ROGÉRIO H. Z.

NASCIMENTO
FLORENTINO DE CARVALHO
pensamento social de um
anarquista.
achiamé
Ri o de J aneiro
Dedica tória
Dedico estetrabalho atodos que, publicamente ou no anominato
da vida cotidiana, acreditam, sonham, fazem atos epoesias liber-
tando seu espírito eprovocando os outros e, sobretudo, lutampara
concretiza!' o desejo dautopia. Com certeza estes já vivenciam WJl
pouco a poesia. Dedico também aos combatentes "esquecidos",
atropelados pelavoragem dos tempos edaestupidez humana. Que
seus sonhos libertários setornem vida; que seus esforços possam
ser conhecidos; que seus cantos pela fratemidade façam ecos 110
profundo doser humano.
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Agradecimen tos
Este livro é resultado deminha pesquisa do Mestrado em Ciências
Sociais, realizada entre os anos de 1993 a 1996. A partir do texto da
dissertação fiz algumas modificações visando melhorar a compreensão
do texto pejo leitor. Mas o essencial dapesquisa foi preservado. Deoutro
lado, a pesquisa referida não teria sido possível sem a coloboração de
várias pessoas einstituições aquemgostaria deregistrar meus agradeci-
mentos. Inicialmenteagradeço ao CNPq por ter meconferido abolsaque
auxiliou arealização dapesquisa. Agradeço também à UFPB, ao CCHLA
eà Coordenação doPrograma dePós-Graduação emSociologia, nas pes-
soas dos professores Mauro Khoury eJacob, dos funcionários Chico e
Ramalho pelo apoio eincentivo nas atividades acadêmicas eboavontade
tio cotidiano davidanos corredores esaladeaula. A ADUFPB-JP, espe-
cialmente ao professor Marco Montenegro e à Célia por teremme auxi-
liado como uso dos computadores. Não poderia esquecer dos colegas do
mestrado: Cabral, Maria do, Carmo, Dulce, Antonio, Rodoval, Regina,
Val, Raimundo e Vânia que contribuíram clareando as idéias, nas refle-
xões, sugerindo caminhos elevantando questões por demais relevantes
no período denossa convivência. Todos foram excelentes companhias.
Amizades queotempo não vence. Sánchez, orientador eamigo, por ter se
disposto a trabalhar com esta pesquisa, levantando questões efazendo
colocações por demais oportunas, sugerindo procedimentos, apontando
insuficiências, motivando eincentivando acaminhada. No Arquivo Na-
cional, Sátiro foi excelentecolaborador. No Arquivo deMemória Operá-
riado IFCH daUFRJ agradeço à Mônica. NaBibliotecaMunicipal Má-
rio deAndrade, São Paulo, Márcia, OlgaeToninho quetiverampaciên-
ciaenormecomminhas buscas. No Arquivo Estadual deSãoPaulo, César
edemais companheiros meauxiliarambastante nabusca dos prontuários
dos anarquistas. No Arquivo Edgar Leuenroth, UNICAMP, EmaFranzoni
eFátima foram ótimas facilitadoras das buscas nos arquivos. Por outro
lado agradeço de coração a meu pai, José Severino do Nascimento (in
memoriam) que acompanhou todo o período dapesquisa, meauxiliando
demodo ímpar na execução deminhas atividades. Minha mãe, Luzinete,
sempreincetivando detodas as formas minha caminhada profissional. A
Jô, amada companheira deestrada, pela companhia e, muitas vezes, ter
sustentado barras sozinhapor contademinhaausência. Aosmanos Goretti,
JoelmaeRomériopeJo apoio incondicional. Não poderiaesquecer Ramon,
Rárami eAnarco, três amores deminhavidaquemeenchemdeentusias-
mo pela vida e que, em muitos momentos, viram-se privados deminha
presença - e eu da deles - sem que entendessem o porquê. Também à
recém-chegada emnossas vidas, Pétala, um mimo só! Apesar dapouca
idade, eles meensinam coisas quejamais pensei descobrir.
6
sUMÁRIo
APRESENTAÇÃO / 9
INTRODUÇÃO / 13
Capitulo 1
VIDA E OBRA DE FLORENTINO DE CARVALHO / 21
A Vida / 21
A Obra/ 32
Capítulo 2
O BRASIL DO OOCIO DESTE SÉCW.O NA PERCEPÇÃO
DE UM TRABALHADOR I 43
A Natureza Classista da República Brasileira no Início
do Século XX / 44
A República dos Antagonismos Sociais / 48
Aspectos Sócioeconômicos do Brasil do Início do Século XX / 51
Violência eRepressão Policial no Brasil do Início do Século XX / 56
Capítulo 3
AS LUTAS E ATITUDES DOS TRABALHADORES BRASILEIROS
DO OOCIO DO SÉCULO XX / 65 .
-AçâoDireta Solitária eAção Direta Solidária /65
A Organização dos Trabalhadores / 67
Movimento Operário e Movimento Anarquista / 70
Capítulo 4
ANÁLISES CRÍTICAS DE FLORENTINO DE CARVALHO /75
O Estado /75
Duplo Caráter do Estado / 75
Estado Classista /78
Estado Moderno: Poder Anônimo / 81
Estado, Religioso Estado / 85
As Leis Estatais / 89
O Militarismo / 94
O Social-Democratismo e o Estado Socialista / 98
Socialismo Democrático: Nova Forma de Exploração
e Despotismo / 98
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Candidatos Socialis tas,'Açno Nociva nóMovimento Operário / 102
Estado e Sociedade: Fusão e Confusão / 108
A Imprensa Burguesa, Escritores eFilósofos / 112
Religião: Articulada aos Dominadores e Obstáculo
ao Desenvobnento Social I 122
Nacionalismo: Exclnsivismo, Religiosidade eDominação / 125
Trabalhadores, Companheiros e' o Sindicalismo / 129
O Ensino, os Professores e a Escola Oficial / 134
Capítulo 5
O ANARQUISMO DE FLORENTINO DE CARVALHO / 139
Anarquismo sem Adjetivos / 139
Destruam et Aedificabo: as Duas Teses do Anarquismo / J 44
O Anarquismo como Processo Revolucionário / 150
A Anarquia como Nova Forma de Organização Social / 152
Capítulo 6 "
ASPECTOS GERAIS DA SOCIEDADE LIBERTARlAE OS MEIOS
, PARA SEU ESTABELECIMENTO / 157
'A Liberdade, a Solidariedade e as Manifestações Públicas / 158 '
Ação ePropaganda / 162 . .
A Violência Revolucionária ea Imprensa Operária / 166
Contra o Ensino Oficial: uma Educação Libertária / 169
A Organização deTrabalhadores edos Excluídos daSociedade / 174
CONSIDERAÇÕES FINAIS / 177
BIBLIOGRAFIA/195
APRESENTAÇÃO
Tem algum sentido publicar eler Wl1 livro sobreFlorentino de Car-
valho, pensamento social de um anarquista? Bem, eunãotenho dúvidas
a respeito dessa indagação. Os leitores não as terão, demodo algum, se
tiverem a coragem de, ao menos, iniciar a leitura.
Certamente, fiquei surpreso quando Rogério, o autor deste livro,
anos atrás, solicitara-me uma indicação para pesquisar sobre o
anarquismo. Era o primeiro pedido de orientação acadêmica para dis-
sertação de mestrado a mim feita. Rogério estava a fim de descobrir
alguma coisa quetivesse ficado perdida sob apoeira do tempo. Sugeri
que estudasse apossibilidade derecuperar Da Escravidão à Liberdade
de Florentino de Carvalho etentasse reeditá-lo, Mergulhou profundo e
recuperou muito mais.
Normalmente os orientandos demestrado, eaté dedoutorado, quei-
xam-se das dificuldades para encontrar fontes de pesquisa. Não foi o
caso. Rogério andou, escavou, garimpou eamealhou admirável coletâ--
nea deescritos deFlorentino de Carvalho emjornais ácratas epanfletos
daépoca. Não tinha certeza eu dequefossepossível. Mas foi. Esperteza
dele. Conseguiu porque tinha a consciência de que "o pesquisador tem.
quepercorrer um longo percurso que esconde supresas, novidades, difi-
culdades núl,exigindo perseverança, paciência eatenção num trabalho
semelhante ao degarimpeiros. (...) vasculhar arquivos ebibliotecas; a
literatura especializada; colher depoimentos; verificar novas pistas; che-
car informações, enfim, uma imensidão de tarefas incluindo a análise
dos dados, sistematização dos temas e texto final. Contudo todo este
percurso proporciona ao pesquisador uma gama considerável de emo- '
ções esatisfações que só ele conhece nas devidas proporções". Poucas
vezes vi alguém sededicar ao trabalho comtanta. satisfação, co111tanta
alegria, ,
.A dissertação êle Rogério, agora livro, não se restringe a resgatar a
figura deFlorentino. Este passa a ser o espelho no qual sereflete arica
econturbada realidade social da época. No contexto social sedestaca a
luta do movimento operário de final do século XIX e inicio do XX.
Dentro do movimento operário há uma linha rubro-negra que enfeita e
um grito libertário que ecoa emtodas as páginas do livro. Essa linha e
esse grito procedem dapena eda garganta deFlorentino, Rogério sou-
be, muitõ bem, ver, ouvir etransmitir as sensações."
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Apesar deter conseguido tanto, Rogério, modestamente reconhece
que "a riqueza de detalhes das reflexões desenvolvidas por Florentino
de Carvalho em suas obras escapam ao presente trabalho. Sua concep-
ção deser humano, seu pensamento ecológico; sua critica ao esoterismo,
- a outros anarquistas, ao marxismo em suas mais variadas versões e a
outras correntes filosóficas; seu conhecimento e comentários dos mais
representativos cientistas da época, suas 'reflexões sobre a questão da
. família, do amor eda mulher, seu método sociológico; sua proposta de
união da arte com a ciência; sua proposta dereconciliação entre traba-
lho manual eintelectual, entre outras facetas mais do seu pensamento,
não foram analisadas". Reconhecer isto não diminui o seu trabalho, ao
contrário, sugere novas pistas para a pesquisa desses temas tanto em
Florentino como em outros autores que elepróprio menciona: Adelino
dePinho, Mauricio deMedeiros, Angelina Soares, Maria Antonia Soa-
res, Matilde Soares, pilar Soares, Efrém de Lima, José Oiticica, João
Penteado, Edgard Leuenroth, Polydoro Santos, Fernando Nazaré, Maria
Lacerda deMoura", .
O retrato do "mestre revoltado", como Florentino fora apelidado no
frontispício da dissertação, pela vida e pela obra mostra um homem
polifacético, polígrafo, polivalente e militante "Primitivo Raymundo
Soares (cujo pseudônimo éFlorentino deCarvalho) adotou umapostura
decidida,finne eincisiva no movimento operário. Tanto o foi quepode-
mos encontrar não apenas nos documentos históricos, na literatura
historiográfica e depoimentos de antigos militantes anarquistas o teste-
munho da envergadura deste titã da Anarquia". Esta é a nova alcunha
para, essehomem no primeiro capítulo do agorajá livro.
No capítulo TI pode-se encontrar aanálise deumtrabalhador sobre a
natureza da sociedade brasileira. Tendo o cuidado dediscorrer sobre os
mais variados temas: a exclusão social das minorias, o militarismo, a
exploração do trabalhador, a articulação política-religiosa, as deficiên-
cias da educação, ainjustiça,a função das artes eda cultura, os privilé-
gios das classes dõminantes, a violência policial, etc. "No pensamento
deFlorentino de Carvalho encontramos. sempre a preocupação dearti-
cular teoria com os problemas da realidade social envolvente. Seguindo
uma orientação comum aos anarquistas emgeral, não seperdia .emin-
termináveis reflexões teóricas nem se deixava levar por insolúveis dis-
cussões filosóficas distantes das dificuldades de vida da sociedade na
qual vivia. De fato, salta aos olhos do leitor de seus artigos elivros a
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preocupação do autor em encontrar o equilíbrio entreestudo earealida-
desocial, entre conhecimento científico eprática revolucionária, enfim,
entre reflexão sistemática e'ação libertária".
A resposta dos trabalhadores ante essa situação vem apresentada no
cap, m.E não poderia ser outra que a ação direta, marca ácrata, por
excelência, que caracteriza o período que poderíamos chamar heróico
do início do movimento operário, articulado emtorno dos COB's (Con-
gressos Operários Brasileiros de 1906 e1913).
o capítulo rv é um pequeno tratado de sociologi.aepolítica cujos
subtítulos são: o Estado, a Lei,o militarismo, a arte eapolítica, anar-
quismo versus socialismo, a função da imprensa (meios de comunica-
ção), o papel da religião, o nacionalismo, questão sindical, a questão
educacional. Aqui amarca permanente éacrítica demolidora, sustenta-
da pelo lema proudhoniano "destruam et aedificabo", Demolição que
terá asua contrapartida no capítulo VI quando apresentará os princípios
deuma sociedade justa esolidária.
O capítulo V é uma síntese do anarquismo como concebido por
Florentino. Anarquismo semadejtivos, processo revolucionário queapon-
ta para uma nova forma deorganização social, aanarquia "estabelecida
em concepções igualitárias, em idéias positivas e elevad=najustiça,
na harmonia eno amor, (esta nova sociedade) impulsionaria a cultura
humana a 'proporções gigantescas e a vida moral atingiria progressos
superiores as nossas previsões '. A sociedade libertária está emsintonia
com as leis danatureza, pois nesta sociedade o trabalho produtivo sus-
tenta a riqueza social, além do que a moral baseia-se na dignidade, na
justiça, na igualdade eno amor". Síntese conceitual que servirá debase
eluz para aação.
O capítulo VI pode ser considerado uma proposta? Por que não?
Uma proposta que considera fundamentais a "modificação da estrutura
econômica epolítica da sociedade; abolição detodas as tiranias, explo-
rações, guerras eautoridades governamentais. Para atingir estes objeti-
vos deve-se agir orientados pela 'luz da justiça, pela solidariedade,
pelo amor' para aconcretização dasociedade ácrata, aorganização so-
cial deve ser fundamentada na socialização do poder". Princípios; de
fato, gerais que se explicitaram no capítulo anterior eque agora consti-
tuem as linhas de ação: na férrea defesa da liberdade, no permanente
incentivo à solidariedade, na incansável ação epropaganda, no árduo
desenvolvimento daimprensa operária e, principalmente, no indeclinável
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incentivo à educação libertária que"abrangia todos os aspectos davida
de relação e não se reduzia apenas aos conhecimentos tecnológicos e
técnicos. As greves, as organizações proletárias, as comissões, os jor-
nais e revistas operárias redundavam em experiências educativas. Em
cada uma dessas atividades exigia-se união, conjugação de esforços,
solidariedade edemais predicados da sociabilidade. Todos estes fatores
são imprescindíveis no processo revolucionário, constituindo elemen-
tos eminentemente educatívos. Desta maneira a educação possui con-
tomos bastante amplos, estando emrelação direta com os elementos de
libertação eemancipação social. Por isso mesmo aeducação deveria ser
objeto de reflexão detodos os trabalhadores, devendo estes criar e di-
fundir novos métodos deinstrução e educação".
O fechamento do trabalho com a questão educacional relembra a
velha preocupação do movimento operário já nele presente desde os
tempos da Primeira Internacional dequenão sefaz uma revolução per-
manente e duradoura se não houver educação das massas. Florentino
tinha consciência disso, não por acaso foi professor, diretor deumaes-
colamoderna. emSão Paulo. Rogério também, não por acaso, dedica-se
à educação dapresente geração. Espero ealmejo' quecontinue dedican-
do-seà educação das futuras.
Sebastián Sánchez
Campina Grande, novembro de1999
12
lNTRODUÇAO
o movimento operário brasileiro do final do século xrx e início
deste, tendo como referência política o pensamento anarquista eanarco-
sindicalista, foi bastante amplo eprofundo quanto a suas lutas contra o
panorama sociocultural vigente. Tal panorama envolvia desde uma ex-
tenuante jornada detrabalho - chegando até 16 horas diárias -, péssi-
mas condições detrabalho, passando também por outros aspectos pro-
blemáticos como a falta de segurança no trabalho, salário de miséria,
aplicação demultas ede castigos corporais, enfim, superexploração da
mão-de-obra, sendo ainda piores as condições das mulheres edas crian-
ças.
Este movimento se construiu numa Crescente luta contra tais difi-
culdades, conflitos de interesses e a consciência de sua especificidade
no interior da sociedade brasileira. Através deseu movimento os traba-
lhadores procuravam atransformação deuma sociedade injusta edesi-
gual para uma livre, justa eigualitária. O caminho para sealcançar os
objetivos desejados era a organização coletiva na luta para extirpar o
donúnio, a exploração etodo preconceito ensinado - e reproduzido -
nas várias instâncias da sociedade como .escolas, fábricas, sindicatos,
igrejas, nos costumes, através do culto à pátria, etc.
Para entender oporquê daadoção dos métodos eestratégias utiliza-
das por estes trabalhadores épreciso compreender antes seus pressupos-
tos político-filosóficos. Assim temos que o modo anárquico de agir se
dá através daação direta. Estetipo deação impõe umapostura ativa dos
agentes sociais de modo a eliminar dispositivos de representação. Isto
significa dizer que são estes mesmos agentes os responsáveis diretos
sobreo rumo dos assuntos deseus interesses. Encontramos aqui associa-
dos apossibilidade deplanejamento eexecução. Em outras palavras, os
. agentes sociais não-elegem alguém para pensar e agir por eles ou e111
nome deles. Muito pelo contrário, eles mesmos decidem o quê, como e
quando fazer, podendo até eleger alguém - ou um grupo - com uma
missão específica a realizar e nunca com plenos poderes para decidir
fazer, se quiser, o quê equando quiser. Este tipo deação nega a via de
ação indireta, como aparlamentar, representativa egovernamental, por
entender ser elaincentivo à inação. Assim, várias estratégias foram uti-
lizad,s pelos anarquistas para atingir suas finalidades: a educação, o
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teatro, as comunidades agrária, a imprensa, a poesia, alem de outros,
Através destes meios seprocurou não sópropagar os ideais ácratas, mas
também concretizar, na experiência do cotidiano, o desejo da utopia.
Na luta contra a exploração do trabalho pelo capital destacaram-se
no movimento operário vários trabalhadores, tanto pelas idéias edíscus-
sões provocadas quanto pela disposição eatitudes tomadas no processo
das lutas. A imprensa operária, através dos jornais, revistas, panfletos,
documentos de encontros e resoluções dos diversos congressos, tanto
no plano local como regional enacional, registra muito bem.estes fatos.
Através delapodemos encontrar diversas discussões eartigos por meio
dos quais é possível conhecer com quem os anarquistas dialogavam e
com quais correntes do pensamento social se confrontavam eseidenti-
ficavam. Sem esquecer o fato destes documentos serem preciosos
indicativos para o pesquisador social tanto do nível das discussões en-
tão existentes como dos temas abordados, as criticas epropostas levan-
tadas, entre outros elementos.
O movimento operário, como foi constituído no início deste século,
marcou época tanto por denunciar uma organização social fundada na
miséria epenúria demuitos para o benefício depoucos, como por lutar
contra uma realidade opressora. Discutindo com diversos representan-
tes do pensamento social este movimento forjou um pensamento social
próprio. Investigar as idéias básicas deste movimento significa também
conhecer mais uma época pouco conhecida da sociedade brasileira ape-
sar .dos estudos realizados por pesquisadores deinquestionável compe-
tência.
No embate travado pela militância surgiram vários nomes no movi-
mento operário, destacados nas atividades eenergias empregadas tanto
na luta cotidiana comona construção deum pensamento social peculiar
ao movimento operário. Adelino de Pinho, Mauricio deMedeiros, An-
gelina Soares, Maria Antonia Soares, MatildeSoares, Pilar Soares, Efrém
deLima, José Oiticica, João Penteado, Edgard Leuenroth, PolydoroSan-
tos, Fernando Nazaré, Florentino deCarvalho, Maria Lacerda deMoura
entre outros são alguns dos personagens que participaram ativamente
deste movimento, marcando-o deforma singular e contribuindo com o
debate das questões desua época.
Há um imenso leque depossibilidades eformas para uma aborda-
gem deste movimento. Todas, com certeza, contribuem para um conhe-
cimento mais amplo emais profundo dahistória edas idéias então existen-
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teso Desta forma, nos detemos na pessoa dePrimitivo Raymundo Soa-
res, ou Florentino de Carvalho como era conhecido. Isto porque elefoi
um colaborador enérgico no movimento dos trabalhadores, contribuin-
do, de seu lado, na elaboração de um pensamento próprio eespecífico
dos trabalhadores. Mas uma pergunta torna-se oportuna: como aconte-
ceu a idéia de empreender esta pesquisa?
Em 1992 oCentro Acadêmico deCiências Sociais daUniversidade
Federal daParaíba promoveu uma semana do curso Ciências Sociais e,
dentro da programação, convidamos o professor Sebástian Sánchez
Martín para ministrar um curso sobre pedagogia Iibertária por ter ele
elaborado suatesededoutorado sobre as iniciativas dos anarquistas bra-
sileiros no âmbito da educação. Desta maneira tomamos conhecimento,
entre outros nomes, deFlorentino de Carvalho.
Terminada agraduação ingressamos no mestrado e- depois decon-
cluídos os créditos - ao chegar a época dedefinir umprojeto depesqui-
sa, ocorreu-nos apossibilidade defazer adissertação sobre o professor
anarquista. Contatamos o professor Sánchez queseanimou comaidéia
desta pesquisa. Iniciamos, assim, a busca de matérias, referências bi-
bliográficas edepoimentos demilitantes sobre Florentino de Carvalho.
Antes disso, porém, reunimos o material bibliográfico disponível, D~
pois fizemos duas viagens ao Sudeste brasileiro para pesquisar os arqui-
vos ebibliotecas do Rio deJaneiro, São Paulo eCampinas; contatamos
pessoas natentativa deencontrar familiares; contatamos o Liceu do Sa-
grado Coração deJesus, onde Florentino de Carvalho fez seus estudos
primários, na esperança deencontrar algum dado sobre suavida; enfim,
uma peregrinação a vários locais e encontros com as mais diferentes
pessoas, juntando o máximo possível de material.
Assim, visitamos, na cidade do Rio de Janeiro, aBiblioteca Nacio-
nal, o Arquivo Nacional eo setor deMemória do Movimento Operário
existente no Instituto deFilosofia eCiências Humanas da UFRJ. Além
disso, entramos em contato com antigos militantes anarquistas C01110 .
Ideal Peres eEdgar Rodrigues. Em São Paulo, visitamos a Biblioteca
Municipal Mário deAndrade eo Arquivo do Estado deSão Paulo; pro-
curamos por possíveis registros dapassagem deFlorentino deCarvalho
no Liceu do Sagrado Coração deJesus de Santos edeSão Paulo, além
determos contatado outro antigo militante anarquista, Jaime Cuberos ..
Em Campinas visitamos o Arquivo Edgard Leuenroth da UNlCM1P,
No Rio deJaneiro não encontramos nenhum dado sobre Florentino
de Carvalho. A Biblioteca Nacional tinha colocado pouco material à
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disposição dos pesquisadores, havendo muito material não catalogado
sem que os pesquisadores tivessem acesso. No Arquivo Nacional nada
foi encontrado. No IFCH daUFRJ havia apenas um artigo deFlorentino
publicado emA Voz do Trabalhador, presente na bibliografia destetra-
balho. Com os militantes anarquistas não obtivemos nenhum material,
apenas aindicação deIdealPeres deser São Paulo o lugar mais prová-
vel para encontrar dados. Em São Paulo encontramos muitos artigos de
Florentino deCarvalho naBiblioteca Municipal tendo sido trabalhosa a
tarefa deprocurá-los nos microfilmes edepois copiá-los. No entanto foi
bastante compensador. No Arquivo Estadual deSão Paulo fomos exata-
menteno diadesua abertura apesquisadores efamiliares dedesapareci-
dos. Nele encontramos, na seção Arquivo do DEOPS - Departamento
Estadual de Ordem Política e Social -, um prontuário individual de
Florentino de Carvalho de n0144. Este documento foi de grande valia
para .0 conhecimento departe dasuatrajetória devida. Como estearqui-
vo estava sendo aberto à consulta naqueles dias, apresentaram-se algu-
mas dificuldades extras: Era vedado o acesso aos prontuários sendo a
procura dos nomes feitapor funcionários do arquivo, fazendo-nos espe-
rar longos períodos de tempo; a cópia do documento só era possível
com microfilmagem, sem que eles dispusessem de venda derolos de
rnicrofilmes, forçando-nos aperder tempo em busca delocais devenda.
Com Jaime Cuberos conseguimos, além de seu depoimento, duas
fotocópias dos dois primeiros livros deFlorentino deCarvalho além de
outros materiais. Fomos por eleatendidos comuma presteza impressio-
nante. Procurou auxiliar-nos o máximo possível. No Arquivo Edgard
Leuenroth, aorganização eaconservação dos materiais éimpressionan-
te. Lá pudemos encontrar diversos artigos logo na primeira viagem a
Campinas. Contudo sónos foi possível tê-los na segunda viagem, eain-
. daassim por termos levado umgravador portátil, pois não havia máqui-
naprópria para fotocopiar microfilmes. Defato aqui está registrada ape-
nas parte dâ saga deum pesquisador através das bibliotecas earquivos,
emcidades desconhecidas ecomtempo limitado para dar conta deuma
grande seara demateriais. Foi um árduo trabalho, recompensado pelos
achados edescobertas.
Desta maneira, acumulamos cerca de 90 artigos dejornais erevis-
tas, além de seus dois primeiros livros Da Escravidão à Liberdade: a
derrocada burguesa e o advento da igualdade social eA Guerra Civil
de 1932 emSão Paulo: solução imediata dos grandes problemas sociais,
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publicados eÚ.11927 e 1932 respectivamente. Estes dois livros e os ne-
crológios de A Plebe conseguimos graças à colaboração de Jaime
Cuberos. A partir de então iniciàmos uma análise. do material, classifi-
cando e sistematizando-o, .
Participante ativo na imprensa operária, Florentino deCarvalho dis-
cutiu em seus artigos e livros a problemática social. Questões como a
educação, a situação dacriança trabalhadora, o antimilitarismo, corren-
tes do pensamento social efilosófico, o socialismo, as leis, o Estado, a
religião, aimprensa eseu papel social, o sindicalismo, asociedadenacio-
nal eamundial, entre muitas outras, foram por eleabordadas com com-
petência eprofundidade admirável. Estas reflexões, registradas em seus
livros enos jornais erevistas operárias da época, possibilitam uma aná-
lise da contribuição e da envergadura do pensamento e da ação deste
teórico emilitante anarquista ao movimento dos trabalhadores. Pesquisar
o pensamento eprática deFlorentino deCarvalho éimportante na medi-
da em que o conhecimento destas idéias nos permite não só saber das
potencialidades do movimento operário de sua época mas também ter
uma noção mais clara do alcance, possibilidades, dificuldades elimita-
ções deste movimento na perspectiva deum trabalhador epensador que
viveu e refletiu sobre os dilemas de sua época. Dentro do movimento
operário, os trabalhadores elaboraram um saber e um pensamento tão
ricos quanto desconhecidos hoje em dia, tomando evidente a relevância
depesquisas neste campo.
Para orientar o processo da pesquisa levantamos algumas questões:
quais os interlocutores deFlorentino deCarvalho quando da elaboração
dos artigos e livros? Quem são seus companheiros e adversários de
militância? Como se desenvolveu o embate entre Florentino de Carva-
lho eseus adversários? Havia algum tipo dediscordância de seus com-
panheiros? Caso positivo, quais eem quenível? Quais suas criticas às
correntes do pensamento social? Como Florentino de Carvalho se ca-
racterizava dentro do movimento operário? Como define o Brasil desua
época? Quais temas abordados em seus artigos e livros? Como tratou
tais temas? Havia algum tipo de proposta de nova sociedade em seu
pensamento? Caso positivo.rque tipo de sociedade nova propôs? Suas
idéias' tiveram repercussão na sociedade de seu tempo? Caso positivo,
deque forma e em que nível? Que pensadores sociais eram por eleco-
nhecidos? Dequais seaproximava equais combatia? Florentino de.Car-
valho se refere a uma moral anarquista? Caso positivo, de que modo?
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Seu pensamento pode ser atualizado? Caso positivo, até que ponto? Es-
tas foram as questões quenos propomos solucionar.
ereferencial teórico foi construido a partir de algumas das obras
dos clássicos do anarquismo, asaber: o francês Pierre-Joseph Proudhon
(1809-1865), o russo Mikhail Alexandrovitch Bakunin (1814-1876),
outro russo Piort Kropotkin (1842-1921) eo italiano Errico Malatesta
(1853-1932). Esta pesquisa foi realizada tomando como objeto deanáli-
seos artigos dejornais deFlorentíno deCarvalho, escritos naimprensa
operária, compreendendo um período cronológico que vai de 1913 até
1917, e, demaneira irregular, até 1933. .
Para o livro, a grafia das citações, quer dos artigos quer detextos
dos livros, foi atualizada, visando manter só um nível de linguagem.
Foram utilizados, parcialmente, os dois primeiros livros. Coletado o
material, empreendemos sua compilação, organização eanálise, consi-
derando a data depublicação, o tema, interlocutor ou interlocutores, o
órgão deexpressão e, eventualmente, alguns outros indicadores. A aná-
lise considerou também, como não podia deixar de ser, o contexto só-
cio-histórico no qual estava inserido Florentino deCarvalho - o Brasil
daPrimeira República - ligado auma corrente do'pensamento social-o
anarquismo - como também a um movimento social - o movimento
operário - sendo defundamental importância não se perder esta pers-
pectiva.
Este livro divide-se emseis capítulos. Resgatamos o pensamento, as
lutas eatrajetória devidadeum dos teóricos emilitantes anarquistas de
maior envergadura da América Latina.
No primeiro capítulo nos detemos na vida e obra deFlorentino de
Carvalho expondo 'Suatrajetória dentro da sociedade e do movimento
dos trabalhadores, além de um panorama breve de seu pensamento
sóciopolítico.
No segundo capítulo percebemos o Brasil do início do século XX
através do olhar de Florentino de Carvalho. Aqui podemos conhecer a
perspectiva pela qual um trabalhador analisou uma fase da sociedade
brasileira, saltando aos olhos a natureza classista da república recém-
inaugurada, constituindo uma república onde os antagonismos sociais
eram gritantes. Florentirto de Carvalho analisou também os aspectos
sócioeconômicos de sua sociedade e, por fim, a repressão policial ao
movimento dos trabalhadores.
18
No terceiro capítulo mostramos suas reflexões sobre o movimento
dos trabalhadores e as suas lutas na sociedade brasileira do ínício do
século. Os tipos deação direta, os objetivos do movimento, a organiza-
ção dos trabalhadores earelação entremovimento operário emovimen-
to anarquista.
No quarto capítulo é ressaltado o pensamento critico deFlorentino
deCarvalho. Aqui vemos mais detidamente suas reflexões sebreos mais
variados segmentos sociais, instituições, valores efilosofias não só da
sociedade brasileira, mas também da civilização ocidental. Desta ma-
neira o Estado, as leis, apolítica partidária, os políticos profissionais, a
social-democracia, o socialismo, aimprensa burguesa, areligião, o na-
cionalismo, trabalhadores ecompanheiros, o sindicalismo, o ensino, os
professores ea escola oficial são todos objetos de sua reflexão critica.
No quinto capítulo analisamos sua visão do anarquismo esua posi-
ção particular dentro das correntes e tendências do movimento anar-
quista. Assim, o caracterizamos anarquista sem adjetivos como elemes-
mo se definia. Além disto vemos nesta parte sua percepção particular
dos ideais anarquistas, sua definição do anarquismo como um processo
revolucionário e, por fim, aAnarquia como nova forma deorganização
social por elepreconizada e seu entendimento deste estado desociedade.
No sexto capítulo são expostas suas propostas práticas deconstru-
ção de uma sociedade anárquica. Assim, vemos as condições por ele
apontadas para arealização do sonho ácrata: aliberdade como elemento
indispensável para aAnarquia; a solidariedade como prática fundamen-
tal para aAnarquia; os atos, protestos emanifestações públicas por par-
te dos trabalhadores como processo pedagógico de reconstrução e de
aprendizado' deuma sociabilidade igualitária efraterna; aformação de
grupos revolucionários; aautodefesa dos explorados eoprimidos; aedu-
cação; aimprensa operária eaorganização dos trabalhadores edos ex-
cluídos da sociedade hierarquizada.
Por fim, na última parte fazemos algumas reflexões sobreo pensa-
mento e a contribuição deixada por Florentino de Carvalho não só ao
movimento operário, mas, principalmente, ao pensamento social brasi-
leiro. Não se pretende estabelecer conclusões taxativas e fechadas, o
que não impede o estabelecimento de conclusões parciais.
A bibliografia divide-se em fontes primárias esecundárias. As pri-
márias dizem respeito exclusivamente aos artigos elivros escritos por
Florentino deCarvalho; as secundárias consistem na literatura utilizada
ao longo da dissertação enão escritas por ele.
19
'Capítulo 1
VIDA E OBRA DE FLORENTINO DE CARVALHO
A Vida,
Florentino de Carvalho, como era conhecido no Brasil efora dele,
erao pseudônimo de Primitivo Raymundo Soares. Nascido em3 demaio
de 1883 em Campomanes, província de Oviedo, Espanha. Veiopara o '
Brasil em 1889 com toda a' sua família, onde fixou residência para o
resto desuavida. Seu pai chamava-se José Soares esuamãeFranscisca
Alves, conforme seu prontuário individual do DEOPS, no Arquivo Es-
tadual de São Paulo. Estabelecida a família em São Paulo, seu pai ini-
ciou atividade decomércio. Na Espanha exercera o magistério. De seu
lado, Primitivo iniciou econcluiu os estudos primários no Liceu do Sa-
,grado Coração deJesus. Concluída esta fase, procurou continuar os es-,
tudos tentando matricular-se numa escola normal. Como os recursos da '
família eram 'poucos, não conseguiu concretizar seu intento. Seu pai,
católico fervoroso, desejou, então,que seu filho ingressasse no seminá-
rio deLorena, no intuito detorná-lo sacerdote, idéia esta rejeitada pelo
rapaz.
Por não conseguir continuar os estudos epor não lheagradar aidéia
do pai de torná-lo sacerdote, Primitivo ingressa na Força Pública do
Estado de São Paulo em 1898. Cedo foi promovido a cabo, recebendo
elogios de seus superiores hierárquicos. Pretendendo dedicar-se à vete-
rinária, conseguiu transferência para a enfermaria dos animais quando
ainda estava no Corpo deCavalaria, ondepassou 10meses até ser trans-
ferido para ° 1
0
Batalhão. '
Nó ano de 1901, o entãosargento PrimitivoRaymundo Soares, ao
entrar numa livraria deparou-se COmum exemplar do livro A Conquista
do Pão do conhecido anarquista russo Piotr Kropotkin, Esta leitura cau-
sou-lhe forte impacto, tanto quepediu baixa da Força Pública. Nascia,
destemodo, o militante eteórico anarquista conhecido no Brasil eAmé-
rica Latina. A propósito deste acontecimento é interessante notar que
várias pessoas tomaram-se anarquistas desta maneira, entre elas José
Oiticica, Fábio Luz eJaime Cuberos.
Ao dar baixa damilicia, Primitivo Raymundo Soares foi, juntamen-
tecom seu pai, morar emSantos, para trabalhar nas docas, dando início
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21
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I
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à sua militânciajunto aos trabalhadores do porto. Sua frágil compleição
física não lhepermitia, porém, suportar o enorme esforço físico exigido.
Passa, então, a exercer o ofício de tipógrafo. A partir daí inicia seus
estudos, como autodidata, em torno dos problemas sociais, amadure-
cendo reflexões sobre causas e soluções possíveis às questões.
Desde o inicio de sua militância, Primitivo Raymundo Soares ado-
tou uma postura decidida, firme eincisiva no movimento operário. Tan-
to é assim que podemos encontrar não apenas nos documentoshistóri-
cos, na literatura historiográfica e depoimentos de antigos militantes
anarquistas o testemunho da envergadura deste titã da Anarquia; tam-
bém o já citado Arquivo do DEOPS serve detestemunho quanto à im-
portância das suas contribuições para o movimento operário brasileiro
na medida emque registra os cuidados eavigilância cerrada dapolícia
sopre suapessoa. Esteprontuário, apesar deter perdido grande parte de
seus documentos, conserva registros policiais com detalhes deacompa-
nhamento dos passos dados por eletanto na capital do estado de São
Paulo como emseu interior, .emoutros estados eainda fora do Brasil,' A'
polícia o mantinha sob constante vigilância, coletando informações de
todos os seus movimentos. Desta forma, suaparticipação ematividades
sindicais, palestras, conferências, comícios, viagens, movimentos de
protesto, greves eaté mesmo seus artigos elivros eram conhecidos pe-
los chefes de polícia que, através dos chamados "secretas," (policiais
espiões), mantinham-se informados detodos os seus movimentos.
O que sobrou de seu prontuário individual registra acontecimentos
devida entreos anos de 1898 até 1946. Registra, por exemplo, queno
ano de1907eleteveduas passagens pelas prisões dapolícia: uma em 10
de outubro por publicação de manifesto anarquista, e outra em 1
0
de
dezembro por porte dearma. Em 1908, também, há duas passagens pe-
las prisões deSão Paulo: aprimeira em3 desetembro easegunda em25
do mesmo mês, ambas pelo mesmo motivo: publicação de manifesto'
anarquista. Em 1910, novamente o Arquivo do DEOPS registra duas
passagens do militante pelas prisões deSão Paulo: A primeira prisão foi
a 11 denovembro por publicação de manifesto anarquista; a segunda
prisão foi a 20 de dezembro para ser deportado para a Argentina por',
causa de seu envolvimento nas greves de Santos e cidades vizinhas. O
mesmo relatório policial, afirma, em outro trecho, ter, sido ele expulso
da Argentina por ser "anarquista perigoso". Isto aconteceu a 31 dede-
zembro de 1910, o quenão dánem umperíodo deummês. Vemos assim
22
. ser este período muito pequeno para que Primitivo Raymundo Soares
empreendesse atividades nos sindicatos, em comícios, protestos, greves
. e, além disto tudo, ter fundado uma escola nos moldes do ensino
racionalísta. O quemuito provavelmente aconteceu, foi uma fuga inici-
al para aArgentina, ainda em 1910, temendo ser deportado para aEuro-
pa, pois esta era aintenção dapolícia paulista.
Provavelmente nesteperíodo, sua estada podeter sido bastante lon-
ganaquelepaís, dando-lhetempo suficientepara empreender várias ações
junto ao movimento dos trabalhadores argentinos. A partir destas ações,
apolícia argentina começou apersegui-Ia ao ponto detentar deportá-lo
do país. Temendo outra deportação, empreendefuga devolta ao Brasil.
Porém, ao chegar aqui é preso pela polícia paulista sendo em seguida
deportado para o país deorigem, mesmo queisto não acontecesse sem-
pre, ecom elenunca tivesse acontecido. Como tinha chegado ao Brasil
procedente da Argentina, foi preso edeportado devolta. Ao desembar-
car, ecomo também estava sendo procurado pelapolícia delá, foi ime-
diatamente preso eembarcado numnavio para ser deportado paraa Eu-
ropa.
Apartir destemomento, os documentos existentes registram os acon-
tecimentos que sesucedem. O navio procedente daArgentina, comdes-
tino à Europa fez escala nas docas de Santos. Os trabalhadores desta
cidadeao tomarem conhecimento dapresença dePrimitivo a bordo, em
um deseus porões, como prisioneiro aser deportado para aEuropa, não
medemesforços para libertá-Ia; Desta forma, ao conseguirem provar ter
eletomado parte daForça Pública paulista nos idos davirada do século,
conseguem resgatá-Ia dadeportação. A partir desteacontecimento ado-
ta o pseudônimo de Florentino de Carvalho, com o qual ficará sendo
conhecido emtodo o Brasil efora dele.
Daqui por diante o trataremos pelo pseudônimo.
Combasenestes dados, percebemos como erao cotidiano dos traba-
lhadores. No caso deFlorentino deCarvalho, emparticular, os "secre-
tas" da polícia, mantinham-no sob constante observação. Há registros
deviolação ereprodução desuas cartas, decontatos entre as delegacias
depolícia dentro efora do Brasil como objetivo demanterem ummaíor
e mais eficiente controle dos passos dados pelos trabalhadores que se
destacavam na luta social.
Devolta a Santos, Florentino deCarvalho integra novamente aluta
libertária de emancipação dosoprimidos. Rodrigues (181)registra que
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Florentino deCarvalho, juntamente comJoão Perdigão Gutierrez, Miguel
Garrido, Carlos Zabalo, esteperuano, eAntonio Vidal, uruguaio, deram
uma orientação nitidamente anarquista ao movimento dos trabalhado-
res. As reivindicações dos trabalhadores tomaram grandes proporções,
com as praticas deação direta, como as greves eprotestos', seespalhan-
do por várias categorias detrabalhadores, tomando-se mais emais fre-
qüentes.
Em julho de 1912 eclode uma onda de greves em Santos que se
espalhou pelas cidades vizinhas. Nestas greves a ação policial foi a de
costume no trato com os trabalhadores: invasão dedomicilios, mesmo à
.noite, comespancamento demulheres ecrianças; arrasto do pai do seio da.
farniliapara ser torturado, espancado, deportado ou assassinado. Naoca-
sião Florentino deCarvalho foi preso edeportado juntamente comoutros
trabalhadores dos quais Rodrigues (181) destaca Manuel Gonçalves, Pri-
mitivo Lopes, Miguel Garrido e José Vieiras. Esta deportação, como
todas as outras, foi por ele classificada como tendo sido, literalmente,
um seqüestro, pois tudo aconteceu, desde a detenção, aprisionamento e
expulsão, sem que tenham passado por nenhuma instância jurídica.
Em fins do ano de1912 Florentino retoma clandestinamente ao Bra-
sil. Retoma aluta libertária, participando combrilho devárias conferên-
cias, congressos, debates, excursões depropaganda e animando diver-
sas polêmicas com adversários deidéias ecom companheiros anarquis-
tas. Hábil argumentador, impressiona companheiros e adversários ao
expor seu pensamento. Era difícil refutá-io. Tanto assim queeieengros-
sou as fileiras dos lutadores anarquistas trazendo alunos, conhecidos,
seus sete irmãos eirmãs dos dois casamentos de seu pai, amadrasta e
conquistando a simpatia do pai para a' causa daanarquia. A casa da
família Soares tomou-se, desta forma, ponto de encontro delibertários
onde ensaiava-se teatro, dava-se aulas de sociologia, de anarquismo,
funcionando também como escola para crianças além de ter sido um
abrigo seguro-para companheiros fugidos das perseguições policiais.
Rodrigues (184)registra ter sido aresidência dos Soares, emSantos, São
Paulo. ou no Rio deJaneiro, uma forte célula libertária, amaior família
tornada anarquista. Dona Paula Soares, sua madrasta, era bastante hos-
pitaleira com anarquistas fugitivos, desempregados ecompanheiros sem
moradias.
A Federação Operaria Brasileira promoveu, a 18deoutubro de1915,
um meeting deprotesto contra a guerra. Florentino de Carvalho desta-
24
cou-se como um dos oradores mais empolgantes e envolventes. Este
evento aconteceu no Largo de São Francisco da então capital federal-
Rio de Janeiro. Os oradores revezavam-se nas escadarias da outrora
Escola Politécnica, onde atualmente funciona o Instituto de Filosofia e
Ciências Sociais - IFCS - daUFRJ.
No ano de 1916 prosseguiu em atividades depropaganda, orienta-
ção doutrinária e outras. Polemizou com o seu companheiro deideal,
Angelo Bandoni, sobre a ação anárquica junto aos sindicatos. Comba-
teu arduamente apenetração das idéias dos socialistas democratas junto
à população, emgeral, ejunto aos trabalhadores, emparticular. O modo
pelo qual empreendiatal atividade eraatravés depalestras, debates, con-
ferências, adiscussão saudável, enunca aforça físicapara coibir alivre
expressão do pensamento. Para eletodos deveriam ter apossibilidade e
aliberdade deexpor seus pensamentos eidéias.
Contudo, aformamais utilizadapelos seus adversários para combatê-
10 era a calúnia e a difamação. O objetivo das calúnias era subtrair, e
mesmo anular, Suaascendênciajunto àpopulação. Deseulado, Florentino
deCarvalho levava os autores dos artigos asituações vexatórias anteos
leitores, expondo afalsidade das acusações eao mesmo tempoos desa-
fiava publicamente aprovarem suas acusações einsinuações ou então a
se retratarem publicamente. .
Florentino deCarvalho teveparticipação ativa emvárias comissões
formadas pelos trabalhadores: Comissão pró-Ensino Racionalista,
objetivando a disseminação de escolas de orientação anarquista; Co-
missão Contra aExploração deMenores, denunciando as péssimas condi-
ções detrabalho das crianças, os maus tratos, as mutilações, os espanca-
mentos, os baixíssimos salários edemais infâmias; Comissão Contra a
Lei deExpulsão deEstrangeiros, denunciando no Brasil, efora dele, ser
aqui a questão social caso de polícia, além das rotinas de repressão,
espionagem, espancamentos; deportações, assassinatos etantas outras
vilanias sofridas e impostas aos trabalhadores pelo patronato e go-
vernantes; Comissão deAgitação Popular, visando mobilizar a.popula-
ção para a ação direta; Comissão pró-Presos Políticos, denunciando os
maus tratos eirregularidades dos aprisionamentos detrabalhadores, como
também sepropunha aauxiliar as famílias dos trabalhadores aprisiona- .
dos, deportados ou desaparecidos; Comissão deDefesa Proletária, entre
outras.
Esta última foi constituída durante as greves acontecidas em São
Paulo no ano de 1917. Esta comissão coordenava a ação dos sindicatos
25
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e associações dos trabalhadores no encaminhamento de' medidas, rei-
vindicações e rumos a serem tomados pela greve. Era constituída por
Edgard Leuenroth, Rodolfo Felippe, Francisco Cianci, Antônio Candeias
Duarte, Gigi Damiani eTeodoro Monicelli.
Alémdestas comissões edeoutras, Florentino deCarvalho tevepar-
ticipação bastante significativa em vários grupos anarquistas comfins
deorganização eorientação popular: Centro Libertário, J uventude Anar-
. quista eAliança Anarquista, existentes emdiferentes momentos históri-
'cos.
O ano de 1917foi degrande efervescência revolucionária no Brasil
eemvárias partes domundo. Naquele período, oBrasil foi marcado por
uma grande agitação revolucionária, tendo as associações dos trabalha-
dores organizado várias greves por causa das péssimas condições de
vida ede.trabalho, da falta de liberdade de associação, das constantes
violências policiais e demais características deuma organização social
desigual.
Todo o Brasil era sacudido pelas ações revolucionárias dos traba-
lhadores num processo que apontava uma greve geral. Vale salientar
terem sido os acontecimentos de 1917 no Brasil livre deinfluências da
Revolução Russa. Naquele ano as noticias chegadas ao Brasil sobre os
acontecimentos revolucionários da Rússia eram imprecisas e demora-
das por causa dadistância edas dificuldades decomunicação daépoca.
Rodrigues (180) registra ter sido o movimento operário brasileiro que,
defato, incentivou os revolucionários russos enviando-lhes materiais de
propaganda, auxílio financeiro e solidarizando-se com os ideais
libertários do início desta revolução. Esta era uma prática comum ao
movimento internacional dos trabalhadores. Também em 1910 os tra-
balhadores brasileiros enviaramauxilio financeiro ematerial aos revolu-
cionários mexicanos. A influência russa no Brasil veio anos depois,
notadamente a partir da fundação do Partido Comunista Brasileiro, em
1922.
São Paulo foi oepicentro das ondas degreves quefizeramtremer as
estruturas da sociedade brasileira. Governantes ecapitalistas seassom-
braram ante os protestos dos trabalhadores. Estes, através da Comissão
deDefesa Proletária, numencontro comogoverno estadual ecomcapi-
talistas, intermediado por umgrupo dejornalistas, enviaram suas rei-
vindicações, ante as quais tanto ogoverno, como os capitalistas secom-
prometeram a adotá-Ias. Tais reivindicações tratavam tanto da liberta-
26
ção dos companheiros presos, da liberdade dereunião eassociação C011"
tra as represálias dospatrões aos trabalhadores grevistas, contra otraba-
lho demenores de 14anos, contra otrabalho noturno das mulheres edos
menores de 18anos, como também dereivindicações deaumento salari-
al comprazo de 15 dias para a efetivação do pagamento, garantia de
trabalho, jornada de oito horas epagamento das horas extras. Consta-
vamtambém da lista dereivindicações exigências específicas aos capi-
talistas e ao governo. Aos primeiros, os trabalhadores dirigiam recla-
mos para deter o aumento do custo de vida, enquanto que ao governo
endereçavam exigências quanto ao cumprimento das liberdades pesso-
ais ecoletivas, como também pediam garantia denão violação do acor-
do estabelecido no que dizia respeito, especificamente, às relações tra-
balhistas.
Ao invés do cumprimento do acordo feito com os trabalhadores,
governo e capitalistas mostraram suas faces traiçoeiras, agindo com a
repressão policial, a qual seguia-se, como decostume, espancamentos,
violações de domicílios, saques às associações proletárias, torturas, de-
portações, aprisionamentos, expulsões de trabalhadores para regiões'
longínquas do interior do pais como, também para outros países, e o
assassinato. Nesta ocasião Florentino de Carvalho juntamente comAn-
tônio Nalipinski eFrancisco Arouca foram presos e, sob a acusação de
seremos "cabeças" dagreve, forampostos no navio chamado Curvello,
comvários operários, para 'serem deportados, ' "
Altino Arantes, então governador dó estado de São Paulo, aprovei-
tou-se da lei deexceção decretada por causa dadeclaração deguerra do
Brasil à Alemanha, para sevingar dos anarquistas. Emvários artigos do
jornal anarquista A Plebe (ver bibliografia) Florentino deCarvalho nar-
ra sua odisséia, junto comcompanheiros, pelas prisões de São Paulo e
de Santos até à deportação. A polícia para impedir que os advogados
dos trabalhadores entrassem comhabeas corpus, usava como tática a
peregrinação, comostrabalhadores, pelos postos policiais deSão Paulo
sempre à noite numa ambulância para despistar. Quando foram presos
tiveram todos os seus pertences recolhidos pelos policiais, os quais nun-
ca foram devolvidos.
A prisão deFlorentino deCarvalho deu-se quando este andava pelas
ruas de São Paulo como companheiro Evaristo Ferreira de Souza. Fo-
ram abordados por agentes secretos da polícia que os levaram presos,
iniciando, desta maneira, a sua peregrinação deprisão emprisão até à
deportação.
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I,
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Na noite emqueforam presos, foram transportados emambulância
para oposto policial deVila Mariana, onde encontraram os companhei-
ros J ose Fernandes, J oséLopes Candeias, Antônio Nalepinski eumope-
rário alemão. Neste posto foram todos fichados pela polícia. Do posto
policial, todos foram transportados, à noite etambém emambulância,
para oposto policial deVilaMartins na cidade deSantos. Lá, Florentino
de Carvalho foi trancado numa cela com Antônio Nalepinski, ficando
incomunicáveis até serem embarcados. Receberam rápidas visitas ape-
nas do'advogado Bias Bueno durante oito dias. Depois disso Florentino
deCarvalho, J oséFernandes, J osé Lopes eZeferino Oliva foram trans-
. portados, emautomóveis, para o cais onde encontraram os companhei-
ros Virgilio Fidalgo, J osé Sarmiento eFrancisco Ghicco, presos ao ten-
tarem libertá-los através dehabeas corpus. Todos foram colocados no
navio Curvello, comdestino que lhes era ignoradoe semterem estabe-
lecido contatos nem mesmo com seus familiares
O "tratamento" recebido pelos prisioneiros foi de espancamentos,
objetos pessoais roubados, mantidos seminus nas celas e submetidos a
umapéssima dietaalimentar. Algumas celas eramúmidas, gélidas esem
nenhuma ventilação; outras, comprivadas emseuinterior exalando odor
pútrido ecomgrades dispostas demaneira apermitir a entrada das in-
tempéries. A dieta, por outro lado, algumas vezes consistia emumpou-
co defeijão mal cozido comcarnepodre e,nojantar eno cafédamanhã,
uma caneca de"café" comumpedaço depão. Nestas prisões Florentino
deCarvalho adquiriu uma gastrite quelhecausava fortes dores. As pri-
sões sofridas por eleno Brasil ena Argentina, os espancamentos e de-
mais violências policiais resultaram no mal que lhe atormentou a vida
por longos anos, terminando por ser acausa desua morte.
Ostrabalhadores chegaram aformar uma comissão, em1921, com
oobjetivo dearrecadar recursos para auxiliar seutratamento. EmA Pie·
be, n" 112, de09/04/1921, saiu nota da redação, de Rodolfo Felippe,
sobre seupéssimo estado desaúde comvotos debreve restabelecimento.
Esta mesmanota declara vil' detempos sua enfermidade. EmA Plebe, n'
114,de23/04/1921, teminício acampanha deauxílio financeiro, desem-
bocando na criação do "Comitê pró-saúde deFlorentino de Carvalho",
quedeu maior agilidade ao movimento; promovendo festivais desolida-
riedade eprestando contas à população através das colunas dojornal
Esta campanha estendeu-se por sete meses, numa demonstração ine
quivoca da solidariedade dos trabalhadores.
28
Retomemos, contudo, os acontecimentos da deportação de 1917. O
navio Curvello saiu de Santos em30 deoutubro de 1917levando como
prisioneiros emseus porões Florentino de Carvalho, Francisco Arouca,
Antônio Nalepinski, J oséFemandes, J osé Lopes, Zeferino Oliva, Virgílio
Fidalgo, J oséSarmiento eFrancisco Ghicco. OCurvello passou por várias
cidades do Brasil e do mundo. Em sua rota de deportação o referido
navio ancorou emRecife, capital do estado dePemambuco no Nordeste
brasileiro. Nesta cidade Florentino de Carvalho, Antônio Nalepinski e
Francisco Arouca fogem do navio com a ajuda da tripulação. Porém
esta tentativa é frustrada pois são recapturados pela polícia recifense,
sendo levados à delegacia ondesãoviolentamente espancados. Florentino
deCarvalho registrater encontrado nas prisões deRecifeAntônio Silvino,
famoso cangaceiro, cujas regalias eprivilégios dentro da prisão incluía
o comando dos funcionários da prisão.
Aindanas prisões deRecife, os três anarquistas receberam detraba-
lhadores daquela cidade um exemplar do jornal A Plebe, além de um
auxílio financeiro. No dia seguinte foram embarcados no Avaré com
destino a Nova Iorque passando antes pelas ilhas Barbados. Ao chega-
rem àquela cidade, encontraram um companheiro de idéias de nome
Cícero que se encontrava detido na imigração desde o início da guerra
por causa desuas idéias pacifistas, intemacionalistas eanarquistas. Ainda
emNova Iorque receberam visitas detrabalhadores da União dos Ope-
.rários Industriais do Mundo, quetentaram desembarcá-los afimdeque
pudessem se estabelecer naquela cidade, sendo impedidos pelos
govemantes. Foi necessário ouso deforça para embarcar Florentino de .
Carvalho e Antônio Nalepinski no Avaré para viagem devolta à então
capital federal brasileira, o Rio deJ aneiro. Francisco Arouca tinha fica-
do internado no hospital da. imigração, retomando ao Brasil em outro
navio. O jornal Tribuna do Povo dos operárics recífeases no n° 2, dê
10/03/18, registra a passagem de Francisco Arouca pela capital
pernambucana emsua viagem deretomo a São Paulo.
Emsuaviagemdevolta aoBrasil, oAvaré ancora emBelém, capital
do estado do Pará. Florentino de Carvalho e Antônio Nalepinski tenta-
raro,pela' segunda vez, afuga. Mas estatentativa tambémfracassou uma
vez que a sentinela impediu asaída dos doisprisioneiros donavio, mes-
mo como apelo da tripulação. Depois de Belém, o Avaré ancora em
Recife aonde os prisioneiros receberam avisita decompanheiros operá-
rios daquela cidade. A seguir o navio segue para o Rio de J aneiro. A
I
29
terceira tentativa deu-se emjaneiro de 1918 quando oAvaré ancorou no
Rio dé J aneiro. Auxiliados pelatripulação epor trabalhadores da cida-
de, Florentino de Carvalho eAntônio Nalepinski. empreendem fuga bem.
sucedida dando fim a um longo período de prisão e peregrinação por
vários portos 'sem que nenhum destes tivessem aceito o' desembarque
dos prisioneiros.
