debate proveitoso
térios foi tema de sessão extra- “Encontramo-nos dentro definidos de acordo com os
ordinária, ocorrida no dia 21 de de um desafio que é conciliar conteúdos dos projetos e não essa área analisar.” todas as secretarias e instituições
outubro, em Brasília, imediata- o mundo real com todos seus pelo suporte empregado. “Não Atualmente, todas as pro- vinculadas ao MinC será imple-
mente após a 170ª Reunião da avanços tecnológicos, suas de- podemos legislar sobre tecnolo- postas que utilizam esses novos mentada uma nova “expertise”
CNIC. O debate contou com mandas e criar uma taxionomia gia, pois isso muda diariamente. suportes e mídias são enviadas de forma a que o enquadramen-
subsídios fornecidos por Fábio compatível com elas. Mas esse Temos que analisar o conteúdo. para avaliação da área do au- to seja feito pelo conteúdo do
Kobol, chefe de gabinete do processo precisa dialogar com Um CD, DVD, site ou portal de diovisual. O secretário Roberto projeto e não mais pelo formato
secretário de Políticas Culturais uma legislação que nesse sentido dança são projetos que cabem a Nascimento informou que em apresentado.

Direito Autoral: Congresso avalia proposta de revisão da legislação
A Escola de Direito da 10 de novembro, no auditó- O tema dos debates será a itens da legislação que estão mais interessados no tema. A
FGV (Fundação Getúlio rio do Centro de Eventos da análise da proposta de revisão sendo analisados, tais como entrada é franca e as vagas são
Vargas) e o Centro de Ciên- Fecomércio, na Rua Dr. Plí- da legislação no setor, elabo- Direito de Autor e Direito limitadas. As inscrições são
cias Jurídicas da UFSC (Uni- nio Barreto, 285, Bairro da rada pela Diretoria de Direi- Patrimonial, Limitações ao gratuitas e podem ser feitas
versidade Federal de Santa Bela Vista, em São Paulo. A tos Intelectuais da Secreta- Direito Autoral, Obras Sob no site www.direitoautoral.
Catarina) promovem o III iniciativa integra as ações do ria de Políticas Culturais do Encomenda e Licenças Não ufsc.br. Outras informações
Congresso de Direito de Au- Fórum Nacional de Direito MinC. A discussão foi divi- Voluntárias, dentre outros. pelo telefone (48) 3721-9287
tor e Interesse Público, que Autoral, promovido pelo Mi- dida em 12 paineis temáticos, O evento é dirigido a ar- ou pelo e-mail direitoauto-
será realizado nos dias 9 e nistério da Cultura. de acordo com os diferentes tistas, gestores culturais e de- ral@ccj.ufsc.br.
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
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História

No tempo dos Cabarés
Após 20 anos, CCBB apresenta nova

Vicente Maués / Divulgação
versão de Theatro Musical Brazileiro I
Por Douglas de Barros gostosura que é essa monta-
gem dessa época”, relembra.
Uma volta ao tempo do A versão atual conta com
Império e da República Velha, seis atores (antes eram qua-
de sinhás e suas mucamas, de tro), além de um mímico,
cartolas e bengalas e, por que que são acompanhados por
não, o tempo dos cabarés, lu- três músicos: a pianista Cris-
gares onde a liberdade se fazia tina Bhering, o contrabaixista
presente em uma época domi- João Mário e o percursionis-
nada pelo recato e pelo con- ta Afonso Neves. Na direção
servadorismo. Desse momen- musical, Marcelo Alonso Ne-
to ímpar na história do teatro ves explica como foi o seu
brasileiro, ficaram canções trabalho. “Nesta nova versão,
eternizadas em partituras. procuramos dar mais dina-
Documentos resgatados por mismo às cenas. Por isso, os
Luiz Antônio Martinez Cor- arranjos e a melodia são mais
rêa (1950 – 1987) e apresen- ritmadas”, explica o maestro.