Durante o período emque o Curvello eoAvaré foram aresidência
forçada destes anarquistas, eles não cessaram depropagar seus ideais
entre astripulações. As condições subumanas aqueeramsubmetidos os
marinheiros provocaram indignação nos prisioneiros, resultando na in-
tensificação edisseminação das idéias anarquistas entre eles, Estes, por
sua vez, foram rapidamente contagiados pelas novas idéias deigualdade
ejustiça social, iniciando por demonstrarem suas insatisfações comas
condições devida edetrabalho. Desta maneira chegaram aparalisar as
suas atividades, uma vez, quando ainda estavam emNova lorque e, ou-
tra vez, quandode volta ao Rio de J aneiro. Nesta cidade, a tripulação
negou-se seguir para a zona de guerra antes de verem atendidas suas
reivindicações.
De volta às terras brasileiras, Florentino de Carvalho empreende
novos esforços na luta social. No entanto era forçado a constantes via-
gens por causa das perseguições policiais, como também empreendia
periódicas viagens depropaganda pelo interior de vários estados brasi-
leiros. Viajavatambémpara países vizinhos para encontrar-se comanar-
quistas daquelas localidades e colaborando ativamente com os movi-
mentos operários da América Latina. Assim; estabeleceu contatos com
movimentos operários no.Uruguai, Argentina, alémdeterem suas idéias
alcançado outros países do continente. Em suas viagens costumava fa-
zer palestras, conferências e debates sobre o ideal anarquista, comen-
tando problemas derepercussão à época equestões internacionais. Além
dissoarrecadava assinaturas para jornais operários. .
Emseu depoimento, J aime Cubero, militante anarquista que convi-
veu com conhecidos, alunos e familiares de Florentino de Carvalho,
afirmou ter elefundado várias escolas por onde andava: no interior de.
vários estados brasileiros emesmo fora do Brasil. Rodrigues (181) re-
gistra ter sido elefundador eprofessor daEscola Moderna do Brás eda
Escola Nova na Móoca, .ambas na capital paulista. Em outra obra
Rodrigues (184) registra a criação, em 1915, da Universidade Popular
daCultura Racional eCientífica pelos professores Antônio C. Pimentel,
30
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Saturnino Barbosa, Florentino deCarvalho eoDr. Roberto Feijó, advo-
gado. Esta universidade localizava-se aolado dajá citada Escola Nova.
Luizetto (155) afirma ter Florentino de Carvalho dirigido aEscola Mo-
derna n° 1durante aausência deseu diretor, oprofessor J oão Penteado,
no ano de 1917. Entretanto A Plebe, que noticiava a substituição da
direção da referida escola, só o faz ate 11 de agosto de 1917. pois na
edição denO 09 desta data registra o retomo doprofessor J oão Penteado
à direção daquela escola.
Asdécadas de20e30forampassadas. nesteritmo, alterando-se quan-
dodas freqüentes crises quesofria domal adquirido nas prisões paulistas,
gaúchas, argentinas e pelatruculência dos militares. Freqüentemente
via-se obrigado aretirar-se para ointerior doestado para poder repousar
erecobrar as energias. Seu prontuário policial menciona várias viagens
feitas com esse objetivo.
. Rodrigues (184) registra ter afamília Soares estabelecido residência
no Rio deJ aneiro no.ano de 1923. No ano seguinte Florentino deCarva-
lho éacometido novamente por prolongadas econstantes crises degas-
trite, forçando-o a retirar-se de suas atividades até à recuperação. Ro-
drigues (184)registra também asua presença edeoutros anarquistas de
São Paulo no Quarto Congresso Operário Estadual do Rio Grande do
Sul nos anos 1926/27, época emque encontravam-se fugitivos das per-
seguições policiais promovidas pelo governo paulista. Data também de
. 1927 o primeiro livro publicado por Florentino deCarvalho exatamente
por editora dePorto Alegre.
Ainda no citado prontuário policial podemos identificar alguns de-
talhes da vida de Florentino de Carvalho durante a década de 30. Em
agosto de 1933 numartigo intitulado "Carta Aberta aos Trabalhadores"
publicado provavelmente emA Plebe, erecortado por policiais eincluí-
dono prontuário policial, eleintenta dar uma satisfação aos trabalhado-
res esclarecendo o porquê de sua ausência do movimento sindical. De
fato, alémdecomentar suafalta devigor fisico para empreender as ações
que antes fazia, Florentino deCarvalho tece algumas criticas quanto ao
rumo tomado pelos smdicatos a partir do início da década. Rumo este
intimamente relacionado com as limitações próprias do sindicalismo
apontadas por eleanos antes. Neste artigo evidencia encontrarem-se os
sindicatos emcaminho totalmente oposto aotrilhado nas duas primeiras
décadas do século XX.
Rodrigues (187) insere carta de Florentino de Carvalho, datada de
17 de dezembro de 1946, deumlugarejo próximo à cidade paulista de
31
Marília chamado Oriente. Nesta carta, emresposta a um companheiro
denome Alexandre Pinto, ele informa acerca de suas atividades como
professor numa fazenda denominada Monte Alegre, distante 20km de
Oriente, acrescentando seremos ares do interior bons para otratamento
do mal que o atormentava. Encerra a carta reafirmando seu ideal e o
. '. desejo de corresponder-se com os antigos companheiros, nomeando
Edgard Leuenroth. Foi assim que, numa das crises mais violentas parte
deMarília para São Paulo. Faleceu poucos dias depois, em27 demarço
de 1947, firme e convicto de suas idéias de liberdade e solidariedade
entretodos os seres humanos.
A Obra
o.estudo, a reflexão sistemática, o conhecimento racional, enfim, a
capacidade cognitiva foram utilizados por Florentino deCarvalho como
ferramentas por excelência na luta pela destruição do sistema de desi-
gualdade einjustiça social, como também no ímpeto edificador deuma
sociedade libertária, igualitária esolidária, Ao longo desua vida, esteve
intimamente ligado à imprensa operária, fazendo uma abordagem cui-
dadosa e aprofundada das questões sociais. Seus artigos, escritos em
vários jornais erevistas operárias, tinham caráter tanto critico, decom-
bate eorientação doutrinária, como também,· epor quenão dizer, sobre-
tudo educativo. No que se'refere às criticas, seus artigos tomavam não
só a direção das questões conjunturais, as questões demaior evidência
num determinado momento histórico, mas também eram críticas estru-
turais à organização social na qual estavam assentadas todas as institui-
ções da sociedade brasileira.
. No seu entender, a imprensa operária possibilitava aos trabalhado-
res um salutar exercicio educativo de libertação, pois através dela os
trabalhadores podiamfazer escutar sua voz, suas opiniões eseus pensa-
mentos. A imprensa operária possibilitava aprática da solidariedade, da
liberdade, da denúncia, da aprendizagem, sendo todos. estes fatores
educativos por excelência. Além disso a imprensa dos trabalhadores
consistia no veículo detransmissão do pensamento edas idéias dopro-
letariado, pois para a imprensa burguesa o mundo dos trabalhadores
passava muito distante. Data de 1912umregistro daprimeira participa-
. ção deFlorentino deCarvalho emjornal operário. Rodrigues (181)docu-
32
menta a contribuição dada por ele à fundação dojornal santistaA Revol-
ta. Em 1913, Florentino de CarvaJ ho funda ojornal paulistano Germinall,
numa alusão ao romance social do escritor francês Emile 201a. O subtí-
tulo deste jornal era: "um jornal anarquista". Participou também na di-
reção de outros jornais operários como La Gu.erraSociale, emportugu-
ês e em italiano, escrevendo nestes dois idiomas. Posteriormente
intitulado apenas Guerra Sociale. Além de ter colaborado no jornal A
Plebe, Florentino de Carvalho o dirigiu durante um curto período nas
greves de 1917, em São Paulo, quando Edgard Leuenroth, o fundador, e
os demais diretores estavam presos. Na ocasião deu continuidade à im-
pressão do jornal praticamente só até a libertação dosdiretores, como
nos testemunhou J aime Cubero. Usando vários pseudônimos cuidou para
que o jornal não tivesse suas edições interrompidas.
Colaborou também na direção de O Libertário, órgão da "Aliança
Anarquista". Colaborou com ojornal operário recifenseA Hora Social;
com o jornal operário paulista Alba Rossa, escrito todo em italiano.
Colaborou .comojornal carioca A Voz do Trabalhador, órgão do COB, .
Congresso Operário Brasileiro,
Florentino de Carvalho participou da direção de revistas operárias
tais como A Rebelião, escrita em espanhol e em português, eA Obra,
ambas de São Paulo. Colaborou comoutras revistas operárias tais como,
O Comentário, Prometheu eArte e Vida, as duas Ultimas dirigi das por
seu sobrinho Arsênio Palácios, e com a revista carioca A Vida, da qual
tivemos acesso a uma edição fac-similar,
Além de ter sido um constante e influente colaborador da imprensa
operária escreveu vários livros nos quais expunha mais detidamente as
análises, reflexões, criticas, comentários, sugestões, advertências, orien-
tações epropostas dereestruturaçâo social. Rodrigues (184)cita os livros
escritos por Florentino de Carvalho, registrando terem-se perdido os
originais desuas melhores produções teóricas por causa daação polici-
al.êomeote tivemos acesso as suas duas primeiras obras: A primeira
intitula-se Da Escrâvidão à Liberdade: a derrocada burguesa e o ad-
vento da igualdade social, editada em1927. Alguns dos capítulos foram
escritos em 1923. A obra seguinte, escrita em 1932~chama-se: A Guerra
Civil de 1932 em São Paulo. As outras obras são: Crise do Socialismo,
Filosofia do Sindicalísmo, uma obra incompleta sobre aRevolução Es-
panhola de 1936-1939, Síntese de uma Filosofia Anarquista eConsti-
tuição Socialista Libertária.
;'
33
>----------- -~-_.- -----------------
Seu primeiro livro, Da Escravidão à Liberdade, éum verdadeiro
tratado deciência social. Este livro estampa logo nas primeiras páginas
apreocupação forte do autor, como emtodo o movimento anarquista e
anarcc-síndicaíista, comaproblemática educacional dos trabalhadores
e dos excluídos da sociedade. Diz °seguinte:
"O socorro mais urgente deve ser prestado às faculdades psicológicas das
multidões, a fim de que estejam à altura dos grandes momentos históricos, de
transição social, eaptos para agrande obra de regeneração humana" (94).
olivro divide-seemquatropartes, Na primeira, intitulada "Colapso
da Civilização Histórica", o autor, partindo de uma demonstração da
situação social dos operários do campo, dacidade, do mar, dotrabalha-
dor dos escritórios, semesquecer do trabalhador infantil, faz umbalan-
ço das doenças sociais justapondo a estas as de caráter psicológico; a
péssima dieta alimentar baseadá emalimentos muitas vezes envenena-
dos; otrabalho excessivo, noturno, etc. Esta parte consiste numa viru-
lenta crítica à civilização ociderttal emtodos os seus aspectos: dá cons-
tituição das grandes metrópoles à relação do europeu como aborígene;
dasituação denovos párias, como ele denominou os inquilinos, substi-
tutos dos antigos habitantes aosprofissionais liberais; daintelectualidade
ligada àburguesia ao ensino oficial; doEstado etodas suas instituições,
sobretudo o militarismo à Igreja etodas as religiões; do capitalismo á
.todos os imperialismos; enfim, a imprensa burguesa, ojornalista bur-
guês, o professor, são todos submetidos ao crisol de suas reflexões e
inquirições,
A segunda parte do livro,intitulada "A Luta Social" Florentino de
Carvalho começa como seguinte pensamento:
"A luta social atual éaevolução deuma situação revolucionária para o'esta-
do normal da sociedade'," (94),
Nesta parte analisa detidamente as idéias políticas deKarl Marx e
Frederic Engels, obolchevismo, aidéiadaditadura doproletariado; Lenin
eoEstado earevolução, Trotski, Buckarin, aexperiência do socialismo
estatal da Rússia; caracteriza oEstado socialista como sendo tão sacro
quanto as religiões, particularmente o cristianismo católico; as limita-
ções do sindicalismo, suas relações como capitalismo emarxismo em
beneficio destes; o movimento internacional dos trabalhadores a partir
34
da 1a Associação Internacional dos Trabalhadores fundada emsetembro
de 1864, emLondres, eseu desdobramento; o sindicalismo como alvo
dos autoritários emsua volúpia pelo poder entre outros temas mais,
A terceira parte deseu livro, intítulada "Transição Subversiva" CO~
meça como seguinte pensamento:
, "A evolução e arevolução só se realizam sob o influxo de novas correntes
filosóficas"(94 ).
Nesta parte Florentino deCarvalho submete a civilização ocidental
aumrigido escrutínio, procurando evidenciar as repercussões dafiloso-
fiana sua transformação. Trata também domovimento doproletariado,
sua filosofia edoutrina emrelação à social-democracia, ao bolchevismo
eao anarquismo. Situa opensamento anarquista na sociologia ena ciên-
ciapolítica definindo-o como única corrente dopensamento social a ser
negativista empolítica. Numextensocapítulo, oXXII, situaoanarquismo
, no movimento operário afirmando seremos trabalhadores os elementos
decisivos na luta social, apesar denão seremos únicos aempreenderem
este combate. Trata ainda danecessidade denovas formas deorganiza-
ção dos trabalhadores natransformação social; dabase destas organiza-
ções; das obras mais urgentes; dos anarquistas dentro destas organiza-
, ções; doporquê deafirmar-se anarquista entreoutros temas. Expõe seu
entendimento do'quevenha aser uma revolução social, opondo seupen-
samento ao deMarx, Trotski edos partidos políticos neles inspirados.
Por fim, naquarta eúltimaparte deseulivro, denominada "Perspec-
tiva daNova Civilização", expõe, commaestria esobriedade, apenetra-
ção do anarquismo na ciência e na filosofia; as forças morais do
anarquismo, suas bases efilosofia; aperspectiva anarquista da econo-
mia numa sociedade libertária; como lidar, numa 6tica ácrata, comos
atos anti-sociais; a educação oficial eo ensino racionalista; o trabalho
manual eintelectual como sendo harmônicos no anarquismo; definição
da arte esua relação coma ciência; trata decomo seformou aciviliza-
ção ocidental a partir das civilizações orientais: a egipcia antiga, a
helênica ea árabe; refere-se aos movimentos políticos esociais; vatici-
na a derrocada dos Estados socialistas, denominando-os de"flor deum
dia"; evidencia a relevância do pensamento anarquista, sustentando ser
ele oguia seguro rumo a destinos mais felizes, negando qualquer idéia
teleológica defimdahistória ouperfeição paradisíaca após aderrocada
35
I ,,'
do capitalismo. Esta última parte éintroduzida pelo autor comas se-
guintes palavras:
."O futuro daHumanidade estádependendo deuma novaordem morar' (94).
Este é, na verdade, um esboço .rápido e apressado de umlivro que
trata dos mais variados temas do pensamento social. Como. vimos, o
sindicalismo, a educação, o militarismo, o nacionalismo, o socialismo,
o marxismo eseus desdobramentos, a religião, a sociologia, a antropo-
logia, aeconomia, aciência política, ageografia, afilosofia, ocapitalis-
mo, oestatismo etantos outros temas, como guerras.epidemias etraba-
lho, são objetos da reflexão e analise de Florentino de Carvalho. São
241 páginas deanálise detida sobre os mais variados aspectos da vida,
sendoumlivro, emmuitos aspectos, ainda atual eumgrande marco para
o pensamento social brasileiro e, principalmente, para o pensamento
dos trabalhadores uma vez ter sido seu autor, além de professor, um
operário. .
Seu segundo livro é demenor dimensão mas não deixa deter grande
relevância no que se refere à caracterização de seu pensamento. Tam-
bém, e sobretudo, por traduzir uma perspectiva operária dos aconteci-
mentos de 1932 emSão Paulo. Este livro, A Guerra Civil de ]932 em
São Paulo: solução imediata dos grandes problemas sociais, consiste
numa reflexão detida sobre os acontecimentos geradores daguerra civil
de 32, seu desenvolvimento e desastroso desfecho, levantando, em se-
guida, algumas propostas de solução dos problemas sociais causadores
daquela guerra civil. Este livro divide-se emcincopartes todas elas sub-
divididas emcapítulos. A primeira parte intitulada "Surto eDesenvolvi-
mento da 'Arrancada '" é onde o autor detem-se especifi camente nos
acontecimentos de32, relacionando tais fatos à Revolução de 1930. Em
seguida descreve como foi se constituindo a arrancada; os partidos e
estados da federação-envolvidos; os motivos da arrancada e como se
deuO início dos conflitos. Evidencia tambémter havido uma mobilização
quase que geral nos conflitos.
"Num gesto unânime, digno de melhor causa, todos os clubes políticos, to-
das as classes conservadoras, todas as empresas da lavoura, do comércio e da
indústria, todas as academias eescolas, todas as associações deMedicina, Direi-
to, Engenharia, de cultura científica, literária eartística, inclusive do professora-
do CII tólico, todas as igrejas católicas, protestantes, espíritas, teosóficas,
salvacionistas emaçônicas (I), todas as associações de caridade, de socorro, to-
36
dos os clubes esportistas, se entregaram decorpo ealma, comtodos os recursos
disponíveis, à mobilização dos exércitos constitucionalistas e à preparação febril
de todos os elementos deboca ede guerra." (95).
Prossegue ele referindo-se a tantos outros segmentos sociais ade-
rentes à causa constitucionalista. A exceção deu-se comos trabalhado-
res. "Somente oproletariado (enão todo) semostrava reservado, indife-
rente àquela imponente manifestação de civismo". Registrado o desfe-
cho desastroso para ospaulistas dos acontecimentos de 1932, Florentino
de Carvalho refere-se às perseguições aos sublevados promovida pelas
forças federais. Nesta altura tratou de caracterizar o que foi, efetiva-
mente, a Revolução de 32 nas seguintes palavras: "O que aqui se deu
não foi uma guerra civil, foi o sacrificio deinocentes". Disse isso refe-
rindo-se ao total despreparo das tropas constitucionalistas. Em seguida
refere-se à outra faceta da Revolução de32. Por trás detantos alaridos
de nacionalismos, de tantas algazarras, do tremular das bandeiras "se
ocultam misérias morais que, para obemdetodos, deviamestar àluzdo
sol". Assim, três quartos do contigente dos constitucionalistas eram de
pessoas que estavam ali para não perderem opão do dia-a-dia. Emoutro
capítulo denuncia aferoz repressão caída sobreostrabalhadores) osquais
se viam impedidos de manifestarem-se diante dos acontecimentos, ao
mesmo tempo emque o clero epartidários desta ou daquela facção po-
lítica tinham plena liberdade para fazê-lo, Assiriala, emseguida, os ob-
jetivos do.s constit.ucionalistas. Caracteriza, por fim, a relação da
intelectualidade com. a guerra. .'
A segunda parte do livro, denominada "Origem e Significação do
Movimento", amplia o enfoque da análise da situação do Brasil, procu-
rando conhecer aproblemática social apartir deuma perspectiva histó-
rica. Nesta análise considera aformação étnica dos primeiros coloniza-
dores, caracterizando, deum. lado, a natureza dos trabalhadores e, por
outro, a dos conqqistadores e dominadores; os sistemas .filosóficos
orientadores do pensamento das classes dirigentes, inspiradores das leis
edos costumes das classes populares eliberais e,por fim, rever os acon-
tecimentos revolucionários das últimas décadas.
O Brasil da república tem, na sua perspectiva, omesmo caráter vio-
lento edominador do Brasil da colônia edo Brasil do império..A situa-
ção do trabalhador não.mudou de forma alguma com a república. Em
seguida trata da campanha abolicionista evidenciando sua importância
37
nas lutas de emancipação ocorridas no "Cruzeiro do Sul", como deno-
minava oBrasil. A campanha pela república foi iniciada por movimen-
tos anteriores cornoaConfederação doEquador, aRepública Baiana ea
República. Gaúcha dePiratininga.
Emcapítulo seguintetrata dos bandeirantes. Dedica umcapítulo um
pouco mais longopara tratar das etnias constituintes dopovo brasileiro,
suas características etemperamento. Trata, depois, do advento da luta
social no Brasil, assinalando onome dealguns de seus mártires: Antô-
ruo Filgueira Vieytes, Manuel Gonçalves, Casteliani, Inbiguez, Nicoíau
Parada, Nino Martins, PedroA Motta, Mattei e Antônio Varella. No
último capítulo desta parte; evidencia a situação de São Paulo como
sendo o local ondeas contradições sociais tomaram-se mais aparentes,
conduzindo estacapital aos conflitos quenela sederam. Oindustrialismo
da capital paulistana trouxe consigo uma delimitação muito clara das
desigualdades sociais, colaborando para a formação de um ambiente
propício a revoltas esublevações sociais.
A terceira parte deseulivro, chamada "O Capitalismo Contra a Ci-
vilização", amplia ainda mais a perspectiva de análise dos problemas
sociais procurando demonstrar o caráter internacional das crises soci-
ais; adeficiência própria dosgovernos ao promoverem aigualdade, jus-
tiça eharmonia sociais; anatureza classista dos Estados eoutras carac-
terísticas do capitalismo. Otrabalho no capitalismo éumjugo para o
produtor pois ele se dá sempre emprejuízo deste e embeneficio dos
dominadores. Refere-se à aplicação dos conhecimentos científicos na
organização do trabalho sob o capitalismo, advertindo que a ciência, a
serviço dadominação, significa agudização deuma situação já precária,
pois "a ciência aserviço do capitalismo favorece aos industriais epreju-
dica, emrazão inversa, aos trabalhadores". Trata emseguida das medi-
das propostas tanto por governistas, por oposicionistas do Estado epor
"sedicentes [sic] revolucionários" denominando-as de "medidas ilusó-
rias" pois não tocamnemdelonge araiz dos problemas sociais. Por fim
evidencia, novamente, ocaráter c1assista doEstado sustentando suaine-
ficiência emsolucionar as problemáticas sociais (95).
Trata ainda, nestaparte, dacentralização como fenômeno social ase
estender emdiversos aspectos da vida social sob o capitalismo. Neste'
sentido aponta para acentralização econômica, onde afigura dopatrão
cederia lugar a um domínio coletivo. dos grandes conglomerados de
empresas e dos grandes sindicatos. O Estado favorece não. apenas o
monopólio econômico mas também detodos os aspectos da vida social
38
e "vai encampando os serviços públicos, as indústrias privadas, mesmo
os cabarés" (95). Aqui ele não perde o fio do raciocínio para criticar o
caráter altamente monopolizador dos Estados socialistas dizendo:
"Há quemveja na extorsão estatal certadose de socialismo... J á sabemos a
miséria de socialismo queisto significa" (95).
A centralização econômica desenvolve-se emduas direções: uma ao
nível nacional e outra íntemacíonal, fazendo alusãe a grandes blocos
econômicos, No bojo deste processo os demais segmentes sociais tam-
bém seriam arrastados. Desta maneira a religião também constitui alvo
da unificação, passando a haver uma tendência, terna da cada vez mais
concreta, da centralização das religiões a partir da busca de entrelaça- .
mentes e de acordos baseados na identificação de pentes comuns aos
credos. Esta unificação também estende-se ao domínio da magistratura,
abarcando as instâncias política ejurídica dos Estados onde todos os
partidos da esquerda contribuem sobremaneira. Acrescentá, após ter re-
ferido-se aos partidos:
"Aplainadas assimas arestas quedificultamaestandardização detodaavida
social e proscritos ipsofacto todos os valores morais da sociedade, a unidade
religiosa, política e industrial não estarialonge. darealização".
Advertindo em seguida:
"Seseconstituísse umtal regime, não seria fácil deprever o queadviriapara
a humanidade" (95).
Por fim, trata de perigo para a vida na Terra de modelo ocidental
de vida, mesmo com os avanços e descobertas científicas proporciona-
das pela modernidade. Por causa de seu caráter belicoso e destrutivo, a
civilização ocidental reverteu os beneficios da ciência em perigo emi-
nente para amanutenção da vida dos povos. E denada valem as palavras
de paz, de desarmamento, os compromissos assinados per representan-
tes de grandes e pequenas nações, pois "não passam de torneios de
retórica diplomática, de manobras solapadas, onde cada representan-
te sua copiosamente para envolver einutilizar os seus competidores",
A ditadura militar, fascista eu socialista, constituem os marcos de sé-
culo XX, ao que seriam sucedidas por movimentos de emancipação so-
ciaf(95).
39
.Na quarta, .intitulada"As Doutrinas Sociais Modernas", o autor de-
tém-se no positivismo deAugusto Comte, nas idéias da social-democra-
cia eno marxismo, Opositivismo éanalisado enquanto filosofia-supor-
.tedarepública brasileira aolado docatolicismo. Istoporque opositivismo
consolidou-se como a religião dahumanidade, renovando edando mais
fôlego ao catolicismo. No que diz respeito ao socialismo, oautor afirma
ter havido uma completa desorientação dos primeiros objetivos, compa-
rando este desvio comoacontecido comocristianismo original, passan-
doa adotar uma atitude diametralmente oposta à inicial. Em seguida
trata do socialismo francês, do socialismo alemão e do socialismo na
Rússia. Nas suas reflexões sobre o socialismo alemão, o autor elabora
criticas contundentes a Karl Marx e a Frederic Enge1smerecedoras do
conhecimento dos estudiosos das ciências sociais. No último capítulo
desta parte o autor detém-se exclusivamente sobre as idéias daqueles
pensadores, criticando a idéia da ditadura do proletariado, atendência
nacionalista do marxismo ea idéia deumEstado marxista como forma
detransição para a sociedade igualitária.
A quinta eúltimaparte do livro, chamada "O'Nosso Postulado Soci-
al- Problemas Sociais deEmergência" - começa referindo-se acaracte-
rísticas do povo brasileiro contrapondo-o ao europeu. O temperamento
latino fundiu-se como indígena, tomando o brasileiro resistente ao que
chamou de "germanização", isto é, hierarquização social dapopulação
brasileira. Oautor propõe-se, nesta parte, aser umintérprete das aspira-
ções dapopulação, ressaltando ser sua posição a de umhomemlivre e
inspirado no lema daRevolução Francesa, asaber: Liberdade, Igualda-
de eFraternidade. Evidencia alocalização do homemdentro danature-
za, sendo ummembro constitutivo desta e estando submetido às suas
leis. O autor expressa ser omotivoprimeiro noqual seinspiraram todas
as seitas, todas as classes, todos os partidos, enfim, todos os grupos
contrários às desigualdades econômica, política esocial, contrários aos
despotismos, o ponto de partida de seu postulado. A seguir detalha o
nome eas respectivas influências demovimentos históricos no seupen-
samento.
Trata aseguir doprocesso revolucionário caracterizando-o como de
caráter eminentemente popular - enão político - para ter a eficiência
necessária banindo as causas dos males sociais. Segue diferenciando a
revolução política da revolução social, evidenciando a necessidade da
inexistência dehierarquias edeautoridades no seio da revolução social
para um sentido realmente contrário à dominação. Referindo-se à ne-
40
cessidade deumorganismo revolucionário como eixopara o movimen-
to social, afirma inexistir tal órgão, apontando, emseguida, o sindicato
como sendo essencialmente utilitário e corporativista, portanto inútil
comoorganismo revolucionário. Assinala eleaemancipação social como
sendo decaráter eminentemente popular enão fruto deuma facção r~
volucionária emparticular .
.Passa então alevantar propostas desoluções aosproblemas sociais.
Assim, aponta solução para os problemas econômicos, solução para a
questão religiosa, solução para o problema da nacionalidade, solução
para O' problema dafamilia. Refere-se à sua contemporaneidade como
sendo caracterizada pelo choque entreas forças liberais eas forças rea-
cionárias, resultando deste choque umconsiderável progresso espiritual
e social. Adverte, porem, os trabalhadores a não se iludirem comos
acenos de emancipação social dados 'pelo governo ditatorial. Isto por
causa danatureza própria dos governos. Emsuas palavras:
"Se, neste momento, opoder ditatorial agecomdemasiada energia contra a
mocidade aristocrática e conservadora, amanhã, commenos reticências tomará
atitudes idênticas em face dos revolucionários extremistas ou dos proletários
quando estes lhefizeremsombra ou quandonão sesujeitaremà suaordem" (95).
"Os partidos mais despóticos surgem de ordinário entre as van-
guardas políticas e sociais". Isto se deu com o cristianismo, com a
democracia burguesa, como fascismo e bolchevismo. O primeiro re-
sultando no poder datiara, a segunda numa plutocracia imperialista e
os dois últimos secorporificaram em"autocracias, que são bemasín-
tese detodas as formas eessências da escravidão universal". Questio-
na as aspirações dosconstitucionalistas equal seria a sua filosofia, a
sua doutrina, o seupostulado, enfim, oseuprograma. Assinala, então,
ter este movimento três linhas básicas lutando para conseguirem a
hegemonia, Eram elas o fascismo ou a democracia norte-americana, a
social-democracia- da Segunda Internacional e, por último, o Social-
'Nacionalismo deHitler (95).
A seguir Florentino de Carvalho evidencia acontribuição devários
.personagens na elaboração econstituição deumpensamento anarquis-
ta. Desta maneira associa os esforços econtribuições intelectuais eprá-
ticas deLeon Tolstói, dePierre-J oseph Proudhon, deMikhail Bakunin,
deEliséeReclus, dePiotr Kropotkin, deMax Stimer, deIbsen, deTuker,
deMackay, deBarret, deErrico Malatesta, deParsons, semesquecer de
41
registrar ter existido outras figuras derelevo no movimento anarquista,
Conclui o livro comum "Apelo aos Revolucionários", onderessalta a
ineficiência, inutilidade emesmo o caráter nocivo da república para a
libertação dos oprimidos da sociedade, evidenciando a situação do tra-
balhador como sendo decontinuada miséria e exploração, Convoca os
trabalhadores aseprepararempara abatalha, lutando pela bandeira das
reivindicações universais', Convoca os intelectuais adedicaremseus co-
nhecimentos esua verve para ferir o despotismo, Convoca os soldados
para lutarem li favor da própria libertação edos demais oprimidos, Con-
voca, por fim, osidealistas para concretizarem a"arrancada" darevolu-
ção social.
Este é, defato, umapressado esboço doquetrata Florentino deCar-
valho nestas duas primeiras obras, por seremriquíssimas na abordagem
dos temas propostos, merecendo umestudo mais aprofundado. Trata-se
mesmo deobras-primas dopensamento social elaborado noBrasil eque,
não obstante, mantêm-se totalmente desconhecidas não apenas do estu-
dioso das ciências sociais, mas também degrande parte do movimento
anarquista contemporâneo. É uma perda bastante significativa, pois o
desconhecimento das contribuições intelectuais dos trabalhadores toma
a sua percepção umtanto distorcida, incompleta e, muítas vezes, equí-
votada. Esta falta explica - umpouco - a concepção dahistoriografia
acadêmica quanto aos primeiros passos do movimento dos trabalhado-
res no Brasil. Daí vermos, comfreqüência, a referência a esteperíodo
como sendo infantil, embrionário ou termo de semelhante significação,
Quanto às demais obras deFlorentino deCarvalho, não foi possível
encontrá-Ias. Contudo dirigiremos esforços neste sentido, uma vez tra-
tar-se deproduções intelectuais deumdosmaiores personagens dopen-
samento social produzido no Brasil. J osé Oiticica registra que, emcon-
versa comFlorentino deCarvalho, estelhefalara terem os originais,de
duas obras suas, nas quais expunha a suamais elaborada produção teó-
rica, sidos tomados pela polícia, estando ele semforças para reiniciá-
Ias. Trata-se daSíntese de uma Filosofia Anarquista eConstituição So-
, cialista Libertária, obras citadas no livro de 1932, A Guerra Civil de
1932 em São Paulo.
42
Capítulo 2
o BRASa DO lNÍCIO DESTE SÉCULO
NA PERCEPÇÃO DE UM TRABALHADOR
. Florentino de Carvalho foi umobservador atentoda sociedadebra-
sileira do final do século XIX e início do XX, Presenciou os últimos
suspiros da monarquia, como também as euforias da implantação da
República, Contudo suas desconfianças 'comonovo regimepolítico de- '
lineavam-se desde sua implantação. O fato deter sido umdos criticas
mais contundentes do positivismo confrnna esta assertiva. As criticas
eramveiculadas através deconferências, debates, palestras e,principal-
mente, deseus artigos elivros. Apontou, por estesmeios, as rachaduras,
falhas edefeitos inerentes àrepública 'brasileiraumavez que,comotodo
sistema de governo, a república não eliminava as causas dos males e
desigualdades sociais. Por outro lado, asituação social doBrasil favore-
ceu apenetração do anarquismo no movimento operário. Exemplo disso.
temos nas medidas violentas dopatronato egovemantes contra ostraba-
lhadores como uma das causas da difusão do'movimento paredista de
1917, Em artigo de 1915 elejá apontava algumas ações do governo
brasileiro comoconsistindo numabalo das estruturas oligárquicas epar-
tidárias, resultando numa abertura decampo à iniciativa popular e, as-
sim, possibilitando umenfraquecimento das "hostes opressoras".
No presente capítulo trataremos particularmente da caracterização
da sociedadebrasileira feitapor Florentillo deCarvalho. Esta caracteri-
zação deu-seapartir dequatro aspectos:
1. Evidenciando anatureza classista darepública brasileira;
2. Apresentando arealidade social na qual encontravam-se ostraba-
lhadores como sendo fundamentada emcontrastes;
3. Delineando aspectos sócioeconômicos da sociedade brasileira; e
4. Registrando as diversas formas demanifestação daviolênciapa-
tronal eestatal, desdeas mais brutais torturas eassassinatos, atéàs for-
mas mais sutis.
43
A Natureza Classista da República Brasileira
no Início do Século XX
A república brasileira, emsua origem eemtodo oprocesso decon-
solidação, teve emFlorentino deCarvalho umadversário perspicaz. Ele
não poupou nem economizou criticas, comentários e apelos para sua
extinção a partir da iniciativa popular, edificando uma nova organiza-
ção social sobre as ruinas do modo de vida fundado no espólio. Sua
critica começa mesmo comaabolição da escravidão, marco dodeclínio
da monarquia brasileira. De inicio sustenta não ter sido proclamada a
abolição por causa dealgumpendor altruísta da realeza brasileira. An-
tes muito pelo contrário, elaaconteceu porque a suapermanência seria,
defato, umprejuízo para os donos do poder econômico uma vez estar
ocorrendo aonível mundial uma redefinição na forma docapitalismo. O
salariado, então, apresentava-se como uma maior garantia demaiores e
mais expressivos lucros. Na realidade não houve abolição daescravi-
dão, mas simuma expansão desta, pois não mais apenas osnegros eram
escravos. Agora também eram escravos os índios, os brancos etantos
quantos não possuíssem capital para explorar seus semelhantes.
Preocupado comaquestão deuma moral condizente comos princí-
pios de sociabilidade, Florentino de Carvalho acusava a república de
vazio moral. A república não apenas conservou toda aestrutura deespo-
liação existente na monarquia como também aperfeiçoou as formas de
exploração, ressaltando uma situação já precária, redobrando as repres-
sõese violências. Todo o princípio da autoridade, como também o da
propriedade, mantinha-se intato na liberal República do Brasil, perma-
necendo apopulação trabalhadora escrava e submetida a uma péssima
condição de vida onde a penúria, a angústia, a necessidade, a dor, a
miséria tornavam cinza os horizontes dos trabalhadores. Esta a razão
pela qual Florentino de Carvalho- evidencia aparcialidade do Estado no
trato das questões sociais. A república brasileira, "partindo doprincípio
violento eimoral da propriedade privada e da hierarquia", submetia a
população ao domínio dos donos do poder, negando-lhe todos os pendo-
res dasociabilidade edamoralidade. Isto porque, dizia, amoral darepú-
blica não era "resultante da igualdade decondições sociais, da autono-
miaindividual, dos instintos desociabilidade, da ciência, dajustiça eda
razão", acrescentando ser ela "anti-social.iantimoral, emtodos os seus
efeitos" (62).
44
Florentino de Carvalho denunciava existir articulação do patronato
comaimprensa burguesa, políticos, fazendeiros, padres epolicia, tanto
para concretizar uma exploração mais acentuada como para ummaior
controle erepressão dos protestos eímpetos deemancipação dos traba-
lhadores. A república brasileira oferecia as condições ideais para ains-
talação em seu território de estrangeiros capitalistas col!).intenção de
enriquecimento rápido. A espoliação dos trabalhadores no Brasil tinha
contornos tão forte que qualquer capitalista rapidamente conseguiria
triplicar suas riquezas. Esta situação dava-se como apoio das institui-
ções democráticas, comas bênçãos das igrejas e comaIegitimação de.
"liberais eigualitários" (75).
Emoutro artigo (55) refere-se à exploração dostrabalhadores pelos
capitalistas, pelos policiais egovernantes, civis emilitares, comametá-
fora deumbanquetepara chacais, ondeostrabalhadores aparecemcomo
as carnes servidas. Este artigo foi escrito tendo como fonte deinspira-
ção as repressões, violências eassassinatos quesesucederam às greves
daquele ano de 1917. Emartigo anterior (52) compara os arbítrios do
governo brasileiro com os da Rússia do Czar. A diferença era que a
república brasileira ultrapassava emmuito a tirania daquele império.
Era próprio darepública brasileira ser reacionária enão apenas con-
servadora. Em artigo publicado anos após os acontecimentos de 1917
denunciou ações da aristocracia brasileira iniciando umprocesso de
derrubada das liberdades eoutras conquistas sociais dos trabalhadores,
procurando subrnetê-los cada vez mais ao "poder absoluto, onisciente,
do milhão, da cruz e da espada"(61). Registrou a ação dos donos do
poder político e econômico atropelando os direitos conquistados pelos
trabalhadores; procurando torná-los "objeto de uso e abuso da gente
seleta"; perseguindo-os como criminosos; elaborando leis como a de
expulsão de estrangeiros e a deproibição de reuniões emanifestações;
procurando aprovar projetos deleis pondo fimaos organismos do movi-
mento operário e usando sistematicamente a violência física contra as
manifestações deprotestos dos trabalhadores. As perseguições eos ata-
ques daaristocracia governante darepública brasileira não atingiamape-
nas anarquistas. Os estudantes eapopulação, quando protestavam con-·
tra os crimes doimpério alemão edo clero,também eramalvos dasanha
voraz do governo brasileiro, sendo os profissionais liberais, como os
professores eadvogados, cerceados emsuas liberdades (61).
Em um outro artigo, Florentino de Carvalho registra ummomento
de trégua das repressões e perseguições, por. parte dos capitalistas e
45
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governantes, aos anarquistas, trabalhadores edemais discordantes. Nes-
teperíodo, os "missionários deCristo, ospontifices daigreja positivista,
os arautos da república e da democracia" teciam louvores à república
brasileira como sendo a "glória danossa civilização" (85). Em seguida
relembra as atrocidades da república com os marinheiros da Ilha das
Cobras; os prisioneiros da Clevelândia, campo deconcentração para os
discordantes políticos criado por Arthur Bemardes (1922-1926) no
Oiapoque, extremo norte do Brasil e a vacina obrigatória em 1904 no
Rio deJ aneiro.
Havia também no governo brasileiro uma forte tendência para
militarizar a sociedade apesar detoda a oratória ediscursos pacifistas.
Esta militarização propositada da sociedade não era demaneira alguma
gratuita. Acontecia, defato, umapreparação consciente eplanejada para
as guerras desaques esonhos deconquistas dosgovemantes imperialis-
tas sequiosos de exercerem dominação na América do Sul, tendo na
Argentina aprimeira vítima de sua voracidade (41). A decadência eco-
nômica, ainculcação do nacionalismo edo militarismo, os "hábitos in-
decorosos, os vícios repelentes'' das instituições derepressão repercuti-
amdemodo adegenerar as "faculdades físicas epsíquicas" dapopula-
ção. Isto de ummodo veloz, trazendo calamidade e obstruindo o pro-
gresso detodos; Além da "crise detrabalho" e da carestia da vida, os
govemantes pretendiam criar um"organismo deviolência, uma enorme'
.máquina damorte" aqual absorveria todas as forças produtivas dopaís,
conduzindo-o à "decadência econômica daação, à paralisação dotraba-
lho, à falta detodos os elementos devitalidade popular" (40).
Florentino de Carvalho mostrou-se umincansável lutador contra a
militarização da sociedade brasileira. O governo, juntamente com os
magnatas das finanças, procurava introjetar omilitarismo na mentalida-
de dos brasileiros ..Este processo pesaria, no fim das contas, sobre o
proletariado eprincipalmente sobre ajuventude proletária, uma vez se-
remestes, enão os'filhos daburguesia, quemacabariam arcando comos
ônus no caso de conflitos armados (39). A militarização da sociedade
brasileira iria somar como cristianismo católico ecomopositivismo -
o último característico da república nascente e o anterior remonta ao
início da colonização - uma carga ainda mais pesada sobre os ombros
dos trabalhadores (40). No primeiro artigo ondeiniciou reflexões sobre
omilitarismo, denunciou a existência daconvergência deesforços entre
donos do poder emagnatas capitalistas tentando encaminhar apopula-
46
ção para um nacionalismo chauvinista, embrutecendo-os para melhor
explorá-los (39). .
Percebeu também as manobras do governo edos capitalistas brasi-
leiros emconduzir opaís aumconfronto bélico coma Alemanha como
umaestratégia de dominação sobre o proletariado nacional. Governo e
capitalistas procuravam entorpecer os trabalhadores como nacionalis-
mo demodo alevá-los aesqueceremda crise econômica, dacarestia de
vida, da falta de moradia, de descanso e de conforto, das constantes
repressões e violências estatais e patronais e da fome. O pretexto do
governo, dos industriais, comerciantes emilitares era empreender reta-
liações e vinganças ao afundamento do navio Paraná por navios ale-
mães (52 e 74).Ao mesmo tempo emque conduzia o país à guerra, o
governo brasileiro procurava acalmar os trabalhadores acenando-lhes
comapromessa deumpróximo futuro deabundância, uma vez estarem
a indústria, a agricultura e ° comércio nacional emfranco progresso ..
Entretanto, aguerra significou umfator deaumento nos lucros dos capi-
talistas edemaior exploração dos trabalhadores; pois otrabalho torna-
ra-se excessivo, o salário tinha minguado, além de ser constantemente
mutilado pelas multas, ajornada detrabalho tinha aumentado bastante
e,por fim, o custo devidatornara-se altíssimo (74).
Florentino deCarvalho denuncia ecritica aação do Estado brasilei-
ro na educação. Através do ensino, os govemantes procuravam incuti;
napopulação, deuma sóvez, onacionalismo, areligião eomilitarismo.
Os cidadãos comuns, diz ele, eram "educados na religião do civismo
estatal ereacionário" (25), evidenciando, emseguida, existir, por parte
dapopulação brasileira, umaforteresistência àsmedidas demilitarização
do ensino adotadas pelo governo. Aindaneste artigo, o autor afirma ter
a situação do trabalhador setomado ainda mais grave, pois o sorteio
militar obrigatório, ainstrução militar obrigatória nas escolas públicas e
privadas eoreerguimento das linhas detiro vieramsomar-se à limitação
da liberdade dos trabalhadores por causa desua dependência econômi-
ca. A aristocracia reacionária tolhia as liberdades do professor impon-
do-lhe umprograma deensino fundado emidéias einteresses das elas-
ses dominantes, transformando a pedagogia "num rosário de dogmas
para acatequese deinocentes iniciados emfetichismos grosseiros" (61).
Criticou as iniciativas estatais emrelação tanto ao ensino como à saúde
da população. Estas iniciativas estavam condenadas desde o início por
causa daestreiteza crônica desuavisão: intelectuais burgueses eeduca-
47
dores oficiais procuravam levar o conhecimento, a ciência, ao povo
desconsiderando amiséria na qual viviam. Isto malograva qualquer ten-
tativa deelevar o conhecimento dos trabalhadores. Os médicos, por seu
lado, procuravam curar opovo comremédios einjeções desconsiderando
a principal causa das doenças: "fome, falta dehigiene, de bem-estar e
carência dealegria". Toda amiséria damaioria dapopulação brasileira
acontecia ao lado da "superabundância daprodução" (60).
A República dos Antagonismos Sociais
Emvários deseus artigos Florentino deCarvalho caracterizou aso-
ciedade brasileira doinício do século XX como tendo no contraste soci-
al uma de suas características mais marcantes. Isto porque a estrutura
social brasileira fundamentava-se empolaridades extremas e contradi-
tórias, onde alguns poucos afogavam-se na fartura, no desperdício ena
opulência, enquanto muitos outros secavam, definhavam, minguavampor
causa das privações. Numdeseus artigos expressa-se da seguinte forina:
"O regime dos contrastes, da fartura e da miséria, do despotismo eda sub-
missão, do trabalho extenuante dos escravos eda vagabundagem empertigada e
indigente dos negreiros modernos, deve passar imediatamente pelo crematório
daRevolução social, queestabeleça aigualdade decondições econômicas, políti-
case sociais" (89).
Aqui. predomina o tom de denúncia de um quadro social fundado
numa extremada exploração onde a característica é a convivência de
pólos sociais antagônicos. Uma sociedade desta natureza é vista pelo
nosso autor como sendo "a vergonha de nossa era de progresso ede
civilização" (89), deonde conclui ser necessário sua extinção. Mas dei-
xemos para mais adiante suas reflexões sobre a sociedade nova e os
meios adequados para tomá-Ia cada vez mais uma realidade plena. A
abundância derecursos naturais aolado debelezas naturais inimagináveis
caracterizava oterritório brasileiro. Entretanto a escandalosa miséria e
penúria em que viviam os trabalhadores, enquanto os magnatas do po-
der e do comércio viviam mergulhados na opulência, privilégios e des-
perdícios, maculava toda beleza desta terra (41 e80).
. Apesar de existir uma grande capacidade produtiva, por causa da
abundância dos recursos naturais edafertilidade das terras, apopulação
trabalhadora encontrava-se oprimida pela miséria. Toda esta situação
era o resultado daação conjugada dareligião, cultivando aignorância e
o analfabetismo; das péssimas condições demoradia dos trabalhadores,
onde emseus casebres empilhavam-se, dividindo comumgrande núme-
ro de pessoas o espaço, e que além depequenos, lúgubres, escuros e
'úmidos, erampropícios atoda sorte deinfecções (63).
Florentino deCarvalho fornece dados emrelação aos aumentos sa-
lariais comparados ao custo de vida. Considera também outros dados
sociais. Assim, registra queno ano de 1919os alimentosduplicaram de
preço enquanto o salário tinha aumentado apenas 20 ou 30%. Os alu-
guéis, de seu lado, tinham triplicado, Considerava o déficit econômico
além da frieza dos números 'edas estatísticas. Este déficit significava
perdas irreparáveis deenergias; constituindo verdadeiro assassinato, um
crimeinqualificável, "éa vida decepada ao meio" (60). A estrutura ca-
pitalista emonopolizadora dasociedadebrasileira não permitia aos pro-
dutores oacesso à riqueza social produzida por elesmesmos. A realida-
de social darepública do Brasil édescrita deforma contundente: .
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"O esplendor caríssimo efictício das castas e das classes altamente coloca-
das nos. píncaros das suas posições sociais; os festins de Baltazar, as bacanais
permanentes; (...) têmsido o estado normal destademocracia.quelevaopovQao
triste ocaso deuma inevitável falência" (62).
Florentino de 'Carvalho não pretendia emnenhum momento reivin-
dicar dos governantes, capitalistas edemais participantes dopoder polí-
tico, econômico esocial, alguma melhoria aqui, uma complacência ali,
umas migalhas acolá. Não havia ointeresse deconquistar uma elevação
da qualidade de vida etrabalho através deconcessões do Estado edo
patronato. Antes muito pelo contrário, pretendia evidenciar para todos
os oprimidos o absurdo da vigente situação social esuas causas. Desta
forma o Estado, juntamente comtodas as instituições de sustentação,
como igrejas, militarismo, capitalistas eoutras mais, deveriam ser ex-
tintas pela ação revolucionária dos trabalhadores insurretos.
A república.brasilêtra temmostrado aqueveio. Seuapoio aos capi-
talistas acontece emprejuízo direto para ostrabalhadores. Os artigos de
Florentino deCarvalho escritos, por exemplo, durante eapós as greves
de 1917, demonstram bemseupensamento acerca daintermediação dos
conflitos sociais pelo governo. De início evidenciou terem as greves
ec1odidosdevido à situação demiséria epenúria dostrabalhadores ante
aopulência eesbanjamento dos donos dopoder. E, para acentuar ainda
mais 8. revolta dapopulação, toda acrise econômica, acarestia devida e
49
afalta dosprodutos não sedeviaaumabaixa produtividade, mas simao
destino dado aos produtos nacionais pelos governantes: os produtos es-
tavam sendo destinados aos países emguerra, faltando para otrabalha-
dor brasileiro mesmo como aumento deprodutividade (73).
A situação dotrabalhador eramesmo delicada. Florentino deCarva-
lhonão cansava dedenunciar emseus artigos amiséria naqual todos os
trabalhadores se encontravam. O trabalhador, enquanto inquilino que
também era, não tinha amínima segurança de moradia. Dependia total-
mente dos humores do dono da casa emque morava, podendo, desta
maneira, ser despejado arbitrariamente a qualquer momento (60). Ana-
lisa criticamente a situação na qual encontra-se, na civilização ociden-
tal, organizada as moradias eresidências, rejeitando a constituição de
metrópoles edos grandes conglomerados urbanos:
. "Seasartes sãooespelho daética, adonosso séculonão atingeados antigos
helenos, apesar das centúrias que deles nos separam.
. Exemplo frisante no-lo oferece a construção aventino, que serefletenas ne-
-Ó , gras chaminés deLondres enos grotescos raspa-céus. deNova Iorque, E melhor
exemplo no-lo.oferecemas construções nos bairros mais populosos das grandes
urbes, nas vilas ou arraiais, onde a generalidade dos edifícios são cubículos sem
ar e sem luz, ou toscos simulacros de choupanas, construidos comdesperdícios
de madeira, de folha-de-flandres, ou com frangalhos imundos apanhados 110S
logradouros emqueseescoam os detritos das povoações,
São estas asjóias que emViena, Budapeste, Lisboa, Madri, Rio de J aneiro,
Bueno Aires, etc., etc.,expõe omundo civilizado e... para os civilizados emma-
téria arquitetênica" (94).
Emseguida evidencia ser privilégio dos dominantes o acesso amo-
radias higiênicas esaudáveis, restando ao trabalhador aexclusão deto-
dos os benefícios do progresso:
"O homem é umdesterrado, um pobre de solenidade, a percorrer o Mundo
emperegrinação devicissitudes infindas. Quando estaciona, fá-lo emcondições
de intruso e deescravo, entregando ao usurpador da Natureza o produto do pró.
prio suor,emcompensação desua estadia no covil queprovisoriamente lheserve
de albergue". (94)
Acrescentando emseguida:
'. .
"O 'habitante' desapareceu para dar lugar ao "inquilino', moderno paria do
proprietário particular ou 'p~blico' " (94). .
50
Ostrabalhadores eram, na verdade, como que"estrangeiros emterra
própria" (65) pois nada possuíam. Trabalhavam, produziam, mas nada re-
cebiam da riqueza social, sendo beneficiado apenas um pequeno grupo
deprivilegiados. Era assim, através da exploração do ser humano, que
os 'grandes fazendeiros, os industriais, os proprietários duplicavam, em
muito pouco tempo, suas riquezas. Os políticos; por seulado, enriqueci-
am sobremaneira durante seus mandatos, As forças armadas, censumi-
deras da produção edas riquezas, retribuíam coma opressão eaviolên-
cia. O clero enriquecia tanto explorando os fiéis, que eram os mesmos
trabalhadores explorados pelo poder do capital, como recebiam do go-
vemo contribuições financeiras, isto sem esquecer das suas ações na
indústria e no comércio de santinhos, objetos e artigos religiosos (65).
Aspectos Sócioeconômicos do Brasil
do Início do Século XX
No pensamento de Florentino de Carvalho encontramos sempre a
preocupação de articular a teoria comos problemas da realidade social
envolvente. Seguindo uma orientação comum aos anarquistas emgeral,
não se perdia emintermináveis reflexões teóricas nem se deixava levar
por insolúveis discussões filosóficas distantes das dificuldades de vida
da sociedade na qual vivia. De fato, salta aos olhos do leitor de seus
artigos e livros a preocupação do autor emencontrar o equilíbrio entre
estudo e a realidade social; entre conhecimento científico e prática re-
volucionária, enfim, entre reflexão sistemática e ação libertária.
A preocupação com os problemas sociais do Brasil e do mundo o
conduziram a delinear detalhadamente - com uma forte carga de .
emotividade, própria de quem sentiu na pele os horrores das violências
. veiculadas a ele próprio e aos que lhes eram próximos - os aspectos
sócioeconômicos, político, educativo, cultural e demais peculiaridades
da sociedade de sua época. A partir desta caracterização elaborou suas
reflexões, tecendo, emseguida, profundas críticas, fazendo comentários
de situações, advertindo os trabalhadores, orientando-os na prática
libertária esugerindo soluções para impasses apresentados aomovimento
dos trabalhadores.
Em suas análises sobre osproblemas edificuldades sociais não per-
dia de .vista todo o processo histórico da sociedade brasileira, desde a
51
I;
~ ~ . ~ - - - - - - ~ - - ~ - - - - - - - - - - - - - - ~ - - - - - - - - - - - - - - - - - - ~ - - ~
invasão dos portugueses - era esta a denominação por eledada ao que a
historiografia oficial chamava, e chama ainda, de descoberta- comto-
das as suas vicissitudes até à sua época. Desta maneira, percebia asocie-
dade como sendo fruto de séculos de exploração erapina onde os traba-
lhadores eram sempre espoliados, violados e reprimidos quando de seus
. protestos (3). À invasão portuguesa, coma conseqüente catequese e
exterminio denativos, sucedeu o regime da escravatura ea este sucedeu
. o latifúndio.
Florentino deCarvalho, denunciava ser aescravidão negrajustificada
por capitalistas; padres, juristas e até alguns cientistas da época. Procu-
ravam legitimar uma violência inqualificável. Apesar de abolida a es-
cravidão não houve uma ação correspondente no cotidiano da sociedade
brasileira, pois os negros continuavam excluídos de seus direitos às ri-
quezas sociais e marginalizados, numa demonstração de ter o racismo
sobrevivido à lei Áurea (28). A instauração da República emnada mo-
dificou a situação dos negros edos trabalhadores emgeral. Ostrabalha-
dores padeciam na miséria e fome enquanto os alimentos, devidamente
guardados emarmazéns, degeneravam e apodreciam. Tal situação tinha
como causa o monopólio dos meios deprodução ea conseqüente exclu-
são das possibilidades dos trabalhadores em satisfizerem suas necessi-
dades, ficando dependendo exclusivamente dos patrões e dos fazendei-
ros. A situação do proletariado das fazendas era ainda mais drástica.
Desde a moradia até às condições detrabalho, vestuário, higiene corpo-
ral.isaúde, alimentação, como também uma extenuante jornada de tra-
balho, tomando-se sua situação mais grave por causa do analfabetismo
(36). Porém, apesar das grandes dificuldades edamiséria, otrabalhador
rural mostrou-se mais receptivo à sementeira libertária (61).
Detentores do monopólio dos meios de produção, capitalistas, in-
dustriais, o grande comércio e os fazendeiros, agravavam ajá precária
situação dQlitrabalhadores. Arrocho salarial (3), encarecimento dos pro-
dutos (18) ea limitação das atividades produtivas provocava um consi-
derável aumento dos bens produzidos, majorando, desta maneira, os lu-
cros e, por outro lado, tomando mais eficiente a dominação sobre os
trabalhadores (67). A carestia da vida (3), os arbítrios dos patrões deter-
minando os salários a serempagos aos trabalhadores (J 6), o alastramen-
to do desemprego como também a coalizão dos capitalistas brasileiros'
constituía prelúdio do encarecimento da vida, do desemprego e da misé-
ria (18),
52
I .