tados na série de espetáculos As coreografias ficaram a car-
“Theatro Musical Brazileiro”. go de Sueli Guerra. Na peça,
O espetáculo Theatro Musical os artistas se movimentam em
Brazileiro I marca a comemo- meio a cenários da época . Em
ração dos 20 anos do CCBB cena, Jorge Luís Cardoso, José
(Centro Cultural Banco do Mauro Brant, Pedro Paulo O elenco da nova versão do Theatro Musical Brazileiro I empolga pela irreverência e qualidade musical
Brasil), no Rio de Janeiro. O Malta, Renata Celidonio, Hel-
musical fora apresentado em ga Nemeczyk e Mona Vilardo nha é quem mais aparece de- Com supervisão geral de I” estreou no dia 29 de outu-
1989 – ano de inauguração da dançam diversos ritmos como vido ao seu jeito doce, mas, Bibi Ferreira, direção de Fá- bro e segue em cartaz até o dia
casa – e conta agora com uma quadrilhas, opereta, valsa, ma- também, intempestivo, que bio Pilar, produção da Vigon- 3 de janeiro de 2010. A partir
nova montagem. zurca e tango. Segundo a co- briga e desce o barraco. Pensei ne Produções, figurinos de dessa data segue para Brasília,
O diretor Fábio Pilar foi reógrafa, a ideia de seu traba- que ela só fosse quietinha, cal- Kalma Murtinho, cenário de onde será apresentado durante
um dos atores que encenaram lho foi conseguir tirar do ator minha, mas ela é filha da Maria Analu Prestes e coordenação um mês no CCBB da capital
as montagens dos anos 80. a coisa do bailarino. “O meu Angú e tem o mesmo espírito artística de Cláudia Vigonne, federal e retorna ao Rio para
Já naquela época estava tam- grande desafio foi inserir os da mãe”, lembra. “Theatro Muzical Brazileiro mais uma temporada.
bém na direção artística. “É trejeitos e maneirismos sem
com muita emoção que esta- repetição com o olhar con-
mos montando esse espetá- temporâneo”, diz a coreógrafa
culo, que foi feito há 25 anos.
Ficamos em cartaz durante
que, para cada canção (são 18
no total), preparou um dese-
‘O GRANDE CRÍTICO DA SOCIEDADE BURGUESA’
seis anos e foi um marco em nho coreográfico.
termos de musical porque o O ator José Mauro Brant Luís Antônio Martinez Cor-
Douglas de Barros

Luiz fez um trabalho de ‘ca- rêa nasceu em 1950, na cidade
é outro nome que esteve pre-
tar’ essas musicas que estavam de Araraquara (SP) e morreu em
sente na montagem de 20 anos 1987, no Rio de Janeiro. Era o
perdidas nas prateleiras das bi- atrás. Brant explica que sua irmão mais novo de José Celso
bliotecas”, relata. estreia no teatro profissional Martinez Corrêa, líder do Teatro
Pilar explica que, durante foi no Musical Brazileiro. “ É Oficina e conhecido como o “ca-
três anos, Martinez Corrêa fez super bacana participar mais beça de geração”. Tido como “o
uma pesquisa sobre essas mú- uma vez desse projeto, um grande crítico da sociedade bur-
sicas e montou dois espetácu- colírio para mim, pois abriu guesa”, Luiz Antônio trabalhou
los teatrais: o “Theatro Musical as portas das produções musi- como ator, diretor, cenógrafo e
I” e o “Theatro Musical II”, cais nos anos 1980 e eu, como tradutor. Dedicou-se à releitu-
que revigoraram a cena cario- sempre fui um ator voltado ra de textos dramatúrgicos de
ca na época. “Os musicais es- para musicais, devo muito a autores críticos da sociedade
tavam numa fase meio como esse trabalho. Reencontrar o burguesa como Bertolt Brecht,
‘cidadão de segunda classe’, Fábio, que também foi ator William Shakespeare, Alfred
desde que houve a decadência nas versões dos anos 1980, Jarry e Vladímir Maiakóvski,
do (Teatro de) Revista nas dé- também foi um reencontro entre outros. Ao ser assassina-
cadas de 1950 e 1960. Ele trou- muito feliz”, revela o ator, que do, em dezembro de 1987, Luis
xe de novo o olhar do público. disse ainda ter sido “convoca- Antônio estava em plena as- Martinez Corrêa trouxe de volta o charme dos grandes musicais
A partir daí surgiram profis- do” para essa nova versão. censão como diretor de teatro
sionais e espetáculos nesse gê- Mais nova entre os artistas musicado. Ganhador de vários therland, realizou uma pesquisa versidade do Rio de Janeiro),
nero que é, hoje, o maior filão convidados, a atriz Mona Vi- prêmios como APCA, Molliére e com arquivos de músicas, desco- onde realizou experiências cêni-
do nosso teatro. Todos esses lardo é formada em canto líri- Mambembe, dirigiu peças como brindo letras e partituras. Desse cas que seriam inviáveis como
espetáculos biográficos falam A Ópera do Malandro, de Chico trabalho nasceu uma série de es- produções comerciais - entre
co pela UniRio (Universidade
da nossa música popular. É o Buarque; O Percevejo, de Vladí- petáculos: Theatro Musical Brazi- elas, Rádio Outubro, agit-prop
Federal do Estado do Rio de leiro - Parte I (1860/1914); Ataca, de Vladímir Maiakóvski; Taniko,
mir Maiakóvski; Leonce e Lena,
resgate desse material antigo Janeiro). Mona empresta sua de Georg Büchner, e O Califa da Felipe!, de Artur Azevedo e The- o Rito do Vale, de Zenchiku (te-
que pouca gente tem acesso. É voz soprano para a persona- Rua do Sabão, vaudeville de Ar- atro Musical Brazileiro - Parte II atro Nô); As Metamorfoses, de
importante lembrar que o Luiz, gem Clarinha Angú. “Estou tur Azevedo. (1914/1945). De 1983 a 1986, foi Ovídio; e a trilogia de Alfred Jar-
que morreu precocemente, foi muito feliz pela minha parti- Com a atriz Annabel Alber- professor na CAL (Casa das Artes ry - Ubu Rei, Ubu Acorrentado e
quem começou esse movimen- cipação na peça. Não faço só naz e o pianista Marshall Ne- de Laranjeiras) e na UniRio (Uni- Ubu Chifrudo.
to e mostrar ao público essa um personagem, mas a Clari-
22 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Vida e Obra
Ary Fontoura, sinônimo de talento e sensibilidade
Por Alysson Cardinali Neto que outras me decepcionam

Divulgação
pelo texto ruim”, revela Ary,
Coronel Artur da Tapi- que guarda com carinho, na
tanga, Nero Petraglia, prefei- memória, alguns trabalhos
to Florindo Abelha (seu Flô que executou nos palcos. “Na
para os íntimos), Nonô Cor- década de 1980, fiz excelentes
reia, Dino... Para quem ainda trabalhos em teatro, quando
não ligou tais nomes à pessoa pertencia ao elenco fixo do Te-
de Ary Fontoura, trata-se de atro dos Quatro que, na época,
parte da seleta lista de perso- era subvencionado pela Shell.
nagens às quais o ator – com Foi aí que fizemos ótimas pe-
raro talento e versatilidade de ças com elencos excelentes:
sobra – deu vida nas novelas “O Rei Lear”, “Assim é se lhe
“Tieta” (1989), “Bebê a bor- Parece”, “Sábado, Domingo e
do” (1988), “Roque Santeiro” Segunda” e “A Ópera do Ma-
(1985), “Amor com amor se landro” foram títulos que, sem
paga” (1984) e “Guerra dos dúvida, engrandeceram o meu
sexos” (1983). Uma carreira currículo”, avalia Ary.
intensa e vitoriosa. São mais Embora seja apaixona-
de 50 anos em ação, não só na do por teatro, Ary Fontoura
telinha, mas nos palcos das sa- não é menos aficionado pela
las de teatro e no cinema, onde televisão e pelo cinema e diz
este aquariano (nascido em atuar feliz e bastante con-
Curitiba, no dia 27/1/1933) fortável em todos os meios.
invariavelmente encanta pla- “Nada que faço em teatro,
teias dos mais variados gostos. TV ou cinema me desagrada.