- - -------
-------- --
Também os governos municipais, estaduais efederal se c6njugavam
e se sucediam explorando apopulação trabalhadora através do aumento.
dos impostos edos produtos deconsumo (71): O governo seomitia quan-
do da busca de solução para a situação da criança trabalhadora, sem
interferirjunto às oficinas efábricas emfavor desta. Isto deve-seao fato
de seremindustriais os próprios estadistas (62). Em outros artigos regis- .
tra a amplitude da crise na sociedade brasileira, acusando os trustes, os
honorários, as pensões, as subvenções, os favoritismos, os gastos como
"inútil e prejudicial" aparelho administrativo, militar, juridico, policial
como sendo a causa da crise econômica edas mazelas sociais (40). Ape-
sar da crise econômica atingir oproletariado deuma forma mais acentua-
da, Florentino deCarvalho não deixa deregistrar sua amplitude listando,
em outros artigos, terem sido os pequenos (59) também vítimas da ex-
ploração dos grandes comerciantes. Nem a classe média escapou das
conseqüências do monopólio e das explorações imposta pelas classes
dominantes (76).
Entretanto tal situação não se restringia apenas ao Brasil, estando
. todos os países mergulhados numa crise econômica, fruto da ambição
voraz dos detentores do poder político e econômico. No Brasil um con-
junto de causas provocou amiséria dos trabalhadores: o fechamento das
indústrias, com 9 conseqüente aumento do desemprego; barateamento
da mão-de-obra eachatamento dos salários; a desvalorização provocada
do café; o perigo da eclosão deuma revolução política apartir das can-
didaturas presidenciais; jogos financeiros dos capitalistas e, por fim,
manejos eleitorais dos políticos profissionais e dos patriotas. Submeti-
dos a tal realidade, os trabalhadores não conseguiam o mínimo necessá-
.rio para seu sustento, tendo como conseqüência o depauperamento fisi-
co causado pela péssima alimentação e'pelas precárias condições de
moradia (76, 18e 16). Aliado.a estes tinha ainda outros fatores como a
. falta de segurança ehigiene no local detrabalho (l6). O primeiro facili-
tando os acidentes de trabalho e o segundo prejudicando diretamente o
estado de saúde dos trabalhadores. A ausência de equipamentos emeca-
nismos de. segurança nos locais detrabalho. era constante. Os trabalha-
dores deveriam exigir do patronato condições de segurança. Entretanto
em alguns casos os próprios trabalhadores esqueciam este ponto, cres-
cendo os números dos proletários acidentados, mutilados, inválidos ou
mortos (16 e 60).
Num artigo ~de reflete sobre O s trabalhadores da construção ci-
vil, Florentino de Carvalho cita o casa de outras profissões serem mais
; ,
53
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suscetíveis a danos, por vezes irreparáveis, nos trabalhadores: os pinto-
res adoeciam por causa dos gases das tintas; os carpinteiros adoeciam
por causa dos ácidos dasmadeiras; ospedreiros contraíam doençasquan-
do das demolições de antigas edificações; os eletricistas também adoe-
ciam ao trabalharem nos velhos prédios, quando não eram fulminados
pelas cargas, elétricas. Em outro artigo o autor detalha as péssimas con-
dições detrabalho dosmarinheiros. Suas observações, quanto ao cotidia-
, no destes profissionais, deram-se quando do periede de residência for-
çada, no navio para a deportação, depois dos acontecimentos de 1917em
São Paulo. Os marinheiros trabalhavam excessivamente esobrecarrega-
dos. Durante todo operíodo do dia ficavam molhados. A dieta alimentar
era de péssima qualidade, além de serem vítimas constantes de maus
tratos por parte dos seus superiores hierárquicos (21). Os trabalhadores
e os homens livres eram marginalizados na sociedade brasileira do iní-
cio do século XX Os primeiros eram tidos como "mercadoria, ou ins-
trumento de produção que se vai desprezando" enquanto os segundos
eram tidos emconta de "malfeitores" (68).
Os acontecimentos de 1917 tiveram grande impacto na sociedade
brasileira. Florentíno de Carvalho registrou terem os trabalhadores ini-
ciado as manifestações daquele ano após longos e demorados jejuns
compulsórios, prolongada exploração e misérias. No início das mani-
festações protestavam contra os aumentos dos gêneros deprimeira ne-
cessidade epor restituição salarial (76). Omovimento paredista de 1917
foi deproporção colossal, envolvendo todo o estado de São Paulo numa
comoção social semprecedentes. Depois de vários dias de paralisação
geral, estabeleceu-se um acordo, intermediado por um grupo dejorna-
listas, entre ostrabalhadores, opatronato eogoverno paulistano. Entre-
tanto, dois meses depois de estabelecido, o acordo foi rompido pelo
patronato e-pelogoverno, iniciando aperseguição violenta aos trabalha-
dores; assaltos edissolução, a golpes de cacetete, das associações ope-
rárias, roubando ou destruindo seus móveis ebibliotecas; empastelando
jornais etipografias dos operários; violando domicílios .dostrabalhado-
res emaltas horas da madrugada para seqüestrar, espancar, assassinar,
deportar, não semantes torturar (76).
. Em outro artigo registra sua indignação diante dos abusos levados a
efeito pelo patronato epelos governantes contra os trabalhadores, sendo
desrespeitados os direitos do homem; inexistindo a liberdade em bene-
ficio do privilégio da propriedade privada; mantendo-se, desta maneira,
a divisão desigual da riqueza social (75).
54
A progressiva substituição dotrabalho masculino pelo das mulheres
e crianças foi outro fator a acentuar consideravelmente o quadro geral
de exploração e violência sobre o proletariado, Registra e detalha este
. procedimento dos donos do poder não semindignação erevolta, pois tal
fato resultou num aumento do desemprego e redução dos salários uma
vez serem menores os salários pagos às mulheres e às crianças. Para
piorar ainda mais os homens que permaneciam no trabalho só o conse-
guiam na condição de se submeterem a um salário defome (39). Ajor-
nada de trabalho dos trabalhadores, adultos e crianças era extenuante.
Trabalhavam desol a sol, 12, 14horaspor dia, não lhes sobrando tempo
nem energia para mais nada, nempara o repouso, nempara a educação,
muito menos para as leituras, reuniões eorganizações operárias (92). A
situação da criança trabalhadora era pior. Havia mesmo uma comissão
formada por trabalhadores, tratando exclusivamente deste assunto.
Florentino de Carvalho fazia parte desta comissão. Em vários artigos
denunciou as condições detrabalho das crianças proletárias, a começar
pela jornada detrabalho. Trabalhavam tanto quanto os adultos: desol a
sol e sem descanso durante este longo período de trabalho. Além disto
eram insultadas, oprimidas, gritadas, esbofeteadas, chicoteadas pelos
capatazes, sem esquecer do fato de que muitas eram machucadas óu
mutiladas pelas máquinas por causa do regime deterror eda correria na
produção.
La Bataglia (97) registra queumquilo depão custava trezentos raso
Umtrabalhador ganhava, com 25 dias detrabalho, setenta e cinco mil-
réis, enquanto que o mínimo para satisfazer as necessidades básicas era
detrezentos evinte mil-réis, O trabalho infantil era muito pesado para a
estrutura física da criança, inexistindo remuneração durante os primei-
ros meses detrabalho. Recebiam algum dinheiro, cinquenta atrezentos
réis, alguns meses depois de terem começado o trabalho. Todos os tra-
balhadores, adultos e crianças, eram vigiados severamente durante todo
o período de trabalho ..Ao menor movimento improdutivo as crianças
eram multadas ou suspensas. Para piorar ainda mais, nos locais detra-
balho havia uma completa falta de higiene e alta poluição sonora. Os
pequenos trabalhadores eram roubados descaradamente através da apli-
cação demultas, pagamentos incompletos dos salários enão pagamento
das peças detecidos consideradas malfeitas, Todos estes fatores tinham
conseqüências drásticas na saúde das crianças. As doenças campeavam
na infância tomando-as cada vez mais frágeis evulneráveis às infecções
55
de todos os tipos (46, 50 e 5J ) As opções da infância quanto às suas
perspectivas devida, neste período sombrio da sociedade brasileira, não
eram muitas. As crianças tinham como opção de vida ou a prostituição
ou a exploração pelos capitalistas. Denuncia a existência de agenciado-
res profissionais de mulheres e crianças para substituição dos homens
nas fábricas. Havia caso dos próprios pais, compelidos pela miséria,
levarem seus filhos aos capitalistas, "alugando-os por qualquer preço,
.pelo salário que os burgueses queiram pagar" (62).
As freqüentes viagens feitas por Florentino de Carvalho ao interior
dos vários estados serviam também para observação in loco da situação
dos trabalhadores nestas regiões, os quais sofriam um grau mais eleva-
do de violência. O cidadão do interior vivia cercado pela oligarquia eco- .
nômica, política e religiosa, não podendo expressar opiniões divergen-
tes da política dominante e, muito menos, fora ou contra o pensamento
religioso (59 e 38).
Violência eRepressão Policial no Brasil
do Início do Século xx
Além das dificuldades do cotidiano, os trabalhadores ainda enfren-
tavam diversas formas de violência sistemática promovidas pelos
govemantes epelos capitalistas. Estes, através dos militares, tomavam
ainda pior uma situação já critica. A ação da polícia visava reprimir e
inibir as manifestações deprotestos dos trabalhadores. Em algumas oca-
siões trabalhadores, inclusive idosose crianças, foram arrastados à for-
ça e obrigados atrabalhar (82).
Florentino de Carvalho, mostrando-se surpreso, refere-se a um ar-
tigo de umjornal Iigàdo às classes dominantes o qual diante da reali-
dade dura do proletariado, registrou com indignação, o extremo de
exploração e violência sobre os trabalhadores (68). Sua surpresa não
se deu gratuitamente nem por diletantismo de militante, pois emvári-
os outros artigos demonstra as ligações efetivas da imprensa burguesa
contra as manifestações dos trabalhadores e, em outras ocasiões, esta
mesma .imprensa exigiu maior austeridade dos mecanismos de repres-
são sobre os trabalhadores. Quando de seq comentário de uma critica
elaborada por umjornal da época às manifestações ácratas pelo fim da
56
imigração de estrangeiros para o Brasil, registra atruculência da poli-
cia na repressão e assassinato de trabalhadores ao lado do silêncio da
imprensa burguesa (4).
Os trabalhadores emtodo o Brasil enfrentavam um cotidiano re-
pleto de abusos eviolências das mais variadas formas: ahumilhação, o
grito arrogante, as torturas, os espancamentos e os assassinatos. Seus
lares eram freqüentemente invadidos e violados, sendo as mulheres e
crianças espancadas e o pai arrastado para ser ou deportado, torturado,
espancado ou assassinado. Uma maneira detentar neutralizar o ímpeto
tomado pelo movimento dos trabalhadores foi a adoção da deportação
de estrangeiros do Brasil. Assim, os mais ativos eram ou expulsos do
país ou para regiões inóspitas tais como Mato Grosso ou o campo de
concentração de Clevelândia, no Oiapoque, onde sucumbiram vários
militantes anarquistas (4, 11e 14).
As deportações, consideradas por Florentino deCarvalho comosendo
de fato um seqüestro, em sua esmagadora maioria davam-se sem-ne-
nhum processo jurídico. Os trabalhadores eram presos, torturados e,
quando escapavam de serem assassinados, eram expulsos do país pela
polícia semao menos uma comunicação aos seus familiares. No caso da
sua deportação em 1917, com seus oito companheiros, todos tinham
sido expulsos como estrangeiros apesar de terem famílias constituídas
no Brasil, de viverem entre 10a 28 anos comresidência fixa no país e,
alémdisso, um deles era brasileiro nascido na capital de SãoPaulo (19,
76 e78).
As violências contra as mulheres e as crianças persistiam na repú-
blica democrática (28). Emumoutro artigo o autor evidencia a explora-
ção contínua das críanças trabalhadoras, as quais eram submetidas, pe-
rante os olhos dos govemantes, a violências constantes, Ainda neste
artigo, encontramos uma denúncia do autor acerca da absolvição do pa-
dre Faustino Consoni , diretor de um orfanato de São Paulo, do qual
havia sumido uma garota chamada Idalina de Oliveira, uma menina
paulista entregue aos cuidados do orfanato Cristóvão Colombo quando
tinha apenas oito anos de idade, Em 1910, com 10 anos, desapareceu
misteriosamente, sendo que seu corpo foi descoberto enterrado emárea
dopróprio orfanato. O referido padre era oprincipal suspeito. A revolta
do autor deu-se pelo fato deterem sido presos aqueles queprocuravam
elucidar o mistério enquanto o acusado tinha sido libertado (55). Oresti
Ristori eEdgar Leuenroth, diretores dosjornais anarquistas La Bataglia
57
i
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i
e A Lanterna, respectivamente, denunciaram o caso pela imprensa e
foram investigar apurando ter sido a menina violentada e assassinada
pelo padre Faustino. Rodrigues (183) registra ter sido este caso um dos
temas que ocupou a imprensa nos anos 1910 e 1911. A descoberta deste
crime incentivou os alunos do orfanato a denunciarem outros assassina-
tos cometidos pelos padres daquelainstituição. Apesar detudo, Leuenroth
e Ristori acabaram sendo presos pela policia. Ristori, em seguida, foi
expulso do país.
Descrevendo sua saga comcompanheiros por várias prisões do Bra-
sil quando. da tentativa de deportá-lo após os movimentos de 1917 em
São Paulo, Florentino de Carvalho registra ter encontrado crianças nas
prisões de Recife. Estas crianças encontravam-se presas por não terem
para onde ir nem com quem ficar. Viviam um regime e estilo de vida
essencialmente militarizado: tocavam instnimentos das seis horas da
manhã às 21h; faziam marchas militares e cantavam hinos nacionalis-
tas. Sua rotina diária era a seguinte: dormiam em "tarimbas" sem col-
chão nem cobertores; acordavam às cinco horas da manhã aos socos e
gritos; em seguida banhavam-se num "poço de água suja, estagnada";
depois do banho tomavam como café "aquela borra da qual tive ocasião
defalar"; depois do café iampara o pátio comcarabinas fazer formatura
sob abusos, gritos epontapés de um comandante; quando emformatura
punham-se a cantar hinos nacionalistas. Registrou a existência nestas
prisões de Um"quarto escuro" aonde torturavam prisioneiros. O autor
deixa claro que quem entrasse naquele quarto não sairia com vida por
causa da gravidade dos ferimentos, descrevendo vários instrumentos de
tortura utilizados pelos carrascos (79).
Em outro artigo, o autor descreve' uma das prisões emque esteve:
"As células têm uns 60 centímetros de comprimento por 40 de largura e 2
metros de altura. O pavimento, assim como as paredes, são de cimento, impreg-
nadas deumidade. A falta de ar produz asfixia mais ou menos lenta" (82).
As prisões agiam demodo semelhante no trato comos presos, sendo
elas mais inclementes com casos de insubmissão. Rodrigues registra o
caso do fuzilamento dos marinheiros do Satélite quando da revolta de
J oão Cândido, marinheiro que liderou o motim dos marinheiros contra
osmaus-tratos aqueeramsubmeti dospelos oficiais damarinha em1910.
Nesta ocasião ele registra a descrição da prisão aonde foram colocados
58
os marinheiros anistiados pelo governo que, no fim das contas, acaba-
ram assassinados:
"J oão Cândido afirmava que os marinheiros eramjogados nas masmorras
subterrâneas d~ ilha das Cobras, num cubículo onde normalmente caberiam
duas pessoas. Brames dezoito. A prisão era pequena e minava água por todos
os lados. A gente sentia umcalor de rachar. O a-ra-ba-fado. A itnpressio era que
estávamos sendo eozinhadcs dentro de um caldeirão, Não nos deram alimento.
Não havia água para beber, e alguns, eorroídcs pela sede beberam a própria
urina. J ogaram água com sal sobre nós. Havia um declive e o liquido se evapo-
l'OU 110 fundo da masmorra, ficando li cal' .
A princípio, pensamos resistir à solitária. Mas ao cair da noite o calor era
sufocante. Gritamos! As nossas súplicas foram abafadas pelo rufo de tambores.
Tentamos arrebentar as grades. O esforço foi gigantesco. Nuvens de cal se des-
prendiam do chio invadindo nossos pulmões. A escuridão era tremenda. Os
gemidos foram diminuindo até qtJ 6 caiu o silêncio dentro daquele inferno, onde
o Governo Federal, em que confiamos, cegamente, jogou dezoito brasileiros
com seus direitos políticos garantidos pela Constituição e pela anistia votada
pelo Congresso. Pura e simples traição do governo do Marechal Hermes da
Fonseca" (180).
No interior dopaís asituação eraainda pior. Odespotismo deserifrea-
do possibilitava unia condição deextrema exploração eviolência aopri-
mir e submeter os trabalhadores das fazendas. Liberdade de reunião, de
pensamento edepalavra eram quimeras no interior do Brasil (23 e 53).
Para o Estado a questão social não tinha nenhuma relevância. Se os
trabalhadores desfaleciam ante sua situação, se eles lamentavam emor-
riam à míngua, sem agir, eram mandados, pelos govemantes, queixa-
rem-se "à virgem dos desamparados". Entretanto se os operários recla-
mavam eprotestavam, então soltava-se sobre eles "a polícia, o exército,
a armada e todo aparelho Iegalitário que é uma jóia dejustiça, para
acalmar os seus ânimos, indignações edesesperos, combanhos de sabre
ou os frios pavimentos dos calabouços correcionais" (73).
O novo governo republicano e democrata tratava os trabalhadores
com abusos, violências e arbítrios: imposição da vacina obrigatória; o
caso Satélite onde o governo metralhou mais de 50 brasileiros; massa-
cre de marinheiros nacionais na llha das Cobras; deportações detraba-
lhadores para lugares longínquos, inclusive de mulheres sexagenárias;
seqüestros eviolências de cidadãos pela polícia e, apesar das várias de-
núncias veiculadas pela imprensa, nada era feito para acabar com os
abusos e arbítrios; proibições de comicios e conferências anticlericais;
lei do s,orteiomilitar obrigatório epenalidades aos recalcitrantes; os ín-
59
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dios eram roubados, .explorados, violentados e exterminados mesmo
sendo eles os "genuínos brasileiros"; ausência das liberdades políticas,
econômicas ejurídica; supressão dos direitos de subsistência, trabalho,
associação, reunião, greve, depalavra, deimprensa edetrânsito; priva-
ção de acesso aos meios de produção e de consumo; substituição do
trabalhador por máquinas, mulheres ecrianças; criação da lei de expul-
são deestrangeiros; repressão à.sgreves; perseguição dos indivíduos mais
conscientes; assassinatos de grevistas; assalto às associações operárias
pelos policiais destruindo móveis destas e as saqueando (79).
Apesar de estarem no exercício dos direitos constitucionais de gre-
ve, de reunião e de associação, os trabalhadores recebiam da polícia de
,São Paulo agressões; violências nas reuniões dissolvidas a casco de ca-
valo; fechamento de associações; prisões e detenções arbitrárias de ci-
dadãos por mais de 48 horas, inclusive mulheres; seqüestro detrabalha-
dores; assalto e violação de lares; livros e objetos domésticos levados
pelapolicia para postos policiais sem o devido inventário e tampouco
devolução; freqüentes espancamentos nas mas e expulsões "a granel"
(82). .
Os trabalhadores da construção civil de Santos e, os tecelões de
Sorocaba constituem exemplos dos abusos por parte do patronato. Os
primeiros sofreram violências das instituições por causa de greve por
melhores condições detrabalho, sendo humilhados eexplorados cotidia- .
,namente. Os segundos tiveram os salários reduzidos, instaurado otraba-
lho noturno e substituíram o trabalho dos homens pelo de mulheres e
crianças. Os capitalistas e governantes estavam "cometendo um verda-
deiro assassinato emcada trabalhador que morre, mais ou menos lenta-
mente deexcesso detrabalho edemiséria" (16 e58). Nestas ocasiões os
anarquistas sofriam violências de forma mais contundente (59). A per-
seguição a anarquistas era constante. Suas associações eram violadas e
depredadas, seus móveis destruidos, livros confiscados edestruidos (89),
Os anarquistas, além dos parcos recursos para subsistência, eram os des-
tinatários preferidos dos governantes e capitalistas em suas arrancadas
de violência, sendo caluniados, presos, expulsos do país e assassinados.
O próprio Florentino de Carvalho vivia sob severa vigilância da polícia
de São Paulo, que se mantinha constantemente informada sobre todos,
os seus passos, violando, inclusive, correspondências particulares (73).
Além disto era vitima de calúnias e difamações por parte dos agentes·
policiais e dos políticos (37).
60
A situação geral do trabalhador era detotal insegurança. O Estado e
opatronato promoviam constante precipitações deviolência, arbítrios e
abusos semlimites. A violência física eatrucu1ênciapoliciais davam-se
gratuitamente. Florentino de Carvalho denuncia o grau de arbitrarieda-
des dos governantes sobre os trabalhadores quando da visita ao Brasil
dorei belga Alberto, Naquela ocasião, o governo federal.então sediado
na cidade do Rio de J aneiro, promoveu uma forte onda de. abusos e
arbitrariedades, prendendo, semmotivo algum, cerca demil trabalhado-
res pouco antes da chegada do rei. Tudo por temer que acontecesse
manifestações dedesagrado pelapresença real. A questão social no Brasil
é "Uma questão puramente policial" (72). No ano de 1917 o grau de
arbitrariedade dos governantes foi altíssimo. A situação demiséria-dos
trabalhadores era agravada pela guerra, pela ambição dos capitalistas e
pela violência do Estado. Estes e outros fatores conjugados desemboca-
ram no movimento paredista daquele ano cujo encerramento foi à bala,
à sabre, à casco de cavalo, com o objetivo de proteger e preservar a
propriedade burguesa e forçando os trabalhadores a retomarem ao tra-
balho (76). A simples distribuição depanfletos eraproibida, tanto explí-
cita como mascaradamente, pois quando havia consentimento formal
para a distribuição destes, quem o fízesse sofria fortes represálias (52).
No caso das greves, então, aira dos govemantes edos capitalistas fazia
cair sobre os trabalhadores tremendas ondas de violências (82).
Direitos e liberdades garantidos nas leis e constituições era letra
morta. As liberdades de reunião, de associação, degreve, expressão de
pensamento e outras eram sistematicamente desrespeitadas pelos pró-
prios governantes e capitalistas. Estes, conjugavam esforços iniciando
repressões contra o movimento dos trabalhadores. Para tanto, se utiliza-
vam de todos os expedientes de violência ao seu alcance, emflagrante
contraste com as garantias constitucionais (74 e77).
A aristocracia brasileira mostrou sua face reacionária ao transfor-
mar o Direito eminstrumento de dominação. Destaforma, o advogado
que empreendesse esforços na defesa dos envolvidos emquestões soei-
ais, de antemão tinha a consciência deestar advogando emcausa perdi"
da (61). Denuncia a inutilidade emesmo o caráter nocivo da legislatura
dizendo que os
"legisladores e patriotas a 75 mil-réis por dia, passam o tempo a empestear a
atmqsfera com a fumaça dos seus havanos e a plagiar leis que têm por fim
61
.
11
: 1
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I
I.
paralisar o pensamento, deter o mundo nos seus movimentos de evolução e
revolução" (62).
A elaboração da lei de expulsão de estrangeiros se constituiu num
instrumento do governo e capitalistas visando manter a exploração dos
trabalhadores e, ao mesmo tempo, aniquilar o movimento de reivindica-
ção ede resistência do proletariado 'brasileiro (2).
. Ainda em outro artigo, Florentino de Carvalho denuncia atentativa
de aprovação de um projeto delei por parte do governo proibindo reu-
niões, associações, manifestações individuais ou coletivas contra o go-
.vemo e a organizaçãocapitalista da sociedade. Até mesmo o livre pen-
samento era tido como um crime emtal projeto. Segundo este projeto,
toda tentativa de subverter a ordem social vigente, ou mesmo apenas
algumas instituições, todas as manifestações individuais ou coletivas,
todos os agrupamentos quer fossem teatrais, quer sindicais ou de outro
tipo, quetivessem por objetivo atransformação social etodas astentati-
vas depersuasão demilitares a que desobedecessem aos superiores hie-
rárquicos, todas estas ações eram consideradas, como crime ao lado do
furto, do roubo, do assalto, do incêndio, do homicídio (83).
Os políticos profissionais tanto violentavam sistematicamente opro-
i . letariado, mesmo batendo-se contra a constituição, como também pro-
i curavam remover todos os dispositivos legais que favorecessem os tra-
balhadores para, desta maneira, poderem explorar, violentar, abusar e
extorqui-los mais tranqüilamente (65). Existia uma constante atitude e
postura das autoridades brasileiras infringindo as leis, códigos enormas
por eles mesmos criados em beneficio dos trabalhadores mas que de
nada serviam. Desrespeitando todas as leis, constituições ou códigos, os
govemantes brasileiros empreenderam ferrenha perseguição aos anar-
quistas,prendendo-os etorturando-os, aproveitando-se do golpe de es-
tado de 05 dejulho de 1924 como desculpa, pois os anarquistas nada
tinham a ver comtal movimento e comnenhum movimento que sepro-
pusesse tomar o poder, nem com conspirações, nem com a ambição de
dirigir os trabalhadores, nem coma avidez por riquezas (85).
A situação dapessoa humana na sociedade brasileira do início deste
século era a preocupação de Florentino de Carvalho. Ele rejeitava ter-
minantemente qualquer exc1usivismo sectarista. Daí a razão de suas crí-
ticas ao sindicalismo etodo tipo decorporativismo eexc1usivismo. Para
ele, era um absurdo o estado de coisas do Brasil da chamada Primeira
62
República. Nesta, o ser humano era tomado como umjoguete nas mãos
dos govemantes. Estes, alémderetirar dapopulação trabalhadora todos
os seus benefícios e opulência, ainda obrigavam os jovens ao serviço
militar, instruindo-os na arte do assassinato, eimpondo o ensino militar
nas escolas públicas e particulares (25). A situação de constante terror
imposta sistematicamente aos trabalhadores pelos govemantes consti-
tuía uma "guerra semquartel" (52) Referindo-se à implantação da repú-
blica, afirma terem os govemantes republicanos implantado, de fato,
uma "inquisição republicana" (77).
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Capítulo 3
AS LUTAS E ATI TUDES DOS TRABALHADORES
BRASJ LEI ROS DO I NÍ CI ODO SÉCULO XX
Na perspectiva do senso comumo anarquista éestereotipado deanti-
social, sujeito desregrado, imoral efora da lei. Outros estereótipos vão
de"individualista" a "pequeno-burguês", os mais polidos, passando por
outros mais contundentes como "dinamiteiro" ou "terrorista". Entretan-
to, estes estereótipos são equivocados além de obscurecerem o conheci-
mento das idéias defendidas pelos anarquistas. São equívocos por não
refletirem o ideal epráticas dos ácratas encontrados emvários momen-
tos históricos. Obscurecedores por impossibilitarem, aos que desconhe-
cem o anarquismo, uma visão mais fiel à história do movimento anar-
quista.
Florentino de Carvalho ressaltou a dimensão das lutas dos trabalha-
dores à época do surgimento da Primeira Associação Internacional dos
Trabalhadores, emsetembro de 1864, emLondres, quando os proletári-
os organizavam-se emassociações tendo por objetivo a revolução soci-
al, a redenção humana, a fraternidade ea emancipação social. Os traba-
lhadores, então, combatiam firmemente o capitalismo e o estatismo, di-
vulgando mundo afora seus ideaisIâü).
Veremos neste capítulo as reflexões criticas desenvolvidas por
Florentino de Carvalho emrelação ao movimento operário eàs lutas dos,
trabalhadores no afã detransformar arealidade social. Também aborda-
remos seus objetivos, métodos e estratégias, dentre outros pontos im-
portantes.
Ação Direta Solitária eAção Direta Solidária
A situação de violência, exploração eopressão sistemática sobre os
trabalhadores, promovidas pelo patronato em comum acordo com os
governantes, provocavam algumas vezes reações violentas detrabalha-
,dores isolados, revoltados com a dureza da realidade envolvente. E~tes
atos solitários eram vistoscom simpatia por Florentino de Carvalho. O
desprendimento consigo mesmo conjugado com a capacidade de ação
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65
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demonstrada por um indivíduo revoltado ao atentar contra a vida de
símbolos máximos da autoridade, quer divina quer temporal, era bastan- .
te significativo para ele. Isto porque tais atos; por serem indicativos de
desespero por parte de quemos levava a efeito, serviam como denúnci-
as das atrocidades dos governantes edos capitalistas, ao mesmo tempo
quedemonstravam onível deviolência eopressão dosmembros daclasse
dominante sobre a população produtora.
Em um de seus artigos tece elogios a Rafael Sanchez, carpinteiro
espanhol, por ter atentado contra a vida do monarca daquele pais. Mes-
motendo malogrado seu intento, Rafael Sanchez foi alvo desua admira-
ção. A atitude daquele carpinteiro o impressionou por ser umindicativo
de enorme desprendimento e detremenda coragem, uma vez encontrar-
se emincomparável inferioridade bélica diante do inimigo, que ousada
eaudaciosamente afrontava (5). Apesar da ação individual exercer um
certo fascínio sobre ele, tinha mais emconta uma ação coletiva eorgani-
zada por parte dos oprimidos. Para ele, a'ação solidária erapreferivel à
ação solitária. Isto porque aprimeira possibilitaria ummaior crescimen-
to do movimento delibertação social, enquanto a última édefácil com-
bate (7).
O 1
0
deMaio, como dia deprotesto, deluto edeluta doproletariado
internacional, caracterizava a solidariedade e a organização dos traba-
lhadores (7). Esta data remete à fibra edisposição doproletariado revo-
lucionário representados pelos mártires de Chicago, vitimas da sanha
violenta e da truculência do patronato e dos governantes e símbolos de
como a classe dirigente procede no trato dos problemas sociais. Simbo- .
lizam também a capacidade revolucionária do proletariado internacio-
nal solidário e organizado.
Augusto Spies, Alberto Parsons, Adolpho Fischer, GeorgEngel, Luis
Lingg, Miguel Swab, Samuel Fielden e Oscar W. Neebe foram vitimas
da violência governamental epatronal da cidade de Chicago nos EUA
quando das manifestações de 1886. Os oitos foram condenados à morte
depois de várias manifestações contra as péssimas condições detraba-
lho e pela jornada de oito horas detrabalho. Dos oito condenados, os
quatro primeiros foram enforcados, Lingg suicidou-se na prisão, não se
permitindo ir ao cadafalso, os dois seguintes tiveram a pena comutada .
emprisão perpétua, enquantoNeebe foi condenado a 15anos deprisão.
As manifestações dos trabalhadores brasileiros contra a carestia de
vida econtra a lei deexpulsão deestrangeiros denotam o sentido daluta
66
localizada, sem perda do aspecto global da emancipação humana. Na,
luta contra alei de expulsão, os trabalhadores mobilizaram tanto a mas-
sa dos produtores nacionais como também uma imensa gama dos traba-
lhadores europeus. Enquanto no Brasil os trabalhadores organizavam
inúmeros protestos através demarchas, comícios epasseatas contra alei
de expulsão, na Europa os deportados sensibilizavam os-trabalhadores
distribuindo panfletos brasileiros, devidamente traduzidos, denuncian-
do a situação dos trabalhadores estrangeiros nas terras brasileiras, Com
uma considerável interrupção no fluxo migratório dos trabalhadores eu-
ropeus para o Brasil procuravam pressionar o governo brasileiro para
pôr fim à referida lei. O fim da migração, desta maneira, prejudicaria a
economia nacional, porque não haveriam braços suficientes para ocul-
tivo e colheita do café, uma vez que era este o principal produto de
exportação edesustentação da economia nacional. Outra forma depres-
sionar ogoverno brasileiro foi através da campanha entre os trabalhado-
res europeus do boicote a todos os produtos originários do Brasil.
Diante da ação solidária e intransigente dos trabalhadores brasilei-
ros eeuropeus, o governo brasileiro acabou cedendo, capitulando, desta
maneira, à lei de expulsão de estrangeiros ..O desenvolvimento e O de-
senrolar detoda esta situação, comavitória dos trabalhadores, são trata-
dos emvários artigos deFlorentino de Carvalho (2,3,6 e 9).
Vários são os exemplos da solidariedade entre os trabalhadores le-
vantados por Florentinó de Carvalho nos seus artigos. O jornal por ele
.dirigido era sustentado pelas assinaturas dos trabalhadores. As viagens
'depropaganda pelo interior erampossibilitadas pelas assinaturas dojornal
conseguidas nas cidades por onde passava. Ele registra que na quase
totalidade das cidades era muito bem recebido e auxiliado financeira-
mente, além de incentivado emotivado a prosseguir na sementeira do
ideal ácrata (36).
A Organização dos Trabalhadores
Os trabalhadores brasileiros estavam elevando suas perspectivas e
suas aspirações. De reivindicações imediatistas e meramente econômi-
cas estavam passando a outras mais amplas e profundas. Como exem-
plo, pleiteavam o fim do capitalismo, do estatismo e a organização da
sociedade conforme o comunismo libertário. Para tanto, os trabalhado-
67
res posicionavam-se contra a via parlamentar, mesmo quando lhes ace-
navam com candidaturas operárias, pois entendiam serem estes parla-
mentares os mais nocivos ~o estabelecimento detodas as liberdades. Os
trabalhadores estavam a tal ponto organizados e esclarecidos quanto a
seus objetivos dentro deuma sociedade classista apontode criticarem e
rejeitarem terminantemente tanto as propostas mutualistae cooperativista
como o socialismo democrata. Percebiam-nas como simples reformas
na estrutura capitalista da sociedade que, além de dar mais fôlego ao
regime de exploração, paralisavam todo o processo revolucionário do
proletariado organizado (22). .
Florentino de Carvalho registra o combate empreendido pelos tra-
balhadores ao caráter corporativista e economicista dosindicalismo. Os
trabalhadores não limitavam suas lutas ao espaço do sindicato nem aos
seus limitados postulados (26). Como exemplo, temos os esforços dos
trabalhadores no âmbito daeducação. Nas suas várias viagens depropa-
ganda não deixava de observar as escolas criadas e mantidas pelos tra-
balhadores. Todas elas fundamentadas na pedagogia libertária ena 'sua
prática educativa. Desta maneira registrou, por exemplo, uma escola
racionalista fundada pelos trabalhadores de Araraquara emfranco pro-
gresso, sendo dirigi da pelo companheiro Vittorio Astolfoni (36).
Tudo isto indicava a conscientização politica dos trabalhadores bra-
sileiros, os quais, através desuas ações, limitavam e diminuíam os arbí-
trios dos governantes, O proletariado brasileiro desenvolvia suas
potencialidades revolucionárias por estar mais esclarecido intelectual-
mente e mais organizado enquanto classe. A firmeza e a determinação
dos trabalhadores foram registra das em dois artigos nos quais tratava
da solidariedade entre a classe laboriosa (2 e 13). Florentino de Carva-
lho registra a retomada deuma prática muito positiva entre os trabalha-
dores: palestras e debates amigáveis abordando as problemáticas soci-
ais (24). _
O referencial da elevação dos trabalhadores numa maior organiza-
ção e melhor envergadura intelectual foram os dois primeiros congres-
sos operário. Rodrigues (180) registra os nomes dos grupos e associa-
çõesde trabalhadores participantes destes eventos bem como a pauta e
as resoluções do 1
0
e do 2° Congresso Operário Brasileiro realizados, o
primeiro, de 15 a 20 de abrilde 1906 no Centro Galego, rua da Consti-
tuiçãona então capital federal, Rio de J aneiro; o segundo, entre os dias
08 e 13 de setembro de 1913 no Rio de J aneiro, na Sede do Centro
68
----------------~---
Cosmopolita, local onde também funcionava o sindicato dos emprega-
dos emhotéis, cafés, restaurantes e similares. Pinheiro eHall (169) tam-
bémpublicaram os documentos relativos aos temas eresoluções do 1
0
e
do 2
0
Congressos Operário Brasileiro.
O primeiro representou uma elevação do proletariado. O .segundo
foi levado a cabo pelos operários apesar de todas as investidas violentas
dos governantes na tentativa de impedir sua realização (20). Neste con-
gresso, pelo número das associações operárias ali representadas epelos
temas tratados, fica demonstrado o alto nível de discussões em que se
encontrava oproletariado brasileiro. A quase totalidade das associações
dos trabalhadores fizeram-se representar apesar das dificuldades finan- .
ceiras, de transporte e das grande distâncias num país continental (22).
Ali foram discutidas questões de métodos de ação a serem adotadas
pelos trabalhadores na luta social; novas formas deprática de solidarie-
dade entre os trabalhadores, como também "novas concepções socioló-
. gicas, econômicas efilosóficas'.' apartir do que estabelecer-se-iam "ho-
rizontes de luz para as classes trabalhadoras".
O entusiasmo de Floréntino com o 2
0
Congresso foi tamanho apon-
to de afirmar, incisivamente, ser aquele evento o começo do fim do
estatismo edo capitalismo, .sucedendo-lhes uma organização social fun-
dada nos postulados do comunismo anarquista (2ü). Este posicionamento
demasiadamente otimista deve-se às práticas adotadas e empreendidas
pelo proletariado organizado, como também a uma estratégica motiva-
ção dos leitores do jornal onde expressou seu otimismo e dos trabalha-
dores participantes daquele evento, ao lado da forte repercussão na so-
ciedade brasileira. As manifestações de protesto do 1
0
de Maio, os atos
públicos contra acarestia devida econtra alei deexpulsão deestrangei-
ros, todas estas atitudes de solidariedade entre trabalhadores nacionais e
estrangeiros, levaram-no a adotar uma postura marcadamente otimista
.e111relação aos rumos do proletariado insurgente.
Diante dos acontecimentos em São Paulo, e apesar das deportações
de vários companheiros, inclusive a sua própria, ele não deixou de ex-
pressar uma atitude eopiníão otimistas ante o desenrolar dos fatos, pois
acreditava na força do proletariado brasileiro ena capacidade deste em
conduzir com intrepidez as lutas de libertação social (77).
69
Movimento Operário eMovimento Anarquista
Os trabalhadores empreendiam suas lutas de emancipação social de
várias maneiras alémdas já citadas, Era comumfundarem agremiações,
associações ecomitês decaráter social para melhor encaminharem lutas
específicas e gerais, J á tratamos, no primeiro capítulo, dos comitês e
outras associações proletárias das quais Florentino de Carvalho partici-
pou, Durante o ano de 1917participou de várias associações além do
Comitê de Defesa Proletéria. O Centro Líbertárie, existente desde as
greves de 1912 ocorridas em Santos, Sorocaba e outras cidades
circunvizinhas, exerceuimportante papel na divulgação dosideais ácratas
enas manifestações deprotesto e resistência proletária. Uma das ações
desta agremiação detrabalhadores deu-se em relação ao combate e de-
núncia das explorações e violências sobre as crianças trabalhadoras, A
campanha contra a exploração demenores nas fábricas eoficinas goza-
va da simpatia da população emgeral e até mesmo os adversários dos
anarquistas expressaram concordância com esta campanha, O objetivo
era abolir o trabalho de menores nas fábricas e oficinas, por ser "uma
das mais iníquas formas de distorção, de domínio autoritário do capita-
.lismo", denunciar constantemente "as grandes iniqüidades sociais do
presente regime" eevidenciar a "imperiosa necessidade deuma transfor-
mação econômica esocial sob base mais liberal emais equitativas" (46),
Outra agremiação da qual participou energicamente foi o Comitê de
Agitação Popular, Este comitê caracterizava-se por não recorrer aos trâ-
mites legais e nem tampouco aos políticos profissionais, Tinha caráter
eminentemente social edecombate aos interesses partidários eIegalistas.
Suas ações incluíam a denúncia contra a exploração de menores, com-
batendo-a através deatos públicos, manifestações eaglutinação deindi-
víduos egrupos. Vários grupos dediversas orientações ideológicas com-
punham o quadro do referido comitê, havendo um programa comum
para orientar todas.as suas ações (48). Em outro artigo Florentino de
Carvalho registra a criação, pelos trabalhadores, deuma Comissão Pro-
visória Contra a Exploração de Menores. Esta era uma das formas de
combater a exploração e violência promovidas pelo patronato e pelos
governantes sobre as crianças trabalhadoras cornotambém de exercício
da solidariedade (50).
A greve deveria ser entendida como sendo não só uma arma do pro-
letariado, mas também uma ocasião ondeos.trabalhadores poderiam exer-
70
. I
citar a solidariedade. A greve, juntamente comtodos os outros meios de
ação direta, são maneiras dos trabalhadores retomarem tudo quanto lhes
fora roubado e extorquido pelos patrões egovemantes, legal ou ilegal-
mente (75). Sobre omovimento paredista de 1917, Florentino de Carva-
lho esperava e acreditava numa reação feroz por parte do proletariado
diante da violenta repressão promovida pelos governantese pelo pa-
tronato (55). Khoury (146) reproduziu artigos de diversos jornais de
São Paulo, das mais variadas tendências ideológicas, comentando e re-
gistrando os acontecimentos que abalaram aquela capital durante os
meses de duração do movimento. Trata-se de valorosíssima contribui-
ção aos estudiosos das questões sociais que pretendam se debruçar na
investigação de uma fase da história brasileira ainda pouco conhecida,
apesar de todos os reconhecidos esforços dos pesquisàdores. Campos
(118) também detém-se exclusivamente sobre os acontecimentos de 1917
tomando as duas principais cidades brasileiras, Rio de J aneiro e São
Paulo, como parâmetro da pesquisa, .levantando importantes questões
acerca das diferenças existentes entre a constituição e encaminhamento
das lutas por parte do proletariado das duas cidades.
A prisão devários trabalhadores emgreve ea difamação destes pela
imprensa burguesa mobilizou companheiros a agirem em solidariedade,
indo à central de polícia exigir imediata libertação de seus companhei-
ros presos .injustamente (54). Florentino de Carvalho registra, emoutro
artigo, escrito durante os acontecimentos de 1917, não terem sido os
trabalhadores paulistas pusilânimes nem se entregaram emface das vio-
lências do patronató e dos govemantes. O que fizeram foi, antes, inten-
sificar o movimento grevista e de protesto contra a carestia de vida e
contra a exploração desembocando numa crescente penetração do mo-
vimento por todo o interior do estado paulista. Os trabalhadores eram
perseguidos apesar da Constituição garantir a liberdade de expressão de .
pensamento, direito à greve, à associação e reunião (77).
As greves de 1917 e de 1920 tinham o mesmo caráter espontâneo.
As causas destes doisniovimentos paredistas em São Paulo foram as
mesmas: péssimas condições de vida e o não atendimento das reivindi-
cações dos trabalhadores. Por estes motivos ostrabalhadores forampon-
do-senas ruas espontaneamente, semnenhuma orientação nem organi-
zação prévia. Em ambas as manifestações a organização só aconteceu
:iepois deeclodidas as greves. Florentino de Carvalho destacou algumas
categorias detrabalhadores durante as greves de 1920. Os empregados
71
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em"café" (bares) destacaram-sé na luta por menor jornada detrabalho e
na "abolição dahumilhante gorjeta". Diante da resistência dopatronato
iniciou-se, assim, a greve e incrementaram-se, então, as perseguições e
violências, Outra categoria a se destacar foi a dos gráficos, A conjuga-
ção de reivindicações como "um pouco mais de cultura social" e os
desajustes emsuas finanças fizeram esta categoria agitar-se e somar no
movimento paredista. A terceira categoria a se destacar foi a dos operá-
. rios em calçados, reclamando "melhores condições de trabalho" e ape-
sar das perseguições que sofreram e da falta de organização tiveram
participação muito ativa naquele movimento. Os tecelões foram a quar-
ta categoria de destaque. O irrisório salário que recebiam levou-os a
somar forças naquele movimento, destacando-se também pela forma
determinada de sua participação. O exemplo de solidariedade dado pe-
las categorias dos canteiros, sapateiros egráficos sustentando os filhos
dos grevistas durante todo o processo paredista também elevaram estas
categorias (87).
As comemorações do 1
0
de Maio em 1920 pelos trabalhadores 'de
São Paulo constituiram-se como demonstrações concretas da solidarie-
dade e da fraternidade para unir os trabalhadores. Os protestos e as re-
voltas contra as desigualdades sociais elevavam-se cada vez mais. A
razão disto era o fato de as aspirações do proletariado brasileiro terem
sido orientádas por "concepções científicas efilosóficas dos pensadores
modemos" acenando para a concretização dos sonhos dequeda do regi-
me burguês e erguimento de uma sociedade livre, justa e solidária. A
opressão, a repressão etodas as formas deviolência eram impostas aos
trabalhadores, os quais tinham no anarquismo um fator de orientação
nas lutas enas reivindicações (58).
Em artigo escrito anos depois, Florentino de Carvalho volta a regis-
trar, num tom de denúncia, terem sido seus companheiros. de ideal per-
seguidos injuê,tamente, pois eram lutadores da liberdade; tendo caráter
inquebrantáveis eincorruptiveis, Todos eram solidários, fraternos e ca-
pazes do maior sacrificio pelo bemcomum (85). A repressão às greves
de 1917 foi a ocasião dapopulação conhecer, defato, a verdadeira mis-
são detodos os governos, inclusive o democrata erepublicano: "ampa-
rar eproteger os ricos contra os pobres, os senhores contra os escravos".
A população ficou alerta para o fato de o govemo burguês muito se
esforçar em auxiliar fazendeiros, industriais, comerciantes, sem se im-
portar com a situação precária na qual estavam os trabalhadores D~
72
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I
-------------------_ . .
fato, chegavam a sacrificar os trabalhadores emguerras deconquista e
também impor a eles o jejum forçado por exportarem alimentos, en-
quanto aqueles queproduziam as riquezas sociais minguavam na escas-
sez ena carestia.
Diante da violenta repressão aos operários por causa do movimento
de 1917 e também por causa do quadro social que desencadeou a
mobilizaçâo proletária, Florentino deCarvalho lamentava-se da falta de
atenção dostrabalhadores às advertências dadas tempos atrás por vários
anarquistas, inclusive elepróprio, quanto ao caráter nocivo das institui-
ções burguesas. Apenas uma pequena minoria dava crédito às criticas,
advertências e orientações dadas ao proletariado em geral. Trata tam-
bémdoposicionamento doproletariado anteinstituições burguesas. Para
eleoprestígio eo respeito nutrido pelos trabalhadores atais instituições
constituíam enorme obstáculos à revolução social. O declinio e queda
do prestígio e do respeito a estas instituições corresponderia à ruína da
estrutura capitalista. Ele compreendia as greves de 1917 como tendo
retirado o prestígio eo respeito existentes nos trabalhadores às institui-
ções burguesas. As greves daquele ano tornaram otrabalhador mais al-
tivo, perdendo otemor eo respeito ao patrão, às autoridades eà lei (76).
73
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I
Capítulo 4
ANÁLISES CRÍTICAS.
DE FLORENTINO DE CARVALHO
Florentino de Carvalho submeteu várias instituições, credos' e dou-
trinas sociais a uma profunda reflexão critica. Seu pensamento visava
tanto apropagação do ideal ácrata, como também oestímulo ao exercí-
cio, de um pensamento critico, de uma constante reflexão da realidade
envolvente eliminando de suas vidas
"todas as filosofias, doutrinas oudogmas quenão tenham por princípio amediata
revolução intelectual dos povos, e o aceleramento da revolução econômica e so-
cial, no sentido damais perfeita igualdade e damais estritajustiça" (19).
OEstado eseus meios deação como apolícia, amagistratura, as leis
e as constituições; outras instituições como os partidos políticos e aim-
prensa; as religiões; algumas correntes filosóficas; intelectuais burgue-
ses e acadêmicos; alguns clássicos das ciências sociais e até mesmo
trabalhadores ecompanheiros deideal não escaparam às críticas doalti-
vo e atento militante da Anarquia,
O Estado
Duplo Caráter do Estado
Das instituições sociais dacivilização ocidental oEstado sempre foi
amais atacada ecriticada por todos os anarquistas. Bancal (110) analisa
com profundidade os fundamentos do pensamento de Pierre-J oseph
Proudhon, o que primeiro resgatou apalavra anarquia evidenciando seu
sentido positivo, referindo-se especificamente ao seu antiestadismo no
terceiro capítulo da segunda parte. Proudhon num trecho poético de um
texto clássico define sintomaticamente a situação criada pelos governos
tanto às individualidades como às coletividades:
"ápersonalidade humana! É possível que durante sessenta séculos tutenhas
te corroinpido nesta abjeção! Tu te dizes santa e sagrada enão és senão aprosti-
tuída, infatigável, gratuita de teus lacaios, de teus monges e de teus velhos solda-
;
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dos. Tu o sabes e o sofres! Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado,
espionado, dirigido, legisferado, regulamentado, depositado, doutrinado, instruí-
do, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não
têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.
Ser governado é ser, em cada operação, em cada transação, em cada movi-
mento, notado, registrado, arrolado, tarifado, trombado, medido, taxado, patentea-
do, licenciado, autorizado, apostila do, admoestado, estorvado, emendado, endi-
reitado, corrigido. E, sob pretexto de utilidade pública, e em nome do interesse
geral, ser pedido emprestado, adestrado, espoliado, explorado, monopolizado,
concussionado, pressionado, mistificado, roubado; depois, à menor resistência, à
primeira palavra de queixa, reprimido, corrigido, vilipendiado, vexado, persegui-
do, injuriado, espancado, desarmado, estrangulado, aprisionado, fuzilado, metra-
lhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, para não
faltar nadá, ridicularizado, zombado, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis sua
justiça, eis sua moral! E dizer que há entre nós democratas que pretendem que o
governo prevaleça; socialistas que sustentam esta ignomínia em nome da liberda-
de, da igualdade e da fraternidade; proletários que admitem sua candidatura à
presidência da República! Hipocrisia!. .." (174)
Kropotkin (150) elabora reflexão sobre o governo representativo
apontando suas várias formas de concretização, seus desdobramentos,
suas vicissitudes, opondo-lhe o socialismo anarquista como via, como
caminho para a concretização dos ideais socialistas de uma vidajusta,
igualitária, livre.
Mikhail Bakunin emvárias de suas obras combateu incansavelmen-
te todas as formas de governo sob qualquer designação. Assim, em es-
critos onde refletiu sobre as propostas políticas de Karl Marx, Bakunin
(109) expõe suas críticas ao estatismo emtodas as formas sobretudo ao
pretenso socialismo científico. Em outra obra Bakunin (108) analisa as
relações eligações entre oEstado eas religiões, principalmente ocristia-
nismo. Não seria diferente com Florentino de Carvalho que denunciava
em.seus artigos o caráter classista do Estado, pois a idéia de uma insti-
tuição social pairando sobre a sociedade, alheia aos diversos interesses,
lheparecia umgrande absurdo. Apesar dos estadistas procurarem proje-
tar uma imagem do Estado como sendo um órgão conciliador dos con-
flitos sociais, os anarquistas evidenciavam incansavelmente para apo-
pulação aexistência deinteresses particulares por trás da oratória social
dos estadistas. Kropotkin tratando desta questão diz, entre outras coi-
sas, O seguinte:
'"A Missão do Estado'. 'dizem para 110S cegarem melhor, 'é proteger o fraco
contra o fm:;;o;, Q pobre COlÜrJ o rico, as classes trabalhadoras contra as classes
76
privilegiadas'. Nós sabemos perfeitamente como os governos têm desempenha-
do esta missão: eles a têm compreendido exatamente ao contrário. Fiel à sua
origem, o governo tem sido sempre o protetor do privilégio contra os que dele
procuram se libertar" (151).
Florentino de Carvalho dá a seguinte definição do Estado:
"O Estado é ogendarme que intervém, queregulamenta avida social, segun-
do os interesses das classes conservadoras, é o esbirro que prende, deporta ou
mata os cidadãos inadaptáveis ao despotismo do qual oEstado é asíntese" (56).
Evidenciou também os modos violentos e sutis do Estado interferir
na sociedade, em particular junto aos trabalhadores, quando de suas
manifestações deprotestos; suanatureza violenta emonopolizadora; seu
caráter c1assista; suaamoralidade; suafalta deética; por fim, suareligio-
sidade. Destacou além do mais o duplo caráter do Estado na dinâmica
social: o Estado é tanto uma "guarda pretoriana do capitalismo" como
também uma "empresa patronal", onde as riquezas produzidas pelos tra-
balhadores são indevidamente apropriadas através da arrecadação de
impostos, tarifas, gabelas, etc.. Os trabalhadores compreenderão me-
lhor este fato refletindo sobre as posições e atitudes adotadas pelos
govemantes quando de atritos de interesses entre os trabalhadores e o
patronato (27). Leva! (153) elabora um estudo bastante detalhado e de
uma considerável amplitude histórica acerca das práticas estataisquan-
to à arrecadação de impostos e outros compulsórios.
A ênfase dada pelos anarquistas à questão da existência do Estado
como fator altamente nocivo à vida de relação explica oporquê de seus
esforços tanto em analisar o Estado, e sua relação com a sociedade,
como também em investigar minuciosamente sua natureza. De inicio,
os anarquistas distinguem muito bem oEstado dasociedade. Florentino
de Carvalho expõe e critica os erros e contradições dos partidários do
Estado socialista, identificando na confusão entre sociedade e Estado o
início dos equívocos a sucederem ao engano que é advogar a idéia de
um Estado proletário, popular ou mesmo socialista. Em seu livro de
1932 submete, no capítulo XXI, o socialismo democrático em sua ver-
são francesa, germânica e russa, a uma análise rigorosa: .
"Agravadaacrise econômica, política e religiosa no império dos czares che-
gada ali li. hora darevolução doTerceiroEstado (idêntica à produzida emfins do
século XVIII em França) e o despertar das classes proletárias sacudidas pelas
77
rajadas subversivas do Ocidente, abriu-se para o socialismo germânico, em dire-
ção ao Ocidente, um mundo novo.
A burguesia moscovita, em plena campanha de reivindicações, aberto o seu
espírito às novas idéias políticas, embriagou-se de socialismo germanizado, prin-
cipalmente de marxismo.
Na Rússía, omarxismo sofreu um novo processo de adaptação, eficou1'00-
zido a uma expressão indígena, emharmonia com as necessidades de um povo,
que, ciente das S\lI grandeza, dos seus inesgotáveis recursos, e sentindo-se supe-
rior em illteligênoiR e espírito, sonhava, como sonhavam 011teutões com a glorio-
'aRmíssãe de civilizar 1\Tem\.
Neste ponto, o seu orgulhonão conhecia limites, O idealismo que dllÍ flores-
ceu t0111oU-se perigoso misticismo; São bem claros os postulados do socialismo
democrático niSSO, paraprovar queopostulado socialistaocidental,havia sido, ali,
amputado emseus valores sociais etomado Umafeição francamente imperialista.
Por último, afilosofiaagrícola-pastoril, da quase totalidade dopaís, oestado
rudimentar damentalidade das massas, o seufanatismo e ahumildade servil que
as caracterizam, adomesticação milenária feitaagolpes deknout, haviam prepa-
rado maravilhosamente o terreno para afrutificação do postulado marxista.
. O povo russo estava, ao mesmo tempo, tallado para experiências à prova de
fogo.
A infeliz gleba moscovita que chegava ao paroxismo da alegria "... quando
se agitavabem alto..." abandeira vermelha daemancipação, não suspeitava que,
entreas dobras damesma, se ocultassem os princípios deurnanovatirania" (95).
oEstado surge posterior à sociedade; possuindo os dois funções
fundamentalmente opostas. Enquanto a sociedade remete à idéia de so-
lidariedade, de ajuda mútua, possibilitando maior bem-estar e melhor
desenvolvimento intelectual das pessoas, o Estado consiste num agru-
pamento de pessoas mais ou menos arregimentadas pela coação e sub-
metidas à força sendo, ao mesmo tempo, arbitrário e criador de privilé-
gios. Novamente emLeval (153) encontramos oEstado ao longo de sua
história como um criador de privilégios econômicos. A sociedade di-
ferencia-se do.Estado por possibilitar o desenvolvimento livre das fa-
culdadesdos indivíduos onde estes, associados, desenvolvem ativida-
des produtivas beneficiando-se igualitariamente tanto da distribuição
das riquezas sociais, como no acesso ao conhecimento e à arte (34).