Eclético, Ary brilha com sua Procuro entender que cada
estrela em papeis dramáticos trabalho novo é um desafio e
ou cômicos e tem como meta me preparo para isto. É como
a entrega absoluta ao trabalho. se eu fosse um operário. Mas
“É através dele que eu exerci- não brinco em serviço, pois o
to a vida”, diz, sem esconder público merece o melhor de
sua paixão pela arte. “Sem ela, mim. Quando você faz algu-
não seria a pessoa que sou.” ma coisa por amor, isto não
Ary Fontoura começou se constitui em nenhum sa-
cedo o caminho para se tornar crifício”, diz. “A mudança do
o ator talentoso que é. Aos veículo só modifica a forma e
quatro anos de idade já imi- a técnica de como contamos a
tava os adultos ao seu redor mesma história”, ensina, no-
e criava cenas teatrais. “Aos vamente, o mestre. Palavra de
dez anos, comecei a cantar em quem sabe. Afinal, só de Rede
programas infantis da Rádio Globo, são 41 anos encantan-
Clube Paranaense. E daí, nin- do e emocionando milhões
guém me segurou mais, pois de pessoas.
tomei consciência que seria “Costumo sempre dizer
um artista”, revela Ary, que que estar na televisão é tam-
começou a fazer teatro no Co- bém importante para um ator
légio Estadual do Paraná. Em expandir o seu trabalho e fir-
1950, criou a Sociedade Para- mar sua qualidade junto ao
naense de Teatro e, em 1955 público. Teatro e TV são uma
(ao lado de Glauco de Flores dobradinha infernal”, avalia
Feliz com sua trajetória, Ary Fontoura faz uma declaração de amor à arte: ‘Sem ela, não seria a pessoa que sou’ Ary, que viveu o ápice de sua
de Sá Brito), o Teatro Experi-
mental do Guaíra, onde atuou carreira na televisão na novela
em “É Proibido Suicidar-se vocação. Afinal, Ary chegou um dia em que todo mundo humildade”, diz. Ele prefere Roque Santeiro, no início dos
na Primavera”, primeira mon- a engraxar sapatos, trabalhou estava saindo das ruas. Cheguei falar, mesmo, é de teatro, uma anos 1990. “O grande momen-
tagem teatral independente como cozinheiro em uma lan- quando se instalava o regime de suas paixões. “O teatro é a to de minha vida profissional,
a apresentar-se no Auditório chonete e cursou até o último e todos pagamos a conta da base do ator, é a base de tudo”, na televisão, foi na TV Globo,
Salvador de Ferrante (Guairi- ano da faculdade de direito. Ati- censura e da crueldade da di- ensina, aproveitando para na época de Roque Santeiro,
nha). Em 1956, dirigiu “Sinhá tudes que moldaram, também, a tadura, mas, hoje, não me vejo mandar um recado à nova ge- uma novela que no seu último
Moça Chorou”, de Ernâni sua sensibilidade. “Eu, desde os vivendo em outra cidade. Tam- ração de atores. “Meu conceito capítulo foi assistida por 90%
Fornari, e “Uma Mulher do oito anos, trabalho e me susten- bém elegi o Rio como a minha com relação à nova geração é do povo brasileiro. Foi o maior
Outro Mundo”, de Noel Co- to. E vejo que trabalhar é coisa Cidade Maravilhosa”, revela, o melhor possível. Os jovens público que já tive. Se tiver que
ward. Em 1958, fundou o an- de Deus. Afinal, cabeça vazia é com carinho, Ary, que, apesar atores, que não estão no teatro, somar todas as pessoas que me
tigo (e extinto) Teatro de Bol- oficina do diabo”, ensina. da total adaptação à cidade e precisam ter o teatro dentro de viram no teatro nesses 55 anos
so, na Praça Rui Barbosa, na à trajetória profissional vito- si. A minha dica a eles é que – e olhe que fiz muitas peças!