Estado Classista
Florentino de Carvalho caracteriza oEstado como causa dapenna-
nência das desigualdades e misérias sociais, Diz mais ainda consistir o
Estado no "coração da sociedade presente", isto porque sua existência
funciona como um apoio e sustentáculo imprescindível aos "poderes,
78
jurídicos, legislativos, militar, policial, administrativo e, em muitos paí-
ses, o eclesiástico" (56). O capitalismo só é possível com o despojo, o
roubo, oassalto aoprodutor, findando este submerso namiséria. O des-
pojo, oproduto roubado, apropriado indevidamente, beneficia oproprie-
tário, ocomerciante, oindustrial (76). Os governos, as autoridades e as
instituições burguesas só têm serventia aos capitalistas, pois apoiando-
semutuamente, incidem de-maneiramais brutal arepressão eviolências
sobre os trabalhadores, de modo aexplorá-Ias mais eficazmente (74), O
governo brasileiro apresentava-se como um "fiel sicário da burguesia"
prendendo, torturando e expulsando trabalhadores mais resistentes à
exploração e desmandos do patronato. Entretanto em certo momento
histórico definia a ação repressora do Estado como tendo sido nula em
seus efeitos pois as idéias anarquistas penetraram mais profundamente
na sociedade brasileira. Até os marinheiros receberam a sementeira
libertária. As violências do Estado contra os trabalhadores demonstra-
vam sua existência como fator demanutenção das explorações e escra-
vidão do proletariado (80).
Analisando diversas propostas sociais das várias facções envolvidas
naguerra civil de 1932 emSão Paulo, critica-as por não significarem de
fato superação dos problemas sociais. Neste contexto critica acidamente
a idéia de nutrir esperanças numa solução vinda dos legisladores evi-
denciando o caráter c1assistado Estado e de suas instituições.
"A bizarra reclamação e ainteressante proposta teriam cabimento se os capi-
talistas não tivessem influência sobre os legisladores monárquicos, republicanos,
sociais-democratas, oudemocratas comunistas, se estes não fossem acionistas ou
interessados nas empresas de absorção".
finalizando de maneira fulminante:
"se o próprio Estado não fosse um truste, se não fosse monopolista e
açambarcador" (95).
A República dosEstados Unidos doBrasil, afamada emtodoQmundo
por possuir a Constituição mais avançada, constituía um exemplo vivo
das denúncias deFlorentino de Carvalho. Para elearepública brasileira,
sob a divisa "ordem e progresso", esconde de fato uma "plutocracia
agressiva, que hostiIiza, espIora e oprime opovo trabalhador" (52). As-
simoBrasil consistia, naverdade, numa "república declasse, umarepú-
79
I '
I
I.
·blica de capitalistas" pois o governo só direcionava esforços no intuito
de manter os privilégios e interesses dos capitalistas emdetrimento dos
trabalhadores (82). Mais incisivamente denuncia ogoverno republicano
"por impor um regime de inquisição contra os trabalhadores brasileiros
(77). Em outro artigo diz o seguinte:
"...para os govemantes, para os funcionários doEstado, apátria não é oBrasil, e
a, liberdade não é a independência individual ou coletiva: para eles a pátria, a
ordem e aliberdade são os Matarazzos, os Gambos, os Crespis,os Hoffmanns, a
Companhia Inglesa, a.Light, enfim, e o capital nacional ou estrangeiro" (76).
No exemplo concreto cioBrasil, Florentino de Carvalho evidencia-
va o apoio do governo aos capitalistas em prejuízo dos trabalhadores.
Combase no amparo doEstado, os capitalistas impunham aoproletaria-
douma maior exploração, enriquecendo cada vez mais às custas dami- '
séria crescente dos trabalhadores (74). Oproletariado paulista em 1917
teve no Estado brasileiro o co-responsável, ao lado do patronato, pela
situação então criada, pois este alémdelegitimar aexploração capitalis-
ta comandou epromoveu todas as iniciativas deviolência sobre oprole-
tariado durante e após os acontecimentos daquele ano.
OEstado tinha lançado os trabalhadores no primeiro conflito bélico
mundial, expondo-os aosperigos deste, apesar deafirmar-se neutro. Além
disso regulamentava as exportações de alimentos quando os trabalhado-
res do Brasil passavam privações e fome, sem esquecer de sua ação
mantendo eprotegendo as classes parasitárias às custas dos produtores
(76). Numartigo decombate à entrada doBrasil neste conflito, Florentino
de Carvalho denunciou anatureza despótica detodos os governos. Tan-
to os Aliados como a Alemanha eram despóticos, mantendo povos e
países subjugados. Do mesmo modo, Itália, França e Inglaterra, domi-
naram povos mantendo-os aferro efogo sob regime de escravidão. Para
ele, políticos" "imperialistas daindústria, do comércio e da agricultura"
juntamente com todos os "açambarcadores dos gêneros alimentícios",
por explorarem opovo através dos impostos, roubos eviolências, cons- .
tituíam eminimigos mais perigosos que aAlemanha pois estes além das
razões expostas,' encontravam-se mais próximos (52).
No ano anterior apontara apolítica dos governantes como conduzin-
doopais à "ruína econômica emoral" evidenciando ser esta ruína "prin-
cipalmente moral" (35). Aindaneste ano voltou a denunciar arepública
brasileira por causa de sua sistemática violência e desrespeitos aos di-
80
reitos e liberdades dos indivíduos (43). Outro exemplo da natureza
classista do.Estado é dado por Florentino de Carvalho ao denunciar a
ação do governo brasileiro junto aos trabalhadores quando davisita do
rei belga Alberto. Divulgada avisita dorei ao Distrito Federal, à época
oRio de J aneiro, ogoverno de forma arbitrária tratou de prender cerca
de mil trabalhadores, como medida preventiva contra possíveis mani-
festações de desagrado àpresença domonarca no Brasil. Nesta ocasião,
Florentino de Carvalho intimou republicanos enacionalistas apronun-
ciarem-se quanto às violações dos direitos dos cidadãos brasileiros em
beneficio do rei Alberto. Em seguida aponta nos republicanos naciona-
listas afalta de coerência, de honestidade, de retidão, pois aflexibilida-
de, a "hipocrisia" e a "imundície" desuas politicagens constituíam-se
em depoimentos .contra eles mesmos, denominando-os de "lacaios do
rei Alberto" (72). .
Além doEstado dar suporte e amparo às instituições capitalistas, é
constituído por pessoas que, através dadominação edaforça, assaltam,
exploram, extorquem, oprimem emartirizam as classes populares (40).
Os componentes do Estado e demais instituições burguesas são defini-·
dos comoparasitas davida social. OEstado eas instituições capitalistas
são o local e habitat apropriados à criação, manutenção eproteção de
parasitas, exploradores e seus acólitos, pois é constituído por militares,
padres, juízes, vereadores, deputados, senadores, ministros, policiais
fardados, policiais secretas, confidentes, espiões, etc. Apesar do Estado
moderno anunciar aos quatro ventos ter separado opoder temporal do
espiritual, aprática de ambos negatal assertiva (31). .
Estado Moderno: Poder Anônimo
Florentino de Carvalho evidencia uma característica peculiar ao
Estado moderno emrelação à história de todos os governo existentes.
Ele se'caracteriza por ter umaforma anônima do exercício dopoder, ao
contrário das monarquias e impérios onde opoder surge e é exercido a
partir e através de um indivíduo ou pequeno grupo. Analisando as
imbricações eencontrosentreaquedadocatolicismo, enquantoperspectiva
dominante de mundo, e a ascensão dopositivismo, diz o seguinte:
81
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"O racionalismo metafísico, traço de união entre o mcnoteísmo crismo e o
positivismo nascente, foi um movimento incerto, flutuante, com tendências pa-
ra a criação de um poder impessoal, anônimo e, portanto, irresponsável, amo-
ral" (94).
A queda da teoria do livre arbítrio desencadeou adebacle de todos
os impérios e monarquias, de maneira que "desapareceram os homens,
responsáveis, surgindo umpoder irresponsável anônimo, ° Estado". De
outro lado esta mudança significou um "grande passo para aanarquia",
ainda que tenha sido um passo incompleto, acrescenta em seguida. A
noção do livre arbítrio, marca secular na mentalidade dos povos, atri-
buía às individualidades acausa dos males sociais. A idéiadolivre arbí-
trio foi destronada pelo determinismo, isto é, o ser humano não age tão
livremente como apregoam os defensores do livre arbítrio. O homem
encontra-se determinado por influências subjetivas e objetivas. Os ma-
les sociais são conseqüências de uma "defeituosa estrutura social". Se
havia indivíduos responsáveis pelas misérias e desigualdades sociais
estes só podiam ser os reis, os imperadores, os governantes e não 'as
pessoas comuns (56). Em seu já citado livro de 1932 deixa bastante
claro esta sua perspectiva de análise dos fenômenos sociais ao afirmar
logo nas páginas iniciais:
"É de nosso feitio ver todos os seres humanos no mesmo plano moral. Para
nós a condição social ou a catadura nada representam. Na espécie humana não
há melhores nem piores: todos somos iguais. Os atos bons ou maus, não expri-
mem a natureza íntima dos respectivos autores. A mo ser por atavismo ou doen-
ça, o homem não se toma lobo do homem. Pelo contrário, o homem sadio, equi ..
librado, inclina-se de preferência para o bem. Por via de regra, alinha de conduta
é produto do meio. A responsabilidade do indivíduo pelos atos que pratica é
muito relativa, limita-se à parte que cada qual desempenha como elemento ativo
e, de certo modo conscientemente e de motu próprio, nos fatos sociais, individu-
ais ou coletivos. Por isso, na critica que aqui fazemos à ultima guerra civil, vi-
samos especialmente as causas sociais que a determinaram. Quanto à crítica às
coletividades ou pessoas que lhe deram vida, limita-se à parte que representaram
como expoentes de. um regime anacrônico, e ao conteúdo psicológico que se
adquire no ambiente atual de imperfeições e misérias. E este o 110SS0 critério.
Não conhecemos outro" (95).
Florentino de Carvalho caracteriza as diversas maneiras demanifes-
tação dopoder nas variadas formas de organização política: no império
"o poder reside num só indivíduo enviado por Deus"; na monarquia
constitucional, "o poder é dividido a cada reinante, e os chamados re-
82
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presentantes dopovo"; na democracia, "o poder reside no conjunto dos
burocratas", Em seguida remete à forma como na Anarquia o poder
deve ser manifesto: na Anarquia "o poder deveresidir emtodos os cida-
dãos, deve ser socializado". Identifica também a relação de íntima de-
pendência entre 'o poder manifesto nas macrorrelações sociais com os
manifestos nas pequenas localidades e nas microrrelações sociais. Para
ele a democracia, como toda aristocracia, caracterizava-se por ser um
sistema. político centralizado e fundamentado em "pequenos governos
municipaís" sendo ogoverno central o "eixo do poder danação" (56),
Os trabalhadores são mais explorados e roubados através da ação
conjugada dos governos municipais, estaduais e federal, Os aumentos
de impostos eprodutos de consumo beneficiavam diretamente todos, os
governos, constituindo-se emprejuízo direto dos produtores. Insistia em
desmascarar a realidade da ordem capitalista apesar de govemantes e
capitalistas projetarem imagem enoção diferente dos fatos. O que eles
chamavam de enriquecimento do país Florentino de Carvalho denomi-
nava enriquecimento dos capitalistas e especuladores (74).
Segundo ele, todos os governos são meras variações deuma mesma
substância. Isto porque todos os Estados, dos monárquicos aos socialis-
tas, etodas as formas degoverno, quer sejam baseados emparlamentos,
presidentes ou reis, possuem a mesma estrutura: a dominação de uns
poucos sobre amaioria dasociedade (74), Todos os governos tendem ao
monopólio. Não apenas ao monopólio deum determinado setor dasoci-
edade mas detodos, É daessência dos governos abusca continua deum
maior controle e domínio sobre todos os grupos sociais, interferindo
mais eficazmente emtodas as iniciativas possíveis noespaço social (88).
Em relação aeste assunto diz o seguinte em sua segunda obra:
"O Estado é oprincipal detentor daterra, dariqueza e dos elementos sociais;
educação, medicina, higiene, sanidade, etc.
O Estado explora o E,roletáriona agricultura, na indústria, no comércio, em
todas as repartições civis oumilitares, Explora-o como contribuinte, como inqui-
lino, como salariado; sacrifica-o como soldado, mediante oimposto de sangue, e
serve-se dele para fms imperialistas, para arepressão dos movimentos populares
ou proletários,
OEstado está, emcadapaís, integradopor milhões deparasitas, para os quais
ooperário tem quetrabalhar gentihnente. O Estado é caríssimo. As suas institui-
ções, anódinas, custam os olhos da cara. A enorme parcela de produtos que ele
consome redundanum excessivo dispêndio de energias por parte das classes tra-
balhadoras.
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83
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A dinâmica estatal: as relações econômicas e políticas, nacionais ou interna-
cionais, a luta civil, a guerra, a paz armada, o protecionismo, a inflação monetá-
ria, a circulação forçada das emissões de papel-moeda, as fraudes, os assaltados
aos tesouros públicos, e o infalível aumento dos impostos, pesam nas oscilações
do câmbio, provocam as crises de trabalho, acarestia dos artigos de supervivência,
aperda total ou parcial das conquistas operárias, aredução do salário, o aumento
das horas de trabalho, .que favorecem sobremaneira a exploração patronal.
O Estado esforça-se em criar para os pequenos proprietários situações eco-
.nômicas insustentáveis e requisita em proveito próprio, ou dos proprietários em
grande escala, os bens dos que não podem atender âs.exorbitantes exigências do
fisco.
O enriquecimento dos burocratas e dos ricos, pela classe governante, 'verifi-
ca-se à custa de equivalente empobrecimento dos pobres'. A agressão sistemática
do Estado aos trabalhadores, e a assistência .que o mesmo presta aos capitalistas,
são dignas de atenção. A extensão crescente das instituições de legislação e de
jurisprudência, das corporações militares e policiais, e a vasta ramificação da
espionagem, são alarmantes,
O Estado submete os cidadãos, os proletários e trabalhadores à fotografia, à
antropometria, às impressões digitais, como se fossem delinqüentes, e obriga-os
a se mUJ ÚIem da infamante carteira de identificação, perfeito sucedâneo do estig-
ma que, outrora, os senhores mandavam estampar nas faces dos seus escravos.
Arestrição dos direitos de cidadania, a supressão ou a destruição da impren-
sa, das bibliotecas, das escolas .., o vandalismo, os massacres de trabalhadores
praticados nos calabouços ou nas vias públicas, pelos esbírros; a instituição da
forca, da guilhotina, da cadeira elétrica, o emprego da bomba, dos gases asfixian-
tes... ai estão, como realidades monstruosas e revoltantes, apatentear a ação bru-
tal do Estado sobre o povo produtor, para o entregar, vencido, esmagado, inerme,
à voracidade do capitalismo" (9.5).
Também na suaprimeira obra faz aseguinte colocação a este res-
peito:
"A partir da regência. do poder civil, a guerra industrial, comercial e militar
adquiriu !lOVOS valores" que valores! '" A conquista de territórios e de mercados,
a cobrança de dívidas, o incêndio das urbes, o arrazamento das florestas ou das
messes em flor, o massacre das populações ,.. não mais foram levados a efeito
somente em.nome de Cristo ou de Maomé; foram levados a efeito em nome do
Direito e da civilização. .
Com o progresso industrial, comercial e militar, e dos meios mais céleres de
emigração de transporte e de comunicação, acentuou-se profundamente a hierar-
quia na esfera dos municípios, das províncias, das nações, tanto em economia e
em política como em religião e cultura, As nações mais fracas foram colocadas
em grau inferior, consideradas como países conquistados, escravizadas politica-
mente pelas nações de primeira ordem, que lhes usurpam o solo e lhes impõe
tributos de ouro e de sangue; que não 1hes permitem o surto de qualquer manifes-
tação da vida social, ou, por último, as eliminam definitivamente do mapa das
unidades nacionais.
84
As grandes nações, sujeitas ao progresso ou à decadência, às vicissitudes da
luta econômica, política, etc., correm também, por vezes, o risco de serem víti-
mas desse imperialismo. (...).
Todas as nações são imperialistas, cada qual segundo as suas possibilida-
des" (94).
O Estado faz-se de único juiz ao legislar sobre toda ação indi vidual
ou coletiva, não permitindo qualquer tipo de ação fora do raio de suas
leis, sendo oindivíduo um "cidadão, um súdito, um autômato" à mercê
de.terceiros. Os govemantes dirigem os subordinados impondo-lhes obe--
diência esubtraindo-lhes todas as liberdades edireitos. Quanto ~produ-
ção edistribuição das riquezas sociais, oEstado é oaçambarcador dei-
xando aos trabalhadores um salário de miséria. O Estado "prejudica a
economia e a ética do povo" e apenas sua extinção pode restabelecer a
harmonia entre os povos. Por causa de seu modo deação gera um tre-
mendo mal-estar entre todos, resultando emmanifestações de revolta só
contida pela força armada:
"O Estado é umsistema deprincípios e de instituições que suprimem opro-
gresso, aliberdade e amoral, em toda forma, em todo tempo e lugar ondepossa
exercer as suas funções" (34).
O Estado, por ser uma instituição incapaz de promover apaz e a
harmonia entre os povos e caminhar no sentido oposto à libertação e
autonomia das pessoas e dos povos (34), é um mercado onde são
comercializadas as vidas eas liberdades dos povos (89). A população
nada deveria esperar dos govemantes (62). A liberdade só seria plena
quando da extinção completa doEstado. Apenas sua abolição possibili-
taria a plenitude da liberdade pois sua queda significaria a queda de
todas as instituições despóticas daburguesia e aintegração do "homem
emtodos os seus valores, emtodos os seus direitos" (56).
Estado, Religioso Estado
Outra característica fundamental do Estado diz respeito ao seu
caráter eminentemente religioso, um sucedâneo da religião. Ambos
buscam dominar e controlar avida das individualidades e das coleti-
vidadesnegando suas autonomias eindependência. Qualquer que seja
ana~ureza e aforma do governo ele é uma espécie de religião possu-
85
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1····
indo sua verdade absoluta, dogmas evultos emsubstituição aos antigos
santos da igreja:
"Em cada respectivo estádio das civilizações que se sucederam na vida da
humanidade, o patriotismo teve, em sua primeira fase, a expressão religiosa. o
espírito de seita. Em vez da geografia social ou política, estava em vigor li geogra-
fia divina."
Acrescentando em seguida:
''Na civilização contemporânea - sem ir mais longe - não existiam até há
pouco, senão em forma incipiente, estados políticos limitados por fronteiras polí-
ticas; existiam os mundos religiosos de Maomé, de Brahma, de Sarna, de Cristo,
etc.. Estes mundos subdividiam-se em regiões inerentes a divindades mais hu-
mildes e, por último, em comarcas existentes sob o patronato de divindades de
ínfima categoria. Sobre essa estrutura geográfica divina estava delineada a supe-
restrutura teocrática, que ainda hoje subsiste" (94).
De outro lado, as atitudes do religioso e do indivíduo submetido à
lógica estatal ébastante aproximada:
"Os que até à derrocada teocrática se haviam inclinado perante o altar, incli-
naram-se e inclinam-se, com tanta ou mais reverência, em face do pavilhão do
Estado, símbolo da nação. O novo culto antepôs-se à religião decadente" (94).
Quanto à relação entre os governos dominadores eas religiões, par-
ticularmente o cristianismo, afirma:
"Em todos os países, salvo raras exceções, o governo diocesano influi na
política das nações, nas questões operárias e sociais. (...) A religião foi, em todas
as idades, poderoso elemento de conquista e de escravidão. No velho, bem como
nos novos continentes, a penetração militar foi, segundo as 'circunstâncias de lu-
gar e de momento, antecedida ou precedida da penetração religiosa" (94).
Florentino de Carvalho prossegue sua critica à sociedade hierárqui-
caeclassista desnudando arelação existente entre oEstado, ocapitalis-
moe aIgreja. Em suas palavras:
"Ao flanco do Estado, a Propriedade é um abcesso da autoridade diocesana,
O primeiro regime econômico é o teocrático, baseado no direito divino, na
concepção teológica, segundo a qual a Natureza e as riquezas são divinas. A pri-
meira forma da propriedade é 'a propriedade das coisas santas'. A propriedade
adquire, assim, um caráter sagrado, e só a Igreja é inerente à sua ingerência, à sua
86
administração. Parafraseando aEsquiros: esta propriedade é a chave de ouro de
todas as outras. O Estado e a Igreja têm sobre o trabalhador o govemo econômi-
co, político, intelectual, que a superstição cívica e o misticismo religioso lhes
conferem" (94).
Umanota depé depágina neste últimoparágrafo reforça aindamais
aidéia do autor sobre este assunto:
"O cidadão levao Estado, como ocristão ti cruz: nos ombros, no coração, na
consciência. lipor isso que se diz nascer o Estado das vontades individuais ...
embargadas pelo espírito religioso. 'O Estado foi no passado uma necessidade
histórica, que surgiu da autoridade conquistada pela casta religiosa.' (Bakunin).
A lei civil é uma caricatura da lei eclesiástica" (94).
É do interesse dos partidários da autoridade incentivar atendência
da população aos misticismos e às crenças religiosas, pois existe uma
intima relação entre aconcepção demundo, devida, deuniverso, coma
organização da sociedade. Em suas palavras:
liAobstinação daIgreja(de todas as igrejas), das classes e dos partidos auto-
ritários em exaltarem o pessimismo e o misticismo, a crença num ser supremo,
compreende-se, porque os fenômenos sociais, os princípios éticos, são inerentes
às concepções do Universo e davida" (94).
Esta característica, inerente ao Estado, à sua lógica e instituições,
foram levadas até à última potência com a experíência do socialismo
estatal. Neste caso, mais queemqualquer outro exemplohistórico, acon-
teceu uma verdadeira manifestação plena das potencialidades existen-
tes de forma latente.emtodas as outras práticas degoverno:
"Do Santo Sínodo russo, diremos ter ele excedido a todas as outras igrejas,
em explorações, bacanais e atrocidades, personificadas na abjeta silhueta de
monsenhor Rasputim" (94).
Rodrigues (182) expõe com muita propriedade o caráter sacro da
ditarepública socialista então existente apartir daexperiência darevo-
lução de 1917naRússia epaíses circunvizinhos. Esta obratraz, naínte-
gra, uma entrevista comum ex-funcionário da república soviética onde
oautor oquestiona sobre particularidades daprática degoverno docha-
mado Estado socialista. A lição tirada desta entrevista converge com a
crítica de Florentino de Carvalho.
87
Florentino ao analisar o fenômeno da existência de um misticismo
sem metafisica refere-se, numa nota de rodapé, a Kostleskaya, diretora
dojomalbolchevista Bez Bozhaik, que sustentava ter o socialismo esta-
tal uma estruturação ritualística análoga aos ritos religiosos. Nas pala-
vras desta diretora:
"Os propagandistas comunistas doateísmo muitas vezes dão aopovo idéias
essencialmente religiosas sob novas formas. Assim acruz é substituída como
símbolo pela Cruz Vermelha do Comunismo; retratos de Lenin e outros che-
fes revolucionários tomam o lugar das imagens dos santos; os princípios dos
comunistas são ensinados não em linguagem simples mas em frases
campanudas próprias dos padres" (94).
Tragtenberg organiza textos deteóricos marxistas "heterodoxos" os
quais expõem sobre certos assuntos, pensamentos e posicionamentos
considerados desviantes emrelação à "ortodoxia" marxista. Dentre eles
encontramos Makhaiski que levanta algumas criticas ao marxismo e ao
anarquismo, Quanto às suas críticas ao anarquismo não cabe neste mo-
mento analisá-Ias demoradamente, entretanto é licito adiantar terem sido
feitas com considerável desconhecimento de causa. O autor confunde,
várias vezes, anarquismo e marxismo, reduz o anarquismo a uma de
'suas escolas, reduz opensamento de anarquistas auma passagem de um
de seus escritos e outras mais. Mas deixemos para outra ocasião tratar
deste assunto. Retomemos o pensamento inicial e vejamos a relação
feita por Makhaiski entre marxismo e religião. Em suas palavras:
"Sobre esta trilha, à ciência socialista se reconhece imediatamente como um
simples meio de adormecimento de espírito de revolta dos operários; ela chega a
ser, apesar de seu ateísmo, uma simples meditação religiosa e uma súplica pela
vinda do paraíso socialista, Converte-se numa religião que obscurece O espírito e
" vontade dos escravos do regime burguês,
A ciência socialista marxista tem criado uma verdadeira providência socia-
lista, graçaa a CtUll <t«ÍioIi 'produção capitalista cava ela mesma suapróprln sepul-
tura', se destrói elamesma por seu próprio desenvolvimento; e as leis econômi-
cas irreversíveis, independentes mesmo da vontade dos homens, levam direta-
mente ao 'reino da igualdade e daliberdade'. (...)
A certeza inabalável dareligião científica marxista no advento inevitável do
reino socialista da liberdade abençoa, ao mesmo tempo, o progresso burguês, o
'progressivismo', a 'legitimidade', a 'conformidade com os objetivos' doregime
contemporâneo fundado sobre apilhagem. A crençamarxista na passagem inevi-
tável do capitalismo para o socialismo; a crença no capitalismo, enquanto pre--
missa indispensável para o socialismo, converte-se finalmente no equivalente a
um alto grau de amor ao progresso burguês, ao desenvolvimento da dominação
88
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total da burguesia, à pilhagem burguesa total. Uns crentes, os verdadeiros socia-
listas proletários, penneados dereligião marxista, chegam aser os melhores com-
batentes do progresso burguês, os apóstolos mais calorosos e os participantes
empolgados da revolução burguesa" (157).
As Leis Estatais
Os instrumentos através dos quais o Estado exerce seu controle e
domínio sobre a sociedade também são objetos de análise crítica de
Florentino de Carvalho. As leis e constituições como formas máximas
de regulação e disciplinamento das relações sociais são veementemente
refutadas. Além disso os direitos e as leis dos burgueses fundamentam-
se no "império dainiqüidade social, dainjustiça na distribuição dotra-
balho e dariqueza" (75). As leis estatais foram elaboradas emflagrante
confronto com as leis naturais, uma vez legitimarem o roubo e as desi-
gualdades sociais, comprimindo apopulação numa ordem repressora e
violenta (40). Em artigo escrito anos depois, Florentino de Carvalho,
tratando da repartição da riqueza social, afirmou pertencer ela atodos,
principalmente aos produtores, acrescentando fundamentar esta concep-
ção igualitária "em obediência às leis naturais" (52).
Tomando como referência alei de expulsão de estrangeiros, elabora
definição das leis estatais como sendo, naverdade, "crime" (2), pois sua
ação é nociva tanto por castrar as autonomias humanas como por obs-
truir seu livre desenvolvimento. Desta forma as leis possuem o meS1110
caráter opressor do seu criador, oEstado. Em um artigo onde denuncia-
vaa violência dos policiais caracterizou comvigor sua compreensão da
lei, justificando o não uso delapelos anarquistas:
"Se llilo processamos os senhores que violentam nossos direitos, é porque
(...) entendemos qUê a lei é própria dos rebanhos bestiallzados, dos incapazes.
dos nulos, qUe marchem cornomatilha ao tuque de buzina'; (89), '
Em seu segundo livro Florentino de Carvalho refere-se à utilização
da legislação e dos legisladores como instrumentos de dominação:
"Por suavez aclasse dos legistas não frui melhor sorte. Não há, hoje, mil só
homem formado em ciências sociais - leia-se 'mentiras juridicas' - que mante-
nha ailusão de ser novo cavalheiro, armado com todos os cartapácios e postula-
dos do Direito, vindo romper lanças em defesa dajustiça.
A famosa 'Ordem dos Advogados' é o expoente dos 'Cavalheiros daIndús-
tria'. Ela tem as suas gradações. A sua função é o expediente... De ordinário, os
89
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seus membros, envergando indumentária de tinturaria e acusando no semblante
umavida de 'brisa .,,' pululam como peralvilhos, emtomo dos tribunais, de onde
são escorraçados pelos juízes e pelos esbirros.
É detal ordem aarena de sujeições e deimoralidade, nas quais hão deproval'
a sua força e destreza que, muitos, resguardando a dignidade, desertam, na pri-
meira ocasião, dessa cavalaria carioata q\le integra a sociedade burguesa" (94).
Kropotkin desenvolve estudo sobre arelação dalei com aautorida-
.de, a origem e desenvolvimento da lei e suas principais características
no Estado moderno, ao mesmo tempo emque evidencia o duplo caráter
das leis:
"Mas se alei não fosse senão um conjunto de prescrições vantajosas apenas
aos dominadores, teria dificuldade em se fazer aceitar, em se fazer obedecer. Por
isso, o legislador confunde num só código as duas correntes de costumes de que
acabamos de falar: as máximas querepresentam os princípios demoralidade ede
solidariedade elaborados pelavida emcomum eas ordens que devem consagrar a
desigualdade. Os costumes são necessários à própria existência da sociedade,
estão habilmente' misturados no código com as práticas impostas pelos
dominadores, e pretendem o mesmo respeito da multidão. ~Nãomates!', diz o
código; 'Paga o dizimo ao padre', apressa-se a acrescentar. 'Não roubes', diz o
código; e logo a seguir, 'Ao que não pagar oimposto se cortará o braço';
Assim é alei, com seuduplo caráter, quetemconservado até hoje. (...). Oseu
caráter é amistura hábil dos costumes úteis à sociedade - costumes quenão têm
necessidade de leis para serem respeitados - com os costumes que não represen-
tam vantagens senão para os dominadores, que são prejudiciais às massas e só
sãomantidos pelo terror dos suplícios" (151).
Woodcock (203) reúne vários escritos dos mais diversos anarquistas
sobre os mais diferentes temas sociais que tocam o anarquismo. Neste
meio elereúne alguns textos sobre as leis, dentre eles encontramos uma
reflexão de Leon Tolstói onde demonstra o caráter de dominação e vio-
lento das leis estatais sob quaisquer formas de Estado.
A critica dalei elaborada por Florentino de Carvalho dá-se apontan-
do-a corrioincapaz depossibilitar o igualitarismo que tanto propala, de
promover ajustiça gue tanto sustenta, zelar e de garantir aliberdade na
qual diz residir a sua razão de existência. A lei vai no sentido diame-
, tralmente oposto ao que propaga perseguir. As explorações, os crimes e
os privilégios antigos são perpetuados comroupagens novas dadas pelo
Estado moderno e suas instituições jurídicas (91). Mesmo a constitui-
ção não significaria oestabelecimento deuma sociedade justa, igualitá-
ria e solidária. Acontece mesmo, dizia Florentino de Carvalho, dehaver
constituições liberalíssimas ... mas pouca liberdade de fato referindo-se
90
à Constituição da recém-inaugurada república brasileira fundada
na filosofia positivista e considerada a mais avançada do mundo à
época (10). .
Dos acontecimentos do ano de 1917, Florentino de Carvalho eviden-
'ciou ao proletariado a lição a ser aprendida: as garantias constitucio-
nais, legais e detodos os códigos elaborados nos gabinetes dopoder de
nada serviam para os excluídos da sociedade. Isto porque, como deu-se
naquele ano, os governàntes impunham violências contra os trabalhado-
res desrespeitando eles mesmos as garantias constitucionais do povo
trabalhador (77). As leis e constituições criadas teoricamente para' de-
fender as liberdades e os direitos de todos eram inócuas, pois que à
menor agitação, ao minimo protesto dos trabalhadores, instalava-se a
repressão patronal e estatal, sendo os trabalhadores violentados, encar-
cerados, assassinados, espancados, expulsos do pais pelo.governo de-
mocrático epelos capitalistas liberais (74). ODireito, aJ ustiça eaIiber-
dade escritos na constituição são "letra morta" uma vez encontrarem-se
os trabalhadores constantemente sob a violência, exploração e repres-
são estatal e capitalista (82). Florentino de Carvalho ainda tratando da .
questão da validade ou não da lei, sustenta que para nada serviauma
"constituição libérrima" nem leis avançadas porque quem controlava e
detinha o poder público eram os "coronéis de chapéus de abas largas,
espora e rebenque, inveterados negreiros" (61).
Em artigo bastante posterior volta asustentar,quanto à validade da
lei e das constituições no que tange aos direitos e liberdades dapopula-
ção, que lei nenhuma, constituição nenhuma, código nenhum e Estado
nenhum autorizam "qualquer castigo extralegal aos presos políticos",
entretanto no Brasil eles são torturados, presos ilegalmente, assassina-
dos e espancados pelas autoridades (85), Florentino de Carvalho, num
.capítulo de seu segundo livro, onde remete às conseqüências judiciais
sofridas pelos constitucionalistas paulistas quando dolevante separatis-
ta, evidencia o caráter dominador e despótico dajustiça burguesa. Diz
ele:
"Agora, terminada a campanha, abrem-se as portas dos calabouços e os tri-
bunais preparam-se para julgar, ou, melhor, condenar os 'Culpados'. A justiça
burguesa depende da sorte das armas. Fossem eles felizes na sua empresa e, a
estas horas seriam alvos dos maiores encômios.
A razão, alei estariam com eles.
Os criminosos seriam seus adversários. Como, porém, materialmente, foram
infelizes, vão ocupar o banquinho dos réus. Pretende-se, castigando-os, castigar
91
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I!
neles os males que afligiram a sociedade. A justiça arrasta-os perante os tribu-
nais, deixando intato e tranqüilo o foco das perturbações em que eles mesmos
atuaram como instrumento e vítimas.
Seessaéanossafilosofiajurídica, podem os dirigentes fabricar celas ejuízes,
porque, réus não hão de faltar" (95).
Florentino de Carvalho era incansável combatente a favor da auto-
nornia e contra as dominações. A constituição brasileira, considerada à
época por demais liberal, nada significava pois inexistia de fato liberda-
de de pensamento, de reflexão, de expressão, de organização, de reu-
nião, de manifestação, enquanto na Itália o povo tinha tais liberdades
apesar de sua "monarquia despótica evaticanista." (62). Os govemantes
brasileiros ferem e negam a sua própria constituição, utilizando-se da
doutrina de Maquiavel enquanto tentam tomar legal as perseguições e
violências contra os anarquistas através dereformas naconstituição (65).
Denunciava os legisladores como sendo uma espécie de atores, pois que
vinham à cenapública "fantasiados. de cavaleiros graves, honrados, li-
berais, protetores, beneméritos da pátria e da república". Os legislado-
res,de fato, encenavam uma "comédia política" com suas oratórias re-
cheadas de jargões jurídicos e grandiloqüência. Suas ações consistiam
emimportar leis retrógradas emprejuízo doproletariado: daArgentina,
importaram a lei de expulsão de estrangeiros, dos Estados Unidos da
América, importaram adoutrina neomonroísta que diz: a América para
os capitalistas, transcrevendo a "lei contra os indesejáveis", "da cidade
Lumiere importaram a política dos financeiros" (65). Os legisladores
brasileiros eram plagiadores de leis estrangeiras de caráter exclusiva-
mente repressoras, visando restringir, proibir mesmo, o estudo do ho-
mem e da sociedade, areflexão sistematizada sobre as' organizações so-
ciais (62).
Analisando questões relacionadas às greves de 1920
j
Florentino de
Carvalho sustenta que os trabalhadores submetidos às explorações e às
violências promovidas pelo patronato e pelos govemantes não eram de-
fendidos nem pela república, nem pela lei, nem pela Constituição, nem
pelo civismo, nempela democracia, nempela "ordem eprogresso", nem
pelos republicanos, nem pelos liberais, nem pelos literatos, nem pelos
poetas, nempelos acadêmicos, ne111pelos positivistas (82). O Congres-
so Nacional elaborou projeto de lei visando proibir não apenas aliber-
dade de expressão como também aliberdade de pensamento (83).
Florentino de Carvalho não deixou de lado a situação do menor tra-
balhador ealegislação. De fato afirmava existirem leis visando aprote-
92
ção do trabalhador infantil contra as violências, abusos, maus tratos,
castigos corporais e exploração. Contudo tais leis constituíam "letra
morta" pois nem as leis, nem o Estado seriam capazes de pôr fim à
infame exploração dos menores trabalhadores. Antes sim, reprimiriam
todo movimento deemancipação dos pequenos trabalhadores. Outro fato
denunciado era os subornos calando os fiscais (48 e 51). Além deregis-
trar os êxitos dacampanha contra aexploração das crianças trabalhado-
ra, adverte à população quanto ao oportunismo dos partidos socialistas,
afirmando aproximarem-se estes detodos os movimentos sociais, inclu-
sive da campanha emfavor domenor trabalhador, naproporção em que
estes sirvam de sustentáculos para aconquista dopoder (48). Refere-se
à nulidade das leis regulamentadoras do trabalho dos menores, eviden-
ciando, por um lado, serem os interesses dos políticos meramente elei-
torais, ou seja, os políticos profissionais aproximavam-se doproletaria-
do unicamente com a intenção de retirar dividendos eleitorais para si.
De outro lado, os juízes, os estadistas e oEstado não direcionavam es-
forços para resolverem ahumilhante situação dos menores trabalhado-
res. Nada faziam para subtrair a infância da exploração descarada, da
escravidão e daprostituição. Nada faziam porque os próprios juizes ti-
nham interesses em manter a situação dos trabalhadores infantis (46),
Entretanto a situação miserável do menor trabalhador tinha outros
co-responsáveis. Haviam os que reconheciam a desumanidade da situa-
ção do menor trabalhador, mas entendiam ser este um fato natural e
necessário. Para estes, a situação criada apartir dotrabalho infantil fa-
ziaparte de um longo processo de aprendizagem, após o que cessariam
os abusos, Florentino de Carvalho refuta com veemência tais coloca-
ções, afirmando que as crianças não recebiam nenhuma noção detraba-
lho e sim tarefas árduas. Os pais também tinham sua parcela de culpa
(46), pois erradamente conduziam seus filhos as fábricas eoficinas, con-
tribuindo para a perpetuação e mesmo aprofundarnento da miséria do
menor trabalhador. Florentino, então, sugere aos pais sacrificarem os
capitalistas enão os seus filhos quando emtempos de crise,
Encerrando estaparte das criticas de Florentino de Carvalho às leis,
constituições, códigos e atitudes dos legisladores ante a questão social,
remeto, por fim, à sua advertência de que a autoridade, alei e ariqueza
não são bases seguras nem verdadeiras para o estabelecimento de "uma
instituição natural chamada acolaborar na vida ena felicidade comuns"
Oiguálitarismo, conclui,deve ser a concepção mais elevada epositiva a
orientar "a vida, a reprodução, aregeneração da espécie" (64).
93
_--- -- ._---"-'---
oMilitarismo
Florentino de Carvalho analisando os problemas sociais, considera.
ainfluência estatal nas vicissitudes da vida social evidenciando opapel
das instituições pelos quaiso Estado torna concretas suas medidas e
intenções. Veremosnesta parte omilitarismo comoumas destas institui-
ções.
. Florentino denunciava todos os Estados egovernos comotendo uma
inclinação intrínseca para subjugar os países fracos emtermos econô-
micos ebélicos. Mais grave: ademocracia ea civilização foram utiliza-
das pelos dominadores como pretexto para as guerras sangrentas onde
defato estava emjogo interesses capitalistas ede conquista (52). Todas
as instituições quer civis quer militares, criadas sob opretexto de "defe-
sadapátria, daordemedaliberdade", são defensoras daextorsão leva-
da a efeito pelos capitalistas contra os trabalhadores (76). Florentino
acusa os capitalistas de planejarem à deflagração do primeiro conflito
mundial e critica apopulação brasileira por não reagir veementemente
contra oespetáculo de crueldade produzido pelos dominadores (92). Os
.argentários e os estadistas brasileiros incentivaram as contendas entre
as nações, deonde esperavam retirar omáximo delucro mesmo estando
tais beneficias diretamente relacionados com a desgraça dos trabalha-
dores brasileiros (41).
Os fatores principais dacondição miserável, daignorância, dadege-
neração, das calamidades, das dores, das angústias edas desesperanças
dapopulação brasileira eraaação conjugada doEstado comomilitaris-
mo. Istoporque apesar dos estadistas brasileiros terem uma oratória pa-
cifista tratavam, na prática, de cultivar o militarismo. Tais estadistas
conduziam opaís à guerra sob opretexto dedefesa dabandeira nacional
vilipendiada pelos alemães. Para Florentino, a bandeira brasileira não
pertencia à população esim"auma classe parasitária quevive asugar o
povo" sendo o símbolo dos' dominadores e de "um regime político
liberticida." As guerras, obras detodos os governos, servemunicamente
para a defesa dos interesses dos "proprietários e argentários", além de
não existir nenhumajustificativa, doponto devista doDireito Internado-
nal e dos princípios da nação, para aparticipação de qualquer país na
guerra (52).
Florentino de Carvalho evidencia o fato de os govemantes brasilei-
ros não olharem para os exemplos históricos onde armas causaram
94
r
destruição de vicias, permanecendo neles a idéia de instituir o serviço
militar obrigatório. Ohomem comum tinha tremenda aversão ao milita-
rismo pois este baseava-se em vícios, corrupções, embriaguez, vadia-
gem e sensualismo. O militarismo traduz-se nur ú fator de decadência
dos povos uma vez que entrincheiram-se nele tiranos eladrões. O exér-
cito permanente produz alguns inconvenientes como: gera anecessida-
de de conquistas denovas terras; cria e desenvolve aindústria improdu-
tiva, a indústria bélica; provoca. a extinção das ciências, artes, literatura
racional e dainstrução das populações epromove.eembrutecimento ea
ignorância das pessoas (35). De um modo mais amplo, o capitalismo
promove muitos males à humanidade:
"De resto, o prejuízo mais sensível causado à produção pelo capitalismo não
provém do parasitismo burguês: provém da manutenção da magistratura, da bu-
rocracia, do funcionalismo, das forças armadas, da polícia, do clero, dos trabalha-
dores empregados nas indústrias bélicas... dos homens dedicados às profissões
liberais, políticas, ou administrativas; provém do afastamento da produção útil,
da maior parte dos homens válidos. .
No regime da política positiva, como no regime teocrático o Direito 'impede
a dedicação de todas as energias ao bem coletivo'" (94).
Ataca omilitarismo denunciando sua ação nefasta sobre os jovens,
pois estes aomilitarizarem-se "perdemtodos os sentimentos dedignida-
de" (25). O militarismo é fator básico de aviltamento dos indivíduos. A
caserna, sejaeladeque formafor, contribui para odepauperamento dos
sentimentos, para adegeneração moral epara adegradação detodos os
princípiosde sociabilidade. Isto é aplicável não só aos militares dos
estratos inferiores da hierarquia mas a todos os demais, do recruta ao
mais alto posto do oficialato:
"Desde a simples praça de pré ao marechal-de-campo, o soldado carece da
dignidade de homem, é uma peça da máquina militar. O seu espirito acha-se em- I !
botado pela disciplina, a sua moral está delineada pela escola de Moltke, ! !
O próprio generalato nio passa de um horda de passivos, meros aparelhos de
transmissão de ordens" (94).
Entretanto há que considerar ser a situação do soldado raso pior
quando se trata de opressão, de abuso, de desmando e de arbítrio. Isto
porque ele está no ponto último para onde convergetoda apressão, toda
a dominação da escala militar pois "o soldado é otraidor de si mesmo,
porque quebra lanças sob as ordens dos seus algozes" (94). E mais:
95
"Na presença de um superior hierárquico, o soldado, com ou sem patente,
descuida asuacomposturaeperfilaadePolichinelo, Os maus tratos, concementes
à alimentação, ao conforto, os castigos corporais e morais, o desprezo de que é
vítima, não podem ser resumidos num capítulo; para isso seria necessária uma
biblioteca" (94).
Outro fator a depor contra omilitarismo, sua lógica e suas institui-
ções é O fato de não existir em sua órbita a noção de justiça e, muito
mais grave, inexiste emsuaprática no cotidiano ehábito dos indivíduos
submetidos e conformados à desigualdade e aos arbítrios do militaris-
mo:
"A castamilitar desconhece opostulado dajustiça. Oseucódigo é alei marci-
al. As comezinhas liberdades depensamento, dereunião, deassociação, bemassim
os direitos de cidadania; conquistados por sucessivas revoluções políticas ousoci-
ais, nãovigoram paraoilotadacaserna" (94).
A história darepública brasileira registrá vários momentos onde os
militares tiveram seus direitos tolhidos. Em 1922 as revoltas de Co-
pacabana edaEscola Militar eade 1924emSão Paulo foram cruelmen-
te sufocadas seguindo-se uma profunda restrição às liberdades dos mili-
tares e perseguição aos diretamente envolvidos. Refletindo sobre estes
fatos históricos, Florentino de Carvalho constata autilização das forças
armadas como instrumentos de dominação:
"Exemplos destanatureza existem agranel emtodo omundo civilizado. Cre-
mos, por. isso, desnecessário entrar em mais detalhes para testificar que a força
armada é oinstrumento de que osmandarins se servem para apunhalar as nações.
Com o seu emprego é que, em nome da pátria, se acalmam a ferro e fogo as
exasperações dos soldados e dos cidadãos.
Contrariamente à opinião de um profissional das armas, segundo o qual 'o
militarismo é a expressão máxima de uma nacionalidade', ele é a encarnação
máxima daviolência sistemática do Esta~o contra o espírito libertador" (94).
Insistindo na crítica da criação da obrigatoriedade militar, FIo-
rentino de Carvalho advertia apopulação para ofato da criação de um
"organismo de violências" acentuar asituação de miséria dopovo bra-
sileiro,pois este organismo absorveria as forças produtivas do país
sem esquecer o fato de o exército ser oguardião-mor das instituições
burguesas, da reação e dasiriquisições. As tiranias e formas de explo- .
ração se apóiam no exército (40). A criação deste organismo não cons-
titui capricho dos govemantes. Muito pelo contrário, os govemantes e
96
capitalistas, ao intentarem conduzir opaís ao confronto bélico genera-
lizado, buscavam embrutecer apopulação para mais facilmente explorá-
Ia(39). A guerra significa fator de exploração a mais sobre apopula-
ção, pois implica um aumento nos lucros dos capitalistas, submetendo
mais ainda os trabalhadores, pois o trabalho tomava-se excessivo; o
salário era reduzido; ajornada detrabalho ficava mais longa; osalário
já miserável era sujeito a mutilações; o custo de vida tornava-se al-
tíssimo (74).
A policia, 'enquanto órgão repressor e impositor das leis estatais,
também foi alvo de várias críticas e denúncias de Florentino. As perse- .
guições e violências sofridas pelos trabalhadores davam-se constante-
mente através dapolícia. Seus métodos, além de basearem-se naviolên-
cia, constituíam-se emformas "vergonhosas" de investigação: delação,
espionagem, invasão de domicílio, empastelamento dejornais, roubo de
pertences coletivos eparticulares, entre outros (22).
A história registra vários exemplos de luta antimilitar, tanto apar-
tir de posicionamentos de personalidades mundiais contra guerras e,
mais radicalmente, contra ainstituição militar, como também emlutas
coletivas. Albert Eisntein (1879-1955), Henry David Thoreau (1817-
1862), Leon Tolstói (1828-1910), Mohandas Karamchand Gandhi
(1869-1948) entre outros, empreenderam luta incessante contra o mi-
litarismo emtodas as suas formas emanifestações. Throreau (192) em
seu mais conhecido escrito, A Desobediência Civil, expõe sua crítica
ao Estado e suas instituições, dentre as quais as instituições militares.
Tolstói em vários capítulos de O Reino de Deus Está em Vós (194),
considerada por ele mesmo o melhor dentre todos os seus escritos,
submete a: instituição militar auma crítica ferrenha. Opõe os princípi-
os do cristianismo ao estatismo, à igreja oficial, à guerra e ao milita-
rismo, advogando o uso da não-resistência como estratégia e método
de ação. Sobre Gandhi, suas idéias, vida, lutas eestratégias; Woodcock
(202) desenvolveu um excelente estudo. Nesta obra, Woodcock regis-
tra ainfluência que Thoreau exerceu sobre Tolstói e este, em seguida,
sobre Ghandi. No plano da luta coletiva e organizada, atualmente te-
mos no Greenpeace (129) um órgão internacional de luta pela preser-
vação davida, depostura caracteristicamente antimilita.r tendo nanão-
violência o método de sua,s estratégias de ação.
97
oSocial-Democratísmo eo Estado.Socíalísta
Socialismo Democrático: Nova Forma
de Exploração e Despotismo
Notópico anterior fizemos algumas alusões às reflexõesdeFlorentino
deCarvalho sobre o socialismo partidário, como também édenominado
o socialismo democrático pelos anarquistas. V ej am.os nesta parte, então,
a elaboração, as fundamentações edesenvolvimento detais críticas.
Inicialmente tenhamos claro que, como seus artigos atestam,
Florentino deCarvalho debruçou-se detida elucidamente sobre as ações
e as concepções teóricas dos socialistas defensores da via estatal. Pro-
pôs-se analisar detidamente todos os "princípios, fins emeios do Parti-
do Socialista Democrático", sustentando estarem os princípios emeios
do citado partido, em.flagrante antagonismo comosocialismo. Osprin-
cípios, meios efins doPartido Socialista Democrático consistemna"cen-
tralização dariqueza social nas mãos do Estado"; "organização deuma
república social emque oEstado sej a ocentro degravidade do dinamis-
mo social sob oponto devista econômico, político emoral"; "conquista
do poder público" (30). Baseado nestes pontos, define oPartido Socia-
lista Democrático corno sendo efetivamente pseudo-socialista, O socia-
lismo democrático éanálogo atoda doutrina burguesa: procura remedi-
ar os males sociais e, ao mesmo tempo, fortalecer edar longevidade às
causas primeiras dos referidos males (31).
Os partidos socialistas procuram conduzir os trabalhadores "para
novas formas de exploração e despotismo e miséria material emoral"
sendo esta atitude deefeito nociva para oproletariado (53). O socialis-
mo estatista está impregnado comos vícios burgueses e, pior, estetipo
de socialismo inevitavelmente agravará os vícios burgueses, sustentou
numa visão prospectiva (34). Os partidos, tanto republicanos como so-
cialistas, adotamoesquema eas maquinações dospartidos monárquicos
edas classes privilegiadas, sobretudo o princípio da autoridade, incor-
porando aprática hierárquica ecentralizada emsuas organizações. Um
outro aspecto, contrário aos princípios do socialismo, defendido pelos
socialistas democratas, diz respeito à sua união como cristianismo, fo-
mentando o belicismo entre as nações, denuncia à época da Primeira
Guerra Mundial (92).
98
! .
oPartido Socialista Democrático édefato um"movimento derea-
ção" contrário às "aspirações de emancipação humana," Este partido
fundamenta-se na "mentira patriótica e nacionalista"; na "mentira do
possibilisrno estatal quesediz favorável aostrabalhadores"; na "menti-
radapanacéia legalitária"; na "mentira relativa àburla eleitoral eparla-
mentar"; na "mentira dos valores do cooperativisrno "; na "mentira his-
tórica ou falsidade dos fatos históricos", na "mentira da virtude do
reformismo", na "mentira inerente à inversão das concepções filosófi-
cas do socialismo"; nos "princípios autoritários e hierárquicos do
democratismo"; nos "meios deluta que oPartido Socialista Democráti-
co, desenvolve dentro da ordemeda lei do regime burguês"; nas "suas
finalidades imperialísticas etirânicas"; nas "ambições que estas tendên-
cias despertam entre os seus componentes, impelindo-os auma luta de-
sesperada para galgar os cargos públicos bemremunerados esair, àbre-
vidade possível, da situação de párias aguilhoados pelas necessidades
econômicas". (31)
Todos os movimentos socialistas autoritários são incoerentes com
os postulados de liberdade negando com sua prática os princípios de
j ustiça eos "ideais mais perfeitos emais dignificantes." Este socialismo
termina enveredando numa direção diametralmente oposta aos princípi-
os dej ustiça, liberdade, igualdade eharmonia, emtroca defacilidades
oferecidas pelo momento, emtroca deposições dedestaque eprivilégi-
osburgueses (70). Ospartidos políticos socialistas procuram, comotoda
democracia socialista, adaptar, modificar enegociar princípios edoutri-
nas com o sistema político e econômico vigente de acordo os novos
interesses, as conveniências do momento eas forças envolvidas (40). O
socialismo democrático abandonou sua antiga concepção do estado,
compreendido como meio detransição social do capitalismo à socieda-
decomunista, passando a "ser urna doutrina puramente reformista". A
democracia socialista éasubclasse que, antes daclasse docleropolítico
e estatal, mais defende a "igrej a estatal". Isto porque dentre as classes
beneficiárias do Estado ela éa demenor recurso. O socialismo estatal
representa sério perigo ao movimento dos trabalhadores pois seus prin-
cípios, doutrinas etendências são anti-revolucionárias eantilibertárias;
propaga, proclama epratica aconciliação coma burguesia; trilha avia
parlamentar, adormecendo e dissolvendo nos trabalhadores seus ímpe-
tos libertários erevolucionários emprej uízo explícito dos trabalhadores
eemb,eneficiodireto dos capitalistas edonos do poder (31).
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o socialismo democrático, apoiando-se no estatismo governamen-
tal é, defato edeverdade, "umcatecismo dementiras edesofismas, que
estão empugna com os mais rudimentares princípios de organização
social" (34). Emuma passagem de seuprimeiro livro demonstrando os
equívocos, armadilhas e perigos da política partidária ~dos partidos,
sobretudo os partidos socialistas, expõe o caráter reacionário implícito
na noção deEstado socialista:
"O Estado socialista ou proletário, explicam, à medida que extirpar a classe
capitalista, irá enlarguecendo e desaparecerá totalmente, quando a burguesia ti-
ver deixado deexistir. Quer isto dizer quenão se devepensar emnovas revolu-
ções eos queisto fizerem serão considerados inimigos da revolução" (94).
Florentino de Carvalho aponta no socialismo democrático vários
aspectos contraditórios comos princípios socialistas. Inicialmente a re-
volução defendida por este socialismo não énem econômica enemso-
cial mas política. Isto significa dizer que uma revolução consiste numa
simplesmudança dos donos dopoder. Outra contradição do socialismo
democrático diz respeito à propriedade. Este tipo de socialismo apesar
de bravej ar impropérios contra a coluna central do capitalismo, apro-
priedade, não a extingue, muito pelo contrário dá-lhe mais vida. Mas,
quem são os proprietários numEstado socialista? Florentino deCarva-
lho diz, no ano anterior à Revolução Russa, serem os funcionários pú-
blicosos únicos proprietários. Desta forma o socialismo democrático
acaba aumentando o número dos assalariados ao invés de abolir o
salariado (34). A lógica da política estatal é, por essência, restritiva,
regionalista, nacionalista, excludente, estando, por estas razões, emfla-
grante antagonismo com umdos comezinhos princípios socialistas: o
intemacionalismo. Aqui Florentino de Carvalho aponta uma outra con-
tradição dentro do socialismo estatal: este apesar de proclamar-se
internacionalista encontra-se agrilhoado à estrutura exclusivista do na-
cionalismo, sendo, defato, contrário aosolidarismo internacionalista (31).
Florentino deCarvalho critica algumas das principais propostas do
socialismo democrático à concretização da sociedade socialista: o
cooperativismo, os conselhos de arbitragens, as leis protetoras. Estes e
outros mecanismos defendidos pelos socialistas estatistas são rej eitados
por elepor entender queno fundo não passam deinstrumentos concilia-
dores funcionando como meio deanestesiar otrabalhador, não oprepa-
rando para atransformação social (34).
100
Os socialistas democráticos ao defenderem como válido o uso da
magistratura burguesa pelo proletariado como instrumento na melhoria
das condições devida edetrabalho, desconsideravam o fato dautiliza-
ção doinstrumental Iegislativo daburguesia ter sérias implicações, com-
prometendo os ideais do socialismo. Desta maneira, ao levantarem esta
proposta mantinham a divisão entredirigentes edirigidos: os primeiros
utilizando-se daforça para fazer valer as regras enormas por eles cria-
, das edirecionadas aos segundos; esqueciamseremas leis frutos dadesi-
gualdade política eeconômica; esqueciamque as leis dependemdo go-
verno que, através das instituições governamentais e repressivas, im-
põem-nas aos recalcitrantes; que as leis protetoras de fato nada prote-
gem, a não ser as desigualdades sócioeconôrni cas, termo polido para
todas asexplorações, escravidões erepressões promovidas pelopatronato
organizado emcomumacordo comos govemantes (30).
O cooperativismo constituía emproposta vazia e semsentido, im-
plicando "inconvenientesperigosos" para ostrabalhadores. Quandoacon-
tecia das cooperativas melhorarem asituação dos trabalhadores, os pa-'
trões reduziam-lhes os salários, Isto faziamna certeza denão acontecer
protestos por parte dos trabalhadores, pois temeriam prej udicar as co-.
operativas. O cooperativismo era terminantemente rej eitado por
Florentino de Carvalho principalmente por seus efeitos no seio do mo-
vimento operário: desvia a atenção dos trabalhadores das lutas pelas
suas reivindicações; limita-se àlutalegal; éespaço deconflitos edispu-
tas eleitorais; infiltra no trabalhador "todos os prej uízos da exploração
capitalista, formando-lhes uma mentalidade trabalhada pelos cálculos,
pelos dividendos, pela invej a eadesconfiança"; paralisa ostrabalhado-
res mais ativos aotransformá-los numcorpo defuncionários, novos pa-
rasitas sociais, habituando-os às falcatruas do comércio edas finanças
por causa de suas relações comos traficantes, industriais ecomercian-
tes, tomando-se perdidos para acausa daemancipação humana; semeia
a discórdia eainvej a entre ostrabalhadores ao possibilitar o exercício
do poder a uma minoria controladora das finanças dos associados; por
fim, consiste numa teoria conservadora (30).
A proposta dos socialistas democráticos deinstituir-se bolsas detra-
balho constitui emoutro engodo bemembalado. Estas apenas abririam
novos espaços para os políticos sedentos depoder disputarem votos de
eleitores (30).
101
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&&
Analisando uma outra proposta dos socialistas democráticos, a dos
conselhos de arbitragem, Florentino de Carvalho afirma não ter esta
proposta sustentação lógica para ser considerada pelos trabalhadores.
Isto porque tais conselhos fazem as greves soçobrarem; conduzem os
operários a se entregarem aos capitalistas, quer pelo dinheiro quer por
ameaças; "os conselhos dearbitragem nada valemvisto que, emúltima
instância, a Iuta entre o capital e o trabalho resolve-se no terreno da
força" (30).
Candidatos Socialistas:
Ação Nociva no Movimento Operário
Nemsó aos detentores dopoder estatal dirigia Florentino suas criti-
cas. Os desej osos esedentos depoder também eram severamente criti-
cados: partidos políticos detodos os matizes, da direita à esquerda, e
mesmo o parlamento, todos eram-vistos como embustes bemembalado
comoqual tentava-se ludibriar oproletariado. Contudo sua critica mos-
tra-se mais incisiva eácida emrelação aos partidos auto-intitulados de-
fensores dos trabalhadores. Isto porque os candidatos ditos socialistas
ao seremeleitos constituíam-se nos "mais temíveis para acausa proletá-
ria" (22). Florentino caracterizava deuma forma bastante emblemática
apolítica partidária:
"A política, arte de dominar e domesticar os povos, segundo 110S ensina a
escola de Maquiavel, resume-se na hipocrisia, 110 embuste, 118 habilidade de si-
mular todas as grandezas da almaytodas as retidões do caráter, todas 8S abnega-
ções em prol do povo, e agir de maneira absolutamente diversa." (65).
Noseu primeiro livro diz dapolítica:
"... a política é areligião de Estado, a doutrina do civismo (?), do direito histórico,
a coação individual ou coletiva; é a delegação de poderes, a teoria de governo, o
exercício de autoridade, a razão e a função de Estado; é a palavra de ordem das
classes dominantes edos partidos, a relação ou a concorrência entre os aspirantes
ao Poder, a aliança ou a guerra entre as igrej as, os Estados, etc." (94).
Desenvolvendo suas reflexões sobre apolítica eopoder na'socieda-
debrasileira sustentou teremtodos ospartidos, grupos, classes ouseitas
deoposição uma oratória libertária antes da conquista do poder. Entre-
102
tanto, quando consolidados no poder procuram manter os privilégios e
desigualdades sociais (64), Noutro artigo criticou a concepção, há mui-
to aceita entre a maioria das pessoas, que afirma ser o sofrimento da
população proveniente das maldades e perversidades dos maus go-
vernantes, sendo suficiente atroca dos maus por bons governantes para
ter fim o sofrimento da população (56), .
A política é"a religião deEstado" com o agravante de ser apior das
religiões pois éela quem "mais ilude, fanatiza e atordoa a mentalidade
do povo, a que mais corrompe o sentimento humano". A política para se
fortalecer necessita que "o crime se desenvolva"; "o vício se vulgarize";
"a desigualdade ative a luta entre as classes sociais"; "a iniqüidade tri-
unfe"; "a miséria faça estragos"; "o parosismo o sentimento regionalista,
patriótico e nacionalista" desperte de modo a "fomentar o ódio de ra-
ças"; "o antagonismo de interesses entre os povos" sej a incentivado;
haj a guerra. É a política a causa de muitos dos males da. sociedade pois
éapior das "enfermidades sociais". O político profissional épior que o
padre eomilitar pois representa asíntese dahipocrisia, do charlatanismo,
da falta de escrúpulos (31).
Florentino traça uma espécie de árvore genealógica dos políticos
profissionais. Desta maneira cita como referencial histórico Roma. Dela
veio a herança dos políticos da modernidade a saber: "o leito de
Procusto"; o direito do mais forte; uma doutrina social piramidal como
garantia da continuação dos beneficios dos govemantes, além do que,
segundo esta doutrina "o príncipe, o homem de Estado, não deve ser
honesto, coerente, j usticeiro" (65). V árias foram suas criticas quanto
aos posicionamentos teóricos e atitudes dos políticos profissionais du-
rante vários acontecimentos no Brasil. Suas críticas mantêm constante
rej eição da via parlamentar como instrumento válido na luta pela igual-
dade social. Rej eição esta exposta não sem uma argumentação eanálise
cuidadosa acerca das questões envolvidas. Por exemplo, em relação ao
movimento operário, denunciou diversas vezes o caráter nocivo da pe-
netração de quaisquer" candidatos. Isto porque, entre outras coisas, tais
candidatos consituíam obstáculos ao desenvolvimento de atitudes esen-
timentos libertários e revolucionários nos trabalhadores (87). Os parti-
dos republicanos esocialistas desviam os trabalhadores da luta real con-
tra o capital e o Estado, conduzindo-os para as lutas eleitorais, além de .
levá-los a rej eitarem o anarquismo, os métodos revolucionários e de
ação direta. Desta maneira os trabalhadores transformavam-se num de"
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grandes aliados dos políticos na conservação do regime burguês, na
manutenção desua própria exploração (23). Quando da tomada do po-
der por um partido antes oposicionista acontece o seguinte:
"Todo partido que se apossa do Estado toma a frente de batalha das classes
oupartidos conservadores e marcha, alma emriste, sobre as falanges revolucio-
nárias" (94). .
Emnoutro momento, tratando dos partidos, especificamente dos so-
ciais-democratas, diz o seguinte:
"Todos os partidos são revolucionários na oposição e conservadores no po-
der" (94).
Emvários deseus artigos Florentino deCarvalho advertiu os traba-
lhadores quanto às conseqüências das ações de políticos profissionais
no interior domovimento operário. Os candidatos ditos socialistas eram
osquemais ameaçavam uma organização dos trabalhadores. Polemizou
comodeputado socialista Maurício deLacerda, referindo-se aelecomo
umdos que mais nocivamente agiamno interior do movimento proletá-
rio (66). Noutro artigo sustentou existir sob a"dialética fácil" do referi-
do deputado umreformista vindo para dar mais fôlego ao Estado, favo-
recendo, destamaneira, às "classes conservadoras." Maurício deLacerda
vivia "bocej ando arroubos deprotestos", fazendo-se passar por socialis-
ta, sindicalista, revolucionário eanarquista para impressionar os pro-
letários, Suapostura socialista mascarava aexistência deumferrenho
nacionalista enrustido, pois sua prática, na verdade, era contrária aos
"princípios comunistas e internacionalistas" propagados pelo anar-
quismo (69),
Em <litigo escrito no calor das greves de 1917 e111São Paulo, Fio-
rentino de Carvalho tornou evidente para a população as atitudes
marcadarneríte aburguesadas dos políticos profissionais. Estes viraram
as costas aos trabalhadores e anarquistas quando a burguesia acenou-
lhes com a possibilidade do estabelecimento de uma aliança. Tal fato
demonstrou não serem os políticos profissionais merecedores da confi-
ança nemdos trabalhadores nemdos anarquistas. Depois deteremten-
tado aliança com os burgueses eteremsido por estes rej eitados, ossocia-
listas democratas voltaram-se para os trabalhadores eanarquistas, sen-
do rej eitados por ambos (53).
Anos antes Florentino de Carvalho, combatendo o militarismo e a
guerra mundial, criticou ferozmente oschamados representantes dopovo
por legislarem afavor do belicismo (92). A Social Democracia funda-
mentada no refonnismo só tendia à inculcação da submissão eda obe-
diência noproletariado, desviando-o doideal deemancipação eliberda-
de (91). V ej amos algumas de suas reflexões quanto aos so.cialistas de-
mocratas emrelação tanto ao movimento operário como emrelação ao
socialismo esuas concepções eprincípios. Podemos iniciar citando oito
críticas, emforma interrogativa, direcionadas aos socialistas: .
."1°. Sendo osdirigentes do chamado Partido SocialistaPaulistano (eleitoral)
quase todos burgueses ou semiburgueses, que, desconhecem as necessidades, as
penúrias e os trabalhos que passam o proletariado, por que razão se imiscuem
entre este elemento para pedir-lhe voto?
2°. Como podemmanifestar o seu desinteresse pessoal nesta campanha pos-
to que os candidatos dopartido hão de sair do seupróprio seio?
3°. De que modo podem afirmar que não são ratazanas vermelhas que
confateiam o 'queij o nacional' se esquecem o socialismo e fazem propaganda
política parlamentar?
4°. Ondeestáoamor quedizemprofessar aos oprimidos sesimples cidadãos
burgueses pretendem passar a governadores, patrões etiranos diretos das classes
trabalhadoras ... viver no luxo ena opulência comcemmil réispor dia... queas
goj ertas? . . . .
5°, Onde estão lihonradez eo idealismo queapregoam senão têmpej o em
participar do produto doroubo feito pelo Estado ao povotrabalhador? ou ao tra-
balhador?
6°. Onde iráparar aliberdade quecantamseagora queestãoforadopoder se
manifestam mais intolerantes e agressivos do queTorquemada?
7°, Como atrevem-se a chamar-se socialistas sedo socialismo apenas têma
máscara?
8°. E sealguma coisapescamdesocialismo, como podemconciliar estecom
oparlamentarismo? sendo queambos serepelem?" (29).
Quanto às pessoas dos socialistas, Florentino deCarvalho umas ve-
zes aparentou expressar reservas, mas logo manifestava-se explícita e
incisivamente contrário. a todos, sem exceção. Para ele os socialistas
democratas constituíam defato maior perigo para os trabalhadores em
relação àqueles "que passam diretamente a fazer parte das instituições
policiais", pois os socialistas democratas "estabelecem confusões, ar-
rastamconsigonumerosos simpatizantes, provocamodesânimonasmas-
sas" obscurecendo-lhes o caminho apercorrer eo alvo a alcançar (70).
Uma das idéias geradoras deconfusão eraadaconciliação entrecapital
etrabalho. O socialista democrata Dr. Álvaro Teixeira, quando deuma
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intervenção sua numa assembléia dos operários emcalçados, manifes-
tou-se totalmente favorável à conciliação eharmonia entre capital etra-
balho, registrou Florentino deCarvalho (87). Os socialistas democratas,
aoparticiparem napolítica parlamentar, iniciaram uma corrida semfim,
quer pela via eleitoral quer pela revolução, einbusca do poder. A parti-
cipação destes nas instituições burguesas era condenada por ele, eviden-
ciando ser a colaboração emtais instituições contrária aos princípios
socialistas. Esta participação, depessoas quesedizemsocialistas, resul-
ta na conservação ena manutenção deinstituições que são "vivedores
deparasitas sociais eladrões". Os socialistas democratas representam,
naverdade, umagrave ameaça aos trabalhadores eanarquistas. Ao con-
viveremtanto comburgueses como comproletários servemmais eâcien-
temente aos dominantes: fazendo conhecer aos govemantes todos os
movimentos e progressos do proletariado militante; sugerindo aos
governantes as melhores medidas aseremtomadas para sufocar as ativi-
dades deprotesto edereivindicação dos oprimidos (31).
.Referindo-se ao periodo demaior proj eção da 1tl Associação Inter-
nacional dos Trabalhadores no mundo, Florentino deCarvalho faz notar
os efeitos inibi dores do desenvolvimento da solidariedade entre os tra-
balhadores a partir da influência de Marx, Engels e demais socialistas
democratas. Estes últimos não tinham selivrado dos "prej uízos sociais"
da sociedade burguesa passando, desta maneira, a agir a favor da rea-
ção, mantendo aordemcapitalista sob uma "dialética dos demagogos da
política" (30). Aqueles pensadores "concebiam unicamente não uma or-
ganização revolucionária comfins daemancipação social, mas umapro-
miscuidade de indivíduos reunidos por interesses exclusivamente ime-
diatos, até certo ponto conservadores" (24). Aotransformarem "a con-
quista do poder, como meio, emuma finalidade", os social-democratas
sacrificaram osocialismo etodos osideais deemancipação social. Imola-
ram, por fim, osocialismo à luta pelo poder (31).
Em outro artigo, Florentino de Carvalho denomina os socialistas
. democráticos de "ratazanas vermelhas" argumentando pretenderem
morder o "queij o nacional" através da conquista do poder político. Es-
tes socialistas lutam não pela liberdade dos trabalhadores, enfim, dos
oprimidos da sociedade. Procuram, isto sim, a conquista dopoder polí-
tico, transformando o socialismo em catequese. Os social-democratas
são, apesar doquedizem, pseudo-socialistas: possuemumaprática coti-
diana mesquinha, alémdevisarem apenas opoder. Florentino deCarva-
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lhocitaumexemplo corroborando sua afirmação. Emcerta ocasião, por
causa demanifestações, alguns trabalhadores forampresos pela policia
paulista. Como intuito delibertá-los eleeoutros companheiros dirigi-
ram-se ao advogado Dr. Bastos Cunha para que, mediantepagamento de
serviços prestados, requeresse habeas-corpus para os referidos traba-
lhadores. Como o advogado era membro efetivo do Partido Social De-
mocrata, a comitiva exigiu-lhe não misturar no caso opartido. O advo-
gado, deseulado, recusou-Se aceitar tal condição, negando-se acolabo-
rar. A comitiva, então, procurou outro advogado. Outro fato citado foi
quando deuma palestra entre representantes do anarquismo edo socia-
lismo democrático. Na ocasião registra terem seus companheiros escu-
tado todas as argumentações dos adversários semnenhuma manifesta-
ção dehostilidade. Entretanto, quando Florentino deCarvalho estavano
meio desua palestra, os chefes do Partido Social Democrata dirigiram-
lheimpropérios, insultos, calúnias emaltavoz e,j unto, pedradas atodos
os anarquistas presentes (29).
Os políticos socialistas são burgueses de fato e de verdade, "não
tanto pelas suas posições, mas pelas suas aspirações. Apesar daroupa-
gem com que pretendam esconder sua índole, não deixam de ser bur-
gueses por princípio, por método epor finalidade política". Isto porque
estão adaptados à sociedadeburguesa; defendemaação unicamente den-
tro da esfera legal; condenam todo tipo deação direta; lutampela con-
quista do poder político; defendem e conservam a existência do "fim-
cionalismo parasitário, autoritário ehierárquico" eprocuram instituir
um"novo patrão", oEstado monopolizador detodas as atividades so-
ciais. (53)
Os socialistas democratas procuravam atodos agradara fimdecon-
quistarem o poder político. Acenavam aos trabalhadores coma possi-
bilidade de melhorias econômicas imediatas ao mesmo tempo emque
garantiam à burguesia amanutenção dapaz edaordem. Isto constituía
prova de "sua fraca mentalidade". Suas propostas conciliadoras eram:
criação deleis protetoras, decooperativas deprodução edeconsumo e
debolsas detrabalho; conselhos dearbitragem entreocapital eotraba-
lho. Todas estas medidas, além.defracas eequivocadas, são denatureza
conciliatória, consistindo numdepoimento contra averacidade do socia-
lismo dos socialistas democratas. Alémdisso, aoterem como obj etivo a
inserção detrabalhadores nas instituições burguesas, os socialistas pas-
saram a ocupar-se exclusivamente da conquista do poder. O pseudo-
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socialismo dos socialistas democratas toma-se claro ao seobservar suas
tentativas emagradar todos os segmentos da sociedade. Para tanto:
"forj aram doutrinas políticas, econômicas emorais para cada classe social. Para
os proletários elaboraram princípios de socialização das terras, da riqueza social
e, para ospequenos proprietários, agricultores, industriais ecomerciantes, codifi-
caramumprograma dedefesa da,pequena propriedade. O socialismo democráti-
co chegou a ser uma espécie depanacéia universal e... tuui contenü" (30).
Florentino de Carvalho acusa os socialistas democratas desó faze-
rem campanhas e propaganda eleitoral. Chegaram a mendigar auxílio
pecuniário dos "negreiros reacionários eprofissionais da política bur-
guesa e reacionária". Suas atitudes são desprovidas de convicções, ba-
seando-se única e exclusivamente no oportunismo e na conveniência.
Os políticos socialistas, completa, carecem de senso moral (53). Em
j ornal operário cita alguns socialistas partidários que apresentavam-se
aoproletariado comoopçãonoparlamento: EramelesoDr. Mário Graxu,
Alberto Seabra eo Dr. Roldão Lopes de Barros, egresso do acratismo,
lançando-lhes o seguinte questionamento: "Que atestado demoral pode
oferecer aos trabalhadores?" (87).
Estado e Sociedade: Fusão e Confusão
A idéia de umEstado socialista, elaborada pelos socialistas demo-
cratas, tinha no evolucionismo seu fundamento. Florentino de Carvalho
deseulado criticava tanto aidéia deumEstado socialista como também
osprincípios evolucionistas quefundamentavam tal concepção (30). Os
social-democratas confundem sociedade e Estado, sendo-lhes inconce-
bível conj ugar existência social humana fora da esfera do Estado (34).
Tal confusão resulta emgraves conseqüências sobre os trabalhadores,
alémdeconduzir os socialistas partidários acaminhos contrários aos de
libertação social:
"A raiz das grandes revoluções - a inglesa e a francesa - quemudaram a
face da-história do Ocidente, conquistado para a democracia, materializou a
ficção deEstado, cuj anoção se confundiu COI11 as noções denacionalidade ede
sociedade, então, 111a1definidas, E, os próceres do socialismo democrático; aos
, quais de nada ou pouco serviu o progresso intelectual do último século, e111
lugar de destruírem esta confusão, e esclarecerem as consciências, acentuam-
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na, comgrave dano para as classes populares. Quando desua cátedra falam de
utilidade pública, nacionalização, socialização, comunização, etc., querem di-
zer que a riqueza social devepassar para os domínios doEstado" (94).
Emseguida, Florentino deCarvalho faz distinção entre umeoutro.
Emsuas palavras:
"Mas, emseus devidos termos, utilidade pública, nacionalização, socializa-
çâo, comunização, significam (abstraindo-se ° Estado) a passagem da riqueza
paJ a ° respectivo domínio do povo, da nação, da sociedade. Socialização e
comunização, principalmente, significam 11 abolição da propriedade particular,
limitada, individual, estatal, nacional ... Significa a supressão do princípio de
propriedade" (94).
Florentino deCarvalho foi umcrítico avassalador do Estado socia-
lista. Seus artigos contêmtais críticas elaboradas antes, durante eapós a
consolidação doEstado soviético. Interessante notar teremestas. críticas
caráter quaseprofético tão acertadas foram. Entretanto, omotor deseus
pensamentos foi nada mais nada menos que a reflexão sobre as conse-
qüências deumapossível aplicação prática das idéiaspolíticas do soei-
al-democratismo, Ascríticas dachamada heterodoxia domarxismo con-
temporâneo são, emalguns aspectos, idênticas as aqui registradas. A
diferença entre elas -além do fato de Florentino de Carvalho ter-se
antecipado à concretização do Estado socialista; além do fato deleter
proj etado, comriqueza dedetalhes, as feições deumEstado dito socia-
lista; além do fato deter incansavelmente alertado a trabalhadores e
mesmo até a socialistas democratas quanto aos resultados da con-
cretização detal Estado - foi o fato do primeiro ter levado às últimas
conseqüências suas críticas e reflexões enquanto os socialistas de Es-
tado mantiveram-se na órbita dos escritos de seus clássicos, principal-
mente Marx, criticando-lhes alguns adereços e preservando-lhes a es-
trutura de dominação. Florentino de Carvalho, denunciando o caráter
religioso do socià1ismo estatal e do estatismo emgeral; rasgou-lhes a
máscara, despiu-lhes os adereços, abalou suas estruturas semnada te-
. meroConfrontando ospostulados do socialismo democrático comas no-
ções deinternacionalisrno, de liberdade, deigualdade, de solidariedade
e dej ustiça, princípios básicos do socialismo, foi demonstrando o ca-
ráter reacionário, despótico, imperialista, dominador, violento e buro-
cratizante do socialismo estatal emqualquer versão, totalitário ou de-
mocrático. Sobremarxistas heterodoxos, Tragtenberg (157)reuniu eerga-
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nizou escritos dealguns representantes, onde podemos reconhecer algu-
mas de suas criticas sobre questões centrais do marxismo. Também os
escritos deCastoriadis enquadram-se na ala heterodoxa do marxismo
(119 e 120).
Em artigo do ano anterior ao da Revolução Russa, Florentino de
Carvalho denunciou ocaráter centralizador emonopolista deumEstado
socialista. Tal Estado significaria, dizia então, umtremendo monopólio
detodas as atividades sociais: ariqueza social; otrabalho; aeducação; a
assistência; os cultos; a j ustiça; a terra; o capital; o poder público; a
imprensa etodos os "outros recursos de publicidade com os quais se
formam a opinião pública". Tudo seria monopolizado pelo Estado re-
sultando: nainexistência departidos deoposição; na impossibilidade de
manifestações decriticas ao governo por faltarem os meios necessários
para tanto; na impossibilidade dacriação deuma organização "capaz de
sefazer respeitar pelos governantes". Mais adiante afirma incisivamen-
tequeainstauração deumestado socialista possibilitaria "uma explora-
ção eaumdespotismo nunca vistos, tanto pela sua extensão como pela
sua intensidade". Continuando seu esforço de demolição, Florentino de
Carvalho cerca o socialismo democrático sustentando, no mesmo arti-
go, que:
"ummovimento emtal sentido produziria apenas a mudança de amos, comten-
dências para uma nova forma de escravidão, até hoj e desconhecida pelo seu re-
quinte. Neste novo regime ficariam subsistindo duas classes perfeitamente dis-
tintas: a dos funcionários públicos, senhores, ao mesmo tempo do poder e da
riqueza, elidos trabalhadores, assalariados, a serviço do Estado.
A classe dominante passaria liser, pelo próprio determinismo deste sistema
social, uma vasta oligarquia principesca, cuj o esplendor nobiliário eplutocrático
estaria emrazão direta das possibilidades econômicas epolíticas" (30).
Reforçando sua critica ao Partido Socialista Democrático eà idéia
de um Estado socialista, refere-se a Labriola, deputado socialista do
parlamento italiano à época dapublicação do mesmo artigo. Este depu-
tado afirmava existir antagonismo entre o socialismo e a democracia,
sendo-lhes impossível afusão. Assim, ademocracia pressupunha aação
dentro da máquina estatal, enquanto o socialismo pressupunha a ação
fora do Estado e, mais queisso, contra ele. Opróprio Labriola apontava
os socialistas democratas como sendo, todos eles, os maiores dentre os
reacionários ao atingirem o poder, pois nestas condições procuravam
conservar todo oaparato governamental daburguesia como O parlamen-
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to, os'ministérios, etc. (30). Emoutro artigo ondetratava de expor os
ideais anarquistas, Florentino deCarvalho sustentou enfaticamente per-
petuar-se sob todo e qualquer tipo degoverno uma distribuição da ri-
queza social "necessariamente inj usta ... anti-social, anti-humana" (64).
Emartigo escrito no período do estabelecimento do Estado socialis-
ta soviético, Florentino de Carvalho desfere-lhe consistentes e ácidas
criticas. Afirmateremos "discípulos deMarx.", através dainauguração
das repúblicas pseudo-socialistas, instaurado, na verdade e apesar de
toda oratória socialistóide, "novas burocracias, que são a antítese da
liberdade" (70). A propósito, Florentino de Carvalho emnenhum ins-
tante dissocia o pensamento dos socialistas democráticos do deseu tu-
tor intelectual, Karl Marx. De fato, sempre que o assunto possibilita,
evidencia a continuidade entre este eaqueles, apontando seus métodos,
seus ideais e seus princípios como sendo fator fundamental do distan-
ciamento dostrabalhadores nabusca desualibertação social. OEstado
socialista soviético inaugurou umregimedeterror edetotal ausência de
liberdade, pesando tanto sobre os indivíduos como sobre as coletivida-
des tremenda e rígida vigilância antes "nunca vistas". Registrou tam-
bémj á ter conhecimento dotrato dado pelos bolchevistas aos divergen-
tes. Como eletinha afirmado anos antes, quando ainda não havia esta-
dossocialistas, tal Estado agravaria osprej uízos burgueses, A intolerân-
cia para com a divergência não foi algo recente no Estado socialista
soviético, pois desde sua, origemperseguia aqueles que não formavam
nas fileiras do disciplinado Partido Bolchevique. Desta maneira muitos
anarquistas quando não foramexpulsos dos comitês erepartições públi-
cas, forammetralhados pelos bolcheviques, enão só estes mas também
muitos socialistas revolucionários, reformistas eoutros (71),
V olín(200), participante ativo daRevolução Russa desdeo seu ini-
cio, nos dáumpanorama global donascimento edesenvolvimentodesta
revolução. Nesta exposição encontramos o tratamento dado pelos
bolcheviques aseus discordantes: aviolência, Outro testemunho acerca
dapostura bolchevique emrelação aos discordantes dogoverno verme-
lho nos dá Nestor Makhno. Emseu livro quetrata, principalmente, do
desenvolvimento da revolução na Ucrânia, Makhno (158) expõe como
sedeu sua entrada nos movimentos revolucionários e como seformou
na região de Goulai-Polé a makhnovitchina, como ficou conhecido o
exército decamponeses ucranianos deorientação nitidamente anarquis-
ta; ainstauração daigualdade social; astrocas diretas entrecamponeses
111
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eoperários, entreoutros pontos mais. Makhno descrevetambém opacto
de mútuo respeito firmado entre eles e o govemo bolchevique e, como
corolário, a traição deste pacto pelo Exército V ermelho de Lenin e de
Trotski, exterminando o exército camponês numa emboscada enquanto
retomavam vitoriosos deuma batalha contra os generais brancos.
Em trecho de seu primeiro livro onde, analisando o socialismo de-
mocrático, oassociou ao ímpeto reacionário daburguesia, Florentino de
Carvalho j á antevia, comdécadas deantecedência, omalogro eaqueda
da experiência do socialismo de Estado:
"Cremos, entretanto, que alguns revolucionários se impressionam demasia-
do comos êxitos momentâneos eaparentes do socialismo democrático. Opapão
socialista governamental, caso a burguesia continue a utilizá-lo emseus planos
deataque às multidões insubmissas, será 'flor deumdia' " (94).
A Imprensa Burguesa, Escritores eFilósofos
Outra instituição incisivamente criticada por Florentino de Carva-
lho foi a imprensa burguesa. Ciente do poder dos meios de comunica-
ção, não cansava de denunciar e combater as calúnias e incitações a
repressão levados apúblico pela imprensa burguesa. Umadas f0n11aSde
combater as inj ustiças desta imprensa era através da"criação, desenvol-
vimento edivulgação da imprensa libertária" (l l).
A invenção da imprensa significou a possibilidade de extinção da
ignorância edo obscurantismo. Defato, houve maior esclarecimento da
população no mundo todo apartir da divulgação da imprensa. O início
da implantação da imprensa no Brasil não tinha uma ação muito
esclarecedora tanto por ser ainda precária como também por causa do
grave estado defalta deconhecimento dos trabalhadores. Alémdo cará-
ter pedagógico da imprensa, Florentino de Carvalho evidenciou o de
formadora da opinião publica. Por isto preocupava-se C0111 o desenvol-
vimento de~na imprensa criada edirigi dapelos trabalhadores, contra-
pondo-se à imprensa burguesa e aos dominadores de todas as cores.
Assim, aimprensa burguesa constituía-se numgrave obstáculo aliber-
tação, ao esclarecimento eà elevação moral eintelectual dapopula-
ção (57).
A imprensa burguesa no Brasil esforça-se emser: "agência denegó-
cios"; "criada dos traficantes"; "porta-estandarte dareação"; "empresa
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decalúnia edementira, dedifamação"; "porta-voz (...) detodas as con-
vencionais mistificações que, na escola, nos palácios da magistratura e
nos presídios industriais são expostas pelos que exploram a pátria, o
Cristo eoscavalheiros dotrabalho"; zelosadosinteresses deseus"amos".
Isto demodo "que opovo vegetenaignorância ena ilusão"; quefalte ao
povo "o descanso eoconforto, opão do corpo edo espirito, determinan-
do adegenerescência física, intelectual emoral deraça". Esta imprensa
age através dedifamações, perseguições aos trabalhadores eoutros ex-
pedientes semelhantes. Suas vítimas são os homens livres, os que não
"queiram ler pela velha cartilha dos oligarcas, pelo catecismo dos reve-
rendos do padre eterno epelo livro dos financeiros". Todos os decon-
vicções libertária, lutadores contra os despotismos, embusca do estabe-
lecimento daj ustiça edaliberdade eafavor dos oprimidos eramperse-
guidos (57). .
A imprensa burguesa exercia opapel decoluna de sustentação dos
capitalistas egovernantes. Ela se caracteriza pela ausência deescrúpu-
los, publicando calúnias edifamações irresponsavelmente, pois "oculta
e defende todas as roubalheiras e expoliações, explora todos os atos
repugnantes que secometemnasociedade, vende-se como meretriz con-
sumada eporca, defende todas as explorações, infâmias eviolências".
Mais adiante acrescenta incisivamente que nesta imprensa "publica-se
como sefosse órgão oficial daprópria polícia, oudospatrões (...) viven-
do no lodaçal detodos os detritos sociais, não podemdeixar deconsti-
tuir apeste mais infecciosa - abubônica social" (54).
Em outros artigos Florentino de Carvalho critica certo j ornal bur-
guês por ter se levantado contra os trabalhadores quando estes tinham
iniciado acampanha contra alei deexpulsão brasileira (4 e89). Nestes
artigos aponta as contradições do ditoj ornal, alémdedenunciá-I ocomo
tendo incentivado ecobrado ação violenta governamental contra as or-
ganizações dos trabalhadores. Argumentando existir semelhantes leis
emoutros países, este'j omal posicionou-se contra osprotestos dos tra-
balhadores. A este argumento, Florentino de Carvalho respondeu afir-
mando existir também naqueles países movimentos de resistência do
proletariado. Para esta imprensa, as associações proletárias deveriam
ser destruí das e os trabalhadores rebeldes e insubmissos à exploração
capitalista mereciam alei deexpulsão. Por todos estes motivos elenão
cansou de denunciar e criticar a imprensa burguesa, apontando suas
inverdades e inj ustiças a partir de seus posicionamentos antefatos da
113
sociedade onde, ao serem mencionados, era inevitável uma tomada de
posição (9).
Osj ornais O Estado de São Paulo eA Cidade de Sorocaba publica-
ramartigos difamadores eviolentos contra as manifestações econferên-
cias promovidas pelos anarquistas que, deseu lado, criticaram os auto-
res dos artigos por serem"publicistas detantas asneiras" epor escreve-
remvisando unicamente agradar epromover os donos do poder. Para
ele, "neste belo regime capitalista tudo se vende e se aluga: o braço, o
ventre ea consciência" (42).
Em outro artigo Florentino de Carvalho denuncia a colaboração da
imprensa burguesa no acirramento e recrudescimento das violências e
repressões dos govemantes contra os trabalhadores. Desta maneira re-
gistrou ter aimprensa burguesa noticiado atentativa dogoverno francês
emextinguir aCGT francesa, sugerindo oplágio desta lei pelos legisla-
dores brasileiros (61). O governo, j untamente com a imprensa a seu
serviço, procurava passar os avanços econômicos daindústria, da agri-
cultura e do comércio como sendo de todos. Florentino de Carvalho
enfaticamente desmascarava as intenções do governo, declarando nos
j ornais operários não existir algo como avanço do Brasil. No capitalismo
apenas os dominadores, os donos do poder econômico, os magnatas das
finanças, ostubarões da indústria edo comércio, lucram comos avan-
ços efetuados na vida econômica (74).
Emartigo escrito anos depois, Florentino deCarvalho registrou não
ter havido mudança nanatureza daimprensa burguesa, pois elacontinua-
vaafazer alaridos quanto às manifestações deindignação eprotesto dos
trabalhadores afirmando seremtais manifestações oresultado do incita-
mento das massas promovido por estrangeiros, por "agitadores depro-
fissão", por anarquistas "exploradores dapopulação obreira, ingênua e
pacata" (87). O próprio Florentino de Carvalho foi vítima de calúnia e
difamação por parte daimprensa dita socialista. Emj ornal operário re-
gistra as atitudes deMonicelli eScala, diretores doL 'Avanti - órgão dos
socialistas democratas - caluniando-o edifamando-o pública esorratei-
ramente. Esta atitude dos socialistas legalitários visava provocar a des-
confiança no proletariado eentreos anarquistas quanto a suahonestida-
de, de modo a anulá-lo no seio do movimento operário e anarquista.
Utilizando linguagem obscura, insinuações, rodeios, evasivas ecalúni-
as, os diretores do L 'Avanti procuravam denegrir sua imagem entre os
trabalhadores. Faziamisto afirmando possuirem provas concretas deser
114
Florentino deCarvalho uminfiltrado dapolícia. Nà(J asmostravampara
não oexporempublicamente, j ustificavam. Florentino deCarvalho, por
sua vez, os desafiou amostrarem abertamente todas equaisquer provas
ou então que seretratassem depúblico. No final 'doartigo eleos deno-
mina de "irresponsáveis.desclassificados, caluniadores gratuitos" (32).
Também emseu livro tece critica ferrenha ao j ornalismo a serviço da
dominação. Nesta crítica reconhece opotencial Iibertário da imprensa,
condenando, isto sim, aimprensa serviçal dos proj etos deexploração:
"O progresso social de110SS0 mundo burguês redunda numprogresso dede-
composição a assumir proporções fantásticas.
Uma das características deste paradoxo ressalta do incremento quevai to-
mando apraga doj ornalismo.
Esta modem« instituição, que exerce uma influência notável sobre a alma
dos povos civilizados, seria fonte de harmonias na vida de relação se os seus
mananciais fossem límpidos ecristalinos. Esse elemento é, porém, oresumo ea
conclusão das falsificações damoderna indústria. Eleéaagência damentira eda
calúnia, oveículo detodas asinfâmias, olaboratório ondeos alquimistas da'pena
filtram oveneno quemais COITÓi oscorações e os espíritos" (94).
Florentino de Carvalho não poupou os escritores a serviço da im-
prensa burguesa, comprometida comos poderes estabelecidos. Poetas,
j ornalistas e escritores que dedicassem sua verve à defesa da domina-
ção, da exploração edo nacionalismo tinhamnele umtremendo adver-
sário, pronto a demonstrar os equívocos eenganos escondidos atrás de
belas palavras. Poetas, j ornalistas e escritores, mesmo quando exaltan-
do elouvando os ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, ordeme
progresso, deixavam para trás os fatos que evidenciavam a insus-
tentabilidade destas divisas quando as entendiamcomo plataforma dos
dominadores (74). Oj ornalista burguês "éa escória mais indecente da
sociedade, porque vivedetodos osexpedientes queemporcalhamamoral
ea dignidade humana". Osj ornalistas burgueses eramlevianos: não se
importavam emverificar a veracidade das informações a elespassadas
pelos patrões epoliciais, prestando excelentes serviços aos proprietári-
os e aos governantes."Na verdade, osj ornalistas burgueses eram mais
que levianos pois desconheciam completamente os princípios dej usti-
ça, dehumanidade, de respeito ehonradez (54).
Outra atitude dosj ornalístas, publicistas epoetas ligados aos pode-
res instituídos que provocou a critica edesprezo deFlorentino de Car-
valho foi quando estes lançaram brados delouvores à sanha voraz dos
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governantes ensandecidos pelo desej o decriação deumexército grandio-
soealtamente militarizado (35). J á conhecemos as criticas feitas por ele
ao militarismoe àmilitarização dasociedade. Daí entã.oarazão desuas
críticas atodos osj ornalistas, publicistas, escritores epoetas dedicados
eentregues ao engrandecimento dos poderes de dominação. UUl destes
poetas foi Olavo Bilac. Elededicava seus versos esuas canções ao lou-
vor dos detentores do poder político eeconômico, ao mesmo tempo em
quetratava comdesdém a liberdade do povo eenaltecia aguerra como
sendo "a força deligação nacional". Olavo Bilac era definido como um
ferrenho defensor do militarismo, do nacionalismo e dos opressores da
população, utilizando seus dotes de escritor epoeta para defender uma
sociedade militarizada e altamente hierarquizada. Olavo Bilac é fruto
"de uma civilização viciosa e de uma vida depravada", além de ser
maquiavélico, parasita, explorador, tirano, amoral, semhonra, semca-
ráter ecompartilhar do modo devida daescória social (25). Critica tam-
bémo escritor Coelho Neto. Ambos faziam apologia donacionalismo e
das autoridades constituídas ao mesmo tempo em que estas precipita-
vampor sobre ostrabalhadores violências, fazendo comque sealastras-
se o obscurantismo eo militarismo (59).
Alémdaimprensa, a elite dominante podia contar comoutros seto-
res sociais para amanutenção dostatus qu.o. Elapodia contar comabne-
gados e zelosos guardiães da sociedade da exploração entre a inte-
lectualidade. Por intermédio destes, procurava-se denegrir os ideais e
principies ácratas, distorcendo-os esemeando desconfiança na popula-
ção quanto às intenções eobj etivos dos anarquistas. Florentino deCar-
valho, procurando refutar tais equívocos, responde citando uma lista,
tirada da história, de conhecidos e inquestionáveis lutadores pela
concretização de uma sociedade livre, j usta eigualitária (90). Denun-
dava também a íntima relação existente entre governantes e alguns in-
telectuais. Quanto à militarização da sociedade, denunciou a colabora-
ção das classes ilustradas tanto por omissão como pela adesão aberta.
Tambémparte dos estudantes aderiram à propaganda militar, procuran-
do prêmios elouvores de seus mestres (35).
Florentino de Carvalho insistia para ofato deoEstado "apadrinhar
os intelectuais elaclasse dominante" (56). Sob oj ugo da "república do
milhão, da espada edo caj ado papalino", todos os progressos 'daciên-
cia, todas as belezas da arte, todas as descobertas do saber, todos os
avanços do conhecimento parecem nada valer, pois "a multidão reacio-
116
nária nos sufoca, nos cega enos enxota para as cavernas, tomando-nos
acéfalos" (61). Ele entendia que "para os doutos estadistas desta terra, o
desenvolvimento da mentalidade dos povos, o progresso e a dissemina-
çãodas idéias novas e revolucionárias, carecem de realidade" (72). Os
intelectuais burgueses alardeavam estarem preparando o pais para ser
uma grande potência mundial através do fomento do conhecimento. Estas
atitudes dos educadores oficiais foi denominada pura "demagogia". Lsto
porque era impossível falar em educação eciência num ambiente onde a
miséria, a fome ea penúria predominavam, pois umfaminto nada pode-
ria apreender (60). Florentino de Carvalho combateu sem descanso a
colaboração de intelectuais j unto aos poderes constituídos. Refere-se
criticamente, por exemplo, aos esforços dos cientistas do Brasil coloni-
al em legitimar a escravidão negra (28). Os intelectuais burgueses, os
educadores oficiais, procuravam levar oconhecimento, aciência ao povo,
desconsiderando a miséria sob a qual viviam. Isto fazia malograr qual-
quer tentativa de elevar o nível de conhecimento da população trabalha-
dora. De seu lado, os médicos procuravam curar o povo unicamente
através de remédios e inj eções, também desconsiderando ser a fome a
principal causa das doenças, como também a falta de higiene, de bem-
estar ecarência de alegria. Ao mesmo tempo refere-se àmiséria do pro-
letariado evidenciando a existência de uma "superabundância da produ-
ção", usurpada pelos açambarcadores (60).
Outros alvos da crítica perspicaz de Florentino de Carvalho foram
alguns dos clássicos do pensamento social. O autor, em seus artigos,
esboça algumas criticas aCharles Darwin, a Maquiavel, a Nietzsche, a
Spencer, a Karl Marx ea outros teóricos das ciências sociais, sobretudo
os representantes do positivismo. Dos cientistas aqui registrados, ape-
nas Darwin não pertencia à área das ciências humanas. Entretanto seu
pensamento desdobrou-se no pensamento social, À idéia do conflito,
Florentino opõe ateoria do auxílio mútuo como fator de progresso. Esta
teoria foi elaborada pelo geógrafo, historiador, antropólogo, naturalista
e anarquista russo Piotr Kropotkin (151 e 152), que fundamentou Seus
estudos emlongas observações tanto sobre várias espécies animais como
em vários agrupamentos humanos, Florentino de Carvalho afirmava
peremptoriamente ter a teoria da seleção natural originado uma
"pseudociência" e não uma ciência, Isto porque ela fundamentava todo
o progresso humano emfatores conflituosos, de luta pela sobrevivência,
Para ele, seguindo Kropotkin, não eram as lutas fatores determinantes
117
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dequalquer progresso, mas antes o apoio mútuo, asolidariedade (93).
Darwin écriticado por ter elaborado ateoria daseleção natural, ondeos
conflitos eas lutas são apresentados como o motivo do progresso eda
evolução nanatureza. Esta teoria deumargem adesdobramentos naárea
social aparecendo as guerras edesigualdades sociais como sendo fato-
resnaturais, fatais, necessários eimpulsionadores dosprogressos dahu-
manidade.
Maquiavel ao escrever O Príncipe elaborou, de fato, uma cartilha
para nortear os burgueses, nobres, govemantes etoda espécie detiranos
editadores amanterem econsolidarem seus domínios eprivilégios (91).
Denunciando a infração da constituição pelos próprios govemantes,
quanto aos direitos dos trabalhadores, Florentino de Carvalho sustenta-
va basearem-se os estadistas nos ensinamentos de Maquiavel. Os go-
vemantes ao mesmo teinpo emque infligiam as leis elaboradas por eles
próprios, procuravam legalizar as perseguições eviolências j á pratica-
das contra os anarquistas etrabalhadores através dereformas na consti-
tuição (65).
Nietzsche através do seu Zaratustra cultivou eincentivou o "ceti-
cismo e o egoísmo" nas classes dirigentes (91). Nietzsche e Mackay, se-
guindo a Stimer, exerceram péssimas influências sobre os anarquistas,
pois suadoutrina do"super-homem" levou muitos aabandonarem acon-
vivência comos operários ealuta social. Alguns passaram para o cam-
po inimigo (24). Woodcock (204) faz umesboço das idéias edavida de
J ohan Caspar Schmidt, mais conhecido pelopseudônimo deMax Stimer,
registrando a influência dele no pensamento de Nietzsche e de J onh
Henry Mackay. Os dados davida deStimer deve-se, salienta Woodcock,
aeste último. Antecipando-se aWoodcock, Florentino de Carvalho (96)
sustentava ter sido Nietzsche umdiscípulo, demenor porte, de Stirner.
Crisóstomo deSouza (191) desenvolve umestudo sobre as idéias de
Stirner confrontando-o comKarl Marx. O autor afirma ter sido Stirner,
dentre os oponentes deMarx, odemaior envergadura eoquemais inco-
modou ao teórico alemão. Tomando como referência a questão da indi-
vidualidade, o autor beneficia os estudiosos do pensamento social com
.uma excelente obra, desnudando um confronto que, por muitos anos,
fora conhecido apenas pela versão deMarx.
Nietzsche, j untamente comGustavo Le Bon, submetia suas doutri-
nas efilosofias ao crivo do "interesse dos negociantes". Cita o exemplo
deRoldão Lopes deBarros, seu "amigo eex-condiscípulo" nos tempos
118
do Liceu do Sagrado Coração de J esus, que se afastara do anarquismo
por desilusão e decepção, dizendo ser um ideal distante. Roldão resol-
veu, então, acomodar-se à estrutura da sociedade envolvente, procuran-
do garantir sua própria subsistência e a "boa consideração das pessoas
que hoj e estão valorizadas pelos altos cargos públicos que desempe-
nham e pela riqueza social que detenham". Este foi um dos que, para
alcançar privilégios, sacrificara suas idéias ea "própria personalidade",
trilhando o caminho da doutrina do "super-homem", Os que, como Rol-
dão, seguiam esta doutrina, aparentavam estarem no cume social en-
quanto, de fato, degeneravam e decaiam pois mergulhavam na mesqui-
nhez, na violência, na inj ustiça, no cerceamento das liberdades. Além
disso, a adaptação à sociedade vigente se dava de maneira que.rna tribu-
na, na escola, na imprensa", manifestava-se apenas os pensamentos dos
dominantes. No mercado de trabalho sacrificam a sua dignidade ven-
dendo o "braço, o sentimento e' a consciência", passando a viver uma
situação paradoxal sendo "ao mesmo tempo oprimidos e elementos de
opressão" (73).
Spencer com sua "teoria evolucionista e anti-revolucionária", j unta-
mente com Marx e seu materialismo histórico, estabeleceram os "fun-
damentos do reformismo que serve de pedestal à Social Democracia".
Deste reformismo veio a seguir a doutrina de servidão e obediência do
indivíduo à coletividade. A filosofia materialista, de seu lado, consoli-
dou o "individualismo feroz eirredento", pois de "doutrina iconoclasta",
só tinha a aparência (91). Florentino de Carvalho, em seus dois primei-
ros livros, dedica vários capítulos à análise dos enunciados de Marx,
Engels, Trotski, Lenin, Bukharin, Kautski e outras figuras do social-
democratismo e do pensamento marxista. Trata também do partido
Bolchevique. Na primeira obra, dedica especialmente a segunda parte
para estes assuntos. Na obra seguinte, a quarta parte é dedicada a estes
estudos. Sobre Marx afirma o seguinte na sua segunda obra:
"Deresto, sedeumladoMarx recorriaàfilosofia materialista, na suacrítica
ao capitalismo, de outro, para construir as suas previsões econômicas epolíticas,
servia-se da metafísica.
Revelou-se, desde logo, cultor deum ecletismo singular e criador de um
sistema de princípios heterogêneos. .
A sua doutrina é opináculo da evolução do socialismo deEstado.
O postulado marxista adj udicou-se, semrazão, o título de socialismo cientí-
fico, pois não possuía para isso elementos suficientes" (95).
119
r-·
~--'~'~~------------------~--
Combateu energicamente os socialistas autoritários, especificamen-
te Karl Marx e Frederic Engels, apontando suas influências j unto ao
operariado comresultados diametralmente opostos aos ideais do socia-
lismo libertário. Marx, Engels e demais socialistas legalitários desvia-
ramoproletariado do caminho da emancipação social, pois "concebiam
unicamente não uma organização revolucionária comfins deemancipa-
ção social, mas uma promiscuidade deindivíduos reunidos por interes-
ses exclusivamente imediatos, até certo ponto conservadores" (24).
Ao analisar o inicio do movimento internacional dos trabalhadores,
que teve na Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores seu
organismo impulsionador no desenvolvimento de umpensamento niti-
damente operário, Florentino faz notar ter este movimento dado seus
primeiros passos orientado pelas idéias ácratas. Marx, Engels eossocia-
listas democráticos, no entanto, introduziram neste movimento a ambi-
çãopelo mando epor riquezas, conduzindo-o acaminhos que os distan-
ciavam dos obj etivos libertários e, ao mesmo tempo, paralisavam-lhes
as energias revolucionárias. A critica deFlorentino deCarvalho aMarx,
Engels e aos socialistas democráticos toma formas mais contundentes
quando sustenta teremos citados teóricos não só preservado os "prej uí-
zos sociais" da sociedade burguesa, mas também, mais grave, terem
passado a agir embeneficio da reação, mantendo aordem burguesa es-
condida sob uma "dialética dos demagogos da política". O socialismo
democrático eopensamento político deMarx eEngels, possuem ames-
mapostura devida:burguesa só quetravestida comnova roupagem. No
socialismo de Estado, os mesmos preconceitos sociais da burguesia
mantinham-se intactos, perpetuando-se as explorações, as hierarquias
sociais, osprivilégios decasta edeclasse, enfim, as desigualdades soci-
ais (31).
Analisando o início das experiências dos Estados socialistas, FIo-
rentino deCarvalho mais uma vez criticou incisivamente os "discípulos
de Marx", pois através das repúblicas pseudo-socialistas instauraram,
defato, "novas burocracias, que são aantítese daliberdade" (70). Seno
parágrafo anterior vimos aênfase daincapacidade do socialismo autori-
tário emextinguir da sociedade e das individualidades os preconceitos
próprios daordemsocial burguesa, neste último parágrafo vimos ocará-
ter despótico dosocialismo democrático edas idéias políticas deMarx e
Engels. Apesar detoda oratória recheada declamores dej ustiça, deigual-
dade, de liberdade e fratcrnidade social, o socialismo estatal toma as
formas concretas dequalquer Estado, isto é, comdespotismo, extorsão,
120
repressão, opressão, militarismo, exclusivismo nacionalista e demais
prej uízos da dominação:
"Os sacerdotes dominam e desprezam os nobres; estes exercem pressão e
ódio sobre os burgueses; por sua vez os burgueses exploram e oprimem os prole-
tários.
Nas camadas inferiores da sociedade não sucede de modo diverso.
O gerente, o mestré de fábrica, o contínuo de secretaria, o anspeçada, o feitor,
o sacristão, o médium, o vidente (?), o diretor de sociedade de qualquer espécie,
sej ulgam gentes de elevada estirpe, super-homens, que sentem avolúpia do man-
do, que eSC3l1.1eCemdas classes pobres, sem reconhecerem que vivem a raz de
terra" .(94).
Florentino de Carvalho criticou veementemente todas as filosofias e
doutrinas sociais não coadunadas comos princípios delibertação huma-
na. Assim, o positivismo, conhecido também Gomoa "religião da Hu-
manidade" e corrente filosófica orientadora dos princípios da república
brasileira, também foi seu obj eto decritica. Entretanto, ao elaborar tais
criticas rej eitando esta corrente filosófica, reconhecia ter sido o
positivismo, emsua origem, uma corrente filosófica critica, visando so-
lapar as "místicas concepções douniverso eda vida" da sociedade feu-
dal, procurando estabelecer "concepções mais racionais baseadas naciên-
cia experimental" (91). Emsua segunda obra dedicatodo ocapítulo XX
à análise do positivismo, evidenciando, deinicio, sua influência no Bra-
sil e seus' méritos: .
"Somos os primeiros em reconhecer a soma respeitável de elementos que os
positivistas e os materialistas aportaram àciência social, mas forçoso é constatar
que essa ciência só éconstituída quando os anarquistas a definem pela lei enci-
clopédica, quando edificam o sistema social, como Laplace edifica seu sistema
cosmogônico: 'sem uma hipótese inútil' " (94).
Mas ao tomar-se predominante, a classe burguesa absorveu as con-
cepções religiosas que outrora combatera, substituindo a "idéia de sa-
crificio emho\ocausto dos deuses" pela concepção desacrifício do indi- ' .
víduo emfavor da sociedade, ou sej a, a submissão, a servidão total do
indivíduo àsociedade. Complementando esta orientação detotal obedi-
ência dos indivíduos das classes laboriosas, o positivismo cultiva nos
indivíduos das classes dirigentes doutrinas do "ultra-egoí Sl1l0" , de ma-
neira aconsolidar o regimedeexploração eviolência existentena socie-
dade capitalista (91).
121
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Florentino de Carvalho evidenciou ocaráter histórico dopensamen-
to social, tendo se desenvolvido emdetrimento das antigas concepções
autoritárias. O progresso material ecultural do ser humano, significan-
do acúmulo de conhecimentos e desenvolvimento intelectual da huma-
nidade, engendrou transformações no pensamento social. Desta manei-
ra as concepções teológicas foram sucedidas pelas concepções
metafisicas, as quais foram sucedidas pelas positivistas e estas pelas
materialistas, cada qual caracterizando "os vários estádios da evolução
ascendente", De seu lado, o anarquismo só pôde florescer e desenvol-
ver~,~eplenamente após o firmamento do materialismo filosófico, Este
foi o terreno fértil no qual o anarquismo deitou raízes, iniciando seu
processo defortalecimento, maturação ecrescimento (64). Criticando o
positivismo, podemos encontrar ainda mais estas reflexões:
"Aos filósofos do materialismo e do positivismo coube o ensej o de reduzir
sensivelmente o governo transcendental e restabelecer-relativamente a ordem nos
espíritos, com a aplicação sistemática das ciências. Assim mesmo, impotentes
para, romperem definitivamente com o passado, conservaram alguns princípios
da teologia e da metafísica'' (94),
Reli gi ão: Arti cu la da aos Domi na dores
eObstácu lo a o Desenvolvi mento Soci a l
A religião não poderia passar despercebida pela verve deFlorentino
de Carvalho. Numa sociedade onde o pensamento e idéias religiosas
tinham estabelecido fortes alicerces, exercendo grande influência nas
pessoas egrupos sociais, fazia-se necessário umposicionamento claro e
definido perante tais crenças, Assim, não se cansava de denunciar o
caráter nocivo da religião na vida de relação, além de sua articulação
compolíticos ecapitalistas. Define-a nos seguintes termos:
"A religião é um estado de predisposição para o pânico, para as impressões
profundas, dolorosas, que invadem todo o organismo; é uma perturbação do sis-
tema sensorial urna afecção perigosa que ataca de preferência o coração e o cére-
bro" (94),
o Brasil do início do século era predominantemente católico,
Florentino de Carvalho foi um crítico feroz tanto do catolicismo, em
particular, edo cristianismo, emgeral, C01110 detodas as religiões efi-
122
losofias metafisicas. V árias críticas teceu ao cristianismo nos j ornais
proletários. Denunciando a essência eminentemente extorsiva do cristia-
nismo, registrou ser esta religião baseada na incoerência, para não dizer
hipocrisia, pois fomentava eincentivava o belicismo econfrontos entre
as nações apesar detoda asuaoratória recheada debelas palavras sobre.
paz ej ustiça (92). Tratando dautilização por parte dogoverno brasileiro
de expedientes altamente violentos, Florentino lança questões insisten-
temente aos discípulos de Cristo, aos escolásticos deComte, procuran-
do saber seus posicicnamentos diante das iniciativas do Estado repri-
mindo o livre-pensamento, a liberdade, incentivando e promovendo a
delação (62).
Os religiosos, os positivistas, os republicanos e democratas defini-
am o governo brasileiro como "a gloria da nossa civilização". A este
posicionamento, Florentino deCarvalho opõe vários momentos históri-
cos nos quais oEstado brasileiro agiu barbaramente comostrabalhado-
res, promovendo crueldades inumeráveis contra as vidas dosprodutores
dariqueza social no Contestado, nailha das Cobras, no Oiapoque eem.
outras localidades (85).
Florentino de Carvalho evidencia o ato levado a efeito pela Igrej a
romana, sacramentando uma sociedade capitalista, opressora, despótica
eexploradora. As desigualdades sociais encontravam explicação ej us-
tificativa na vontade de um deus todo-poderoso, inexistindo qualquer
possibilidade desubversão detal ordemsocial. Assim, indivíduos eco-
letividades encontravam-se gangrenados emsuas capacidades revolucio-
nárias ao choque do olhar fatal damedusa chamada religião (91). Evi-
dencia a articulação edependência das religiões edoutrinas filosóficas
comas demais instâncias sociais. A idéia, difundida aberta ousutilmen-
te pelos religiosos efilósofos segundo a qual areligião diz respeito úni-
ca eexclusivamente às questões espirituais, consistia numledo engano.
As religiões edoutrinas filosóficas não só estavam ligadas intimamente
aos demais segmentos sociais como eram determinados pela dinâmica
social enão o contrário. emuito menos seria a religião neutra na socie-
dade. Os religiosos. são capazes demodificarem até a essência de suas
crenças edoutrinas, dependendo dos novos interesses, das conveniênci-
as edas forças dos partidos envolvidos. Todos transigem comos siste-
mas econômicos epolíticos, quer sej a o cristianismo, o positivismo, a
democracia republicana ouademocracia socialista. Por esta razão estes
partidos e seitas são incapazes de evitar o retrocesso social "para as
épocas ~ebarbárie'' (40).