capital paranaense. TEMPORADA CARIOCA riosa que construiu desde que trabalhem, trabalhem e traba- – não igualaria em número o
“Acredito que toda a traje- A necessidade de ampliar deixou Curitiba, ainda mantém lhem”, frisa. que o último capítulo do ‘Ro-
tória que vivi em Curitiba, fo- seus objetivos, segundo o ator, a humildade de menino quan- que’ conseguiu”, frisa Ary, que
ram 15 anos, contribuiu para o trouxe para o Rio de Janeiro, do fala sobre a fama: “Fama INTERPRETAR COMO destaca, ainda, na televisão, sua
a formação do meu ator. Lá em uma data, no mínimo, inu- é reconhecimento de trabalho OFÍCIO E PAIXÃO atuação como Baltazar Cama-
eu fiz rádio, cinema, televisão sitada: 31 de março de 1964, bem feito. O mais importante, Mas nem tudo, no teatro rá, na novela “Espigão”, de
e teatro e nenhum trabalho dia em que foi instituído o Ato porém, é o respeito ao público, brasileiro, tem deixado Ary Dias Gomes. “No teatro eu
com menor importância”, ava- Institucional Número 5 (AI- responsável por te dar essa po- satisfeito. “Escreve-se muito destaco O Bobo, do ‘Rei Lear’
lia Ary, cuja formação artística 5), que mergulhou o Brasil em sição.” Ary evita vangloriar-se pouco para teatro. Precisamos de Shakespeare. Já no cinema,
vem do corajoso ato de viver um dos períodos políticos mais pelo sucesso obtido ao longo de bons autores e boas histó- a Dona Dina Rocha (do fil-
a vida intensamente, uma es- conturbados de sua história, de sua carreira. “Não sou tão rias. Muitas peças em cartaz me ‘A Guerra dos Rocha’, de
colha que formaria não só seu em uma ditadura que durou virtuoso quanto pensam, mas me chamam a atenção pelo 2008)” considero um presente
caráter, mas aprimoraria sua 20 “intermináveis” anos. “Foi luto pela generosidade e pela bom texto, da mesma forma para mim”, diz.
Jornal de Teatro 1º a 15 de Novembro de 2009
23
Internacional

Sobre Tercer Cuerpo
Direto da Irlanda, onde cumpria turnê com o premiado

Fotos: Maxim Seugé/ Divulgação
espetáculo “La omisión de la familia Coleman”, Clau-
dio Tolcachir contou para a Revista Mutis X El Foro
como foi o processo de sua nova criação, Tercer Cuer-
po – obra escrita entre aeroportos, hotéis e teatros –
que conquistou o público brasileiro após participar de
importantes festivais.
T/ Claudio Tolcachir Eu havia escrito os persona-
Tradução: Pablo Ribera gens pensando neles, portanto, sa-
bia exatamente o que queria. Além
Escrevi “Tercer Cuerpo” (Ter- disso, conheço muito bem todos.
ceiro Corpo) durante uma viagem. Com Ana Garibaldi, havíamos tra-
Enquanto estávamos em turnê balhado juntos em “Un hombre
com “La omisión de la familia Co- que se ahoga” (Um homem que
leman” (A omissão da família Co- se afoga), de Veronese, uma atriz
leman), fui escrevendo esta obra, enorme que me comove muito;
entre aeroportos e hotéis, cidades Daniela Pal é uma atriz talentosís-
e teatros. Não é estranho – hoje sima que conheço a vida toda, co-
penso – que, durante a obra, o meçamos juntos trabalhando em
espaço seja um e muitos também. Andamio 90, onde nos formamos;
Uma oficina como lugar aglutinan- José María Marcos foi colega de
te e logo a casa de um casal, um elenco por muitas vezes, é alguém
consultório médico, um bar, um a quem eu tenho muito respeito
restaurante. Todos os espaços que e que há muito tinha vontade de
se misturam na história destes cin- convocar; Magdalena Grondona
co personagens, cinco perguntas, e Hernán Grinstein foram alunos
cinco desejos. meus por muito tempo, possuido-
As ideias que recorrem nes- res de uma sensibilidade e de uma
ta obra têm a ver com coisas que força descomunal. Cinco atores
me fascinam desde sempre: a in- imensos, somente eles poderiam
capacidade, a solidão, o amor, a encarnar a Sandra, Moni, Héctor,
impossibilidade de se comunicar e, Sofía e Manuel. Foi um prazer
sobretudo, o desejo. O desejo é o muito grande poder dirigi-los e tra-
motor da história. Os personagens balhar com eles.
desejam amar, desejam formar um A mim me emocionam essas
casal, desejam ter filhos, desejam coisas, digo, estar dedicado cem
ter escutado e desejam continuar, por cento a uma obra de teatro
apesar de tudo. Eu admiro isso. independente, sem remuneração,
“La historia de un intento absurdo por puro amor, durante quatro
“ (A história de uma tentativa ab- meses. Porque montar esta obra Tercer Cuerpo teve temporada de sucesso na Argentina e conquistou o público brasileiro em festivais
surda), porque o que ante nossos levou muito trabalho. Nós ensai-
olhos é absurdo, nesta história se ávamos três vezes por semana,
transforma em extraordinário. E, com ensaios de cinco a seis horas. tudo o que se vê de fora. É como
na realidade, é tão simples. E, na Ao final do processo tivemos algo que de algo pequeno, um monte
realidade, é tão absurdo também. como 15 ensaios com público, 15 de folhas impressas, um monte de
Querer ter alguém perto para po- ensaios gerais, vamos dizer. Algo palavras amontoadas, passamos a
der falar à noite sobre o dia que que acredito que serve muito para algo vivo, que tem sua própria or-
você teve, ou simplesmente pegar- aquecer antes de estrear. Era en- ganização, seu próprio motor, sua
lhe a mão é tudo também. “Tercer graçado porque o público dessas própria vida. E ai entra para jogar
Cuerpo” é o corpo ausente, o cor- três semanas foram os alunos da com o público. Uma obra termina
po que falta. Podem ser eles esque- escola, que saíam de sua aula no de funcionar ou não com o pú-
cidos em uma oficina bagunçada andar de cima e desciam para a sala blico. O público é o que sempre
ou o fantasma de toda relação. para ver o ensaio. A verdade é que tem a última palavra. E estamos
Nesta história não importa a foi um ensaio muito feliz. tendo uma resposta muito bonita
literalidade das coisas, importa que E, finalmente, chegamos ao dia de parte das pessoas que vieram
as coisas adormecidas que acor- da estreia. Nunca se chega como ver a obra. Cada espectador a en-
dam (o que grita desde o lado de se quer chegar, mas nesta obra eu tende de uma maneira diferente “Personagens foram escritos especialmente para os atores”, revela o autor
fora, o que não se diz, o que se pre- sentia que precisávamos estrear, e me parece importante que cada
fere calar porque o momento em precisávamos que a obra respiras- um possa fazer seu percurso, sua encontra resposta. Eu não sei contenção, o profundo compro-
que se diz já é muito tarde) nesta se por si mesma. Desde a minha própria leitura da obra. Porque está como fazem os outros, mas eu misso e o amor com o que tra-
história se dizem igual, se gritam posição de diretor, não havia mais colocando em jogo a sua própria não poderia fazer o que faço sem balham fazem com que me en-
igual, ainda que já não sirva para nada a se fazer. A obra, desde o dia história, sua própria visão. a equipe de trabalho do Timbre contre exatamente no lugar em
nada. Minha ideia era poder con- da estreia, é dos atores. E mesmo “Como fazem os outros? 4. As presenças de Maxime Seu- que eu quero estar. Todos eles
tar em um mesmo espaço, em um que eu continue vendo a peça e Como fazem todos os outros?”, gé, Jonathan Zak e Melisa Her- fazem com que o meu trabalho
mesmo tempo e em uma mesma trabalhando com eles, a sensação pergunta um dos personagens, mida (produtores e assistente de funcione e a felicidade com a
história todos estes planos. Para é que eles ficaram independentes. algo que me pergunto sempre, direção) foram fundamentais na que fazemos cada coisa faz com
isto, o trabalho com os atores foi É rara a sensação, de muita felici- uma pergunta que ecoa em to- construção desta obra. A valo- que o mais importante do mun-
importantíssimo. dade, tranquilidade e orgulho por dos nós, uma pergunta que não rização do trabalho, o critério, a do fique por aqui mesmo.
24 1º a 15 de Novembro de 2009 Jornal de Teatro

Onde fica este complexo
turístico cheio de lugares
para se divertir?
A( ) Salvador, BA
B ( ) Maceió, AL
C( ) Fortaleza, CE
D( ) Belém, PA

Se você é brasileiro e não sabe
a resposta, está na hora
de conhecer melhor o Brasil.
RESPOSTA: D – BELÉM, PA

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BRASIL. É BOM PARA VOCÊ.
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