123
I
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A religião é um significativo obstáculo às potencialidades
transformadoras próprias do ser humano. Assim, o desenvolvimento
humano rumo aumamaior elevação moral eintelectual tinha nareligião
uma grande barreira cerceadora do dinamismo social. O estabelecimen-
to dapaz, daharmonia, daj ustiça, dasolidariedade edemais predicados
deuma sociedade nova eramprej udicados pelos conceitos eprej uízos
religiosos, cívicos edamoral burguesa (88). A religião surgecomofator
deregressão edegeneração intelectual dos povos, uma vez que "a evo-
lução religiosa éaobliteração das faculdades intelectuais" (94). Diante
defatos eacontecimentos castatróficos, onde o momento exigiria uma
ação eficaz, direta erápida para pôr fim a umprocesso destrutivo, as
religiões apenas conduziam as pessoas aIamentações, choros ealucina-
ções, sendo incapazes dearrastarem as pessoas numa ação contrária à
tendência destrutiva. A Primeira Grande Guerra Mundial constituiu um
exemplo concreto daletargia aqueareligião conduziu pessoas ecoleti-
vidades, pois diante daquela carnificina' as igrej as nada fizeram para
estancar tal processo destrutivo (91).
"A religião caracteriza-se por umcompleto indiferentismo àvida material e
moral, rompe todos os laços sociais. O religioso não sepertence, nempertence
aos seus.
O amor é vaporoso no indivíduo místico. A religião apaga esse princípio
essencial davida. Emobediência aumprincípio abstrato, auma ordemmisterio- .
S3, abandona pátria, família, sociedade, não para atingir oideal, mas para perse-
guir por tempo vitalício uma ficção. (...) ,
A religião éperturbadora dasrelações no,seiodas próprias seitas. E umespe-
cífico deduplo efeito: enerva a sensibilidade eprovoca anevrose,
A irascibilidade eacrueldade são aidiosincrasia da seita cristã.
Em todas as épocas a exaltação religiosa e colapso das civilizações coinci-
dern" (94).
Apesar de ter sido um critico ferrenho das religiões e filosofias
metafisicas, Florentino de Carvalho não deixou de registrar ter tido o
cristianismo eopositivismo, emsuas origens, bases igualitárias. Ambas
eram"reminiscências das antigas concepções comunistas", pois davam
"àriqueza social uma origemeuma finalidade universais" . .As causas
doabandono desuas tendências deveu-se às "taras hereditárias dos nos-
sos ancestrais, temperadas nos misticismos rudimentares, nos egoísmos
grosseiros" etambém "àinconsciência, àimperfeição das faculdades da
nossa espécie". Estas vicissitudes nas concepções do cristianismo edo
positivismopossibilitaram aconcretização do"governo dos bonzos, dos
124----------------------- .
militares, e mais tarde, do Estado civil", A partir de então a riqueza
social passou a ser usurpada dacoletividade (64),
Florentino de Carvalho criticou severamente as religiões susten-
tando teremelas caráter equivocado para afundamentação dasociabili-
dade humana. Entretanto reconhecia o direito da prática religiosa de-
vendo existir, numa sociedadelibertária, ahorizontalização dos cultos e
das religiões. Emsuas palavras:
"A Igrej a sofreu, como todas as instituições, oinfluxo daRevolução Ociden-
tal, mas soube no entanto conservar, mais oumimos intacto o seuregimeinterno,
coma correspondente hierarquia eclesiástica. (...)
Dado, porém, a evolução moral danossa época, não estádemais acrescentar
à idéia da liberdade de cultos a idéia da liberdade espiritual no seio da grei re-
ligiosa. Estamos emqueos crentes devemexercer osrespectivos cultos semdiri-
gentes especiais, sempastores, semintermediérios. Batamos emqueosfiéis de-
vem colocar-se acima da categoriaderebanho econquistaremo direitodecidada-
nia. . .
A indústria da religião, a aristocracia clerical, o profissionalismo de culto,
estão chamados a desaparecer.
Todos os fiéis fazemj us ao sacerdócio.
Estes princípios restabelecem a liberdade religiosa, a democratização re-
ligiosa.
Em síntese, eles estabelecem que os verdadeiros irmãos encontram-se no
mesmo pé deigualdade" (95).
Nacionalismo: Ex clu si vi smo, Reli gi osi da de e Domi na ção
, Florentino de Carvalho dedicou-setambém a analisar onacionalis-
mo enquanto fenômeno social. Podemos perceber emvários de seus
artigos ter sido eleumcrítico ferrenho do modelo decivilização funda-
mentado no patriotismo, nativismo ounacionalismo (36). Opatriotismo
outrora significava sentimento afetivo, nostálgico, saudades do lugar
ondeoindivíduo obtevemaior soma dealegrias efelicidades. Entretan-
toestesentimentofoi "deturpado, explorado, transformado emapostolado
deidéias nativistas, emevangelhodonacionalismo edo estatismo, edos
seus subseqüentes elementosnocivos, omilitarismo, oelecionismo, etc.".
Delineia uma das características mais graves do nacionalismo ao
compará-lo comuma das principais características do anarquismo: seu
exclusivismo nacionalista aparece pequeno, mesquinho ,eridículo ante
o ideal de fratemidade universal do cosmopolitismo ácrata. O ex-
125
I
clusivismo e responsável pelas beligerâncias latentes e manifestas. O
anarquismo, por ser essencialmente internacionalista portanto contrario
ao exclusivismo patriótico, inclina-se totalmente à harmonia e à fra-
temidade mundial (59).
Ianni (140) eAnderson (103) desenvolvem estudos muito ricos so-
bre aquestão danação. No primeiro encontramos reflexões que procu-
ramesclarecer os encontros entre onacionalismo eosinteresses declas-
sena sociedade burguesa. No segundo encontramos uma preocupação
emdemarcar como sedeu osurgimento eformação do sentimento nacío-
nalista e sua definição enquanto "comunidade imaginada", evidencian-
do, desta maneira, o caráter simbólico, cultural, do nacionalismo.
Opositivismo, como doutrina da servidão edo arbítrio, desdobrou-
sepor umlado emvários racismos e, por outro, emvários nacionalis-
mos. Tendo no positivismo sua raiz mais próxima, ena religião amais
remota, os racismos eos nacionalismos. constituíram-se emnovas dou-
trinas defensoras daidéia do sacrificio eda submissão total dos indiví-
duos aoutras abstrações: a raça eapátria, respectivamente. Da mesma
forma que a religião e o positivisrno, os racismos e os nacionalismos
careciam defundamento lógico everdadeiro, Ut11avez basearem-se nas
mesmas idéias deopressão, exploração, violência einj ustiça. Todas anti-
sociais por colocarem o homem ematitudes beligerantes com seus se-
melhantes (91). Uma das mais graves conseqüências do nacionalismo é
ofato deleconduzir ospovos àguerra, ao mesmo tempo emque obscu-
recetodos os belos ideais (92). Na verdade o patriotismo constitui, no
pensamento deFlorentino deCarvalho, umanova religião ondeapátria,
ouanação, exerce omesmo papel das divindades nas religiões. A pátria
constitui uma "nova divindade indefinida e indefinível" alimentando o
preconceito do culto à bandeira e, por ser exclusivista, é contrária à
"solidariedade humana" incentivando e promovendo as conflagrações
bélicas entre as nações (93). Quanto à bandeira nacional, elanão repre-
senta demodo algumanação. Ela é, naverdade, o "símbolo doj ugo que
a classe capitalistacolocou sobre anuca da classe trabalhadora". (40)
Ao combater a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial,
Florentino de Carvalho argumentou ser o patriotismo invocado pelos
governantes para convencer apopulação aguerrear contra aAlemanha.
Completando seu raciocínio, Florentino afirmou que sendo oBrasil dos
capitalistas, os quáis na grande maioria eram estrangeiros, e como a
riqueza social era apropriada pej os poucos capitalistas ao passo emque
126
apopulação trabalhadora encontrava-se mergulhada na mais aberrante
miséria epenúria, então queospróprios capitalistas fossemfazer aguerra
(52). Os govemantes brasileiros, quando precisavam de braços para a
guerra, lançavam mão do patriotismo, tratando atodos debrasileiros,
fazendo-os esquecer as desigualdades sociais e, assim, sedimentando
seus proj etos dedominação. Entretanto, quando estes mesmos trabalha-
dores manifestavam-se insatisfeitos, protestando contra suas condições
devida edetrabalho, os governantes soltavam asoldadesca sobre eles,
chamando-os de "plebe maldita" ede "corj a debandidos" (39).
Os alemães são mencionados por Florentino de Carvalho corno o
povo mais aferrado às idéias nacionalistas. Contudo, acrescenta, o go-
verno brasileiro não ficava para trás, pois osgovernantes nacionais "in-
tensificaram o ensino nacionalista"; "difundiram o nativismo, o
j acobinismo"; "instituíram o serviço militar obrigatório"; "criaram as
linhas detiro"; criaram "as sociedades dacruz vermelha"; organizaram
as crianças das escolas públicas para desfilarem fardadas ecomarma-
mentos emminiatura (59).
Os governantes falavam empatriotismo enquanto serefestelavam e
entorpeciam emregalias eprivilégios. Ao trabalhador, por outro lado,
impunham miséria tremenda (41). Os patriotas, os milionários, os esta-
distas, os marechais, os generais, os deputados, os presidentes, os mi-
nistros, os senadores, dizendo-se defensores da pátria, na verdade pro-
movemverdadeiros assaltos ao orçamento dos trabalhadores através de
seus altos salários edosaltos impostos (39). Denuncia existir por trás da
ondapatriótica queassolava oBrasil naqueles anos, umproj eto deapoio
aos dorninadores, demaneira agarantir emanter as suas explorações e
violências. Oschamadospaisdapátriaalémdeagireminescrupulosamente, .
sacrificavam apopulação aos seus interesses mesquinhos (35). Refere-
se, emseu primeiro livro, avárias ilusões criadas pela sociedade explo-
radora afimdemelhor dominar eextorquir os trabalhadores:
"O livre arbitrismo criou a ilusão da liberdade espiritual, a filosofia demo-
crata burguesa criou a ilusão da soberania popular, o pensamento socialista eo
comunista político descobriram (?) a ilusão da soberania dos trabalhadores, da
ditadura do proletariado.
E sabido como os sectários cristãos sesentiam livres nas malhas da Inquisiçâo,
como o povo fanatizado pela política se considera soberano na república, e se
j ulga ditadoi' no Estado comunista (?) russo.
Estas ilusões dão, por sua vez, a ilusão da felicidade e da gloria" (94).
127
' •••••• L •• '
.--"... --r-
~------_._---_._._-- -----_.._-_._._-- ... __ ..
Florentino de Carvalho nos dá Iímpidas definições depátria, do na-
cionalismo, como também das atitudes características dos patriotas, Oll
nacionalistas, Assim, apátria
"é o sustentáculo dos limites nacionalistas, da luta de conquista.ida guerra com
todos os seus horrores e crimes, do capitalismo e da propriedade, que são a ori-
gem da miséria; braço forte do Estado edas instituições do clero edo milita ris-
1110, que submetem os povos pelo fanatismo e pela espada; alicerce de todas as
perturbações e todas as violências" (18),
De seu lado os nacionalistas,
"podem lavar as mãos 1108 lagos de sangue derramado pela plebe 110S campos de
batalha, em favor da acumulação de grandes capitais e domínios para as castas
dirigentes, epara o poder e grandeza dos impérios, que aumentam o seu despotis-
mo em razão de sua força.
Os cívicos podem bater palmas, aplaudindo uma situação angustiosa, deter-
minadas pelas lutas presidenciais corruptoras de todos os que fazem caso dessas
fantochadas e estúpidas idolatrias criadoras de novos chefes ou tiranos, que são a
antitesede todas as liberdades.
Que importa ao povo, que sej a presidente o Rui Barbosa ou o Pinheiro Ma-
chado? V ai algum deles abolir a propriedade individual, decretar a dissolução do
estado com todas as suas instituições - únicos motivos que poderiam interessar
ao povo? Nada disso: sej a quem for o que governe ele tratará de defender a pro-
priedade, o Estado, a exploração e todas as misérias, vícios e corrupções que
sirvam para embrutecer as massas e torná-Ias mais governáveis" (18),
Ainda tratando dos nacionalistas, Florentino de Carvalho caracteri-
za da seguinte forma suas atitudes:
"Os chamados beneméritos da uátria dedicam-se a mandar construir vasos
de guerra, canhões, mausers, para I~etralhal' o povo quando este se rebela contra
os abusos do poder, Ainda assim reservam para si, destas despesas, lima gorj eta
que frequentemente importa em metade dos orçamentos.
Levantam cárceres para engaiolar a quem os incomoda.
Fabricam leis para que os outros obedeçam às suas ordens.
Laçam impostos, taras e gabelas, para arrecadar o dinheiro do contribuinte e
reparti-Io entre eles, como U16S apraz, Mandam prender, deportar, espaldeirar ou
assassinar a quem se queixa de fome.
Criam escolas para embrutecer a infância.
Fazem construir asilos para que as privações e o desemprego continuem exis-
tindo, mas que não se caibam na via pública.
Desprezam e maltratam os deserdados quer nacionais ou estrangeiros.
Cerceiam a liberdade de pensamento, de reunião e de associação.
V iolam os domicílios e atropelam até as mulheres e as crianças" (89).
128
---_._-----,-------------,-_._.-
Apesar dos estadistas brasileiros vangloriarem-se dizendo ser o Es-
tado moderno laico,argumentando existir de fato uma real separação
entre os poderes temporal e espiritual, o civismo estatal caracteriza-se
por ser reacionário e religioso (25).
Trabalhadores, Companheiros e o Sindicalismo
Florentino de Carvalho defendia a necessidade de maior inserção
social dos anarquistas. Critica vatrabalhadores e companheiros deideal,
no Brasil e fora dele quanto a esta questão.Seus artigos enfatizam cer-
tos posicionamentos adotados em determinados momentos históricos
pelos trabalhadores e outros anarquistas, como também quanto às opi-
niões sobre questões ligadas a adoção de uma atitude dos anarquistas
quanto ao movimento operário entre outros assuntos,práticas e doutri-
nas.No que diz respeito a seus companheiros de ideal,Florentino teve
algumas divergências, tanto teóricas como práticas. Procurava orientar
os trabalhadores quanto à melhor forma de divulgar os ideais anarquis-
tas na sociedade,advertindo-os para não semanterem apenas no âmbito
das idéias e da doutrinação, instando-os a inserirem-se,defato, na socie-
dade. O isolamento conduz, inevitavelmente, qualquer organização à
capitulação. Desta maneira não deveriam ser displicentes,nemtampouco
indiferentes, com relação ao movimento operário numa revolução soci-
al.Sustentava ser necessária a união dos trabalhadores do campo e da
cidade para uma vitoriosa revolução social (23).
A ausência dos anarquistas junto àpopulação constituía a causa prin-
cipal dapermanência dadominação burguesa.A omissão deixava umenor-
me espaço para a propaganda religiosa,política e governamental (26).
Esta mesma crítica fez aos anarquistas detodo mundo (24).Refutou com
veemência a idéia defendida por alguns anarquistas,sindicalistas eindivi-
dualistas segundo a qual o anarquismo não tinha nenhuma relação como
movimento operário.Para eletal postura consistia numtremendo equívo-
co pois o anarquismo surgiu exatamente dentro do seio do movimento de
reivindicação dos trabalhadores, particularmente dentro da Primeira As-
sociação dos Trabalhadores. Para Florentino de Carvalho havia uminimi-
.go mais ameaçador que os republicanos,os socialistas,os monárquicos,
os católicos: a covardia.Esta,dizia,erauma das maiores mazelas aatingir
alguns anarquistas, sindicalistas e individualistas,conhecedores dos ma-
les sociais.A pusilanimidade os impedia deadotar uma ação regeneradora
129
r-----· ----
.1
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do ser humano no interior da sociedade.Outro fator altamente prejudicial
à propaganda eà ação anarquista era aforma comquealguns anarquistas
conduziam as divergências e diferenças existentes entre si.As discussões
quanto aos diferentes métodos de luta social propostos pelos anarquistas
eram intennediados, algumas vezes,com contendas,criticas violentas e
irônicas,Criticou estasituação,advertindo ser acriticamordaz edissolvente
daninha ao progresso e à difusão do anarquismo (26).
Antevendo momentos de grandes crises no país devido ao aumento
da miséria,da fome,do desemprego e da carestia de vida,Florentino de
Carvalho registrou a "eclosão de protestos por todo o Brasil".Entretan-
to tais protestos não resultaram emfrutos duradouros econsistentes por
"falta de uma poderosa organização proletária e uma superior cultura
popular". Os trabalhadores da construção civil constituíam exemplos de
recuo das conquistas dos trabalhadores, pois não mantiveram a conquis-
tada jornada de oito horas,fruto dos esforços e das lutas dos trabalha-
dores conscientes e.mais ativos (18).Perderam esta conquista por não se
empenharem na sua difusão emtodos os setores da "classe" [categoria],
além do que tinham caído no engodo das horas extras. Os patrões ti-
nham acenado com o pagamento do extraordinário como forma de lhes
aumentar o salário.Desta maneira, os patrões empouco tempo fizeram
o custo de vida ultrapassar o salário,voltando os trabalhadores à situa-
ção anterior.Em artigo escrito após uma de suas viagens depropaganda,
Florentino de Carvalho,entre outras coisas,criticou ostrabalhadores da
cidade paulista de Araraquara por serem bondosos em demasia e con-
descendentes' com estranhos oportunistas, sofrendo com isso as conse-
qüências de sua ingenuidade (36).Dirigiu críticas também aos compa-
nheiros anarquistas da cidade paulista de São Manoel por se calarem
ante a caótica situação social de sua localidade. A atitude destes anar-
quistas devia-se a temores quanto à própria estabilidade econômica.
Florentino de Carvalho evidenciou existir limites tanto para o sacrificio
quanto para a transigência, sustentando existirem,além das necessida-
des materiais, as nêcessidades morais a serem satisfeitas (42).
Em outro artigo; Florentino de Carvalho registra ter um ex-compa-
nheiro de ideal; cujo pseudônimo era Cândido e nome verdadeiro era
Cherchiai,declarado a falência do anarquismo. Critica-o afirmando ter
ele se servido do "bizantinismo e do sofisma" para expor o pensamento
de Proudhon, distorcendo o pensamento do anarquista francês (81).
Em artigo escrito durante a greve de 1917 emSão Paulo,Florentino
de Carvalho tece uma crítica aos trabalhadores brasileiros por demons-
130
trarem,no geral,um caráter servil e de inconsciência ante os problemas
que os afligiam como também ante as explorações eviolências governa-
mentais,facilitando a ação dos açambarcadores (75).
Critica também a CGT francesa a qual,ao dizer-se propulsora do
"movimento sindicalista internacional", estabelece princípios não tão
claros quanto aos seus reais objetivos. Citando os dois princípios da
organização francesa, nosso autor compara-os com as declarações de
princípios da Associação Internacional dos Trabalhadores. Desta com-
paração conclui ter feito a COT francesa "incalculáveis progressos para
trás". Diante da clareza dos princípios daPrimeira AIT,a organização
francesa apresentava princípios dúbios,que não esclareciam,de fato,a
orientação e objetivos por ela perseguidos. Sua ação não se dava no
sentido da emancipação dos oprimidos (8).
Em alguns artigos, Florentino de Carvalho desenvolve polêmicas
com um companheiro anarquista tanto por seu posicionamento ante
métodos de luta social como por suas críticas ao movimento operário.
Angelo Bandoni criticou a Unione Sindicale Italiana por entender ter
esta semanifestado favorável àPrimeira Guerra Mundial.Para Florentino
fora Dambris quem foi favorável à guerra, e não a Unione(24). Em
outro artigo, novamente Florentino de Carvalho desenvolve.polêmicas
com seu companheiro de ideal Bandoni.Para ele,Bandoni equivocava-
se ao sustentar ser o sindicato contrário ao ideal anarquista. Apesar das
críticas contundentes e reservas declaradas quanto às limitações própri-
as da natureza do sindicalismo,Florentino faz questão de evidenciar sua
rejeição às idéias de Bandoni,acrescentando constituir o sindicato um
dos espaços daprática Iíbertária e solidária.A seguir,ao registrar defen-
der Bandoni a luta pela conquista das reivindicações dos trabalhadores,.
lança-lhe uma questão procurando saber como se dariam as conquistas
dos trabalhadores sem a existência de uma organização efetiva dos tra-
balhadores (27):
A Revolução Russa provocou uma celeuma dentro do movimento
anarquista no Brasil.Em artigo onde saúda e comenta os acontecimen-
tos da Rússia, Florentino de Carvalho,além de criticar as calúnias le-
vantadas pelos burgueses sobre o que se sucedia naquele país,eviden-
ciou o caráter benéfico da revolução sem dela fazer apologia.De fato,
mantinha fortes reservas quanto ao sentido libertário da citada revolu-
ção uma vez que não esquecia ser o Estado natural e estruturalmente
contrário aos ideais eprincípios anarquistas. Alguns anarquistas empol-
garam-se com a eclosão da Revolução Russa, registra Florentino de
131
-----_._----------------
Carvalho,iniciando mesmo a propagar a idéia da necessidade da forma-
ção de um "partido socialista-maximalista, o qual teria por fim,entre
outras coisas, a conquista do Estado burguês, empregando o processo
eleitoral,transformando-o em Estado maximalista", Florentino de Car-
valho critica com vigor a idéia da aplicação, no Brasil, dos métodos
bolchevistas. Isto porque adotar tais métodos constituía "embaraços à
ação francamente libertária dos trabalhadores e dos revolucionários". A
implantação de umEstado maximalista no Brasil constituiria um verda-
deiro disparate, sem esquecer do fato de ser também um significativo
obstáculo à libertação do ser humano (71).
Florentino de Carvalho em artigo onde combatia as guerras, e es-
pecificamente a Primeira Guerra Mundial,reflete sobre suas conseqüên-
cias e critica a contribuição dada por conhecidos edesconhecidos traba-
lhadores e militantes anarquistas ao desenvolvimento daquele horrendo
espetáculo de carnificinas e estupidez. Os idealistas que se perderam
diante do conflito,alimentando o processo destrutivo da guerra, foram
criticados por ele.O revolucionário russo Piotr Kropotkin, e um dos
pioneiros da causa anarquista, foi por ele criticado. Kropotkin justifi-
cou o conflito armado que ameaçava todo o mundo, acreditando ser a
guerra uma maneira de pôr termo aos impérios belicosos. Florentino de
Carvalho sustenta,contra Kropotkin,ser a vitória dos aliados o início de
ditaduras militares por todo mundo (92).
Pierre-J oseph Proudhon, um dos pais da sociologia, foi inegavel-
mente um grande colaborador tanto na formação do pensamento anar-
quista como também na dinâmica da Primeira AIT,sem esquecer ter
sido o primeiro a reivindicar o epiteto de anarquista, evidenciando o
significado positivo do termo,Sem dúvida,seus escritos ainda inspiram
aqueles que acreditam e lutam por uma sociedade livre e solidária. Em
Proudhon encontramos no mutualismo a sua proposta de reorganização
social com bases autogestionárias, pluralista, Semexploração econômi-
ca,sem dominação nem centralização política e nem obscurantismos e
superstições religiosas.O conjunto depropostas elaboradas por Proudhon
ainda exercia uma influência no movimento dos trabalhadores, tendo
sido praticado, ainda que parcialmente, em alguns países. Contudo,
Florentino de Carvalho criticou o mutualismo por vê-lo como urna espé-
cie de camisa-de-força posta no proletariado, pois paralisava aenergia
dos trr.balhadores revolucionários envolvidos num projeto de transfor-
mação social. O cooperativismo sofreu as mesmas criticas do (flutua-
132
lismo (22).O cooperativismo conduz os trabalhadores ao socialismo de
Estado e ao individualismo burguês (24).
Florentino de Carvalho procurava orientar os despossuídos quanto
aos caminhos,métodos eformas desealcançar aliberdade,justiça,igual-
dade e fraternidade social, eliminado todos os fatores de dominação,
engano,aviltamento e degeneração individual e social.Assim,não bas-
tava conhecer os caminhos dos objetivos desejados.Imperativo era tam-
bém conhecer os caminhos que os conduziriam para longe dos objetivos
de emancipação social.Desta maneira nã.ose cansava dealertar o prole-
tariado quanto a eventuais desvios dos objetivos libertários. Elaborou,
assim,profundas reflexões expondo a importância dos sindicatos adver-
tindo-os, ao mesmo tempo, para as limitações da natureza do sin-
dicalismo. O sindicalismo funciona como um barreira aos horizontes de
libertação dos oprimidos, pois é essencialmente corporativista (24).A
questão social não selimita aos aspectos econômicos.Portanto os traba-
lhadores não deveriam limitar-se às reivindicações sindicais. O sindica-
to deveria ser "uma agremiação incipiente,defunções muito restritas,e,
a luta,e bem assim,as aspirações sindicais,estão longe depreencher as
necessidades requeri das petas reivindicações capitais edecisivas do pro-
letariado" (86).O sindicalismo é apenas mais um meio de luta dos ex-
plorados na conquista da emancipação social,traduzindo uma luta par-
cial. Contudo, esta parcialidade significava mesmo a limitação do
sindicalismo, enquanto o anarquismo possuía largos horizontes incluin-
do tudo o que dissesse respeito ao ser humano,à vida de relação (84).
Carvalho dedica todo o capítulo XVI de sua primeira obra à análise
do sindicalismo. Conclui pela sua falência e111 possibilitar e promover ti.
emancipação humana.Parte da definição de sindicalismo dada por socia-
listas e comunistas como sendo "um movimento de classes destinado a
servir de apêndice à respectiva ação econômica,política eeleitoral,com
caráter subalterno", e da posição de alguns anarquistas como Rodolf
Rocker que "admitem certo movimento sindicalista como fator revolu-
cionário",para desenvôlver criticas a ambas as definições. O sindicalismo
é visto então como um desdobramento do movimento operário geral.
Daí ter evidenciado ser necessário, antes de definir o sindicalismo, que
fosse definido o movimento operário. Assim,Florentino de Carvalho
delineia os tipos de sindicalismo apontando a apropriação, por parte
dos sindicalistas, de elementos do marxismo; analisando seus postula-
dos esuas limitações, características reacionárias, conservadoras, COI'"
porativista, exclusivista, regionalista,nacionalista, estatista e seu amo-
i
133,(--.~------._-_._--------_.
ralismo (94).Os sindicatos eram de dois tipos: os que eram "mais ou
menos revolucionários ou orientados pela ação direta" e os reformistas
(84).Havia mesmo um sindicalismo "neutral" em explícito antagonis-
mo com as idéias delibertação social defendidas pelo anarquismo (24).
Como vimos,nos primeiros capítulos, Florentino de Carvalho ini-
ciou sua militância e reflexões sobre os problemas sociais dentro do
movimento sindical,junto com os trabalhadores. Participou ativamente
das várias ccmissões que envolviam questões sociais,criadas pelos pró-
prios trabalhadores. Colaborou com o desenvolvimento de um pensa-
mento nitidamente operário através de colaborações nos jornais e revis-
tas proletárias, sem esquecer dos livros e das diversas escolas fundadas
em vários estados brasileiros e até mesmo fora do Brasil. Enfim, sua
vasta contribuição prática e teórica iniciou-se e desenvolveu-se com o
movimento do proletariado.
Entretanto nos idos de 1933,Florentino de Carvalho registra seu
afastamento do movimento sindical, expondo as razões de sua atitude.
O afastamento deveu-se fundamentalmente à orientação prática e teó-
rica dos sindicatos à época (86).Florentino além defazer uma sinopse
de como se davam as ações dos sindicatos brasileiros nas duas primei-
ras décadas deste século, elaborou uma análise dos rumos tomados
pelos sindicatos já no início dos anos 30.Evidenciou terem os sindica-
tos no Brasil contra si,além das limitações, outros fatores agravantes
como ausência de minorias de trabalhadores libertários com aspira-
ções mais elevadas que a das meras conquistas imediatas. Esta carên-
cia fazia os sindicatos caminharem a esmo em busca das reivindica-
ções econômicas, inexistindo a promoção de uma educação nos mol-
des do ensino racionalista, de estudos, de ciência, enfim,de conheci-
mento. Não havia divulgação das idéias anarquistas no interior dos
sindicatos, os quais tomaram-se temerosos e pusilânimes. Fato mais
grave ainda foi os sindicatos terem deixado de lado as práticas
libertárias da fraternidade, da solidariedade, do protesto, da propagan-
da,do idealismo,da revolução, tomando-se corporativistas e imedia-
tistas ao extremo (8~6). .
oEnsino, os Professores e a Escola Oficial
Os anarquistas, emgeral,preocupam-se sobremaneira com a ques-
tão educativa como praticada na sociedade vigente e como deveria ser
134
numa perspectiva libertária.Unsdetiveram-se mais particuíarmente nes-
tas reflexões,analisando as escolas na sociedade dividida,e pondo em
prática várias experiências deeducação combase nosprincípios ácratas.
Florentino de Carvalho também elaborou um pensamento pedagógico.
Partindo de uma ácida crítica ao modelo de ensino oficial,baseado no
militarismo,no nacionalismo ena religião,procurou definir.os aspectos
de uma educação racionalista,oposta a todo preconceito,a todo obscu-
rantismo,a todo pensamento atrelado aos dominadores e exploradores.
Iniciemos esta parte pelas suas reflexões quanto ao ensino oficial.
patriótico e militar.Ele afirma peremptoriamente ser este ensino um ele-
mento de deturpação de todos os sentimentos humanitários.Tal tipo de
ensino amplia os fatores deperturbação social,promovendo o "progresso
da delinqüência,motivando o aumento das forças jurídicas, policiais e
militares,todos os elementos da repressão" (40).Afirma incisivamente
ser o ensino oficial totalmente avesso ehostil ao ensino racionalista,sen-
do antes,na verdade,um "verdadeiro curso de envenenamento"(93).O
ensino oficial consiste nU11l instrumento de todos os Estados e governos
para dominar econtrolar apopulação.É comesteobjetivo queesteensino
manifesta-se de diversas maneiras,a depender da forma do Estado e do
momento histórico.Assim,"na Rússia,a pedagogia tem por princípio a
infalibilidade do czar","na Itália,obriga-seos meninos das escolas acan-
tar hinos à monarquia e à casa deSavoia","na Argentina os professores
ensinamque a República éo estado normal da sociedade" (93).As esco-
las primárias são verdadeiros templos damentira,"tabernáculos deincon-
gruências",deonde "não saemhomens ilustres,saemverdadeirospatetas
que perderam o senso da razão edalógica" (61).Critica o ensino oficial,
religioso,militar e nacionalista entendendo-o como tendo um profundo
efeito devastador:
"O ensino,sob os auspícios da Igreja ou do Estado,não tem competidor na
devastação da natureza humana. O livro e o mestre (sacerdote ou leigo),fazem
mais estragos do que o cabo de guerra,o canhão e os gases asfixiantes.
Não se pode imaginãr maior violência,executada com estudados métodos e
maneiras de mansidão e piedade." (94).
Mais adiante critica o utilitarismo decurta visão do ensino burguês:
"A instrução da burguesia tem um fun puramente utilitário: uma carreira
comercial; militar,clerical ou policial,conforme as necessidades da máquina re-
ligiosa,econômica ou política" (94).
135
I
A militarização das escolas também é outro mecanismo utilizado pe-
los donos do poder a fimdepoderem mais eficazmente dominar a popula-
ção.Além de ser um absurdo, significa também uma afronta direta às
liberdades individuais,provocando a ruína econômica e moral da nação.
Existia,na verdade,muita resistência por parte da população quanto à
militarização do ensino.Apesar desta resistência,os cidadãos comuns eram
"educados na religião do civismo estatal e reacionário" (25).Florentino
de Carvalho denunciava incansavelmente os efeitos da instrução adminis-
trada às crianças através do Estado como sendo fator de embrutecimento
eidiotização,servindo apenas para submeter toda apopulação aos capita-
listas egovemantes (40).Elaborou uma lista deprejuízos do ensino ofici-
al às crianças.Assim,num primeiro momento evidencia o fato deste ensi-
no despertar nas crianças: "instinto de raça", "o gosto pelas armas", o
gosto pelo assassinato e a vontade de guerrear. Além disso este ensino,
inculca nas "crianças o sentimento do dever"; o nacionalismo; a obediên-
cia cega,ferindo a liberdade e os direitos pessoais; a noção de hierarquia
das nações, de castas e de classe; a noção de "indivíduos superiores e
inferiores"; cria nos primeiros os sentimentos de dominação e violência,e
nos segundos os sentimentos de "resignação e acatamento" (93).
O Estado,através do ensino oficial,do professor e do livro,ensina a
arte de guerrear (92).O ensino nacionalista, militarizado e oficial,pro-
duz péssimos resultados: exaltação do nacionalismo; ensino de enga-
nos; faculta maior dominação da classe capitalista sobre a classe traba-
lhadora; induz os trabalhadores à obediência cega às leis criadas pelos
dominadores; prática do culto ao Estado; gera no proletariado inclina-
ções à subserviência ante os privilegiados (40).Assim o ensino estatal
não é educação. O Estado procura não educar, mas antes modelar as
pessoas de modo a distanciá-Ias de um "desenvolvimento natural", me-
lhor preservando o "regime político ou religioso estabelecido". Além
disso o ensino oficial.produz e111seus alunos uma série de "vícios e
enfermidades'va saber: "pessimismo", "tristeza", "temperamento irascí-
vel","orgulho exagerado", "presunção", "ódio e desprezo ao estrangei-
ro","inclinação a ferir com gestos e com palavras a suscetibilidade de
outrem,sentindo prazer em irritar e humilhar", "inveja dos que gozam
melhores regalias", "falsa comiseração pela extrema pobreza que refle-
te a diferença de condições" (93).
O Estado age sistematicamente emdireção contrária à elevação inte-
lectual e artística dos indivíduos,inoculando-Ihes a idéia do civismo e da
136
obediência cega (34).Onde o Est.ado coloca suas mãos há na verdade
intenções de dominação. As escolas estatais são catequizadoras e
enlouquecedoras da infância e da juventude (39).Os alunos tornam-se
orgulhosos,irascíveis egrosseiros,perdendo os pendores da bondadeeda
justiça. Tomam-se xenófobos,passando a desprezar os de baixa condi-
ções sociais; desprezando até seus próprios pais; passando a rejeitar a
todos os que os cercavam eamando exclusivamente apenas "a sua espada
e bandeirinha nacional".Passavam também a pensar apenas emsubir de
posição na vida pública e política.Quando as ilusões de grandeza caem
por terra,os indivíduos tomam-se boêmios,vadios,ladrões e explorado-
res (40).Aindamais grave,oEstado subvenciona instituições deparasitas
religiosos que,em seus conventos,colégios e orfanatos,escravizam,ex-
ploram e corrompem com seus vícios os filhos dos trabalhadores (39):
O Estado procura sempre exercer um maior controle e domínio so-
bre a população, utilizando para tanto o ensino oficial emconjunto com
o ensino religioso como um poderosíssimo instrumento de dominação.
Florentino aponta no criador do positivismo o referencial filosófico do
ensino oficial. Segundo a concepção pedagógica de Comte, o ensino
deveria ser diferenciado: "aos ricos deve ser dada uma instrução inte-
gral ou universitária, eaos operários uma instrução elementar eprofis-
sional". O ensino ministrado à população trabalhadora deveria ser me-
ramente de modo a mais facilmente integrá-Ia ao modelo capitalista.
OEstado coloca em prática o "tecnicismo pedagógico" utilizando-
se do método intuitivo demonstrativo para manter intato o regime esta-
belecido. Os avanços pedagógicos são utilizados parcialmente pelos
Estados os quais rejeitam todo método,toda instrução e educação que
representem uma ameaça aos privilégios.De fato todos os estados,to-
das as "castas aristocráticas ou burguesas" desprezam "o método racio-
nal de analisar e conceber a natureza e a vida" (93).O professorado,
como elemento responsável no processo educativo,também é objeto de
crítica de Florentino de Carvalho. No caso do ensino estatal, oficial,
militarizado,nacionalista ereligioso,o professor consiste no instrumento
mais determinante ao projeto de dominação. Ele ensina absurdos aos
alunos "produzindo neles a aberração dos sentidos". Por outro lado eles
também são vítimas do sistema violento e repressor da sociedade capi-
talista. Sua liberdade étolhida pela ação da aristocracia reacionária,que
lhes impõe um programa de ensino com idéias e interesses dos domi-
nantes, transformando a pedagogia "num rosário de dogmas para a
catequese de inocentes iniciados em fetichismos grosseiros" (61).
137
Capítulo 5
oANARQUISMO
DE FLORENTINO DE CARVALHO
o anarquismo constitui-se para Florentino de Carvalho emprincipi-
os e postulados,de libertação dos oprimidos, exeqüíveis em quaisquer
agrupamentos humanos. Nos seus artigos encontramos indicações de
sua concepção de Anarquia e de anarquismo. Suas críticas, comentári-
os,reflexões e advertências contêm sua idéia particular do anarquismo,
Nos capítulos precedentes vimos as características da sociedade brasi-
leira do início deste século,as lutas e atitudes dos trabalhadores do Bra-
sil à época e várias críticas à sociedade a partir da perspectiva de
Florentino de Carvalho. Nestes capítulos percebemos delineadaa face
da Anarquia e,por outro lado,demonstram o que ela não é.' Pois não
basta saber apenas os objetivos a se alcançar: imperativo se faz conhe-
cer também os fatores e meios que conduzem o ser humano para longe
da emancipação social.
Anarquismo sem Adjetivos
Florentino de Carvalho assumiu urna posição dentro do anarquismo
ao lado de outras personalidades de projeção no movimento anarquista
mundial.Max Netlau,o Herôdoto do anarquismo, Ricardo Mella,Diego
Abad de Santillán definiam-se anarquistas ...sem adjetivos. Contudo,
isto não significa dizer que ele não adotasse uma das correntes do
anarquismo. De fato,podemos perceber ser ele adepto da corrente co-'
munista do anarquismo.Suas proposições para uma sociedade libertária,
sua concepção de anarquia, enfim,como delineava as linhas gerais de
uma sociedade anárquica, aponta-o como um adepto do anarco-comu-
nismo.Por outro lado,definir-se anarquista sem adjetivos indica uma
postura flexível diante das demais tendências ácratas, reconhecendo a
diversidade das realidades dos agrupamentos humanos e as necessida-
des distintas existentes emcada W11adelas.Este posicionamento dedes-
prendimento desdobrava-seem outros campos como com relação às
questões de métodos depropaganda, reflexão social eprática revolucio-
139
nária. Nestas questões, apresentava-se enquanto adepto incondicional
do pluralismo. Para ele, pluralismo significa prudência, mentalidade
aberta às vicissitudes da realidade social, maiores possibilidades de in-
serção social e tU11amelhor compreensão dos fenômenos sociais. Limi-
tal' os horizontes do pensamento e dá ação exclusivamente a uma escola
sociológica ou filosófica desemboca, de fato,na redução destas possibi-
lidades (17).
Conclarnando os anarquistas e os sindicalistas a intensificarem a
obra de crítica à sociedade capitalista como também a de propaganda
dos ideais ácratas, Florentino evidencia a necessidade de ação libertária
dentro e fora dos sindicatos. Refere-se a vários fatores sociais impondo
a necessidade do pluralismo na ação e reflexão. A começar pela diversi-
dade da constituição étnica da classe trabalhadora. Esta diversidade é
um fato a ser considerado nos estudos dos problemas sociais, sendo uma
condição básica para o entendimento das vicissitudes dos movimentos
sociais no Brasil. Outro dado relevante diz respeito à dificuldade, mais
que isso, à impossibilidade de organizar a totalidade dos trabalhadores
em associações de resistência. Caso o pensamento de libertação social e
sua propagação fossem baseados em princípios exclusivistas - o
sindicalísmo, o comunalismo, o municipalismo ou outros - todo esfor-
ço de construção de um movimento social emancipador seria inócuo,
pois a questão social abrange todos os aspectos do ser humano (23).Em
seu primeiro livro diz:
"A c0111una,'omunicípio,o sindicato,tomados como unidades sociais,C01110
sistemas orgânicos limitados,são instituições centralizadoras.A expressão pato-
lógica do grupo como unidade definitiva,expressão eminentemente absolutista,
já fez a sua história.Qualquer unidade local,regional ou universal,dessa ordem,
cerceia o desenvolvimento das sociedades" (94).
Outro dado demonstrativo da necessidade do pluralismo nos estu-
dos da sociedade: alguns grupos de trabalhadores abraçaram idéias con-
trárias aos ideais de emancipação social. Todos estes fatores conjugados
conduzem à necessidade de adoção de um posicionamento aberto e fle-
xível,tanto por trabalhadores como por anarquistas, no trato dos proble-
mas sociais (23).
Toma-se oportuno, então, questionar: Florentino de Carvalho pro-
punha o uso indiscriminado de todas as correntes etendências do pensa-
mento social para um me1110rconhecimento da dinâmica social e para
140
uma transformação da sociedade? Como associar projetos de libertação
social a idéias autoritárias e absolutistas? O que dizer das doutrinas so-
ciais e das filosofias intimamente ligadas a projetos de dominação, como
as doutrinas imperialistas, racistas ou nacionalistas? O conhecimento
destas doutrinas é válido ao anarquista ..."para melhor destrui-Ias", nos
responde Florentino de Carvalho (91). A luta libertaria deve acontecer
em todos os sentidos e direções possíveis, de modo a viabilizar o estabe-
lecimento da igualdade social. Foi assim que, ao dialogar com compa-
nheiros acerca do sindicalismo e sua relação C0111 os ideais ácratas, afir-
mou peremptoriamente sua posição de "anarquista sem adjetivos" (26).
O sindicato apresenta-se COi110 um dos meios de luta, não o único, o
melhor ou o mais importante:
"O simples fato de adotar, incidentalmente,as organizações operárias COI11O.
meio,fator de emancipação da humanidade, me obriga, de modo algum, a arvorar
o rótulo de sindicalista,que fica bem unica 111ente aos indivíduos cujas aspirações
não vão além da luta de classes,do melhoramento econômico ou de uma orzani-
zação social futura sobre as ba~es puramente sindicalistas" (26). ~.
oanarquismo enquanto doutrina social, é caracterizado como um
ideal cujos horizontes são amplos, antagonizando com concepções
exclusivistas como os nacionalismos, os racismos, os regionalismos, o
sindicalismo, o cooperativismo, o comunalismo entre outros. O anar-
quismo propõe a fraternidade de todos os povos, defendendo a completa
autonomia e liberdade solidária para todos (89).Ideal este a orientar e
iluminar o caminhar da humanidade à procura da paz e da igualdade
social (90).
Florentino de Carvalho registrou a forte penetração do anarquismo
em vários segmentos sociais como fábricas; escolas, na literatura, nas
alies, poesia, teatro, alem de outras, numa evidente prova de sua abran-
gência, resultando sempre em significativas mudanças socioculturais na
sociedade (15). O anarquismo concretizaria o estabelecimento de todos
os direitos do povo trabalhador e a vitória da liberdade sobre a tirania
(75). Os princípios básicos propostos pelo anarquismo são: o comunis-
mo, o internacionalismo e o antiestatismo (69).O surgimento e consti-
tuição do pensamento anarquista foi fruto de sucessivas evoluções do
pensamento social particularmente do materialismo filosófico. De seu
lado, o materialismo filosófico resultou do progresso material e cultural
do ser humano:
141
"Ao lado do progresso material produziu-se também () progres~o cultural. As
sucessivas concepções: teológicas, rneraflsicas, positivistas, materialistas dese-
nham com precisão os vários estados da evolução ascendente,
Ate o alvorecer do materialismo, não tendo os povos se libertado do pessi-
mismo latente, da concepção mística do Universo, nâo puderam, do mesmo modo, .
se eximirem da concepção autoritária.
Com o clarão, porem, do matéria lis1110filosófico ..a concepção anarquista
vingou, assentando no espírito humano os princípios de urna sociedadelibertária"
(64).
o matertaltsmo filosófico opôs-se as concepções de mundo funda-
mentadas na teologia, na idéia de transcendência e na metafisica. Não
deve ser confundido COIl1 o materialismo histórico, pois este se enqua-
dra no âmbito das idéias metafísicas Em outro momento Florentino de
Carvalho analisa e evidencia as especificidades do anarquismo, enume-
ra seus princípios e assinala seu desenvolvimento (1 partir das condições
históricas do pensamento social. Assim,sustenta ter surgido O anarquisrno
de uma seqüência no pensamento social que teve no materialismo o ponto
inicial. Diz ele:
"A anarquia é a pedra angular da vida de relação. À ciência desta ordem
moral chega-se, como já foi demonstrado, pelos superiores princípios universa is,
explicados pela filosofia materialista.
O materialismo fielmente interpretado conduz à inspiração Iibertária. (..:)
O materialismo obvia a Providência divina e li Providência política. A ciên-
cia e li experiência ensinam que o materialismo só se combina com o anarquismo;
que,à anarquia na vida cósmica corresponde a anarquia na vida social
Supor a unidade moral sobre a Natureza, segundo a Teologia, na Natureza,
segundo a Metafísica e o MOIl,ÍS1110 Haeckeliano, ou na Humanidade, segundo o
Positivismo, e acusar UJ l1a desordem filosófica, gênese da desordem social" (94).
Portanto, a evolução humana deu-se dentro da evolução do cosmos,
de modo a criar, a partir do dinamismo psíquico e químico, o dinamismo
dos princípios morais. Neste processo, o prirnata passou do estado ve-
getativo para o reflexivo adquirindo "a faculdade de abstrair" e desen-
volvendo sobremaneira o cérebro. A partir de então as "necessidades
concretas são acompanhadas das necessidades abstratas", iniciando a
vida gregária na espécie humana com "Wl1a feição mais ou menos igua-
litária". Os indivíduos e espécies são determinados por leis biológicas
para seu desenvolvimento e reprodução a saber: solidariedade e 'apoio
mútuo. Tais leis agem na espécie humana intensificando "a vida nos
aspectos físico; intelectual e moral".
142
.-""'''',
i'"
/"fi':···
---------.;.,.--------"--~......:--------i-
"As leis biológicas determinam nos indivíduos e nas espécies uma atividade
permanente, para o seu desenvolvimento e reprodução. Institivarnente conjugam
seus esforços praticando a solidariedade, o apoio mútuo.
No homem, esses pendores de sociabilidade tem por fim intensificar a vida
nos seus aspectos físico, intelectual e moral. Estes pendores são a força-motriz
que compele os homens à construção das suas choupanas, das suas charruas, das
suas máquinas, a descobrir a radiografia.
A evolução do Cosmos, criando o dinamismo físico e químícc, cria também o
dinamlame dos pl'inoipios lUornis; passando do estado vegetativo, o pdmata adqui-
re a faculdade de abstrair; o seu eérebre se desenvolve prodigiosamente. As neces-
sidades concretaa são desde então acompanhadas das necessidades abstratas e,a es-
pécie humana entra a esboçar os agrupamentos sociais, dando-lhes uma feição mais
ou menos igualitária" (64).
De seu lado,as leis estatais foram elaboradas em aberto confronto
com as leis naturais. As primeiras legalizam o roubo dos capitalistas
sobre os trabalhadores, legitimando as desigualdades sociais e,simul-
taneamente, oprimindo o povo quando este manifesta sua indignação
(40).A riqueza social deveria pertencer a todos "em obediência às leis
naturais", e não,como no capitalismo, ser propriedade de uns poucos
(52).
Florentino de Carvalho incorpora à sua concepção do anarquismo
elementos do pensamento de vários pensadores y militantes: De Stimer
recebe influência de suas reflexões sobre o indivíduo e a revolução soci-
al; de Malatesta aproveita sua concepção voluntarista do anarquismo e
de Kropotkin a concepção do comunismo libertário. Em sua primeira
obra analisa as raízes científicas e filosóficas doanarquismo, registran-
do seu caráter absolutamente libertário.Numa destas passagens enuncia
elementos do individualismo, do comunismo e do socialismo presentes
no pensamento e filosofia ácrata:
"O Progresso não comporta mais o egoísmo utilitário, egoísmo de tavemeiro,
deprimente da personalidade humana; não comporta o individualismo, o socialis-
mo e o comunismo grosseiramente materialistas, simples abjeções.
Que é,pois, individualismo?
E.a negação da autoridade, éa concepção anárquica da Natureza. O individua-
lismo é a filosofia de Stirner: a filosofia do homem, negando o nietzschismo, a
abrupta filosofia do super-homem.Não é uma filosofia de dignidade: é uma filo-
sofia de dignidades. O individualismo é uma ascenção constante, progressiva: a
física intelectual e moral; é a afirmação do indivíduo, potência determinante, cria-
dora da moralidade infinita. O individualismo não é a previsão, o cálculo; não
quer saber de compensações, de reciprocidade: é espontâneo, é a expansão
irreprimível da natureza humana.
Que é comunismo?
143
,
L,-,--
É a concepção relativista, cosmopolita, igualitária; não.reconhece fronteiras
nem superioridades. E a concórdia, a fraternidade, a criação da felicidade, geral,
para chegar à individual - de todos os seres humanos, sem o que deixaria de ser
comunismo,
Que é socialismo?
É a concepção da harmonia universal, da vida de relação. O 'socialismo é a
negação da religião e da política; é a Sociedade em oposição à Igreja e ao Estado.
O Socialismo é o apoio mútuo, a organização das capacidades para a criação do
bem-estar, do progresso ...(...).
Fora deste conceito: o individualismo representando a razão individual con-
tra a razão social, o comunismo e o socialismo representando a centralização, o
monopólio, a absorção, a razão coletiva contra a razão individual, ou julgados
'. como fundamento da lei,da autoridade, perdem por completo a sua significação.
Definidos à luz da ciência e da filosofia anarquista, o individualismo, o C011lll11ÍS-
mo e o socialismo, combinam-se, integram-se num todo harmônico,condensam
o humanismo, n justiça e a dignidade, princípios fundamentais de uma síntese
social" (94).
A organização política defendida pelo anarquismo fundamenta-se
na socialização do poder.Desta forma empolítica o anarquismo procu-
ra: "estabelecer agrupamentos por afinidade"; estabelecer o princípio
da descentralização; incentivar e consolidar a autonomia e solidarieda-
de dos grupos e pessoas; combater a autoridade, "leia-se imposição .-.
religiosa, econômica e intelectual", lutando contra a Igreja,o patronato
e o "governo da aristocracia dos mentores" (56).O anarquismo, tam-
bém entendido como socialismo internacional ou universal,no que tan-
ge à organização do trabalho, pretende "a socialização das terras, de
toda a superfície da torra,passando esta a ser patrimônio de toda a hu-
manidade". Acrescentando emseguida objetivar o anarquismo a "orga-
nização de uma federação mundial de produtores livres",O anarquismo
é assim definido por Florentino de Carvalho:
"A definição sintética do anarquismo resume-se na socialização das ton-as,
dos instrumentos de produção e de consumo (comunismo), na socialização dos
poderes (ausência de g0V6l110),da justiça, na socialização das nações, das pátrias,
constituindo a pátria universal" (31).
Destruam et Aedificabo: as Duas Teses do Anarquismo
Partindo da definição etimológica da palavra Anarquia,Florentino
de Carvalho sustenta constituir-se o anarquismo em duas dimensões
144
--------------~---'"'--_._--'---
opostas ecomplementares: a "tese negativa, contrária ao regime burgu-.
ês" e a "tese positiva de reconstrução social" (84). Anarquia vem do
grego a=sem earkê=governo. Portanto partindo de umponto negativista,
o anarquismo procura abolir os fundamentos da sociedade expoliadora
ao mesmo tempo que aponta alternativas ao modelo de civilização oci-
dental (23).O anarquismo éo "pendão do protesto, da revolta,da insur-
reição armada, se for preciso" (41), consistindo em fator de elevação
intelectual e moral dos indivíduos,dignificando a espécie humana (45).
Diferenciando a ação e pensamento dos anarquistas dos sindicalistas e
demais socialistas, ele explicita o sentido négativista do anarquismo:
"Os socialistas e os comunistas da democracia qualificam de política a sua
ação. Os sindicalistas revolucionários não constituem partido, e negam que a sua
ação seja política.
Não dispondo de espaço para entrarmos em longas considerações, propomos
1\ respeito dizemos em resumo: que Il política éa.religião de Estado, a doutrina do
civismo (7),do direito histórico, a coação individual ou coletiva; é a delegação de
poderes, a teoria do governo, o exercício de autoridade, a razão e a função de
Estado; é a palavra de ordem das classes dominantes e dos partidos, a relação ou
a concorrência entre os aspirantes ao Poder, a aliança ou a guerra entre as igrejas,
os Estados, etc.De conformidade com a definição acima, do uso corrente que nos
meios políticos e nos meios sociais se vem fazendo do termo 'política', convimos
em que são políticos os autoritários: monarquistas, republicanos, socialistas, ou
comunistas; os ditadores de qualquer categoria. São apolíticos, (em teoria) os
sindicalistas, neutralistas e revolucionários,
São antipoliticos os anarquistas.
Em política só os Anarquistas são negativistas: concebem instituições econô-
micas e sociais, mas não têm idéia alguma de organização política; não tencio-
nam empalmar os destinos da humánidade, E ao guerrearem as instituições e os
partidos políticos, não fazem política, do 1116S1110 modo que não praticam a reli-
gião criticando a.Igreja e seus dogmas, propagando o livre pensamento" (94).
Descartando todo e qualquer determinismo teleológico, Florentino
de Carvalho afirma peremptoriamente depender a aplicação das idéias e
princípios ácratas única e exclusivamente da vontade e disposição do
ser humano. Pelo que nós temos visto de suas idéias seria equivoco de-
duzir do texto ser eleum individualista, influenciado por idéias burgue-
sas ou do protestantismo. Para o anarquismo "o bem-estar do indivíduo
e dahumanidade são o princípio e o fim da nossa causa", apresentando-
Sé como doutrina social de combate semtrégua ao despotismo, ao bar-
barismo das guerras e ao imperialismo (52). O anarquismo é a única
doutrina social a se manter intransigente, negando... se abandonar suas
145
~--- -------------------------------------------------------------~-----
idéias eprincípios por causa dos sistemas políticos e econômicos domi-
nantes.O anarquismo se mantém firme,combatendo enegando os prin-
cípios nos quais apolítica eeconomia reinante se apóiam.Desta manei-
ra,o anarquismo só poderá "viver edesenvolver-se fora daesfera social,
vigente fora da lei e do direito estatal e capitalista" (40).A doutrina
anarquista épropagadora danecessidade da abolição detodos os gover-
nos; defensora do fim da exploração do homempelo homem; defensora
da modificação da estrutura política eeconômica,estatal ecapitalista;
defensora da necessidade de uma prática do bem baseado najustiça,na
solidariedade e no amor (~6).O anarquismo significa o estabelecimento
detodos os direitos do povo trabalhador ena vitória da liberdade sobre
a tirania (75). O anarquismo apresenta-se também como doutrina
iconoclasta e revolucionária, destruidora de tiranos e déspotas, sendo
caracterizado da seguinte forma: equilíbrio entre teoria eprática; cons-
titui "uma tendência para aliberdade emtodas as suas transformações";
é "contra o despotismo"; tempenetração emtodos os movimentos soci-
ais tendentes à "pulverização das instituições aristocráticas ou demo-
cráticas,mas sempre reacionárias"; écontrário às ditaduras,às leis eao
estado; é contrário à violência,entretanto reconhece o direito de defesa;
é"uma concepção devida,baseada no progresso das ciências,da filoso-
fia,é a resultante da evolução universal" (81).
Florentino de Carvalho emite opiniões por demais relevantes quan-
to à amplitude das lutas encampadas pelo anarquismo. Assim,afirma
ser apercepção da realidade social limitada às necessidades físicas,pró-
pria de vegetais.A questão social é "essencialmente moral" pois "a or-
dem,os fms,os costumes,os princípios de sociabilidade somente flo-
rescem onde as populações não estão a braços com a miséria". O ser
humano possui ao lado das necessidades físicas outras necessidades tam-
bémbásicas: necessidade intelectual,artística emoral,sendo necessário
a satisfação decada uma semprejuízos para as demais (60).Alémdisso
a luta ácrata não se restringe ao campo econômico,pois luta-se também
contra o regime político,religioso,moral eintelectual estabelecido.To-
dos estes são fatores de opressão dos trabalhadores, sendo imperativo
uma refrega emtodos estes campos para a instauração efetiva da igual-
dade sócioeconômica (23).Criticando a postura e perspectiva econo-
micista quanto às lutas dos trabalhadores, Florentino de Carvalho sus-
tenta que "efetivamente,não épão o que o operário exige: éo direito de
o produzir livremente,de o obter semfavores".Antes disso elaborou a
seguinte análise critica do economicismo de Marx:
146
"As teorias catastróficas e fatalistas do 'materialismo histórico' abriram fa-
lência.Se a luta de classes,por exemplo,estivesse em relação exclusiva com a
evolução econômica não teriam sido as revoluções sociais ou políticas acentua-
damente econômicas,nos países onde a indústria está eminício,como na Rússia,
na Áustriaou na Hungria,nem o proletariado elaArgentina, Uruguai, Espanha,
Portugal e Itália marchariam À vanguarda do movimento revolucionário. Ob-
servar-se-ia este movimento na Alemanha, 1111 Inglaterra, 110S Eatados Unidos,
onde o proletariado se vê atrelado a um movimento político semiburguês. (...)
O valor acadêmico dos sooialistas e dos aindicalistas censlste em seguir 08
e00l10nlÍcístllll da burguesia, os teóricos do marxismo; em conceber o trabalha-
dor apenas como máquina de produção, como assalariado. Para eles o indivíduo
social e moral não existe.Daí o fato de conceberem a vasta questão social ex-
clusivamente sob um dos seus múltiplos aspectos.A lógica leva-nos, diversa-
mente,a conceber o trabalhador, em primeiro I ugar como homem, com todas as
suas dignidades e,em segundo lugar,como escravo de corpo e de espírito,como
produtor assalariado" (94).
Sobre o anarquismo como sendo,de um lado,constituído por n~ga-
ções e,de outro,por propostas,éoportuno registrar mais uma outra colo-
cação feita pelo autor em outro momento de seu primeiro livro:
"Não se explica o exagerado pessimismo de certos filósofos quanto ao pro-
gresso científico,filosófico e social,assim como não se compreende o temor de
uma retrogradação.
Se a nova filosofia -o anarquismo, se manifestasse por um criticismo incer-
to,nebuloso; sefosse incompleta,senão passasse depLU'asnegações,teria cabido
esse pessimismo. .
Como,porém,é uma filosofia clara,perfeitamente definida,com elementos
científicos suficientes,como já penetrou o campo das realizações práticas,o pes-
simismo não há lugar" (94).
A luta ácrata transcende os limites da luta econômica,pois a compe-
tição,os tutores religiosos,o patriotismo, a influência de uma educação
que cultiva nos trabalhadores o egoísmo nas relações com seus compa-
nheiros de Infortúnios, ao mesmo tempo em que os enche de altruísmo
em relação a seus opressores, todos estes fatores agindo conjuntamente
sobre os trabalhadores resulta na constituição de indivíduos "entusias-
mados por impressões ejuízos aberrantes, por fanatismos" e por uma
série de desequilíbrios (23).Os objetivos dos anarquistas abrange toda a
área das inclinações humanas. Assim,o igualitarismo econômico epolí-
tico é apontado como sendo fator imprescindível ao bem-estar tanto dos
indivíduos como da sociedade:
147
.j
I
1
"O nivelarnento econômico e político produz, como conseqüência o
restabelecimento da saúde física da coletividade, o rejuvenecimento das energias
individuais normaliza e forta Ieee o exercício das faculdades de todos os indivídu-
os,desperta o otimismo, o entusiasmo e alegria".
Acrescentando mais adiante que "esse nivelarnento produz também
o nivelamento intelectual em sentido ascendente, suprimindo, em grande
.parte a bárbara hierarquia existente entre os sábios e os analfabetos" (88).
O igualitarismo é condição fundamental à satisfação das necessida-
des do ser humano. Assim, "aprimeira condição para atender às neces-
sidades econômicas, intelectuais, artísticas e recreativas, é a posse dos
meios de satisfazê-ias" e,para sua concretização, a população tem de
fazer soçobrar os órgãos espoliadores que "regulamentam e impõem as
normas da convivência anti-social contemporânea" (88). A luta pelo
igualitarismo social deve ser também contra o Estado pois ele é um dos
principais fatores da desigualdade e misérias sociais. Florentino de Car-
valho adverte os trabalhadores a nada esperarem dos governantes, apon-
tando para a história como testemunho de que todo "o monopólio políti-
co tende por si mesmo ao monopólio econômico e vice-versa". Adian-
tando-se a estudiosos de décadas depois, afirmou incisivamente ser "o
governo obrigado a recorrer a todos os meios tendentes a harmonizar
com ela (a dominação) o pensamento coletivo", complementando com
uma pequena lista das instituições sociais através das quais o Estado
procura alcançar consenso na opinião pública:
"Daí a monopolização do ensino da subvenção à imprensa, a criação de bi-
bliotecas que orientam a opinião pública no sentido favorável aos projetos, às leis
e ao espírito das instituições que apesar de todos os alardes liberais e democráticos
são uma rotunda negação da soberaniapopular" (88).
No aspecto econômico o anarquismo defende "uma organização eco-
nômico equitativa baseada no comunismo". A organização social base-
ada no comunismo anarquista consiste na única possibilidade de satisfa-
ção das necessidade humanas, como também na única forma de se aca-
bar com as lutas politicas, econômicas ecom as tiranias (2).O anarquismo
defende, na concretizaçâo de uma sociedade livre, solidária e igualitá-
ria,os seguintes postulados: a ciência como patrimônio da humanidade;
a aboliçãodas divisões territoriais imaginárias, tomando o mundo num
"universo sem fronteiras"; o cosmopolitismo fraternal; a luta
antimilitarista; contrário atodos os despotismos; contrário à situação de
[48
miséria dos trabalhadores; favorável a socialização das riquezas; favo-
rável a wn "civismo racional e científico",' luta incansável pela liberda-
de; a luta contra "todas as muralhas chinesas", luta contra o "estado de
patologia social e moral" que impera no Brasil (59).Para o estabeleci-
mento da igualdade social plena é necessário, simultaneamente, a
extinção da exploração econômica, a abolição de todo e qualquer des-
potismo e,por fim,detodo regime político centralizado r,estatal,autori-
tário (84).
Os anarquistas "são os que têm mais desenvolvido o espírito dejus-
tiça, os que possuem em maior grau os sentimentos de humanidade";
são revolucionários e iconoclastas (73),justificando estas afirmações
ao expor seus objetivos,a saber: ajustiça social,a extinção da socieda-
deburguesa,a emancipação dos trabalhadores earevolução social (46).
A luta dos anarquistas consiste no combate pela liberdade do povo; na
utilização dos potenciais intelectuais como arma decombate e denúncia
dos crimes,das mentiras,do ridiculo das instituições vigentes,das doutri-
nas eprincípios nocivos à vida de relação; na crítica ferrenha emanifes-.
tações públicas contra os parasitas e tiranos; no incentivo à revolução
social; no esforço convergente para as conquistas libertárias dignifica-
doras do ser humano; no desprezo às riquezas eposições sociais; na não
conformação a uma sociedade "que não éuma sociedade,mas um ajun-
tamento de malfeitores" (73). Os anarquistas lutam,protestam, denun-
ciam e combatem contra todos os tipos de tiranos, exploradores e
repressores dos trabalhadores, procurando ardentemente destruir todo o
"resto da sociedade capitalista, clerical,militarista, do Estado político,
grosseiro,falaz e sanguinário" (84).
O Estado,por ser instituição despótica por excelência,tem que en-
carar a face destruidora do anarquismo que,em "sua crítica contra o
regime burguês",procura extinguir todas as formas de dominação e ex-
ploração etodas as instituições que as preservam, como o Estado bur-
guês ou do tipo bolchevique; "as instituições jurídicas ou políticas"; "os
seus principais expoentes,os reis,os presidentes, os ministros,os sena-
dores; os deputados,etc",instaurando a emancipação política e econô-
l'1.UCa dós oprimidos e explorados (71 e 67 ).Os trabalhadores devem
conjugar esforços a fim de poderem "eliminar as causas da guerra, da
nuséria,detodas as pestes sociais trabalhando para iniciar a expropria-
ção da riqueza inaugurando uma organização econômica equitativa ba-
seada no comunismo" (52).Denunciando e combatendo a situação de
149
i
i
l
I
... - --.__.._ .._._-------------~---
extrema exploração e violência a que eram submetidas as crianças tra-
balhadoras,Florentino de Carvalho registra para ahistória o fato destas
só terem encontrado aliados determinados e incansáveis -em sua luta
contra as condições de vida e de trabalho - entre os anarquistas. Até
mesmo os pais das crianças,em muitos casos,eram cúmplices dos pa-
trões,conduzindo seus filhos para as fábricas, expondo-os aos arbítrios
dos capatazes.
oAnarquismo como Processo Revolucionário
Florentino de Carvalho concebia o anarquismo também enquanto
umprocesso revolucionário,destruidor deuma ordem social fundamen-
tada na exploração do homem pelo homem e criador de uma ordem so-
cial igualitária (91).Este processo revolucionário é constituído pelos
exercícios de solidariedade -eunião entre os oprimidos e explorados; na
elevação intelectual dos trabalhadores através do exercício eprática re-
flexiva e no esclarecimento dos trabalhadores através da aquisição das
concepções científicas e revolucionárias (84).A civilização ocidental é
composta por sociedades ondeexistem absurdas contradições: a miséria
ea opulência; aignorância ea ciência; otrabalho estafante eavadiagem
tediosa; a fome ao lado dos armazéns abarrotados de alimentos que vão
apodrecendo entre outras aberrações consideradas normais,legais,ne-
cessárias, maravilhas do gênio humano. Subverter esta ordem social
consiste no objetivo maior dos anarquistas, estabelecendo,no decorrer
do processo,uma ordem social diametralmente oposta à então vigente.
Entretanto oanarquismo,enquanto processo revolucionário,não secons-
titui apenas no fim de uma ordem econômica e na edificação de outra.
Para ele o processo revolucionário deveria solapar várias instâncias so-
ciais simultaneamente.Tornava-se imperativo a revolução intelectual,a
revolução econômica ea revolução social (91).Todas elas,ao passo em
que fossem se estabelecendo, impulsionariam a transformação social
emdireção à Anarquia (88).O pluralismo novamente se apresenta desta
vez em sua concepção de transformação social chegando mesmo a
denominá-Ia "revoluções sociais". A revolução social,com base nos
postulados libertários,constitui a única maneira depôr fim ao ciclo de
tiranias e misérias que afligiam São Paulo etodo o mundo:
150
"Nada mais se pode esperar senão a revolução para restabelecer a paz, abre-
viar o doloroso transe. Mas a revolução não será iminente sem a intensificação do
espírito de revolta, a elevação moral do povo abatido pela guerra e pela contra-
revolução dos partidos democráticos socialistas, comunistas ...Europa central e
no Oriente.
É preciso contar com a vontade das multidões, dos indivíduos, que só entram
em fW1Çiioquando considerados como unidades ativas, quando a força comba-
tente e composta de iguais, e não de um exercito hierarquizado, com 1011aconsci-
ência militarista (na opinião de Trotski), quando os revolucionários cultivam em
seu seio os ideais de justiça.
O trabalho preliminar não deve ser remetido à ultima hora. Muito particular-
mente às coletividades sociais urge levar o nosso verbo, o espírito de iniciativa,
com o propósito de sitiar o Estado, o capitalismo por um ambiente de revolta, de
forma a ser impossível a sua estabilidade. A explosão material da revolução deve
ser a continuidade das operações verifica das no campo social atual.,Quanto.mai-
ar for a nossa atividade, mais há de acelerar os acontecimentos. E preciso não
esquecer que a revolução pode ser determinada pela veemência da propaganda e
da ação. A psicologia das revoluções sociais mostra que estas devem abranger
todas as manifestações da vida de relação" (94).
oprocesso revolucionário teria necessariamente de envolver e ar-
rastar a população explorada numa tremenda "comoção social, cujos
resultados fossem a emancipação dos oprimidos (88).Evidenciando a
necessidade da participação da população na realização de uma revolu-
ção social libertária e igualitária Florentino de Carvalho diz o seguinte: f
i: .
"A praticidadeda revolução, em seus complexos aspectos exige maior soma
de forças. Demais, a emancipação social não pode ser obra exclusiva de determi-
nada facção revolucionária; tem que ser obra eminentemente popular" (94).
Contudo, as transformações objetivadas pelo anarquismo não vão
apenas na direção das grandes coletividades,pois o anarquismo teria de
ser vivenciado no cotidiano de seus divulgadores caso contrário sena
uma doutrina social estéril:· .
"Malgrado a altura a que chegamos, muitos cavalheiros 'de triste figura' fi-
caram no meio da 'encosta, inanimados, tristes, sujeitos às ridículas e particulares
convencionais ou ambições de momento, porque não conheceram as nossas con-
quistas".
Acrescentando em seguida:
"Não sabem que combater pelo Ideal é vivê-lo, que a intangibilidade da pró-
pria personalidade é a ascensão sobre o inimigo, é a libertação constante. Uma
151
': j
. ,
,
palavra,um passo,um gesto deafirmação,equivalem a outras tantas partículas de
independência adquirida peja própria ação.
Na ação comum há igualdade de potências,e só mediante esta ação se evita
que uns alcancem a liberdade à custa dos outros" (15).
Outro aspecto fundamental na sua concepção de revolução é que
ela,para ser social,tem de ser total.A revolução deve se dar,concomi-
tantemente,nas esferas política,econômica,religiosa,moral,educativa,
"etc." (84).Combatendo a noção segundo a qual uma sociedade iguali-
tária e libertária seria algo muito distante,Florentino de Carvalho afir-
mou categoricamente desejar não uma "revolução lenta, progressiva,
segura" mas simimediata (23).Através da revolução social os trabalha-
dores instaurariam a igualdade social quando do aniquilamento dos fa-
tores dedesigualdade social,das tiranias edas misérias (74).Destemodo,
impunha-se a união dos trabalhadores do campo e da cidade para uma
vitoriosa revolução social (23).
Para melhor e mais amplamente compreendermos o anarquismo de
Florentirio de Carvalho,torna-se necessário abordar a seguinte questão:
Tendo em vista o caráter teleológico existente em quase todo o pensa-
mento social do fim do século passado einício deste,cabe questionar se
ele também tinham uma concepção teleológica do anarquismo. Veja-
mos a questão de outra maneira: O anarquismo enquanto processo al-
cançaria um patamar final? Algo como um estágio superior? Umgrau
último? Definitivamente ele escapou deste fatalismo aplicado às idéias
sociais.A humanidade não chegaria a um ponto estacionário, livre de
contradições e conflitos:
" - E depois, extinto o velho regime e vencido o período de perturbação
provocada pelos seus vestígios,estará tudo terminado?
-Não.
Como nada existe de absoluto e os serea não alcançarão a perfeição,a Anar-
quia continuará, através dos séculos,iluminando o homem em SUá marcha para
mais felizes destiÍlos" (94).
A Anarquia como Nova Forma de Organização Social
Diante dos vários problemas sociais,como desigualdades,violênci-
as,repressões, explorações entre outros, o anarquismo constitui mais
que solução satisfatória. Apresenta-se enquanto única saída capaz de
152
evitar a deflagração de conflitos bélicos,lutas políticas e econômicas e
tiranias dediversas cores; a única doutrina social de onde a humanidade
poderia esperar melhores perspectivas, pois não propaga o estabeleci-
mento de quaisquer forma de exploração ou despotismo. Seus métodos
possibilitam a imediata instauração da liberdade solidária (2).O ideal
ácrata ilumina a humanidade, orientando-a no estabelecimento de uma
nova era,fundada najustiça,harmonia eigualdade social.O anarquismo
éfator destrutivo detodos os alicerces ecolunas desustentação da socie-.
dade vigente: o princípio da autoridade, as hierarquias, o patriotismo, o
militarismo e outros suportes da sociedade capitalista e estatal,são ne-
gados pelos seus postulados eprincípios (90).A sociedade libertária só
éexeqüível a partir da extinção do capitalismo com sua exploração eco-
nômica e dominação política (93). .
A edificação da sociedade libertária acontecerá através tanto da luta
determinada efirme dos oprimidos,como também através dos auspícios
da ciência, pois que ela possibilitará novos conhecimentos impul-
sionadores da elevação do ser humano.A sociedade libertária é"o mun-
do novo, o edifício do amor,da ordem,do progresso e da liberdade";
erigido sobre as ruinas da sociedade da dominação (62).As linhas ge-
rais da constituição da sociedade libertária é a seguinte:
"Segundo a filosofia anarquista,a sociedade há de ser a organização de uma
série ilimitada de grupos,de associações,de federações,decomunas locais,regio-
nais,universais,sem fronteiras,vivendo paralelamente,agindo pela livre emútua
cooperação,transformando-se ou sucedendo-se indefinidamente" (94).
Numa sociedade libertária não deverá existir nem cárceres nem tri-
bunais.Os atos anti-sociais, como também os desentendimentos, seriam
resolvidos pela "influência moral da coletividade" epela "reação natu-
ral,espontânea" das pessoas e grupos. Estas formas de combate aos
delitos sociais são "mil vezes mais eficazes" que todos os presídios e
calabouços,pois estes apenas "alcançam a fomentar a deliqüência" (64).
A lei do anarquista consiste na sua consciência ena liberdade (88),sen-
do a liberdade fator de sociabilidade enão pretexto para o individualis-
mo extremado, como ensina o pensamento capitalista. Florentino de
Carvalho no capítulo xxvn de seu primeiro livro,trata da Ordem Soci-
al.Critica a idéia cultivada pela Antropologia Criminal, do criminoso
nato.Emseguida,refere-se ao tratamento dado aos atos anti-sociais numa
perspectiva ácrata:
153
!
I .-_._~._--~.._--_._._._._.._~-~------------------ ...•-
"Deus (?) criou o pecador; as escolas criminalistas descobriram o deliqüente.
(... ) .
Com a devida vênia pedimos aos ilustres criminalistas licença para manifes-
tal' a nossa estranheza por uma teoria científica ...(7) que determina a intensidade
do castigo em razão direta da írresponsabilidade, .
Não advogamos com isto a passividade perante o crime. QUem comete uma
ação daninha deve imediatamente sentir a repulsãQ,
A reação aos atos anti-sociais é natural, é espontânea, inetitiva,
O princípio social é infenso 11jurisprudência, Esta sugere ao indivíduo Q pe-
.cado anti-aocial, a idéia do crime, traçando-lhe, impondo-lhe Uma linha de con-
duta, um regulamento, um código.
Por muito grave que seja o abuso da liberdade nunca será tanto como o da
intervenção da lei nas relações sociais. (...)
Para o estabelecimento da ordemde pouco ou de nada servem os dogmas da
fratemidade, os preceitos de justiça e de moral, as promessas ouameaças, se,
como hoje constatamos, as circunstâncias políticas, religiosas, econômicas ..,ar-
rastam o homem no turbilhão imenso epavoroso dos vícios, dos crimes, das guer-
ras, de todas as misérias sociais.
A maior emergência neste caso é a suprimir do arbítrio, que determina a
infração, é a de cassar à burguesia a carta de prego, a imunidade, o privilégio e o
monopólio do crime; a primeira medida é a de restabelecer a liberdade, justiça, a
aolídariedade, é socializar o Direito, a assistênoia, ueurpadce pela burguesia e o
poder político, tanto no terreno jurídico como no das possibilidades econômicas.
Mais do que preceitos ou regras de moral, o que o homem precisa é de luz,
A primeira reclamação que temos a fazer é (parodiando a J ave) a de que não
nos tirem osol" (94).
K.ropotkin (151) analisa com muita perspicácia a questão dos atos
anti-sociais como é tratada pelas instituições jurídicas da sociedade ca-
pitalista ..Os tipos de penas e a intensidade destas apresentam-se en-
quanto paliativos que não tocam nem de longe na raiz dos problemas e,
muito menos,evita a reincidência, única certeza oferecida por todo o
aparato judicial: As prisões são instituições que,ao invés dereeducar ou
reintegrar os indivíduos,os estigmatizam,tomando-se, de fato,emuma
escola da delinqüência.
A sociedade libertária, a família,enfim,toda forma e grau de vida
de relação,estabelecida emconcepções igualitárias, emidéias positivas
e elevadas,na justiça, na harmonia e no amor,impulsionaria a cultura
humana a "proporções gigantescas e a vida moral atingira progressos
superiores as nossas previsões" (64). A sociedade libertária está em
sintonia com as leis da natureza,pois nesta sociedade o trabalho produ-
tivo sustenta a riqueza social,alémdo que amoral baseia-se na dignida-
de,na justiça, na igualdade eno amor (28).Encontra-se acima detodas
as lei,teorias ou princípios,as "necessidades naturais da espécie huma-
154
na.A riqueza social ea liberdade são patrimônios naturais dopovo traba-
lhador enão há razão, ou privilégio que o possa privar desses direitos."
(75).Referindo-se à ação produtiva, ao trabalho, sustenta ser este um
momento recreativo numa sociedade libertária, pois.seria exercido.em
bases racionais, tendo um caráter até mesmo revigorado r das energias
humanas (88).Déjours (123) analisa as'conseqüências prejudiciais, para
a saúde mental do trabalhador de diversas atividades, uma rotina
repetitiva, tensa econstante de suas tarefas, Este livro constitui um clás-
sico no campo dos estudos do trabalho,
Florentino de Carvalho considerou, em suas reflexões sobre os.pro-
blemas da sociedade sob o capitalismo, os problemas oriundos das gran-
des concentrações urbanas, afirmando serem os grandes centros,as gran-
des metrópoles, onde aglomeram-se trabalhadores, resultantes "da obra
mágica da centralização capitalista". As grandes cidades caracterizam-
sepor concentrarem muitos trabalhadores, fazendo-os viverem entre de-
tritos, num ambiente infeccioso e doentio (63). Sobre a relação existen-
te entre trabalho e os altos números de habitantes nas cidades sob o
capitalismo diz o seguinte:
"O Progresso da ordem ladeia o progresso da descentralização.
Ocorre,por conseguinte,evitar que,a pretexto da superprodução,os centros
sociais sejam congestionados pelo número,que não se repitam os tristes espetá-
culos que nos dão as grandes urbes: Moscou,Paris,Londres,Nova Iorque...
Para colimar a superprodução não é preciso enfaixar,escravizar,exaurir to-
das as energias humanas: basta uma organização racional do trabalho.De resto,o
homem prefere uma côdea de pão e gozo da liberdade,ao farto manjar sanzonado
com o fel da escravidão."
155
· -'. :~'.
Capítulo 6
ASPECTOS GERAIS DA SOCIEDADE LIBERT ÁRIA
E OS MEIOS PARA SEU ESTABELECIMENTO
A análise e crítica social ausente depropostas para aedificação de
umanova ordem social éno mínimo incompleta, manca. Neste aspecto,
oconjunto de artigos de Florentino de Carvalho apresenta-se rico ebas-
tante fecundo. As propostas por ele apresentadas abrangem diversos
aspectos da vida de relação, constituindo valoroso esforço intelectual e
prático de edificação da nova sociedade libertária e de liquidação da
sociedade do esbulho legalizado.
A concretização de uma sociedade libertária estava condicionada
por alguns fatores: modificação da estrutura econômica e política da
sociedade; abolição de todas as tiranias, explorações, guerras e autori-
dades governamentais, Para atingir estes objetivos deve-se agir orienta-
dos pela "luz da justiça, pela solidariedade, pelo amor". Para a
concretização da sociedade ácrata, a organização política deve ser fun-
damentada na socialização dopoder (67). Comoobjetivo deaniquílar o
capitalismo, os anarquístas deveriam não só apresentar olado das nega-
ções desua filosofia, mas também olado positivo, o construtivo. Quan-
to à nova sociedade, deveriam estabelecer apenas .princípios gerais de
sua edificação, Nada de determinar, aprioristicamente, aforma detalha-
dadanova organização social (23).
Os anarquistas deveriam demonstrar indiferença a tudo quanto os
govemantes fizessem, semseimpressionarem comuma ououtra desuas
ações. Quanto às leis, deveriam desprezá-Ias, semreivindicarem ocum-
primento denenhuma. À imprensa burguesa, difamadora ecaluniosa, os
anarquistas deveriam dar seudesprezo eindiferença" continuando acam-
panha contra aexploração de menores, orientando-a para aação direta e
dando-lhe umcaráter "verdadeiramente popular". Os anarquistas-deve-
riam, além das lutas específicas, combater afavor daemancipação dos
trabalhadores epela revolução social (46).
Odesmantelamento do Estado com a conseqüente extinção de suas
leis, aexpropriação dos capitalistas eaabolição detodas as instituições
burguesas, são condições essenciais para aemancipação social. Por ou-
tro lado, o desatrelamento do Estado e de todas as suas colunas de
157
;(~----
sustentação, deve ser o resultado de uma contínua desmoralização de
tais instituições ante a opinião pública, apontando seus erros, violên-
cias e desastres (31), Para ser possível uma distribuição eqüitativa da
riqueza social baseada no racionalismo, a "ciência e ~história" de-
monstram ser necessário a abolição da autoridade, a socialização da
terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho e a organização da
produção e consumo pelos trabalhadores com vistas à satisfação das
'necessidades econômicas, intelectuais, artísticas etantas quantas exis-
tam no se!' humano (64),
A Liberdade, a Solidariedade
e as Manifestações Públicas
A liberdade é o elemento primeiro e básico asomar num processo
revolucionário, A lei do anarquista éa sua consciência e a liberdade" e
não as. leis geradas pela ambição de domínio da sociedade capitalista.
Esta liberdade éconstituída e estabelecida apartir da "ausência dos or-
ganismos que regulamentam e impõe as normas de convivência anti-
social contemporânea", isto é, tribunais, juizes, polícia e demais ele-
mentos constituintes do aparato jurídico, legislativo e executivo dos
governos (88). As leis estatais consistem em verdadeiras "panacéias
legalitárias (...) artífices para ludibriar os incautos" devendo opovo, por
estas razões, agir por contra própria sem esperar por ninguém nem por
nada (60). Florentino de Carvalho entendia ser a vida do ser humano a
"síntese maravilhosa das altas propriedades da substância universal",
onde a"realização detodas as liberdades ilimitadas" seria seuapogeu, a
própria plenitude desta vida, A liberdade consiste, de fato, numa "ne-
cessidade vital" das coletividades, dos povos e das individualidades.
Entretanto, éoportuno questionar acerca do que venham a ser as referi-
das "liberdades ilimitadas". É uma liberdade sem limites? Sem critéri-
os? Tal liberdade não possibilitaria aeclosão debarbarismos eatos con-
tra apessoa humana? (67). Liberdade écompreendida como fator emi-
nentemente social:
"Entendemos por liberdades ilimitadas as que não ferem a dignidade, a vida
de terceiros" (67).
158
,.,
~_;.........~_--~--.....----o'---'----'·T~'
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I
I
I
1 I
A liberdade só existe dentro dos - e voltada para os - pendores
sociais, A liberdade, então, deve ser entendida como fator de sociabili-
dade, Para o estabelecimento deuma liberdade social énecessário antes
aextinção da"comédia legislativa", dopretorianismo edomaquiavelismo
(65). A relação entre indivíduo e sociedade éde mútua, íntima erecípro-
ca influência. Criticando os médicos quando dos tratamentos 'dados à
população trabalhadora, Florentino afirmava que eles se equivocavam
ao tratarem as doenças da população apenas com "xaropadas e inje-
ções", desconsiderando atotalidade da realidade social' dos trabalhado-
res. Os médicos deixavam deperceber afome, afalta dehigiene, aau-
sência de bem-estar e a"carência de alegria" como as causas principais
de grande parte das doenças' a afligir os trabalhadores, A intervenção
.dos médicos, ao desconsiderarem estes fatores, resultava numa conside-
rável piora no quadro dapopulação, arrastando "ahumanidade na vora-
gem detodas as calamidades e decomposições" (60). Para adiminuição
das doenças era necessário um esforço conjugando ambiente de vida e
trabalhos higiênicos e prática profilática, possibilitando o desenvolvi-
mento de um organismo individual vigoroso, "capaz de sofrer, sem in-
convenientes, todos os vendavais danatureza", eque, para um combate
eficaz à "bubônica física", eraimperativo anteceder um Combateà "bu-
bônica social". Este último deve dar-se através de uma "profilaxia polí-
tica e econômica". Em outras palavras: que "seja a riqueza social pro-
priedade coletiva" devendo todos, "inclusive os proprietários, os in-
dustriais, os políticos, os ministros detodas as igrejas", dedicarem-se ao
trabalho produtivo dignificante, abolindo os privilégios e a concorrên-
cia, dando vez à "cooperação espontânea, ao livre acordo" (65).
O respeito às idéias eopiniões diferentes edivergentes deve ser par-
te da prática e concepção da liberdade (52). Tratando da libertação e
emancipação dos trabalhadores, Florentino de Carvalho afirma que ela
nãopoderia "ser mutilada oudetidasobnenhumpretexto", nemtampouco
"estar à mercê das influências reacionárias que, por ventura, surjamnos
sindicatos ou fora deles", devendo ser total, sem meios-termos nem
vacilos (84). Refletindo sobre companheiros de ideal cuja energia e dis-
posição estavam desvanecendo por verem como muito remota apossi-
bilidade da concretização de uma sociedade ácrata, Florentino expõe o
caráter inúltiplo davivência anarquista:
"Não sabem que combater pelo ideal évivê-lo; que a intangibilidade da pró-
pria personalidade é a ascenção sobre o inimigo, é a libertação constante. Uma
159
" . --~._- ...._.. ----
palavra, Umpasso, um gesto de afirmação. equivalem a outras tantas partículas de
independência adquirida pela própria ação. Na ação comum há igualdade de po-
tências, e só mediante esta ação se evita que uns alcancem a liberdade à custa. dos
outros" (15).
Concluindo de maneira fulminante seu raciocínio:
"E nós, que nos sentimos cavalheiros do Ideal anarquista, não consentimos
que n.inguém conquiste a nossa liberdade. Não queremos favores" (J 5).
Gallo no primeiro capítulo do livro Pedagogia do Risco: experiên-
cias anarquistas em educação (131) desenvolve uma excelente exposi-
ção da conceituação de liberdade formulada pelos anarquistas clássicos.
Parte de uma comparação da noção de liberdade entre anarquistas eteó-
ricos do liberalismo, ao mesmo tempo em que expõe o surgimento do
pensamento anarquista a partir da critica às concepções do pensamento
liberal.
.Outro fator consubstanciador do processo revolucionário éaprática
da solidariedade entre os explorados e excluídos da sociedade capitalis-
ta. Sua ausência implica fatalmente o malogro de tal processo (88). Os
acordos livremente estabelecidos constituem alternativa às leis impos-
tas pelo Estado as quais refletem negativamente na sociedade (89). Um
exemplo de solidariedade os trabalhadores tinham nos mártires de Chi-
cago, célebres vítimas da voracidade de capitalistas e govemantes nor-
te-americanos. Os mártires de Chicago, ao lutarem afavor dajornada de
oito horas e contra outras violências da classe dirigente, foram condena-
dos à morte pelo governo daquele pais, originando o 1
0
de Maio como a
data internacional de luta, luto e protesto contra a exploração do homem
pelo homem e o governo do homem sobre o homem (7).
Os trabalhadores brasileiros também deram várias demonstrações
de solidariedade. Florentino de Carvalho registra com entusiasmo as
ações detrabalhadores no Brasil ena Europa contra alei de expulsão de
estrangeiros. Esta lei fora projetada como mecanismo inibidor à cres-
cente onda de organização, protestos e manifestações do proletariado
nacional. Enquanto os trabalhadores no Brasil punham em prática a so-
lidariedade manifestando-a através das marchas, passeatas e comícios,
visando arrastar a população a seu favor, expressando sua indignação,
os trabalhadores -' brasileiros ounão, mas que trabalharam no Brasil até
serem deportados para 3 Europa - faziam campanhas contra a migração
160-----~------------_.-..
detrabalhadores daquele continente para as terras brasileiras. Istocomo
forma de pressionar o governo brasileiro apôr fim à referida lei. O fo-
lheto elaborado. pelos editores deLa Battaglia em1906, intitulado Con-
tra a Imigração (97) documenta esta passagem da luta dos trabalhado-
res brasileiros. Os trabalhadores europeus solidarizaram-se aos traba-
lhadores brasileiros através do boicote a todos os produtos brasileiros,
solidificando os laços de união entre os produtores e, desta forma, tor-
nando mais intensa apressão junto ao governo brasileiro. Foi assim que
capitulou alei de expulsão de estrangeiros (2, 9e 13). Florentino regis-
trou tal vitória com grande satisfação e regozijo, de tal maneira a ex-
pressar grande otimismo quanto à proximidade da vitória dos trabalha-
dores sobre as violências e abuses dos govemantes edos capitalistas (9),
O governo brasileiro semeava o belicismo tentando. levar apopula-
ção aum Conflitocom aArgentina, numa guerra fratricida edeconquis-
ta. Combatendo o militarismo eamilitarização da sociedade, Florentino
conclamou os trabalhadores brasileiros e argentinos a unirem suas for-
ças para derrotarem e inimigo comum que procurava sacrificá-los numa .
carnificina embeneficio dos poderosos (41). Da mesma forma emoutra
ocasião, quando. da campanha contra a exploração dos menores traba-
lhadores, conclamou aunião de todos os homens de bem num trabalho
sério e continuo para a libertação dainfância (48).
As manifestações públicas eram formas de ação por excelência na
formação da opinião pública, Alémdo mais tais manifestações constitu-
íam verdadeiras vivências dos ideais de solidariedade e liberdade tão
caros ao anarquismo. Estas ações tinham um alcance muito maior emais
eficaz que os livros, os panfletos e os jornais (17). Era imperativo. a
difusão, o mais ampla e profundamente possível, dos princípios positi-
vos enegativos do anarquismo, apresentando. e ideal ácrata à população
como solução contraposta às idéias burguesas, Ao. mesmo tempo, as
finalidades reivindicadoraa não deveriam ser ocultadas aos oprimidos,
pois isto implicaria "aurnentar-lhes acegueira, inulizando-os para avida,
para o. ideal" (84).
As manifestações públicas poderiam ajudar emmuito. a instauração
da emancipação social na medida em que possibilitem a abolição das
instituições burguesas. As denúncias, as críticas eadesmoralização destas
instituições podem ser feitas também pelas manifestações públicas (31).
Combatendoa entrada de Brasil naPrimeira Guerra Mundial, Florentino
conclama todos a reivindicarem seus direitos, a difundirem os principi-
161
-_ ..,,--' -~'--
os de "fraternidade e igualdade" combatendo a guerra, pois ela nada
mais é que "carnificina burguesa". Ao mesmo tempo, deveriam fazer
convergir as energias "intensificando aluta pela revolução social" (52).
Seos trabalhadores quisessem fazer valer seus direitos, teriam eles mes-
mos que "reagir comtenacidade, com energia11 contra umprojeto de lei
dogoverno que proibia manifestações e alivre expressão do pensamen-
to. Os trabalhadores deveriam agitar-se, brandir seus direitos eprincípi-
os e protestar incisivamente em explosivas manifestações (83),
Florentino de Carvalho - que sempre se destacou como umferrenho
lutador contra omilitarismo onde quer que ele semanifestasse - comba-
teu osorteio militar obrigatório antes edepois de suainstauração. Ainda
mesmo quando este sorteio era projeto de lei, conclamou os indivíduos
esclarecidos a empreenderem incansável e constante propaganda junto
dapopulação contra o militarismo; convidou todos os inimigos do des-
potismo a bradarem seus protestos contra tal projeto de lei; cobrou da
população uma condenação sumaria deste projeto de lei eincentivou os
anarquistas atrabalharem com entusiasmo para esclarecer o povo, não
deixando que fossem iludidos (25). Depois de instaurado o sorteio mili-
tar obrigatório,conclamou a todos que se sentiam lesados economica-
mente, no idealismo pacifista e em suas liberdades e de seus familiares
- quando estes eram arrastados do lar para a caserna - a agitarem-se
protestando incessantemente, propagando sua revolta atoda a popula-
ção (35). Os anarquistas deveriam, também, iniciar protestos contra a
situação violenta e humilhante do menor trabalhador, denunciando a
escravidão rias fábricas (46), promovendo "um grande movimento po-
pular de indignação, deprotestos e de revolta contra essas iniqüidades"
ecombatendo firmemente atéà vitória, aexploração dos menores traba-
lhadores (51).
Ação ePropaganda
A organização operária tinha como ideal fundamentar-se em "gru-
pos de ação e depropaganda". Através destes grupos articulava-se gre-
ves erevoluções, possibilitando umamaior eficácianaorganização. Estes
grupos são análogos às associações de classe, com a diferença de as
superar, constituindo num "esboço dasociedade futura" (17). A obra de
crítica, de regeneração e depropaganda deveria ser realizada no interior
162
dos sindicatos e dirigidos a todos os grupos oprimidos, de maneira a
formar uma multidão de revoltados contra a sociedade capitalista (23).
A propaganda anarquista deveria ser intensificada, ativando o "proces-
so insurrecional" e possibilitando o estabelecimento imediato da "socie-
dade dos trabalhadores livres" (93). A propaganda do ideal eprincípios
ácratas deveria ser clara, sem nenhum sofisma. Deveria ser realizada
mesmo chocando às pessoas da sociedade e da época. De fato, todas as
idéias novas foram motivos de escândalos nas sociedades (21).
Odevir libertário seria fruto da ação direta dos oprimidos (62), de-
vendo aluta dos oprimidos ser contínua ecommuita garra. As mulheres,
de seulado, deveriam também lutar combravura (41). A UIÚãodos "ho-
mens livres" deveria constituir uma barreira, "uma força com a qual
possam fazer respeitar os seus foros emanter asua dignidade", lutando
solidariamente para pôr fim à escravidão econômica emoral, demanei-
ra a responderem enérgica edecididamente aos ataques dos reacionári-
os (43).
Para uma efetiva elevação do nível intelectual dapopulação, a fim
de se evitar as calamidades sociais como a fome e amiséria, epara se
elevar as condições de vida, "o ideal seria a provisão social", isto é, é
necessário a ação direta de todos os oprimidos "no sentido de tomar
todas as medidas tendentes agarantir atodos as possibilidades de uma
vida de fartura, de comodídades, de satisfações". Depois desta afirma-
ção, Florentino de Carvalho quis como que sugerir ser esta solução um
tanto quanto inviável:
"no presente caos, onde aconcorrênciadegenerou em lutaferoz, seriauma loucu-
ra pensar em semelhante doutrina de salvação" (60).
Acrescentando logo em seguida que "não éjusto, não é humano,
não épossível que as classes populares, que os trabalhadores se deixem
esmagar pelo signo do capitalismo" (60). As atitudes dos homens preo-
cupados com osproblemas sociais, deveriam ter coerência com os ide-
ais de libertação, emancipação ejustiça social:
"o posto de honra dos homens devotados, a emancipação dos oprimidos não
está no covilparlamentar, no tesouro nacional, está no gabinete de estudo, na
biblioteca, na escola, na imprensa. oseuposto de honra, está nas massas revol-
tadas..." (87).
163
Os "escravos modernos", como Florentino denominava os trabalha-
dores, deveriam seunir naluta deemancipação. A solidariedade no com-
bate éfator essencial e condicionante davitória. A ação dos trabalhado-
res teria que ser de modo a abolir a propriedade privada dos meios de
produção, extinguindo assim a autoridade e os mentores religiosos. Os
trabalhadores deveriam se contrapor à força armada dos dominantes,
combatendo e destruindo todas as iniqüidades sociais etodas as formas
'de escravidão, criando a sociedade dos produtores livres (28). Por não
existir lei nemjustiça para otrabalhador, apopulação oprimida e excluí-
dateria de "agir por si", conjugando suas forças einiciando uma formi-
dável resistência de maneira apressionar "todos os responsáveis" pela
situação social, transformando este quadro (60). A revolução social é
fruto de vários tipos de ação direta, condieionando atransformação so-
cial. A greve geral revolucionária eexpropriadora, por exemplo, consti-
tui umtipo deação direta quepode resultar na destruição doEstado edo
capitalismo como também no desmantelamento das instituições burgue-
sas. A organização dos trabalhadores também surge como conseqüência
da ação direta. A ação individual pode colaborar na eclosão da revolu-
ção social (24). No calor dos acontecimentos de 1917 em São Paulo,
Florentino de Carvalho sustentou ser urgente ageneralização do movi-
mento paredista por todas as categorias de trabalhadores e por todo o
Brasil, opondo resistência à força armada dos govemantes e patrões de
modo aque "as conquistas sejammais rápidas eradicais" (75).
Tomava-se necessário o "supremo esforço" de todos os homens li-
. vres para fazer retroceder a reação ameaçadora da civilização, preser-
vando, desta maneira, todos os progressos da ciência, todas as manifes-
tações da beleza artística do espírito humano epara que nenhuma con-
quista tombe diante dos conservadores (61).
Combatendo vigorosarnente a colaboração de anarquistas, C01110,
K ropotkin, na Primeira Guerra Mundial, Florentino de Carvalho propõe
a insubordinação emvez da adesão à guerra. A insubmissãc contra os
governos deveria orientar as atitudes dos revolucionários, partindo para
uma ação direta junto à população no sentido de sua libertação econô-
mica esocial através daformação degrupos revolucionários. Outra pro-
posta era os revolucionários adotarem postura de separação radical das
classes privilegiada emvez de colaborarem C0111 aguerra, passando ao
convívio direto com os trabalhadores. As idéias ácratas seriam mais fa-
cilmente assimiladas pelapopulação caso os anarquistas tomassem mais
164
claros o atrito, o conflito, a oposição existente entre as classes sociais
(23) posicionando-se veementemente contra toda e qualquer concilia-
ção dos trabalhadores tanto com os burgueses como com os socialistas
democratas. Para ele, os "subversivos" deveriam "ativar aluta social"
conquistando "a alforria popular eproletária" (92). Os militantes anar-
quistas de projeção no movimento deveriam "ter noção clara" de suas
responsabilidades perante o objetivo de emancipação e libertação dos
oprimidos, sem"se deixarem arrastar pelo caminho das concessões, das
incoerências, porque isso implicaria a própria desmoralização e o
clescalabrono elemento militante" (70). .
Florentino de Carvalho motiva os trabalhadores e anarquistas aele-
var suas vistas aos ideais, aprofundando os pensamentos e cultivando
vontades férreas e convicções "inquebrantáveis". Alémdisso, não deve-
riam de modo algum negociar, contemporizar seus princípios e ideais,
pois concessão ou colaboração com os inimigos comprometeria os,ide-
'ais epostulados do anarquismo. Os trabalhadores e anarquistas deveri-
am, isto sim, ser intransigentes comseus princípios eideais, fazendo-se
"respeitar pela intangibilidade" de suas convicções eprincípios, d e ma-
neira a "inspirar confiança pela irredutibilidade, constância e decisão
nas idéias enas lutas" (70). Os políticos profissionais deveriam ser re-
jeitados das fileiras dos trabalhadores edos anarquistas, evitando aatua-
ção e cooperação com eles, pois seassimprocedessem estariam envere-
dando por Umcaminho tortuoso comprometendo a própria dignidade
(54). A ação dos "espertalhões" e oportunistas sobre o proletariado,
aproveitando-se das "aspirações de liberdade sentida pelo povo traba-
lhador", deve ser anulada pela ação determinada dos próprios trabalha-
dores. O que setem que fazer é"expurgar do campo operário oveneno
da colaboração", com os partidos epolíticos socialistas, isto porque "o
pior inimigo é o que finge se interessar pelo nosso bem, é o que nos
adula, oque aspira. apaternidade danossa causa para. depois exigir nos- \,
sasubmissão aos seus interesses ecaprichos". Por outro lado Florentino
acena com a possibilidade do estabelecimento de união com os "pri-'
mos" socialistas. Oiticica(96) registraseremosanarquistas tratados pelos
trotskistas como "primos". Advertia, porém, quetal união só deveria se
concretizar emmomentos ondenãohouvesse perigo para ostrabalhado-
res (53).
O confronto direto com o regime burguês constitui um dos passos .
importantes para fazer precipitar mais rapidamente a revolução social
165------_._ ...• - --------------_.........• • .• •
(24). Os revolucionários deveriam protestar incansavelmente contra a
guerra, fomentando a revolta nos deserdados e incitando-os contra os
impérios, contra as guerras, explorações e escravizações. A trégua com
os "sedentos de sangue e ouro" deveria cessar, iniciando as agitações e
luta imediata afavor dos lutadores da liberdade ejustiça. Osrevolucio-
nários deveriam lançar mão detodos os meios possíveis para a liberta-
ção social: apalavra, apena, oboicote, agreve, arevolução (92).
A Violência Revolucionária e a Imprensa Operária
Veremos nesta parte como Florentino de Carvalho tratou daquestão
douso daviolência pelo proletariado revolucionário. De antemão sabe-
mos ser este umtema bastante controvertido entre pensadores emilitan-
tes ácratas, havendo quem defenda a utilização da violência, de uma
forma ou de outra, como instrumento de transformação social, como
. também, quem a excluaterminantemente como meio capaz de estabele-
cer uma nova sociedade. Thoreau (192 e 193), Tolstói (194) e Gandhi
(202) foram os expoentes, mundialmente conhecidos, defensores do uso
danão-violência sistemática emsuas lutas pela libertação do ser huma-
no de todas as opressões e dominações, os quais influenciaram sobre-
maneira a época emque viveram.
O dilema da utilização ou não de expedientes violentos dá-se ao
lado do questionamento acerca do distanciamento ou não dos objetivos
perseguidos pelo anarquismo caso aviolênciafosse incorporada emseus
métodos de edificação de uma sociedade onde a paz e a harmonia pu-
dessem ser seu firmamento e chão. Como entender, por fim, um indiví-
duo que propaga umideal deliberdade e solidariedade, onde os elemen-
tos daexploração, repressão ediversas violências existentes na socieda-
de de classe fossem subtraídos; como entender alguém comtais subli-
mes anseios sendo, .ao mesmo tempo, defensor do uso da força como
meio para o estabelecimento dautopia? Esta era uma contradição apa-
rente, pois a revolução armada, o atentado, o incêndio, a sabotagem, a
greve são métodos doproletariado resistir e seopor à violência sistemá-
tica promovida pelo patronato e estadistas (17).
Os burgueses, ospolíticos etodo oconjunto dos detentores dopoder
político e econômico, jamais largariam espontaneamente seus privilégi-
os, não hesitando mesmo uminstante emprovocar conflitos sangrentos
166
no intuito desemanter enquanto classe dirigente (2). Diante dobelicismo
desenfreado das classes dominantes, a atitude prudente dos trabalhado-
res não poderia ser outra além da resistência armada (7). A violência
armada do proletariado insurgente, significaria mesmo ocoroamento de
todo o processo revolucionário anteriormente iniciado, constituindo na
"liquidação final", o instante emque oproletariado revolucionário des-
fecharia os golpes de misericórdia no capitalismo moribundo (15). A
história está cheia de exemplos onde aos írnpetos libertadores eclcdidos
pelo proletariado revolucionário, burguesia egoverno responderam com
tremenda violência, prendendo, torturando e assassinando os trabalha-
dores. Desta maneira a liberdade do proletariado éfruto das lutas dos
mesmos trabalhadores. É fruto deconquista enão uma caridosa conces-
são de piedosos altruístas (90). Entretanto a violência de fato não se
coaduna com o ideal e os princípios anarquistas, "a violência é uma
fraqueza: aforça está na liberdade; porque só ela ébranda enão repele
aninguém" (95). Apesar disto o direito à defesa éinquestionável Uma
vez que "se a violência é imoral, a passividade, a resignação é ainda
mais imoral, porque éarenúncia à vida e à liberdade" (81).
As "reformas fictícias", aliberalidade aparente do sistema burguês
e, por outro lado, o excesso demiséria e despotismo, refletemnegativa-
mente sobre os trabalhadores e revolucionários: as primeiras enervando
as energias revolucionárias e os segundos, além de os imbecilizar, leva-
os à submissão e/ou à morte. A violência revolucionária constitui um
dos meios capazes de romper com este circulo (17). Em caso de uma
real possibilidade do estabelecimento daigualdade social, areação bur-
guesa seria eminentemente violenta conforme tem registrado ahistória.
Como garantia às conquistas eliberdades, oproletariado teria de recor-
rer à violência como forma deromper areação burguesa. Neste sentido
Florentino de Carvalho convocou os trabalhadores para o empreendi-
mento deações diretas contra os opressores demaneira aestaremprepa-
rados para o inevitável embate armado (90) .
. Os trabalhadores necessitavam, naluta contra os donos dopoder, de
união e solidariedade. A vitória sobre os inimigos estará garantida na
medida em que eles se elevem emidéias novas, em conhecimentos, em
princípios, fortalecendo suas convicções e se enchendo de entusiasmo.
Contudo, 'estes elementos devem ser fornecidos pela imprensa operária
eanarquista comotambém "por todos os nossos veículos depropaganda
eeducação". A ação destes instrumentos - que, por sinal, são eminente-
167
mente educativos - deve ser metódica esistemática, subtraindo todas as
"divagações ou impurezas"; adotando uma postura forte, empolgante,
revolucionária, clara, definida eorientando os oprimidos e escravizados
para o ideal libertario. Desta maneira "a missão primordial dos jornais
operários" - também denominado vanguarda - deve ser:
"dar aos trabalhadores uma cultura superior, uma série de conhecimentos que os
coloquem à altura da grande tarefa da emancipação política, econômica, religio-
sa, moral, etc., levando ao cérebro dos trabalhadores os conhecimentos que di-
zem respeito à solução de todos os problemas sociais" (84).
Os jornais operários devem se orientar por estes objetivos, sem dei-
xar para outros esta missão. Tampouco devem protelar o momento da
divulgação dos princípios anarquistas, "quer na tese negativa, contrária
ao regime burguês, quer na tese positiva de reconstrução social". Para
Florentino de Carvalho eranecessário "saber o que sepode desmantelar
e o que se há de edificar", acrescentando que "não podemos ter diante
denós aignorância" (84).
Ao evidenciar a relevância deuma imprensa operária livre, contra-
pondo-se à imprensa burguesa, Florentino de Carvalho enfatiza seus
objetivos: é contrária ao espírito de lucro e aos interesses dos explora-
dores e demais dominantes; éum arauto dos princípios dejustiça, liber-
dade e dos novos postulados da ciência e da filosofia; écontrária à es-
cravidão moderna; éinstrumento de denúncia dos males sociais e das
infâmias burguesas; éiconoclasta eidealista. Além dos objetivos acima
relacionados, a imprensa operária possui outros: a libertação de todos
os escravos; ofim damiséria e dafome; promover a educação e opro-
gresso social emoral; extinguir todas as tiranias e despotismos que en-
travam a "marcha civilizatória", regenerar ahumanidade; estabelecer a
harmonia universal (57). Para tanto aimprensa operária deve:
"Brandir, todos os dias, o seu estilete, guerreando, ferindo, vencendo, derrubando
os tOlVOS inimigos e tiranetes do proletariado, os algozes dos revolucionários,
dos uiilistas de hoje, que não querem deixar rasto da sociedade capitalista, cleri-
cal, militarista, do Estado político, grosseiro, falaz e sanguinário" (84).
Acrescentando, emseguida, ser o dever da imprensa operária
"despertar opensamento dos trabalhadores, ilustrando-os comas luzes dos ideais
novos, das concepções científicas e revolucionárias, a fun de que estejam, logo,
168
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preparados, capacitados para arealizavão das revoluções sociais epara aorgani-
zação da sociedade dos livres" (84),
'Contra o Ensino Oficial: uma Educação Libertária
Como vimos no primeiro capítulo, Florentino de Carvalho, além de
tipógrafo e eletricista, eraprofessor, tendo participado de várias experi-
ências pedagógicas inclusive uma experiência de ensino universitário
destinado aos trabalhadores, A educação para ele abrangia todos os as-
pectos da vida de relação e não se reduzia apenas aos conhecimentos
tecnológicos e técnicos. As greves, as organizações proletárias, as co-
missões, os jornais e revistas operárias redundavam em experiências
educativas. Em cada uma destas atividades exigia-se união, conjugação
de esforços, solidariedade e demais predicados da sociabilidade. Todos
estes fatores são imprescindíveis no processo revolucionário, consti-
tuindo elementos eminentemente educativos. Desta maneira a educação
possui contornos bastante amplos, estando em relação direta com os
elementos de libertação e emancipação social. Por isso mesmo a educa-
ção deveria ser objeto de reflexão de todos os trabalhadores, devendo
estes criar e difundir "novos métodos de instrução e educação" (93).
Deveria partir dos trabalhadores, não doEstado ou outra instituição, as
iniciativas de criação de escolas profissionais. Estas iniciativas seriam
direcionadas tanto a um maior estimulo ao desenvolvimento de ações
espontâneas como também a uma redução, o mais ampla possível, da
ação nociva das instituições burguesas no movimento evida dos operá-
rios. Apenas desta maneira os trabalhadores conquistariam sua sobera-
nia eliberdade (46). '
Uma educação libertária objetiva criar, possibilitar efacilitar aexis-
renda de uma "cultura racional", Noutras palavras, um conhecimento
fundamentado na experiência, na verificação concreta. de seus pcstuia-
dos e no raciocínio .humanc, não em dogmas religiosos, filosóficos OU
metafísicos. Para o estabelecimento de uma verdadeira cultura éimpe-
rativo "criar ao redor da infância um ambiente dejustiça, de indepen-
dência e de estética que liberte dos vícios e dos preconceitos" e demais
prejuizos da sociedade burguesa. Éoportuno ressaltar que os anarquis-
tas do inicio deste século entendiam cultura como conhecimento racio-
nal, Uma compreensão antropológica atual deste termo amplia seu cam-
po de abrangência para toda dimensão criativa do ser humano, Desta
169
maneira, não era apenas o aprendizado adquirido em escolas o único
válido no processo educativo das crianças edos adultos. Mais que esco-
Ias, era necessário um ambiente cotidiano onde os elementos dasociabi-
lidade - como ajustiça, a estética, o estímulo à independência, a solida-
riedade, acooperação dentre outros - fossem abundantes, resultando na
concretização deuma.sociedade sã (93). Ainda mais porque tal aprendi-
zado escapa, muita das vezes, à competência do ensino escolar. Anali-
sando os aspectos do ensino oficial, religioso, nacionalista e militar,
Florentino, alémdeexpor as linhas gerais daeducação racionalísta, refe-
re-se à educação como tendo no exemplo o método de maior eficiência:
"Em moral, os continuadores da pedagogia escolástica medieval, concorren-
tes à perversão dos humanos instintos de sociabilidade e de justiça; eles, que
jamais selembraram deensinar pelo exemplo, as boas normas deconduta, traçam
para todo omundo regras emais regras, aponto de embaraçarem os movimentos
de quantos as tomam aopé daletra" (94 - grifos meus).
A utilização de armas debrinquedo nas escolas pelas crianças devia
ser condenada, ao lado do ensino militarizado, sendo imperativo asubs-
tituição detais brinquedos por outros de caráter construtivo (40).
Vários eram os fatores que colaboravam para a elevação do nível
educacional dapopulação: exposição clara esem dubiedades das idéias;
exposição clara esemambigüidades daverdade edo conhecimento cien-
tifico; conduta reta por parte dos anarquistas; determinação na luta por
parte dos anarquistas; "arites detudo eacima detudo deve estar obrilho
do pensamento, apureza do princípio, a honestidade ideológica" (87).
Uma educação fundamentada nos princípios sociáveis elibertários pos-
sibilitaria aexistência de "homens mais equilibrados", mais saudáveis e
racionais emcomparação comos egressos das escolas oficiais ereligio-
sas. As marcas e muitos dos prejuízos destas escolas não saem facil-
mente de algumas pessoas. De outras não saem nunca (93).
Os anarquistas procuram despertar os trabalhadores à reflexão eao
pensamento através "daluz "das concepções científicas e revolucionári-
as". Desta maneira eles setomarão capacitados para "a realização das
revoluções sociais e para a organização da sociedade dos livres" (84).
Uma escola racionalista e ao mesmo tempo neutra, omissa quanto às
desigualdades sociais, é, para Florentino de Carvalho, algo impossível
de existir. Ele nos dá várias razões desta sua assertiva: ofato dos novos
conhecimento destruírem os conhecimentos antes estabelecidos é a
170
.:__.....
primeira razão. Como estes novos conhecimentos seriam estabeleci-
dos, então, se não fosse sobre as ruínas do antigo? O neutralismo em
educação conduz ao conservadorismo uma vez não ser questionador,
não possibilitando o avanço nem o progresso. A segunda razão para a
não aceitação do neutralismo éofato de ser impossível não haver uma
tomada deposição emvários aspectos davida derelação principalmen-
te no que diz respeito à integridade dos fatores da sociabilidade.
Flcrentino de Carvalho questiona muito apropriadamente se era pcssí ..
vel existir "uma moral que convenha ao mesmotempo aVoltaire e a S ,
Inácio"? Por fim, é imperativo uma educação assumidamente voltada
paraa emancipação social, uma vez estarmos numa sociedade fundada
na desigualdade, na exploração e emvárias formas de violência contra
seres humanos (93). Desta maneira é impossivel e impraticável uma
educação laica, neutra eracional, naplenitude dos termos, sob oregime
capitalista:
"Continuam os debates para se determinar se aescola deve ser laica, neutra,
racional ou científica, etc.
Em virtude da ordem.social emoral, aescolanão pode ser laica. O Iaioismo
éuma doutrina metafísico-burguesa, que não nega em absoluto a Teologia. O
Iaioismo é uma miscelânea de noções pseudccíentíficas, de preconceitos políti-
cos e sociais. O laicismo é conservador, está compendíado no civismo oficial, na
educação oficial.
Emvirtude daordemsocial emoral aescolanãopodeser neutra. Oneutralismo
éabstrato. E uma escolaanodina, amorfa; uma escolaquenão J ?-ega, nem afirma,
uma escola sem oriente. Não é treva nem luz: é crepúsculo. E uma escola que
produz o gênero neutro, obtuso, pertubador,
Não se navega entre duas águas. A escola, se não é adversária, é solidária.
Quando asumidade eclesiástica resolve que I éigual a3, que aalma eoespírito
são idênticos; quando santifica apobreza espiritual; quando aautoridade religio-
sa ou política opõe o arbítrio à liberdade; quando glorifica a lei em detrimento
dos Direitos do homem; quando sustenta a exploração, a indigência e prega a
guerra, pode aescola anuir, recolhendo-se tranqüilamente ao silêncio? Em virtu-
de da ordem social e moral a escola não pode ser puramente racional O
racionalismo puro émetafísico; é, além disso, uma ramificação dolaicismo e do
neutralismo" (94).
Florentino de Carvalho neste ponto parece crítico deum aspecto da
pedagogia defendidapor Ferrer yGuardia epor Ricardo Mella. .Ambos
defendiam um ensino racional sem relação comnenhuma ideologia ou
filosofia social. Para eles aescolanão deveria defender nenhumtipo de
"ismo", limitando-se aopapel de ensinar as matérias objetos de estudo.
171
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A escola não deveria ser local para a reprodução de nenhum tipo de
ideologia, quer republicana, católica, socialista ou anarquista. E exata-
mente contra esta posição que Florentino se insurge. Para ele isto éim-
possível acontecer, por causa da situação social envolventeimpedir qual-
quer tipo de omissão, coletiva ou individual. Por isso reivindicou da
escola postura assumida de lutadora pela emancipação da humanidade
, .
em vez de ser elemento de conservação. A escola, deveria educar sem
esconder as novas descobertas da ciência. Sobre este assunto Ga11o(130)
detém-se em alguns dos aspectos do pensamento pedagógico de Ferrer y
Guardia e de Ricardo Mella quando estes defendiam um ensino neutro,
tecendo algumas críticas sobre as implicações deste neutralismo ao mes-
mo tempo em que registra não ter existido, na prática das Escolas Mo-
dernas de Barcelona, tal neutralidade.
Uma educação racionalista deveria explicar as ciências sem se preo-
cupar nem temer as novas verdades surgidas com o avanço do conheci-
mento científico. Isto porque tais verdades não prejudicam de forma
alguma a "felicidade humana" e sim a interesses exclusivistas, A escola
deveria "facilitar os meios para que os alunos possam adquirir os conhe-
cimentos mais essenciais afim de que eles próprios criem a sua educa-
ção" (93 - grifes meus). Esboçando os aspectos gerais de uma escola
fundamentada no ensino racionalista, onde a auto-educação seria o alvo
para o qual a escola deveria conduzir seus alunos, Florentino diz que
"a escola não deve ter por fim a imposição eleum sistema teológico, metafíco ou
filosófico, Para cumprir fielmente a. sus missão deve despertar e desenvolver em
0;:.d.1 ~;(lmemas faculdades intelectuais tiespirituais de modo que este possa criar
umafilosofia própria" (94 - grifes meus).
Em outro momento trata dos tipos de educação, referindo-se à esco-
Ia como devendo preparar os indivíduos para a auto-educação'.
"O problema social e espiritual éum problema de educação.
E a educação devide-se em:
Metafísica ou autoritária.
Científica ou anárquica.
A primeira é absoluta e dogmática, a segunda érelativa e progressiva; a pri-
meira exige a crença, a segunda induz à análise; a primeira inculca, a segunda
expõe; a primera cria o homem à imagem e semelhança da lei, a segunda depura"
o de todos os viciosodo meio, põe em atividade as suas energias, prepara-o para
o tirocínio da auto-educação, propicia a liberdade e igualdade intelectuais pela
ascenção cultural das multidões" (94 - grifos meus).
172
Aqui temos uma indicação da concepção de ciência de Florentino
de Carvalho como sendo de natureza anárquica. Apesar denão ter sido
possível neste momento umaprofundamento sobre seu método científi-
co comotambém de sua concepção de ciência, nos parece ter eledesen-
volvido profundas reflexões nestas áreas, constituindo-se numprovável
precursor das idéias desenvolvidas por Monod (165), Feyerabend (126)
e Prigogine (176).
A idéiadeauto-educação sugeri dapelo autor aparenta possuir dupla
aplicação: individual e coletiva. A aplicação individual diz respeito ao
que entendemos atualmente por autodidatísmo. Assim, a escola deveria
fornecer aos alunos os elementos necessários para o desenvolvimento
de reflexões e deestudos seguindo métodos ecriação própria. Por outro
lado, o sentido coletivo da auto-educação seria realizado através da
autogestão nas escolas, onde o aluno exerceria umpapel ativo na confi-
guração de seu aprendizado. Isto significa dizer que numa escola
autogerida ocorpo de alunos teria voz para estabelecer, modificar edis-
cutir as matérias. e métodos de aprendizado, constituindo um exercício
salutar da liberdade e daresponsabilidade.
Quanto à ciênciasocial, Florentino deCarvalho acompreendia como
instrumento hábil aos movimentos de libertação social, devendo estar
ladeada pelos fatos para possibilitar as revoluções direcionadas à "eqüi-
dade social" (76). A revolução socialtem naeducação umfator detonador
e provocador de grande relevância. Como vimos no capítulo anterior, a
revolução social éconstituída por vários aspectos enão apenas oeconô-
mico. A prática da reflexão sistemática e a aquisição das concepções
científicas pelos trabalhadores constituem fatores precipitadores da re-
volução social (84).
Atualmente nos beneficiamos Com várias publicações sobre as idéi-
as, práticas e teorias, educacionais produzidas pelo pensamento anar-
quista no Brasil e emtodo o mundo.. A seguir eis alguns autores - em
línguaportuguesa eespanhola, sópara citar alguns ~quetêmpesquisado
sobre o tema acima referido: Rodrigues (186); Luizetto (155 e 156);
J omini (144); Ghiraldelli J r. (132); Illich (141, 142 e 143); Tragtenberg
(198); Gallo (130 e 131) eTomasi (195). Esta última analisa exaustiva-
menteapedagogialibertária, tanto emseusfundamentos filosóficos como
emexperiências ocorridas naEuropa. Partindo dacaracterização dopen-
samento anarquista para depois analisar as contribuições dos chamados
prec~,sores do anarquismo, comoGodwin, passando para as contribui-
173
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..-..~,'-' ~" -" '------
ções de Stirner, Proudhon, Bakunin, Tolstói e K ropotkin. A seguir a
autora reflete sobre algumas experiências de educação anarquista como
a "Escuela Moderna" de Barcelona, La Ruche e Summerhill. Por fim,
depois de passar por outras questões ligadas ao anarquismo, a autora
reflete sobre aspropostas libertárias emeducação nacontemporaneidade.
Luengo (154), do coletivo Paidéia .; uma experiência coletiva em ensi-
no combases nos postulados anarquistas - trata de como éconstituída,
quais as características e fundamentos teóricos e filosóficos de "La
Escuela deIaAnarquia". Gomez (133) também contribui comurna aná-
lise acerca dos fundamentos teóricos e várias práticas pedagógicas do
coletivo Paidéia.
A Organização de Trabalhadores
edos Excluídos da Sociedade
Florentino deCarvalho também refletiu sobre aconfiguração deuma
organização dos trabalhadores como ela deveria se dar. Abordou tam-
bém a compreensão de outros anarquistas neste assunto. Chegou mes-
mo aalimentar polêmicas com alguns deles. Uma destas polêmicas deu-
se com Angelo Bandoni, companheiro na direção do jornal Guerra
Sociale. Bandoni era defensor da idéia da não participação dos anar-
quistas em sindicatos por entender serem estes contrários aos ideais
ácratas. Para Florentino "o trabalhismo ou o sindicalismo" (84) deveria
ser visto pelos trabalhadores apenas como meio de luta, não como fina-
lidade. Contudo, este posicionamento crítico não nega o valor e impor-
tância das organizações operárias (26).
Após levantar algumas críticas aos posicionamentos de Bandoni,
Florentino de Carvalho diz ser necessário uma eficiente organização de
resistência operária, acrescentando que quanto maiores e mais fortes
forem elas, mais próxima estaria aconquista da vitória dos trabalhado-
ressobre o capitalismo e o estatismo. Levantando alguns pontos, pro-
põe oinício daluta pelajornada de oito ou setehoras emsubstituição à
jornada sob aqual eramesmagados ostrabalhadores. Esta outrajornada
detrabalho possibilitaria uma melhora significativa na situação do tra-
balhador pois, considerando:
a) que a luta pela emancipação exige dispêndio de grande energia
por parte dos trabalhadores;
174
b) quepara obter tais energias énecessário tempo para ainstrução e
descanso;
c) quepara tal disposição edescanso, ajornada detrabalho de 12ou
14horas diárias constitui tremendo obstáculo paraa elevação dotraba-
lhador, tomava-se, então, imperativo o empreendimento por parte dos
trabalhadores da luta imediata pelajornada de oito ou setehoras. (27)
A organização operária constitui um relevante fator detonador da
revolução social. De outro lado estarevolução acontecerá à medidaque
os anarquistas seinteressem pelo movimento operário semdoscuidarem
dos outros meios. A inserção dos anarquistas no movimento operário,
esforçando-se no fortalecimento de tais organizações, foi algo presente
na origem do anarquismo comBakunin, Guillaume, Reclus, K ropotkin,
e também nos altos momentos do anarquismo mundial em Espanha,
Portugal e Argentina (26).
Os ideais de regeneração social deveriam ser propagados tanto den-
tro dos sindicatos como pelos sindicatos a todos os grupos oprimidos,
de maneira a formar uma multidão de revoltados contra o capitalismo.
Cabe aos anarquistas incentivar ecultivar aobra decritica ededivulga-
ção dos ideais de libertação social junto ao movimento operário. Oiso-
lamento não era caminho fecundo e sim estéril, condenando qualquer
movimento social à morte. Os anarquistas deveriam misturar-se como
povo para melhor divulgação dos ideais e princípios anarquistas; to-
mando parte nas lutas dos trabalhadores; organizando os grupos para a
resistência; orientando-os nos conflitos contra ocapital econtra oEsta-
do e incentivando-os ao combate de todos os opressores. Isto porque
não são suficientes as idéias e doutrinas no combate pela libertação so-
cial (23). A ação também é imprescindível porque "os trabalhadores
devem conquistar por completo, todas as liberdades, todos os direitos
que lhes assistem como seres humanos" (84).
Apenas os trabalhadores poderiam estabelecer o "regime dotraba-
lho e daigualdade social", pondo término ao "domínio domilhão" (82).
Os grupos e associações dos trabalhadores e libertários deveriam ser
"edificados sobre opedestal" dos princípios anarquistas negando todos
os expedientes alheios econtrários aos postulados edoutrinaácrata (70).
Analisando a situação dos sindicatos brasileiros Florentino de Carva-
lho, após lhes ter dirigido pesadas criticas, apontou algumas atitudes a
seremtomadas pelos sindicatos comoforma desuperar a"crise cultural,
revolucionária e idealista" na qual se encontravam. Teriam de começar
175
1,
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por uma revisão "da obra que temos à vista", isto é, qual o objetivo a
atingir e quais as conquistas pelas quais lutar. Em seguida deveriam
elevar o espírito através de uma visão mais ampla das idéias sociais.
Deveriam também permitir aentrada das idéias anarquistas nos sindica-
tos quepor esta época, 1933, encontravam-se hegemonizados pelo mar-
xismo. Por fim, os sindicatos deveriam abandonar. apusilanimidade e o
legalismo, deixando de lado as atitudes temerosas e agindo destemida-
mente (86). Deveriam agir como o "direcionamento de Espártaco" na
Itália cujas lutas, intrépidas e destemidas contra os dominadores imperia-
listas, marcaram as lutas de libertação dos explorados detodo omundo,
servindo-lhes como referencial, como um exemplo a ser seguido (62).
Para aexistência deuma eficiente organização dos trabalhadores os anar-
quistas necessitariam observar alguns procedimentos: não deveriam se
limitar apenas à luta econômica, imediata, pois só ela nada resolveria,
permanecendo asituação damesma forma, ou seja, continuando aexis-
tir explorados; deveriam "empreender trabalho de análise e de critica a
todos os misticismos, dafé ao patriotismo, e finalmente atodos os'pre-
juízos sociais"; deveriamtambém "falar à inteligência eao coração dos
homens de trabalho a fim de que as nossas idéias possam produzir rea-
ções físicas e químicas que modifiquem oseu modo depensar e de sen-
tir" (23).
Para uma eficiente propaganda junto à população tomava-se impe-
rativo uma orientação ideológica ao lado de uma organização (26). Por
outro lado a existência efetiva de um movimento de resistência e de
caráter social está condicionada à iniciativa de homens capazes e dis-
postos (60). O movimento anarquista necessita praticar a solidariedade
e não os conflitos e desentendimentos. Ao invés delançar mão de criti-
cas ácidas e dissolventes, os anarquistas ao discutir entre si questões de
métodos e propostas diferentes e divergentes deveriam, fazê-lo de ma-
neira criteriosa, serena. Ao mesmo tempo, deveriam encorajar e estÍ 111u
M
lar as obras dos companheiros (26).
176
---------
------------------------''----'----:----,-r
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Findo todo um árduo processo de pesquisa, chegamos ao final desta
etapa com uma grande bagagem de conhecimentos ·esentimentos acres-
centados ànossa vida. Pesquisa tem dessas coisas. O pesquisador tem
que percorrer um longo caminho que esconde supresas, novidades, difi-
culdades mil, exigindo perseverança, paciência e atenção num trabalho
semelhante ao de garimpeiros. Assim, tivemos que vasculhar arquivos e
bibliotecas; a literatura especializada; colher depoimentos; verificar no-
vas pistas; checar informações, enfim, uma imensidão de tarefas inclu-
indo a análise dos dados, sistematização dos temas etexto final. Contu-
do todo este percurso proporciona ao pesquisador uma gama considerá-
vel de emoções e satisfações que só ele conhece nas devidas propor-
ções. A satisfação em investigar um tema que há muito nos interessa,
conjugado ao prazer deconhecer aodisséia deumpersonagem sui generis .
na história do movimento operário brasileiro, e do pensamento social
produzido em solo brasileiro, tirou denossa atividade o caráter de obri-
gação, tornando-a leve.
Ditas estas palavras que, acredito, todo pesquisador sente a necessi-
dade de registrar, passamos a esboçar algumas considerações. Mas, por
. quê considerações finais e nâo conclusões? Será que não há nenhuma
conclusão? De maneira alguma. Conclusões existem, só quenão preten-
demos projetar a idéia de ter esgotado o assunto. Esta possibilidade se-
ria maior setivéssemos intitulado esta última parte de "conclusão". Este
termo nos parece sugerir encerramento deum assunto ou deum tema. A
opção por "considerações finais" éum esforço emdeixar claro que mui-
to há ainda a ser pesquisado e a ser dito. Isto porque considerando a
intensa produção teórica deFlorentino de Carvalho; considerando o fato
denão ter sido possível uma exaustiva investigação nos jornais e revis-
tas proletárias das primeiras cinco décadas deste século; considerando o
fato de ter ele escrito com outros pseudônimos: considerando os artigos
nâo assinados; considerando as perdas ocasicnadas pela ação do tempo
a, principalmente, pela destruição causada pelas invasões da polícia se-
guida de danificação, empastelamento, confisco e apreensão de materi-
ais nas tipografias operárias e, por fim, considerando o fato denão ter
feito, por não ser viável neste momento, uma análise exaustiva de suas
duas primeiras obras- inquestionáveis contribuições tanto ao pensa-
mento social' do Brasil como ao movimento dos trabalhadores .~.creio
tenham escapado pelo menos quatro quintos de sua produção teórica.
177
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A riqueza de detalhes das reflexões desenvolvidas por Florentino de
Carvalho em suas obras escapam ao presente trabalho. Sua concepção
de ser humano; seu pensamento ecológico; sua crítica ao esoterismo, a
outros anarquistas, ao marxismo em suas mais variadas versões e a ou-
tras correntes filosóficas; seu conhecimento e comentarias dos mais re-
presentativos cientistas da época; suas reflexões sobre a questão da fa-
mília, do amor eda mulher, tanto as análises destes assuntos na socieda-
dedesua época como também as sugestões apontadas como solução aos
dilemas referentes a estes temas; seu método sociológico; sua proposta
de união da arte com a ciência; sua concepção de arte e de ciência; sua
proposta de reconciliação entre trabalho manual e intelectual, entre ou-
tras facetas mais deseu pensamento, não foram analisadas por causa das
limitações de tempo e de espaço. Por estes motivos não é interessante
intitular esta parte de conclusão. Entretanto, é bomdeixar claro, conclu-
sões existem. Uma concJ usâo di z respeito à sua capacidade e poten-
cialidade teórica. Sem dúvida nenhuma foi um dos pensadores de gran-
de envergadura que, em solo brasileiro, iniciou e desenvolveu uma pro-
dução intelectual rica; com um conhecimento amplo, dentro das diver-
sas áreas das ciências sociais, com Limainvejável profundidade, exce-
lente e sólida argumentação e com uma inquestionável competência.
Isto sem esquecer, ne111relevar, o fato de ter sido ele operário autodida-
ta. Edgar Roclrigues em várias de suas obras refere-se a Florentino de
Carvalho comotendo sido umdosteóricos epropagadores do anarquismo
de maior vulto em toda a América Latina. Em correspondência a nós
dirigida cita o escritor argentino Carnpio Carpio que compartilha com
ele este pensamento.
Ter a consciência do significado da sua contribuição teórica epráti-
ca ao movimento operário e ao pensamento político-social brasileiro; o
conhecimento, sistematização e resgate do pensamento de um autor de
tamanha envergadura que se encontrava, até então, submerso na areia
do tempo; o conhecimento da realidade social da sociedade brasileira da
época edo movimento operário emsuas mais variadas nuanças a partir
da visão deumtrabalhador, são provas da relevância de pesquisas desta
natureza, Suas reflexões sobre a sociedade brasileira e sobre a república
recém-instaurada mostram-se bastante aprofundadas e sóbrias. O cará-
ter classista da república, uma sociedade essencialmente desigual des-
crita eanalisada em seus aspectos sócioeconômicos e, por fim, a face da
violêl2ciasofrida pelos trabalhadores através da ação policial a mando
178
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I
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dos poderosos dapolítica edas finanças, são os traços da sociedade eda
república brasilei ra delineados através dos seus til rtigos e li vros: Seu
depoimento sobre sua época é repassado ao leitor deumaforma pulsante,
viva, plena de elementos emotivos próprios de quem tem a consciência
da gravidade da situação social e de quem passou por momentos de
angústia sob o terror das torturas e a experiência depresenciar a queda
de pessoas amadas. Podemos atestar pela literatura historiográfica a
veracidade das colocações e das observações feitas por Flcrentíno de
Carvalho quanto a situação social na qual a população em geral e os
trabalhadores em particular, se encontravam. Tamanha eram as perse-
guições, violências, assassinatos, deportações e tantos outros arbítrios
dos govemantes da tão aclamada república que Florentino de Carvalho
chegou a denominá-Ia inquisição em umde seus artigos (77). Evidencia
o caráter extremamente violento da recém-inaugurada república no títu-
lo deoutro artigo: "A República do Chanfalho" (14)
Os trabalhadores desenvolveram lutas e ações degrande valor den-
tro de um projeto de emancipação social. Florentino de Carvalho refle-
tiu sobre certos aspectos das adversidades enfrentadas pelo movimento
dos trabalhadores, descrevendo um quadro geral da situação do movi-
mento dos trabalhadores em sua época. Assim evidencia uma tendência
do movimento operário brasileiro para a ação solidária. A ação solitária
de trabalhadores e deserdados, por outro lado, constituía ai vo de sua
mais sinceraadmiração a ponto de exercer, podemos notar, um certo
fascínio sobre sua pessoa, Entretanto ele deixa claro ser mais favorável
a uma ação organizada e coletiva por ser muito mais eficaz e poderosa.
Os deserdados agindo organizadamente, isto é, agindo emcoletividade,
C0111 base na autogestão, na liberdade solidária, na justiça ena igualda-
de, tomam-se mais devastadores, mais eficientes e poderosos O des-
mantelamento e abolição da ordem social capitalista e estatal e a edi-
ficação da sociedade igualitária, justa, livre e solidária, tinha muito mais
probabilidade de acontecer a partir da convergência dos esforços dos
trabalhadores e demais oprimidosnum objetivo comum.
Os dois primeiros congressos operários ocorridos em 1906eem J 913
constituíam marcos pelos quais pode-se conhecer o nível de organiza-
ção dos trabalhadores. É neles que Florentino de Carvalho se baseia
para sustentar o sentido positivo da organização dos trabalhadores. Ao
lado do movimento operário, o movimento anarquista somava forças na
constr~ção da emancipação social. Os vários comitês dos trabalhadores
179
procuravam impulsionar apopulação na precipitação da revolução soci-
al. O movimento anarquista buscava dar ao movimento operário umnorte
seguro rumo à libertação social.
Em seus artigos Florentino de Carvalho expunha mais criticas às
diversas instituições e doutrina sociais de sua época que, por exemplo,
aspectos e características do movimento dos trabalhadores. Mesmo por-
que o trabalho de critica necessita de argumentação, de fundamentação,
de maneira a convencer o leitor da veracidade das novas idéias defendi-
das.Isto para demonstrar a coerência das novas idéias, sob risco denão
serem assimiladas e, resultado, rejeitadas. Criticas superficiais e apres-
sadas não produzem resultados satisfatórios quando se procura propa-
gar umnovo pensamento, mais ainda quando o objetivo étransformar a
sociedade nos moldes pretendidos pelos anarquistas. Assim, desenvol-
vediversas criticas àorganização social capitalista, evidenciando as prin-
cipais instituições sustentadoras do modelo de vida existente no Brasil
de sua época. Critica também outras instituições reprodutoras da lógica
hierarquizada na sociedade. Através destas instituições os valores e in-
teresses de dominação eram propagados, fazendo parecer serem valores
e interesses de toda sociedade. Também não escaparam de suas refle-
xões críticas as doutrinas sociais tidas como única opção ao modelo
capitalista deorganização social. O Estado e suas principais instituições.
foram objetos de análise de Florentino de Carvalho: leis; militarismo;
imprensa burguesa; intelectualidade ligada aos interesses dos dominan-
tes; escritores e jornalistas; poetas nacionalistas; partidos políticos de
todas as cores; escolas eprofessores ligados ao ensino oficial, religioso,
militar enacionalista; religião, sobretudo o cristianismo; outros elementos
de dominação como o socialismo democrático; sindicalismo; filósofos e
correntes do pensamento social; nacionalismo, por fim, até companhei-
ros de ideal e trabalhadores.
Sua critica ao Estado dá-se considerando vários aspectos. De início
evidencia o seu duplo caráter: dominador e explorador. Esta associação
das atribuições dá-se por causa do seu caráter classista uma vez estarem
os membros integrantes do Estado ou ligados intimamente aos capitalis-
tas ou são, na maioria das vezes, capitalistas. O Estado moderno surge
também como nova forma do poder centralizado. Senas formas anterio-
res opoder estava associado diretamente auma pessoa ou a U111pequeno
grupo depessoas, agora a centralização do poder toma outros contornos
pois o poder tomara-se anônimo. Isto se dá com as formas rotativas de
l80
exercício do poder em virtude da prática do sufrágio universal. Uma
outra característica marcante do Estado éatendência para o monopólio.
Eleprocura controlar todas as manifestações da vida social demaneira a
poder melhor dominá-Ias. Por fim Florentino de Carvalho evidenciou o
sentido religioso do Estado traçando o perfil sacro existente em seus
rituais descrevendo as solenidades e símbolos cívicos como oriundos
dos tempos de união entre os poderes político emilitar. O poder religio-
so é entendido como a origem detodos os demais poderes.
• Suas críticas às leis do Estado denunciam seu caráter dedominação.
As leis elaboradas por uma instituição classista - o Estado - só poderia
ter uma utilização classista. Mas, eas leis sociais? Existiam à época de
Florentino de Carvalho? De fato, leis sociais já eram realidade no Brasil
do início do século XX. Entretanto, tais leis eram inócuas pois os traba-
lhadores e demais excluídos da sociedade Capitalista tinham seus direi-
tos desrespeitados pelas próprias autoridades. Um exemplo marcante
disto vemos na luta dos trabalhadores contra asituação da criança prole-
tária. A realidade destas crianças era totalmente oposta ao determinado
emlei. Mais grave: os fiscais existentes para fazer valer os direitos das
crianças eram subornados. 'Faziam"vista grossa" àviolência eexplora-
ção impostas pelos patrões. Por outro lado ogoverno brasileiro procura-
va reprimir os trabalhadores organizados, através do plágio de leis
repressoras de outros países. Florentíno de Carvalho aponta emtal fato
umaincoerência gritante dosgovernantes, pois seeles acusavam os anar-
quistas de serem agitadores estrangeiros, justificando assim o apelo à
deportação, era incoerente copiar leis de outros países.
Os anarquístas podem ser considerados como os primeiros objetores
de consciência do Brasil. As críticas contundentes feitas pelo movimen-
to anarquista àlógica militarista eàpenetração desta emvárias institui-
ções sociais inscrevem este movimento no âmbito dos radicais an-
timilitaristas. Florentino de Carvalho semduvida nenhuma foi umardo-
roso combatente. contra o militarismo e sua expansão pela sociedade,
principalmente nas escolas. Assim, apontou o militarismo como meca-
nismo de manutenção das desigualdades sociais. Combateu com ve-
emência as intenções do governo eminstituir a obrigatoriedade do ser-
viço militar registrando, ao mesmo tempo, suas objeções ao militaris-
. mo: funciona como fator de aviltamento e degenerescência do ser hu-
mano pois contribui para o depauperamento dos sentimentos, para a de-
generação moral e para a degradação dos princípios de sociabilidade;
181
"""""'--' --,-:-_. _ ••• ~-"-- "- __ ' __ ' .'0 •• _ •
gera guerras por necessitar sempre denovas conquistas; corrompe o ser
humano incutindo-lhe vícios, etc..
O socialismo de Estado também foi alvo das críticas ácidas de
Florentino de Carvalho. Criticou a Social Democracia por vê-Ia como
nova forma de exploração e despotismo. Apesar da oratória socialista,
os sociais democratas conservavam toda a estrutura de dominação e ex-
ploração existente nas sociedades capitalistas, Daí a razão deter defini-
do a Social Democracia como movimento dereação, Sedimentando suas
afirmações, apontou diversas contradições da Social Democracia: prega
a revolução política enão a econômica nem a social; mantém a proprie-
dade, pois ao se passar todos os meios de produção para as mãos do
Estado, e não da sociedade, instaura-se, de fato, uma nova classe diri-
gente, atecnocracia; énacionalista emvez de internacionalista. As pro-
postas deste socialismo eram inócuas pois não tocavam nemdelonge as
raizes dos males sociais. Os candidatos socialistas, por sua vez, exerci-
am uma influência nociva no movimento dos trabalhadores, pois eram
conciliadores, transigindo seus princípios e postulados com os. domi-
nantes; privilegiando oparlamento edesviando os trabalhadores da ação
direta, levando-os a acreditarem - esperando - por melhorias apartir da
generosidade dos govemantes. A política partidária reproduz a lógica
da dominação, constituindo-se, defato, numa arte quevisa dominar mais
eficazmente a população, sobretudo os trabalhadores. Se o Estado pos-
sui aspectos enuanças de religiosidade, a política étida como a religião
do Estado, sendo, entre todas as religiões, apior. Por outro lado os polí-
ticos profissionais são os herdeiros diretos detiranias, uma vez quepro-
curam reproduzir, perpetuar, a dominação.
Um Estado socialista era visto por Florentino de Carvalho como
fator deexploração ede despotismo. Todo oprocesso histórico do Leste
europeu, com seu recente desfecho, o cobre de razão. Os social-demo-
cratas, edemais socialistas partidários do Estado, confundiam Estado e
sociedade, sendo-lhes inconcebível a idéia de sociedade sem a existên-
cia do Estado. Esta confusão resultou no estabelecimento de novos go-
vernos e de novas tiranias sobre os trabalhadores, explorando-os mais
intensamente, violentando-os mais incisivamente e dominando-os atra-
vés do terror eda burocracia.
Outras instituições também foram alvos de suas criticas. A impren-
sa nas mãos da burguesia foi uma delas, uma vez que funcionava .como
obstáculo à libertação dá população eao se colocar a serviço dos domi-
nantes defendendo seus interesses em detrimento dos trabalhadores.
182
Assim, critica poetas, escritores ejornalistas subservientes aos donos
do poder, A imprensa sccial-democrata também era tida no nível da
imprensa burguesa, pois suas difamações contra os anarquistas só auxi-
liavam os dominadores ao mesmo tempo em que, como instrumento do
socialismo de Estado, consistia num elemento de dominação: Alguns
intelectuais, cientistas eletrados ofereciam seus préstimos aos donos do
poder político e econômico, funcionando como verdadeiros guardiões
da sociedade exploradora, Faziam isto justificando ostatus quo, as desi-
gualdades sociais eprocurando dar credibilidade popular as ações das
classes dominantes, Ao mesmo tempo ridicularizavam os ideais deigual-
dade ejustiça social propagados pelos anarquistas, confundindo apopu-
lação e desviando-a da compreensão de seus princípios, Como se não
bastasse há que considerar todo avanço científico, numa sociedade de
classes, como beneficiário das classes dominantes,
A religião, particularmente o cristianismo, articula-se com gover-
nos e capitalistas, sacramentando as desigualdades e injustiças sociais'
emnome de uma ilusão, Desta maneira a religião obstrui o desenvolvi-
mento doser humario, sendo umfator deestagnação do raciocínio, Além
disso inculca nas pessoas prejuízos devários tipos, Não obstante, o cris-
tianismo teve uma origem fundamentalmente igualitária, degenerando
posteriormente por causa, principalmente, dos misticismos rudimentares.
O nacionalismo constitui também elemento de dominação dos tra-
balhadores em beneficio dos donos do poder político e econômico, re-
duzindo-se a um exc1usivismo mesquinho diante dos ideais de confra-
ternização internacional' defendido pelos anarquistas, O nacionalismo
possui também raízes religiosas. A religião tem no positivismo uma de
suas manifestações e este, por sua vez, desdobrou-se em vários racis-
mos enacionalismos. Daí a religiosidade presente emtodos os naciona-
lismos. O nacionalismo é definido por Florentino de Carvalho como
sendo o sustentáculo dos ideais de guerra, fator de fanatização dos po-
vos e origem das catástrofes sociais do mundo moderno. Os nacionalis-
tas procuram manter seus dominios através de diversos mecanismos:
violência sistemática; elaboração de leis; fabricação de armas; criação
de asilos para os miseráveis; cerceamento das liberdades; edificação de
prisões; criação de impostos entre outros.
Alguns filósofos e correntes do pensamento social também foram
objetos de critica de Florentino de Carvalho. Opôs as idéias de Charles
Darwin às dePiort Kropotkin, evidenciando a superioridadeda solidarie-
dade diante daidéia do conflito como fator deprogresso. O Príncipe, de
183
Maquiavel, foi criticado por consistir numa carti lha para tiranos.
Zaratustra, de Nietzsche, foi criticado por ser visto como uma obra
cultivadora do ceticismo e do egoísmo. Hebert Spencer, Karl Marx e
Frederic Engels foram criticados por terem elaborados doutrinas de ser-
vidão para os oprimidos da sociedade capitalista. Por fim, o positivismo
foi criticado por ser uma doutrina da' obediência e do egoísmo: nos tra-
balhadores incute o dever de obediência aos dirigentes, enquanto aos
diligentes incute o egoísmo.
Entretanto suas criticas foram dirigi das também atrabalhadores ea
companheiros de ideal. Advertiu os anarquistas para a necessidade de
uma maior inserção na sociedade, abandonando a intolerância e a pusi-
lanimidade. Criticou a CGT francesa por semostrar ambígua econfusa
emseus princípios. Polemizou com seu companheiro do jornal Guerra
Sociale, Angelo Bandoni, em relação ao sindicato. Enquanto Bandoni
defendia anão participação ciosanarquistas nos sindicatos, entendendo-
05 como essencialmente contrários aos ideais anarquistas, Florentino de
Carvalho endossava as criticas ao sindicalismo sem, contudo, propagar
ser necessário a saída dos anarquistas do meio sindical. Para ele era
necessário uma ação libertária junto aos sindicatos. Apesar disto conce-
bia a essência do sindicalismo como antagonizando com os ideais de
libertação social defendido pelo anarquismo. O corporativismo consis-
tia no vício do sindicalismo, levando seus militantes mais fervorosos a
enxergar apenas osinteresses desua categoria. Alémdisso osindicalismo
inclina-se a ficar semprepreso às questões imediatas eeconômicas, es-
quecendo as causas dos males sociais. Os sindicatos eram detrês tipos:
os orientados pela ação direta, os mais ou menos revolucionários; os
reformistas e os heutralistas. Este último encontrava-se em flagrante
antagonismo com as idéias de libertação social defendidas pelo
anarquismo. Os sindicatos no Brasil foram Sé tomando cada vez mais
legalitários, temerosos, imediatistas é corporativistas a partir do predo-
mínio do marxismo. Esta mudança de orientação política e ideológica
levou muitos dos militantes anarquistas a abandonarem os sindicatos,
inclusive Florentino de Carvalho.
Quanto' à Revolução Russa, ele foi um dos primeiros a advertir os
trabalhadores quanto aos rumos por ela tomados. Desconfiou da Revo-
lução Russa apartir dainstituição deumgoverno centralizado. Criticou.
intensamente o posicionamento de Kropotkin em relação à Primeira
Guerra Mundial. O anarquista russo equivocou-se ao incentivar aparti-
184
cipação de revolucionários no conflito bélico, pois a vitória de qualquer
umdos lados resultaria na instauração degovernos ditatoriais por todo o
mundo. Os revolucionários deveriam seunir contra os ímpetos imperia-
listas das potências beligerantes constituindo um movimento de liberta-
ção ao nível mundial. O mutualismo de Proudhon funcionava como ca-
misa-de-força aos ímpetos de libertação dos trabalhadores: Ao lado do
cooperativismo, o mutualismo não consistia num instrumento seguro de
emancipação social.
O ensino, os professores ea escola oficial também foram criticados
veementemente por Florentino de Carvalho. Como professor preocu-
pou-se com questões relacionadas à educação. Denunciou no ensino
oficial a existência inconfessa de interesses de dominação. Um ensino
baseado empreconceitos cívicos e religiosos, tendo no.militarismo eno
nacionalismo seus parâmetros e modelos de vida, só servia às classes
dominantes. Criticou o ensino oficial por ter em Augusto Comte seu
inspirador direto, inculcando nos alunos idéias de subserviência aos
dominantes enquanto nestes cultivava o ceticismo e o egoísmo. Os pro-
fessores de escolas oficiais viviam uma situação ambígua: eram instru-
mento de dominação, reproduzindo as idéias e os valores da classe do-
minante, etambém eram vítimas desta dominação.
Os dois últimos capítulos constituem o lado positivo do pensamento
deFlorentino de Carvalho. Senos capítulos anteriores encontramos suas
criticas, nos dois últimos encontramos suas propostas de construção so-
cia1. No quinto capítulo temos configurado e caracterizado seu
anarquismo e sua concepção de Anarquia; Num primeiro momento, ao
delinear osprós eos contras do sindicalismo, definiu-se como um "anar-
quista sem adjetivos" ao mesmo tempo emque advogava a participação
de anarquistas dentro dos sindicatos enquanto estes estivessem abertos
às idéias ácratas, Por outro lado, esta sua autodeânição não impede deo
incluirmos dentro de umas das correntes do anarquismo. Assim, basea-
do em suas propostas de nova sociedade e em sua concepção de
anarquismo e da anarquia, o vemos como um anarco-comunista.
O anarquismo éumadoutrina social constituída por duasteses opostas
e complementares: a tese negativa e a positiva. A primeira corresponde
aos ímpetos de destruição dos fundamentos da sociedade capitalista. A
segunda corresponde ao lado das propostas de construção de uma nova
sociedade, o lado que delineia as linhas gerais de uma sociedade ácrata
epropõe os meios para seu alcance. O anarquismo éum processo revo-
/
185
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I
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lucionário, iniciado muito tempo antes do que se convencionou denomi-
nar revolução e que é, defato, occroamentc do processo revolucionário.
Todo o processo revolucionário começa com os trabalhos de organiza-
ção e mobilização.dos trabalhadores e dos excluídos da sociedade capi-
talista, se estendendo por um longo período, ultrapassando os dias de
violência revolucionária. Inexiste em' seu pensamento qualquer tipo de
teleclogismo, evidenciando a existência de transfcrmaçõea sociais mes-
1110 depois de extinta a estrutura capitalista da sociedade vigente. Por ou-
tro lado a Anarquia éumestado de sociedade onde os ideais deliberdade;
igualdade, fratemidade ejustiça social tomam-se realidade concreta.
No sexto capítulo vemos como Florentino de Carvalho delineou as
linhas gerais de uma sociedade libertária. Iniciamos, porém, conhecen-
do as condições necessárias para a concretização desta sociedade. A
socialização do poder com a conseqüente extinção do Estado e de suas
instituições militares, repressoras, legisladoras entre outras; a socializa-
ção dos instrumentos deprodução com o fim dos privilégios; o estabele-
cimento de contratos livremente constituídos com o fim das leis estatais
são condições primeiras ao estabelecimento deuma sociedade ácrata. A
liberdade constitui um elemento fundamental para esta nova sociedade.
Entretanto liberdade como é definida no pensamento anarquista étotal-
mente oposta àliberdade no pensamento liberal. Enquanto neste último
a liberdade constitui garantia dos privilégios, no pensamento de Flo-
rentino de Carvalho a liberdade só existe dentro dos fatores de sociabi-
lidade, inexistindo quando a integridade do ser humano é aviltada. Por
outro lado ela secontrapõe as leis estatais, estabelecendo-se em:sua ple-
nitudena medida em que as leis do Estado e suas instituições sejam
liquidadas. A solidariedade entre os explorados seria uma garantia mai-
or ao estabelecimento de uma sociedade libertária.
Florentino de Carvalho tinha muito em conta o poder de comoção
dos protestos emanifestações públicas organizadas pelos trabalhadores.
Para ele tais manifestações além de excelentes mecanismos de forma-
ção da opinião pública, constituíam em exercícios de liberdade e solida-
riedade entre os trabalhadores. A ação eapropaganda ácrata deveria ser
constantes. Isto provocaria o estabelecimento de grupos revolucionári-
os, fomentando na sociedade o espírito de revolta necessário à subver-
são dosvalores, das instituições burguesas eda ordemsocial estabelecida.
Estes grupos eramvistos por Florentino como sendo, defato, um esboço
da sociedade libertária.
186
·c•••-"1' , .
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A violência revolucionária também foi considerada uma ferramenta
fundamental na transformação da sociedade capitalista para uma socie-
dade igualitária. Florentino de Carvalho não era adepto intransigente da
violência. Muito pelo contrário, desejava o estabelecimento da harmo-
nia e da paz entre os seres humanos, com a aniquilação das causas das
desigualdades, das injustiças e dos privilégios. Entretanto a violência
era uma fatalidade que qualquer movimento de emancipação sócial ti-
nha que considerar. Baseava-se na história para expressar esta opinião.
A história registra terem sido os movimento sociais de cunho Iibertário
impiedosamente dizimados pelos donos dos poderes político e econô-
mico. Emtoda história todos os governos utilizaram-se da força armada
para fazer soçobrar os impetos de libertação levados a efeito pelas ca-
madas oprimidas. Além disso, compreendia a existência das forças ar-
madas, dos cárceres e detoda a magistratura como instrumento visando
unicamente a manutenção das desigualdades sociais. Era inconcebível a
existência de governos sem as forças armadas, pois de outro modo os
poderosos não conseguiriam impor suas vontades aos recalcitrantes.
A educação constituía em elemento indispensável na fundamenta-
ção da sociedade libertária. Assim, ao lado do combate da educação .
. oficial, baseada em prejuízos cívicos e religiosos, vemos esboçada as
linhas gerais do pensamento educacional de Florentino de Carvalho.
Enquanto a educação oficial era autoritária e dogmática, reproduzindo
valores da sociedade burguesa, uma educaçãolibertária deveria incenti-
var os alunos a serem livres; enquanto a educação oficial inculcava, a
educação libertária deveria conduzir os alunos à reflexão e à análise a
partir da observação e da experimentação; enquanto a educação oficial
fazia pouco caso da relação do ensino coma vida propriamente dita, a
educação libertária deveria sepautar pela coerência entre o dito eo vivi-
do pelos professores,priorizando o ensino pelo exemplo, o ensino mo-
ral; enquanto a educação oficial semeava o civismo e o nacionalismo,
conseqüentemente a guerra, a educação libertária deveria cultivar a
fraternidade entre os povos; enquanto a educação oficial constitui um
poderoso susteritáculo da sociedade desigual, a educação libertária de-
veria assumir o posicionamento delutar emfavor da emancipação soci-
al, abandonando as idéias de uma educação neutra, pois seria impossí-
vel manter-se neutro diante da situação social envolvente.
Apesar disto, falta conhecer aspectos mais detalhados de sua con-
cepção pedagógica, pois o que foi possível levantar tem caráter genéri-
187
co. Assim cabe questionar: Como Florentino de Carvalho concebeu a
educação de adultos e de crianças? Os métodos seriam específicos ou o
mesmo para ambos? Qual o papel do professor dentro do processo
educativo?Como ele se colocou diante dos métodos e da concepção de
educação criados edifundidos na Espanha por Francisco Ferrer yGuardia
e Ricardo Mella? E diante do pensamento educativo dos clássicos do
anarquismo? Estas questões permanecem. Esperamos de estudos futu-
ros 'asrespostas a estas eoutras perguntas.
A imprensa operaria constitui importantíssimo instrumento na luta
pela emancipação da humanidade. Sua presença é fundamental na luta
delibertação social. Isto porque através dela cultiva-se a solidariedade e
a união dos oprimidos. Por outro lado a imprensa operaria consiste na
garantia de visibilidade social dos trabalhadores evoz própria diante da
imprensa burguesa. Como vimos, Florentino de Carvalho criticou ve-
ementemente a imprensa burguesa por ser ela um elemento poderoso a
favor dos dominadores da sociedade, Assim, para se contrapor àim-
prensa burguesa, era necessário que os trabalhadores possuíssem seus
próprios meios de comunicação. Além do mais a imprensa operaria se
constitui numa excelente ferramenta educati va. Através dela pode-se
elevar sobremaneira o nível intelectual dos trabalhadores, sem esquecer
do fato de que ela proporciona momentos insubstituíveis do exercício
de solidariedade, união e ação direta dos trabalhadores.
Em relação à organização dos insubmissos, Florentino de Carvalho
.entendia ser ela imprescindível pata o estabelecimento da sociedade
Iibertária. O sindicato deveria ser instrumentos de divulgação epratica
cios princípios libertários, constituindo-se em elemento ativo na educa-
ção da população trabalhadora, incentivando e cultivando a solidarieda-
de e a união entre todos os oprimidos. Também neste caso) algumas
questões relativas àorganização do movimento operário não são claras,
uma vez que não existia nos artigos e liV1'OS do autor. referência mais
precisas acerca de C Ol. 110 seria uma organização dós trabalhadores fora
da configuração sindicalista. Como o movimento operário escaparia às
armadilhas do sindicalismo? De que maneira o movimento dos traba-
lhadores evitaria o corporativismo, o imediatismo e a luta meramente
econôr..ica? São problemas que permanecem, esperando novas pesqui-
sas.
Diante desta exposição breve de seu pensamento é oportuno
questionar por que alguém como Florentino de Carvalho, C0111 uma
188
inquestionável envergadura teórica e insubstituível contribuição prática
dentro domovimento operário eanarquista, tenha sido relegado ao total
esquecimento? Isto se deve, acredito, principalmente ao fato deter sido
ele membro da ala dos vencidos da história. A onda de ditaduras que,
como cogumelos no inverno, surgiram pela América do Sul, também
inundou o Brasil silenciando a voz dos vencidos, eclipsando suas histó-
rias e tentando apagar definitivamente sua memória e os vestígios de
suas existências. Por outro lado o predonúnio de alguns marxismos no
movimento dos trabalhadores também contribuiu para estetípo de "es-
quecimento", uma vez que o movimento dos trabalhadores das primei-
ras décadas deste século fora definido como "fase infantil", "embrioná-
ria" do movimento operário. Florentino de Carvalho faz parte de urna
linhagem de esquecidos e de lutadores anônimos pela causa da emanci-
pação do ser humano. Outros existiram que nada, ou muito pouco, se
conhece desua contribuição teórica esua inserção na luta social empre--
endida pelos trabalhadores em suas diversas ações. Este é o caso de
Rodolpho Felippe (1898-7) eManoel Bomfim (1868-1932). O primeiro
era anarquista eteve significativa participação no movimento dos traba-
lhadores. Participou inclusive com Florentino de Carvalho da direção
de alguns jornais operários. O segundo era médico eprofessor sergipa-
no, tendo produzido reflexões sobre a América Latina, sobre o Brasil
entre outras. Alves Filho (101) expõe a importância da contribuição teó-
rica deManoel Bomfim eas causas do esquecimento. Contudo o resgate
das contribuições deteóricos emilitantes quea intolerância eopedantis-
mo sectário eclipsaram pode ser, emalguns casos, senão totalmente pelo
menos parcialmente, recuperados.
Este livro procura ser uma arrancada para um futuro conhecimento
mais completo do pensamento de Florentino de Carvalho. Havendo fi
possibilidade de encontrar seus outros livros e outros artigos dejornais
e revistas proletárias, será possível conhecer seus trabalhos mais madu-
ros. Por hora o material aqui representado é suficiente para o conheci-
mento de seu potencial, de sua contribuição deixada ao movimento dos
. trabalhadores 110 Brasil e ao pensamento sociopolítico brasileiro
Florentino de Carvalho discorreu sobre várias correntes do pensa-
mento social, analisando diversos representantes das mais variadas ten-
dências do pensamento social, refletindo sobre seus postulados, princí-
pios e idéias gerais. Dentre estes pensadores destacamos alguns: o
positi vismo de Augusto C0111te; Spencer; filósofos como Bergson,
189
Nietzsche, Gustavo Le Bon, Haeckel, Litré, Nicolai, Kant, Sócrates;
antropólogos defensores daidéia do criminoso nato; Karl Marx, Frederic
Engels e os mais significativos representantes do socialismo estatista
como Lenin, Trostki, Bukharin, Kautski etantos outros. Enfim, produ-
. ziu um conhecimento bem fundamentado. Suas reflexões' em tomo do
problema educacional conjugado a seus esforços junto à fundação de
escolas e de universidades para os trabalhadores, são testemunhos cla-
ros e inquestionáveis de sua particular contribuição no âmbito pedagó-
gico.
Em relação ao movimento operário, podemos destacar sua contri-
buição teórica eprática através de seus artigos, visando orientar os tra-
balhadores nas questões polêmicas e superar os impasses. Esforçou-se
emfazer os trabalhadores visualizarem ideais amplos de libertação so-
cial, escapando da luta meramente econômica. O economicismo
invibializa qualquer projeto de libertação social. Desta maneira eviden-
ciou o caráter necessariamente abrangente da luta social, considerando
não apenas as dificuldades dotrabalhador mas, sobretudo, os problemas
do ser humano numa sociedade opressora, desigual e injusta. Eviden-
ciou a dominação enão a exploração ainda que esta consistia num enor-
me obstáculo à emancipação social, devendo ser extinta através da abo-
lição deuma organização social fundamentada na lógica do domínio. O
fim da dominação daria fim à exploração.
Seus artigos elivros tinham uma evidente repercussão na sociedade.
Estes, juntamente comsuas freqüentes viagens depropaganda, comsuas
iniciativas rias escolas e de sua inserção no movimento dos trabalhado-
res e no movimento anarquista através das comissões, dos centros, das
alianças e demais grupos, exerciam uma considerável influência no con-
junto da sociedade. Algumas vezes era incompreendido por companhei-
ros etrabalhadores (96). As reflexões por ele desenvolvidas quanto ao
sindicalismo demonstraram boa fundamentação uma vez que os sindi-
catos setomaram, de uma maneira cada vez mais explícita, colunas de
sustentação da lógica do capital. Ainda mais por terem sido elaboradas
quando do surgimento do sindicalismo no Brasil.
Em relação aos clássicos do anarquismo, Florentino de Carvalho
demonstrava uma atitude de reconhecimento ante as contribuições e
desprendimento de cada semtomar-se tributário de nenhum deles. O
leitor encontra na bibliografia livros queinformam quanto às diferenças
entre as propostas de reorganização social. Um livro bastante acessível
190
I
que dá umpanorama destas propostas éo deLuízetto (156). Ao definir-
se "anarquista sem adjetivos" assumia uma posição prudente de 11.ão
fazer propaganda, prática eanálise social combase apenas emuma es-
cola sociológica ou filosófica. A realidade social tem caráter essencial-
mente plural e dinâmico, sendo infrutífero adotar atitudes e reflexões
fundamentadas na rigidez eno monolitismo. Sua reflexão eação partia do
pressuposto dequecada sociedadepossui uma realidade específica, sendo
impossível ageneralização demétodos dereflexão eestratégias deação.
Desta maneira temos emFlorentino de Carvalho uma posição essencial-
mente plural emrelação aos clássicos, aproveitando detodos eles vários
aspectos de seus pensamentos ao mesmo tempo quenão fugia de criticá-
los. Entretanto, isto não significa que ele não tivesse nenhuma aproxi-
mação maior com alguma das correntes ariarquistas. Com certeza seu
pensamento, suas propostas e suas críticas o colocam no campo dos
chamados anarco-comunistas ao.lado dePiort Kropotkin eEliseé Reclus.
Vejamos, por exemplo, o que ele diz sobre o socialismo libertário:
"Das Exposições feitas não se infere que o pensamento social se encontre
acéfalo, A filosofia moderna formada deprincípios eminentes, criados pelo fulgu-
rante espírito dos imortais filósofos, artistas epoetas que fizeram as grandes épo-
cas da História, elaborou a doutrina das reivindicações sociais e.da harmonia na
vida de relação. Essa doutrina brilha 11l1S obras célebres de Tolstói, egrégio hu-
maniata; nas lucubrações de Proudhon, o monstro da lógica; nos postulados de
Bakunin, o maior revolucionário do século XIX; naenciclopédia de Reclus, o
geógrafo imortaldo seutempo; na escoladeKropotkin, omestre da sociologiamo-
derna; essa doutrinaflui do gênio de Stirner,deIbsen, Tucker, Mackay, Barret, Ma-
latesta, Parsons e outrospreclaros artífices eapóstolos da ideologialibertária" (95).
No capítulo XXIV do seu segundo livro, Florentino de Carvalho
expõe os fundamentos das propostas sociais contidas naquela obra, vi-
sando superar os problemas oriundos deuma situação social catastrófi-
ca. Assim, encontramos um vasto leque de escolas sociais, movimentos
sociais, artísticos e filosóficos como fontes de inspiração. Não enfatiza
uma escola ou tendência do movimento social, mas inspira-se emtodas,
aproveitando alguns aspectos, deixando outros de lado, mantendo uma
postura aberta a novos conhecimentos, a novas realidades e, assim, a
novas necessidades de ação. Seu anarquismo sem adjetivos também ti-
nha o efeito de negar a luta eminentemente econômica.
Sua concepção do ser humano tinha em conta as múltiplas necessi-
dades inerentes ànatureza humana enão apenas às fisiológicas. Dai ter
191
evidenciado as nec~sidades intelectuais, as afetivas, as lúdicas e, so-
bretudo, as necessidades morais. Seguramente seu pensamento social o
faz um grande expoente e referencial na história do pensamento social
brasileiro. Mais que isto, ele ocupa posição ao lado dos chamados anar-
quistas contemporâneos numa prova cabal da atualidade de seu pensa-
mento, das suas reflexões, críticas, comentários eposições doutrinárias.
Uma abordagem anarquista de problemas sociais dos nossos tempos
o leitor poderá verificar numa vasta gama de publicações de que nos
beneficiamos atualmente. Dentre estas indico alguns nomes: Murray
Bookchin (115), representante daecologia social, junto aNoam Chomsky,
Hebert Read e outros, reflete sobre questões atuais; Angel J . Cappelletti
(117) trata do anarquismo em suas características negativistas, suas crí-
ticas, suas propostas euma reflexão sobre os mais representativos nome
das escolas ácratas e, por fim, a trilogia deAbraham Guillén (134, 13S e
136) que toma como principal enfoque a questão de uma economia
libertária e autogestionária, Todos estes publicados em espanhol. Em
português temos Maurice J oyeux (145 e 146) onde no primeiro discute
a autogestão eno segundo expõe suas reflexões sobre diversas questões
dos nossos dias; Pierre Besnard (114) reflete sobre a relação dos sindi-
catos com a revolução social; Roberto Freire & J oão da Mata (127)
expõe os fundamentos, os postulados e especificidades da Somaterapia
e, por fim, Silvio Gallo (130 e 131) a quem nos referimos quando trata-
mos da educação. O deslocamento teórico do eixo da exploração para o
da dominação, tratando da emancipação humana e não do operário; o
enfoque dado à reconciliação do homem com a natureza; os prognósti-
cos quanto ao Estado socialista; sua rejeição a todo teleologismo, inclu-
sive de alguns anarquistas; sua concepção de Anarquia como sendo, ao
mesmo tempo, um porvir e U111 fato presente no cotidiano dos que a
vivem; seu pluralisrno no método de reflexão e de ação social, enfim,
estas eoutras características de seu pensamento o situam entre ospensa-
dores e militantes anarquistas contemporâneos.
Apesar da estimativa, modesta, de que a presente pesquisa contem-
pla apenas um quinto da produção teórica de Florentino de Carvalho,
toma-se evidente que a contribuição deixada por ele sobre o pensamen-
to Social produzido emterras brasileiras épor demais significativa, Além
do mais, há que considerar ter seu pensamento amadurecido através de
outras produções teóricas não encontradas. Desta maneira, seu pensa-
mento merece ser conhecido e suas críticas estudadas e analisadas, pois,
192
excetuando-se até certo ponto, algumas criticas de conjuntura, toda a
sua crítica da estrutura da sociedade brasileira emundial, da "sifilização"
ocidental, como diria o anarquista Roberto das Neves, colaborador do
jornal anarquista A,Plebe, permanecem atuais. De outro lado, suas pro-
postas de uma organização social fundamentada no respeito às
especificidades, na liberdade, na solidariedade, no fim das dominações,
de todos os arbítrios e enganos, também merecem a análise e reflexão
sóbria e serena dos estudiosos das ciências sociais e detodos os interes-
sados nos problemas sociais. Ainda. mais quando do atual desencanto e
desesperança que graça entre a população em'geral e entre grande parte
dos estudiosos da questão social. Seu pensamento é um manifesto à ca-
pacidade transfonnadora do ser humano; é um ataque ferino a todas as
dominações, quer espi rituais, quer temporais, quer filosóficas, quer cien-
tíficas; éuma provocação eum convite à ação, enfim, éuma ode à liber-
dade solidária, aos sublimes Ímpetos dejustiça e deigualdade social.
193
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